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ARTIGO Larocca LM, Mazza VA.

Habermas e Paulo Freire: referenciais teóricos para o estudo da co-


municação em enfermagem. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2003 ago;24(2):169-76.
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HABERMAS E PAULO FREIRE:


referenciais teóricos para o estudo da comunicação em enfermagem

Liliana Muller LAROCCAa


Verônica de Azevedo MAZZAa

RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo apresentar as idéias de Jürgen Habermas e de Paulo Freire sobre o
diálogo como um fenômeno humano fundamental, dados sobre suas trajetórias de vida, aproximações ideológicas
ao situar o humano através da história e sua relevância como referenciais teóricos para o estudo da comunicação no
processo de trabalho do enfermeiro.

Descritores: enfermagem; comunicação; pesquisa em enfermagem; relações enfermeiro-paciente.

RESUMEN

El objetivo de este trabajo es presentar las ideas de Jürgen Habermans y Paulo Freire sobre el diálogo como
un fenómeno humano fundamental, datos sobre sus trayectorias de vida, acercamientos ideológicos al situar el
humano a través de la historia y su relevancia como referenciales teóricos para el estudio de la comunicación en
el proceso de trabajo del enfermero.

Descriptores: enfermería; comunicación; investigación en enfermería; relaciones enfermero-paciente.


Title: Habermas y Paulo Freire: referenciales teóricos para el estudio de la comunicación en enfermería

ABSTRACT

The present work has the objective of introducing the ideas of Jürgen Habermas and Paulo Freire about the
dialogue as a fundamental human phenomenon, data on their trajectories of life, ideological approaches when
locating the human being through history and their relevance as theoretical referrals for the study on communication
in the process of the nurse’s work.

Descriptors: nursing; communication; nursing research; nurse-patient relations.


Title: Habermas and Paulo Freire: theoretical referrals for the study on communication in nursing

a
Professora Assistente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná, UFPR, e Membro do Grupo de Estudos de
Metodologia da Assistência, GEMA.

Larocca LM, Mazza VA. Habermas y Paulo Freire: referenciales Larocca LM, Mazza VA. Habermas and Paulo Freire: theoretical
teóricos para el estudio de la comunicación en enfermería [resumen]. referrals for the study on communication in nursing [abstract]. Rev
Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2003 ago;24(2):169. Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2003 ago;24(2):169.
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1 INTRODUÇÃO individuais, sociais e políticas no qual, atores


sociais com perspectivas distintas cruzam suas
A Enfermagem é uma profissão que atua trajetórias.
diretamente com seres humanos e converge Segundo Paulo Freire(5) a comunicação/
suas ações sobre eles, visando ao enfrentamen- diálogo ocorre entre aqueles atores sociais que
to de problemas. Isto somente ocorrerá se os não renegam uns aos outros o direito a suas
atores deste cenário agirem como sujeitos de próprias palavras, pensamentos e decisões.
sua própria vida e, para tanto, adquirirem cons- A relação estabelecida entre os atores so-
ciência da ampla tessitura social na qual estão ciais que interagem durante um cuidado de
inseridos(1). enfermagem e seus respectivos compromis-
Para a Enfermagem, o ser humano não é sos sociais deve ser exercida dentro de um
apenas um produto biológico, mas um agente agir comunicativo; esse segundo Habermas(6),
no processo saúde-doença, um ator social: aque- é um processo circular no qual um ator social
le que vive sua história concreta tendo suas é simultaneamente iniciador e produto do seu
condições de vida determinadas socialmente. agir.
Isso corrobora o que afirma Paulo Freire(2),
para quem os seres humanos transcendem o 2 O MUNDO DE HABERMAS
biológico, pois são seres histórico-sociais, ca-
pazes de dentro de sua individualidade, compa- Jürgen Habermas (1929-), filósofo ale-
rar, valorar, escolher e decidir. mão pertencente à chamada segunda geração
Todo ser humano só existe inserido num da Escola de Frankfurt, foi assistente de Theodor
contexto concreto, assim o compromisso social Wiesegrund Adorno entre 1956 e 1959. Ador-
do ator social-enfermeiro é humanizado pela no foi um dos fundadores da Escola de Frank-
responsabilidade histórica e pelo engajamento furt que, juntamente com Max Horkheimer,
com a realidade que, segundo Paulo Freire(3), desenvolveu uma teoria crítica da sociedade
tem sua verdade na solidariedade. industrial e de sua cultura, denunciando, sobre-
Segundo Berlinguer(4), o processo saúde- tudo a ideologia da dominação da natureza pela
doença é um fenômeno intimamente ligado à técnica, trazendo como conseqüência à domi-
vida privada do ser humano, mas esse somente nação do próprio homem, que se vê convertido
poderá conhecer suas possibilidades de vida em escravo dessa técnica, pela utilização da
tornando-se consciente das possibilidades de racionalidade científica(7). Habermas realizou
todas as pessoas que vivem nas mesmas cir- sua formação universitária no período de
cunstâncias que ele. redemocratização da Alemanha, logo após
Paulo Freire(5) ressalta ainda que devemos o término da Segunda Guerra Mundial. Em
investigar mulheres e homens, não como 1968 transferiu-se para a Universidade de
peças anatômicas, mas sim, seu pensamento- Nova Iorque sendo, atualmente, professor da
linguagem no que se refere à realidade, seus Universidade de Frankfurt(8).
níveis de percepção quanto a ela e sua visão de A obra de Habermas desenvolve-se na
mundo. perspectiva da teoria crítica da sociedade e
Ao tomarmos ciência da realidade sua teoria pretende ser uma revisão e uma
vivenciada pelos profissionais enfermeiros, atualização do marxismo, capaz de dar conta
percebemos a importância de refletir sobre a das características do capitalismo da sociedade
comunicação entre os atores sociais e seu industrial contemporânea(9).
compromisso ao compartilhar o cenário da Segundo Habermas, o desenvolvimento
assistência à saúde no país, o que pode ser técnico-científico e sua aplicação na sociedade
entendido como um processo de relações resultaram em uma razão instrumental que
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visa ao estabelecimento de meios para se a- Se entendermos o agir em geral como um


lcançar um fim determinado. Nesse sentido, a dominar de situações, o agir comunicativo ex-
proposta de Habermas é uma teoria da ação co- trai dele, sobretudo, o entendimento(6). A situa-
municativa segundo a qual o agir comunicativo ção de ação comunicativa é, ao mesmo tempo,
possibilita uma interação plena entre os seres uma situação de ação e linguagem, na qual
humanos, substituindo as relações assimétricas os atores sociais assumem alternadamente os
que a impedem(10). papéis comunicacionais de atuantes, falantes,
O agir comunicativo pode ser compreen- destinatários e pessoas presentes.
dido como um processo circular, no qual o ator Para Habermas(6), o agir comunicativo se
é ao mesmo tempo o iniciador que domina as efetuará quando atores sociais harmonizarem
situações por meio de ações e produto das internamente seus planos de ação e persegui-
tradições nas quais se encontra, dos grupos aos rem suas respectivas metas. A condição é a
quais pertence e dos processos de socialização existência ou a negociação de um acordo sobre
nos quais se cria(6). a situação e também sobre as possíveis con-
De acordo com Habermas(6), os partici- seqüências esperadas pelos diversos atores so-
pantes da comunicação baseiam seus esforços ciais envolvidos.
de entendimento mútuo num sistema de refe- O agir estratégico, quando relacionado
rências composto de três mundos: ao papel do Estado e dos profissionais de
O mundo objetivo: onde acontece a re- saúde no controle dos agravos à saúde, apre-
presentação ou pressuposição de estados e acon- senta-se orientado para o êxito (dados esta-
tecimentos é o celeiro ou armazém de saber e tísticos favoráveis), com a utilização de se-
conhecimento, do qual os participantes da co- duções (propaganda efetuada) e coordenação
municação extraem suas interpretações. da ação por meio de ganhos, situações que
O mundo social: onde ocorre a produção afastam, em vários momentos a assistência
ou renovação de relações interpessoais, nele prestada do agir comunicativo, que enfatiza
incluem-se as ordens legítimas e a regulamen- o entendimento, a harmonização dos planos
tação da participação dos atores sociais em de ação e a perseguição de metas sob a con-
grupo sociais distintos; dição obrigatória de um acordo entre os ato-
O mundo subjetivo: local da manifesta- res sociais.
ção de vivências e da auto-representação onde Se nós, enfermeiros, orientamos nossas
são configuradas as competências de partici- ações pautadas somente no agir estratégico,
pação no processo comunicativo e a afirmação voltadas imediatamente para um sucesso
da identidade dos atores sociais numérico e visando à execução de planos de
A interação entre esses três mundos leva ação previamente determinados, certamente
os participantes da situação de comunicação ao nos depararemos com a falta de entendimen-
entendimento, ou seja, ao Mundo da Vida, que to(10).
constitui o contexto ou lugar onde se formam os O agir comunicativo deve ser entendido
processos de entendimento e onde os partici- como um mecanismo de coordenação da ação
pantes da comunicação se movimentam. em que a orientação preferencial é o entendi-
Para realizar uma caracterização simbóli- mento(12).
ca desses mundos, Siebeneichler(11) exemplifi- O relacionamento assimétrico e a desvalo-
ca-os da seguinte maneira: Mundo Objetivo, rização dos seres humanos envolvidos em pro-
como cultura, Mundo Social, como sociedade e cessos comunicacionais emergem em situa-
Mundo Subjetivo, como personalidade, todos ções nas quais o Mundo Objetivo e o Mundo
se referenciando para a composição do Mundo Subjetivo encontram-se suplantados pelo Mun-
da Vida. do Social(12).
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Segundo Habermas(6), os participantes da Faleceu em 2 de maio de 1997, deixando,


comunicação precisam ter competência para conforme as palavras de Gadotti, “uma vida
adotar, se necessário, uma atitude objetivante de ternura, de doçura, de coerência e de
(em face ao estado das coisas existentes), uma luta” (13:4).
atitude conforme as normas (em face das rela- Segundo Gadotti(13), o pensamento de
ções interpessoais legitimamente reguladas) e Paulo Freire, mais que um método de alfabe-
uma atitude expressiva (em face das próprias tização de adultos, é uma Teoria do Conheci-
vivências), variando conforme a utilização dos mento, uma Filosofia da Educação.
Mundos: Objetivo, Social e Subjetivo. A con- Percebemos na Filosofia de Paulo Freire
seqüência dessas atitudes competentes é o agir a existência de um caminho pelo qual é pos-
comunicativo. sível percorrer um trajeto de libertação e
conscientização dos seres humanos, essên-
3 O MUNDO DE PAULO FREIRE cia do processo de trabalho do enfermeiro,
levando-nos a um agir consciente sobre a rea-
Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Re- lidade objetivada, ou seja: ação – reflexão so-
cife/Pernambuco no dia 19 de setembro de bre o mundo onde vivemos e trabalhamos(10).
1921. Começou a cultura da palavra orientado As idéias de Paulo Freire(14) sugerem a
pela mãe, escrevendo com gravetos no chão do interposição de educação e investigação
quintal da casa onde nasceu(13). temática (similar ao processo de trabalho do
Aos dez anos de idade foi morar em enfermeiro) como diferentes momentos do
Jaboatão, cidade localizada a 18 quilômetros mesmo processo, no qual são desenvolvidas
do Recife. Foi lá, aos 13 anos, que experimen- seis idéias-força:
tou a dor da perda de seu pai, conheceu os a) 1ª idéia-força: toda ação educativa de-
prazeres de conviver com amigos solidários e ve necessariamente estar precedida de uma
viu sua mãe lutar pelo sustento da família. Aos reflexão sobre o ser humano concreto e de uma
22 anos ingressou na Faculdade de Direito do análise do meio de vida desse ser humano;
Recife, fazendo essa opção por não haver em b) 2ª idéia-força: o ser humano chega a
Pernambuco curso superior de formação de ser sujeito refletindo sobre sua situação e so-
educador. bre seu ambiente concreto;
Paulo Freire foi exilado pelo governo militar c) 3ª idéia-força: o ser humano, integrado
em 1964, passando setenta e cinco dias na prisão. em seu contexto, reflete sobre o mesmo e se
Foi para a Bolívia, ficando ali alguns dias, dirigin- compromete, constrói a si mesmo e chega a ser
do-se então para o Chile, onde viveu de 1964 a sujeito. Precisamente por ser humano, é capaz
1969. Neste mesmo ano foi, como professor con- de reconhecer que existem realidades que lhe
vidado, para Harvard (Massachusetts - EUA). são exteriores e descobrir que não está somen-
Em seguida (1970) foi para Genebra (Suíça) ser te na realidade, mas também com ela. A rela-
consultor especial do Departamento de Educa- ção do ser humano com a realidade é um desa-
ção do Conselho Mundial de Igrejas; assim, como fio a que ele responde originalmente;
gostava de dizer, andarilhou pela África, Ásia, d) 4ª idéia-força: o ser humano, integran-
Oceania e América (com exceção do Brasil), do-se às condições de seu contexto de vida,
completando dezesseis anos de exílio(13). reflete e responde aos desafios que se apresen-
Voltou de fato ao Brasil em junho de 1980, tam, cria cultura. Aqui a cultura é considerada
quando se tornou professor da Universidade de todo resultado de atividade, do esforço criador
Campinas – UNICAMP, lecionando até o final e recriador do ser humano, de seu trabalho
do ano letivo de 1990, quando transferiu-se para transformar e estabelecer relações de
para a USP/São Paulo(13). diálogo;
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e) 5ª idéia-força: além de criador de cul- Segundo Moreira são evidentes as seme-


tura, o ser humano é também “fazedor” de lhanças entre a educação libertadora de Paulo
história, pois na medida em que cria e decide, as Freire e o interesse emancipatório de Habermas:
épocas vão formando-se e reformando-se. A
história é uma cadeia contínua de épocas ca- Primeiramente, os dois autores relacio-
nam discurso com liberdade e conside-
racterizadas por aspirações, necessidades, va-
ram o diálogo como um fenômeno huma-
lores e temas em processo de realização. no fundamental. Em segundo lugar, am-
Descobrindo e reconhecendo esses temas o ser bos desejam que as pessoas reflitam so-
humano participa de sua época; bre suas experiências e compreendam
f) 6ª idéia-força: é preciso que a ação que há outras explicações, além daquelas
educativa, em seu conteúdo, em seus progra- do senso comum, que permitem entender
mas e em seus métodos, permita ao ser humano mais profundamente as causas de situa-
ções de opressão. Finalmente, os dois
construir-se como pessoa transformadora do
vêem emancipação como conquista so-
mundo, estabelecer relações de reciprocida- cial e não individual, o que significa re-
de, fazer cultura, história, enfim, chegar a ser conhecer a indissolubilidade da eman-
sujeito por meio da conscientização. cipação coletiva e individual(17:130).

4 HABERMAS E PAULO FREIRE: mun- Habermas e Paulo Freire desenvolvem


dos interligados pela comunicação propostas de ações comunicativas que são pro-
fundamente interligadas, motivo pelo qual com-
Essas duas figuras humanas cujos escritos preendemos a necessidade de conhecer o papel
clarearam muitas de nossas indagações e con- da comunicação nas relações humanas e conse-
flitos, possuem semelhanças, que em vários qüentemente no Mundo da Enfermagem.
momentos nos fizeram entendê-los como parte É com essa infinita versatilidade que a
de um mesmo mundo. comunicação permeia todas as relações es-
A linguagem como veículo para delinear, tabelecidas durante o encontro dos atores
ajudar, destruir, informar, ensinar e construir sociais.
nossas vidas e nossa identidade é uma situa- Essa união de mundos, para nós é inter-
ção amplamente referenciada nas obras de relacional e também um momento de constru-
Habermas e Paulo Freire. Segundo McLaren ção de um caminho para qualquer ação comu-
e Silva(16), a linguagem tem papel constituinte nicativa entre seres humanos, no qual a ética é
na construção social da realidade. condição essencial.
Habermas e Paulo Freire também se aproxi- Existe também a polissemia da palavra
mam quando localizam o ser humano no centro comunicação, dividida entre: lazer, trabalho,
de suas reflexões; são, portanto, humanistas. Hu- espetáculo e cotidiano; dividida entre visões
manismo é situar o humano através da história, culturalistas e tecnicistas; oscilando entre uma
gerando sua própria e singular natureza(15). acepção mais restrita à área de competência
Segundo Rivera(12) a ação transformadora dos meios de comunicação de massa e uma
de Habermas baseia-se no Humanismo e Paulo definição como princípio de organização das
Freire, ao entender o ser humano como criador sociedades modernas(18).
de seu próprio ser utiliza as mesmas bases de Assim sendo, para analisar a trajetória
pensamento. da comunicação no Agir Comunicativo de
Durante seu exílio, Paulo Freire teve con- Habermas e na Teoria do Conhecimento de
tato próximo com a obra de vários filósofos Paulo Freire, a reconhecemos como “um con-
europeus, entre os quais se destacam Gramsci, ceito que somente pode ser analisado sob o
Kosik e o próprio Habermas(13). signo da cultura, cultura entendida como me-
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mória coletiva que torna possível a comunica- meiros na construção de seu processo de traba-
ção entre os membros de uma coletividade lho. Sob essa perspectiva, os enfermeiros de-
historicamente situada”(18:288). vem observar, sentir, sofrer influências, des-
Segundo Minayo(19), Habermas coloca vendar e acompanhar a comunicação.
como fundamento da comunicação as relações Segundo Habermas (22) vários fatores
sociais historicamente dinâmicas, antagôni- não são contemplados quando enfatizamos
cas e contraditórias entre classes, grupos e cul- unicamente a técnica, pois ela não se utiliza-
turas, nas quais a linguagem possibilita, mas do mundo dos fenômenos únicos, contem-
também dificulta a comunicação. E é com essa plados pelos Mundos Objetivo, Social, Sub-
mesma infinita versatilidade que a comunica- jetivo mas sim, do mundo da regularidade
ção permeia todas as relações estabelecidas quantificada.
durante o encontro dos seres humanos. Portanto, para subsidiar seu agir, a Enfer-
Para Bordenave(20) a comunicação é um magem deve buscar elementos das ciências
processo natural, uma arte, uma tecnologia, sociais, usando o instrumento que Stotz(1)
uma situação e uma ciência social. Pode ser define como imaginação sociológica. Essa
um instrumento de legitimação de estruturas imaginação é a qualidade de saber relacionar
sociais e de governos, como também a força a vida dos indivíduos (suas experiências, valo-
que os contesta e transforma. Ela pode ser res e expectativas) com o tempo histórico da
veículo de auto-expressão de relacionamento sociedade.
entre as pessoas, mas também pode ser útil Precisamos estar sensibilizados sobre a
recurso de opressão psicológica e moral. A importância da comunicação no processo de
comunicação excita, ensina, vende, distrai, en- cuidar para desenvolver uma Enfermagem mais
tusiasma, dá status, constrói mitos, destrói re- humanizada, de maneira a transformar essa
putações, orienta, desorienta, faz rir, faz chorar, relação enfermeiro-paciente numa relação de
inspira, narcotiza, reduz a solidão e – num cuidado, na qual exista uma comunicação efe-
paradoxo digno de sua infinita versatilidade – tiva(23).
produz até incomunicação. O processo de trabalho do enfermeiro trans-
Enfatizando que a comunicação significa cende a simples utilização correta de técnicas e
co-participação dos sujeitos no ato de pensar e amplia o cuidado para além do quantificável,
que o conhecimento se constrói por meio das tornando-o um processo comunicativo, em que
relações entre atores sociais e o mundo, Paulo relações éticas possibilitam ao cidadão a ado-
Freire(21) define comunicação como a situação ção de um comportamento saudável e o acesso
social em que as pessoas criam conhecimento consciente a um direito conquistado(10).
juntas, ao invés de transmiti-lo. A comunicação Nosso trabalho é desempenhado por e para
é uma interação entre sujeitos iguais e criati- atores sociais, na qual a conjugação entre o
vos, devendo estar fundada no diálogo. Esse saber histórico e as experiências individuais
diálogo-comunicação não significa invadir, permitirem o diálogo e o desenvolvimento de
manipular ou criar slogans, mas sim, traba- relações pessoais, políticas, éticas e educativas
lhar permanentemente para a transformação permeadas pelas relações científicas, e não por
da realidade. elas suplantadas.
Nas obras de Bordenave o diálogo e o Ao atuarmos nos diversos cenários como
entendimento encontram-se questionados e atores sociais, produziremos um encontro dinâ-
analisados profundamente e sua visão a res- mico entre as mulheres e homens que ali circu-
peito da comunicação está em consonância lam, embasado no agir comunicativo, gerador
com as idéias de Habermas, Paulo Freire e, de entendimento e capaz de transformações
conseqüentemente, com o caminhar dos enfer- sociais.
Larocca LM, Mazza VA. Habermas e Paulo Freire: referenciais teóricos para o estudo da co-
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O início de uma nova caminhada é aqui Florianópolis (SC): Universidade Federal de


vislumbrado: a construção de uma Metodologia Santa Catarina; 2000. 102 f.
da Assistência de Enfermagem baseada num
11 Siebeneichler FB. Jürgen Habermas: razão comu-
transitar de mundos nos quais história, lingua-
nicativa e emancipação. 3ª ed. Rio de Janeiro:
gem, cultura, trabalho, personalidade, diálogo Tempo Brasileiro; 1994. 181 p.
e comunicação compõem uma estrutura sólida
para o agir comunicativo e para a emancipação 12 Rivera FJU. Agir comunicativo e planeja-
humana. mento social: uma crítica ao enfoque es-
tratégico. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1995.
REFERÊNCIAS 213 p.

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pedagogia: alfabetização crítica, resistência
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17 Moreira AFB. Currículos e programas no Brasil.
4ª ed. São Paulo: Papirus; 1999. 130 p.
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18 Mattelart A. Comunicação mundo: história das
236 p.
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filosofia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar; 1998. 296 p.
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quisa qualitativa em saúde. 6ª ed. São Paulo:
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Adorno TW, Habermas J. Textos escolhidos. São
Paulo: Abril Cultural; 1980. 343 p. il. p. vii-xxiii. 20 Bordenave JED. Além dos meios e mensagens:
(Os pensadores). introdução à comunicação como processo,
tecnologia, sistema e ciência. 3ª ed. Petrópolis
9 Japiassu H, Marcondes D. Dicionário básico de (RJ): Vozes; 1998. 119 p.
filosofia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar; 1998. 296 p.
Habermas J; p. 121. 21 Freire P. Extensão ou comunicação. 10ª ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra; 1992. 93 p.
10 Larocca LM. O agir comunicativo na sala de
vacinas: saberes e fazeres necessários á prática 22 Habermas J. Técnica e ciência como ideologia.
de Enfermagem [dissertação de Mestrado]. Lisboa: Edições 70; 1968. 147 p.
Larocca LM, Mazza VA. Habermas e Paulo Freire: referenciais teóricos para o estudo da co-
176 municação em enfermagem. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2003 ago;24(2):169-76.

23 Mazza VA. A comunicação não verbal como


forma de cuidado de Enfermagem: ensino e práti-
ca [dissertação de Mestrado]. Florianópolis
(SC): Universidade Federal de Santa Catarina;
1998. 70 f.

Endereço da autora/Athor´s address Recebido em: 14/05/2003


Liliana Muller Larocca Aprovado em: 09/08/2003
Universidade Federal do Paraná
Departamento de Enfermagem
Rua Padre Camargo, 120
80.060-240, Curitiba, Paraná