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Produção, v. 20, n. 4, out./dez. 2010, p. 657-668 doi: 10.

1590/S0103-65132010005000058

Análise ergonômica do trabalho e o reconhecimento científico do conhecimento gerado
Carlos Antonio Pizoa,*, Nilton Luiz Menegonb
b a, *capizo@uem.br, UEM, Brasil menegon@dep.ufscar.br, UFSCar, Brasil

Resumo
Este texto contextualiza na Análise Ergonômica do Trabalho (AET) as preocupações de pesquisadores da área de ergonomia sobre o reconhecimento científico dos métodos de pesquisa sobre o trabalho. Com base nessas preocupações e numa revisão sobre as características da pesquisa-ação é feita uma análise teórica da simbiose entre esse método de pesquisa e a AET, e como isto contribui para que os conhecimentos gerados na AET possam ter seu reconhecimento científico facilitado junto aos pares das áreas de conhecimento em que a ergonomia permeia.

Palavras-chave
Ergonomia da atividade. Pesquisa. Ciência.

1. Introdução
Iniciando com uma sucinta apresentação da análise ergonômica do trabalho, este texto parte de duas visões: a primeira busca, tendo por pano de fundo a análise ergonômica do trabalho, levantar as preocupações de pesquisadores da área de ergonomia sobre o tema “cientificidade do conhecimento na ergonomia da atividade” e a segunda sobre a metodologia da pesquisa-ação e suas características. O objetivo do texto é, a partir desses pontos de vistas, promover uma discussão sobre a provável indissociabilidade entre o método da análise ergonômica do trabalho (AET) e o método da pesquisa-ação como forma de o conhecimento gerado nos trabalhos realizados na ergonomia da atividade ter seu reconhecimento científico mais facilmente aceito pelos pares das áreas de conhecimento em que a ergonomia permeia. Essa questão é relevante quando se observa que a pesquisa-ação é uma metodologia de pesquisa reconhecida por diversas áreas de conhecimento que tratam do trabalho e permeiam a ergonomia, e a metodologia AET está mais restrita ao núcleo da ergonomia. Essa restrição da AET solicita a “tradução” desse método para outro quando se deseja validar no núcleo de uma área de conhecimento os resultados das pesquisas realizadas. Geralmente esse outro método é a pesquisa-ação, pois a AET carrega muita semelhança em seus procedimentos e proposta, mas com uma abordagem particular: compreender o trabalho para transformá-lo.

2. Análise ergonômica do trabalho
A partir de 1955, após a publicação do livro de Faverge e Ombredane sobre a análise do trabalho, a atuação de diversos outros pesquisadores expoentes na área fez com que a ergonomia centrada na análise da atividade fosse desenvolvida ao longo do tempo, tendo suas bases teóricas aprofundadas, seus métodos enriquecidos e suas aplicações às transformações das condições de trabalho mais elaboradas (GÜÉRIN  et  al., 2001; MONTMOLLIN, 2007; LAVILLE, 2007). Essa evolução levou a reconhecer a ergonomia situada como um dos dois principais conjuntos de ergonomias, distinguidos tanto na sua história como nos conceitos e nas práticas, mas que se complementam. O primeiro conjunto, majoritário no mundo e baseado no contexto americano e
*UEM, Maringá, PR, Brasil Recebido 11/12/2009; Aceito 19/05/2010

estabelecendo a distinção entre tarefa e atividade de trabalho. técnicos ou organizacionais que não favoreceram a reflexão sobre o lugar incontornável do homem no sistema de produção. e • Melhorar a organização dos sistemas sociotécnicos. Prod. a obra coordenada por Daniellou (2004a) é um recipiente onde diversos . por sua vez. p. cujo método busca resolver os problemas da inadequação do trabalho às características humanas gerados por: • Projetos de sistemas de produção. Destacam ainda o conceito do trabalho prescrito e do trabalho real. n. Güérin  et  al. muitas vezes a partir de estereótipos simplificados do que seria a população de trabalhadores. 2005). enraizado principalmente nos países francófonos. a do resultado do trabalho e a da atividade de trabalho. a discussão sobre sua epistemologia é considerada assunto ainda recente (SOCIÉTÉ D’ERGONOMIE DE LANGUE FRANÇAISE. Isso está diretamente relacionado à maneira como os conhecimentos sobre o trabalho foram produzidos e transferidos entre os atores e da questão das condições de sua apropriação. Construção esta realizada com a contribuição do ergonomista junto com os atores do processo. Análise ergonômica do trabalho . et al. Para essa construção existe um conjunto de pontos importantes. maior caso um conjunto de atores-chave tenha sido instrumentalizado. O segundo. e • Alcançar os objetivos econômicos determinados pela empresa. A. v. e encontrar possibilidade de valorização de suas capacidades. Nesse processo de contextualização do trabalho. estabelecendo o que eles denominaram de função integradora da atividade de trabalho. e o que o ergonomista deve realizar de forma a contribuir para: • A concepção de situações de trabalho que não alterem a saúde dos trabalhadores e nas quais estes possam exercer suas competências. Essa dicotomia entre as duas principais famílias de ergonomias assenta-se em modelos. Ergonomia da atividade e sua cientificidade Na comunidade da ergonomia da atividade. Güérin et al. Esses conceitos são bem sintetizados por Falzon (2007). 3. de fases privilegiadas que vão estruturar a construção ergonômica. onde a Société d’Ergonomie de Langue Française – SELF é a entidade mais representativa.. A interação que ocorre entre os atores desse processo conduzido pelo ergonomista gera um aumento do conhecimento ou do nível de consciência da atividade que será fator-chave na implementação das ações ergonômicas resultantes do diagnóstico feito e da transformação desejada. é classificado como focado na atividade humana contextualizada. A seguir são apresentadas as preocupações dos pesquisadores sobre a cientificidade e a construção do conhecimento na ergonomia da atividade. C. Güérin  et  al. transformação ou concepção de sistemas de produção em que houve predominância dos aspectos financeiros.658 Pizo. em função dos investimentos realizados ou futuros. e • Situações de adaptação. (2001) colocam que a atividade de trabalho é o elemento central que organiza e estrutura os componentes da situação de trabalho. o qual também destaca as noções de regulação e da regulação da atividade. corresponde à ergonomia clássica e é qualificado como centrado no componente humano dos sistemas homem-máquina. As características do procedimento aplicado são centrais para assegurar essa transferência. 657-668.. Para concluir essa apresentação da análise ergonômica do trabalho. quadros teóricos e diferentes métodos. de processos. 20. do conhecimento gerado. (2001) destacam ainda que parte do que se construiu deve permanecer e adquirir uma legitimidade que resista ao tempo. Nesse contexto. em consequência. que geralmente são “encaixados” na produção. (2001) caracterizam-no como unidade de três realidades: a das condições de trabalho. o desempenho da empresa em seu todo. • Propor pistas de reflexão úteis para a concepção das situações de trabalho. Güérin  et  al. e a sua durabilidade será. da organização do trabalho e das tarefas que foram feitas. sendo transversal em relação às ergonomias identificadas em função dos diferentes domínios de intervenção (MONTMOLLIN. 2007). Esse esquema está apresentado na Figura 1. 4. Para os mesmos autores a busca desses dois objetivos origina a análise ergonômica do trabalho. (2001) colocam que transformar o trabalho é a finalidade primeira da ação ergonômica. 2010 britânico. No contexto da ergonomia centrada na atividade. a gestão dos recursos humanos e. Essas situações minimizam a influência dos meios de trabalho cuja concepção não leva suficientemente em conta as especificidades de funcionamento do operador humano e a variabilidade de todo o sistema. Para contextualizar o que seja trabalho. os mesmos autores colocam que sua compreensão é um meio que permite: • Conhecer melhor e explicar melhor as relações entre as condições de realização da produção e a saúde dos trabalhadores. ao mesmo tempo num plano individual e coletivo.

de unanimidade. 657-668. (2001). “arte” ou “método” ser abordada em várias partes da obra.1. a obra. Fonte: adaptação de Güérin et al. em se definir seu objeto de estudo e os critérios de validação das pesquisas e intervenções práticas.. C. 4. representa o esforço em se discutir de modo sistemático a contribuição da ergonomia da atividade em produzir conhecimento. a questão de cientificidade das pesquisas em ergonomia passa a mobilizar outros atores: quem a pratica e os protagonistas da vida social. e nesse sentido o autor faz as seguintes constatações: • Para alguns pesquisadores. v. uma “arte”. Esquema geral da abordagem da ação ergonômica. Nesse aspecto. do conhecimento gerado. o que torna os conhecimentos científicos algo diferente da opinião única de seus autores. Também a elaboração das regras dessas provas não goza Para o autor é evidente que algumas das dificuldades epistemológicas com que se debate a ergonomia são comuns a todas as disciplinas que tratam do ser humano. p. É observado nessa obra que a motivação em provocar os debates sobre o tema foram as dificuldades em se obter reconhecimento científico para as pesquisas sobre o trabalho nas instituições acadêmicas. uma “tecnologia” que utiliza conhecimentos produzidos por outras disciplinas. e que nada impede esse conhecimento de ganhar um dia a dignidade de “científico”. Prod. as teorias e os modelos que queiram merecer o adjetivo “científico”. a pergunta‑chave tornou-se dinâmica: “Que condições deveriam progressivamente preencher as pesquisas em ergonomia para que possam ser qualificadas de científicas?” Além disso. Segundo ele. estas cairão ipso facto no acervo da disciplina científica mais bem situada para abrigá-los. et al. o autor abre discussões sobre os seguintes aspectos: • A consciência das bifurcações: o ergonomista é solicitado por um conjunto de teorias e modelos científicos que abrange localmente os fenômenos com os quais ele se defronta. Para dar base a essas constatações. Esses modelos não se encaixam de modo cômodo para constituir .Pizo.. todos os autores têm em comum esse cuidado de submeter seu pensamento à prova da confrontação. e • Para outros. a ergonomia continuará um “projeto”. n. A. Questões epistemológicas Daniellou (2004b) coloca como denominador comum o fato de que a reflexão epistemológica tem por objeto as provas às quais devem se submeter as pesquisas. Análise ergonômica do trabalho . Esses aspectos são destacados pela questão se a ergonomia se caracteriza como “ciência”. 2010 659 Figura 1. apresentada inicialmente como responsabilidade única dos pesquisadores. Ela. a ergonomia pode produzir conhecimentos sobre a atividade de trabalho ou sobre a atividade do ergonomista. 20. 3. A seguir são apresentadas algumas visões emanadas por pesquisadores sobre a questão do reconhecimento científico do conhecimento gerado na ergonomia da atividade. Se a ergonomia provoca questões de pesquisa e contribui para a produção de conhecimento. pesquisadores dessa comunidade apresentam seus pontos de vista sobre aspectos epistemológicos da ergonomia da atividade e que ainda permanece atual em seus conflitos e convergências. a qual lhe pertence exclusivamente.

o trabalho prescrito e o trabalho real. técnicos e sociais e da análise dos efeitos do funcionamento da empresa sobre a . ou (3) Que sejam úteis para a sua transformação positiva. progressivamente. de “bifurcações”. prática e comunicacional) que levam o ergonomista a descrever-se como ator da transformação das situações de trabalho.2. a emergência de conceitos que alimentam a reflexão cotidiana do ergonomista é resultado de um conjunto de manobras. 657-668. a ergonomia é reconhecida por levar as outras disciplinas a produzir conhecimentos em zonas em que a prática as revela lacunares. ideologias coletivas de defesa. Essa condição gera uma justaposição de conceitos que dificulta a formação de um acordo do que significa produzir conhecimentos científicos em ergonomia. As questões das racionalidades (instrumental. psicodinâmica do trabalho. 3. abrindo um espaço para discutir como ocorrem as modalidades da ação do ergonomista. • A relação homem e o trabalho: a questão dos critérios da ergonomia está relacionada a uma discussão dos paradigmas à luz dos quais se estuda o trabalho. axiológica. pela antropotecnologia.. psicologia e outras áreas de conhecimento. e • A questão dos comportamentos à ação: a referência aos termos “comportamentos” ou “condutas” do homem no trabalho e a influência que essa perspectiva gera no desenvolvimento da ação. pouco a pouco. Assim. • O fato de evidenciar a atividade cognitiva e a competência dos operários. os modelos do homem e suas dimensões. • A complexidade dos fatores de natureza coletiva que entram em jogo na elaboração de estratégias dos trabalhadores: produção de regras coletivas. sendo que a ergonomia leva a transformá-los pelo seu caráter integrador. e em certas zonas de realidade eles se contradizem e em outras estão ausentes. do conhecimento gerado. Diversos aperfeiçoamentos metodológicos permitiram que. tornou o paradigma inicial enfraquecido. sobretudo.. C. Mas a prática da análise ergonômica do trabalho e a confrontação com outras disciplinas (psicologia do trabalho. Prod. p.660 Pizo. 20. v. e que se compõe da análise dos fatores econômicos. antropologia. n. dimensões éticas. aquela dos comportamentos. uma abordagem mais global. sociologia. Também há certa concordância de que a utilização não é uma simples aplicação desses conhecimentos. A. entre as quais o autor cita: • A diferença entre trabalho prescrito e trabalho real. Análise ergonômica do trabalho . O autor lembra que a ergonomia foi construída nos países anglo-saxônicos dentro do paradigma da aplicação de conhecimento científicos sobre o funcionamento do homem no projeto dos meios de trabalho. Além disso. Aqui o autor explica a distinção entre a análise da atividade. 2010 um corpo de conhecimentos para a ação. na qual se insere a análise da atividade. • A complexidade dos raciocínios em inúmeras situações. processos cognitivos e interações realizadas por um(a) operador(a) durante as observações – da análise do trabalho –. Assim. mas progredir em sua compreensão. et al. a análise da atividade pudesse ser aplicada a quase a totalidade das atividades profissionais. os modelos da sociedade e da mudança social. os limites da adaptação humana. (2) Sobre o trabalho. e • A complexidade dos mecanismos de dano à saúde e o papel positivo que pode ter o trabalho na construção da saúde. A ergonomia classicamente leva em conta um duplo critério – o da saúde dos trabalhadores e o da eficácia econômica – sobre o qual exige a construção de compromissos que são influenciados por diversos fatores externos. condutas. 4. filosofia) conduziram os pesquisadores a um conjunto de constatações que. • A relação entre ergonomia e os conhecimentos científicos: há um acordo latente de que a ergonomia utiliza conhecimentos oriundos da fisiologia. Por esse fato. • A dimensão dos determinantes da atividade – mostrada. Questões epistemológicas levantadas pela ergonomia de projeto Daniellou (2004c) coloca que o estatuto dos conhecimentos em ergonomia significa saber se os conhecimentos científicos podem ser produzidos: (1) Sobre o funcionamento humano no trabalho. tem-se o enigma das relações entre tarefa e atividade. O conjunto dessas descobertas contribuiu para reforçar o estatuto do objeto de pesquisa – o trabalho propriamente dito – e o interesse pela análise da atividade como método de descoberta que permitiu não desvendar totalmente o enigma que constitui todo o trabalho. o autor apresenta uma visão geral sobre como se desenvolveram as questões que incitaram a discussão sobre a epistemologia da ergonomia da atividade. Esse paradigma nas pesquisas mundiais está na origem da produção de um conjunto de conhecimentos que ainda continua útil. • A complexidade dos compromissos elaborados pelos trabalhadores e seus efeitos em termos de desempenho e de custo.

na qual a ergonomia identifica uma diferença a reduzir.. • Em relação ao desempenho: podem-se distinguir dois tipos de saídas do sistema de produção – os desempenhos econômicos e os desempenhos humanos. v. qualidade. finalidades e modos de ação.. o que ela quer fazer disto [. 3. Uma que postula que diferença entre o prescrito e o real é uma diferença a ser reconhecida. p. Com isso ele destaca que o ergonomista interessa-se pela relação do homem e da empresa. e • Na relação entre tarefa e atividade: onde existem duas posições opostas.] missão de aprofundar a compreensão da relação entre o que o homem vive no trabalho e pelo seu trabalho. e por isso as exigências para sua validação são mais fortes do que as consideradas na validação dos conhecimentos que são objeto central de uma busca científica. funcional ou política. 116). e o (3)  nível dos sistemas de produção (questão‑eficácia. Análise ergonômica do trabalho . O autor também destaca a diferença entre a análise da atividade (praticada por outros profissionais) e a análise ergonômica do trabalho. Nesse ponto ele abre que a ergonomia trabalha em três níveis. et al. o autor coloca que uma das missões essenciais da ergonomia é a de [. desafio-qualidade).] (HUBAULT.. saúde melhorada/deteriorada...Pizo. à tarefa. os compromissos que o operador faz para agir não se veem e o comportamento comunica a parte manifesta do trabalho (visualmente e verbalmente). Como descontinuidade. não observável. Hubault (2004) coloca que a ergonomia nasceu de uma questão fundamental: a que obriga a distinguir o que se solicita ao homem (a tarefa) e o que isso.] (HUBAULT. Prod.. Os primeiros avaliáveis/avaliados em termos de eficácia na ordem econômica (rendimento.).. (2) nível dos sistemas técnicos (questão‑eficiência. A outra é o que se demanda e o que isso demanda. mas que não pode se construir sem ela[. n. p. 106). desafio‑segurança/saúde). uma descontinuidade de princípio entre o modelo e a realidade em geral e entre a tarefa e a atividade no particular. o que ele faz. cada qual com suas questões e seus desafios: (1) nível das condições de trabalho (questão‑adaptação. 20. ainda mais.. para ser realizado. Do que a ergonomia pode fazer a análise? Hubault (2004) relata que a ergonomia tem a [. Para embasar a questão da prática. Produzido sobre dada situação de trabalho. p.. desafio-confiabilidade). A. Isso tem origem em um conflito de lógicas.. Aqui ele apresenta como os diversos estados da ergonomia se enquadram dentro dos paradigmas de continuidade e descontinuidade. realiza a interface e o lugar que nela ocupa o trabalho (fator integrador/integrável ou de integração). com o conceito de atividade.3. que faz emergir a figura da atividade. Assim é aberta a questão “o trabalho real é real?” Os fatos observáveis de que a ergonomia dispõe dizem respeito ao desempenho. que ela confronta entre si e aos conhecimentos adquiridos previamente sobre o funcionamento humano. A partir da objetivação de fatos brutos organizados em sistemas de dados a ergonomia – uma ciência empírica – constrói. C. com o que a empresa compreende disso. Esse princípio de descontinuidade diz respeito a vários níveis: • Na relação entre a atividade e o comportamento: no trabalho real que se realiza. confiabilidade.. a própria atividade. entre o homem e o espaço instrumental ao qual ele deve se integrar.] formalizar a relação homem-ambiente de modo a levar em conta esta contradição: o homem é um sistema autônomo que não é determinado pela oferta informacional de seu meio. enfim de cada nível que se pode conceber uma interface entre esses termos. ao comportamento.) e os outros em termos de eficácia na ordem humana (competência adquirida/degradada. Diante desse complexo de relações.. o autor compara o processo de construção do conhecimento . produtividade.. o que ela espera disto. de se levar em conta o que faz realmente o operador. do homem e seu ambiente.. o meio de se compreender. e a competência do operador é encontrar os meios de gerenciá-lo por meio de compromissos operatórios. 2010 661 população de trabalhadores envolvida e da eficácia econômica. do homem e da técnica. O autor discorre que essas abordagens estão sempre em jogo. 657-668. 2004. do conhecimento gerado. Uma diferença que se destaca nessa condição é que os conhecimentos produzidos a partir da análise ergonômica do trabalho estão a serviço da ação. Diante do exposto se coloca uma primeira questão que é a de saber se na interface o trabalho organiza uma continuidade ou descontinuidade. Um ponto em comum: ambas produzem conhecimentos a partir da elaboração de um modelo e da verificação de sua validade. solicita a ele.. 2004. e que isso implica em saber que tipo de integração. o que ela faz disto. 4.. o modelo feito pelo ergonomista deve ser operante e sua própria estrutura reflete a ambição de agir para transformar as condições de trabalho.

eles são enviados às suas disciplinas de origem a fim de que participem. o que caracterizaria uma parcialidade na abordagem realizada. Análise ergonômica do trabalho . patrimônios tendencialmente definidos pelos três polos. Segundo ele.. onde misturam-se e operam culturas contraditórias. n. o autor elabora a proposta de produzir conhecimentos compatíveis com o “policentrismo” observado nos conceitos levantados pela construção de lugares em que a relação triangular entre valores.662 Pizo. Os atores “ativos” são remetidos às urgências da vida social e seu movimento de retorno é. questionando se ao ser epistemólogo e utilizar conceitos já é. • Polarizações particulares que favorecem um modo diversificado de desenvolvimento da ergonomia nutrem relações diferentes com a ciência. v. Esse dispositivo. e • O peculiar da ergonomia está no seu ponto de vista que a distingue de todas as outras áreas sobre o estudo do trabalho. Barros e Lima (2007). com uma eventual vocação para o retorno. et al. Ao utilizar conceitos. e • Polo filosófico: com vistas aos saberes organizados e com relação às forças de apelo. É nesse contexto que ele estabelece uma relação triangular entre valores. 3. • Esse mundo de valores se comunica em todos os pontos consigo mesmo. • Polo dos saberes imanentes às atividades e retrabalhados por essas atividades: são “cadinhos” da organização dos saberes. Esse processo no núcleo do dispositivo é denominado pelo autor de “socratismo ambivalente”. 4. de certa maneira. com as devidas reservas. saberes e atividade com base nas seguintes proposições: • Nenhuma atividade industriosa se desenvolve e se manifesta sem um espaço simultâneo de valores.4. 657-668. e • Os valores imanentes à atividade são sempre “retratados” por ela. uma reivindicação de herança. agora devidamente equipados. Em todos os casos visa-se o conhecimento e a manipulação de um processo e não de um estado. no seu centro. 2010 na área da psicanálise e apresenta três pontos que balizam suas propostas sobre a ergonomia: • A prática participa de uma dimensão metodológica fundamental dos conhecimentos em ergonomia. Além de remeter eventualmente a conjuntos complexos de valores e de escolhas e a uma prática que poderia ser uma boa definição de postura epistemológica. em parte. decidir e engajar-se. É aquele que significa uma postura ética e epistemológica. Na elaboração de sua argumentação. Quantos aos atores “profissionais do conceito”. tanto no polo filosófico como no dos saberes acadêmicos organizados. conhecer para manipular define uma prática de intervenção. de explicitação metódica e crítica. É aquele dos saberes investidos no exercício do trabalho e na experiência. filosofia e exterritorialidade Schwartz (2004) destaca na ergonomia a questão da exterritorialidade dos conceitos. proposto por Schwartz (2004) e adaptado por Vieira. Onde conhecer manipulando define um método de análise. redesenhando os recursos do saber e desenvolvendo novas forças de apelo. É aquele dos saberes conceituais das áreas de conhecimento permeadas pela ergonomia.. estruturando em uma base histórica seus desdobramentos sobre seus apelos aos saberes formalmente organizados. Um efeito dessa bifurcação conceitual é a manifestação de escolhas mais ou menos exclusivas que implicam em itinerários de investigação previamente estabelecidos. de memória e dos saberes investidos. a questão “erro humano ou falha de representação” exprime com clareza esse ponto de bifurcação conceitual. do conhecimento gerado. Esse polo teria a função de antecipar. filiações e rupturas históricas nos sistemas conceituais. A. e mantém-se coeso por causa de seu movimento interno em espiral e remetendo os atores de cada polo ao exercício de suas próprias responsabilidades profissionais. do debate científico que lhes é próprio. para avaliar a pertinência do trabalho realizado no interior do dispositivo. lógicas internas que não aparecem. A partir de ensaio literário nesse contexto. de retrabalho contínuo. atividades e saberes torna-se objeto de uma experiência epistemológica explícita. Neste processo é elaborada a proposta de um dispositivo (espaços de construção de saberes integrados) de três polos (Figura 2). manipular para conhecer define uma metodologia de pesquisa. C. julgar. as maneiras de tratar seu semelhante e as situações da vida social. uma decisão de existência ou inexistência. Esse dispositivo torna-se a sede de um movimento duplo. pois qualquer uso de conceitos é uma escolha. presente nos projetos em comum que acordam entre si os dois outros polos. Ergonomia. 20. p. pois o sentido da troca de conhecimento (mestre/ . estes podem ser diferentes devido ao que o autor denominou de possíveis bifurcações na escolha de itinerários conceituais. Schwartz (2004) faz uso de exemplos da área de ciências humanas com o intuito de mostrar que as áreas de conhecimento possuem lugares escondidos. Prod. tem a seguinte configuração: • Polo dos saberes acadêmicos: objetos de esforço permanente de estabelecimento de uma ordem teórica.

a capacidade de mover-se no triângulo. colocando a atividade de trabalho como espaço privilegiado. especialmente o que se pode capitalizar no polo mais regulamentado cientificamente. coloca que quanto mais ela se torna ciência. no sentido tradicional da ergonomia. Se a opção é considerar a ergonomia ciência. Nesse contexto interdisciplinar [. pois elas são a garantia de uma reapropriação crítica e de uma vigilância específica quanto ao patrimônio acumulado no seio da disciplina. 2004c. é apoiada por uma ampla cultura adquirida sobre a atividade. 4.Pizo. sendo difícil identificá-lo no decorrer do processo. A epistemologia associada a esse gênero de dispositivo requer que se confronte rotineiramente as normas que lhe são próprias (socratismo ambivalente e a disponibilidade a outras estruturas conceituais) e as normas vigentes na comunidade científica de referência.. Prod. 3. Dispositivo dinâmico de três polos de produção de saber.. n. v.. Por fim o autor. mais ela deve posicionar-se para a aprendizagem no triângulo atividades/ valores/saberes e menos se justifica a eliminação dos protagonistas ou forças de apelo-memória. Para ele a caracterização da ergonomia como ciência encontra-se confusa. utilizando-se do conceito de quatro limiares que distinguem o grau de maturidade de um discurso científico (positividade. 2010 663 Figura 2..5. C. Análise ergonômica do trabalho . epistemologização. instaurando grupos cooperativos e fazendo emergir questionamentos pertinentes. do conhecimento gerado. cientificidade e formalização). coloca que a ergonomia está situada entre o limiar da epistemologização e o da cientificidade. A importância da AET para o estágio de maturidade da ergonomia como ciência Bouyer (2007). menos pertinente ela se torna como interlocutora imediata de sujeitos históricos. 187).. compreendendo-se o ponto de vista científico. 20. A. 657-668. que podem ser recrutados para a interpretação de uma atividade de trabalho [. Fonte: adaptação de Schwartz (2004). p. o autor observa que os modelos explicativos devem acompanhar a evolução das disciplinas que se unem para consolidá-los.. porém mais conscienciosa da necessidade da interdisciplinaridade na construção da ergonomia científica e não reducionista. O mesmo autor observa que essa situação demandou .] (DANIELLOU. questionando se a ergonomia é ciência. Quanto mais a competência ergonômica se aproxima das pressões da transformação in situ. Bouyer (2007) considera que o passo mais largo nessa direção foi a metodologia da análise ergonômica do trabalho (AET). et al. No processo de maturidade em direção à cientificidade. Ela trouxe uma nova mentalidade sobre o que consiste estudar uma situação de trabalho. p. Portanto.] não há limite nos conhecimentos das disciplinas. discípulo) é alternado frequentemente entre os atores.

657-668. • Compreender a descontinuidade organizada pelo trabalho e a complexidade de relações estabelecidas observadas por Hubault (2004). explicar o fenômeno mediante o emprego desta ferramenta ou modelo por ele construído[. Prod.. 4). e. arte ou método).. v. 2007.. e com isso conhecer os ambientes onde o conhecimento será gerado e validado. o mesmo autor elenca diversos trabalhos que poderiam ser reconhecidos como base do método.] incluir todo um arcabouço científico de outras disciplinas (psicologia. 20. deveriam dar conta do objeto posto para análise da ergonomia: o trabalho. 4.. p. que muitas vezes se operacionalizam na práxis investigativa.) que. A mesma autora destaca a existência no método da pesquisa-ação do ciclo em espiral de três fases proposto por Lewin. Tripp (2005) identifica que a maioria dos processos de melhoria segue esse mesmo ciclo e apresenta Essa conduta básica oferece uma estruturação do trabalho de pesquisa em ergonomia da atividade que permite estabelecer um vocabulário mais amplo e formalizado de forma que atenda a todos os atores que irão validar o que foi desenvolvido. ela se desenvolveu de maneira distinta para diferentes aplicações.] (BOUYER. sob muitos aspectos. Isso gerou um mosaico de abordagens metodológicas. a identificação de saber quando e onde o método teve origem é difícil porque as pessoas sempre investigaram a própria prática com a finalidade de melhorá-la. Metodologia da pesquisa-ação Neste tópico é apresentada uma visão sucinta da metodologia de pesquisa-ação. Observa-se nas leituras que os pesquisadores trazem de suas áreas de origem os termos e vocabulários (linguajares) utilizados em seus trabalhos. 2007. diferente. conforme observado por Bouyer (2007). STRAMLER. C. conclui-se que com o instrumental da AET é: [. conforme postulada pela filosofia da ciência em diferentes abordagens.] (BOUYER. Síntese Como destacado por Daniellou (2004a). todo trabalho em ergonomia deve ser baseado em um trabalho de campo que irá constituir o ambiente necessário para o completo desenvolvimento do conhecimento em ergonomia. 2010 [. O uso da AET é fundamental para essa construção do conhecimento por permitir. 4. Para Tripp (2005)... gerando inconsistências entre teoria e método e comprometimentos à validade científica dos estudos.. ao observador. sendo que cada visão segue uma tendência baseada nas origens metodológicas que a embasaram.. KARWOWSKI. antropologia. Análise ergonômica do trabalho . do conhecimento gerado. Assim. a definição da pesquisa-ação é difícil por duas razões interligadas: primeiro é um processo tão natural que se apresenta. 5). de modo a determinar procedimentos criteriosos para o registro dos conhecimentos gerados e das ferramentas utilizadas na realização do trabalho-pesquisa. A. que as verificações por outros membros da comunidade científica sejam realizadas. a própria origem multidisciplinar do início da ergonomia colabora para reforçar as questões levantadas pelos autores. sem a necessária explicação de seus fundamentos teóricos. 1993). entrarem em consenso sobre a amplitude de seus significados. Uma percepção abstraída da leitura dos textos permite que se tente estabelecer uma linha de foram considerados: • A ergonomia da atividade se desenvolve da ação. integradas.. Na breve revisão da origem histórica do método da pesquisa-ação. 2006. Tecendo a discussão em torno dos fundamentos sobre cientificidade e métodos. fisiologia. que permite readequações e alterações de rumo do processo. que é um termo genérico para qualquer processo que siga um ciclo no qual se aprimora a prática pela oscilação sistemática entre agir no campo da prática e investigar a respeito dela. 2007. n. uma metodologia cuja definição não é trivial. visto que as fases para tal são fornecidas nas etapas da própria AET e o modelo surge desse conjunto resultante da validação pelos próprios atores. Por esse motivo o autor coloca que deve-se reconhecer que a pesquisa-ação é um dos inúmeros tipos de investigação-ação.. p. Para ele. p. e observa-se que não há um consenso quanto ao status da ergonomia (ciência.. Lewin por este ter cunhado o termo em 1946.] possível construir verdadeiros modelos que. segundo. e isso normalmente gera áreas de atrito pelo fato de não . et al. a atividade [.. • A compreensão da existência do dispositivo de três polos proposto por Schwartz (2004) para que se identifiquem os atores em cada polo e seus linguajares. podem ser considerados modelos científicos por permitir. e • Realizar o trabalho de campo através da análise ergonômica do trabalho como ferramenta principal para a geração dos dados brutos (fatos virtuais ou reais) que serão fontes do desenvolvimento do conhecimento em ergonomia.. 3.6. Para amenizar essa situação existem publicações que buscam definir e estabelecer limites para vários termos dentro do contexto da ergonomia (MONTMOLLIN. apesar de muitos atribuírem sua criação a K. muitas interpretações têm sido realizadas em nome dela. Franco (2005) realça que desde o aparecimento do termo e após diferentes incorporações teóricas ao conceito e à prática da pesquisa-ação.664 Pizo.

Com viés mais sociológico. 2005. O que é também observado por Franco (2005) sob um ponto de vista educacional. Com base no contexto apresentado. significância. Para restringir o termo pesquisa-ação à forma de investigação-ação mais específica à pesquisa acadêmica. Quadro 1. pequenos grupos) e o que é considerado como nível macrossocial (sociedade. etc. 4..Pizo. pois na pesquisa-ação. na abordagem da interação social adotada em sua caracterização. Nesse aspecto é destacado que. 2005.] uma forma de investigação‑ação que utiliza técnicas de pesquisa consagradas para informar a ação que se decide tomar para melhorar a prática [. Embora a abordagem de Thiollent (2005) priorize o lado empírico. que nem sempre se encontra em propostas de pesquisa participante.Participatory Rural Appraisal Prática deliberativa Pesquisa práxis Investigação apreciativa Prática diagnóstica Avaliação-ação Aprendizagem transformacional Fonte: Tripp. n. v. • O objetivo da investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes naturezas encontrados nessa situação. ensino corretivo.Participatory Action Research PAD . Putnam e Smith (1985). Essa faixa intermediária de observação corresponde a uma grande diversidade de atividades de grupos e indivíduos no seio ou à margem de instituições ou coletividades. .Participatory Action Development PALM . Tripp (2005) prefere que ela seja denominada como [. movimentos e entidades de âmbito nacional ou internacional). um acompanhamento das decisões. os aspectos sociopolíticos são mais frequentemente privilegiados que os da realidade psicológica e existencial. Ele destaca a contribuição específica dos pesquisadores nos discursos que acompanham o desenrolar da pesquisa e em conduzir uma deliberação acerca dos argumentos a serem levados em conta para estabelecer as conclusões. 2010 665 alguns desenvolvimentos do processo básico de investigação-ação (Quadro 1). • O objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou. esclarecer os problemas da situação observada. Thiollent (2005) classifica a pesquisa-ação como uma linha de pesquisa associada a diversas formas de ação coletiva orientada em função da resolução de problemas ou de objetivos de transformação. Nomenclatura Pesquisa-ação Aprendizagem-ação Prática reflexiva Projeto-ação Aprendizagem experimental Ciclo PDCA PLA . Processos de investigação-ação. Autores Lewin (1946) Revons (1971) Schön (1983) Argyris (1985) Kolb (1984) Deming (1986) Chambers (1983) e na qual essas técnicas devem atender aos critérios comuns a outros tipos de pesquisa acadêmica (como. p. as respostas devem ser norteadas pelas seguintes dimensões: • Dimensão ontológica: referente à natureza do objeto a ser conhecido e cuja questão principal é o que se pretende conhecer quando se utiliza a pesquisa-ação a partir de pressupostos iniciais. originalidade. enfrentar a revisão pelos pares quanto a procedimentos. pelo menos. • Dessa interação resulta a ordem de prioridade dos problemas que serão pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob forma de ação concreta. e • A pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo): pretende-se aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o conhecimento ou o “nível de consciência” das pessoas e grupos considerados. Do ponto de vista sociológico. et al. 1991) Cooperrider e Shrevasteva (1987) Genérica em medicina. técnico ou outro. A. Thiollent (2005) ainda limita a pertinência do alcance da pesquisa-ação à faixa intermediária entre o que é geralmente designado como nível microssocial (indivíduos.Participatory Action Learning Methods PRA .. o autor considera que a pesquisa-ação é uma estratégia metodológica da pesquisa social na qual: • Há uma ampla e explícita interação entre pesquisadores e pessoas implicadas na situação investigada. do conhecimento gerado. a proposta de pesquisa‑ação dá ênfase à análise das diferentes formas de ação. ele não deixa de colocar as questões relativas aos quadros de referência teórica sem os quais a pesquisa empírica – pesquisa-ação ou não – não faria sentido e sobre o qual está relacionada ao papel da teoria na pesquisa. além da participação.). ela supõe uma forma de ação planejada de caráter social. • Há.. C. por exemplo. etc Rothman (1999) Marquardt (1999) empirismo e a teoria no método da pesquisa-ação é bem abordada por Argyris. das ações de toda a atividade intencional dos atores da situação.Participatory Learning and Action PAR . Para Franco (2005). no questionamento “de que pesquisa se fala” quando se refere à pesquisa-ação. Essa ponte entre o McCutcheon (1988) Whyte (1964. p. Prod.... Análise ergonômica do trabalho . educacional. 447). Ele a distingue da metodologia da pesquisa participante. 657-668. 20.] (TRIPP. validade. durante o processo.

• Nas “deliberações” relativas à escolha dos meios de ação a serem implementados. Essa interação entre o observador e o observado não é unilateral entre o pesquisador e os investigados. segundo a qual a realidade não é fixa e o observador e seus instrumentos desempenham um papel ativo na captação da informação e nas decorrentes representações. é estruturada em conhecimentos e divulgada pelos canais próprios da área do pesquisador. Nesse processo. cotejada com resultados de pesquisa anteriores. 2010 • Dimensão epistemológica: referente à relação sujeito-conhecimento e cuja questão principal é como se estabelecem as relações entre sujeito e conhecimento. Nesse aspecto várias situações podem ser distinguidas: • Quando os participantes têm uma ideia clara dos objetivos e da ação necessária. decifração. análise e síntese do “material” qualitativo gerado na situação investigada. . em função do saber próprio dos usuários e do contexto social. 4. e • Quando se trata de uma ação de caráter cultural. As transformações intencionalmente definidas não se traduzem apenas ao nível da consciência individual ou coletiva. Prod. segundo Thiollent (2005). O mesmo autor coloca que a significação do que ocorre na situação de comunicação estabelecida pela investigação passa pela compreensão e a análise da linguagem em situação. sob forma e meios apropriados. C. Thiollent (2005) coloca que na pesquisa-ação há um reconhecimento do papel ativo dos observadores na situação investigada e dos membros representativos dessa situação. sob formas de simples verbalizações. Com ela é necessário produzir conhecimento. Outra questão-chave na pesquisa-ação colocada por Thiollent (2005) é a elucidação dos objetivos que ele coloca como relacionamento entre dois tipos: • Objetivo prático: que seria contribuir para o melhor • Na colocação dos problemas a serem estudados conjuntamente por pesquisadores e participantes. equacionamento possível do problema considerado como central na pesquisa. com levantamento de soluções e proposta de ações correspondentes às soluções para auxiliar o agente (ou ator) na sua atividade transformadora da situação. transformações ou mudanças no campo social. educacional ou político. a um nível mais profundo) com as exigências científico-técnicas. e • Objetivo de conhecimento: que seria obter informações de difícil acesso por meio de outros procedimentos e aumentar o conhecimento de determinadas situações. Análise ergonômica do trabalho . há também a aprendizagem de saber fazer e aquisição de novas habilidades. ações efetivas. pois é necessário um mínimo de conhecimento nesse setor para evitar ingenuidades. ela é de duas vias. fazendo perguntas e procurando elucidar os assuntos coletivamente investigados. Parte dessa atividade é um processo argumentativo que se encontra: Diferenciando o método da pesquisa-ação. Assim. Thiollent (2005) ainda destaca que é necessário ter cuidados para que a pesquisa-ação resulte em conhecimentos associados ao ideal científico. discursos ou argumentações mais ou menos elaboradas. A estrutura cognitiva oferece ao pesquisador melhores condições de compreensão. o desafio maior é o de juntar as exigências da tomada de consciência (ou da conscientização. onde todos desempenham uma função interrogativa. • Nas “explicações” ou “soluções” apresentadas pelos pesquisadores e que são submetidas à discussão entre os participantes. Nesse processo. A questão da ação transformadora deve ser colocada desde o início da pesquisa em termos realistas e estabelecido o papel do pesquisador. ela é definida em função dos meios técnicos e econômicos necessários. “Material” este essencialmente feito de linguagem. os pesquisadores e participantes devem estar em condição de fazer uma avaliação realista dos objetivos e dos efeitos. contribuir para a discussão ou fazer avançar o debate acerca das questões abordadas. interpretação. n. A. e • Dimensão metodológica: referente a processos de conhecimento utilizados pelo pesquisador e que passa fundamentalmente à exigência de procedimentos articuladores da ontologia com a epistemologia da pesquisa-ação. Com a pesquisa-ação pretende-se alcançar realizações. Bem conduzido. No plano da ação. Isso remete aos desníveis de abstração no modo de comunicação dos pesquisadores e dos participantes devido às diferenças de linguagem. p. A outra parte. adquirir experiência. sendo que o autor considera que com maior conhecimento a ação é mais bem encaminhada.666 Pizo. em que o pesquisador essencialmente assessora as decisões correspondentes ao que for factível nas melhores condições e extraem da prática diversos ensinamentos. e • Nas “avaliações” dos resultados da pesquisa e da correspondente ação desencadeada.. • Quando se trata de uma ação tipo técnica. o trabalho pode alcançá-los simultaneamente. 20. a noção de objetividade estática é substituída pela noção de relatividade observacional. tomada de consciência ou produção de conhecimento. A relação entre esses dois tipos é variável. et al. v. parte das informações geradas é divulgada para a população envolvida na pesquisa. imprecações. a ênfase no alcance do trabalho pode ser dada a um de três aspectos: resolução de problemas. do conhecimento gerado.. 657-668.

quanto as pessoas que a realizam. entre outras. n. Contudo. medicina do trabalho. 657-668. O esquema geral da abordagem da ação ergonômica no desenvolvimento da análise ergonômica do trabalho proposto por Güérin  et  al. A. 2010 667 O mesmo autor destaca também que o saber informal dos participantes não é desprezado e sim posto em relação com o saber formal dos especialistas no intuito do enriquecimento mútuo. conseguindo caracterizar essa simbiose entre pesquisa-ação e análise ergonômica do trabalho. • Os atores são todos os que participam do processo. inclusive o pesquisador/ergonomista. Tripp (2005) considera útil empregar cinco modalidades ao pensar sobre a natureza de um projeto de pesquisa-ação: • Pesquisa-ação técnica: abordagem pontual na qual toma-se uma prática existente de algum outro lugar e a implementa em sua própria esfera de prática para realizar uma melhora. O autor fecha sua análise colocando que uma pesquisa-ação é tão eficaz. do conhecimento gerado. fazem com que a proximidade entre o método da análise ergonômica do trabalho e o da pesquisa-ação os torne indissociáveis para que o conhecimento gerado seja reconhecido mais amplamente nas diversas áreas de conhecimento. a ergonomia possui um caráter integrador de conhecimentos oriundos de várias áreas. • Pesquisa-ação política: refere-se à mudança cultural institucional e/ou de suas limitações. que será fator chave para a transformação da situação do trabalho. Isso faz com que o conhecimento gerado no âmbito da ergonomia seja levado para essas diversas áreas. 4. e • Pesquisa-ação emancipatória: Variação da pesquisa-ação política que tem como meta explícita mudar o stato quo de um grupo social como um todo. a ergonomia não é só análise da atividade. O pesquisador.Pizo. são de grande utilidade na resolução de problemas do mundo real. v. Prod. apesar das discussões sobre o controle que se deve ter para manter seu caráter científico. apesar de nãos serem valorizados no plano cultural-simbólico. Como comentado por Daniellou (2004a) e detalhado por Leplat e Montmollin (2007) para as áreas de biologia humana. pois isso depende do objetivo da pesquisa em ergonomia. • Pesquisa-ação prática: abordagem onde se escolhe ou projeta as mudanças dentro do próprio espaço de melhoria. e • O trabalho deve ser realizado tendo a análise ergonômica do trabalho como ferramenta principal para a geração dos dados brutos (fatos virtuais ou reais). colocando a última como uma situação . 20. 5. Esse processo de retornar ao “meio” da área de conhecimento feito pelos pesquisadores faz com que o pesquisador tenha de “traduzir” o método de pesquisa reconhecido pelos pares do “meio” da ergonomia para um método reconhecido pelos pares da sua área de conhecimento de origem. et al. p. psicologia do trabalho. cientificamente ou não. é possível levantar os seguintes aspectos-chave sobre o método da ergonomia da atividade: • Ela se desenvolve da ação. (2001). C. Em muitas áreas de conhecimento em que a ergonomia permeia o método da pesquisa-ação. ciências cognitivas. a pesquisa-ação fortalece a produção e a divulgação de conhecimentos que. O autor conclui que a pesquisa-ação é uma orientação destinada ao estudo e à intervenção em situações reais. • A interação entre os atores gera um aumento do conhecimento ou do nível de consciência da atividade.. Por outro lado. bem como a análise da atividade pode ser utilizada em outros domínios que não o do trabalho. as preocupações sobre a cientificidade da ergonomia da atividade e os aspectos destacados sobre o método da análise ergonômica do trabalho permitem observar que a AET tem forte semelhança com as características e preocupações relacionadas à pesquisa-ação. Considerações finais Como apontado por Montmollin (2007). sociologia do trabalho e organização do trabalho. c). mas com certeza será o método para qualificar melhor a análise ergonômica do trabalho nos espaços da área de conhecimento integrada à ergonomia que não a permeiam. Nesse processo de geração de conhecimento. cujo resultado é uma mudança no modo de pensar a respeito do valor último e da política das limitações. a interação entre os atores e a participação ativa do pesquisador levantadas por Daniellou (2004a. respectivamente. os aspectos instrumentais e de comunicação destacados por Hubault (2004) e Schwartz (2004).. Quanto ao aspecto de geração de conhecimento. a partir das discussões apresentadas. b. Análise ergonômica do trabalho . Não que seja o único método de pesquisa a ser utilizado. • Pesquisa-ação socialmente crítica: modalidade da anterior. é um método de pesquisa reconhecido e utilizado em diversos propósitos de estudo. • É um método cíclico que se realimenta do conhecimento ou aumento da consciência gerado.

C. A ciência ergonômica entre a epistemologização e a cientificidade. S. San Francisco: Jossey-Bass. F. São Paulo: Cortez. 8-10. (Ed. terá mais facilidade em movimentar-se entre os espaços de conhecimento dentro de sua área de atuação. J. 2004a. THIOLLENT. Anais. E. p. H. GÜÉRIN. M. Por isso é importante que a condução da pesquisa e a representação do conhecimento sejam aceitas pela comunidade na qual se quer validá-la. P. P. Action Science: Concepts. M. conforme a área do conhecimento vai evoluindo. In: FALZON. 2007. F. A.org/diffusion/ contributions. Encyclopedia of ergonomics and human factors. 27. como posto por Daniellou (2004b) e Tripp (2005). 2007. R. 2004. and of how this contribution to knowledge generated in EWA may have facilitated its scientific recognition among peers of the areas of knowledge that ergonomics permeates. Referências para uma história da ergonomia francófona. D. SCHWARTZ. (Coord. Keywords Activity ergonomics. Based on these concerns and a review of the characteristic activity of research. Science. 2001. 2005. Vocabulaire de l’Ergonomie.. Essa expectativa decorre. 2010 particular da primeira. Uma abordagem da psicologia do trabalho. p. 2004b. 1985. v. Ergonomia. Foz do Iguaçu: PUC-PR. p. o método e também para modificar esse caminho. 2007. 33‑44. F. (Ed. 1.. F. 181-198. Research. São Paulo: Edgard Blucher. M. p. P. v. 443-466. p. VIEIRA. 2005. C. 2007. 2004. F. Uma continuidade desse trabalho será o levantamento das produções científicas que tenham lançado mão da análise ergonômica do trabalho para: identificar o método de pesquisa adotado. A.668 Pizo. . v. São Paulo: Edgard Blucher.. BOUYER. A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos. 21-32.). 141-179. principalmente considerando as variações e denominações do método pesquisa‑ação observado por Tripp (2005) e Franco (2005).. PRODUÇÃO. F. In: FALZON. Tolouse. Com isso será possível averiguar a realidade dessa indissociabilidade e a chance de uma possível classificação da análise ergonômica do trabalho como um tipo de pesquisa‑ação com propósitos ergonômicos. Como colocado pelos mesmos autores. et al. Natureza. A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos.SELF. v. PUTNAM. Y. In: FALZON.. LAVILLE. p. F. (Coord. Questões epistemológicas levantadas pela ergonomia de projeto. 483-502. Prod. Ergonomia. 2007. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. São Paulo: Edgard Blucher. Introdução . 2007. and skills for research and intervention.). p. The dictionary for human factors/ergonomics. DANIELLOU. Referências ARGYRIS. 2006.questões epistemológicas acerca da ergonomia.). 155-168. Psicologia em Revista. réalités. pelo fato de que uma pesquisa para ser reconhecida tem que ser validada pela comunidade em que ela é apresentada e que sua aceitação depende em parte do método utilizado e de sua condução. 4. KARWOWSKI.). C. objetivos e conhecimentos da ergonomia: elementos de uma análise cognitiva da prática. a aceitação não é estática. São Paulo: Edgard Blucher. A. n. DANIELLOU. MONTMOLLIN. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Edgard Blucher. Educação e Pesquisa. 3. Apresentação à edição brasileira. a theoretical analysis is undertaken of the symbiosis between this method of research and EWA. do conhecimento gerado. P. Compreender o trabalho para transformá‑lo: a prática da ergonomia. unânime e se altera com o tempo. 3-19.). Do que a ergonomia pode fazer análise? In: DANIELLOU. In: DANIELLOU. (Coord. p. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE Ergonomic work analysis and the scientific recognition of knowledge generated Abstract This paper contextualizes in Ergonomic Work Analysis (EWA) the concerns of researchers in the field of ergonomics regarding the scientific recognition of research methods in their work. F. São Paulo: Edgard Blucher. F. filosofia e exterritorialidade. In: DANIELLOU. (Ed. FRANCO. 3. As relações de vizinhança da ergonomia com outras disciplinas. Disponível em: <http://www. p. 31. 13. Pedagogia da Pesquisa-ação. A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos. 657-668. C. 20. G. Acesso em: 01 jun. F.. LEPLAT. p.pdf>. 105-140. V. São Paulo: Edgard Blucher.). (Coord. São Paulo: Edgard Blucher. FALZON. 31. n. p. 2005. 1-18. TRIPP. W. P. 2007. BARROS. D. STRAMLER. SMITH. F. Educação e Pesquisa. C.. n. London: Taylor & Francis. MONTMOLLIN. J. perspectives. A.. na presença do trabalho.). methods. 14 ed. Boca Raton. Análise ergonômica do trabalho . Ergonomia. Ergonomie de l’activité et francophonie: héritages. Isso ocorre pela redução da necessidade de “tradução” do método AET nessas movimentações. France: Octarès Editions. São Paulo. a comunidade a qual pertencem os pesquisadores e qual trabalho foi apresentado. A ergonomia em busca de seus princípios: debates epistemológicos.ergonomie-self. Florida: CRC. M.). 2008. M. et al. Assim. Ergonomia. 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