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Ma

anuela Ferreirra Leite


e: "Só liguei a Cava
aco nos
s
ano
os da Maria
M e dele""
por Ma
aria João Avillezz, Publicado em
m 09 de Maio de 2009

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Manuela
a Ferreira Le
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Ah, estou espa antada, foi uma entrrevista tão política, pensava
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avador. Maanuela conttinuava surpreendida a.

Enco ontrei-a no
o seu gab binete, cassaco azul, blusa às flores, pa ara lá de uma
mon ntanha de papéis
p e dossiês
d abeertos sobree a secretá
ária. Mas não quis que
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fotoggrafassem "naquele caos". Como a conh heço há muito,
m não mme surpreendi.
É um ma mulherr de ordem m e arrummo, mudám mos de sala. Falado ora, houve dois
brevves dedos de converrsa, não no os víamos há mais ded um ano o. Também m não
fique
ei surpresaa, sei que é comunicaativa. Mas e o país, saberá?
s Saberá que esta
mulhher que a televisão lhe mostra a de rostoo fechado e por vezzes zangad da, é
afecctuosa, gossta de com municar, ama
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coisaas e traballha muito?

Senttada numa a sala impe essoal, voou sobre as


a palavras, discurso o fluido, id
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nunciar ouu mesmo e esclarecer, mas
ela sabe
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e e decisões,, as de onttem, as de hoje. E quuanto
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O PSD está melhor


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motivadas, esttá bastante
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osição em especial dentro
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E em particular?

O que se passa no partido é afinal aquilo que toda a vida se passou: um partido
em que existem pessoas diferentes, cada um com as suas ideias e com
aspectos próprios de perspectivar a política. Toda a vida o PSD foi assim e
agora também é. Há uma ou outra pessoa que tem a sua ideia própria, mas
não considero que haja "oposições" dentro do PSD.

Dou-lhe outro nome: fragmentação. Nega que se está perante um partido


fragmentadíssimo?

Nem fragmentadíssimo, nem sequer fragmentado.

Reconhece que há um antes e um depois de Cavaco? E que a tal


fragmentação nasceu dos escombros do pós-cavaquismo?

É diferente um partido estar na oposição ou no governo e diversa a forma como


se comporta num e noutro caso. E mais quando se trata de um partido como o
PSD, que tem vocação de poder. A seguir ao Prof. Cavaco Silva o partido saiu
do poder. E, nos últimos 14 anos, 11 são socialistas. O que significa que o PSD
só esteve no poder três anos. Isto torna um partido completamente
incomparável com um partido que está dez anos no poder.

Em resumo: recusa a ideia de que com Cavaco Silva se iniciou a


desertificação do PSD? E que o pós-cavaquismo trouxe o começo da
mediocratização?

Recuso. O partido é um partido de poder, no qual esteve durante dez anos,


ainda por cima com maioria absoluta e todo o partido estava muito contente por
participar no governo. Concordo, sim, que há uma desqualificação mas é geral
na política e não exclusiva do PSD. Houve situações que para tal muito
contribuíram e dou-lhe já um bom exemplo: a lei das incompatibilidades,
aprovada na Assembleia da República e votada por todos os partidos deu uma
machadada extremamente relevante na qualificação da classe política.

Evocou há pouco os três anos de poder do PSD. Que sobra hoje deles?
Se voltasse atrás faria o mesmo?

Exactamente o mesmo. Estou absolutamente convicta de que aquilo que


propusemos era o que o país precisava. E que o governo socialista veio, aliás,
confirmar. Não há ninguém que diga que a política que estava a ser seguida
era incorrecta.
Voltando ao seu consulado e a si. Tem um passado na política, foi
ministra, deputada, líder de distrital, teve de fazer escolhas. Quais
equivaleram a momentos de ruptura ou tensão? Ou que significaram
solidão na decisão?

Lembro-me quando era ministra das Finanças de uma luta tão titânica que me
levou até a ter de prestar declarações à Assembleia da República! Foi quando
escolhi o director-geral das contribuições e impostos. Tratava-se de uma óptica
completamente diferente da que até à data tinha imperado nas escolhas dos
directores-gerais, sempre pessoas da máquina e da casa. Mas fui buscar
alguém à actividade privada, com um ordenado muito acima dos níveis
praticados até aí. E, no entanto, hoje percebe-se que foi uma escolha que
marcou: alterou completa e radicalmente a máquina fiscal - o que é uma coisa
importantíssima.

Já que falamos desse tempo: foi ministra da Educação, com Cavaco e das
Finanças, com Durão. Peço um photomaton do que foi despachar com um
e com outro.

Foram momentos muito diferentes. Um deles era de quase final de mandato, o


outro, de início. No primeiro caso eu era um ministro entre muitos outros, no
segundo, era número dois do governo. Como titular da Educação havia a
perspectiva de que não era possível mudar grande coisa porque se estava no
termo do mandato; nas Finanças, num momento muito difícil e tenso, enfrentei
uma situação de grande responsabilidade. Mas há um ponto comum: tanto
Cavaco Silva como Durão Barroso mostraram-me sempre uma total
solidariedade.

Mas havia à partida uma enorme diferença: existia um passado afectivo


ou de grande amizade com Cavaco, que não havia com Durão. Ou havia?

Conheço o Dr. Durão Barroso há muitos anos, trabalhámos juntos no partido,


fui colega dele no governo, havia, digamos, uma relação antiga. Com o Prof.
Cavaco Silva era diferente.

Diferente, como?

Uma relação mais familiar, mais íntima. Mas quem conhece o Prof. Cavaco
Silva e me conhece a mim, sabe que em nada esse aspecto influenciou, ou
influencia, a minha relação com o Presidente.
Já estava à espera dessa mas guardado está o bocado: "Cavaco-
Presidente" fica para o fim. Falávamos de escolhas, falemos de decisão.
Como é o seu processo de decisão, como parte para ele? Solitariamente
ou em equipa?

Parto sempre da análise da situação reflectindo sobre a melhor forma de a


resolver. Mas gosto muito de ouvir. Embora haja pessoas que quando me
estão a dar a sua opinião, me dizem já ter percebido qual a decisão tomada...

E isso é verdade, ou não?

Às vezes é. Mas nunca recuso a hipótese de haver alguém que me chame a


atenção para algum ponto sobre o qual ainda não tinha pensado.

Diz-se que é lenta a decidir mas depois, quando decide, obstinada na


condução dessa decisão até ao fim...

Ou será que sou lenta a mostrar que já decidi?

Voltando às escolhas: quais já teve de fazer no PSD?

A da competência, por exemplo. A da renovação. Tenho tido sempre uma


enorme preocupação em contribuir para que a imagem do partido ? e o próprio
partido ? melhorem no seu funcionamento e aí há dois aspectos fundamentais:
tentar de alguma forma que as escolhas sejam por qualificação dos
protagonistas. E veja a propósito a escolha da comissão política nacional do
partido: um conjunto de grandes quadros do PSD! Mas, quando aqui entrei, tive
a preocupação - que irei manter até ao fim - de contribuir para que o PSD se
renove e rejuvenesça. Julgo que tenho feito os possíveis...

Onde estão os sinais disso?

Na escolha do Paulo Rangel para cabeça-de-lista às eleições europeias, por


exemplo. É um evidente sinal de rejuvenescimento e renovação ter escolhido
alguém totalmente independente da vida política, que não precisa da vida
política para ter a sua profissão e a sua independência. É com preocupações
desta natureza que se pode contribuir para que a imagem dos políticos
melhore.
Paulo Rangel é exemplo de uma escolha de renovação. Então e Santana
Lopes, que não implica renovação nenhuma? Nunca aplaudiu o seu modo
de fazer política, nunca o defendeu como primeiro-ministro. Tem a noção
de que o país, no mínimo, se espantou?

As escolhas das candidaturas autárquicas pressupõem um processo diverso,


são feitas pelas distritais. Embora cabendo-me a última palavra, não tinha
nenhum argumento sólido para vetar o seu nome...

Tinha o seu critério e a sua vontade.

Vetar Santana Lopes ou qualquer outra proposta que fosse feita - e vetei várias
propostas que me foram feitas em relação às autárquicas - tinha de ter um
fundamento que não fosse apenas político e sucede que em relação a ele seria
apenas político... porque ele discordou de mim e eu discordei dele. Esse
argumento não o utilizarei nunca! Considero que a candidatura dele é a melhor
em relação à Câmara de Lisboa.

Ganhadora?

Claro que é ganhadora

Nega que tenha sido uma imposição?

Recuso que tenha sido uma imposição. A distrital propõe, não impõe. E
assumo que, perante a proposta, a aceitei e considero que é o melhor
candidato a Lisboa.

Qual é a sua relação com ele?

Ah, não sou capaz de qualificar mas é uma relação sempre muito cordial. Devo
dizer-lhe que nunca tive nenhuma razão de queixa do Pedro Santana Lopes
mas há aqui um ponto: mesmo que eu tivesse razões de queixa, as minhas
escolhas políticas não são influenciadas por problemas de natureza pessoal.
Tento sempre que as relações de natureza política não sejam influenciadas por
razões pessoais. Ou alguém estava à espera que eu tivesse vetado Luís Filipe
Menezes para a Câmara de Gaia? Sempre achei que ele deveria concorrer a
Gaia.
Mas vetou Marques Mendes na Europa.

Há aí uma confusão: eu não excluí ninguém, escolhi uma pessoa.

Preferindo-a a Marques Mendes?

Não, não preferi porque não fiz comparações. Escolhi. E há muito que tinha
escolhido o Paulo Rangel. Estava escolhido, não fiz exclusão de ninguém.

Apercebi-me que se perder a aposta com Rangel, a vida continua e a Dra.


Manuela também, desmentindo até quem diz que esta liderança tem sido
uma cruz. Mas olhando para si e para a sua segurança política

Cruz? Não tem sido cruz nenhuma! Estou bastante empenhada, muito
motivada e até lhe digo mais: estou muito entusiasmada! Nós queremos ganhar
as eleições e tenho dificuldade em imaginar outra coisa. Se por qualquer
motivo esse cenário não se verificar, continuo a considerar que o Paulo Rangel
é um excelente candidato, que foi o que melhor resultado conseguia obter e,
repito, o que dá uma imagem de renovação do partido.

Assume-se como católica e no entanto essa dimensão não a fez desaguar


naturalmente na democracia-cristã, mas na social-democracia. Que peso
ou influência tem essa dimensão cristã na actividade política? São
compartimentos estanques, ou esses valores encenam de algum modo a
sua actividade diária na política?

Não são nada questões estanques, antes verdadeiramente condicionadoras da


minha actividade.

Em que sentido?

No sentido de serem as questões que mais me preocupam. A solidariedade


social, apoiar os mais desprotegidos, a procura de uma política em que esteja
mais presente, cada vez mais presente, a justiça social. Nada disso me é
indiferente.

Quem a conduziu à social-democracia?

Para mim teve uma enorme influência no facto de ter escolhido este partido e
não outro, a figura do seu primeiro líder. Sá Carneiro, que era um social-
democrata, exerceu uma imensa influência em mim. Identifiquei-me muito com
ele, aprendi muito com ele, foi um exemplo. E mantém-se hoje uma referência.
Como o Prof. Cavaco Silva.
Falando na política no feminino. O cliché aponta-a para Thatcher.

Os clichés são sempre redutores, e evidentemente que eu não tenho a


pretensão de me identificar com pessoas com a dimensão de uma Margaret
Thatcher...

Por favor, que modéstia

Não sou modesta, sou humilde.

O país, agora: se bem percebi, é contra as agendadas obras públicas


porque há uma crise que, na sua opinião, não as recomenda agora. E
advoga maior protecção às pequenas e médias empresas, onde pensa
estar maior possibilidade de produtividade e desenvolvimento

... e de maior emprego, especialmente.

Não é modesto como únicas bandeiras?

Parecem-lhe poucas, mas são o fulcro da decisão. É a opção que tem de ser
feita. Ou se orienta o país da forma como ele tem estado a ser orientado nos
últimos anos - um modelo absolutamente esgotado! - ou se muda de modelo.
Parece-lhe pouco mas é muito. O meu modelo é não apostar mais na despesa
pública, o que inclui investimento e consumo público mas no sector privado:
exportações e investimento privado, interno ou externo. É um modelo
completamente diferente.

Condena tudo neste governo.

Não condeno tudo, evidentemente. Na vida nunca se condena tudo. Acho que
a reforma que foi feita na Segurança Social, por exemplo, podia ter ido mais
longe - como todas as coisas podem sempre ir mais longe - mas não condeno
uma reforma que contribuiu para a sustentabilidade da Segurança Social.
Embora tenha fortes dúvidas de que a política que está a ser seguida no
combate à crise não esteja a deteriorar o equilíbrio da Segurança Social que foi
feito à custa de uma reforma que considerei correcta.
Discorda das medidas contra a crise?

Não! Com certeza que são necessárias. Considero no entanto que muitas
delas estão mal orientadas, e que outras não estão a ser concretizadas.
Anuncia-se e eu concordo com o anúncio. Depois, quando vou ver se estão a
ser concretizadas, na prática, não estão. Por exemplo quando se abrem linhas
de crédito para apoiar as empresas, é bom que se saiba quais são as
empresas que dizem estar a ser apoiadas por uma linha de crédito aberta pelos
bancos para resolverem o seu problema.

Não a temos ouvido sobre a justiça, problema que aflige qualquer


português.

Não é por falta de eu já ter falado tanto dela! E falei porque sendo a justiça um
pilar do Estado de Direito, está totalmente descredibilizada. Existe um
sentimento de impunidade na sociedade portuguesa, que é crítico, que não
ajuda a este sentimento de vivermos num Estado de Direito - o que é mau para
a democracia. E também tenho dito muitas vezes que considero que o maior
constrangimento ao crescimento económico do país neste momento é o
sistema de justiça. Não é susceptível de criar o ambiente necessário para que
muitos dos investidores invistam, e muito menos é atractivo para o investidor
estrangeiro. Este sistema de justiça está verdadeiramente a restringir a nossa
potencialidade de crescimento económico. Se não for resolvido, com
dificuldade cresceremos.

Um dos aspectos mais causadores de polémica na governação socialista


é a Educação. Foi ministra da Educação. O que é que teria sido diferente
consigo?

Quando este governo tomou posse, concordei com muitas das medidas
anunciadas por esta ministra da Educação. Parecia-me alguém bem
intencionado e com ideias certas para a educação.

Fala no passado. Já não acha?

Não. Não passou de anúncio. As ideias foram aventadas, não concretizadas.


Dou--lhe um exemplo: a exigência em relação aos alunos. Parecia que ia ser
alvo de mudança, que iria haver avaliações concretas mas afinal que sucedeu
com os exames de Matemática, em que houve unanimidade quanto a terem
sido intencionalmente fáceis? Ora isto não é de alguém que quer introduzir
uma real exigência no sistema e aliás de que valem diplomas se eles não
forem reconhecidos pela sociedade? Por outro lado, a avaliação dos
professores é algo que todos entendem ser absolutamente essencial. Os
professores também e eu também. Ninguém está contra esse princípio.
Discordo é do modelo. E é insustentável de executar na prática. Houve ali uma
teimosia que não conduzindo a lado nenhum levou à paralisação do sistema e
a uma agressão muito grande aos professores. Não é possível fazer reformas
contra as classes profissionais nelas envolvidas.

Dê-me duas, três razões que ditem uma preferência no voto no PSD
liderado por si e não no PS de Sócrates?

Um: o facto de considerar que, tal como tenho insistido, há aqui uma política de
verdade. Detesto política de fantasias. Dois: não faço promessas que nunca
pensarei executar. Três: acredito que o projecto do PSD para o país é aquele
que conduzirá ao seu crescimento e ao bom combate contra a crise. O PS já
provou o contrário.

É um peso ter de fazer esquecer a imagem infeliz dos últimos governos


PSD?

Como disse há bocadinho, em 14 anos o PSD governou apenas três. E


governou a seguir a um governo do PS que deixou o país num pântano - como
o próprio Eng. Guterres o qualificou. Quando entrámos, era difícil fazer coisas
com grandes benefícios para o país, pois começámos por tentar limpar o
pântano. Ainda ele não estava limpo, voltaram os socialistas - por motivos que
não vale a pena explicitar.

Vale, vale: o país não queria, nem mais um segundo, o PSD a governá-lo.

Não quis o Dr. Jorge Sampaio. Alguém que claramente defende a estabilidade
governativa mas que derrubou uma maioria absoluta no Parlamento. Julgo que
é caso único na democracia.

Falemos do Presidente da República e daquilo que, na sua opinião, deve


ser a cooperação institucional. Qual deve ser o bom modelo das relações
entre o Presidente e o primeiro-ministro?

Aquele onde cada um tenha absoluta consciência dos poderes constitucionais


que tem: um para governar e o outro para desempenhar as funções
presidenciais. E eu não tenho qualquer dúvida de que o Presidente da
República tem a total consciência de quais são os seus poderes e os limites
dos seus poderes bem como a forma como pode influenciar para que a política
governamental se oriente num sentido ou noutro. Não tenho dúvidas acerca
disso.
Como vê a relação do Presidente com os partidos?

Aquela que é. Total abertura para, caso haja essa necessidade, ouvir as
preocupações ou inquietações dos diferentes partidos. Admito que haja
determinados pontos a partir dos quais já só reste aos partidos políticos
recorrer ao Presidente. Mas nunca me aconteceu pedir uma audiência especial
ao Presidente da República, seja por que motivo for. Nunca pedi.

Nas pós-eleições, o cenário verosímil será a falta de uma maioria


absoluta. Logo, uma crise política. Que deve fazer o Presidente da
República?

Peço desculpa, mas discordo absolutamente de que não havendo uma maioria
absoluta, haja uma crise política.

E como é que um governo minoritário, seja ele de quem for, faz aprovar o
próximo orçamento?

Temos diversos exemplos de governos minoritários que viram aprovados os


seus orçamentos. O que é preciso, é que a oposição seja responsável. E
quando a oposição é responsável, se o orçamento for responsável e tiver os
ajustamentos necessários às grandes críticas da oposição, isso só pode
melhorar o funcionamento da democracia e não piorá-lo.

Está-me a dizer que o PSD pode vir a votar favoravelmente o próximo


orçamento em caso de vitória socialista?

Estou a dizer que o PSD soube sempre estar à altura das suas
responsabilidades de opositor responsável e a relembrar que por isso mesmo
nunca um Orçamento Geral do Estado ficou por aprovar por culpa do PSD.

E também está a confessar algo de muito interessante: que uma maioria


absoluta não pressupõe por si só estabilidade nem é garante automático
de bondade política. É isso?

Uma maioria absoluta é boa ou má, consoante o uso que dela se faz. Há
exemplos negativíssimos desta maioria absoluta e, como esta, prefiro não a ter.
Não é portanto pelo facto de existir uma maioria absoluta que o país daí
beneficia. O país não beneficia de uma maioria absoluta que não ouve
ninguém, que dispensa qualquer contributo e não melhora por ouvir os outros.
Da mesma forma que considero que houve governos minoritários que
cumpriram e deixaram boa memória - foi o caso do primeiro governo do Prof.
Cavaco Silva - e houve más experiências como foram os seis anos do Eng.
Guterres, em que não foi pela ausência de maioria absoluta que não foram
feitas outras coisas no país. E o governo governou durante seis anos, não
foram dois nem três. O que me recuso taxativamente a admitir é que só se
pode governar com maioria absoluta e que sem ela, não há forma de governo.
Não é verdade. Os dois exemplos que citei contradizem isso.

Seja sob que forma for, os portugueses já praticamente interiorizaram


uma coligação futura, de que o seu partido será certamente um dos
protagonistas. Se o Presidente da República promover um bloco central,
dir-lhe-á que não?

Tenho muita dificuldade em responder a essa pergunta em termos tão gerais...

A pergunta não pode ser mais concreta.

Primeiro, não advogo a necessidade de uma maioria absoluta para governar o


país. Só perante factos e protagonistas concretos é que poderia responder-lhe.

Protagonistas concretos? A senhora e o Eng. Sócrates.

Mas esse protagonismo é absolutamente inviável, porque se há pessoas


diferentes no país somos eu e o Eng. Sócrates. Há casamentos que à partida
sabemos que não funcionam

O Presidente não parece pensar assim. Não apelou ele já duas vezes a

Não considero de modo algum que tenha havido um apelo do Presidente à


concretização de um bloco central! Aquilo a que o Presidente apelou - e muito
bem - foi à necessidade de consensos. E consensos é justamente o que não se
tem verificado com esta maioria absoluta. O Eng. Sócrates teima em tomar um
determinado tipo de decisões que não me parecem sequer legítimas a seis
meses de eleições! E tenta tomá-las, a despeito de toda a sociedade dizer
rigorosamente o contrário. Foi a esses consensos que acho que o Presidente
da República apelou e não à necessidade - ou à obrigatoriedade - de haver
uma coligação. Ele próprio governou em minoria, e governou muito bem.

Ponto final: não está portanto disponível para uma coligação com
Sócrates?

Não estou sobretudo disponível para discutir cenários antes do tempo

Detesta-o?

Não se trata disso. É muito difícil sentar a uma mesma mesa duas pessoas que
têm projectos tão diferentes para Portugal, achando eu que o país deve seguir
um determinado rumo e considerando ele que deve seguir outro. Tenho dito
muitas vezes que os interesses do país nem sempre estão acima dos
interesses de outra natureza - coisa para mim absolutamente inaceitável! - e
portanto acho que são cenários que não contemplo, nem contempla o Engº
Sócrates. Somos duas pessoas completamente diferentes, temos projectos
opostos para o país.

E uma coligação à direita?

Estou disponível para assumir o governo do país nas condições que eu


considerar adequadas para esse momento. Aquilo que assumo é que vou
ganhar as eleições. E, ao ganhar as eleições, vou governar de acordo com
aquilo que forem as circunstâncias nesse momento.

Não percebi... pode ser mais concreta?

Não. Repito: não gosto de trabalhar sobre cenários. Só lhe digo que vou às
eleições para as ganhar. E que não deixarei de ser responsável para assumir o
governo do país e resolver os seus problemas da forma mais adequada.

E se o Presidente considerar - contra si - que o adequado e o racional é


uma coligação, não está disponível para ela?

Não estou a ver que o Presidente da República intervenha até esse ponto.

Mas já interveio. Disse há pouco que Cavaco era um modelo político


inspirador para si. Em quê?

Na forma séria, honesta, rigorosa, de fazer política e, muito especialmente,


pelo facto de eu ter a certeza absoluta que sempre e em todas as
circunstâncias põe os interesses do país acima dos interesses partidários ou de
quaisquer outros.

Detesta mentir, nem sequer sei se sabe mentir por isso vai ver-se aflita
agora: há quanto tempo não fala com o seu amigo Aníbal?

Desde a última vez que tive uma audiência na Presidência da República, que
foi para a marcação das eleições europeias. E fi-lo de uma forma institucional.
E já viu que chatice que é para si o país não acreditar nisso?

Paciência. Tenho pena porque, durante os dez anos em que foi primeiro-
ministro, eu sei - e ele também sabe - que nunca na vida peguei no telefone
para lhe falar.

Não era preciso. Podia vê-lo em sua casa ou na dele

Sim, sempre fui a sua casa, sempre falei ao telefone com ele mas nunca
enquanto foi primeiro-ministro ou agora que é Presidente. Enquanto esteve em
S. Bento só liguei para lá em três ocasiões excepcionais: no Natal, nos anos da
Maria e nos dele. Nem nunca fui lá a casa sem ser convidada.

E há quanto tempo não é convidada para a Travessa do Possolo?

Desde que é Presidente da República, nunca mais fui a sua casa.

Mas há maneiras de se fazerem encontros através de terceiras pessoas:


você pedir-lhe um conselho, ele sugerir uma orientação.

Que ideia! Ia lá criar-lhe constrangimentos desses!

http://www.ionline.pt/content/3708-manuela-ferreira-leite-so-liguei-cavaco-nos-anos-da-maria-e-dele