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A BÍBLIA FALA HOJE

A Glória de Cristo em todo o tempo e espaço

MISSão
Howard Peskett e vinoth ramachandra
E D I T O R A

A Mensagem dA

A MENSAGEM DA MISSÃO Traduzido do original em inglês The Message of Mission Inter-Varsity Press, Leicester, Inglaterra Direitos reservados pela ABU Editora S/C Caixa Postal 2216 - 01060-970 – São Paulo, SP E-mail: editora@abub.org.br Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a permissão escrita da ABU Editora. Tradução: Leandro Guimarães Faria Corcete Dutra O texto bíblico utilizado neste livro é segundo a Nova Versão Internacional (NVI), da Sociedade Bíblica Internacional, exceto quando outra versão é indicada. Foram citadas, sempre que possível, as versões da Bíblia em português que mais se aproximam do sentido do texto bíblico em inglês. Nos casos em que não há uma correspondência, foi feita a tradução da citação, com a menção da fonte original. 1a. Edição: 2005. A ABU Editora é a publicadora da ABUB - Aliança Bíblica Universitária do Brasil. A ABUB é um movimento missionário evangélico interdenominacional que tem como objetivo básico a evangelização e o discipulado de estudantes (universitários e secundaristas) e de profissionais, com apoio de igrejas e profissionais cristãos. Sua atuação se dá através dos próprios estudantes e profissionais, por meio de núcleos de estudo bíblico, acampamentos e cursos de treinamento. A ABUB faz parte da IFES – International Fellowship of Evangelical Students –, entidade internacional que congrega movimentos estudantis semelhantes por todo o mundo.

Dados internacionais de catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Peskett, Howard A mensagem da missão : a glória de Cristo em todo o tempo e espaço / Howard Peskett, Vinoth Ramachandra ; [tradução Leandro Guimarães Faria Corcete Dutra] . — 1. ed. — São Paulo : ABU Editora, 2005. — (A Bíblia fala hoje : temas bíblicos) Título original: The message of mission. ISBN 85-7055-066-9 1. Missões - Ensino bíblico I . Ramachandra, Vinoth. II . Título. 05-9106
Índices para catálogo sistemático: 1. Evangelização : Missões : Cristianismo 266 2. Missões : Ensino bíblico : Cristianismo 266

CDD-266

Bristol Secretário para o Diálogo e Envolvimento Social (Ásia).À minha querida esposa. com gratidão. Vinoth Ramachandra . Howard Peskett Vice-diretor. Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos Aos meus amados pais. Trinity College. Roz. com gratidão.

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porque o comentário busca mais elucidar o texto que aplicá-lo. não são “comentários”. por outro lado.Prefácio geral A Bíblia Fala Hoje inclui três séries de exposições baseadas nos livros do Antigo e do Novo Testamentos. e que nada é mais necessário à vida. contém os tipos de “sermões” que tentam ser contemporâneos e legíveis sem levar a Escritura suficientemente a sério. e em temas bíblicos que englobam toda a Escritura. Cada série caracteriza-se por um ideal triplo: • expor fielmente o texto bíblico. Nem. saúde e crescimento dos cristãos que escutarem o que o Espírito lhes fala por sua antiga — entretanto sempre moderna — Palavra. Estes livros. Alec MOTYER John STOTT Derek TIDBALL Editores da série . • relacioná-lo à vida contemporânea e • ser legível. e tende a ser um trabalho mais de referência que de literatura. Os autores de A Bíblia Fala Hoje estão todos unidos em sua convicção de que Deus ainda fala por meio do que inspirou. portanto.

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Horizontes mundiais 1. A Palavra feita carne (João 1:1-18) Parte 2. A consumação da canção da criação (Salmo 104) 15. Doxologia 14. 13:34-35) 12. A glória de Cristo (Colossenses 1:15-23) 2. Um servo disposto (Isaías 49:1-26) Parte 3. Missão triúna 9.45:25) 4. Escolhidos para abençoar (Gênesis 12:1-4) 6.Índice Prefácio Geral Prefácio Parte 1. O modelo de missão (Atos 19:8-41) Parte 4. O caminho ordenado por Jesus (João 12:20-26. Um povo distinto (Deuteronômio 10:12-20) 7. A liberdade trazida por Jesus (Lucas 4:16-30) 10. 2:15-20) 3. Os propósitos internacionais de Deus 5. O Deus incomparável (Isaías 44:24 . Um servo ressentido (Jonas 1-4) 8. Certezas do novo pacto (Apocalipse 21:1-22:5) Guia de Estudo 7 11 15 17 31 51 65 81 83 99 115 129 141 143 157 175 191 207 221 223 239 255 . Vida e domínio (Gênesis 1:26-31. O Espírito da missão (Atos 2:1-47) 13. O mandato dado por Jesus (Mateus 28:16-20) 11.

A mensagem da missão Peskett e Ramachandra 10 .

Antes de qualquer envio humano (e a raiz da palavra “missão” significa “envio”) nos maravilhamos com gratidão perante o Deus que mandou seu Filho por nós e perante o Filho que nos mandou seu Espírito.22). em seu próprio ser. Quatro capítulos na parte 1 estabelecem os horizontes mundiais de nosso tema. o livro é organizado de modo bastantes simples. Assim. Foi Javé. E a igreja é. A igreja pode cumprir sua missão apenas ao ser dinamicamente capacitada pelo Espírito Santo. Estruturalmente. o Deus do pacto com Israel. quem chamou todas as nações a si com as palavras “Voltem-se para mim e sejam salvos. cumprindo as profecias do Antigo Testamento. Filho e Espírito Santo. e não há nenhum outro” (Is 45. O privilégio e a responsabilidade da igreja é testificar por sua vida e testemunho de Jesus Cristo. ao compartilhar a vida divina de um Deus que envia. e a igreja é mais efetiva em sua missão quando seus membros estão em contato contínuo e vivificante com o Espírito Santo. crucificado.Prefácio Prefácio Todas as missões cristãs têm raiz e fonte no Deus que adoramos. Outra convicção que nos baliza é que a grande narrativa da Bíblia é corretamente resumida na frase “Deus cria e escolhe um povo para si. Não negamos que todos os leitores tragam à sua leitura certos pressupostos que podem ser mais ou menos adequados. e quando esses encontros com Ele são integrados à vida da igreja. Mas acreditamos que os leitores podem pressupor que com certeza há mais no texto que o reflexo de suas próprias faces. o Senhor. revelado na Escritura como Pai. é perfeitamente apropriado que escolhamos quinze trechos bíblicos. todos vocês. pois eu sou Deus. e que acreditam que a Palavra é um piquenique ao qual o intérprete pode trazer qualquer significado que queira. todos convergindo de algum modo para este tema. presença vivificadora de Deus. ressurreto e glorificado. confins da terra. Este livro está fundamentado no desejo de que Jesus Cristo seja glorificado mais e mais na igreja e no mundo. e na expectativa ansiosa de que um dia toda a criação será consumada nele. e Deus será tudo em todos. o Filho único de Deus. Assim nos opusemos àqueles que negam a existência de alguma grande narrativa. uma igreja missionária. de acordo com o projeto desta série. para que seja glorificado em todo o mundo”. Duas passagens extremamente importantes do Antigo Testamento estão contidas 11 .

embora interajamos com importantes temas consagrados da missão efetiva. Este é um livro de exposições bíblicas. enfatizamos a necessidade de conhecimento detalhado das pessoas que seguem outros credos (e simpatia para com elas). das distinções de cor e casta na igreja. a certeza prematura de que somos os donos do nosso futuro e de que podemos controlar o método e o momento de alcançá-lo. sob a pressão de muitos tipos de tensões. de outro. e de ecumenismo evangélico. a importância da missão integral. pela qual passa o rio da água da vida. mas sempre à nossa frente. Embora não sejamos pluralistas teológicos. Assim. onde. o poder da comunicação coloquial das boas novas. Contra esses perigos precisamos. mais amplamente que algumas agências missionárias e evangelísticas acharão confortável. porque todas as suas promessas serão cumpridas. De um lado está o perigo de cair na arrogância. Fomos levados a essa amplitude de interpretação por uma reflexão leal sobre as próprias passagens bíblicas. uma comunidade a quem se ordenou reproduzir e crescer para que Jesus Cristo seja mais e mais glorificado. precisamos de uma visão mais ampla de Deus como o Deus de braços abertos e como o Deus que nunca nos desapontará. um caminho estreito com perigo de ambos os lados. A igreja militante é o povo de Deus. a cruz nunca deve estar atrás de nós. Devemos também enfatizar que a missão cristã nos leva vez após vez aos pés da cruz: toda missão cristã deve ser moldada pela cruz. Por isso. pode-se duvidar de que o futuro desejado jamais chegará. da mordomia da terra e da integridade da criação. grandes cidades necessitando de Deus. o corpo de Cristo neste mundo. Acima de tudo. escrevemos com esperança. a importância da identidade e sensibilidade culturais. cujas folhas são para a cura das nações. Do outro lado está o perigo do desespero. Missão não é um “extra” opcional para alguns poucos voluntários que “gostam desse tipo de coisas”.A mensagem da missão Peskett e Ramachandra ou ressaltar significados em particular. não um documento de estratégia missionária. sofrimento e mesmo martírio. de um lado. a conexão entre missão. Nossa esperança é pela cidade de Deus. dificuldades e desapontamentos. de igualdade social e valor do trabalho humano. a conexão da missão com a ética. produzindo fruto todos os meses. por exemplo. maneira pela qual ela foi conduzida na maior parte da história da igreja. Também interpretamos o termo “missão” amplamente. e a importância da missão vinda da fraqueza. chamamos a atenção vez após vez para a missão dos desfavorecidos. falamos do valor do ser humano e de direitos humanos. e o entendimento dessas crenças em si. e. de humildade – porque Deus é o Senhor de nossos futuros e de todos os futuros – . e na qual cresce a árvore da vida. da terra de Israel. Esperamos que o leitor sempre leia o texto bíblico antes e durante nossas exposições. Executivos de missões não encontrarão aqui quaisquer planos detalhados de ação. No meio dessa cidade está o trono de Deus 12 . chamado a ser agentes e representantes de Deus.

agente e fim desta criação. nacionalismo. refletindo sobre a liberdade trazida por Jesus (de acordo com o assim chamado “Manifesto Nazareno”). fonte e começo da nova criação e cabeça de seu corpo. 10. ou fizemos nossa própria tradução quando quisemos. a igreja. Convidamos o leitor a ver este livro como um exercício de parceria Leste-Oeste em exploração missiológica. 4. A parte 2 considera quatro trechos do Antigo Testamento que estabelecem os propósitos internacionais de Deus. 9. Nesses capítulos discutem-se questões teológicas críticas. porque cremos que a verdade deve ser esclarecida para o entendimento. 5. o modo como ele comanda e a famosa Grande Comissão que deu a seus discípulos depois da ressurreição. por exemplo. 13 . 6. e por vinte anos Howard trabalhou em Cingapura com homens e mulheres de muitos países do Extremo Asiático. com o pronome “eu”. refletindo sobre a consumação da canção da criação e sobre a vinda da Cidade Santa de Deus no fim dos tempos. 7. a imagem dos Deus invisível. 2. 11. e o esboço do povo que ele chamou para ser instrumento no cumprimento desse propósito. optamos por usar a expressão ‘missão’ para traduzir a palavra inglesa ‘mission’. e a questão difícil do território e da justiça perturbadora e imprevisível de Deus. esses capítulos também mostram as reações variáveis ao chamado de Deus em padrões que se têm repetido até o presente. 14.Prefácio nos dois capítulos do Novo Testamento que refletem sobre a preeminência de Jesus Cristo. chamar a atenção para a estrutura de um trecho * Nota do Editor: Apesar do termo “missões” ser mais difundido no contexto evangélico brasileiro. A parte 4 consiste em dois capítulos que trazem o livro a um clímax de adoração e contemplação. onde nasceu. A parte 3 explora cinco trechos do Novo Testamento. Seguimos a concepção dos autores por entender que este seja mais apropriado para abarcar o conceito de “missão” – mais amplo e mais condizente com a ordem de Jesus à igreja. às vezes reproduzimos o texto integralmente. o caráter distinto do povo de Deus. pobreza. 13 e 15. por alguma razão específica. Isso porque é um conceito mais abrangente pelo fato de incluir também a idéia de ministério missionário transcultural. sobre a missão e identidade cultural. e na maioria dos países do sul e sudoeste da Ásia. e Howard os capítulos 3. que é onde toda teologia e ciência deveriam chegar. Por mais de vinte anos Vinoth trabalhou no Sri Lanka. e assim cremos que pode ajudar os leitores saberem que Vinoth escreveu os capítulos 1. Então a missão de Deus e a missão da humanidade estarão completas nos novos céus e nova terra nas quais habita a justiça. Temos geralmente trabalhado com o texto da Nova Versão Internacional em Português. Não será difícil ao leitor detectar diferenças de estilo em nossos capítulos. e não achamos necessário igualar o estilo de cada seção. e considerando também o significado de Pentecostes e como missão foi executada em um estudo de caso de Atos. mas que também deve ser gloriosa para a imaginação! Às vezes usamos histórias pessoais. 8.

Eles não precisarão da luz de candeia nem da luz do sol. para a qual as passagens sobre as quais escrevemos neste livro são simultaneamente um mapa e um desafio.5). Howard PESKETT Vinoth RAMACHANDRA 14 . “Não haverá mais noite. Agradecemos a Deus por tudo que nos tem permitido provar antecipadamente dessa cidade e reino em nosso compartilhar com muitas comunidades em muitos países do mundo.A mensagem da missão Peskett e Ramachandra e do Cordeiro. E convidamos nossos leitores a se juntarem a nós na jornada inacabada. e eles reinarão para todo o sempre” (Ap 22. e todos os servos de Deus o adorarão lá. pois o Senhor Deus os iluminará.

Prefácio Parte 1 Horizontes mundiais 15 .

A mensagem da missão Parte 1 .Horizontes Mundiais 16 .

18 Ele é a cabeça do corpo. para que em tudo tenha a supremacia. eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês. tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu. Wells. 15 H.G. poderes ou autoridades. que é a igreja. 22 Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo. do qual eu. e nele tudo subsiste. comentou com seus hóspedes: “Cavalheiros.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 Colossenses 1. o primogênito de toda a criação. 23 desde que continuem alicerçados e firmes na fé. em suas mentes. é o princípio e o primogênito dentre os mortos. 17 Ele é antes de todas as coisas. as visíveis e as invisíveis. sejam tronos ou soberanias. 20 e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas.15-23 1. 21 Antes vocês estavam separados de Deus e. 16 pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra. Entretanto. Este é o evangelho que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu. numa festa em 1937 por seu septuagésimo primeiro aniversário. mediante a morte. estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz. Paulo. me tornei ministro. inculpáveis e livres de qualquer acusação. todas as coisas foram criadas por ele e para ele. faço 71 anos de idade 17 . sem se deixar afastar da esperança do evangelho. o visionário escritor de ficção científica. A glória de Cristo Ele é a imagem do Deus invisível. para apresentá-los diante dele santos. 19 Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude. era um oponente amargo do cristianismo.

A mensagem da missão Parte 1 . Darwin ou Nietzsche. começou um movimento que fez o mesmo desde então. JP. hoje os hindus da Índia debatem se Mahatma Gandhi sancionou o sistema de castas. É uma pergunta que nos salta das páginas do Novo Testamento. 234. Aplicam-se a qualquer um que queiramos mencionar. 1990). Mas isso não se aplica a Jesus. The Purpose of it All (Regnery Gateway. “exemplo moral” ou “vidente apocalíptico”. Maomé.1  Quem era Jesus de Nazaré? Não se pode fazer pergunta mais importante. era grande demais para meu pequeno coração”. 31. 1990). Deus mesmo veio entre nós de modo irrepetível e decisivo a ponto de até se constituir em ofensa a uma sociedade religiosamente plural. na pessoa humana de Jesus. e assim mudou para sempre o curso da História. Com um ministério de dois ou três anos ele atraiu e enfureceu seus contemporâneos. Jesus de Nazaré. mesmo porque suas teorias perderam seu domínio persuasivo sobre indivíduos e sociedades inteiras. Por exemplo. A afirmação cristã histórica sobre Jesus de Nazaré é que nenhuma categoria humana. A mesma variedade de reações era encontrada no mundo greco-romano no qual os primeiros seguidores de Jesus habitavam.Horizontes Mundiais hoje e nunca encontrei a paz. Mas a controvérsia sobre ele não é a mesma que observamos em outros homens e mulheres famosos. O problema com pessoas como eu é que o homem da Galiléia. Durante três séculos recusouse a negociar a questão do monoteísmo. nem a de “gênio religioso”.”2  Jesus de Nazaré é. seja Confúcio. de onde emergiu uma concepção radicalmente nova de Deus como Triunidade: Desde o começo o Cristianismo carregou em seu seio duas convicções: há apenas um Deus e Jesus Cristo é divino. É a afirmação de que. 18 . pode fazer justiça ante suas palavras e ações. Marx e Freud caíram em algum desprestígio ultimamente. Para estes. que a humanidade nunca liqüida. The Mission of Christ and His Church: Studies in Christology and Ecclesiology (Michael Glazier. Stanley. Um eminente historiador resume o desafio extraordinário que esses seguidores de Jesus enfrentaram. É isso que provoca o desprezo do ateu. observa um dos muitos estudiosos que dedicaram suas vidas profissionais ao assunto. p. nem a de “profeta carismático”. uma figura controversa. Note que todos esses são debates que giram em torno da avaliação das idéias de uma pessoa. a controvérsia gira em torno do conteúdo e relevância de seus ensinamentos.  2 Meier. p. A controvérsia sobre Jesus é a respeito de quem ele é. ou de sua “mensagem” para o mundo. portanto. “é um daqueles eternos pontos de interrogação na História. “Jesus de Nazaré”. e ativistas políticos discordam entre si sobre quanto dos princípios de Gandhi de resistência não-violenta aplicam-se a regimes mais brutais e repressivos que o Império Britânico. a confusão do hindu e a indignação do muçulmano. recusou terminantemente fazer quaisquer concessões ao politeísmo tolerante da cultura do Império Ro 1 Citado em Jaki.

“seu Filho amado” em quem está “a redenção. ele é a imagem do Deus invisível. a saber. dependente dele assim como o resto da criação mas chamada a um relacionamento pessoal com ele. num estágio inicial da vida da igreja. 1989).3  Muitos estudiosos do Novo Testamento crêem que Colossenses 1. é provável que o apóstolo Paulo tivesse adaptado um hino. Tal literatura foi. Ao vê-lo percebemos o que o ser humano foi chamado a ser. 1. “The Achievement of Orthodoxy in the Fourth Century AD”. Portanto. homem e mulher. 5). Além disso. 14). descaracterizada por nossa rebelião.15–20 cita um fragmento dum antigo hino cristão. a humanidade restaurada. seres humanos. provavelmente conhecido de seus leitores colossenses de meados dos anos cinqüenta de nossa era. Mas também profundamente enraizada no coração do Cristianismo estava a adoração a Jesus Cristo: não o culto a um homem divinizado (que era bastante comum no Império Romano) mas a adoração ao Filho de Deus que tomara a si a natureza humana na Encarnação. 19 . The Making of Orthodoxy (CUP. o perdão dos pecados” (v. 149. e. Essas duas convicções tinham de ser reconciliadas. ele é o primogênito de toda criação (v. a saber. tornando-o visível. Ele agora se detém sobre a glória dessa imagem em relação a Deus. O Ele com o qual o verso 15 começa é o “Ele” de quem Paulo falara nos versos precedentes. o mundo e a igreja. por causa da cadência rítmica. trechos como Provérbios 8 e Jó 28 na Bíblia hebraica eram hinos louvando a sabedoria como atributo de Deus. O texto desse hino pode ser derivado da literatura judaica de Sabedoria: por exemplo. permitindo-lhe servir como ponte entre o divino e o humano. p. O conceito de imagem tem uma ambigüidade intrínseca.). porque fomos criados à imagem de Deus. Mas em Cristo vemos o verdadeiro Adão. Cristo e a criação Primeiramente. para ressaltar o significado teológico de Jesus Cristo para sua vida e missão. o transcendente e o imanente. O que se segue no poema esclarece que isso se deve entender nem tanto como precedência no  3 Hanson. que juntos representam e refletem seu governo sobre ela. e milhares de cristãos sofreram e morreram por causa dessa convicção. in R Williams (ed. Sabemos pelo primeiro livro da Bíblia que a humanidade foi criada à imagem de Deus. também vemos. a imagem física dum rei na Antigüidade representava sua soberania sobre o território onde fora erigida: a imagem do Criador na Terra é a humanidade. como Deus é. não mais refletimos a Deus para o restante da criação. RPC. em Cristo. aplicada a Jesus. Em segundo lugar. portanto nós.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 mano tardio em que viveu. Mas nossa imagem do governo de justiça e liberdade de Deus foi corrompida.

24). ele é o agente da criação: nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra (v. Mais uma vez pensamos no capítulo inicial de Gênesis onde lemos que Deus falou sua Palavra ao vazio e. Israel no Antigo Testamento é às vezes chamado de primogênito de Deus (Êx 4. Um comentarista britânico faz uma analogia: “A rainha nasceu em 1926” — isso não significa que ela já então era rainha. Porque em quarto lugar. o conceito de sabedoria serve para transpor o abismo entre Criador e criatura. Não apenas os seres humanos e a ordem física que servem aos propósitos de Deus em Cristo. Assim como o conceito de imagem acima discutido. mas que aquele que agora conhecemos como Jesus de Nazaré originou-se mesmo antes da criação. poderes ou autoridades (v. 202. Rei sobre todos os reis da Terra. “para” na última linha do v. 16). por sua Palavra. portanto.Horizontes Mundiais tempo (nascido antes de todas as criaturas de Deus) como de preeminência de posição (sobre todas as suas criaturas). que pertence a Cristo e o tem como fonte e alvo. h. sejam tronos ou soberanias. 16) nunca é usada para a Sabedoria na literatura judaica. Mas a preposição seguinte (eis. portanto. 1986) p.22. Ele está tanto no começo como no fim da história cósmica. Jr 31. 14) é apresentada como a chave que desvela o mistério do propósito divino da criação. sendo a articulação em linguagem da auto-revelação divina. E em Salmo 89.19.5. e que lhe era totalmente adequado tornar-se homem. o Cristo. NJ. Em Cristo. Seriam “principados pessoais de anjos que influenciam o destino das criaturas mas sujeitam-se a Deus”. Colossians (Doubleday 1994) p. a obra redentora realizada “em Cristo” (v. No contexto deste hino. Lembre-se também de que no Novo Testamento o primogênito de uma família judia herdava tudo o que ela possuía. Essa criação. O pensamento aqui expresso não é que Jesus de Nazaré existiu em forma humana antes da criação. 5 Barth. uma criação veio a existir. Colossians and Philemon: An Introduction and Commentary (Eerdmans/IVP. o legítimo proprietário. Sabedoria 8. do Universo. 69. inclui todas as coisas nos céus e na terra. uma “desmitificação” da literatura apocalíptica judaica pré-cristã que projetava no cosmos os determinantes reais da existência  4 Wright. as visíveis e as invisíveis. o texto diz que toda a criação lhe pertence. Os estudiosos debatem a que se referem esses termos abstratos do poema. mas também os poderes invisíveis. Há uma rica tradição judaica que atribui à Sabedoria um papel de agente pelo qual Deus criou o Universo (Pv 3. O que Deus criou encontrará seu significado último na glorificação de Jesus. M e Blemke. a criação e a redenção são uma. Cristo é também o alvo da criação.A mensagem da missão Parte 1 . mas que aquela que agora conhecemos como rainha nasceu em 19264 . Em terceiro lugar. 20 . 16). ao falar de Cristo como o primogênito de toda a criação. Ele é o primeiro em preeminência e. não humanos e super-humanos.5  Ou “estruturas de existência terrena”.27 o Ungido Filho de Davi é chamado de “primogênito” de Deus.9). Sl 104.

17). acabou sua vida num asilo psiquiátrico. “Paul’s Principalities and Powers: Demythologizing Apocalyptic?” in Journal for the Study of the New Testament 82 (2001). Christ and the Powers. Noutras palavras. Em quinto lugar. Wink. 21 .  7 Forbes. ele é o centro integrador de toda a criação: ele é antes de todas as coisas. E é por isso que apenas a fé cristã pode falar coerentemente de um Universo. (2) é difícil achar precedentes autênticos para a linguagem paulina sobre “poderes” na literatura apocalíptica judaica pré-cristã — esta normalmente atribui nomes. porque sem isso nossas vidas deixam de ter sentido. psíquicas e sociais que atuam entre e dentro de nós. mas afirmar a superioridade de Cristo sobre todos eles. O mundo tem uma ordem inteligível e razoável mantida em existência pela ação criativa de Cristo. portanto. de onde escreveu a sua irmã: “enquanto escre6 Berkhof. Chris. e nele tudo subsiste (v. Ele é o centro em torno do qual tudo gira. porque por trás de toda diversidade e mesmo caos do mundo está o mesmo conjunto de leis morais e físicas que ordenam e valorizam o todo. 61-88. Mas inclinamo-nos a concordar com os que observam: (1) embora claramente cresse na existência de “anjos. Naming the Powers (Filadélfia: Fortress. e foram criados para servir a ele.7  O que quer que digamos sobre esse assunto não pode ser mais que provisório. uma vez que os estudiosos ainda não se decidiram. o Pecado e a Morte. que freqüentemente personaliza os poderes espirituais que a humanidade enfrenta. 1977). demônios e espíritos pessoais”. Paulo escreve a uma igreja atraída pela sofisticada propaganda de um judaísmo místico no qual termos da filosofia grega meso-platônica devem ter tido um papel importante. principalmente a Lei. W. Sua preocupação não é arranjar esses poderes cósmicos em alguma hierarquia ou distingui-los cuidadosamente entre si. faz o que todos os bons comunicadores fazem: apropria-se da linguagem da audiência. pp. H. 2ª ed. ao contrário de Paulo.6  Outros notaram que alguns dos termos usados por Paulo são termos praticamente técnicos nos complexos sistemas metafísicos do ambiente pagão e helenístico no qual se encontrava a igreja de Colossos. (3) não devemos importar idéias dos Evangelhos e Atos ao interpretar a linguagem de Paulo. se não fosse por Cristo todo o Universo se dissolveria no caos. cargos e encargos a seres espirituais. O poeta polonês Czeslaw Milosz emergiu do horror da II Guerra Mundial dizendo: “nada poderia abafar minha certeza interna de que existe um ponto brilhante onde todas as linhas se cruzam”. Paulo mostra uma notável falta de interesse neles — sua terminologia preferida ao lidar com o “reino espiritual” é abstrata e impessoal. Não apenas o Universo mas também nossos egos humanos precisam de um centro integrador. 1986). Paulo. as forças físicas. (Herald. sendo estes realidades existenciais invisíveis. para demonstrar a superioridade de Cristo.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 humana. Friedrich Nietzsche (1844–1900). e (4) em Colossenses. Todos os “poderes de plantão” do Universo devem sua origem a ele. assim como os outros autores do Novo Testamento. talvez o filósofo mais influente no século XX. ou seja.

ou de reduzir todo discurso moral a uma linguagem universal de direitos.A mensagem da missão Parte 1 . experimentaram o perdão do pecado. e esse é o ponto fulcral do poema. Mas a natureza odeia o vácuo. deve-se não somente às forças fragmentadoras da industrialização mas também à perda de uma visão compartilhada sustentada por e responsável perante Alguém além de nossos sistemas estanques. produzindo profissionais incapazes de comunicarem uns aos outros os frutos de seu treinamento. portanto. Outros deuses levantam-se para substituir o Deus da criação. À medida que aumenta a quantidade de informação. Seria radical demais dizer que a decadência da universidade em fábricas de diplomas. a igreja — essa corporação mundial de homens e mulheres que abraçaram a palavra da verdade. ou de medir o valor humano em termos de “utilidade”. 22 . se Cristo não é mais o centro de integração. os especialistas perdem o senso de uma estrutura maior que dá significado às subdivisões estreitas de conhecimento que criaram para si. liberdade dos poderes do mal e o começo de uma nova vida submissa a Cristo (1. como notou Pascal. arruinado de corpo. então ciências e humanidades se desintegram. porque o que é que une as diferentes disciplinas de Biologia e Geologia. O Deus triúno que trabalha no mundo corriqueiro da vida econômica é o mesmo que sustenta o mundo misterioso explorado pelos físicos nucleares.8  Também por isso talvez apenas cristãos possam falar coerentemente de uma universidade. Cristo e a nova criação O texto que consideramos continua. 233. berro por minha integridade perdida. A Teologia é o empreendimento de relacionar todo o conhecimento humano e nossas atividades cotidianas em Cristo.5. e o lugar deixado vazio na universidade pela visão bíblica é tomado por alguma outra disciplina. 14) — está agora organicamente relacionada a  8 Nietzsche. Não é por acaso que na Europa Ocidental as universidades tenham se originado de mosteiros. ou de avaliar os sistemas educacionais meramente por seu impacto na competitividade econômica nacional. separado de Deus. 1951). centros de aprendizado e também de oração. 6) e. do Homem e de mim mesmo. Astronomia e Medicina. por dentro. o Evangelho (1. p. a comunicação entre disciplinas seca. F. O ele do verso 18 é o mesmo do 15. Se a educação perde essa visão.13. ansiando por mãos postas que tragam o grande milagre — a unidade de meu ser”. berro com ele. um louco berra no quarto ao lado e. 2. My Sister and I (Bridgehead. falando de Cristo em relação à nova criação de Deus. mente e espírito.Horizontes Mundiais vo. os anos recentes testemunham um renascimento das tentativas de explicar todo o comportamento e crenças humanas num paradigma naturalista e evolucionário. História e Arte? É Cristo. Apesar da retórica popular de uma “suspeita contra todas as metanarrativas” na pós-modernidade.

tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu (v. porém são seu mover livre. venha a se tornar soberano de fato através da cruz. todas as estruturas de poder ou esferas de autoridade do Universo. A Páscoa revela o propósito de Deus de que Cristo. Todas as coisas do verso 20 são evidentemente as mesmas do verso 16. Os ‘poderes de plantão’ são criados por Deus. amoroso e alegre em direção à sua criação.9).22 e encontrado também em Efésios 2. A ressurreição de Jesus naquela manhã de Páscoa foi a consumação da criação. a afirmação da ordem criada. Os poderes caíram da boa intenção de Deus. portanto. repetido em 1. 2. não são mais servos de Deus para o desabrochar humano. mas também nosso futuro como cidadãos da ordem mundial redimida por Deus. que tem prazer em que tudo o que faz de Deus. o primogênito dentre os mortos (v. mas em nenhuma outra citação do grego literário. Ressalta-se isso ainda mais nas imagens que se seguem: Cristo é a “fonte” ou o princípio (arche) duma nova criação. mas por causa daquilo que ele sempre foi e por aquilo que Deus realizou por sua vida e ministério. Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude (v. E tem prazer também em reconciliar consigo mesmo por meio de Jesus todas as coisas. Cristo não alcançou preeminência apenas como um indivíduo qualquer que Deus levantou dos mortos. o soberano de jure sobre o cosmos. portanto. A imagem de corpo e cabeça expressa a verdade de que a igreja é o lugar onde se efetuam tanto a soberania reconciliadora de Cristo sobre o mundo quanto sua solidariedade com o mundo em sua peregrinação rumo à redenção.44) em que nos tornaremos no dia em que Cristo vier “ter em tudo a supremacia” (v. em e para Cristo. Portanto. Os grandes eventos da encarnação e da redenção não foram impostos ao Criador por alguma necessidade externa. dependendo dela para ter vida e direção.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 Cristo. Além disso. Observe nos versos 19 e 20 como o poema ecoa a mesma seqüência nele… por meio dele… consigo que encontramos no 16 e no 17. Teologicamente. e também que todos que confiaram nele serão ressurretos para compartilhar sua vida ressurreta. resida permanentemente em Jesus (cf. mas também precisam de reconciliar-se com Deus. exercem seu poder independentemente dele e.16. Pressupõe um estado de alienação ou hostilidade no mundo. Aqui afirma-se a plena divindade do homem Jesus sem implicar qualquer rivalidade com Deus. O mal estragou a criação divina. Descreve-se o ato de reconciliação com o verbo composto apokatalasso. O poder dado por Deus para trazer ordem e estabilidade ao mundo é distorcido e usado para dominar e manipular outrem. O corpo ressurreto de Jesus é uma prévia dos tipos de “corpos espirituais” (1Co 15. 23 . Deus. a Páscoa revela não apenas o reino triunfante de Deus em Cristo. 20). Foi uma antecipação e inauguração da nova ordem mundial de Deus na qual a tirania do pecado e da morte foi quebrada. Embora tenham sua origem em Cristo. 19). É como se um pouco do futuro fora cortado e plantado no presente. 18b). o que se pressupõe na transição do poema do versículo 16 ao 20 é a realidade da Queda. 18). a saber.

23.6. a vítima freqüentemente era açoitada e torturada antes de ser pendurada numa cruz em encruzilhadas movimentadas e apinhadas. e agora os efeitos dessa vitória pela cruz devem espalhar-se como ondas para todos os cantos do mundo. era universalmente vista com horror e desgosto. e a aceitação do perdão. At 13.24). Paulo fala de alguém executado fora dos muros de Jerusalém duas décadas antes da carta.8.20ss. embora difundida. 1Co 2. não pode ser um processo automático que prescinda da decisão humana. Nenhum cidadão romano podia ser crucificado.7) evidenciam que a reconciliação efetuada por meio da cruz deve ser proclamada e recebida em fé (1. Então toda a criação compartilhará da paz do governo divino (Rm 8. Esse cru24 . opressão e perseguição políticas (Cl 2. o caminho pelo qual o Universo reconcilia-se com Deus. Os poderes que se opõem aos propósitos de Deus para toda a sua criação são vencidos.18–25). No Império Romano. E o meio de paz. é o seu sangue (v. O grande senador e orador Cícero declarou que “a própria palavra ‘cruz’ deveria ser afastada para longe não somente da presença de um cidadão romano mas de seus pensamentos. da harmonia da criação. a crucificação.23) até alcançarem maturidade em Cristo (1.9  É nesse mundo que encontramos um grupo de homens e mulheres indo de um lado para outro no império romano e anunciando que entre esses “ninguéns” crucificados e esquecidos houve um que era nada menos que o Filho de Deus. Na cruz são derrotadas de uma vez por todas a rebelião do pecado e o rompimento. no fim dos tempos. 8-11).A mensagem da missão Parte 1 . O sangue fala de morte sacrificial e renovação do pacto entre Deus e a humanidade. assim como da maior parte do Novo Testamento. Ap 13). todos os ídolos derrubados. 2Co 10.Horizontes Mundiais contra seus propósitos.21–2. até que tudo que continua hostil a Deus seja pacificado. é manifestada naqueles que pertencem ao corpo de Cristo. o salvador do mundo. Paulo. Paremos para considerar o sujeito dessa passagem notável. olhos e ouvidos”. todo homem será reconciliado com Deus não importando seu relacionamento atual com ele. 8. 20b). precisa de pacificação. a igreja (1. O Universo. O amplo escopo desse texto não deve ser usado para afirmar que. e continuam firmes na fé (1. Essa interpretação parece ser excluída pelo contexto de toda a epístola. a pena reservada para escravos rebeldes e o que hoje chamaríamos de “terroristas” contra o Estado. Era a forma mais humilhante de morte no mundo antigo. 2. Os versos seguintes (1. no trecho que consideramos. causado pelo pecado.3.6). portanto.27. Desde que a reconciliação entre agentes pessoais requer o reconhecimento do mal por quem o tenha perpretado. 5). como exemplo para o povo. A ênfase no verso 20 é no escopo universal da salvação de Deus: inclui nada menos que renovação e reorganização totais da criação. A conseqüência de suas atividades pode ser vista em seus sistemas de crenças vazios (Cl 2.15. Os romanos nem discutiam o assunto — fingiam que nem existia. Era cruel e degradante. e em ritos e práticas religiosas fúteis (Cl 2.28).4. vai além. Gl 4. Não se limita ao homem.

ou amigo. se verdadeira. para não falar no mundo.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 cificado é Aquele através de quem o Universo veio a existir e também Aquele pelo qual o Universo será restaurado a seu funcionamento próprio. A loucura de tal mensagem não pode ser superestimada. E ninguém ganhava nada com isso. a fonte de toda vida. Desafios missiológicos Quais as implicações das verdades que temos explorado neste texto para o pensamento e a missão cristã? Primeiramente. Se você quisesse converter o povo educado e piedoso do império a sua causa. Ninguém pode dizer que foi alguma invenção piedosa. o pensamento cristão é sempre cristocêntrico. tão confuso sobre a boa nova cristã que acaba quebrando nossas defesas: acaba parecendo verdade. Para os pagãos. Porque afirmava que se você quisesse conhecer como Deus era. mas a uma cruz nos arredores de Jerusalém. ou o “fundador do Cristianismo”. Jesus não veio  9 Cícero. Muitos em nossas igrejas. qualquer que fosse essa causa. in “Orações”. Dizia que a própria salvação de Roma viria dessas vítimas silenciosas do terror de Estado. Quando falam dele — se chegam a fazê-lo — é geralmente como seu salvador pessoal. César mesmo teria de se ajoelhar perante esse judeu crucificado. é a loucura dessa “palavra da cruz” que nos impele a levá-la a sério. 1996). 3. Essa mensagem. Pro Rabirio 5. a propalada civilização romana estava radicalmente condenada. Martin em The Crucifixion of the Son of God (SCM. por expressar não o poder de Deus mas sua incapacidade de liberar Israel do jugo romano. citado por HENGEL. e entender os propósitos de Deus para este mundo. porque contradizia toda noção de piedade. a pior coisa que poderia fazer seria associá-la a alguém recentemente crucificado. Não espanta que a “boa nova” dos cristãos fosse rotulada de “perigosa superstição” pelos romanos educados da época. Entretanto.6. Marco Túlio. têm uma visão muito pequena de Jesus. subvertia o mundo da religião. a idéia de que um deus ou o filho de um deus morreria como um criminoso condenado e que a salvação humana dependeria desse evento histórico em particular não era apenas ofensiva: era total loucura. E associar Deus. se verdadeira. a esse criminoso crucificado era convidar à zombaria e à total incompreensão! E foi exatamente essa a experiência dos primeiros cristãos. um Salvador Ungido crucificado era uma contradição em termos. 25 . Essa mensagem. Para sermos moderados. seria um desastre de relações públicas. Implicava que pela crucificação do Senhor do Universo. Para os judeus. tinha de ir não às altas especulações dos filósofos ou aos inúmeros templos ou grutas sagradas que coalhavam o império. subvertia também o mundo político. tão absurdo. p 134. Há algo tão tolo.

Horizontes Mundiais fundar alguma religião. Porque ao considerar-se essa possibilidade ter-se-ia também de se aceitar a possibilidade conseqüente de que esse Deus deseje se revelar e relacionar-se pessoalmente com sua criação humana. nem bom nem mau. nos prolíficos escritos do teólogo John Hick. incluindo respostas a críticas. Vinoth. 1996).10  E para que tal teocentrismo seja aceitável também para crenças não teístas como o budismo ou o taoísmo.A mensagem da missão Parte 1 . também é muito. então escorregaremos de volta ao monoteísmo monolítico ou ao paganismo. muito mais. veja RAMACHANDRA. Desde os primeiros tempos a igreja tem combatido filosofias religiosas pare 10 Primeiramente proposta em God and the Universe of Faiths (Macmillan e St Martin’s Press. por exemplo. 26 . descartando a priori a possibilidade de que o Real seja essencialmente. é o único ser verdadeiramente humano e o arquétipo da nova criação. cuja assim chamada “revolução copérnica” em Teologia é um apelo aos cristãos para que vejam Cristo como simplesmente uma de muitas testemunhas planetárias orbitando em torno da experiência universal de “Deus”. e não apenas em alguma de suas evocações. The Recovery of Mission (Paternoster e Eerdmans. E o que pensamos de Deus dependerá do que pensamos de Cristo. neste caso mediada pelos mitos do pensamento religioso judaico. ele é o agente da criação e da redenção. o mundo e a humanidade podem ser corretamente entendidos. o sistema religioso de Hick coloca o homem no centro de tudo. tende fundamentalmente contra as tradições teístas. ele ainda propõe que o “Deus” no centro desse “universo de crenças” seja chamado de “Mistério” ou “Real” impossível de se conhecer. Tudo que nos resta são tentativas humanas distorcidas de alcançar a realidade. que são as tradições religiosas da humanidade. Em Jesus Cristo tudo o que vemos é uma dessas muitas reações ao Real. pp 120–125. mas cumprir os propósitos de Deus tanto para Israel como para toda a sua criação. pessoal. ao contrário da revolução copérnica original que removeu a Terra do centro do sistema solar. A exposição mais completa pelo próprio Hick de sua tese pluralista é An Interpretation of Religion (Macmillan e Yale University Press. Para a crítica mais completa pelo presente autor a Hick. nosso salvador pessoal e amigo íntimo. Uma versão popular e recente. Tozer disse certa vez que o que pensamos de Deus determinará o que pensamos de tudo o mais. 1995). E sendo. Hick efetivamente excluiu qualquer conceito significativo de revelação divina de sua meta-religião de religiões. O “Real além de Deus” não é uma pessoa nem um processo. É apenas em relação a ele que Deus.W. nem um nem muitos. silenciando Deus. Apesar de sua hospitaleira acomodação das religiões do mundo. Sobre esse Real não podemos nem pensar nem falar. Ele torna visível o Deus invisível. 1989). e escritores como Hick acham que ocupam uma posição superior por reconhecer as distorções cometidas por outros. O pregador americano A. Podemos apenas mitologicamente falar de nossas reações culturalmente condicionadas a esse Real. Se nossos pensamentos sobre Deus não forem centrados em Cristo. encontra-se em The Rainbow of Faiths (SCM. Este último é visto. de fato. Observe que. 1973). e aquele através de cuja morte e ressurreição o cosmos será reconciliado e reintegrado.

políticas e intelectuais que definem as formas de sua existência. James (Eerdmans e Paternoster. resultando na sua aquisição duma conotação desagradável de hegemonia cultural e  11 Do discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã. que é Soberano sobre tudo. do Deus incompreensível e impessoal. ou Demiurgo. e seu propósito é ajuntar toda a criação sob o Senhorio de Cristo.12  Esse uso do termo infelizmente coincidiu com a expansão colonial das potências européias. e também confrontar face-a-face as tendências gnósticas modernas dos pluralistas religiosos como Hick. separava o deus da criação. ele cuja glória é revelada através das boas novas de proclamação cristã (cf. A missão cristã depende de Cristo ser absoluto. por exemplo. tendo seus credos e práticas baseadas na falsidade. porque não importa quão maravilhosa possa ter sido. Teria elevado um mero ser humano ao nível de Deus e o teria adorado. A “plenitude” (pleroma) desse Ser estava difusa pela cadeia cósmica do ser. até o século XVI o termo “missão” era usado exclusivamente para referir-se à Trindade: o envio do Pai pelo Filho.”11  A preocupação de Deus abrange não apenas homens. e as estruturas sociais. editado por Bratt. econômicas. tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu. do contexto pagão da carta aos Colossenses faça parte uma doutrina filosófica semelhante a essa e às escolas gnósticas do segundo século. a 20 de outubro de 1. Na verdade. Os jesuítas foram os primeiros a usar “missão” para descrever a difusão da fé cristã entre as pessoas (inclusive protestantes) que não eram membros da igreja romanista. a igreja cristã teria vivido uma mentira. e do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho. 1998). Falar do Cristo encarnado como aquele em quem “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (2.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 cidas com essa forma moderna de pluralismo. A visão da criação e reconciliação final de todas as coisas. Ele busca este mundo por meio de Cristo e de seu Espírito. espalhando-se até toda a criação. mas também o ambiente físico e biológico que sustenta suas vidas. é primariamente uma atividade de Deus. e “enviar” e “ser enviado” é parte integrante de Sua natureza como uma comunidade de pessoas divinas. não diga: ‘Meu’. Em segundo lugar. O neoplatonismo. com a matéria física no nível mais baixo de existência. mulheres e crianças individuais. Alguns comentaristas crêem que. a missão cristã é integral e universal. Nós seríamos culpados da mais monstruosa idolatria e os críticos judeus e muçulmanos estariam certos em nos condenar. portanto.9) é explodir com a cosmovisão antiga. e o quanto Deus possa ter estado presente por meio dela. engajado na liberação do cosmos e da humanidade de seu cativeiro no mal. se Jesus não tivesse sido mais que humano. por meio da cruz de Jesus Cristo foi resumida pelo grande filósofo e estadista holandês Abraham Kuyper: “Não há uma polegada quadrada em todo o domínio de nossa existência humana sobre a qual Cristo. O amor de Deus é centrífugo.880. p 461. in Abraham Kuyper: A Centennial Reader. 27 . v 23). A missão.

J Andrew. p 1. a correlação entre 1. e o templo puderam tornar-se ídolos. pp 25–26. porque é a comunidade na qual essa reconciliação já começou (1. práticas de opressão social ou sexual enraizadas na cultura.2–6). dirigindo-se a indivíduos mas também a todas suas atividades. colocando-se como substitutos do verdadeiro Deus. ou regimes políticos tiranos que semeam terror e desconfiança. empresas ou governos. Veja a discussão in Kirk. é privilégio ter-se tornado arauto das boas novas da atividade pacificadora de Deus (v 23). seja na vida familiar. aquele “espírito interno. David J. A missio Dei abrange tanto a igreja quanto o mundo.  14 Wink.20 implica em a igreja ser o foco e o meio principal para essa reconciliação cósmica. etnia ou governo. Se a Torá.13  De fato. 28 . A pregação do Evangelho anuncia a intenção  12 Bosch.  13 O uso do termo latino missio Dei tem se tornado cada vez mais popular desde a conferência de Willingen no Concílio Internacional Missionário de 1952. mas essas não são simplesmente materiais ou visíveis. Para Paulo.Horizontes Mundiais conquista agressiva. Unmasking the Powers: The Invisible Forces That Determine Human Existence (Fortress. p 4. invisível que provê (a qualquer poder) legitimidade. A missio Dei aponta para Deus buscando toda a criação em redenção e reconciliação amorosas.A mensagem da missão Parte 1 .8–15. com um poder que cegava os contemporâneos judeus dos cristãos colossenses. dada por Deus. nem identificá-los completamente com poderes humanos. sexualidade.14  Todos sabemos dos poderes criados para servir a fins humanos que parecem tomar vida própria para além do controle humano. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão (Sinodal. ou interioridade”. Vimos em nossa exegese que não devemos nem demonizar esses poderes. e a igreja é chamada ao privilégio de participar nessa missão divina. que se estende aos poderes caídos da ordem criada. 1986).28a e 1. A ênfase no Deus triúno como agente da missão liberta a igreja tanto de um egocentrismo idólatra quanto de um estreitamento do escopo da missão.21–22) e cuja responsabilidade é praticá-la e proclamar seu segredo (3. cultura. Walter. e subverte os poderes caídos por meio da fraqueza da cruz (Cl 2. antigos ódios étnicos freqüentemente explodindo em ondas de brutalidade coletiva. Walter Wink refere-se à sua “espiritualidade interna. localizando-os em algum reino totalmente maligno e sobrenatural fora de nossa responsabilidade. legalidade. Mesmo a atividade hostil de poderes inumanos é deste mundo. ciência ou tecnologia.15). sistemas religiosos levando a um legalismo arrogante ou a um fatalismo corruptor. Longman & Todd. operando por meio de estruturas e instituições humanas. 4. credibilidade e efetividade”. quanto mais os dons de família. 2002). What is Mission? Theological Explorations (Darton. nas artes. O Evangelho desmascara os ídolos da vida pública e pessoal. que permanece até hoje. Muitos enfrentam desamparo face a gerações de relacionamentos familiares disfuncionais. às vezes mais como slogan do que como uma conceito bem articulado. 1999).

e nos chama a atenção para o escopo cósmico da missão divina: Deus em princípio anunciou o Evangelho a toda criatura sob o céu. A esperança cristã.6). capacitando homens e mulheres a viverem vidas transformadas em antecipação da vitória final de Deus sobre todos os poderes do mal e da morte. Mas a prova de que o futuro de Deus já atinge o presente encontra-se nas pequenas comunidades como a de Colosso e em outras partes do mundo mediterrâneo. Missão.27) que o objetivo cósmico de renovação e transformação será alcançado. definhando na prisão. ciências. Essa afirmação sonora lembra-nos mais uma vez da intenção eterna de Deus. Walter.A glória de cristo Colossenses 1:15-23 de Deus de preencher o Universo com a glória de Cristo. Toda a nossa atividade.10) e pregação evangélicas (1. a proclamação seja feita a seres humanos. The Bible and Postmodern Imagination: Texts Under Negotiation (SCM. sabia muito bem que o mundo se nega a reconhecer que sua reconciliação passa pela cruz.16  Tal esperança baseia-se não no sucesso de nossos programas eclesiásticos e estratégias de evangelização global. Paulo. envolvida apenas com a salvação das almas e a preparação dos convertidos para o além) podem articular fielmente a missio Dei”. é a “exultante convicção de que Deus não desistirá até que Deus tenha realizado o propósito de Deus no mundo”. Brüggemann. e todos os cristãos têm a tarefa de descobrir o que isso significa nas áreas em que se envolvem: “nem uma igreja secularizada (quer dizer. p 40. à luz de 1. Essas são comunidades de esperança. entretanto. uma prévia da reconciliação vindoura. e é através do seu viver (1. onde homens e mulheres foram libertos de sua “separação e inimizade” (1. nos mundos da economia e da política — e mesmo na criação — participará no papel liberador de Deus. Este é o evangelho que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu (v 23.15  Em terceiro lugar. p 11. nas artes. mas na promessa divina de que todas as coisas serão reconciliadas com Deus pelo sangue da cruz de Cristo. nas palavras de Walter Brüggemann. e não se encontrará nenhuma esperança para o mundo em qualquer sistema religioso ou filosófico da humanidade. De cachoeiras a cachalotes. 18 e 20 e da reiteração enfática de “tudo” aqui e em outros trechos de Colossenses. e essa visão ampla gira em torno da cruz de Jesus Cristo.21).  16 29 . 1993). É ali que uma visão de esperança se abre para o mundo. Embora. se limitássemos seus efeitos a eles. Nenhuma fé oferece uma promessa de salvação para o mundo como fazem a cruz e a ressurreição de Jesus. a missão cristã é também escatológica. envolvida apenas com as atividades e interesses deste mundo) nem uma igreja separatista (ou seja. cf 1. a ordem criada foi toda reconciliada em princípio com Deus.16. A esperança é um dos maravilhosos dons do Evangelho. estaríamos bastante enganados. Como a proclamação de um soberano  15 Bosch.

em Jesus Cristo.Horizontes Mundiais enviando seus arautos aos rincões distantes de seu império. de uma vez por todas. são simplesmente agentes. Colossians and Philemon. Deus tem. correndo para os confins da Terra com as novas.A mensagem da missão Parte 1 . mensageiros dessa proclamação oficial.17   17 Wright. que o mundo por ele criado foi reconciliado com ele. p 85. proclamado. Seus arautos. 30 .