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Palavras de origem banta: BAGUNÇA – desordem, confusa, baderna, remexido. BANZÉ – confusão, barulho.

BATUCAR – repetir a mesma coisa insistentemente. BELELÉU – morrer, sumir, desaparecer. BERIMBAU – arco-musical, instrumento indispensável na capoeira. BIBOCA – casa, lugar sujo. BUNDA – nádegas, traseiro. CACHAÇA – aguardente que se obtém mediante a fermentação e destilação do mel ou barras do melaço. CACHIMBO – pipo de fumar. CAÇULA – o mais novo dos filhos ou irmãos. CAFOFO – quarto, recanto privado, lugar reservado com coisas velhas e usadas. CAFUNÉ – ato de coçar, de leve, a cabeça de alguém, dando estalidos com as unhas para provocar o sono. CALANGO – lagarto maior que lagartixa. CAMUNDONGO – ratinho caseiro. CANDOMBLÉ – local de adoração e de práticas religiosas afro-brasileiras da Bahia. CANGA – tecido utilizado como saída-de-praia. CANGAÇO – o gênero de vida do cangaceiro. CAPANGA – guarda-costas, jagunço. CAPENGA – manco, coxo. CARIMBO – selo, sinete, sinal público com que se autenticam os documentos. CATINGA – cheiro fétido e desagradável do corpo humano, certos animais e comidas deterioradas. CHIMPANZÉ – espécie muito conhecida de macaco. COCHILAR (a ortografia correta deveria ser coxilar) – dormir levemente. DENDÊ – palmeira ou fruto da palmeira. DENGUE – choradeira, birra de criança, manha. FUNGAR – aspirar fortemente com ruído. FUZUÊ – algazarra, barulho, confusão. GANGORRA – balanço de crianças, formado por uma tábua pendurada em duas cordas. JILÓ – fruto do jiloeiro, de sabor amargo. MACUMBA – denominação genérica para as manifestações religiosas afro-brasileiras. MANDINGA – bruxaria, ardil, mau-olhado. MARIMBONDO – vespa. MAXIXE - fruto do maxixeiro. MINHOCA – verme anelídeo. MOLEQUE – menino, garoto, rapaz. MOQUECA – guisado de peixe ou de mariscos, podendo também ser feito de galinha, carne, ovos etc. MUCAMA – criada, escrava de estimação, que ajudava nos serviços domésticos e acompanhava sua senhora à rua, em passeios. QUIABO – fruto do quiabeiro.

AXÉ – todo objeto sagrado da divindade. SUNGA – calção de criança. espíritos infantis também cultuados pelos iniciados ao lado da divindade a que foram consagrados. capaz de fazer tanto bem quanto mal. ANGU – pirão de farinha de mandioca. dentro ou fora do terreiro. LELÉ – maluco. a contribuição das línguas africanas para o vocabulário do português no Brasil não foi tão grande quanto à influência que exerceu o escravo no nosso modo de falar. ORIXÁ – designação genérica das divindades do panteon iorubá ou nagô-queto. o fundamento. com a simplificação e redução das flexões. temperado e moído com camarão seco. . casaco folgado e comprido. coisa sem valor. o alicerce mágico da terreiro. simplório. de milho ou de arroz temperado com sal e cozido para ser comido com carne. ingênuo.QUILOMBO – povoação de escravos fugidos. Segundo muitos autores. EXU – divindade nagô-queto. tido como mensageiro dos orixás. como Gladstone Chaves de Melo. parcela da população em que as pessoas raramente utilizam as desinências de plural. charque. inhame ou banana da terra com camarão e azeite-de-dendê. frito com azeite-de-dendê. ERÊ – um dos estados de transe. FÉ – gostar de. ACARAJÉ – bolo de feijão fradinho. ZABUMBA – bombo. indolente. ASSENTO – altar das divindades. Essa característica pode ser observada principalmente nas camadas populares. sal e cebola. ♦ Interferência na morfologia e sintaxe 1) A maior influência das línguas africanas no português do Brasil se deu na morfologia. JABÁ – carne seca. TANGA – tapa-sexo. que tendem a se restringir ao primeiro determinante da frase. Palavras de origem kwa: ABADÁ – túnica. “Esses menino são endiabrado” O verbo também sofre conseqüências dessa atitude de simplificação e redução das flexões. TITICA – fezes. querer. BOBÓ – comida feita de uma variedade de feijão. SENZALA – alojamentos que eram destinados aos escravos no Brasil. Exemplos: “As primas já chegaro”. adoidado. excremento de aves.

etc. como em português a/o (bonito/bonita). de Loanda². É considerado como de origem africana a semivocalização do l palatal (lh na nossa grafia). como acontece com o s do determinante. Na estrutura silábica dessas línguas africanas também não há o encontro consonantal. coincide com a estrutura silábica das em banto e em ioruba. as palavras: zome (nascido de os home) e zarreio (resultado de os arreio). como podemos observar com o verbo gostar: eu gosto. principalmente na poesia. de contas. “Brasiu”. Exploraremos essa questão através de um caso pontuado. “dizê”. o que pode contribuir para a explicação da volubilidade de gêneros nos nomes (“minha senhor”) que pode ser observada na fala popular. ♦ Jorge de Lima (1893 – 1953) O poeta valorizava motivos poéticos afro-nordestinos. ele gosta. Outros aspectos importantes são os fenômenos de deglutinação e aglutinação de fonemas. o vulgar e o sublime. “dirigî”. tu gosta.. de verde! E tu. sem descendência alguma. De noiva. nós gosta. que se observa na pronúncia popular em algumas regiões do Brasil: muyé por mulher. de nuvem. ♦ Interferência na pronúncia A inclinação do falante brasileiro em omitir a última consoante das palavras ou transforma-las em vogais: “falá”. de quilombos4! . por exemplo. por homens brancos. paya por palha. Seus textos abrigam várias possibilidades de leituras (a convivência entre a tradição e o novo. Na literatura não é diferente. 2) Nas línguas africanas não há o conhecimento da separação por gênero. o religioso.Muitas vezes só há oposição de desinência entre a primeira e as demais pessoas. fulô (flor).] Serra da Barriga! Barriga da negra-mina!¹ As outras montanhas se cobrem de neve. produzindo uma nova forma autônoma. Como. como ocorre na linguagem popular brasileira. mas representativo – o de Jorge de Lima. que o fizeram pelo puro aprecio. o regional e o universal). Podemos perceber a apropriação de vocábulos essencialmente africanos e construções típicas. que se incorpora à vogal seguinte. Influência africana na literatura brasileira A presença da cultura africana na nossa própria é incontestável e podemos percebê-la em vários meandros. Ocorre a tendência de desfazer esse encontro e fazer uma nova sílaba ao se colocar uma vogal entre elas: sarava (salvar). que nunca terminam em consoante. Experimentou estilos diversos como o parnasiano. fiyo por filho. o regional o barroco.. De argolas. de panos-da-costa³. [. vocês gosta.

listrado. que foram posteriormente assimilado por nós e que se misturaram a outros já aqui presentes como os mitos do saci e aos caiporas dos nossos índios. As pessoas do bairro plantam e criam animais para subsistência. também se diz preto(a)-mina. mas também suas próprias crenças aparecem nos versos. As beneficiárias são duas irmãs. besta-feras. ³ Pano-da-costa: tecido de algodão. que são a origem dessas parentelas. da Costa do Ouro (Guiné). Não somente os vocábulos e maneira de falar determinaram algumas diretrizes na literatura. de cerca de 80 pessoas. No Brasil adquiriu um sentido diferente. originário da África e usado como xale. mas também trabalham fora (são bóias-frias. que se refere a um antigo tributo anual da época em que a região pertencia ao Congo. Em Angola significa paragem. É o caso de poemas como O Medo: O BICHO Carrapatu. A terra foi doada por um antigo senhor e fazendeiro. O negro velho de surrão . dividida em duas parentelas: a dos Almeida Caetano e a dos Pires Pedroso. significando tributo. lobisomens. diaristas. Curiosidade A “língua” africana do Cafundó O Cafundó é um bairro rural situado no município de Salto de Pirapora (a 150km de São Paulo).foi o medo que passou. Mas depois chegou o medo. Em Alagoas. empregadas domésticas). o de lugar que reúne grande número de escravos fugidos. ex-escravas. O medo maior que houve que as negras velhas contavam: era a cabra-cabriola.Serra da Barriga! Te vejo da casa em que nasci. durante o Natal. Que medo danado de negro fujão! ¹ Negra-mina: e mulher do grupo tribal de cultura fantiaxanti. pouco antes da abolição. 4 Quilombo: termo vulgar desde o século XVII. e o papel social dessa “língua” é representá-los como africanos no . que possui uma população predominantemente negra. vem de povoação. pouso para descanso das viagens pelo interior. elementos do imaginário negro africano. A língua materna delas é o português. O léxico da “língua” do Cafundó é de origem banto e quimbundo principalmente. com uma variação regional identificada como dialeto caipira (segundo Amadeu Amaral). ² Loanda ou Luana: vem do quimbundo luanda. designa também folguedo.

sendo incorporado de uma forma meio “passiva” (já que a língua viva está em constante transformação). A “língua” do Cafundó tem um léxico limitado. As estruturas gramaticais utilizadas são emprestadas do português. de forma que o seu emprego independe de festas ou comemorações. Angutu está cuendando mafingue. do presente e do futuro do indicativo. Os quinze verbos pertencentes ao vocabulário. A “língua” do Cafundó é utilizada em situações corriqueiras. Injó da marrupa Casa do sono (quarto) Coçumbador do cupópia Fazedor de fala (língua) Há também mistura de palavras do português: Respeito do ngombe Respeito do boi (arame farpado) . O uso de vocabulários africanos no Brasil está quase sempre ligado a ritos e cerimônias somente. O sol já estava indo (se pondo).Brasil. com o auxiliar estar. o uso desses vocabulários é muito mais ativo. O homem branco veio da cidade para beber café com leite. O futuro é expresso pelo auxiliar ir mais o gerúndio do verbo principal – forma também usada no presente contínuo. na rotina e no dia-a-dia da população. O homem preto está falando na casa do pai. possuem a desinência da primeira conjugação e são também flexionados. No Cafundó. No dia que vai vir (amanhã). Assim: No quilombo que vai cuendar. As variações de tempo reduzem-se às formas do pretérito perfeito. O cafombe cuendou da ambara para cunuar avero com nhapecava. A mulher está vertendo sangue (menstruada). como pode ser observado: Vimbundo está cupopiando no injó do tata. mas o sistema é vivo e produtivo porque há expansão do vocabulário através de palavras do léxico africano e através do uso de expressões formadas por processos metafóricos e analógicos (em geral: nome + preposição + nome). O presente contínuo também é representado pelo verbo auxiliar no imperfeito: O cumbe já estava cuendando. por exemplo.

“quase”.A preposição em é freqüente na formação de novas expressões: Tata nâni no orongombi Homem fraco no dinheiro (pobre) A homonímia é muito freqüente devido à limitação de vocabulário. Vavuro e nâni. Os mecanismos de concordância de gênero tendem a obedecer padrões do português. Por exemplo. já que o banto opera com a concordância através de prefixos aleatórios e o português através de sufixos de masculino e feminino. O que cuenda vavuro no viso (o que anda muito nos olhos) pode significar tanto uma região montanhosa quanto um dia claro. “mais” (em geral. . com variações de singular e plural. Assim. cumbe vavuro do téqui seria “sol grande da noite” (lua cheia). bem como a criação de expressões através de palavras que evocam processos metonímicos. além de ser muito interessante. a “língua” procede por justaposição de palavras invariáveis: nhamanhara nâni de anguto significa homem sem mulher (solteiro). Há também a criação de expressões através de metáforas complexas. “menos” (em geral. “muito”. “gordo”. “perto”. “fraco”. “magro”. que parece não se compreender: o receptor não entende o que o enunciador quer dizer ou não entende qual é o contexto a que ele está se referindo. Os pesquisadores Carlos Vogt e Peter Fry concluem que o uso dessa “língua” é confuso mesmo entre a população. Vavuro significa “sim”. temos: mutombo do injequê. uma palavra apresenta mais de uma significação. Dessa forma. tudo que é negativo). ou seja. são usados como elementos que exprimem a restrição e a ampliação do que se está dizendo. “pouco”. “baixo”. tenhora da mucanda. o que cuenda o chipoquê significa “o que anda o feijão”. “alto”. Mas mesmo assim a “língua” do Cafundó é curiosa e rica. além de reforçar a negação e a afirmação. Nâni significa “não”. “forte”. tudo que é positivo). Mas esse fenômeno é aleatório. “longe”. Na maioria das vezes. “o que engole o feijão” (garganta).