Você está na página 1de 9

Psicologia & Sociedade; 21 (2): 157-165, 2009

GENEALOGIA DO BIOPODER
Luiz Alberto Moreira Martins Carlos Augusto Peixoto Junior Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil RESUMO: O objetivo do presente artigo, é rastrear os elementos, as questões e problematizações que possibilitaram à Michel Foucault, a elaboração dos conceitos de biopoder, biopolítica, governamentalidade e segurança. Pretendemos neste trabalho, investigar a genealogia do biopoder e da biopolítica, buscando retraçar nas reflexões de Foucault, em torno da medicalização da sociedade e da extensão do poder médico, no período 1974-1976, especialmente nas conferências da UERJ, todo um questionamento que preparava a emergência das noções de biopoder e biopolítica, tal como foram propostas por ele em 1976. Podemos supor que a articulação feita por Foucault, entre a medicalização da sociedade e o governo da vida foi uma das condições que tornaram possível a emergência da hipótese do biopoder. PALAVRAS-CHAVE: biopoder; biopolítica; governamentalidade; segurança; população. GENEALOGY OF BIOPOWER ABSTRACT: The objective of the present paper is to trace the elements, the questions and problematizations that rendered possible to Foucault the elaboration of the concepts of biopower, biopolitics, governmentality and security. In this work we intend to investigate the genealogy of biopower and biopolitics, seeking to retrace in Foucault’s reflections around the medicalization of society and the extension of medical power — in the period 1974-1976, especially in the lectures at UERJ — the questioning that prepared the emergence of the notions of biopower and biopolitics, as proposed by him in 1976. We can suppose that the articulation made by Foucault between the medicalization of society and the government of life was one of the conditions that rendered possible the emergence of the hypothesis of biopower. KEYWORDS: biopower, biopolitics, governmentality, security, population.

O objetivo do presente artigo é o de rastrear os elementos e articulações que possibilitaram a Michel Foucault a elaboração dos conceitos de biopoder, biopolítica, governamentalidade e segurança. Pretendemos fazer uma genealogia do biopoder e da biopolítica, buscando retraçar os caminhos que tornaram possível a construção dessas noções. As questões e problematizações em torno das noções de biopoder, biopolítica e população já estavam presentes no pensamento de Foucault, ainda que de forma germinal, pelo menos desde 1974; podemos constatar isso nas três conferências do Rio de Janeiro, realizadas no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em outubro daquele ano, e mais tarde, em 1976, no artigo “La Politique de la santé au XVIII siècle” (Foucault, 1976b), trabalho que foi reeditado com modificações e acréscimos em 1979 (Foucault, 1979/2001d). As conferências do Rio de Janeiro tinham como tema geral o nascimento da medicina social, no contexto da medicalização da sociedade, o que, segundo Foucault, teve início no século XVIII, e evidenciam o

papel central desse tema na elaboração posterior dos conceitos de biopoder e biopolítica, articulados com a noção de população. Essas conferências fazem parte das investigações apresentadas por Foucault, no ano seguinte, no curso Os anormais (Foucault, 1975/2002). Na ocasião, a disciplina constituía ainda a grade de investigação privilegiada por ele em sua abordagem sobre o poder, tanto que um dos objetos de análise era uma instituição disciplinar: o hospital. No entanto, já é possível encontrar nesse momento de sua produção todo um questionamento a respeito das relações da medicina com a população, com o meio urbano e com a doença como fenômeno natural, marcado por regularidades. As relações entre a medicina e a economia política, a estatização da medicina e o governo da vida também estão presentes nessas conferências, temas que serão retomados nos cursos Sécurité, Territoire, Population, em 1978, e La Naissance de la biopolitique, em 1979. Há, enfim, nessas conferências, vários elementos que se articulam com a emergência dos conceitos de biopoder, biopolítica das populações, governamentalidade e segurança.

157

“Genealogia do biopoder” Na primeira conferência. mas começam a fazê-lo no nível da própria vida e de seus acontecimentos fundamentais” (Foucault. por fim. sobre uma instituição ou sobre as regras que concernem à saúde e à doença. Staatswissenshaft. p. L. no século XVII. p. ela na verdade 158 . desde o Império romano. sua transformação em instrumento terapêutico.” (Foucault. quer dizer. mas como modos de governar. a partir daí. 1976/2001a. não apenas enquanto doutrinas econômicas. condições de vida e qualidade da saúde da população (com suas taxas de natalidade e mortalidade). 1984. A. na segunda metade do século XVIII. que serão abordados nos tópicos seguintes. Dreyfus & Rabinow. Se até o século XVIII as teocracias europeias incluíam entre suas tarefas a salvação das almas. p. como práticas de governo que visavam a “regular as correntes monetárias internacionais. já que se propôs a cuidar das almas e salvá-las. 210). Com o mercantilismo. no campo das técnicas políticas. 212). com a constituição da medicina urbana. 306).2 a medicalização do hospital. “O médico e o biólogo não trabalham mais. doravante. O poder dirigido para a salvação das almas se transformou e. etc. C. a população é a força que produz essas riquezas. os fluxos correspondentes de mercadorias e a atividade produtiva da população. 1976/2001a. são: o aparecimento da autoridade médico-política e a instauração da medicina de Estado e da polícia médica. A política mercantilista assentava-se essencialmente sobre o crescimento da produção e da população ativa” (Foucault. a Staatzmedizin dos alemães. Foucault aborda aqui mais um tema que será retomado em Sécurité. das cidades e da população. no que tange ao surgimento de uma autoridade médica – autoridade social e política. da sociedade e da população a quatro processos ligados à expansão do domínio do saber médico. etc. Essas considerações se situam na raiz do que mais tarde será o conceito de biopoder. 1977/2001b. sustentada pela polícia médica. a ampliação E implica ainda os métodos pelos quais o Estado produz e acumula conhecimentos que possibilitam o seu funcionamento. 1976/2001a. 48). em outros trabalhos: a relação entre o pastorato1 cristão e o governo dos homens. 1976/2001a).” (Foucault. pela entrada da vida na história. É o que Foucault. começa a ser preparado e construído o regime sob o qual vivemos hoje. A.Martins. e também no que se refere ao funcionamento da máquina política estatal (Foucault. quer dizer. que decide sobre a cidade. p. É nesse contexto que a saúde da população torna-se objeto de preocupação e avaliação para os Estados emergentes da Europa. 1984. em especial na segunda metade do século XVIII. da polícia e de uma ciência do Estado. p. M. 50). juntamente com a extensão do seu território e a importância de suas riquezas. a partir das práticas derivadas do cameralismo e do mercantilismo. no início do século XVIII e estava articulada com a “estatística” como ciência do Estado. se infiltra no corpo social. Ainda que os mercantilistas tenham sido os primeiros a considerar a população essencialmente enquanto força produtiva. 50). Afinal. a constituição de “mecanismos de administração médica: registro de dados. Crise de la médicine ou crise de l’antimédicine? (Foucault. Foucault aborda um tema que será retomado mais tarde. apoiada pela integração do seu saber a estratégias emergentes de governo. a qual abordaremos adiante. A vida em seu conjunto passa a ser objeto de preocupação do Estado. de uma reflexão calculada sobre o Estado. estabelecimento e comparação de estatísticas. “Desde o século XVIII. o princípio mesmo. O cristianismo. dos domínios da medicina para além dos doentes e da doença. Essa ciência do Estado implica admitir um saber do Estado. a partir do século XVII. 43). Até o período mercantilista. e que caracterizam a medicina deste período. fez da alma um dos objetivos da intervenção do “Estado”. A salvação espiritual assume então uma forma terrestre. A medicina do Estado teria surgido na Alemanha. a saúde corporal. p. da riqueza e da potência do Estado. de relações de interferência entre os movimentos da vida e os processos históricos. Os quatro processos. ou seja. Foucault atribui a medicalização da medicina. denominou bio-história. A medicina passa a intervir num campo mais amplo da existência do indivíduo e da população. nesta primeira conferência. com o enfraquecimento da instituição eclesiástica. Territoire. ele se desdobrou e se estendeu para o Estado em sua forma moderna. Se até o século XVIII a medicina se ocupava do doente e das doenças. a relação entre doença e saúde. Population e em La Naissance de la Biopolitique. e. a constituição. 1976/2001a. – vale assinalar que estamos falando de uma medicina de Estado. a medicina não cessou de se ocupar daquilo que não a concerne. e passa a ter como objetivos a saúde e o bem-estar da população (Foucault. por meio da intervenção médica. Ciência do Estado e Polícia Médica Primeiramente. um novo regime de historicidade. “Nós vivemos sob um regime para o qual uma das finalidades da intervenção estatal é o cuidado do corpo. no nível do indivíduo e de sua descendência. p. a população aparece como o elemento fundamental. houve depois disso uma progressiva medicalização do Estado. quanto aos seus recursos naturais. daquilo que não se liga aos diferentes aspectos dos doentes e das doenças” (Foucault. 1977/2001b. Essa ciência do Estado começa a se forjar no século XVII. uma “somatocracia”. etc. a população aparecia apenas como um dos elementos que refletiam a potência do soberano. que se define enfim. e Peixoto Junior.

tornou obrigatório o recurso a mecanismos de regulação homogêneos e coerentes” (Foucault. 323). No primeiro modelo. 59). por fim. O estudo englobava. moradias decentes. com o mercantilismo e o cameralismo. o projeto de saúde pública de Frank enquanto “organização de um saber médico do Estado. População. seu comércio.634) Nessas condições. tudo e todos eram constantemente vigiados e controlados. ainda não havia modalidades de intervenção para melhorar a saúde da população. (Foucault. O que estava em jogo nessas doutrinas e nessa forma de racionalização do exercício do poder era o crescimento da potência e da riqueza do Estado. Tratava-se 159 . os casos de lepra. sua população. eram centros produtores. isso só foi possível porque essa população acabou sendo “efetivamente adestrada. para proteger a vida dos indivíduos. todos os movimentos eram registrados. em outubro de 1982. o sujeito/objeto população não tinha. sua localização. 2004b. Foucault atribui a introdução da polícia médica a um autor alemão. “A estatística torna-se necessária pela polícia. “O momento da peste é o momento do policiamento exaustivo de uma população por um poder político.647). ligado ao desenvolvimento da medicina social e da medicalização da sociedade. 216). entre 1779 e 1790. da normalização da profissão médica. a vida torna-se então objeto de governo. o objeto desse campo. A noção de população. o que se buscava com isso era uma purificação do meio urbano. p. ou seja. Johann Peter Frank. No segundo modelo. separavam-se. p. 2004b. o que seria o primeiro tratado de saúde pública. 1988/2001e. intitulado “La technologie politique des individus” (Foucault. 1997/2005. repartida. ela era ainda pensada em termos jurídicos. não se excluía. a saúde pública. no século XVIII. pp. Foucault retoma esse mesmo autor. nem tampouco se emancipado do poder do Estado. mais propriamente. distribuída. 21 (2): 157-165. p. o fundamento da riqueza do Estado. 1977/2001b. com rigor. enquadramento disciplinar: tudo isso forma considera que essa tecnologia de poder começa a se desenvolver a partir do século XVII como o “conjunto de meios pelos quais pode-se fazer crescer as forças do Estado mantendo-o ao mesmo tempo em boa ordem” (Foucault.Psicologia & Sociedade. como “a coleção de súditos de um soberano” (Foucault. comum nas sociedades ocidentais desde a Idade Média. mas ela torna-se igualmente possível pela polícia” (Foucault. suas riquezas. A Medicina Urbana O segundo processo. seu tempo. p. foi o nascimento da medicina urbana. Para alcançar esse objetivo. cujas ramificações capilares atingem sem cessar o próprio grão dos indivíduos. o que implica um saber sobre o próprio Estado. a força dos indivíduos. o poder político da medicina dividia a cidade em setores e subsetores. sem esquecer as instituições médicas necessárias à boa saúde da população. 2004b. No entanto. 1. 2009 Assim. ainda. 1988/2001e. p. Esse é o momento em que emerge um domínio específico de conhecimento: a estatística. etc. excluindo-os do espaço comum. 321). vai ser elaborada. sua produção. utilizado no final do século XVII e início do XVIII para combater a peste. da cidade.” (Foucault. Essa medicina surge com o desenvolvimento e as transformações das estruturas urbanas. o desenvolvimento das cidades e a indústria nascente também contribuíram para a formação de uma população operária e pobre. seu hábitat. na medida em que torna possível a emergência desse campo de saber que é a estatística. p.632-1. adquirido sua autonomia. A polícia. por meio da intervenção do conjunto de práticas que constitui a polícia. mas também um lugar de produção. As grandes cidades. num dos seminários na Universidade de Vermont. ao mesmo tempo. 72). o Estado passa a se encarregar da vida individual e coletiva. ou polícia médica. 1. 214).. força produtiva. a longevidade. do projeto e da prática política dos mercantilistas. da subordinação dos médicos a uma administração geral e. As formas de intervenção organizadas e refletidas em torno da melhoria da saúde pública surgem na Alemanha com o conceito de Medizinischepolizei. Além disso. constitui. p. Nesse contexto. o Estado deve conhecer suas forças. 1977/2001b. submetida aos dispositivos disciplinares. princípio de riqueza. a obra de Frank é o primeiro grande programa sistemático de saúde pública para o Estado moderno. seu corpo” (Foucault. “O fato de que a cidade não era somente um lugar de mercado. como objeto autônomo de reflexão política. embora os mercantilistas e cameralistas considerassem a população. Foucault aborda os exemplos que serão tratados no curso de 1975. Ele indica com um luxo de detalhes o que deve fazer uma administração para garantir uma revitalização geral. a população. ao mesmo tempo em que centralizavam as atividades comerciais. No caso da peste. p. essa polícia médica é elemento de um conjunto tecnológico mais amplo: a polícia. Ora. Foucault uma unidade no interior do pensamento. Os anormais: o sistema de exclusão da lepra e o sistema de quarentena da peste. 2004b. da integração dos médicos numa organização médica do Estado” (Foucault. Segundo Foucault. O modelo da quarentena da peste visava a “maximizar a saúde. mas sim incluía. enfim. Quer dizer. Oito anos depois. 71) só pôde ser considerada nesses termos porque estava submetida a um regime disciplinar e enquadrada por um aparelho regulamentador. fixada segundo os mecanismos disciplinares. o qual publicou em cinco volumes. cujas propostas iam muito além do simples levantamento das taxas de natalidade e mortalidade. já no contexto de uma reflexão sobre o biopoder e o governo político das populações.

Quando Lamarck quer designar o conjunto das ações que se exercem do exterior sobre o vivente. 2004b. ainda que não enunciada. no entanto. nas práticas emergentes da medicina urbana. a origem e a propagação de diversas enfermidades. 1978/2001c. da população no interior dessa análise dos seres vivos que permitiu passar da história natural à biologia” (Foucault. Foucault retomará essa temática do espaço urbano. a história natural. na visão foucaultiana. e entende.Martins. 1978/2001c. pôde haver uma passagem do sistema classificatório para a análise interna do organismo e. 80). p. C. o autor descreve a transformação do hospital geral. dos arquitetos e dos primeiros urbanistas. estudar a distribuição e organização dos elementos indispensáveis à vida no espaço da cidade. Territoire. dos processos físico-químicos. Lamarck fala sempre de meios. p. tendo como pano de fundo a governamentalidade. ambiente ou meio ambiente. (Canguilhem. mas sempre “circunstâncias influentes”. 1978/2001c. o conceito de meio ambiente que os naturalistas do fim do século XVIII. a noção de naturalidade atribuída a certos fenômenos. proveniente da física newtoniana. a espécie/tipo – como di- 160 .4 Quanto a essa última ideia. 58). 223). que “é a problematização. e Peixoto Junior. que é a dos dispositivos de segurança. quer dizer. todo um processo de medicalização do hospital. p. p. 517). iriam desenvolver” (Foucault. A. Population. seus procedimentos de vigilância e controle. A higiene pública se constitui como “técnica de controle e de modificação dos elementos do meio que podem favorecer esta saúde ou. Todos esses objetivos se articulavam a saberes emergentes. ela já se fazia presente. Se a noção de meio ainda não havia sido formulada de modo explícito pelos saberes médico e urbanístico da primeira metade do século XVIII. 1997/2005. O fato de a doença passar a ser considerada fenômeno natural introduz duas questões importantes: primeiro. não como prolongamento refinado da tecnologia disciplinar. do ar. Se em termos nocionais mais específicos ela não existia propriamente. e às condições de vida da população e aos seus hábitos. “eu diria que o esquema técnico dessa noção de meio. muito mais do que uma medicina dos corpos. o que se torna possível graças à “introdução dos mecanismos disciplinares no espaço desordenado do hospital” (Foucault. sem que o termo todavia aparecesse. 1977/2001b. ele não diz jamais o meio. no início do século XVIII – ele funcionava como instituição de exclusão e de assistência ao mesmo tempo. Vejamos a noção de meio ambiente. que obedece a leis naturais” (Foucault. da água. dos alimentos e mercadorias. como Cuvier. Population. doentes. os quais poderiam ser focos de enfermidades e de epidemias. que atribuíam a aspectos do meio. com Lamarck. esgotos. p. o modelo do hospital geral como lugar dos excluídos.3 e depois com Cuvier e Darwin. o que nós hoje chamamos de meio. “do organismo na sua coerência anátomo-funcional às relações constitutivas ou reguladoras desse organismo com o meio de vida” (Foucault. depois. “L’incorporation de l’hôpital dans la technologie moderne” (Foucault. mantendo. etc. segundo ele. 517) e à extensão da prática da medicina. L. que se volta agora para os problemas do ambiente. e ali se misturavam loucos. O Meio Ambiente e a Naturalidade dos Fenômenos O terceiro processo. no interior do espaço urbano. ainda não estava presente no início do século XVIII. Está em jogo. 131) A referência epistemológica de inteligibilidade das doenças nessa época ainda era o sistema classificatório de Lineu. e que podem então afetar a saúde dos indivíduos. 79). pp. com isso. 1977/2001b. para depois nos determos sobre a concepção da naturalidade dos fenômenos. mas no contexto da emergência de uma nova tecnologia do poder. o ar e a luz. é abordado por Foucault na terceira conferência. “Essa medicina das coisas esboçava já. estritamente os fluidos como a água. prostitutas. A medicina urbana e a higiene pública. “Genealogia do biopoder” no fundo de produzir uma população sadia” (Foucault. em seguida. tais como fontes. p. A medicina urbana se constitui então muito mais como uma medicina dos elementos e das coisas. dos mecanismos disciplinares e de uma nova “arte de governar”. enfim. dos problemas de circulação e do meio ambiente no curso Sécurité. Somente com as transformações que tiveram lugar a partir da segunda metade do século XVIII e início do XIX. a qual remete aos elementos que constituem o estado do meio ambiente. toda sorte de excluídos – em instrumento terapêutico e de cura. em Sécurité. a noção de meio é contemporânea da emergência do conceito de organismo e da passagem da história natural para a biologia. Foucault afirma. p. 1975. controlar a circulação. O modelo da peste vem substituir a grande internação. Territoire. então. prejudicá-la” (Foucault. Com a medicina urbana surge também a noção de salubridade. de forma indireta. 222). no plural. e. M. A noção de meio. A introdução do modelo da peste marca a emergência das tecnologias positivas de poder. seriam um prolongamento refinado do modelo da quarentena. mais familiar. a noção de meio. p. “na medida em que a doença passa a ser considerada como um fenômeno natural. 2004b. Como se vê. Essa medicina teria se constituído em torno de alguns objetivos principais: analisar os lugares de acúmulo de restos e dejetos. A. 508-521). Ela só vai aparecer na biologia. Nela. ao contrário.

e que envolvem as noções de biopoder. do comportamento e da existência. o quarto processo ao qual Foucault atribui a medicalização da sociedade é a articulação da medicina com outros saberes.Psicologia & Sociedade. no ambiente. mas tudo àquilo que. na relação entre escassez e elevação dos preços. que não é inteiramente controlável. de um novo dispositivo de poder que será por ele descrito em 1978. Quando a população se constitui como um elemento a ser considerado. tinha que ser coordenada e integrada ao desenvolvimento do aparelho de produção. que era a população” (Foucault. pela medicalização cada vez mais intensa das condutas. ela ainda estaria presente na extensão do campo de intervenção médica para o espaço urbano. uma arte de menos governar. Ela não é exclusiva do pensamento médico. que então emergia. A medicina que se forma no curso do século XVIII é ao mesmo tempo uma medicina do indivíduo e da população. 1976b.5 Enfim. 22). A partir das transformações que conduziram a uma medicalização da sociedade. porque atua cada vez mais “para além de suas fronteiras tradicionais definidas pelo doente e pelas doenças. a temperatura. a circulação de mercadorias e riquezas e os hábitos – que ela pode emergir como população. pode favorecer ou dificultar o surgimento da doença: o ar. “La Naissance de la Médicine Social”. Segundo Foucault. Esse tipo de medicina não visa à doença em si. ligados à vida humana. começa a não ter mais domínio que lhe seja exterior” (Foucault. 51). como dispositivo de segurança ou de regulação: “A economia política pôde se constituir a partir do momento onde. 521). também é estudada neste artigo. a umidade. “La politique de la santé au XVIII siècle”. Foucault volta a tratar da importância da polícia como um dos elementos que tornou possível a formação de uma política de saúde no 161 . o seu ambiente material. a qual se desenvolveu no fim do século XVIII – que vai possibilitar a emergência de uma nova racionalidade governamental.” (Foucault. poderíamos concluir que a medicina. Além disso. “um domínio de saber novo que é a economia política” (Foucault. é essa concepção de naturalidade – de uma aleatoriedade inevitável de um conjunto de fenômenos. na dimensão disciplinar. A questão da arte de governar e sua relação com a política médica. Na análise histórica que Foucault empreende sobre a medicalização da sociedade. a alimentação. ideia constitutiva do conceito de biopoder. sobretudo a estatística. Nessa teoria. biopolítica. 1976/2001a. A medicina social se fundamenta numa tecnologia que atua sobre o corpo social. apareceu um novo sujeito. toda a análise econômica está centrada na ideia da naturalidade dos processos envolvidos. 14). que intervém sobre cada um e sobre a população. que emerge no século XVIII. Apesar de a dimensão coletiva da população já estar presente nessas conferências. mas ainda assim permeável às técnicas de intervenção. a água. não apenas como força de trabalho num enquadramento disciplinar.. no campo da teoria e da prática econômica abre-se. “O médico torna-se o grande conselheiro e o grande perito senão na arte de governar. 79). É quando a multiplicidade do humano passa a ser pensada como dependente da interação de uma série de variáveis – tais como o clima. fenômenos econômicos. o indivíduo e a população se apresentam simultaneamente como objetos de saber e da intervenção médica. Por fim. entre os diferentes elementos da riqueza. No artigo citado no início do artigo. 1976b. Se esboça o projeto de uma tecnologia da população. Foucault já aborda a questão da população de modo mais específico. 21 (2): 157-165. uma vez que já estava presente na teoria dos fisiocratas. de 1976. p. 14). a grande expansão demográfica ocorrida na Europa. “a urgência de controlá-la (a expansão demográfica) por mecanismos de poder mais adequados e mais densos. como sendo ela própria também um fenômeno natural. que tem como condição de possibilidade a percepção e o reconhecimento da naturalidade de certo número de fenômenos indissociáveis uns dos outros. Nesse mesmo artigo. 2009 zer? – de estrutura pragmática que a desenha de antemão está presente na maneira pela qual os urbanistas tentam pensar e modificar o espaço urbano” (Foucault. A segunda questão importante diz respeito à concepção da naturalidade de um fenômeno. de corrigir. na visão de Foucault. p. 109). etc. a doença e a qualidade da população. a higiene. pelo menos na de observar. modificado e reeditado em 1979. Tal articulação vai levar à constituição de mecanismos de registro e comparação de dados sobre a saúde. mas como um personagem político novo. Trata-se. ao longo do século XVIII. 2004b. então. população e segurança. demográficos. (Foucault. Graças à tecnologia hospitalar. fazem aparecer a ‘população’. a abordagem de Foucault permanecia centrada na dimensão do corpo individual. a partir do século XVIII. Foucault introduz a ideia de poder médico ao mesmo tempo individualizante e totalizante. Na segunda conferência. constatamos que já estão presentes os elementos que serão retomados alguns anos mais tarde. no fim do século XVIII. No final dessa terceira conferência. A história do homem enquanto espécie é afetada. p. p. 2004b. p. etc. A introdução da população na reflexão econômica possibilita a passagem da análise das riquezas para a economia política. de uma tecnologia governamental. etc. de aprimorar o corpo social e de mantê-lo num estado permanente de saúde” (Foucault. nas interferências climáticas na produção agrícola. ou seja. Foucault define a “bio-história” como efeito de uma intervenção médica maciça na história da espécie humana. 1978/2001c. p. governamentalidade. 2004b. p..

360). As disciplinas e o poder normalizador foram objetos de extensa análise nos cursos do Collège de France do período 1971-1975 e especialmente em Vigiar e punir. A tecnologia biopolítica não tem como objeto e objetivo o corpo individual. Nas investigações de Foucault. se apoia nos mecanismos da disciplina para se instaurar7. na medida em que visam a otimizar. ou seja. mas não o explora ainda. enfim. ao lado da biopolítica. é em A vontade de saber e na última aula do curso de 1976 que o segundo polo do biopoder. já estavam bastante avançadas as investigações de Foucault sobre uma concepção do poder diferente daquela da filosofia e da teoria política tradicionais. A tecnologia biopolítica encontra suporte na tecnologia disciplinar. interpenetração. é uma outra tecnologia de poder. a noção de biopolítica está constantemente presente como um programa de trabalho. entendida como “um conjunto de indivíduos tendo entre eles relações de coexistência e constituindo por essa razão uma realidade específica” (Foucault. se aplicar ao homem enquanto ser vivo. A vontade de saber. a polícia era então uma técnica de gestão do “corpo social” na sua materialidade. Foucault situa a constituição desse segundo polo. Population e proposta outra vez no título de La Naissance de la Biopolitique. p. Territoire. técnicas e modos de exercício. mas é também uma noção sempre prometida e adiada. a partir de uma tecnologia refletida e calculada e da introdução da população como objeto de intervenção política. Temos. publicado no mesmo ano. essa biopolítica. 2007. Resta-nos ainda comentar brevemente as vicissitudes das noções de biopoder e biopolítica na sequência dos trabalhos de Michel Foucault. O que encontramos nos cursos Sécurité. aqui. Conclusão Em 1976. surge como a outra face do poder sobre a vida. como a de biopolítica. O que aparece. que constituía o primeiro polo do biopoder. a noção de população como objeto autônomo. o projeto de uma analítica do poder construído nos cursos que acabamos de mencionar foi. 293). é a partir desses dois trabalhos que Foucault introduz uma nova direção e produz um deslocamento de perspectiva em sua teoria. Ela foi anunciada no início de Sécurité. quer dizer. tampouco mantém com ela uma relação de conflito. como pano de fundo. Seu objeto se situa em outra escala: é uma tecnologia que vai se dirigir. com suas variáveis e regularidades próprias. ou seja. Ela não vem substituir ou tomar o lugar da técnica disciplinar. por volta de meados do século XVIII. em um momento posterior ao do primeiro. A. que faz com que as relações entre a dimensão microfísica ou individualizante do poder e a dimensão macrofísica ou totalizadora comecem a aparecer com mais clareza. o investimento maciço sobre a vida e seus fenômenos. Há. Em defesa da sociedade e no primeiro volume da História da sexualidade. M. Apesar disso. O que se esperava deles enquanto continuidade dos trabalhos de 1976 (Em defesa da sociedade e A vontade de saber) é que tivessem como objeto a gênese do biopoder e o nascimento da biopolítica. Os mecanismos disciplinares se integram. Além disso. É na articulação da anatomopolítica dos corpos (que caracteriza os mecanismos disciplinares) com a biopolítica das populações (enquanto mecanismos de regulação e segurança) que teriam se produzido esse poder e esse saber sobre a vida. Foucault indica uma ampliação do domínio a ser investigado.Martins. Population. o governo e o controle da vida enquanto biopolítica da população. e no centro dessa materialidade estava a população. ela a integra e modifica. maximizar e extrair a vida e as forças que a vida pode gerar. 1997/2005. Portanto. Integrando a tecnologia disciplinar no domínio mais amplo do biopoder. pela primeira vez. A. entre a anatomopolítica e a biopolítica. de gestão e de governo. sobreposição. uma espécie de complementaridade funcional (Artières & Potte-Bonneville. suas modulações e as variáveis que os afetam. a biopolítica. “Genealogia do biopoder” século XVIII. deixada para 162 . apresentado em detalhes no curso de 1976. enfim. É nestes dois trabalhos de 1976 que a noção de biopoder6 é apresentada como hipótese. 1979/2001d. L. C. numa perspectiva mais ampla que é a do poder sobre a vida. a biopolítica focaliza a massa humana: o que interessa são os processos de conjunto. Se em Vigiar e punir Foucault analisou em minúcias a constituição e o funcionamento das disciplinas ou a anatomopolítica do corpo. “essa tecnologia de poder. 730). a disciplina e a biopolítica se encontram em seus objetivos. aos mecanismos de segurança e à biopolítica. não disciplinar. p. elas se sobrepõem e se completam. ao lado de uma série de outras noções. Para resumir. a de população e segurança. do biopoder. e Peixoto Junior. Se a disciplina é individualizante e penetra o corpo em seus detalhes. então. que podem ser modificadas por meio de intervenções específicas. por mais diversos que sejam seus mecanismos. tanto no plano individual como no do conjunto vivente. vai implantar mecanismos que tem certo número de funções muito diferentes das funções que eram as dos mecanismos disciplinares” (Foucault. dos mecanismos de segurança e dos dispositivos de regulação das populações. p. Territoire. dos filósofos contratualistas dos séculos XVII e XVIII e do pensamento marxista. aí. O poder disciplinar – ou a anatomopolítica do corpo humano – passa então a ser considerado por Foucault como uma das dimensões do biopoder. e La Naissance de la Biopolitique é uma grande operação de deslocamento. na realidade. população. espécie.

“A série: mecanismos de segurança – população – governo e a abertura do campo daquilo que chamamos a política. que é a da “naturalidade” que a caracteriza. noção capital no século XVIII. nem. a introduzir e privilegiar a noção de governo. Em Segurança. O público. envolvendo o estudo da racionalidade governamental ou a arte de governar. no ponto de vista das instituições. segurança. p. No entanto. Tendo como perspectiva metodológica a analítica do poder. 78). é sobre isso que se intervém pela educação. 111). uma outra dimensão. pelas convicções. pouco a pouco. considerando e respeitando. do ponto de vista da naturalidade que a constitui. se do ponto de vista biológico. 21 (2): 157-165. Foucault analisa minuciosamente a constituição e a emergência da tecnologia de segurança. constitui uma série que é preciso analisar. enquanto objeto da biopolítica. é quando a população passa a incluir. assim. então. Os dois cursos acima mencionados são. de certo modo. é a população tomada do lado de suas opiniões. de suas exigências. 377). pelas campanhas. ambos se caracterizam como “técnicas” que têm como objeto a população. Territoire. A população. É essa concepção de população. tornou necessário o desvio para o estudo do liberalismo e possibilitou a elaboração de noções muito precisas. e foi também em torno dessas análises que se desenharam os primeiros contornos da biopolítica. População. que ela pôde se tornar objeto de uma técnica de governo. Território. modificando os elementos e as variáveis que a afetam. A segunda razão que esclarece o deslocamento em foco se articula com as vicissitudes da noção de população no pensamento de Foucault. as noções de biopolítica e governo. por um lado. de uma arte de governar. 2004b. 77). A história da gênese do Estado moderno proposta por ele não se sustenta nas teorias jurídicas ou filosóficas da soberania. A grade de análise utilizada não exclui as outras. no âmbito de seu exercício e de suas práticas e a racionalidade governamental. concretas. Nada mudaria nessa afirmação se substituíssemos o conceito de gestão governamental pelo de biopolítica – são. de suas maneiras de fazer. A dimensão do “público”. sinônimos. creio. a análise daquela que. As elaborações foucaultianas em torno das noções de segurança e população se deslocam progressivamente da biopolítica para o que ele chamou de “governamentalidade”. os usos. que permitiu a Foucault forjar o conceito de “governamentalidade”. entendida como reflexão sobre a natureza e a atividade do governo. então. disciplina e gestão governamental. p. A população é. a população é apreendida como um conjunto de processos biológicos. que apresentam traços biológicos e patológicos particulares” (Foucault. A biopolítica “tende a tratar a ‘população’ como um conjunto de seres vivos e coexistentes. uma gestão governamental cujo alvo principal é a população e cujos mecanismos essenciais são os dispositivos de segurança” (Foucault. os comportamentos. da higiene pública e da medicina social no século XVIII. ele define a governamentalidade como um novo campo de pesquisa. de seus hábitos. Na ocasião. permite então a abertura desse novo campo que é o da gestão governamental. aqui. no entanto. permanecendo no horizonte das pesquisas de Foucault. A naturalidade da população se refere a um conjunto de variáveis. vai ser uma noção a princípio construída no domínio da biologia e da medicina: o que estava em questão eram a espécie humana.” (Foucault. foi. por outro. A noção de população na biopolítica está primordialmente referida e identificada a um conjunto de processos biológicos. a população é. de seus preconceitos. Foi a partir dessa perspectiva que Foucault analisou a emergência da polícia médica. p. tampouco. de fato. a construção de uma história a partir de uma perspectiva diferente da história tradicional das ideias e das instituições políticas.Psicologia & Sociedade. a espécie humana. e poderiam ser englobados sob o título de “A história da governamentalidade”. no entanto. que inclui as maneiras de fazer. de seus temores. p. mas consolida a abertura do novo campo mencionado ou das tecnologias de governo. de seus comportamentos. ao lado da dimensão biológica. conduta e liberdade. entendida como condução de condutas. do poder público ou do jogo das forças econômicas. proposto pelo próprio Foucault no início da aula de 1º de fevereiro de 1978. Mesmo não encontrando nesses cursos o que realmente se refere ao nascimento da biopolítica. 2004b. tudo isso. Essa noção de população o teria conduzido também a deslocar sua investigação da biopolítica para o domínio das artes de governar. ou pelo menos atribui certo parentesco ou proximidade a tais noções: “Temos. tais como governamentalidade. a vida e as ameaças à vida. Foi tal correlação que conduziu Foucault. 2009 mais tarde. situáveis historicamente. ela é o “público”. (Foucault. Os dispositivos de segurança que operam na gestão governamental intervêm para modificar a população. 2004b. a continuação um do outro. Population. um triângulo: soberania. que se desenvolveu no quadro da economia política liberal. O que ele persegue é. de seus mecanismos e a estreita correlação destes com a população. 2004b. Algumas razões parecem justificar tal deslocamento. ela se refere também a um conjunto de processos entendidos como “naturais”. a naturalidade dessa população. Foucault abordou o tema do governo. de alguma forma. Foucault assimila. 163 . neologismo cunhado por ele na quarta aula de Sécurité. Se. em algumas passagens. tudo o que se estende desde o enraizamento biológico pela espécie até a superfície de captura oferecida pelo público.

7 Foucault assinala reiteradas vezes que a biopolítica não substitui outras modalidades de exercício do poder. population (Foucault. Bégout (2005). de forma mais exaustiva. Enfim. Com certeza é uma noção cada vez mais infiltrada em nossas práticas cotidianas. La connaissance de la vie. a biopolítica da população (Foucault. neste momento. a anatomopolítica do corpo humano. 2001b. D’après Foucault: Gestes. Sécurité. que é atualmente objeto de investigação de vários autores. L. O segundo refere-se ao conceito de risco. Se a oposição disciplina/ governo era. a multiplicidade indefinida de técnicas e táticas destinadas a modificar e conduzir a conduta dos outros. capítulo “Echanger” (pp. p. 5 Tema desenvolvido por Foucault (1966). quer dizer a maneira como se conduz a conduta dos homens. tema que será retomado no próximo tópico de nosso estudo. na obra de Foucault uma etapa transitória. pp. optamos pela forma pastorato (“pastorado ou pastorato. e a concomitante produção de conceitos derivados. entre anatomopolítica e biopolítica. No entanto. territoire. ou seja. ver Canguilhem (1975. “La Naissance de la médicine social” (In Dits et écrits II: 1976-1988. suscetível de se sobrepor àquela prenunciada em A vontade de saber. onde a noção de governamentalidade aparece inteiramente transformada e ganha um sentido muito mais abrangente e abstrato. A redefinição da noção aparece na aula de 7 de março da 1979. 191-192). M. apenas indicamos aqui dois que nos interessam especialmente e são objetos de nossas pesquisas atuais. 129-154). Paris: Les Prairies Ordinaires. pp. Paris: Allia. como fator determinante nas escolhas dos modos de viver e de cuidar de nós mesmos. Tempo durante o qual um pastor espiritual exerce essa função”. & Potte-Bonneville. não é outra coisa senão uma proposição de grade de análise para essas relações de poder. do ordinário e dos usos. 374). 4 Tema investigado longamente por Foucault (1966). pp. “Genealogia do biopoder” Podemos afirmar que em Sécurité. 1976a. Artières & Potte-Bonneville (2007). por vezes equivalente à biopolítica. em torno da medicalização da sociedade e da extensão do poder médico.m. 137-176). A extensão crescente do domínio de referência do conceito de governamentalidade descerrou um campo fecundo de novos temas e problematizações acerca das relações de poder e das resistências no mundo contemporâneo. pp. B. O primeiro remete à politização do cotidiano. entre os quais Hacking (2002). p. a governamentalidade tinha um sentido preciso. Notas Encontramos duas formas para traduzir pastorat: pastorado e pastorato. p. na segunda conferência. programmes. no capítulo “Classer” (pp. (Foucault. 1 Referências Bibliográficas Artières. por exemplo. Vaz (2002). e Peixoto Junior. Feher (2005) e Revel (2006). os textos ulteriores concederão uma extensão sempre maior à noção de “arte de governar”. 182-184). O que buscamos neste artigo foi retraçar nas reflexões de Foucault. 1976a. Territoire. a noção de governamentalidade passa a englobar todo o campo estratégico das relações de poder. C. Vrin. O biopoder consiste na articulação de duas dimensões: uma individualizante. 177-185). G. tal como foram propostas por ele em 1976. s. La Naissance de la Biopolitique. Em defesa da sociedade (Foucault. 299). Podemos supor que a articulação feita por Foucault entre a medicalização da sociedade e o governo da vida foi uma das condições que tornaram possível a emergência da hipótese do biopoder. sobre a constituição da medicina urbana. conceitos ainda atuais e fecundos no que concerne à análise da atualidade. Canguilhem. e o que propus chamar governamentalidade. no período 1974-1976. 2004b. Bégout. A. P. p. 207-228). Além disso. Apesar do uso mais frequente de pastorado. tal como elaborados e definidos por Foucault nos trabalhos de 1976. é importante destacar aqui que a identificação da governamentalidade com esse regime específico de exercício de poder é. que teria se instaurado no século XVIII. Population. procuramos seguir as transformações e deslocamentos das noções em questão nos trabalhos desenvolvidos por Foucault nos anos seguintes. Podemos observar o deslocamento a que nos referimos. aqui. especialmente nas conferências da UERJ. luttes. e a outra totalizadora ou coletiva. (2005). 9-10). 6 Os conceitos de biopoder e biopolítica são utilizados. 164 .Martins. A. articulado com a questão do Estado. todo um questionamento que preparava a emergência das noções de biopoder e biopolítica. O próprio termo ‘poder’ apenas designa um [domínio] de relações que estão inteiramente abertas à análise. 2004a. e designava um regime de poder específico. funcionando como elemento implicado no processo de subjetivação. (1975). temática que tem sido explorada por diversos autores como Le Blanc (2006). La découverte du quotidien. 2005. segundo definição de dicionário). 2 A ampliação do campo da prática médica foi abordada. Dignidade ou função de pastor espiritual. Desses temas. Esses pesquisadores têm observado que o conceito em questão adquiriu recentemente enorme relevância. já no curso de 1979. O conceito deixa de se referir a um regime de poder específico e situado historicamente para se constituir como grade de análise das relações de poder. Paris: Librairie J. 2007. 3 Para uma análise mais profunda da noção de meio. Ericson & Doyle (2003). até abranger através dessa última o conjunto das relações de poder (Artières & Potte-Bonneville. entendidas aqui como “condução de condutas” ou “arte de governar”. M. em La volonté de savoir (Foucault. (2007). 182-183).

Crise de la médicine ou crise de l’antimédicine? In Dits et écrits II. Paris: Gallimard. 1976-1988 (pp. population. & W. Les interrègnes de Michel Foucault. In Dits et écrits II. Email: cpeixotojr@terra. (2004a). G. Um corpo com futuro. M. H. (2002). Histoire de la sexualité 1: La volonté de savoir. Paris: Gallimard. In J. Rabinow (Orgs. Pesquisador do CNPq. Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio. M. 21 (2): 157-165. Paris: Gallimard. Le Blanc. La politique de la santé au XVIII siècle. La politique de la santé au XVIII siècle. (Original publicado em 1988). (1984). Risk and morality. Paris: Karthala. (Original publicado em 1976). Vozes. (2002). Pacheco. Feher. (1984). 1976-1988 (pp. Cambridge. Foucault. (1966). Foucault. (2001a). Dreyfus & P. (Original publicado em 1979). La naissance de la médicine sociale. Rio de Janeiro: Gryphus. & P. (Original publicado em 1994). In Les Machines à guérir. 725-742). (Original publicado em 1978). (1976b). (2001d).br Genealogia do Biopoder Luiz Alberto Moreira Martins e Carlos Augusto Peixoto Junior Recebido: 19/03/2008 1ª revisão: 18/10/2008 Aceite final: 28/03/2009 165 . Foucault. Michel Foucault: Un parcours philosophique. 1976-1988 (pp. J. (Original publicado em 1975).). Luiz Alberto Moreira Martins é Psicanalista. São Paulo: Martins Fontes. G. La technologie politique des individus. M. RJ: Ed. Foucault 80 anos (pp. Foucault. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. 1977. Foucault. MA: Harvard University Press. Paris: Institut de l’environnement. Paris: Ellipses. São Paulo: Martins Fontes. Ericson. M. Kohan (Orgs. M. Revel. (2001b). (Original publicado em 1977). Foucault.). M. Paris: Gallimard. Paris: Gallimard. (2005). In: M. M. (1976a). M. (2003). Paris: Gallimard. Nas origens do biopolítico: de Vigiar e punir ao pensamento da atualidade. 1632-1647). (2001c). Deux essais sur le sujet et le pouvoir. Doutorando do programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio. & Doyle. Foucault. 11-21). Surveiller et punir: Naissance de la prision.com Carlos Augusto Peixoto Junior é Psicanalista. Foucault. Paris: Seuil. Foucault. Paris: Gallimard. territoire. (2005). (2001f). M. Petrópolis. M. P.). R. Foucault. Doutor em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ. Historical ontology. (2004b). 251-299). M. Paris: Gallimard. Paris: Gallimard. Belo Horizonte: Autêntica. Cocco. Vaz. Paris: Gallimard. Aux origines de l’hôpital moderne. 40-58). & Rabinow. Vigiar e punir: nascimento da prisão. (2001e). 51-62). (1977). (1975). (2006). La pensée Foucault. P. (2006). Foucault. Les mots et les choses: Une archéologie des sciences humaines. Dits et Écrits.). Em defesa da sociedade. Email: lammart@globo. Os anormais. 121-146). Michel Foucault: Un parcours philosophique (pp. L’incorporation de l’hôpital dans la technologie moderne. Foucault. Toronto: University of Toronto Press. dossiers et documents (pp. M. M. Naissance de la biopolitique. O trabalho da multidão (pp. 1976-1988 (pp. M. Paris: Seuil. Foucault. (2002). M. In Dits et écrits II. Foucault. Granjon (Org. Paris: Gallimard.com. 508-521). 1976-1988 (pp. M. Penser avec Michel Foucault (pp.Psicologia & Sociedade. In Dits et écrits II. Sécurité. M. 2009 Dreyfus. A. 297-321). Foucault. (Original publicado em 1997). Vaz (Orgs. In H. Hacking. 207-228). In Dits et écrits II. Gondra. In A. I. Foucault.