PIERRE ROSANVALLON E A “NOVA QUESTÃO SOCIAL”

Ademir Weidauer Rosemari Taborda1 Francieli Piva Borsato As Diretrizes Curriculares aprovadas pela categoria em 1996 materializou a ruptura com o Serviço Social da década de 80 com o entendimento de que o Serviço Social é Trabalho e possui um processo de trabalho próprio, e o reconhecimento da categoria “questão social” como objeto fundante da profissão Serviço Social. A ênfase na categoria “questão social” se sustentou na compreensão de que o Serviço Social gesta-se a partir de uma nova particularidade de enfrentamento da chamada questão social, ou seja, no momento em que a “questão social” se torna alvo de políticas sócias, estimulando a criação de profissões especializadas, dentre elas, o Serviço Social. Entender que a gênese da profissão se constrói a partir dos mecanismos de intervenção do Estado nas expressões da “questão social” permite entender os fundamentos que levaram a Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS), hoje Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), eleger em 1996 a categoria “questão social” como fundante da profissão. (ABESS, 1997). Nesse sentido, busca-se com aqui estudar a categoria “questão social”, trazendo algumas notas do autor Pierre Rosanvallon na perspectiva de contribuir para o debate que hoje se faz presente nas instâncias da academia e nos espaços sócio-ocupacionais dos assistentes sociais. A posição ideo-política desse autor ao tratar a “questão social” permite fazer alguns apontamentos sobre qual é a compreensão sobre a “questão social” de que parte os assistentes sociais nas suas ações? A expectativa é de aproximar o mais fiel possível a
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Acadêmica do 4º do curso de Serviço Social da Unioeste – Campus de Toledo. Rua Guairá 2250, La Salle. Cep 85902140. Toledo – Paraná. cel. (45) 99672105. e-mail: rosemaritaborda@yahoo.com.br.

Análises completas sobre o Estado Providência francês podem ser encontrados na obra citada de Castel (1995). invalides. o que. discordando das compreensões de Rosanvallon sobre a “questão social que postergam solucioná-la na esfera da circulação. Na França especificamente ele se estruturou sob o suporte de um sistema de seguridade no qual as garantias sociais. Argumenta esse autor que no início da década de 1980. em um Estado de Serviços. associadas a seguros obrigatórios. segundo ele. 49). a base da denominada “questão social”. Pierre Rosanvallon e a nova “questão social” De acordo com Pastorini (2004. aposentadoria. mantendo as estruturas do atual sistema capitalista de produção que tem em sua marca a contradição entre capital e trabalho. exclusão. Na perspectiva de que o Estado deve responder de forma inovadora a esses “novos problemas”. até o inicio dos anos 70. a partir do momento em que os problemas como desemprego. não mais conjunturais e residuais como se acreditava durante os “Trinta Anos Gloriosos”2. baseado em ajudas diferenciadas. desemprego.compreensão de Marx sobre a sociedade. o crescimento do desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza afastou o ideal construído com o desenvolvimento do Estado Providencia implementado durante o pós-Segunda Guerra Mundial. entre outros). o debate em torno da existência de uma “nova questão social” irrompe na Europa e nos Estados Unidos no final da década de 1970. isto é. cobriam riscos da existência tais como doenças. 2 3 Refere-se aos anos que se segue à segunda Guerra Mundial. estaria indicando uma ruptura com a “questão social” emergente em meados do século XIX cujos fenômenos se enquadravam nas categorias da exploração do homem e seus métodos de gestão eram pensadas em função do risco coletivo que agrava em risco da coesão e da solidariedade. Agora esses métodos se mostravam inadaptados às atuais problemáticas. solidárias e individualizadas. Rosanvallon (1998) propõe transformar o Estado Providencia3. pobreza. bem como em Rosanvallon (1998). passam a ser percebidos como estados permanentes. p. . Estado Providencia é o que se denominou chamar o Estado que passou a assumir e a reconhecer direitos sociais como sua responsabilidade.

A alternativa proposta pelo autor implica uma solidariedade baseada nas ajudas diferenciadas aos sujeitos das ações enquanto indivíduos e não mais classes em risco. p. onde o autor aponta que na França. Esse fato concreto. desde os anos 70. e c) a filosófica. cujos principais problemas são: a desintegração dos princípios de solidariedade e o fracasso da concepção . que “traduz a suspeita de que o Estado empresário não administra eficazmente os problemas sociais.Não se trata mais de pensar os problemas em função do risco. Nesse período. A universalidade teria inibido os sentimentos de solidariedade. Dessa forma. Esta categoria se mostra agora inapropriada. dirá o autor que o Estado Providencia funcionava por um “véu de ignorância”. uma vez que os problemas se tornaram permanentes. Ela corresponde à dúvida a respeito de um instrumental cada vez mais opaco e crescentemente burocratizado. ao perceber os riscos de forma homogênea. as conseqüências dos progressos realizados pela medicina genética permitiram a sociedade ter mais conhecimentos das diferenças. enquanto as receitas elevam-se entre 1 e 3%. presente nos anos 80. que ter-se-ia iniciado na década de 90. os membros da sociedade não mais percebiam a nação como uma classe de risco relativamente homogêneos e sim individualizados. Para o autor é preciso recuperar os fundamentos técnicos e operativos que subsidiaram o Estado Providencia em sua gênese e trazê-lo para a nova realidade do pós 1970 momento em que ele se caracteriza por sendo um Estado Providencia passivo. De fato.24). os dispêndios crescem em torno de 8%. 1998. agora. conscientes de suas diferenças. pois. uma vez que este era medido em função do risco em que cada da um se encontrava. permitiu a Rosanvallon sinalizar a crise do Estado Providencia4 que acompanha o surgimento de uma “nova questão 4 Os abalos sofridos pelo Estado Providência segundo Rosanvallon são de três dimensões que representam também três etapas: a) a financeira. perde-se a racionalidade das diferenças. essa forma de Estado causou um equívoco teórico ao homogeneizar os tratamentos. o que veio mudar a percepção do que era justo e injusto prevendo quem poderia possivelmente precisar de um seguro doença ou não. entre outros. ainda com seu sistema de proteção social de natureza universal e mecanismos de assistência social adequado aqueles segmentos da população em estado de risco. colocando em dúvida a concepção tradicional dos direitos sociais. que prejudica a percepção da sua finalidade e provoca uma crise de legitimidade” (ROSANVALLON. Somando a isso. b) a ideológica.

cujo circulo vicioso segundo ele era o de continuar indenizando desempregados.). ser procedida mediante análises do social a partir da história individual e resultar numa assistência diferenciada. Conforme já visto. sendo financiado por impostos” (ROSANVALLON. o autor diz ser necessário caminhar na direção oposta. p. assegura benefícios uniformes a todos os membros da coletividade. produtor de “civismo”: “já que nem o mercado (. conforme aponta. O Estado Providencia de Bismarck “tinha por base o mecanismo dos seguros sociais. É a esse surgimento do seguro social que se associa a origem do Estado de Bem-estar. necessariamente. ou seja. Rosanvallon partilha da idéia de que as políticas universais do Estado providência estão ultrapassando. p. promovendo uma assistencialização .25). como foi criado na Inglaterra.. em especifico no Brasil a Comunidade Solidária. em que as prestações são a contrapartida dos pagamentos (modelo instalado na Alemanha nos anos 1880).social”. é veículo necessário para que existam ações solidárias no interior da sociedade civil e deve. o Estado deve assumir a forma de um Estado providencia ativo. 1998. a noção do ‘terceiro setor” surge necessariamente na ordem do dia” ( ROSANVALLON. 1998. Retomar os modelos de Estado Providência bismarckiano e beveridgeano5 e refundar o princípio da solidariedade para que estes subsistam.. Para ultrapassar os limites do Estado Providencia passivo. pelas mãos da assistencialização da proteção social6 em nome da tradicional de direitos sociais. Essa justificativa de redefinição política e filosófica do contrato social para enfrentar às particularidades históricas das manifestações da “questão social” na atual conjuntura – o que Rosanvallon insisti em chamar de “nova questão social” – ganha importância quando se está pensando em diminuição do Estado. Essa é a proposta com a qual o autor enfatiza enfrentar a “nova questão social”.. Sua proposta é de resgatar o espírito cívico adotado e desenvolvidos nos Estados Unidos no período pós-guerra. (ROSANVALLON. 1998. a inserção pelo trabalho. têm indicado uma marcante transferência “invisível” das ações estatais para o privado. 6 Essa expressão é utilizada com base em Rose Mary Sousa Serra que utiliza essa expressão para indicar a situação atual com que os modelos.. [Já] o Estado Providencia de Beveridge. 51). 137). onde se configura ações do Estado para o setor privado. A inserção social pelo trabalho. 5 É com Bismarck na Alemanha no final do século XIX que surge o primeiro sistema de seguro social. Portanto. nem o Estado (. p.) podem criar atividades sociais que ultrapassam o Estado providencia passivo.

È possível notar que a estratégia apontada por Rosanvallon articula-se coerentemente com a busca de desresponsabilizar o Estado do processo de garantia dos direitos de cidadania. senão na desigual distribuição da riqueza acumulada pelo sistema produtivo. o que está se evidenciando é uma mudança no âmbito das relações entre as classes e o Estado.solidariedade. 169-184. ao mesmo tempo. 2004. nº 6 p. A questão social hoje. e nem foi apresentado à sociedade no século XX. Brasília: UnB. 59). Por trás de todo esse processo de mudança no enfrentamento à “questão social”. R. A proposição de Rosanvallon de reinvenção do Estado com vistas a manter a coesão social é alvo de críticas de vários teóricos: Temos sérias dúvidas que o “Estado-providência ativo” proposto pelo autor seja capaz de “exercer justiça” através do conhecimento das diferenças entre os homens e dando a eles um tratamento diferenciado. 174. 199. Rosanvallon comete distorções ao tratar da “nova questão social”. In. Por isso. Ser Social. o problema não pode ser resolvido nas suas margens: no momento da redistribuição (PASTORINI. p. Sob a premissa de restauração da sociedade. Nota-se que para Rosanvallon a crise do Estado providência que acompanha a “nova questão social” exige a retomada dos princípios de solidariedade e espírito cívico que da proteção social. O problema das desigualdades capitalistas não radica aí.M. (SERRA. resgatando o sentimento cívico da solidariedade e. Revista do Programa de Pós-graduação em Política Social. Janeiro a junho. terceirização e privatização – elementos presentes na reforma do Estado que vem sendo . em específico após 1970 (BATISTA. mantendo as relações existentes no capitalismo. 2000. onde se encaixam os processos de publicização. Mudança essa configurada pelo atual contexto histórico-social da crise dos padrões de regulação sócio-Estatal e a difusão do neoliberalismo com sua retórica de Estado-mínimo. p. implementada no Brasil desde finais dos anos 80.S. descentralização. cuja origem é a exploração dos trabalhadores e a concentração dos meios de produção nas mãos da classe capitalista. 2002). pois: o desemprego e as conseqüências sociais que derivam deste problema central não é novo.

PASTORINI. N. Doutorado de Serviço Social. esp. REFERÊNCIAS BATISTA Alfredo. Pierre. Pontifícia Universidade Católica – São Paulo.. de Sérgio Bath. nov. Alejandra. Trad. baseado em ajudas diferenciadas. para Castel a crise da sociedade salarial requer o resgate do Estado Protetor enquanto um Estado Estrategista . 2004. A categoria “questão social” em debate. A nova questão social: repensando o Estado Providência. . 1998. Ou seja. CADERNO ABESS. ROSANVALLON.. ed. A Questão Social e as refrações no Serviço Social brasileiro na década de 1990. 2004.7. assumindo a forma de um Estado providencia ativo. 1997. São Paulo: Cortez. Brasília: Instituto Teotônio Vilela. não propõe resolver embrião do problema e sim apenas suas manifestações: o Estado protetor Ativo. São Paulo. solidárias e individualizadas.estavam presentes no pós Segunda Guerra Mundial e que permitiu a legitimação do Estado providência.

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