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PHOTOGRAPHY 2.

0:
Considerations about the photografic registry in digital media
Pedro Passos

Abstract: The present work wants to align in an expositive way concepts presented previously
by many authors, like spectacle society with the importance of social and digital photography, as
a social tool, now exponentially multiplied by new comunication ways like Flickr, transforming the
photografic information not only as a kind of record, but as a social comunication’s tool among
these new medias.

Keywords: Photography, Flickr, Spectacle Society, Social Network.

FOTOGRAFIA 2.0:
Considerações sobre o registro fotográfico nos veículos digitais
Pedro Passos

Resumo: O presente trabalho busca alinhar de forma expositiva conceitos já antes abordados
por diversos autores, como a sociedade do espetáculo com a importância do registro fotográfico
social digital, como ferramenta social agora multiplicadas exponencialmente por novas formas
de comunicação como o Flickr, transformando a informação fotográfica não só em gravação de
algo, mas como ferramenta de comunicação social dentre esses novos meios.

Palavras-chaves: Fotografia, Flickr, Sociedade do espetáculo, Redes Sociais.


1- Introdução - Comunicação Link-a-link

Sintomas da sociedade em colapso diante de uma crise global econômica que

desestrutura não só financeiramente grandes instituições, mas afeta individualmente as

pessoas que se vêem na situação de quebra de paradigmas: muitos valores antes

considerados como verdades caem e existe a necessidade da busca de novos moldes,

de novos valores, assim como para a comunicação – temos uma grande quantidade de

informação disponível, uma rapidez e praticidade nunca antes imaginada – em

contrapartida o tempo torna-se cada vez mais escasso e temos outra necessidade, a de

sintetização das informações.

Primeiramente, podemos categorizar o tempo de duração das mídias que

conhecemos como convencionais contado. O modo de comunicação unilateral como

prega a tv e alguns outros meios não tende só a mudar como se reinventar – a exemplo

do canal FIZ TV1 onde o conteúdo inteiro do canal é produzido pelos próprios

espectadores. – como afirma Downing (1995), o conceito de mídia individual (one-way

transmission) foi rejeitado. Não falamos só então de uma nova forma de interatividade

estrutural como propõe a TV digital, mas de produção de conteúdo, cada vez mais

facilitada por esses meios.

E cada vez mais essa visibilidade possível que os “novos formatos” de mídia

podem gerar de forma instantânea e multiplicadora surgem. Observando pelo espectro

da imagem, os blogs de fotografia, ou fotologs, o próprio flickr e os álbuns de fotografia

2
Fiz TV: Canal de Televisão criado pela Abril, e cujo objetivo é fundir as mídias Internet e TV, veiculando
vídeos produzidos por sua comunidade de usuários, na internet, e levando para a TV os mais bem avaliados,
visando também estimular, organizar e distribuir a produção nacional amadora.
nessas redes sociais nos mostram como é importante esse novo método de registro e

compartilhamento da informação fotográfica nessa nova dinâmica de comunicação que

é a internet. Segundo Soares(2009) nos períodos de crise é que a criatividade e a

colaboração ganham extremo valor devido a falta de recursos financeiros e o Flickr,

como ferramenta de web 2.0, possui em suas ferramentas de interação o segredo para

troca de informações de uma maneira nova. Interagindo você pode fazer parcerias,

trocar ajudas, abrir seu leque de opções através do trabalho e das opiniões dos demais

usuários e que, como qualquer atividade criativa, seja ela online e offline, é uma ótima

receita de escapismo, quase uma terapia, para enfrentar dificuldades do dia-a-dia

E essas novas ferramentas de comunicação dão a tônica para esse novo

formato de informação na internet: a web 2.0. Nela partilhamos as informações, o nível

de comunicação horizontal permite que o consumidor torne-se muito mais facilmente

produtor de conteúdo.
2. A fotografia como ferramenta social

Quando falamos desse tipo de conteúdo, temos uma gigantesca massa de

informações na sua grande maioria sociais, como reais fragmentos de uma desejada

realidade das pessoas e de suas vidas. Se voltarmos ao passado, Martins(2008) nos

lembra que o registro cultural também é altamente importante nos registros de imagem.

Ao observarmos as composições renascentistas Holandesas, devido a influência

protestante, o homem aparecia no centro da imagem, como credor. Já no renascimento

italiano, influenciado pelo catolicismo, o as entidades divinas aparecem centralmente,

como cobradores, e o homem unicamente como pecador.

É importante entendermos que esse registro social, se observado de forma

analítica nos lembra que a fotografia não só congela um momento no processo social

mas nutre a realidade da característica polissêmica da fotografia, redefinindo as

significações da imagem.“(...)É constitutiva da realidade contemporânea e, nesse

sentido, é de certo modo objeto, e também sujeito.” (MARTINS, 2008, p. 23).

A fotografia portanto torna-se tanto popularizada e utilizada como registro sobre

a realidade social porque os instrumentos usuais e já tradicionais tornam-se

insuficientes. Devemos levar em consideração também a necessidade visual da

sociedade, o ver para crer.

“(...)a imagem, sobretudo a fotografia, por ser flagrante, revelou as insuficiências

da palavra como documento da consciência social e como matéria prima do

conhecimento.” (MARTINS, 2008 p.11). No momento do registro, o narrador tenta tornar

coerente o que não lhe parece coerente, ele informa já interpretando – e consideremos
pois que a sociologia não trata a realidade crua do homem strictu sensu mas inclusa

sua interpretação pelo homem simples e comum, que registra seus processos

interativos, suas referências e diversos fatos que até não estão ao alcance de sua

compreensão, cabendo a nós traduzir essa ligação entre o visível e o invisível entre o

que chega na consciência e o que se oculta na alienação da vida social. É o que

podemos ver em comum, considerando o conhecimento do usuário que usa a fotografia

como instrumento de auto-identificação e de conhecimento de sua visualidade e

visibilidade na sociedade, além da popularização da fotografia digital, que não só

permitiu que todos tivessem acesso a produção de forma fácil mas também que pela

possibilidade de empirismo ilimitado que o formato digital permite, aumenta também a

facilidade de que o próprio conteúdo seja narrado exatamente da forma que seu

fotógrafo-narrador, sendo ele amador, deseja.


3. A separação Homem-Imagem

É claro que a imagem tem uma relação muito forte com o emocional pois muitas

vezes tece uma história, sendo ela um documento da incerteza, ocultando segredos.

Atualmente, mesmo quando não temos uma imagem na lembrança, tentamos remeter

fotograficamente à situação. A fotografia amadora, por consequência tenta registrar

momentos onde em sua maioria o homem é o centro das seus registros. Portanto, o

homem comum ao observa-la não consegue se por seu conhecimento dissociar a

emoção dos momentos, como entes que já morreram, separações de familiares, etc da

realidade biográfica crua ou da análise do momento, do ambiente, entre outros. Então,

nesse ponto de vista a fotografia torna-se não só instrumento de registrar o presente

mas de guardar o passado para momentos oportunos, pois sabe que o viver do

presente é passageiro.

Porém, o objetivo desse artigo é visualizar de que forma essa imagem separada

do próprio homem, que por muitas vezes dissocia-se fotografando-se em monumentos,

palácios, casas de pessoas ricas, o que completa na verdade o cenário fotográfico

alienando o fotografado de sua classe ou categoria social. Debord (2003) completa de

acordo com sua análise da sociedade espetáculo que as imagens que se desligaram de

cada aspecto da vida fundem-se num curso comum, onde a unidade desta vida já não

pode ser restabelecida. A realidade considerada parcial desdobra-se na sua própria

unidade geral enquanto pseudomundo à parte, objeto de exclusiva contemplação. A

imagens do mundo tornaram-se especializadas, encontram-se realizadas no mundo da


imagem autonomizada, onde o mentiroso mentiu a si próprio, uma negação visível da

vida; como uma negação da vida que se tornou visível.

O denominado espetáculo por Debord2 em geral torna-se portanto uma inversão

concreta da vida não sendo só uma imagem, mas uma relação social entre as pessoas

mediada pela imagem.

Temos então como incluir dentro dessa necessidade como um dos eixos da

relação de necessidade fotográfica a desumanização do homem comtemporâneo que

dissocia-se de sua própria imagem e assume o espetáculo como um o modelo de vida

predominante e as escolhas de consumo dominantes a serem seguidos.

Em entrevista, Soares3 (2009) nos resume o Flickr como um exercício criativo

alimentado pela colaboração mútua de seus membros, onde as pessoas “gostam de

dizer quem são aos olhos do mundo”. A importância que algo conceitualmente pode

obter na exposição global e, porque não dizer viral, da web 2.0 mostra que

desconhecidos podem em pouco tempo ser admirados por muitas pessoas, e que a

mensagem que ele conceitualmente ou de forma não intencional passa se espalha

muito facilmente através de boca-a-boca, ou link-a-link, de forma de que essa imagem

seja vista por todos e que possa ser produzida muitas vezes de forma irreal, e de forma

recíproca ao receptor que sustenta a sociedade do espetáculo.

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2
Guy DEBORD (Paris, 28 de dezembro de 1931 — 30 de novembro de 1994). A Sociedade do Espetáculo é o
trabalho mais conhecido de Guy Debord. Em termos gerais, as teorias de Debord atribuem a debilidade
espiritual, tanto das esferas públicas quanto da privada, a forças econômicas que dominaram a Europa após a
modernização decorrente do final da segunda grande guerra. Seus textos foram a base das manifestações do
Maio de 68. Alguns filósofos e historiadores afirmaram que essa rebelião foi o acontecimento revolucionário
mais importante do século XX, por que não se deveu a uma camada restrita da população, como trabalhadores
ou minorias, mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.
3
Edson SOARES de Souza Junior (Goiania, 30 de Agosto de 1984). Brasileiro que compõe parte da equipe
global do site Flickr.
4. Sintetização dos conteúdos – Multiplicação das informações

Então a fotografia entendida por Martins que hoje de forma exponencial temos

publicada na internet pode ser categorizada por Debord como a expressão da

separação e do afastamento entre o homem e o homem. Isoladamente, podemos

observar a importância da fotografia na internet – com o advento e a popularização

dessa nova tecnologia, as pessoas podem também tornar-se produtoras de imagens e

registros que possuem extrema importância social, seja para unicamente expressar

uma exo-imagem ou um conceito de forma que esse se multiplique pela rede.

O Flickr torna-se uma rede social de fotografias onde a pessoa expõe seu

conteúdo de forma virtual. Soares nos afirma que “Um exército de pessoas que sequer

praticava ou consumia fotografia se viu inserido nesse universo e, por puro prazer, foi

atrás de melhorias e de novas referências”. Essa popularização permitiu o contato com a

arte e a produção artística além de seu compartilhamento de forma barata.

Além de ser uma rede social, o flickr entra também na possibilidade de

integração da categoria da web 2.0 chamada mashup, que visa mixar as informações

de forma que o conteúdo divulgado no site do flickr possa ser mixado com outras

ferramentas afim de criar um novo serviço juntamente com uma nova finalidade.

Podemos considerar de acordo com o contexto analisado um momento de cisão

nessa busca de valores: as imagens ficaram tão parecidas com a realidade que essa

confusão de coisas claramente distintas nos dias de hoje trouxe por exemplo a busca

por antigas tecnologias como a Lomografia, que segundo Soares tem importância

antropológica por tratar-se de um processo manual e analógico.


A Simplicidade da fotografia alia-se em contrapartida com a capacidade de

conteúdo e referencial sígnico que de forma complexa ela pode representar encaixam-

se perfeitamente no tipo de conteúdo significativo que a web comporta – rápido e de

fácil acesso. Apropriando-se do próprio espetáculo de Debord, o que aparece e bom e o

que é bom aparece, e nesse caso e de forma viral e instantânea.

Podemos também considerar as tags, a chamada folksonomia, acrescentando

ainda mais referencial para as imagens com índices que identificam as fotos digital com

palavras relacionadas, permitindo que você possa procurar pelo conteúdo digital e

encontrar a sua própria imagem (YEE, 2008).

O comunicador deve interpretar não so as sintomáticas da sociedade mas

entender o poder que essas ferramentas que é a nova fotografia tem nos meios atuais:

uma pessoa pode fotografar algo em seu aparelho celular, essa foto é publicada no

flickr, o flickr comunica-se com o orkut, facebook e essas informações além de

replicadas por esses meios podem ser remixadas ainda com outras informações de

outros sites, instantaneamente gerando serviços diferentes, os mashups. Como

MORAES finaliza como tendência positiva as misturas oriundas de mashups. “Os

desenvolvedores são capazes de criar coisas incríveis, como o Ideé Multicolor Lab

Seach4, onde com uma idéia e uma percepção da importância desses elementos cria-

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4
Multicolor Search Lab Flickr Set :Mashup de busca que liga a capacidade de escolha de até 10 cores
simultaneas das 10 milhões das mais acessadas imagens do Flickr.
se um serviço capaz de auxiliar a todos no processo de comunicação chamado web

2.0.
Referências:

DEBOR, Guy. A sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.

DOWNING, John. Questioning the Media, California, Sage, 1995

MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem, Rio de Janeiro,

Contexto

SOARES, Edson de Souza Junior. Flickr e fotografia contemporânea, Entrevista

concedida a Pedro Passos, Rio de Janeiro, 12 de Junho de 2009.

YEE, Raymond. Pro Mashups Web 2.0, Rio de Janeiro, Alta books, 2008

IDEÉ MULTICOLR SEARCH;

Disponível em <http://labs.ideeinc.com/multicolr/>. Acesso em

05 jun 2009.

Fiz TV, WIKIPEDIA.

Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Fiz_tv>. Acesso em: 05

jun 2009.