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SUMÁRIO APRESENTAÇÃO MÓDULO I – A HISTÓRIA DA FILOSOFIA 1 1.1 O nascimento da Filosofia e os problemas em sua origem As teses contrárias a respeito da origem da Filosofia MÓDULO II – O MITO E A RAZÃO 1 1.1 2 3 4 O mito da caverna e o mito da reminiscência A perspectiva dos “civilizados” e o mito entre os “primitivos” Mito e Religião Funções do mito e as concepções atuais Mito e Filosofia Leitura Complementar : Texto 1 – Mito e Literatura Leitura Complementar : Texto 2 – Cidade dos deuses, cidade dos homens MÓDULO III – CULTURA E HUMANIZAÇAO 1 2 A Antropologia Filosófica Dimensão Social e Dimensão Simbólica Atividades de Aprendizagem MÓDULO IV – O HOMEM TENTANDO ENTENDER A REALIDADE: O conhecimento mítico, o conhecimento filosófico, o conhecimento científico e conhecimento teológico 1 1.1 2 3 O conhecimento A origem do conhecimento Sujeito e objeto Tipos de conhecimento Leitura Complementar : Texto 3 – As verdades primeiras MÓDULO V – A ÉTICA: Noções Introdutórias e Filosóficas 1 1.1 1.2 2 3 3.1 4 4.1 Ética e moral Ética atemporal e Ética temporal Vida moral e vida intelectual A Existência Ética O Agente Moral Os valores éticos e os meios morais A Filosofia Moral Natureza humana e dever MÓDULO VI – A NATUREZA HUMANA 1 2 Natureza e Natureza Humana A Liberdade

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A Moralidade Os atos humanos As Faculdades superiores: Inteligência, vontade e amorosidade Leitura Complementar : Texto 4 – Bens e Deveres Leitura Complementar : Texto 5 – A Natureza Humana Atividades de Aprendizagem MÓDULO VII – FILOSOFIA POLÍTICA E TRABALHO

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A Filosofia Política O poder, a política e o cotidiano REFERÊNCIAS

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Apresentação

Olá estudante! Seja bem-vindo (a) Você está iniciando mais uma disciplina na modalidade a distância. Trata-se da disciplina de Filosofia e Ética, que é de suma importância ao desenvolvimento da reflexão filosófica, isto é, ao desenvolvimento da crítica constante e de atitudes criteriosas no uso das palavras, enfatizando as questões éticas. O objetivo principal é proporcionar à você, uma formação empreendedora, fundamentada na conduta ética e na visão crítica, assim como contribuir para um aprendizado significativo durante toda sua trajetória na busca do conhecimento, permitindo o exercício de práticas essenciais à atividade científica, tais como: a busca, o registro e o uso do saber já acumulado e disponível para fins próprios de construção do conhecimento. Vou apresentar conceitos e teorias que envolvem a temática da disciplina, organizando os conteúdos em sete módulos e da seguinte forma: Módulo I: Nesse primeiro módulo, vou trabalhar a História da Filosofia através da abordagem de sua origem, problemas e entraves identificados em seu surgimento e as teses contrárias em relação à sua origem. Módulo II: No segundo módulo vou tratar sobre o Mito e a Razão abordando: O mito da caverna e o mito da reminiscência, a perspectiva dos “civilizados” e o mito entre os “primitivos”, mito e religião, as funções do mito e as concepções atuais, mito e filosofia. Módulo III: Nesse módulo vou trabalhar a Cultura e a Humanização através do estudo da Antropologia Filosófica e da Dimensão Social e Dimensão Simbólica . Módulo IV: O quarto módulo refere-se à reflexão sobre o processo de entendimento da realidade pelo homem. Módulo V: Nesse módulo vou abordar as noções introdutórias e filosóficas da ética, apresentando os seguintes conteúdos: Ética e moral, ética atemporal e ética temporal, vida moral e vida intelectual, a existência ética, o agente moral, os valores éticos e os meios morais, a filosofia moral e natureza humana e dever. Módulo VI: Esse módulo refere-se à reflexão sobre a natureza humana, a partir do estudo dos atos humanos, da liberdade, moralidade e das faculdades superiores do homem. Módulo VII: Nesse último módulo vou trabalhar a Filosofia Política, fazendo referência à política, ao poder, ao cotidiano e a filosofia. Seja bem-vindo (a) ao processo pela busca do saber, onde você é um sujeito ativo e o professor um mediador, e que juntos, possamos estabelecer uma cumplicidade valorizada

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por curiosidade, motivação e exigência, propiciando a finalidade principal do ensino universitário: o exercício da crítica na pesquisa, no ensino e na extensão. Lembro que todas as orientações para a formatação e uniformização dos trabalhos acadêmicos estão apresentadas e seguem os critérios da ABNT- Associação Brasileira de Normas Técnicas, através das Normas Brasileiras Regulamentadoras - NBR s 6.023 (Referências) e 10.520 (Citações), como aqueles definidos pelo UNICEUMA.

Bons estudos! Professor Conteudista Francisco Chaves

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MÓDULO I – A HISTÓRIA DA FILOSOFIA
Objetivos
Neste módulo você terá a oportunidade de iniciar no processo do conhecimento filosófico a partir da compreensão contemporânea, resgatando o pensamento humano em seus diferentes aspectos e épocas.

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1 O nascimento da Filosofia e os problemas em sua origem

A uma forma nova e inusitada de pensar, os gregos deram o nome de Filosofia. Essa palavra, atribuída à Pitágoras de Samos, é composta de filo (vinda de philía, amizade) e sofia (sophía, sabedoria), philosophía: amizade pela sabedoria, amor ao saber. Pitágoras de Samos teria dito ser a sabedoria plena, um privilégio dos deuses, cabendo aos homens apenas desejá-la, amá-la, ser seus amantes ou seus amigos, isto é, filósofos (sophós, sábio). Na verdade, a palavra sophía carrega uma ambivalência que se tornará bastante perceptível no decorrer da história da philosophía, pois tanto pode significar o saber, entendido como um conjunto sistemático e racional de conhecimentos sobre o mundo e os homens ( sophós é aquele que conhece verdadeiramente a realidade), como pode significar sabedoria, entendida como a disposição humana para uma vida virtuosa e feliz (assim sophós é aquele que sabe bem conduzir sua vida ou praticar o bem). A grandeza dos filósofos antigos (ou dos inventores da filosofia) esteve em reunir esses dois sentidos e estabelecer uma articulação interna necessária entre ambos, concebendo o saber como condição da sabedoria e a sabedoria como forma superior do saber. Afirmam os historiadores da filosofia que esta possui data e local de nascimento: nasceu entre o final do século VII a.C. e o início do século VI a.C., nas colônias gregas da Ásia Menor – particularmente as que formavam a Jônia –, e o primeiro filósofo, Tales, era natural de Mileto. Além da data e do local, a filosofia também possui, ao nascer, um conteúdo preciso: é uma cosmologia, isto é, uma explicação racional sobre a origem e a ordem do mundo, o cosmos. O quadro abaixo apresenta como tradicionalmente, os historiadores distinguem os grandes períodos na história da sociedade grega: Corresponde ao período entre 1200 e 800 a.C., narrada por Homero na Ilíada e na Odisséia), quando os aqueus, os jônios e os dórios conquistaram e dominaram Micenas, Tróia e Creta, trazendo para as costas do mar Egeu um regime patriarcal e pastoril, passando no decorrer de quatrocentos anos à economia doméstica e agrícola e em seguida, à economia urbana e comercial, quando começaram a visitar países distantes.

Período homérico

Também conhecida por período dos Sete Sábios. Corresponde aos finais do século VIII a.C. e ao início do século V a.C. Nesse período os agrupamentos constroem cidadelas ou fortalezas para sua defesa e à sua volta, começam a surgir as cidades como sedes dos governos das comunidades (surgem Atenas, Período da Tebas, Megara, no continente; Esparta e Corinto no Peloponeso; Mileto e Éfeso na Ásia Menor; Mitilene, Samos e Cálcis nas ilhas do mar Egeu). Grécia Passando da monarquia agrária à oligarquia urbana, economicamente arcaica predominam o artesanato e o comércio (portanto, a economia monetária), os artífices e comerciantes se sobrepõem aos aristocratas fundiários e os gregos se espalham por toda a orla do Mediterrâneo. Refere-se ao século IV e V a.C., quando, com as reformas de Clístenes, primeiro, e mais tarde, com o governo de Péricles, Atenas se coloca a frente de toda a Grécia: desenvolve-se a democracia e surge o império marítmo ateniense. O porto de Atenas, o Pireu, é o centro para onde convergem produtos e idéias do mundo inteiro e de onde partem, em todas as direções, produtos e idéias, no apogeu da vida urbana, intelectual e artística. Acirram-se

Período clássico

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as rivalidades entre as cidades e tem início a Guerra do Peloponeso, que trará o fim do império ateniense e das cidades-estado gregas. Quando a Grécia passa para o domínio da Macedônia, com Filipe e Alexandre, e depois, para o domínio de Roma, integrando-se num mercado mundial e tornando-se colônia de um império universal, numa sociedade organizada regionalmente, agrupada por corporações profissioriais e desenvolvendo um pensamento cosmopolita que se abre para o Oriente, ao mesmo tempo que passa a influenciá-lo intelectual e artisticamente. Seguindo essa periodização, a filosofia nasce na Grécia arcaica, alcança seu apogeu na Grécia clássica e se expande para além das fronteiras gregas no período helenístico. Ao todo, seis séculos. E se considerarmos o helenismo como período de uma filosofia greco-romana e de doutrinas cristãs (a patrística), a filosofia antiga se estende até o século VI d.C. Ao todo, dez séculos.

Período helmístíco

Vale ressaltar que na origem da Filosofia identifica-se alguns problemas. Considera-se que a partir do século XII a.C., hordas dóricas invadem as regiões ocupadas pelos aqueus, que em migração forçada, deslocam-se para a Ásia Menor, fundam colônias marítimas, desmantelam a sociedade ali existente (agrária, patriarcal e tribal), tornando-se potência de navegação, comércio e artesanato, em intenso contato com outros povos do Oriente. Com o surgimento da moeda, a invenção do calendário, o desenvolvimento de novas técnicas e com o aparecimento de uma rica classe de comerciantes que rivaliza e supera a antiga aristocracia agrária, a sociedade grega torna-se citadina ou urbana e a cultura vai se laicizando, as formulações mítico-religiosas vão cedendo o passo à explicações racionais, cujo nome será, afinal, filosofia. Historiadores da filosofia como o inglês John Burnet e o alemão Wilheim Windelband, afirmam que a prosperidade econômica das colônias gregas da Magna Grécia "foi a base sem a qual não poderiam realizar-se os mais altos esforços intelectuais” e a filosofia é o mais alto desses esforços. O filósofo Aristóteles afirmará que a riqueza e a existência dos escravos liberaram os gregos da fadiga e da pena do trabalho e dos negócios, dando-lhes o ócio indispensável para a vida contemplativa, isto é, para a filosofia. Windelband menciona, ainda, que os dois efeitos opostos do desenvolvimento comercial das colônias gregas da Ásia Menor, tiveram, no entanto, o mesmo resultado de estimular a filosofia. De um lado, diz ele, a opulência e o poderio dos comerciantes tiraram o poder das mãos da aristocracia agrária, mas os levaram à compensar a falta de sangue nobre com o aumento de seu próprio prestígio, patrocinando as artes, construindo bibliotecas e promovendo a vida intelectual; de outro, aristocratas descontentes, como Heráclito de Éfeso, retiraram-se da vida pública e passaram a dedicar-se à vida contemplativa. Assim, “a mudança de situação favoreceu, de modos variados e opostos, o desenvolvimento e a difusão dos interesses intelectuais, o que só foi possível, evidentemente, porque esse povo, mais do que qualquer outro, estava impulsionado pelo amor à ciência e à arte" (Windelband, 1955, p. 26). Nesse sentido, observa-se que com essa afirmação, Windelband já enfatiza um problema que merece ser examinado: a imagem dos gregos como um povo especial, único, capaz de dar origem à filosofia e à ciência, isto é, aquilo que se convencionou chamar de pensamento ocidental.

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Para ilustrar esse problema – sem pretensão de esgotá-lo – sugere-se uma análise a partir de três pares de oposições que têm dividido as opiniões dos historiadores da filosofia: 1) A filosofia é a expressão mais acabada do "milagre grego" ou o resultado de empréstimos, influências e heranças orientais? 2) A filosofia é a expressão mais acabada do "gênio helênico" enquanto harmonia, simplicidade e luminosidade ou uma das manifestações do dilaceramento trágico, da desmedida e do fundo obscuro do espírito grego? 3) A filosofia é o advento da razão inteiramente liberada do mito e da religião ou é a continuação (racionalizada e laica) das formulações mitico-religiosas?

Prezado estudante, reflita sobre essas questões, lembrando que apesar da Filosofia possuir data e local de nascimento, suas origens não são um fato simples, e sim objeto de controvérsias (o que, aliás, é muito próprio da Filosofia). A causa da controvérsia é, justamente, o conteúdo da Filosofia nascente, isto é, a cosmologia.

1.1 As teses contrárias a respeito da origem da Filosofia Na origem da Filosofia identifica-se duas teses contrárias que são: Milagre Grego x Orientalismo e Harmonia Luminosa x Dilaceramento Desmedido.  Milagre Grego x Orientalismo O primeiro "historiador" da Filosofia de que se tem notícia, Diógenes de Laércio (na verdade, o primeiro doxógrafo, isto é, o que reuniu e publicou as opiniões dos filósofos antigos), pode ser considerado o principal responsável pela oposição entre “milagre grego” e “origem oriental” da Filosoflia. De fato, logo na abertura de sua obra, escreve:
Freqüentemente, pretendeu-se que a filosofia havia nascido no estrangeiro, Arístóteles (Livro da magia) e Socião (Filiações) dizem que os Magos, na Pérsia, os Caldeus, na Babilônia e na Assíria, os Gimnosofistas, na Índia, e uma gente chamada Druidas e Senoteus, entre os Celtas e Cauleses, foram seus criadores [...] Por seu turno, os egípcios pretendem que Hefesto, o criador dos princípios da filosofia ensinados pelos padres e profetas, era filho do Nilo [...]. Porém, ao atribuir aos estrangeiros as próprias invenções dos gregos, todos esses autores pecam por ignorância, pois os gregos deram nascimento não só à filosofia, mas a todo o gênero humano. Registramos: em Atenas nasceu Museu e em Tebas, Linos. Museu, filho de Eumolpos, escreveu, segundo a tradição, a primeira teogonia e o primeiro tratado da esfera. Foi o primeiro a afirmar que tudo nasce do uno e retorna ao uno [...] Por sua vez, Linos era filho de Hermes e da musa Urânia. Compôs uma cosmogonia e descreveu o curso do Sol e da Lua e a geração dos animais e das plantas [...] Sim, floram os gregos que criaram a filosofia, cujo nome, aliás, não soa estrangeiro (Diógenes de Laércio, p. 31).

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Diógenes registra, portanto, a opinião dos que escreveram, antes dele e que consideraram a filosofia uma criação oriental ou, pelo menos, uma retomada de idéias nascidas “no estrangeiro”, pois, como escreveu Heródoto, os gregos “viajam para comercializar e para conhecer”. Todavia, Diógenes de Laércio logo se insurge contra isso e afirma a absoluta originalidade grega da Filosofia, indo mais longe ao atribuir aos gregos a origem de toda a humanidade. Para um grego, os homens se dividiam em dois grandes gêneros: os estrangeiros, de língua e costumes rudes, isto é, os bárbaros, e os gregos, de língua e costumes polidos e cultivados, isto é, os homens propriamente ditos. Por isso Diógenes atribui aos gregos não só a origem da Filosofia, mas também a da humanidade. Mais importante do que esse exagero etnocêntrico é o fato de Diógenes expor as duas opiniões contrárias sobre a origem da Filosofia. Na verdade, a opinião “orientalista” desenvolveu-se em dois momentos diferentes. No primeiro, durante a Grécia clássica, historiadores, como Heródoto, e filósofos, como Platão e Aristóteles, reconheceram a dívida intelectual dos gregos para com os “bárbaros” (isto é, o Oriente). No segundo, durante o helenismo (quando as cidades gregas perderam a liberdade e a independência sob os impérios de Alexandre, primeiro, e de Roma, depois), a idéia de uma diferença entre os gregos e os “outros” tendeu a diminuir. A predominância da tese orientalista aumentou significativamente com os contatos entre a filosofia helenista e os pensadores judaicos - como Filo de Alexandria - e os primeiros padres cristãos intelectualizados - como Eusébio de Cesaréia e Clemente de Alexandria. A idéia de continuidade entre Oriente e Ocidente (entre Moisés e Platão, para os pensadores judaicos; entre os filósofos estóicos e Jesus, para os pensadores cristãos) era fonte de legitimação e de prestigío para seu próprio pensamento. A tese orientalista ganha força durante a Renascença, quando filósofos ligados à correntes místicas e ocultistas afirmam a origem egípcia de todos os saberes e práticas, baseando tal afirmação no fato de Platão ter considerado os gregos como crianças, se comparada a sabedoria deles com a dos antigos sacerdotes egípcios. A tese orientalista não é absurda. Como observa o historiador da filosofia Rodolfo Mondolfo, as grandes civilizações orientais mantiveram relações com as civilizações préhelênicas (egéia, cretense, minóica), e estas, embora derrotadas pelos aqueus e pelos dórios, determinaram formas e conteúdos da vida social, da religião, dos mitos, das artes e técnicas dos gregos homéricos e arcaicos. Heródoto, Aristóteles, Eudemo e Estrabão afirmaram que a geometria e a astronomia eram cultivadas pelos caldeus, egípcios e fenícios; Platão acreditava que o mais antigo e elevado saber encontrava-se com o velho sacerdote do Egito. A tese orientalista não é descabida. Mas não pelo motivo que seus defensores apresentam - isto é, a plena continuidade entre as formulações orientais e a filosofia grega - e sim por causa de alguns fatos relevantes. Por um lado, porque havia um começo de ciência no Egito e na Babilônia - matemática e medicina no primeiro, astrologia na segunda - e foram inegáveis os contatos econômicos e políticos entre ambos e a Grécia. Por outro, como observa o historiador da Filosofia Abel Rey, ao analisar o porquê dos poetas e sábios gregos antigos exaltarem a sabedoria oriental. Abel Rey, destaca dois motivos principais: 1) Porque o mito da Idade de Ouro (narrado pelo poeta romano) Ovídio, pela boca do filósofo Pitágoras de Samos), tempo de felicidade e de comunhão entre os homens e os deuses, de plenitude de conhecimento e de imortalidade, localizava no Oriente esse momento feliz (basta ler, na Bíblia, o livro da Gênese para ver que os hebreus localizavam o jardim do Éden no Oriente, e os navegadores cristãos do período das descobertas marítimas, como Colombo, julgaram ter chegado o Paraíso, ao imaginar que a América era o “Oriente”), de forma que seria natural a Filosofia ali ter nascido;

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2) Pelo medo de chocar os contemporâneos com idéias novas e transgressoras - o que levava naturalmente a dizê-las nascidas no Oriente para dar-lhes maior antigüidade, pois os “tempos antigos” são sempre considerados os tempos de maior sabedoria, de maior proximidade entre os homens e as divindades, e o antigo é sempre uma autoridade legítima pelo simples fato de ser antigo ou tradição. A tese orientalista é reforçada pelo fato de que as religiões e os mitos orientais apresentam pelo menos seis concepções que reaparecem nas religiões e nos mitos gregos e posteriormente, na filosofia: 1) a idéia de uma unidade universal divina que cria dentro de si mesma todos os seres; 2) a cosmogonia (kosmogonia, gênese ou origem do mundo) como passagem da unidade primordial caótica e indiferenciada à diferenciação de todos os seres e como passagem das trevas à luz; 3) a cosmogonia como um processo de geração e diferenciação dos seres, seja pela força intrínseca do princípio originário, seja pela intervenção de um espírito inteligente sobre a matéria sem forma, seja por meio da luta entre forças opostas (luz e treva, caos e ordem, vida e morte, amor e ódio); 4) a idéia de uma conexão ou “simpatia” ligando todos os seres; 5) a idéia de uma lei ou de uma necessidade governando a geração, transformação e corrupção de todos os seres, num tempo cíclico; 6) a idéia de um dualismo entre o corpo mortal e a alma imortal que precisa ser moralmente purificada para liberar-se do corpo e gozar a felicidade perene. Quando lemos os poemas de Homero e Hesíodo podemos perceber que tais concepções foram incorporadas pelos gregos, mas com uma novidade já anunciadora de futuras diferenças entre pensamento grego e oriental: a epopéia de Homero e a teogonia (theogonía) de Hesíodo procuram diminuir a distância entre deuses e homens, também diminuem o papel de forças monstruosas e irracionais atuando no mundo, humanizam os deuses e racionalizam os mitos de origem. A tese contrária, defendida por Diógenes, afirma o caráter absolutamente original da filosofia como um feito exclusivo dos gregos e leva à idéia de um “milagre grego”. Milagre por sua originalidade, pois nada nas culturas vizinhas e contemporâneas se assemelha à ela. Milagre porque esse feito é súbito e repentino, não podendo ser explicado por relações de causa e efeito que se desenrolam no tempo. Milagre porque é imprevisível e decorrente exclusivamente do “gênio helênico". O termo “gênio”, tradução do termo latino genius, possui dois sentidos principais interligados. Genius é um espírito tutelar ou protetor de um grupo de mesmo nascimento, que o guia e orienta. Porém, de genius vem a palavra ingenium, que significa a índole, o caráter, o temperamento, a disposição natural de alguém, determinando seus comportamentos, suas idéias e sentimentos. Assim, o “gênio” se refere tanto ao espírito comum de um grupo como ao caráter de um indivíduo. Pouco a pouco, sobretudo nos séculos XVII e XVIII, os dois sentidos do termo começaram a ser fundidos e “gênio” passou a designar o caráter de povos e nações, sendo empregado para salientar as particularidades de um grupo social e político a partir de certas características que ele teria por natureza, características presentes em todos os seus membros por terem todos a mesma origem. A tese do “gênio helênico”, que se inicia com os classicistas do século XVIII, como Goethe, e prossegue com os românticos (que passarão a designar o “gênio” com a expressão do espírito de um povo), cristaliza-se no século XIX e chega aos nossos dias com o filósofo Martin Heidegger, para o qual (como para Diógenes de Laércio) a “filosofia fala grego”. A expressão “milagre grego” significa não só que, de modo absolutamente original e espontâneo, os gregos criaram a filosofia e a ciência gregas, mas, sobretudo, criaram para o Ocidente a Filosofia e a Ciência, isto é, modos de pensar e de intervir sobre a realidade que permaneceram, como um legado imperecível para toda a posteridade ocidental.

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Temos, assim, duas opiniões exclusivistas e exageradas (e não isentas de preconceitos raciais e racistas): a orientalista, que faz da Filosofia simples uma continuação de um passado oriental; e a ocidentalista, que faz da Filosofia, uma invenção nova e própria do Ocidente. Os estudos de crítica histórica, arqueologia, antropologia, filologia e lingüística, desenvolvidos desde o final do século XIX e durante o século XX, puseram limites aos exageros, preconceitos e equívocos das duas opiniões. A esse respeito, escreve Rodolfo Mondolfo, em um ensaio significativamente denominado de “O gênio helênico” :
Investigações arqueológicas extremamente intensas e fecundas nos levaram a conhecimentos inesperados acerca das civilizações anteriores à grega: do Oriente asiático e egípcio e do próprio território helênico. Foi-nos revelada a civilização préhelênica egéia ou minóico-micênica (Creta, Micenas, Tirinto etc.) com suas ligações profundas e relações prolongadas com a egípcia e as asiáticas; foram-nos revelados novos e abundantes pormenores a respeito das fases de desenvolvimento, as múltiplas manifestações, a extensa difusão de influências de civilizações já parcialmente conhecidas (egípcia, babilônio-assíria, fenícia, iraniana, lídia, frígia etc.) e foram-nos reveladas outras até então desconhecidas (suméria, hitita, de Mitanni etc.). Graças à esses conhecimentos, foram aclaradas as conexões diretas e indiretas do nascimento e desenvolvimento da cultura dos gregos com essas civilizações antecessoras [...] A intensificação ulterior das pesquisas arqueológicas ainda há de fornecer-nos novos elementos para uma reconstituição mais adequada da dívida multiforme da civilização grega para com as orientais, no domínio da vida espiritual e no da prática: religião, mitologia, artes arquitetônicas e figurativas, música, poesia, técnica e ciência (Mondolfo, 1960, p. 9).

De fato, os estudos históricos, filológicos, literários, lingüísticos e antropológicos mostraram que mitos, cultos religiosos, música e instrumentos musicais, dança, poesia, utensílios, forma da habitação, sistemas de parentesco e de organização dos clãs gregos são resultado de contatos intensos dos gregos com as culturas mais adiantadas do Oriente, que estimularam a criação grega. Mais importante do que tudo foi a descoberta de que aquele que influenciou perenemente a cultura grega, seu “pai fundador”, Homero (nome coletivo de vários poetas anônimos ou nome daquele que recolheu e reuniu toda a produção míticopoética antiga), viveu entre o final da época micênica e o início do desenvolvimento histórico do mundo grego, levando para este último a contribuição de todas as civilizações que antecederam e instigaram o surgimento da grega. Nada nos impede de falar em um “milagre grego”, se entendermos por essa expressão: 1) A mutação qualitativa produzida sobre a herança recebida de outras civilizações. Assim, os egípcios produziram conhecimentos geométricos voltados para a agrimensura e para a construção de edifícios, e os fenícios desenvolveram uma aritmética que era uma contabilidade comercial, mas os gregos produziram uma ciência matemática, um corpo lógico e sistemático de conhecimentos racionais, fundados em princípios gerais que se traduziram numa geometria, numa aritmética e numa música (entendida como conhecimento racional da harmonia ou proporção dos sons). Os babilônios e os caldeus produziram conhecimentos sobre os céus e os meteoros - ligados às necessidades práticas da astrologia mas os gregos transformaram tais conhecimentos num corpo sistemático e lógico, criando a astronomia, conhecimento racional dos movimentos dos astros. E assim por diante, isto é, transformaram a poesia, as artes plásticas, o teatro, a religião das culturas orientais, assim como transformaram as antigas cosmogonias em uma cosmologia ou explicação racional da origem do mundo.

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2) A mutação qualitativa produzida sobre as formas de organização social e política herdadas e que permitiu aos gregos aquilo que o historiador Moses Finley lhes atribui como um dos traços mais marcantes e inovadores: a invenção da política. Não que outras sociedades desconhecessem os fenômenos do governo e do poder, porém os trataram sempre como domínio pessoal de um chefe excepcional, geralmente considerado de origem divina ou enviado por um Deus, concebendo o poder como algo de tipo mágico-religioso e resultado da vontade absoluta de um homem ou de um grupo de homens para decidir por todos os outros sem consultá-los. Em contrapartida, os gregos criaram a política (palavra que vem do grego pólis – a cidade), isto é, inventaram práticas pelas quais as decisões eram tomadas a partir de discussões e debates públicos, sendo votadas e revogadas também por voto em assembléia, estabeleceram instituições próprias do espaço público (tribunais, eleições), criaram a lei como expressão da vontade social e, sobretudo, separaram o poder civil-militar e a autoridade religiosa, assim como separaram a autoridade do chefe de família (autoridade privada e não política) e a autoridade das instituições de governo (autoridade pública e propriamente política). Em suma, foram responsáveis pela criação da instância da lei e da justiça como expressão da vida coletiva e não como imposição da vontade de um só ou de um grupo; e pela laicização do poder, desvinculando-o da autoridade mágico-sacerdotal. 3) A mutação qualitativa imposta à herança recebida, tanto pela invenção do que chamamos pensamento racional sistemático baseado em princípios universais (filosofia e ciência) como pela invenção da vida social como comunidade humana que toma seu próprio destino nas mãos (política), de sorte que os gregos inventaram o que, hoje, chamamos de cultura: um ideal da comunidade e do indivíduo como reciprocamente responsáveis um pelo outro, como norma e modelo um para o outro, como vínculo interno e essencial entre ambos, tendo como centro a idéia do homem como ser racional e político, capaz de agir segundo fins e valores que constituem uma certa idéia do que seja a excelência humana - a areté - para a qual a comunidade o educa e o forma integralmente. Como formação, a cultura grega é, no dizer de Werner Jaeger, uma paideía que incute em seus membros a areté de sua sociedade para que se reconheçam como parte dela, responsáveis por ela e realizadores dos valores dela. Em resumo, não há “milagre grego” e há “milagre grego”. Não há, se a expressão for tomada com o sentido de fato surpreendente e inexplicável, desprovido das condições históricas e materiais que permitiram o surgimento da filosofia grega. Há, se a expressão for tomada como interpretação das mudanças qualitativas profundas e decisivas que, em condições históricas determinadas, os gregos impuseram à herança que receberam. Como diz Abel Rey, “o milagre grego é milagre não por suas origens, mas por suas conseqüências prodigiosas”: filosofia, ciência, política, artes, técnicas, cultura.  Harmonia Luminosa x Dilaceramento Desmedido O classicismo tardio (final do século XVIII e início do século XIX), do qual Goethe é um dos expoentes, retoma a idéia do “milagre grego” por uma outra perspectiva: o nascimento da filosofia é um milagre da Grécia porque a própria Grécia é um milagre irrepetível e para sempre perdido, pois perdeu-se o “gênio helênico”. Mas o que era esse gênio? Por que somente ele foi capaz de criar a filosofia e todas as outras expressões de sua civilização? Rodolfo Mondolfo assim resume a visão classicista sobre os gregos:
Liberdade e claridade de espírito; harmoniosa unidade de conteúdo e forma, de elemento sensível e intelectual, de natureza e espírito, plástica serenidade e sentimento de medida e proporção; sadio e puro objetivismo. Características próprias de todas as criações e expressões do gênio grego [...] o refletiriam

13 essencialmente, mostrando o timbre genuíno que as diferencia de qualquer outra grande cultura, antiga ou moderna. Por conseguinte, a filosofia e toda a cultura grega diferem da cultura oriental (a cujo espírito faltaria o sentido de liberdade perante a natureza), da cristã (em cuja base repousa o irreconciliável dualismo da natureza e do espírito), da muçulmana (a qual falta o sentido de medida, da forma, da elevação ideal da natureza) e da moderna (porque nesta a reconquista da unidade é supressão dificíl de um dualismo consciente e desenvolvido ao excesso) (Mondolfo, 1960, p. 15).

Em suma, a idealização dos gregos pelo classicismo leva a imputar-lhes qualidades inexistentes em outras culturas ou perdidas pelo Ocidente cristão e moderno. Os gregos seriam o povo da luz, da unidade entre matéria e espírito, sensibilidade e intelecto, natureza e humano; seriam, o povo da pura objetividade racional, da relação orgânica e perfeita entre forma e conteúdo; seriam o povo da simplicidade racional, capaz de descobrir e operar com um pequeno número de princípios racionais, sistemáticos e universais que regeriam a totalidade do real (as coisas, as plantas, os animais, os homens, os astros e os deuses). Por isso criaram a filosofia, expressão mais alta da racionalidade, da simplicidade e da objetividade. Os gregos seriam o povo da harmonia entre os contrários, da capacidade para impor medida, limite ou freio às paixões humanas, submetendo-as às normas da virtude. Nada disso poderia ser encontrado no Oriente e nos muçulmanos, isto é, naquilo que os classicistas identificam como poder tirânico. E a perfeição da unidade grega também se perdeu com o dualismo cristão (separação entre terra e céu, corpo e alma, homem e Deus, razão e paixão, sensibilidade e intelecto). Nada disso poderia ser resgatado pelos modernos, frutos da civilização cristã dualista. Os gregos, e somente eles, poderiam criar e desenvolver a filosofia uma vez que foram os únicos capazes de alcançar a unidade orgânica e a totalidade perfeita que define e regula a realidade. A essa imagem da harmonia orgânica e da totalidade perfeita contrapõem-se as perspectivas de Rousseau (século XVIII) e de Nietzsche (século XIX). Rousseau afirma que a originalidade e a grandeza dos gregos vieram do antagonismo de suas cidades - no interior de cada uma delas e entre elas -, como também aconteceu durante o florescimento das cidades italianas da Renascença. Não foram a paz e a harmonia que moveram os gregos, mas as lutas pela liberdade política contra despotismos e tiranias. Não a harmonia, e sim o conflito, a disputa, a rivalidade teriam estimulado as criações sociais, políticas, artísticas e intelectuais gregas. Para Nietzsche, os gregos criaram a filosofia porque não teriam temido o dilaceramento, a dualidade, o lado cruel e sombrio dos humanos e da natureza. Longe de serem os homens da moderação ou da medida, seriam as criaturas da desmedida - hýbris - e da luta sem tréguas entre os contrários - do agón, palavra grega que significa: batalha, luta, jogo, disputa interminável entre os opostos. Os gregos, antes de inventarem a filosofia, inventaram o que daria origem a ela: a tragédia. Mas o que é a tragédia? Culto religioso (só depois transformado em obra teatral), a tragédia narra a morte e o renascimento do deus Dionisos e, ao narrá-los, expõe o princípio bárbaro, cruel, desmedido, de embriaguez e pessimismo, de lutas subterrâneas entre poderes titânicos na batalha do sofrimento para fazer sair da indiferenciação caótica da matéria a individuação organizada das formas. O princípio que guia a tragédia é a desumanidade e a barbárie que fecundam o espírito grego, dando-lhe seu momento ou princípio dionisíaco. Ao lado do princípio dionisíaco, oferecido pela tragédia, os gregos, afirma Nietzsche, inventam um outro princípio, contrário e oposto ao primeiro, responsável pelo surgimento da filosofia: o princípio da luminosidade, da forma perfeita, da individuação, da medida ou moderação e da serenidade, figurado por Apolo, deus da luz e da palavra, patrono da filosofia. Esse princípio é denominado, por Nietzsche, de apolíneo.

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A antítese insuperável entre o dionisíaco e o apolíneo governaria o espírito dos gregos, somente por terem sido conquistadores cruéis, escreve Nietzsche, senhores de escravos, dominadores de outros povos, animados pelo espírito agonístico da luta, da disputa e do jogo, movidos pelo impulso das desarmonias e da desmedida, divididos em suas cidades em dezenas de facções contrárias e sempre em guerra, puderam colocar como ideal inalcançável o apolíneo: a estatuária, a poesia lírica e épica e a filosofia exprimiriam a busca desse ideal de luz e serenidade, contrário à realidade brutal e sangrenta da vida grega. A filosofia, para Nietzsche, começa e termina com os filósofos pré-socráticos, isto é, com todos os filósofos que fizeram da dualidade entre o dionisíaco e o apolíneo o núcleo da própria natureza e da realidade. Sócrates, Platão e Aristóteles, na opinião de Nietzsche, preocupados apenas com o apolíneo, teriam destruído a filosofia, que era a luta interminável entre o dionisíaco (a fúria dos contrários e da desordem) e o apolíneo (o desejo de harmonia, luz e ordem). Para comprovar essa tese, Nietzsche menciona alguns fragmentos dos filósofos pré-socráticos:  Heráclito de Éfeso, afirmando que a “ guerra é o pai e o rei de todas as coisas”, que o mundo é luta e harmonia dos contrários e que se a predição de Homero (o fim das discórdias) se realizasse, o mundo acabaria;  Anaximandro de Mileto, afirmando que “as coisas voltam àquilo de onde saíram, como está prescrito, porque devem reparar a injustiça da separação”. Para o princípio dionisíaco, a individuação dos seres ou sua diferenciação rompe a unidade originária e isso é uma injustiça, uma culpa a ser expiada pelo retorno de todas as coisas ou formas individuais à unidade primordial indiferenciada. A partir de Sócrates, diz Nietzsche, morre a filosofia e nasce o racionalismo, isto é, um meio covarde usado pelos fracos para dominar os fortes. A razão, colocada como princípio único do real e da conduta humana, serve para domesticar o espírito trágico e agonístico dos gregos, afirmando que o bem, o belo e o justo são a concórdia e o acordo entre os homens e entre os seres. O predomínio exclusivista do apolíneo é, para Nietzsche, a agonia e morte do espírito grego e da filosofia. As duas imagens dos gregos, elaboradas por Goethe e por Nietzsche, sem dúvida, são imagens abstratas, isto é, idealizadas ao extremo. A primeira, oculta os conflitos e contradições da sociedade grega, enquanto que a segunda justifica o poderio cruel dos mais fortes sobre os mais fracos. Vale ressaltar que ambas desconsideram as condições históricas da formação da sociedade e da política gregas e do nascimento da filosofia sob tais condições. Além disso, como observaram inúmeros historiadores, dizer “os gregos” como se fossem “o grego” é um contra-senso histórico. Nada mais heterogêneo, múltiplo, cheio de diferenças e disparidades do que os habitantes da Hélade, na variedade de suas cidades e colônias, submetidas à vagas incessantes de invasões, imigrações e migrações, e contatos múltiplos com outros povos, seja pelo comércio, seja pela guerra. Nada mais diferente entre si, do ponto de vista cultural e político, do que Corinto (voltada para os prazeres), Tebas (voltada para o comércio e o luxo), Esparta (ascética e militarizada) e Atenas (democrática, intelectualizada e artística). Nada mais diversificado, em cada cidade-estado, do que suas classes sociais, com distinções cronológicas, étnicas, de parentesco, entre gregos e estrangeiros, pré-helenos e invasores.

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MÓDULO II – O MITO E A RAZÃO
Objetivos
Neste módulo você estudará as relações entre o mito e a razão a partir da análise e reflexão dos principais autores e teorias filosóficas.

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1 O mito da caverna e o mito da reminiscência Marilena Chauí, no livro “Convite à Filosofia”, ressalta o Mito da Caverna, narrado por Platão no livro “VII da República”, como a alegoria da teoria do conhecimento e da paidéia platônicas. Imagine uma caverna separada do mundo externo por um alto muro, cuja entrada permite a passagem da luz exterior. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali vivem acorrentados, sem poder mover a cabeça para a entrada, nem locomoverse, forçados a olhar apenas a parede do fundo, e sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do Sol. Acima do muro, uma réstia de luz exterior ilumina o espaço habitado pelos prisioneiros, fazendo com que as coisas que se passam no mundo exterior sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Por trás do muro, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras de homens, mulheres e animais, cujas sombras são projetadas na parede da caverna. Os prisioneiros julgam que essas sombras são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e falam. Um dos prisioneiros, tomado pela curiosidade, decide fugir da caverna. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões e escala o muro. Sai da caverna, e no primeiro instante fica totalmente cego pela luminosidade do Sol, com a qual seus olhos não estão acostumados; pouco a pouco, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, deslumbra-se, tem a felicidade de finalmente, ver as próprias coisas, descobrindo que, em sua prisão, via apenas sombras. Deseja ficar longe da caverna e só voltará para ela se for obrigado, para contar o que viu e libertar os demais. Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era íngreme e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que habituar-se à luz. De volta à caverna, o prisioneiro será desajeitado, não saberá mover-se nem falar de forma clara com os outros, não será compreendido por eles e correrá o risco de ser morto pelos que jamais abandonaram a caverna. A caverna, diz Platão, é o mundo sensível onde vivemos. A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (as idéias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis que tomamos pelas verdadeiras. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e faz a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz plena do Ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna é o diálogo filosófico. Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma, descrito na Carta Sétima, para produzir a “faísca” do conhecimento verdadeiro pela “fricção” dos modos de conhecimento. Conhecer é um ato de libertação e de iluminação. Considera-se que o Mito da Caverna apresenta a dialética como movimento ascendente de libertação do nosso olhar que nos libera da cegueira para vermos a luz das idéias. Mas descreve também o retorno do prisioneiro para ensinar aos que permaneceram na caverna como sair dela. Há, assim, dois movimentos: o de ascensão (a dialética ascendente), que vai da imagem à crença ou opinião, desta para a matemática e desta para a intuição intelectual e à ciência; e o de descensão (a dialética descendente), que consiste em praticar com outros, o trabalho para subir até a essência e a idéia. Aquele que contemplou as idéias no mundo inteligível desce aos que ainda não as contemplaram para ensinar-lhes o caminho. Por isso, desde Mênon, Platão afirmou que não é possível ensinar o que são as coisas, mas apenas ensinar a procurá-las.

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Os olhos foram feitos para ver; a alma, para conhecer. Os primeiros estão destinados à luz solar; a segunda, à fulguração da idéia. A dialética é a técnica liberadora dos olhos do espírito. O relato da subida e da descida expõe a paidéia como dupla violência necessária: a ascensão é difícil, dolorosa, quase insuportável; o retorno à caverna, uma imposição terrível à alma libertada, agora forçada a abandonar a luz e a felicidade. A dialética, como toda técnica, é uma atividade exercida contra uma passividade, um esforço (pónos) para concretizar seu fim forçando um ser à realizar sua própria natureza. No Mito, a dialética faz a alma ver sua própria essência (eîdos) - conhecer - vendo as essências (idéia) - o objeto do conhecimento -, descobrindo seu parentesco com elas. A violência é libertadora porque desliga a alma do corpo, forçando-a à abandonar o sensível pelo inteligível. O Mito da Caverna ensina algo mais, afirma o filósofo alemão Martin Heidegger, num ensaio intitulado “A doutrina de Platão sobre a verdade”, que interpreta o Mito como exposição platônica do conceito da verdade. Deste ensaio, destaca-se alguns aspectos: 1) O Mito da Caverna estabelece uma relação interna ou intrínseca entre a paidéia e a alétheia: a filosofia é educação ou pedagogia para a verdade. O Mito propõe uma analogia entre os olhos do corpo e os olhos do espírito quando passam da obscuridade à luz: assim como os primeiros ficam ofuscados pela luminosidade do Sol, assim também o espírito sofre um ofuscamento no primeiro contato com a luz da idéia do Bem que ilumina o mundo das idéias. A trajetória do prisioneiro descreve a essência do homem (um ser dotado de corpo e alma) e sua destinação verdadeira (o conhecimento das idéias). Esta destinação é seu destino: o homem está destinado à razão e à verdade. Por que, então, a maioria permanece prisioneira da caverna? Porque a alma não recebe a paidéia adequada à destinação humana. Assim, a paidéia, alegoricamente desbrita no mito, é “uma conversão no olhar”, isto é, a mudança na direção de nosso pensamento, que, deixando de olhar as sombras (pensar sobre as coisas sensíveis), passa a olhar as coisas verdadeiras (pensar nas idéias). E, observa Heidegger, não foi por acaso que Platão escolheu a palavra eîdos para designar as idéias ou formas inteligíveis, pois eîdos significa: figura e forma visíveis. O eîdos é o que o olho do espírito, educado, torna-se capaz de ver; 2) O Mito da Caverna recupera o antigo sentido da alétheia como nãoesquecimento e não-ocultamento da realidade. Alétheia é o que foi arrancado do esquecimento e do ocultamento, fazendo-se visível para o espírito, embora invisível para o corpo. A verdade é uma visão, visão da idéia, do que está plenamente visível para a inteligência e, por ser visão plena, a verdade é evidência; 3) A idéia do Bem, correspondente ao Sol, não só ilumina todas as outras, isto é, torna todas as outras visíveis para o olho do espírito, mas é também a idéia suprema, tanto porque é a visibilidade plena quanto porque é a causa da visibilidade de todo o mundo inteligível. A filosofia, conhecimento da verdade, é conhecimento da idéia do Bem, princípio incondicionado de todas as essências. Assim como o Sol permite aos olhos ver, o Bem permite à alma conhecer. A luz é a meditação entre aquele que conhece e aquilo que se conhece; 4) O Mito possui ainda um outro sentido pelo qual compreendemos por que Platão é o inventor da razão ocidental. De fato, na origem, a palavra alétheia é uma palavra negativa (a – létheia), significando o não esquecido, não escondido. Com o Mito da Caverna, porém, a verdade, tornando-se evidência ou visibilidade plena e total, faz com que a alétheia perca o antigo sentido negativo e ganhe um sentido positivo ou afirmativo. Dessa forma, em vez de dizer que o verdadeiro é o não escondido, Platão sugere que seja dito que a verdade é o plenamente visível para o espírito. A verdade deixa de ser o próprio Ser manifestando-se para tornar-se a razão que, pelo olhar intelectual, faz da idéia a essência inteiramente vista e

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contemplada, sem sombras. A verdade se transfere do Ser para o conhecimento total e pleno da idéia do Bem. Com isto, escreve Heidegger, a verdade dependerá, de agora em diante, do olhar correto, isto é, do olhar que olha na direção certa, do olhar exato e rigoroso. Exatidão, rigor, correção são as qualidades e propriedades da razão, no Ocidente. A verdade e a razão são theorías, contemplação das idéias quando aprendemos a dirigir o intelecto na direção certa, isto é, para o conhecimento das essências das coisas. No entanto, considera-se que, contrariamente ao que diz Heidegger, o antigo sentido da alétheia não desapareceu inteiramente. É preciso explicar como, vivendo no mundo sensível, alguns homens sentem atração pelo mundo inteligível. Como, nunca tendo tido contato com o mundo das idéias e jamais tendo contemplado as idéias, algumas almas as procuram? De onde vem o desejo de sair da caverna? Mais do que isto, como os que sempre viveram na caverna podem supor que exista um mundo fora dela, se os grilhões e os altos muros não deixam ver nada externo? Para decifrar este enigma, Platão narra o Mito de Er, também conhecido como o Mito da Reminiscência, da anamnese, e que por sua vez, é inseparável da antiga idéia da alétheia (o não-esquecido). O pastor Er, da Panfília, é conduzido pela deusa até o Reino dos Mortos, para onde, segundo a tradição grega, sempre foram conduzidos os poetas e adivinhos. Ele encontra as almas dos mortos serenamente contemplando as idéias. Devendo reencarnar-se, as almas serão levadas para escolher a nova vida que terão na Terra. São livres para escolher a nova vida terrena que desejam viver. Após a escolha, são conduzidas por uma planície onde correm as águas do rio Léthe (esquecimento). As almas que escolheram uma vida de poder, riqueza, glória, fama ou vida de prazeres, bebem água em grande quantidade, o que as faz esquecer as idéias que contemplaram. As almas dos que escolhem a sabedoria quase não bebem das águas e por isso, na vida terrena, poderão lembrar-se das idéias que contemplaram e alcançar, nesta vida, o conhecimento verdadeiro. Desejarão a verdade, serão atraídas por ela, sentirão amor pelo conhecimento, porque, vagamente, lembram-se de que já a viram e já a tiveram. Por isso, no Mênon, quando o jovem escravo analfabeto se torna capaz, orientado pelas perguntas de Sócrates, de demonstrar o Teorema de Pitágoras, Platão faz Sócrates dizer que conhecer é lembrar, e o filósofo dialético, como o médico que faz o paciente lembrar-se, suscita nos outros a lembrança do verdadeiro. Se já não tivéssemos estado diante da verdade, não só não poderíamos desejá-la como, chegando diante dela, não saberíamos identificá-la e reconhecêla. Os intérpretes se dividem muito acerca do Mito de Er. Seria o mito uma alegoria para dizer que os homens nascem dotados de razão? Que as idéias são inatas ao seu espírito? Que a verdade não pode vir da sensação, mas apenas do pensamento? Ou seria o Mito de Er uma primeira apresentação da teoria platônica da imortalidade da alma que será exposta no Fédon? Para uma maior compreensão dessas questões, deve-se considerar dois pontos:  Em primeiro lugar, que Platão, através de dois mitos - o da caverna e o de Er recupera a antiga noção da alétheia (o não-esquecido), ainda que a transforme profundamente. Para um pensamento que toma a verdade como evidência, o verdadeiro é a retidão do olhar espiritual, isto é, a correspondência entre a idéia e a sua representação intelectual. Em segundo lugar, que Platão precisa recorrer aos mitos para explicar por que, o homem sem possuir conhecimentos verdadeiros, deseja esse conhecimento. Precisa explicar que, de algum modo, esse sujeito já tem alguma noção (ainda que muito vaga) da verdade e que é ela que o empurra para a dialética. Independentemente da discussão sobre o que Platão realmente pensava dos mitos

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que narrou, considera-se que possuem a função de afirmar que o homem nasce do verdadeiro e é destinado à ele. 1.1 A perspectiva dos “civilizados” e o mito entre os “primitivos” É importante considerar, inicialmente, que geralmente, quando se estuda os povos tribais, há o risco do exotismo e da comparação depreciativa, ou seja, do etnocentrismo. Se, por um lado, as pessoas se encantam e se surpreendem com os estranhos rituais e convicções míticas dessas comunidades, por outro, não relutam em considerá-las inferiores e atrasadas. Daí a tendência de classificá-las como a sociedade “sem escrita”, “sem Estado”, "sem comércio", "sem história”. Segundo o etnólogo francês Pierre Clastres, quando se explica esses povos pelo que lhes falta, tendo como ponto de referência a sociedade, deixa-se de compreender a sua realidade, o que, em muitos casos, acaba por justificar a atitude paternalista e missionária de “levar o progresso, a cultura e a verdadeira fé" ao povo “atrasado”. A tendência de ver esses grupos como inferiores decorre da tradição da colonização que a justifica. Quando os navegantes europeus iniciam a expansão ultramarina nos séculos XV e XVI, na procura de novos caminhos para as Índias, dão o nome de índios aos nativos americanos, que supunham pertecerem às terras do Oriente. Para evitar esse equívoco, muitas vezes o termo “índio” é substituído por indígena, que etimologicamente significa “nascido em casa”. Usam-se também denominações como povos, nações ou etnias “primitivas” ou “sem-escrita”, embora reconhecendo-se a inadequação dessas expressões. Nesse sentido, o antropólogo Claude Lévi-Strauss prefere colocar aspas na palavra “primitivo”, quando a ela recorre, na falta de outra. Mesmo assim, é preciso não esquecer de que esses povos devem ser vistos como diferentes, e não inferiores. De acordo com LéviStrauss, o homem perdeu a maioria de suas capacidades, como por exemplo, as percepções sensoriais. De acordo com o antropólogo, basta lembrar como os indígenas tem a vista e o ouvido treinados para perceber o que não mais consegue-se ver ou ouvir e como acumulam conhecimentos admiráveis sobre as plantas e os animais. Entre os povos indígenas, habitantes das terras brasileiras, encontra-se várias versões sobre a origem do dia e da noite. Um desses relatos míticos é o seguinte: ao transportarem um coco, algumas pessoas ouvem sair de dentro dele ruídos estranhos e não resistem à tentação de abrí-lo, apesar de recomendações contrárias. Deixam escapulir então a escuridão da noite. Por piedade divina, a claridade lhes é devolvida pela Aurora, porém nunca mais haveria só claridade, como antes, mas alternância do dia e da noite. De forma parecida, os gregos dos tempos homéricos narram o mito de Pandora, a primeira mulher. Em uma das muitas versões desse mito, Pandora é enviada por Zeus a fim de punir o titã Prometeu, que roubara o fogo dos céus para dá-lo aos seres humanos. Pandora leva consigo uma caixa, que abre por curiosidade, deixando escapar todos os males que nos afligem, mas consegue fechá-la a tempo de reter a esperança, única forma de suportarmos as dores e os sofrimentos da vida. Nos dois relatos, percebe-se situações aparentemente diversas, mas com fortes semelhanças, porque ambos contam a origem de algo: entre os indígenas, como surgiram o dia e a noite e entre os gregos, a origem dos males. Uma leitura apressada poderia levar à entender o mito como uma maneira fantasiosa de explicar a realidade, ainda não justificada pela razão. Sob esse enfoque, os mitos seriam lendas, fábulas, crendices e portanto uma forma menor de conhecimento, prestes a ser superado por explicações mais racionais. No entanto, o mito é mais complexo e mais rico do que supõe essa visão redutora. Mesmo porque, não é somente o “primitivo” que elabora

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mitos, considerando que a consciência mítica, persiste em todos os tempos e culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender a realidade. Foi importante a contribuição dos antropófogos que, a partir do início do século XX, estabeleceram contatos diretos com comunidades das ilhas do Pacífico, da África e do interior do Brasil. Suas pesquisas de campo mostram que o mito vivo é muito mais expressivo e que não se restringe à meras lendas, desligadas do ambiente que as fez surgir. Como processo de compreensão da realidade, o mito não é lenda, e sim verdade. Quando se pensa em verdade, é comum fazer referência à coerência lógica, garantida pelo rigor da argumentação e pela apresentação de provas. A verdade do mito, porém, é intuída, e, como tal, não necessita de comprovações, porque o critério de adesão do mito é a crença, a fé. O mito é portanto uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam nas emoções e na afetividade. Nas comunidades tribais em que predominaria a consciência mítica, a experiência individual não se separa da experiência da comunidade, mas se faz por meio dela, o que não significa a ausência de qualquer princípio de individuação, mas sim que o equilíbrio pessoal depende da preponderância do coletivo. Como diz Gusdorf, “a primeira consciência pessoal está, portanto, presa na massa comunitária e nela submergida. Mas esta consciência dependente e relativa não é uma ausência de consciência e sim uma consciência em situação, extrínseca e não intrínseca, onde a individualidade aparece como um nó no tecido complexo das relações sociais. E o eu se afirma pelos outros, isto é, ele não é pessoa, mas personagem. Essa forma de coletivismo determina a adaptação sem crítica do indivíduo às normas da tradição. A consciência mítica é ingênua (no sentido de não-crítica), desprovida de problematização e supõe a aceitação tácita dos mitos e das prescrições dos rituais. A adesão ao mito é feita pela fé, pela crença. No universo cuja consciência é coletiva, a transgressão da norma ultrapassa quem a violou. Por isso a trangressão do tabu – proibição sempre envolta em clima de temor e sobrenaturalidade – estigmatiza a família, os amigos e, às vezes, toda a tribo. Daí os “ritos de purificação” e os rituais do “bode expiatório”, nos quais o pecado é transferido para um animal. 2 Mito e Religião Marilena Chauí no livro “Convite à Filosofia” afirma que no desenvolvimento da cultura humana, não consegue-se fixar um ponto onde termina o mito e a religião começa, considerando que em todo curso de sua história, a religião permanece indissoluvelmente ligada à elementos míticos. Distingue-se três fases na formação dos conceitos de Deuses. A primeira fase é caracterizada pela multiplicidade de deuses momentâneos, simples excitações instantâneas, às quais é atribuído o valor de divindade, e cuja fonte é a emoção subjetiva, marcada ainda pelo medo. Esses deuses não representam nem forças da natureza nem aspectos especiais da vida humana. Às vezes, trata-se de um conteúdo mental como a Alegria, a Decisão, a Inteligência; outras, de um objeto ou de qualquer realidade percebida como tendo sido repentinamente enviada do Céu. Na segunda fase, há a descoberta do sentimento da individualidade do divino, dos elementos pessoais do sagrado. Essa etapa coincide com a maior conimplexidade da ação humana, caracterizada pela divisão do trabalho. Assim toda atividade particular ganha o seu deus funcional, que vigia cada momento, do trabalho. A regulação da atividade encontra sua medida na própria periodicidade dos ciclos naturais (as estações do ano, o plantio, a colheita etc.). E cada ato, por mais especializado que seja, adquire significado religioso: o ser humano recorre à divindades que deveriam protegê-lo a cada momento. Entre os gregos, por exemplo,

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Dernméter preside o ritmo das estações e das colheitas; Afrodite regula o amor; e assim por diante. Ao mesmo tempo, o caráter existencial do mito conduz à prática de rituais mágicos, e a fé na magia constitui o despertar da confiança em si mesmo. O ser humano não se sente mais à mercê das forças naturais e sobrenaturais e desempenha o seu papel, convicto de que no mundo natural tudo depende, em parte, dos seus atos. Como exemplo, cita-se os ritos mágicos da fertilidade, sem os quais se acreditava que nem a terra frutificaria nem a mulher conceberia. Convém lembrar que a magia tanto pode ser usada para o bem como para o mal, uma vez que não se encontra ainda ligada à princípios éticos. A terceira fase caracteriza-se pelo aparecimento do deus pessoal, fruto do processo histórico que inclui o desenvolvimento lingüístico. Surge quando o nome do deus funcional, derivado do círculo de atividade especial que lhe deu origem, perde a ligação com essa atividade e torna-se um nome próprio, constituindo um novo ser que continua a se desenvolver segundo suas próprias leis. O deus pessoal caracteriza-se por ser capaz de sofrer e agir como as pessoas. Atua de maneiras diversas e seus múltiplos nomes expressam diferentes aspectos de sua natureza, seu poder e sua eficiência. Como exemplo, a deusa grega Palas Atena, filha de Zeus, surge inicialmente como deusa guerreira, protetora dos exércitos. Aos poucos, sua proteção se amplia para o trabalho em geral e, mais tarde, especificamente para a atividade intelectual e as artes. Ao mesmo tempo, é a deusa da sabedoria, a protetora da cidade de Atenas. Como desenvolvimento da terceira fase surgem as religiões monoteístas, que privilegiam as forças morais do indivíduo e se concentram no problema do bem e do mal. A interpretação da natureza adquire um caráter mais racional, e não predominantemente emocional, como acontecia nas fases anteriores. O divino deixa também de ser concebido pelos poderes mágicos e passa a ser enfocado pelo poder de justiça. Diz Cassirer: “O sentido ético substituiu e suplantou o sentido mágico. A vida inteira do homem se converte numa luta constante pelo amor da justiça”. A partir de então, o indivíduo entra em contato com o sagrado, como árbitro do seu próprio destino. Ao dar a sua livre adesão ao bem, torna-se aliado da divindade, praticando o dever religioso. 3 Funções do mito e as concepções atuais

Embora o mito também seja uma forma de compreensão da realidade, sua função é, primordialmente, de acomodar e tranqüilizar o ser humano em um mundo assustador. Entre as comunidades “primitivas”, o mito se constitui um discurso de tal força que se estende por todas as dependências da realidade vivida, não se restringe apenas ao âmbito do sagrado (ou seja, da relação entre a pessoa e o divino), mas permeia todos os campos da atividade humana. Por isso, os modelos de construção mítica do real são de natureza sobrenatural, isto é, recorre-se aos deuses para compreender a origem e natureza dos fatos, como indicam os exemplos a seguir:  a origem da técnica: como os seres humanos eram mais fracos do que os animais, o titã Prometeu roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos humanos, tornando-os mais fortes, porque hábeis;  a natureza dos instrumentos: certos utensílios são objeto de culto, como a enxada ou o anzol, a lança ou a espada;

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 a origem da agricuItura: segundo o mito indígena tupi, a mandioca, alimento básico da tribo, nasce do túmulo de uma criança chamada Mandi; no mito grego, Perséfone é levada por Hades para seu castelo tenebroso, mas, a pedido de sua mãe Deméter, retorna em certos períodos: esse mito simboliza o trigo enterrado como semente e renascendo como planta;  a fertilidade das mulheres: para os arunta, da Austrália, os espíritos dos mortos esperam a hora de renascer e penetram no ventre das mulheres quando elas passam por certos locais;  o caráter mágico das danças e desenhos: quando o Homem de Cro-Magnon fazia afrescos nas paredes das cavernas, representando a captura de renas, talvez não pretendesse enfeitá-las nem mostrar suas habilidades pictóricas, mas agir magicamente, para garantir de antemão o sucesso da caçada; essa suposição se deve ao fato de que geralmente os desenhos eram feitos nas partes mais escuras da caverna. Segundo Mircea Eliade, filósofo romeno estudioso das religiões, uma das funções do mito é fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas. Dessa forma, o “primitivo” imita os gestos exemplares dos deuses, repetindo nos rituais as ações deles. Quando o missionário e etriólogo Strehlow perguntava aos arunta por que celebravam determinadas cerimônias, obtinha invariavelmente a mesma resposta: “Porque os ancestrais assim o prescreveram”. Essa é também a justificativa invocada pelos teólogos e ritualistas hindus: “Devemos fazer o que os deuses fizeram no princípio”; “Assim fizeram os deuses, assim fazem os homens”. Nos rituais, os arunta não se limitam a representar ou imitar a vida, os feitos e as aventuras dos ancestrais: tudo se passa como se eles aparecessem de fato nas cerimônias. Nesse sentido, o tempo sagrado é reversível, ou seja, a festa religiosa não é simples comemoração, mas a ocasião em que o sagrado acontece novamente corno reatualização do evento divino que teve lugar no passado mítico, “no começo”. Na sua ação, o “primitivo” imita os deuses nos ritos que atualizam os mitos primordiais. Caso contrário, a semente não brotará da terra, a mulher não será fecundada, a árvore não dará frutos e o dia não sucederá à noite. A forma sobrenatural de descrever a realidade é coerente com a maneira mágica pela qual o “primitivo” age sobre o mundo, como, por exemplo, nos inúmeros ritos de passagem do nascimento, da infância para a idade adulta, do casamento, da morte. Sem os ritos, é como se os fatos naturais descritos não pudessem se concretizar, Segundo Mircea Eliade, “quando acaba de nascer, a criança só dispõe de uma existência física, não é ainda reconhecida pela família nem recebida pela comunidade. São os ritos que se efetuam imediatamente após o parto que conferem ao recém-nascido o estatuto de “vivo” propriamente dito; é somente graças à estes ritos que ele fica integrado na comunidade dos vivos. [...] No que diz respeito à morte, os ritos são mais complexos quando se trata nãosomente de um “fenômeno natural” (a vida – ou a alma – abandonando o corpo), mas também de uma mudança de regime ao mesmo tempo ontológico e social: o defunto deve afrontar certas provas que interessam ao seu próprio destino post-mortem, mas deve também ser reconhecido pela comunidade dos mortos e aceito entre eles”. Considera-se que a consciência humana, antes do advento da escrita, permanece ingênua, não-crítica. A nova forma de compreensão do mundo dessacraliza o pensamento e, a ação, isto é, retira dele o caráter de sobrenaturalidade, fazendo surgir a filosofia, a ciência, a técnica. Augusto Comte, filósofo francês do século XIX e fundador do positivismo, ao explicar a evolução da humanidade, define a maturidade do espírito humano pelo abandono

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de todas as formas míticas e religiosas. Dessa maneira, opõe radicalmente mito e razão, ao mesmo tempo que inferioriza o mito como tentativa fracassada de explicação da realidade. Ao criticar o mito e exaltar a Ciência, contraditoriamente o positivisino faz nascer o mito do cientificismo, ou seja, a crença na ciência como única forma de saber possível, de onde surgem os mitos do progresso, da objetividade e da neutralidade científicas. Além disso, o positivismo mostra-se reducionista, empobrecendo as possibilidades de abordagens do mundo, porque a ciência não é a única interpretação válida do real nem é suficiente, já que o mito é uma forma fundamental do viver humano. O mito é o ponto de partida para a compreensão do ser. Em outras palavras, tudo o que pensamos e queremos se situa inicialmente no horizonte da imaginação, nos pressupostos míticos, cujo sentido existencial serve de base para todo trabalho posterior da razão. Como o mito é a primeira leitura do mundo, o advento de outras interpretações da realidade não exclui o fato de ele ser raíz da inteligibilidade. A função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, como também, na vida diária, quando proferimos certas palavras ricas de ressonâncias míticas: casa, lar, amor, pai, mãe, paz, liberdade, morte, cuja definição objetiva não esgota os significados que ultrapassam os limites da própria subjetividade. Essas palavras remetem à valores arquetípicos, modelos universais existentes na natureza inconsciente e primitiva do homem. Não por acaso, os psicanalistas aproveitam a riqueza do mito e descobrem nele as raízes do desejo humano. Por exemplo, a pedra angular na psicanálise se encontra na interpretação feita por Freud do mito de Édipo. O mesmo sucede com personalidades como artistas, políticos e esportistas, que os meios de comunicação se incumbem de transformar em imagens exemplares, e que, no imaginário das pessoas, representam todo tipo de anseios: sucesso, poder, liderança, atração sexual etc. Por exemplo, na década de 1950, o ator James Dean expressa o mito da “juventude transviada" e Marilyn Monroe, um mito sexual. Posteriormente outros modelos surgem e desaparecem, conforme as expectativas que predominam em cada período. Hoje em dia, com a rapidez dos meios de comunicação, essas influências tornam-se múltiplas e também mais fugazes. Nas histórias em quadrinhos, o maniqueísmo exprime o arquétipo da luta entre o bem e o mal, enquanto a dupla personalidade do super-herói atinge em cheio o desejo da pessoa comum de superar a própria inexpressividade e impotência, tornando-se excepcional e poderosa. Também os contos de fada remetem as crianças aos mitos universais do herói em luta contra as forças do mal, apaziguando os temores infantis. No campo da política, quando alguém diz que o socialismo é um mito, pode estar dizendo que se trata de algo inatingível, de uma mentira, de uma ilusão que não leva a lugar algum. Porém, outros verão positivamente o mito do socialismo como utopia, o lugar do “ainda-não”, cuja força mobiliza a construção daquilo que um dia poderá “vir-a-ser”. Até as mais racionais adesões a partidos políticos e a correntes de pensamento supõem esse pano de fundo, não-justificado e injustificável, em que nos movemos em direção à um valor que apaixona e que só posteriormente buscamos explicitar pela razão. O nosso comportamento também é permeado de “rituais”, mesmo que secularizados: as comemorações de nascimentos, casamentos, aniversários, os festejos de anonovo, as festas de formatura, de debutantes, trote de calouros lembram verdadeiros ritos de passagem. Examinando as manifestações coletivas no cotidiano da vida urbana do brasileiro, descobrimos componentes míticos no carnaval e no futebol, ambos como manifestações delirantes do imaginário nacional e da expansão de forças inconscientes. O mito se expressa ainda sob formas negativas, como por exemplo quando Hitler fez viver o mito da raça ariana, por ele considerada a raça pura, e desencadeou movimentos apaixonados de perseguição e genocídio de judeus e ciganos.

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O mito não resulta, portanto, de delírio e nem se reduz à simples mentira, mas faz parte da vida cotidiana, como uma das formas indispensáveis do existir humano. Mito e razão se complementam mutuamente. No entanto, recuperado no cotidiano da vida contemporânea, o mito não se apresenta com a abrangência que se faz sentir entre as sociedades tribais. O aprimoramento da reflexão, que propicia o exercício da crítica racional, permite a rejeição dos mitos prejudiciais quando há a capacidade de diferenciá-los, legitimando alguns e negando aqueles que podem levar à desumanização. Para Cusdorf, “o mito propõe todos os valores, puros e impuros. Não é da sua atribuição autorizar tudo o que sugere. Nossa época conheceu o horror do desencadeamento dos mitos do poder e da raça, quando seu fascínio se exercia sem controle. A sabedoria é um equilíbrio. O mito propõe, mas cabe à consciência dispor. E foi talvez porque um racionalismo estreito demais fazia profissão de desprezar os numitos, que estes, deixados sem controle, tornaram-se loucos”. 4 Mito e Filosofia Costuma-se dizer que os primeiros filósofos foram gregos. Isso significa que embora se reconheça a importância de sábios que viveram no século VI a.C. na China (Confúcio e Lao Tsé), na índia (Buda) e na Pérsia (Zaratustra), considera-se que essas doutrinas estão vinculadas à religião. Nesse sentido, é fundamental compreender o processo pelo qual se dá a passagem da consciência mítica para a consciência filosófica na civilização grega, em um período histórico em que a Grécia ainda se chamava Hélade e era constituída por diversas regiões politicamente autônomas. Os mitos gregos surgiram quando ainda não havia escrita, portanto eram preservados pela tradição e transmitidos oralmente pelos aedos e rapsodos, cantores ambulantes que davam forma poética aos relatos populares e os recitavam de cor em praça pública. Era difícil conhecer os autores desses trabalhos de formalização porque não havia preocupação com a autoria das histórias, que eram engendradas de forma coletiva e anônima. O quadro abaixo apresenta os períodos da história da Grécia Antiga:  Civilização micênica (sécs. XX a XII a.C. - desenvolve-se desde o início do segundo milênio a.C. e tem esse nome pela importância da cidade de Micenas, de onde, por volta de 1250 a.C., partem Agamemnon, Aquiles e Ulisses para sitiar e conquistar Tróía.  Tempos homéricos (sécs. XII a VIII a.C. - nesse período teria vivido Homero (século IX ou VIII a.C,); na transição de um mundo essencialmente rural, os senhores enriquecidos formam a aristocracia proprietária de terras, recrudesce o sistema escravista.  Período arcaico (sécs. VIII a VI a.C.) - com o advento das cidades-estados (póleis), ocorrem grandes alterações sociais e políticas, bem como o desenvolvimento do comércio e a expansão da colonização grega.  Período clássico (sécs, V e IV a.C.) - apogeu da civilização grega; na política, expressão da democracia ateniense; desenvolvimento das artes, literatura e filosofia, época em que vivem os sofistas e os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles.  Período helenístico (sécs. III e II a.C.) - decadência política, domínio macedônico e conquista da Grécia pelos romanos; culturalmente, significativa influência das civilizações orientais.

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Homero, um desses poetas, teria sido o provável autor de dois poemas épicos, as epopéias Ilíada e Odisséia. A Ilíada trata da guerra de Tróia (Tróia em grego é Ílion) e a Odisséia relata o retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia (Odisseus é o nome grego de Ulisses). Existe, no entanto, uma controvérsia a respeito da época em que Homero teria vivido (séc. IX ou VIII a.C.?) e até se ele realmente teria existido. Alguns intérpretes acham que essas obras foram elaboradas por diversos autores, em razão inclusive da diversidade do estilo dos dois poemas e de passagens indicativas de períodos históricos diferentes. Considera-se que foi importante a função didática das epopéias na vida dos gregos, por descreverem o período da civilização micênica e transmitirem os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e antepassados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso, desde cedo as crianças decoravam passagens dos poemas de Homero. As ações heróicas relatadas nas epopéias mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar o protegido, ora para perseguir o inimigo. No período da civilização micênica, o indivíduo é presa do Destino (Moira), que é fixo, imutável, e não pode ser alterado. Até distúrbios psíquicos, como, por exemplo, o desvario momentâneo de Agamemnon, são atribuídos à ação divina. No mesmo sentido é a fala de Heitor: “Ninguém me lançará ao Hades contra as ordens do destino! Garanto-te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu!”. O herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, faltando a ele a noção de vontade pessoal, de liberdade. Mas isso não o diminui diante das pessoas comuns, ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é de grande valor e em nada essa ajuda desmerece a sua virtude. A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha. Mas também se destaca na assembléia dos guerreiros, pelo poder de persuasão do discurso. O preceptor de Aquiles diz: “Para isso me enviou, a fim de eu te ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos”. Nessa perspectiva, a noção de virtude não é a mesma que se tem hoje, mas significa excelência, superioridade. Trata-se da virtude do guerreiro belo e bom, objetivo supremo do herói. Hesíodo, outro poeta que teria vivido por volta do final do século VIII e princípios do VII a.C., produz uma obra com particularidades que tendem a superar a poesia impessoal e coletiva das epopéias. Essas características novas são indicativas do período arcaico, que então, se inicia. Por exemplo, Hesíodo valoriza o trabalho e a justiça, destacando a importância das regras que balizam o comportamento humano. Mesmo assim, sua obra Teogonia (teo: deus; gonia: origem) reflete ainda o interesse pela crença nos mitos. Nela, Hesíodo relata as origens do mundo e dos deuses, em que as forças emergentes da natureza vão se divinizando, tranformando-se nas próprias divindades: a Terra é Gaia, o Céu é Urano, o Tempo é Cronos. Esses seres nascem ora por segregação, ora pela intervenção de Eros (o Amor), princípio divino que aproxima os opostos. No período arcaico, surgem os primeiros filósofos gregos, por volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C. Alguns autores chamam de “milagre grego” a passagem da mentalidade mítica para o pensamento crítico racional e filosófico, por destacarem o caráter repentino e único desse processo. No entanto, outros estudiosos atenuam a ênfase dada à essa imitação e superam essa visão simplista, realçando o fato de que a racionalidade crítica resultou de processo muito lento, preparado pelo passado mítico, cujas características não desaparecem como por encanto na nova abordagem filosófica do mundo. Ou seja, a filosofia na Grécia não é fruto de um salto, do “milagre” realizado por um povo privilegiado, mas é a culminação do processo gestado através dos tempos e que, portanto, tem sua dívida com o passado mítico.

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Algumas novidades do período arcaico ajudaram à transformar a visão que o mito oferecia sobre o mundo e a existência humana. Essas novidades são: a invenção da escrita e da moeda.  A Escrita A consciência mítica predomina em culturas de tradição oral, quando ainda não há escrita. É interessante observar que mythos significa “palavra”, “o que se diz”. A palavra antes da escrita, ligada à um suporte vivo, que a pronúncia repete e fixa o evento por meio da memória pessoal. Etimologicamente, epopéia significa “o que se exprime pela palavra” e lenda é “o que se conta”. É bem verdade que, de início, a primeira escrita é mágica e reservada aos privilegiados, sacerdotes e reis. Entre os egípcios, por exemplo, hieróglifos significa literalmente “sinais divinos”. Na Grécia já existira uma escrita no período micênico, mas restrita aos escribas que exerciam funções administrativas de interesse da aristocracia palaciana. Com a violenta invasão dórica, no século XII a.C., a escrita desaparece junto com a civilização micênica, para ressurgir apenas no final do século IX ou VIII a.C., por influência dos fenícios. Nesse segundo momento, a escrita assume função diferente, porque se encontra suficientemente desligada de preocupações esotéricas e religiosas e não mais como atributo da classe dos escribas, que sempre esteve atrelada ao poder. Quanto à essa mudança de significado, diz Vernant: “a escrita não terá mais por objeto constituir para uso do rei, arquivos no recesso de um Palácio; terá correlação doravante com a função de publicidade; vai permitir divulgar, colocar igualmente sob o olhar de todos, os diversos aspectos da vida social e política”. Enquanto os rituais religiosos são cheios de fórmuIas mágicas, termos fixos e inquestionados, os escritos deixam de ser reservados apenas aos que detêm o poder e passam a ser divulgados em praça pública, sujeitos à discussão e à crítica. Isso não significa que a escrita tenha se tornado acessível à todos, muito ao contrário, grande parte da população é constituída de analfabetos. O que está em destaque, no entanto, é a dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento do sagrado. A escrita gera nova idade mental porque exige de quem escreve uma postura diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a palavra, e consequentemente o mundo, para além de quem a proferiu, necessita de maior rigor e clareza, o que estimula o espírito critico. Além disso, a retomada posterior do que foi escrito e o exame pelos outros – não só de contemporâneos mas de outras gerações – abrem os horizontes do pensamento, propiciando o distanciamento do vivido, o confronto das idéias, a ampliação da crítica. Portanto, a escrita surge como possibilidade maior de abstração, uma reflexão da palavra que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento.  A Moeda Entre os séculos VIII e VI a.C. dá-se o desenvolvimento do comércio marítimo, decorrente da expansão do mundo grego, com a colonização da Magna Grécia (atual sul da Itália e Sicília) e Jônia (litoral da atual Turquia). O enriquecimento dos comerciantes provoca a substituição de valores aristocráticos por valores da nova classe em ascensão. Na época da aristocracia rural, de riqueza baseada em terras e rebanhos, a economia é pré-monetária. Os objetos usados para troca vêm carregados de simbologia afetiva e sagrada, por causa do caráter sobrenatural que impregna as relações sociais, fortemente

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marcadas pela posição social de pessoas consideradas superiores devido à origem divina de seus ancestrais. A moeda, inventada na Lídia, aparece na Grécia por volta do século VII a.C., o que facilita os negócios e impulsiona o comércio. Com o recurso da moeda, os produtos que antes se restringiam ao seu valor de uso passam a ter valor de troca, isto é, transformam-se em mercadoria. Daí a exigência de algo que funcionasse como valor equivalente universal das mercadorias. Emitida e garantida pela pólis, a moeda faz reverter seus benefícios para a própria comunidade. Além desse efeito político de democratização de um valor, a moeda sobrepõe aos símbolos sagrados e afetivos, o caráter racional de sua concepção: muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é artifício racional, convenção humana, noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes. Nesse sentido, a invenção da moeda desempenha um papel revolucionário, pois está vinculada ao nascimento do pensamento racional crítico. Para Jean-Pierre Vernant, helenista e pensador francês, o nascimento da pólis (por volta dos séculos VIII e VII a,C.) é um acontecimento decisivo que “marca um começo, uma verdadeira invenção”, por provocar grandes alterações na vida social e nas relações humanas. A transformação da pólis muito se deve aos legisladores Drácon (séc. VII a.C.), Sólon e Clístenes (séc. VI a.C.) que sinalizam uma nova era: a justiça, até então dependente da interpretação da vontade divina ou da arbitrariedade dos reis, passa a ser codificada em uma legislação escrita. Regra comum à todos, norma racional sujeita à discussão e modificação, a lei escrita passa a encarnar uma dimensão propriamente humana. As reformas da legislação de Clístenes fundam a pólis sobre uma base: a antiga organização tribal é abolida e estabelecem-se relações não mais resultantes da consangüinidade, mas determinadas por outra organização administrativa. Essas modificações expressam o ideal igualitário que prepara a democracia nascente, já que a unificação do corpo social abole a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias e assentada nas formas de submissão e domínio. Ou seja, “os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira “semelhantes” uns aos outros”. Inicialmente, a igualdade existe apenas entre os guerreiros, mas essa imagem do mundo humano encontra no século VI sua expressão rigorosa no conceito de isomomia, ou seja, “a igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder”. A originalidade da cidade grega é que ela está centralizada na ágora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Separam-se na pólis o domínio público e o privado: isso significa que ao ideal de valor de sangue, restrito à grupos privilegiados em função do nascimento ou fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos direitos dos cidadãos como representantes dos interesses da cidade. Nesse contexto, há a elaboração de um novo ideal de justiça, onde todo cidadão tem direito ao poder. A nação de justiça assume, caráter político, e não apenas moral, ou seja, não diz respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, mas a sua atuação na comunidade. A pólis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e portanto, comum à todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão. A expressão da individualidade por meio do debate faz nascer a política, que liberta o indivíduo dos exclusivos desígnios divinos e lhe permite tecer seu destino na praça pública. A instauração da ordem humana dá origem ao cidadão da pólis, figura inexistente no mundo da comunidade tribal. O apogeu da democracia ateniense ocorre no século V a.C., já no período clássico. É bem verdade que Atenas possuía meio milhão de habitantes, dos quais trezentos mil eram escravos e cinquenta mil matecos (estrangeiros); foram excluídas mulheres e crianças,

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restando apenas 10% considerados cidadãos propriamente ditos, capacitados para decidir por todos. Nesse sentido, considera-se que quanto mais se desenvolve na Grécia a idéia de cidadania com a consolidação da democracia, mais a escravidão surge como contraponto indispensável, na medida em que ao escravo são reservadas as tarefas consideradas menores dos trabalhos manuais e das atividades diárias de sobrevivência. No entanto, o que enfatiza-se nesse processo é a mutação do ideal político e uma concepção inovadora de poder, a democracia. O ideal teórico da classe dos comerciantes, é elaborado pelos sofistas, filósofos do século V a.c. Em relação aos primeiros filósofos, vale considerar que inicialmente a grande aventura intelectual dos gregos não começa propriamente na Grécia continental, mas nas colônias da Jônia e da Magna Grécia onde florescia o comércio. Os primeiros filósofos viveram por volta dos séculos V e VI a.C. e mais tarde, foram classificados como pré-socráticos, quando a divisão da filosofia grega se centralizou na figura de Sócrates. Entre os mais importantes pré-socráticos, destacam-se: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito (das cidades da Jônia); Pitágoras de Samos, que fundou uma escola em Crotona, sul da Magna Grêcia: Xenófanes, Parmênides e Zenão (de Eléia, também na Magna Grécia); Leucipo e Demócrito de Abdera; Anaxágoras de Clazomenas; Empédocles (de Agrigento, na Sicília). Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o tempo, restando apenas alguns fragmentos ou referências que filósofos posteriores lhes fizeram. Sabe-se que geralmente escreviam em prosa, abandonando a forma poética característica das epopéias, dos relatos míticos. Os primeiros pensadores centram sua atenção na natureza e elaboram diversas concepções de cosmologia, procurando a racionalidade constitutiva do Universo. Ao perguntarem como seria possível emergir o cosmo do caos – ou seja, como da confusão inicial surge o mundo ordenado –, os pré-socráticos buscam o princípio (a arché) de todas as coisas, entendido não como aquilo que antecede no tempo, mas como fundamento do ser. Buscar a arché explica qual é o elemento constitutivo de todas as coisas. As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas, da arché, a unidade que pode explicar a multiplicidade, são as mais variadas possíveis. Para Tales, é a água; para Anaxímenes, é o ar; para Demócrito, é o átomo; para Empédocles, os quatro elementos - terra, água, ar e fogo -, a teoria mais conhecida e aceita é a do cientista Lavoisier, no século XVIII. Observa-se uma diferença entre pensamento mítico e filosofia nascente: os filósofos divergem entre si e a filosofia se distingue da tradição mítica oferecendo uma pluralidade de explicações possíveis, uma atitude característica do filósofo. Além disso, a física Jônica é a expressão do pensamento filosófico racional e abstrato, ao recorrer à argumentos e não à explicações sobrenaturais. Por exemplo, Hesíodo, relata o princípio do mundo (cosmogonia) e o nascimento dos deuses (teogonia) a partir da sua gênese ou origem no tempo, enquanto as cosmologias dos pré-socráticos são baseadas em explicação racionais. Assim justifica-se a perspectiva comumente aceita da ruptura entre mythos e logos (razão). No entanto, para estudiosos como o inglês Conford, apesar das diferenças, o pensamento filosófico nascente ainda apresenta vinculações com o mito. Por exemplo, Hesíodo relata na Teogonia como Gaia (Terra) gera sozinha, por segregação, o Céu e o Mar; depois, a união da Terra com o Céu, presidida por Eros (princípio de coesão do Universo), resulta na geração dos deuses. Ora, examinando os textos dos filósofos jônicos, Cornford descobre neles a mesma estrutura de pensamento existente no relato mítico: os jônios afirmam que de um estado inicial de indistinção, separam-se pares opostos (quente e frio, seco e úmido) que vão gerar os seres naturais (o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido). Para os filósofos, a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram

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reciprocamente, e a união dos opostos explica os meteóricos, as estações do ano, o nascimento e a morte de tudo que vive. Portanto, na passagem do mito à razão, há a continuidade no uso comum de certas estruturas de explicação. Na concepção de Cornford não existe “uma imaculada concepção da razão”, pois o aparecimento da filosofia é um fato histórico enraizado no passado. Outra observação interessante sobre esse período de transição pode ser feita a partir da produção literária de tragédias, nos séculos V e VI a.C., cujos autores mais conhecidos foram Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Embora o conteúdo das peças teatrais fosse retirado dos mitos, o tratamento dado aos conflitos denota uma consciência lógica que representa a ambigüidade pela qual o destino é questionado, ainda que no final, a vontade dos deuses acabe se cumprindo. Assim, considera-se que embora existam aspectos de continuidade entre mito e filosofia, o pensamento filosófico é algo muito diferente do mito, por resultar de uma ruptura quanto a atitude diante do saber recebido. Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e portanto convida à discussão. No mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos e busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, organizando-se como uma doutrina e surgindo como pensamento abstrato.

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Leitura Complementar : Texto 1 – Mito e Literatura

Mito e Literatura A consciência mítica primitiva, que garantia a coerência rígida das primeiras comunidades humanas, desaparaceu em face do progresso da crítica racional e das técnicas sustentadas pela ciência. Mas esta primeira consciência extensiva e unanimista foi substituída por uma consciência mítica segunda, mais secreta, e como que nos bastidores do pensamento racional. As intenções míticas, aqui, mais livres, supõem uma adesão individual e como que uma triagem entre as possibilidades oferecidas aos desejos de cada um. Religião, literatura, política propõem, em ordem dispersa, fórmulas míticas nas quais cada homem, chamado à uma espécie de exame de consciência, é convidado a se reconhecer. O papel crescente da literatura e sua progressiva difusão, deve ser relacionado com o recuo das crenças religiosas. A exigência mítica teve que se fixar em meios novos de expressão. O aspecto formal da literatura importa menos do que sua significação material. O estilo valoriza os elementos mais arcaicos do ser no mundo, cuja permanência justifica o sucesso do poema e do drama, assim como motiva a expansão das obras-primas da literatura universal. Os prodigiosos desenvolvimentos do romance, que é, sem dúvida, o aspecto mais significativo da vida literária contemporânea, deve-se sem dúvida ao fato de que o romance põe o mito ao alcance de todos sob o revestimento de uma história fácil de seguir. Eliade assinalou a sobrevivência dos arquétipos míticos como claves da literatura. “As provações, os sofrimentos, as peregrinações do candidato à iniciação, [...] por exemplo, sobrevivem no relato dos sofrimentos e dos obstáculos que o herói épico ou dramático deve superar (Ulisses, Enéas, Parsifal, este ou aquele personagem de Shakespeare, Fausto e outros), antes de atingir os seus fins. [...]”. O próprio romance policial, que constitui um dos aspectos mais singulares do folclore contemporâneo, prolonga, sob as aparências do duelo entre o detetive e o criminoso, a inpiração dos romances de capa e espada, que foi mais remotamente aquela dos romances de cavalaria, e remonta até as raízes do inconsciente.

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Leitura Complementar : Texto 2 – Cidade dos deuses, cidade dos homens

Cidade dos deuses, cidade dos homens No canto XV [da Ilíada], Posídon ou Poseidon, intimado por Zeus, por intermédio de Íris, a cessar de intervir em favor de aqueus, dá uma resposta violenta que nos esclarece a partilha dos poderes: “Então Zeus pretende me dominar pela força, contra a minha vontade, eu que sou igual a ele? Nós somos três irmãos, gerados por Crono e concebido por Réia: Zeus, eu e, em terceiro lugar, Hades, o monarca dos mortos. O mundo foi dividido em três; cada um teve a sua parte. Tendo tirado a sorte, consegui o direito de habitar o argênteo mar eternamente. Hades teve por quinhão a sombra brumosa, e Zeus, o vasto céu, em pleno éter, nas próprias nuvens. Para nós três a terra é um bem comum, assim como o alto Olimpo. Não pretendo viver submisso à Zeus. Que ele viva tranqüilo, com toda a força, no seu lote, o terceiro; e que de forma alguma tente me aterrorizar como se eu fosse um vilão!” Outras passagens da Ilíada e da Odisséia não seguem nessa direção e insistem na soberania de Zeus. De resto, há nesse texto três idéias essenciais. A primeira é a do sorteio. É ele que permite a atribuição dos lotes e, conseqüentemente, das funções. A segunda é a de um “domínio comum”. A terra e o monte Olimpo, morada dos deuses, não estão sob a soberania de Zeus. Ele deve contar com as outras potências divinas, inclusive Posídon, que, a partir do mar, pode “agitar o solo”, e também, de maneira supreendente, Hades, senhor do reino dos mortos, aonde os homens só chegam sob a forma de sombras impalpáveis. A terceira é a expressa pelo termo “vilão”. Ela implica uma noção de hierarquia. Ora, essas três idéias são constitutivas da pólis grega, e a sua presença no texto, diga-se de passagem, torna inútel a polêmica sobre o nascimento da pólis antes ou depois de Homero. A Ilíada não é concebível sem uma certa presença da pólis. A cidade dos deuses nos permite saber como se desenvolveu a cidade dos homens no período arcaico. Expliquemos melhor. O sorteio é, em Atenas, muito tempo após a época da Ilíada, a instituição sobre a qual repousa a democracia. Naturalmente não se trata de uma loteria entre irmãos, mas sim de um soreteio das funções que não são técnicas (estas são atribuídas por eleição). Domínio comum? Tal é o estatuto, por exemplo, da Acrópole e da ágora em Atenas. Os arqueólogos que escavaram a praça pública (a ágora) de Mégara Hibléia na Sicília, colônia fundada no fim do século VIII a. C., constataram que, desde o início, um espaço comum fora reservado como domínio coletivo da cidade. Finalmente, a presença do “vilão” entre os deuses nos recorda que certas pessoas são excluídas da pólis. É o caso, em esparta, das hilotas, categoria servil que cultiva a terra, e, em Atenas, dos metecos, estrangeiros domiciliados que não têm o direito de voto, e, mais ainda, dos escravos, propriedades dos cidadãos ou da própria cidade.
VIDAL-NAQUET, Pierre. O mundo de Homero. São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 66-

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MÓDULO III – CULTURA E HUMANIZAÇAO
Objetivos
Neste módulo você terá a oportunidade de compreender o processo de cultura e humanização através do conhecimento da Antropologia Filosófica assim como da dimensão social e da dimensão simbólica.

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1 A Antropologia Filosófica A palavra Antropologia deriva do termo grego Antropos (homem) e fogos (tratado) + ia que significa estudo das raças e variedades humanas; história natural do homem e da mulher enquanto seres naturais. A Antropologia Filosófica tem como objeto de estudo a origem, a natureza e o destino do ser humano, bem como o seu lugar no universo, tendo como tarefa responder à seguinte pergunta: O que é o homem? Tal pergunta, assim como sua resposta, é filosófica. Responder a pergunta sobre o que é “o ser humano” é falar da natureza específica do homem, de sua essência. Tudo quanto já foi pensado e dito sobre este tema não é suficiente para elaborar uma definição. Esta dificuldade não reside na convicção de ser, ou não, um ser humano, mas na impossibilidade de compreender, com clareza, o que nos torna tão diferentes uns dos outros e ainda assim, semelhantes. O Filósofo Edvino A. Rabuske, em seu livro Antropologia Filosófica inicia sua reflexão sobre o homem - um animal extraordinário, pressupondo das diferenças biológicas entre o ser humano e o animal. Destaca-se alguns aspectos dessa reflexão: 1 As diferenças na anatomia e fisiologia da pessoa humana são as de que o ser humano tem cérebro inteligente e privilegiado e o cerebelo responsável pelos instintos é bastante atrofiado. Tem porte ereto: na pele, é o único animal nu, mas tem pêlo nas partes genitais e nas axilas; a pele não o defende do frio e calor, mas é capaz de sensações. As diferenças mais importantes referem-se ao cérebro medindo 1.300cm3, a postura ereta e a presença das mãos. O ser humano nasce um ano mais cedo que outros mamíferos superiores que têm período de prenhez de 21 à 22 meses e no período do nono ou décimo mês do primeiro ano de vida se formam três traços importantes: o uso de Instrumentos, a verdadeira linguagem e a postura ereta. Em nenhum outro animal isso acontece, pois todos passam esse período no ventre materno, portanto, já do ponto de vista biológico a pessoa humana é um animal extraordinário; 2 Quanto as diferenças no comportamento do animal, o comportamento global do animal se caracteriza pela ligação ao meio ambiente. O animal está especializado, ou seja, limitado e ao mesmo tempo em condições de perfeição e de segurança para determinadas condições de vida. Todo o conjunto de comportamento é chamado instinto. Instintos são ações regidas por leis biológicas. Os instintos são cegos, ou seja, são atividades que ignoram a finalidade da própria ação. Como o ser humano também tem comportamento instintivo é importante distinguir entre instinto animal e instinto humano. No ser humano, a relação estímulo e resposta é frouxa, é um processo cultural, ou seja, adquirida, transformável, diversificada e histórica. Os instintos sexuais humanos são excitáveis a qualquer hora, já a atividade sexual do animal é periódica, a mudança hormonal acontece na fêmea cujo cio estimula o macho. O instinto, no ser humano, é apenas um componente do comportamento humano e se torna forte se tantos outros componentes forem fracos. Rabuske utilizando-se do texto de Max Scheler: “A posição do homem no Cosmos” conclui sua reflexão quanto as diferenças biológicas entre o animal e a pessoa humana: “a diferença essencial entre o homem e o animal reside no fato de que somente o homem tem espírito e é um ser pessoal. Não está preso ao impulso e ao meio ambiente, mas é “aberto ao mundo”, é capaz de objetividades”. (RABUSKE 2001, p.30).

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Prezado estudante, você pode estar se questionando: Mas qual a relação disso com a pergunta filosófica sobre o que é o homem?

Bem, dentre muitas respostas pode-se em uma tentativa conceitual, dizer: O ser humano é um ser que tem alma e espírito, que é livre e que por isso é alguém capaz de vivenciar valores; tem inteligência e sentimentos; vive em grupo, em sociedade, situado historicamente, portanto, um ser de cultura de linguagem, etc. Com a diferenciação entre animal e homem, pretende-se destacar o ser humano em sua essência. Isto é, naquilo que lhe é próprio, fundamental, em sua natureza que é, significativamente, diferente do animal. O que torna o homem, em sua essência, diferente do animal é a forma como este está inserido no mundo, no meio ambiente, em sua interação com a natureza e com os outros seres que o rodeiam. O ser humano não se difere do animal somente biologicamente, diferese, essencialmente, pela sua forma de inserção, ou seja, de presença na natureza. Quanto a atividade animal considera-se dois níveis: aqueles animais que estão situados nos níveis mais baixos da escala zoológica e aqueles que pertencem aos níveis mais altos de tal escala, como é o caso dos mamíferos. No primeiro nível, a atividade animal se dá a partir de reflexos e instintos, são atividades idênticas e invariáveis, como é o caso da produção da teia de aranha, da colméia, da casa do João-de-barro etc. Contudo, no segundo nível, no caso dos mamíferos, estes têm demonstrado atos inteligentes. Como é o caso de animais que uma vez adestrados respondem, ao adestramento e, de tantas outras comprovações, através de pesquisas. As diversas experiências realizadas com animais de várias espécies tem demonstrado que estes são capazes de realizar atos inteligentes. E o que importa realmente saber com relação à atividade animal? Importa responder se o animal é ou não inteligente, e em sendo, qual a diferença de tal inteligência com relação à inteligência humana. As respostas que surgem, oriundas de tal situação, remetem esta discussão à análise das dimensões: produtiva, social e simbólica. Discussão esta que se converte no diferencial de tais inteligências. Contudo, antes de tratar de tais dimensões, ainda no que se refere à inteligência, convém ressaltar os níveis concreto e abstrato assim como a importância da compreensão do que é cultura. De acordo com Maria Lúcia de Arruda Aranha, 1993:
“Há o pensamento concreto que se forma a partir da percepção, ou seja, da representação de objetos reais, e é imediato, sensível e intuitivo e o pensamento abstrato, que estabelece relações (não perceptíveis), que cria (grifo nosso) os conceitos e as noções gerais e abstratas, é imediato (precisa da mediação da linguagem) e racional.” (ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, 1993, p. 31).

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Por mais que o animal em sua atividade demonstre atos inteligentes, tal nível de inteligência é concreto, ou seja, depende da experiência vivida, de atos associativos que se realizam a partir de algo concreto. Segundo Maria Lúcia de Arruda Aranha, 1993:
“O mundo do animal é um mundo sem conceitos. Nele nenhuma palavra existe para fixar o idêntico no fluxo dos fenômenos, a mesma espécie na variação dos exemplos, a mesma coisa na diversidade das situações. Mesmo que a recognição seja possível, a identificação está limitada ao que foi predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se acha que se possa determinar como permanente e, no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há nenhum saber sólido (grifo nosso) acerca do passado e nenhum olhar claro mirando o futuro. O animal reponde ao nome e não tem eu, está fechado em si mesmo e, no entanto, abandonado; a cada momento surge uma nova compulsão, nenhuma idéia a transcende” (ARANHA, Maria Lúcia

de Arruda, 1993. p. 09) Nesse contexto, conclui-se que o mundo animal é um mundo sem conceitos, de atos repetitivos, mesmo que desenvolvam atos inteligentes, eles são limitados, sem a presença de um saber sólido, capaz de consciência histórica e sem capacidade de transcender, isto é, de ir além, de superar a realidade existente. Dessa forma, vale ressaltar os aspectos pelos quais o ser humano se relaciona com a natureza através de seu nível de inteligência abstrata. O homem é possuidor de pensamento abstrato e estabelece relações, cria os conceitos e as noções gerais e abstratas, é imediato necessitando da mediação da linguagem, e é racional, ou seja, é um ser capaz de criar, interagir com a natureza, transformando-a e criando instrumentos, produzindo para a sua sobrevivência, relacionando-se em agrupamentos sociais e sendo capaz de estabelecer significados para a sua existência como ser histórico, ou seja, de um ser que é cultural. Rabuske (2001, p.30) após recorrer à outros autores quanto ao conceito de cultura chega a três usos principais, que são:  Todas as pessoas têm cultura;  O sujeito da cultura é a pessoa humana, ou seja, o povo, a comunidade que, enquanto indivíduo, é objeto;  Somos produtores de cultura e ao mesmo tempo, produto, isto é, resultado do contexto cultural. Considera-se cultura como um conjunto de símbolos elaborados por um povo em um determinado tempo e lugar. É a tranformação que a pessoa humana faz consciente e livre, tanto em sua própria natureza quanto na natureza do meio ambiente, visando o seu aperfeiçoamento. A cultura é inter-relacional, ou seja, as diversas áreas em que o homem atua ou que expressa a sua humanidade, interrelacionam-se umas com as outras, incidindo umas sobre as outras. Por exemplo: a religião influencia a economia, a economia influencia o social, o social, o cultural, onde o todo influencia as partes e vice-versa. Nesse sentido, considera-se que não há uma só cultura, o homem vivencia a sua religiosidade, relaciona-se econômica e socialmente com os outros, de formas variadas. Nessa variedade de expressões, verifica-se não uma única, mas uma

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pluralidade de culturas e não um único modelo, ou uma cultura ideal. Assim, afirma-se que não existe cultura superior ou cultura inferior, o homem manifesta-se de maneiras diferentes e nessas diferenças revelam-se modos diferentes de compreensão de si mesmo e do mundo, caracterizando assim múltiplas culturas, ou seja, um rico universo cultural do ser humano, que não é uno, mas plural. 2 Dimensão Social e Dimensão Simbólica Como fato diferencial de humanização, tem-se na produtiva uma relação com o tema trabalho. O homem é um ser que trabalha, esse trabalho que ele realiza possibilita a transformação do mundo e de si mesmo, converte-se na produção da realidade tal qual o ser humano concebe a sua existência. Diferente dos outros animais, que também realizam ações, a ação produtiva do homem tem caráter diferencial, uma vez que não são ações instintivas, mas é um trabalho de alta produção, considerando que somente o homem muda as coisas do mundo. Aristóteles, na antiguidade grega, já afirmava ser o homem um animal social, mas essa condição de ser social advêm de uma outra característica humana que é a racionalidade. Sendo racional e consciente de sua existência, o homem sabe que para sobreviver não pode precindir do convívio com o outro de sua espécie, essa certeza o fez buscar nos primórdios da humanidade o grupo social para garantir a sua sobrevivência, já que só em sociedade poderia satisfazer tanto as suas necessidades básicas de alimentação, abrigo, segurança, reprodução, quanto seus anseios e ideais elevados. Ao agrupar-se, o homem lança mão de um dos aspectos intrínsecos de sua própria condição: a sociabilidade, responsável pelo impulso de busca do grupo e para manutenção da sociedade. Um outro aspecto entra em cena e refere-se à politicidade capaz de garantir a vida social. O homem é um ser social e sabe que é, e por isto parte em busca do grupo e nele se mantém, agindo por consciência da necessidade desse grupo. A sociedade atua, interfere e interage com o homem mesmo quando ele afirma não precisar dela para nada e se embrenha nos confins da floresta amazônica, pois ao fazê-lo, volta-se contra as imposições sociais e a sociedade que tem como referência. A sociedade dos homens guarda em sua essência um equilíbrio de forças que se revela nas relações hierárquicas e de poder. Essas relações hierárquicas não se caracterizam pela dominação, mas pela função política que nela reside. O poder enquanto estrutura de manutenção do equilíbrio social, uma vez fragilizado, cede lugar à violência, que nada mais é que a ausência de poder. A própria dimensão social do homem, através de suas relações políticas, pode estabelecer o poder que harmoniza. Em relação à dimensão simbólica, considera-se que o símbolo surge como caminho pelo qual são estruturadas as relações do homem com o mundo. Por ser o homem um ser que fala, tem na linguagem uma via de meditação entre o homem e o mundo, a dimensão simbólica dilui-se no mundo cultural, que por sua vez é um conjunto de significações diferenciadas e determinadas previamente. A inserção do homem no mundo e a sua apresentação à um conjunto de valores faz-se através de uma linguagem diferenciada que ele ensina desde a comandar funções biológicas básicas, como analisar e interpretar as relações sociais. O mundo cultural é simbolicamente convencionado. A construção e a transmissão do saber, o que é ou como apresenta-se o homem ao mundo, o que é o mundo, ou seja, a consciência de mundo e a consciência de homem, desenvolvem-se e estruturam-se historicamente. Por isso, essa dimensão não se expressa

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perenemente, não apresenta características eternas, mas variam conforme evoluem ou transformam-se as relações do homem com o outro e com o meio. Para concluir sobre cultura e humanização, utiliza-se do texto de Manfredo de Oliveira Araújo sobre pluralismo, relativismo e fragmentação no mundo contemporâneo, a partir de Habermas, filósofo contemporâneo, considerando que o fenômeno sociológico fez emergir as sociedades modernas pela diferenciação entre sociedade simbólica e sociedade sistêmica. As sociedades simbólicas caracterizadas pelas sociedades arcaicas e prémodernas, cuja visão de mundo perpassa e integra toda estrutura social, são sociedades orgânicas, holísticas, baseadas nas relações de parentesco em cujo meio se dá a visão de mundo e dos padrões de comportamentos. São sociedades de cultos, sociedades sacrais e seu universo simbólico é transmitido oralmente, o mito não é um fator de limite para a criticidade e a inovação, e a economia e administração são normativas, estando no plano ético. As Sociedades Sistêmicas são caracterizadas como sociedades modernas pela mercantilização, burocratização, pela lógica da eficiência e do sucesso. A identificação social que um indivíduo tem é determinada pelo fator econômico e não por valores que norteiam o seu agir, tal sociedade baseia-se no sistema de globalização que provoca a perda da identidade e a tendência ao desenraizamento, culminando no fenômeno de deslocamento das periferias para os centros, o que por sua vez, ocasiona a desaculturação. Segundo Habermas, o papel da Filosofia, nesse contexto, seria o de temalizar sobre o sentido do mundo e o sentido da vida humana inserida em tal mundo, viabilizando uma sociedade solidária.

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Atividades de Aprendizagem

01) Qual o objeto de estudo da Antropologia?

02) Qual a diferença entre instinto animal e instinto humano?

03) O que faz com que o homem seja essencialmente diferente do animal?

04) Qual o nível de inteligência dos animais? 05) Qual é o único ser da criação capaz de fazer cultura? Por que?

06) O que é cultura?

07) Por que não se pode dizer que o animal trabalha, apesar do burro puxar carroça e a abelha fazer mel?

08) O que se entende por mundo cultural?

09) O homem prescindindo da sociedade poderia realizar-se como homem? Por que?

10) O que é sociabilidade?

11) Porque se diz que o aspecto da politicidade é o mantenedor da sociedade humana?

12) Um velho eremita morando sozinho numa caverna nos confins de uma floresta, negando todos os valores da sociedade da qual fazia parte antes desse exílio voluntário, ainda é influenciado por ela? Explique o por quê.

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MÓDULO IV – O HOMEM TENTANDO ENTENDER A REALIDADE: O conhecimento mítico, o conhecimento filosófico, o conhecimento científico e conhecimento teológico

Objetivos
Nesse módulo você estudará o conhecimento, desde a sua origem, identificando conceitos e conhecendo os diversos tipos de conhecimento, visando compreender o processo de apreensão da realidade pelo homem.

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1. O Conhecimento Em uma análise sobre a história da humanidade, encontra-se o sujeito de tal história, buscando e se utilizando de vários tipos de conhecimento na tentativa de compreender e explicar a realidade. As várias formas para o atendimento e o enfretamento dos problemas são o conhecimento vulgar ou ordinário, o conhecimento mítico-religioso, o conhecimento filosófico, o conhecimento teológico e o conhecimento científico. O problema do conhecimento é um dos temas mais fascinantes da filosofia e para entendê-lo recorre-se à Gnosiologia, que consiste em um estudo reflexivo da origem, da essência, das possibilidades e limites do conhecimento. Para o entendimento do citado tema, como de qualquer outro assunto, objeto de estudo da filosofia, deve-se proceder usando a essência mesma da filosofia que nada mais é do que “a pergunta”, “o questionamento” e, para isso lança-se as seguintes questões: 1) O que é conhecimento? 2) De onde vêm o conhecimento? 3) É possível conhecer? Seriam essas indagações um ponto de partida para investigação do problema em estudo. A primeira pergunta pode-se responder, de maneira superficial, que o conhecimento é uma relação que estabelece entre o sujeito cognoscente, que é o sujeito que conhece e o objeto cognoscível, isto é, o objeto passível de ser conhecido. A resposta para a segunda questão encontra-se legada pelas correntes filosóficas conhecidas como racionalismo e empirismo. Quanto a terceira indagação, que se refere à possibilidide do conhecimento, faz-se referência à duas posições doutrinárias: o dogmatismo, que diz ser possível conhecer, e o ceticismo, que nega taxativamamente tal possibilidade, ou seja, a possibilidade de conhecer. Para uma maior compreensão, considera-se que o dogmatismo é uma doutrina que afirma, de forma absoluta e extrema, que o homem é capaz de atingir a verdade por uso exclusivo da razão. A supremacia da razão é tão radical que impede a posição de discutir seus princípios. Segundo os dogmáticos, o ser humano é capaz de chegar, por via da razão, ao conhecimento absoluto e não admite refutação. Como exemplo de dogmatismo cita-se os filósofos pré-socráticos que acreditavam poder conhecer a realidade tal qual ela é. Quanto à posição contrária, o ceticismo, pode-se dizer que seu fundamento está centrado na dúvida de toda e qualquer possibilidade de se atingir o conhecimento, pois o sujeito é incapaz de apreender o objeto de maneira verdadeira, em toda sua integridade, logo, o processo do conhecimento humano não se perfaz, não se realiza.

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1.1 A Origem do Conhecimento Para compreender a origem do conhecimento torna-se necessário entender o próprio conhecimento e para isto recorre-se à Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento, que é a parte da filosofia que estuda a natureza do conhecimento em geral. A Teoria do Conhecimento consiste em uma disciplina filosófica que indaga pela possibilidade, pela origem, pela essência, pelo limite e pelas condições do conhecimento. Nesse contexto considera-se a existência de duas formas do pensamento moderno que sustentam essa teoria. Trata-se do Racionalismo e do Empirismo.  Racionalismo O Comportamento do homem, impulsionado pelas inquietações gnosiológicas, o coloca de frente com a questão da gênese do conhecimento. A questão do conhecimento em sua amplitude é tratada ao longo do pensamento humano. Sócrates adverte que o homem bom é virtuoso e que essa virtude estabelece-se pelo conhecimento. O mal é fruto da ignorância. Platão afirma que o verdadeiro conhecimento encontra-se no mundo das idéias, que é uma realidade supra-sensível, para onde o homem poderá dirigir-se através da doutrina da reminiscência. A recordação ou anamnese é a raiz do conhecimento. Quando o homem, após séculos de dominação da igreja, reconquista a autonomia de pensar a partir do reconhecimento de que a consciência de sua própria existência, dá-se pela certeza garantida pelo seu próprio pensamento inaugura-se um momento novo na história da humanidade. A razão, capacidade que o homem tem de emitir juízos de fato e de valor, julgar a realidade mediante a análise da mesma, passa a configurar, não mais como algo a ser repreendido, escondido, negado e temido como fonte de pecado, mas como um meio inclusive de aproximar-se de Deus. Neste cenário surge o racionalismo, consistindo em uma doutrina que eleva a razão como fonte confiável e única do conhecimento. Há um excesso de confiança na razão, embora tenha no advento do Renascimento seu marco histórico inicial, nos tempos modernos, tem suas bases na antiguidade com os eleatas. Nessa corrente filosófica a razão constitui a estrutura da consciência. O mérito do racionalismo consiste no fortalecimento do significado do fator racional no conhecimento humano. “ Mas é exclusivista ao fazer do pensamento a fonte única ou própria do conhecimento”. (Johannes Hosson). Renê Descartes, tido como o “pai da filosofia moderna", é o representante maior do racionalismo. Suas obras que ressaltam sua teoria racionalista são: Discurso sobre o Método e Meditações Metafísicas. É de Descartes a máxima “Cogito, ergo sum” (penso, logo existo).  Empirismo O Empirismo tem na experiência o fundamento do conhecimento, considerando a mente do ser humano como um papel em branco que será impresso pelas experiências sofridas ao longo da existência. O Empirismo como concepção, influenciou, sobremaneira, muitos filósofos. Nasceu em oposição à tendência racionalista, tida como dogmática e apriorística. A experiência é marco inicial e obrigatório. Há uma rejeição dos elementos racionais, considerando inexistente tudo enquanto não puder ser experimentado. Nesse sentido, tem-se na experiência a fonte garantida de conhecimento, ou seja, todo conhecimento é derivado da experiência (interna ou externa). Locke e Hume concebem o

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Empirismo dessa forma, ou seja, consideram que o conhecimento só é obtido mediante a experiência e a sensação. Locke afirma que “nada há no espírito que não tenha passado antes pelos sentidos”. (esta afirmação mereceu de Leibniz a seguinte resposta: “A não ser o próprio espírito”). Os empiristas reconhecem a validade dos conhecimentos matemáticos, porém consideram que todas suas representações conceituais são ouvidas da experiência. O equívoco dos empiristas, foi um posicionamento extremista no sentido de atribuir tudo à experiência, assim como os racionalistas, que reduziram tudo à razão. O legado do empirismo na Teoria do Conhecimento é colocar a importância da experiência face a arrogância do racionalismo. 2 Sujeito e Objeto O conhecimento é uma tentativa com a qual o ser humano está envolvido desde a antiguidade, porém não é possível falar do conhecimento no sentido de uma Teoria do Conhecimento desde esse período, mas somente na idade moderna. O filósofo Jonh Locke é considerado por alguns como fundador dessa teoria, e em sua obra “Ensaio sobre o Entendimento Humano”, faz questionamentos de cunho gnosiológico sobre a essência e racionalização do conhecimento. Mas é Imanuel Kant quem se destaca também como fundador da teoria do conhecimento (Erkenntnistheorie). Ele investiga a validade do conhecimento. É preciso cautela quanto à este assunto porque a problematização do conhecimento não pode nem deve resumir-se à ciência propriamente dita. A questão do conhecimento vai muito além de sua dimensão epistemológica, a teoria do conhecimento, indaga: possibilidade, origem, essência, limites e condições de se conhecer. Apenas o ser humano questiona, fazendo perguntas que incluem a si e ao mundo que o rodeia. Quando pergunta, o homem inclina-se para as repostas que neutralizaram as dúvidas que brotam, fruto de sua interação com o mundo. E o mais interessante é que quem pergunta, o faz não por não saber nada, mas por estar em relação com o conhecimento. Há dois elementos básicos do conhecimento: o sujeito e o objeto, que formam uma qualidade, porém são conhecidos diferente e separadamente. O sujeito é sujeito para o objeto e, este, é o que é para o sujeito. É uma relação interdependente. Nesta relação as funções diferem, pois o sujeito apreende e o objeto é apreendido. A apreensão do objeto pelo sujeito evidencia um deslocamento deste para aquele, porém o sujeito não fica no objeto, nem o objeto fica no sujeito, esta apreensão é transcendental, pois o que fica no sujeito não é o objeto apreendido mas a sua imagem. O homem é o sujeito cognoscente e o objeto é cognoscível. A consciência-deconhecer manifesta o conhecimento. O único ser consciente de ser possuidor dessa consciência é o ser humano. Embora os animais tenham conhecimento sensitivo, não pode-se chamar de verdadeiro conhecimento pois falta a consciência-do-conhecimento possuído.

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3 Tipos de Conhecimento Como exposto anteriormente são vários os tipos de conhecimento. Destaca-se os seguintes: Senso Comum; Conhecimento Mítico; Conhecimento Filosófico; Conhecimento Teológico; Conhecimento Científico.  Senso Comum O conhecimento denominado de senso comum é conhecido também como sensível, empírico, doxa, ordinário e vulgar. É um conhecimento que se desenvolve espontaneamente e por ser espontâneo é também incompleto, inexato e subjetivo. Esse tipo de conhecimento é resultante das relações que se desenvolve cotidianamente. Caracteriza-se por ser superficial, subjetivo e residir no nível das sensações. A visão que o homern tem de si e do mundo, baseada no senso comum, é pré-científica e estabelece-se no imediatismo com que o homem enfrenta a realidade. Muito embora as afirmações, oriundas do senso comum, devam ser checadas e muitas até substituídas pela ciência, deve permanecer como elemento constitutivo da cultura de um povo. Esse conhecimento traduz-se nas crendices, nos ditos populares (que dão sustentáculo para uma moral social), enfim, certo ou errado, brota do enfrentamento do homem face à existência dada.  Conhecimento Mítico Para uma maior compreensão sobre o conhecimento mítico, imagina-se o tempo em que o homem encontrava-se diante de uma realidade desconhecida que o apavorava e ao mesmo tempo o desafiava para a busca de um conhecimento capaz de explicá-la. E ali estava o homem, tendo como único instrumento para vencer o desafio de explicar a sua origem e a origem do universo e da multiplicidade de coisas nele existentes, apenas a observação da natureza. Além da origem do universo que o intrigava, ainda existiam outros fenômenos inexplicáveis como: o nascimento e a morte, os dias e as noites, o amor e o ódio, os raios e trovões, as estações do ano, a germinação das plantas enfim, tudo que compunha o universo em que vivia. Para entender e explicar esse enigma cósmico, o homem lança mão de um tipo de conhecimento como primeira tentativa para entender o real, e este conhecimento primeiro recebe a denominação de mítico-religioso, pois procurava explicar a diversidade do mundo através de estórias elaboradas com elementos concretos da realidade, geralmente dotado de poderes mágicos, onde abundava a produção de figuras de deuses e deusas. Essa fase do saber predomina até mais ou menos seis séculos a.C. quando nasce, na Grécia, a Filosofia. E o aparecimento da Filosofia acontece porque o homem observa a falibilidade do conhecimento mítico, já que o mesmo carecia de determinados critérios imprescindíveis. Carecendo de tais atributos, o conhecimento mítico não se mantinha e dava ao homem a certeza de não corresponder à verdade, logo não serviria mais como instrumento explicativo do real. Mito é um termo grego (mythos) palavra que simboliza o mundo e o interpreta por meio de símbolos. O mito é uma narrativa especial, distinta das demais narrativas humanas, capaz de revelar o pensamento de uma comunidade, em sua existência e em suas relações. O mito contém uma mensagem oculta, indireta e cifrada que esconde algo. O conhecimento mítico procura responder questões fundamentais, tais como: de onde viemos e para onde vamos? Por que estamos vivos e porque morremos? Como foi que a

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humanidade e o mundo passaram a existir? Quais são as forças que controlam o desenvolvimento do mundo? Ao tentar responder tais questões, os mitos elucidam algo que aconteceu no princípio dos tempos e explicam a concepção do mundo como mistério a partir de uma história sagrada. Segundo Mircea Eliade, em seu livro “Mito e Realidade”, o mito conta uma história sagrada relacionando um fato ocorrido em tempo primordial, ou seja, o tempo fabuloso do princípio, os seus personagens são os entes sobrenaturais e descrevem as dramáticas irrupções do sagrado, ou do sobrenatural no mundo. O mito é uma história que geralmente está acompanhada de ritos. E o que são ritos ou rituais? São as cerimônias com suas regras que nos permitem viver a dimensão do sagrado ou do sobrenatural. Os rituais invocam uma realidade que não é a nossa, que é supra, que está além da nossa realidade cotidiana e isto é feito por meio dos símbolos, tais símbolos têm a função de fazer uma re-ligação entre a realidade presente e a realidade do tempo fundamental, que no momento do ritual se renova. Essa re-ligação refere-se à religião. A palavra rito vem do latim riturs que significa celebração de um culto ou realização de cerimônia feito de acordo com certas regras baseada na tradição religiosa ou sociocultural de um povo ou grupo social. Ex: rito de iniciação em que alguém é admitido em uma seita ou ordem; rito de passageem, que marca em certas sociedades primitivas a entrada do indivíduo na vida adulta. (Japiassu o Marcondes, 1993:215). A função do mito é, portanto, interpretar a realidade sob duas dimensões: a do sagrado e a do profano, ligando as dimensões da humanidade e a da natureza, ou seja, rememorando os tempos originários da manifestação sagrada e isto é possível através do rito. “É importante ressaltar que o mito não é uma produção exclusiva dos povos primitivos no início da civilização humana, dos gregos na Antiguidade, nem dos nossos índios [...] A sociedade contemporânea continua produzindo mitos incorporados ao dia a dia que traduzem, em partes, algumas maneiras da existência humana. Basta lembrar o significado que o futebol e o carnaval têm para o brasileiro. A comemoração de casamento, aniversários, bailes de formatura, trote de calouros, Natal, Ano Novo, entre outras, também atestam um apego aos ritos de iniciação de passagem e manifestam resíduos de uma consciência primitiva e mítica que reside no íntimo de cada ser humano.” (SOUZA, Sonha Maria Ribeiro de, Um outro olhar: Filosofia. São Pauio: FTD, 1995, p 42). O mito ao tentar explicar algo o faz de forma metafórica. Como símbolos que falam da dimensão sagrada da natureza e do homem e por se expressarem na linguagem dos símbolos, a sua interpretação se dá nas vivências dos rituais cuja consciência está aberta para o mundo das emoções e da intuição. É assim que os mitos possibilitam uma fusão entre a consciência e a realidade fundamental a ser conhecida, isto é, ao mundo dos mistérios e dos sentidos. Um mito muito conhecido é o mito de Narciso. Desde que Narciso nasceu todos ficaram encantados com sua beleza excepcional. Seus pais consultaram o oráculo para saber que destino lhe estava reservado. O sacerdote respondeu que ele teria uma vida longa e tranquila, desde que nunca olhasse para sua própria imagem. Seguindo essa instrução o jovem cresceu, provocando a paixão de todas as moças da sua cidade, Téspios. Porém, ele era completamente indiferente aos seus sentimentos e jamais se enamorava de ninguém. Uma de suas pretendentes era a ninfa Eco, que, desprezada, encerrou-se em solidão; sem mais se alimentar, emagreceu até o ponto de se transformar apenas em uma voz que repetia sempre as mesmas palavras. Frustradas, as moças de Téspios pediram a vingança de Vênus, a deusa do amor. Assim, quando um dia Narciso se debruçou em um lago para saciar a sede, a deusa fez com que ele

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se visse e se apaixonasse pela própria imagem refletida nas águas. Desde então, ele se fixou de tal forma no seu reflexo que acabou morrendo no lago, sendo transformado numa flor aquática, o Narciso, que quando desabrocha, se debruça e reflete sobre as águas." (A escada dos Fundos do Filosofia, Angra - São Paulo: 2000. p, 11).  O Conhecimento Filosófico O advento da escrita alfabética, as viagens marítimas, invenção da moeda, da política, do calendário e da vida urbana entre outros, possibilitou o nascimento de um novo tipo de conhecimento capaz de fornecer respostas mais seguras para a indagação humana. Trata-se do Conhecimento Filosófico. Filosofia é uma palavra de origem grega que significa, literalmente, amigo da sabedoria. Philo, deriva-se de philia, que significa amizade. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sephos, sábio. Os livros nos falam que o termo foi inventado por Pitágoras que certa vez foi chamado de sábio e considerando tal adjetivo muito elevado, retrucou dizendo ser apenas um filósofo, um amigo da sabedoria. Não existe apenas um conceito de filosofia, uma vez que a amplitude do conhecimento filosófico é tão significativa que se torna impossível decidir por um único conceito e construir uma definição. Nesse sentido considera-se que a filosofia é aquele conhecimento especulativo e analítico sobre a realidade como um todo ou a respeito de certos problemas que não caem sob a alçada das ciências, principalmente os do conhecimento e da ação. Como não se pode decidir por um único conceito, também não se pode dizer que a filosofia tenha um objeto definido, já que ela estuda tanto a totalidade do Universo, quanto os problemas não resolvidos pelas Ciências. Primeiramente, porque todas as coisas podem ser examinadas no científico e também no filosófico, e assim, a pessoa humana, os animais, as plantas, a matéria, estudados por muitas ciências e sob diversos pontos de vista, podem ser objeto também da indagação filosófica. E por último, porque, enquanto as Ciências estudam esta ou aquela dimensão da realidade, a Filosofia estuda o todo, a totalidade, o universo tomado globalmente. Quanto ao objetivo da filosofia, pode-se afirmar que é única e exclusivamente o conhecimento, a busca da verdade pela verdade. Dessa forma, a filosofia, ao buscar a verdade não o faz de maneira aleatória, usa a reflexão, aqui entendida como re-pensar, voltar o pensamento sobre si mesmo de maneira radical, rigorosa e global. Entende-se que uma reflexão tem caráter filosófico quando:  desce profundamente até a raiz do problema (radicalidade);  usa o método adequado (rigorosidade);  mantêm as ligações necessárias com a realidade para que não se fragmente o saber (globalidade). A filosofia tem como berço as colônias gregas da Ásia Menor e Itália do Sul, mais precisamente as ilhas Jônicas, na cidade de Mileto, onde Thales de Mileto fundou a primeira escola de filosofia que se tem notícia no ocidente, determinando assim, o nascimento desse novo saber. A filosofia nasce como uma cosmologia, pois seu interesse primeiro era descobrir a origem e diversidade do universo, buscava a substância material capaz de ter originado todas as coisas. O arché dos gregos. Com os pré-socráficos começaram as indagações de caráter filosófico e coube à filosofia explicar a realidade em sua totalidade até a Idade Moderna,quando as Ciências, suas

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filhas legítimas, começaram a se tornar independentes e tentar estudar o real de acordo com sua área de interesse. A filosofia, no entanto, não se esvaziou, ao contrário, redobrou sua área de atuação, possibilitando assim soluções. Pois além de lidar com os assuntos que lhe dizem respeito diretamente, ainda preocupa-se em analisar os problemas criados pelas ciências. Para coroar seu mister, ainda realiza o difícil trabalho de costurar os vários recortes da realidade, para evitar a fragmentação do saber patrocinado pela ação isolada de cada ciência em particular.  O Conhecimento Teológico O termo “theologia” ou Theologéin é de origem não cristã. Os primeiros dados que se podem recuperar são os que ligam a “theologia” ao mito. Homero e Hesíodo são chamados “theologoi” por sua atividade peculiar de compor e tocar os mitos [...] a compreensão de teologia se relaciona e se “adapta” de caso para caso às diferentes épocas históricas com as quais vem a encontrar-se. Isto é sinal de uma característica determinante do saber teológico: a historicidade da reflexão da fé, que permite ao mesmo tempo, manter sempre viva a pergunta sobre a inteligibilidade do mistério e encontrar uma resposta que esteja de acordo com as várias conquistas do ser humano.” (Dicionário de Teologia Fundamental, p. 932). Todo conhecimento direciona-se para uma área específica, o teológico, intenta compreender a completude da realidade do homem-mundo. Busca o ser humano, e durante toda a história do pensamento humano, definir as seguintes questões: qual o meu princípio? Qual o propósito da existência humana? O que é a vida? O objetivo da teologia é oferecer essas respostas, e para isso tem como objeto de estudo os princípios da vida, onde estes não são causa de si mesmo, mas de um ser que os precede. Dessa forma, o conhecimento teológico ocupa-se então de falar da existência divina, não de demonstrá-la, visto que Deus é um ser em evidência e a priori, é um ser que não se conhece, mas em quem se crê. O método utilizado na teologia é reflexivo e lógico. Convém lembrar que, embora muitos teimem em sinonimizar, teologia é uma coisa e fé é outra.  O Conhecimento Científico Na antiguidade grega com os filósofos pré-socráticos, até a Idade Média, cabia à Filosofia explicar racionalmente a realidade, imaginar um conhecimento tão amplo a ponto de reunir sobre sua alçada assuntos dos mais variados e pertencentes à diferentes domínios do universo humano que só se pode admitir levando em consideração a amplitude da filosofia, o que foi exigindo um estudo mais especializado das diferentes áreas como a natureza, o pensamento e a ação humana. A filosofia já trazia em potência todas as Ciências e como uma grande mão foi trazendo à luz uma a uma. A primeira a nascer e se tornar independente foi a matemática, com Euclides. Mas o seu embrião já estava sendo gestado desde os Jônios, com Tales de Mileto e depois, com Pitágoras para quem o número era a essência de todas as coisas, o arché. No decorrer da História da Filosofia, encontra-se as demais Ciências, uma a uma, se tornando independentes com identidade e objetos próprios e determinados: a Física com Galileu, a Química de Lavoisier; a Biologia de Lamarck e Claude Bernard e etc...

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As Ciências Sociais foram as últimas a adquirirem tal status e prosseguirem sozinhas na comunidade do conhecimento. Com as ciências tornadas independentes da filosofia, inaugura-se um novo tipo de saber humano. Trata-se do conhecimento científico. Ao contrário do senso comum, cujas conclusões são freqüentemente marcadas pela incoerência e pela fragmentação, a ciência propõe-se a atingir resultados precisos, coerentes e de caráter universal. Nesse sentido, pode-se entender a ciência como um conjunto de descrições, interpretações, teorias, leis e modelos visando ao conhecimento de uma parcela da realidade, em contínua ampliação e renovação, que resulta da aplicação deliberada de uma metodologia especial. A ciência ao proceder suas investigações envolve um núcleo comum de atividade. Trata-se do método científico, que apresenta-se como uma estrutura lógica que se manifesta numa série de etapas que devem ser necessariamente percorridas para que se atinja a solução de determinado problema. Deve-se porém esclarecer que o método científico não pode ser visto como uma fórmula inflexível de regras capaz de garantir solução para todos os problemas. As ciências têm cada uma, seu objeto definido e é exatamente o objeto que traça os limites de sua área de atuação e interesse. As ciências encontram-se, segundo Carlos Lungarzo, em seu livro “O que é Ciência” (Brasiliense: São Paulo, 1990, Coleção Primeiros Passos), divididas em dois grandes grupos:  Ciências formais ou abstratas: A Lógica e a Matemática.  Ciências factuais: O grupo das ciências factuais subdivide-se em ciências naturais e ciências humanas. São consideradas ciências naturais: Física, Química, Biologia, Geologia, Astronomia e Meteorologia. No subgrupo das ciências humanas encontra-se: Sociologia, Antropologia, Política, História, Economia, Lingüística e Psicologia. O conhecimento científico tem como instrumento possibilitador de sua peculiaridade a estrutura lógica na qual fundamenta a busca de solução de determinado problema. Esta estrutura constitui o método científico que deverá ter percorrido todas as etapas para ter garantido o resultado visado pelo cientista, que após formular e confirmar as hipóteses deve transformar-se em leis, que por sua vez são incorporadas em teorias capazes de explicar e prever os fenômenos presentes no mundo circundante. De acordo com Japiassu (1986, p.126), as teorias são concepções sistematicamente organizadas. No contexto do conhecimento, destaca-se as seguintes teorias:  INDUÇÃO - Raciocínio ou forma de conhecimento, pelo qual passamos do particular ao universal, do especial ao geral, do conhecimento dos fatos ao conhecimento das leis.  DEDUÇÃO - Raciocínio que nos permite tirar de uma ou várias proposições uma conclusão que delas decorre logicamente.

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O conhecimento científico, através da interpretação dos fatos visa a verossimilhança, ou seja, aquilo que parece ser verdadeiro. Contudo é infundada a “crença” de que a ciência pode explicar tudo e ainda que, por suas definições, é verdadeira. Dessa forma, o conhecimento científico se baseia em fatos e tais fatos são selecionados, interpretados e marcados por teorias, o que leva a concluir que a ciência não é detentora da verdade. Nesse sentido é importante compreender que o conhecimento científico lida também com os condicionamentos dos cientistas, estes situados em seu contexto histórico, em seus diferentes pontos de vistas, o que por sua vez pode viabilizar conclusões diferentes sobre pesquisas similares. Assim, a filosofia enquanto filosofia da ciência tem a tarefa de refletir como os cientistas fazem a ciência, ou seja, de refletir os pressupostos fundamentais e os procedimentos gerais da pesquisa científica.

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Leitura Complementar : Texto 3 – As Verdades Primeiras

As Verdades Primeiras Descartes afirma que devemos rejeitar como falso tudo aquilo do qual não podemos duvidar. Só devemos aceitar as coisas indubitáveis. Mas não devemos duvidar por duvidar, como céticos, que não acreditam na possibilidade do conhecimento humano atingir a verdade. O objetivo da dúvida cartesiana é encontrar uma primeira verdade impondo-se com absoluta certeza. Trata-se de uma dúvida metódica, voluntária, provisória e sistemática. Não atingiremos a verdade se antes, não pusermos todas as coisas em dúvida. São falsas todas as coisas das quais não podemos duvidar. Por isso, Descartes rejeita os dados dos sentidos: por vezes eles nos enganam; rejeita também os raciocínios: por vezes nos induzem à erros. Assim, após duvidar de tudo, descobre a primeira certeza: o “Cogito, ergo sumo” – “Penso, logo existo”. Logo em seguida, adverte que enquanto eu queria pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade, eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as demais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalá-la, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro conceito da Filosofia que procurava. (Discurso sobre o método, IV Parte). Depois de esclarecer que ele existe, Descartes, se pergunta: quem sou eu? Identifica o eu à alma e a alma ao pensamento. Estabelece o primado do espírito, fazendo dele algo inteiramente distinto do corpo. É a tese do dualismo: a alma é uma substância completamente distinta do corpo. Depois, examinando com atenção o que eu era, e vendo que podia supor que não tinha corpo algum e que não havia qualquer mundo, ou qualquer lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas compreendi que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinto do corpo e mesmo que é mais simples de conhecer do que ele; e ainda que ele nada fosse, deixaria de ser tudo o que é. (Discurso sobre o método, IV. Parte) Mas o que sou? Uma substância que pensa. O que é uma substância que pensa? É uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina e que sente. (Meditações, 2). A segunda verdade descoberta por Descartes é a existência de Deus. A primeira verdade dizia: eu penso. Mas eu não sou só. O exame de minhas idéias leva-me a afirmar a existência de Deus. É Deus quem garante as verdades matemáticas, permitindo-nos, por suas aplicações práticas, agir sobre o mundo: fica assegurada, também a existência do mundo, campo da atividade do homem. Descartes prova a existência de Deus com um argumento ontológico (ontos: ser): por definição, o ser perfeito é aquele que possui todas as perfeições; ora, a existência é uma perfeicão; logo, o ser perfeito existe. Renê Descartes

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MÓDULO V – A ÉTICA: Noções Introdutórias e Filosóficas
Objetivos
Nesse módulo você estudará as noções introdutórias e filosóficas da ética, visando reconhecê-la como um bem essencial à todos os relacionamentos, sejam pessoais ou profissionais.

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1 Ética e Moral De forma geral os conceitos mais comuns de ética e moral, referem-se a ética como a parte da filosofia que trata das obrigações do homem e a moral como a ciência dos costumes. De maneira que, à primeira vista, observa-se que geralmente o conceito de ética reveste-se de um certo “verniz filosófico”, enquanto que moral reduz-se à uma série de normas que servem para melhor conviver no dia a dia. Seria interessante encontrar a origem do “divórcio” entre estes dois conceitos, ética e moral, que são irmãos gêmeos por nascimento. Através de uma análise etimológica de ambas palavras, verifica-se que ética vem do grego “ethos”, ao passo que moral tem sua raiz no latim “mores”, significando tanto ethos quanto mores a mesma coisa: costumes, uma vez que, originalmente, os conceitos aqui expressos são equivalentes. Entretanto, vale considerar que na antiguidade jamais se concebeu um sistema de costumes em oposição à um sistema filosófico. Muito pelo contrário, toda a filosofia tinha por mola sua aplicação direta e nenhum pensador vangloriava-se em falar e atuar de forma diferente. Ética e Moral, ou antes, a teoria e a prática, são dois aspectos de uma mesma coisa; nas palavras de Bhagavad, dois atalhos de um mesmo caminho. Se houve um fator que afetasse o desenvolvimento paralelo entre estes dois conceitos, esse fator foi o tempo e as interpretações nem sempre exatas que se forjam através da história. De que modo se recorda hoje a civilização grega? Precisamente por grandes artistas e filósofos. Isto fez com que o intelectual se convertesse no aspecto distintivo dos antigos gregos. Por outro lado, como são lembrados os romanos do Império? Por sua ação guerreira, poderosa, força e vontade inquebrantável. Se ética vem do grego e moral de romano (ou latim), esse detalhe é suficiente para identificá-la com a civilização correspondente. Eis aqui o porque a ética é o teórico, o elevado, aquilo digno dos grandes livros, ao passo que moral é o prático e direito, digno do homem de ação. Vale considerar ainda que tanto os gregos quanto os romanos (seus sucessores na História), eram homens de enraizadas idéias e convicções religiosas. Tanto um quanto outro, fosse pela via da razão ou da ação, da fé ou do acatamento das leis da natureza, buscavam unir-se, compreender, encontrar seus deuses que estavam ali, nos cumes, como que alentando a ascensão dos homens. Assim, se a Idéia dessas civilizações foi a virtude como meio para chegar à seus deuses, tanto os gregos quanto os romanos referiam-se à mesma coisa quando falavam de ética e moral. Tratava-se de harmonizar o homem, de ajudá-lo para que nele brotassem as tônicas de Justiça e do Bem que lhes permitissem beber das águas da divindade. 1.1 Ética Atemporal e Ética Temporal Se, apesar do tempo transcorrido, ainda nota-se que as virtudes que os gregos e romanos propiciavam, continuam em vigor no mundo atual, é evidente que tratam-se de conceitos que excedem totalmente os limites temporais. Quando fala-se em dotar o mundo de uma nova moral que o obrigue à sair do abismo para o qual se dirige, trata-se de uma Moral nova por que é eterna e não nova pela sua transformação. A principal característica da ética atemporal é sua capacidade de viver em todas as épocas da história, sendo, não absolutamente, sempre nova, sempre viva, sempre “uma”. Não é necessário ter estudado, nem lido muito, para que qualquer homem possa reconhecer no fundo do seu coração esta ética que não é nem sua nem de ninguém, mas de todos.

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Quais são os valores aos quais o homem finalmente se agarra? Aqueles que passam com tanta velocidade que não se consegue compreender, ou aqueles que permanecem inalterados através do tempo? É evidente que por Instinto de eternidade, o homem busca precisamente o eterno, o duradouro. É assim que termina por trilhar o caminho da ética atemporal, pela qual caminharam e caminharão todos aqueles que buscam a essência autêntica das coisas. A moral temporal é filha do tempo, e como tal, mutável e perecível. O que hoje é bom, amanhã estará fora de moda. A lei que nos rege hoje se transforma em uma aberração tão logo se imponha outra idéia, também destinada ao esquecimento perante o avanço das incessantes inovações e renovações. 1.2 Vida Moral e Vida Intelectual Não é fácil compreender a diferença entre estes dois conceitos em um mundo onde impera quase exclusivamente o culto ao intelecto. Hoje é filósofo aquele que pensa e não aquele que age. Hoje se valoriza muito a vida intelectual, mesmo que essa vida intelectual não se reflita em uma atitude coerente. A partir da análise da maioria dos correntes atuais, ve-se que o homem concebe a si mesmo como um ser múltiplo: que pensa de um mudo, estuda de outro, trabalha em algo diferente e finalmente, sua vida particular nada tem a ver com o resto. Geralmente essa desintegração conduz o homem à estados de angústia e vendo-se desconcertado perante tantas variações de “modos de vida”, ele não consegue encontrar seu verdadeiro “Eu”. Por outro lado, é possível observar algumas contradições naqueles homens que, por seu labor de pensadores, ocupam um lugar destacado no mundo intelectual. Se por um lado nos maravilham suas teorias e seus planos de progresso, imediatamente caem no pólo oposto quando se trata de levar à prática suas próprias idéias. Não trata-se de uma depreciação da vida intelectual, e sim de um pensamento de que somente ela não é suficiente. Desse modo, a única coisa que desenvolve-se é a capacidade de pensar e criar no plano mental, o que resulta em acúmulo de informações. E, em seguida, o que se faz com essas informações? Para que servem nossas teorias se não podem ser aplicadas? A vida moral implica na necessidade de viver cada uma das idéias que são aceitas como formadoras da ética. Tudo o que é pensado e aceito no plano do intelecto requer uma ação imediata, ainda que isto precise de esforço para superar os obstáculos. Dessa forma, a conduta humana será o reflexo de seu ser interior, e já não haverá necessidade de mascarar o “Eu” com ricas vestes filosóficas. 2 A Existência Ética Muitas vezes, o conhecimento de fatos ou movimentos nacionais e internacionais de luta contra a fome desperta piedade e até indignação (especialmente quando vemos o desperdício dos que não têm fome e vivem na abundância). Sentimos responsabilidade e movidos pela solidariedade, participamos de campanhas contra a fome. Esses sentimentos e as ações desencadeadas por eles exprimem o senso moral, isto é, a maneira como avalia-se a situação segundo idéias como as de justiça e injustiça, certo e errado. Em muitas ocasiões, sente-se alegria e emoção diante de uma pessoa cujas palavras e ações manifestam honestidade, honradez, espírito de justiça e altruísmo, mesmo

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quando tudo isso lhe custa sacrifícios. Constata-se que há um sentimento de grandeza e dignidade nessa pessoa e isso desperta a admiração por ela. Tais emoções e sentimentos também exprimem o senso moral, ou seja, a maneira como avalia-se a conduta e a ação de outras pessoas segundo idéias como as de mérito e grandeza de alma. São inúmeras as situações, por exemplo, se uma pessoa querida adquire uma doença terminal e mantêm-se viva apenas porque seu corpo está ligado à máquinas. Suas dores são intoleráveis. Inconsciente, geme no sofrimento. Não seria melhor que descansasse em paz? Não seria preferível deixá-la morrer? Os aparelhos podem ser desligados? Os aparelhos devem ser desligados? Ou não temos o direito de fazê-lo? O que fazer? Qual a ação correta? Uma jovem descobre que está grávida. Sente que seu corpo e seu espírito ainda não estão preparados para a gravidez. Sabe que seu parceiro, mesmo que deseje apoiá-la, é tão jovem e despreparado quanto ela e que ambos não terão como responsabilizar-se plenamente pela gestação, pelo parto e pela criação de um filho. Ambos estão desorientados. Não sabem se poderão contar com o auxílio de suas famílias (se as tiverem). Se ela for apenas estudante, terá de deixar a escola para trabalhar, a fim de pagar o parto e arcar com as despesas da criança. Sua vida e seu futuro mudarão para sempre. Se trabalha, sabe que perderá o emprego, porque vive numa sociedade na qual os patrões discriminam as mulheres grávidas, sobretudo as solteiras. Receia não contar com a ajuda e o apoio dos amigos. Ao mesmo tempo, porém, deseja a criança, sonha com ela, mas teme dar-lhe uma vida de miséria e ser injusta com quem não pediu para nascer. Pode fazer um aborto? Deve fazê-lo? Um pai de família desempregado, com vários filhos pequenos e a esposa doente, recebe uma oferta de emprego que exige que seja desonesto e cometa irregularidades que beneficiem seu patrão. Sabe que o trabalho lhe permitirá sustentar os filhos e pagar o tratamento da esposa. Pode aceitar o emprego, mesmo sabendo o que será exigido dele? Ou deve recusá-lo e ver os filhos com fome e a mulher morrendo? Um rapaz namora, há tempos, uma moça de quem gosta muito e é por ela correspondido. Conhece uma outra. Apaixona-se perdidamente e é correspondido. Ama duas mulheres e ambas o amam. Pode ter dois amores simultâneos, ou estará traindo a ambos e a si mesmo? Deve magoar uma delas e a si mesmo, rompendo com uma para ficar com a outra? O amor exige uma única pessoa amada ou pode ser múltiplo? O que sentirão as duas mulheres se ele lhes contar o que se passa? Ou deverá mentir para ambas? O que fazer? Se, enquanto está atormentado pela indecisão, um conhecido o vê ora com uma das mulheres, ora com a outra e, conhecendo uma delas, contar o que viu? Em nome da amizade, deve falar ou calar? Uma mulher vê um furto. Vê uma criança maltrapilha e esfomeada pegar frutas e pães numa mercearia. Sabe que o dono da mercearia está passando por muitas dificuldades e que o furto fará diferença para ele. Mas também vê a miséria e a fome da criança. Deve denunciá-la, julgando que com isso a criança não se tornará um adulto ladrão e o proprietário da mercearia não terá prejuízo de fato? Ou deverá silenciar, pois a criança corre o risco de receber punição excessiva, ser levada pela polícia, ser jogada novamente às ruas e agora, revoltada, passar do furto ao homicídio? O que fazer? Uma pessoa vê, nas portas de uma escola, um jovem vendendo droga à um outro. Essa pessoa sabe que tanto o jovem traficante quanto o jovem consumidor estão realizando ações de crime organizado, contra o qual as forças policiais parecem impotentes. Deve denunciar o jovem traficante, mesmo sabendo que com isso não atingirá as poderosas forças que sustentam o tráfico, mas apenas um fraco anel de uma corrente criminosa que permanecerá impune e que poderá voltar-se contra quem fez a denúncia? Ou deve falar com as autoridades escolares para que tomem alguma providência com relação ao jovem consumidor? Mas de que adiantará voltar-se contra o consumo, se nada pode fazer contra a

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venda propriamente dita? No entanto, como poderá sentir-se em paz sabendo que há um jovem que talvez possa ser salvo de um vício que irá destruí-lo? O que fazer? Situações como essas, são comuns e constantes no dia-a-dia. As dúvidas quanto à decisão a tomar não manifestam o senso moral (isto é, os sentimentos quanto ao certo e errado, justo e injusto), mas põem à prova a consciência moral, pois exigem que, sem pressão, o sujeito decida o que fazer e que justifique para si mesmo e para os outros, as razões das decisões, assumindo todas as conseqüências das mesmas. Em outras palavras, a consciência moral não se limita aos sentimentos morais mas se refere também à avaliações de conduta. Todos os exemplos mencionados indicam que o senso moral e a consciência moral referem-se à valores (justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade), sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e decisões que conduzem às ações com conseqüências para si e para os outros. Embora os conteúdos dos valores variem, nota-se que referem-se à um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem. Os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também referem-se à algo mais profundo e subentendido: o desejo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicidade. Além disso, os sentimentos e as ações morais são aqueles que dependem de cada sujeito, que nascem da própria capacidade de avaliar e decidir. 3 O Agente Moral Considera-se que o agente moral, sujeito moral ou pessoa moral só pode existir se preencher as seguintes condições:  ser consciente de si e dos outros, isto é, ser capaz de refletir e de reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos iguais à si;  ser dotado de vontade, isto é, de capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, paixões, sentimentos para que estejam em conformidade com as normas e os valores ou as virtudes reconhecidas pela consciência moral; e de capacidade para deliberar e decidir entre várias alternativas possíveis;  ser responsável, isto é, reconhecer-se como autor da ação, avaliar os efeitos e as conseqüências dela sobre si e sobre os outros, assumi-la bem como às suas conseqüências, respondendo por elas;  ser livre, isto é, ser capaz de oferecer-se como causa interna de seus sentimentos, atitudes e ações, por não estar submetido à poderes externos que o forcem e o constranjam à sentir, querer e fazer alguma coisa. A liberdade não é tanto o poder para escolher entre vários possíveis, mas o poder para autodeterminar-se, dando a si mesmo as regras de conduta. A liberdade entendida como capacidade para se autodeterminar faz com que, do ponto de vista do agente ou sujeito/pessoa moral, a ética parta de uma distinção essencial, qual seja, a diferença entre passividade e atividade. Passivo é aquele que se deixa governar e arrastar por seus impulsos, inclinações e paixões, pelas circunstâncias, pela boa ou má sorte, pela opinião alheia, pelo medo dos outros,

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pela vontade de um outro, não exercendo sua própria consciência, vontade, liberdade e responsabilidade. Ao contrário, é ativo ou virtuoso aquele que controla interiormente seus impulsos, suas inclinações e suas paixões, discute consigo mesmo e com os outros o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, indaga se devem e como devem ser respeitados ou transgredidos por outros valores e fins superiores aos existentes, avalia sua capacidade para dar a si mesmo as regras de conduta, consulta sua razão e sua vontade antes de agir, tem consideração pelos outros sem subordinar-se nem submeter-se cegamente à eles, responde pelo que faz, julga suas próprias intenções e recusa a violência contra si e contra os outros. Isto é, um sujeito autônomo e como tal, verdadeiramente livre. 3.1 Os Valores Éticos e os Meios Morais O campo ético é constituído por dois pólos internamente relacionados: o agente ou sujeito/pessoa moral e os valores morais ou as virtudes éticas, que são considerados os fins da ação ética ou a finalidade da vida moral. Do ponto de vista dos valores, a ética exprime a maneira como uma cultura e uma sociedade definem para si mesmas o que julgam ser o mal e o vício, a violência e o crime e como contrapartida, o que consideram ser o bem e a virtude, a brandura e o mérito. Independentemente do conteúdo e da forma que cada cultura lhe dá, todas as culturas consideram virtude algo que é o melhor como sentimento, como conduta e como ação; a virtude é a excelência, a realização perfeita de um modo de ser, sentir e agir. Em contrapartida, o vício é o pior como sentimento, como conduta e como ação; o vício é a baixeza dos sentimentos e das ações. Por realizar-se como relação intersubjetiva e social, a ética não é alheia ou indiferente às condições históricas e políticas, econômicas e culturais da ação moral. Conseqüentemente, embora do ponto de vista da sociedade que a institui, a ética é sempre considerada universal (universal porque seus valores são obrigatórios para todos os seus membros), de fato, toda ética se relaciona com o tempo e com a história, transformando-se para responder as novas exigências da sociedade e da cultura, considerando que o homem é um ser histórico e cultural e suas ações se desenrolam no tempo. Nesse contexto, vale considerar que além do sujeito ou pessoa moral e dos valores ou fins morais, o campo ético é ainda constituído por um outro elemento: os meios para que o sujeito realize os fins. Costuma-se dizer que os fins justificam os meios, de modo que, para alcançar um fim legítimo, todos os meios disponíveis são válidos. No caso da ética, porém, essa afirmação não é aceitável. Suponha-se uma sociedade que considera um valor e um fim moral à lealdade entre seus membros, baseada na confiança recíproca. Isso significa que a mentira, a inveja, a adulação, a má-fé, a crueldade e o medo, deverão estar excluídos da vida moral e, por conseguinte, as ações que empreguem essas atitudes e esses sentimentos como meios para alcançar o fim (no caso, a lealdade) serão imorais. No entanto, poderia acontecer que para forçar alguém à lealdade seria preciso fazê-lo sentir medo da punição pela deslealdade, ou seria preciso mentir-lhe para que não perdesse a confiança em certas pessoas e continuasse leal à elas. Nesses casos, o fim - a lealdade - não justificaria os meios - uso do medo e da mentira? A resposta ética é não. Por quê? Porque esses meios desrespeitam a consciência e a liberdade da pessoa moral, que agiria por coação externa e não por reconhecimento interior e verdadeiro do fim ético.

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No caso da ética, portanto, nem todos os meios são justificáveis, mas apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria ação. Em outras palavras, fins éticos exigem meios éticos. A relação entre meios e fins pressupõe a idéia de discernimento, ou seja, é preciso saber distinguir entre meios morais e imorais, tais como a sociedade os definem. Isso significa também, que esse discernimento não nasce com o sujeito, mas precisa ser adquirido e portanto, a pessoa moral não existe como um fato dado, mas é criada pela vida intersubjetiva e social, precisando ser educada para os valores morais e para as virtudes de sua sociedade. Entretanto, pode-se indagar se a educação ética não seria uma violência. Em primeiro lugar, porque se tal educação visa transformar o sujeito de passivo (ou submetidos à força das paixões) em ativos (ou senhores da razão e liberdade), pode-se perguntar se a natureza do sujeito não é essencialmente passional e, portanto, se for forçado à racionalidade ativa não seria um ato de violência contra a natureza espontânea, já que violência é forçar alguém a sentir e agir de maneira contrária à sua natureza. Em segundo lugar, porque se essa educação visa colocar o sujeito em harmonia e em acordo com os valores da sociedade, podese indagar se isso não acaba submetendo esse sujeito à um poder externo à sua consciência, o poder da moral social e, nesse caso, em vez de torná-los sujeitos autônomos ou livres, acabarão sendo escravos das normas, regras e valores impostos pela sociedade. Para responder à essas questões é preciso examinar o desenvolvimento das idéias éticas na Filosofia. 4 A Filosofia Moral Toda cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é, valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido e à conduta correta e à incorreta, válidos para todos os seus membros. Culturas e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças de castas ou de classes muito profundas podem até mesmo possuir várias morais, cada uma delas referida aos valores de uma casta ou de uma classe social. No entanto, a simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. Ao contrário, toda sociedade tende a naturalizar a moral, de maneira a assegurar sua perpetuação através dos tempos. De fato, os costumes são anteriores ao nascimento do homem e formam o tecido da sociedade, de modo que acabam sendo considerados inquestionáveis e as sociedades tendem a naturalizá-los (isto é, a tomá-los como fatos naturais existentes por si mesmos). Não só isso. Para assegurar seu aspecto obrigatório que não pode ser transgredido, muitas sociedades tendem à sacralizá-los, ou seja, as religiões os concebem ordenados pelos deuses, na origem dos tempos. Como as próprias palavras indicam, ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e que, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros. A filosofia moral ou a disciplina denominada de ética, nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes. Na língua grega existem duas vogais para pronunciar e grafar nossa vogal: uma vogal breve, chamada epsílon, e uma vogal longa, chamada eta. Éthos, escrita com a vogal longa, significa costume; porém, se escrita com a vogal breve, éthos, significa caráter, índole natural, temperamento, conjunto das disposições físicas e psíquicas de uma pessoa. Nesse segundo sentido, éthos se refere às características pessoais de cada um, as quais determinam que virtudes e que vícios cada indivíduo é capaz de praticar.

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A filosofia moral ou a ética nasce quando, além das questões sobre os costumes, também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e a consciência moral individuais. 4.1 Natureza humana e dever O cristianismo introduz a idéia do dever para resolver um problema ético, que é oferecer um caminho seguro para a vontade do homem, que, sendo livre, sente-se dividida entre o bem e o mal. No entanto, essa idéia cria um problema novo. Se o sujeito moral é aquele que encontra em sua consciência (vontade, razão, coração) as normas da conduta virtuosa, submetendo-se apenas ao bem e jamais a poderes externos à consciência, como falar em comportamento ético por dever? Este não seria o poder externo de uma vontade externa (Deus), que domina e impõe ao homem as suas leis, forçando-o a agir em conformidade com regras vindas de fora da consciência humana? Em outras palavras, se a ética exige um sujeito autônomo, a idéia de dever não introduziria a heteronomia, isto é, o domínio da vontade e da consciência por um poder estranho à esse sujeito? Nesse contexto, vale ressaltar que um dos filósofos que procurou resolver essa dificuldade foi Rousseau, no século XVIII. Para ele, a consciência moral e o sentimento do dever são inatos, são “a voz da natureza” e o “dedo de Deus” em nosso coração. Apesar do pecado do primeiro homem, conserva-se no coração vestígios da bondade original e por isso os sujeitos nascem puros e bons, dotados de generosidade e de benevolência para com os outros. Se o dever parece ser uma imposição e uma obrigação externa, imposta por Deus aos humanos, é porque a bondade natural do homem foi pervertida pela sociedade, quando esta criou a propriedade privada e os interesses privados. Foi ao dar nascimento à razão utilitária ou à razão dos interesses, que a sociedade silenciou a bondade natural do coração humano. Assim, longe de ser uma imposição externa, o dever simplesmente é o que força o homem à recordar a boa natureza originária, que ficaria para sempre escondida sob os interesses da razão se o dever não o fizesse recuperá-la (à lei divina inscrita na natureza e em nosso coração). Uma outra resposta ao mesmo problema, também no final do século XVIII, foi trazida por Kant. Opondo-se à “moral do coração” de Rousseau, Kant volta a afirmar o papel da razão na ética. De acordo com Kant, não existe bondade natural, uma vez que por natureza o homem é egoísta, ambicioso, destrutivo, agressivo, cruel, ávido de prazeres que nunca os saciam e pelos quais mata, mente, rouba. É justamente por isso que o homem precisa do dever, para que se torne um ser moral. A exposição kantiana parte das seguintes distinções:  A distinção entre razão pura teórica ou especulativa e razão pura prática;  A distinção entre ação por causalidade ou necessidade e ação por finalidade ou liberdade. A razão pura teórica e a razão pura prática são universais, isto é, são as mesmas para todos os homens em todos os tempos e lugares - os conteúdos dos conhecimentos e das ações podem variar no tempo e no espaço, mas as formas da atividade racional de conhecimento e da atividade racional prática ou ação moral são universais. Em outras palavras, os conteúdos do conhecimento e da ação dependem da variação histórica ou da experiência, mas suas formas independem da experiência e da história, pois dependem do sujeito transcendental. A diferença entre razão teórica e razão prática encontra-se em seus objetos. Conservando a distinção que Aristóteles estabeleceu entre teoria e práxis, Kant considera que a razão teórica ou especulativa tem como matéria ou conteúdo, a realidade exterior ao homem, um sistema de objetos que operam segundo

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leis necessárias de causa e efeito, independentemente de intervenção; em conseqüência, a razão prática não contempla uma causalidade externa necessária, mas institui sua própria realidade, na qual se exerce. Essa realidade prática é justamente a vida moral ou a existência humana em sociedade, existência que depende da ação da vontade humana, pois a sociedade é uma instituição criada pelos próprios homens. A diferença entre razão pura teórica e razão pura prática decorre da distinção entre necessidade e finalidade/liberdade. Considera-se que a natureza é o reino da necessidade, isto é, de acontecimentos regidos por seqüências necessárias de causa e efeito - é o reino conhecido pelas ciências exatas e naturais (fisica, astronomia, química, biologia). Diferentemente do reino da natureza, há o reino humano da práxis, no qual as ações são realizadas racionalmente não por necessidade causal, mas tendo em vista fins ou por finalidade. Na medida em que os fins são estabelecidos pelos próprios seres humanos, são fruto de escolhas voluntárias e, portanto, a ação por finalidade é uma ação voluntária livre ou por liberdade. A razão prática é o exercício da liberdade como poder racional para instituir fins éticos (os valores morais), ou a lei moral, que é a mesma para todos os indivíduos, uma vez que a razão prática é universal e encontra-se em todos os seres humanos. Para alcançar esses fins ou valores, os meios devem ser éticos também e por isso a razão prática institui normas para a ação ética. Ora, para quem a razão prática institui fins e normas? Para si mesma. Para quê? Para a orientação de sua conduta conforme o bem. Na medida em que a razão prática tem o poder para criar normas e fins morais para si mesma, ela também tem o poder de impôlos à si mesma. O dever, portanto, não é uma imposição externa feita à vontade e consciência humana, e sim é a expressão da liberdade, isto é, da presença da lei moral no homem, manifestação mais alta da humanidade. Obedecer ao dever é obedecer a si mesmo como ser racional. Por liberdade da vontade, o sujeito moral, isto é, a razão prática universal, dá a si mesma os valores, os fins e as normas da ação moral do homem, o que gera a autonomia. Resta, porém, uma questão: se o homem é racional e livre, por que valores, fins e normas morais não são espontâneos e precisam assumir a forma do dever de uma lei moral? De acordo com Kant a resposta é: porque não somos seres morais apenas. Também somos seres naturais, submetidos à causalidade necessária da natureza. Nosso corpo e nossa psique são feitos de apetites, impulsos, desejos e paixões. Nossos sentimentos, nossas emoções e nossos comportamentos são a parte da natureza em nós, exercendo domínio sobre nós, submetendo-se à causalidade natural inexorável. Quem se submete a eles não pode possuir a autonomia ética. Por quê? Porque impulsos, apetites, paixões são causados em nós por coisas e forças externas sobre as quais não temos domínio e às quais nos submetemos. Aqui, nossa vontade não é livre, mas constrangida por forças exteriores à ela. Para Kant o interesse é a forma natural do egoísmo, que leva o homem à usar coisas e pessoas como meios e instrumentos para alcançar o que deseja. Agir por interesse é agir determinado por motivações fisicas, psíquicas e vitais, à maneira dos animais.

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MÓDULO VI – A NATUREZA HUMANA
Objetivos
Nesse módulo você conhecerá o desenvolvimento da relação entre natureza e natureza humana, a partir da conceituação e análise dos atos humanos, liberdade e moralidade e das faculdades superiores do homem.

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1 Natureza e Natureza Humana Na linguagem comum, utiliza-se a palavra natureza em duas acepções. Fala-se da natureza da planta, do gato, do cavalo, quer dizer, de seres concretos. Mas também utiliza-se a palavra natureza fazendo relação à natureza como um todo, à Terra, ao cosmo. Em nossos dias, a compreensão da natureza em seu sentido global está muito apurada, já sendo preocupação comum à contínua agressão a ela por parte do homem, com a industrialização. Outrora, pensava-se que a dinâmica ou o vigor próprio da natureza fosse tão forte que venceria ou sobrepujaria, qualquer agressão. Hoje sabe-se que não é assim, que a natureza deve ser respeitada, que deve-se conhecer a sua dinâmica e segui-la. Por outro lado também o conhecimento da natureza individual dos seres vivos é cada vez mais profundo, principalmente graças aos avanços da Biologia. O ser humano sempre especulou a respeito da natureza. Chamou-lhe a atenção o fato de que as coisas da Terra mudam continuamente: o crescimento da planta, o ciclo da vida, o movimento dos astros, da água, do vento etc.; cada um dos seres que compõem a natureza está sujeito à constantes mudanças, como se estivesse dotado de um motor próprio. De todas as mutações e movimentos, sempre afirmou-lhe especialmente a atenção, a reprodução, o nascimento dos animais e plantas. Daí que se valesse deste fato admirável (o nascer) para se referir à natureza. Esta palavra, adotada em muitas línguas (em inglês, nature, em alemão, natur), deriva do verbo latino nascor, natus, que significa nascer, nascido; com ela se designa então a dinâmica ou a movimentação dos seres do cosmo. Os seres do cosmo têm dinâmicas próprias, modificam-se seguindo seus próprios padrões, estão dotados de motor próprio que os faz realizar certas atividades, percorrer certos cursos, circuitos ou ciclos, biológicos ou meramente físicos. O pensamento clássico se refere à isto, afirmando que a natureza é a operatividade própria dos seres. Os animais, dentre os seres naturais, são os mais operativos; mas também os minérios, as rochas, as estrelas e os planetas têm a sua dinâmica própria, fazendo parte da gigantesca movimentação da natureza. Porém, dentre os animais, por realizar operações muito mais sofisticadas e elaboradas, o ser humano, destaca-se e distancia-se dos outros. O ser humano, além de operar e de se desenvolver naturalmente, cresce, chega à puberdade, desenvolve-se, tem processos digestivos, envelhece, tem uma vida absolutamente própria. O ser humano possui uma natureza peculiar que o diferencia. O homem fala, age com liberdade, faz arte, ama, é herói, faz o bem e faz o mal... O aprofundamento na natureza do ser humano será sempre um constante desafio, porém é indispensável no estudo da ética. Trata-se de uma natureza composta de corpo e espírito, de uma natureza dotada de um componente não cósmico, espiritual, livre, denominado de alma, e graças à qual o ser humano se diferencia das outras naturezas do universo físico. O homem é uma natureza com alma. Em outras palavras: é um animal conformado ou animado por alma espiritual - é o único animal almado. Este é um dos pontos nevrálgicos da visão clássica ocidental. 2 A Liberdade A liberdade é uma das chaves da natureza humana, e um dos temas básicos da ética. É uma característica essencial do espírito do homem, em virtude da qual ele não está preso à rigidez da natureza cósmica, isto é, do universo e de suas leis; ele pode e tem que fazer à si mesmo, de maneira autônoma, desvinculada de leis compulsórias da natureza. Dizse que o homem é dotado do livre arbítrio. Pelo fato de também pertencer à natureza, o ser humano está parcialmente sujeito à rigidez das leis biológicas: na digestão, na circulação do sangue, no sono e no cansaço, em infecções. Estes são os denominados atos do homem e que ficam à margem da moral.

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A liberdade permite, porém, que o ser humano possa realizar atos à margem das leis rígidas da natureza, atos livres, voluntários. Estes são ditos atos humanos; também são atos humanos os pensamentos e as intenções. O homem os tem porque quer. A liberdade desvincula o agir humano das leis do cosmo que regem todos os outros seres; ela faz com que o comportamento de cada pessoa seja, em princípio, imprevisível. O ser humano aparece na Terra como um ser distinto que vaga errante, que faz e desfaz a seu bel-prazer, acerta, erra. São expressivas certas palavras como vagabundo (vagamundo), criativo, erradio, que se utilizam para enfatizar a conduta imprevisível e inopinada do homem. Liberdade implica autodeterminação. Ela abre ao ser humano a perspectiva de agir e de fazer-se agindo. O agir não é inócuo para a própria pessoa, ao contrário, é determinante e qualificativo. Quando um homem rouba ou tem um comportamento heróico, tais ações tornam-o ladrão, no primeiro caso, e herói, no segundo. A pessoa livremente faz a si própria, ou seja, se autodetermina. Liberdade implica responsabilidade. “Ser livre não é responder vitorioso “eu fiz”, na hora da distribuição de prêmios, mas é também admitir “fui eu”, quando se procura o culpado por um mal feito. O sujeito é livre para fazer embora não para desprender-se das conseqüências” (SAVATER, 2002, p. 115 e 117). A ética é a arte de administrar a própria liberdade, de administrar os chamados atos humanos. Tem enorme interesse prático, pois trata de responder à certas perguntas cruciais, tais como: como ser mais eu? Como desenvolver minha personalidade? Como ser feliz? Como fazer felizes meus filhos e meus amigos? E mais: como devo usar a minha liberdade? Para que serve a liberdade? Por que sou livre? Uma primeira afirmação da ética consiste em que a liberdade não está para fazer qualquer coisa, ou a serviço do agir sem rumo ou irresponsável, mas deve estar a serviço do bem. A liberdade, quando converte o bem em conduta, constrói o homem, o homem pleno e feliz. 3 A Moralidade Falar da natureza humana significa abordar o vasto campo dos atos humanos. O ser humano, de forma inteligente e livre, realiza basicamente duas classes de atividades, umas internas (pensa, especula) e outras externas (faz artefatos, produtos, armas, instrumentos, diverte-se, auxilia o amigo, leva o filho ao colégio, entre outras). Mas toda atividade humana, tanto interna quanto externa, por ser inteligente e livre, é de caráter moral, é boa ou má. Antes de realizar qualquer ato humano, abre-se perante a pessoa um espectro de possibilidades. Por exemplo: uma mãe deve escolher entre ir apanhar o filho na hora em que ele sai do colégio, ou deixá-lo aguardando enquanto vai à cabeleireira. Um pesquisador deve escolher entre extrair células-tronco de embriões ou de placentas. Um médico, solicitado por autoridades para estudar a maneira de atormentar um indiciado criminoso, tem uma decisão difícil a tomar. É nas escolhas do dia-a-dia que o homem se depara com a qualificação moral, com a opção entre o bem e o mal. Todo agir tem uma conotação moral, por assim ser a natureza humana. Por exemplo, tomar banho de chuveiro pode parecer algo indiferente, neutro, à margem da ética; entretanto, existem intenções: toma-se chuveiro como medida de higiene corporal ou demoradamente, como desperdício de água? No primeiro caso a ação seria boa e, no segundo, má. Não há atos humanos moralmente indiferentes. Do ser humano somente brotam ações ou atos com coloração ética. A visão clássica entende o bem como aquilo que é natural às coisas. Uma flor é vistosa, colorida e exala perfume. A palmeira deve ter um tronco e, no alto, um penacho de

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folhas grandes e compridas, formadas por numerosas folhinhas longilíneas, parecendo espadas. Uma flor não exalar perfume seria um mal porque lhe faltaria algo natural; de igual forma, uma palmeira sem folhas seria um mal. Dessa forma, considera-se que o mal nas coisas é a falta daquilo que deveriam ter, segundo a sua natureza. O bem e o mal éticos conceituam-se da mesma forma, mas situam-se em um outro plano, considerando que é de outro nível a natureza do ser humano. Lembre-se de que natureza é precisamente a operatividade dos seres e em se tratando do ser humano, independentemente das operações animais (digestão, respiração, reprodução), ela é principalmente racional e livre. Bem, em sentido ético, é toda ação de acordo com a plena natureza do homem, vale dizer, consoante com suas faculdades superiores. 4 Os Atos Humanos Os atos do homem são aqueles atos meramente fisiológicos, realizados sem intervenção das faculdades superiores. Por exemplo, as batidas do coração, a digestão dos alimentos, o piscar instintivo dos olhos. São atos que o homem realiza, à margem, da sua inteligência e da vontade. Atos humanos, porém, são aqueles que se realizam de maneira consciente, isto é, o homem sabe o que faz e o faz porque quer. Em outras palavras: atos humanos são realizados mediante as faculdades superiores, portanto com pleno conhecimento e vontade. Por exemplo: escrever, cantar, discutir, ver televisão, jogar futebol, estudar, tomar café, caminhar. O caminhar do sonâmbulo e o cantar do bêbado já não são atos humanos, mas simples atos do homem. A diferenciação entre atos humanos e atos do homem é essencial na Ética, pois só os primeiros têm conteúdo de moralidade; por serem obras da inteligência, da vontade ou da amorosidade, podem ser julgados pela própria consciência. Por não terem plena inteligência, devem ser excluídos do âmbito ético, os dementes, as crianças, os “atrasados” mentais e em geral, aqueles que têm comprometidas suas faculdades superiores. Considera-se que os atos humanos ou são bons ou são maus; os que parecem ser indiferentes são na realidade bons ou maus, dependendo da intenção do agente. A dicotomia dos atos humanos entre bons e maus é a mesma que existe, no direito, entre atos lícitos e ilícitos ou na religião, entre ações boas e pecaminosas. No fundo, toda essa bipolaridade do direito e da religião assenta-se na bipolaridade da Ética Natural. O objeto do ato humano é a ação específica que se realiza, como por exemplo: xingar, caluniar, cantar, abortar, correr, escrever, entre outras. Denomina-se finalidade ou fim do ato humano a intenção do seu autor. Dessa forma, observa-se que as vezes é preciso adentrar a finalidade do ato humano para classificá-lo propriamente como moral ou imoral: pois pode ser que cantar seja uma maneira de xingar e que escrever seja um meio de caluniar. Seguramente, pelo menos o autor do ato humano sabe perfeitamente qual é a verdadeira finalidade ou intenção do que realiza. A intenção do agente, sendo má, tem a peculiaridade de transformar em mau um ato que objetivamente poderia ser bom; por exemplo, cantar com a intenção de perturbar o silêncio e incomodar o vizinho. Entretanto, a boa intenção não transforma um ato objetivamente mau em bom. Roubar, por exemplo, para dar esmola, não transforma o roubo em uma boa ação. As circunstâncias, finalmente, são tudo aquilo que rodeia o ato humano: o cargo do agente, suas condições físicas, a emoção, o momento, a temperatura etc. As circunstâncias atenuam ou agravam a bondade ou malícia do ato humano. Por exemplo: o médico que, chamado às pressas, faz uma cirurgia e por sonolência comete um

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erro, encontra-se sob uma circunstância atenuante. Mas, se estiver bem acordado e por desleixo errar, então a circunstância é agravante. Finalmente considera-se que o amor une as pessoas. Quem ama doa-se ao amado porque ele, por si, atrai, cativa, fascina... e a doação chega até o sacrifício - que é custoso e gostoso. E o amado reciprocamente doa-se à quem o ama. Aqueles que se amam tendem a se identificar, sem se anular. A amorosidade é enfim essa faculdade suprema do ser humano que lhe permite amar: ao esposo ou esposa, aos pais, aos filhos, aos amigos, a qualquer pessoa, a Deus. Nesse sentido, a amorosidade humana funciona como: estímulo, impulso e força na realização de cada ato humano e sobretudo, na qualidade do ato humano. A amorosidade é base para o pleno desenvolvimento ético pessoal. O amor tem primordial importância no desenvolvimento ético das pessoas; o amor é a “música de fundo” de toda a vida ética do homem. E, reciprocamente, o amor potencializa a ética. Pode-se afirmar então que as capacidades de amar e de agir eticamente progridem juntas, levando a pessoa aos mais altos níveis de felicidade. Pode-se afirmar ainda que: se queres ser bom, ama; se queres ser melhor, ama mais; se queres ser muito bom, ama muito... até a doação total de ti. São poucos os autores que abordam o amor como elemento da Ética. No pensamento clássico, o amor aparece como uma meta, uma luz ao fundo, um presságio. Nestas linhas, porém, o amor é colocado sem rodeios como a faculdade superior por excelência. O ato humano traz consigo a moralidade da sua elaboração pela inteligência prática, a qual concebe o seu objeto e o fim. A construção própria da Ética pressupõe que o objeto do ato humano seja o principal fator determinante da sua moralidade. Caso o objeto seja bom, ou indiferente, seguese em importância à intenção do agente. O ato humano bom exige que todos os seus elementos (objeto, intenção e circunstâncias) também sejam bons. A ética clássica cunhou a expressão “Bonum ex integra causa, malum ex quoqumque defectu”, ou seja, o ato humano é bom quando o são todos os seus elementos (objeto, intenção e circunstâncias) e mau quando falha qualquer um deles. Por exemplo: um pai quer corrigir o filho, porque este cometeu alguma falha nos seus deveres, e com este propósito agride-o com violência; a despeito da boa finalidade e de possíveis circunstâncias atenuadoras, a violência incluída no objeto faz com que todo o ato se torne mau. Os obstáculos ao ato humano ético procedem ou da inteligência ou da vontade e na medida em que essas faculdades são insuficientes ou inadequadas, o ato humano perde a necessária integridade e liberdade, e sua qualidade ética fica comprometida e prejudicada. O principal obstáculo da inteligência é a ignorância, o desconhecer ou não saber. A ignorância pode ser vencível ou invencível. A primeira é aquela que se pode superar, tomando medidas oportunas (estudando, perguntando, deduzindo). A invencível, entretanto, é praticamente insuperável, por ser algo muito além do alcance da pessoa; por exemplo, o desconhecimento do índice pluviométrico esperado ou da doença que advirá por defeito genético. A diferenciação entre ignorância vencível e invencível tem conseqüências práticas. A primeira é culpável; é a ignorância, por exemplo, do médico, do contador ou de qualquer outro profissional que faz mal o seu serviço por desconhecer algo que deveria saber. Estes são os casos denominados de imperícia, quer dizer, não saber algo da profissão que se deveria conhecer. Dentre os obstáculos que afetam a vontade e consequentemente prejudicam o ato humano, destaca-se o medo, a violência, as paixões e os hábitos. O medo é a trepidação do ânimo perante o perigo presente ou futuro e quando muito intenso compromete a vontade. Quando o ser humano consegue superar o medo, o

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agente até ganha mérito e admiração: são os atos de coragem, de força, de valor, de presença de espírito. A violência pode ser de caráter físico (agressão, força) ou moral (ameaça, chantagem sentimental), e pode de fato levar o homem a agir contra sua consciência. A violência fraca ou relativa deve ser repelida, assim como a violência moral, pois não chegam a destruir a vontade; a vontade subsiste, embora, sob pressão. Já a violência absoluta, como por exemplo a ameaça armada ou a tortura, é capaz de desativar a vontade. A existência de obstáculos superáveis (medo, violência relativa, violência moral) mostra que a estrutura ética do ser humano exige esforço. É uma estrutura que se deve construir com empenho, superando dificuldades e ganhando virtudes. As paixões são próprias da vida sensorial e existem em pares de opostos: atraçãorejeição, desejo-aversão, deleite-tristeza. As paixões são movimentos da sensibilidade humana que se podem desencadear à margem das faculdades superiores. Por exemplo, porque seu filho não foi à escola, o pai de gênio forte é arrebatado pela ira e o agride; a ira compromete seriamente a vontade do pai, que talvez se arrependa depois. Os hábitos são outro fator que podem influenciar na vontade, pois deles decorrem tendências ou disposições, firmes e constantes, para agir de uma certa forma. Os hábitos bons são as virtudes e os maus são os vícios. Suponhamos o caso de um garçom, atraído pela bebida e já enveredando pelo alcoolismo; trata-se de um vício adquirido devido ao ambiente e aos repetidos goles, uma dependência química e psicológica que lhe compromete a vontade. Os vícios podem ser imputáveis, se a pessoa neles se envolve voluntariamente e podem ser meritórios se a pessoa fizer tentativas para superá-los. 5. As Faculdades superiores: Inteligência, vontade e amorosidade As faculdades superiores são aquelas que o homem dispõe e que estão a serviço da interação que se estabelece entre o ser humano e tudo quanto está à sua volta. O homem, em primeiro lugar, toma conhecimento do alimento, do vaso de flores, do cachorro, do irmão. Depois, toma decisões voluntárias acerca desses seres: preferirá certos alimentos em lugar de outros? cuidará das flores? estimará o cachorro? comunicar-se-á com as pessoas?. Finalmente, pela amorosidade, estabelece conexões íntimas com as pessoas; é uma relação única e exclusiva do ser humano. Obviamente não se trata da afetividade sensível nem do apetite sexual, mas de uma relação interpessoal mais profunda, do amor superior. Ainda que se fale, na linguagem comum, de amor às flores ou ao cachorro, na realidade não se trata da amorosidade – que somente se dá entre pessoas –, mas de uma afetividade em sentido amplo, da estima. As Faculdades superiores são: Inteligência, vontade e amorosidade.  Inteligência Mediante a inteligência, o ser humano conhece os outros seres e a si próprio. O homem é um ser ávido de conhecimento, continuamente ativo no seu ardente anseio de verdade. Em suas aspirações mais elevadas, como na filosofia, a inteligência exibe duas de suas faces, a da intuição de princípios e a da lógica. A inteligência não se satisfaz com um conhecimento pobre, insatisfatório e muito menos, com a falsidade. A inteligência, ainda que saiba de suas limitações e de que não chega nunca à alcançar a realidade mais profunda, estuda-a, continuamente. É a sede de saber e a inquietação intelectual do ser humano que explicam o progresso das ciências. A chamada inteligência prática consiste no uso da razão para agir e por isso tem especial importância no campo da ética. Em primeiro lugar, com ela todos intuem o princípio básico: faça o bem, evite o mal. Em segundo lugar, mediante exercícios lógicos, analisa os

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dados da situação e aplica aquele princípio para decidir. Ainda, a inteligência intervém de forma determinante no amadurecimento da personalidade ética.  Vontade A vontade é a faculdade que permite ao ser humano determinar-se, decidir-se, optar por isto ou aquilo, por agir bem ou agir mal. Pode-se ficar durante certo tempo hesitante entre ler um livro, por exemplo, e ouvir música; há a possibilidade de se ponderar vários argumentos a favor e contra o livro e a música. Entretanto, vale ressaltar que é a vontade que decide entre uma coisa e outra. O ato da vontade desencadeia o ato humano. Dessa forma, a vontade está presente em toda a atividade do homem. No pensar, no planejar, no exercício apenas mental, e também, obviamente, na atuação externa. A rigor, a vontade é parceira inseparável da inteligência e da amorosidade no ato humano.  Amorosidade Esta é uma faculdade importantíssima, presente em todo o processo ético e consiste na aproximação envolvente do ser humano com as outras pessoas. A afetividade interpessoal, a amorosidade, atinge uns patamares únicos, surpreendentes, muito além da estima ou da simples aprovação que se pode dedicar aos seres não pessoais que nos rodeiam. Alguns pensadores dizem que o amor é a aprovação das pessoas queridas; é exclamar perante elas: é bom que tu existas! A tua existência me faz bem! Quero o teu bem! Acontece que a amorosidade é, em primeiro lugar, tendente à reciprocidade, em segundo lugar geradora de intimidade compartilhada e, por fim, tendente à união ou compersonação. Nada disto ocorre em se tratando da estima às coisas ou animais.

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Leitura Complementar : Texto 4 – Bens e Deveres Pode-se dizer que a conduta humana se vê afetada por duas chamadas distintas, da natureza: uma que vem principalmente de dentro e outra que lhe chega de fora. Como a moral é a arte de viver bem, a arte de ter uma conduta digna do homem, considera-se a necessidade de analisar duas chamadas da natureza. A primeira é a que lhe faz o próprio ser [...] Não pode deixar de ter fome e sede; por isso, não pode deixar de desejar a comida e a bebida e de buscá-las ao seu redor. A segunda é a que lhe dirigem os seres que o rodeiam. Logo que chega a conhecê-los, coloca-se no lugar deles e percebe que também têm necessidades e, nessa mesma medida, direitos. Percebe que é mais um ser entre outros; que não pode guiar-se só por aquilo que deseja ou lhe convém; que outros seres lhe impõem obrigações. Considera-se que há muitos séculos, Aristóteles definiu como bem “aquilo que todos apetecem ou desejam” [...] Esses impulsos são reforçados pela satisfação que causa alcançar os bens (prazer) ou pelo mal que causa ser privado deles (dor). As sucessivas experiências de prazer e de dor dão forma e educam o comportamento. É por aí que se podem adestrar os animais. O desenvolvimento da inteligência amplia enormemente a possibilidade de descobrir bens, muitas coisas são úteis para conseguir ou preservar a comodidade, a segurança ou a saúde. Conforme a educação que receba, a pessoa aprende a apreciar os bens que têm a ver com a realização individual: as habilidades e os conhecimentos; as relações de amizade e amor; os bens estéticos; as virtudes morais, que tornam um homem honrado e honesto. [...] Quanto aos bens estéticos, religiosos e morais, porém, é necessária uma educação muito cuidadosa, que ensine a sua beleza. Chegar a apreciar como bens os verdadeiros bens, os que realmente nos convém, é a parte mais importante da educação. E não é fácil. A voz dos deveres é outra voz que a natureza dirige ao homem [...] “deduzimos que o que é bom para nós deve ser bom para os outros, e ao contrário, o que é mau para nós deve ser mau para os outros”. Os animais só sentem a voz dos seus instintos, mas o homem, também ouve as vozes dos seres que os rodeiam. É o que distingue a conduta humana:
Um homem normal não pode comer sossegado se tem ao seu lado alguém faminto. Talvez não lhe apeteça ajudá-lo, nem tire qualquer proveito em fazê-lo, mas sente-se obrigado a compartilhar com ele sua comida. Assim chegamos a perceber, por exemplo, que os homens que nos rodeiam precisam, além de comida, de uma palavra de alento, de um sorriso ou de um pouco de companhia. [...] Os bens atraemnos; os deveres obrigam-nos. A atração sente-se sobretudo na sensibilidade; a obrigação percebe-se sobretudo na inteligência. ... é preciso saber conjugá-los. A moral [...] é também a arte de conjugar bens e deveres, de pôr cada coisa no seu lugar, de pôr ordem nos amores. (LORDA, J. L. Moral: a arte de viver bem. São Paulo: Quadrante, 2001, p. 31 ss.)

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Leitura Complementar : Texto 5 – A Natureza Humana O meio natural do Homo sapiens é um mundo feito com tudo o que existe e também com o que já não existe e com o que ainda não existe. Um mundo que, além do mais, muda a cada momento. O modo de vida, não só dos morcegos e dos linguarudos mas também dos chimpanzés, é essencialmente o mesmo ainda que vivam separados por milhares de quilômetros. Em contrapartida, algumas centenas de metros bastam para mudar notoriamente os comportamentos dos grupos humanos. Por quê? Sobretudo pela existência da linguagem. A linguagem humana é mais profundamente diferente das chamadas linguagens animais do que a própria fisiologia humana, da dos outros primatas. Graças à linguagem, para os humanos, entram em conta coisas que já não existem ou que ainda não existem e até as que não podem existir! As linguagens animais referem-se sempre às finalidades biológicas da espécie: a gazela adverte seus semelhantes da aproximação do leão [...] “Mas a linguagem humana não tem conteúdo pré-definido, serve para falar de qualquer tema, assim como inventar coisas. Os significados da linguagem humana são abstrações, não sempre objetos materiais.” (SAVATER, F. As perguntas da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 76)

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Atividades de Aprendizagem

1) O que distingue a natureza humana da natureza dos outros seres?

2) Qual é a relação entre ética e ato humano? E entre ética e liberdade?

3) A que qualidade dos seres em geral se associa o bem? E a que qualidade dos seres humanos se associa o bem ético?

4) Qual é o papel da inteligência no comportamento ético? E o papel da vontade ?

5) Como contribui a amorosidade para o comportamento ético?

6) Dentro do campo de atuação da inteligência, qual é a função da inteligência prática? 7) O que distingue os atos humanos dos atos do homem? 8) O que são o objeto, a finalidade e as circunstâncias do ato humano? 9) Quais são as interferências que mais afetam a inteligência, com relação ao ato humano? 10) Quais são as interferências que afetam a vontade? 11) Quando deve-se considerar bom ou mau um ato humano?

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MÓDULO VII FILOSOFIA POLÍTICA E TRABALHO
Objetivos
Nesse último módulo você terá a oportunidade de refletir e compreender a filosofia política através do estudo de sua origem, conceitos, possibilidades, entraves e ainda das relações entre poder, política e cotidiano.

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1 A Filosofia Política A introdução à uma ciência não é ainda a mesma ciência, mas diz o que ela é. Dessa forma, uma introdução à filosofia política não é ainda a filosofia política, a qual entretanto define. Importa entender, o que é a ciência, fazendo uma meta-ciência. Assim, a introdução à uma ciência, ou seja, à toda e qualquer ciência, consiste na apresentação meramente formal dos procedimentos de que ela se ocupa, sem todavia, decidir sobre conteúdo posto em discussão. A introdução poderá mesmo antecipar as teses que, no curso do texto, serão defendidas, e quais as teses que serão abandonadas como falsas. Entretanto, não fará este trabalho crítico de defesa ou de refutação, durante a introdução, porque esta não tem ainda o objetivo de decidir sobre os temas anunciados. A leitura prévia dos índices dos textos é importante porque permite saber sobre o que o texto vai tratar. Assim, de imediato, distingue a ciência proposta para ser abordada, como distinta de outras, não apenas pelos seus aspectos acidentais, mas pelo que apresenta de essencial. Não obstante, os aspectos acidentais oferecem também alguma importância. Por isso, uma introdução passa logo à advertir adicionalmente para estes outros aspectos. Dessa forma, costuma abordar ainda sua importância, sua história, sua terminologia habitual (ou linguagem). Estes outros aspectos da definição, constituem os elementos acidentais. Uma vez atentos somente ao essencial, este admite ser considerado, ora como um todo simplesmente, ora como tendo partes essenciais. Em consequência, ocupa-se uma introdução à uma ciência, do que lhe é essencial como um todo. Mas este todo também se divide em partes essenciais. Nesse contexto, considera-se que uma ciência pode dividir-se em partes (por exemplo em capítulos), continuando a tratar somente do essencial. Uma introdução essencial à uma ciência se desenvolve em dois tempos, em um primeiro tempo a define e em outro a divide em partes. Uma introdução à Filosofia Política deverá, pois, dizer sobre o que trata esta disciplina. Será uma meta-política. O que se disse da introdução à qualquer ciência, se passa agora a dizer da filosofia política particularizadamente. Seguem os aspectos não essenciais à filosofia política, meramente eventuais, que assumem interesse para o bom desenvolvimento deste saber. Tais aspectos são a importância, a história e a linguagem da filosofia política. Sendo aspectos eventuais, eles diferem muito de ciência para ciência, e tomam um colorido especial na filosofia política. A importância da filosofia política se fundamenta justamente no quanto ela prepara o ser humano para a convivência. Efetivamente cada sujeito é um cidadão e deve viver conscientemente sua condição política. No estudo da filosofia política há ainda a conveniência de apontar para a história desta ciência, bem como para as dificuldades terminológicas de sua linguagem. A história da filosofia política ajuda a desvincular do conceito de política aquela confusa imagem que a envolve, em virtude de contingências que variam muito de nação para nação, de época para época. Em consequência todo o assunto se enreda em contingências históricas diferenciadas. Por isso também importa considerar a linguagem, que não costuma soar de igual modo para todos. Assim, uma introdução deve contornar estas dificuldades de questionamento, afastando previamente uma linguagem de conotações culturais variadas. Diante do exposto, destaca-se os seguintes itens em uma Introdução à filosofia política, ou seja, em uma meta-política:  definição de filosofia política;

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 importância da filosofia política;  história da filosofia política;  divisão da filosofia política. Iniciando por uma definição essencial, a filosofia política é explicada pelos seus elementos principais. Não se trata de uma definição pelas propriedades e pelos acidentes mais estáveis, que entretanto conduzem também à ela, ainda que não exaustivamente. Os elementos essenciais podem ser vários e então admitem ser enunciados variadamente. Considera-se as seguintes definições de filosofia política:  Filosofia política é a parte da filosofia moral (ou ética), que trata do dever dos homens, em função do qual estes unem as suas vontades em uma sociedade (por isso denominada sociedade política), com vistas a mutuamente se defenderem e se desenvolverem;  Filosofia política é o estudo dos fatores constitutivos da sociedade política, a saber, a união (causa formal) das vontades (causa material), de caráter natural (do ponto de vista da causa eficiente), com vistas a fins comuns, mais exatamente à defesa e ao desenvolvimento (causa final). Considera-se a necessidade de aprofundar um pouco mais essas definições, visando uma maior compreensão. Dessa forma, pode-se observar que voltados para fora de si mesmos e movidos pelo dever natural de associar suas vontades para o bem geral, os homens criam a sociedade política, que importa em vários fatores e que podem ser vistos abstratamente, em aspectos examináveis, uns depois dos outros, isto é, em forma de sistema. Trata-se do momento em que a filosofia política se encontra em andamento, caminhando pelo estudo dos seus fatores, um após outro, e que pertencem aliás à sua definição total. Este andamento consiste no esforço exaustivo de todo o tratado da filosofia política. Oportunamente, portanto, se determinará o que é a sociedade política, examinada sucessivamente pelos seus aspectos abstratos, e que são mais fundamentalmente designados pelos seus 4 fatores ou 4 causas:     a união simplesmente (ou causa formal, e que é a sua essência); os indivíduos em união (ou causa material, ou matéria social); o caráter natural da sociedade (ou causa eficiente, e que a gera); os objetivos da sociedade (ou causa final).

Antes que o tratado seja iniciado, importam ainda algumas considerações introdutórias: definição nominal, diferenciação entre filosofia política e ciência política, subdistinção entre filosofia meramente especulativa e filosofia moral (ou ética) e a filosofia política no plano da moral social (ou ética social). a. A Definição nominal de filosofia política. Os nomes também conduzem à definição da coisa, inclusive da política. Algumas denominações são mais genéricas, como união, coletividade, sociedade. As denominações se tornam de significado mais seguro, quando adjetivadas, como em união política, coletividade política e sociedade política. Outros nomes obedecem à contextos mais específicos, não oferecendo contudo dificuldade para serem identificados. Em vista de seu caráter estável, a sociedade política se denomina Estado. Todavia em sentido semanticamente mais estrito, Estado pode designar apenas a estrutura

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governamental da sociedade. Entretanto, esta distinção é sempre determinável pelo contexto, podendo então Estado ser usado em diversos sentidos. Há finalmente denominações que se usam em graus distintos do pluralismo que ocorre na sociedade política. Tais como: polis, cidade, município, província, estado federado (província), Nação (estado nacional), Organização das Nações Unidas (governo mundial), entre outras. b. A diferenciação entre filosofia política e ciência política. Tem-se aqui uma distinção que decorre da existência de dois gêneros de ciências:  o da filosofia, que estuda os objetos do ponto de vista da compreensão meramente inteligível;  o da ciência experimental (ou positiva), que estuda os mesmos objetos do ponto de vista dos que oferecem na observação experimental. O estudo da sociedade política se diz filosofia política, quando todos os objetos são examinados do ponto de vista da compreensão meramente inteligível, ou seja, como capazes de ser resolvidos neste plano da lógica interna dos seus conceitos. Diferentemente a Ciência Política (como a sociologia) é o mesmo estudo, com métodos das ciências positivas (ou experimentais), dependentes de observação e medida. Ambas - ciência política e filosofia política - são disciplinas legítimas do saber. Uma não depende da outra, mas se complementam. Entretanto, do ponto de vista sistemático interno, seja lógico-metodológico, seja da validade epistemológica, os dois gêneros de ciência não interdependem. A ciência experimental estabelece fatos e seu comportamento. A filosofia poderá estabelecer que fatos, no caso humano, podem gerar direitos e mesmo obrigações. A ciência política e a filosofia política conferem no objeto material, a união das vontades. Não conferem entretanto no ponto de vista formal, porque a primeira cuida dos aspectos decididos racionalmente, enquanto a segunda, dos aspectos alcançados e decididos empiricamente. A oscilação semântica das palavras obriga o uso cuidadoso dos termos filosofia e ciência. Quando se fala em ciência filosófica, o termo ciência está em acepção mais ampla. Neste uso é possível falar-se em filosofia política como uma ciência da filosofia. Entretanto, vale considerar que as expressões se diferenciam no uso, quando postas em oposição a filosofia política e a ciência política. Quando se fala em lei, costuma caber à filosofia determinar em que ela consiste, e a ciência política determinar sua perfeição, ajustando-a com a realidade e tendo por base a experiência. c. A filosofia política como ética social. Como parte de um todo maior, no quadro geral das ciências, a filosofia política é efetivamente uma ética social. Com mais precisão, a filosofia política, enquanto parte da ética, estuda a sociedade política, enquanto esta união de vontades surge como um “dever ser” do comportamento humano. Nesse contexto, não considera-se a filosofia política uma das grandes divisões da filosofia, e sim uma das muitas partes em que se divide e redivide a filosofia moral. Do ponto de vista ético, portanto, as conclusões a que chegam as ponderações da filosofia política importam em conclusões especificamente éticas, tais como:  Devem os homens associar-se;  Devem os homens cooperar nos fins gerais. Dessa forma, a ética social enfoca o aspecto moral. A ciência política e a filosofia política, embora confiram no objeto material (a união das vontades), se diferenciam no ponto de vista formal, porque a primeira cuida dos aspectos decididos racionalmente, enquanto a segunda, dos aspectos alcançados e decididos empiricamente.

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Entretanto, vale considerar que tanto a ética quanto a filosofia política, são filosóficas e se ocupam da sociedade política, sob o mesmo ponto de vista, - o “dever ser” do associamento dos homens. A filosofia política ensina o que fazer e o que evitar na vida pública. É incontestável e de fácil percepção que a filosofia política é importante, porque diz respeito aos homens, sob aqueles aspectos que os unem entre si. Na sociedade, o acerto ou o erro se torna de alcance mais geral, por causa da magnitude dos atingidos. O que acontece no plano familiar atinge sempre um número menor de pessoas. Finalmente o que acontece com o indivíduo, poderá atingir talvez somente a este. Por isso, a importância do estudo da sociedade dos homens. O estudo da política é uma advertência constante contra a desordem pública. A vida quotidiana mostra como as coisas políticas acontecem. A frequência com que se utiliza a desordem pública, mesmo por ocasião de greves legítimas, como instrumento de solução dos problemas sociais, somente é possível em sociedades politicamente despreparadas. A desordem pública é gerada com mais frequência pelos jovens, sobretudo quando ainda adolescentes. Isto acontece, ou porque não tiveram tempo para atingir a maturidade política, ou ainda porque as sociedades em que vivem os mais velhos não conseguiu formá-los, nem pelo ensino, nem pelo bom exemplo. Apesar das atenuantes alegadas, nenhuma greve legítima pode permitir-se a desordem pública. Entretanto, os jovens não devem ser afastados da política. Cedo, já como estudantes, os jovens deveriam envolver-se com a política, aprendendo pois, na prática, a se ocupar com as coisas públicas e com procedimentos legítimos. Nesse contexto, considera-se que na vida diária, as pessoas se referem à política como a ação do Estado e da organização institucional. Assim, o termo é utilizado para descrever a atividade parlamentar de um determinado político eleito, a ação dos partidos políticos por ocasião de campanhas eleitorais ou ainda, para se referir ao ato de votar e escolher representantes que exercerão o mandato e decidirão em nome dos eleitores. A política apresenta-se como a arte de governar. Vale ressaltar que o termo também expressa a multiplicidade de situações em que a política se manifesta: política econômica, política sindical, política ecológica, política das igrejas. Nesse sentido, entende-se a política como a atuação de instituições ou de segmentos da sociedade civil com a finalidade de alcançar determinados objetivos. Trata-se de uma política reduzida aos espaços institucionais, dos quais os indivíduos participam ocasionalmente. No entanto, ao contrário do que possa parecer, a política não diz respeito apenas aos políticos, mas à todos os cidadãos. A palavra política origina-se do grego pólis, que significa “cidade”, que caracterizava-se como uma unidade de vida social e política autônoma, da qual os cidadãos gregos participavam ativamente. A política apresenta-se hoje como a arte de governar, de atuar na vida pública e gerir os assuntos de interesse comum. Não se restringe à atividade desenvolvida no âmbito do Estado, mas permeia todas as formas de relacionamento social: no trabalho, na escola, nas ruas, no lazer e até nas relações afetivas. Dessa forma, a política consiste no conjunto das relações de poder vividas na sociedade.

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O poder, a política e o cotidiano

A vida e a individualidade do homem se constroem a partir de determinadas relações sociais das quais ele participa. Para que a sociedade funcione, é necessário que os indivíduos se submetam à regulamentos, acatem valores e se conformem a uma determinada situação. As normas, leis e disciplinas às quais precisamos nos submeter para conviver na sociedade implicam em relações de poder. O poder, portanto, não se limita à organização do Estado, mas está presente em todas as relações sociais. Assim, na família, o sujeito é geralmente orientado pela afetividade e pela autoridade dos pais; na escola, pela dedicação e autoridade dos professores, que ensinam e decidem sobre o saber do estudante por meio de avaliações; no trabalho, os empregados se submetem à disciplina, horários e técnicas para manter ou aumentar a produtividade na sua unidade de trabalho; no hospital, os médicos decidem sobre o que é melhor para o paciente; no trânsito, é preciso respeitar os sinais convencionais, para garantir a própria vida e a dos outros; nas igrejas, os padres e pastores orientam a vida dos fiéis; no mercado, o comprador precisa de dinheiro para adquirir o que deseja. Enfim, todas as situações vivenciadas envolvem relações de poder que engendram e mantêm a ordem social. Dessa forma, o poder consiste em um conjunto de relações de força que indivíduos ou grupos sociais estabelecem entre si a partir de sua situação na sociedade. Considera-se a força como a capacidade de estimular ou inibir ações, não pela coerção ostensiva, mas sim pelo lento processo de formação do comportamento humano e da assimilação de valores ao longo da vida. Trata-se de uma forma sutil de coerção e por isso, mais eficaz e duradoura. Essa força consiste na autoridade e disciplina as quais o sujeito é submetido na família, na escola, nas igrejas, enfim, na sociedade em geral. As relações de poder estabelecidas no cotidiano fazem parte do contexto amplo da organização social e política moderna, em que a acumulação e a concentração de riquezas, que são a base da produção capitalista, geram relações sociais e políticas desiguais e excludentes. A vida organiza-se conforme uma hierarquia social em que alguns indivíduos ou grupos sociais estão em posição superior e podem influir na vida e na atividade de outros indivíduos ou grupos sociais em posição inferior. Enfim, há grupos que dominam, ordenam e dirigem, e outros que são dominados, obedientes e dirigidos. Nesse contexto, poder significa a dominação exercida pelo Estado e que se estende à todas as relações sociais. Se a política faz parte da vida do homem, estando presente em todas as relações sociais, por que essa forma de vivência não é consciente e por que a participação política do indivíduo é tão limitada? Para compreender essas questões, é necessário considerar as condições modernas da política. Em geral, a forma de governo dos Estados modernos é a democracia representativa, caracterizada pela constituição de poderes autônomos entre si (Executivo, Legislativo e Judiciário), organizados com base na ordem jurídica instituída (Constituição, leis, etc.), pela existência do voto secreto e universal e pela ação dos partidos políticos, que expressam a diversidade de pontos de vista sociais. Nesse contexto, a participação política dos indivíduos parece limitar-se à escolha dos representantes para os cargos eletivos entre os candidatos de vários partidos. A ação política parece concentrar-se no Estado, na estrutura institucional e na atividade dos políticos eleitos pela sociedade. Estes, quer o enunciem claramente ou não, representam os interesses de grupos sociais: há políticos que se empenham na defesa dos direitos civis, na ampliação dos espaços de participação política e no respeito à coisa pública, agindo com dedicação e transparência. Mas há também políticos que se dedicam aos favorecimentos, confundindo o espaço público com o privado, ao utilizar-se do poder que lhes foi delegado para beneficiar grupos particulares.

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REFERÊNCIAS CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2005. ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Martin Claret, 2001. ARISTÓTELES. A Ética. São Paulo: Martin Claret, 2001. PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2002. MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2003

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