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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Cristina Santos Silva 53647


Eduardo Jorge da Cruz Dantas 9748
Luísa Filipa R. G. F. de Sousa 53621
Nelson Manuel Amorim Silva 9624

2
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Índice

Introdução …………………………………… Pág. 3

As Novas Conflitualidades …………………………………… Pág. 5

11 de Setembro. Antes e Depois …………………………………… Pág. 9

Terrorismo no Paquistão …………………………………… Pág. 13

O Combate ao Extremismo Paquistanês …………………………………… Pág. 15

A Jihad em Mudança …………………………………… Pág. 16

O legado Militar …………………………………… Pág. 18

Onde encontrar a Jihad? …………………………………… Pág. 21

a)Sunitas e a Jihad Global …………………………………… Pág. 22

b) Jihad Regional: JeM e LeT …………………………………… Pág. 23

O grupo Jamaat-ud-Dawa …………………………………… Pág. 25

A Talibanização do Paquistão …………………………………… Pág. 26

Tréguas no Vale Swat? …………………………………… Pág. 28

O papel das Madrassas …………………………………… Pág. 29

1. Quantas madrassas existem no Paquistão? …………………………………… Pág. 29

2. Sectarianismo e as Madrassas… …………………………………… Pág. 33

O Combate ao Terrorismo Global e o Paquistão …………………………………… Pág. 38

Um caminho para o Paquistão …………………………………… Pág. 39

Conclusão …………………………………… Pág. 41

Bibliografia …………………………………… Pág. 42

3
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

INTRODUÇÃO

Depois de alguma reflexão e debate entre os vários elementos do grupo de


trabalho de Geopolítica, optámos pelo tema O Paquistão no Centro das Novas
Conflitualidades. Para além de um assunto de inegável interesse actual, pareceu-nos
exemplar dentro do contexto das Novas Conflitualidades. Por outro lado, tínhamos
uma grande vontade de aprofundar conhecimentos relativos à ligação do Paquistão ao
terrorismo, uma vez que estávamos conscientes da sua importância e implicações no
contexto da segurança global. Posto isto, o caminho a seguir estava traçado.

Todavia, teríamos ainda que estruturar o trabalho, dar-lhe corpo e coerência,


para que numa fase mais adiantada não revelasse lacunas que seriam mais difíceis de
colmatar.

Então, considerámos indispensável agregar ao trabalho a análise aos efeitos do


11 de Setembro na ordem internacional. Representou, sem dúvida, um ponto de
ruptura e, a partir daí, um grande sentimento de insegurança invadiu a planeta que
despertou para as novas dimensões do terrorismo.

Após o necessário enquadramento do trabalho, seria chegada a altura de


passarmos a uma descrição da realidade paquistanesa e das suas ligações ao
terrorismo. Este novo terrorismo, ou terrorismo pós moderno, é ensinado nas
madrassas paquistanesas – autênticas escolas de formação e treino de terroristas –, e
o facto de o Paquistão ser um país islâmico que possui armas nucleares, torna-o um
ponto altamente sensível no quadro da análise à segurança mundial. Trata-se de uma
zona do globo cada vez mais instável, um verdadeiro barril de pólvora prestes a
explodir, se as medidas necessárias não forem tomadas. O Paquistão é, juntamente
com o Afeganistão, um dos principais portos de abrigo a nível mundial dos radicais
islâmicos. A partir do Paquistão, num mundo cada vez mais globalizado, fluxos de
terroristas deslocam-se para vários pontos do globo, com implicações na segurança
mundial e, por isso, dizemos que se encontra no centro das novas conflitualidades.

Para finalizar, sentimos que o trabalho ficaria incompleto se não fizéssemos


alusão ao que deve e pode ser feito para combater o fenómeno do terrorismo. Era
preciso apontar caminhos para resolver o problema – soluções não as temos,

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

infelizmente. A nível Global e no caso particular do Paquistão. Daí a inclusão do


subtema O Combate ao Terrorismo Global e o Paquistão.

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

AS NOVAS CONFLITUALIDADES

A Transformação da Guerra

Foram muitos os factores que foram alterando ao longo dos tempos as guerras,
bem como as vontades de as fazer. Desde Clawsewitz1 e da sua frase...a guerra é a
continuação da política por outros meios2, para que a reflexão sobre a filosofia da
guerra e da paz sofresse também ajustes de acordo com os tempos. A estratégia
assume hoje mais do que um papel de planeamento de generais, a condução destas,
seus movimentos e divisões de forças. A estratégia, tal como a via Clausewitz, como
um tripé de forças, que engloba a preparação das tácticas militares, a aplicação dos
planos no campo de batalha e a logística envolvida na manutenção do exército.

A Guerra é um confronto sujeito a interesses de disputa entre dois ou mais


grupos de indivíduos mais ou menos organizados. Pode dizer-se que a guerra civil é
um confronto entre grupos pertencentes a um mesmo povo, ou entre povos ou etnias
habitantes de um mesmo território ou país. Pode ter motivos variados: religiosos,
étnicos, ideológicos, económicos, territoriais, de vingança ou de posse.

Aqui, a política, ou a arte de exercer o poder público – em regimes


democráticos – ocupa um lugar de destaque, pois é deste exercício que pode ou não
nascer uma guerra ou a manutenção da paz, ausência de perturbação.

A constante procura da tecnologia e melhores condições de vida tornam o


Século XX como sendo marcado pelo conflito3, embora aparentemente a paz estivesse
instalada. Por trás de uma calma aparente de políticas que pareciam consolidar os
interesses dos povos e as suas autonomias, surgem os dados reais dos destroços de
todos os conflitos. Afinal, a política parecia fracassar ou então desencadear um outro
processo de continuidade, através de meios que devoram os estados4 e se impõem à
sua soberania.

Internamente, procurou-se o desvincular de terceiros estados, na sua maioria


verdadeiros “senhores feudais” que se sobrepunham aos reais interesses dos seus
1
Carl Von Clausewitz, General e Estratega Militar Prussiano
2
Carl Von Clausewitz, On War, Londres, Plain Label Books, 1968
3
Maria do Céu Pinto, “Tendências nos Conflitos de Fraca Intensidade”, Revista Nação e Defesa,
Outono-Inverno de 2005, Nº 112 – 3ª Série, pp 17-32.
4
Martin Van Creveld, The Transformation of War, NI, The Free Press, 1999.

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

povos autóctones. Exigiam-se de estado para estado, independências várias e foi este
o palco das guerras a que fomos assistindo no Século XX.

A partir da Segunda Guerra Mundial, o conflito foi-se tornando cada vez mais
intrínseco ao próprio estado, mas com o culminar do fim da Guerra Fria, esta falta de
identidade do inimigo5, a falta de informação da origem do mau - estar foi-se
generalizando, e isto acontece hoje com mais frequência, num mundo globalizado e
caracterizado como “era da informação”. Estes inputs da informação não são
assimilados com a serenidade que deveria impor-se a cada momento pelos actores
internacionais e seus dirigentes. São sim causadoras, também elas, de uma constante
corrida contra o tempo que não nos deixam pensar. Simplesmente compilámos
informação, não a tratámos. Assim, os civis são a parte cada vez mais significativa
das vítimas de conflito, e são hoje os alvos preferenciais de grupos mal formados, mal
informados, mas que, acima de tudo, conseguem os intentos dos seus actos – a
mediatização da gravidade de cada situação. Em cada momento, procuram enraizar-
se6, adaptar-se à mudança e às fragilidades das estruturas sociais. Por seu turno, a
efectiva vigilância dos conflitos é feita a posteriori, o que acarreta em si, logo à
partida, uma posição de desvantagem. As negociações não são atractivas para estes
grupos que, ao que parece, terão maiores ganhos com a manutenção deste clima de
medo e suposto poder.

À medida que encontramos hoje, novas formas de guerrear, de baixo custo e


sem exércitos formados para o efeito, podem estas condições ser as mais favoráveis
para que o vírus propague e se espalhe. Os estados, até então soberanos tenderão a
perder o controlo dos seus povos, territórios e exércitos, segundo Martin Van Creveld.
É uma guerra assimétrica, onde se torna difícil discernir quem é vítima e quem é o
agressor7. Num mundo cada vez mais próximo, todos estes actos acabam por ter
repercussões à escala global, ultrapassando facilmente as fronteiras onde no passado
se guerrearam por conquistas, posses ou simples hegemonia. A transnacionalidade
dos conflitos gera então uma onda crescente de tensões que é vista como uma
necessidade de prevenir e actuar em operações de peacekeeping por parte da ONU. A
instabilidade governativa, as desigualdades de oportunidades, o vazio legislativo, a
tradição de ocupação de territórios e do poder, a existência de recursos naturais de
5
Id., p. 20
6
Ibid.
7
Ibid.

7
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

excelência, faz com que as atenções estejam hoje focadas no Médio Oriente, deixando
de parte outras regiões, também elas carenciadas de alguma atenção.

Os conflitos internos8 de fraca intensidade, segundo Creveld, estão a ocupar um


lugar central, pois o investimento em armas, mobilização de exércitos e energias
despendidas em seu torno, está agora voltada para as novas tecnologias e para o
decréscimo das despesas militares. A guerra convencional, corpo a corpo, transmutou-
se para novas técnicas e abordagens, às quais é necessário responder com prontidão.
A guerra enquanto meio9 para a obtenção da paz, pode, nos dias de hoje estar em
causa, pois também a política está a sofrer mutações nos seus sistemas clássicos.

A anarquia tenta agora desafiar os estados enquanto autoridades máximas, na


sua perspectiva realista10 das relações internacionais. Para além da ausência de um
poder aglutinador no sistema internacional, somos hoje confrontados com estas novas
realidades de terror, grupos armados e de milícias académicas que servem de base de
explicação aos governantes do investimento na educação. São exemplo disso, as
Madrassas no Paquistão11, que suportam as suas “missões” numa outra tendência da
actualidade que se mantém desde os anos da descolonização - os conflitos étnicos que
levam ao acentuar de nacionalismos e que, por sua vez, levam à desagregação dos
estados. E esta intensidade é tanto maior, quanto maior o seu grau de autoridade,
repressão e imposição de poder. Por outro lado, quando se analisam a inserção em
contextos de rivalidades regionais, este mostra-se também um factor desestabilizante
e onde a necessidade de sobrevivência e sobreposição se acentuam. Os conflitos que
perduram no tempo acabam por criar o clima apropriado à corrupção e ao crime, pois
destroem as estruturas cívicas e políticas, essencialmente para os estados falhados,
mas também para aqueles onde predominam regimes repressivos, onde estas
estruturas são manipuladas. Mas não são apenas os estados os actores em causa,
neste cenário hostil, também as organizações não governamentais sofrem as
consequências de não poderem levar a efeito os seus propósitos. Não conseguem
penetrar no terreno considerado onde se instalam os terroristas, em campos de

8
Ibid.
9
Teoria da Balança de Poder – evitar a preponderância/hegemonia de um ou mais Estado.
Referência ao legado de Tucídides – operacionalização do conceito.
10
Kenneth N. Waltz, Teoria das Relações Internacionais, Harborside, Gradiva Publicações, 2002
11
Maria do Céu Pinto, “Tendências nos conflitos de fraca intensidade”, Nação e Defesa, 3ª
série, nº 112, Outono/Inverno de 2006, p. pp.17-32

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

treino, depósitos de armas e centros de comunicação. O terrorismo deixou de ser uma


actividade marginal para se tornar numa forma moderna de guerra12.

As novas conflitualidades sustentam-se no passado, mas apresentam uma mutação


hoje, complexa e difícil de determinar.

12
Pinto, op. cit. Pp. 17-32

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

11 DE SETEMBRO: ANTES E DEPOIS

O dia 11 de Setembro de 2001 era um dia perfeitamente normal em Nova York.


Às 8-45h, hora local, acaba-se a normalidade. Um avião de passageiros choca contra
a torre norte do W.T.C., poucos minutos depois, outro avião choca contra a torre sul.
Milhares de mortos desaparecidos debaixo do betão armado. O antigo símbolo do Sul
de Manhattan transforma-se num amontoado de escombros!

Mas o horror continua. Pouco passava das 9 horas, quando cai outro avião
sobre o Pentágono. E, às 10h10, cai na Pensilvânia, um outro avião não conseguindo
atingir o seu alvo: Camp David – residência de campo do Presidente dos E.U.A.

O mundo inteiro fica em estado de choque. Os E.U.A. vivem os primeiros


ataques terroristas gigantescos da história desta manifestação atroz de violência.

Este acto de terrorismo contra o Wall Trade Center traz uma mensagem: as
grandes metrópoles da sociedade industrial moderna serão os novos alvos deste tipo
de terrorismo fortemente inspirado no islamismo. Este novo desafio é acolhido de
braços abertos por terroristas fanáticos, que transformam as lições do Alcorão numa
ideologia politica13.

Ossama Bin Laden torna-se o principal suspeito da onda de terror de 11 de


Setembro. Estes acontecimentos trouxeram para a actualidade o poder de uma
Organização Não Governamental: a Al-Qaeda, enquanto actor geopolítico

Não havendo certezas que Bin Laden tenha sido o autor destes actos terroristas, ele
proclama-se como o “promotor” do terror islamita14. Promove as ideias sem ter a
necessidade de actuar. Os seus “pupilos” seguem-no religiosamente. São treinados
em campos de terroristas - no Afeganistão, sob o comando do seu “tutor” Bin Laden
-e formados para criarem células autónomas e infra-estruturas capazes de perpetrar
um ataque altamente destrutivo.

Após os atentados de 11 de Setembro, o ambiente internacional nuca mais foi o


mesmo. A sociedade civil vive em constante ameaça: não se sabe onde e quando
ocorrerá o próximo ataque, e, menos ainda, quem será o seu autor.

13
Michael Pohly e Khalid Durán, Ossama Bin Laden e o terrorismo internacional, Lisboa,
Terramar, 2001, p. 6.
14
Pohly e Durán, op.cit., p.8.

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Os danos humanos, físicos, políticos e financeiros causados por estes ataques


tornaram a comunidade internacional num estado permanente de alerta às novas
dimensões de terrorismo facilitadas pelos avanços tecnológicos presenciados nos
últimos anos.

O cenário do terrorismo internacional e os seus actores sofreram uma mudança


radical na viragem do século. Os “clássicos” terroristas dos anos 70 e 80 deixaram de
existir dando lugar, dando lugar a novas formas de guerra ou de um conflito. Os
conflitos inter-estaduais deram lugar a conflitos internos. Entraram em cena novos
actores com objectivos igualmente novos. Grupos como o PKK curdo, o Hamas, os
terroristas de Ossama Bin Laden, os cartéis de droga da Colômbia representam esta
nova onda de terrorismo ou o chamado terrorismo pós-moderno. Estes novos
guerreiros operam em pequenas unidades flexíveis e não precisam de recorrer às
forças armadas convencionais.

Entre os terrorismos tradicionais e o terrorismo pós-moderno, apenas o uso do


terror como arma ameaçadora dos povos é o objectivo comum. Alterou-se a lógica do
terrorismo. A estratégia antiterrorista, hoje, precisa de ser radicalmente diferente.

Os terroristas tradicionais pertenciam a um território, e assumiam uma lógica


política, nacionalista ou ideológica, mas sempre referente a um Estado. Eram vistos,
antes de mais, como uma questão de segurança interna. Hoje, o terrorismo é
desterritorializado, transnacional e conduzido por uma organização não estatal, com
capacidade de mobilizar meios de informação e de acção que até aqui só os Estados
eram capazes de tal acção Assim, uma lógica nacional passa a global e da lugar a um
conflito internacional.

Outra das diferenças: os terroristas tradicionais possuíam uma estrutura


hierárquica e piramidal e uma liderança conhecida. Isto é, tinham um rosto, um
interlocutor. O terrorismo pós-moderno, pelo contrário, tem uma estrutura difusa, os
comandos deixam de ter uma sede central, para terem uma estrutura móvel de
células, o que dificulta a defesa e o combate contra eles.

Por sua vez, os objectivos destes dois tipos de terrorismo também manifestam
as suas diferenças. Enquanto que no terrorismo tradicional tinham objectivos políticos
definidos e declarados, podendo ou não ser legítimos, mas eram legíveis e até
negociáveis; o terrorismo pós-moderno, ao invés, não tem objectivos políticos fixos e
declarados. Tem objectivos diferentes e raramente reivindicados: a retirada das forças
ocidentais do Iraque, punir o Ocidente (atentados nos E.U.A., Espanha e Inglaterra,

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

punir o Islão moderado que fomenta o turismo ocidental, na Indonésia ou na


Tunísia)15.

É bem provável que o nº de mortos provocados pela guerra do século XX, não
seja ultrapassado pelo terrorismo pós-moderno do século XXI, mas a insegurança, o
medo e a violência armada continuarão a causar sofrimento e perdas em grande parte
do mundo. A possibilidade de um século de paz é remota16.

Graças a uma rápida globalização da economia mundial, baseada em empresas


privadas e transnacionais que procuram exercer as suas actividades à margem de leis
internas e impostos, o que limita severamente a capacidade, até dos grandes
governos, para controlar as suas economias nacionais. Em consequência da tão
apregoada teologia de mercado livre, os Estados estão a deixar muitas das suas
tradicionais actividades – serviços postais, policia, prisões, até mesmo partes vitais
das suas Forças Armadas – nas mãos de empresas privadas com fins lucrativos. A
força armada já não é monopólio exclusivo dos Estados, qualquer organização de
carácter terrorista poderá ter acesso a pequenas mas altamente eficazes armas de
guerra.

Esta degeneração patológica da violência politica sentida nos últimos anos,


aplica-se tanto às forças estaduais como às forças de outras organizações. Uma
cultura de drogas e posse de armas faz parte do quotidiano dos bairros antigos das
cidades, especialmente entre os mais jovens. Em contraposição aos antigos exércitos
que serviam os interesses do Estado, assiste-se à ascensão da força militar
profissional a tempo inteiro, sobretudo de forças especiais de elite. Os meios de
comunicação cada vez mais presentes e envolventes acabam com os limites da
razoabilidade. As imagens, sons, e descrições da violência nas suas formas extremas
são parte da vida quotidiana, e já nem o próprio Estado é capaz de limitar a sua
prática.

O facto de os terroristas perceberem que a mediatização dos seus actos está ao


alcance das televisões de todo o mundo, torna-os mais satisfeitos do que ter cumprido
os seus objectivos. O assassínio em massa de seres humanos insignificantes tem mais
impacto do que os alvos para as suas bombas.

15
Nuno Severiano Teixeira, O Terrorismo Pós Moderno, Diário de Noticias, 31 de Março, 2004
(em www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=9&ida=50)
16
Eric Hobsbawm, Globalização, Democracia e Terrorismo, Lisboa, Editorial Presença, 2008,
p.35

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

No entanto, há um promotor de violência ilimitada mais perigoso ainda. A


convicção ideológica. Aceitar que a causa dos nossos é tão justa, e a do adversário
tão terrível, que todos os meios para alcançar a vitória ou evitar a derrota não são
apenas legítimos mas também necessários. Isto significa que tantos os Estados como
os terroristas sentem ter uma justificação moral para a barbárie. Observou-se, na
década de 1980, que os jovens militantes do Sendero Luminoso, no Peru, estavam
perfeitamente dispostos a matar populações inteiras de camponeses, de consciência
absolutamente tranquila; afinal, não estavam a agir enquanto indivíduos que
poderiam ter sentimentos a respeito daquilo, mas enquanto soldados ao serviço da
causa17.

A guerra patrocinada por estes novos terroristas esconde um dilema: a cultura


da vida (o bem mais precioso do ser humano) e uma cultura da morte (levada a cabo
por terroristas suicidas).

17
Hobsbawm, op. Cit., pp. 117-118.

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Terrorismo No Paquistão

Enquadramento histórico

A independência do Paquistão ocorreu com a divisão da India britânica, em


1947. Facto que levou à existência de enormes fluxos de refugiados e a milhares de
mortos, tanto na comunidade muçulmana, como na hindu. Desde aí, o Paquistão e a
Índia travaram três guerras – 1948, 1965 e 1971 – sendo que a última levou à
separação do Paquistão Oriental e à criação do actual Bangladesh.

Desde 1958 que o exército tem desempenhado um papel importante no sistema


político paquistanês. Este, por tradição, alia-se com grupos religiosos para enfrentar a
oposição dos partidos políticos mais moderados.

O poder, entre 1972 e 1977, foi entregue aos civis, sob a chefia de Zulficar Ali
Bhutto que, após o golpe de estado do General Zia-ul Haq, é condenado à morte.
Tornando-se Zia o terceiro presidente militar do Paquistão.

O regime de Zia foi profundamente influenciado pela lei islâmica. Influência que
se foi estendendo ao sistema jurídico e à educação, apoiando os partidos
fundamentalistas e as madrassas∗. Criou e patrocinou grupos extremistas islâmicos
que, apoiados pelos Estados, fomentaram a Jihad anti-soviética no Afeganistão.

Após a morte do General Zia, em 1988, o poder é devolvido aos civis, contudo,
os militares continuam a dominar áreas políticas fundamentais, nomeadamente, o
recurso a grupos de militantes islâmicos para a jihad em Caxemira – sob
administração indiana – e no apoio ao regime talibã no Afeganistão. A década de 90
foi, também, marcada pelas lutas entre o Partido Popular do Paquistão (PPP) e a Liga
Muçulmana do Paquistão (PML-N), de Nawaz Sharif. Além disso, esta década é
também marcada pela má governação e a ingerência na prática governativa por parte
dos militares – que acabaram por derrubar três governos, impedindo, desta forma,
que nenhum dos partidos terminasse o seu mandato.

A iniciativa de paz do governo de Nawaz Sharif, no início de 99, foi de pouca


dura pois em Maio do mesmo ano, dá-se a incursão em Kargil sob as ordens do Chefe
do Exército General Pervez Musharraf. Em Outubro de 1999 ocorre o golpe militar
conduzido pelo General Musharraf.


Madrassa – a palavra “madrassa” quer dizer “escola” em Árabe. A sua forma no plural é “madaris”, no entanto, por
uma questão de simplificação optou-se por usar o termo, no plural, português “madrassas”.

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Após os ataques de 11 de Setembro de 2001, o governo de Musharraf juntou-se


aos EUA – naquela que ficou conhecida como a “guerra ao terror” – invertendo,
claramente, o seu apoio ao regime talibã no Afeganistão. Todavia, enquanto promovia
a sua imagem de grande reformador a nível internacional, internamente apoiava os
partidos fundamentalistas; retrocedia nos seus compromissos no combate aos grupos
jihadistas e na reforma das madrassas; promulgando reformas políticas e
constitucionais que centralizavam o poder no exército e nos civis próximos do
regime18.

18
International Crisis Group, “Conflict History: Pakistan”, Abril 2009 (em
http://www.crisisgroup.org/home/index.cfm?action=conflict_search&l=1&t=1&c_country=86)

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

O Combate ao Extremismo Paquistanês

As promessas

A 13 de Novembro de 2003, a embaixadora estado-unidense, no Paquistão,


afirmava que o governo do seu país estava preocupado pelo ressurgimento de grupos
terroristas islâmicos paquistaneses, agindo abertamente com novos nomes mas com
os mesmos líderes de antes. Aliás, na altura, as investigações preliminares do governo
às tentativas de assassinato do Presidente Musharraf indicavam existir um nexo entre
redes terroristas internacionais e grupos terroristas domésticos do Paquistão.

Todavia, o governo militar paquistanês estava mais interessado em ter um


aliado valioso no parlamento do que nas ameaças do terrorismo e do extremismo.
Percebeu, no entanto, que, nos comentários da embaixadora, havia uma acusação
velada à sua inércia e tomou, por isso, medidas contra algumas organizações
extremistas, proibindo-as.*

Todavia, os líderes das organizações proibidas nunca foram a julgamento, tendo


– meses mais tarde – sido libertados ao abrigo de uma amnistia geral. Ou seja,
apesar de todo um discurso apelando a reformas, erradicar o extremismo islâmico
nunca foi um assunto prioritário para Musharraf e os seus “aliados civis”. A prioridade
do presidente era e continuaria a ser a legitimação e consolidação do regime militar.
Até Dezembro de 2003, o governo de maioria militar hesitava em agir contra os
partidos fundamentalistas, esperando, dessa forma, ganhar o apoio do Muttahida
Majlis-i-Amal (MMA) ao pacote de emendas constitucionais, que instituía o domínio da
sua política militar19. O acordo obtido por Musharraf com o MMA formalizava –
oficialmente – a sua aliança com os mullahs.** Enfrentando a concertação de todos os
partidos moderados da oposição, Musharraf tornou-se, ainda mais, dependente dos
mullahs para garantir a sobrevivência do regime.

A Jihad em Mudança

*
Banindo, nomeadamente, a Islami-Threek-e-Pakistan, Millat-e-Islamia Pakistan e Khuddam-
ul-Islam. A 20 de Novembro de 2003, o governo, proíbe mais três grupos: Hizb-ul-Thereer,
Jaat-al-Furqan e Jamiat-ul-Ansar.
19
International Crisis Group - Asia Report nº40, Pakistan: Transition to Democracy, 3 de
Outubro 2002.
**
Muçulmano, educado na teologia islâmica e na lei sagrada.

16
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

O aparecimento constante de militantes radicais nas áreas tribais do Paquistão


tem desviado a atenção dos grupos sunitas, há muito instalados no território. Estes
grupos continuam a ser a mesma, senão maior, ameaça à segurança interna, regional
e global. Os grupos radicais Deobandis20, melhor financiados e organizados, têm
mudado o focus dos seus ataques. Enquanto que, antes, estavam direccionados para
as mesquitas e altas autoridades Xiitas, agora estão, a pouco e pouco, a aumentar os
seus ataques contra símbolos do Estado paquistanês. As tácticas de terror incluem,
actualmente, o uso de explosivos altamente sofisticados, bombistas-suicidas, carros-
bomba e a partilha de informação e recursos entre as várias células.
Simultaneamente, a guerra contra os pretensos inimigos internos – grupos religiosos
e seitas minoritárias – não tem diminuído, assumindo até contornos de uma certa
talibanização das NWFP e das FATA.

As madrassas Deobandis e as suas mesquitas, que fornecem uma parte dos


recrutas, têm sido fundamentais para a ascensão dos Talibãs paquistaneses, alinhados
sob as ordens do Tehrik-i-Taliban (Movimento dos Talibãs, TTP), como o foram nos
anos 90. A recolha de fundos, que inclui actividades criminais, tais como, raptos e
assaltos a bancos, ganhou uma nova acuidade com os extremistas tribais a expandir o
seu controle fora do território e a reatar os laços que tinham com os carteis de droga
e contrabando no Afeganistão. Os extremistas possuem agora maior capacidade em
recursos humanos, dinheiro e acesso a equipamento.

De acordo com o Instituto de Estudos para a Paz no Paquistão, ocorreram 2.148


ataques terroristas em 2008, um aumento dramático de 746 por cento face ao ano de
2005, que mataram 2.267 pessoas e feriram gravemente 4.500. Os confrontos entre
as várias seitas tribais, inicialmente na região de Kurran nas FATA e nas áreas
fronteiriças, resultou em 1.336 mortes (conf. Quadro 1 e 2)21. Apesar da maioria
destas mortes ter ocorrido nas NWFP e nas áreas tribais, isto não quer dizer que a
ameaça esteja confinada a à zona Pashtun, como, aliás, se confirmou no dia 20 de
Setembro com o ataque bombista ao Hotel Marriott na capital federal, Islamabad.

20
Os Deobandis são uma das quatro sub-seitas sunitas, onde se incluem os Barelvis, Ahle
Hadith e movimentos revivalistas. Os radicais Deobandis apropriaram-se da designação e auto-
denominaram-se sunitas; ou seja, o que é, habitualmente, apelidado de conflito sunita-Xiita é,
mais correctamente, um conflito Deobandi-Xiita
21
Pakistan Institute for Peace Studies, “Pakistan Security Report 2008”, Janeiro de 2009 (em
www.san-pips.com/new/downloads/03.pdf)

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O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Ataques Terroristas no Paquistão

4500
4000
3500
3000
Ataques
2500
Mortos
2000
Feridos
1500
1000
500
0
NW Ba P S I A A A T
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u is b ab C
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2. Natureza dos Ataques


Nº de
Tipo de Ataque Incidentes Mortos Feridos
Ataques Terroristas 2148 2267 4558
Ataques Operacionais - 3182 2267
Confrontos entre forças
95 655 557
de Segurança e extremistas
Violência Política 88 162 419
Confrontos inter-tribais 191 1336 1662
Confrontos fronteiriços 55 395 207
TOTAL 2577 7997 9670

Apesar de muitos observadores, incluindo oficiais do governo, apontarem a


responsabilidade do ataque ao Hotel Marriott, a grupos localizados nas FATA, alguns
investigadores suspeitaram de um grupo implantado no Punjab – o Harkatul Jihadul
Islami (HUJI).22 O conselheiro do ministro do interior Rehman Malik atribuiu, mais

22
Este grupo (HUJI) foi, também, suspeito de estar envolvido na tentativa de assassinato do
Presidente Musharraf em Dezembro de 2003, e da antiga Primeiro-ministro Benazir Bhutto no
ataque suicida em Karachi, no da 18 de Outubro de 2007, que matou cerca de 140 pessoas
(em http://www.thenews.com.pk/top_story_detail.asp?Id=17417).

18
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

tarde, o ataque ao grupo Lashkar-e-Jhangvi (LJ), outro ramo do grupo radical


Deobandi (Sipah-e-Sahaba Pakistan – SSP), localizado no Punjab, com ligações à Al-
Qaeda.

Embora os ataques, como os de Mumbai, simbolizem um evidente focus em


interesses e alvos ocidentais, os radicais sunitas continuam, no entanto, a atacar os
Xiitas e outras minorias religiosas.

O Legado Militar

Os grupos radicais contaram, desde o primeiro momento, com o beneplácito do


Estado, em especial, durante o regime militar do General Zia-ul-Haq, nos anos 80.
Foram apoiados com o duplo objectivo de combater (jihad) no Afeganistão anti-
soviética – com o apoio dos Estados Unidos – e promover a ortodoxia Sunita no
Paquistão. O patrocínio estatal continuou mesmo durante o intervalo democrático nos
anos 90, com o exército a promover a jihad através dos seus aliados radicais em
Kashmir, de administração indiana e a apoiar os talibãs no Afeganistão. Enquanto isso,
os grupos Sunitas proliferavam e tinham um crescimento cada vez maior, tornando-se
a violência sectária a primeira fonte de terrorismo no Paquistão.

Em face da pressão internacional exercida após o 11 de Setembro de 2001,


Musharraf recuou no apoio do governo ao regime talibã em Kabul, prometendo
combater os grupos extremistas internos. Os esforços neste combate foram, no
entanto, altamente selectivos. Depois da deposição dos talibãs, muitos dos seus
militantes de grupos radicais sunitas, que perderam as suas bases no Afeganistão,
voltaram para o Paquistão. A apatia do governo foi tal que permitiu que até os
militantes talibã e da Al-Qaeda se instalassem nas áreas tribais, a partir das quais
aprofundaram os contactos com os grupos jihadistas paquistaneses. Além disso, o
governo de Musharraf não conseguiu levar avante o compromisso de reformar as
madrassas23 permitindo, desta forma, uma segunda geração de militantes treinados
nestas organizações, nos campos terroristas paquistaneses e capazes de estabelecer
ligações com outras células e de criar outras tantas.24

23
International Crisis Group Asia Report nº73, Unfulfilled Promises: Pakistan’s Faillure To
Tackle Extremism, 16 de Janeiro de 2004.
24
International Crisis Group Asia Report nº130, Pakistan: Karachi´s Madrasas and Violent
Extremism, 29 de Março de 2007.

19
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

As prioridades das altas patentes militares têm um papel importante nesta


política do “fechar de olhos” à presença dos grupos radicais Sunitas. Ou seja, um
grande número de novos grupos jihadistas emergiu debaixo dos olhos de Musharraf
sem que este tivesse feito muito para os impedir.

Considerado o mais poderoso de todos, o grupo Jaish-e-Mohammed, formado em


Fevereiro de 2000, é apoiado pelas agências de inteligência militares. Enquanto o
poder dos radicais aumentava e o poder do estado diminuía, grupos, como Jaish-e-
Mohammed, deslocavam os seus campos do Punjab, Sinde, Azad Jammu e Caxemira
para as áreas tribais na fronteira com o Afeganistão, aprofundando as suas ligações
com os talibãs afegãos e paquistaneses. As suas redes – as madrassas e as mesquitas
– ficaram, no entanto, intactas.

O falhanço do governo militar no combate contra os extremistas religiosos pode


ser também atribuído à sua dependência dos partidos religiosos, com o quais tinha
uma aliança – Muttahida Majlis-e-Amal (MMA), do partido pró-Talibã Jamiat Ulema-e-
Islam (JUI-F) e do Jamaat-i-Islami (JI) – para fazer frente aos partidos moderados.

Para ser ajudado na sua consolidação do poder, Musharraf, permitiu que o MMA
prosseguisse a islamização das NWFP. Em Junho de 2004, a assembleia de província
da NWFP deixou passar 50 artigos da Sharia, declarando que esta seria a lei suprema
da província e, simultaneamente, atribuiu ao governo poder para criar três comissões
que examinassem a forma de islamizar a educação, a economia e o sistema judicial.

O acordo de Sakay, assinado entre o regime militar e os militantes radicais no


sul do Waziristão em 2004, alargou as amnistias e os apoios financeiros aos Talibãs
paquistaneses e permitiu que estes impusessem a lei islâmica através dos tribunais
onde se aplicava a Sharia. Em Setembro de 2006, sob mediação do JUI-F, o governo
chegava a um acordo similar no Waziristão Norte, em que concordava em desmantelar
os postos de controlo, libertar os radicais feitos prisioneiros em operações anti-
terroristas e devolver as armas, veículos e outros equipamentos apreendidos. Estes
acordos alargavam o espaço político dos combatentes islâmicos sem qualquer efeito
no que à paz diz respeito, dotava-os, isso sim, de um poder de influência nas áreas
tribais e em alguns distritos das NWFP, incluindo o vale Swat, que exponenciou o
descontrolo em que se encontram os Talibãs paquistaneses.25

25
International Crisis Group Asia Report nº125, Pakistan’s Tribal Areas: Appeasing the
Militants, 11 Dezembro 2006.

20
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

No que toca ao papel dos militares, as suas acções contra os grupos


extremistas foram apenas reactivas, em resposta a algumas pressões internacionais e
nunca tomadas por iniciativa própria. Uma aplicação mais vigorosa da lei podia ter
prevenido que o extremismo religioso tivesse atingido as proporções que tomou. Em
2006, por exemplo, as medidas por parte do governo de Musharraf para controlar o
mercado negro das armas – em Dara Adamkhel – surtiram pouco efeito. A
proliferação de armamento desta cidade para todas as partes do país fortaleceu as
milícias de todo o Paquistão.

O regresso do poder civil é uma oportunidade para conter o aumento do


radicalismo. Na sua primeira declaração no parlamento, o Presidente Zardari, propôs
uma estratégia tripla para combater o extremismo: negociações com os militantes que
renunciassem à violência e que entregassem as armas; reformas políticas e sociais na
zona tribal; e o uso da força contra a violência radical.26 Em Novembro de 2008, o
governo formou uma comissão parlamentar, no âmbito da segurança nacional, para
acompanhar a implementação desta estratégia.

Caracterizando o grupo Tehrik-i-Taliban como uma extensão da Al-Qaeda,


Rehman Malik, o conselheiro do ministro do interior, admitiu que os bombistas
suicidas, os mentores e financiadores estão localizados no Paquistão, contrariando a
ideia de que o terrorismo é importado e resultado do conflito Afegão.27

Enquanto que o governo reconhece as ligações entre os militantes tribais e os


grupos sectários jihadistas, incluindo o Lashkar-e-Jhanvi, deve, no entanto, também
combater as organizações localizadas em Caxemira, em particular o Lashkar-e-Tayyba
e o grupo Jaish-e-Mohammed, responsáveis pelos ataques terroristas nos vizinhos
Afeganistão e Índia. Ambas as organizações possuem ligações estreitas com os Talibãs
afegãos e paquistaneses. Apesar do Presidente Zardari continuar a argumentar que o
seu governo já está a combater os vários grupos suspeitos de estarem envolvidos nos
ataques aos seus vizinhos – como foi o caso dos ataques a Mumbai – a verdade é que
muito há para fazer, nomeadamente, uma acção mais firme contra os militantes
Deobandis Sunitas, no coração do país, no Punjab, a província mais populosa do
Paquistão.

26
Texto da primeira comunicação do Presidente Zardari ao parlamento, Associated Press of
Pakistan, 20 de Setembro de 2008.
27
Tariq Butt, “Suicide bombers, handlers & Financiers área all pakstanis: Malik”, The News, 9
de Setembro de 2008 (em http://thenews.jang.com.pk/print3.asp?id=17119).

21
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Onde encontrar a Jihad?

Dois dias depois dos ataques ao Hotel Marriott, o governador da NWFP previa
uma vaga de ataques suicidas no sul do Punjab, oriunda da problemática região
tribal.28 A 6 de Outubro de 2008 um bombista suicida ataca a casa do parlamentar
Xiita (PML-N), Rashid Akbar Niwani no Punjab, matando 25 pessoas e ferindo 60,
incluindo Niwani. Foi um ataque que, consensualmente, foi atribuído ao grupo
Lashkar-e-Jhangvi.29 Em Fevereiro de 2009, outro suicida ataca uma celebração de
xiitas – numa mesquita do distrito de Dera Ghazi Khan, no Punjab – matando mais de
30 pessoas. Em Março de 2009, um grupo de homens armados, atacou a equipa de
Críquete do Sri Lanka durante a sua visita a Lahore, ferindo vários dos jogadores e
matando 5 seguranças. Se, por um lado, estes ataques parecem confirmar a
advertência do governador Ghani, por outro, este tipo de radicalismo não parece
resultar apenas dos talibãs paquistaneses. Antes pelo contrário, os grupos extremistas
Deobandis, com as suas ramificações no Punjab, enganam quanto às raízes do
radicalismo no Paquistão.

28
Aoun Abbas Sahi, “The Punjab connection”, Newsline, Outubro de 2008 (em
http://www.newsline.com.pk/NewsOct2008/cover3oct2008.htm)
29
Além de ser um político xiita proeminente, Niwani, ajudou a receber muitos xiitas afectados
pela violência radical da vizinha Dera Ismail Khan, um distrito da NWFP.

22
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

a) Sunitas radicais e a Jihad global

A interdependência entre as organizações militantes da jihad, localizadas no


Punjab, e a Al-Qaeda aprofundaram-se a partir de 2001-2002 – quando muitos dos
radicais fugiram das forças internacionais aquando dos ataques no Afeganistão – e
foram apoiados pelas ramificações dos extremistas Sunitas para, desta forma, se
conseguirem reorganizar em várias partes do Punjab. Actualmente, o grupo LJ é o
eixo que liga a Al-Qaeda, os talibãs paquistaneses e os vários grupos radicais.
Elementos do sistema judicial descrevem um dos seus líderes, Matiur Rehman,
residente em no distrito de Bahawalpur no sul do Punjab, como uma das faces desta
aliança tripartida.30 Entre Agosto e Dezembro de 2007, existiram nove ataques
suicidas no Punjab; mais nove ataques em 2008 que mataram 170 pessoas e feriram
pelo menos 500. Em cinco destes ataques, os suicidas usaram explosivos especiais, o
que denota um alto nível de sofisticação. Os principais alvos, em muitos destes casos,
foram instituições do estado e forças de segurança, incluindo o exército, marinha e
polícia.

Tendo estabelecido bases e campos de treino no Afeganistão no final dos anos


90, os grupos SSP (Sipha-e-Sahaba Pakistan) e LJ treinaram com a Al-Qaeda e deram
apoio ao regime talibã na sua luta contra o a Aliança do Norte e a comunidade xiita
afegã. No seu retorno ao Paquistão, depois da intervenção dos americanos em 2001,
os grupos SSP e LJ estabeleceram contactos com grupos jihadistas regionais, tais
como, o Jaish-e-Mohammed e LeT (Lashkar-e-Toiba). O LJ criou um centro de treino
em Muridke, onde Jamaat-ud-Dawa – o antigo LeT – tinha a sua sede. Em Dezembro
de 2006, o LJ estabelecia uma nova ligação ao grupo localizado no vale Swat TNSM
(Tehrik-e-Nifaz-e-Shariat-e-Mohammadi) – um aliado dos talibãs afegãos e
paquistaneses – com o objectivo de alvejar altas autoridades políticas e forças
internacionais no Afeganistão, assumindo declaradamente o papel de recrutar suicidas
para essas missões.31 As madrassas, mesquitas e campos de treino, do grupo SSP e
do LJ, espalhados pelo Paquistão são canais para combatentes, armas e fundos do
Punjab para outras partes do país, onde se incluem naturalmente a NWFP e as FATA.
Em Novembro de 2008, o conselheiro do ministro do interior, Malik, declarava que a
Al-Qaeda estava a usar o SSP, o LJ e grupos localizados em Karachi para atingir os
30
International Crisis Group Asia Report nº160, Reforming the Judiciary in Pakistan, 16 de
Outubro de 2008.
31
Segundo estatísticas e documentação fornecida ao International Crisis Group pelos serviços
de Inteligência do Punjab, Lahore, Dezembro de 2008.

23
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

seus objectivos. Os militantes tribais têm poupado os membros do LJ e os grupos


radicais do Punjab; muitos destes extremistas, presos nesta província, são agora
residentes habituais das FATA. A militância radical no Punjab tem, por seu turno,
assumido características semelhantes à dos Talibãs, com os donos de lojas de CD’s e
DVD’s a serem constantemente ameaçados pelos extremistas. Em Setembro de 2008,
o Nishtar Medical College, em Multan, foi alertado para abandonar o ensino misto sob
pena de vir a sofrer represálias.32

b) Jihad regional: Jaish-e-Moammed e Lashkar-e-Tayyaba

1. Por detrás de Caxemira

Os grupos jihadistas regionais merecem uma atenção especial, pois continuam


a obter apoio dos militares, apesar dos compromissos assumidos pelo Paquistão na
“guerra ao terror”. Estes grupos alargaram o se raio de acção sob a capa da jihad em
Caxemira. O grupo Jaish-e-Moammed, por exemplo, está envolvido em acções radicais
violentas no Punjab e em Karachi, e combatendo, também, ao lado dos Talibãs
paquistaneses nas faixas fronteiriças. Inclui também bastantes trabalhadores do SSP
nas suas fileiras.33 A organização mãe, Harkatul Mujhadin, que operava em Caxemira,
foi uma das apoiantes do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, quando este pediu na
fatwa de 1998 uma jihad contra os Estados Unidos e os judeus. Em conjunto com o
LeT, participou no ataque ao parlamento indiano, em Dezembro de 2001. Esteve
também ligada a três das acções da Al-Qaeda: a bomba no sapato de Richard Reid
que tentou fazer explodir um avião em Dezembro de 2001; o assassínio do jornalista
americano Daniel Pearl, cerca de dois meses mais tarde, em Karachi; e dos atentados
bombistas em Londres a 7 de Julho de 2005.

O líder do grupo Jaish, Amjad Farooqi, formalmente o líder do banido Harkatul


Mujahidin, foi supostamente o interlocutor privilegiado entre a Al-Qaeda e os grupos
jihadistas internos até ser morto num tiroteio, em Maio de 2004, estando o seu lugar,
actualmente, ocupado pelo líder do LJ, Matiur Rehman. Tal como Rehman, Farooqi foi
associado ao líder Talibã Mullah Omar e ao líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden.34

32
Aoun Abbas Sahi, “The Punjab connection”, Newsline, Outubro de 2008 (em
http://www.newsline.com.pk/NewsOct2008/cover3oct2008.htm)
33
International Crisis Group Asia Report nº75, The State of Sectarianism in Pakistan, 18 de
Abril de 2005.
34
Ahmed Rashid, Descent into Chaos: How the war against Islamic extremism is being lost in
Pakistan, Afghanistan and Central Asia, Londres, Allen Lane, 2008, pp. 231-232.

24
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Mesmo depois da morte do seu líder, o grupo Jaish, continua a ser a chave de ligação
entre os grupos jihadistas internos e redes internacionais de terroristas, com uma
presença que vai bem mais longe que o Punjab. Tal como o SSP e o LJ, os seus
campos de treinos são canais para os combatentes que circulam do Punjab para as
faixas tribais. O grupo LeT, agora Jamaat-ud-Dawa (JD)* depois de banido por
Musharraf em 2002, é outro apoiante da jihad global da Al-Qaeda35 Em Março de
2003, o líder do antigo LeT, Hafiz Saeed, apelava publicamente à jihad no Iraque
contra os Estados Unidos, Israel e a Índia.36 As ligações deste grupo com as
comunidades empobrecidas das diásporas paquistanesas, em particular a britânica,
providenciam uma adaptabilidade e um conhecimento do meio internacional que
fazem deste grupo – de acordo com Bruce Riedel, um antigo analista da CIA e,
actualmente, conselheiro do Presidente Barack Obama – “uma séria ameaça (à Grã-
Bretanha e aos Estados Unidos) tal como é a Al-Qaeda”.37 O grupo JD foi, por
exemplo, implicado como co-autor na tentativa de fazer explodir aviões americanos
provenientes da Grã-Bretanha, em Agosto de 2006.38

Até há pouco tempo, a sede do JD em Muridke, a maior cidade comercial


próxima de Lahore, atingia os 200 acres, com ensino, residência e outros serviços,
incluindo a sua própria mesquita. Albergava 3000 estudantes, incluindo, os de nível
universitário.39 O grupo criou este complexo em 1988, com fundos provenientes da
Arábia-Saudita, para promover e expandir o ensino do wahhabismo. O complexo
continuou, no entanto, aberto mesmo depois da proibição imposta por Musharraf.

O grupo continuou a ser pedra basilar no confronto indo-paquistanês. Daí se perceba


a resistência que o governo de Musharraf tinha em relação às pressões dos Estados
Unidos para proibir o JD. O apoio foi mais evidente aquando do terramoto em

*
JD é a ala humanitária do LeT.
35
Gilles Kepel, “Al-Qaeda on the Run”, Newsweek, 22 de Dezembro de 2008
36
Rashid, id., p.228
37
“LeT Terrorists in UK greatest Threat to U.S., CIA tells Obama”, The News, 9 de Fevereiro de
2009 (em http://thenews.jang.com.pk/print3.asp?id=20190)
38
Dexter Filkins e Souad Mekhennet, “Pakistan charity under scruttiny in plot”, New York
Times, 14 de Agosto de 2006 (em http://www.ladlass.com/intel/archives/010967.html)
39
Amid Mir, “Índia might target Muridke to Avenge Mumbai”, The News, 2 de Dezembro de
2008 (em http://thenews.jang.com.pk/print3.asp?id=18732)

25
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Caxemira, em Outubro de 2005, em que marginalizou organizações civis nos resgates,


preferindo canalizar fundos para o JD e outros grupos jihadistas.40

Em Março de 2006, apesar dos protestos públicos dos partidos moderados, o


regime de Musharraf permitiu ao JD a organização de um comício em Lahore,
condenando os cartoons dinamarqueses do Profeta Maomé, que mobilizou cerca de
20.000 pessoas.

2. O grupo Jamaat-ud-Dawa depois de Mumbai

Com o Conselho de Segurança das Nações Unidas a catalogar o JD como uma


organização terrorista, em 10 de Dezembro de 2008, ao abrigo da resolução 1267, o
governo do PPP proibiu oficialmente o grupo, detendo alguns dos seus líderes, reteve
os seus bens e fechou os seus escritórios por todo o país, em Azad Jammu e
Caxemira.

Acusado de orquestrar os ataques de Mumbai, o JD passou a dar mais ênfase


ao seu lado mais caritativo, tentando distanciar-se do LeT.41 Um porta-voz do LeT,
entretanto, diz, “os nossos esforços estão confinados a Caxemira e não temos
qualquer relação ou associação com grupos armados operando a nível internacional.
Não possuímos uma agenda global. Apenas queremos a liberdade de Caxemira e
congratular-nos-emos se esta for conseguida por meios pacíficos”.42

As acções de ajuda do grupo JD estão longe de ser inocentes. Depois do


terramoto de 2005, por exemplo, implantou a segregação sexual e tornou obrigatórias
as orações islâmicas nas suas bases da NWFP.43 O grupo promoveu activamente
campos de treino e literatura jihadista.44 Em Fevereiro de 2009, a secção do JD em
Layyah, distrito do Punjab, pressionou a polícia a registar casos de blasfémia contra
quatro estudantes Ahmadis* num centro de estudo privado, e apelaram a todos os
Ahmadis a abandonarem a escola.

40
International Crisis Group Asia Briefing nº46, Pakistan: Political Impacte of the Earthquake,
15 de Março 2006.
41
“Jamaat-ud-Dawa denies militant link”, Dawn, 5 de Dezembro de 2008.
42
Iftikhar Gilani, “LT to support democratic struggle to liberate Indian-held Kashmir”, Daily
Times, 19 de Janeiro de 2009.
43
International Crisis Report, id.
44
International Crisis Group interviews, Islamabad and Karachi, Outubro de 2008.

26
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

O argumento de que os grupos mais vocacionados para a jihad em Caxemira


não afectam a estabilidade do Paquistão e os seus interesses na região é falacioso.
Com ataques como os de Mumbai, estes grupos dinamitam a política do governo PPP
em relação à Índia, fazendo com que uma normalização das relações entre os dois
países seja cada vez mais difícil.

A Talibanização do Paquistão

Zonas Disputadas ou sob controlo Taliban

Não se deve ver a Talibanização paquistanesa, apenas, como um “problema


Pashtun”. Deve ser vista, antes, como uma extensão lógica da militância sunita-
deobandi. As suas doutrinas ideológicas derivam da interpretação ortodoxa Sunita-
Hanafi do Islão, promovida pelo regime militar de Zia nos anos 80, que conduziu à
islamização do estado.45

Os grupos Talibã paquistaneses atingiram a infra-estrutura limitada das áreas


tribais, destruindo as suas instituições de ensino, em particular as escolas femininas,
criando, paralelamente, tribunais de jurisprudência islâmica (Sharia) e matando ou
intimidando os líderes tribais, ou maliks, aqueles que, em determinadas áreas,
desejem fazer algum pedido ou consulta, devem agora dirigir-se a estes grupos e não
a um agente político oficial.

*
Os Ahmadis fazem parte de uma seita minoritária sunita que segue os ensinamentos de Mirza
Ghulam Ahmed; alguns dos seus membros acreditam que Ahmed foi um profeta do século XX.
45
International Crisis Group Asia Report nº75, The State of Sectarianism in Pakistan, op. cit.

27
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Os grupos talibãs interpretam o Islão como um veículo de poder político e


social. Os seus tribunais (onde impera a Sharia) pretendem resolver casos que estão
pendentes há vários anos nos tribunais oficiais.46 De facto, os talibã procuram
reformar a sociedade através da linha radical Deobandi, bem patente nas suas acções;
quer nos ataques às escolas femininas, barbearias e lojas de DVD e CD’s; quer na
perseguição a residentes vistos como praticantes de actividades imorais. Os talibãs
executam publicamente membros de tribos ou seitas rivais. Quando libertam tropas
paramilitares, capturadas em batalha, apenas os sunitas são contemplados, os xiitas
são, por norma, executados.

Os talibãs absorveram membros das organizações radicais sunitas que


operavam de forma independente, antes da invasão do Afeganistão, tais como,
Tehrik-e-Nifaz-e-Shariat-e-Mohamadi (TNSM). As células deste grupo recuperaram o
terreno perdido sob as ordens de novos líderes, tais como, Maulana Fazlullah, o aliado
chave dos Talibã, que encabeça a facção no Swat, que engloba um número
significativo de combatentes da Al-Qaeda.

Além disso, de acordo com um oficial anti-terrorista do Punjab, muitos dos


infractores do LJ e de outros grupos estão agora a operar nas FATA.47 Em Novembro
de 2008, um míssil americano matou Rashid Rauf, um operacional britânico da Al-
Qaeda, suspeito de ser quem engendrou a tentativa de, em 2006, fazer explodir um
avião de passageiros em Londres. A sua presença nas FATA ilustra as ligações entre a
jihad regional e global.

No vale Swat, que tem uma história cultural diferente, os Talibãs paquistaneses
imitam as acções dos seus homólogos afegãos.48 O Presidente da Sociedade Cultural e
de Artes de Swat comentou que os Talibãs “pensam que por destruir locais com raízes
budistas estão a representar o seu dever para com a religião que professam”. Disse
ainda, “ Deus nos livre de um dias vermos seminários implantados nestes lugares”. Os
Talibãs de Swat já destruíram cerca de 200 escolas de ensino misto no distrito e, em
Dezembro de 2008, “proibiram” 120.000 estudantes do sexo feminino de assistirem
às aulas, ameaçando atacar à bomba as escolas que mantenham alunas depois de 15
de Janeiro de 2009.

46
International Crisis Group Interview, Peshawar, jullho de 2008.
47
International Crisis Group interview, anti-terrorism official, Lahore, Dezembro de 2008.
48
Os Talibãs afegãos destruíram, em 2001, as estátuas de buda, com séculos de existência, na
região de Hindu Kush.

28
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Tréguas no Vale Swat?

A 16 de Fevereiro de 2009, o Partido Nacional Awami (ANP) e o TNSM


estabeleceram um compromisso, concebido pelos militares, para a imposição da
Sharia em Malakand, região da NWFP, onde se incluía o Swat. De acordo com o
compromisso inicial, o governo, entre várias disposições, estabelecia Qazi ou tribunais
religiosos, onde se julgariam todos os casos a partir de 16 de Fevereiro de 2009,
assegurando, desta forma, a adesão à Sharia; o desmantelamento dos pontos de
controlo de segurança, depois de 4 de Março de 2009; e a retirada das tropas. O
governo libertaria também os militantes que tinham sido presos em operações anti-
terroristas, com o TNSM a insistir na libertação de todos os detidos, incluindo aqueles
que foram autores de crimes violentos, tais como execuções e violações. Como
contrapartida, o TNSM asseguraria que os Talibãs paquistaneses, no vale Swat,
abandonariam o uso de armas pesadas, colocariam fim às campanhas armadas e
acatariam a lei no Swat, permitindo, inclusive, a reabertura das escolas de ensino
misto – mas as estudantes teriam que utilizar a purdah ou o véu.

A resposta internacional a este acordo foi um misto de vozes, umas em


desacordo, outras em acordo, como foi o caso do Secretário da Defesa Americano,
Robert Gates, que sugeria que o acordo era um compromisso aceitável e que poderia
ser, até, aplicado no Afeganistão. Os Estados Unidos e a comunidade internacional em
geral, como se veio a provar, não deveriam ter ilusões quanto a este acordo de paz.
Este acabaria por trazer tantos resultados positivos, quanto aqueles que foram obtidos
pelos que Musharraf fez no Waziristão, em 2004-2006.

O papel das Madrassas

Apesar de nenhum dos 19 suicidas, que conduziram os aviões de passageiros


contra o World Trade Centre e o Pentágono no fatídico 11 de Setembro de 2001, ter
vindo de uma instituição de ensino islâmico, a atenção dos media virou-se, depois dos
ataques, imediatamente para as madrassas. Os media Estado-Unidenses insistiam que
as escolas religiosas Islâmicas eram, em parte, culpadas, pois estas instilavam nas
mentes dos jovens a ideia de, mais tarde, serem recrutas de organizações terroristas.

A chamada “guerra ao Terror” lançada pela administração americana, em


resposta ao 11 de Setembro, imediatamente identificou as instituições islâmicas, em

29
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

geral, e as madrassas, em particular, como sendo um dos principais campos de


batalha.

1. Quantas madrassas existem no Paquistão?

É uma questão que não tem uma resposta fácil. O seu número varia num
espectro alargado: desde um pouco credível “abaixo de 600” até um número
exagerado de 50.000. Mufti Mohammed Naeem, responsável por uma cadeia de
madrassas no Paquistão afirma que existem cerca de 20.000 madrassas que albergam
cerca de 1,6 milhões de estudantes.49 Contudo, vários estudos e relatórios, nos
últimos anos, sugerem um número entre as 8.000 e as 10.000. 50 Consequentemente,
o total de estudantes que frequentam estas instituições é variável. Relatórios sugerem
que o seu número varia entre 650.000 e 7.5 milhões. Um dos números mais credíveis
foi fornecido pelo International Crisis Group que estima que existam 10.000
instituições e 1,5 milhões de estudantes, representando 33 por cento do total de
inscritos no ensino.51 Estudos mais recentes, que não andam muito distantes dos
números do ICG, afirmam que existem cerca de 11.000 madrassas no Paquistão.52

Existem várias razões para a discrepância de números. Primeira, as madrassas


no Paquistão são geridas por grupos privados. São supervisionadas por cinco
entidades que são mal monitorizadas pelo governo. Segundo, até recentemente não
houve um interesse académico por estas instituições.53 Debates acerca destas
instituições são limitados a Islamistas e ulemas, que tendem a gerar alguma
controvérsia, pois a literatura que existe defende, em primeiro lugar, essas mesmas
instituições. Há, por isso, poucos dados empíricos acessíveis. Terceiro, o último estudo
feito pelo governo, acerca das madrassas, foi efectuado há 21 anos. Por isso, não só

49
Aamir Latif, “Inside Pakistan Madrasahs (Part I)”, Islam On Line, 1 de Junho de 2008 (em
http://www.islamonline.net/servlet/Satellite?c=Article_C&cid=1209358105688&pagename=Zo
ne-English-News/NWELayout)
50
Ali Riaz, “Global Jihad, Sectarianism and the Madrassahs in Pakistan”, Institute of Defense
and Strategic Studies Singapore, agosto de 2005. p.7
51
International Crisis Group Ásia Report nº36, “Pakistan: Madrasas, Extremism and the
Military”, 29 de Julho de 2002.
52
William B. Milam, Bangladesh and Pakistan: Flirting with Failure in South Asia, New York,
Columbia University Press, 2009, p. 211.
53
Salvo honrosas excepções, como é o estudo de Jamal Malik em 1996. Sendo também
notáveis os trabalhos de Tariq Rahman e Qasim Zaman, ambos em 2002.

30
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

os dados são pouco credíveis, como também, não houve até agora um folow-up para
saber qual a tendência existente.

Contudo, apesar dos exageros que o “sufoco mediático” trouxe, quando se


comparam diversas fontes – antes e depois de 2001 – constata-se alguma
consistência nos números apresentados.

31
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Quadro 1. Madrassas no Paquistão, 1947-2003.54

Nota-se, claramente, que houve um aumento das escolas religiosas islâmicas desde a
independência. Entre 1947 e 2001, houve um aumento de 2745%, ou seja, uma
média de 120 escolas por ano. De 1988 até 2000, o número aumentou 236%.

Fazendo uma separação por regiões (ver quadro 2.) percebe-se que o maior número
de madrassas está localizado na província do Punjab, enquanto que a NWFP e o
Baloquistão – duas províncias situadas junto ao Afeganistão – possuem também um
número significativo de madrassas.

54
Riaz, op. Cit., p.8

32
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Quadro 2. Separação regional, pré-1947-200055

Estes números levantam duas questões: Primeira, porquê que tem havido um
crescimento progressivo das madrassas no Paquistão? Segundo, como e porquê essa
tendência continuou, mesmo, depois da CIA ter abandonado as operações no
Afeganistão a seguir à retirada Soviética de 1989?

A tendência geral, olhando para o crescimento continuado entre 1947 e 2003,


pode ser explicada quando se atenta sobre o sector educacional no Paquistão. O
investimento público no capital humano – saúde e educação – sempre foi o parente
pobre da política social paquistanesa, não só com os regimes militares, como também,
com os civis. Preocupados com as crises económicas e com os encargos com a defesa,
os sucessivos regimes, têm cortado no investimento público com a educação enquanto
que a população cresce a um ritmo elevado. Desta forma, a oportunidade de estudar
tem ficado abaixo das expectativas da grande maioria da população, especialmente
para aquela que vive nos meios rurais e que é economicamente mais desfavorecida. A
contrastar, as madrassas – que além de ensinar, também dão alojamento e
alimentação – foram vistas como sendo uma alternativa, em particular, para as
famílias pobres com um grande número de filhos. Mais recentemente, o Paquistão viu
surgir um grande número de escolas privadas. No entanto, o custo e a localização
destas escolas impedem o acesso das crianças das classes mais desfavorecidas.

A outra questão era como e porquê que o número de madrassas tem crescido
exponencialmente em todo o território, o que emboca na questão fundamental a
explicar: qual o papel do sectarianismo?

55
Riaz, op. Cit., p. 10

33
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

2. Sectarianismo e as Madrassas: Muitos são chamados e todos são


escolhidos56

A divisão sectária que divide Sunitas e Xiitas é anterior a 1947, mas não se
fazia sentir na vida político-social por duas razões: A primeira, a população Xiita era
relativamente pequena – cerca de 15 por cento – e Segunda, a tradição popular
Islâmica, nas áreas rurais, estava aberta a diferentes rituais e práticas, assim como, a
seitas e sub-seitas. Contudo, a divisão teve uma maior acção no sistema de ensino
que começou a florescer na Índia colonial no séc. XIX, especialmente, depois da
criação da madrassa Dar Ul Ulum, em Deoband (actualmente, Uttar Pradesh of Índia)
em 1867.

A madrassa Dar-ul Ulum, foi uma resposta calculada dos ulemas ortodoxos à,
cada vez maior, influência dos líderes reformistas liberais muçulmanos que adoptavam
uma educação mais inglesa e uma cooperação estreita com a administração colonial
britânica. Além disso, Os Deobandis opunham-se ao Islão popular e folclórico, às
tradições Sufistas e à facção Xiita. Os fundadores da madrassa Deoband, Maulana
Muhammad Qasim Nanautwi (1833-1877) e a Maulana Rashid Ahmed Gangohi (1829-
1905), alteraram a veracidade da fé Xiita e, em algumas ocasiões, escreveram
largamente contra ela. As medidas austeras da madrassa Deoband produziram uma
forte reacção no interior dos aderentes do Islão Sunita. Por volta de 1906, Imam
Ahmad Reza Khan de Berelvi cria a sub-seita chamada Ahle Sunnat wal Jaamat (a que
comummente se chama Berelvis). Apesar de politicamente conservadores, foram
fortes defensores da tradição Sufi. Inspirada pelo puritanismo do pensador do séc.
XVIII, Muhammad Bin Wahhab da Arábia Saudita, Ahle Hadith (chamada
comummente de Wahabbis ou Salafis), emerge, no início do séc. XX, como a quarta
maior facção vinda da tradição Sunita.

Quase todos estes grupos participaram no movimento anti-colonial no início do


séc. XX, mas não do mesmo lado. Os Deobandi, por exemplo, opunham-se ao
movimento Paquistanês, enquanto que, os Barelvis, prestavam o seu apoio à Liga
Muçulmana. Com o passar do tempo, o número de madrassas foi crescendo e as redes
foram ganhando cada vez mais ramificações.

Estas redes tornaram-se institucionalizadas no Paquistão, em 1959, como


reacção ao esforço do regime de Ayub em modernizar o ensino. Ayub Khan pretendia

56
Riaz, op. Cit., p. 13

34
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

criar um controlo sobre as fontes de receitas destas escolas, conhecida como a Waqf
(doações).

Os Deobandis criaram a Wafaq al-Madaris al-Arabai, os Berelvis a Tanzim-al-


Madaris Arabai e os Xiitas a Wafaq-al-Madaris (Xiitas) Pakistan. Nessa mesma altura,
um partido Islâmico, Jaamat-i-Islami (JI) sob a liderança de Abul Ala Mowdudi – um
proeminente pensador Islâmico – torna-se uma força política significativa.
Consequentemente, o JI começa a estabelecer madrassas com o objectivo de
promover as ideias de Mowdudi. Exceptuando as madrassas afectas ao JI, estas redes
que estavam directamente envolvidas no activismo político, eram opositoras às
reformas do governo.

Contudo, a situação mudou durante o regime de Bhutto (1972-1977) quando


estas redes conseguiram frustrar a iniciativa do governo de “nacionalizar” as
madrassas, quando este decidiu controlar todo o sector educacional. A posição dúbia
do regime, acerca do papel do Islão na política paquistanesa, deu aos partidos
Islâmicos razão mais que suficiente para montar uma forte oposição ao governo.
Desta forma, foram criadas oportunidades para os ulemas marginalizados voltarem à
ribalta através dos partidos políticos. As redes de madrassas sob influência Deobandi
(afectas ao partido Jaamat-ul-Ulema-i-Islam, JUI), e aquelas que eram afectas ao JI,
forneceram os combatentes necessários para a agitação pública.

Estes desenvolvimentos, especialmente o envolvimento directo dos professores


das madrassas e de estudantes políticos, moldaram a dramática transformação que
ocorreu depois de 1979. Dois acontecimentos – a revolução Iraniana em Fevereiro e a
Invasão Soviética do Afeganistão em Dezembro – serviram como ponto de viragem.

Em ambas situações eram necessários combatentes e as madrassas acabaram


por ser o centro de recrutamento. Contudo, o fim da guerra alterou o argumento que
sustentava a sua existência. A partir daí, os líderes políticos, os seus seguidores e o
sistema político paquistanês tornaram-se reféns desta nova tendência. É por isso que
– apesar do término da guerra afegã, por exemplo – estas organizações não só
sobreviveram, como até floresceram. Os conflitos internos entre vários grupos no
Afeganistão, depois da retirada soviética, e a luta continuada pela obtenção do poder,
por parte dos Talibãs, forneceu a estas organizações a justificação para continuarem a
existir e a funcionar.

Quadro 3. Classificação das madrassas a nível Regional, 198857


57
Riaz, op. Cit., p.19

35
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

Quadro 4. Classificação das Madrassas segundo a sua afectação, 1960-200258

Notas:

1. Os números para 1960, 1971, 1979 e 1984 podem não ser coincidentes com o Quadro
1, pois estes números forma derivam de estatísticas fornecidas pelas próprias
madrassas e um número por identificar de madrassas não se sabe a quem são afectas.

2. Os dados do primeiro quadro foram fornecidos pelo GOP (Government of Pakistan), em


1988 e os do segundo quadro foram retirados de um relatório da polícia de Sinde,
editado no jornal Dawn em 16 de Janeiro de 2003.

Até 1996, quando os Talibãs chegaram ao poder no Afeganistão, estas


organizações, com o apoio activo do governo paquistanês, acabaram por ser o
“entreposto” de fornecimento de militantes para o conflito de Caxemira. O sucesso dos
Mujaheedin na retirada dos soviéticos e dos Talibãs na conquista do poder no
Afeganistão criou a ilusão, num grupo de policy-makers paquistaneses, que algo de
similar poderia ser alcançado no conflito indo-paquistanês.

58
Ibid.

36
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

O problema fundamental era que razão de ser destas organizações é a que sua
identidade sectária não pode ser usada como ideologia para mobilização política
interna. Deste modo, para recorrer a estas organizações é necessário definir e
articular algo que mobilize toda a população muçulmana – interna e externa.59

Os infiéis são definidos, debatidos e demonizados nas madrassas, num âmbito


político mais global, mas também a nível das relações comunitárias locais. È aqui que
a literatura sectária se torna fundamental nas madrassas paquistanesas. Um exame
ao programa e ao currículo das madrassas paquistanesas mostra que, em nome da
negação (que é chamada Radd em Urdu) crítica das outras seitas, há um ódio em
relação aos membros que não sejam da seita da qual fazem parte, e que se tenta
fechar a mentalidade dos estudantes logo no início dos seus estudos. Textos,
seleccionados como obrigatórios ou como leituras suplementares, disseminam
“opiniões contra outras seitas, sub-seitas e ideias ocidentais – estas podem ser a
maior influência na formação das mentes dos estudantes das madrassas”60 Estes
discursos são, então, misturados com vários conceitos, tais como, militância e jihad.
As crianças são ensinadas que os muçulmanos, por todo o mundo, estão cercados por
forças sinistras com as quais devem lutar até à morte.

Em conclusão, as madrassas são ainda centros potenciais de militância islâmica,


no Paquistão. O governo pretende mudar o actual modelo, substituindo-o por um
ensino secular nas madrassas, no entanto, a mudança só chega quando o nível de
pobreza for de tal forma reduzido que os mais desfavorecidos possam entrar noutros
sistemas de ensino. Acima de tudo, só se chegará a este objectivo quando houver paz
entre a Índia e o Paquistão. A percepção que as potências ocidentais e os Estados
Unidos, em particular, oprimem os muçulmanos tem um papel importante na reacção
vinda do interior das madrassas. As mudanças globais que são necessárias para fazer
face à militância vinda das madrassas, ou à intolerância que cria esta militância,
dificilmente podem vir de um governo. É inútil culpar um país por um problema que é
produto da história, da pobreza e dos recentes jogos geopolíticos.61

59
Riaz, op.Cit., p.19.
60
Tariq Rahman, “The Madrassa and the State in Pakistan”, Himal, Fevereiro 2004 (em
http://www.himalmag.com/The-Madrassa-and-the-State-of-Pakistan_nw1297.html)
61
Rahman, op. Cit.

37
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

38
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

O COMBATE AO TERRORISMO GLOBAL E O PAQUISTÃO

TERRORISMO GLOBAL: O QUE FAZER?

Qualquer combate sério ao terrorismo exige o delinear de uma estratégia. Em


primeiro lugar, … é preciso compreender uma coisa, porventura a única inteligível na
estratégia terrorista : o método. Provocar o choque entre civilizações e a divisão no
interior das civilizações62. Como se combate isto? Procurando alcançar precisamente o
contrário, ou seja, buscar caminhos para unir, para aproximar, que permitam o diálogo
entre o ocidente e o mundo muçulmano, por oposição ao afastamento pretendido
pelos terroristas. Devem ser criadas condições para que a base de apoio do islamismo
radical diminua. É preciso desacreditá-lo, provocar o seu isolamento.

Terá que ser desenvolvido um grande trabalho de cooperação e articulação de


políticas de segurança a nível internacional e sempre que um ataque ao mundo
ocidental ocorrer, como no 11 de Setembro em Nova York e Washington, será
expectável uma resposta mais musculada. E dentro de um quadro jurídico-legal, os
terroristas devem ser criminalmente punidos. Aqui, as Nações Unidas têm um papel
fundamental a desempenhar … no que respeita à elaboração e implementação de um
quadro jurídico para o combate ao terrorismo internacional63. No entanto, a luta às
redes terroristas tem de ser levada a cabo de forma multidimensional e não apenas
pela via militar e policial. Não menosprezando este tipo de actuação, não é a única
forma de combater o terrorismo, nem sequer aquela com um potencial de alterações
estruturais de maior impacto. Se aquilo que se pretende é a obtenção de resultados
mais consistentes a longo prazo, é fundamental uma acção bem pensada e
estruturada ao nível político e cultural. É necessário … criar riqueza, estabilidade
social e, sobretudo, restaurar o Estado e a Democracia, lá, onde prosperam as redes
terroristas64.

Após o 11 de Setembro, o tema do terrorismo passou a monopolizar como


nenhum outro a agenda internacional e a presidência de George Bush declarou aberta

62
Nuno Severiano Teixeira, O terrorismo pós moderno, Diário de Noticias, 31 de Março de
2004, (em http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=9&ida=50)

63
Patrícia Galvão Teles, A ONU e o combate ao terrorismo, Janus OnLine, 2003, (em
http://www.janusonline.pt/2003/2003_2_2_6.html)

64
Nuno Severiano Teixeira, A Europa contra o terrorismo, Diário de Notícias, 13 de Julho de
2005, (em http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=9&ida=123)

39
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

a GWOT (Global War on Terror). Podemos inclusivamente assinalar uma série de


objectivos declarados da GWOT, sistematizados por Jeffrey Record65:

• Eliminação da organização terrorista Al-Qaeda e outras organizações


terroristas transnacionais.

• A transformação do Iraque numa democracia próspera e estável

• A democratização do Médio Oriente

• A erradicação do terrorismo

• Acabar, pela força se necessário, com a proliferação de armas de


destruição massiva entre inimigos reais e potenciais

Muitos dos críticos a este, se assim se pode dizer, plano, defendem que estes
objectivos, às tantas, ficam com a sua viabilidade comprometida pelo excesso de
ambição, ou seja, que uma estratégia menos abrangente, difusa e dispendiosa mas
mais realista obteria efeitos mais positivos e duradouros.

UM CAMINHO PARA O PAQUISTÃO

Nos dias de hoje, quando se olha para o Paquistão, não podemos deixar de ter
presente o perigo que representa para o mundo inteiro a hipótese de ocorrer uma
revolução islâmica num país com poder nuclear, sendo o islamismo radical,
actualmente, anti-ocidental.

Uma dura luta terá de ser travada para que os talibãs não controlem o
Paquistão e só o exército paquistanês tem condições para se assumir como força
efectiva de combate anti-terrorista dentro do território - se para isso estiver motivado.
É uma realidade que o exército não morre propriamente de amores pelos radicais
islâmicos. Há um mal-estar crescente que resulta de lutas nas zonas de fronteira com
o Afeganistão, bem como da elevada ocorrência de atentados por parte de bombistas
suicidas, provocando elevado número de baixas entre militares e civis paquistaneses.
No entanto, será indispensável que os Estados ocidentais se envolvam seriamente na
questão e concedam um apoio notório e decisivo para que as perspectivas de sucesso
sejam reais: apoio a nível militar, nomeadamente em treino e equipamento; a nível
económico, conquistando a sua confiança e garantindo que o envolvimento no país é a
longo prazo e não apenas conjuntural - devem ser criadas condições para a
65
Jeffrey Record, Bounding the Global War on Terrorism, December, 2003 ( em
http://www.rbvincent.net/pdf.files/bounding.pdf )

40
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

estabilidade no país, para o desenvolvimento económico sustentado, gerando riqueza


e oportunidades de trabalho para as actuais e novas gerações -; e contribuindo para
fortalecimento da democracia (A Estratégia de Segurança Nacional, de Setembro de
2002, antecipa a intenção dos EUA promoverem a democracia, …, sem excepção para
o mundo muçulmano66).

Para que os radicalismos não ganhem terreno e minem o espírito das


populações, o Estado tem que ser forte. No entanto, fica a dúvida da viabilidade da
transposição do modelo ocidental de democracia para uma realidade bastante
diferente - Os factores socioeconómicos e o peso da história e da religião dificultam a
assimilação do modelo ocidental de democracia67.

Agora, qual será o rumo com a presidência de Barack Obama? Com o


encerramento da prisão de Guantánamo e com o novo plano da Administração Obama
para o Afeganistão e Paquistão, apresentado a 27 de Março de 2009, fica a ideia que
há uma vontade expressa de se demarcar das políticas dos últimos anos. Para além
disso, parece existir uma disponibilidade e vontade muito maior para congregar
apoios, provavelmente fruto da necessidade imperativa que isso aconteça – a recente
viagem de Obama à Europa foi também uma grande jogada de charme. Se, por um
lado, este cenário configura a existência de uma uni-multipolaridade na ordem
internacional actual (a maior potência mundial, os E.U.A., sente necessidade de
congregar apoios), por outro lado, mostra que a situação paquistanesa está a ser
encarada como uma enorme ameaça à segurança mundial.

66
Maria do Céu Pinto, Os EUA e a promoção da democratização do Médio Oriente, 2007, (em
http://www.janusonline.pt/2007/2007_2_9.html)

67
Maria do Céu Pinto, Bruno Oliveira Martins, Os Processos de Democratização no Médio
Oriente e Magrebe, IPRI, nº23, 5 de Fevereiro de 2007 (em
http://www.ipri.pt/publicacoes/working_paper.php?idp=85)

41
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

CONCLUSÃO

Será que o mundo actual tem armas para combater as Novas Conflitualidades?
É inegável que a globalização trouxe muitos benefícios, no entanto, também arrastou
consigo muitos custos. O conceito tradicional da guerra mudou radicalmente.
Aproximou os continentes, mas também os conflitos. O terrorismo sofreu grandes
transformações neste novo século. É agora desterritorializado, transnacional e
possuidor de uma grande capacidade de mobilizar meios que anteriormente apenas os
Estados detinham. Uma estratégia de combate diametralmente diferente deverá ser
adoptada adaptando-se aos ataques perpetrados pelos novos terroristas.

Quanto ao caso concreto do Paquistão, há uma necessidade urgente de avançar


com uma intervenção profunda, de molde a evitar males maiores. É fundamental criar
condições para o desenvolvimento sustentado do país e fazer a população
paquistanesa acreditar que não se trata de uma aposta conjuntural. Para isso, há que
conquistar o apoio da população e instituições, fazendo-os acreditar que se trata de
um investimento de longo prazo e que não serão abandonados à sua sorte à primeira
oportunidade. Os Estados Ocidentais deverão ajudar e apoiar o país, levando em linha
de conta as suas particularidades políticas e culturais na tentativa de fortalecimento
da democracia.

O terreno que tem permitido a expansão do fenómeno do islamismo radical


deverá perder as condições para a sua continuidade.

42
O Paquistão no Centro das Novas Conflitualidades

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