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FELIPE GREGÓRIO CASTELO BRANCO ALVES

A DIMENSÃO DA CULTURA OBJETIVADA EM POLÍTICAS CULTURAIS

Trabalho apresentado ao Curso de Especialização em Gestão Cultural da Universidade de Girona, Deptº. Observatório Itaú Cultural, com apoio da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), como requisito parcial à obtenção do certificado de Especialista em Gestão Cultural.

Orientador: Profº Dr. José Teixeira Coelho Netto.

Profª Dr. Myrla Fonsi.

São Paulo

Agosto, 2012.

SUMÁRIO

A Cultura Subjetiva, Objetiva e Objetivada

4

A Complexidade dos Contrários: aproximações, limites e usos para as Políticas Culturais

8

A Vida Cultural e a Gestão da Partcipação

11

Conclusão

17

Bibliografia

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EPÍGRAFE

Y así como las objetivaciones del espirítu son valiosas más allá de los procesos vitales subjetivos que han passado a formar parte de éstas como sus causas, así tambíen lo son más allá de los otros procesos que dependen de ellas como sus consequências.

(Georg Simmel)

Resumo: As dinâmicas culturais contemporâneas apresentam inúmeros desafios para a gestão da participação nos processos de legitimação e conquista das políticas culturais. Desta forma, o presente trabalho busca entender o papel da criação e apropriação da vida cultural nos espaços de troca e participação social para a inclusão de saberes portadores de sentidos permeáveis de identificação entre culturas e referenciais culturais que permitam a imprevisibilidade como dispositivo nas inter-relações culturais para o estabelecimento de vínculos que despertem as capacidades estéticas como elementos de pré-disposição simbólicas de atuação no mundo.

Palavras Chave: Dinâmica da cultura contemporânea, arte, participação.

INTRODUÇÃO

A partir dos conceitos de cultura subjetiva e cultura objetiva encontrados em Simmel (2008), o presente trabalho busca explorar estas particularidades existentes nos indivíduos e grupos culturais analisando sua aplicabilidade para gestão da participação em políticas culturais.

Com isso, busca-se entender a realização de ações culturais formuladas com a prerrogativa da difusão do acesso aos bens culturais e da proteção e promoção da diversidade cultural no processo atual das dinâmicas contemporâneas, a dicotomia para os sistemas complexos de diálogos entre os contrários (COELHO, 2008), que implica perceber a vida cultural nos espaços de troca e participação. O que consiste dizer que uma terceira situação será analisar como possibilidades de participação social e de direito, a construção de ações nesta dinâmica considerando outro elemento complementar nos processos culturais que é a cultura objetivada. Aqui entendido como as políticas culturais.

Neste sentido, rever os conceitos sobre cultura é considerar esta condição fundamental para o entendimento das aproximações e diferenças entre os sujeitos em associação (experiências individuais internas e a percepção externa das coletividades) numa dimensão global das sociedades atuais. Como também, contraceder ou transgredir a flexibilidade destes para uma idiossincrasia que viaja por vários trajetos e estudos (BAL, 2002).

Apresentar as possibilidades e os modos de participação dos agentes que compõem a vida cultural através de uma abordagem comparada por um possível estudo de caso, como a relação das características sobre o que compete à convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais (UNESCO, 2005), mais especificamente, sobre as expressões culturais como garantias de direito e acesso das conquistas universais da humanidade; propõe perceber as influências em que se fundamentam os direitos culturais, e como se relacionam em alguns aspectos com o consumo cultural, ou as políticas culturais baseadas na demanda sobre a oferta como a cultura de massa.

Considerando que a cultura “es el camino desde la unidad cerrada, a través de la multiplicidad cerrada, hasta la unidad desarrollada” (SIMMEL, 2006, p. 99) entende-se assim a perfeição desta como meta do desenvolvimento próprio do ser.

Para Mostesquieu, compreende dizer que a cultura é a ampliação da presença da esfera do ser, capaz de perceber ‘o gosto’ como a medida do

o gosto natural não é um

conhecimento teórico; é uma aplicação direta e requintada das regras que não conhecemos bem” (2005, p. 16).

prazer em cada coisa. Observa ainda que “

de

percepção de que a condição da cultura (COELHO, 2012) oferece uma equação entre um sujeito e um objeto não como compreensão das identidades.

da

Esta

dimensão

apresentada

início

propõe

o

entendimento

Em Simmel (2008), a cultura objetiva é sempre síntese. Porém, esta síntese não corresponde a uma forma unitária, pois sempre pressupõe a separação de alguns elementos como pré-disposição para esta perfeição do ‘centro anímico’.

De outro modo,

A

cultura é o percurso do sujeito na direção desse objeto e é também

o

percurso desse sujeito com esse seu objeto. E a cultura é também

o

que sobra desse percurso do sujeito em direção a seu objeto e que

nada mais é do que o percurso do sujeito em direção a si mesmo

(COELHO, 2012, p. 2).

A cultura subjetiva como medida para o desenvolvimento individual e a cultura objetiva como um fato para a expressão destes desenvolvimentos são os primeiros conceitos coordenados para a identificação da unidade através dos bens objetivados: o que constitui a criação/ inovação através dos processos culturais.

Uma primeira constatação até aqui é perceber que na atual existência das sociedades tecnológicas, o problema está em como incorporar à evolução da cultura subjetiva os conteúdos culturais objetivados, e isso por meio da culturalização (ou) da vida cultural das categorias que fazem a mediação entre a cultura subjetiva e a objetivada com as quais concebemos o mundo.

Aqui, isto relacionado também ao problema da democratização de acesso nas políticas culturais fabricadas com finalidades previsíveis. Escolhas individuais de algumas instituições, grupos e indivíduos que pressupõem a falta de percepção daqueles que não têm a capacidade de escolher o que de fato pode ser melhor para si. Onde em seguida estes se transformarão passivos ao consumo e a participação nos desenvolvimentos sociais, culturais e tecnológicos.

A ampliação desta perspectiva se encontra também sobre outro viés sociológico fundamentado e repensado em Marx, na necessidade do trabalho produtivo nas horas vagas que dissipado nas atividades pesadas da vida, nutriria outras atividades superiores.

Logo, estas horas jamais seriam gastas em outras coisas senão em consumir, e aqui este consumo ao qual nos reportamos é entendido como a atividade cultural destacando que a partir de um modelo que aumenta esta produtividade, neste caso a efervescência cultural ou a cultura de massa; isto exigirá uma forma mais refinada, onde a sociedade já não mais consumiria somente o que se refere à necessidade da vida, mas, dependendo da superficialidade desta vida, ocorrendo, por isto, uma problemática em que nenhum objeto do mundo estará a salvo do consumo e da aniquilação através do consumo (ARENDT, 1958).

Estas categorias, que correspondem aos processos de identificação entre grupos e indivíduos, permitem o entendimento de que não existe cultura subjetiva sem a cultura objetiva. Ambas são complementares aos sujeitos pelos objetos transformados nesta relação interior-exterior. Onde, “la cultura subjetiva es la meta final dominante, y su medida es la medida del tener parte del proceso vital anímico en aquellas perfecciones o bienes objetivos” (SIMMEL, 2008, p. 211).

A subjetividade do interpretante assimila as realidades da vida somente no que conforma sua própria natureza a ser absorvida em sua existência autônoma. Já a exterioridade objetiva dos sujeitos, por sua vez, será em contato com outros sujeitos, subjetividades que posteriormente poderão ser apropriadas como realidades objetivas.

Este

é

percurso

da

cultura

objetivada

posta

diante

do

sujeito

interpretante para o movimento reverso de subjetivação da cultura objetivada.

Neste sentido, os processos de cultivar para a perfeição não estão conforme Simmel (2008) em cultivar os estados formais alcançados simplesmente pela natureza¹. Mas sim em direção a um núcleo originário interno apontando para as divergências entre técnica (capacidades naturais previsíveis) e a vontade (desenvolvimento psicológico/ anímico) como pré- disposição das pessoas se desenvolverem a partir de um estado natural.

Entende-se neste ponto a condição desta equação ao considerar que não se pode dizer que uma pessoa é ‘cultivada’ se simplesmente incorpora em sua personalidade um âmbito de valor externo, pois consequentemente este valor será externo a ele (ª).

Deste modo para Simmel (2008), deve-se abandonar o sentido da subjetividade, mas não sua espiritualidade para poder consumar-se em seu cultivo.

Isto corresponde dizer que quando os bens objetivos externos são interiorizados pelo interpretante permite a elevação de sua própria natureza. Significa contextualizar, que as perfeições unilaterais externas em ordenamento com a dimensão global individual permitem igualar as divergências para a compreensão deste todo com a própria unidade: “a contraposição entre o todo que exige de seus elementos a unilateralidade das funções parciais- e a parte que pretende ser ela mesma um todo” (SIMMEL, 2006, p.84).

Visto nestas primeiras imediações no que confere hoje a existência dos indivíduos e grupos portadores de saberes, produtores de conhecimento, a principal situação que se apresenta em nível de participação na esfera social coletiva para a criação da ação cultural pautada nas subjetividades; é perceber que “expor-se à cultura não basta: algum processo deve criar as condições para que a cultura objetivada, que existe fora do sujeito, possa tornar-se parte integrante e ativa desse mesmo sujeito” (COELHO, 2012, p. 6).

O que nos faz questionar sobre a criação e especificidades dos diferentes espaços de sociabilização da vida cultural que proporcionam ou não

7

¹ Simmel analisa que os estados formais pré-dispostos em condição inicial ao exemplo de um jardineiro ao potencializar o estado natural de uma árvore frutífera, apenas permitiu aquilo que já era seu estado natural (2008, p. 99).

a permeabilidade das relações identitárias para o surgimento do apreço pelo novo e pelo excepcional que reside “na sensibilidade para a diferença que há na constituição de nosso espírito” (SIMMEL, 2006, p. 48) ao que resulta nas identidades dos mundos para o encontro das liberdades.

A complexidade dos contrários: Aproximações, limites e usos para as políticas culturais

Pensar em políticas culturais que possibilitem a realização da complexidade das diferentes propostas em cultura poderá permitir que se observe na dinâmica cultural contemporânea os diversos agentes que estão inseridos ou que respondem a manifestações que são para os indivíduos, as que são para os grupos culturais e as massas.

Esta questão a meu ver possibilita pensar a gestão da participação na institucionalidade da cultura, quando tenta responder às exigências e às demandas específicas da sociedade através de uma política ou programa cultural que lida tentando equacionar as manifestações individuais e coletivas em diferentes ações para a arte e para a cultura. Sendo estas, o paradoxo entre: a arte numa condição de desejo individual e a cultura como aproximação das necessidades existentes nas coletividades.

Partindo desta situação, uma realidade visível que se encontram os grupos e indivíduos em situações complexas de criatividade na vida cultural corresponde ao conflito do percurso a partir da unidade individual através da multiplicidade desdobrada fora destes para a consideração das particularidades individuais introduzidas nas unidades coletivas.

Nesse sentido, este paradoxo exige tentar perceber que os discursos sobre as obras de arte e as obras de cultura conclamam análises diferentes, em exceções que a arte se faz pela diferença no campo da cultura.

Pois, quando a institucionalidade acaba convertendo a arte em bem cultural, ela se transforma em modelo a ser seguido representando apenas a realidade dada, identificando-se com os símbolos que ali estão sendo expressos apenas como sensibilização para a consciência cidadã. O que é

mais conveniente em se tratando que a arte parte da subversão de sistemas fechados.

Pensar em estratégias e ações culturais para as artes, ou numa política para as artes como resposta aos impasses na dinâmica das relações subjetivas e objetivadas, pode ser um vetor de análise fundamental ao lidar com as dimensões individuais e coletivas para o desenvolvimento do gosto estético.

Mas, num certo momento terá que lidar com a dura realidade das estruturas compartimentadas onde muitas vezes “configuram um programa impossível de ser cumprido de uma hora para outra, ainda mais se a todas elas for acrescida a de conhecer as profundidades da alma e do espírito humanos” (MACHADO, 2010, p.36).

Observa-se neste ponto que os modos reprodutivos da cultura (necessidade) não oferecem a reflexão e os processos de identificação libertários que a arte (desejo) transforma em sentidos significantes para que as pessoas inventem seus próprios fins. Objeto central da ação cultural.

A ideia da cultura como esterco, ou a lâmina do arado, (COELHO, 2008) deposita o sentido existencial numa relação recíproca de troca entre cada elemento e sua função. Onde a cultura (num discurso fenomenológico e imagético: ideia como a força de uma imagem poética), e o instrumento de arado como análise deste fenômeno ou ação são utilizados e vivenciados pelos indivíduos antes ao coletivo (ou fundamento social) como potencialidades em direção à elevação e aprimoramento do ser.

Por outro lado, um exemplo visível quando se tem a equação entre sujeito-objeto vista apenas através da cultura objetivada que responde a demandas espontâneas ou específicas corresponde a

A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime- se assim:

quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer- se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhes apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte (DEBORD, 2003, p. 19).

Desta forma, os modos de cultura e as políticas culturais que se reconhecem nestas finalidades-estarão somente promovendo e expressando

uma cultura da histeria, conforme apresenta Coelho (2010) uma cultura ou política cultural somente como a do espetáculo, como meio de mobilização das massas. O que na perspectiva de Simmel (2008), esta condição da cultura exposta ingenuamente ou arbitrariamente propõe que “El hombre se convierte ahora en mero portador de la Coercíon con la que esta lógica domina los

desarrollos

Esta es la auténtica tragedia de la cultura” (p. 118).

A operacionalidade ou aplicabilidade deste paradigma como capacidade de aceitar os valores comuns nas relações individuais e coletivas para a compreensão das relações sociais entre cultura (s) subjetiva (s) versus culturas objetivas permeia as condições em que é exposta a cultura objetivada (as políticas culturais) e vivenciada (manifestações ou instituições culturais) a vida cultural.

Sendo que, a condição mais significativa que considere a fluidez da cultura contemporânea é aquela que prevê os diálogos para que as pessoas inventem seus próprios fins não só pelo contato com as obras de cultura, mas por uma invenção conjunta de fins e meios buscados nestas ações (COELHO, 2012).

Considerar as nuances que ocorrem nos processos de identificação, onde para Brandão [ca. 2010] seria perceber as operações alológicas (que se caracterizam pela inversão); de fato, a diversidade pode ser tomada desta forma: o diversificado, o variado, o que apresenta variedade. A operação heterológica (como reversão), exige outro tipo de diversidade, menos confortadora, na medida em que se expressa como o diferente, ou seja, o que difere. E a operação antilógica, esta

a primeira vista nossa reação tende a ser de repulsa com relação a essa manifestação da diversidade, mas é nessa esfera que reside o desafio de lidar com a mesma, pois se trata, em resumo, daquilo que não se logra cercar ou, mais exatamente, que recusa envelopamento (BRANDÃO, [2010], p. 14).

Ou a ideia dos opostos, aquilo que não pode ser arrancado fora do processo histórico, a complementariedade do positivo com o negativo, “a cultura e seu contrário” (COELHO, 2008).

Neste sentido, repensar o conceito sobre diversidade cultural (UNESCO, 2005) para a promoção e proteção das diversidades das expressões culturais através da vida cultural organizada consiste em perceber que não é isolando, ou separando, como fez a ciência racional moderna e como faz a instituição escolar tecnicista com a produção do conhecimento compartimentado ao longo do séc. XX e, nem como um zoológico que exibe a diversidade de espécies para turistas, que o estado natural (subjetivo), o dialógico (objetivo) e o cultivado, poderá este último se tornar autossuficiente e definitivo para as objetivações do espírito.

Como bem apresenta Simmel (2008) isto significa dizer que “no estamos cultivados porque podamos o separamos esto o aqüelo” (p. 209).

A Vida Cultural e a Gestão Da Participação

Um dos grandes desafios para as políticas culturais é sem dúvida permitir uma conjunção estética através de uma perspectiva de direito para abertura e espaço comum pautado pela própria controvérsia.

Desta forma, “nenhuma identidade pode existir por si só, sem um leque de opostos, oposições e negativas: os gregos sempre requerem os bárbaros, e os europeus requerem os africanos, orientais etc” (SAID, 2011, p. 103).

A existência do espaço público e de opinião incide para os processos de planejamento da gestão da participação cultural um esforço em como promover, levando em consideração na perspectiva apresentada acima as escolhas que tornarão as pessoas portadoras daquilo que já identificaram como complemento ao seu desenvolvimento existencial.

Se, de um lado a gestão cultural participa através de ações que permitem dar as condições para que as pessoas inventem (num certo sentido)

a vida cultural em todos os âmbitos que possam usufruir; a imediatez com que

isto se dá e como terminam e se desenvolvem (as políticas governamentais ou

a legitimização das políticas de Estado), acaba por inserir as pessoas apenas a exposição diante àquilo que não responde as exigências internas individuais e

(ou) coletivas por não ter o tempo necessário para que as informações se

transformem em conhecimento, e com isso, a ressignificação da cultura objetivada.

A manipulação insensata da cultura como coisa públicapara o fazer

coletivo como instrumento de acesso é uma promessa ilusória de uma sociedade transparente na qual todos se comunicam com todos.

O caminho que transcende este limite em que se encontram as políticas

culturais para a gestão da participação perpassa o sentido dualista (oposições entre os contrários) para uma dualidade (complementariedade justaposta) entendida com as divergências em conjunto e as transformações internas e externas coexistindo e interagindo entre si (SAID, 2011).

O desenvolvimento deste sentido em direção da criação das condições

em que fluam as dinâmicas culturais contemporâneas através da institucionalidade da cultura para a vida cultural feita pelas pessoas, pode ser verificado na diferenciação em que apresenta Aristóteles sobre o partilhável e o

participável. Sendo que,

o partilhável diz respeito aos bens materiais necessários à sobrevivência individual e coletiva, e o participável concernente ao que não pode ser repartido nem partilhado, mas apenas participado- trata-se do poder (CHAUÍ, 2011. p. 158).

Nesta ideia implícita acima, estabelecida como atributo primeiro ao participável de classes ou de segmentos culturais em afinidades sociais ou econômicas, há um retrocesso do saber individual como supervalorização deste, como algo intransferível que implicará numa conquista do partilhável para o equilíbrio entre as diversidades.

Sendo assim, estes processos transitórios que se formularam a partir da existência da relação entre a apropriação sendo para o participável (a acumulação do poder), e a ideia de copropriedade para o partilhar; pode ser relativizada como o ponto de partida para o reencontro dos significados simbólicos que permitirá a emancipação das ações onde a sociedade separa- se da política, esta se separa do jurídico que, por sua vez separa-se do saber, finalmente, separa-se em conhecimentos independentes” (CHAUÍ, 2011, p.

276).

Surge então, por uma particularidade dos processos de constituição de uma nova ordem destes conhecimentos independentes, que um novo polo de identificação cultural seria rever nos processos históricos o que foi ao longo do tempo mais fácil de partilhar, um bem material ou imaterial?

Outra demanda para esta identificação seria perceber se a cultura do intangível está para o participável ou para o partilhável? Desde quando, onde ou como foram considerados os modos culturais um poder? E ao que se submente ou pressupõe este poder?

Esta antinomia pode ser vista em Goethe, sendo a igualdade uma subordinação universal, ao passo que a liberdade anseia pelo incondicionado (SIMMEL, 2006).

Entender em qual valor está à liberdade e porque os valores dos indivíduos não foram absorvidos pelo caráter social ou vice-versa, permite entender como pode ser definida e participada as diferenças e as igualdades.

Em associação com Boaventura de Souza Santos, significa tanto

proteger a igualdade dos coletivos quando estes se sentirem inferiorizados, quanto promover a diferença dos indivíduos sempre que a igualdade pressupor

a discriminação nas relações sociais. Sendo que os sentimentos de pertencimento são conquistas, participação é desenvolvimento.

Um olhar mais atento quanto ao que declara a Unesco (2005) sobre o sentido de participação, e o significado conceitual da palavra ‘proteção’, sendo a adoção de medidas direcionadas à preservação, salvaguarda e valorização; e a palavra ‘promoção’ expressando o chamado à contínua regeneração das expressões culturais, originou a princípio na elaboração destas, certo desconforto entre os países membros que entendiam a proteção no sentido preservacionista. Mas, ao discorrer sobre os objetivos vê- se que ambas são inseparáveis.

Encontra- se também o princípio de que o acesso equitativo tem dupla

natureza: visa o acesso à cultura em meio à riqueza e a diversidade das expressões, bem como o acesso de todas as culturas aos meios apropriados

de expressão e disseminação benéficos.

A existência deste documento, bem como os processos das conquistas apresentadas em outras variáveis/ instâncias, conduz a interrogar de que forma, ou através de quais poderes possa valer tais direitos, sabendo-se que os mecanismos de controle dos Direitos Culturais são diferentemente contrários aos demais direitos, pois lidam com os aspectos subjetivos da dimensão individual e coletiva.

Desta forma, uma primeira objeção a se fazer está na compreensão de

que

É preciso aceitar que a garantia dos direitos coletivos não equivale à

soma dos direitos individuais do grupo; ela exige algo mais, já que os grupos são portadores de identidade, um bem comum que funciona como um tipo de copropriedade ou pro indiviso (PEDRO, 2011, p. 46).

O que nos remete a compreender que a constatação destas unidades subjetivas permitirão certa autonomia e imparcialidade para o desenvolvimento destes saberes “quando se considera o indivíduo em si em seu todo, ele possui qualidades muito superiores àquela que introduz na unidade coletiva” (SIMMEL, 2006, p. 48).

Também

que

esta

percepção

adotada

por

exatamente com o discurso de que

Pedro

acima

condiz

não se pode invocar as disposições da Convenção sobre a Proteção

e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais de modo a

infringir os direitos humanos e as liberdades fundamentais, tais como

descritas na Declaração Universal dos Direitos Humanos ou garantidas pelo direito internacional, ou de modo a limitar o seu escopo (UNESCO, 2005, p. 31).

A complexidade de assimilação e distanciamento sobre as questões pessoais e coletivas para a exegese da legislação dos Direitos Culturais perpassa nas relações sobre as finalidades estéticas, culturais e artísticas em cada tempo- espaço em ambos os casos. Isto se for analisar os impactos das obras culturais através da disciplina de literatura comparada nos continentes em que o imperialismo cultural se formou e moldou pensamentos rudimentares sobre a utilidade da dominação da cultura, a aculturação:

O estudo comparado da literatura poderia fornecer uma perspectiva

transnacional, e até transumana, das realizações literárias

simbolizando a serenidade sem crise de um reino ideal

Porém os

estudos neste contexto e as instituições nacionalistas não foram

estudadas com a devida seriedade, e é evidente que estes pensadores europeus ao celebrarem a cultura e a humanidade, estavam celebrando sobre tudo ideias e valores de suas próprias culturas nacionais (SAID, 2011, p. 92).

As possibilidades de interpretação das experiências existentes na dinâmica da vida cultural contemporânea exigem e reivindicam que, a diversidade cultural não resulta de um consenso, mas da capacidade de convivência com os opostos criando condições e diálogos abertos (BARROS,

2007).

A partir desta concepção, é preciso entender que as estruturas de participação na democracia cultural através das tomadas de decisão resultam quase sempre como diz Martinell (2012) na gestíon de lo opinable. E como também que

A opinião pública consiste agora, no direito de alguns cidadãos ao ‘uso público da razão’ para exprimir a verdade, que é universal e comum a todos os indivíduos (ainda que nem todos precisem, e por isso mesmo, das luzes racionais de outros), e, sobretudo, para exprimir a vontade geral, superior à vontade singular de cada um e à mera soma de vontades singulares ou vontade de todos (CHAUÍ, 2011, p. 280).

Ao perceber a incapacidade da obtenção de um consenso para a criação de políticas culturais formuladas através do protagonismo dos diferentes agentes culturais de forma inter, trans- e multicultural, entende-se o surgimento do poder representativo do Estado pretendendo oferecer a universalidade da lei e do direito pelas particularidades das classes (CHAUÍ, 2011).

Porém, as classes são representativas da igualdade e não das diferenças. E o contrato social só é possível entre as partes se existirem as liberdades.

Um exemplo interessante relacionado com a simbologia da representação da figura do líder ou do papel do Estado para a coesão social através de mecanismos estratégicos e operacionais para a obtenção de consensos; está em perceber e vivenciar o conhecimento (experimento, experiência- expressão) dos modos de vida dos povos originários, onde nestas comunidades

o poder não se destaca nem se separa, não forma uma instância acima dela (como na política), nem fora dela (como no despotismo). A chefia não é um poder de mando a que a comunidade obedece. O chefe não manda; a comunidade não obedece. A comunidade decide para si mesma, de acordo com suas tradições e necessidades (CHAUÍ, 2001, p. 486).

O pensamento sobre a democratização de acesso aos bens culturais, ou

a democracia cultural como pretende as políticas de descentralização dos

saberes universais que corresponde alguns dos principais pontos sobre o Art.

27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), que são: a participação na vida cultural, a proteção autoral e o acesso as conquistas científicas e tecnológicas; se não cooperados em função de uma continuidade de ações implementadas como possibilidade de realização do desenvolvimento e aplicação destas diretrizes, é bem possível que,

os admiradores sintam o abismo que os separa desses tesouros grandiosos cuja chave está nas mãos das classes dirigentes e que sintam a inutilidade de todo objetivo de fazer obra criativa válida fora dos caminhos balizados por ela (DIBUFFET, 1968 apud GENTIL; POIRRIER; COELHO, 2012, p. 69).

Nestas circunstâncias, vê-se que a significação do ato participativo na vida cultural oferecida através das políticas culturais como ‘culturas objetivadas’ prepondera sobre a real qualidade do acesso às fontes de informação aos agentes culturais e as possibilidades de poder interferir como produtores de conhecimento.

Com isto, preservar e repensar as formas de organização como a democracia, por exemplo, como causa e origem da diversidade é imensamente mais importante do que preservar um modo qualquer de diversidade que só tem sentido nestas mesmas organizações e para os que participam das relações culturais.

Outra referência é a noção de que as "instituições culturais são

incapazes de se adaptarem ao presente e prever o futuro" (MARTINELL, 2012),

e nesse sentido, entende- se o "abismo" que separa os sujeitos dos objetos

culturais em relação à disparidade entre cultura e institucionalidade, como também a ideia de que quanto maior grau de civilização, maior a restrição.

Cabe dizer ainda que, considerar a cosmovisão e as alteridades de cada sistema social e os modos de vida dos indivíduos, grupos e comunidades tradicionais é hoje uma alternativa mais que emergencial para o atual modelo de desenvolvimento excludente que impera no mundo.

Sendo assim, a adaptação destes modelos e visões particulares considerando as relações culturais que privilegiam as pessoas diferentemente de públicospassariam a agir e demonstrar para as instâncias de regulamentação, sejam elas públicas, organizações culturais, de liderança comunitária ou movimentos sociais; critérios de descentralização e setorização para as políticas culturais como conquistas da gestão da participação na vida cultural.

CONCLUSÃO

Uma reflexão conclusiva para a problematização e indagação de soluções e sugestões possíveis redirecionando análises sobre os referenciais teóricos abordados apresenta a necessidade de se verificar as novas classes de problemas na atual dinâmica contemporânea para a dialética entre cultura e gestão cultural como sistemas complexos não estáveis que apresente (cultura) e represente (políticas culturais) melhor as alteridades complementares nos espaços de troca e participação como elementos fundamentais para a criação e recriação da vida cultural.

A

criação

de

propostas

e

termos

possíveis,

conceitos

novos

em

situações novas, como também antigos formatos em novos conteúdos requer a identificação por novas ciências que fazem pesquisas e não somente apresentam dados.

Ao questionar sobre a real capacidade de legitimação da dimensão subjetiva da cultura em vários processos existentes nas dinâmicas de institucionalização das políticas culturais, se percebe que devido ao sistema estrutural de continuidade e sustentabilidade destas determinadas políticas e programas culturais verificarem e se basearem apenas em conteúdos numéricos relacionados à formação de público, consumo, e difusão do acesso; a possibilidade desta proposta ser apropriada e consequentemente

ressignificada na vida cultural dos grupos e indivíduos deverá levar em consideração o teor exponencial e expansivo nos processos internos individuais decorrentes dos diálogos culturais. Ou seja, o caminho inverso a partir da cultura objetivada para a objetivação do interpretante sobre si mesmo.

Onde se identifica que a legitimação de ações culturais engendradas através da gestão da participação, anunciada no presente trabalho como as prerrogativas individuais e coletivas para os direitos culturais não oportuniza a consumação de determinadas políticas e não equacionam a tríade cultura subjetiva, objetiva e objetivada na medida em que estas prerrogativas, ou estes direitos passam a não responder mais como necessidades internas.

O processo espiralado emergente e oscilante como paradigma do desenvolvimento de novos arranjos para a compreensão dos processos culturais históricos permite a mudança de posicionamentos individuais e coletivos como afirmação de uma mudança social complexa para o fortalecimento das incertezas como metodologias de aplicação destes saberes através de uma ideologia subjacente que considere a prática dos indivíduos como condição inicial nos processos culturais.

Podendo-se observar que as capacidades individuais viventes propulsoras de novos movimentos criadores, subentendidas e transformadas em conquistas anterior aos direitos culturais, adaptadas como garantias exclusivas e incorporadas ao cotidiano daqueles que se expressam por liberdade, vai ao encontro das necessidades de entendimento da confluência das crises para irromper a confiabilidade dentro das zonas de conforto. Visto que a crise, o paradigma, não está no conflito, mas na passividade e incapacidade de diálogos construtivos para a diversidade cultural.

A diversidade cultural vista nesta situação conforme apresentada em meio ao abismo que separam os sujeitos dos objetos de conhecimento apresenta outras condições para seu entendimento como a pré-existência de um conflito individual interno: a cultura subjetiva, através de uma unidade polarizadora já existente, e a objetiva para o desenrolar das capacidades individuais e coletivas necessárias durante os processos culturais.

Outra assimilação pré-existente durante estes processos será perceber para a noção de diversidade os indivíduos como fonte de capital cultural cujas iniciativas para novos valores tentam responder a novas condições de vida.

Sugere que, nas relações centrais dentro dos sistemas institucionais são estes as exceções sobre as finalidades das convenções e acordos oriundos do participável.

A diferença entre o partilhar e o participar analisadas sobre a ótica dos modos de organizar para a criação social e cultural, demonstra alguns caminhos possíveis quando a condição para a partilha está relacionada à conquista dos bens culturais intangíveis a partir da complementariedade dos opostos e dos saberes universais dispostos em conformidade com a ética e a moral em situação de apoderamento das partes envolvidas.

A subjetividade sobre os processos internos individuais e coletivos apaziguados pela lógica da partilha dos saberes universais para o reordenamento destes como ‘ativos’ locais contribui para a dinamização e fluidez da vida cultural nos contextos em que as interpretações sobre as obras culturais do espírito são potencializadoras de novos discursos nos fluxos centrípetos e centrífugos entre o tradicional e o contemporâneo, ao mesmo tempo em que carregados dos valores universais dominantes.

De modo geral, podemos concluir que a dimensão objetivada da cultura como condição para a gestão institucionalizada das políticas culturais, é um discurso e uma ação inoperante para a existência dos atributos de reinvenção das dinâmicas culturais contemporâneas enquanto ação dos diversos agentes em apropriação dos espaços de troca para a fluidez das infinitas expressões e competências.

Assim entende-se que para a fluidez da cultura contemporânea poder ser nestes modos e moldes um georreferenciamento importante num ciclo permanente de criação e recriação, a afirmação da cultura subjetiva pelos indivíduos e grupos como reivindicação criativa para a inclusão dos conteúdos de intervenção nos mecanismos homogêneos de pactuação será também

importante principalmente sobre os processos de desenvolvimento culturais e

artísticos para a vida cultural.

BIBLIOGRAFIA

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 10ª Ed. Forense Universitária, 2008.

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