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P

. s ob re a s lançamentos e a s promoçõe s da El s evier ,

e r eceba gratuitam e nt e in orma ç oe s

re e nc

h

a a

ficha de cadastro . n f o f i nal _ d es t e li vro

Co n s u l te t ambém nosso catá l ogo c ?mp l e to , . ú l timos l a nçamentos e se r viço s exc l US I VO Sn o s i te

www.elsevier.com.br

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;{S~_?I {

- ----- -

o R G A ,

N I Z A D O R E S

Ciro Flamarion C a rdoso Ronaldo Va i nfa s

Novos Domínios da História

ELSEVIER

~ ~

CAMPUS

© 20 1 2 ,

E l s e v i e r E dit o r a li da .

T

odo s as dir e i t o s r ese r v ad o s

e p rot e gid os

p e la L e i n 2 9 . 6 1 0 ,

d e 1 9 / 0 2 /1 998.

Nen h u m a

t

ou q uai s qu er

p o r t e de s t e li v ro , sem au t o ri z a ç ã o

se jam

q u o i s f o r e m

o ut r o s .

p r é v i o

r a n s m it ido

os m e i os e mp r egado s :

por e s c ri t o d o e di t o r a ,

p o d e r á s er re pr oduz i do

ou

e l e tr ô n ic o s,

mecâ n icos ,

f o t o g r áf i c os,

gra v a ção

C o pid e sq u e : J e a n X a v i er

Re v i s ã o : Al e x a n d r a Re se n d e Ed it o ra ç ã o E l et r ô ni c o : S B N i gr i A r te s e T e xtos li da .

El s e v ier E di to r a Ltda .

Con hec im e n t o

s em Fr ont ei r a s

Ru a S e t e de Se t embro ,

20050- 0 06

1 1 1 - 16 2 a n d a r

- C en t ro - R i o d e Ja ne ir o - R J - B r a s il

Rua Qu int a na ,

0 4569 - 01 1

7 53 - 8 2 a n da r

- B r o ok l i n - São Paul o - SP - B ra s i l

e rv iço de A t e n d im en t o

S

0800 - 0 2 6 53 40

sac @ e l sev i er.co m .br

ao C l i e nt e

I SBN 978-85 - 352 - 4892-0

Nota: Muit o zel o e t é cnica foram em pregado s

na e diç ão d es t a o bra. N o ent a n t o,

podem o c orr er e rro s

de digita ç ão ,

a o n os s o S e r v iç o d e At e ndim e nto

im press ão ou dúv i da conc e itval .

ao Cliente ,

Em qualqu e r

da s hipóteses , so l ic i ta m os a c o muni c a ção

a que s t ão. o u pe rda s

para q u e po s sa m os es clar e cer

r e spon s abilidad e

ou encaminhar

dano s

N

e m

a e dit ora

nem o autor assumem

or igina dos d o u s o d es ta publ i ca ç ão .

qua l qu er

po r eve n tuai s

p ess o a s ou b e r is,

a

N 8 4 8

C IP- B ra s i l . Cat a l o gaçã o - n a - f o n t e.

S

i ndi c a t o Na cio n a l

d os E di t o r e s de Li v r o s, RJ

Nov os d o míni os da hi stãria / org an i z adore s Ciro F l o m a rion C a r d oso ,

R on ald o V ainfa s . - Ri o de Ja nei r o:

In cl ui bibli o gr afi a

I S BN 9 7 8 - 85 -352 - 4 89 2-0

El se v i e r, 201 2 .

1 . Hi s t óri a - Fil o sofia. 2 . H i s t ó ria - M e t o do log i a .

\

. C ard oso,

C i ro

 

Fl a ma rion S. (Cir o Flamarion Sant a na) ,

19 4 2- .

I \ . Va infa s, Rona l do ,

1

9 5 6 - .

1

1 - 6 1 4 5.

CDD:901

 

CDU: 930.1

indefinido , y en el m e di a ,

c e rcados por bar a nd as b a j í s i m a s. Desde cualqui er h exágo no se v e n Ias pisos inf e rior es y

superior e s

tal vez infinito, d e ga lerí as hexago n a l es, con vasto s po z o s de ventilación

EI universo (qu e otr os llaman Ia Bib l ioteca) s e c ompon e d e un número

Y o a firm o q u e I a Bibliot e ca es in term in a bl e . L o s i d ea l i stas arguyen que l as

s u na f orma n ec esaria d e i es p a c i o abs ol u t o o , p o r 10 m e n o s , d e n ue s tra

a l as h ex a g on a l e s son

i R az o nan q u e es incon ce bibl e u n a sa la trian g u l ar o pent ag o n a l . B ds -

t eme , p or a ho ra , re p e tir e l di cta me n clásico: la B i bl i ot e ca es un a esf e ra c u yo c e ntro c a b a l

e s cu al quier h exág ono , c u j a c ircunf e r e nc i a es inacc es ib l e.

ntui c i ó n d e l espa c io.

( jorg e Luis B o r ge s, I a b i b l i o t eca d e B abei , 1 9 4 4) .

168

Novos D o mínio s da História

EL S E VIER

SOUZA , Ma r i n a d e M e ll o e. Sa nt o Ant ô nio d e n ó -d e -pinh o

Revista Tempo. Ri o d e J a n e ir o: Se tt e Le t r as , n . 11 , 2 00 1 , p . 2 7 -44.

e o c a t o li c i s mo a f r o -b rasi l e ir o .

T

H OMPSON,

E . P. Miséria da teoria. Rio de J a n e ir o: Za h a r , 1 98 1 .

 

T

RI GGER,

Br u ce G. " E t nohi s tor y :

problem s a n d p ers p ect i ve s . Etnohistorj

Te x a s , v . 29,

n

. 1 , 1 982 ,

p .1 - 19.

VAINFAS , R o n a ld o . A heresia dos índios - catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São P au l o:

Co m panhia d as Le tr as, 1995 .

VNEIR OS

s e l vagem . Revista de Antropologia, v . 35, 1 992 . p . 26 .

WEBE R , Ma x . R e l ações co muni t á r i a s é tni ca s: Economia e Sociedade. B r a sí l ia : E d i to r a d a

Un i versi d a d e de Br a síli a, 19 94, p . 26 7 - 27 7.

DE CAST RO ,

E du ar d o .

O má rm ore

e a mu na :

so b re a inconst â n cia

d a a l ma

Capí t ulo 9

"História oral:

velhas questões , "novosdesafios

M a n e ta de .Moraes Ferreira

R ef le t ind o sobre o estatu t o da h ist ória oral

A propost a d es t e cap ítul o é enfocar alguma s qu es t ões

b ásicas r e lacionadas com a hi s-

tóri a oral , tais como se u es t a tut o ,

s u a s possibilidad es ,

se u s desa f i o s e suas limit a ç ões.

A

p

r i me ir a

pergunt a

que se c o l oca é : o que é, afin a l , hi s t ória

o r al? To m a ndo como p onto d e

p

ar tid a a nece s sid a d e d e p reci s ar se u e s t a tuto ,

é p ossív e l re duzi r a tr ês as princ i p a i s p ost ur as

 

a

d ota d as

p a r a re s p on d er a ess a pe r g unt a . A prim ei r a a d voga se r a hi s t ó r ia o r al um a t é cni ca, .

a

seg unda , um a di sci plin a e a t e r ce ir a, um a met o d o l og i a

. ( F e r re ir a; Ama d o, 2 006 )

 

~~ .

O s qu e d e f e nd e m

a hi s t ória o r a l c o mo t éc n ica pri vi l eg i a m

as e x p e ri ê n c i a s

co m grà:

vaç õ e s , tr a n sc r içõe s

apa r e l h a g em

E s sa o ri e ntaç ão nega q u a lqu e r p r ete n sã o m e t o dol óg i c a o u t eór i ca , um a vez qu e ' ' A chama d a

'

gra v a d or e m p es qu isa e pa r a a p o s t e ri o r

e co n servação d e e ntr evis t as ,

e o apa r ato q u e as ce r ca, co m o t ip o s d e

d e so m , fo r mas d e tr a n sc ri çã o

d e fita s , m o d e l o s d e o r ga n ização d e ac e r vo : t ~ .

d e pr oce dim e n tos

t éc n ico s p a r a a uti liza ç ão do

co n s er v a ção

d as fit as " (Roge r, 1 9 8 6, p. 23 - 28 ) .

hi s t ó ri a or a l ' n ão p as s a d e um co njunt o

A l g un s defe n sore s d es sa p osição sã o pe s so as e n vo l vi d as d i r eta m e n te

na co n st itu i ç ão

e

conse r vação d e acervo s ora i s, e mu i t os

e m o utro s tip os d e fo n tes (e m ger a l e s c rita s), qu e util i z a m a s e n t r evistas d e f o rm a even tu a l ,

se mpre c o m o fo nt es d e inf or m ação co mplement ar, e qu e n e m se mpr e d ef endem c o n s c i e n-

so m a m -se as que e f e ti va m e n te

co n c ebem a históri a or a l como um a t éc nica, n e gand o -lh e qu a lq u e r pre te n sã o m et odol óg i ca

o u t e órica.

O s que postul a m status d e di s ciplina para a hi s t ó ri a ora l b ase i a m-se em argum e n tos

co mpl ex os, por ve zes co ntr a di tó rio s

id e i a fu n dam e nt a l ,

ce d i m e nto s m e t o d o l ógico s s in g ul a r es e um co njunt o pr óp r io d e co n ce i to s ; e sse conju nto,

p or s u a vez , nort e i a a s du as o utr as in s t â n c i as ,

unid ade ao no vo ca m po d o co nh e c i m en to ."

sig nifi ca d o e emp res t a nd o

d e le s são cie nti s t a s socia i s c u jos t ra b a lho s se b ase i a m

• t e men te

a " po s tu ra

técn i ca" . A essas pe ss oa s , e nt re t a nt o ,

e ntre si . Tod os , e nt r et an t o ,

p a r e cem par t ir d e um a

a d e qu e a hi s t ó r ia o r al in a u g ur o u

técnicas es p ec ífic as d e pe s qu isa, pro -

c on fe rind o -Ih es

(Mikka , 1988 , P: 12 4 - 3 6)

170

Novos Domínios da História

ELSEVIER

E quais conceitos, ideias, características e direções integrariam a história oral, per-

mitindo conferir-lhe o status de disciplina segundo esse grupo de estudiosos? Nesse ponto

surgem dificuldades,

pois os autores divergem, partindo de pontos de vista diferentes e até

opostos, sem fornecer argumentos mais consistentes. De qualquer forma, os postulantes da história oral como disciplina reconhecem nela uma área de estudos com objeto próprio e í capacidade (como o fazem todas as disciplinas) de gerar no seu interior soluções teóricas

\\ para as questões surgi das na prática, no caso específico, questões como as imbricações entre

h~stória e memór~a, entre sujeit~ e_objeto. ~e estu~o , entre história de vida, biografia e auto-

, biografia,

.

entre diversas apropnaçoes SOCIaiSdo discurso etc.

a históri<l . ():'~~()~() . ~~t : ()~ . ()

. como pressuposto, portanto, defender a história oral como metodologia. Em nosso enten- der, a história oral, como todas as metodologias, apenas estab e lece e ordena procedimentos de trabalho - tais como os diversos tipos de entrevista e as implicações de cada um deles

para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e des-

vantagens, as diferentes maneiras de o historiador r e l~ c ionir-se com seus entrevistadoseas

influências disso sobre seu trabalho é o terreno da história oral, o que,

prática. Mas, na área teórica, a históriaoral é capaz~pe:! 1 as de suscitar,jamais de solucionar questões, ou f e j - ;;: ~ formula as ~erguntas, porém não pode oferecer as respostas . As soluções e explicações devem ser buscadas na historiografia e na teoria da história,

em que se agrupam conceitos capazes de pensar os problemas metodológicos gerados p e la pesquisa histórica. O entrevistado "se esquece" sempre de um conjunto específico de acon- tecimentos que vivenciou? Cada grupo de informantes situa em datas diferentes determi- nado fato histórico? Sendo uma metodologia, a história oral consegue enunciar perguntas como essas, mas, exatamente por ser uma metodologia, não dispõe de instrumentos capazes de compreender os tipos de comportamento descritos. Apenas a teoria da história é capaz de

fazê-Ia, pois se dedica, entre outras coisas, a pensar os conceitos de história e memória, assim como as complexas relações entre ambos.

-, funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse a nosso ver, não permite classificá-Ia unicamente como

.t rá aindaosqueconsideram

.~~~l1 y : ~stig;tç~o . e têm

A interdependência entre prática, metodologia e teoria produz o conhecimento histó-

rico, mas é a teoria que oferece os meios para refletir sobre esse conhecimento, embasando e orientando o trabalho dos historiadores, aí in c luídos os que trabalham com fontes orais.

Exatamente o mesmo ocorre com outras metodologias: a demografia histórica, por exemplo , está apta a elaborar tabelas e séries r e lativas às populações, a construir meto dolo- gias de trabalho para esse material e formular questões importantes sobre tais dados, mas

para compreender as questões que

deve procurar fora dela própria - na teoria - subsídios

suscita ; o mesmo se passa com a ~istória econômica, a genealogia, a história cultural etc. Afinal, qual a importância de toda essa discussão? Que diferença ela poderá fazer para

quem trabalha com fonte s orais? A nosso ver , pode fazer uma grande diferença, e nosso ponto de vista é que esse debate está bem no centro da definição do que é a história oral,

Capítulo 91 História oral : velhas questões, novos desafios

ELSEVIER 1

7 1

dos seus usos e dos rumos que poderá

em temas como organização de acervos

e realização de entrevistas (temas em si relevantes, mas, como esperamos ter demonstr a do, muito aquém das possibilidades da história oral) . Se concebermos a história oral como disciplina, há dois caminhos possíveis, ambos, a nosso ver, problemáticos: "esquecermos" as questões de caráter teórico, deixando de abordá-Ias em nossos trabalhos, ou tentarmos encontrar respostas para e las apenas no âmbito da história oral.

nossa preocupação se concentrará ex c lusivamente

tomar. Se cons i derarmos a história oral uma técnica ,

No primeiro caso, o resultado serão os numerosos trabalhos, com con c lusões óbvias

- porque coladas aos dados das entrevistas,

se - , que sempre deixam uma pergunta

chegar a isso? São trabalhos que se limitam a reproduzir as palavras dos entrevistados, que exploram uma ideia já comprovada (utilizando trechos de entrevistas para corroborá- I a), que não conseguem problematizar qualquer aspecto da pesquisa.

no ar : seria mesmo preciso fazer uma pesquisa para

sem possibilidade de maior capacidade de anali-

No segundo caso - buscar respostas teóricas no âmbito da história oral-,

o resultado,

em nosso entender, é mais danoso: como é impossível explicar algo sem meios adequados

para fazê-lo (explicar questões teóricas p e la vi a da metodologia), os textos , para tentar con- tornara problema, são pontilhados de referências ligeiras à "seletividade da memória", aos

"entrelaçamentos entre tradição

estudo", c o nfundindo os leitore s iniciantes e nada revelando.

A despeito de todas essas diferenças de posicionamento, algumas ideias básicas con- densam perspectivas e temas reconhecidos por grande parte da bibliografia como específi-

cos da história oral, mesmo por autoresque não postulam para esta o status de disciplina

a utônoma: o testemunho oral representa

perspectivas nem sempre presente s em

nunca sua parte ace s -

sória, o que obriga o historiador a levar em conta

entre sujeito e objeto de

oral e escrita" e às "imbricações

o núcleo da investigação,

i

,

i

'

outros trabalhos históricos, como as relações entre escrita e oralidade, memória

e história ,

ou tradição oral e história; o uso sistemático do testemunho oral possibilita

à história

ou processos qu e às v e zes não têm como

ser entendidos ou elucidados de outra forma: são depoimentos de analfabetos, rebeldes,

São histórias de movimento s so c iais

populares, de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezada, carac-

terística que permitiu, inclusive, que uma vertente ligada à história dos excluídos.

Na história oral existe a geração de documentos

(entrevistas) que possuem uma carac-

oral - esclarecer trajetóri a s indiv i duais, eventos

mulheres, crianças, miseráveis, prisioneiros, loucos

da hi s tória o r al se tenha constituído

terística singular, isto é, são resultado do diálogo entre entrevistador e entrevistado, entre sujeito e objeto de estudo, o que leva o historiador a afastar-se de interpretações fundadas em uma rígida separação entre sujeito/objeto de pesquisa e a buscar caminhos alternativos de interpretação; a pesquisa com fontes o r ais apoia-se em pontos de vista individuai s , ex- pressos nas entrevista, que são legitim a das como fontes (seja por seu val o r informativo , seja por seu v a lo r simbólico), incorporando , assim, e lementos e p e rspectivas às vezes ausentes de

172

Novos Dom í nío s da História

EL SEVIER

outr as pr á ti cas hi s t ó r ic a s - porqu e tr a di c i o n a lm e nte

co m o a s ubj et i v id a d e, as emo ções o u o co tidi a n o.

rel ac ionad os a p e n as a indi ví duo s - ,

A h is t ó ri a d o tempo pre se nt e, p e r spec ti va

tempor al por ex c e l ê n c i a d a hi s t ó ri a o r a l , é

e d a ref l exão hi s t ó ri c a s; n a hi s t ór i a o r a l , o o b je t o d e e s -

e

legi t ima d a c om o obje to d a pe s qui sa

tud o d o hi sto r ia dor

a i n s t â nci a d a m e m ó ri a p assa, n ecessariam e n te, a norte a r a s re f lexões h i s t ór i ca s , aca rr e tando

imp o rtante s; a n a rr at i va, a f or m a d e co n s tru ç ão

d

e organi zação do d i s cu r so sã o va lo r i za d as p e l o h i s t o riador , poi s, co m o l e mbr o u Al essa ndro

Por t e ll i, fo n tes or a i s sã o font es n a rr a t iva s . T ud o iss o c ham a at e n ção ao ca r áter fi cc ion al d as

é r ecup e r a d o e re c ri a d o p or int er m é dio d a m e m ó ri a d os info r m a nt es ,

es dob ram e nt os

t eó rico s e m e t o d o l óg i cos

narra ti v a s hi s t ó r icas, se ja as do s e ntr ev i sta d os,

se j a a s do entre v i s t a d or ,

o qu e pod e a ca rr e -

ta

r mud a n ç a s de p e r s pecti va revo lu c i o n á ri as

p a r a o trab a lho hi s t ó ri co

(Fe r re i ra e A m a do ,

2 00 6) .

Percursos e desafios

oral,

nos so p r ó x imo passo é apresentar o p e rcu r s o p o r e l a percorrido. A di s cu ssão a cer ca dos pro-

blem as m e todoló g icos

Definidos alguns pressuposto s

b á si c o s do debate sobre o es t a tuto

d

a história

da hi s tóri a or a l , qu e nó s a no s 1960 e 19 7 0 d e m o d o ge r a l d es p e rtava

p

o uc o int e r esse entre os hi s t o ri a d o re s , n a vira d a p a r a o s écul o XXI p a sso u a o c up a r um

es

p aço imp o rt a nte , o que é ex pl i c a d o, e m gr a nd e part e, p e la re s i s t ê n c i a do s es p e c ia lista s em

in

co rp o r a r

a o se u un iv er s o d e pe s qu isa a p oss ib i lid a d e do u s o d e font es orais. T a l d es intere s -

se e d esco nf ia n ça

l i d a d e d e s ua s fo nt es . N a s última s du as d éca d as gra nde s tr a n sf o r ma çõ e s

hi s t o r iog r á f ico, e a obje t i v id a d e d as fo nt e s esc r ita s f oi d ef initi va m e nt e p os t a e m qu es t ão .

re s ult a m, por s u a vez , d e for m as ar r a i ga d as d e co n ceber a h istó ri a e a va:: .

m arcara m o d eb a te

A co n s olid ação da di sc ipl i n a d a hi stória e a pr o f iss ion a li zação d o h is t oria d o r n o séc ulo

X I X impu se r a m o domínio a bs o lut o d os d oc um e nto s

d a tr a di ção o r a l , ex pul s ando

pa radi g m as d e ins t itu içã o or ga n iza d a

esc rito s co m o fo nt e , em d etri mento

a m e m ór i a e m f avo r d o f ato . A cri ação

d os ar qu ivos n ac i o n ais,

em tor n o d a font e esc rit a , con du z iu ao d e s e n vo l v i-

m

e n to d os es tudo s do s períod os m ais re m otos, asseg urando a s u p r em a c i a d a hi s t ó r ia me-

di

eval e e ri g indo a a náli s e do ,Políti c o e m ab o rd a ge m e s se nci a l p a r a se c h egar a um a hi s t ó ria

c i e nt í fi ca. P a r a l e l a ment e,

vin c ul ava - se

a tr a di ção o ra l a o aned ó ti co

o u

ao p assa d o re ce nte ,

às soc i e d a d es s e m escrita, às c las ses p o pular es, es t a b e lecendo- s e , a ss im, um a hi e r ar qui a dos

c a mpo s d e c onhecimento,

de font es e d e o bjeto s .

Es s e mod e lo , dominante

no s é c ul o X I X , privilegiava a históri a p o lí t i ca e , do ponto

d

e vi s t a d a p e riodi z ação, enquanto a hi s t ó ri a a ntiga e mediev a l re cebi a m m a ior a tenção

e

co ns titu ía m

objeto de refle xões m a i s a pr o fun da da s , a hi s tória cont empo r ânea

e ra m a r-

g

i na l izada e d e finid a apena s corn o um a p ê n d i ce c ronoló g ico , s em id e ntifi cação

t eó rica . A

j u s tifi cat iva p a r a tal posicion a mento

é p oca qu a nd o es t a j á e s t á tot a lm e nt e

e r a a co n ce p ç ã o d e que um a hi s t ó ri a só n as c e p a ra uma

m o rt a, o qu e implica v a a cr e n ça em u m pass ad o fixo

ELSEVIER

Capít u lo

91 História oral: velhas questões,

novos d es afio s

17 3

e d e t e rminado.

um a h i s tória científica : a v i são re tr ospec ti v a . Ma s o qu e , e x a t a m e nt e,

qu e p o ss u ía um m é t o do d e es tud o de

t e x to s qu e lhe e r a pró p rio,

impli c ou a c o nc e p ção d a o b jet i v id a d e

bl e m as d o pre s ent e . Assi m , só o r ec u o n o temp o p o d er i a gara n t i r um a di s t â nci a crí t ica. Se

e

int er pr e t ar o s tra ç o s m a t eriai s d o p assa do , s e u t r ab a lh o n ão p o d i a co m eç a r ve r da d e ir am en te

se n ão qu a ndo n ã o m ais ex i sti s se m t es temunho s v i vos d os mund o s es t u d a do s , vis t o qu e ,

p ;U ; - qu e os tra ç o s pud ~~ e m se r inte r pr e t a do s ,

Des d e qu e um e ve nt o e r a p r o d u z id o e l e pert e n c i a à hi s t ó ri a, m as, p a r a que s e torn a s se um

e l e m e nt o do conh ec iment o

h i stó r ico e rudito, e ra ne ce s sá rio es p er a r vá rio s a no s , pa ra qu e o s

tra ço s do passado pud esse m s er ar qui va do s

p a ra se fa z er

Fo i n e s se qu ad r o qu e se c olocou um a c o nd ição indi s p e n sáve l

d a hi s t Ór i a co mo um a dis c iplin a

qu e ri a di ze r i sso?

A a fi r m aç ã o

qu e tinh a u ma pr á ti c a r eg ul a r d e d ec i f r ação d e docu me n tos ,

co mo um a tom a d a d e di s t â n c i a e m r e la ção ao s p ro -

d o hi s tor i ad o r

se d ev i a ao f ato d e qu e s om e nte el e p od i a

r a ve rd a d e qu e a c omp e t ê nc ia

e r a n ecess á rio qu e ti v e s se m s ido ar qui vad o s .

e catalo ga do s

( N o iri e l , 1 998 ).

l i '

,

!

1

'

C om base na a l egação d a impo ss ibilidade de lh e se r e m a pli ca d as regras c ientífic as, foi

ass im recusado à históri a co nt e mpor â ne a o estatuto d e hi s t ó ri a . No plano teórico, a históri a

deveria ser identific a da

com o p as s a do, o que exclu i ri a o p e r í od o m a is recente, e, no pl a no

metodológico, coloc a v a m- se e m que s tão as fonte s cont e mp o r â n eas,

rar as em razão do s li-

mite s l e g a is par a a con s ult a e, ao me s mo tempo , sup e r a bund a nt ese m "" ~ no ção de arqui v ~

virtude da a mpli ação - - - -- --

A pó s ter de s frut a d o

de a mpl o pre s tígi o durant e

t o d o o séc ul o X I X, e s s e mod e l o e n-

trou e m proc esso d e d ec l í ni o . A funda ç ã o,

n a F r an ça , da r ev i s t a Anna l es , em 1 929, e d a

É

c o l e Pratiqu e de s H a u re s É r ud es, e m 19 4 8 , da r i a imp u l so

a um p r ofun d o mo v im e nt o

d e

tr

a n sfor m aç ã o

n o campo d a hi s t ór i a. E m n o me d e um a hi stó r ia t ota l , u ma no va ge r ação d e

hi

h i s t ó ri a pol í t i c a , i mput an d o -lh e

ind iv idu a li s ta , fac tual , s u bje ti va e p s i co l ogiz ant e. E m c o nt ra p ar t i d a,

um a no va c onc e p ção ,

s t o riador es ,

conhe c id a

co m o " Éco l e d es Ann a l es " , p as so u a qu es tion ar

a he ge m on i a

d a

u m número infind áv e l d e d efei t os: e r a e lit is t a , a n e d ó t ica,

e s se g rupo de f e ndi a

em qu e o eco n ô mi c o e o s oci al o c up ava m lu gar p r iv ile g iado.

Essa no va h is t ór ia s u s t e n tava qu e a s e s trutur as dur áve i s e r a m m a i s r ea i s e det e rm ina n -

t es d o que o s acid e nt es d e co n j untur a ,

e m uma lon g a dur açã o são m a i s sig nifi c ativo s

' : q ue o s comport a ment os

as " ini c i a tiva s indi v idu a i s . A s rea lid a d es do trabalh o e d a p ro du ção,

p o lít i cos e os evento s, d eve ri a m s er objeto

era o estudo da s estrutura s ,

v ê,

ind e p e ndentement e

m os e c onômico s,

a firm ação d e um a s ep aração ra di ca l e ntr e o o b jeto d o co nh eci m e n to hi s t ó ri co propriam en t e

dit

e s eu s pr ess up os to S e r am q u e os fe n ô meno s in scr ito s

d

o qu e o s m ov im e nt os

d e fraca amplitud e ,

s obr e o curso d a históri a do qu e

e n ã o mai s os r eg im es

co l e tivo s t ê m mai s import â n c i a

da at e n çã o d os hi sto riadores . O fundam e nt a l

o que s e

em qu e assumia primazia n ã o mai s o qu e é manifesto,

m as o que e s tá po r tr ás d o m a nif e sto , e o que i mporta va e r a id e ntificar a s relaçõe s qu e,

d as p e r ce p ções e da s int e nções d os indi ví du os, c om a ndam o s mec a ni s -

or ga n iza m a s r e l aç õe s s o c iai s e en ge ndram

o e a c on sc i ê nc ia

s ubj e ti va d os a t o r es .

as fo rm as do discur so . D aí a

174

Novos Dom í nios da História

ELSEVIER

(

.

E ss a no v a m~eira

de . faz e r hi s t ó ~i a n ã o a lterou , contudo ,

a p ost ur a a nterior

no que

 

di

z res p e ito a o p e nodo

de mt e r ess e e a s f ont es, uma v e z que, da m es m a form a como na

J h is t ó ri a me t ó di ca, o s período s qu e rec e b e r a m m a ior aten ç ão e se tom a r a m alv o do s estudo s

L r e n ova do res foram priorit a r i am e nte

o m e di eva l e o moderno.

O séc ul o XX m a nte v e o e s -

-

ti g m a

d e s u a a bord age m p e l a histó r ia

f o i c o n s t a ntem en t e qu e stionada . A impo ss ib i lidade de recuo n o temp o, a l ia d a à di f i cu ldade

d e a preci a r a import â ncia

d e cair n o puro r e l a t o j orn a l í s t ico ,

hi stó ri a d o século XX . E a ind a qu e Jacqu es L e G off tenh a apontad o a co nqui sta da hi s tória

co nt e mpor â ne a p e l a no va hist ó ri a c o mo um a t a ref a urgent e, pou c o fo i f e it o ne ss e s entido ,

d e m o do qu e c ontempor â n e o

hi s t ó ri a. C o m isso, a hist ó ria do séc ul o XX tornou- s e

d e objet o de e s tudo pr o blem á tic o,

e a d i m e ns ã o

e a legitimidade

a l o n g o pra z o do s fen ô m e n os,

bem co mo o ri sc o

p a ra a

f o r a m m a i s um a v e z c oloca do s co m o e mp ec ilhos

podi a se r m a t é ri a d as ci ê n c i as s o c i a i s em ger a l , m as não da

uma hi s tóri a se m hi s toriadore s .

que se operou no c ampo da história a pa rt i r d a F r a n ç a , e qu e se di-

:: ~ ~ ( ) ! ~~( ) _ ~Je s(c)Eritas;tes

e lo c ontr á rio, o reafirmou. Ao v a lorizar o e s tudo das estrutura s , do s proc es sos de longa

A t r an sf o r ma ç ão

,

-

0-

,,-

f undiu p a ra outros países, S !.illpouc o qu e _ ~ t . i ~ n< : > ~ _ ( ) _ p _ ~ ~ ~ ~ f.I.1 ~ ll ~

p

r----

- ,~

dur a ç ã o, a nova história atribuiu

port â nci a fundamental. Em contr a p a rtid a, a o desv a lorizar a análi s e d o p a p e l do indivíduo,

às font e s s e riais e às técnicas de

qu a ntific a ção uma im -

d

as conjuntura s , dos aspectos cul t urai s e políticos , também desqualificou o uso dos relatos

p

es soai s, d as h is tória s de v ida e da s biografi as. Condena v a-se a su a s ubjetividade , levanta-

v

am- se dú v ida s s obre a s v isõe s distor c id as que apresentavam , enfati z a va -se a dificuldade de

se obter r e lato s fidedigno s e a l eg ava- se t a mb é m que os depoiment os

p esso ai s n ã o podiam

s

e r con s id e rado s repre s entati v o s d e um a é po c a ou um grupo , poi s a e x p e ri ê n c i a indi v idual

e x press a va um a v i s ão particul a r qu e n ão p e rm i ti a general izaç õe s.

hi s tori a dor es id e ntifi c ado s com a tr a di ção d os Anna le s ex c luír a m as po ss ibilid a de s d e inco r -

po ração d o u so da s fontes o rai s.

N ão é pr ec i s o di z er que o s

E

ntr e t a nto ,

a partir

d a d éca da d e 19 8 0 , r eg i s traram-s e tr a n s f or m açõ e s impo r t a nte s

no s difere nt es c a mpo s da pe s qui sa hi s t ó ric a . R eva lori z ou- s e a an á li s e qu a litati v a e r esg atou -

- s e a import â n c ia da s e x per iê n c ia s i ndi vi duai s, ou se ja , de s locou- se o inte resse da s e s trutura s

p a r a as r e d es, do s s i s tem as d e p os içõe s p a r a a s s itu aç ões vi v id as, d as no r ma s c oletiva s par a

as s itua ções sin g ulare s e , p a ral e lament e,

um r e na s cim e nto do interess e p e lo políti c o e foram incorpor a do s

à hi s t ó ri a o es tud o do

cont e mpor â n e o e o s debates em torn o d a memór i a .

a hi s tóri a cultur a l ga nh o u nov o impul s o , ocorreu

A memória em debate

O aprofundamento d a s discu s sõ es s obre a s r e lações entre p assa d o e p r e s ente na histó -

ri a, e o rompimento com a idei a que id e ntifi ca va objeto histórico e p assa d o, d e finido como

a lg o morto e incapaz de ser reinterp re t a do e m fun ç ão do presente , a brir a m n o vo s caminho s

ELSEVlER

Capitulo

91 História oral: velhas questões ,

novos desaf i o s

S eg undo P a tric k Hut to n

( 19 93), o inter esse do s hi s t o ri a dor es

p

e l a mem ó ri a

1

75

foi em

g

r a nde medid a in s pi r ad o p e l a hi s torio g r a fi a france sa, so br e tud o a hi s t ó r ia

da s ment a lidad es

co

l e tiva s que emergiu n a d éca d a d e 1 96 0. Ne s se s e stud os , qu e foca li zava m

prin c ip a lm en t e a

cultur a p o pul ar, a v id a fami li ar, os h á b i to s lo ca i s, a r e li g i os id ade

co l e t iva j á estava implí c it a , e mb o r a nã o f os s e ab o rd a d a di re r a m e n te.

e t c., a qu es t ão d a m emór i a

'

Um do s primeir os

a u t o res a c h a m ar

a at e n ção

p a r a o te m a d a mem ó ri a,

seg u n d o

com a fun ção

Hur to n ,

d e fo rt a l e cer o s l aços f a m i li ares n o fin a l do sé culo XV III e in íc i o d o séc ul oX 1 X . A ri ê s c h a -

p a r a o p a p el do s monumento s ,

ao l o n go d o sé culo X I X, e pa r a c om o e l es se r e lacio nava m co m

em torn o da s

m av a a at en ç ão t a mb é m

fi g u ras pol í ti c a s ilu s t res

a e mer gê nci a do s E st a do s n ac i o n a i s. Seg uindo a trilh a a b e r ta p or A ri es, surgiu um no vo

gê ner o n a historio g ra f i a

t o ry o/ the politics o / c o mmem or a t i o n i , cujo pioneiro fo i M a uric e Agulhon, que an a lisou a

imag e m da Repúblic a

foi Philipp e Ar i ês, qu e d estaco u o pap e l d os r it u a i s come mo r ati v o s

d

as co m e m o ra ções

n a d éca d a d e 1980 , a hi s t ó ria da s p o líti c a s de comemora çã o

(H is -

n a F r a n ça ( 1 7 89-1879) em su a obr a M ar iann e a u combat (197 9).

j

i

É nesse contexto que a fo r mul a ção teórica do so c iólogo M a uric e Halbwachs (199 4 )

ga nha destaque , passando a int eg r ar

e

r essa ltar que, ao an a li s ar a r e peti çã o d as m e mória s, H a lbw ac h s obs e r v ou que e la ocorr e jun-

t a m e nt e com a sua r ev i são. Outr o ponto r e le v ante de s ua p e s qui sa é a f o rmul a ç ã o

m e m ó ri a c oleti va d e p e nd e do

n ós n ã o lembramo s a s im age n s d o p ass ado como e l as a c o nt ecera m ,

f o r ças s o c iai s d o pre se nt e qu e es t ã o ag indo s obr e n ós ( Hut to n ,

grupo qu e a d e t é m , porqu e, n a rememo ra çã o ,

o universo teórico do s histori a dore s. De acordo com

por é m ,

de qu e a

le, a memória

envolv e um a r e l a ç ão entre a repetiçã o e a r e m e mo raçã o. Import a ,

pod e r s o c i a l d o

e s im de a c ordo com as

1 993).

E ss a contr i bu ição

f o rn ece e l e m e nto s para a e l a bo ração d e um a hi stó ria da s co m e m o -

r ações e, ao pe s qu isar as im age n s n as qu a i s os ato r e s hi s t ór i cos

hi s t o ri a d o r es

podem i d e ntif icar as es trutura s d a im ag in açã o

r

e pr ese n t am

seu mund o ,

os

co l e ti va e o pode r do g rup o

s

o c i a l qu e

a s c t iou .

Tom a ndo c omo r e f e r ê n c i a as co ntribui ç õ es

d e H a lb wac h s, Pi e rre N or a ( 19 84- 1 993 ) ,

e

m s u a obr a L es l ieux d e mémoire, prop õe uma no va hi s t ó ri a d as p o l í ti cas de mem ó ri a e um a

hi s t ó ria da s mem ó ria s co l e ti vas d a F r a n ça. A va lori zaçã o d e um a hi s t ó ri a da s repr ese nt ações

d o ima g in á rio s ocia l e d a co mpre e n sã o

mo ve u um a re a v a li açã o d as r e l ações entr e história e m e m ó ri a, e per mitiu

r e pensar as relaçõe s e ntr e p assa do e pr e sente e definir par a a hi s t ó ri a do tempo pre se n te o

do s uso s políti c o s

d o

p as sad o p e lo pre s ent e p ro -

aos hi s to r i a d o r es

es

tud o dos uso s do p ass ad o . Nor a a profunda

ainda a di s ti nção

entr e o r e lato histórico e o

di

sc urso da memória e da s rec o r d açõe s. A história busc a produ z i r um conhecimento ra cio -

n

a l , uma análise crític a p or m e i o d e uma exposição l óg ic a do s ac ont e cimentos

e da s v id as

d

o p ass ado. A memór ia é t a mb é m uma constru ç ão do pa ssa do , m as pautada em em oções

p

ara o e s tudo da história do sécul o X X. Por s u a vez, a expansão do s d e b a t es s obr e a memória

e vi vê n c i a s ; el a

é fle x í ve l , e os eve n t o s são l e mbrado s

à lu z d a exp eri ê n c i a s ub s equent e

e d as

e

s ua s r e l açõ es com a históri a v e io oferece r c h aves par a uma no va int e li g ibilid a d e do pas s ad o

n

ecess idad e s do pr es ent e (V il a n ova, 1 994).

 

1 76

No v o s Domínios da Histór i a

E

LS EV I E R

Es s a p e r s p e c tiv a

que ex pl o r a a s r e l aç õ es e ntre m e m ór i a

e hi s t ó ri a po s s ibili t ou

uma

a

t i cas e recon h ecer qu e a s ubj e t i v id a d e , a s di s t o r çõ e s d os d e po i m e n tos

a e l e s i m pu ta d a p o d e m se r e n ca r a d as d e um a n o v a man eir a , n ão co m o u m a d e s qu a l if i c a ção ,

ma

b e rt u r a p ara a ace it ação

d o v a lo r d o s te st e munh o s

dir e to s ao n e ut r a li za r as tr a di c ion a i s crí -

e a f a lt a d e ve rac i d a de

s com o um a fo nt e a di c io na l para a p es qu i s a ( Poll a k, 1 99 3) .

S e p or u m la d o e s s a s t ran sfor m a çõ es

pos iti vas , n a m e did a em que per mi tem

n o ca m po d a hi s t ória po d em s e r a v a li a da s c omo

m eno s s e g ur a d e l a m es m a,

um a re fl e x ão hi s t ó ri ca

por é m mai s v i v a , di ag n ó st ico s r e cent e s d e e s p e c i a l is ta s re nom a d o s

ch a m a m a a t e n ç ã o

par a

a

c r i se ep i s t e m o l óg i ca

qu e aco mp a nh a

o a b a l o d a s a nt ig a S certeza s d o s h i s to ri a dor e s .

O

qu

e st io n a m e nt o

d a c ren ça e m um p ass a d o f i x o e det e rmin áve l ,

a p e rd a d e co nfi a n ça

na

qu

a ntifi c a ç ã o,

o abando n o

d e ce rt os o b jetos hi s t ó ri c o s

ou o qu e s ti o n a m e n t o

d e noçõ es

c

o

m o m e nt a lidade , de cate g ori as c om o c l as s e s sociais , de c l assi fi caçõ e s soc iop r ofi s sionai s

e

no di zer d e Roger Chartier (199 3) , p e rd e r a sua posição de discipli n a c o nf e deradora

ci ê n c i as s oc iai s . Por sua ve z , o reflu x o do s g r a nde s modelos explic a tiv os l ev ou a uma grande

di s pe rsão , f a z endo que as princip a i s tr a di ç õe s historiográfica s

pl

d e m o d e lo s de interpretaçã o ( es t r u t ur a li s ta,

mar x ista, demo g r á fico ) f iz e r a m a história ,

p e rd e s se m s u a unid a de,

das

e x -

o dind o e m propo s ições múltipla s e , p o r vezes , contraditóri a s.

T o d as e s s as mudan ç a s cr ia ram um

e s p a ç o novo pa r a o e s tud o d o s p e ríodo s recente s e

d e an t iga s resi s -

a perm a n ê nci a

a in c or p o r a ção

t

d as fonte s or a i s , m a s t a mb é m permitir a m

ê n c ia s .

A f or ç a da s tr adiçõ es

A co l e t a d e depo i mento s

pe s soai s m e di a n te a u t ili z a ção d e u m gr av a d or ini c iou- se n a

d

vo l ta d o p ar a a r ecuper ação d e inf o rm açõe s acerca d a a tu açã o do s g rup o s dominante s nort e -

- a m e ri c a no s .

qu e s e r v iu d e mod e lo p a ra out r o s c entro s c r i a do s no s an os 1 95 0 e m b i bli ot e ca s e a rqui v o s

n o T e xas , e m B e rk e le y e em 1 0 s An g e le s. E s se p r imeiro c i c lo d e e x pan s ão d o qu e se c hamou

hi s t ó ri a or a l priv i le g iou o e s tudo d a s e li te s e se atribu i u a t ar ef a d e pr ee nch e r a s la c una s do

reg i s tr o esc rito por meio d a form a ç ão d e ar q uivo s com fit as tr a n s c rit a s .

é cad a d e 1 94 0 c om o j orn a l is t a A l la n Nev in s, qu e des e n v ol ve u u m pr ogra m a d e e ntre v i sta s

Esse program a veio a co n s t itui r o C olumbi a Or a l Hi s to r y O ffi ce, or g ani s mo

A plen a e x pansão d esse proc es s o, qu e constituiu um verdad e i ro b o o m , t eve lug a r ape-

d a d é c a d a d e 1970, espe-

n as n a seg und a metad e dos ano s 19 6 0 , prolong a ndo-se ao long o

c ia lment e nos Estados Unidos. A s lut as p e los direitos civis t r av a da s p e la s min o ri as - negros,

mulh eres, imi g rantes etc. - ser i am ago ra as p r in c ipais respons á vei s p e l a afirm aç ão da histó-

ri

a ora l , q ue procurava dar vo z ao s e xc lu í do s , recuperar a s trajet ó ri a s do s g rup os dominado s

e

ti r a r d o es qu e c iment o

o qu e ' ; hi stór i a o f ic i a l s ufoc a ra durant e t a nto t e mp o. A hi s t ó ria oral .

a f i rm av a - s e, a s s im , c omo instrum e nt o

ma ç ão so c i a l -

d e c on s tru ç ão d e id e ntid a d e

um a hi s t ór i a o r a l m ili ta nt e .

d e gr up o s e d e tran s f o r-

ELSEVIER

C a pí t ul o

91 Hi s t ó r ia

oral : velh as que s t õ e s ,

n o v o s de sa fio s

1 7 7

A p e netr a ç ão d a hi s t ó r i a o r a l n a co munid a d e

d

o s h i s t ori a d o r es ,

a p es a r de a lgun s p o n -

t

po r é m , e n f r e nt a nd o

o u so d a s f ont e s or a i s e n contro u m a i o r ac e ita ç ão , p ro pi c ia n d o o d e se n v o l v im en to

l

d eve - se a ss in a l a r a i n d a a o r i g in a l id a d e

o s d e af in i d a d e

com a no v a hi s t ó r i a ,

qu e v a l o ri z ava

o es t u d o d o s e xc luíd o s , co nt i nu o u ,

fo rt e s r es i s t ê n c i as . É v e rd a d e qu e n o s E s t a d o s Un ido s e n a I ng l a t e r r a

d e u ma

e d a s mi noria s , e

qu e n ão s e ca r ac t er i z o u

in ha e x p res si va d e tr a b a l h o vo l tad a p a r a o e s tud o d a c l ass e t r a b a l h a d ora

d a h i s t ória o r a l br i t â ni c a ,

p

r iorit a ria m e nt e

c om o ac a d ê m i c a o u un iv er s it á ri a .

.

 

N

a Fr a n ça , a f o r t e p r e s e n ç a d a " É c ol e d es A nn a l es" e o d omí ni o

d a a bord age m est r u -

tu

r a l e qu a n t it a ti va

d a hi s t ó r i a , c o mo j á f o i d i t o, r e v e l a r a m- se

fat or es in ib i dor es d o u s o d as

fonte s o ra i s, gar antind o

d e in í c io a hi s t ór i a o ra l se de se n v ol ve u e m gr a nd e m e d i d a for a d a co munidad e d o s hi s t o -

ri a d o re s e , aind a qu e g u a rd a nd o a s es pe c ificidad es

di s tintas tradiçõe s hi s t or i ográ fic as , o f e tichismo do document o escri to , a c r e nça na obje t i v i-

d

r

d o inter e sse nos p e ríod o s m a i s r e moto s do tempo de s ti n a -

o c ult o d o r e g ist ro e scri t o . O qu e s e p o d e p e r ce b e r , portant o,

pr ó p r i a s

é qu e

d o s di fe r e nt e s pa í se s c om s u a s

a d e das fontes e a c on c e nt r a çã o

a m à discussão sobre a hi s t ó r i a o r a l-

ou mesmo ap e na s s o b re o uso da s fontes orais - um

es

p aç o bastante re s tri t o n o co nt ex to do s debates te ó rico - rn e t o d o l óg ico s

dos histori a dore s.

N

o entanto , as t ra n s f o rm a çõ es

r e cente s ocorrida s n o c amp o d a hi s tór ia em g e r al e n a

hi

s t ó ri a do s éculo XX, e m pa rti c ul a r , ge r a r a m um a no v a di s c u s sã o so br e o p a p e l da s f o nt es

hi

s t ó ri c a s , permitindo

q u e a hi s t ó ri a ora l ocupa ss e um n ovo es p aç o n o s d e b a te s hi s torio g r á -

f ico s a t u a i s. V e j a m os , e nt ã o, qu e t r a n sf o r ma ç õ es

f oram es s a s .

E

m p r i me i r o

lu g a r , a em e r gê n c i a

d a hi s t ór i a d o sé c u l o X X co m u m no v o e s t at uto

d e finid o p o r al g un s c o mo a h i s t ó ri a d o temp o p re s e nt e , p o rt an t o, c om o po r t a dora d a s í n-

g

ul a r i d a de d e co n v i ver c om t e s t e m unh o s

v i v o s q ue , s ob

ce rt o a s p ec t o , c o ndicion am

o tr a -

b

a lho d o h i s to r i a d o r , co l oc a o b r i ga t o r ia m e nt e

e m f o co o s d ep o i m e nt o s

or a i s . Al é m di sso, as

pr ó p r ia s t r a n s fo rma ç õe s d a s soc i e d a d e s m o dern a s e as c o n s e qu e n t es mudan ç a s n o c o nt e úd o

do s a rqu i v o s , que ca d a v e z m a i s p a ssa m a di s por d e r e g is tr o s sonoro s e v i s u a i s , impul s i o n a m

a

te nd ê n c i a a um a r ev i são d o p a p e l d a s font e s e s c rit a s, v i s uai s e or a i s.

P

o r o utr o l a do , o re to r n o d o p o l í ti co e a r eva lori z a ç ão

d o p a p e l d o s u j eito est imul a m

o

es t ud o do s p r o cesso s d e tom a d a d e d e ci s ão . Es se n ovo o bj e t o d e a n á li se tamb é m d á m aio r

o

p or t u n i dade

ao uso do s d e p o im e nt os

o r a i s : o s arqui v o s e s cr it os difi c ilm e nt e dei xam tr a n s -

pa

m e i o d a comuni c aç ã o o r a l , d a s a rti c ula çõ e s pes s oai s; o n ú m ero d e problemas resolvid o s

r e cer o s meandro s t o rtu o s o s

d os proc e sso s deci s ório s , e mu i t a s d ec i s õ e s sã o tomada s p or

p

or t e l e fone ou pess oa lm e nt e n ã o p a ra de crescer. P ara su pr ir e ss a s l a cunas document a i s ,

o s

d

e poimentos

orai s r e v e l a m- s e d e gra nd e v a l i a .

A linha histori ográf i c a

q u e e x p lor a as r e laçõe s e n tre m emó r ia

e história romp e c om

um a v i s ã o deterrnin is t a

ç ã o d o s a t o r e s d e s u a pr ó pri a i d e n t id a d e

a o r ec o nh ece r c la ram e n t e

q u e b a se a d a n a s fo nt es esc ri t as, p oss ib i lit a

qu e limit a a lib e rdade do s h o m e n s ,

e reequ ac i on a

q u e O a qu e l e é co n s t r u í d o

co l oc a e m e v id ê nci a a c o n s tr u-

a s r e l açõe s e ntr e pa s s ado e pr e s e n t e

seg u n d o a s n ec ess i d a d es d es t e . A i nd a

c apa z d e n e utr a li z ar,

e m

um a m a ior ab e r t u ra,

------------~----------------a

178

Novo s Domíníos da História

E LSEVIER

p

s ubj et i v a s e di s t o r c id a s .

o s u s o s político s do p ass ad o rec e n t e ou ao propo r o e s tudo d as vi sõe s

d e mund o d e d e t e r m in a d o s

m as, ess a s n ova s linh as de p es qui s a t a mb é m p oss ibilit am qu e as entr ev i s t as or a i s se j a m v i stas

c omo mem ó ria s qu e es p e lh a m d e t e rminad as rep res ent aç õ es . Assim , a s poss í veis di s tor ç õ e s

do s d e poiment os

m

pod e m se r en cara da s d e um a nov a

art e e indire ta m e n te,

A

o e s quadrinhar

a s t ra dici o n a i s

c ríti cas f e it as ao u s o d as f o nt es o r a i s, c on s ide r ad as

g rup os so c i a i s n a c o n s tru ção

d e re spos ta s p a r a os s eu s probl e -

e a f a l t a d e v er ac id a d e a e l es imput a d a

a neir a, n ã o co m o um a d es qu a li f i cação ,

m a s como um a f o nte ad ic ion a l p a r a a p es qui sa.

Todo s e sse s a spe c tos que t ê m car a cteri za do as tr a n s formaçõ es

no c a mp o da hi s tór ia a

ELSEVlER

Capítulo 91 História oral: velh a s questões,

novos de s afios

179

possí v e i s r e p e ti ções futu r a s d e p ro c essos d e v i olênc i a e d isc ri m in aç ã o.

Ho lo ca u s t o

no s últimos t e mpo s em d i ferente s s oci e dades , como na . Á frica do Sul , no s país es da Am é ric a

La tina eg r ess o s d a s di ta dur as mili ta re s, o u , a ind a , n o L e ste E u r op e u

m es c om un is t as (Fe rreir a , 200 6) .

In ici a d o s a pa r ti r d o

n a Europ a , proj e to s d e m e m ó ri a de ssa na t ur eza tê m e n co ntra do r essonâ n c i a

após a qu e d a d os r eg i-

o abu so d as políticas mem o riai s, para usar a s pal a vra s de T o dor o v , teri a

u m a s a c r a li zaçã o p ar a os t este -

munho s qu e co ndu z à va lori za çã o d e um a re p rese nt a ç ão do p assa d o a p a r t ir ess en c i a lm e nt e

de destinos individuais . A afirma ç ão de ssa s pr á tica s políticas t e m provocado intenso s deb a -

t

E ntret a nto ,

r an s formado as l e mb ranç a s

e m a rma s políti cas e ga rantid o

I

p

a rti r da d écad a de 1 97 0 a brira m, se m dú v ida , um e s p aç o p a r a o re co nhe c im e nt o

do u s o

t e s e c r ít ica s n as c omunidad es

do s hi s tori a dor es e t e m l eva do

ao qu es ti o namen to do s in st ru-

d

as fo nte s o r a i s . N o e nt a n t o ,

n ov o s d esa fi os e dific u ld a de s

se co lo ca m p a r a qu e se p ossa

m

e nt os l e g a i s util iza d os p e lo s e s tad os na g e s t ã o d e p ass ad os e no s proc e s s o s d e s a c r a liz aç ã o

g

arantir uma m a ior l egi timidad e par a a his tó ria o r al no universo dos histori a dore s .

 

d

e memória s (Todoro v, 200 2) .

Construção de fonte s ou dever de memória?

A s s o c ied a d es c o ntempor â n ea s pa s sar a m a t e r um a verdadeir a " obs es são p e la m e m ó ri a"

( Fer re ira , 2006 , P: 195 -2 0 3) , e o pa ssa do tornou- se um a das preo c upa ções c e ntrai s no mun-

do o c iden ta l . H o uv e um d e slo ca m e nt o do foc o d o futur o -pr ese nt e par a o p assa d o -pre se nt e,

No c a mpo d as remini scê ncia s h á uma t e nd ê n c ia a sacraliz a r o u b ana li zar o p assa d o ,

co mo a firm a T odor o v (2 00 2, p. 1 89 -19 5). A s a cr a li za ç ão e s t á re la c i o nad a a o i so lamento

um a l e mbr a nça , negand o -se a po ss ib i lid a de d e int e rlocução

U

co n s tru çã o

d e

e ntre o pa ss ado e o pr e sent e .

po r ex emplo , n ã o p e rmit e a r e -

m a p o pula çã o

que s ac r ali za a m e m ó ri a

de um tr a um a,

hi s tó r ic a d o e v ento e s u a di s cu ssão no pr es ent e . A qu e le p as s a do f i ca cri st ali z ad o

e

v á rio s estudo s indic a m que febr es d e c omemora çã o d o pa ss ado tom a r a m conta d a Eu r opa

e

pass a a se r a lvo de ritu a is r e lacion a do s à afi r maç ã o da identid a d e

do g rupo , proce ss o

que

e

do s E s t a d os Unido s, pod e ndo- se f a l ar no d ese n v olviment o de uma cul t ur a mem o ri a lista

imped e o e s quec i ment o ,

ma s tamb é m p o d e dificul ta r um tr a b a lh o de r ee l a b o r ação

da m e-

ou um a in f lação de me m órias, p a r a u s ar as p a la v ra s d e And r e as Hu ysse n

( 2000 :2 1 ).

N o s

m

ó ria . N o p o lo in v erso es t á uma pos tur a de b a nali zaçã o e, ne sse c aso, o pr e sent e pa ssa a ser

Est a do s Unido s,

o e xe mpl o m a i s rec e nte é o

1 I de

se tembro,

qu e p ass ou a ser uma

d a ta

lido como r e petiç ã o do passado. A s lembrança s são tr azid a s a todo momento , e os aconte c i-

mar c ant e p a r a a r e memo r açã o d o a tent a do ao World

Tr a de C ent er, e v ent o so bre o qu a l sã o

m e nto s do pr e sente são a ss imilad os a par t ir d o pri s ma d e um ev ento do p a s sa do . a p e ri go

produ z id o s a cad a ano document á r i o s , e x p os i ções e pr og ram as d e TV

d

a sa cr a li zação e d a ban a li zaçã o é q u e essas pe r s pe c ti v a s re f o rça m a p e r pe t ua ção d e r ótul os

Na virada p a ra o s éculo X X I, p ô d e -s e t a mb é m d e tect ar um grand e c omprom e tim e nto

c

o mo o do h e rói , d a v í tima ou do s mo ra lizadore s ,

visto

que , a o s e privilegiar um dever d e

d as so cied a de s c o nt e mpor â n e a s

v ier L a lieu , e m se u artigo L 'i n venti o n du d e vo ir de mémoire (2 001 ) , e ssa e x pr ess ão f o i c r i a da

para design a r uma es pécie de culto a os mo r tos , ví tim as d e a to s d e r e press ã o e d e trauma s

com o chamad o " dever de m e m ó r i a" .

De a co rdo com ali-

político s, culto es s e que p r odu z de s d o br a m e nto s

e obri g açõ e s no s d o mínio s

hist ó rico s, ju-

ríd

i c os, f i n a n ceiros

e pol í ti cos.

 
 

N

e sse contexto ,

o a to de t es temunh ar

g a nha um no v o s i gnific a do,

e as ví t i m as ou

s eu s d es c e ndent es tran s fo r m a m- s e em a g e ntes fund a ment a i s

mem ó ri a , e nt e ndid o

lembrança e hom e nag e m , m as t a mb é m com o di r eito d e re c l a mar ju s ti ça e c o nqui sta r r es ul-

p a r a o ex ercíci o d o de ve r de

d e c ult o ao s mort os, d e d eve r de

ag or a n ã o a pena s em s ua d i men sã o

tado s c on c reto s nos d o m í ni o s político, judi c ial e fin a n c eiro. ( He y mann ,

D e fa t o, o de sen v ol v iment o

riai s e nv o l v endo ev e nto s tr a um á t ic o s,

di v íduos v it i m a do s p e la opr ~ s são, tem implicad o cada ve z mais a ide ia de r es pon sa bilid a d e

200 7)

e m di fe r e nte s p a í s e s e grup os soc ia is de p o l ít i cas mem o -

c om o form a d e lut a r contr a o es qu e c im e nto

d e in-

memóri a, muita s v e ze s aca b a - s e r esva lando ne ss e s ex trem os. Qual s eri a a outr a po ss ibilid ade

de r e l a ç ão c o m o pa s s a do ? E m v e z de uma milit â n c i a p e l a memóri a,

em um trab a lho s obre a memória .

s e r i a nec essá ri o pe n sa r

N es sa c onjuntur a,

um a pergunta torna- se r e le va nt e : com o o s hi s to r iado res s e i n s er e m

n

a s com e mor aç õ es do p assa d o e no d e b a te públic o s ob re e la s e n g endr a d o? S e por u m l a d o

e

le s est ão pre s ent es no s proj e tos editori a i s e ac e itam parti c ipar de comiss õ e s judici á ri a s (c o-

0' mi ss õe s con s tituída s

por e s p ec iali s t as c om dif e rente s formaç õ e s , na s qu a i s o s hi s toriador es

t

a t es tar o u n ão su a v erac i dad e)

d as comemoraç õ e s, tampouc o s ã o r e spon s áv e i s p e l os termo s d ess e debat e ( Fe rr eir a , 2005 ) .

o c a l e nd á r io

ê m d es t a c a d o

p a p e l p a r a ver ific a r e a va li ar os a spec to s h is tóri c o s

d e pr oce s s o s c rimin a i s e

e di s cu ssõe s n a m í di a , p or outr o n ã o c ondu z em

a te rreno d o c on te mpor â n eo é ampl a m e nte oc up a d o p e l os jo r n a li s t a s e outro s pro f i s si onai s

da comunic açã o , a l é m da s te s t e munha s, o qu e colo ca qu es tõe s a di c i o nai s para o hist o riado r.

U m ponto que tem gerado p o lêmi ca e s t á r e l ac ion a do à d e fini ção de cont e úd os histó-

o

fi c i a l d e g o ve rno s e s oci e d a d es no sofr im e nto

v i v id o p e l a s v ít im as e te m p ro pici a do

a r e i-

r

i cos sanc ion a do s por le gis lad o re s , q ue p o d e m e star e m d es a co r d o co m a produ çã o h is t orio -

v

indi caçã o de m e did as co mpen sa tór ias

n ã o só pa r a r e par a r as inju s ti ça s , m a s p a r a imp e dir

g

r á fic a . a est a b e l e cim e nto de polít i ca s memo ria i s vincul a d as ao atendi men to d e re i v i ndi ca -

~-------------------- -- := m i i i ii ii r ------- --- - -

- - _

1 8 0

Nov os Dom í nio s

d a Hi s t ó ri a

ELSE VI ER

ç ões de r e p aração po r par t e d a s vít i mas

ao Es t a d o mu i t as veze s se choc a co m a in te r p r e t ação

. d e event os h istór i c o s e co l oca s ob s u s p e i ta o sa b er produ z id o

s

p

abre-se , ass i m não só um a di s put a

u

d

a

p e l os h i stor i a dor es, b em c om o

e u p a p e l no es p aç o público ( Heym a nn , 200 7) . Q u e stion a - s e a au t o ri d a de do s es p e c ialist as

a r a di s cutir te ma s hi s t ó ri c o s , atin g indo-s e a p r ó pria pr o fi s sionali zaçã o

ma c o mp e ti ç ã o

e

e ntr e di fe r e nt es at i v id a d es p r ofissi on a i s ,

o r e s e profi ss i onais

do hi st ori a dor ,

e

nt re int er pr e t ações h i s to riog r á fic as di verge nt es , m as

l egis l a-

d e seus pr atica nt es p ara

co m o a s d o s jo rn a l is t as,

d a hi stór ia n o q u e di z res p e i to à l egit i m i d a de

c e s sa r o pa ssa d o e a n a li sá -l o.

Diant e d esse qu a dro , muito s hi s toriado res t ê m se m a nif est ado , a p o ntand o os perigo s

do s processo s d e sa crali z a ção da mem ó ri a e ar g um e ntand o qu e o est a b e l ec iment o d e leis qu e

d e fin a m com o d ev em ser tr a t a do s ce rto s ev ent os hi s t ó ri c o s

l egal d e um a v i são d a hi stó ri a , seg un do e l e s , t r a n sf orm a

t

2 00 7) .

e , e l i m i n a nd o q u a lqu e r p oss ibil i d a d e de di s cu ssã o s obr e os te m as hi stó rico s (He y m a n n ,

c ri a sé ri os ri sc o s . A impo s i ção

um a m e m ória e m v a lor in c on t e s -

É prec i so d es tac a r qu e as cr í ti cas do s hi s to r iadore s às lei s mem o r ia i s t ê m co mo a l vo

ELSEVlER

Cap í tu l o

91 Histó ria

o ral: ve lhas qu es tões ,

nov os desafi o s

181

mi lit a r es e g u e rr as rece nt es . Es s a v a l or i zação d o " eu "

ond e h á o tem or de um a

"perd a d e mem ó ria " , dev e ser objeto d e uma arg ut a críti ca . Um c a minho apon t a do pel a

no co nt ex to a tu a l , s u s tent a d a

m a l ca u s a do à s vít im as d a s di ta dur a s

por i nt e r es s e s p ol ít i cos e c ultu ra i s ,

auto ra par a garantir e sse o lh a r c rítico

é co locar o foc o no s limit es a o u so do s · te s t e munho s

n

n essa li n h a , l ev ant a d o j á po r W a lt e r Ben-

jamin , s u s tent ava

Gu er r a n ão m a i s c o n seg ui a m t ran s mitir o v i v id o , n a medid a em qu e r e t i nh a m a p e n as nu -

ven s d e a cont e cim e ntos.

pa

d e s ua p ro po s t a di a nte da impo ss ibilid a d e

e xist ê n cia da e x p e r iê n c ia.

por o utr o s p e n s a do r es , qu e

a m o d e rnidad e .

A ind a seg u n d o Sa rl o, o p ri ncip a l a r g um e n to

que o s h o m e n s

a tin g i dos

p e lo c hoqu e a v assa l a d or d a P rim e ir a G rand e

a saí da par a esse irn -

as di f i c u l dade s

d o r e l a to e a pr ó pria

A i n da qu e o a utor t enh a b uscado e ncontrar

s se propondo

a r e denç ão do passad o p e la m e m ór ia , pod e - se reconh e c e r

d e ga r a ntir a c o n s i s tê nci a

E s sas d i fi c uld a d es t êm si d o r e to ma d as m a i s r ece nt e m e nt e

apont a m a a c e l e r ação do te mpo cultu ra l , t e cnol óg i c o

tran s mi ss ão do s re l a to s entr e geraç õ e s , o u se ja, indi c am um a crise de a u to ridade

e m o r a l co mo um a limita ção p a r a a

d o pa s sado

i1

'f-

i

prin c ip a l a defini ç ão le ga l d e um cont e údo

p a r a o passad o hi s tórico , e n ã o o

fa t o de

as le is

sobr e o present e . Outro ar g um e nto e v oc a do qu e ve m se som ar a e sse s d e b a tes é o d a impos-

h

s t abe l e cere m a obrigatori e d a de d e d e t e rmin a do s t e m as p a r a o e s tud o e o en s in o d o

pa ssa -

s

i bilid a d e de s e es t a b e lece r um s i st em a d e e qui va l ê n c i a

entr e o e u d o r e la to e a e x pe r iê nc ia .

I

d o . A g r a nd e p reocup ação d a comu ni d a d e d os pr ofi s si o n a i s d a hi stória são as int erve n çõe s

i qu e as pol í t ic a s d e m e m ó ri a imp õem n a ap r eciação d e eve nto s d o pa ssa do e a s co n se qu ê n -

i

, c i as de ss a s ini c i a ti v a s n a pr o duç ão

o sa b e r hi s t ó ric o .

r e strin g ir a lib e rd ad e d e p es quisa, s ubordina a hist ó ri a à m e móri a e a n ul a a po ss ibilidade d o

qu es tionam e nt o

Es se a s p ect o do d e b a t e g anh a co r es aind a ma i s int e n s a s e de s dob ra ment os a ind a m a i s

pr of undo s qu a nd o a co munid a d e

m e to do ló g i cas , qu e é qu a nd o a qu es t ão d a s ubj e ti v id a d e e m e r ge como e lem e nt o d e c r í ti ca

fund a ment a l .

a l é m d e

d

Esse tipo d e int e rf e r ê n c i a,

das font es primári as, primeir a p re miss a d o o fício d o hi st oriad o r .

d os hi s tor ia d ores

s e vo l ta pa ra a s di sc u ssõe s t eó ri cas e

Segund o a pe s qui sa d o r a argentin a Bea t ri z Sa rlo (2 00 7), a parti r d essa s up e r v alori zação

da m e móri a o s hi s toriad ores passa ra m a rever os o bjetos d a p e squis a hi s tórica, r e v a lorizand o

o s es tudo s d o c o tidiano e d a ndo ê n fase espe c i a l à s biogr a f i as do s per so n ag en s co mu ns e aos

t e s t e munho s or ai s . O re conhecim e nt o de sse tip o d e a bord age m t e ri a l eva do a um a "g uinad a

s

o fa to de n ão se r eg ul a r e m un ica m e n te

f o rm aç ão de s ua s identid a d es particul a re s . Essa fo c a liza çã o d a histor iog rafia n os indi v íduo s,

no entender d e S arlo, foi in c entiv a d a p e l a noção d e que o p as sado p o de s er interpr e tado

s u a l ó gic a i nt e rn a e d e qu e o suj e ito hi s t ó ric o o bs e rvad o n a s u a subj e ti v idade é o m e lh o r

caminho p ara se a lcan ça r esse fim . -

po r

ub je t iva" .

P ass ou- se a o b se r v ar qu e t odo s o s ato r es hist ór i cos

s e ria m invent ivos ,

ou se j a ,

a

p o r um a ideol o gi a heg emô n i c a

teri a p e rmit i d o

De acor do co m es s a per s p ec t iva,

d a e x p e ri ê nc ia , co n s titu i n do , assi m , o gê n er o a utobi ográ fi co a p en as um a m ás c ara d o a ut o r ,

ou se j a, todo r e l a t o a utobi ográ fico

não e x i s te um a re l açã o v e r ifi cã v el e nt re o e u t ext u al e o e u

ser ia , n a ve rd a d e , id ê nti co à f ic ção e m prim e i ra p ess o a .

T o d a e s s a d isc u s sã o t e m tido r e fl ex o s para o u so da hi s t ó ri a oral , e n o vam e nt e

o esta-

tuto d a históri a o r a l e sua s p os sibilidad es de u s o v oltam à ce n a. Na a tu a l i dade es t ão send o

re a l iza d o s inúm e r os proj e t os , p o r d ife r e n t e s in s titui çõ e s ,

co l e t a d e r e lat o s or a i s , a s expe ri ê n cia s vive nc ia d a s p e la s . p o pul a ç õ e s

tr a u ma s, e o g r ande t e ma qu e i nau g ur o u

mo v im e nto t es t e munh a l f o i o Holo c au s t o .

e n volvi da s e m gra nd e s

qu e v is am r eg i s tr a r , por m e i o d a

e qu e pod e ser c h a m ado d e

e s se tip o d e ini c i a t iva

Di a nte d esses d e bat es a c e r ca do " d eve r de m e m ó ri a " e d as c rítica s à " g u i nad a s ubj e tiva "

e à "ex alração do t e s temunh o" , que t êm es tado pr ese ntes em a l g umas linh as histo riog rá f ica s

da atu a lid a de e tê m c olo ca d o g rand es d esa fio s p ara os hi s to r i a d o re s,

ca b e per g un tar

qual o

s ignif ica do e a i mp o rt â nc ia d e se pr o du z ir um ace r vo d e d e p oi m e nto s

en vo l v i d o s em eve nt os f u n d ado r es, se j a m e l es t ra u má tico s

ora i s de a to re s soc i a i s

o u não . Co m o e nf ren ta r a a m e -

m i lit a r br as il e ira ? Co m o co nst i -

' a Ç a d a sac r a li zaç ã o d a mem ó ri a da s lut as c ontra a dit a dur a

t uir , a p a rtir d a co l e t a de d e p oi mento s

qu

o r a is , um a f o nt e hi s t ór ic a pas s í ve l de u s o c r í t ico e d e

es ti o namento

e confron t o p e los hist o riadores ?

O " dever d e m e m ó ri a"

é um a pr e mi ssa qu e e s t á pr ese nt e n o s pr o j e to s te ste munha is ,

e a id e i a c entr a l , p os tul a a n ec e s sid a d e d e se p re s e r va r a m e m ó ria d o qu e oc or r e u com

o

 

N

a s p a l av ra s d e B eat ri z S a r l o , e s t a mo s v i ven d o em um a é po ca d e g r a nde sub jet i v id a d e ,

.

obj e ti vo d ~ t e nt ar ev it a r f utur a s m a ni fes t aç õ e s de a uto r i tar i smos

e d e s r es pe i t o

ao s dir ei -

n

a qu a l o "e u " p asso u a re ceber pri v il ég io s , prin c ip a lm e nt e

p or s e o p or à h ege moni a

si m-

to

s hum a no s.

A qu e s tão é sa b e r s e a d i v u l g a ção

de um a n a rr a ti v a

d a m e m ó r i a

é capaz d e

bó li ca do s m eios audi ov i s u a i s e p o r co n s tituir um m e io ju r ídi co e m o r a l de se r eco nh ece r o

atuar d es s a man e i ra no s rumo s d o pr ese n te ,

i s t o é , t a lve z se j a el ucid a ti v o

dei xa r c l a r o qu e

------------------------------------------------------------------~~--.-~------------------------------------

182

Novo s Domínios da História

EL SEVIER

ELSEVIER

Cap ít ul o

91 História

oral: velhas qu e st ões,

n o vo s d esa fio s

1 83

l

i !

'

a

me m ór i a

e m si n ão é bo a n e m m á . Muit as vezes o s benefí c io s qu e se p roc u ra ex tr a ir do s

fu

n d a m e nt a l pa ra ent e nd er o pr ese nt e. Hu yssen se per g unt a: "Por q u e esta m os con s truind o

pr

o jet os tes t e munh ais podem ser d esv irtu a do s p or c ont a da s fo r m as ass um i d as p e l as r e me-

mu se u s c o mo se n ão h o u ve s se m a i s a m a nh ã?"

( Hu ysse n ,

2 0 0 0 , P: 2 0 ). O u , dito d e o utr a

rn

o r a çõ es . É po ssíve l l e mbrar um a v i o l ê n c i a co m o o bjetivo d e evi t ar a s u a r e p e ti çã o, por é m

m

ane i ra , qu a l o lu gar d o passa d o n os n oss o s di as ?

po d e - se ac i o nar e s sa me s m a m e m ória

p a r a ju s tifi ca r v ingan ças vio lent as n o pr ese nt e . Tal é

É n esse s entid o q ue s e deve m e ntend e r

o s e mb ate s p ró p rios

do ca mp o d a m e m ória ,

o

p ri n c í pi o d os r ev anchi s m os socia i s qu e es t ão lon g e d e fav or ece r a um apa z ig u a m e nto

d e

vis t o qu e a t o d o m o m e nt o

i n di víd u os e gr upo s to m am p osiçõe s di a nte dos ac ont ecime n to s

co

n f lito s ( Br es ciani , 200 4).

e, ao f a ze r i sso , u t ili zam-se m emória s e r e e l ab o ra m o passa d o recente. Como j á foi dit o, ess a s

A r e ali zação d o s projet os t este munh a i s col o c a a l g un s pr o bl e m as p ara serem pe n s ado s

p e l a hi s t ó ri a e nqu a ntQ di s ciplin a ,

escr i t a d e h is t ó ri a , es pecialm e nt e

p o rt a nt e:

r e ali zad o a part i r de ss a s v o zes?

a partir de uma oposi ção s impli s t a entre a me-

m ó ri a e a hi s tóri a , poi s t a l reducioni s m o

há dé c adas, e ob r as

import a nt es j á foram produzidas no s c a mpo s da história da memóri a ou hi s tória das repre- sent a ç õ e s (L av abre, 2001). Amemóri a fo i incorporada como um probl e m a p e la disciplina

cab e a pont a r algumas refl e xõ es propi c iad as p e lo tra-

ve rd a d e . E s s e é um t e ma qu e vem se nd o di s cutido p e la historiogr a fia

e os res ul ta d os de ss e s proj e to s p o d e m se r vis to s co mo a p e l o g r a nd e público . I s s o ap o nt a p ara um a q u es t ão im-

q

ue pode s er

o qu e di s tingue as vozes d a m e m ó ri a do s resultado s d e um t r a b a lh o

qu e stão não pod e s e r re s p o ndid a

E ss a

t e nd e a associar a mem ó ri a a o fa l so e a hi s tória à

hi s tóric a e , p a ra os nossos propó s ito s,

balho com o s projeto s testemunh a i s.

Um a c on s ider a ção impor ta nt e d iz res p ei to às relações en t re a s m e m ó r ias trazida s pe-

n ão são boas

o u m ás e m si m es m as. So br e tud o ,

u

i

os u s o s d a hi s t ó r ia o r a l e o tr a b a lh o d o

hi s t or i a dor ? Em grand e p a rt e, a rec u pe r açã o d as mem órias d esses eve nt os t ra um á ti c o s é fei t a

po r in te rm é dio d a impl e m e nt aç ã o de

in st rum e nto para a con s ti t ui ção d e b a nco s de depoim e n t o s

qu e s e coloca para o hi s tori a do r é o processo de sacrali zaçã o d esses t e s temunhos

r

que , por vi -

me m ó r ias e m c ir cu l ação , e x p r es s as, p o r e xe mplo , no s p r ojeto s t este munh ais ,

c a be di ze r qu e es s as m e m ór i as , m a i s d o qu e po ss ibi lita r

e , n o te rr e n o d a atu a lid a d e,

é

m a co mpreen sã o

mp or t a nt e

d o p a ssado , at u a m n o t e mpo pr ese nt e,

es t a r a t e n to ao pa p e l qu e c abe ao hi s t o r ia do r.

im p ac t a m

Co m o toda s essas t r a n s f o rm açõe s

pro j eto s te s temunh a i s

qu e u sa m a hist ó ri a or a l co m o

d as vít im as, e o grande d e s af i o

e de confrontaç ã o.

e m de perseguidos e vítim as , n ã o p o dem ser objeto de qu es t io n a m e nto

Esse tipo de postura dei x a , e f e ti va m e nte,

ti cas e m po s ição de s conf o rt áve l p ara ex ercer seu ofí c io , man te nd o

cr

o s pesquis a do res qu e tr aba lh a m c om essa s t e m á-

se mpr e uma po s tur a de

t o d os esses deb a te s rea c end e m

íti ca e de que s tion a m e nto

d e s u as f o nte s ' . E v ide n tement e,

i

,

i

i

,

l

os t es temunho s

e a utili zação políti c a de ss e p assa d o

rememor a do. Paul R icoe ur chama a

v

e lh as di s cu s sõe s sobr e os u sos d os d e p oi m e nto s

or a i s e a car g a d e s ubj et i v idad e

qu e e l es

a

t e n ção par a uma r e laç ã o entr e o exage r o n a ex ort aç ão da memóri a e um a d esv a l o ri zaçã o d o

c

a r rega m . S e , por um l a d o , e s ses p rob l e m as c riam no vas r es i s t ê n c ia s pa r a a hi s t ó ri a o r a l , p o r

p

a pel d o hi s toriado r .

De a co rd o co m es s e a ut o r , " a memória po ss u i u ma va nt age m em re la- .

é o rec o nh ec im e nt o .

] A hi s t ó ria nã o r ec onh ece , reco n s tr ói " ( Ri c ouer ,

o

utr o l a d o no s ob r i ga m

a reforça r s u as r e fl ex õ es te ór i cas e se u s c u i d a d o s m e todol óg i cos

na

ção à h is t ó ria , qu e

r

ea

li zaçã o d e s ua s p es qu i s a s .

2 000 ). O r ec onheciment o

as c r í t i c as o fe re ci da s p e lo s histori a d o r es p o d e m e n f rentar um jul ga m e nt o públi co d es fa v or á -

v e l se p ro pu se r e m lei t ur as dif e r e n c i a d as s obr e a s n ar r a ti v a s s o cia lm e nt e ace i tas. A liberd a de

atr e l a - se , p o rt a n to, m a i s fa c ilment e às ver d a d es tes t e munh a i s,

e

A s si m , o s eve nt os t r a u má ti cos d a hi s t ó ri a r ece n te pode m oferecer um a opo r t uni d ade

í

casos co nt e mpor â n eos

m par d e se repen sa r o p assa d o e, n esse se ntido , a hi s t ória d a Áf ri ca d o S u l e da Bó s n ia s ã o

emba t e s p el a

qu e t ê m r ece bid o

g r a nde ate n çã o ,

p o i s r ep r es en ta m

fi

ca r e s trit a qu a ndo se tr a balh a c om a co nt ec im e nto s qu e j á for a m ju l ga d os publi ca m e nte .

m

emó ri a

e ofer ece m ao hi s t o ri a d or

d o te mpo

pr e s e n te a o p or tu n id a de

d e pen sa r so br e

E

nqu a nt o

o ju í zo judi c ial é definitiv o, o do hi s t o riador é re v i s i o n is t a .

co

m o os r e l a t os o r a i s estão sen d o u t il iza d os no s projeto s tes t em u n h a i s.

No Bra s il, u m e p i -

A

hi s t ó r ia s e rees creve p e rm a nent e ment e, m as n ã o a leatoriam e nt e. A operação históri-

di o t r a um á ti c o

d a h i s t ó r ia r ece nt e, a tortur a e os ass a ssi n a t o s sof rido s p e l o s opo s itor es d o

ca en vo l ve a " combinação d e um lugar so ci a l , d e pr á ticas científica s e d e um a esc rit a", c o mo

afirm a Mich e l d e Certeau ( 1982 ) . A di sc iplin a hi s t ó ric a , longe de p ost ul a r o hi s to r icismo sécul o X I X, oferece procedimen t o s d e a nális e próprios cap a zes d e pr o por um a e laboração

e s p ecífica do pas s ado . Esse domíni o p o d e s e r visto como fruto da combin açã o apontada por

do

Ce rt eau ,

v ir a se r um intérprete dos equívo cos

da s m e mória s, não se deix a ndo le va r p e lo s ró tulo s f á ceis da banal izaçã o o u d a s acr a lização

d

qu e forjou ao longo do s a no s m é todos e critérios de an á li se. O histo r iador

pode

p o líti c o s do passado e do s mec a ni s mo s d e construção

ou

a m e mór ia

e , a partir da an á li se hi s t ó ri ca, e l e pode , in c lusive , r e l a ti v iza r as m e m ór i as,

r eg im e militar , r e c e n te m e nt e r es ult o u em um pr oje to t es t e munh a l intitulado M emórias reveladas, q u e se e n co ntr a em d ese n v ol v im e n to .

ca

m e móri a s coloca par a

n

ar ti c ul aç õ e s entre a mem ó r ia e a hi s t ó ria nos projeto s te s t e mu n h a i s

d e maiores dim e n sões D ia nt e de sse qu a dr o,

de

b e perguntar:

esses constantes

como a m e m ór i a es t á s endo re e l a bo ra d a?

Q u e qu es t ões e ss a profu são

a e s c rit a d a hi s tória? Como o histo r i a d o r

pod e p e n s ar o seu lu gar

emb a te s d e m e móri a ? A ideia é . partir d e s ses c a s o s para refleti r s obr e a s

d a a tualidade .

-- N o trabalho Me mória d o s militante s do Partido do s Traba l hadores ( P T), em co a ut or i a

a pont a r as po ss ibilid a d es

c o m A l exa ndre Fo ; t es, pr oc ur a m os

d e u s o p a r a p e squi s a co m m a-

melhor , qu es ti o nar a função de sse p assa d o r e m e mor a do . E squec e r t a mbém é uma da s face s

te

ri a i s d essa n a tu reza, d es t aca nd o

a l g u mas qu es t õ e s r e c or r e nt es

n as e ntr ev i s ta s,

t a i s como

d

o c a mp o d a m e m ó ria , port a nt o , es tud a r o qu e é e s quecido e o qu e é l e mb ra do parec e

o

i n g r es s o do depo e nt e

n a mil it â n c i a

p o l í ti ca , a a rti cu l ação

d o s di fere nt es

gru po s p ara a

184

Novos Domínios da História

ELSEVIER

formação do PT, o papel de Lula como liderança capaz de aglutinar forças tão diversificadas

e o significado do partido para os movimentos sociais e para a consolidação da democracia

no Brasil (Ferreira; Fortes, 2008).

de serem iniciativas de en-

tidades ou segmentos políticos que estão comprometidos com

construção de uma dada interpretação do passado, e convidam historiadores para participar

da realização e divulgação dos depoimentos de militantes. Trata-se, sem dúvida, de um pro-

jetode memórias político-partidárias, mas que, ao utilizara metodologia de história oral,

propõe um uso ampliado do acervo para além de sua utilização como mero instrumento

laudatório. Dessa maneira, a produção desse conjunto de fontes para o estudo de lutas

Um

desafio a ser enfrentado por esse tipo projeto é o fato

a defesa de uma causa

e a

sociais e a denúncia de massacres e eventos traumáticos contribui para a preservação da

memória dos movimentos sociais, tornando-se uma referência de fundamental importância

para a consolidação das lutas pela cidadania e em defesa dos direitos humanos.

Pela sua própria natureza, esses projetos trazem também elementos significativos para a

reflexão sobre as fronteiras entre história e memória. Tais preocupações ganham peso ainda

maior em um contexto em que a necessidade de balanço de experiências coletivas trágicas

impõe um "dever de memória", como ocorre nos cenários pós-ditaduras latino-americanas,

especialmente quando a produção dessas memórias se dá no contexto da crise dos parâmetros

tradicionais de produção

da verdade histórica que marca a cultura pós-moderna (Sarlo, 2007) .

Entretanto, como

a sistematização ponderada e a reflexão crítica sobre décadas de

experiência por praticantes de diversos países já demonstraram claramente, a história oral

pode ser perfeitamente incorporada ao arsenal de recursos à disposição do historiador por

meio da observância de exigentes procedimentos metodológicos (Ferreira e Amado, 1998).

Na verdade, boa parte das ressalvas dirigidas à história oral aplica-se igualmente a qualquer

outro tipo de evidência relatada, aí incluídas fontes escritas das mais tradicionais (atas, re-

latórios etc.), que, muitas vezes, são liberadas de um escrutínio mais caut e loso por força do

fetiche da palavra escrita. A grande particularidade é que, no caso da história oral, os histo-

riadores participam interativamente tanto da geração do documento, quanto da articulação

da trama institucional que define seu contexto de emergência tanto no mundo acadêmico,

quanto fora dele. O quanto isso pode ser um problema ou uma vantagem dependerá da

combinação de uma série de fatores.

O historiador faz a história. O compromisso do historiador com o presente no exer-

cício de seu ofício não deveria estar associado a uma militância em prol de uma memória

social específica. Por meio dos instrumentos da história, seria possível propor uma mudança

de perspectiva do dever de memória para o trabalho com ela. O historiador não tem o mo-

nopólio sobre a memória, mas ele detém instrumentos para lidar com a pluralidade e a frag-

mentação dela. É certo que a análise sobre os fatos ocorridos , a identificação dos episódios e

a reflexão sobre esse passado recente será resultado de um esforço de escrita da história. Um

trabalho sobre o terreno da memória, mas próprio à história.

Capítulo

91 História oral : velhas questões,

novos desafios

185

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S e mpr e hou ve um público leit o r áv id o p o r bio g r a fi as, seja em bu sca d e mod e lo s (o u

re -

s aci a r s u a curi os idad e uoyeurista,

t ra ze nd o -o s

como qu e p ar a mai s

p e rr o d o "co mum do s m o rtai s " . Ta l int er e sse pa r ece te r se ac e ntu a d o n a a tu a l i d a d e , o q u e

d e c o nduta,

trat

de s nud a ndo-o s n o seu lado " dema s iad a m e nt e

se j a a pr oc ur a

c

ontramod e lo s)

d as " verdad e s" ínt i ma s do s personagen s

a do s, so br e tudo

d os m ais fa mo sos, qu e p er mitis se m

hum a n o" ,

se refl e t e n o v e rt i g in os o

a

um e nt o d o n ú m e ro

de n a rr a tiva s biog r áfi ca s e tamb é m autob i o-

g

ráfica s di f undid as

n a fo r m a de li v ro s, @m es , mini ssé ri es

t e l e vi s i v a s, blogs etc . No c amp o

do

c onhec i men t o

hist ó ri co es pe c ific a m e nt e ,

a o m e no s no qu e di z r e speito a su as v e rtente s

m a i s d es ta ca d as, a bi ogra fi a, dep o i s de um l on g o p e rí o do d e o str a ci s mo , a o lon g o do qu a l

am a dore s do qu e a o s pr o f is-

ca pa z de po ss ibili t ar um a compre e n são ef e ti va d o pa ss ad o, volt o u a o cupar

s ion a i s, e p o u co

fo i c on s id er ad a um g ê ner o m e n o r e a ntiqu a do , m a i s afe ito a os

o

prim e iro pl a no d a ce n a hi st ori o g rá fi ca ,

s e nd o pr a ti ca da ,

na s m a is var i ada s latitude s , por

hi

s t o ri a dor es

d e d es t a qu e e m di ve r sas á rea s t e m á ri cas. O que moti v ou e st a r ev al o ri zaç ã o d a

bio g rafi a? Q u e r e l açõ es a hi st óri a m a nt ev e com a bi og rafia ao long o d o t e mpo ? Q uai s a s

dis c u ssões te ór i c as e m e t o dol ógi c as s u scit ada s p e l a b iogr a f ia h is tórica hoj e? Co m o os h i s to-

r iad o re s br as il eir o s t ê m s e in se rid o n es s e pano ra m a

pr ese nt e cap í tulo pret e nd e a bord a r , com a b re vid a d e n ec e ssá ri a a um a public aç ã o d este tip o.

d e debat es? São

es s a s a s que s tõe s que o

His tó r i a e b i og raf ia: um a rel a ç ão de l ica d a

Em se u s e ntido ge r a l d e n a r r ativ a es crita qu e t e m p o r o bj e t o a hi stó ri a d e um a vi da

p a rticul a r , o gê ner o bio grá fi c o n asce u j unt o c o m o gê n e r o hi s t ór ic o n a Gr é ci a d o s é c ul o

V

P o r é m , o co nt ex t o

d a pólis g r e g a, ao p riv il eg i ar

o c ol e ti vo ,

a r e l a ç ão h o ri zo n tal

e ntr e

os

c id a d ãos, n ão

favo r e c e u a p ro du çã o

de bio g r a f ias . A fin a l , o d es t a qu e a um i ndi ví du o

es p ecíf i c o p o deri a im p lic ar um a af ront a a o f un c i o n a m e nt o

bilid a d e do d om ínio

o gê n e r o bi og r á fi co di fu ndiu- se co m mai s int e n s id ade,

d a de m o c raci a e s ug e r ir a p oss i-

a pa rti r d o séc ul o I V qu e

d e um so br e o s dem a i s . As sim , foi s o m ente

so br et ud o n as c u l tura s h e l e n ís ti ca