Você está na página 1de 4

Democracia e dinâmica judicial O presente ensaio cuidará de identificar os termos do debate nacional sobre o Judiciário e seus efeitos sobre

a democracia no Brasil utilizando a literatura da ciência política. Não obstante os vários matizes de análise que situa o debate em abordagens que enfocam o monopólio da violência pelo Estado e as regras do funcionamento da economia[1], de maneira sintética, pode-se afirmar que o debate em torno da justiça e democracia no campo da ciência política no Brasil tem enfocado a abordagem do Judiciário em relação aos poderes Executivo e Legislativo e se preocupado em analisar o processo de judicialização da política. A literatura política ora implícita ora explicitamente presume que a justiça ou o Judiciário ou ainda os tribunais - vários autores utilizam essas terminologias como sinônimos, são importantes para o exercício e consolidação de regimes democráticos. Argumenta-se que a lei e, presumivelmente, os tribunais, podem contribuir para o enraizamento das qualidades democráticas de governos eleitos. Essa crença também está refletida na literatura de política comparada sobre transição e consolidação da democracia na América Latina (Kapiszewski e Taylor; 2008). Mesmo assim, pesquisadores tem diferentes pontos de vista sobre como o Judiciário afeta a democracia. Da mesma forma, outros argumentam em que medida os tribunais podem às vezes ser prejudiciais, causando efeitos imprevisíveis sobre o processo de elaboração da política do Executivo e da democracia. Enfim, o potencial efeito positivo dos tribunais na democracia e na legitimidade das decisões tomadas por governos democráticos continuam a ser a motivação chave das pesquisas sobre esse tema. Os termos do debate no Brasil serão analisados a seguir.

Os termos do debate no Brasil

Atualmente os tribunais estão no centro da nova onda de pesquisa nas áreas da ciência política, da democracia e da política pública no mundo. Segundo a literatura política, são crescentes as evidências que comprovam o papel político dos tribunais e seu impacto na democracia em contraponto ao papel clássico destes como instâncias estritamente legais. Segundo Carvalho (2004), a expansão do poder judicial é um fenômeno que tomou conta do final do século passado, onde a grande maioria dos países ocidentais democráticos adotou o Tribunal Constitucional como mecanismo de controle dos demais poderes. Assevera que a inclusão dos tribunais no cenário político implicou em alterações no cálculo para a implementação de políticas públicas, pois o governo, além de negociar seu plano político com o Legislativo, teve que se preocupar em não infringir a Constituição. Essa seria, de maneira bastante simplificada, a equação política que acomodou o sistema político (democracia) e seus novos guardiões (a Constituição e os juízes). Essa nova arquitetura institucional propiciou o desenvolvimento de um ambiente político que viabilizou a participação do Judiciário nos processos decisórios.

analisando o caso do Brasil. portanto.Com efeito. Para isso. Pode-se afirmar que a forma mais difundida de judicialização da política no Brasil é a from without. Ao fazer a revisão. impedir. a explosão de processos. ou seja. Nesse sentido. Carvalho (2004) aponta que os partidos de oposição. Nesse caso o Judiciário é acionado tanto para corrigir situações de paralisia como revisar normas de governos anteriores. 2) “from within”: é a utilização do aparato judicial na administração pública. No Brasil é o Supremo Tribunal Federal que tem o caráter de Tribunal Constitucional. Isso não quer dizer que a judicialização ocorra apenas nesse nível. Taylor e Da Ros (2008) acrescentam que os atores políticos podem fazer uso dos tribunais como “veto points”. analisando as semelhanças e diferenças entre a judicialização ocorrida no Brasil na gestão dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva constatam que nos governos FHC e Lula. a judicialização da política foi utilizada como instrumento de governo em ambos os mandatos. que é a reação do Judiciário à provocação de terceiro e que tem por finalidade revisar a decisão de um poder político tomando como base a Constituição. a uma vitória judicial. que podem ser perseguidos tendo por base preceitos legais ou fundamentos estratégicos. pois as estratégias judiciais não visam. o Judiciário é visto pelos grupos de interesse como local institucional favorável para contestação de políticas públicas (avenue seeking). afirma Carvalho (2004). A título de exemplificação das assunções acima explicitadas. o Judiciário ampliaria seu poder frente aos demais poderes. necessariamente. a literatura brasileira vem utilizando a definição de judicialização estabelecida por Vallinder (1995) que considera que existem dois tipos de judicialização: 1) “from without”. não podendo barrar as alterações realizadas pela maioria. obstaculizar e até mesmo inviabilizar as alterações em curso. tem sido o mais forte argumento daqueles que defendem a existência de um processo de judicialização da política.ADIN. . Os autores ainda identificaram outra modalidade de judicialização no Brasil que seria a judicialização como instrumento de governo. A judicialização também pode ser utilizada como arbitragem de interesses em conflito. cabendo a este o controle difuso e concentrado da constitucionalidade das leis. Segundo Taylor e Da Ros (2008). no que tange à defesa das garantias constitucionais. É por meio desse instituto que o tribunal pode tornar nula uma legislação oriunda dos poderes representativos. desmerecer e declarar). utilizam quatro objetivos táticos (retardar. o controle jurisdicional de constitucionalidade. Argumentam ainda os autores que essa estratégia visa revisar não a política pública em si. bem caracterizada no mundo político pelas Ações Direta de Inconstitucionalidade . Na gestão FHC a judicialização foi utilizada como tática de grupos da oposição à época e na gestão Lula a judicialização foi utilizada como uma forma de arbitragem de interesses em conflito entre oposição e governo. utilizam-se dos tribunais para frear. mas é nele que as decisões tomadas pela justiça assumem sua maior dramaticidade no mundo político. Seguindo a mesma linha. mas modificar “as regras do jogo” para beneficiar determinados atores. que no Brasil. juntamente com os juízes vão os métodos e procedimentos judiciais que são incorporados pelas instituições administrativas que eles ocupam. esses mesmos autores.

pode criar uma percepção pública negativa sobre o papel do Judiciário nas questões políticas do país e levantar questionamentos sobre a extrapolação de sua atuação. O aumento do poder judicial levantará a questão da responsabilização judicial ou da velha pergunta: quem vigia os vigias. Essa estratégia de enfraquecimento e descredibilização pública realizada pelas oposições . Com efeito. Ao passo que o PSDB e PFL/DEM. via de regra. a judicialização da política pode ser instrumentalizada pelo próprio Judiciário e vir a ser utilizada como uma forma de barganha política para preservar sua autonomia. esse poder conferido ao Judiciário pode gerar o efeito de desacreditar os tribunais na sua atuação em julgamentos de questões que de fato seriam inconstitucionais e mereceriam uma revisão legal e. pode criar. Eventuais obstáculos da judicialização à democracia Da análise inicial do quadro analítico apresentado na literatura investigada. De outra maneira. No caso do PT. enquanto este fazia oposição sistemática ao governo FHC. incrementava ao máximo o custo e riscos da atividade governativa. . dentro do sistema democrático que é a questão da responsabilização.aqui compreendidas como atores que não fazem parte da coalizão do governo do momento. a longo prazo.Vale destacar a variável que diferencia as duas gestões em termos de judicialização. motivo que explica o uso intenso de Adins. a abertura de uma avenida de desequilíbrios entre os Poderes e restrição de suas autonomias. Essas premissas nos levam a outro fator importante. podemos identificar algumas variáveis que podem vir a obstaculizar a democracia no Brasil. o que se refletia na diminuição do uso das Adins. inclusive isso se refletia na contestação judicial das políticas governamentais. quando da oposição a estratégia adotada era a de oposição seletiva. Utilização do Judiciário como veto point A recorrente judicialização da política e utilização do poder judicial como veto point pode ser prejudicial para o processo de implementação das políticas públicas no Brasil na medida em que este mecanismo for utilizado somente como tática para retardar ou impedir a implementação de determinada política sabendo de antemão que tal ação não tem expectativa de ser judicialmente vitoriosa. Os autores pontuam que a estratégia da judicialização parece estar diretamente ligada ao tipo de estratégia oposicionista. adotado pelos partidos políticos. talvez o mais relevante e menos estudado.

Antes. . a judicialização indiscriminada de questões políticas descoladas de um real interesse de obter uma revisão judicial pode limitar a democracia.Considerações Finais O presente ensaio não pretendeu analisar todas as variáveis abordadas pela literatura da ciência política sobre justiça e democracia. Entretanto. avaliar o efeito das decisões dos tribunais no processo e resultados político. analisar o contexto institucional. quais vertentes apontariam para a eventual limitação da democracia no Brasil no contexto políticoinstitucional dos dias de hoje. delimitar o escopo da responsabilização judicial. pretendeu somente estabelecer um panorama geral sobre os termos do debate no país e identificar dentre as abordagens investigadas. nesse debate há temas que merecem ser mais profundamente estudados a fim de melhor delimitar o escopo dessa temática no país e obter vantagens mais benéficas do que maléficas da judicialização da política que seriam: investigar as características do Judiciário no Brasil. como apontado acima. De maneira preliminar pode-se reafirmar que o Judiciário no Brasil é um ator político relevante no cenário democrático do país e que a possibilidade de análise e revisão judicial de determinados temas políticos beneficiam a democracia. Por fim. nem tampouco esgotar a análise sobre os termos do debate nacional.