MUSEU E EDUCAÇÃO: conceitos e métodos1

Maria Célia T. Moura Santos2

Resumo Este texto apresenta reflexões embasadas nos conceitos de educação e de processo museológico, considerando-os como suporte para as sugestões que são apresentadas no sentido de motivar e estimular as práticas museológica e educativa, que tenham como produto a construção do conhecimento. É destacada a importância da participação ativa dos diversos setores dos museus, dos professores e das comunidades, bem como o estabelecimento de parcerias, para a elaboração conjunta de projetos que tenham como referencial o patrimônio cultural, contribuindo para que os museus e as escolas sejam instituições integradas ao meio no qual estão inseridas, atuando como uma grande rede de interação. Abstract This paper presents reflections based on the conceptions of education and the museological process, both considered as a support for the suggestions presented here in order to stimulate its practice with the aim of improving knowledge production. It is pointed out the importance of the participation of all the museum staff, teachers and community in elaborating projects together based on the cultural heritage, thus bringing contribution for the integration of museums and schools in the environment in which they are and should work as a big web of interaction. Palavras-chave Museu, escola, educação, patrimônio museológico, processo educativo. Apresentação Para desenvolvimento do tema, achei por bem lançar um olhar para além dos problemas cotidianos dos nossos museus e das nossas escolas, impregnados da burocracia que sufoca e da falta de estrutura para o desenvolvimento dos
Artigo extraído do texto produzido para aula inaugural – 2001, do Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, proferida na abertura do Simpósio Internacional “Museu e Educação: conceitos e métodos”, realizado no período de 20 a 25 de agosto. Profa. Aposentada da Universidade Federal da Bahia – Curso de Museologia, Museóloga, Mestre e Doutora em Educação.Atualmente ministra aulas nos Cursos de Especialização em Museologia do MAE/USP e do Museu Antropológico da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás, no Curso de Especialização em Arte-Educação em Instituições Culturais da Universidade Federal do Amapá e no Mestrado em Museologia Social da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa-Portugal.
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cultural,

museologia,

processo

por fugir das discussões. historico-socialmente condicionada. no qual teoria e prática estejam sempre em interação. com a nossa capacidade de ousar. até certo ponto já esgotadas. Considero que os métodos e as técnicas a serem utilizados em projetos a serem desenvolvidos pelos museus e pelas escolas. está sendo considerado em sua origem latina. ou seja: ação de avançar. Achei por bem. entretanto. da aplicação de métodos e técnicas a. com o embasamento necessário. realizando um processo constante de ação e de reflexão. atividade reflexiva que tem como objetivo alcançar o conhecimento de algo3. educação significa reflexão constante. atividade social e cultural. por mim.2 trabalhos. etc. pensamento crítico. aos anseios e expectativas dos diversos grupos com os quais estejamos atuando. avaliando. Já levamos um bom tempo constatando. portanto. Danilo Marcondes. Por considerar que os museus são instituições que devem ser alimentadas pela aplicação do processo museológico. chorando as nossas mágoas. pois. está sendo considerada como um processo. apresentar as minhas reflexões sobre o tema a partir da abordagem dos conceitos de educação e processo museológico. buscar outras estratégias de ação. portanto. nos museus e em outros contextos. devem ser apoiados nas concepções de educação. indicam uma constante necessidade de adaptação e de renovação.1996. ser adaptados aos diferentes contextos.. com Japiassú. neste trabalho. que os referencias aqui apresentados são considerados. também. A educação. A Relação entre a Educação e o Processo Museológico A educação. visitas monitoradas. agora. Não que os considere menos importantes! Ponderei que já estamos cansados de “bater na mesma tecla”.. causando até um certo esgotamento. apontar algumas possibilidades de aplicação dos mesmos. evitando realizar uma análise que se esgota na aplicação da técnica pela técnica. como ação e reflexão. que em nosso campo de atuação são denominados de educação patrimonial. sendo repensados constantemente. Ressalto. conforme salientado anteriormente. está sendo compreendida como “processo de formação da competência humana. modificados e enriquecidos com a nossa criatividade. optei por centrar a nossa análise no processo que irá embasar as ações museológicas. em seguida. Hilton. visitas de estudo. ou seja. Dicionário Básico de Filosofia / Hilton Japiassú. incluindo teoria e prática. portanto. criativo e ação transformadora do sujeito e do mundo. compreendidas como ações educativas. O termo processo. seqüência de estados de um sistema que se transforma. devendo. 3 . de museologia e de museus adotadas pelos sujeitos sociais envolvidos no planejamento e na execução dos mesmos. Optei. c ou d. como “temporários”. Assim. ressaltando a relação entre os dois. considero que é mais urgente do que nunca tomar como referencial os diagnósticos já realizados e. passíveis de serem aplicadas no interior do museu ou fora dele. b. que também será utilizado quando da discussão da aplicação das ações museológicas. para. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

características que são resultado das ações do homem. 1996. assumem. daqueles que são responsáveis por sua produção. no mundo. no sentido de transformar a extensão em ação. A análise da educação. Flecha e Tortajada. o acadêmico e o comunicativo. ainda relacionado à necessidade de interação entre as diversas áreas do conhecimento e do reconhecimento a que este está historico-socialmente condicionado. Deve-se partir da combinação entre o prático. considerando que as diversas áreas do conhecimento não funcionam como compartimentos estanques. também. de tal modo que nos permita participar mais ativamente e de forma mais crítica e reflexiva na sociedade”. participativa e permanente. encontrando no conhecimento inovador a alavanca principal da intervenção ética” (Demo. em um determinado tempo e espaço. Cultura e desenvolvimento. no respeito à experiência e à criatividade dos muitos sujeitos sociais que estão fora das academias e que podem nos indicar caminhos e soluções muitas vezes por nós despercebidos. em que cultura. a necessidade de contextualizá-las. p. acreditando que é possível construir conhecimento na troca.3 qualidade formal e política. Daí. Salientam ainda os referidos autores que “não se deve repassar conhecimentos ‘cadêmico-formais’de maneira exclusiva. integrada. consideram de fundamental importância a incorporação da comunidade e do meio familiar ao trabalho diário da escola. fazendo com que a comunidade e as famílias participem juntamente com os professores”. fazendo com que possamos considerá-las como possibilidade e não como determinação. consideradas como historico-socialmente condicionadas. situando-as no tempo e no espaço compreendendo-as como ação social e cultural. levando em consideração a herança cultural dos indivíduos. mas são parte de uma grande diversidade. mais do que nunca. Ao considerar que os processos educativos têm um caráter contínuo e permanente e que não se esgotam no âmbito escolar. A Museologia e a Educação. serão enriquecidos a partir das nossas reflexões e do conhecimento por nós produzido. que é resultado de uma teia de relações. salientam que temos que reconhecer que as aprendizagens que as pessoas realizam não se reduzem às oferecidas na escola. ciência e tecnologia em cada momento histórico. apoiadas nos conceitos de educação. em cada período histórico. Os autores sugerem que as escolas sejam transformadas em comunidades de aprendizagem. são construídas e . os quais.1). na relação entre o ensino formal e o não-formal.34). Comentando sobre a necessidade de abertura da escola ao meio. A contemporaneidade não comporta mais modelos de desenvolvimento tecnológico e científico dissociados dos referenciais culturais de um povo. têm que andar de mãos dadas. está sendo aqui realizada compreendendo-a como um processo que deve ter como referencial o patrimônio cultural. salientam que “a educação na sociedade da informação deve basear-se na utilização de habilidades comunicativas. p. portanto. Outro aspecto que quero ressaltar. sendo assim. considerando que este é um suporte fundamental para que a ação educativa seja aplicada. é a necessidade de abertura para o mundo.(2000.

também. pois tem a capacidade de fazer aflorar homens e mulheres e sociedades melhores. encontra sua justificativa em transcender o presente e tudo o que vem dado. O autor salienta que utiliza o termo reconstrutivo fazendo uma alusão tanto à sua marca biológica de interpretação seletiva quanto à social de formação do sujeito capaz de fazer história. Sacristán (2000.Destaca. na verdade. Demo (2000. Ao justificar a adoção do termo reconstrutivo para a aprendizagem.4 reconstruídas pela ação do homem. a partir das primeiras experiências de aprendizagem de materiais herdados. à medida que é construída de forma aberta. então. a liberdade. comenta que ela atinge o seu sentido mais moderno como projeto. ao mesmo tempo. a tradição. portanto. Comentando sobre a importância da tradição para o processo educativo. destaca o autor. concluindo. em um determinado tempo e espaço. 49 ). mais os desejos de continuar de uma determinada maneira o processo de continuar conquistando. considerados como algo fixo. 4 . produtor de cultura e conhecimento. suprimiria qualquer pluralismo. fornecendo a base necessária para a construção e reconstrução do conhecimento. A reconstrução conduznos.49) ainda nos chama a atenção para a necessidade de manter e estimular. o mesmo autor ressalta que só se pode pensar a partir do que foi pensado por outros. isto é. portanto. lemos a realidade dentro de certo contexto prévio. Ao comentar que a educação se nutre da cultura conquistada. alimenta-se da tradição. resultado da ação do homem. Refere-se a um projeto como imagem-tentativa e revisável. historico-socialmente condicionada. tornando claro que não está falando de um projeto de sociedade de indivíduos perfeitos. como um processo de construção e reconstrução.que só temos o que os outros conquistaram. é alimentada por diversos patrimônios culturais. o valor da expressão de cada um e da autonomia4 como sementes das quais poderá nascer uma atitude crítica para a reconstrução da tradição: O grifo foi por mim acrescentado com o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de compreender a tradição como um conceito dinâmico. valorizações do que foi feito. sendo esta o suporte essencial que lhe dá sentido.ainda. o que . a compreender a educação como projeto. compreendemos que a escola é uma instituição que faz parte do patrimônio cultural e. conhecemos a partir do que está conhecido. ou seja. representados pelo conhecimento produzido e acumulado ao longo dos anos. e. p. p. destaca que isso distingue a importância de um certo imaginário individual e coletivo que o configure e dê força de projeção futura. Nesse sentido. Sacristán (2000. comentando sobre a compreensão da educação como projeto. A educação. a independência pessoal.102) registra que aprendemos a partir daquilo que já aprendemos. que deve ser compreendida. com melhor qualidade de vida.p. salienta que sem utopia não há educação. entendemo-nos na linguagem sobre pano de fundo partilhado e não questionado. resultado da herança cultural construída pelos sujeitos sociais ao longo da vida.

No contexto da escola burocratizada. cuja análise-diagnóstico foi ali apresentada e que. as artes. instrumental e moral. . patrimônio e tradição são produtos dissociados do cotidiano do professor e da vida dos seus alunos.7 ) chama a atenção para o fato de que é essencial desenvolver a face educativa da pesquisa. que deve ser material e espiritual. sem nenhuma relação com a vida. Incluindo a prática como componente necessário da teoria e vice-versa. ao longo dos anos. englobando a ética dos fins e dos valores. para deleite de um determinado grupo da sociedade. Tema por mim já discutido (Santos. experimentos. no sentido de estabelecer uma relação efetiva entre educação e cultura. refletem-se as lutas da humanidade para dominar o mundo. Demo (1996. Cultura. há a adoção do conceito de patrimônio cultural como a “acumulação de bens. aplicados. entretanto. o que só poderá ser conseguido por meio da pesquisa. à reapropriação e à criação de novos patrimônios culturais. que os conteúdos transmitidos pelas escolas. sem a devida redução social. 1993). que não passam de insumos preliminares. em currículos com conteúdos impostos de cima para baixo. visando à apropriação. então. sendo que o patrimônio cultural é compreendido como algo que se esgota no passado. o caminho a ser percorrido. Uma seleção adequada de tudo isso preenche-nos o programa de uma ilustração ponderada para continuar reflexivamente e refazer o progresso. cabendo aos sujeitos sociais. as injustiças e as necessidades insatisfeitas. O conceito de museu. leituras. ainda permanece como “um local onde se guarda coisas antigas”. Nesses saberes. deveria ser. para a grande maioria de professores e alunos. o legado cultural deve ser a base. o conhecimento social. à medida que começa e se reconstitui pelo questionamento sistemático da realidade. considerada como princípio educativo. A pesquisa. enquanto a pesquisa inclui sempre a percepção emancipatória do sujeito que busca fazer e fazer-se oportunidade. É interessante registrar.5 “O herdado” compreende os âmbitos mais diversos da experiência constituída em saber codificado: a ciência. até certo ponto. patrimônio este. no Brasil. ainda pode ser considerada atualizada. a literatura. no presente. contemplá-lo. o referencial básico para a apresentação de novos problemas e de novas abordagens. etc. realizando uma reflexão sobre a atuação dos museus e das escolas. para melhorá-lo. de maneira passiva. pois. a tecnologia. p. em escolas burocratizadas e distantes das comunidades na qual estão inseridas. como princípio educativo. preservado e depositado nos museus. produzidos no passado e representativos da produção cultural de determinadas camadas da sociedade”. também se encontram os instrumentos e as imagens que denunciam os erros cometidos. caso contrário iríamos restringi-la a mera acumulação de dados. Em todos eles. Repensar a tradição e reconstruí-la é missão primordial da escola. para vivê-lo de maneiras diferentes. têm privilegiado padrões de cultura importados. dissociados da realidade dos alunos.

ou seja. a ampliação do conceito de patrimônio está relacionada. Conseqüentemente. da pesquisa que se esgota na mera descrição e análise dos objetos. contribuíram. para que as ações museológicas possam ser processadas fora do espaço restrito do museu. foi um vetor a incentivar a busca de soluções criativas. tomando como referencial o cotidiano. como ecomuseu. os bens culturais a serem musealizados também foram ampliados. as ações museológicas não são processadas somente a partir dos objetos. das coleções. de modo efetivo. conforme explicitado a seguir: • a atividade de pesquisa tem como objetivo a construção do conhecimento.Esse conhecimento é construído na ação museal e para a ação museal. com o objetivo de apontar. amplas possibilidades para a realização de novos processos de musealização. É importante compreendermos com qual conceito de processo museológico estamos trabalhando. em interação com os diversos grupos envolvidos. abertas a uma população e a um território. para que seja possível realizar a análise de aproximação proposta. o patrimônio cultural é compreendido como a relação do homem com o meio. Assim como a educação. na dinâmica da vida. também. embora reconheça as especificidades de cada um. posteriormente. como um processo. qualificado como patrimônio cultural. natural e cultural. tornando assim necessária uma ampla revisão dos métodos a serem aplicados nas ações de pesquisa. à criação de novas categorias de museus. na medida em que. O fazer museológico é compreendido. assim. preservação e comunicação. imaterial. nos diferentes contextos. ou seja. preservação e comunicação.6 O Processo Museológico como Ação Educativa e de Comunicação A partir da compreensão de que a educação se apóia na construção e reconstrução do patrimônio cultural. em suas dimensões de tempo e de espaço. para a ampliação do seu conceito. Não se trata. A pesquisa alimenta todas as ações museológicas. caracterizado pela aplicação das ações de pesquisa. também. observação. Do ponto de vista metodológico. . procurarei estabelecer as relações entre os mesmos. Nesse sentido. museu comunitário. contribuiram. análise e interpretação da realaidade. bem como para avaliar as práticas museológicas aplicadas em outras categorias de museus. para sua aplicação. buscarei estabelecer uma aproximação entre os dois processos: educativo e museológico. na sua totalidade: material. etc. abrindo. então. em processo. qualificada como patrimônio cultural. Essas novas categorias de museus. ao longo dos anos. Os processos museais gestados. Por outro lado. o real. museu de vizinhança. o patrimônio cultural é o referencial básico para o desenvolvimento das ações museológicas. mas tendo como referencial o patrimônio global. possibilidades de ações conjuntas.

realizando ações de pesquisa. então.busca-se a formação de atitudes preservacionistas.o acervo é o conjunto dos bens dinâmicos. um aumento da auto-estima de ambos quando o produto do seu trabalho é utilizado para a compreensão da realidade e para a construção de um novo conhecimento.. estruturas. em andamento no museu. ou seja: material arquivístico e iconográficos. também. A conservação é. . depoimentos testemunhos. O banco de dados é o referencial básico de informação. atingindo. aberto à comunidade. pelos diversos processos. equipamentos. O processamento do conhecimento produzido e sua inclusão no banco de dados se dá com a participação dos componentes do museu. para a sua aplicação. e não somente uma coleção. em transformação em uma comunidade. maquetes. elaborado no processo educativo. com o meio rural. Estabelece-se um processo no sentido de compreender os objetivos da preservação. discutidos com os diversos grupos envolvidos na ação museológica e absorvidos pelos mesmos. referente à realidade local. que são sistematizados. formando o banco de dados do museu. ao mesmo tempo em que os técnicos participam na elaboração dos instrumentos de coleta de dados.7 • na ação de preservação são destacadas as seguintes etapas: Coleta . assim. etc. Busca-se a qualificação da cultura. estabelece-se um processo dialógico no qual o museólogo e os demais grupos envolvidos são enriquecidos. produzir conhecimento. e que deve ser alimentado. e com o acervo operacional: as áreas do tecido urbano socialmente apropriadas como paisagens. havendo. no fazer cotidiano das pessoas. Busca-se. classificação e registro – o processo documental não se limita ao registro do acervo. constantemente. por meio da cultura qualificada. um processo de reflexão para uma ação que se dá em um contexto social e não somente a aplicação de técnicas em determinados acervos. Esforços são concentrados na busca da sensibilização e na formação de conservadores. monumentos. etc. a partir de suas aptidões e atitudes. Os instrumentos utilizados na documentação são criados e adaptados a cada realidade. da análise e compreensão do patrimônio cultural na sua dinâmica real e não a seleção de determinados aspectos para armazenamento e conservação. por meio da ação interativa entre os técnicos e os grupos envolvidos. de acordo com as características das diversas realidades que estão sendo musealizadas. Trabalha-se com o acervo institucional. a partir das ações de pesquisa. tanto na fase do planejamento como na execução. com os artefatos. Há uma documentação dos dados coletados. plantas. Conservação . na própria população. os objetivos propostos na ação documental. as técnicas do saber e do saber fazer.

preservação e comunicação que conseguimos nos distanciar da compartimentalização das disciplinas e. além de ser ponto de partida para outra ação de comunicação. ou seja. na interação com os nossos pares e com os demais sujeitos sociais envolvidos nos diversos projetos.8 • quanto à comunicação. compreendido como uma seqüência de estados de um sistema que se transforma. que é resultado da ação e da reflexão dos sujeitos sociais. Assim como na educação. transforma o sujeito e o mundo. em determinado contexto. mas é importante registrar que sempre fica uma distância entre o material “inerte” que é exposto e o processo vital que lhe deu origem. na troca. ao transformar-se. uma vez que são gestadas por meio de um processo constante de interação em uma ação pautada no diálogo. estabelecer metas e objetivos que não se esgotam na aplicação da . rico. é necessário que seja aplicada com competência formal e política. o processo museológico é compreendido como ação que se transforma. na mera aplicação da técnica pela técnica. realizar. por meio da interpretação e uso do patrimônio cultural. e que. estabelecida no processo que antecedeu a exposição e durante a montagem. Ao contrário do procedimento mais usual dos museus. como processo. de afetividade. Portanto. por meio do questionamento reconstrutivo. em um processo constante de revisão. de adaptação e de renovação. A utilização do termo processo permite atribuir. levando-se em consideração as características dos grupos envolvidos e as diversas maneiras de estar no mundo e de se expressar. para que a Museologia seja aplicada. por meio de diferentes linguagens. o sentido de associarmos o termo processo às ações de musealização. também são um processo de comunicação. não está restrita ao processo de montagem das exposições. é necessário desenvolver a face educativa da Museologia. ao mesmo tempo. portanto. portanto. as dimensões social e educativa à Museologia. A exposição é parte integrante do processo museológico. preservação e comunicação estão integradas entre si. É necessário salientar que. na ação museológica aqui proposta. aos objetivos dos diferentes projetos e às características dos diversos grupos sociais. já analisadas anteriormente. passível de ser repensado. modificado e adaptado em interação. com o objetivo de atingir. em que a exposição é o ponto de partida no sentido de estabelecer uma interação com o público. de criatividade e de reflexão.É interessante ressaltar que as ações museológicas de pesquisa. As demais ações museológicas de pesquisa e preservação. porque é buscando as interfaces das ações de pesquisa. nos quais estejamos atuando. a exposição é. caracterizá-la como ação de comunicação. Compreender a ação museológica como ação educativa significa. ao mesmo tempo. que dá origem ao conhecimento que está sendo exposto e a uma ação dialógica de reflexão. cheio de vitalidade. a ações museológicas não podem esgotar-se em si mesmas. Daí. produto de um trabalho interativo. no diálogo. contribuindo para a construção e reconstrução do mundo. o desenvolvimento social e o exercício da cidadania.

Nesse sentido. considero que o processo museológico é um processo educativo e de comunicação. de nossa identidade. nas escolas e nas instituições parceiras. compreendidos. qualificada como patrimônio cultural. buscando. apoiado em um patrimônio. contribuir. capacitando-os a formular e executar projeto próprio de vida no contexto histórico. integrando as diversas áreas do conhecimento. Nesse sentido. os desafios e as soluções para os mesmos. evitando. a dissociação entre os meios e o fim. por meio das ações museológicas de pesquisa. contribuindo para a construção do conhecimento. definimos o fato museal como: a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa. a partir das múltiplas realidades. situando-os no contexto mais amplo da sociedade.9 técnica. preservação e comunicação. tornando possível ao cidadão considerá-lo como um referencial para o exercício da cidadania. brasileiros. para gerar um processo de preservação do patrimônio global. dos seus anseios. com o objetivo de produzir conhecimento. Portanto. a partir das suas histórias de vida. descontextualizada. conjuntamente. ƒ ƒ ƒ ƒ . objetivando a construção de uma nova prática social. preservação e comunicação. capaz de contribuir para que o cidadão possa ver a realidade e expressar essa realidade. As ações museológicas deverão ter como foco a nossa identidade como sujeitos singulares e múltiplos cidadãos. em conjunto. a construção de uma nova prática social. inclusive. contribuir para aumentar as opções de lazer das comunidades envolvidas nos projetos. de nossa cultura. o processo museológico é ação educativa e de comunicação. expressar-se e transformar a realidade. aqui. realiza ações museológicas. buscando. sul-americanos. de tal forma que o conhecimento faça parte de nossas vidas. os projetos poderão ser desenvolvidos com a participação dos núcleos comunitários. cidadãos do mundo. isolada. visando ao desenvolvimento humano sustentável. atingir os seguintes objetivos: ƒ promover a apropriação e a reapropriação do patrimônio cultural. com objetivos e metas estabelecidas a partir das suas necessidades. Assim. integrando o museu à sociedade. como um grupo de indivíduos que. definindo. e que não seja somente o conhecimento legitimado por outros grupos. qualificadas como patrimônio cultural. Deverão ser abertas possibilidades de leituras múltiplas do mundo. por meio do processo museológico. promover a participação dos cidadãos na elaboração e na execução dos projetos. assim. democratizar o conhecimento produzido nos museus.

conservando. divulgando e promovendo a sua utilização.10 ƒ musealizar o conhecimento produzido através dos diversos projetos.Não pretendo. um alimentando o outro. criar oportunidade de ampliar conhecimentos. promover a formação de profissionais que potencializem suas instituições como agentes de desenvolvimento regional. observando-se as necessidades e diversidades regionais. preservação e comunicação museológicos. capacitando-os para a aplicação de metodologias e técnicas de pesquisa. proporcionar meios para que as instituições museais melhorem e ampliem seus campos de atuação no meio social onde estão inseridas. na reestruturação dos procedimentos a serem adotados para operacionalização dos projetos a serem desenvolvidos na atuação conjunta entre as duas instituições. expondo. o que deverá influenciar. documentando. promover o intercâmbio e parcerias com outros museus e instituições nos âmbitos local. também. interagir com as instituições educacionais elaborando projetos com o objetivo de utilizar o patrimônio cultural como um suporte essencial ao processo educativo e ao desenvolvimento social. ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ ƒ A Museologia. potencializar os recursos educativos da comunidade. melhorar o desempenho e a qualificação dos profissionais que atuam em instituições culturais e educacionais. nacional e internacional. apresentar receitas para a execução dos programas a serem . por meio da realização de programas de cooperação mútua. contribuir para a construção do conhecimento na área da Museologia. realizando o intercâmbio necessário entre o ensino formal e o não-formal. desenvolver e aplicar tecnologias. como já foi dito na apresentação do presente trabalho. o Museu e a Educação: perspectivas de ação-reflexão As concepções de Educação e de Museologia aqui apresentadas. viabilizar a utilização do potencial turístico da cidade e dos bairros onde os museus e as escolas estão inseridos. apontam para a necessidade de reformulação das metas e dos objetivos a serem alcançados na interação entre museu e escola. oferecer aos profissionais da área subsídios da reflexão contemporânea na Museologia. rever conceitos e modificar procedimentos de trabalho. na área da Museologia. classificando.

manifestada em atitudes que demonstrem a motivação e o desejo de mudar. efetivamente. escola e comunidade. para atingir sua função pedagógica. É necessário registrar que não estamos vinculando a concepção de processo museológico. a transformação dos responsáveis pelos projetos. com questionamento crítico e criativo. a cada dia. portanto. não pode ser considerado um produto pronto. Pensar a relação museuescola na perspectiva de processo aqui apresentada. As sugestões que são apresentadas a seguir têm o objetivo de motivar.11 desenvolvidos. acabado. em conjunto. a partir das reflexões apresentadas anteriormente. São as nossas concepções de museologia e de museu que estarão atribuindo à instituição diferentes perfis. talvez. deixar de interagir com outras áreas do conhecimento. ou de • • • . apoiada na minha experiência na execução de projetos envolvendo museus. de buscar uma atualização constante. preservação e comunicação devam ser aplicadas em interação e como função educativa. como instituição historico-socialmente condicionada. como princípio científico e educativo. contudo. A pesquisa. o que buscamos é aproximar processos e instituições. definindo metas e objetivos. aponta para a necessidade de uma ação integrada entre os técnicos que atuam em todos os setores dos museus. que tenha como produto a construção do conhecimento. é necessário compreender que não é somente o setor educativo do museu o responsável pelos programas com as escolas. no sentido de atingir a nossa missão como educadores. ele é o resultado das ações dos sujeitos que o estão construindo e reconstruindo. sobretudo. que deverão ser desenvolvidos com qualidade formal e política. o meu objetivo é. Daí. para o desenvolvimento socio-cultural. para desenvolver o pensamento crítico. compreendendo que. deverá ter uma capacidade de produção própria. ampliando assim as funções e os campos de aplicação das mesmas. apresentar algumas reflexões e contribuições que possam. que deverão ser adaptados aos diversos contextos. educativa: • o museu. a necessidade de uma avaliação constante que deverá fornecer dados significativos para a definição da missão e dos objetivos.o que implica a necessidade de abertura. por parte de seu corpo técnico e das pessoas responsáveis por sua administração. a compreensão de que as ações museológicas de pesquisa. é o caminho para que o museu possa contribuir. tornar este trabalho conjunto mais eficaz. é necessário haver sistematização e argumentação. a operacionalização das programações pode ser responsabilidade de um setor específico. o museu. implica. sem. bem como as sugestões aqui apresentadas a uma categoria específica de museu. de estimular a prática museológica. que seja. e. compreendemos que a aplicação do processo museológico independe das categorias de museus.

buscando o enriquecimento com a experiência do outro. Temos constatado. com os sujeitos sociais que estão fora dos museus. do museu e da Educação. superando as questões burocráticas. Freire (2000) nos lembra que “a questão fundamental não está em que o passado passe ou não passe. é necessário repensar os procedimentos adotados nos programas desenvolvidos com as escolas. a ânsia de mostrar. a aplicar as ações museológicas fora do espaço do museu. A minha experiência tem demonstrado que há imensas possibilidades de crescimento da Museologia. Nesse sentido. a criação de novos museus. para serem transmitidos aos alunos. compreender o objeto. “nesse sentido. o estudo do passado traz à memória do nosso corpo consciente a razão de ser de muitos dos procedimentos do presente e nos pode ajudar. O que é mais importante compreender é que todas as ações museológicas devem ser pensadas e praticadas como ações educativas e de comunicação. quando nos dispomos. a manifestação cultural. “sair da gaiola”. também. com uma postura instrucionista. a superar marcas suas”. Para tanto. desperta. torna-se. com pensamento crítico. estaremos incentivando a criação de novos processos museais. Para que esse intercâmbio seja efetivado é necessário que estejamos abertos à cooperação e à participação. toda a coleção do museu. para estabelecer conexões entre o velho e o novo. para uma análise crítica e para o estímulo da criatividade. potencializando o patrimônio cultural como vetor de produção de conhecimento. o museu necessita ser vivido. interagir com outras instituições. mas na maneira crítica. não passarão de técnicas que se esgotam em si mesmas e não terão muito a contribuir com os projetos educativos que venham a ser desenvolvidos pelo museu. Ao assim procedermos. estimulando e apoiando. percebida. há anos. o incentivo à criatividade e à abertura de novos • • . entre arte e ciência. em interação. no passado. Mais do que tornar-se conhecido e divulgado. tornando a instituição um grande depósito para guarda de objetos.12 vários setores. a partir da compreensão do passado. para comparações. • 0 processo de interpretação do patrimônio cultural deve ser desenvolvido com uma função educativa e não instrucionista. compreendido como um local onde a tradição pode ser conhecida. questionada e reinventada. as limitações de tempo. Destaca o mestre que. bem como contribuindo para repensar as ações que estão sendo desenvolvidas nos museus já instituídos e nas escolas. inclusive. entre uma cultura e outra. mesmo porque. estabelecendo parcerias para a realização de projetos integrados. sem esta concepção. o isolamento dos museus. com que entendemos a presença do passado em procedimentos do presente. como um ponto de partida para questionamentos. fazendo a ponte entre os objetos e a cultura do aluno. memorizar características das coleções e alguns fatos relacionados à vida. até certo ponto atividade pouco produtiva. ou fazê-los representar cenas e vivências do passado sem o afastamento e a reflexão necessários para compreensão do tempo do aluno e do tempo passado.

professores e profissionais da área da Museologia. Nesse sentido. Quais os resultados efetivos conseguidos ao assim procedermos? Talvez. de uma forma mais ampla. Essa experiência proporcionou a oportunidade de realizar um treinamento em serviço. criando oportunidade de ampliar conhecimentos. com os técnicos que atuam nos museus e nas escolas. em contínua comunicação com o meio. do patrimônio do bairro. realizando uma gerência participativa. de aposta na ação e na reflexão conjunta. fazendo o caminho inverso do que estamos acostumados a fazer. • • . desenvolver projetos com o objetivo de melhorar o desempenho e a qualificação dos profissionais que atuam nessas instituições. Esta proposta está embasada na experiência por mim vivenciada em um grande colégio da rede estadual de ensino da cidade de Salvador-BA. bem como para a utilização do patrimônio cultural das comunidades onde as escolas estão inseridas e do patrimônio da cidade. no cotidiano da escola. não devem ser culpados pela falta de um relacionamento mais estreito entre os museus e as escolas. tornando o museu e a aplicação das ações museológicas mais próximos das escolas. por meio de uma ação integrada com os Cursos de Museologia. rever conceitos e modificar procedimentos de trabalho. incentivando a criação de verdadeiras estruturas democráticas de participação pró-ativa. e pela falta de qualidade dos nossos programas. Considero que essa seria uma atitude fundamental no sentido de se qualificar o fazer cultural dos diversos participantes. e da cidade. quando a ação museológica desenvolvida no interior da escola aproximou alunos. Considero que os nossos problemas de relacionamento com os professores não serão resolvidos apontando culpados. funcionários e membros da comunidade e de outros museus. professores. tornando a escola um local de aprendizagem para alunos. também. como patrimônio cultural. tendo como referencial o patrimônio cultural. sugiro que ampliemos a nossa rede de interação. buscando a sua apropriação e reapropriação. atitude esta que poderá. em sua relação com o mundo. em relação aos professores. É possível criar uma rede de interação de recursos educativos.13 caminhos. abrir amplas possibilidades para a criação de uma grande rede de comunicação entre museus de diferentes categorias e as escolas. mantendo uma comunicação permanente. nos ajude muito mais. como um todo. acreditamos que estes devem deixar de ser considerados como um problema e passar a ser parceiros. a escola também deve se tornar uma instituição aberta à comunidade e às parcerias com outras instituições. executando vários projetos. onde está inserida a escola. uma atitude de aproximação. visando à utilização do patrimônio cultural como instrumento de educação e do desenvolvimento social. • assim como o museu. no sentido de tornar a escola um sistema aberto. integrando-os a objetivos comuns. em que há troca e respeito à idéia do outro.

experimentando-as na vivência de cada um. a todos aqueles envolvidos nessa rica teia de relações. da rede escolar e dos museus. o que implica. compreendê-las não como receita. com criatividade e muita determinação. para a necessidade de ousar. Nesses tempos de desencantamentos. testando-as. com certeza. • Considerações finais Tenho consciência das imensas dificuldades que iremos encontrar para aplicar muitas das sugestões aqui apresentadas. . Consideramos fundamental que a ampliação da rede de interação aqui proposta atinja. nunca é demais relembrar. de falta de estímulo e de acomodação. pois. criando novos conceitos e novos métodos. o nosso mestre Paulo Freire (2000). por meio da pesquisa. que considero muito apropriado para as reflexões que estamos realizando neste momento: Não gostaria de ser homem ou de ser mulher se a impossibilidade de mudar o mundo fosse algo tão óbvio quanto é óbvio que os sábados precedem os domingos. aos cursos de formação de professores. também. também. buscando. apoiada nos referenciais do patrimônio cultural. também. com a participação de seus alunos. vez que umas das maiores dificuldades que encontramos é vencer as barreiras das escolas e dos museus burocratizados. Chamo a atenção.14 • Sugerimos que a rede de comunicação acima proposta seja estendida. talvez seja o primeiro passo no sentido de iniciar ou de alimentar processos museológicos já em andamento. mais uma vez. apresentando a citação de um texto seu. com o objetivo de trabalhar com professores e alunos. são elaborados para atingir objetivos impostos de cima para baixo. estarão. Acredito que a idéia da rede de interação deverá proporcionar. os diversos escalões das instituições responsáveis pela administração das escolas e dos museus. Não gostaria de ser mulher ou homem se a impossibilidade de mudar o mundo fosse verdade objetiva que puramente se constatasse e em torno de que nada se pudesse discutir. um aprendizado constante e renovado. com certeza. quando existem. bem como aos Cursos de Museologia. a coragem para enfrentar e solucionar problemas. realizando projetos que proporcionarão a oportunidade de vivenciar a rica experiência de. Assim. assim. capacitar os futuros museólogos e professores para a realização de projetos semelhantes. aproximando os Cursos da comunidade. Acho mesmo que a atuação conjunta dos cursos de formação de professores e dos Cursos de Museologia seja uma grande contribuição no sentido de viabilizar a execução das propostas aqui apresentadas. nos diferentes níveis. cujos projetos pedagógicos. mas como possibilidades. os referenciais aqui apresentados são “temporários”. novas possibilidades de ação-reflexão. como já foi salientado.

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