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Da igualdade à equivalência: o caso Sears 30 anos depois

EM TODOS OS PAÍSES CAPITALISTAS desenvolvidos, a maioria dos empregos de tempo parcial é de mulheres. Nos países em desenvolvimento, elas também são maioria nas atividades informais e, em todos os países do mundo, as mulheres ocupam postos de trabalho mais precários ou de vínculo mais frágil do que os homens (HIRATA, 2006). Há muitos enfoques e disciplinas que tentam explicar a discriminação sexual no trabalho, que serão abordadas aqui sob a perspectiva do pensamento pós-estruturalista e de seus desdobramentos. O objetivo é refletir sobre as desigualdades de forma articulada com outros temas da política feminista, como a defesa da identidade e as especificidades do feminino no debate sobre direitos. O eixo da discussão é a disjuntiva entre igualdade e diferença, questão que se coloca como um desafio a uma das mais tradicionais plataformas políticas de reivindicação de igualdade do movimento feminista. A partir do debate decorrente do famoso caso Sears – empresa que, no final da década de 1970, foi acusada de discriminação sexual contra mulheres na contratação de mão-de-obra para postos competitivos e de salários mais altos – apresenta-se a proposição de equivalência de direitos formulada por Drucilla Cornell e tomada aqui como uma

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Indicadores do IBGE (PNAD. 108 . tomada aqui como situação exemplar dos desafios que a política e a teoria feministas enfrentam na sociedade contemporânea: a conquista de direitos iguais. mesmo quando elas ocupam cargos de maior prestígio. Na administração federal. O objetivo é refletir sobre o debate a respeito da desigualdade do acesso das mulheres ao mercado de trabalho. menos oportunidades de carreira. mais acessível às mulheres? Conhecemos bem as conseqüências da discriminação contra as mulheres nesse campo: menos status profissional. seja na iniciativa privada. Apesar de a participação relativa das mulheres no contingente de formados ter aumentado em praticamente todos os cursos universitários. diferentes pesquisas apontam para o mesmo cenário: embora elas tenham maior escolaridade. em que 80% dos postos são ocupados por homens. buscam oportunidades de ascensão social e superação das desigualdades de renda. menos acesso aos postos de poder. como aponta Vicki Schultz (1992). pesquisa mostra que. mais mulheres subempregadas ou em trabalhos precários. as mulheres são minoria nas vagas superiores da hierarquia. são questões a ser enfrentadas15 para o benefício de todas as mulheres que. DAS-6 (FONTELEMOURÃO. 2007) mostram que as mulheres são maioria nas faixas salariais mais baixas e minoria nas mais altas. Como tornar o mercado de trabalho menos segregado. embora ocupem 43% dos cargos federais. Brasília: SPM. Mulheres no topo de carreira: flexibilidade e persistência. e essa tendência se mantém inalterada há pelo menos duas décadas. As mulheres no topo da carreira pública são minoria nas três faixas salariais mais altas: 36% ganham DAS-4. 2006). a diferença salarial em relação aos homens caiu pouco. a desigualdade de renda e de acesso aos postos mais altos na hierarquia. salários mais baixos. Ainda que as mulheres estejam amplamente representadas – elas correspondem a 45% da população economicamente ativa –. muitas vezes sob forte ataque de setores conservadores que justificam as desigualdades como conseqüência “natural” das diferenças entre homens e mulheres. Nos EUA. 21% recebem DAS-5 e somente 19% têm a remuneração máxima.das saídas para o impasse que Joan Scott (1988) chamou de “escolha impossível”. e empregadores recor15 No Brasil. inseridas no mercado de trabalho. seja na administração pública. Tânia. os tribunais têm sido importante fórum de debate sobre a questão. os rendimentos das mulheres são menores do que os dos homens.

no entanto. quando as oportunidades são oferecidas. havia maior presença dos homens nos postos mais altos. maior empresa de varejo dos EUA e maior empregadora de mulheres no âmbito privado. mostrando que mulheres são mais domesticamente orienta- 109 . parece ser apenas mais um enfrentamento de posições antagônicas. Anos antes do julgamento. Duas historiadoras feministas foram peça chave no tribunal: Alice Kessler-Harris. O que. fez do caso Sears um episódio singular na discussão sobre a presença da mulher no mercado de trabalho foi o fato de que. 2) a acusação quis mostrar que os empregadores não ofereceriam oportunidades. em que a maioria dos funcionários era homens. e se oferecessem as mulheres assumiriam empregos que tradicionalmente não são tidos como feminino. a defesa da empresa se valeu de argumentos da testemunha de acusação. por isso. Primeiramente. o que configuraria discriminação. pela acusação. o que seria característica comum da identidade feminina.rem sistematicamente ao argumento de que as mulheres não estão interessadas em ocupar cargos de chefia ou mais bem remunerados. por discriminação sexual na contratação de mão-de-obra para áreas mais bem remuneradas. ela havia publicado artigo sobre as diferenças na maneira como homens e mulheres encaram o mercado de trabalho. A acusação replicou o argumento. O tema está em debate nos tribunais norte-americanos desde 1979. as mulheres assumem. Dois lados se enfrentaram: 1) a defesa da Sears procurou demonstrar que não havia interesses iguais entre homens e mulheres em relação aos postos de trabalho. e Rosalind Rosenberg. quando a Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego (sigla em inglês EEOC) moveu um processo contra a Sears. na tréplica contra a acusação. pela defesa. sim. Baseada no relato de Ruth Milkman (1986). a defesa quis demonstrar que não havia interesses iguais entre homens e mulheres em relação aos postos de trabalho. até aqui. levando ao tribunal exemplos de que. ocupações que não são tidas tradicionalmente como “femininas”. a historiadora Alice Kessler-Harris. como a de vendas por comissão. recupero o que.

A decisão levou autoras como Ruth Milkman a questionar o que mais interessa às mulheres: políticas públicas que as tratem de forma igual aos homens. recuperando o argumento do determinismo biológico que justificaria as distinções nos interesses de homens e mulheres. Em quase metade deles (46%) o Judiciário aceitou a defesa das empresas. ignorando diferenças culturais e sociais entre elas. pela primeira vez. justificativa dos empregadores para a discriminação (SCHULTZ. A estratégia da defesa venceu o debate e convenceu o juiz John A. Para Rosenberg. as mulheres fazem escolhas baseadas em valores femininos. a discriminação sexual no trabalho foi tratada como uma escolha das mulheres. 110 .das e menos individualistas do que os homens. mesmo diante de oportunidades iguais. ou o reconhecimento dos valores e dos comportamentos femininos? O caso Sears foi emblemático porque. A autora tratou como “natural” a diferença de aspirações masculinas e femininas nos postos de trabalho da empresa. Os problemas que emergiram do caso Sears tiveram impactos teóricos e políticos. que trouxeram como resultado pelo menos dois importantes desdobramentos: a questão da identidade e o debate sobre a oposição entre igualdade e diferença. p. Segundo o juiz: “A pressuposição de interesses iguais [entre homens e mulheres] é infundada e solapa fatalmente toda a sua análise estatística” (apud PIERUCCI. são essas escolhas que mantêm as mulheres em postos ou menos competitivos ou menos orientados a ganhos econômicos. que são diferentes do modelo tradicional masculino. baseada na idéia de que a diferença da posição feminina nos postos de trabalho era resultado do falta de interesse das mulheres em cargos mais altos da hierarquia. argumento usado posteriormente pelas empresas em 54 outros processos. 1999. feita por Rosenberg. 42). o que terminava por concordar com a argumentação da defesa da Sears. Norderberg de que a distribuição dos postos de trabalho na Sears poderia ser explicada pelas diferenças existentes entre homens e mulheres. Segundo ela. e não como resultado de qualquer política discriminatória. 1992).

como categoria identitária. 1992). Men and Women of the corporation 1977. acirrou-se a discussão sobre se a política feminista deveria optar por uma defesa da igualdade entre homens e mulheres ou pela reivindicação das diferenças. sonham com escapar de seus empregos. Schultz evoca pesquisas realizadas nos EUA para demonstrar que. Gender differences at work: women and men in nontraditional occupations 1989. não aspiram a empregos melhores. e. S. em geral. e WILLIANS. pois se concentram em atividades não-profissionais. C. estabelecendo a premissa de que as mulheres. insistem em afirmar que estão satisfeitos com não ser promovidos. os homens tendem a se comportar conforme o estereótipo atribuído às mulheres que ocupam esses postos: não definem a carreira como atividade central de suas vidas. Schultz quis mostrar que as características em geral atribuídas ao grupo “mulheres” são encontradas em trabalhadores de ambos os sexos. Ela se apóia em inúmeros estudos que mostram como os empregadores construíram a idéia de que há empregos tradicionais femininos para exigir das mulheres comportamentos que são considerados preexistentes como atributos da feminilidade16. Rosabeth Moss. interrompem a trajetória profissional. quando alocados em situações profissionais subqualificadas: “MuiEntre estes estudos. a partir do momento em que a justiça aceitou os argumentos dos empregadores e passou a interpretar a segregação sexual no mercado de trabalho como expressão da falta de interesse das mulheres em postos mais bem remunerados.O QUESTIONAMENTO DA IDENTIDADE A partir da vitória da Sears no tribunal. ver COHN. 16 111 . A autora aponta para o problema de a justiça ser chamada a caracterizar as aspirações e a identidade das mulheres como um grupo (SCHULTZ. The process of occupational sex-typing: the feminilization of clerical labor in Great Britain 1985. o que permitiu aos empregadores determinar preferências de gênero que justificam a segregação sexual no mundo do trabalho. colocados em posições profissionais de baixa mobilidade. Schultz indica que se abriu um campo de discussão sobre a articulação entre lei e identidade. KANTER.

Schultz critica ainda o fato de os tribunais terem assumido como premissa que o interesse das mulheres no trabalho é configurado exclusivamente por sua vida privada. ao invés disso. “a desconstrução da identidade não é a desconstrução da política. independentemente das exigências do mundo do trabalho. o Judiciário estabeleceu um determinado viés para deliberar sobre casos de segregação sexual nas empresas e os juízes adotaram a tese de que as diferenças de oportunidade estavam ligadas à falta de interesse das mulheres nos postos mais altos da carreira. é que. Uma entre as muitas autoras que problematizam a questão da identidade da mulher na política é Judith Butler. como mostram os exemplos de Schultz. mas sim o fato de as trabalhadoras interiorizarem um senso de ‘feminilidade’ que as levou a evitar outros postos de trabalho” (1992. é um problema político que tanto a teoria quanto a militância feministas tenham se baseado no termo “mulheres” como algo que designe uma identidade comum. p. A autora propõe uma crítica à pretensa necessidade de a política feminista se fundamentar numa base única e permanente. p. O problema. a partir do episódio Sears. que defende a possibilidade de haver política sem que seja necessário constituir uma identidade fixa ou um sujeito a ser representado para que essa política se legitime. 213). pode se voltar contra o próprio interesse das mulheres.tas vezes os tribunais dizem que por trás da sobrepresentação das mulheres em empregos precários não está uma cultura ameaçadora. Aqui se abre o debate para questão da identidade da categoria “mulher”. 112 . ainda seguindo Schultz. Para ela. na qual a teoria feminista tem se apoiado e que. ela estabelece como políticos os próprios termos pelos quais a identidade é articulada”. e não como parte de um processo cultural de predeterminação do que são os atributos das mulheres. A autora se vale desse resultado para questionar a afirmação de que as mulheres querem postos inferiores “por sua própria escolha”. De acordo com Butler (2003. 321). que só funcionaria dentro da idéia de identidade.

dentre elas. por exemplo. Um dos objetivos do movimento feminista seria instituir a mulher como sujeito de direitos. 2003. outras ações concretas. da argumentação racional. 35)17. renunciando à ilusão de que poderíamos nos livrar completamente das relações de poder. paradoxo que exige limitar os sujeitos em categorias restritas para poder “libertá-los”. mas. no seu entender.Butler discute as práticas políticas que pressupõem o sujeito como identidade fixa. a todos os postos do mercado de trabalho. que são. também é parte de um processo político. contribuindo para a redução das relações de poder. sem a exigência da camisa-de-força da “unidade”. em vez de apostar numa unidade totalizante. podem surgir a partir da constituição de identidades que “podem ganhar vida e se dissolver”. Unidade. Para ela. fundadas no que ela chama de unidades provisórias – portanto. a questão principal da democracia não é a busca do consenso. Chantal Mouffe. Apostar no diálogo como instrumento de construção da igualdade – seguindo uma linha habermasiana – é ignorar. num processo de busca de consenso livre de qualquer tipo de coação externa e interna. mais fragmentárias. A reivindicação deveria ser conciliada com a exigência de combinar a política representativa – feita a partir da categoria identitária “mulher” – com a aceitação da hipótese de que esse “sujeito mulher” não é uma premissa com a qual se possa contar. que a própria noção de diálogo é “culturalmente específica e historicamente delimitada” (BUTLER. Suas idéias são contestadas por muitas teóricas feministas. Mouffe defende. e não apenas aos de menor remuneração e maior precariedade. que tentaria abafar os conflitos. Habermas propõe o diálogo a partir do que chamou de “ação comunicativa”. admitir a existência de relações de poder e a necessidade de transformá-las. Sua aposta é que. supõe uma negociação dialógica que esconde o quanto cada um dos atores ocupa posições de poder. ao contrário. 17 113 . a constituição de formas de poder compatíveis com valores democráticos. fragmentações e rupturas. constitutivas do social (MOUFFE. p. como diz Butler. lembra Butler. da ausência de coerção e da igualdade. esse processo de comunicação alcançaria o entendimento mútuo e permitiria alcançar o que ele chama de “democracia deliberativa” por meio da participação de todos. menos coerentes –. 2003). assim. Para ele. possibilidade de interação de pessoas por meio da linguagem. com pleno acesso. Butler pontua que aceitar divergências.

aceitando a desconstrução das oposições binárias como uma tarefa central tanto teórica como política (SQUIRES. O questionamento de Mouffe se articula com o episódio Sears. mas o reconhecimento deste dilema tem motivado diversas tentativas de pensar em um caminho que vá além da dicotomia. p. O DEBATE SOBRE A DISJUNTIVA IGUALDADE VERSUS DIFERENÇA Joan Scott argumenta que a disjuntiva igualdade/diferença é uma oposição binária convencional. discute a questão da identidade e sustenta que “a desconstrução das identidades essenciais deve ser vista como condição necessária para uma compreensão adequada da diversidade de relações sociais a que os princípios da liberdade e da igualdade devem aplicar-se” (MOUFFE. A existência destas duas estratégias não é nova e marca a história do feminismo. como se verá a seguir. em vez de tentar escondê-los ou disfarçá-los. 1996.Chantal Mouffe é outra autora que. podem-se reconhecer as formas de exclusão muitas vezes ocultas nesses consensos. Para ela. à medida que a autora interroga como as relações de subordinação – e. Para ela. com Joan Scott. e. como são as oposições natureza/cultura e masculino/feminino que sustentam a hierarquia de gênero. Por esse caminho. graças à perspectiva do pensamento da desconstrução. A autora busca demonstrar que a oposição entre igualdade e diferença não pode 114 . 104). Mouffe também defende que a identidade de um sujeito é contingente – termo também utilizado por Butler – e afirma que “a perspectiva [da desconstrução] pode contribuir para subverter a tentação sempre presente nas sociedades democráticas de naturalizar suas fronteiras e essencializar suas identidades” (MOUFFE. 1999). a desconstrução da identidade “arrasa” o dilema igualdade versus diferença. de exclusão – são construídas sobre a diferença sexual e sobre definições essencialistas da identidade das mulheres. 32). p. o consenso é resultado temporário de uma hegemonia provisória que implica alguma forma de exclusão. no exemplo do mercado de trabalho. 2005. partindo de uma perspectiva feminista.

admite-se que a igualdade é inatingível. Para a autora. nem a diferença exclui a possibilidade de igualdade. 43). desmascarar a relação de poder que coloca a igualdade como a antítese da diferença e. Pensar apenas igualdade significaria deixar de fora as diferenças inerentes a cada grupo. mas sim desigualdade. considerando-se que a diferença sexual não deve ser tomada como critério para impedir a igualdade de direitos. O caminho para o qual Scott aponta indica que nem a igualdade elimina a diferença. se é forçado a aceitar a idéia de que a diferença é antitética. Caso opte por uma igualdade. Por exemplo. numa estrutura opositiva. seria uma falsa questão ser ou “feminista da diferença” ou “feminista da igualdade”. Scott lembra que.estruturar as escolhas da política feminista. Enquanto Ruth Milkman encara o episódio Sears como uma demonstração de que a política feminista deve insistir na defesa da igualdade – afinal. 1986. que é a ferramenta de análise mais criativa que temos. Quando estruturadas em termos dicotômicos. pensar na igualdade entre mulheres e homens deixaria de fora as diferenças que existem dentro dessa categoria “mulheres”. recusar opções políticas que se restrinjam a construções dicotômicas. o contrário de igualdade não é diferença. Feministas não podem desistir da “diferença”. Mas também não podemos desistir da “igualdade”. p. Para ela. uma escolha impossível. supostas diferenças entre homens e mulheres foram 115 . segundo Scott. Caso se opte pela diferença. 1988). porque essa é uma oposição que não representa a relação entre os dois termos (SCOTT. pensar apenas a diferença significaria deixar de fora a igualdade inerente aos dois sexos. Por outro lado. de outro. num tipo de proposição em que se deve forçosamente optar por um dos lados. é preciso formular uma dupla resposta: de um lado. igualdade e diferença exigem. pelo menos enquanto quisermos dialogar com os princípios e valores de nosso sistema político (SCOTT. diante do dilema que se apresenta – o da defesa da igualdade de direitos e sua compatibilidade com o reconhecimento da diferença sexual –.

para quem a questão da diferença sexual aparece como uma das centrais na teoria feminista atual. porque é uma disjuntiva posta a serviço de oprimir as diferenças específicas que existem dentro de cada grupo. p. p. estaríamos de volta ao dia em que se supunha que a história dos homens era a história de todos. A partir da leitura que faz de Derrida. 45). A sustentação da oposição homem/mulher não atende ao interesse das mulheres. ela mostra que determinadas suposições de neutralidade podem conter uma associação entre masculino e neutro e subordinar o feminino na estrutura hierárquica tradicional. no entender de Scott. 116 . está contribuindo para o questionamento do par binário masculino/feminino sobre o qual se apóia a hierarquia de gênero. Para Scott. A discussão de Scott se articula com a análise de Grosz. Grosz argumenta que. 1988. 1988. na natureza e nas qualidades essenciais do feminino.invocadas para legitimar discriminação sexual na empresa –. quando Derrida sugere a possibilidade de uma indeterminação da sexualidade antes da instituição da diferença sexual. Com isso. em que as mulheres eram ‘ocultadas’ e o feminino servia apenas de contraponto para a construção de uma identidade masculina positiva (SCOTT. Em outras palavras. Grosz lembra que Derrida interroga sob que condições vem sendo atribuído à mulher um status social secundário baseado na biologia. ou seja. 46). Scott problematiza o fato de que ignorar a diferença sexual seria subsumir as mulheres na categoria geral do “humano”. A autora defende como alternativas a recusa a opor igualdade e diferença e a insistência nas diferenças – das condições individuais e coletivas e na resistência à fixação dessas identidades. forjando uma identidade para a categoria mulher. “diferenças como o verdadeiro sentido da própria igualdade” (SCOTT. a oposição homens/mulheres é mais uma oposição binária que só serve para esconder as diferenças existentes entre as mulheres. perdendo-se a especificidade da diversidade do feminino e da experiência das mulheres.

Direitos iguais aos dos homens seriam. que se mostraria inútil na eliminação das desigualdades entre homens e mulheres na medida em que toma o masculino como norma. e com as de Scott. num caminho que se articula com o da filósofa e advogada Drucilla Cornell na sua proposição de deslocar a questão da disjuntiva igualdade versus diferença para pensar em equivalência de direitos.Levar em conta a diferença sexual na garantia de direitos é questão pertinente tanto à teoria quanto à política feminista. mas de um deslocamento da idéia de busca pela igualdade. Grosz invoca as intenções do pensamento da desconstrução: ao mesmo tempo em que pretende repensar os caminhos sobre os quais a política tem sido feita. a autora faz uma distinção entre direitos iguais e equivalência de direitos. em favor das “unidades provisórias”. uma das importantes contribuições do pensamento da desconstrução à política e à teoria feministas está no fato de que a desconstrução considera a diferença sexual tal qual tem sido pensada pela tradição como questão “crucial” no debate sobre ética. quer “reorganizar ou talvez desorganizar” os caminhos pelos quais as formas de fazer política vêm sendo compreendidas. Essa proposição se articula com as de Butler. apenas uma forma de manter o masculino como superior ao feminino. porque estariam limitados a essas características e se baseariam na diferença sexual como justificativa para a 117 . Para Cornell. DA IGUALDADE PARA A EQUIVALÊNCIA DE DIREITOS Para Drucilla Cornell. Derrida é um autor que questionou a hierarquia de gênero ao problematizar a divisão binária masculino/feminino. não em termos de uma disjuntiva. Para interrogar essa universalidade do masculino. para ela. os direitos das mulheres não podem estar relacionados às normas que a cultura impõe à feminilidade. quando esta afirma que é preciso recusar opções políticas que se restrinjam a construções dicotômicas. mostrando como essa é mais uma oposição convencional sustentada por uma hierarquia que toma o masculino como universal.

a autora segue a discussão aqui exposta sobre a questão da identidade de gênero. sustentar uma diferença sexual opositiva seria contribuir para sustentar o feminino no lugar secundário ou subordinado. em proposições amplas e não caberia discuti-las neste trabalho.subordinação e para a exclusão da mulher. p. ao mesmo tempo. que permite ver o gênero feminino de modo “realmente diferente” (CORNELL. A mesma lógica valeria para a discussão sobre o reconhecimento das especificidades da mulher. tomado como norma. romper com a afirmação da identidade sexual. não se poderia justificar tratamento desigual perante a lei aos homossexuais por eles terem um relacionamento não-heterossexual. A autora evoca a necessidade de pensar a “mulher” além da oposição binária entre masculino e feminino. Para Cornell. Para Cornell. A noção de equivalência de direitos proposta por Cornell é pensada como caminho para a aceitação do direito de escolha de diferentes maneiras de viver. Cornell quer valorizar o feminino dentro da diferença sexual e. Em sua tomada de posição em prol de uma equivalência de direitos. Segundo a autora. Cornell afirma que é impossível pensar em justiça para mulheres enquanto o padrão for masculino. Apenas pontuo que elas se articulam com o tema da equivalência de direitos quando Cornell defende a idéia de que o reconhecimento de direitos equivalentes para os homossexuais equivaleria ao reconhecimento das especificidades. tomados como norma. para isso. para que essa liberdade se dê. o masculino deixaria de ser tomado como referência. 118 . 1999. o pensamento da desconstrução oferece a possibilidade de haver uma “descoberta da especificidade feminina”. O que ela pretende. Ao propor esse segundo ponto. também propõe um duplo trabalho: evitar a cumplicidade com os mecanismos da sociedade patriarcal que tomam o masculino como padrão e. não seria simplesmente abrir espaço para as 18 Cornell se refere particularmente aos arranjos homossexuais. 117). 1999. Para Cornell. como aconteceu no julgamento do caso Sears. 118). seria preciso reconhecer a legitimidade dos relacionamentos íntimos não-tradicionais e conferir valor ao feminino na diferença sexual18. assim. p. como forma de “resistir à lógica da identidade reproduzida na hierarquia de gênero” (CORNELL. que não podem ter tratamento desigual perante a lei por não serem homens.

o 119 . em um tipo de acomodação que as coloca em postos de trabalho precários e sem perspectivas de carreira. o mommy track é usado para relegar às mulheres empregos secundários. Cornell faz eco às proposições de Derrida a respeito de uma nova coreografia para a diferença sexual. Na avaliação de Cornell. mantendo invisíveis as diferenças da categoria mulheres. 296). o que significaria ignorar ou mesmo repudiar as especificidades das mulheres e tratá-las “como homens”. houve dificuldade de conciliar essa demanda com a realidade da diferença biológica entre homens e mulheres – irredutível no que diz respeito à maternidade. com a qual ele quer se precaver das novas formas de normalização da categoria mulher. Em muitas empresas. de forma que muitas já reivindicam que as grandes corporações reconheçam pelo menos dois grupos de trabalhadoras: as que estabelecem a carreira profissional como prioridade e as que precisam de agendas flexíveis por razões pessoais (CORNELL. p. nas reivindicações feministas por igualdade formal para as mulheres. que para ela não pode ser definida a partir de uma comparação entre homens e mulheres. Ela rejeita a idéia de que seria uma vitória para as mulheres ter um filho na segunda-feira e voltar ao trabalho na sexta-feira. algumas mulheres tomam outros rumos profissionais. Articulo a questão de Cornell com o acesso a postos mais altos no mercado de trabalho.mulheres no “mundo masculino”. mas discutir a discriminação contra a mulher. A autora se refere ao mommy track (ou “opção pela maternidade”): uma vez que tenham filhos. Cornell lembra que Derrida está preocupado com o risco de o feminismo se transformar numa desculpa para um desfile de “carteiras de identidade sexual”. 1992b. as proposições de direitos para as mulheres a partir dos direitos dos homens – ou “direitos iguais” – não enfrentam a questão da maternidade e seus impactos no mundo do trabalho. Muitas optam por arranjos que permitam agenda de trabalho flexível. quando ela argumenta que. historicamente construída pela tradição.

Partiu-se da idéia de que a desconstrução dessa naturalidade passaria. mas também pelo enfrentamento de ao menos duas questões: 1) A presença das mulheres no mercado de trabalho não tem conseguido conferir às trabalhadoras acesso aos cargos mais altos na hierarquia. para quem a equivalência de direitos – em substituição aos direitos iguais – seria uma forma de reconhecer categorias de direitos que não estariam contempladas na idéia de direitos iguais. porque a noção de justiça distributiva é injusta. na medida em que pressupõe a existência prévia de pessoas com entidades auto-evidentes para as quais a justiça é distribuída” (ELAM. por exemplo. 80). repudiado e limitado por estereótipos” (CORNELL. A partir das articulações apresentadas aqui entre desigualdades no mercado de trabalho. p. discuto as possibilidades de superar os obstáculos que as mulheres ainda enfrentam de pleno acesso ao mercado de trabalho. 1994. numa interpretação que valoriza a proposição de equivalência de direitos como uma formulação que busca superar as desigualdades. hoje. p. Cornell chega à discussão da associação entre neutralidade e masculino. os limites da defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres e a valorização das diferenças e suas dificuldades. onde as justificativas para a discriminação ainda estão apoiadas no argumento de que as mulheres estão interessadas em postos “naturalmente” inferiores. não apenas pela defesa do direito ao acesso ao mercado de trabalho – item da agenda feminista durante o século XX –. que assume o homem como norma. Elam endossa a proposição de equivalência de direitos de Cornell como uma “posição estratégica útil”. Seguindo o pensamento de Derrida. numa 120 . As idéias de Cornell fizeram eco. no pensamento de Diane Elam.que é uma manifestação do filósofo contrária ao estabelecimento de identidades fixas. estabelecendo a hierarquia de gênero que mantém as mulheres em estado de “negligência”. no qual o feminino é “ignorado. 292). Elam argumenta que “não é simplesmente uma questão de acordo ou de equilíbrio de direitos. 1992b.

reconhecendo que esse modelo mantém os pressupostos masculinos. a autora trabalha com a idéia de equivalência de direitos. Ao reforçar a defesa identitária. A fim de dar visibilidade e reconhecimento a essa questão – uma das bases mais recorrentes da argumentação de que. p. mas de admitir que à política feminista caberia ir além da defesa de um modelo de sujeito de direitos que. Com sua argumentação de que a reivindicação de igualdade de direitos sustenta o homem como padrão. Cornell quer abrir a possibilidade de reconhecimento das especificidades da mulher. 2) A defesa da igualdade de direitos de homens e mulheres ao mercado de trabalho não dão conta das especificidades da diferença sexual. Evocando Butler (1998. mas aparecem camufladas como não sendo “do interesse” das mulheres progredir nas empresas. fechando o espaço para os inúmeros arranjos e distinções que existem dentro da categoria “mulheres”. no qual parte da política feminista tem se baseado. pretendeu-se articular essa discussão com o questionamento do ideal de identidade das mulheres. em muitos casos. A tentativa de ocupar o mercado de trabalho em situação de igualdade com os homens tem esbarrado no que Cornell chama de mommy track. forma que ela encontra de abrir espaço para a afirmação do feminino não mais como opositivo em relação ao masculino.demonstração de que as desigualdades persistem. Essa identidade. numa atitude paradoxal que exige a fixação das mulheres numa identidade como premissa para libertá-las. sempre foi o macho-branco-europeu-dotado-de-razão. pode servir para predeterminar o que se constitui como “interesses das mulheres”. as mulheres preferem trabalhos precários a postos mais altos na hierarquia –. uma vez que tenham filhos. quando as mulheres começam a assumir o lugar de sujeitos. Aqui. ou seja. a política feminista corre o risco de sustentar a mesma hierarquia de gênero que pretendia desmontar. não se trata de considerar injusto que “agora. nas exigências da maternidade e suas conseqüências para a mulher. na tradição. 23). as posições pós-modernas chegam para anunciar que o sujeito está morto”. o que traria ainda o de- 121 .

safio de a teoria feminista não ser capturada pelas visões tradicionais do feminino. O segundo. ou valorizar a especificidade das mulheres. também o discurso da igualdade de direitos iguais pode ser pensado como uma 122 . quando argumenta pela equivalência de direitos. mas com oportunidades de acesso a todos os direitos. O primeiro exige que o ideal de cidadania alcançado pelos homens seja estendido às mulheres. De um lado. Cornell quer mostrar que só o reconhecimento das mulheres não em bases de comparação com os homens. se ser mulher for definido como uma desvantagem. que estabelece e sustenta lugares determinados para as mulheres. de tal forma que a sociedade seja “neutra em termos de gênero”. quis apontar as perspectivas de desconstrução dessa oposição hierárquica. que devem ser levados em conta na sua cidadania. seria capaz de enfrentar as desigualdades de gênero. chamado por ela de “Dilema de Wollstonecraft”. privilegiando a sensibilidade e a fragilidade. Do outro lado. Essa lógica opositiva tem servido de sustentação. as mulheres como trabalhadoras que. Para a autora. a lógica da sociedade patriarcal sustentaria que os dois caminhos seriam incompatíveis porque o patriarcado permite apenas que se opte entre duas alternativas: tornar-se mulher “como homens”. e assim. “preferem” não assumir cargos de comando. necessidades e preocupações específicas. é possível que uma reforma jurídica venha a contornar essa desvantagem – ainda que episódios como o caso Sears indiquem que nem sempre é fácil alcançar esses direitos pela via jurídica. Carole Pateman (1989) mostra que desde a Revolução Francesa as mulheres tomaram dois caminhos distintos na luta para se tornarem cidadãs. Ainda segundo Cornell (1998). sujeito de direitos. para a discriminação sexual nos altos cargos nas grandes empresas. Aqui. No entanto. defende que as mulheres têm capacidades. que não confere nenhum valor para torná-las cidadãs. ainda hoje. Na perspectiva do pensamento da desconstrução. recursos e capacidades. talentos. excluindo-se as mulheres. estariam os homens como sujeitos do conhecimento no exercício do direito de ocupar os lugares de poder.

ao mesmo tempo em que questiona o recalque do que há de singular na experiência feminina. Cornell enfrenta essas críticas ao propor sua formulação de equivalência de direitos. Nessa dupla tarefa estaria a possibilidade de pensar singularidades sem conferir ao feminino o caráter universal e totalizante que o masculino sempre pretendeu tomar para si. responsável por determinações biológicas e tidas como “naturais” para a associação das mulheres com posições de subordinação que foram construídas. historicamente utilizado para fundamentar discriminação.construção a partir da qual se tentou eliminar qualquer referência à especificidade do feminino. rejeitando o uso dessas especificidades como justificativa para a desigualdade. segregação e exclusão. A principal crítica que se faz à afirmação da especificidade da mulher e da diferença sexual é de que essa valorização traria o risco de retorno ao essencialismo. 123 .