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A ÉPOCA da classe mé-

dia é o assunto estuda-


do por Otto Maria Car-
peaux neste quinto vo-
lume da sua monumen-
tal História da Literatu-
ra Ocidental. Trata-se
de um período dos mais
ricos de acontecimentos
importantes da história
da Humanidade, onde
surgem e avultam gran-
des figuras do romance,
da poesia, do teatro e do
pensamento crítico. Mu-
nido de um cabedal in-
vulgar de conhecimentos
literários, Otto Maria
Carpeaux delineia um
quadro geral e profun-
do do período social que
leve como seu fulcro a
ciasse média. A realida-
de político- económica e
suas implicações ideoló-
gicas, as concepções re-
novadoras da arte da
criação artística, as
ideias de uma nova es-
tética, este é o vasto
panorama que o autor
perquire e analisa, a
fim de ressaltar as fi-
guras preeminentes da
criação literária e que
contribuíram para con-
figurar a época da clas-
se média. Todos os as-
pectos dessa época são
iluminados pela inteli-
gência e pela sensibili-
dade «de Otto Maria
Carpeaux, mesmo aque-
les que repontam como
de significação aparen-
temente menor. A sim-
ples enunciação de al-
guns dos temas aborda-
dos permitirá ao leitor
formular uma impressão
deste quinto volume:
hliifili—II determinista,
1

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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL

Publicados:
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VOLUME I
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lo, Literatura Grega / O Mundo Romano / História do Humanismo e
la das Renascenças / O Cristianismo e o Mundo
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I / O Marroco Protestante / Misticismo e Moralismo / Antibarroco
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VOLUME III
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ILUSTRAÇÃO E REVOLUÇÃO
iCCti Origens Neobarrocas / Classicismo Racionalista / O Pré-Romantísmo /
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O ROMANTISMO
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le Bi Igons do Romantismo / Romantismo de Evasão / Romantismo em
Oposição / O Fim do Romantismo

VOLUME V

los ] A ÉPOCA DA CLASSE MÉDIA


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I.Mtr Literatura Burguesa/O Naturalismo / A Conversão do Naturalismo.

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OTTO MARIA CARPEAUX

HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL

HISTORIA DA
LITERATURA
O C l í) E N T AL

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V*\ EDIÇÕES O CRUZEIRO

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CENTRAL
.1 COMPOSTO E IMPRESSO NAS OFICINAS

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UMA I><» l,iv«AMENTO, 203, Rio
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IKB O CRUZEIRO. NOVEMBRO DE 1963.

Universidade Estadual de Maringá l '


Sistema de Bibliotecas - BCE

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Dlretor

HERBERTO SALES

TO» AUTORAIS ADQUIRIDOS PELA E M PRESA


O CRUZEIRO S. A., QUE SE RESERVA A
M» LITERÁRIA DA PRESENTE EDIÇÃO
CAPÍTULO I

LITERATURA BURGUESA

• * 2 de agosto de 1830, Eckermann anotou no seu


IN Hoje chegou em Weimar a notícia da Revo-
Uçlo dr luiii... t todo mundo se assustou. Na tarde, vi-
lltei Goethe. — Que pensa desse grande movimento?
Dizia éle logo: — " O vulc&o explodiu, tudo está ar-
dendo, n9o haverá mais negociações atrás de portas fecha-
das." — "É terrível — respondi — mas não era possível
esperar outra coisa, nessa situação e com esse ministério,
•enao a expulsão da família real". — "Não me parece ter en-
tendido bem, meu caro amigo — dizia Goethe — não falei
#b»olutamente daquela gente. Trata-se de coisas muito mais
'importantes. Falo da briga científica entre Cuvier e Geof-
fvoy de Saint-Hilaire, na última sessão da Academia".
Cuvier acreditava na permanência dos tipos, criados
por Deus, dentro do reino animal, enquanto Geoffroy de
| Baint-Hilaire defendeu a variabilidade e evolução desses
Ipos, antecipando ideias de Darwin; e essa discussão zooló-
gica parecia a Goethe mais importante do que a luta pela
Iberdade política da nação francesa. Do ponto de vista da
poça, Goethe estava profundamente errado. A Revolução
Julho é um dos acontecimentos mais importantes da
tória moderna, talvez de maiores repercussões do que
Iquer revolução anterior: a Revolução de 1789 signifi-
• a emancipação económica da burguesia, que agora,
Hti 1830, também se apoderou do poder político, remo»
^Bdo os últimos obstáculos da evolução capitalista da
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economia. Goethe, homem de outra época, não pôde ter com- ção muito limitada do marxismo no próprio proletariado,
preendido isso; e explica-se assim a polémica hostil da incapaz de abraçar o socialismo científico porque ainda
qual ele se tornou o alvo: os intelectuais alemães, Boer- não tinha consciência de classe. As reações proletárias con-
ne na frente, denunciaram-lhe a "indiferença olímpica", a tra o domínio da burguesia ainda eram tão desordenadas
hostilidade quase aberta com respeito aos mais altos ideais como a Comuna de Paris em 1870 e o anarquismo bakunista
da democracia e da humanidade. Os homens lutaram pela na Suíça, Itália e Áustria. O feudalismo já estava derrubado;
liberdade; e Goethe teimava em achar isso sem importância
os proletários, ainda incapazes de se defender. Na verda-
considerando mais importante a solução de certos proble-
mas da zoologia. Pensando, porém, sub specie aeternitatis, de, nada se opunha à ascensão vertiginosa do capitalismo.
como o seu mestre Spinoza, Goethe tinha razão. Os pro- O utilitarismo inglês, de Bentham e dos seus compa-
gressos da biologia revelaram-se mais importantes do que a nheiros, constituíra a base do radicalismo político na In-
Revolução de Julho. Geoffroy de Saint-Hilaire preparou o glaterra. Depois, "darwinizou-se": o "útil" identificou-se
advento do darwinismo; as "ciências do espírito" do ro- com o "natural". Como "útil" já não foi considerada "a
mantismo — as ciências históricas — perderam a primazia maior felicidade possível do maior número possível", mas a
em favor das ciências naturais, particularmente da biologia. eliminação dos fracos e incapazes pelo "struggile for life", a
A história dos homens foi substituída, nas preferências da "seleção" dos fortes e aptos. O liberalismo económico de
época, pela história das espécies zoológicas; e desse fato Adam Smith e Ricardo e a doutrina dos livre-cambistas de
decorreram graves consequências morais. A filosofia do Manchester encontraram apoio na biologia. "Laissez faire,
historismo, a de Hegel, desapareceu do teatro do espirito laissez aller"; e tudo se endireitará muito bem; o otimismo
europeu. Entre 1850 e 1860 começou, enfim, o reconhe-
•ociológico dos liberais baseava-se no automatismo da se-
cimento público de Schopenhaeur, pensador anti-histórico,
leção das criaturas e dos fatos, quer dizer, em um determi-
que podia impunemente insultar a memória de Hegel sem
encontrar oposição séria; por volta de 1860, os grandes cien- nismo biológico. Mas esse determinismo, como todo determi-
tistas, os físicos, químicos, biólogos, já fizeram questão de nismo, está em contradição irreconciliável com a liberdade
ignorar as "arbitrariedades' do filósofo "idealista". Em BOlítica. Essa contradição dialética dentro do pensamento
1870, já não havia nenhum hegeliano entre os catedráticos da burguesia é o grande tema da época: aparece, pela pri-
de filosofia nas Universidades alemãs; e os poucos hegelia- Blaira vez, na atitude da grande imprensa depois de 1830;
nos no estrangeiro — Vera e Spaventa na Itália, Cair d e •••aparece, aparentemente, no "compromisso vitoriano";
Thomas Hill Green na Inglaterra — eram considerados ^Hfe, como motivo de pessimismo europeu, por volta de
como esquisitões. O ostracismo de Hegel estendeu-se ao seu ^Êf\ inspira as reações idealistas dos pensadores sociais
discípulo mais devotado e mais antagónico, a Marx. A ciên- ^ B l l t s , como Ruskin e Morris; até, enfim, o determinismo
cia das Universidades burguesas não devia nem podia tomar
•glco se transformar em determinismo mesológico do
conhecimento de uma doutrina profundamente ligada ao
hegelianismo e em parte codificada na terminologia do "•'Hirillamo e desembocar no determinismo económico do
mestre de Berlim, como era o marxismo. O desconheci- marxlamo.
mento do marxismo pela burguesia correspondia à divulga- Depois da Revolução de Julho de 1830, os ideais do li-
beralismo encontraram o defensor incorruptível em Ar-
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2115
2 U 4 OTTO MARIA CARPEAUX
ticas. Na elaboração desse estilo resume-se a história da
l
mand Carrel ( )> articulista do National, tipo de jornal de imprensa francesa sob a monarquia de Julho ( 5 ). Girar-
partido, jornal ideológico. Carrel morreu em duelo; quem din ( 6 ), o assassino de Carrel, tinha fundado em 1836 La
o matou foi o seu concorrente Émile de Girardin, fundador Presse; era um jornalista hábil, capaz de ofender os inimi-
da Presse, tipo do "grande jornal" com muitos anúncios e gos com ironias mordazes e excitar a massa por meio de
pouca ideologia. O acontecimento é evidentemente simbó- ataques violentos. Mas escrever não era a mais importante
lico. Procurou-se-lhe a explicação em intrigas políticas; 'as suas atividades jornalísticas. Até então os jornais fo-
mas será preciso acentuar o antagonismo entre jornalismo ara bastante caros; Girardin barateou o preço das assina-
liberal e jornalismo capitalista, ambos, porém, expressões ras, baseando o negócio, em vez da venda da tiragem, nos
da burguesia vitoriosa ( 2 ). Também será conveniente acen- úncios. "Les conséquences de 1'annonce furent rapides
tuar a quase coincidência do acontecimento com a morte infinies". Para garantir sucesso aos que deram anún-
de Goethe, em 1832, e com a polémica de Boerne e dos ou- ios ao seu jornal, Girardin criou um público permanente
tros jornalistas liberais da Alemanha contra o "olímpi- estável de leitores, publicando no folhetim um romance
co" ( 3 ). Boerne estava perto de Carrel; mas o seu ódio con- i série, em continuações. O êxito dessa invenção foi tão
ande que até os jornais mais antigos, de digna tradição
tra Goethe tem o mesmo sentido como o fato de que Girar-
deológica, se viram obrigados a imitar o exemplo: o Jour-
din ignorava a Goethe. A "época halcyônica" acabara; a do
al des Débats publicou os Mystéres de Paris, de Sue, e
jornalismo começou.
Constitutionnel o Juif errant, do mesmo romancista. Du-
Os instrumentos do jornalismo moderno foram cria-
as père, George Sand, Balzac aparecerão entre os autores
dos na Inglaterra (*). Nas oficinas do Times, fundado em
e romances-folhetins. Inicia-se uma aliança entre jor-
1785, introduziu John Walter em 1814 a imprensa a vapor;
alismo e literatura. A paixão dos jornalistas literários,
mandou os primeiros correspondentes estrangeiros e cor-
e um Boerne e tantos outros, pela liberdade da imprensa,
respondentes de guerra para o Continente; publicou os
instrumento mais poderoso da burguesia, está em rela-
primeiros "artigos de fundo". Conservou, porém, o caráter
com o fato de a literatura começar a viver do público
meio aristocrático do jornal, expressão da elite intelectual
jornais. Quando Gustav Kolb reorganizou, em 1832, a
da Inglaterra. O grande público, "the great middle clas-
ugsburgische Allgemeine Zeitung do editor Cotta, editor
ses", preferiu o Daily Telegraph, desde 1855 o maior jornal
Goethe e Schiller, contratou a Heine como correspon-
inglês, conquistando os leitores pela habilidade de expri-
te em Paris. Em 1843 aparece Charles Dickens entre os
mir as reivindicações do liberalismo em frases democrá-
órteres do Morning Chronicle; e em 1846 fundou o ro-
ncista os Daily News, baseando o sucesso do jornal em
ortagens sobre crimes e acidentes. A Indépendance Bel-
1) Armand Carrel, 1800-1836. (Cf. "O Fim do Romantismo", nota 87.)
R. G. Nobécourt: La vie á'Armand Carrel. Paris, 1930.
Armand Carrel, journaliste. Paris, 1934.
2) L. Fiaux: Armand Carrel et tmile de Girardin, causes et but M (lAvenel: Histoíre de la presse française depuis 1789. Paris,
d'U7i duel, moeurs du temps, dessous de politique. Paris, 1911.
1U00.
3) V. Hehn: "Goethes Publikum. <In: Gedanken ueber Goethe. 7.*
ed. Berlin, 1909.)
4) E. G. Kellet: "The Press, 1830-1865. (In: Early Victorian England, In, 1934.
edit. por G. M. Young, Oxford, 1934.)
2116 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2117
ge, fundada em 1831 em Bruxelas, terá entre os seus colabo-
Cromwell e Milton. Também eram burgueses os drama-
radores estrangeiros um Thackeray, um Mazzini, um Gutz-
turgos e poetas que rodeavam Luís X I V , "ce grand roi
kow, u m Multatuli, um Dostoievski.
bourgeois". Burgueses eram os "dissenters" ingleses do
"Les conséquences de 1'annonce furent rapides et infi- século X V I I I , o público de Addison e Steele, do romance
nies". A *frase encontra-se no artigo Littérature indus- e teatro sentimentais e da poesia pré-romântica. Burgue-
trielle, publicado por Sainte-Beuve em 1839 na "Revue des ses eram os oradores da Revolução francesa. Em todas essas
Deux Mondes"; a imprensa é definida, nesse artigo, como "épocas de transição" agiu, histórica e literariamente, a bur-
"la presse, ce bruyant rendez-vous, ce poudreux boulevard guesia; mas sempre imitando o estilo de outras, mais altas,
de la littérature du jour". O artigo inteiro, denunciando classes da sociedade. Só depois de 1830 venceu, com a
"des hommes ignorants des lettres, envahissant la librairie burguesia, o próprio estilo de vida da burguesia: a econo-
et y rêvant de gains chimériques", serve à polemica contra mia livre e o parlamentarismo, os trajes masculinos mais
Balzac; mas este mesmo criticará a nova situação das letras sóbrios, sem qualquer vestígio de pitoresco, a prosa de
nas Illusions perdues, assim como Thackeray o fará em Pen- casaca e cartola, a prosa dos negócios e a prosa na literatura.
denis. Os dois grandes romancistas escreveram com co- Byron e Puchkin ainda escreveram romances em versos; e
nhecimento da causa: ambos eram jornalistas. Mas o pró- o romance de W a l t e r Scott, embora em prosa, foi poético.
prio Sainte-Beuve, colaborador do Constitutionnel, do Mo- Mas agora, o romance tornou-se prosaico.
niteur e do Temps, também era jornalista. Ninguém pôde
escapar. E "les conséquences furent infinies". Começou A história do romance como género literário divide-se
uma época da prosa. Pela primeira vez na história da li- tm duas épocas: antes e depois de Balzac ( 7 ). Com êle, até
teratura universal, a prosa tornou-se mais importante do o termo mudou de sentido. Antes de Balzac, "romance"
que o verso. Uma forma de literatura em prosa, o romance, íôra a relação de uma história extraordinária, "romanesca",
quase absorveu todos os outros géneros; o género de Cer- (ora do comum. Depois, será o espelho do nosso mundo,
vantes e Alemán, Defoe e Abbé Prévost, Rousseau e Scott, [dos nossos países, das nossas cidades e ruas, das nossas
Stendhal e Manzoni, tornou-se a expressão soberana da Btfias, dos dramas que se passam em apartamentos e quartos
vida burguesa. E i s a obra de Balzac, romancista da bur- imo de nós outros. Depois da leitura de um romance de
guesia. lulzac revela-se imediatamente tudo o que há de irreal, de
iginário e "romanesco" em La Princesse de Clèves, em
Balzac é a figura mais importante da transição entre o inon Lescaut, em La Nouvelle Héloise, e a diferença
romantismo e o realismo-naturalismo: representa o adven-
to da burguesia. Mas é urgentemente preciso definir os
>noré de Balzac, 1799-18*50.
termos dessa afirmação geralmente aceita. No fundo, todas Chouans (1827); La peau de chagrin (1830); Gobseck (1830);
as épocas são épocas de transição. E com respeito à bur- IH Lambert (1832); Vlllustre Qaudíssart (1832); Colonel Cha-
(1832); Le cure de Tours (1832); Le chef-d'oeuvre inconnu
guesia: ela já apareceu tantas vezes no palco da história \); Engenie Grandet (1833); Le médecin de campagne (1833);
e da história literária. Burgueses eram os políticos e os liuchesse de Langeaís (1834); La filie aux yeux d'or (1834);
Ooriot (1834); La recherche de VAbsolu (1834); La femme
poetas das cidades italianas do "Trecento". Burgueses Ue ans (1835); Le lys dans la vallée (1835); La Maison Nu-
eram Lorenzo de' Mediei e os humanistas do "Quattrocen- 11837); Histoire de la grandeur et de la décadence
Birotteau (1837); Les secrets de la princesse de Cadig-
to". Burgueses eram os puritanos do "Commonweal" de 139); Massimilla Doni (1839); Ursule Mirouet (1841); Une
tse affaire (1841); Un ménage de garçon (1842); La ra-
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2119
2118 OTTO M A R I A CARPEAUX
co reformado entre paisanos bem-nascidos. Em Bal2ac, as
significa uma das modificações mais importantes em toda ambições revelam direção nítida. Rastignac, em Père Go-
a história da literatura universal. O próprio Balzac era tiot, o intelectual que pretende conquistar a cidade de Pa-
bem capaz de escrever romances que parecem pertencer ris, conhece os meios para subir na sociedade burguesa, ou
àquela linhagem tradicional: o romance erótico da Femme antes o único meio: o dinheiro. De nada vale o sonho ro-
de frente ans é um deles. Aí o termo ainda tem o sentido mântico de uma felicidade que chega de presente, seja de
em que se fala ou falava de "viver um romance com uma Deus, seja do diabo; é isto que demonstra La peau de cha-
mulher". Mas os heróis e heroínas de madame de La Fayet- grin. O que vale é a Recherche de 1'Absolu, e esse "Absolu",
te, do Abbé Prévost, de Rousseau e Constant não fazem ou- com maiúscula, é o Dinheiro. Mas tampouco se trata do
tra coisa senão viver "romances com mulheres"; das outras dinheiro do velho Grandet, dinheiro imobilizado em co-
necessidades vitais de um homem em carne e osso não se fres, terrenos e casas. "Enrichissez-vous, messieurs!", disse
fala. Esse monopólio novelístico do sexo foi rompido, num o ministro do rei-burguês Luís Felipe, do qual Balzac era
episódio de Werther e em Le Rouge et Le Noir, pelo moti- o súdito pouco leal; e o romancista, génio ingénuo da eco-
vo inédito da ambição; mas são reivindicações vagas no in- nomia política, conhecia a fundo as condições indispensá-
telectual burguês na sociedade feudal, do oficial napoleôni- veis para realizar aquele imperativo burguês: era preciso
mobilizar o capital imobiliário. Daí o papel importante dos
tabeliães no mundo balzaquiano de proprietários, advogados,
bouilleuse (1842); Splendeurs et misère des courtísanes (1843); industriais, comerciantes e aristocratas empobrecidos. De
Illusions perdues (1843); Modeste Mignon (1844); Le cure de vil-
lage (1845); Cousine Bette (1846); Cousin Pons (1847); Le de- dinheiro e negócios fala-se, principalmente, nos romances
pute d'Areis (1847.) de Balzac. A Comédie Humaine é a "Tragédia do Dinhei-
Edição por M. Bouteron e H. Longnon, 40 vols., Paris, 1912/1940.
H.tt Taine: "Balzac" (In: Nouveaux essais de critique et d'hístoire. ro". Daí aquela diferença. Todos os romancistas antes de
7. ed. Paris, 1901.) Balzac parecem-se mais ou menos com adolescentes de 18
F. Brunetière: Balzac. Paris, 1906.
C. Calippe: Balzac et ses idées sociales. Paris, 1906. •nos que vêem no amor o conteúdo da vida inteira. Balzac
E. R. Curtius: Balzac. Bonn, 1923. é o adulto: as suas mulheres são substantivos no texto do
A. Bellessort: Balzac et son oeuvre. Paris, 1924.
E. Prestem: Recherches sur la technique de Balzac. Paris, 1926. contrato de casamento, ou então objetos do prazer, tenta-
P. Barrière: Honoré de Balzac et la tradition littéraire classique. 6es e obstáculos do homem de negócios, motivos de fa-
Paris, 1928.
P. Abraham: Honoré de Balzac. Recherches sur la création in- das. Os romances antes de Balzac terminam com o ca-
tellectueUe. Paris, 1929. ento; os romances de Balzac começam com o casamento
E. Buttke: Balzac ais Dichter des modernen Kapitalismus. Berlin,
1932. e lança os fundamentos, de uma nova firma.
Alain: En lisant Balzac, Paris, 1935.
R. P. Bowen: The Dramatic Construction of Balzac's Novéis. Balzac confessava-se conservador: filho fiel da Igre-
Eugene, Ore, 1940. • partidário da monarquia do ancien regime. Paradoxal-
R. Fernandez: Balzac. Paris, 1943.
A. Billy: La vie de Balzac. 2 vols. Paris, 1944. te, foi este reacionário que descobriu e revelou as con-
A. Béguin: Balzac visionnaire. Genève, 1946. Uências da Revolução. Não tem nada com o romantismo
B. Guyon: La pensée politique et sociale de Balzac. Paris, 1947.
G. Atkinson: Les idées de Balzac d'après la Comédie Humaine. •1. Os Hugo, Lamartine e George Sand repetiram as
5 vols. Genève, 1948/1950. •» retumbantes de 1789; nas suas obras, a realidade so-
M. Bardèche: Balzac romancier. 3.* edição, Paris, 1951.
G. Lukacs: Balzac und der jranzoesische Realismus. Berlin, 1952. I de 1840 está ausente ou romanticamente deformada.
G. Pradalié: Balzac historien. Paris, 1955.
F. Marceau: Balzac et son monde. Paris, 1955.
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 2121
2120 OTTO M A B I A CARPEATJX
em cujo estilo escreveu Les Chouans. Mas Scott era um
Balzac detestava as frases revolucionárias; mas como obser-
épico romântico em prosa clássica, e Balzac um dramaturgo
vador da sociedade é infinitamente mais avançado. Sabe
clássico em romances realistas.
que o liberalismo político é a fachada do liberalismo eco-
O romantismo de Balzac é inegável: mas é um roman-
nómico; e contra este guarda todos os ressentimentos de
tismo especial, já perto da fronteira do realismo, como o
um amor infeliz. A sua própria situação social era mais
de E. T . A. Hoffmann, Manzoni e Cooper, três objetos da
ou menos a do seu Colonel Chabert ou de Julien Sorel: um
sua admiração literária, três descobridores de mundos no-
burguês parisiense, entravado primeiro pela Restauração
vos. O romantismo de todos eles é fuga de uma realidade
monárquica, depois pela revolução industrial. Não gosta-
insuportável; outros mundos lhes pareciam mais "român-
va de confessar isso. Atribuiu-se, como Musset, uma nobre-
ticos"; e não havia mal em descrever esses mundos novos
za duvidosa, que só deu prestígio no ambiente da boémia
com o realismo aprendido nos romancistas ingleses. Balzac
literária; sonhava, durante a vida inteira, com duquesas e
não pôde aprender muito nos ingleses; o seu próprio mun-
condessas que enchem os seus romances como enfeitos de
do já era mais avançado do que o de Fielding ou Scott.
casa, destinados a impressionar os credores. A aristocracia
O inglês com que o romancista de Paris se parece é o
de sangue devia-lhe servir de ponte para alcançar a aristo-
romancista de Londres: Dickens. Neste e naquele há o
cracia do dinheiro. Balzac, detestando os grandes indus-
barulho e o turbilhão da grande cidade, cheia de gente.
triais, era êle mesmo um grande industrial. Malogrou, é
Mas em Dickens, é uma massa atomizada de indivíduos ri-
verdade, em mil negócios fantásticos; mas ganhou afinal
dículos e trópicos, infelizes ou burlescos. E m Balzac, não
muito dinheiro na indústria literária, sendo êle um dos
se trata de massas atomizadas, mas de uma sociedade: a
"hommes ignorants des lettres, envahissant la librairie et
Ccmédie humaine é a história de uma sociedade hierarqui-
y rêvant de gains chimériques." Daí, escreveu muito e mui-
camente organizada, sendo elementos e critérios de orga-
to de mais. É verdade que a quantidade impressionante da
nização: as tradições, o dinheiro e as paixões. T u d o isso
obra de Balzac também representa u m valor; o autor de
Balzac vê claramente com o olho do sociólogo e com o olho
poucos livros assim seria um editor notável, mas não seria
do visionário que Bégrin lhe descobriu. Sua força visioná-
um Balzac. Contudo, grande parte da sua obra já enve-
ria só tem um limite: ignora a Natureza. É escritor ex-
lheceu irremediavelmente, porque constituída de romances
clusivamente urbano. Essa "urbanidade" produz até cer-
de mero divertimento, escritos às pressas para ganhar di-
ta aridez: os personagens estão solidamente integrados na
nheiro. Mas são justamente os que mais agradaram ao pú-
êde das relações sociais; mas não dependem do ambiente,
blico de então e suscitaram a indignação de Sainte-Beuve:
cimente descrito, das velhas ruas e ruazinhas do centro
os romances só aparentemente realistas nos quais se revela-
Paris. Há uma discrepância sensível entre Balzac, ana-
ram os segredos eróticos daquelas duquesas e condessas. Aí
ta da sociedade, e Balzac, romancista da cidade. O mo-
Balzac mentiu; era, na vida, um grande mentiroso. Mas
dessa discrepância encontra-se no seu método nove-
a mentira é a outra face do seu génio inventivo; e nem sem-
pre Balzac mentiu quando falava com admiração de artis-
tocratas de panache. Havia no romancista da burguesia Balzac tem um método cuidadosamente elaborado —
uma forte saudade de épocas passadas, um torysmo pré- o distingue de Dickens — para dominar aquele turbi-
romântico à maneira de Walter Scott, seu primeiro modelo, urbano. Dickens compõe reportagens, integrando-as
2122 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2123
•té formarem histórias de tamanho considerável. Os ro-
mancea d€ Balzac são, em geral, muito mais curtos: êle tem resco; menos nos seus tipos apaixonados. Não dispõe da
uma v i i l o global da sociedade burguesa, decompondo essa economia psicológica de Molière, que fêz de Harpagão,
viaão até resultarem monografias de tamanho reduzido, mas Tartufo, Alceste homens completos com uma paixão domi-
dizendo tudo sobre certo bairro, certa profissão, certa clas- nante no c e n t r o ; o velho Grandet, Cousin Pons, Cousine
se. Balzac é um classificador, "o Linné da burguesia". A Bette, Balthazar Claes, na Recherche de VAbsolu, são mons-
própria composição da Comédie humaine explica-se assim: tros monomaníacos, desumanos; niguém teria a coragem de
depois de ter escrito certo número de romances, Balzac reu- rir deles. Antes inspiram a mistura de "terreur et pitié"
niu-os conforme um sistema de estática sociológica, e come- que a dramaturgia aristotélica exigia. Realizam a "catarse"
çou a escrever mais romances "sociais" para ocupar os lu- de Balzac; a sua vingança contra a sociedade que não o
gares ainda vazios do esquema. À estática juntou-se a dinâ- admitiu, embora sendo êle o seu Homero, ou antes seu Sha-
mica: da província para Paris há um movimento contínuo kespeare. Pois é, novamente, pelo valor da quantidade que
no sentido de industrialização e aburguesamento; e na pró- Balzac excede os limites do teatro clássico. No dizer de
pria Paris esse movimento continua, como descida de clas- Taine: "Avec Shakespeare et Saint-Simon, Balzac est le
ses decadentes e ascensão de elementos novos. O meio para plus grand magasín de documents que nous ayons sur la
simbolizar esse movimento social é a volta de certos perso- nature humaine."
nagens, aparecendo em vários romances em lugares diferen- Balzac sabia t u d o : das duquesas e dos negócios. Mas
tes da hierarquia social. Eis o cimento da construção li- assim como só sonhava de duquesas, assim ficaram-lhe fe-
terária da Comédie humaine. Quer dizer, os personagens chados os escritórios dos grandes industriais. As suas pró-
de Balzac, além de serem caracteres humanos, são tipos prias empresas fantásticas acabaram todas em falências. O
sociais, representando categorias inteiras da sociedade. leu destino comercial tem algo da ascensão rápida e queda
Esse processo é o do teatro clássico francês, sobretudo da rofunda do seu César Birotteau; e este é um fabricante
comédia de Molière. Com efeito, Balzac é um grande dra- e perfumes, quer dizer representante de uma indústria an-
maturgo. O tamanho reduzido da maior parte dos seus ro- a, le luxo, profissão de pequeno-burguês francês a ser-
mances é consequência da composição rigorosamente dra- o de gente do "ancien regime". O próprio Balzac era
mática. Mais uma vez é preciso salientar que Balzac, com rguês; mas pertencia à burguesia antiga, pré-capitalista;
todo o seu romantismo inato, não é absolutamente român- uanto era romântico, revela-se antes como pré-românti-
tico. Nada do teatro de Hugo ou de Musset; nada de sha- descobrindo novos ambientes e reagindo com o pessimis-
kespeariano. Balzac é económico quanto aos recursos esti- de um realista por desilusão. A mais completa das suas
lísticos; chegou a parecer mau estilista aos espíritos ro- t é Cousine Bette; a melhor realizada é La Recherche
mânticos; ignorando a natureza, só se dedica à "la cour et Absolu; os seus estudos mais profundos são Père Go-
la ville", como os dramaturgos do século X V I I ; neles apren- § Kugénie Grandet. Mas a sua maior obra talvez seja
deu o mecanismo, a construção quase mecânica do jogo das Wúns perdues: aí, o literato Lucien de Rubempré ocupa,
paixões diante de uma decoração imutável que está sem- Wto da sociedade, o único lugar que lhe deixaram, o de
pre presente sem tomar parte nos acontecimentos. Daí Boi corrompido pelo jornalismo. Há nisso um elemen-
Balzac, descrevendo tantas coisas pitorescas, não é pito- ftebiográfico, apresentado sem romantismo nem senti-
mo, com a frieza do sociólogo, ou, se quiserem, com
2124 OTTO MARIA CABPEAUX

o cinismo de um comerciante em literatura; ou então, com HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2125


o realismo psicológico de um moraliste do século XVII, não
Saínte-Beuve e Mérimée — e a burguesia tradicional, pré-
admitindo outros motivos dos atos humanos senão o egoísmo
capitalista, à qual Balzac pertencera; esta foi sacrificada em
interessado e paixões mais ou menos dissimuladas. É o pes-
toda a parte; na França pela ditadura cesariana ne Napoleão
simismo psicológico dos grandes moralistes franceses e do
III que se deu ares de socialista; na Alemanha pelo Estado
classicismo em geral. Balzac é o Machiavelli da burguesia,
policial, que oprimiu o liberalismo político, concedendo po-
analisando-lhe e resumindo-lhe os processos. Deste modo,
rém, plena liberdade económica. Em consequência, os in-
o grande realista, acreditando na permanência dos maus
telectuais tomam a palavra pela burguesia pré-capitalista,
instintos na natureza humana, torna-se fatalmente reacio-
enaltecendo-lhe as virtudes: estes não são especuladores,
nário. É verdade que a ideologia político-religiosa de Bal-
nem em política nem nos negócios! Surgiu uma literatura
zac não é de construção tão sólida como os seus romances;
que é conservadora, mas não reacionária. O seu meio prefe-
o seu monarquismo é tão duvidoso como o seu catolicismo.
rido de expressão é o teatro, que permite a representação das
Por isso não é um De Maístre, dando lições à "Cidade";
contradições dialéticas da posição burguesa, assim como
mas é o historiador fidedigno de sua "Cidade", do mundo
Balzac se tinha representado pela construção dramática dos
da Comédie humaine; e aquela ideologia só lhe serve de
seus romances. O instrumento dramatúrgico dessas repre-
critério para classificar os fenómenos e pôr em ordem no-
sentação já estava pronto: na França, a técnica teatral de
velística o caos. O conservador Balzac, criando a literatura
Scríbe; na Alemanha, o teatro tendencioso de Gutzkow.
moderna: eis o paradoxo ideológico da sua obra, ilumi-
nando o conflito entre os ideais liberais e individualistas Augier ( 8 ) é o herdeiro de Scríbe; apenas substituiu
do século XVIII e as necessidades económicas e militaris- o "1'arfpour 1'art" das complicações engenhosas pela thèse:
tas do século XIX; talvez só o reacionário, observando de contra a tentação perigosa pelas mulheers à maneira da
fora os fatos, fosse capaz de descobrir e admitir aquele con- Marneffe, de Balzac; contra as ambições desmesuradas de
flito. Depois de 1830, a burguesia vitoriosa traiu os ideais lum Rastignac ou Rubempré; contra as ligações com a aris-
do liberalismo; e Balzac o denunciou. Depois de 1848, o tocracia arruinada; contra o culto excessivo do dinheiro.
medo da revoluçãe proletária levou os burgueses à reação lAugier defendeu o ideal supremo da burguesia tradiciona-
aberta; então chegara a hora de Balzac, o único entre a ge- Qlita francesa, a família, o lar, a honestidade pessoal e co-
ração romântica que nunca aderira ao "romantismo social", •nercial; não era reacionário, antes ao contrário, um voltai-
ficando fiel às ideias monárquicas e religiosas do romantis- M.ino e advogado dos princípios moderados de 1789, inimi-
mo de 1820. O realismo de Balzac é de 1860, de 1870; será • 0 dos padres e sobretudo dos jesuítas, relaxados em ma-
continuado por Flaubert, por Zola. A posição ideológica de íéria de conduta moral — acreditava sinceramente ser pas-
Balzac é de 1850; já é post-romantismo. Gflliano. Mas não há nada de angústias em Augier. As
•uns "teses", honestas e justas, são perfeitamente razoáveis,
O resultado de 1848 foi a aliança tácita entre os pode-
res feudais — aristocracia latifundiária e Igreja — e a
grande burguesia, assustada pelas revoltas proletárias. As runile Augier, 1820-1889.
" vítimas foram os intelectuais — os românticos desiludidos L9 gendre de M. Poirier (1854); Les lionnes pauvres (1858); Les
\ ou exilados, enquanto não viraram conformistas, como •nt.es (1861); Le fils de Gíboyer (1863); Maitre Guérin (1864);
jMOfif et Èenards (1869); Les Fourchambault (1879.)
Í£, Oaillard: Smile Augier et la comédie sociale. Paris, 1910.
mm: Théâtre d'híer et ã'aujourd'hui. Paris, 1926.
2126 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2127

e a demonstração cénica, bastante hábil, é convincente. J u s - ( 10 ) é o único precursor, digno desse nome, de Ibsen: mas
tamente por isso Augier não é, como lhe chamaram, o Bal- êle também não era poeta. Hebbel é uma das expressões
zac do teatro. Convence menos pela sugestão dramática do mais poderosas do século da prosa: era pensador, e chegou
que pela habilidade cénica. Prepara o caminho ao vaude- no entanto a resultados tão permanentes como, em geral,
ville burguês de Sardou. As suas tentações não perturbam, só a alta poesia atinge. A razão pode estar no conservan-
porque são apresentadas sem um mínimo de poesia. "Como tismo de Hebbel, na sua atenção aos elementos permanentes
esse Augier é um sujeito antipoético!", disse Flaubert; e a da natureza humana e da ordem do Universo. Mas esse
conservantismo num rebento do proletariado rural era pro-
mesma objeção atinge todas as tentativas de basear a críti-
duto da desilusão efémera de 1848. Hebbel também é con-
ca social no teatro nos conceitos da moral burguesa. "Anti-
servador pelo seu primitivismo de um filho das camadas
poeta!", eis o insulto que a geração de 1898 lançou contra
menos cultivadas da raça germânica. E r a autodidata pau-
o Augier do teatro espanhol, Echegaray (°), dominador de
pérrimo, proletário perturbado pela revolução industrial
todos os efeitos cénicos, com aparências românticas que
e pelas tendências avançadas dos intelectuais que o recebe-
aprendera em Calderón. A eloquência patética, que êle
ram como confrade em Hamburgo. Começou a escrever no
considerava como tradição nacional, prejudicava-o tanto
estilo duro e abrupto do novo "Sturm und Drang" pré-ro-
como a mania dos efeitos retumbantes do teatro de Bou-
mântico dos Grabbe e Buechner: em Judith, Genoveva,
levard. Contudo, Echegaray é melhor do que a sua fama. Herodes und Maríamne, ocuparam-no "casos anormais",
As suas teses são mais profundas, e defendidas com muito sobretudo de sexualidade perturbada em conflito com as
mais paixão, do que as de Augier. A tragédia do idealista convenções rígidas do ambiente; mas são sempre conven-
— em Ô Locura ó Santidad — não apenas retoma a tradição ções de uma civilização decadente, do Oriente antigo antes
quixotesca; também lembra teses de Bjoernson e Ibsen — da invasão do helenismo, do mundo germânico pouco depois
as extremas possibilidades do teatro burguês. da cristianização, da civilização greco-romana antes do ad-
Mas Echegaray não é um contemporâneo legítimo de vento do cristianismo. Os heróis dessas tragédias são ho-
Ibsen; Augier também só forneceu ao norueguês certos mens fortes, "super-homens", que caem no entanto porque
esquemas cénicos, de efeito infalível. Echegaray e Augier chegaram antes do tempo; a convenção é mais forte do
foram antipoéticos porque não viram o fundo permanente- que eles; e nisso já se revela o espírito sociológico da época
mente humano nas variações sociais: Balzac o conheceu
10» Friedrich Hebbel, 1813-1863.
como sociólogo, Hebbel como pensador. Por isso Hebbel Judith (1840); Gedichte (1842); Genoveva (1843); Maria Magda-
lene (1846); Neue Gedichte (1848); Herodes und Maríamne (1860);
Agnes Bernauer (1852); Gyges und sein Ring (1856); Die Nibe-
lungen (1862); Tagebuecher (1885/1887).
9) José Echegaray, 1833-1916. Edição por R. M. Werner, 2." ed., 27 vols., Berlin, 1913.
La esposa dei vengador (1874); El pufio de la espada (1876); 6 A. M. Werner: Hebbel. Ein Lebensbid. 2." ed. Berlin, 1913.
locura ó santidad (1877); El gran Galeoto (1881); El conflito entre O. Walzel: Hebbel und seichne Dramen. Leipzing, 1919.
dos déberes (1882); El hijo de don Juan (1892); El loco Dios (1900), E. A. Georgy: Die Tragoedien Friedrich Hebbels. Leipzig, 1922.
etc. A. Scheunert: Der Pantragismus ais System der Weltanschauung
I. Ixart: El arte escénica en Espana. Madrid, 1893. und Aesthetik Friedrich Hebbels. Leipzig, 1930.
H. v de Curzon: Le théãtre de José Echegaray. Stude analytique, K.vPurdie: Friedrich Hebbel, a Study of His Life and Work. Lon-
Paris, 1912. don, 1932.
E. Mérimée: "José Echegaray et son oeuvre dramatique". (In: Bul-
letin Hispanique, XVin, 1916.) P. O. Graham: The Relation of History to Drama in the Works
riedrich Hebbel. Northampton, 1934.
2128 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2129

e a filosofia trágica do próprio Hebbel. A primeira obra- obsoletas nem se opor às mudanças históricas; mas não o
prima, Maria Magdalene, retoma mais uma vez um motivo indivíduo, só o Tempo pode decidir disso. Os heróis da
do "Sturm und D r a n g " : a moça que foi seduzida e se poderosa trilogia Die Nibelungen caem, porque o tempo do
suicida. Mas o verdadeiro herói dessa primeira tragédia paganismo germânico já passou. Em Hebbel vive um resto
burguesa do século X I X é o pai da moça, o Meister Anton,
do hegelianismo, da ideia da "missão" especial de cada povo
representante das convenções mais rígidas da pequena-bur-
e de cada época.
guesia alemã, verdadeiro "super-homem" de um pequeno
Hebbel é mesmo o único pensador autêntico nessa épo-
mundo também já decadente sob o impacto de uma transição
ca de positivistas, tímidos diante dos fatos; os seus diários
social. "Já não compreendo o mundo", são as suas últimas
constituem um comentário da obra dramática, dura, seca,
palavras, revelando a perplexidade do próprio dramaturgo.
prosaica — a prosa do comentário é evidentemente superior.
Hebbel não era poeta. Escolheu, para vencer o seu pré-
Nas notas fugitivas Hebbel não se sentiu obrigado a obe-
romantismo, péssimos modelos: na poesia lírica, que era o
decer à lógica dos seus conceitos dramatúrgicos, chegando
seu amor infeliz, o seco Uhland; na técnica dramatúrgica,
a construir um sistema metafísico. No primeiro plano desse
o hábil e superficial Gutzkow. Pelo menos, o primeiro for-
seu "teatro filosófico" há os imbecis, covardes e ordinários
neceu-lhe os meios de expressão direta e sem ênfase; e o
que sempre enchem o m u n d o : os judeus de Betúlia, os pe-
outro, as normas de composição coerente, até coerente de-
quenos burgueses de Maria Magdalene, os romanos brutais
mais. Hebbel é o dramaturgo mais lógico de todos os tem-
em Herodes und Mariamne, o povo da Lídia em Gyges und
pos, ligando da maneira mais implacável os acontecimentos
sein Ring. No segundo plano, os heróis, os super-homens,
aos caracteres: quase sugere o fatalismo. "Aquilo de que o
os Holofernes, Golo, Anton, Herodes, Gyges, Hagen. No
homem é capaz de se tornar, isto ele já é perante Deus." O
terceiro plano, as relações e convenções sociais, hostis aos
deus de Hebbel, porém, é a História, não no sentido de He-
grandes indivíduos e atmosfera indispensável dos fracos. E
gel, mas no sentido sociológico, como peso das tradições e
no último plano, o Tempo, a História que é o juiz dos ho-
convenções que se opõem à vontade do indivíduo. E Hebbel
mens, das classes, nações e épocas. Aquela massa imbecil
chegou a apreciar a tradição como fator positivo, superior
é o vencedor atual; para eles fica o reino terrestre. Todas
ao arbítrio individualista. Depois da desilusão de 1848 es-
as épocas são baixas, e o país de Lídia, onde não há lugar
creveu a tragédia Agnes Bernauer: os dramaturgos que ti-
para os grandes indivíduos, fica em toda a parte. Mas a
nham tratado esse episódio da história medieval, tomaram
História dará razão aos vencidos, que deviam cair para
todos o partido do príncipe bávaro, revoltando-se contra o
preparar o caminho a novas tradições e novos mitos. Deste
pai que mandou assassinar sua amante burguesa; Hebbel,
modo, o conflito do herói'trágico com a sua época baseia-se
porém, aprova a "raison d'État" do velho duque que sacrifi-
na própria lei da História. O próprio mundo é fatalmente
ca a felicidade do filho aos interesses da coletividade. Em
trágico. O "pan-tragismo" de Hebbel é como um schopen-
Gyges und sein Ring (Gyges e seu anel) voltam os proble-
hauerianismo histórico. Wagner, no Ring des Nibelungen,
mas sexuais; mas desta vez, a convenção do pudor tem
e Ibsen, em Kejser og Galileer, realizaram o que Hebbel
razão contra as arbitrárias ideias de Gyges que quer refor-
pensara e não sabia dramatizar; porque êle também era um
mar os costumes e lei, porque "não é bom tocar no sono do
grande homem em época baixa, e a verdadeira tragédia não
mundo". Contudo, Hebbel não pretende defender coisas
controu expressão na Lídia do século XIX.
2 1 3 0
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2131
OTTO M A R I A CARPEAUX

Ludwig ( n ) , perdendo a vida inteira com experiências e


As tragédias de Hebbel já se representam cada vez
experimentos. Acertou só uma vez, no Erbfoerster, tragé-
mais raramente nos palcos; permanecerão como livros de
dia do homem rural, expropriado pela mobilização do capi-
estudos, para compreender melhor certos aspectos perma-
t a l ; Ludwig, filho de camponeses, vivera esse problema
nentes da vida humana e certas transições literárias do sé-
balzaciano da Alemanha de 1848. O fim dessa tragédia tam-
culo XIX. Hebbel situa-se entre o idealismo positivo de
bém é um " J á não compreendo o m u n d o ! " ; e o próprio Lud-
Schiller e o idealismo negativo de Ibsen; compreendeu que
wig nunca chegou a compreender o seu problema trágico.
a tragédia não é possível sem uma fé idealista num destino Detestava o idealismo "falso" de Schiller, contra o qual
mais forte do que os destinos individuais, sem fé num sen- lançava as críticas mais ásperas e, em parte, certas; mas dis-
tido na história; por isso procurou sempre as situações cordou também de Hebbel, por este introduzir nos aconteci-
críticas da história, como era o seu próprio tempo. Mas mentos dramáticos ideias filosóficas, alheias à vida. O ideal
esse tempo, de convicções positivistas, acreditando só em de Ludwig era o realismo fidelíssimo, sem tendência algu-
fatos palpáveis, negou o sentido na história. O conservan- ma; em Shakespeare acreditava encontrar esse "realismo
tismo de Hebbel pretende, no fundo, salvar a História, afir- sem ideias". Mas a Agnes Bernauerin que opôs à Agnes
mando o valor da tradição, porque só assim se explicava o Bernauer de Hebbel, ficou na esfera trivial do drama bur-
acontecimento trágico. O resto não é trágico; é só triste. guês em disfarce histórico. Ludwig saiu do epigonismo só
Nessa distinção reside a explicação do fracasso integral da como novelista regional de sua província, da T u r í n g i a :
literatura trágica inteira entre Schiller e Ibsen; menos em Zwischen Himmel und Erde (Entre o céu e a terra) é uma
Hebbel que fêz uma tentativa heróica de salvar a tragédia. das melhores novelas em língua alemã, monumento do anti-
E n t r e os contemporâneos de Hebbel há só um outro go artesanato.
adepto do pensamento "pan-trágico": é o húgaro Madá- O teatro dé Hebbel e Otto Ludwig deixou os contem-
ch ( , 0 - A ), cuja Tragédia do Homem acompanha o primeiro porâneos tão perplexos como um crítico marxista está per-
homem, Adão, através de suas reincarnações em diversas plexo diante da ideologia reacíonária do realista Balzac.
épocas históricas. É uma grande peça épico-dramática e, Estavam acostumados a pensar em termos políticos, a dis-
embora inspirada em duras experiências pessoais, uma das tinguir nitidamente entre conservadores e liberais; em Heb-
obras representativas do pessimismo do século. bel e Ludwig encontraram dois liberais, cuja obra revelou
tendências conservadoras. A crítica do século XIX não sa-
Aos epígonos da tragédia clássica faltava a força para
resolver o problema de Hebbel: não sabiam encontrar o
caminho para o realismo. Eis a tragédia pessoal de Otto U) Otto Ludwig, 1813-1865.
Der Erbfoerster (1850); Die Makkabaeer (1853); Die Heiterethei
und ihr Wiãerspiel (1854); Zwischen Himmel und Erde (1856).
Publicações pástumas: Die Torgauer Heide (1844); Das Fraudélin
von Scvdéry (1848); Agnes Bernauerin (1854/1864); — Shakes-
10A) Imre Madách, 1823-1864. pcare-Studien (1871).
A Tragédia do Homem (1861). Edição por P. Merlcer, 18 vols., Muenchen, 1912/1920.
Edição das obras por G. Halasz, 2 vols., Budapest, 1942. A. Stern: Oíío Ludwig, ein Dichterleben, 2.» ed. Leipzig, 1906.
G. Vojnovich: Imre Madâch e a Tragédia do Homem. Buda- L. Mis: Les oeuvres dramatiques d'Otto Ludwig. 2 vols. Lille, 1929.
pest, 1914. (Em húngaro.) ii Schoenweg: Otto Ludwim's Kunstschaffen und Kunstdenken,
B. Alexander: Imre Madách. Budapest, 1923. (Em húngaro.) L Koeln, 1941.
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OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2133

bia explicar essa situação; só o crítico socialista Franz Meh- Este equilíbrio precário entre forças antagónicas é um
ring reconheceu em Hebbel e Ludwig os representantes traço permanente da história alemã do século X I X : a classe
da pequena-burguesia intelectual, assustada pela proleta- média, gozando de liberdade económica e espiritual, pa-
rízação e pelo capitalismo moderno, desconfiado e pessimis- gando o preço de renunciar ao poder político, que fica nas
ta em face da decepção de 1848. O liberalismo estava dispos- mãos da aristocracia semifeudal e militarizada. Esse equi-
to a fazer concessões à reação político para conservar o nível líbrio precário também é um fato característico da situação
material e intelectual da vida. O liberalismo económico europeia, em geral, por volta de 1850. Em face do perigo
que os governos reacionários de 1850 concederam, tornou proletário, que a revolução revelara, a burguesia devia em
possível um "compromisso": o partido nacional-liberal, o toda parte renunciar a uma porção dos ideais que a tinham
maior apoio de Bismarck na obra da unificação da Alema- levado à emancipação intelectual e ao poder económico.
nha, era liberal e prussiano ao meimo tampo. A expressão Na França, renunciou à liberdade política, em favor da di-
desse "compromisso" é Gustav Freytag ( , a ) , no seu tempo tadura de Napoleão I I I . Na Inglaterra da Rainha Vitória,
um dos autores mais lidos, e não sem carta r a t i o : seco, pro- a burguesia, vitoriosa em 1832, desistiu das reformas "radi-
fundamente antipoético, mas sólido como um inglês. Na cais" que pregara, para garantir-se o poder económico. Rea-
época da pior reação política ousou glorificar, na bem cons- lizou-se uma correspondente transição ideológica do cien-
truída comédia Die JournaJisten (Oa Jornalistas), o jorna- tismo matemático-físico ao cientismo biológico-técnico; o
lismo, as eleições livres, o regima parlamentar: era um li- cientifismo matemático-físico do século X V I I I levara, no
beral. Ao mesmo tempo, esta profaiaor universitário da terreno político, ao conceito da igualdade, já inadmissível
literatura alemã era fortementa nacionalista, de tendências para a burguesia vitoriosa; o cientismo biológico-técnico do
prussianas. No romance SoJl und Haben (Débito e Crédito) século X I X forneceu, pelo darwinismo, os argumentos bio-
lido e famoso também no estrangeiro, defendeu a burguesia lógicos para afirmar a liberdade económica. A figura da
comercial como fundamento sólido da evolução nacional: transição é Mill ( 1 S ) : cientista e "radical" no sentido do
foi o primeiro romance alemão em que se fala de negócios século X V I I I ; mas o seu antipassadismo (e anti-historis-
e dinheiro, obra de um BaUac menor. Depois da unifica- mo) já não é o dos enciclopedistas, e sim o do positivismo;
ção de 1870, F r e y t a g tentou até um plano zolesco: Die Comte o influenciara sensivelmente. O "fato" é o único
Ahnen (Os Antepassados), ciclo de 8 romances históricos, objeto da sua fé, e nisso êle se encontra com a sua época,
representando a evolução da nação alemã, dos tempos pa- que também só acreditava em fatos científicos na teoria e
gãos até a época contemporânea; a burguesia tinha conquis- em valores materiais na prática. • Contudo, era uma f é : no
tado o seu lugar ao lado dos junkers, orgulhosos de sua próprio utilitarismo existem, em forma secularizada, os
árvore genealógica. dogmas do puritanismo, duro contra os outros e contra si
mesmo, mas também de uma vontade muito forte e sincera
de melhorar a condição do próximo conforme os preceitos
do Evangelho. Daí as contradições naquilo a que se chama
12) Gustav Freytag, 1816-1895.
Die Jouxtialisten (1852); Soll und Haben (1855); Dieverlorene
Handschri/t (1864); Die Ahnen (1872/1880).
H. Lindau: Gustav Freytan. Leipzig, 1907. 18) Cf. "Fim do romantismo", nota 8.
2134 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2135

"espírito vitoriano": liberalismo e até radicalismo político, intelectuais, vivendo à margem da vida em irresponsabili-
e subserviência "esnobística" em face das tradições aristo- dade comodíssima. O surto do totalitarismo politico e cul-
cráticas; livre-pensamento teológico, positivismo, darwinis- tural, nos anos antes e durante a Segunda Guerra Mundial
mo e agnosticismo, e culto de lábios ao dogma da Igreja an- levou, porém, a uma revisão, pelo menos parcial, daqueles
glicana ou das seitas puritanas; propaganda dos "slogans" julgamentos duros. Volta-se a apreciar as vantagens da to-
democráticos no mundo inteiro, e rude imperialismo colo- lerância, da estabilidade económica, enfim, do liberalismo.
nial; opressão implacável do proletariado e acessos tempo- E dessa mudança de opinião aproveitar-se-á, com certeza,
rários de coinsciêncía cristã, dos quais Carlyle e Dickens a memória do mais típico de todos os vitorianos, de Ma-
tinham dado os primeiros exemplos; otimismo da fé no caulay.
progresso ilimitado, e uma poesia triste, melancólica, de Dizem que as obras de Macaulay ( l õ ) se encontravam,
epigonismo consciente. E i s o "espírito da época vito- nas casas dos ingleses típicos, ao lado da Bíblia e do Sha-
riana" ( 14 )- kespeare. Ninguém encarnava tão bem todos os ideais e
aspirações do inglês médio do século X I X : fé no pro-
Os contemporâneos mal percebiam aquelas contradi-
gresso e respeito pelo grande passado histórico, entusiasmo
ções; sendo positivistas, estavam acostumados a acreditar
pela liberdade e consciência da grande missão religiosa dos
só nos "fatos", quer dizer, no sucesso. E o sucesso era im-
anglosaxões na terra, cultura espantosa, enciclopédica, e
ponente: a Inglaterra da Rainha Vitória era o país mais
talento de divulgá-la da maneira mais convincente e mais
poderoso, mais rico e, pelo menos na aparência, o país mais
agradável. A History of England from the Accession of
livre e mais feliz do mundo. Depois das grandes crises
James II formou a consciência política de gerações intei-
económicas e sociais do fim do século, e quando o poder po-
ras de ingleses: escrita do ponto de vista de um whig da
lítico do império também já evidenciava as primeiras fen-
"Revolução Gloriosa" de 1688, ligando-a diretamente à Re-
das, o vitorianismo caiu em descrédito absoluto. Por volta
forma parlamentar de 1832; e tudo está perfeito nesse me-
de 1920, "vitorianismo" era sinónimo de hipocrisia meio
lhor dos mundos liberais, sobretudo quando narrado com
nojenta, meio ridícula. Sobretudo a timidez dos vitorianos
todos os recursos de um grande orador parlamentar que
em tocar em questões sexuais era insuportável para a mo-
lera muito Walter Scott. Os Essays de Macaulay tornaram-
cidade da época do fox-trott e do short; e no combate con-
se ainda mais populares, porque o caráter fragmentário da
tra o liberalismo, falso porque antí-social, reuniram-se as
obra facilitava a leitura. As frases felizes de Macaulay, as
denúncias dos socialistas e dos antiliberais da Direita. Na-
famosas "Macaulay flowers", transformaram-se imediata-
quela época de Lytton Strachey, em que o espírito radical
mente em citações proverbiais. Ao-puritano das classes mé-
e zombador do século X V I I I voltou, explicaram a hipocri-
sia vitoriana como "compromisso vitoriano", compromisso
de vários aspectos: entre liberalismo retórico e esnobismo Itn Thomas Babington Macaulay, 1800-1859.
pseudo-aristocrático da burguesia; entre utilitarismo puri- Lays of Aneient Rome (1842); Criticai and Historical Essays, con-
tributeá to the Edimburg Review (1843); History of England from
tano dos homens de negócios e poesia pseudo-romântica dos the Accession of James II (1848/1861).
Edição dos Essays por F. C. Montague, 2 vols., London, 1903. a
O. O. Thevelyan: The Life and Letters of Lord Macaulay. 7. ed.
2 vols. London, "1932.
H)
Ssí" C h e s t e i t 0 n : The
VMorian Age in Literature. 14.- ed. London, A. Bryant: Macaulay. London, 1932.
Et, C. Beatty: Lord Macaulay, Victorian Liberal. London, 1938.
»

2136 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2137

dias agradaram as palavras, em Southefs Edition of the mo", do fim das modificações porque tudo já estaria perfei-
Pilgrim's Progress, sobre "a única obra literária de todos to. A sua história da Inglaterra moderna não é obra de um
os tempos com respeito à qual os intelectuais tinham que historiógrafo, e sim de um homem de partido, identificando
aceitar, enfim, a opinião dos leitores populares"; e os in- anacrônicamente os whigs de 1688 e os liberais de 1832.
telectuais consolaram-se com os ataques contra o "cant" in-
Inconscientemente, Macaulay falsificou a história, porque
glês, em Moore's Life of Byroo. Os utilitaristas decoraram
não tinha nenhuma filosofia da história. O seu horizonte
a frase lapidar, em Lord Bacon: "An acre in Middlesex is
better than a principality in Utopia"; os patriotas assusta- era o de um inglês médio e satisfeito; por isso agradou
ram-se, lendo em Ranke's History of the Popes, que a Igre- tanto a todos os ingleses médios e satisfeitos.
ja Romana, após ter desafiado as tempestades de todos os Haverá, porém, revisão parcial do processo. Chester-
séculos, "provavelmente ainda ficará em pé quando, num ton já apontou, como uma das contradições intrínsecas de
século futuro, um viajante melancólico desenhará as ruínas
Macaulay, o entusiasmo scottiano desse progressista e anti-
da Tower B r i d g e " ; mas que tenham paciência, e ouvirão
passadista pela história, que ele sabia apresentar cheia de
que, "quando o último navio de guerra inglês se terá afun-
colorido romântico. Os Essays constituem, na verdade, um
dado ao lado dos últimos rochedos cretáceos desta ilha, ain-
da ficará um monumento imperecível da nossa raça: a li- manual da melhor civilização inglesa, sobretudo do século
teratura inglesa." O próprio Macaulay parecia o pontífice X V I I I ; e as ligeiras deformações anacrónicas decorrem
máximo dessa grande tradição literária; e atrás da figura mesmo da capacidade máxima de Macaulay: da sua arte
de mestre-escola meio sublime, meio ridícula, do doutor de narrar. Os ensaios sobre Lord Clive e Warren Hastings
Johnson, em Croker's Edition of BosweWs Life of John- são novelas inesquecíveis, obras-primas de um romancista
son, surgiu a figura do mestre-escola maior, o "doutor Ma- nato. Como historiógrafo, não tinha filosofia; mas como ro-
caulay", "praeceptor Angliae". E os colegiais tinham que mancista estava no ponto firme da moral inglesa, que nem
decorar os seus Lays of Ancient Rome como se fossem sempre é cant de hipócritas e à qual devemos algumas con-
obras-primas da poesia inglesa. quistas inestimáveis do verdadeiro liberalismo. É verdade
Macaulay é u m ótimo objeto para iconoclastas. Da que Macaulay era um esnobe, adorando a fina cultura dos
sua poesia, exercícios de escola, já não vale a pena de falar. aristocratas; mas assim evitou a vulgaridade, que tantas
Nos Essays reparam-se, ao lado de frutos de leituras imen- vezes aborrece em Dickens, dando ao seu moralismo algo
sas, certos erros e ignorâncias pavorosas, sobretudo com puritano, o relevo de uma grande tradição de uma grande
respeito a coisas não-inglêsas: reultado do orgulho tipica- nação.
mente insular. As famosas "flowers" são, no fundo, luga-
res-comuns brilhantes, bem apresentados, mas nem sempre Se Macaulay se tornasse romancista, talvez estivesse
com sentido exato. Enfim, o liberalismo de Macaulay está dignamente ao lado de Dickens, Thackeray, George Eliot
sujeito a todas as dúvidas: nos primeiros anos da sua car- • Trollope. Mas a perda não é muito grande. J á temos o
reira parlamentar lutou galhardamente em favor de refor- acaulay do romance, o representante máximo do "compro-
mas radicais; mas quando as reivindicações da burguesia Isso vitoriano" no género vitoriano: o próprio Tra-
estavam satisfeitas, transformou-se em campeão do "finalis- •ray.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2139
OTTO M A R I A CARPEAUX
2138
choque com as hipocrisias de sua época. No prefácio de
A Thackeray ( 1C ) não faltava muito para colocar-se
Pendennis chegou a queixar-se por não ter a liberdade de
entre os grandes escritores da literatura universal: poucos
exprimir-se, de Fielding. Mas conformou-se. O retrato co-
reuniram, como ele, o espírito específico de uma nação e
nhecido de Thackeray mostra um senhor inglês, de barbas
de uma época e um espírito livre, aberto aos problemas per-
brancas, sentado numa poltrona, em meio de muitos livros;
manentes e aos problemas novos. Os defeitos que o afrou-
quase um lorde e scholar. Na verdade, Thackeray era jor-
xaram são os de Macaulay: o moralismo e o caráter livres-
nalista que tinha que trabalhar duro e escrever de mais para
co do seu talento. No inicio, tinha ambições subersivas de
ganhar a vida. Mas realizou de maneira perfeita a "mimi-
um homem formado pela literatura do século X V I I I : abor-
cry" aristocrática da burguesia vitoriana, afinal só pôde
receram-no o medievalismo à maneira de Walter Scott e o
descobrir o esnobe quem era ele mesmo um pouco de esnobe.
falso aristocratismo de Disraeli. A sua paródia de Ivanhoe
O esnobe Thackeray armado de espírito analítico, descobriu
é de mordacidade terrível; e contra o costume do inglês
a raiz do esnobismo: a vontade de subir na hierarquia social.
médio de se curvar perante a aristocracia, imitando-lhe com
Levando essa descoberta em Vanity Fair, até as últimas con-
lealdade ridícula todos os hábitos, Thackeray lançou The
sequências, Thackeray inventou a história de Becky Sharp
Book of Snobs, inventando o termo e imortalizando o tipo.
que poderia ser verdade: Becky, conquistando por todos os
Continuando assim, Thackeray ter-se-ia tornado o escritor
meios uma posição social, Vanity Fair é uma obra-prima,
mais subversivo da sua época, inimigo perigoso do "com-
digna de Balzac; uma galeria shakespeariana ou antes mo-
promisso vitoriano". Mas não pôde continuar assim porque
lièriana de caracteres num vasto panorama, brilhantemente
era filho da "upper middle class", o que lhe limitava o ra-
construído, da sociedade inglesa de 1820. Em Vanity Fair,
dicalismo das convicções teóricas, e porque a existência
assim como nas grandes obras de Balzac, os caracteres, ti-
privilegiada da sua classe lhe limitava as experiências vi-
pos da alta comédia, são criaturas do ambiente social, bo-
tais. Foi um crítico sério da vida; mas não disse tudo o
necos do destino como da predestinação dos puritanos. Para
que a sua crítica lhe teria inspirado, para não entrar em
essa "vanity fair" da sociedade moderna, Thackeray encon-
trou o nítido, tão significativo, num livro muito puritano,
16) Wllliam Makepeace Thackeray, 1811-1863. no Pilgrim's Progress, de Bunyan; os personagens também
History of Mr. Samuel Titmarsh and the Great Hoggarty Diamond parecem bonecos, porque dependendo da vontade soberana
(1842); The Book of Snobs (1846/1847); Vanity Fair (1847/1848);
The History of Pendennia (1848/1860); The Histôry o) Henry Es- do i omancista-moralista que os guia, comentando-lhes cons-
mond (1852); The Ncwcomes (1863/1855); The Virginians (1857/ tantemente todos os passos. Nisso, Thakeray não é "moder-
1859) .
Edição por G, Salntsbury, 17 vols., Oxford, 1908. : pertence à época antes de Balzac. E a sua mistura me-
Ch. Whibley: Wílliam Makepcace Thackeray. London, 1903. nos agradável de sátira e sentimentalismo também pertence
L. MelvUle; William Makepeace Thackeray. 2,a ed. 2 vols. Londonr
1927. • uma época passada, ao século X V I I I dos Richardson,
G. Saintskmry: A Consíderation of Thackeray. London, 1931. |Flclding e Sterne que eram os seus modelos literários. Nê-
R. Las Vergnas: William Makepeace Thackeray, 1'homme, le pen- li'M aprendeu o fino estilo coloquial que o distingue de to-
seur, le romancier. Paris, 1932. jta OB outros romancistas ingleses da sua época. E Tha-
M. Elwin: Thackeray. A Personality. London, 1932. H u r escreveu mais uma obra-prima quando se internou
J. W. Dodds: Thackeray; a Criticai Portrait. Oxford, 1941.
L.*Stenson: The Showman of Vanity Fair. The Life of William I léculo X V I I I : The History of Henry Esmond, roman-
Makepeace Thackeray. New York, 1947.
J. Y. T. Greig: Thackeray. A Reconsideration. Oxford, 1950.
G. Tillotson: Thackeray, the Novelist. Cambridge, 1954.
G. N. Ray: Thackeray. 2 vols. London, 1955/1956.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2141
OTTO M A R I A CARPEAUX
2140
Com exceção de Vanity Fair, a sátira de Thackeray
ce histórico e romance social ao mesmo tempo. Assim como
parecerá ao leitor moderno mais inofensivo do que real-
havia em Macaulay um génio "manque" de romancista, ha-
mente era; a dissimulação deve-se, em parte, ao humorismo
via em Thackeray um génio "manque" de historiador, con-
humanístico, tipo século X V I I I inglês, em parte à conside-
forme a sua própria expressão: "I would have history fa-
ração ao público. Essa consideração foi obrigatória como
miliar rather than heroic; and think that Mr. Hogarth and
uma lei, produzindo equívocos curiosos. Pois muitos vito-
Mr. Fielding will give our children a much better idea of
rianos eram, na realidade, muito diferentes da impressão
t h e maners of the present age in England than the Court que criaram a seu respeito. Assim, o sublime Tennyson re-
Gazette and the newspapers which we get thence". Isso vela-se, nas suas cartas íntimas, como humorista de espírito
está em Henry Esmond e refere-se ao século X V I I I ; histo- mordaz, veia que não ousou manifestar na poesia para não
riador do seu próprio tempo Thackeray tornou-se em Pen- pôr em perigo sua fama de vate inspirado. H á os conheci-
dennis: e é "history familiar", de homens fracos e triviais dos distúrbios sexuais na vida de Carlyle; há o caso da espo-
como os encontramos todos os dias, vistos pelos olhos de sa repudiada, na vida de Dickens; há uma "chronique scan-
um humorista, quer dizer, neste caso, de um satírico que daleuse" atrás dos bastidores vitorianos — o comentário
rjerdoou aos homens porque são tão fracos e lamentáveis. encontra-se na curiosa correspondência de Edward Fitzge-
Thackeray pertence à "literatura da desilusão", típica dos rald ( 1 7 ), mais um espírito mordaz que sabia dissimular,
anos de 1850; é um realista, tendo diante dos olhos o vasto facilitando-se a vida de scholar independente pela reti-
panorama da cidade de Londres, da sociedade inglesa, do rada completa da vida pública; o primeiro e talvez o maior
Império britânico. Nada vê de grandioso neste panorama dos poetas da "tour d'ivoire". "Poeta" só se diz "cum gra-
grandioso; só misérias morais e intelectuais; mas o realis- no salis", porque as poesias originais de Fitzgerald têm pou-
mo de Thackeray cria contornos firmes; os seus persona- ca importância; importantes são as suas traduções, as de
gens tomam-se inesquecíveis, mais representativos da épo- Calderón, depois e sobretudo a tradução dos Rubaiyat, 110
ca vitoriana do que os personagens da Court Gazette e dos quadras do persa Ornar Khayyam, poeta e astrónomo do
"news-papers". São criações de um artista. Béculo X I I . Ornar Khayyam fêz versos à maneira de uma
O artista Thackeray era, êle mesmo, jornalista, e jor- tradição antiga na literatura persa: aparentou um credo
nalista vitoriano, prisioneiro do gosto do seu público. Só místico, em parte seriamente, em parte para poder alegar
assim se explica a sua timidez quanto ao grande tabu dos
vitorianos, a sexualidade, e o afrouxamento do seu radi-
calismo de intelectual, virando cada vez mais moderado.
17) Edward Fitzgerald, 1809-1883.
Enfim, começou a evitar a apresentação de personagens Six Dramas of Calderón (1853); The Rubaiyat of Ornar Khayyam
m a u s ; e com isso a sua sátira e crítica social perderam a (1859, 1868); Letters and Literary Remains (1903).
Kdição das obras completas por G. Bentham, 7 vols., New York,
razão de ser. The Newcomes e The Virginians, continuan- 1902.
do respectivamente a ação de Pendennis e Henry Esmond, li Jackson: Edward Fitzgerald and Ornar Khayyam. London,
já s | o apenas bons romances. Mas sempre Thackeray con- íno».
A, O. Benson: Edward Fitzgerald. London, 1905.
servou o espírito cáustico e um "je ne sais quoi" de tristeza A M. Terhune: "The Life of Edward Fitzgerald. New Haven,
dissimulada; lendo-o, pensa-se em seus contemporâneos: 1047.
K de Polnay: Into an Old Room. The Paradox of Edward Fitzge-
•em Flaubert, Turgeniev e Machado de Assis. IM. London, 1950.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2143

9 U 2 OTTO MARIA. CARPEAUX


outra Bíblia e do Shakespeare, o livro mais divulgado e
mais lido em língua inglesa. Porque exprimem um aspecto
um sentido alegórico nas suas canções de vinho; com efeito,
permanente do sentimento humano acerca de vida e mundo.
parece ter sido grande bebedor, amigo das flores e das
Cepticismo e malícia secreta, eis o resultado da anglici-
raôças. O vinho era o seu narcótico para aguentar melhor
zação vitoriana do poeta exótico. Cepticismo e malícia
o outro credo seu, o de um mistico ateu, epicureu, acredi-
muito intensa, eis o resultado da anglicização de outro poe-
tando na destruição definitiva de corpo e alma do homem,
ta exótico, contemporâneo quase de Fitzgerald e dos gran-
no Nada absoluto depois da morte. Certos críticos, sobre-
des vitorianos, com pequeno atraso cronológico justificado
tudo franceses, denunciaram com violência as liberdades ilí-
pela distância geográfica e as dificuldades do intercâmbio
citas do tradutor infiel ou ignorante, que Fitzgerald teria
intelectual. Mas Machado de Assis ( 1 S ), o maior escritor
sido, ao passo que Tennyson julgou: " T h e best translation
da literatura brasileira, não é exótico em relação à Ingla-
ever made." São dois equívocos iguais. Os Rubaiyat persas
terra, e sim em relação ao Brasil. O caso é enigmático: um
não passam de uma oportunidade para permitir a Fitzgerald
mulato de origens proletárias, autodidata, torna-se o escri-
fazer versos heréticos; e nem esta última palavra dá expli-
tor mais requintado da sua literatura, espírito cheio de
cação perfeita do caso, porque os disfarces fantásticos são
arrière-pensées, que exprimiu menos em versos parnasianos
uma moda geral da poesia vitoriana. Assim como Tennyson
à maneira de Fitzgerald, do que em romances meio satíricos
se fantasiou de autor de "chansons de geste", Rossetti de
i maneira de Thackeray. Em Machado de Assis havia mui-
poeta trecentista e Morris de chauceriano, assim Fitzgerald
tas influências estrangeiras, e são justamente as influências
apresentou-se como poeta persa. Assim, já não sentiu medo
inglesas que o distinguem dos seus patrícios, em geral
de revelar o seu credo céptico: não chorou sobre dúvidas
afrancesados: Swift e Sterne, sobretudo. Mas influências
religiosas, como Tennyson em In Memoriam, mas sorriu
não explicam o génio. Machado de Assis também tem algo
francamente de "this sorry Scheme of Things". O seu
"Carpe diem!" persa era niilista, mas alegre:
18) Joaquim Maria Machado de Assis, 1839-1908.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881); Papéis Avulsos (1882);
"Ah, make the most of what we yet may spend. Histórias sem Data (1884); Quincas Borba (1891); Várias Histó-
Before we too into the Dust descend; rias (1895); Páginas Recolhidas (1899); Dom Casmurro (1900);
Esaú e Jacó (1904); Memorial de Aires (1908.)
Dust into Dust, and under Dust, to lie, Edição W. M. Jackson, 31 vols.. Rio de Janeiro, 1936. (6.B ed.,
Sans W i n e , sans Song, sans Singer, and — sans 1950.)
[End!" Edição Crítica, em preparação (vol. VI: Memórias póstumas de
Brás Cubas. Rio de Janeiro. 1960.)
J. M. Graça Aranha: Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Co-
Fitzgerald era um pessimista vitoriano, mas sui gene- mentáriosft e notas à correspondência entre estes dois escritores.
1023. (2. ed. Rio de Janeiro. 1942.)
ris: modelando e remodelando seus versos à maneira de Aui-. Meyer: Machado de Assis. Porto Alegre, 1935.
um parnasiano, transformando o agnosticismo positivista L. M. Pereira: Machado de Assis. 2.a ed. São Paulo, 1939.
IRUR. Gomes. Influência inglesa em Machado de Assis. Salvador,
da sua época em doce música romântica, transfigurando m
"one moment in annihilation's waste" em obra de arte dura Barreto Filho: Introdução a Machado de Assis. Rio de Janeiro,
1047.
como bronze. Terá sido por isso que os vitorianos hipócri- AUff. Meyer: Machado de Assis (1935-1958). Rio de Janeiro, 1958.
ta» suportaram e até saudaram essa "Bíblia da Incredulida- [j|U((. Gomes: Machado de Assis. Rio de Janeiro, 1958.
M.injlldo Pereira: Machado de Assis. Rio de Janeiro, 1959.
de"? Oa Rubaiyat de Fitzgerald, revelando maior vitalida- cio Tati: O mundo de Machado de Assis. Rio de Janeiro, 1961.
de do que o i Easays de Macaulay, continuam, ao lado da
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2145

OTTO M A R I A CARPEAUX mas não vale; todos os cemitérios se parecem." O humoris-


2144
ta céptico "só sabia olhar a vida subspecie mortis", e por
em comum com Jane Austen, que não conhecia, provavel-
meio desse "só êle superou as limitações vitorianas, tor-
mente. A sua formação talvez fosse mais francesa do que
nando-se atual para todos os tempos. Histórias sem Data
aquelas influências deixam entrever. Dos moralistes fran-
chama-se um volume de contos seus, e "sem data" é a sua
ceses provém a sua desconfiança extrema com respeito à
honestidade dos motivos dos atos humanos — a sua psico- obra inteira.
logia é, em geral, a de L a Rochef oucauld; parece ter conhe- A base económica da literatura vitoriana existia, pelo
cido Leopardi — menos o poeta do que o pensador das menos para pequenos grupos, também no Brasil e em toda
Operette morali — ao qual o ligavam o epicureismo, no sen- a parte de onde a City canalizou para Londres e os midlands
tido grego da palavra» e o cepticismo niilista em face do os juros das inversões e empréstimos de capital inglês. A
universo; leituras de Schopenhauer fortaleceram-lhe a vi- inteligência vitoriana é essencialmente a de rentiers, depen-
são negra e quase demoníaca dos homens e das coisas; mas dendo da estabilidade económica que as belonaves de Sua
sempre sabia exprimir-se com a urbanidade reservada e Majestade Britânica garantiram. Daí se explica a estabi-
irónica de um "homme de lettres" do século X V I I I . T u d o lidade do "compromisso vitoriano"; e quanto mais o im-
isso parece incrível num mulato autodidata do Rio de Ja- pulso inicial da revolução industrial diminuiu e os merca-
neiro semicolonial da época. Contudo, podem-se alegar, dos conquistados no estrangeiro se saturaram, tanto mais se
além da particularidade do génio que resiste à análise, al- calmaram as dúvidas. A prosperidade inglesa, baseada em
gumas razões de ordem política e económica: o Império do economia utilitarista e ciência positivista aplicadas, pare-
Brasil de 1880 era semicolônia da Inglaterra vitoriana. Ma- cia feita para toda a eternidade, como o dogma de uma
chado de Assis, proletário e "half-breed", alto funcionário e Igreja. Por volta de 1850, o Tennyson de In Memoriam
presidente de uma Academia de Letras, é um grande escri- ainda esteve preocupado com escrúpulos teológicos; vinte
tor vitoriano. As Memórias Póstumas de Brás Cuba, Quin- anos mais tarde, em By an Evolutionist, o poeta já tenta
cas Borba e Dom Casmurro não têm que recear a compara- reconciliar-se com o darwinismo. Darwin ( i a ) , agnóstico
ção com Thackeray; falhas de coerência na composição no- sem hostilidade contra a religião, domina todos os espíritos,
velística, que uma crítica de formação francesa apontaria, deixando em paz o céu, explicando de maneira satisfatória
não são defeitos tão graves em romances de tipo inglês, se os milagres da natureza e fornecendo os melhores argu-
bem que em língua portuguesa. O sentido de forma latino mentos científicos em favor da nâo-intervençao do Estado
do mulato latinizado revelou-se melhor nos contos. "O na vida económica: é preciso deixar funcionar a seleção
Alienista", "Noite de Almirante", "Missa de Galo", "O E s - natural pelo "struggle for Hfe". O. liberalismo inglês pa-
pelho" são espécimes magníficos de um género que esteve, rece ter realizado a maior felicidade do maior número pos-
aliás, mal representado na literatura inglesa do século X I X . sível, versão utilitarista da utopia de Platão; e assim como
H á quem goste dos versos de Machado de Assis; mas a sua
verdadeira poesia está antes na atmosfera, meio irónica
meio fúnebre, que envolve os berços e os leitos de morte 10) Charles Darwin, 1808-1882.
dos seus personagens; até uma crónica sobre o "Velho Se- Voyage of a Naturalist round the World (1849); The Origin of
the Species by Means of Natural Selection (1859); The Descent of
nado" acaba com as palavras resignadas e maliciosas: "Se Man and Selection in Relation to Sex (1871.)
O. A. Dorsey: The Evolution of Charles Darwin. New York, 1927.
valesse a pena saber o nome do cemitério, iria eu catá-lo,
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2147
OTTO M A R I A CARPEAUX
2146
do Departamento dos Correios, modesto, pontualíssimo.
ali, não há lugar na sociedade vitoriana para as mais Inú- Nas horas livres, esse trabalhador infatigável escreveu 46
teis das criaturas, os poetas. A prosa reina soberanamente; romances, com o mesmo cuidado com o qual elaborou ofí-
Thackeray, "gentleman" idoso da época alegre da Regência cios e despachos; e resultou uma cópia novelística da In-
fora poeta em comparação com Trollope, romancista do glaterra vitoriana tão fiel que os contemporâneos se reco-
Parlamento e da Igreja de Gladstone. nheceram nos personagens, chegando a amar Trollope como
É verdade que o darwinismo arrancou aos teólogos o se ele tivesse criado os seus próprios leitores. Só se indig-
lugar-comum mais querido dos sermões: a sabedoria de naram quando a autobiografia revelou o método mecânico-
Deus que arranjou com tanta engenhosidade as coisas da burocrático do romancista: tantas e tantas páginas por dia,
natureza que tudo serve para qualquer fim útil. Isso já não sempre o mesmo número, sem consideração das diferenças
é possivel afirmar depois da eliminação da teologia. Mas de assunto. Desde então, Trollope, "realista sem alma", caiu
o clero anglicano marchava com o tempo; o liberalismo teo- em descrédito, tanto mais que as crises económicas e sociais
lógico ( 20 ) venceu os escrúpulos. O volume Essay and Re- da Inglaterra pós-vitoriana, destruindo a antiga prosperida-
views, publicado um ano depois da Origin oí the Species de, fomentaram novo romantismo. Trollope, porém, foi
by Means oí Natural Selection, vale por uma vitória defini- conscientemente anti-romântico. O seu realismo evita os
tiva. Depois, só os puritanos obscurantistas da Escócia ou-
sentimentalismos, as nuanças, os meios-tons, os segredos.
sarão anatematizar o professor Robertson Smith, porque
T u d o está prosaicamente claro, como na vida de um homem
Estudara os vestígios do politeísmo oriental no Velho Tes-
profundamente honesto, capaz de publicar a sua correspon-
tamento. O Oxford Movement está esquecido; Newman
dência íntima e a sua contabilidade particular. Trollope
vive recluso no Oratório de Birmingham. Os dignitários da
parece-se com os grandes comerciantes da City, cujos negó-
Igreja anglicana só se preocupam com negócios administra-
cios se estenderam ao globo inteiro e em cuja palavra a
tivos e eleições políticas, levando a vida particular e ir-
gente podia acreditar sem prova escrita. É porque Trollope
responsável dos poetas vitorianos, mas sem poesia alguma.
é dono absoluto dos seus assuntos. Nele, o método novelís-
E i s os ingleses mais ingleses da Inglaterra, os personagens
tico de Fielding, a onisciência soberana do romancista com
de Trollope. respeito ao enredo e aos personagens, chega à plenitude.
Trollope ( 2 1 ) parecia e foi protótipo daquele "filisteu"
do qual os românticos tinham zombado t a n t o : funcionário
Duke's Chilâren (1880); br. Wortle's School (1881); — An Auto-
liinaraphy (1883) .
20) Cf. "Fim do romanstimo", nota 18. io dos Barchester Novéis por M. Sadleir, 14 vols., Oxford,
21) Anthony Trollope, 1815-1882. 11129.
The Macdermots oí Ballycloran (1847); The Warâen 1855); Bar-
chester Towers (1857); Doctor Thorne (1858); Castle Richmond T. H. S. Escott: Anthony Trollope. His Work, Associates and Li-
(1860); Framley Parsonage (1861); Orley Farm (1862); Rachel Ray ry Originais. London, 1913.
(1863) ;The Small House at Allíngton (1864); The Belton Estate (1 B. NIchols: The Significance of Anthony Trollope. New York,
(1866); The Last Chronicle of Barset (1867); The Claverings 1080,
(1867); Phineas Fillm, the Irish Member (1869); The Viçar o/ Bull- M Badleir: Anthony Trollope; a Commentary. New York, 1927.
hampton (1870); Sir Harry Hotspur o/ Humblethvjaite (1871); Walpole: Anthony Trollope. London, 1928.
The Eustace Diamonás (1873); The Way we Live Noto (1875); The , Ourtls Browne: Anthony Trollope. London, 1950.
Prime Minister (1876); The American Senator (1877); Is He Po- * J. Cockshut: Anthony Trollope. A Criticai Study. London,
i.iw.
penjoy? (1878); John Calãigate (1879); Cousin Henry (1879); The
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2149
OTTO MARIA CARPEAUX
2148 rivista irlandês Finn está contrabalançado pelo personagem
Na vontade bem vitoriana de ficar fielmente realista e agra- do magnífico Duke of Omnium, primeiro ministro de Sua
dar, no entanto, ao público, Trollope dirige as vidas cinzen- Majestade. Trollope conhecia intimamente a Inglaterra in-
tas e triviais dos seus personagens ao encontro de grandes teira; devem-se a êle os primeiros romances sobre a vida
cenas dramáticas, ligeiramente sensacionais, nas quais se rural irlandesa; e com o tempo, até saiu das ilhas britânicas,
revelam, sem análises psicológicas, os caracteres. Conforme escrevendo o primeiro romance australiano. Sem ênfase e
a tradição do romance inglês, de Fielding até Jane Austen, eloquência patriótica, tornou-se o romancista do " E m p i r e "
Trollope é mais dramaturgo do que psicólogo. inteiro.
Os personagens de Trollope não são heróis imponentes; Trollope era modesto: só pretendeu divertir os leito-
mas vivem indestrutivelmente, como monumentos; e são tão res, e nesse afã revelou-se inesperadamente o artista cons-
ingleses que têm, para o estrangeiro, algo do encanto do ciencioso de tantas e tantas páginas por dia, quase um par-
exótico. A série dos romances mais famosos de Trollope, a nasiano. Escreveu romances só para escrever romances.
"Barsetshire Cbronicle", com as obras-primas Barchester Lembra-se o "1'art pour l'art" burguês de Scribe que negou
Towers e The Warden no centro, trata um ambiente des- a relação entre as obras literárias e os costumes da época;
conhecido fora da ilha: à sombra da catedral medieval de e de repente surge a dúvida se o realismo de Trollope foi
Barchester, no interior da Inglaterra, vive o clero anglica- um realismo autêntico. Os romances de Trollope parecem
no, bispos e cónegos dignamente casados, funcionários am- fotografias da vida inglesa de 1860, ao ponto de leitores
biciosos ou "scholars" eruditos e inábeis, cujas esposas i n - ingénuos os tomarem por crónicas. Mas então, entre esses
fluem na nomeação dos dignitários eclesiásticos; intrigas leitores se levantaram críticos improvisados, conhecedores
parlamentares, estudos bíblicos e obrigações da vida social perfeitos dos mecanismos administrativos da Igreja e do
em mistura esquisita — os clergymen de Trollope são tudo* Parlamento, demonstrando que certos pormenores nos ro-
menos sacerdotes. Qualquer leitor de sentimentos religio- mances de Trollope estão "errados". Com efeito, Trollope
sos, conquanto não seja inglês, estará desconcertado, até não é naturalista, e os seus romances não são documentos
pensando em blasfémia ou sátira. Mas esta não era a in- Bociológico-históricos. Trollope é "só" realista, quer dizer,
tenção de Trollope. Moralismo e sátira de um Thackeray criador de um mundo imaginário, assim como são imaginá-
estão fora das cogitações do seu prosaismo absoluto, que é rias a cidade e a catedral de Barchester, eternas porque
o resultado do "compromisso vitoriano", tomado a sério nunca as havia e as suas pedras não podem ser destruídas.
sem hipocrisia alguma: Trollope é honesto, mas não puri- Os romances de Trollope não copiam a Inglaterra vitoriana
t a n o ; liberal, mas com temperamento de conservador; acei- que já não existe; criou êle outra Inglaterra vitoriana, mo-
tando os resultados da ciência moderna, sem abandonar de numento para sempre. E uma vez, essa força de imagina-
todo a tradição religiosa. Trollope era cristão sem entu- f l o criadora se elevou até as alturas daquela do "Balzac vi-
siasmo nem fanatismo. A Igreja interessava-o como grande llonnaire", criando um panorama completo e multiforme de
e velha instituição social; e não era o único dos seus in- época: The Way we Live Now, a maior obra de Trollo-
teresses sociológicos. Outra instituição assim era o Parla- — Só há poucos anos, quando já tinham desaparecido os
mento, ao qual dedicou uma série de romances políticos,, mos vestígios da Inglaterra victoriana "real", então a
também sem tendência; Trollope era conservador por tem- ta i e lembrava com saudades da Inglaterra vitoriana
peramento e liberal por convicção, e o personagem do ar-
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2151
OTTO M A R I A CABPEAUX
2150 o poeta nacional, leitura preferida da rainha. Meio século
"irreal" de Trollope, trivial mas imperecível. Descobriu-se mais tarde, Tennyson tinha que pagar caro a glória des-
na sua prosa cinzenta a poesia secreta. mesurada da qual gozara em vida. O seu conservantismo
A época vitoriana não tolerava outra poesia senão se- pessimista, o seu tradicionalismo formal aborreceram pro-
creta. Isso não quer significar o ostracismo absoluto dos fundamente a geração de 1920. "Tennyson", declaram, "foi
poetas; foram banidos da sociedade burguesa apenas aque- o poeta de predileção da época mais antipoética na história
les que ousaram exprimir sentimentos e conflitos pessoais, da Inglaterra". Joyce criou o trocadilho malicioso: "lawn-
senão preferiram a retirada voluntária como Fitzgerald. A tennyson". O poeta tornara-se o bode expiatório do anti-
poesia tinha que servir de enfeito aos domingos; nos dias vitorianismo.
úteis, aquela coisa inútil só era um hobhy de estetas ou uni- As restrições são inevitáveis; mas a injustiça é eviden-
versitários. "Excellent scholar's poetry", rezaram os anún- te. As limitações do talento de Tennyson são evidentes:
cios dos editores; mas não se tratava de poesia erudita, mas menos por culpa sua do que em consequência da ta-
antes da expressão de sentimentos que os eruditos deviam refa grandiosa de desempenhar o papel de "vate nacional"
calar em face da ciência. Daí o caráter sentimental, melan- que o orgulho vitoriano impôs a um grande poeta idílico.
cólico, pós-romântico da poesia vitoriana, salvando-se porém Tennyson, ignorando a "metaphysical poetry", veio da
um número bastante grande de poesias pela perfeição da melhor tradição romântica: de Wordsworth e Keats. De
forma, consequência da existência particular, privada, da Wordsworth vem a parte menos vistosa e mais permanente
poesia ( 2 2 ). da sua obra lírica, os pequenos lieds que lembram a poesia
O pontífice da poesia vitoriana foi Tennyson ( s s ) , ex- alemã: "Tears, idle tears, I know not what they m e a n " ;
primindo em forma perfeita, irresistivelmente musical, to- "It is the miller's d a u g h t e r . . . " ; "Now sleeps the crimson
dos os aspectos do "compromisso": cultura clássica e in- p e t a l . . . " ; "Come down, o maid. . ." Às vezes, ousou acom-
teresses científicos, respeito à tradição e dúvidas religio- panhar a Wordsworth até à região do rude idílio camponês,
sas, orgulho da grandeza nacional e melancolia do idílio como no esplêndido Northern Farmer, Old Style; mas en-
perdido. Por isso, Lord Tennyson era o "Poet Laureate", tfio achou por bem o disfarce do dialeto de Lincolnshire.
Na poesia "séria", da qual tinha os conceitos solenes de um
22) A. Smith: The Maín Tendencies of Victorian Poetry. Bírminghan, parnasiano, não se permitiu "vulgaridades". Assim, pelo
1907. iiunos, entendeu êle o "classicismo" de Keats, no qual
23) Alfred Lord Tennyson, 1809-1892. •prendeu a cultura do verso e o esteticismo aristocrático.
Poems (1832); Poems (1842); The Príncess (1847); In Memoriam Virgílio era o seu ideal; e To Virgil dedicou a mais perfeita
(1850); Maud (1855); Jdylls of the King (1859/1885); Enoch Arãen dntt suas poesias. A escolha era instintiva e certa. Virgílio
(1864); Demeter and Other Poems (1889). Umbém fora idilista, o poeta requintado e epigônico das
Edição por Hallam Tennyson (Exersley Edition), London, 1913.
H. S. Van Dyke: The Poetry f Tennyson. London, 1898. clogas; e Tennyson também requintou o idílio, até de
S. L. Gwynn: Tennyson, a Criticai Study. London, 1899. li, até chegar à falsificação pseudo-romântica, em Enoch
A. Lang: Alfred Tennyson. London. 1901. ilcti, que não é por acaso o mais popular dos seus poemas.
A. O. Benson: Alfred Tennyson. London, 1904.
«Mia realmente o poeta antipoético da burguesia. E so-
E. H. Griggs: The Poetry and Philosophy of Tennyson. London,
1906. 0 mesmo destino de Virgílio: impuseram-lhe a grande
F. Roz: Tennyson. Paris, 1911.
H. G. Nicholson: Tennyson. Aspects of His Life, Character and
Poetry. Boston, 1925.
P. F. Baum: Tennyson, Sixty Years After. Chapei Hill, 1948.
Ch. Tennyson: Six Tennyson Essays. London, 1945.
OTTO M A B I A GARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2153
2152
poesia representativa, da qual não era capaz. Assim nasce- reconciliar-se, enfim, com as aspirações da sua época. Rea-
ram as poesias patrióticas, a Ode on the of the Duke of cionário êle só era pela timidez, pelo esteticismo que pre-
Wellington e The Charge of the Light Brigade, antecipa- tende chegar à beleza sem luta e sem sofrimento.
ções da ideologia de Kipling, e enfim o poema representa-
tivo da época, os Idylls of the King, modernização lamentá- "Surely, surely, slumber is more s w e e t . . .
vel das lendas do Rei Artur, não se sabe bem se aburgue- O rest ye, brother mariners, we will not wander
samento ridículo dos heróis do passado ou carnaval de [more".
máscaras medievais em salão vitoriano. O próprio Tenny-
son, trabalhando vinte e cinco anos nessa sua obra máxima,
Viveu numa prisão dourada; mas dentro dessa prisão con-
sentiu a fadiga. O poeta da Aeneis vitoriana foi dominado
seguiu o máximo que se pôde realizar em poesia assim li-
pelo sentimento de ser epígono. J á em Ulysses — o mais
mitada. O seu equilíbrio entre sentimento romântico e
forte, mais viril dos seus poemas — dizia que
forma clássica, produto de trabalho incessante, revela-se
nos versos mais perfeitos e mais musicais, jamais escritos
" . . . though em língua inglesa. Música sempre harmoniosa, embora nem
W e are not now that strength which in old days
sempre cheia de sentido — mas o próprio Tennyson o con-
Moved earth and heaven; that which we are, we
[are". fessou: "I don't think that since Shakespeare there has
been such a master of the English language as I. But sure,
I've nothing to say".
Sentiu quebrada a força da fé antiga que êle lamentou em
In Memoriam, nênia interminável sobre a morte do seu ami- Tennyson é o representante máximo do parnasianis-
go Hallan, tão sentimental como Lycidas fora clássico, ex- mo anglo-saxônico; e este era menos estéril do que o fran-
primindo as dúvidas religiosas da época e satisfazendo-se cês. Conservando a herança de Keats, Tennyson antecipou
com uma confiança precária nos desígnios da Providência; a musicalidade do simbolismo; e o seu pessimismo amargo
um grande discurso poético, sincero e eloquente, mas pouco não é seco como o de um Leconte de Lisle, porque não
firme. E i s o Tennyson retórico, didático, moralizante, o c filosofia e sim a consciência que tem seu Virgílio, a de ser
reacionário carlylianc de Locksley Hall, comentando com "Light among the vanish'd ages."
pessimismo amargo as quimeras utópicas dos radicais, dos Tennyson não excluiu possibilidades e esperanças dos ou.
"Men, my brothers, men the workers. ..", tros:
que esperam a felicidade pelo materialismo, a abolição da "Tis not too late to seek a newer world".
guerra, a época quando Talvez por isso os poetas do "new world" chegaram, en-
" . . . T h e war-drum throbb'd no longer, and the bat- fim, a perdoar-lhe seus pecados vitorianos. Para o espan-
[tle-f lags were furl'd to geral, a última escolha de poesias de Tennyson foi orga-
I n the Parliament of man, the Federation of the ida e prefaciada pelo poeta revolucionário dos anos de
[World". 1030: por Auden.* E T . S. Eliot resolveu comentar o pen-
Contudo, Locksley Hall é o poema representativo da época. Itnento religioso de in Memoriam.
E m Tennyson, inglês típico, havia bastante liberalismo para Tennyson sabia-se epígono:
HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2155
OTTO MARIA CARPEAUX
2154
( a 4 - A ); a arte menor dos amenos "vers de société", em al-
"Let it fail on Locksley Hall, with rain or hail, or
gumas amostras de Henry Austin Dobson (1840-1924); a
[fire or snow;
calma da vida particular vitoriana, em My Garden, de
For the mighty wind arises, roading seaward, Thomas Edward Brown, poeta notável no dialeto da ilha
[and I go".
de Man ( 2 4 - B ); musicalidade algo fácil do verso, na Ode
("We are the m u s i c m a k e r s . . . " ) , de Arthur William Edgar
Pelo menos, este epígono era um nobre; não convém con- 0'Shaugnessy ( 2 4 _ c ) ; enfim, Music, de George Du Maurier
(1834-1896), é versão livre de uma poesia de Sully Prudhom-
fundi-lo com os seus próprios epígonos.
me. É o pleno parnasianismo.
Os tennysonianos, eis o verdadeiro mal da poesia vito-
riana, consequência do sucesso desmesurado do "Poet Lau- O último e mais distinto representante dessa "gentle-
reate". A vitória da modalidade tennysoniana é, em grande men poetry" foi Robert Bridges ( 2 5 ), espécie de Tennyson
menor; êle também idilista nato, autor de numerosas pe-
parte, obra das antologias, que desempenham na história
quenas poesias de nobre melancolia que já bastariam para
da poesia inglesa função importante ( 2 4 ). O próprio Ten-
•ncher uma antologia das melhores. Às vezes, Bridges che-
nyson estava, como todos os poetas então vivos, excluído
gou a aproximar-se dos deliciosos "songs" dos elisabetianos.
do Golden Treasury de Palgrave, antologia popularíssima;
In felizmente, êle também sofreu da ambição, de todos os
mas tinha influído muito na escolha: Donne e Blake não
figuram nessa antologia; os poetas preferidos são Gray,
Wordsworth, Shelley, Keats, de modo que toda a tradição
poética inglesa se apresenta como preparação a Tennyson.
I
ipígonos de Keats, de escrever um grande poema filosó-
fico; e quando o Testament of Beauty do octogenário saiu
|nfim em pleno século XX, o próprio Bridges já tinha pu-
blicado, onze anos antes, as poesias do seu amigo falecido
Quando, quase meio século depois, Arthur Quiller-Couch Jerard Manley Hopkins, precursor da poesia modernista.
organizou o Oxford Book of English Verse, destinado a al-
cançar popularidade não menor, foi preciso consertar cer-
tas injustiças com respeito ao passado; e Tennyson já não MA) William Johnson, Cory, 1823-1892.
se encontra no centro invisível do livro. Mas uma parte Ionica. (1891.)
F. C. Mackenzie: William Cory. A Biography. London, 1950.
desmesurada do volume está reservada para os tennysonia-
Ill) Thomas Edward Brown, 1830-1897.
nos, dos quais, desta maneira, certas poesias se gravaram Collected Poems (1900).
na memória inglesa, perpetuando a tradição vitorina em to- Edição das poesias por A. Quiller-Couch. 4.B ed., Liverpool, 1952.
dos os seus aspectos: o cepticismo dos scholars, em Mim- J) Arthur 0'Shaugnessy, 1844-1881.
, of France (1872); Music and Moonlight (1874).
nermus in Church e Heraclitus, de William Johnson Cory L. O. Moulton: Arthur 0'Shaugnessy, his Life and WorTc. Lon-
don, 1894.
felTt Bridges, 1844-1930.
iorter Poems (1890, 1896); a The Testament of Beauty (1929).
das obras poéticas, 2 ed., London, 1936.
24> rfce Gowen Treosury, • » I» " « * • * » " ^ ^ ™l- B. Young: flpoerí Bridges, a Criticai Stuãy. London, 1914.
S E SSoSFL* o, M M Verse, edit. por Arthur Qumer- 1: Robert Bridges. London, 1942.
on: Robert Bridges, 1844-1930. Oxford, 1945.
S M S S C / o / S r * » Verse, eu«. por Arthur Quufcr- Vrlght: Metaphor, Sound and Meaning. A Study of fío-
tridgei' "Testament of Beauty". Philadelphia, 1915.
Couch, 1912.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2157

OTTO M A R I A CABFBAUX
2156 teratura europeia, além de um vago idealismo burguês,
mais estético do que político e de nada filosófico. T u d o
A tradição tennysoniana na Inglaterra acabou t a r d e ; mas
isso era, então, novo em Boston e New York. Tennyson foi
acabou. "Poet Laureate" da Rainha Vitória; a Longfellow chamou
O vitorianismo não era fenómeno limitado à Inglater- um crítico "Poet Laureate do americano médio"; e o título
r a ; a "genteel tradition" nos Estados Unidos apresenta fei- não é mera ironia. Longfellow era, sem possuir a arte sutil
ções análogas de um romantismo tardio ou pós-romantismo de Tennyson, um versificador hábil; até superou o mestre
que, por motivos semelhantes, se tornou reacionário ( 2 C ). na arte do soneto, na qual conseguiu alguns resultados ex-
A transição do romantismo emersoniano ao pós-romantis- celentes. Deveu os seus efeitos principalmente à sábia es-
mo é representada por Longfellow ( 2 7 ), que é o Tennyson colha dos assuntos; e por isso é poeta maior só na poesia
americano; um Tennyson menor. E n t r e a gente culta de narrativa: Evangeline e o famoso poema épico Hiawatha
Boston, a "viagem de formação" para a Europa era obri- não têm que recear comparações com obras europeias mais
gatória; mas os resultados eram diferentes. Os transcen- l.imosas. Longfellow educou os americanos a ler poesia;
dentalistas encontraram na Europa o classicismo goethia- mas nem sempre lhes forneceu os melhores exemplos. A
no, o democratismo hugoniano, o medievalismo carlyliano min poesia lírica é livresca até a mera imitação dos modelos,
e várias filosofias místicas. Longfellow, cabeça de vagos

I
uiimental no pior sentido da palavra, tão nobre em ideias
sentimentos poéticos e inteligência reduzida, estava livre
mo rica em formas métricas. Corrompeu o gosto literá-
de preocupações filosóficas. Na Europa impressionaram-
í de duas ou três gerações americanas. Só raramente o
no as lendas heinianas do Reno e a paisagem das comédias
U sentimentalismo se intensificou; e então estava cons-
de Shakespeare, na Inglaterra, as baladas alemãs e o teatro
Inte do seu epigonismo, como na posia sobre The Jewish
espanhol, a arte italiana e o romantismo inglês. W o r d s -
Htiotcry at Newport, no impressionante verso final:
worth, Tennyson e Schiller tornaram-se os seus modelos.
"And the dead nations never rise again."
Aos americanos da sua época, ainda bastante rudes, trans-
BSm nenhuma parte Longfellow parece mais livresco,
mitiu Longfellow um tesouro de assuntos e formas da li-
li* europeizado, mais falso do que neste verso, lamen-
Hdo as agonias históricas em plena América, "terra da
26) Van Wyck Brooks: The Flowering of New England. New York, ^fcrtísão", o "Promised Land" da Harvard Commemora-
1936. I Ode de Lowell. Contudo, o verso de Longfellow é
27) Henry Wadsworth Longfellow, 1807-1882. llfro e tem sentido. Durante a primeira metade do sé-
Voices o/ the Night (1839); Ballads and Other Poems (1841); The
Spanish Student (1843); The Belfry of Bruges and Other Poems i XIX, o Estado de Massachusetts fora o centro inte-
<1845); Evangeline (1847); The Seasiãe and the Fíreside (1849); • M l dos Estados Unidos: a prosperidade económica
The Song of Hiawatha (1855); The Courtship of Miles Standísh
(1858); New England Tragedy (1868); Christus (1872); Michael i da Boston bastava para sustentar os clubes de es-
Angelo (1883). ^ • Q p e i z a d o s da capital e da Harvard University na
Edição por H. E. Scudder, 11 vols., Cambridge Mass., 1893.
Ch. E. Norton: Longfellow. Boston, 1907.
P. E. More: Longfellow. (In: Shelbume Essays. vol. V. Princeton,
1908).
H. S. Gorman: A Victorian American, Henry Wadsworth Long-
fellow, New York, 1926.
J. T. Hatfield: New Light on Longfellow, with Special Reference
to his Relations to Germany. Boston, 1933.
S bridge. Com a Guerra de Secessão, terminando
a da indústria e do comércio de New York e
l iôbre o Sul agrário, fortaleceu-se o monopó-

L. Thompson: Young Longfellow, 1807-1843. New York, 1938.


HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2159

OTTO M A R I A CARPEAUX de-brâmane" de Harvard, James Russel Lowell ( 2 0 ). Os


2158
seus começos eram esplêndidos: a Fable for Critics, que
lio intelectual da Nova-Inglaterra; a aristocracia escravo-
arrancou com mordacidade violenta as falsas celebridades
crata estava derrotada. Mas da nova prosperidade, da in-
do Parnaso americano, nem sequer respeitando o venerável
dustrialização do "Gilded Age", Boston já não participou,
Bryant, o iceberg poético; e os Biglow Papers, escritos de
transformando-se em ilha isolada de scholars e letrados eu-
maneira muito original no dialeto dos ianques da Nova-
ropeizados, os chamados "brâmanes", que mantiveram sozi- Inglaterra, protestando contra a vergonhosa guerra impe-
nhos a tradição cultural inglesa, a "genteel tradition" de rialista contra o México. A segunda série dos Biglow Pa-
uma civilização superior ao ambiente. Tinham-se criado pers, em favor da Abolição, já é bastante mais fraca. De-
as condições insulares de existência de uma elite em meio pois, é melhor passar sob silêncio a retórica das "grandes"
do materialismo reinante: atmosfera vitoriana, cheia de odes para comemorações cívicas; e os ensaios literários de
pressentimentos de um "fim do mundo". Lowell, escritos no espírito do vitorianismo inglês, tam-
O espírito de elite encarnou-se no maior dos "brâma- bém já perderam muito do antigo brilho. No fim, Lowell
nes", em Oliver Wendell Holmes ( 2B ), esnobe máximo. era um professor ultraconservador. O "Indian Summer"
Causeur espirituoso, zombando, nas conversas da "Break- da Nova Inglaterra tinha começado — e "the dead nations
fast Table", da gente miúda bostoniana, criando tipos hu- never rise again".
morísticos e sentimentais como um Addison ou Steele ame- A poesia vitoriana do tipo Tennyson-Longfellow apre-
ricano; enciclopedista à maneira do século X V I I I , inimigo senta certas características inconfundíveis que se pode re-
feroz do puritanismo, estabelecendo em Boston a capital sumir da maneira seguinte: abandono do romantismo en-
mundial do livre-pensamento, sem qualquer pensamento f/itico, em favor de uma poesia mais calma, mais doméstica
novo, senão o darwinismo, importado da Inglaterra; autor domesticada, chegando-se, às vezes, até a retirada para a
ôrre-de-marfim"; cuidado muito grande, até extremo, na
de famosíssimos "vers de société" e de algumas poesias sen-
Cultura do verso e da forma; esse "1'art pour l'art" levo à
timentais que todo americano sabe ou sabia de cor. Esse
desconsideração dos assuntos políticos e sociais, atitude
grande homem de Boston é às vezes de trivialidade descon-
que se dirige igualmente contra o utilitarismo da burguesia
certante. Contudo, ainda era um liberal, parece que o últi-
Industrial e comercial e contra as reivindicações sociais;
mo. Porque já se tinha estabelecido de maneira perfeita o •ntiutilitarismo leva a um novo entusiasmo, aliás mode-
"compromisso vitoriano" do qual se tornou vítima o "gran- do, pela cultura clássca, sobretudo das épocas da deca-
ncia grega e romana, e ao interesse por todos os assuntos

) «lumes Russel Lowell, 1819-1891.


28) Oliver Wendell Holmes, 1809-1894. A rabie for Critics (1848); The Biglow Papers (1848, 1861); Amonff
The Autocrat at the Breakfast Table (1831); Poems (1836, 1846, MW Books (1870/1875) etc.
1849). The Professor at the Breakfast Table (1860); Elsie Venner Htllçno (Riverside Edition), 11 vols., Boston, 1899.
(1861); The Poet at the Breakfast Table (1872). • onslet: James Russell Lowell, His Life and Work. 2.a ed. 2
Edição por J. J. Morse, 15 vols., Boston, 1896. IMI l»o;,tOn, 1905.
J. J. Morse: The Life and Letters of Oliver Wendell Holmens. 2 WÊL S. Bcudder: James Russel Cowell, a Biography. 2.a ed. 2 vols.
vols. Boston, 1896. H n t o n , 1006.
M. A. De Wolfe Howe: Holmes of the Breakfast Table. New York, i (1 lli-atty: James Russell Lowell, Na;;hville, 1942.
1939. iticl: Victorian Knight-Errant. London, 1952.
E. M. Tilton: Oliver Wendell Holmes. New York, 1947.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2161
OTTO M A R I A CAJOHUUX
2160
riflo é contrário ao espírito parnasiano, como eram Mill e
remotos no tempo ou no espaço, como o Oriente e as ci-
Darwin; Renan é, êle próprio, um idólatra da forma, um
vilizações primitivas; o resultado dessas excursões exóti-
poeta científico, um céptico para seu uso particular e um
cas é uma visão pessimista da História na qual tudo está
reacionário em matéria política. Renan é mesmo, embora
condenado a agonizar, enfim, e perecer; essa visão apóia-se
em prosa, o maior dos parnasianos franceses.
em argumentos científicos, tirados da filosofia positivista,
da qual se rejeita, porém, a ideia do progresso, a conse- O "Parnasse" ( 30 ) deve o nome ao editor parisiense
quência é uma visão apocalíptica do próprio tempo, amea- Alphonse Lemerre, que em 1866 publicou uma antologia de
çado pelas perturbações sociais; fortalece-se assim a ati- poetas novos, com a presença de alguns românticos ar-
tude reacionária em matéria política, bem compatível aliás rependidos: "Le Parnasse Contemporain". Em 1871 e 1876
com dúvidas religiosas que podem chegar até a negação for- publicaram-se continuações. E n t r e os colaboradores encon-
mal do cristianismo; essa filosofia céptica exprime-se com traram-se Gautier, Banville, Baudelaire, Leconte de Lisle,
preferência em forma dissimulada, como opinião de epi- Heredia, Sully Prudhomme, Verlaine, Coppée, Villiers de
cureus gregos ou persas ou sábios chineses, o que ajuda a L i s l e Adam, Catulle Mendes, Mallarmé. E n t r e os grandes
conservar a compostura de poetas honrosamente burgueses;; ornes do passado imediato faltava só um: Victor Hugo,
assim evitam-se as convulsões do subjetivismo romântico, xilado na ilha de Guernsey. A ausência de Hugo é signifi-
cultivando-se uma poesia calma e disciplinada, até de im- •tiva. O parnasianismo pode ser definido como hugonia-
passibilidade; o romantismo inicial de todos esses poetas, IHITIO desiludido pela experiência de 1848.

renegado depois, revela-se na preferência pelos assuntos Contudo, impõe-se prudência nas definições do parna-
exóticos, pitorescos, medievais, chegando-se até um carnaval anismo. A "escola" encontra-se, desde decénios, em des-
de fantasias poéticas, e doutro lado, no intimismo, que subs- dito absoluto e bem merecido. Os parnasianos realmen-
titui o subjetivismo romântico, mas não exclui acessos de lírandes, Baudelaire, Mallarmé, Verlaine, tornaram-se
patriotismo mais ou menos oficial. lindes poetas "à condition d'en sortir"; o resto é, quase
Essas definições, tiradas sobretudo da poesia de T e n - dos eles, dum prosaísmo insuportável. A indignação de
nyson, Fitzgerald e Longfellow, demonstram que a poesia titica francesa de 1890 e, depois, de crítica de outras na-
vitoriana não é um fenómeno isoladamente anglo-saxònico; "os, justifica-se em face dos tanto mais justa que legiões
constitui um pendant da poesia parnasiana na França. Com- I poetastros parnasianos, conquistando países e continen-
efeito, mutatis mutandis é Tennyson parnasiano, e Fitzge- inteiros para o culto do soneto com "chave de ouro",
rald também o é: In Memoriam e os Rubaiyat completarn- liando, em certa parte, o seu.domínio até o século
se; e com a devida consideração das diferenças nacionais, X. barrando o caminho à poesia autêntica. Uma reabili-
será possível a comparação com certas obras de Sully Pru- l o do parnasianismo seria difícil. A tarefa da história
dhomme e Leconte de Lisle. H á mais outras diferenças, féria, porém, não é de combater nem de defender, mas
evidentemente. A ausência do caní puritano na França e,
em compensação, a presença dos restos da Boémia românti-
ca permitiram a evolução do parnasianismo fantaisiste dos i mo: Parnasse et Symbolisme. Paris, 1925.
inlítu: Histofre du Parnasse. Paris, 1930.
Gautier e Banville, de que não existe analogia na Ingla- Mil: Les Parnassiens. Uesthétique de 1'école. Les oeuvres
terra. Antes de tudo, o pensador dominante, na França, |f« hommes. Paris, 1934.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2163
O r r o M A M A C A R P B A U X
2162 «ições sociais da época — indiferença que convém sobretu-
explicar. Êle não se pode satisfazer com a refutação dos do aos que sempre estavam fora da hierarquia social, os
conceitos meio absurdos — culto da forma "metálica" e antigos boémios do romantismo. Assim Gautier ( 3 1 ), que
estilo, com maiúscula, de impassabilidade — que constituí- ocultou o provocante colete rubro da "bataille d'Hemani",
ram o programa da escola; tanto menos que os próprios par- para rimar o manifesto do "1'art pour 1'art":
nasianos não obedeceram aos seus dogmas: o ' T a r t pour
1'art", que proclamaram, encerrou várias tendências religio- "Sans prendre garde à 1'ouragan
sas, filosóficas e políticas; e a impassibilidade é tão rara Qui fouettait mes vitres fermées,
entre os parnasianos como entre os poetas, bons e ruins, de Moi, j'ai fait Emaux et Camées."
todos os tempos. Com efeito, com tanta uniformidade o
parnasianismo nunca teria conquistado os poetas de dois Não será de todo impossível gostar de certas poesias de
continentes e de todas as raças. O fenómeno de difusão do Emaux et Camées. Gautier, renunciando ao barulho revo-
parnasianismo é bastante complexo. lucionário, ficou poeta menor, capaz de sugerir comoven-
O motivo fundamental é a retirada do romantismo pú- tes evocações românticas, como em Le Château du souvenir,
blico, hugoano, para uma existência privada: o parnasia- e esboçar despretensiosos quadros de geme, como Fumée.
nismo, poesia da época duma burguesia economicamente Mas o corpo do volume consiste numa vasta coleção de
satisfeita, politicamente derrotada e socialmente assustada, pedras preciosas ("Vers, marbre, onyx, e m a i l . . . " ) , e este
é o reverso da mentalidade utilitarista da época, em con- preciosismo, que ainda embalará os simbolistas, não é senão
sequência de um prosaísmo irremediável. A famosa "cul- n petrificação dos antigos sonhos pitorescos da boémia ro-
tura da forma" é como um hobby de gente desocupada, em- mântica, sonhos espanhóis sobretudo, embora tampouco fal-
bora preocupada, e não chega a tornar-se séria; só serve tem reminiscências da maneira do século X V I I I de abusar
para o enfeito de lugares-comuns triviais. A condição de da China e outros países orientais: como numa grande loja
sair dessa esterilidade de ourivesaria verbal é a renúncia a «le antiguidades ou de brinquedos. A mistura não era de
toda e qualquer possibilidade de lugar-comum, quer dizer, todo feliz; e pode-se achar que UEscurial de Gautier é,
ao pensamento "claro"; eis o passo, para além do parna- no mesmo tempo, um castelo na Boémia e uma chinoiseríe.
sianismo, que dará Mallarmé. A "clareza latina" não é a A curiosidade histórico-geográfica da alma vazia de Gau-
suprema qualidade da "escola", mas o seu estigma. A "tour tier era insaciável; em prosa conseguiu, aliás, fixar melhor
dúivoire" não se distingue muito da casa burguesa de 1860; a* impressões colhidas durante as viagens na Espanha,
torre e casa estão cheias de bricabraque e enfeitos inú- Itália, Turquia e Rússia. Era, conforme a sua definição
teis entre os quais o visitante não ousa sentar-se e o poeta Mmpre citada, "un homme pour qui le monde visible exis-
realiza as pirouettes de acrobata de rimas ricas. É uma ta." Até para os valores plásticos da Antiguidade clássica
forma de protesto contra o utilitarismo, ao qual se devem brlrom-se agora os velhos ao ex-romântico, adorando o
prestar as homenagens indispensáveis na vida civil. A su- inteão já quase à maneira de Renan.
prema dessas homenagens é o reacionarismo político, que
reina igualmente na casa e na t o r r e ; como conformismo dos
Sainte-Beuve e Mérimée, sem renúncia ao livre-pensamento
f. "Fim do Romantismo", nota 32.
voltairiano, e como indiferença fingida para com as tran-
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2165
2164 OTTO M A B I A CARPEAUX
dionisíaco. Precursor fora Maurice de Guérin ( 3 2 ), român-
A curiosidade histórico-geográfica dos parnasianos era
tico da primeira geração, atacado do mal du siècle ao qual
insaciável: alimentaram-na os estudos e descobertas da ar-
sucumbiu fisicamente o seu corpo; mas não o seu espírito.
queologia e filologia. Com espanto, os poetas ouviram da Estranhamente, foi a influência do romântico Lamennais
descoberta, por Mariette, do templo do Serápio em Mênfis, que lhe salvou a poesia, convertendo-o ao catolicismo lati-
com os 64 túmulos de sagrados touros Ápis: a escavação, no, abrindo-lhe as portas da beleza mediterrânea. E n t r e gra-
pelo mesmo Mariette, das cidades mortuárias em Sakkara ves escrúpulos religiosos, Guérin escreveu La Bacchante
e Abydos fortaleceu a associação poética entre povos mor- e Le Centaure, evocações impressionantes, quase keatsia-
tos e religiões mortas; e os templos grecizantes de Edfu e nas, do paganismo dionisíaco; esses maravilhosos poemas
Dendera lembraram o reino requintado e decadente dos em prosa, elaborados com arte de escultor verbal, são as
Ptolemeus, um dos assuntos prediletos da poesia parnasia- primeiras poesias parnasianas, superiores a todas as se-
na. Botta desenterrou em Mossul o palácio do Rei assírio guintes porque o parnasianismo é propriamente prosaico.
Depois veio a ciência. Thalès Bernard traduziu em 1846
Sargon; Layard, o palácio do Rei Senakherib em Ninive —
um exército de deuses e demónios fantásticos saiu das tum- 0 dicionário mitológico do alemão Jacobi, e Louis Ménard
deu a conhecer as ideias do inglês Max Mueller sobre o
bas para obsediar as imaginações. Os trabalhos de Renan
politeísmo primitivo dos gregos. É digno de nota que o
na Síria ampliaram esse pandemônio e colocaram o cristia-
juóprio Thalès Bernard era poeta parnasiano (Adorations,
nismo primitivo entre as religiões orientais que contribuí-
1856) ; e Ménard era mesmo um dos parnasianos importan-
ram à ruína da civilização greco-romana. A história intei- tes, chefe espiritual da "école paienne", anticristã, à qual
ra parecia u m vasto cemitério de povos, civilizações e deu- Leconte de Lisle aderiu.
ses; e como suprema sabedoria revelou-se a religião nihilis-
Os parnasianos, em geral, eram pagãos; não pagãos ale-
la dos antigos indianos, o budismo, do qual Eugène Burnouf
gres, faunos, mas pensativos, tristes, cépticos como o seu
deu notícias impressionantes.
mestre Renan. Gostaram de fantasiar-se de "gregos de
O espetáculo da natureza tropical, com as devastações Alexandria" ou "romanos da decadência", assim como estes
periódicas e a vegetação exuberante, sepultando as ruínas, •parecem nos quadros históricos de Couture. O positivismo
fortaleceu a mentalidade pessimista: os parnasianos eram forneceu aos "poetas científicos" uma filosofia rudimentar
viajantes infatigáveis, e alguns nasceram mesmo longe da < pouco consoladora da história, que, aplicada ao próprio
França; Leconte de Lisle e Dierx na ilha de La Réunion, «éculo XIX, sugeriu angústias apocalípticas. "Crépuscule
d«m dieux" é um dos motivos prediletos dos parnasianos,
Heredia em Cuba.
1 brincando com o satanismo como crianças assustadas. É
As nuvens das mitologias esquecidas e ressuscitadas
escureceram o céu clássico da Grécia. Atenas ainda não 1
'ii Ire rio Guérin, 1810 — 1839.
morrera para sempre; mas foi preciso passar por caminhos t a Bacchante, Le Centaure (escr. 1836, pupl. 1840.)
i;fto por H. Clouard, 2 vols., Paris, 1930.
tortuosos até os antigos românticos redescobrirem a har- li, Byromaki: Maurice de Guérin. Paris, 1921.
monia das colunas e Renan entoar a Prière sur VAcrópole. , 1 dTlarcourt: Maurice de Guérin et le poème en prose. Paris,
Foi preciso revelar o lado noturno da Grécia, o paganismo BI
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2167
OTTO M A R I A CARPEAUX
2166
dores da causerie espirituosa e de um estilo claro, pitores-
evidente o motivo social dessas preocupações pseudo-reli- co e elegante. J á desapareceu também o medo pânico que
giosas; mas eis a porta pela qual sairá do parnasianismo u m os ortodoxos e tradicionalistas sentiram em face de Renan;
Baudelaire. Nos outros, a angústia só chega, como em Ten- e desde então gostam de admirar, eles também, o estilista
nyson e Turgeniev, para sugerir o sentimento pessimista
incomparável. Renan é menos um pensamento do que um
da própria inutilidade, da inutilidade de todos os esforços
estilo.
de um epigonismo irremediável: "Nous vivons d'une ombre r
Admite-se a influência nefasta do cepticismo renania-
monsieur, du parfum d'un vase vide". A frase é de Renan.
no sobre duas gerações da mocidade francesa; o seu dile-
Renan ( 33 ) é das figuras mais discutidas da história do
tantismo científico continuou a fornecer argumentos e
espírito europeu. O ex-seminarista de Saint-Sulpice, depois
citações aos oradores de festas cívico-laicistas e reuniões
pontífice do livre-pensamento, é admirado por alguns como
maçónicas, e o seu egoísmo céptico — "La France se m e u r t ;
um Lúcifer, portador da Luz nas trevas do obscurantismo;
ne troublez pas son agonie!" — desempenhou a função de
e amaldiçoado por outros, como um Lúcifer, anjo negro,
revoltado contra Deus. Não basta, porém, considerá-lo as- fermento invisível da corrupção moral que arruinou a Ter-
sim como fenómeno contraditório, porque o pensamento ceira República, que foi laicista, renaniana: a laicização da
de Renan escapa às definições do partidarismo. É um Pro- escola, a expulsa das congregações, a separação entre Esta-
teo, revelando-se às vezes como libertador idealista, às ve- do e Igreja em 1905, eis as obras póstumas de Renan; e não
zes como apóstata demoníaco, às vezes como céptico egoísta existe ilustração mais eloquente disso do que a conhecida
e reacionário; e o fato mais estranho é a limitação da sua fotografia de 1904, mostrando a Guarda Republicana arma-
influência. Foi proclamado o maior representante do livre- da de fuzis, defendendo o monumento recém-inaugurado de
pensamento; mas nos anais da historiografia crítica o seu Renan em Tréguier contra a massa fanatizada dos seus con-
nome só aparece como o de um estudioso das línguas se- crrâneos, os camponeses católicos da Bretanha. Renan
míticas; e os seus discípulos encontram-se menos entre os icreceu o enterro triunfal no Panteão. Mas foram os re-
historiadores e sociólogos da religião do que entre os ama- unianos de 1895 e 1900 que defenderam a verdade e a justi-
(i contra as mentiras e violências dos anti-dreyfusistas; e o
cume da decadência moral, a traição de 1940, não era obra
33) Ernest Renan, 1823 — 1892. os renanianos, e sim dos anti-renanianos, derrubando a Re-
Histoire générale et système compare des langues sémitiques
(1855); ttudes d'histoire religieuse (1857); Vie de Jesus (1863); ública e estabelecendo um fascismo francês inspirado
Les Apôtres (1866); Saínt Paul (1869); La reforme intellectuelie •te nas ideias reacionárias da Reforme intellectuelie et
et morale (1871); UAntlchrist (1873); Callban (1878); Veau de
Jouvence (1880); Marc-Aurèle et la jin du monde antique (1881); orale, do mesmo Renan. É um P r o t e o ; a sua vida de bre-
Souvenirs d'enfance et de jeunesse (1883); Le prètre de Nemi 0 devoto, seminarista de Saint-Sulpice, fugitivo, apóstata,
(1885); Vabbesse de Jouarre (1886); Histoire du peuple d'Israel
(1887/1893); VAvenir de la Science (1890). •Alista da ciência revolucionária, erudito, céptico, "bispo
Edição crítica da Prière sur VAcrópole por E. Vinaver e T. B. L. Anli-Igreja", eterno défroque que fêz da sua vida e obra
Webster, Manchester, 1935. M n "la sépulture brillante de ma foi perdue" — eis
G. Séaílles; Renan, essai de biographie psycologíque. Paris, 1895.
H. Parigot: Renan, Végoisme intellectuel. Paris, 1909. iclivo ótimo de pesquisas psicológico-literárias à
J. Pommier: Ernest Renan, essai de biographie intellectuelie. Pa- H f e do Sainte-Beuve, que explicarão t u d o ; menos a
ris, 1923. ^ t r a n ç a duradoura de P r o t e o : o seu estilo.
P. Lasserre: La jeunesse de Renan. 3 vols. Paris, 1925/1932.
M. Weiler: La pensée de Renan. Grenoble, 1945.
Shil van Tilghem: Renan. Paris, 1948.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2169
2168 OTTO M A B I A CARPEATJX

idealista continuamente desiludido; repetindo as crises re-


O próprio estilo de Renan escapa às definições: é cla-
ligiosas e políticas de Sainte-Beuve, tornou-se, como este
ro no sentido especificamente francês da palavra ("ce qui
depois de 1848, conformista e racionado, fiel até depois
n'est pas clair, n'est pas français") ; é pitoresco como a poe-
de 1870 à ditadura e à família de Napoleão I I I . Pertence,
sia daquele "pour qui le monde visible existe"; é evocativo
como Sainte-Beuve e Mériméa, ao grupo dos românticos de-
como a realização clássica do grito romântico: "O Temps,
cepcionados que prepararam o parnasianismo, sem renegar
suspends ton vol!" Três adjetivos contraditórios, relativos
de todo a herança romântica. Esta se revela sobretudo, e de
a três estilos renanianos. O primeiro estilo de Ranan, o cla-
maneira desagradável, na antigamente famosa Vie de Jesus,
ro, o voltairiano, é o de um "enciclopedista", de um liber-
à qual um crítico severo e justo chamou de "procissão de
tador à maneira do século X V I I I , de idealismo incontestá-
sentimentais santos de gesso, saídos duma loja de artigos de
vel e erudição de segunda mão. A Vie de Jesus baseia-se,
devoção da Place Saint-Sulpice". Mas a obra histórica de
toda ela, nos estudos de David Friedrich Strauss e outros
Renan não se limita às obras de divulgação em estilo paté-
protestantes alemães, sem contribuir à exegese crítica ne-
tico-irônico. A Histoire générale et système compare des
nhum fato ou ideia nova; asism co^mo a Histoire du peuple
langues sémitiques é um monumento de ciência autêntica,
d'Israel é toda tirada dos estudos de Wellhausen. Mas se
positiva, digamos positivista. O positivismo de Renan não
a obra exegética de Renan tem pouco mérito na evolução do
tem nada com Comte; é antes o dos grandes matemáticos
livre-pensamento, prestou serviço imenso aos ortodoxos,
e físicos do seu tempo, complemento racional, em prosa,
despertando-os do comodismo da apologética tradicional,
da poesia positivista dos parnasianos, largamente inspira-
criando indiretamente o movimento científico no catolicis-
dos no paganismo grecisizante e no pessimismo histórico
mo francês e italiano. Mas tampouco deixou de advertir
de Renan. Assim como os parnasianos, Renan viveu "d'une
os livres-pensadores quanto às consequências da renascença
ombre", da do "catholicisme qui n'a qu'un défaut, c'est que
da ortodoxia: " C e s t M. Homais qui a raison. Sans M.
ce n'est pas vrai" Além disso, quase tudo lhe parecia bom
Homais, nous serions tous brulés vifs".
no catolicismo, tudo muito bonito, poético, pitoresco; e
O outro estilo de Renan, o do céptico é post-romântico,
com o poder de refrear as massas incultas e bárbaras. Re-
pitoresco, evocativo, o das grandes visões históricas: os
nan viveu "d'une ombre"; mas disso viveu bem, como epicu-
nómades semíticos conquistando a Cananeia; os profetas-
reu, gozando das alegrias do lar, dos bons livros e dos
demagogos, revoltados contra o despotismo e a decadência
"crimes et malheurs de 1'histoire". Renan pertenceu cons-
moral das elites da J u d e i a ; Jesus com os discípulos, pas-
cientemente à elite. No fundo, a sua oposição ao cristia-
seando no vale primaveril da Galileia; São Paulo, pregan-
nismo dos camponeses fanatizados de Tréguier, que lhe as-
do entre as orgias do naturalismo sexual dos romanos de-
saltarão o monumento, reduz-se à dúvida com respeito à
generados; Marco Aurélio, ditando o testamento da civili-
igualdade dos filhos de D e u s : não viu "razão por que a
zação grega. No fundo desses panoramas entrevê-se sem-
alma de um papua devia ser imortal". Caliban era o seu
pre a testemunha de todos os séculos, a Igreja, da qual o
pesadelo. Ao monstro dedicou o mais espirituoso dos seus
défroque saíra; Renan nunca deixou de ser clérigo, seja
brilhantes "dramas filosóficos" — "pièce de résistance" da
do catolicismo romano, seja das esperanças meio científi-
sua obra inteira, e a explicação teórica de Caliban, deu-a
cas, meio utópicas, do romantismo; e acabou como bispo,
na Réíorme intellectuelle et morale, manual da política rea-
em paisano, do laicismo da Terceira República. Foi um
2170 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2171

cionária, que inspirará um Barres e um Maurras. A Maur- "Post Laureate" da Terceira República e recebendo o pri-
ras, Renan fornecerá a comparação entre a beleza perfeita meiro Prémio Nobel de L i t e r a t u r a : eis um "test" do pés-
da Partenon (Prière que je fis sur 1'Acrópole quand je ius simo gosto literário da época.
arrivé à en comprendre la paríaite beauté) e a harmonia O mais desagradável em Sully Prudhomme decorre do
perfeita do Estado hierarquizado. O grecismo de Renan seu pós-romantismo de pequeno burguês. Nos grandes bur-
está no meio entre o seminário dos padres de Saint-Suplice gueses — menos pela condição do que pelo gosto — do par-
e a dos monarquistas da redação da "Action f rançaise". Com nasianismo sobreviveu mais de Hugo do que de Musset,
as pedras do Partenon, Renan reconstruiu a "cathédrale chegando-se a uma espécie de neoclassicismo burguês, do
desaffectée" da sua fé perdida na qual rezaram os discípu- qual o representante é Leconte de Lisle ( a B ) ; sucessor de
los do seu positivismo. Não é possível dizer se ele mesmo Hugo na Academia, tradutor de Homero, Hesíodo, Teócrito
concordaria com as consequências; não gostou delas nun- e dos trágicos gregos, o maior poeta do "Parnasse". Le-
ca. "Pour penser librement il faut être sur que ce qu'on conte de Lisle nasceu nos trópicos; parecia destinado a con-
publie ne tirera pas à conséquence". Considerava como o ferir à poesia hugoniana o "nouveau f risson" de paisagens
privilégio mais precioso da elite intelectual a irresponsa- desconhecidas, de u m "condoreirismo" africano. A desilu-
bilidade. Com efeito, a sua historiografia é irresponsável, são de 1848 matou o romântico em Leconte de Lisle. O bur-
da mesma maneira como a criação poética é irresponsável guês erudito fugiu para a Antiguidade clássica, as civili-
ao lado da ciência positiva. Renan realizou em prosa o zações orientais, a natureza primitiva. E m vez de sensa-
sonho dos poetas parnasianos: a poesia científica. E assim ções novas deu imagens perfeitas de coisas acabadas, uma
como a poesia dos parnasianos, poesia dum cepticismo pri- poesia de "peças de museu", conservadas com o zelo de
vado, a do Renan foi admiradíssima, sem "tirer à consé- um inimigo fanático dos deuses mortos. Com efeito, cha-
quence". As obras principais de Renan continuam e conti- mou-se a Leconte de Lisle "conservador de um museu de
nuarão como obras-primas de estilo, independente do con- história da religião" e "diretor de gabinete de antiguidade";
teúdo. "Emaux et camées". e a sua poesia científica tem a precisão das descrições num
A grandeza literária de Renan, poeta científico e es- catálogo de museu. Midi, Les éléphants, La Bernica, Som-
tilista evocativo, patenteia-se pela comparação com o par- meil du Condor, Illusion suprême e muitas outras poesias
nasiano que pretendeu poetizar a ciência positiva: Sully dos Poèmes antiques e Poèmes barbares destacam-se pela
Prudhomme (S4)> ao qual chamaram "Lucrécio moderno",
e que versificou e rimou incansavelmente os progressos da
ciência os preceitos morais da escola laica, e as tristezas sen- 35) Charles Leconte de Lisle, 1818-1894.
timentais de um burguês envelhecido. Sully Prudhomme, Poèmes antiques (1852); Poèmes barbares (1862); Poèmes tra-
giques (1884); Derniers poèmes (1895). — Traduções: Teócrito
(1861); Homero (1866/1867); Hesiodo (1869); Esquilo (1872); Ho-
rácio (1873); Sofocles (1877); Euripides (1885).
Edição das poesias por J. Madeleine e E. Vallée, 4 vols., Paris,
34) René François Armand Sully Prudhomme, 1839-1907. 1926/1928.
Les solitudes (1869); Les Destins (1872); Les mines tendresses J. Dornis: Essai sur Leconte de Lisle. Paris, 1909.
(1876); La Justice (1B78); Le Prisme (1886); Le Bonheur (1888). E. Esteve: Leconte de Lisle, 1'homme et 1'oeuvre. Paris, 1923
E. Esteve: Sully Prudhomme, poete sentimental et poete philo- J. Vianey: Les "Poèmes barbares" de Lecont de Lisle, Paris. 1933.
sophe. Paris, 1925. A. Fairlie: Leconte de Lislés Poems on the Barbarian Races. New
P. Flottes: Sully Prudhomme. Paris, 1930. York, 1947.
OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÔRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2173
2172
construção absolutamente magistral do verso e das estro- perficie — continuando-se as tendências descritivas e in-
fes. É poesia retórica, sem alma nem música; mas é preciso timistas da poesia de Hugo e o pessimismo de Vigny. Le-
admitir que os simbolistas detestavam igualmente, na poe- conte de Lisle é um Hugo moderado, aburguesado e assom-
sia de Leconte de Lisle, a precisão do metro e a precisão brado. E m geral, o valor relativo da poesia parnasiana está
do pensamento. Leconte de Lisle é daqueles poetas parna- determinado pela porção de romantismo que conserva. Por
sianos aos quais o inimigo mais feroz da escola não pode isso, sobreviveram melhor aqueles parnasianos que, vindo
chamar de imbecis. O seu pessimismo é coisa mais séria do da boémia romântica como Gautier, ficavam fiéis à irrespon-
que o seu conceito de poesia; e não pode zombar dos Poè- sabilidade dos "Jeune-France". Assim Banville ( 1 0 ), o
mes antiques, de Leconte de Lisle, quem admira a Tentation mais famoso dos acrobatas da rima, poeta cheio de música
de Saint Antoine, de Flaubert, epopeia leconte-de-lisliana verbal, mas inteiramente vazio; funesta tornou-se a sua
em prosa. Só a forma do poeta é neoclassicista. A ideia tentativa de codificar, no Traité de versification française,
de que » as normas do "Parnasse" e impô-las como leis eternas da
"La nature se rit des souffrances humaines" revela a poesia francesa. Um Banville "sem lei nem rei' foi Riche-
influência de Vigny e Leopardi, classicistas de colorido ro- pin ( 3 7 ) ; Banville dos subúrbios, o parnasiona-vagabundo,
mântico como o próprio Leconte de Lisle. Classicismo mé- satanista pouco perigoso — mas eis a porta pela qual Ver-
trico, contemplação romântica e pessimismo positivista es- laine saiu do "Parnasse", assim como Mallarmé saiu pelo
tão em harmonia, em versos como estes da Ulusion suprême: culto da forma e Baudelaire pela angústia apocalíptica do
pessimismo científico.
"Soit! La poussiére humaine, en proie au temps O parnasianismo intimista é representado por Cop-
[rapide, pée ( 3 8 ), descrevendo em versos "impecáveis" a vida dos
Ses voluptés, ses pleurs, ses combats, ses remords, pequenos-burgueses parisienses; às cenas proletárias, como
Les dieux qu'elle a conçus et 1'univers strepide na famosa Greve des forgerons, não deixou de dar desfe-
Ne valent pas la paix impassible des morts." cho reconciliatório. Como poeta dos pequenos sentimentos

Só na morte da sua própria poesia conseguiu Leconte de


Lisle a impassibilidade, seu ideal poético. J á não podemos 36) Théodore de Banville, 1823-1891.
admirar incondicionalmente essa poesia de bricabraque exó- Les Cariatides (1842); Les stalactites (1846); Odes funambules-
ques (1857); Sonnailles et clochettes (1890) etc.; Petit traité de
tico e antiguidades falsifacadas, gosto de 1880. Leconte de versification française (1872).
M. Fuchs: Théodore de Banville. Paris, 1912.
Lisle é um pessimista didático, um Hesiodo moderno, pro- J . Charpentier: Théodore de Banville, Vhomem et 1'oeuvre. Pa-
saico e cinzento como o grego; mas assim como este, será ris, 1925.
sempre respeitado. 37) Jean Richepin, 1849-1926.
La Chanson des gueux (1876); Les Blasphèmes (1884) etc.
A impassibilidade da poesia parnasiana não passa de R. Miles: Les poetes français contemporains: Jean Richepin. Pa-
uma lenda; perturbou-a o germe romântico em toda a poesia ris, 1887.
do século X I X , sem produzir, aliás, angústias profundas. 38) François Coppée, "1842-1908.
Les poèmes modernes (1869); Êlégies (1876); Les paroles sincères
Paul Martino acentuou a filiação do parnasianismo ao ro- 1890); Dans la prière et dans la lutte (1901).
mantismo — é preciso acrescentar: u m romantismo de su- L. Le Meur: La vie et 1'oeuvre de François Coppée. Paris, 1932.
OTTO M A R I A GARPEAUX HISTÓFIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2175
2174

sentimentais do lar francês, Coppée é verdadeiro "poeta na- natural da Cuba — "Sous les palmiers, au long f rémissement
cional" em tom menor, apesar das ridicularidades da "for- des palmes" — o único em que o culto da forma elaborada
ma escultural". Mas não era menos "nacional" em tom parecia capaz de transfigurar completamente os assuntos
maior, como nacionalista, antissemita, antidreyfusista, mo- histórico-geográficos. "Parecia", porque o valor definitivo
narquista. Mas as possibilidades todas de eloquência na- dos seus sonetos tão admirados já não está tão certo. He-
cional no "culto da forma" e da rima rica só se revelaram redia era um homem de salão de 1880, móveis de peluche,
em Rostand (3S>), em que o "Parnasse" produziu u m pouco quadros históricos na parede, iluminação a gás. Os seus so-
tarde, seu dramaturgo: rimador engenhoso como Banville, netos são mesmo pequenos quadros históricos, infelizmen-
versificador prosaico como Leconte de Lisle, dramaturgo te iluminados a gás, quer dizer do ponto de vista de um
habilíssimo como Sardou. No fundo, esse Sardou do "Par- burguês culto, rico, melancólico, rei do lugar-comum. O
nasse" ressuscitou o teatro romântico de Hugo, com maior seu verso, que parecia bronze, parece-se antes com peluche,
sucesso popular, mas sem o lirismo do grande "vate". tão frouxo é na verdade; e as famosas "chaves de ouro" —
Quem fala de belezas líricas em Chantecler, revela surdez "Du fond de l'Océan des étoiles nouvelles"; "Un frisson
poética e desconhecimento da poesia francesa moderna. dór, de maere et d'émeraude"; La Mer qui se lamente en
Cyrano de Bergerac será, por muito tempo ainda, uma peça pleurant les Sirenes" — u m crítico malicioso comparou-as
indispensável do repertório francês; mas a indiferença aos aforismos, cuidadosamente preparados e decorados antes
absoluta do dramaturgo com respeito à realidade das coisas da party, com os quais W i l d e deslumbrou a gente da mesma
revela bem o espírito parnasiano; dos outros parnasianos, sociedade e época. Mas os exageros de então e a imbecili-
Rostand difere apenas pela qualidade inferior do seu verso. dade das imitações não devem influir na apreciação justa.
Será melhor aguardar outra oportunidade do que o sucesso O talento de Heredia era limitado e só receptivo, como a
de Rostand para falar no problema do drama poético. sensibilidade artística de u m connoisseur e colecionador.
Alguns dos objetos que Heredia colecionou, são realmente
O parnasianismo pitoresco, cuja árvore genealógica tem belos, como Médaille antique, cujo verso final — "L'immor-
as raízes nas Orientales de Hugo, revela os seus diversos telle beauté des vierges de Sicile" — ainda fica na memória.
aspectos em Gautier, Renan, Leconte de Lisle. T e m mais O defeito fatal é sempre o mesmo e o de todo o parnasianis-
um representante exímio em José-María de Heredia ( 4 0 ), mo pitoresco: o historismo falso, a ocupação com um pas-
sado ao qual nada ligava os poetas.

39) Edmond Rostand, 1868-191B. O historismo parnasiano é um traço característico da


La princesse loíntaine (1895); Cyrano ãe Bergerac (1897); UAíglon literatura burguesa da segunda metade do século X I X . Não
(1900); Chantecler (1010).
J . Haraszti: Edmond Rostand. Paris, 1913. está diretamente ligado ao historismo herderiano dos ro-
A. Lautier e F . Keller: Edmond Rostand. Paris, 1924. mânticos; é uma intepretação positivista desse historismo,
J. W. Orieve: L'oeuvre dramatique ã'Edmond Rostand. Paris,
1933. considerando todas as civilizações e épocas como fases pre-
40) José-Maria de Heredia, 1842-1905. paratórias do próprio século X I X e da sua civilização, con-
Les Trophées (1893). siderada perfeita.: a atitude decorrente é a desvalorização
Edição Lemerre, Paris, 1924. I
B. Langevin: José-Maria de Heredia. Paris, 1907. do passado como mero gabinete de curiosidades pitorescas,
M. Ibrovac: José-Maria de Heredia. Sa vie, son oeuvre. 2 vols. ou então o pressentimento angustioso de que a pretensa per-
Paris, 1923.
2176 OTTO M A M A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2177

feição poderia significar o fim próximo. Daí a falsidade, a Este reacionarismo político do "Félibrige" é mais um indí-
pouca sinceridade do pessimismo histórico dos parnasianos. cio do caráter parnasiano do movimento. Tratava-se de
Em certa parte, porém, esse historismo pôde desempenhar uma "reforme intellectuelle e morale", no sentido renania-
a função de um vigoroso fermento poético. O historismo no, da França meridional; e o equilíbrio entre elementos ro-
herderiano, de origens germânico-eslavas, não podia in- mânticos e clássicos é o que os parnasianos ambicionavam,
fluenciar aquelas regiões de fala neolatina qu enão possuíam sem capacidade de realizá-lo. Na Provença e Catalunha, a
personalidade nacional independente. Herder, os irmãos história, por mais pitoresca que fosse, não era uma coleção
Schlgel, Sismondi, Southey consideravam a literatura pro- de peças de museu, e sim uma tradição nacional, embora
vençal como fenómeno histórico, sem pensar na possibili- sem corpo político.
dade da sua ressurreição; e os casos da Catalunha e da Ru-
O "Félibrige" ( 4 1 ), espécie de sociedade poética ou
mânia deixaram ainda menos esperanças. Na verdade, o
Academia particular, foi fundado em 1854, quando estavam
renascimento político e literário dessas pequenas "nações la-
reunidos, no castelo de Font-Ségugne, perto de Avignon,
tinas só se podia realizar através da revivificação da tra-
Mistral, Roumanille, Aubanel, Anselme Mathieu e três ou-
dição latina mediterrânea; através daquele classicismo con-
tros poetas. Mistral ( 42 ) é, sem possibilidade de compara-
tra o qual o pré-romantismo herderiano se revoltara. P o r
ção, o maoir entre eles; o único poeta da Renascença neo-
isso, "Félibrige" e "Renaixensa" vieram só decénios mais
latina, digno de estar na companhia dos grandes da literatu-
tarde, depois de 1850, quando a força do romantismo e a sua
ra universal. A língua não constitui dificuldade séria para
resistência anti-classicista já estavam quebradas. O cará-
quem conhece outros idiomas neo-latinos. O acesso será
ter estilístico do "Félibrige" ainda está sujeito à discussão.
mais fácil, ao leitor moderno, através do maravilhoso Lou
Os começos do movimento estavam ligados ao nome de
pouèmo dou Rose, dedicado ao grande rio da Provença, o
Lamartine, admirador entusiasmado de Mistral; e a "neo-
Ródano:
latinidade" inteira é romântica no sentido em que Friedrich
Schlegel chamou "românticas" a todas as literaturas me-
ridionais, as "literaturas du Midi" de Sismondi. Os "féli-
41) L. Grazíani: La poesia moderna in Provenza. Bari, 1920.
bres", porém, sentiam-se classicistas; e não sem boas ra- E. Rlpert: Le Félibrige. Paris, 1924.
zões. Cultivaram o verso cuidadosamente elaborado; supri- A. V. Roche: Provençal Regionalism. Evanston, ali., 1965.
miram o subjetivismo em favor de normas estéticas gerais; 42) Frédéric Mistral, 1830-1914.
Mírèio (1859); Calenãau (1867); Lis Isclo d'Or (1875); Nerto
e não deixaram passar oportunidade alguma de se lembra- (1884); La reino Jano (1890); Lou pouèmo dou Rose (1897); Lou
rem das origens greco-latinas da civilização mediterrânea. Trésor dou Félibrige (1878/1886).
Veneravam Virgílio como mestre. Não incluíram, porém, Edições: Mirèio, 52.a ed., Paris Charpentier, 1920.
H. Schoen: Frédéric Mistral et la littérature provençale. Paris,
entre as suas admirações o classicista Carducci, pagão e 1910.
republicano. Os "félibres" eram católicos e monarquistas; J. Vincent: Frédéric Mistral. Paris, 1918.
P. Lasserre: Frédéric Mistral, poete, moraliste, citoyen. Paris,
e o seu classicismo encontrará, meio século mais tarde, os 1918.
defensores mais fervorosos em Maurras e Léon Daudet. A. Thibaudet: Mistral ou la Republique du soleil. Paris, 1930.
L. Larguier: Mistral. Paris, 1930.
R. Lafont: Mistral ou 1'illusion. Paris, 1954.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2179
OTTO M A R I A CARPEAUX
2178
berdades provinciais; da "Província" que deu o nome a to-
"Amo de-longo renadivo, das as unidades administrativas do mundo. Ou então, Mis-
amo jouiouso e fièro e vivo, tral teria sido o "doctor latinitatis", o poeta e mestre duma
que' endihes dins lou brut dóu Rose e dóo Rousaul latinidade futura, federação composta da "italianià", da
amo de sènvo armoniouso "hispanidad" e criações semelhantes, nascidas do espírito
e di calanco souleiouso, da Action Française e prontas a esmagar a França. Está
t'apelle! encarno-te dins mi vers prouvençau!" fora de dúvidas o humanismo de Mistral, autor erudito do
E i s o "leitmotiv" de todas as obras de Mistral: de Calen- Trésor dou Félibiige, humanismo baseado no conservantis-
dau que é o seu poema narrativo mais perfeito; de Nerto; mo monárquico-católico. Isso não tem nada ou pouco com
de Lis Isclo d'Or, cujo título é um programa, lembrando o a sua poesia. Mas é verdade que reside nesses elementos
sonho de Mistral, a "Republique du Soleil" das civilizações acessórios o motivo do seu papel histórico de um parnasia-
neolatinas, mediterrâneas. Mistral é um grande artista; a no, superior aos parnasianos pela tradição viva que encar-
sua arte narrativa lembra, de longe, a Lrongfellow, ao qual nava; mas também o motivo da relativa esterilidade dos
é, no entanto, muito superior. Também lembra*" os Lake seus esforços extraliterários. A literatura neoprovençal,
Poets. Mas Mistral não moraliza; e apesar do entusiasmo que com Mistral começara, também quase acabou com ele.
romântico de todas as suas iniciativas, o seu ' T a r t pour Morreram muito antes de Mistral os melhores dos seus
1'art" é clássico e nacional ao mesmo tempo. O poema épico camaradas no "Félibrige": Roumanille ( 4 a ), que era um
Miréio, a obra capital, é, entre os poemas do século XIX, fino elegíaco e idilista, e Aubanel ( 4 4 ), um dos grandes poe-
só comparável ao Pan Tadeusz de Mickiewicz; mas quanto tas eróticos do século. Ficaram os "félibres", não desprezí-
menos romântico e mais grego! Os admiradores de Mistral veis, das províncias vizinhas, Arsène Vermenouze na Au-
exageraram muito, por motivos compreensíveis de orgulho vergne, Miqueu Camelat na Gascogne, Joseph Pons no
regional. Mas o valor de sua poesia é incontestável. Roussillon. Na própria Provença, Prosper Estieu e Anto-
Mistral contaminou com o seu entusiasmo todos os nin Perbosc aproximaram-se do neoclassicismo artificial;
críticos. É preciso eliminar aqueles exageros que serviram Valéry Bernard, do realismo. Hoje, Albert Pestour e Paul
para interpretações intencionalmente equívocas. A compa- Eyssavel não passam de poetas provincianos.
ração com Homero não é séria; a com Hesíodo não é muito Na ocasião do sexto centenário da morte de Petrarca
lisongeira nem justa; e o apelido de "Teócrito provençal" reuniram-se em Avignon, em torno de Mistral, represen-
só lembra a espontaneidade maior do poeta moderno e arte tantes de várias nações latinas; e nos " J e u x Floraux" em
superior do poeta grego. Mistral não é um grego. Mas
tampouco é um latino em sentido antigo, um Virgílio da
Provença. Não há restrição alguma na observação de que 43) Joseph Roumanille, 1818 — 1819.
Mistral é u m poeta regionalista; esse fato não diminui a Li margarideto (847); Li sounjarello (1851); La campano munta-
do (1857) etc.
sua grandeza. Todas as tentativas, empreendidas por ele N. Welter: Joseph Rouvianille. Diekirch, 1899.
mesmo, pelos seus discípulos, admiradores e aproveitado- 44) Théodore Aubanel, 1829 — 1886.
res, de estender artificialmente o "campo de açao" da sua La maíougrano entre-duberto (1860); Li filho d'Avignon (1886).
J. Vincent: Théodore Aubanel. La vie et 1'homme, le poete. Pa-
poesia, só prejudicaram a apreciação serena. Mistral teria ris, 1924.
encarnado o espírito da Provença medieval, com as suas li- A. H. Chastain: Théodore Aubanel. Paris, 1929.
2180 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2181

Montpellier, em 1875, ouviram-se proclamações sobre a ierente nas suas canções místicas de um espírito inquieto,
"República do Sol" e a "Raça Latina". O "campo de ação" sacerdote em luta permanente com as autoridades eclesiás-
de Mirei o: tradução francesa, pelo próprio Mistral, em 1883; ticas. Contudo, não é possível compará-lo, como já foi fei-
castelhana, por Celestino Verdaguer; italiana, por Mário to, ao grande poeta-sacerdote flamengo Gezelle, nem a Mis-
Clini; rumena, por Bonifácio Hebrat. H á duas traduções tral. E m compensação, a nova literatura catalã não acabou
em língua catalã, por Francisca Bartrina d'Ayxemís e por com Verdaguer; ao contrário, hoje, já empalecida a sua
Francisco Briz, ambas publicadas já em 1861. A "Renaixen- £ama, êle nos parece no papel glorioso do precursor de um
sa" catalã precedeu algo ao "Félibrige", e, oprimidos e Maragall, Carner, Sagarra e Lopez Pico. E a mesma sorte
ameaçados pelo poder da Castelha, os catalães saudaram coube a outro visitante da festa de Montpellier, ao rumeno
Alecsandri (•"), criador da língua poética na qual Eminescu
com entusiasmo o aliado de além da fronteira.
e Arghesi se exprimirão. Contudo, por volta de 1900, o
A "Renaixensa" ( 4B ) foi obra de alguns diletantes poé-
movimento da latinidade poética parecia terminada. Ha-
ticos, melhor intencionados do que dotados: Joaquín Ru-
via, mais tarde, alguns simpatizantes: o francês Gasquet,
bió y Ors, e Victor Balaguer, polígrafo, autor do Trovador
o português Eugênio de Castro, enfim D'Annunzio em que
âe Montserrat (1857). A eles aliou-se o grande filólogo
os motivos políticos já prevalecem, assim como na figura
Manuel Milá y Fontanals para instituírem em 1859 uma
isolada do espanhol Basterra ( 1 S ), poeta da unidade do mun-
festa periódica de poesia catalã em Barcelona, os "Jocs
do latino, postumamente promovido a "Poet Laureate" da
Florais". Nesse ambiente surgiu o mais famoso, mas não
Falange espanhola.
o maior poeta da nova literatura catalã, Verdaguer ( 4 0 ), au-
tor da grande epopeia geológico-mitológico-pré-histórica Aos parnasianos, em geral, mesmo quando residiam em
La Atlântida; de um outro poema épico, Canigó, e de nume- países tropicais, não foi tão propício o sol como aos medi-
rosas baladas históricas — parece parnasiano típico. Mas terrâneos. Continuaram a poesia exótico-descritiva, só com-
nem sempre foi assim. Os poemas narrativos só têm valor parável, na mesma época, ao carnaval de estilos da arqui-
documentário na história da Renaixensa. Verdaguer é di- tetura, enchendo-se os novos boulevards de Paris e Viena
com igrejas e paços municipais neogóticos, Universidades
neo-renascentistas, teatros neobarrocos, Parlamentos e Bol-
45) A. Rubió y Lluch: Lo Gayter dei Llobregat. Barcelona, 1902. sas com colunas dóricas. Sinal do gosto evasionista da bur-
I. Amade: Origines et premières manifestations de la renaissance guesia, comparando a sua própria época com as maiores do
littéraire en Catalogue. Paris, 1924.
passado. Os poetas parnasianos cultivaram o mesmo gosto,
46) Jacint Verdaguer, 1845 — 1902.
La Atlântida (1877); Idillis i cants mistics (1879); Cansons de mas com poucos motivos de satisfação e orgulho; nessa
Montserrat (1880); Caritat (1885); Canigó (1886) etc. é-poca da prosa, a poesia não podia deixar de ser tristemen-
Edição completa por A. Matheu y Fornells, 30 vols., Barcelona, te pessimista, o que explica, aliás, a sobrevivência da me-
1914/1919.
M. de Montoliú: Mossèn Jacint Verdaguer. (in: Estudis de litera- lancolia romântica em muitos parnasianos.
tura catalana, Barcelona, 1912).
R. D. Peres: Verdaguer y la evolución poética catalana. Barce-
lona, 1913.
R. F. Gttell: Verdaguer y su obra. San José da aCosta Rica, 1915. 47) Cf. "Romantismo de evasão", nota 105.
V. Serra i Boldu: Mossèn Jacint Verdaguer. 2. ed. Barcelona,
1932. 48) Cf. "O Equilíbrio europeu", nota 164.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2183
2182 OTTO M A M A CARPEAUX

O estudo dos parnasianos franceses menores (*•) per- tar virilmente um mundo sem Deus nem sentido; era mais
mite estabelecer algumas distinções. Glatigny ( 5 0 ), que foi profunda do que Sully Prudhomme — não difícil isso, aliás
considerado por alguns como o poeta mais genial da escola, — mas não obteve o mesmo sucesso porque evitou o senti-
apresenta o fervor romântico dentro da forma elaborada. mentalismo, escrevendo em versos duros sem melodia.
Dierx ( 6 1 ), mais uma vez um poeta exótico, patrício de Le- Esses tipos diferentes também são os do parnasianismo
conte de Lisle, era o maior "ourives do verso" e "joalheiro internacional, entre os latinos e entre as nações germânicas
da palavra", sem dar muita atenção ao sentido. Parece pre- e eslavas, onde numerosos poetas cultivaram o mesmo estilo
parar a poesia hermético-musical de Mallarmé, e até foi sem aceitar a doutrina ou então até desconhecendo escola
eleito "prince des poetes" depois da morte de Mallarmé,
e nome. Assim o dinamarquês Boedtcher ( B4 ), poeta de
como o seu sucessor. N a verdade, Dierx foi mero técnico
perfeição grega. Ou Feth ( 5 5 ), grande poeta russo, que sa-
do verso, meio post-romântico, meio post-parnasiano. O
bia compor quadros impressionistas da natureza; o seu
parnasianismo, dando-se como arte dificílima, tornou-se téc-
"1'art pour l'art" de pessimismo schopenhaueriano foi posto
nica, aprendida com facilidade pelos diletantes que conti-
nuaram parnasianos em pleno século XX, sobretudo na em ostracismo pelos utilitaristas e só ressuscitado na época
América Latina. Pelo paganismo helenista bateu-se Mé- do simbolismo. E n t r e os exóticos situa-se Gonçalves Cres-
nard ( 0 2 ) ; existem relações com a erudição religiosa de po ( 5 6 ), português nascido no Brasil, evocando em sonetos
Leconte de Lisle e Flaubert e o anticristianismo do mesmo perfeitos motivos da paisagem física e humana da sua terra
Leconte de Lisle e de Carducci. O pessimismo "filosófico" natal; em Portugal, Gonçalves Crespo iniciou a época da
aparece em Madame Ackermann ( C3 ), mulher que sabia acei- cultura do verso em vez do culto da correção gramatical,
idolatrada pelos românticos da escola de Castilho; no Brasil,
teve repercussão o seu interesse pelos motivos folclóricos.
49) A. Schaffer: The Genres of Parnassian Poetry. A Study of ths
Parnassian Minors. Baltimore, 1944.
50) Albert Glatigny, 1839 — 1873.
Vigiles Folies (1857); Les Flèches d'or (1864).
J. Reymond: Albert Glatigny. La vie, 1'homme, le poete. Les 54) Ludvig Boedtcher, 1793-1874.
origines de 1'école parnassienne. Paris, 1936. Digte (1856, 1875).
51) Léon Dierx, 1838 — 1912. A. Shumacher: Ludvig Boedtcher. Et digterliv. Kjoebenhavn,
Lèvres closes (1867); Paroles du vaincu (1871); Poésies complè- 1875.
E. Uoulet: Léon Dierx. Paris, 1925.
tes (1896). 55) Afanassi Afanassievitch Feth, 1820 — 1891.
M. L. Camus-Clavier: Le poete Léon Dierx. Paris, 1942. Fogo da noite (1883) etc.
Edição por N. N. Strachov e B. Nikolski, 3 vols., Petersburgo. 1910.
52) Louis Ménard, 1822 — 1901. V. M. J. Briussov: Perto e longe. Petersburgo, 1911. (em língua
Poèmes (1855); Revertes d'un paíen mystique (1886). russa).
Ph. Berthelot: Le dernier paien. Louis Ménard et son oeuvre. Pa- V. Fedina: Afanassi Afanassievitch Feth. Documentos pode ves-
ris, 1902. tudo. Petersburgo, 1915 (em língua russa).
H. Peyre: Louis Ménard. 2 vols. Paris, 1934.
53) Louise-Victorine Choquet, madame Ackermann, 1813-1890. 56) António Gonçalves Crespo, 1846-1883.
Premiares Poésies, Poésies philosophiques (1874). Miniaturas (1870); Noturnos (1882).
A. Citoleux: La poésie philosophique au XIXe siècle. Madame M. Vaz de Carvalho: Estudo crítico de Gonçalves Crespo. (Pró-
Ackerman. Paris, 1906. logo da 3. a edição dos Noturnos. Lisboa, 1898).
2184 OTTO MARIA CARPEAUX
HISTÓRIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 2185

P r e c u r s o r d o p a r n a s i a n i s m o n o s p a í s e s g e r m â n i c o s foi ao parnasianismo pela erudição literária e pelo culto da for-


o a l e m ã o R u e c k e r t ( 5 T ) , ao q u a l a c o m p o s i ç ã o d e a l g u n s d o s
ma, d e m o d o q u e a s u a m a n e i r a v a g a r o s a d e t r a b a l h o só
seus lieds p o r S c h u m a n n d e u f a m a u n i v e r s a l , i m e r e c i d a .
pode ser comparada à de F l a u b e r t . E m numerosas baladas
O seu culto da forma, aliás em versos duros, é o mesmo de
históricas, magistralmente construídas e em alguns poemas
Platen. Como este imitou a lírica persa de Goethe, forne-
cendo depois numerosas traduções livres de poemas persas, n a r r a t i v o s d e u A r a n y a o s h ú n g a r o s u m a Legende des siècles
indianos e chineses; mas não tem nada da inteligência poé- n a c i o n a l , m a i s s ó b r i a , p o r é m , do q u e a d e H u g o , s ó b r i a c o m o
tica e profundeza h u m a n a de Fitzgerald. O j n t e r ê s s e pela o calvínismo no qual A r a n y nasceu e que o aproxima de
p o e s i a o r i e n t a l a p a r e c e n o s i d í l i o s ^bíblicos d o f l a m e n g o P o l Conrad Ferdinand M e y e r ; mas a angústia religiosa do
de M o n t (r,s), poeta bucólico de formação francesa, rene- suíço falta n o realismo do h ú n g a r o , ao qual m u i t o s críti-
g a n d o d e p o i s essas o r i g e n s p a r a d e c l a r a r - s e " g e r m â n i c o " , cos c o n s i d e r a m c o m o o m a i o r p o e t a d a n a ç ã o . "Parnasiano
a p o i a n d o o n a c i o n a l i s m o a n t i f r a n c ê s e n t r e os f l a m e n g o s . 00
n a c i o n a l " t a m b é m era S n o i l s k y ( ), aristocrata sueco, r e -
D e feição n a c i o n a l t a m b é m é a o b r a d o h ú n g a r o A r a n y ( ° 9 ) ,
presentando o ' T a r t p o u r l'art" pessimista na poesia des-
ligado ao parnasianismo pelo s e n t i m e n t o melancólico de
critiva, m a s c e l e b r a n d o e m b a l a d a s o p a s s a d o h e r ó i c o d a
intelectual em país de aristocratas rudes, de rápida revolu-
ç ã o i n d u s t r i a l e b u r g u e s i a a i n d a i n c u l t a ; A r a n y está l i g a d o sua nação, e exprimindo em outras poesias u m liberalismo
sincero, até de t e n d ê n c i a s socialistas, que o conde, mais tar-
de, r e n e g o u . Fora da Inglaterra e Holanda é Snoilsky o
57) Friedrich Ruecúert. 1788-1866. m a i o r s o n e t i s t a das l í n g u a s g e r m â n i c a s . Aristocratismo e
Oestliche Rosen (1822); Liebes/ruehling (1823); Kindertotenlieder
(1834) etc. exotismo reuniram-se no conde alemão Schack ( 6 I ) , grande
Traduções: Die Makamen des Hariri (1826); Nal und Damajanti mecenas dos p i n t o r e s Boecklin e Marées, t r a d u t o r d a epo-
(1828); Schi King (1833); Die Weisheit des Brahmanen (1836/
1839); Rostem und Suhrab (1838) etc. peia n a c i o n a l do p e r s a F i r d u s i ; aos s e u s v e r s o s s o b r e v i v e r á
C. Beyer: Friedrich Rueckert. Frankfurt, 1868.
a sua história do teatro espanhol, obra que marcou época.
58) Pol de Mont (Karel Polydoor de Mont), 1857-1931.
Idyllen (1882, 1884); Op mijn Dorpken (1886); Van Jezus (1887);
Koppen en Busten (1903); Vier legenden (1904); Zomerulammen
(1922) etc.
F . Francken: Pol de Mont. Amsterdam, 1927. <0) Graf Cari Snoilsky, 1841-1903.
G. Meir: Por de Mont. Antwerpen, 1932.
Orkiãeer (1862); Italienskabilder (1865); Sonetter (1871); Svenska
59) Janos Arany, 1817 — 1882. Bilder (1886).
Toldi (1847); Bolond Istók (1850, 1873); Os ciganos de Nagyida
(1852); A noite de Toldi (1854); Baladas (1856); Baladas (1877); O Edição por R. G. Berg, 7 vols., 2.° edição, Stockholm, 1917/1918.
amor de Toldi (1879). K. Warburg: Cari Snoilsky. Stockholm, 1905.
Edição por F. Riedl, 6 vols., Budapest, 1902/1907. P. HalJstroem: Cari Snoilsky Stockholm, 1933.
L. Gyoengoesi: A vida e as obras de Janos Arany. Budapest,
1901. (Em língua húngara.) Cl) Adolf Friedrich, Graf von Schack, 1815-1894.
F . Riedl: Janos Arany. 7.B ed. Budapest, 1920. (em língua hún- Gedichte (1867); Naechte des Orients (1874); — tradução de Fir-
gara.) dusi (1815); — Geschichte der dramatischen Literatur und Kuns-
A. Schoepflin: Poetas, livros e recordações. Budapest, 1925. (Em tin Spanien (1845/1846).
língua húngara).
G. Vojnovich: A vida de Arany. c vols. Budapest, 1931/1938 (em P. Krause: Die Balladen und Oden des Grafen Schack. Breslau,
Jingua húngara). 1915.
2186 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2187

Talvez o maior de todos os parnasianos fosse o poeta poéticas completas de Dante, Ariosto, Tasso, Leopardi e
tcheco Vrchlicky ( 6 2 ), pelo menos com respeito ao tama- Carducci; e, mais, grande parte das poesias de Michelan-
nho e multiformeidade da sua Obra. E r a descendente de gelo e Parini. E traduziu Camões, Calderón e Verdaguer,
gerações de rabinos alemães, enquanto na família da mãe Byron e Shelley, Goethe e Schiller, Mickiewicz e Puchkin
havia vários padres católicos tchecos. Vrchlicky sempre se e muitos poetas orientais. Criou uma literatura universal
julgou sacerdote da arte, como o seu supremo modelo Hugo, em língua tcheca, de modo que não causa estranheza a sua
em que aprendeu a eloquência pomposa, a ênfase cósmica, fama de maior poeta da nação. Mas enfim, os críticos sim-
o exotismo multicolor. Talvez fosse a copseqúência das bolistas e realistas denunciaram o seu ecleticismo insensa-
to, o "1'art pour l'art", o exotismo, o paganismo falso. Como
suas origens indefinidas, entre as nações, a sua inquietação
tantos outros parnasianos, Vrchlicky fracassou pela falta
permanente, fugindo da praga pequeno-burguesa para a An-
de caráter poético e substância humana.
tiguidade grega, daí para a Resnascença italiana e o Ro-
cocó francês — poeta parnasiano de um carnaval de estilos Um ar mais puro, quase mediterrâneo, respira-se nas
históricos, acabando no pessimismo de Leconte de Lisle. poesias do holandês Vosmaer ( fl3 ), sacerdote tão rigoroso
Dotado de uma fertilidade que em toda a literatura uni- do helenismo que, mais tarde, combateu com força o sim-
versal só pode ser comparada com a de Lope de Vega, bolismo ao qual criara a língua poética.
Vrchlicky escreveu dez ou mais poemas épicos, mais do Na Alemanha havia um autêntico movimento parnasia-
que quarenta volumes de versos, vários dramas poéticos, e no em Munique, sede de um cenáculo cujo chefe era o então
realizou uma obra imensa de tradutor, que permite apreciar lidíssimo poeta Emanuel Geibel ( 6 4 ). Mas este, embora
as suas preferências, capacidades e limitações. Na sua An- nacionalista alemão, imitou muito a H e i n e ; seus desleixos
tologia da poesia francesa do século X I X prevalecem Hugo» métricos e a vulgaridade da sua expressão teriam inspirado
Gautier, Leconte de Lisle, Banville e Sully Prudhomme; horror a um parnasiano francês, se pudesse ler versos ale-
é o "Parnasse". E m três antologias sucessivas traduziu mães; mas se pudesse, teria encontrado na poesia de Geibel
Vrchlicky quase a obra inteira de H u g o ; e, mais, as obras. o mesmo epigonismo consciente de todos os adeptos da es-
cola. Artista do verso foi, porém, o suíço Leuthold ( 0 4 - A ),
poeta italianizado que adorava a Grécia; foi homem de gé-
62) Jaroslav Vrchlicky (pseud. de Emil Frida), 1853-1912. nio indisciplinado, que pereceu na noite da loucura. A Gré-
Espirito e Mundo (1878); Sinfonias (1878); Mitos (1879/1880); Vi- cia decadente, a bizantina, era assunto preferido e caracte-
brações (1880); Poemas épicos (1880); Hilarion (1882); Sphinx
(1883); O que a vida me deu (1883); Perspectivas (1884); Twar-
ãowski (1885); Sonetos de um solitário (1885); Música da alma
(1886); Fragmentos da Epopeia (1886/1894); Pó de ouro (1887);
Borboletas em todas as cores (1887); O herdeiro de Tântalo (1888); 63) Carel Vosmaer, 1826 — 1888.
Afrecos e gobelinos (1890); Vozes no deserto (1890); Vida e Morte Nanno (1883); Jnwijding (1888); — tradução de Homero (1883/
(1892); A minha sonata (1893); Janela na tempestade (1894); 1889).
Canções de um romeiro (1895); Bar-Kochba (1898); Deuses e ho- J. P. Boyens: Carel Vosmaer. Helmond, 1931.
mens (1899); O poema de Vineta (1906); Ilhas de coral (1908);
A árvore da vida (1908), etc., etc. 64) cf. "Ó Fim do Romantismo", nota 41.
Edição por A. Praxak, V. Tichy e outros, 72 vote. Praha, 1948/1954. 64A) Heinrich Leuthold, 1827 — 1879.
E. Albert: Jaroslav Vrchlicky. Wein, 1903. Gedichte (1878; nesta coleção o poema épico Penthesilea).
A. Jensen: Jaroslav Vrchlicky. Stockholm, 1905. Edição por G. Bohnenblust, 3 volfl., Frauenfeld, 1914.
F. Krejci: Jaroslav Vrchlickicky. Praha, 1913, (em língua tcheca.) A. W. Ernst: Heinrch Leuthold, ein Dichterportraet. 2.a ed.
J. Weingart: Jaroslav Vrchlicky. Praha, 1920. (Em língua theca.) Hamburg, 1893.
2188 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2189
oe
rístico do alemão Lingg ( ), outrora famoso, hoje ilegível
tradição pagã; Poems and Ballads inspiraram-se evidente-
pela dureza do verso. O helenismo parnasiano tem várias
mente no neopaganismo francês e em Baudelaire. Mas esse
faces. No sueco Rydberg ( C6 ), a decadência da Grécia é
furor dos sensos não é parnasiano; e no sentido rigoroso da
atribuída ao cristianismo; Rydberg era campeão do libera-
palavra não existe nenhuma obra de Swinburne que seja
lismo teológico. Na sua poesia, dura mas sincera e profun-
parnasiana. Foi um poeta de receptividade enorme, sempre
da, exprimiu pensamentos da época por vir. Foi, no en-
atenta, dotado de facilidade extraordinária de expressão
tanto, um burguês moderado, mas um grande caráter.
verbal; sabia assimilar todos os estilos, traduzindo-os para
O helenismo dionisíaco está representado^ por Swin- música verbal inglesa. Explica-se assim que Swinburne re-
burne ( 6 7 ), justamente na Inglaterra do cant vitoriano; e a presentava um caso singular, talvez único: um hugoano in-
sensualidade desenfreada do primeiro volume de Poems and glês. A influência de Hugo é sensível na obra inteira de
Ballads não podia deixar de provocar indignação no país Swinburne e particularmente na poesia política dos Songs
da rainha-viúva e dos banqueiros morais. Poesias como before Sunrise, dedicados à causa da liberdade italiana. Mas
Laus Venexis, Dolores e Noyades motivaram a denúncia isso lembra logo os casos de Byron e Landor. Swinburne
de Robert Buchanan contra a "escola da poesia carnal". O não era revolucionário de verdade, antes um aristocrata re-
poeta não pôde alegar que existe na literatura inglesa uma voltado e anarquista; e a sua revolta não era fatalmente
política — nos últimos anos da sua longa vida conf essou-se
65) Hermann Lingg, 1820-1905. partidário do imperialismo inglês — nem sempre atual.
Gedichte (1853, 1868); Die Voelkerwanderung (1866/1868); Byzan- Repetiu com virtuosidade os ataques anticristãos de Shel-
thinische Novellen (1881).
Edição de poesias escolhidas (com introdução) por E. Lissauer, ley, em que aprendera a musicalidade do verso, e achou
Muenchen, 1924. enfim os seus verdadeiros modelos naqueles anarquistas vio-
W. Knote: Lingg und seinl lyrísche Dichtung. Muenchen, 1936.
lentos e mórbidos que eram os dramaturgos elisabetiano-
66) Victor Rydberg. 1828-1895.
Singoalla (1857); Den Sidsta Atenaren (1859); Prometheus och jacobeus, aos quais dedicou os seus célebres estudos críti-
Ahasverus (1877); Dikter (1882, 1891); Vapensmeden (1891). cos, deformados pelo entusiasmo grandiloqiiente, mas mes-
Edição por K. Warburg, 14 vols., Stockholm, 1896/1900.
K. Warburg: Victor Rydberg. 2 vols. Stockholm, 1900. mo assim de grande m é r i t o ; Swinburne fêz muito para a
O. Holmberg: Victor Rydberg's Lyrik. Stockholm. 1935. compreensão de Marlowe, Webster, Tourneur, Middleton.
67) Algernon Charles Swinburne, 1837 — 1909. Interpretou-os, porém, como a todos os poetas que amava,
Poems and Ballads (1866); Songs before Sunrise (1871); Poems
and Ballads II (1878); Tristram of Lyonesse (1882); — Atalanta à sua maneira, como se tivessem sido verbalistas. Não foi
in Calydon (1865); Chastelard (1865); Bothwell (1874); Erechtheus outra coisa o sensualismo dos primeiros poemas e o baude-
(1876); Mary Stuart (1881); etc. e t c ; — WiUiam Blake (1867);
A Study of Ben Jonson (1889); The Age of Shakespeare (1908) etc. lairianismo de outros: libertinismo puramente estético,
Edição: Bonchurch Edition, 20 vols., London, 1925/1927. sensualidade cerebral, satanismo teórico. T u d o em Swin-
E. Gosse: The Life of Algernon Charles Swinburne. London, 1917.
T. E. Welby: A Study of Swinburne. London, 1926. burne é inspiração livresca, repetição de sentimentos e mo-
H. Nicolson: Swinburne. New York, 1926. tivos alheios; o que lhe pertence só é a fabulosa técnica
H. Hare: Swinburne. A Biographical Approach. London, 1949.
S. C. Chew: Swinburne. Boston, 1929. verbal, superior à do próprio Tennyson. Swinburne é cer-
W. R. Rutland: Swinburne, a Nineteenth Century Hellene. Ox- tamente um dos maiores músicos do verso inglês — basta
ford, 1931.
G. Lafourcade: Swinburne, a Literary Biography. London, 1932. ouvir o começo de um dos coros da tragédia lírica Atalanta
C. K. Hyder: Swinburne's Literary Career and Fame. Durham in Calydon:
N. O., 1933.
2190 OTTO MARIA CAnPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2191

"Before the beginning of years da morte de Baudelaire; e a notícia fora falsa, o poeta ainda
There came to the making of man viveu. Tudo em Swinburne parece falso, menos a melodia
Time, with a gift of tears; pela qual êle se tornou "o seu próprio eco", música sem sen-
Grief, with a glass that ran; tido, mas também sem hermetismo, assim como aquele coro
Pleasure, with pain for leaven; em que a crítica moderna só vê dannunzianismo decadente
Summer, with f lowers that f ell; e vazio. Swinburne, admiradíssimo durante a segunda
Remembrance fallen from heaven, #
metade da sua vida, está hoje em descrédito absoluto, e não
And madness risen from hell; parece perto a reabilitação. Hugonianismo decadente, pa-
Strenght without hands to smite; ganismo cerebral, "1'art pour l'art", técnica poética sem
Love that endures for a breath; atenção ao sentido, disfarce carnavalesco em mil fantasias,
Night, the shadow of light, eis mais uma definição do parnasianismo do qual Swinr
And life, the shadow of death." burne foi, quanto ao estilo, o virtuoso máximo.
Cara também era aos parnasianos a Grécia "ática", a
Eis a famosa "melodia permanente", conforme a expressão do sorriso espirituoso e céptico; Anatole France, em que
de Wagner, ao qual Swinburne dedicava culto fervoroso. esse "aticismo" chegará ao cume, fora um dos editores do
Um crítico sagaz observou que nesse coro se podem inver- "Parnasse Contemporain". Como uma antecipação provin-
ter à vontade sujeitos e predicados sem prejudicar o sen- ciana sua é Juan Valera (° 8 ), o elegante diplomata espa-
tido; mas também sem prejudicar a música. O wagnerianis- nhol, mestre do estilo sonoro, tradutor de Dafnis y Cloê,
mo é, aliás, entre ingleses e franceses, sinal característico o que lembra aos franceses o caso de Courier e a outros
dos simbolistas; e a musicalidade de Swinburne não é o críticos o paganismo falso de Ménard. Valera era um Don
único elemento simbolista da sua poesia. Títulos como Bal- Juan de salão, um espírito frívolo — Azorin caracterizou-o
lad of Dreamland e A Forsaken Garden são reveladores; e assim, definitivamente. A frivolidade revela-se na maneira
não falta a grave melancolia do decadentismo, naqueles co- como os seus romances enfeitam e falsificam os assuntos:
ros que desmentem a alegria pagã das explosões eróticas cm Pepita Jiménez, o problema do celibato é colocado no
da mocidade. Pode-se falar em arrependimento baudelai- ambiente do "costumbrismo"; em Las ilusiones dei doctor
riano? À morte de Baudelaire dedicou Swinburne o mais Faustino, o pessimismo decadente dos intelectuais pós-ro-
belo dos seus poemas, Ave Atque Vale: mânticos. Às vezes, esses romances, que têm valor literá-

"There lies not any troublous thing before, 68) Juan Valera, 1824 — 1905.
Nor sight nor sound to war against thee more, Pepita Jiménez (1874); Las ilusiones dei doctor Faustino (1874/
1875); Asclepigenia (1878); tradução de Dafnis y Cloè (1880); Jua-
For whom ali winds are quiet as the sun, nita la Larga (1895); Génio y Figura (1897); — Cor/as america-
nas (1889/1890).
Ali waters as the shore." M. Azaria: Prólogo da edição de Pepita Jiménez (Clássicos Cas-
tellanos, vol. LXXX, Madrid. 1927).
J. A. Balseiro: Don Juan Valera, (in: Novelistas espanoles con-
Mas a beleza deste poema não é baudelairiana; é "emotion temporâneos. Nèw York, 1933.)
recollected in tranquillity", que passou logo. Fato simbó- E. Fishtine: Don Juan Valera, the Critic. Bryn Mawr, Pe., 1933.
Alb. Jiménez: Valera y la generación de 1868. Oxford, 1956.
lico: Ave Atque Vale foi escrito quando chegou a notícia C. Bravo Villasante: Don Juan Valera. Barcelona, 1959.
2 1 9 2
OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2193

rio e sobretudo estilístico parecem de um Flaubert bem político, lutas contínuas entre as frações da "aristocracia
humorado- Valera é só estilista, se bem dos mais finos; e crioula" pelo lugar modesto que o capitalismo estrangeiro
isso explica as suas simpatias para com os menores vestígios lhes concedeu, situação perigosa dos intelectuais, que se es-
do parnasianismo, onde os pôde descobrir. Assim conse- gotaram em gestos revolucionários e versos hugonianos. O
guiu o maior feito da sua carreira literária: nas Cartas Chile porém politicamente estabilizado, foi durante o século
americanas, dedicadas aos poetas da América Latina, des- X I X um deserto literário sem poesia. Só no fim do século
cobriu versos parnasianos de um jovem poeta nicaraguense, mudou a situação, com o estabelecimento de monopólios
Completamente desconhecido; e predisse com clarividência ingleses e norte-americanos. A política tornou-se mais
o grande futuro de Ruben Darío. calma. Os intelectuais conseguiram empregos na alta admi-
Fato curioso: Valera não encontrou outros parnasianos nistração e diplomacia, a condição de rentiers. Então, ca-
na Colômbia, no Peru, na Argentina. Os grandes parna- pazes de gozar da vida, renunciaram às aspirações revolu-
sianos hispano-americanos surgiram muito mais tarde, liga- cionárias; começaram a lamentar a incultura do ambiente,
dos aos simbolistas do "modernismo", enquanto ao mesmo a sonhar das belezas de civilizações europeias, antigas, exó-
tempo a poesia brasileira já estava dominada pelo "Parnas- ticas. Chegara a hora do parnasianismo hispano-americano.
se". Nas repúblicas espanholas havia quase só hugonianos, No Brasil, essa hora chegou 25 anos antes, devido à estabili-
por volta de 1890, com alguns restos do romantismo espa- dade política da monarquia; e o parnasianismo brasileiro
nhol em plena decomposição; cantou-lhe a canção fúnebre, conquistou uma vitória tão completa que sobreviveu de
irónica, o espírito heiniano do peruano Ricardo Palma ( 6 9 ), duas gerações os movimentos análogos em outra parte.
parente literário de Valera, subversivo disfarçado de tradi- O parnasianismo brasileiro corresponde menos do
cionalista, esboçando nas famosas Tradiciones peruanas um que qualquer outro ao programa do partido. Aí não era
panorama encantador, colorido e ligeiramente irónico, da preciso sonhar de palmeiras; as palmeiras estavam presen-
cidade de Lima dos tempos coloniais; um parnasiano às tes, e a sensibilidade tropical venceu à "paix impassible
avessas. tíes morts". Os mais originais entre os parnasianos brasi-
O atraso do parnasianismo na América espanhola é fato leiros são os que dedicam sua atenção principalmente à Na-
de importância sociológica. A falta de independência eco- tureza. Assim o poeta descritivo e, em certas horas, filosó-
fico Alberto de Oliveira ( 7 0 ), cuja longa vida é correspon-
nómica é um fato comum das repúblicas hispano-americanas
sável pela sobrevivência excepcional do parnasianismo no
e do Brasil no século XIX. Na Colômbia, Venezuela, Mé-
Brasil; e Vicente de Carvalho ( 70 " A ), grande poeta do mar,
xico, Peru significava isso a impossibilidade do equilíbrio
em cuja arte se notam elementos arcaizantes e outros, sirn-

60) Ricardo Palma, 1833 — 1912. 70) Alberto de Oliveira, 1859-1937.


Tradiciones Peruanas (1872/1910). Poesias completas (1900); Poesias, 2.ft série (1912); Poesias, 3.a
Edição oficial do Governo de Peru, 6 vols., Madrid, 1924. (2.» ed., série (1913).
1944/1946.) Phocion Serpa: Alberto de Oliveira. Rio de Janeiro, 1958.
L. A. Sanchez: Don Ricardo Palma y Lima. Lima, 1927.
A. Palma: Ricardo Palma. Buenos Aires, 1933. 70A) Vicente de Carvalho, 1866-1924.
G. Feliú Cruz: En torno de Ricardo Palma. Santiago, 1933. Poemas e Canções (1908).
V. Garcia Calderón: Ricardo Palma. Paris, 1938. M. da C. V. de Carvalho e A. V. de Carvalho: Vicente de Car-
valho. Rio de Janeiro, 1943.
2194 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2195

bolistas. Mas o grande nome do "Parnasse" brasileiro é vidas religiosas — um espanhol, escrevendo um poema nar-
Olavo Bilac ( 7 0 - B ), joalheiro do verso e verbalista exube- rativo sobre Lutero não será caso frequente — e das dia-
rante, burilando as expressões da sua veia erótica indisci- tribes contra a corrupção moral, poeta do heroísmo cívico;
plinada conforme as regras da ourivesaria gautieriana e verbalista espantoso, rimador incansável, mas sempre sin-
acabando na melancolia melodiosa do volume Tarde. A al- cero, honesto e as mais das vezes triste. Parece-se muito
guns sonetos belos de Bilac sobrevivem e sobreviverão. com êle, no outro pólo da Europa, o polonês Asnyk ( 7 4 ),
"Tarde" sempre foi o leitmotiv da obra do melancólico Rai- que já foi definido como mistura de Slowacki e Heine, com-
mundo Corrêa (71,11) que se destaca pela honradez artística parações impróprias, consequência de que não é usual de
e pelo pessimismo austero; mas é só reflexo pálido de me- falar em parnasianismo entre os eslavos.
lancolias estrangeiras. Parecido com êle — a observação é
Tampouco é usual definir como parnasiano o grande
de Manuel Bandeira — foi o mexicano Othón ( 7 2 ), poeta
poeta português Antero de Quental ( 7 t 5 ); e é preciso admi-
bucólico e triste, grande sonetista, quase o único parnasiano
tir que a sua personalidade não permite aquela definição;
hispano-americano sem o menor vestígio de influência sim-
mas quanto à obra, haverá poucas dúvidas. Conforme o tes-
bolista. Contra esta def endeu-se o parnasianismo brasileiro
temunho de todos os contemporâneos, Quental era um aan-
com tanto êxito que conseguiu esmagar os grandes poetas
simbolistas Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, per- t o ; um homem que se sacrificou, às vezes de maneira dom-
petuando-se o culto das "chaves de ouro" até a segunda dé-
cada do século XX.
74) Adam Asnyk, 1838 — 1897.
A feição melancólica e "filosófica" do parnasianismo Poesias (1869, 1887, 1894); Kiestut (1878).
J. Tretiak: Adam Asnyk como representante de sua época. Kra-
encontra-se no espanhol Nunez de Arce ( 7 3 ), poeta das dú- ków, 1922 (em língua polonesa).
75) Antero de Quental, 1842 — 1892.
70B) Olavo Bilac, 1865-1918. Odes modernas (1865); Primaverasa românticas (1871); Sonetos
Poesias (1888, 1902); Tarde (1919). (1881); Sonetos completos (1886; 2. ed., 1890). — Causas da de-
Aíí. de Carvalha: Bilac. Rio de Janeiro, 1942. cadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos (1871)
E. Pontes: A viâa exuberante de Olavo Bilac. 2 vols., Rio de Ja- etc.
neiro, 1944. Edição dos sonetos completos e poemas escolhidos por M. Ban-
deira, Rio de Janeiro, 1942.
71) Raimundo Correia, 1860 — 1911. Antero de Quental. In Memorian. Porto, 1896.
Versos e Versões (1887); Aleluia (1891); Poesias (1898). Fid. de Figueiredo: Antero de Quental, a sua psicologia, a sua fi-
Edição por Múcio Leão, 2 vols. São Paulo, 1948. losofia, a sua arte. Lisboa, 1909.
W. Ribeiro do Vai: Vida e obra de Raimundo Correia. Rio de Joaqu. de Carvalho: A evolução espiritup.1 de Antero. Lisboa, 1929.
Janeiro, 1960. SanfAna Dionísio: Antero: algumas notas sobre o seu drama e a
72) Manuel José Othón, 1859-1906. sua cultura. Lisboa, 1934.
Poemas rústicos (1902); Himno de los bosques (1908). Ant. Sérgio: Os dois Anteros; Sobre o socialismo de Antero, (in
Ali. Reyes: Los poemas rústicos de Manuel José Othón. (in: Con- Ensaios, vol. V. Lisboa, 1936).
ferencias dei Centenário. México, 1910). A. J. da Costa Pimpão: Antero, o Livro dos Sonetos. Coimbra,
1942.
73) Gaspar Nunez de Arce, 1834 — 1905. Rebelo de Betencourt: O verdadeiro Antero. Lisboa, 1942.
Gritos de combate (1875); Vision de Fray Martin (1880). Ant. Ramos de Almeida: Antero de Quental, infância e juventude.
I. dei Castillo y Soriano: Nuúez de Arce. 2. a ed. Madrid, 1907. Porto, 1943.
M. Menéndez y Pelayo: Estúdios de crítica literária, vol. I, 3. a ed., Ant. Ramos de Almeida: Antero de Quental, decadência e morte.
Madrid, 1915. Porto, 1944.
J. Romo Arregui: Vida, poesia y estilo de Gaspar Nunez de Arce. J. Br. Carreiro: Antero de Quental, subsídios para a sua biogra-
Madrid, 1946. fia. 2 vols., Lisboa, 1948.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2197
2196 OTTO M A R I A CARPEAUX
Esse poeta entrou para o movimento menos parnasiano
quixotesca, pelos seus ideais. E esse idealismo tinha pro- que se possa imaginar: a revolução intelectual dos estudan-
fundidade filosófica, sob a influência de leituras alemãs, tes de Coimbra contra o tradicionalismo romântico, polí-
que não deixaram, aliás, muitos vestígios na sua obra poé- tico e religioso. Visto de outro lado, o movimento de Coim-
tica. Como outros grandes idealistas era Quental um auto- bra apresenta aspectos parecidos com a "Renaixensa" catalã:
didata, homem de leituras múltiplas e desordenadas; de He- tentativa de renovação da vida nacional pela literatura. A
gel e Mommsen, Heine e Michelet, Proudhon e tantos outros participação de Antero à "Escola de Coimbra" não ajuda
compôs uma fisolofia sui generis, intensamente schope- para compreender-lhe o sentido da poesia; a sua coleção de
nhaueriana, mistura de socialismo romântico e budismo in- sonetos, já definida como "diário poético de uma alma au-
diano, em oposição ao catolicismo tradicional da península. gustiniana", não tem nada com isso, pertence a uma outra
Deste modo chegou Quental ao anticlericalismo apaixonado fase: não ao santo revolucionário Quental, mas ao santo
das suas poucas, mas impressionantes obras em prosa, expli- suicida Quental. Mas a subqualidade neolatina, quer dizer,
cando pela influência nefasta da Igreja a decadência ibéri- parnasiana, daquele movimento, do qual alguns chefes aca-
ca. Havia, porém, no liberalismo e democratismo de Quen- barão como tradicionalistas, ajuda a reconhecer a qualidade
tal uma forte veia religiosa, até mística, profundamente an- parnasiana da poesia de Quental. As comparações com Leo-
gustiado como êle estava pelos sofrimentos dos pobres e pardi não acertam bem, antes a com Vigny, em cuja forma
humildes. E assim, o santo tornou-se socialista militante, ciãssico-romântica se anunciara o parnasianismo e cujas
membro da Primeira Internacional. Logo é preciso obser- Destinées se publicaram postumamente em pleno parnasia-
var que a Primeira Internacional não era puramente mar- nismo. Daí o pessimismo algo vago de Quental — "A ilu-
xista. Ao contrário, a Associação malogrou pela resistên- são e vazio universais" — daí a nobreza da expressão e a
cia interna contra Marx, pelas intrigas dos bakunistas e falta de colorido, daí a monotonia do pensamento e do vo-
proudhonistas; e Quental, longe do marxismo científico, cabulário. Quental é um grande sonetista; mas Fidelino de
também era anarquista-comunista de motivos idealistas: um Figueiredo tem razão, considerando como o maior dos seus
poemas o Hino da Manhã, maldição à luz enganadora:
socialista religioso. As suas angústias estavam em relação
nítida como os acessos de pessimismo desesperado — " . . . a
minha alma já morreu" — e abulia patológica, motivo e ex- "Símbolo da Ilusão que do infinito
pressão, ao mesmo tempo, da incoerência entre niilismo Fêz surgir o Universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o pecado,
budista e idealismo revolucionário. Essas condições expli-
Símbolo da existência, sê maldito!"
cam o malogro do santo como socialista militante; o mís-
tico falhou na revolução social. É verdade que aquele pes- Livre da forma rígida, Quental é maior; tanto maior quan-
simismo só se manifestou periodicamente, ao lado de outras to mais se aproxima da prosa. Talvez fosse maior prosador
fases, eufóricas, de uma ciclotimia maníaco-depressiva, que do que poeta. E assim estaria certo. O parnasianismo, poe-
levou o poeta ao suicídio. Mas o suicídio só é o resultado sia duma época da prosa, é essencialmente prosaico; da for-
definitivo da vida de Quental; sua importância duradoura ma poética, que o aperta como uma camisa de força, provém
reside nas expressões daquele pessimismo transitório: é a todas as suas falsidades. O maior dos parnasianos é mesmo
sua obra poética. um prosador: Renah.
2198 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2199

Deste modo, seria inconveniente censurar a "esterili- mação da sua vida pequeno-burguesa em boémia desenfrea-
dade" do outro grande céptico da época, Amiel ( 7 t t ), porque da, pela influência de Rimbaud. Flaubert e Baudelaire
não chegou a exprimir-se em poesia. Não teríamos perdido também passaram pela "éducation sentimentale" da Boémia,
muito com uma quantidade de sonetos e poemas "científi- cuja importância histórica como fermento do romantismo
cos" que Amiel não escreveu. O seu meio genuíno de ex- sobrevivente é muito maior do que o valor atual das suas
pressão era a prosa do seu diário. O "caso Amiel'* existe só expressões.
na psicologia: ali é o lugar de definições como o "Hamlet
A boémia podia agir contra a poesia burguesa dos par-
protestante" de Bourget, o "infeliz por falta de deveres"
nasianos porque era de origem antiburguesa. É a forma
de Brunetière, o "artista sem a r t e " de Hofmannsthal, o
francesa da mesma resistência dos intelectuais que gerara
"tímido" de Maranon. O cepticismo anticalvinista de Amiel
na Alemanha de 1800 o "épater le bourgeois" de Friedrich
é parnasiano pela inibição simultânea, consequência de an-
Schlegel em Lucinde e a vagabundagem de Clemens Bren-
gústias menos pascalianas do que burguesas. A originali-
tano. O motivo imediato era o estabelecimento da monar-
dade de Amiel não está na sua incapacidade de expressão,
quia burguesa em julho de 1830; em 1833 aparece Les Jeu-
e sim no contrário: n a sua capacidade de auto-observação
ne-France, de Gautier, romance da vida livre e licenciosa
e anotação dos resultados. Amiel é o mais consciente dos
dos artistas românticos com as moças dos subúrbios de
parnasianos; por isso resistiu à tentação de fazer poesia
Paris. E m 1835, Vigny ( T7 ) deu ao Théâtre Français seu
inútil, assim como Constant, atacado do "mal du siècle",
Chatterton, peça de valor dramático reduzido, mas de im-
não fêz poesia romântica e sim um romance psicológico.
portância histórica muito grande: o poeta é apresentado,
A diferença entre diário e romance, nos dois casos, está na
nessa tragédia, como fatalmente incompreendido pelos "fi-
dose de romantismo: em Constant havia muito pré-roman-
listeus" burgueses, de modo que "épater le bourgeois" se-
tismo o que lhe permitiu a obra de imaginação; em Amiel
ria a sua reação natural. Chatterton criou, para muitos de-
não havia nenhum pós-romantismo, o que inibiu a deforma-
cénios e em cetros círculos até hoje, a imagem típica do
ção imaginativa dos movimentos psicológicos observados.
"poeta". U m Aloysius Bertrand viveu essa "boémia" na
Este último critério pode prestar serviços para deter- realidade; e Murger ( 78 ) escreveu o romance que a tornou
minar as possibilidades de saída do parnasianismo. Quatro popularíssima. Existem duas espécies de boémia: a ver-
poetas franceses tornaram-se grandes "à condition d'en sor- dadeira e a falsa. A boémia autêntica é uma desgraça: a
t i r " : Baudelaire, Mallarmé, Verlaine e Flaubert. Em Mal- miséria dos artistas, para cuja profissão inútil não há lugar
larmé, as causas determinantes eram influências românticas na hierarquia utilitarista das profissões. Mas também exis-
do estrangeiro: a poesia inglesa e o wagnerismo alemão. te a falsa boémia de artistas pobres mas felizes na vida sem
No caso de Verlaine, agiu um motivo pessoal: a transfor- ocupações "sérias" e de amor livre. Na realidade, a falsa

76) Frédéric Amiel, 1821-1881. 77) Cf. "P-omantismos de oposição", nota 14.
Fragments d'un Journal intime (ed. por E. Schérer, 1882/1887). 78) Henri Murger, 1822 — 1861.
Edição por L. Bopp, Paris, 1939/1948. Scènes de la vie de bohême (1851).
A. Thibaudet: Amiel on la pari du rêve. Paris, 1929. Q. Montorgueil: Henri Murger, romancier de la Bohême. Paris,
L. Bopp: Frédéric Amiel. Essais sur se pensée. Paris, 1931. 1929.
2200 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2201
boémia só existe entre artistas-diletantes ineptos, vivendo
Zola, lembrando-se também a influência que exerceu fora
das mesadas do p a i ; ou então é um espetáculo arranjado
da França: sobre Hardy, Turgeniev e Fontane, Eça de
por artistas malogrados e expertos para assustar e secreta-
Queirós e Fogazzaro. Mas não por isso é que Flaubert está
mente divertir o burguês que paga ingresso. Antigas tradu-
geralmente admirado. O romancista Flaubert perdeu nos
ções das Scènes de la vie de bohême para o inglês e alemão
últimos decénios, adversos ao seu ideal de "1'art pour l'art,
começam com prefácios apologéticos, pedindo desculpa pela
muito do seu prestígio; uma obra tão grande como Uédu-
leviandade dos heróis e a imoralidade das heroínas do ro-
cation sentimentale só continua ser lida e estudada pelos
mance. Mas nota-se o prazer clandestino do leitor burguês
highbrows; e Madame Bovary, ao contrário, está circulan-
cm saber de coisas que as convenções morais da sua classe
do em edições baratas, tido como romance erótico com des-
lhe proibiram; também no sentimentalismo da morte de
fecho policial. A glória de Flaubert parece residir no seu
Mimi, o burguês chorou a triste impossibilidade de realizar
estilo; mas nosso apreço pelas artes estilísticas diminuíram
os seus "sonhos de desejo". Nesse sentido, a falsidade da
muito. Será o estilo a suficiente razão de ser de uma obra
popularíssima ópera La Bohème de Puccini acompanha con-
de arte. Há quem declare: "Os romances de Flaubert são
dignamente a falsidade do romance de Murger. Neste, po-
obras admiráveis; mas não nos importam, não nos ajudam
rém, é de importância capital o pós-escrito, em que os boé-
vitalmente".
mios se metem na política de 1848, para acabarem, eles mes-
mos, como "filisteus" tristes. Com isso, Murger dá o pri- Flaubert era o mais vagaroso dos escritores: 5 anos,
meiro esboço de uma "cura do romantismo pela realidade", 7 anos e mais para escrever um romance de tamanho redu-
de uma "éducation sentimentale". Seis anos depois publi- zido, isso inspira inveja aos escritores profissionais, insatis-
cou-se Madame Bovary. feitos com o trabalho imposto pelo público; e inspira res-
peito ao próprio público, encontrando um escritor anti-
Todo mundo admite o papel importantíssimo de Flau-
boêmio, consciencioso e sério como um comerciante da pra-
bert ( 70 ) na história do romance moderno, entre Balzac e
ça. É literatura tão séria, tão bem documentada como uma
79) Gustave Flaubert, 1821 — 1880. obra da ciência, realizando o ideal parnasiano da poesia

t dame Bovary (1857); Solambò (1862); Ueãucation sentimen-


e (1869); La tentation de saint Antoine (1874); Trois cantes
(1877); Bouvard et Pécuchet (1881); Corresvondance générale
científica. Com efeito, o trabalho preparatório de Flaubert
consistiu em uma documentação muito mais exata do que
(1887/1893). os estudos meio fantásticos de Balzac de "fisiologia da so-
Edição por E. Maynial, 6 vols., Paris, 1936. ciedade". Flaubert fêz, como um geógrafo ou sociólogo
Edição de Madane Bovary por G. Leleu, 2 vols., Paris, 1936.
E. Faguet: Flaubert. Paris, 1899. moderno, "field work", observações sistemáticas no "cam-
J. de Gautier: Le génie de Flaubert. Paris, 1913. po", no teatro físico e psicológico dos acontecimentos. Atrás
E. Seillière: Le romantisme des realistes; Gustave Flaubert. Pa-
ris, 1914. ,de Madame Bovary, os flaubertianos podiam descobrir os
A. Thibaudet: Gustave Flaubert. Paris, 1922. • modelos reais: a cidade normanda de Ry, a adúltera Del-
L. Bertrand: Gustave Falabert. Paris, 1923.
L. de Sidaner: Gustave Flaubert, son oeuvre. Paris, 1930. phine Couturier que se tornará Emma Bovary, o livre-pen-
D. L. Demorest: Uexpression figurée et symbolique dons Voeuvre «ador Jouenne que aparecerá como M. Homais, e assim em
de Gustave Flaubert. Paris, 1931.
W. Digeon: Le dernier visage de Flaubert. Paris, 1946. diante; estudos fecentes destruíram todas essas hipóteses:
F. Steegmuller: Flaubert and Madame Bovary. 2.» ed. London, o modelo de Emma Bovary teria sido madame Louise Pra-
1947.
Ph. Spencer: Flaubert, a Biography. New York, 1953. dler, a mulher do conhecido escultor, e a tragédia teria
2202 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2205

acontecido em Paris. Essa descoberta acrescenta malf um jetivo. Evidentemente, não foi por incapacidade de elimi-
motivo para a devida admiração por Flaubert: pois só no ná-lo que Flaubert deixou subsistir esse desequilíbrio entre
ambiente provinciano, para o qual o romancista transpôs o» intenção e realização. A ironia impôs-se ao romancista,
acontecimentos reais, teria sido possível a tragédia de céptico e pessimista porque passara pelas decepções ideoló-
Emma Bovary. A lentidão do processo da transfiguração gicas de 1848 e 1852.
artística em Flaubert não teria sido, aliás, compatível com A obra-prima de dolorosa ironia flaubertiana é Un
o espírito dramático que informa a obra de Balzac. Flau- coeur simple. A história da velha criada, embalada em so-
bert tem a cabeça épica, sabe dar aos assuntos certa perma- nhos de um filho perdido em mares longínquos, é narrada,
nência supra-histórica e supra-atual que os romances de através da frieza realista do tom, com certa crueldade sá-
Balzac, historiador de sua sociedade, não possuem Madame dica, martirizando o pobre personagem; e o fim, quando-
Bovary e Un coeur simple, mesmo se localizados exatamen- o papagaio, única lembrança do filho, aparece à agonizante,
te em casas parisienses ou lugares da Normandia de 1850, em visão, como a pomba do Espírito-Santo, é de uma ironia
passam-se em todos os tempos e países da história e do desumana e sôbre-humana, iluminando em visão rápida o
mundo. A distância entre as pessoas e fatos reais que for- "engano general" da humanidade. É o mesmo engano acer-
neceram o assunto ao romancista, e os personagens e acon- ca da verdadeira natureza das coisas, da realidade, que pro-
tecimentos do plano novelístíco é incomensurável. Essa duz a ruína de Emma Bovary, enganada pela falsidade das
"distância épica" é resultado do estilo de Flaubert. O seu leituras românticas, assim como a França fora enganada
esforço ingente de inúmeras noites de insónia desesperada pela ideologia romântica, em 1848. O mesmo engano, em
não se reduz àquilo que os amigos e os biógrafos estranha- La tentation de saint Antoine, é o da humanidade inteira,
vam e admiravam: à eliminação radical dos adjetivos e sua enganada pelos deuses, as fantasias religiosas que ela mes-
substituição por substantivos que não precisam desse acom- ma criou. Essa obra máxima de Flaubert, nunca bastante
panhamento — "não existem sinónimos", disse Flaubert — apreciada, simboliza o bovarysmo do género humano. A
nem à colocação sábia das "coupes" das frases. Procurava filosofia de Flaubert aproxima-se do pan-tragismo do seu
a exatidão máxima de correspondência entre objetos e pa- contemporâneo Hebbel; mas Flaubert, poeta muito maior,
lavras, movimentos e frases, para conseguir a representa- è menos lógico. A tragicidade do mundo não reside, na
ção objetiva da realidade. O exemplo mais famoso é a des- obra de Flaubert, em conflitos de sentido histórico, entre o
crição da festa agricultural em Madame Bovary, combina- indivíduo e a lei, mas na cegueira do homem imbecil, toman-
ção sinfónica de discursos oficiais e conversa erótica entre do a sério a lei imbecil que êle mesmo criou; é cegueira
Emma e Rodolphe e o ruído dos bois e o vento nas árvores. como a dos heróis da tragédia grega, mas sem heroísmo.
Mas nessa composição polifônica também se revela a ironia O Universo está definido, tragicamente, pela "bêtise hu-
amarga do romancista, dirigida contra os seus próprios per- aine".
sonagens. M. Homais, imagem tão fiel do livre-pensador
provinciano, é ao mesmo tempo uma caricatura grandiosa; O intuito de Flaubert era a representação artística, a
e ele é, no fim do romance, o vencedor. Os imbecis são os tilização da "bêtise humaine", para eliminá-la desta ma-
senhores deste mundo. Ironia e pessimismo de Flaubert ira. A Êducation sentimentaJe significa a liquidação do
estão em grave contradição com o seu ideal de realismo ob- antismo pela estilização parnasiana. L'êducation senti-
tâle é a obra mais ambiciosa de Flaubert, mas não a
HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2205
OTTO M A R I A CARPEAUX
2204 tico sem cair de novo no romantismo sentimental? Flau-
mais perfeita. O fundo, o panorama da época na qual o ro- bert estava protegido contra esse perigo pela sua qualidade
mantismo foi derrotado, está realizado; o primeiro plano de burguês. Mas é preciso definir o termo. Um dos muitos
quase desaparece, pela mediocridade mesquinha de Frédé- contemporâneos literários aos quais Flaubert dedicava o
ric Moreau e madame Arnoux, resultado desconcertante no ódio do desprezo, era A u g i e r ; este também protestava con-
qual colaborou o pudor de Flaubert perante o problema da tra o romantismo — será interessante comparar Les pauvrcs
exibição autobiográfica. Uéducation sentimentale é um lionnes e Madame Bovary — e também era burguês, mas
poderoso romance psicológico, o mais comovente que foi de uma outra espécie: burguês parisiense, do alto comér-
escrito depois de Stendhal; mas não tem a perspectiva de cio honrado, por assim dizer, mas contudo da parte do ca-
uma visão histórica de sua época, do romantismo desiludi- pital móvel. Flaubert era burguês provinciano; mais im-
d o ; pois Flaubert continuava, apesar de tudo, preso naquela portante, porém, do que a antítese geográfica é a económica,
ilusão. É opinião geralmente admitida que o realista Flau- a situação de rentier, vivendo de rendimentos sem neces-
bert continuou no fundo romântico. O seu ideal do escritor sidade de fazer negócios. Esta situação, de rentiers ou en-
é o "vate", o visionário cósmico de H u g o : a humanidade tão de funcionários públicos com vencimentos e futuro ga-
inteira é imbecil; só o poeta vê as coisas como são realmen- rantidos, é a condição económica da arte parnasiana e tam-
te, só êle é capaz de apresentá-las com o realismo da verda^ bém da arte de Flaubert, modelando e remodelando os seus
de, pela ironia objetiva da sua arte estilística. Daí o estilo romances durante cinco, sete e dez anos, sem necessidade
tem função dupla: a função analítica do desmascaramen- urgente de publicá-los. Daí o parnasianismo de Flaubert,
to e a função ativa da "éducation". A Êducation sentimen- tão manifesto nas frases ciseladas da exótica Herodias; no
tale dá testemunho da impossibilidade de reunir essas duas panorama da história das religiões, na Tentation de Saint
funções. Balzac, narrador sem preocupações estilísticas, Antoine; na poesia arqueológica de Salambô. Flaubert rea-
profetizara a vitória da burguesia; nos romances de Flau- lizou o seu ideal de romance cientificamente documentado,
bert, os burgueses balzaquianos estão fracassando. Conti- realizando o ideal de "poesia científica" do parnasianismo,
nuou o desprezo romântico do mundo, quer dizer, do mundo mas experimentando também a desgraça da doutrina: Sa-
lambô é um romance arqueológico sem sentido histórico,
burguês. um romance sem sentido humano. " C é t a i t à M e g a r a . . . " ,
Daí d mania de estilista de Flaubert, as suas lutas ín- eis a frase magnificamente musical com que a obra começa;
timas, às vezes durante uma noite inteira em torno de um mas que nos importa o que aconteceu em Megara? E quem
único adjetivo, o trabalho de semanas numa única página. sabe se aconteceu realmente assim em Megara? O problema
A ilusão romântica estava destruída; uma forma artística do romance histórico, colocado nos devidos termos, pela pri-
como que eterna devia fixar a renúncia à ilusão. Flaubert meira vez, por Manzoni, foi resolvido por Flaubert, e em
acreditava nesse poder da arte com o fervor de um místico; Kentido negativo. A tentativa da reconstituição do passedo,
e essa fé na onipotência da arte é tipicamente romântica em Salambô, foi desmentida pela impossibilidade de verifi-
Mais uma vez, revela-se o romantismo secreto, clandestino, car exatamente o que "aconteceu em Megara". Acontece,
como porta para sair do prosaísmo parnasiano. porém, que La tentation de Saint Antoine também é um r
O elemento romântico no parnasianismo é justamente o •nce histórico, o de todas as religiões; que L'édusai:
"*Tart pour 1'art", que era o instrumento de trabalho de
Plaubert. Mas como seria possível esse romantismo estilís-
2206 OTTO M A R I A CARPKAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2207
sentimentale também é um romance histórico, o da França de Fiaubert, são, conforme a expressão feliz do crítico ame-
romântica e burguesa; que Madame Bovary também é um ricano Trilling, os dois santos mártires da literatura. —
romance histórico, o da província francesa sob o Segundo Fiaubert ainda pode "ajudar-nos."
Império. Enquanto não foram concebidos como romances E já "ajudou" muito. Pois "Madame Bovary" é a "ma-
históricos, tornaram-se tais, pelo génio épico de Fiaubert. ravilha do mundo" entre todos os romances. É o primeiro
E m horas lúcidas, Fiaubert sentiu toda a sua literatura romance rigorosamente construído como um poema. A re-
como falida. O mundo pertence à "betise humáine"; mas a leitura e a re-releitura sempre foi descobrir concatenações
própria literatura também é uma "bêtise", talvez a maior inesperadas. Quanto à arte da estrutura, "Madame Bova-
de todas, e certamente, conforme Leopardi, "la piú sterile r y " situa-se entre a "Divina Commedia" de Dante e o "Ulys-
delle professioni". Se o mundo é o cosmos da "bêtise hu- ses" de Joyce. É o precursor do romance poemático mo-
maine", a literatura realista é o museu parnasiano das "bê- derno. Mas seu autor acabou, como Dante e Joyce, em exí-
tises humaines" tragicamente incuráveis. O caso dos dois lio amargo.
imbecis Bouvard et Pécuchet, cujo zelo em documentar-se Fiaubert acabou em desespero, porque, como artista,
tem cheiro suspeito de auto-ironia, é o do próprio lucidís- era incapaz de fazer concessões, de concluir um "compro-
simo Fiaubert. Mas o supremo documento da auto-análise misso". Depois de Fiaubert, haverá só uma alternativa: ou,
suicida de Fiaubert é sua correspondência. Ali, a ironia sacrificar a poesia à ciência, criando-se em vez de uma poe-
que pretendeu derrubar o romantismo, revela-se como arma sia científica uma ciência poética — as grandes obras his-
do romantismo — fora Friedrich Schlegel que criara esse toriográficas de Taine, que são na verdade romances ten-
conceito. A fé romântica no poder construtivo da arte e a denciosos; ou então, sacrificar a ciência à poesia, deforman-
í é romântica no poder destrutivo da ironia anularam-se re- do-se a realidade conforme as leis de uma poesia menor,
ciprocamente. É isso o que a crítica moderna censura no melancólica ou humorística. Eis o "compromisso vitoriano"
estilo de Fiaubert. De dois estilos dispõe a língua francesa: na França, a arte menor de Ferdinand Fabre e Alphonse
do estilo analítico, seja de Pascal, seja de Bossuet, seja de Daudet.
Voltaire; e do estilo ativo, seja de Molière, seja de Sten- Ferdinand Fabre ( 80 ) não desempenhou papel de pre-
dhal, seja de Balzac. Fiaubert fêz a tentativa de reunir os cursor — não era bastante original para isso — nem era um
dois estilos, tentativa irrealizável. Cada uma das suas fra- atrasado, porque forte e independente. Acompanhou, em
ses, cada um dos seus parágrafos é impecável; Fiaubert certo isolamento, a evolução de Fiaubert a Zola, sem tirar
escreveu as páginas mais perfeitas em prosa francesa. O as consequências radicais nem daquele nem deste; eis o que
conjunto dos seus romances, por mais admirável que seja o caracteriza como escritor de "compromisso". Fabre espe-
a construção novelística, ressente-se daquela incongruên- cializou-se num ramo pouco explorado da vida provinciana:
cia etilística. A insatisfação permanente de Fiaubert consi- a vida do clero. Descreveu com mestria os tipos diferentes,
go mesmo não estava de todo injustificada. Em vão, Fiau-
bert retirou-se para o convento do seu palacete, levando a 80) Ferdinand Fabre, 1830 — 1898.
vida de um "monje das letras"; o problema "verdade ou Les Courbezon (1862); Vatíbé Tigrane (1873); Mon onde Célestin
(1881); Lúcifer (1884).
ficção" estava tão irresolúvel como o problema parnasiano J. Barbey d'Aurévilly: Ferdinand Fabre. (In: Le Roman contem-
"ciência ou poesia". Bouvard e Pécuchet, os heróis imbecis porain. 3." ed. Paris, 1902).
ffi. Gosse: French Profiles. London, 1905.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2209
2208 OTTO M A R I A CARPEAUX

sa francesa. Na sua situação de um provinciano no ambien-


do pobre vigário de aldeia até o cónego ambicioso que pre-
te meio hostil da capital, havia todos os elementos de um
tende tornar-se bispo. Como realista da estirpe de Flau-
grande conflito. Mas este não se revela na obra de Dau-
bert, viu as misérias, imbecilidades, mesquinhezas; como
det. Estava indeciso. Zombou dos seus conterrâneos me-
escritor de "compromisso", não tirou conclusões anticleri-
ridionais: em Tartarin de Tarascon, da sua capacidade de
cais. No fundo, continuou, com maior força viril, a tradição
do conto rústico; às vezes, como em L'abbé Tigrame, chegou mentir jocosamente; em Numa Roumestan, do seu talento
a uma monumentalização que lembra a Gotthelf. Contudo, verbalista e charlatanismo político; mas continuou a ado-
o seu ' T a r t pour l'art" realista nunca ofende; e talvez por rar a sua terra, preferindo-a às ruas de Paris. Tornou-se
isso seja que Fabre está hoje injustamente esquecido. moralista à maneira de Augier, advertindo contra o perigo
da corrupção da família em Fromont jeune et Risler ainé
Como autor rústico, Fabre é fatalmente regionalista:
e da corrupção da mocidade em Sappho; esses dois roman-
o seu objeto não é o clero da França, mas só o clero da re-
ces, os seus melhores, são panoramas brilhantes da grande
gião de Bedarieux. O regionalismo, ocupando-se às mais
das vezes de províncias atrasadas, permite evitar certos pro- cidade, que era afinal a capital da pátria de Daudet, nacio-
blemas atuais, facilitando deste modo o "compromisso". Re- nalista fervoroso. O moralismo de Daudet não é profundo,
gionalista foi e continuou sempre Alphonse Daudet ( 8 1 ), o tampouco como a sátira fácil de Les róis en exil e do
representante principal do romance realista, moderado, na Immortel. O provençal e reacionário Daudet era um escri-
época de Zola; por isso, parecia um flaubertiano que não tor brilhante, tocando com virtuosismo todos os registros
quis dar o passo decisivo para o naturalismo. Mas, com qua- do esprit e do sentiment, um grande causeur. Mas de modo
se toda a sua obra, é Daudet um contemporâneo de Flaubert, algum um grande romancista. Das suas obras tem Jack,
assim como Zola aliás; e em vez de dizer que não "quis", a história comovente de uma criança infeliz, as maiores pos-
será melhor dizer que não podia. Assim como nos contos da sibilidades de ressuscitar.
bua mocidade e na Arlésienne, foi sempre um regionalista A França do século X I X deu à literatura de ficção no-
da Provença, admirador de Mistral, um "félibrien" em pro- velística um Stendhal, um Balzac, um Flaubert, um Zola.
Significaria diminuí-los, associando-lhes um Daudet. Para
cstabelecer-lhe a categoria, será bastante desmentir a com-
81) Alphonse Daudet, 1840 — 1897. paração frequente com Dickens, com o qual não tem pouco
Le Pettit Chose (1868); Lettres de mon moulin (1869); U Arlésienne
(1872); Les aventures véritables ãe Tartarin de Tarascon (1872); em comum senão o "compromisso"; mas Dickens, vindo de
Contes du lundi (1873); Fromont jeune et Risler ainé (1874); época anterior, aceitou a situação encontrada, e Daudet é
Jack (1876); Le Nabab (1877); Les róis en exil (1879); Numa Rou-
mestan (1880); Sappho (1884); L'Immortel (1888). o próprio autor do "vitorianismo francês", criando um na-
Edição da Librairie de France, 20 vols., Paris, 1929/1934. turalismo reacionário. "La Republique será naturaliste, ou
L. Diederich: Alphonse Daudet, sein Leben und seine Werke. Ber-
lin, 1900. tile ne será pas", dizia Zola; "La Republique será conser-
P. Marguerite, V. Marguerite, G. Geffroy e outros: Alphonse Dan- vative, ou elle ne será pas", dissera Thiers. Daudet tentou
det. Paris, 1908.
E. Fricker: Alphonse Daudet et la société du second Empire. Pa- reconciliar., os dois conceitos, com o resultado de todas as
ris, 1938. tentativas assim. O seu moralismo é reação de um burguês
J. E. Clogenson: Alphonse Daudet, peintre de son temps. Paris,
1946. provinciano, decepcionado pela industrialização e democra-
G. Benoit-Guyod: Alphonse Daudet, son temps, son oeuvre. tização do país. Em vez de compará-lo a Dickens, propõe-se
Paris, 1947.
G. V. Dobie: Alphonse Daudet. London, 1949.
OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2211
2210

antes a comparação com De Amicis, cujo Cuore é o pondant de companheiros de nível médio ou baixo. A tradição ro-
de Jack, de Daudet, e que também sabia acertar aspectos mântica acabou com o colapso de Gogol; e a crítica que
humorísticos, da vida militar na Itália desiludida depoii da saudara essa catástrofe, conseguiu impedir a formação de
unificação nacional. Também se sugere a comparação com uma nova tradição literária. Aqueles três grandes escrito-
Palácio Valdês ( 8 2 ), que revela analogias certíssimas com Tes estavam isolados porque trabalhando num país apaixo-
Daudet e continuou, por meio de várias traduções, um dos nadamente hostil à literatura.
autores preferidos de Léon Daudet e da gente da "Action O primeiro responsável foi Bielinski ( 8;1 ), o maior dos
Française". O ambiente psicológico do espanhol também é críticos literários russos. No começo fora eslavófilo, orto-
parecido: o aburguesamento cinzento na época da restau- doxo, nacionalista, admirador de Puchkin. Em Gogol, sau- «
ração dos Bourbons; apenas Palácio Valdês é menos com- dou o continuador do grande poeta; mas o Capote abriu-lhe,
bativo porque veio depois do experimento malogrado da como à Rússia inteira, os olhos. Interpretou o conto como
República Espanhola, enquanto Daudet ia ao encontro da a verdadeira volta à alma do povo russo e à realidade da
democratização pelos dreyfusistas. Aburguesamento e de- Rússia; e ao mesmo tempo substituiu as esperanças herde-
silusão são os motivos social e psicológico da chamada li- rianas de um grande futuro da raça eslava pela dialética
teratura realista. hegeliana. E r a m os dias nos quais o jovem Dostoievski,
Os mesmos motivos desempenharam papel importante outro protegido de Bielinski e autor dos Pobres, novela
na evolução da literatura russa: o aburguesamento realizou- gogoliana, frequentava os círculos revolucionários. Em bre-
se, ou antes começou pelas reformas liberais do tzar Ale- ve, porém, Bielinski devia reconhecer seu engano com res-
xandre I I , sobretudo a abolição da servidão dos camponeses peito a Gogol; à Correspondência com amigos do romancis-
em 1861; a desilusão, ali, era de uma classe correspondente ta, o crítico respondeu com uma famosa carta aberta, decla-
aos rentiers europeus: os proprietários de terra, meio-aristo- rando a guerra a todas as tendências conservadoras na lite-
cráticos. Sob o regime despótico do tzar Nicolau I, excluí- ratura e proclamando a substituição do romantismo reacio-
dos da vida pública, foram eles que se sentiam "inúteis" nário pelo realismo de tendências sociais; a própria razão
como o Eugénio Onegin de Puchkin, tornando-se propagan- de ser da literatura seria a descrição realista e impressio-
distas do liberalismo. Depois da grande reforma, a sua "inu-
nante dos sofrimentos do povo, para criar a mentalidade re-
tilidade" agravou-se economicamente; e a "literatura dos
volucionária.
proprietários rurais" tornou-se auto-acusação anti-românti-
ca e nostalgia neo-romântica. A consequência imediata dessa atitude era a formação
Essa constelação produziu pelo menos três escritores de de uma literatura que não quis ser literatura e. sim propa-
primeira ordem — Gontcharov, Turgeniev e Saltykov — ganda. No fundo, isso não era anti-romantismo, e sim "ro-
mas não uma corrente literária de que se pudesse acompa- mantismo social" no sentido dos franceses, baseado no so-
nhar a evolução. Foi então que a literatura russa começou cialismo utopista do "jovem hegelianismo", mas sem ca-
a afigurar-se aos estrangeiros como se fosse composta só pacidade de chegar à conclusão final, ao marxismo. Está
de alguns poucos grandíssimos autores, desacompanhados

82) Cf. "Romantismos de oposição", nota 108. 63) Cf. "Romantismos de evasão", nota 164.
2212 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2213

assim traçado o caminho de Herzen ( 8 4 ), escritor genial que civilização ocidental por uma grande revolução russa e es-
não se realizou plenamente. Nos seus começos é inconfun- lava: manifesto anti-romântico de um revolucionário que
dível a influência do romantismo francês, sobretudo de não era capaz de esquecer o romantismo eslavófilo. A ação
George Sand, então o escritor estrangeiro mais lido na positiva do socialista Herzen exerceu-se através da revista
Rússia. As ideias emancipatórias e meio socialistas da clandestina Kolokol, redigida e impressa em Londres, li-
Sand enchem o romance De Quem é a Culpar, que seria díssima e muito influente na Rússia durante os primeiros
um panorama admirável da Rússia patriarcal, se não fosse, anos do governo do Tzar Alexandre I I , este mesmo leitor
ao mesmo tempo, um panfleto político contra a servidão; assíduo do periódico contrabandeado. Mas os resultados
e seria admirável como panfleto político se a crítica do que a propaganda de Herzen conseguiu, eram todos no sen-
autor não fosse visivelmente influenciada pelos seus ressen- tido do liberalismo: abolição da servidão, autonomia ad-
timentos de filho ilegítimo de um latifundiário. A con- ministrativa dos distritos, tribunal do júri. Abriram-se as
dição social de Herzen, embora homem rico, foi a dos in- portas à mobilização do capital agrário e ao aburguesamen-
telectuais pequeno-burgueses alemães de então; foi êle o to na Rússia. E Herzen foi coerente, tirando a extrema
primeiro russo que interpretou o hegelianismo de maneira consequência do seu socialismo liberal ou liberalismo so-
esquerdista, sem recorrer às esperanças humanitárias, herde- cialista: tornou-se partidário de Bakunin, anarquista. En-
rianas, e sim conforme as doutrinas alemãs. O seu radica- tão já tinha perdido a influência na Rússia. Era um homem
lismo tipicamente eslavo chegou do eslavofilismo imedia- fracassado. A sua impressionante autobiografia, O meu pas-
tamente ao materialismo de Feuerbach. Mas não chegou sado e pensamento, parecia a um crítico revelar "um Pro-
nem um passo mais adiante. Herzen exilou-se para a Eu- meteo idealista, preso ao rochedo do materialismo"; tam-
ropa, sua terra de promissão, onde experimentou logo as- bém poder-se-ia dizer, um socialista preso ao romantismo
conseqúências da revolução malograda de 1848. Contra essa eslavo. Herzen é algo como representante de uma boémia
do socialismo, boémia constituída pelos grupos de russos
Europa, que lhe parecia incapaz de levantar-se, lançou,
exilados nas capitais europeias.
primeiro em língua alemã, o grande panfleto Vom anderen
Ufer (Do Outro Lado), profetizando o fim apocalíptico da Herzen é o primeiro grande representante da Intelli-
gentzia russa. Usa-se essa ortografia, transcrição mais ou
menos fiel das letras russas, para evitar confusão com a
84) Alexi Ivanovitch Herzen, 1812-1870. palavra "inteligência" que é evidentemente outra coisa.
De quem é a culpa? (1847); Do outro lado (.Vom anderen Ujer)
(1850); Kolokól (1857/1869); O meu passado e pensamento (1875/ A literatura russa do século' X I X teve que desempe-
1879) . nhar várias funções, além da literária propriamente dita:
Edição por S. Lemke, 22 vols., Petersburgo, 1917/1923. era jornalismo, num país em que não existia imprensa li-
O. Sperber: Die sozialpolitischen Ideen Alexander Herzens. Leip-
zig, 1894. vre; era tribuna política, num país em que não havia par-
K. Levin: Alexi Herzen. 2.a edição. Moscou, 1922. (Em língua lamento; era cátedra universitária, num país em que as
russa.) Universidades eram fiscalizadas por sargentos de Polícia;
J. Steklov: Herzen. Moscou, 1923. (Em língua russa.)
R. Larry: Alexandre Herzen. Paris, 1929. era púlpito, num país em que a própria Igreja estava muda.
E. H. Carr: The Romantic Exiles. London, 1933. Todas essas funções foram desempenhadas pela classe dos
J. Florovski: Die Sackgassen der Romantik. (In: Orient und. que escreviam, mais numerosa do que o grupo de autores de
Occident, 4, 1935).

2214 OTTO M A M A CARPEAUX


HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2215

poesias e romances. Essa classe é a Intelligentzia, isto é : pcqueno-burgueses das cidades e, mais, um terceiro grupo
os homens de cultura superior que, excluídos da vida públi- que é difícil definir: digamos, por enquanto, "o êxodo ru-
ca, fizeram oposição sistemática, divulgando suas ideias no ral dos intelectuais". Ideologicamente, a Intelligentzia tam-
disfarce de obras de ficção e de poesia, burlando a censura, pouco era homogénea. Mas a grande divergência entre os
influenciando a opinião pública, reivindicando (e, às ve- "eslavófilos", que pretenderam conservar o caráter nacional
zes, conseguindo) reformas e preparando, deliberada ou in- e> religioso da Rússia, e os "ocidentalistas" que pretende-
voluntariamente, revoluções. A Intelligentzia não é um fe- ram europeizar o país, essa divergência já não era tão agu-
nómeno especificamente russo e não é só do século X I X . da por volta de 1850. No fundo, todos eram ocidentalistas:
Também constituíram uma Intelligentzia os philosophes e desejando reformas. Mas também eram todos, no fundo,
encyclopedistes franceses do século X V I I I , lutando contra eslavófilos, atribuindo à Rússia a missão de salvar a huma-
o Ancien Regime e preparando ideologicamente a Revolu- nidade corrompida. Alguns membros da Intelligentzia vol-
ção. E nem sempre se trata de luta contra um regime des- tarão mesmo, mais tarde, a um eslavofilismo radicalizado:
pótico. A Intelligentzia norte-americana dos anos de 1920 será o pan-eslavismo. E esse radicalismo é característico, in-
revoltou-se contra o governo democrático de uma maioria. dependente da sua tendência para a Esquerda ou para a
Mas tampouco se trata de simples oposição de um grupo. Direita. A Intelligentzia foi, no início, quase homogenea-
De Intelligentzia, naquele sentido, só se pode falar quando mente liberal; depois, radicalizou-se cada vez mais, sob a
os intelectuais de um país a integram de maneira compacta, Influência dos intelectuais pequeno-burgueses das cidades,
não havendo oposição contra essa oposição. É o que acon- os precursores do socialismo russo: Tchernichevski, Do-
teceu na Rússia do século XIX, explicando o enorme poder broliubov, Pisarev. Continuavam liberais os latifundiários
exercido por essa classe sem poder, que criou a grande li- aristocráticos como Turgeniev e Gontcharov; mas entre
teratura russa ( 8 4 - A ). C-les também surgiram radicais, embora de tendência dife-
rente, como Tolstoi. Houve, enfim, aquele terceiro grupo:
A Intelligentzia não foi, portanto, um grupo entre ou-
espécie de "êxodo rural de intelectuais", isto é, membros
tros grupos, mas uma classe: a dos intelectuais, no senti-
da classe rural que por este ou aquele motivo tiveram de
do em que Cari Mannheim considera como classe os inte-
I se separar da sua classe. São os mais radicais dos radicais.
lectuais. Mas é preciso advertir contra um equívoco: as
Têm que fugir para o estrangeiro. São os Herzen e Ba-
"classes" literárias não coincidem com as classes da socie-
kunin: os anarquistas.
dade ( 84 * B ). Na Intelligentzia russa do século X I X havia
os latifundiários aristocráticos e seus filhos, os intelectuais
Herzen pertencia à "boémia política" dos russos que
Viviam exilados na Suíça, em Londres e outras cidades eu-
rooéias. Desde a "falência" de Herzen, o chefe dessa boé-
84A) M. Zdzilchowski: Die Graundprobleme Russlanãs. Leipzig, 1907. mia era Bakunin ( 8 5 ), este já não escritor, ou, quando mui-
D. Ovsianko-Kuiikovski: História da Intelligentzia russa. Mos-
cou, 1908. (Em língua russa.)
Th. G. Massaryk: Russland und Europa. Jena, 1913.
Th. G. Masarky: Russland und Europa. Jena, 1913. ) Mikail Alexandrovitch Bakunin, 1814 — 1876.
grad, 1924. (Em língua russa.) P. Nettlau: Das Leben Michail Bakunins. 3 vols. London, 1896/
84B) G. Zonta: Storia delia letteratura italiana, vol. IV. H. cap. 2., To- 1000.
rino, 1932. Rlc. Huch: Michail Bakunin und die Anarchie. Leipzig, 1923.
81. H. Carr: Michail Bakunin. London, 1937.
2214 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2215

poesias e romances. Essa classe é a Intelligentzia, isto é : pequeno-burgueses das cidades e, mais, um terceiro grupa
os homens de cultura superior que, excluídos da vida públi- que é difícil definir: digamos, por enquanto, "o êxodo ru-
ca, fizeram oposição sistemática, divulgando suas ideias no ral dosintelectuais". Ideologicamente, a Intelligentzia tam-
disfarce de obras de ficção e de poesia, burlando a censura, pouco era homogénea. Mas a grande divergência entre os
influenciando a opinião pública, reivindicando (e, às ve- "eslavófilos", que pretenderam conservar o caráter nacional
zes, conseguindo) reformas e preparando, deliberada ou in- e religioso da Rússia, e os "ocidentalistas" que pretende-
voluntariamente, revoluções. A Intelligentzia não é um fe- ram europeizar o país, essa divergência já não era tão agu-
nómeno especificamente russo e não é só do século X I X . da por volta de 1850. No fundo, todos eram ocidentalistas:
Também constituíram uma Intelligentzia os philosophes e desejando reformas. Mas também eram todos, no fundo,
eslavófilos, atribuindo à Rússia a missão de salvar a huma-
encyclopédistes franceses do século X V I I I , lutando contra
nidade corrompida. Alguns membros da Intelligentzia vol-
d Ancien Regime e preparando ideologicamente a Revolu-
tarão mesmo, mais tarde, a um eslavofilismo radicalizado:
ção. E nem sempre se trata de luta contra um regime des-
será o pan-eslavismo. E esse radicalismo é característico, in-
pótico. A Intelligentzia norte-americana dos anos de 1920
dependente da sua tendência para a Esquerda ou para a
revoltou-se contra o governo democrático de uma maioria.
Direita. A Intelligentzia foi, no início, quase homogênea-
Mas tampouco se trata de simples oposição de um grupo.
* mente liberal; depois, radicalizou-se cada vez mais, sob a
De Intelligentzia, naquele sentido, só se pode falar quando
influência dos intelectuais pequeno-burgueses das cidades,
os intelectuais de um país a integram de maneira compacta,
os precursores do socialismo russo: Tchernichevaki, Do-
não havendo oposição contra essa oposição. É o que acon- broliubov, Pisarev. Continuavam liberais os latifundiários
teceu na Rússia do século XIX, explicando o enorme poder aristocráticos como Turgeniev e Gontcharov; maa entre
exercido por essa classe sem poder, que criou a grande li- cies também surgiram radicais, embora de tendência dife-
teratura russa ( 8 4 - A ). rente, como Tolstoi. Houve, enfim, aquele terceiro g r u p o :
A Intelligentzia não foi, portanto, um grupo entre ou- espécie de "êxodo rural de intelectuais", isto é, membros
tros grupos, mas uma classe: a dos intelectuais, no senti- da classe rural que por este ou aquele motivo tiveram de
do em que Cari Mannheim considera como classe os inte- te separar da sua classe. São os mais radicais dos radicais.
lectuais. Mas é preciso advertir contra um equívoco: as Têm que fugir para o estrangeiro. São os Herzen e Ba-
"classes" literárias não coincidem com as classes da socie- kunin: os anarquistas.
dade ( 84 " B ). Na Intelligentzia russa do século X I X havia
os latifundiários aristocráticos e seus filhos, os intelectuais Herzen pertencia à "boémia política" dos russos que
viviam exilados na Suíça, em Londres e outras cidades eu-
ias. Desde a "falência" de Herzen, o chefe dessa boé-
i
84A) M. Zdzilchowski: Die Graundprobleme Russlands. Leipzig, 1907. mia era Bakunin ( 8B ), este já não escritor, ou, quando mui-
D. Ovsianko-Kulikovski: História da Intelligentzia russa. Mos-
cou, 1908. (Em língua russa.)
Th. G. Massaryk: Ricssland und Europa. Jena, 1913. Mlkail Alexandrovitch Bakunin. 1814 — 1876.
Th. G. Masarky: Russland und Europa. Jena, 1913.
grad, 1924. (Em língua russa.) P. Nettlau: Das Lében Michail Bakunins. 3 vols. London, 1896/
84B) G. Zonta: Storia delia letteratura italiana, vol. IV. H. cap. 2., To- Rio. Huch: Michail Bakunin und die Anarchie. Leipzig, 1923.
rlno, 1932. B, H. Carr: Michail Bakunin. London, 1937.
2216 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2217

to, panfletário em língua francesa ou alemã. O papel de não convencem. O próprio autor só escolheu o género para
Bakunin no movimento socialista europeu foi efémero e poder discutir com relativa liberdade o problema que foi
funesto. Iniciou-se, o que é significativo, com a sua parti- e é o problema primordial da Rússia: "Que fazer?". Fa-
cipação no congresso pan-eslavo de Praga, em 1848; con- zer alguma coisa, realizar algo de útil ou preparar as reali-
tinuou com a sua oposição contra Marx no seio da Primei- zações futuras, só isso parecia importante no imenso país
ra Internacional; e acabou nas associações anarquistas, meio da indolência sonolenta, da filosofia do "não adianta", do
românticas, dos trabalhadores do Jura, na Suíça, e na Itá- "nitchevo". Movimentar o país para preparar a revolução
lia meridional. O papel de Bakunin na Rússia foi grande socialista. Tchernichevski e os seus discípulos opuseram ao
e negativo num outro sentido: revelou, conforme a ex- eslavofílismo meio oriental o "ocidentalismo" mais radical. ^
pressão de Florovski, "os becos sem saída do romantismo". O programa era a europeização da Rússia. Falava-se em
Com Herzen e Bakunin acaba o hegelianismo russo, que continuar a obra de Pedro, o Grande, interrompida pelo
sempre fora meio eslavófilo. Inicia-se a época do positivis- romantismo. A Europa dera o exemplo. Mas a Europa de
mo, mais do inglês de Mill do que do francês de Comte, e 1860 não era socialista, e era radical só num sentido quase
do utilitarismo; quer dizer, do radicalismo político, que se oposto: a industrialização continuou com velocidade ver-
julgava socialista, mas serviu, nesse momento histórico, tiginosa. Os mestres de Tchernichevski — como tradutor
às aspirações da burguesia. e divulgador exerceu grande influência — eram Mill, Bu-
ckle, Darwin. O utilitarismo, esse pesadelo dos intelectuais
O grão-mestre do radicalismo russo foi Tcherniche- ingleses, parecia panaceia aos intelectuais russos.
vski (8<J). Assim como nos casos de Herzen e Bakunin, a
"O que fazer?" — também se perguntou isso aos poetas.
obra realizada não justifica a grande influência. Mas a
Da existência de Tiutchev, vivendo em exílio diplomático,
época era antiliterária. Era de conversas teóricas, prepa-
ninguém sabia. Feth foi ridicularizado. O poeta da Rús-
rando ações revolucionárias. Essas conversas constiuem o
sia radical era Nekrassov ( 8 7 ). Conhecedores fidedignos
único, e pálido, encanto do seu romance O Que Fazer?:
afirmam que Nekrassov era um poeta nato, só desviado
aquelas discussões noturnas, intermináveis, de estudantes e
da arte pela doutrina da poesia propagandística. O seu
outros intelectuais russos sobre revolução, socialismo, amor
maior poema, Quem vive feliz na Rússia?, não justifica exa-
livre e Deus, que constiuem parte essencial da literatura
tamente aquela apreciação: é uma sátira política e social
russa do século X I X e serão imitadas em toda a literatura
contra a Rússia da servidão, então já abolida, em versos du-
do naturalismo europeu. Tentativas recentes de descobrir
grande arte de construção novelística em O Que Fazer?
87) Nikolai Alexeíevitch Nekrassov, 1821 — 1876.
Poesias (1861, 1863); Quem vive feliz na Rússia? (1889 1877); Mu-
lheres russas (1872.)
86) Nikolai Gavrilovitch Tchernichevski, 1828 — 1889. Edição por N. A. Tchukovski, 2.ft ed., Moscou, 1928.
Que jazer? (1863) G. N. Sakulin: Nekrassov. Leningrado, 1822. (em língua russa)
G. V. Plekhanov: Tchernichevski. 2.a ed. Moscou, 1924. (em lín- B. Lichenbaum: Através da literatura. Leningrado, 1924. (em
língua russa)
gua russa)
J. Steklov: Tchernichlvski. 2.ft ed. Moscou, 1828. (Em língua russa). A. Kubikov: A poesia ãe Nekrassov. Moscou, 1928. (em língua
russa)
J. Silberstein: Bielinski und Tchernichevski. (In: Jahrbuecher S. Jevgeniev-Maximov: Nekrassov e seus contemporâneos. Mos-
fuer Kultur und Geschite der Slaven, N. F., VII, 1831.) cou, 1930. (em língua russa)
N. Beltchikov: Nikolai Ganrilovitch. Tchernichevski. Biografia Oh. Corbet: Nekrassov, 1'homme et le poete. Paris, 1949.
critica. Moscou, 1947. (em língua russa)
2218 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2219

ros e expressões triviais. Há, aliás, quem defenda a tese de derna. Esse trabalho de revisão foi realizado pelos jovens
Nekrassov ter adotado deliberadamente o estilo de "chan- críticos Dobroliubov e Pissarev (HH). O mais radical foi
sonnier" vulgar, para fins satíricos. As poesias de tamanho Pissarev; o seu ataque violento contra "o inútil poeta" Pu-
menor, embora antes baladas do que líricas e sempre de ten- chkin, em 1865, marcou época: a época da prosa. No ter-
dência abolicionista, revelam uma eloquência notável e for- reno da crítica literária foi Pissarev exatamente o que no
te sentimento humanitário, lembrando às vezes a Victor terreno político se chamava "nihilista": defendendo a dou-
Hugo. Os cesteiros, O Frio, Os miseráveis, gozam até hoje trina conforme a qual era preciso destruir tudo o que exis-
de popularidade imensa; mas é duvidoso se contribuíram te para poder construir o futuro. Não chegou a tanto o
muito para a formação do gosto poético na Rússia. Nekras- crítico Dobroliubov, que sabia fazer análise sociológica de
sov não encheu a lacuna entre Puchkin e Anenski, entre a obras literárias. Num famoso estudo, O Reino das Trevas,
poesia romântica e a simbolista; antes é ele o responsável serviu-se dos dramas de Ostrovski como pretexto para de-
pela mediocridade de poesia russa durante meio século. nunciar o atraso asiático da Rússia patriarcal; e o mesmo
Talvez tivesse sido melhor propagandista em prosa; pelo panorama sinistro constitui o fundo da sua crítica do Oblo-
menos revelou habilidade considerável na fundação e dire- mov, de Gontcharov.
Ção de jornais e revistas, ganhando fortuna e até riqueza.
Não é sem significação esse fato, considerando-se que o Gontcharov (8t>) é, para a literatura universal, o autor
poeta radical defendeu, durante a vida inteira, só uma re- de um livro só, do romance Oblomov: um dos maiores li-
forma radical: a abolição da servidão, quer dizer, a medida vros de todos os tempos. Tem elementos para agradar as
legislativa que iniciou o aburguesamento da Rússia agrá- espécies mais diferentes de leitores; mas para compreen-
ria. Nekrassov era utilitarista, em todos os sentidos. "O der bem a obra precisa-se de uma qualidade preciosa e rara
papel de embrulho em que dás um pedaço de pão ao fa-
minto, vale mais do que o papel em que foi escrito o Fausto
de Goethe" — essa frase de Nekrassov revela mais senti- 88) Nikolai Alexandrovitch Dobroliubov, 1836 — 1861.
mentalismo dickensiano do que compreensão das tarefas ci- Dmitri Ivannovitch Pissarev, 1840 — 1868.
V. Zhdanov: Dobroliubov. Moscou, 1952. (Em língua russa)
vilizadoras que também tem o socialismo, que afinal não A. Coquart: Dmitri Pissarev et Vidéologie du nihiliame. Paris,
aspira à formação de analfabetos saciados, e sim à distri- 1947.
buição justa de todos os bens da civilização. Nekrassov é, 89) Ivan Alexandrovitch Gontcharov, 1812-1891.
Uma história trivial (1847); Oblomov (1857); A queda (1868).
como anti-romântico, um "filisteu" maciço, duvidando da Edição das obras completas por S. A. Vengerov, 12 vols., Peters-
utilidade da poesia. Mas só atacou os poetas "inúteis" do burgo (1899).
A. A. Mazon: Un maitre du roman russe, Ivan Gontcharov. Pa-
seu próprio tempo, como F e t h ; não ousou atacar os "clás- ris (1914).
sicos", porque eram geralmente respeitados. "Afinal toda E. A. Liacki: Gontcharov. 4.a ed. Stockholm, 1925. (em língua
russa)
poesia de hoje é mais ou menos inútil", dizia Nekrassov, E. A. Liacki: Romance e Vida. A evolução da personalidade cria-
excluindo desse julgamento provavelmente só a sua pró- dora de Gontcharov. I. Praha, 1925. (em língua russa)
V. E. Evgenev-Maksimov: Ivan Gontcharov. Moscou, 1925 (em
pria poesia. língua russa).
L. S. Utevski: A vida de Gontcharov. Moscou, 1931 (em língua
russa).
A vitória do utilitarismo impôs à crítica uma revisão W. Rehm: Experimentum medietatis Studten zur Geistes.-und Li~
geral de todos os valores da literatura russa, passada e mo- teraturgeschichte des 19. Jahrhunderts. Muenchen, 1947.
J. Lavrin: Gontcharov. New Haven, 1954.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2221
2220 OTTO M A R I A CARPEAUX

entre os leitores modernos: de paciência. Porque em Oblo- descobri-los ébom consultar as outras obras de Gontcharov.
mov não se passa nada: ou antes, o que se poderia chamar Pertencia à classe dos senhores rurais como o seu herói pas-
sivo, sofrendo êle mesmo um pouco de "omoblovchtchina":
"ação", nesse romance, só se passa para iluminar a inação
escreveu muito pouco. Depois de uma primeira novela e do
do herói, da qual tudo depende. Oblomov, se bem que admi-
Oblomov deu só o romance A Queda, imaginação como
rando a atividade do seu amigo alemão Stolz, não se ca-
história pessoal com o panorama da época no fundo —
sará nem exercerá profissão alguma; prefere continuar a
algo como uma Éducation sentimentale russa. Repete cer-
vida sonolenta de um "senhor de engenho" russo, para o
tos motivos de Oblomov, como a inação de Raiski. Mas
qual mil servos têm que trabalhar. Êle mesmo, servido
também há outros elementos, novos, que completam de
fielmente pelo servo Zakhar, dorme e come e dorme outra
maneira indispensável aquela obra-prima. Raiski é apre-
vez e sonha, acordando só para comer e dormir mais uma
sentado como incapaz de viver porque é ou porque se jul-
vez, e assim em diante. É o romance mais "imóvel" da li- ga artista; a discussão do problema "Arte ou Vida", nesse
teratura universal; o romance do infinito enfado universal. romance, situa o autor perto do seu contemporâneo Flau-
Oblomov é um tipo daquela época: um "homem inútil", bert; Gontcharov é algo como um parnasiano russo. Mas
como fora Eugénio Onegin, mas perfeitamente arromânti- Raiski não é o personagem principal; entre os outros des-
co e por isso satisfeito consigo mesmo. Os russos criaram taca-se a avó, madame Bereskova, encarnação da Rússia
uma palavra, "oblomovchtchina", para dar nome ao seu "état antiga, com suas virtudes maternais. Esse ponto é de im-
d'âme" de abulia consumada — mas Oblomov não foi apre- portância para esclareer melhor as intenções de Gontcha-
sentado como caso clínico aos psiquiatras. Inutilidade e rov: apesar de criticar a "oblomovchtchina", não pensou em
abulia de Oblomov têm fundamento social: continuam em soluções radicais; é um liberal-conservador, que sabe apre-
função da servidão, desmoralizando o senhor de tal manei- ciar o passado. Mas nem Raiski nem a velha Bereskova es-
ra que êle acabou incapaz do trabalho de ler um livro ou tão realmente no centro. O "herói" de A queda é o enfado:
de se vestir. Oblomov é, no primeiro plano, a acusação a vida que aborrece porque nada se passa nela. Esse papel
mais terrível que se lançou contra a estrutura social da central do enfado em A queda permite descobrir o último
Rússia antes da abolição. Mas se fosse só isso, Gontcharov dos vários planos de Oblomov: o enfado como doença me-
seria o Nekrassov da prosa, e a sua obra já teria perdido tafísica do homem abandonado por Deus num Universo va-
toda atualidade, permanecendo só como documento da so- zio. É, no tempo do ateísmo feuerbachiano, o epitáfio do
ciologia histórica. Em vez disso, Oblomov, como obra de individualismo romântico.
arte, sobreviveu à abolição, cada vez mais apreciado, in-
Mas só pela análise filosófica, assim como Rehm a rea-
gressando enfim no pequeno número dos livros "clássicos"
lizou, revela-se esse plano, o mais profundo, da obra. Como
que não precisam do "interesse" do leitor, antes lhe impõem
romance realista é Oblomov o panorama simbólico da Rús-
a "suspension of disbelief". Como o Dom Quixote, como
sia de 1860, da luta entre os eslavófilos conservadores e os
todas as grandes obras da literatura universal, é Oblomov
"ocidentalistas" radicais que pretendiam renovar tudo e,
de simplicidade só aparente; a análise revela nesse roman-
•e fôr preciso, destruir tudo. Gontcharov era liberal, como
ce vários planos, unificados pela mais perfeita composição
quase todos os senhores rurais; as suas convicções políticas
novelística — o da acusação social; depois, o da desilusão tcriam-no levado par.', o lado da esquerda. Mas como esteta
flaubertiana; enfim, no fundo, a calma épica — mas para
2222 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2223

não apreciava o utilitarismo nem sequer o movimento; po- ao lado do outro, encontrando-se sem possibilidade de en-
dia dizer, com Baudelaire: " J e hais le mouvement qui tender-se. O verdadeiro personagem complementar é o ser-
déplace les lignes". Gontcharov era u m clássico, no sentido vo Zakhar, sem o qual Oblomov não podia executar as fun-
mais rigoroso da palavra; mas não chegara sem luta a esse ções vitais mais primitivas; é o "alter-ego" do "herói". A
resultado. Documento da luta é aquela sua primeira nove- composição de Oblomov não é determinada pela oposição
la, Uma história trivial, contando a história das ambições entre Oblomov e Stolz, mas pela harmonia entre Oblomov
românticas de um moço que acaba na trivialidade da buro- e Zakhar. O romance simboliza a imobilidade da sociedade
cracia. É a obra mais f laubertiana de Gontcharov, caracteri- russa, apoiada na paciência ociosa dos senhores e na paciên-
zando-o como um dos grandes escritores da desilusão euro- cia trabalhosa dos servos. Por isso, Oblomov é, no foro ínti-
peia. O prosador mais vagaroso, mais consciencioso da li- mo do romancista, superior a Stolz. Não faz nada porque
teratura russa era, como Flaubert, um desiludido do ro- não precisa fazer nada. O outro é estrangeiro; Oblomov é
mantismo; e como novo romantismo apareciam-lhe as gran-
russo.
des ambições dos radicais que acabariam um dia, pensava
éle, na mesma trivialidade. Gontcharov não era capaz de Oblomov é o representante da nação; e continuará re-
acreditar muito em Stolz, que é o personagem mais pálido, presentando-a até ser eliminado por um russo diferente, o
sem vida pesosal, do grande romance. Os russos de então de Gorki. O herói de Gontcharov, "senhor de engenho", é
adoravam a Alemanha, país da ciência crítica, da técnica sedentário até o paradoxo; os heróis-vagabundos de Gorki
utilitária, da filosofia política. Os romnces russos de então estão perpetuamente caminhando. São os homens ativos da
estão cheios de conversas sobre David Friedrich Strauss e futura revolução. Gontcharov pertence à outra família de
Fuerbach, o materialismo de Louis Buechner e os adubos escritores russos. Talvez haja entre os seus antepassados li-
artificiais de Liebig, os estudos químicos de Bunsen e o li- terários o gordo Krylov. Mas depois pioraram os tempos.
beralismo historiográfico de Mommsen. Não causa estra- Os servos serão emancipados, os senhores viverão no es-
nheza que Gontcharov tenha escolhido u m alemão como trangeiro como Turgeniev, esteta gontcharoviano; e o ne-
opositor de Oblomov. Contudo, é significativo que o único crólogo de Oblomov será escrito por Tchekhov, no Jardim
personagem ativo do romance é um estrangeiro. As sim- de cerejas. Gontcharov desconhece, porém, o esteticismo
patias de Gontcharov estão todas do lado de Oblomov, o melancólico de Turgeniev e a melancolia decadente de
fainéant mais amável do mundo, que tem, no fundo, razão Tchekhov. Não é romântico, absolutamente, e neste sen-
em não agir; porque n a Rússia não adianta nada. Simpa- tido é bem o contemporâneo de Tchernichevski e Dobroliu-
tizando com Oblomov, a cuja classe pertenceu, Gontcharov bov. Mas tampouco é realista no sentido moderno, e sim
conseguiu eliminar toda paixão denunciadora e amargura
num sentido muito antigo. O sol exuberante na sua obra
flaubertiana. A "ação" de Oblomov parece passar-se num
n8o corresponde bem à realidade russa, lembra antes as
verão permanente, de calor quase mediterrâneo — é o único
paisagens idílicas do Mediterrâneo; até o seu outono é sem
grande romance russo do século X I X sem neve nem gelo.
tristeza. A epopeia do ruralismo russo é uma obra per-
Está cheio de sol. Nessa atmosfera não há lugar para dis-
manente porque vista como que pela distância de séculos,
cussões ideológicas. Com efeito, Stolz não é o verdadeiro
Aquela "distância" pela qual se caracteriza a calma imper-
complemento de Oblomov. Os dois personagens vivem um
turbável da epopeia. Oblomov é o poema da preguiça divi-
2224 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2225

na, um poema homérico. Gontcharov realizou o que Puch- e da arbitrariedade dos senhores. O papel desse livro na
kin sonhara: em língua russa, uma obra grega. agitação pela emancipação dos servos já foi comparado à
A situação de Turgeniev ( 90 ) já é muito diferente: já repercussão de Uncle Tom's Cabin durante a luta pela li-
precisava tomar mais a sério as ideologias radicais; e pode- bertação dos escravos pretos nos Estados Unidos. Homem
se dizer que Turgeniev criou o romance ideológico da ideal, outro Stolz, mas eslavo, parecia o revolucionário búl-
Rússia. Em De Quem é a Culpa? e O Que Fazer?, as dis- garo Insarov, no romance com o título ameaçador Nas vés-
cussões sufocam a ação e tiram a vida aos personagens. Nos peras. Eis o Turgeniev dos liberais. De repente, em 1862,
romances de Turgeniev também ocorrem muitas discussões, saiu o romance Pais e Filhos, e fêz escândalo. Durante
mas estão perfeitamente enquadradas no enredo, as con- toda a segunda metade do século X I X , os europeus esta-
vicções ideológicas dos personagens misturam-se de tal vam acostumados a chamar "nihilistas" aos revolucionários
modo com os motivos pessoais que resultam criaturas vivas russos; e quase ninguém se lembrava que só o romance de
que agem e reagem e não meros porta-vozes do autor. A Turgeniev tinha popularizado aquela expressão, que desa-
doutrina do dia, porém, era a identificação entre obra e pareceu só quando os revolucionários já eram marxistas.
autor: "Com aquele romance, o romancista pretende afirmar Do ponto de vista do marxismo, os utopistas russos de 1860
isso ou aquilo"; e Turgeniev apresentou à crítica russa o parecem-se realmente mais com anarquistas do que com so-
espetáculo desconcertante de um romancista, afirmando cialistas. Em Turgeniev, porém, o termo tinha outro sen-
em cada um dos seus romances coisa diferente. tido : o niilista seria um homem para o qual só existiam
motivos de utilidade política e social, de modo que tinha
O Diário de um Caçador fêz sensação pelas descrições
um "nada", "nihil", na alma em vez dos sentimentos huma-
impressionantes da vida dos servos, vítimas da pior miséria
n o s . Pais e Filhos é a tragédia do niilista Basarov, tra-
gédia porque esse homem generoso não é capaz de viver
90) Ivan Sergeievitch Turgeniev, 1818 — 1883.
Diário de um homem supérfluo (1850); Diôrio de um caçador conforme a doutrina desumana que professa; e Turgeniev
(1852); Rudin (1855); O nido de aristocratas (1859); Nas vésperas pretende afirmar que os russos em geral, criaturas muito
(1860); Pais e filhos (1862); Fumaça (1867); Um rei Lear da estepe'
(1870); Primavera (1873); Punin e Baburin (1874); Terra vir- humanas, não serão capazes de fazer a revolução do niilis-
ginal (1876); Poemas em prosa (1878/1882); Clara Militch (1882). mo. A indignação dos radicais e até dos liberais contra o
Edição por M. M. Gerschenson, 9 vols., Moscou, 1929.
N. Borkovski: Turgeniev. Berlin, 1902. romance foi compreensível; mas teria sido menor, prestan-
E. Haumant: Turgeniev, la vie et 1'oeuvre. Paris, 1907. do-se a devida atenção aos romances precedentes: já no
N. N. Strachov: Estudos críticos sobre Turgeniev e Tolstoi. 5.*
ed. Petersburgo, 1908. (em língua russa) prin-.i:o romance, Rudin, o herói é um moço inepto que se
J. Ivanov: Ivan Sergeievitch Turgeniev. Petersburgo, 1914. (em j \ ' r génio c ao qual todcs consideram como génio porque
língua russa) *ço; "Qblomov em ação, ou antes uma mistura de Oblo-
C. Garnett: Turgeniev. London, 1917.
M. Gerschenson: O sonho e o pensamento de Turgeniev. Moscou. ->.„v e Bakunin", diz um crítico moderno. E no Nido de
1919. (em língua russa) Aristocratas, os estudantes radicais são esnobes decadentes.
J. Nikolski: Turgeniev e Dostoievski. Sofia, 1921. (em língua
russa) D e s t e modo, o autor de Pais e Filhos estava coerente con-
A. Yarmolinski: Turgeniev, the Man, his Ari and his Age. New sigo mesmo. Surpreendeu o público, porém, novamente
York, 1926. pelo romance seguinte, Fumaça, em que os conservadores
E. Damiani: Ivan Turgeniev. Roma, 1930.
M. K. Kleman: Ivan Sergeievitch Turgeniev. Vida e Obra. Le~ • l o representados como homens levianos e frívolos. E, vi-
nlngrad, 1942. (em língua russa)
D. Magarshack: Turgeniev. London, 1954.

2226 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2227

vendo em exílio voluntário durante vinte e oito anos, T u r - cências indeléveis da mocidade, passada nos grandes lati-
geniev não deixou dúvidas quanto ao seu liberalismo ina- fúndios do interior da Rússia; reminiscência que guardava
balado e sincero. e evocava a fidelidade comovida de um Proust. Como ar-
Em cada uma das suas obras o romancista ideológico tista puro, Turgeniev não tem "filosofia" definida. Não
Turgeniev se apresenta diferente. Foi defeito gravíssimo dá "statements" mas "meaning"; "sentido", em vez de "afir-
para os críticos russos; mas não para os europeus. Turge- mações". Para o romancista, nem sempre é isso vantagem;
ao contrário. Turgeniev, não tendo uma "filosofia", não
niev foi o primeiro romancista russo que se tornou famoso
sabe dar uma interpretação da vida. Os seus personagens
na Europa. Ali se conheceram pouco as discussões entre
não são porta-vozes do autor; mas também carecem de con-
eslavófilos e ocidentalistas; os europeus até não eram bem
tornos fixos, parecem desapareer nas nuvens no céu poético
capazes de distinguir entre liberais e radicais; tudo pareceu
sobre as fazendas russas de Turgeniev. Nenhum dos seus
"niilista" e tudo muito simpático. Turgeniev é, realmente,
personagens, nem sequer o próprio Basarov, encontram-se
um autor capaz de sugerir simpatias. Muito influenciado
entre as criaturas imortais do romance moderno, nenhum
por George Sand, na qual aprendeu a combinação de ten-
é lembrado como tipo permanente da humanidade. Eis uma
dências sociais e ambientes bucólicos, Turgeniev era me-
das razões por que Turgeniev, famosíssimo entre 1860 e
nos exótico do que, até então, os russos foram imaginados; 1890, não sabia manter-se no lugar ao lado de Gogol, Gont-
tinha algo do humorismo de Dickens, um dos autores de charov, Tolstoi e Dostoievski. Abre-se exceção quanto às
sua predileção, mas sem vulgaridade alguma; era um aris- personagens femininas, desenhadas com a ternura de um
tocrata afrancesado, vivendo de 1855 a 1870 na mundanís- pastelista do rococó. Ali, assim como na descrição de pai-
sima estação de águas de Baden-Baden, depois em Paris, sagens outonais e das famosas "despedidas" dos persona-
sempre acompanhando a famosa cantora Pauline Viardot- gens, o artista Turgeniev é poeta; e como poeta tinha o di-
Garcia, à qual dedicou o amor mais fiel e infeliz; mantinha reito e até o dever de dar "meaning" em vez de "state-
relação de amizade com Flaubert, com o qual se parecia ments".
pelo cuidado da elaboração artística dos romances. Se T u r -
geniev foi incoerente na ideologia, não foi incoerente na Um poeta de 1860, porém, tinha mais outros deveres.
composição. Os seus romances são os mais curtos entre os Os parnasianos mais exclusivos da Inglaterra, estavam gra-
romances russos, construídos à maneira francesa: não são vemente preocupados com os problemas religiosos, filosó-
vastos panoramas, mas dramas rápidos. Pais e Filhos é, do ficos e sociais da época; incapazes de mudar o rumo da
ponto de vista da técnica novelística, uma das grandes evolução, advertiram pelo menos, e advertiram solenemente.
Neste sentido é Turgeniev um poeta vitoriano. Discutir
obras-primas do século XIX. Turgeniev é artista. Sempre
£is ideologias e a situação social dos ideólogos e antiideólo-
se disse isso para explicar a hostilidade dos russos contra
gos era para êle um dever de responsabilidade literária; e,
êle, acostumados à literatura propagandística, e, por outro
•ssim, criou o romance ideológico, o romance que preten-
lado, a admiração dos europeus, estetas requintados ou lei-
deu responder às perguntas: "De quem é a culpa?" e "que
tores ingénuos. Turgeniev é artista, quase do *Tart pour
fazer?". Realizou aquilo que os radicais exigiram. Mas
1'art"; as discussões ideológicas só têm para êle a mesma
HK suas respostas não eram satisfatórias; e nisso também é
importância dos caracteres humanos e das paisagens; e mais
Turgeniev um vitoriano, se bem que nas condições espe-
importantes que tudo isso são, para Turgeniev, as reminis-
2228 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2229

ciais da Rússia. Turgeniev era "senhor de engenho", pro- gens e moças meio esquecidas, sabendo que tem de despedir-
prietário de terras e aristocrata, no sentido restrito em que se, depois, para sempre. Toda a poesia de Turgeniev está
havia aristocracia na Rússia tzarista. Pertenceu à classe concentrada numa cena de Fumaça: o estudante Litvinov,
contra a qual se deu o golpe mortal, abolindo-se a servidão. observando a fumaça da locomotiva que se dissolve no céu
Os "senhores de engenhos" russos eram, porém» todos li- como uma nuvenzinha — "e tudo lhe parecia fumaça, tudo,
berais; como eles, Turgeniev era liberal, ocidentalista, li- a sua própria vida, a vida russa, toda a vida humana, e so-
vre-pensador. Com ele começa a típica "literatura dos se- bretudo a Rússia i n t e i r a . . . fumaça." É a poesia de despe-
nhores de engenho": liberais, agindo contra os seus pró- dida do homem irrealizado, infeliz como o próprio Turge-
prios interesses económicos. É a literatura dos Turgeniev, niev, o poeta das esperanças malogradas de pais e filhos.
Gontcharov, Tolstoi. A explicação dessa atitude suicida Pelo sentimentalismo, muito fino aliás, distingue-se
não é fácil. Lembra-se a atitude semelhante de muitos aris- Turgeniev de Flaubert. Não é implacável como o francês,
tocratas franceses do século X V I I I e a ab-rogação voluntá- nem para consigo, nem para com os outros; e esse sentimen-
ria dos privilégios na noite do 4 de agosto de 1789. Outros talismo é tipicamente pré-romântico, correspondendo qua-
falam em remorsos da classe dominante, remorsos que se- se sempre, como na segunda metade do século X V I I I , a
riam especificamente eslavos. Mas Turgeniev também te- uma fase de pré-industrialização. Aplicada a hipótese ao
ria sido o mais europeizado de todos! Na verdade, estava caso russo de 1860, significaria: "Com a abolição da ser-
na consciência da sua classe a impossibilidade de manter vidão, nós outros, senhores rurais, restaremos inúteis"; e
a situação antiga. Turgeniev, com o seu sentimento vito- os olhos enchem-se de lágrimas, que são conforme Schope-
riano de responsabilidade, procurou sucessivamente as so- nhauer, o sinal da compaixão para consigo mesmo. A car-
luções mais diferentes, com o resultado de aborrecer a to- reira literária de Turgeniev começa com o Diário de um
dos. Tolstoi, que lhe estava próximo, tratou-o como aris- Homem Supérfluo, iniciando uma literatura inteira de "su-
tocrata antiquado, inimigo do povo. Dostoievski, do outro pérfluos", filhos de senhores rurais; deu-se sentido social
lado da barricada, reconhecera a arrière-pensée reacionária à "superfluidade" de Eugênio Onegin. Quase no fim da
cm Pais e Filhos e estava entusiasmado; depois, desdenhou carreira literária de Turgeniev está o romance Terra Virgi-
a Turgeniev como "liberal afrouxado", caricaturando-o nal, em que Solomin opõe ao estudante niilista Nechdanov
como Stepan Verkhovenski, nos Demónios. Turgeniev per- uma tese inédita: a solução do problema agrário russo está
manecia no exílio francês, porque lá havia amigos; na sua na industrialização. O conflito de consciência em Turge-
própria terra, o exílio teria sido mais amargo. Compreende- niev e na classe à qual pertencia, é. o mesmo conflito dos
se porque leu muito Schopenhauer. O seu pessimismo era o burgueses da Inglaterra vitoriana. E assim como já ressus-
de um russo muito russo, mas desterrado. Nunca podia es- citavam vários grandes romancistas vitorianos meio esque-
quecer a terra russa — daí a poesia carinhosa, "proustiana", cidos, asism chegará o dia em que será redescoberto o valor
das suas evocações de paisagens russas, de moça;, russas que <lo grande Turgeniev, que exerceu tanta influência em
conhecera nos seus dias de estudante. Quaso c:r. todos os Henry James, Proust e até em Joyce. A poesia de Turge-
romances de Turgeniev uma ou outra cena ou até grande niev, algo romântica e um pouco parnasiana, guarda o en-
parte do enredo tem como teatro uma fazenda para a qual o canto da nostalgia dolorosa; no dizer de J a m e s : " . . . the
estudante volta da Universidade, em férias, revendo paisa- mlll sad music of Turgeniev."
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2231
2230 OTTO M A R I A CARPEAUX

O fenómeno da inconstância ideológica repete-se, en- A primeira obra de Saltykov, talvez a mais popular de
fim, em Saltykov-Chtchedrin ( 9 1 ), mas de maneira tão di- todas, são os Esboços da Província, contos e crónicas, que
satirizam a vida nas pequenas cidades do interior da Rússia,
ferente que revela uma modificação radical nas bases sociais
panorama implacável da corrupção dos grandes e pequenos
da literatura russa. Saltykov era grande aristocrata como
funcionários do governo e do sistema político e social in-
Turgeniev, mas déraciné num outro sentido: já tinha per-
teiro. Saltykov mantém-se, pelo assunto e pela maneira
dido o equilíbrio económico. Não vacilou entre soluções
caricatural de tratá-lo, na tradição que Gogol criara no Ins-
contraditórias, mas. mudou realmente de partido, e várias
petor-Geral e Almas Mortas. Mas os Esboços da Província
vezes. Começou como jornalista radical, namorando ideias
têm o único fim de desmoralizar o governo e excitar a in-
socialistas. Entrou no serviço público e fez carreira sur-
dignação geral. Dos motivos profundos de Gogol não há
preendente, chegando a desempenhar as altas funções de
vestígio. O objeto principal da sátira são "os senhores Pam-
governador das províncias de Riasan e Tver. Saiu do ser-
padours", quer dizer, os governadores de província — e
viço público por "incompatibilidade de temperamento", vol- poucos anos mais tarde será Saltykov governador de pro-
tando ao jornalismo, revelando-se como o crítico mais acer- víncia. Isso não o impediu de escrever a História de Uma
bo, mais mordaz que o regime tzarista jamais teve. Fêz Cidade Conforme os Documentos Originais, em estilo de
nova viravolta para o conservantismo, mostrando-se reacio- crónica medieval, sendo a cidade de Glupov (quer dizer,
naríssimo, de modo que a sua última obra, mais uma vez "cidade dos imbecis") uma alegoria da Rússia. Essa alego-
veementemente radical, já não foi levada a sério. Mais tar- ria satírica, a mais terrível da literatura universal, come-
de, alguns críticos explicaram as mudanças de Saltykov ça, como muitas epopeias clássicas, com um sonho proféti-
como, meros subterfúgios destinados a burlar a censura com co que revela aos três fundadores da cidade — a Rússia
a qual o escritor lutou durante 30 anos; talvez todas as suas foi fundada pelos três irmãos Rurik — a história futura de
atitudes não tivessem sido "sérias". Mas as obras de Salty- Glupov — e o sonho foi tão pavoroso pesadelo que dois
kov, que acompanham as suas mudanças, são muito sérias; dos irmãos logo se suicidaram. Ao terceiro, porém, disse o
compõem o "livro negro" da literatura russa. povo: "Que te importam as mentiras historiográficas que
os nossos netos vão aprender na escola?" E o irmão sobre-
vivente fundou o Império de Glupov, para "sistematizar e
91) Mikail Jevgrafovltch Saltykov (pseud. N. Chtchedrin), 1826-1888. codificar a desordem e a violência". E assim continua a
Esboços da Provinda (1856-/1857); Esses senhores de Tachkent história de Glupov até o dia em que um grande Imperador-
(1867/1881); História de uma Cidade Conforme os Documentos
Originais (1870); A Familia Golovliev (1877); Além da Fronteira Reformador assumiu o poder, proibindo a literatura, "mes-
(1880/1881); Crónica de Pochekhonia (1883.) mo a modesta literatura dos cronistas de cidade".
Edição: 3.a ed. da edição original, 12 vols., Petersburgo, 1918/1919.
Edição critica de obras escolhidas por A. Chebaiev e J. Eichen- Edições completas das obras de Saltykov só foram pu-
baum, 6 vols., Moscou, 1926/1928. blicadas depois da revolução de 1917. Até então, havia ape-
N. K. Mikhailovski: M. Chtchedrin. Petersburgo, 1891. (em
russo) Wk as edições expurgadas pela censura tzarista. A luta
A. Pypin: Saltykov. Petersburgo, 1899. (em russo). 'Jtllicla de Saltykov com a censura tem qualquer coisa de
A. M. Mendelson: Michail Jevgrafovitch Saltykov. Moscou, 1925
(em russo). Co; é a luta do homem contra a burrice eterna. Mas os
N. Sthelsky: Saltykov and the Russian Squire. New York, 1940. ores não perceberam nada de perigoso na História de
S. A. Makachin: Saltykov-Chtchedrin. Moscou, 1949. (em russo).
2232 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2233
Uma Cidade e deixaram passar a sátira monstruosa. Con-
tudo, estavam tão acostumados a descobrir alusões em Sal- uma transição social. Essa obra, talvez a mais negra da li-
tykov, que lhe maltrataram e truncaram sobretudo as obras teratura russa, é documento de uma possibilidade perma-
nas quais a tendência era evidentemente reacionária. De- nente das relações familiares, e, mais do que isso, o do-
pois da emancipação dos servos havia uma fase de prospe- cumento de uma convicção filosófica do romancista: a
ridade efémera, fundação de numerosas indústrias e estra- grande reforma não melhorou nada, os homens continuam
das de ferro, especulação na Bolsa, venda vertiginosa de sempre os mesmos infames e imbecis. T u d o fica no mes-
ações de empresas na Ásia Central, recém-conquistada pe- mo, na Rússia e no mundo.
las tropas russas. Saltykov comentou essa evolução em Em face dessa convicção, a única à qual Saltykov ficou
Esses Senhores de Tachkent, caricaturando os financistas fiel durante a vida inteira, as suas mudanças de atitude po-
e, com eles, os utilitaristas e reformadores; reconheceu a lítica perdem muito em importância. Saltykov satiriza a
relação entre a mobilização do capital agrário e as ideolo- tudo e a todos na Rússia, porque tudo é ruim, irremediavel-
gias radicais. E em Além da Fronteira zombou dos exila- mente. Acumula as negações: "Nada não presta para nada".
dos que conspiravam, longe do perigo, nos cafés de Zuri- A sátira de Saltykov dirige-se contra o género humano in-
que e Genebra, e dos "exilados" que falaram mal da pátria teiro e contra a sua variedade russa em particular, assim
nas elegantes estações de águas da Alemanha meridional e como Swift — a comparação entre Swift e Saltykov é
da França. Enfim, Saltykov pareceu arrepender-se. Deu a usual — lançou os seus panfletos contra os ingleses em
Crónica de Pochekhonia, evocação poderosa dos tempos da particular e contra o género humano "in totum". A compa-
servidão, mostrando criaturas humanas na humilhação mais ração com Swift, as mais das vezes só empregada com res-
profunda. Mas a Crónica de Pochekhonia não é um do- peito ao estilo, abre vastas perspectivas. Swift tampouco
cumento de amor à humanidade. Disso era incapaz o psicó- mereceu a confiança dos homens do seu partido, porque, as-
logo cruel do conto "Spleen", retrato psicológico perfeito sim como Saltykov, notou, com olhos penetrantes, o mal
do romantismo dos senhores rurais, tão imbecis como todos em toda parte. Swift é, no fundo, um niilista; Saltykov é,
os outros. A Crónica de Pochekhonia é o pendant neces- entre tantos que se chamaram ou foram chamados "niilis-
sário de uma obra precedente: o romance A Família Go- tas", o único niilista verdadeiro da literatura russa. No seu
lovliev. É o único verdadeiro romance do polígrafo e ocupa conto O Pobre Lobo uiva o sofrimento de toda a criatura,
lugar isolado na sua produção imensa: é o estudo psicoló- sofrimento que. acabará só com a destruição da criação ma-
gico de uma família de réprobos, sobretudo do chefe da lograda. Como todos os grandes pessimistas que não con-
família, Juduchka, mistura monstruosa de avarícia, hipo- fiavam nos homens, Saltykov é conservador; mas um con-
servador sem confiança no passado, um conservador-des-
crisia, crueldade, infâmias de toda a espécie. O intuito do
truidor. A sua ideologia não está muito longe da de Bal-
romancista torna-se evidente: pretende demonstrar que os
zac; as suas conclusões aproximam-se das dos intelectuais
vícios dos senhores, adquiridos durante a época da sua
radicais. Desse modo, o escritor essencialmente reacioná-
dominação absoluta sobre as almas e corpos dos campone-
rio tornou-se o ídolo dos intelectuais que se constituíram
ses-escravos, se perpetuam depois da emancipação, transfor-
cm classe para realizar as suas ideias: a "Intelligentzia". A
mando os carrascos físicos de antes em vítimas morais de-
f.jUira de Saltykov contribuiu para uma nova interpretação
pois. Mas A Família Golovliev não é só o documento de
<la sátira de Gogol: O Capote, visto através da Família
2234 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2235
Golovliev, tornou-se modelo de uma nova "literatura de desgraçada dos tradicionalistas. Só então se prestou a de-
acusação". vida atenção aos romances de Alas, sobretudo a La Regenta,
O mundo europeu de 1860 não tomou conhecimento de um dos romances mais poderosos do século XIX, retrato
Saltykov. Mas ter-lhe-ia compreendido o .pessimismo. J á duma mulher católica, personagem dominadora, que se per-
estava no fim de um ciclo, voltando ao pessimismo socioló- de nas nuvens de um falso misticismo; o fundo é constituí-
gico de Balzac. Revela-se a possibilidade de um romance do pelo panorama minuciosamente descrito de uma cidade
realista de tendência conservadora; e tornar-se-á possível, de província espanhola, vida entre os dois pólos da Cate-
no tempo de Zola, até um romance naturalista de tendência dral e do Cassino. Os admiradores modernos preferem, no
cristã e católica. entanto, o outro romance, Su único hijo, em que é mais evi-
A possibilidade desse compromisso, mais um "compro- dente a imitação dos processos novelísticos de Flaubert, ao
misso vitoriano", está manifestado no grande escritor espa- passo que o resultado do processo, em Alas, está mais per-
nhol que assinou com o pseudónimo jocoso "Clarin", nome to de Ferdtnand Fabre. Esta última comparação também
do palhaço na comédia clássica: Leopoldo Alas ( l)2 ). Cla- pretende indicar que Alas não é um radical. O crítico jo-
rin tornou-se famoso pelos Folletos e Paliques, artigos coso dos poetastros académicos poupou de maneira inexpli-
destinados, em sua maioria, aos jornais humorísticos da ca- cável as falsas celebridades literárias da Restauração, os
pital que divulgaram as sátiras mordazes do solitário pro- Campoamor e Echegaray. Ao "modernismo" anti-romântico
fessor da Universidade de Oviedo. A Espanha viveu os opôs o culto, embora culto particular, de Victor Hugo. Re-
dias da Restauração monárquica, aburguesamento cinzento velou, no comovente conto Adiós, Cordera, a mais profunda
simpatia para com o povo espanhol, sempre sacrificado; mas
disfarçado de carnaval histórico da coroa de Castela. Cla-
também zombou dos republicanos fanáticos. Falou de crí-
rin perturbou o silêncio satisfeito, distribuindo golpes sa-
tica da Bíblia; mas confessou-se profundamente comovido
tíricos para todos os lados, sobretudo contra a política con-
perante os ritos da Igreja romana; e escreveu El Serlor,
servadora. Mas também revela bons conhecimentos da mo-
impiedosa análise psicológica do caso erótico de um padre,
derna ciência francesa e alemã, sobretudo da crítica anti-
mas o desfecho do conto é de autêntica elevação mís-
teológica. Defende Renan contra os ataques de um acadé-
tica. Alas-Clarín é modernista e tradicionalista ao mesmo
mico católico. O anticlericalismo — só aparente, aliás —
tempo. A última palavra da sua sabedoria encontra-se em
de Alas tornou-o simpático à geração seguinte, aos "homens
um dos seus "cuentos morales", "El sombrero de senor
de 1898" que pretenderam reformar a Espanha antiquada e cura": o vigário de aldeia tornou-se' objeto de mofas pelo
seu sombreiro antiquado; mas, alguns anos mais tarde» já
92) Leopoldo Alas (pseud. Clarin), 1852 — 1901. ninguém zomba do mesmíssimo sombreiro, que voltou a ser
La Regenta (1884); Novelas cortas (1886); Folletos literários "le dernier c r i " da moda. O realismo abriu os olhos a Leo-
(1886/1891); Su único hijo (1890); Palique (1893); Cuentos mora-r
les (1896); El Gallo de Sócrates (1901), etc. poldo Alas para ver o necessário no novo, e no antigo o eter-
Azorfn: "Leopoldo Alas". (In: Clássicos y Modernos. Madrid, 1913.) no. Conseguiu o equilíbrio perfeito dos poucos grandes hu-
P. Sainz Rodriques: Discurso sobre Clarin. Oviedo, 1921.
J. A. Balseiro: "Leopoldo Alas". (In: Novelistas espaúoles con- moristas da literatura universal.
temporâneos. New York, 1933.)
J. A. Cabezas: Clarin. El provinciano universal. Madrid, 1936.
C. Clavería: Cinco estúdios de literatura moderna. Madrid, 1949. Humor assim é raro, mas Alas não estava tão isolado
A. Brent: Leopoldo Alas and "La Regenta". Columbia, Mo., 1951. Como nos parece na perspectiva de hoje. Estava demonstra-
2236 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2237

da a possibilidade de lutar com armas modernas pelos ideais clórico elevou-a uma psicologia penetrante, herança menos
antigos; e, justamente na Espanha, essa atitude balzaquiana do naturalismo do que do catolicismo.
foi adotada por mais de um católico. Primeiro pelo jesuíta A superficialidade das relações entre estilo e ideologia
Coloma ( 03 ), tradicionalista literário como * sua mestra está ainda mais acentuada em duas escritoras italianas
Fernán Caballero, depois realista sensacional no famoso ro- que seguiram caminhos parecidos. Matilde Serao-Scarfo-
mance Pequeneces, diatribe satírica contra a sociedade grã- glio ("5), depois de ter escandalizado a sociedade italiana
fina de Madrid. Obra de um padre insatisfeito com os pela descrição de cenas eróticas, ganhou fama europeia pe-
meios tradicionais da propaganda eclesiástica, mero inci- los seus romances da vida napolitana. Era a época na qual
dente numa carreira literária, composta de livros infantis as viagens para a Itália se tornaram baratas; os recém-ca-
e romances históricos. Assim como o padre Coloma erigiu sados povoaram Veneza, os peregrinos encheram Roma e
o monumento literário a Fernán Caballero, assim o seu pró- os artistas Florença, e todo mundo repetiu em coro as can-
prio monumento literário foi erigido pela Condessa Emilia ções napolitanas nas festas do Posilippo. Os romances da
Par d Bazán ( 94 ), outro "enfant terrible" da grande socie- Serão, naturalistas mas evitando cuidadosamente os "ex-
dade espanhola; e ela, livre das limitações do padre, já con- cessos", fixaram a imagem tradicional da Nápoles pobre,
fessou a influência irresistível de Zola. A Condessa Pardo suja e alegre, Paese di cuccagna de proletários, vítimas do
Bazán lutava galhardamente pelo naturalismo na literatura jogo e da "questione meridionale". As causas dessa questão
e pelo feminismo na vida social. O tom moralizante do je- — quer dizer, do abandono administrativo e económico da
suíta estava fora das suas cogitações. Os contemporâneos Itália meridional — encontravam-se em Roma; e em dois
só perceberam, assustados, o zolaísmo em vigorosos roman- grandes romances descreveu Matilde Serão o ambiente da
corrupção parlamentar e jornalística na nova capital. São
ces regionalistas, como Los Pazos de Ulloa e La madre na-
hoje documentos históricos, evocando a época constitucio-
turaleza. As tendências conservadoras da escritora perce-
nal do reino da Itália, assim como se tornaram documentos
bem-se melhor na distância. O que ficou é a arte de uma
históricos, já algo empalecidos, aqueles romances napolita-
grande paisagista, às vezes rude, espécie de Pereda da
nos. Maltide Serão converteu-se depois ao catolicismo, ade-
Galícia. Acima da mera descrição do ambiente físico e fol- rindo às doutrinas de Bourget, perdendo todo o vigor da sua
fase naturalista. Ficaram, como no caso da Pardo Bazán, mas
em grau menor, os aspectos evocativos, destacando-se os dra-
93) Luis Coloma, 1851 — 1915. mas da vida dos humildes nos contos da escritora. Matilde
Pequeneces (1891); Boy (1895); La reina mártir (1901). Serão sempre revelara o coração de uma mulher idealista
E. Pardo Bazán: El padre Luis Coloma, biografia y estúdio crí-
tico. Madrid, 1916.
94) Emilia Pardo Bazán, 1851 — 1921.
Los Pazos de Ulloa (1886); La madre naturaleza (1887); MorriUa 95) Maltide Serao-Scarfoglio, 1856 —1927.
(1889); Cuentos de Marineãa (1892).
A. Andrade Coello: La condesa Emilia Pardo Bazán. Quito, 1922. Fantasia (1883); II ventre di Napoli (1884); La conquista di Roma
J. A. Balseiro: "Emilia Pardo Bazán". (In: Novelistas espaUoles (1885); Vita e avventure di Riccarão Joanna (1886); Racconti
contemporâneos. New York, 1933.) napoietani (1889); 11 paese di cuccagna (1890);. Evvíva la vita
G. Brow:Lo vida y las novelas de dona Emilia Pardo Bazán. (1909), etc.
New York, 1940. R. Garzia: Matilde Serão. Rocca S. Casciano, 1916.
B. Oroce: "Matilde Serão". (In: La Letteratura delia Nuova
E. González López: Emilia Pardo Bazán, novelista de Galicia. New Itália, vol. H l . 3.» ed. Bari, 1929.)
York, 1944. M
2238 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITEBATURA OCIDENTAL 2239

e maternal; a conversão só afirmou um credo. O mesmo Hann ( " ) , a "George Sand alemã", cuja conversão em 1850
credo idealista é assunto permanente nos romances da es- também foi julgada como acesso de romantismo; mas em
critora lombarda que escolheu o pseudónimo Neera ( 0 6 ) : 1850, as conversões românticas já passaram de moda, e o
gozou de um curto momento de celebridade europeia para aristocratismo orgulhoso da condessa, descendente de uma
logo passar a ser considerada como autora dê romances an- grande família feudal do Mecklemburgo, tem significação
tiquados para divertimento dos "bien pensants". Depois, especial. Iniciou ela uma voga de conversões naquela re-
só o velho Benedetto Croce se lembrou de Neera; e a re- gião protestante e feudalíssima da Alemanha; e entre os
leitura confirmou-lhe os conceitos. La vecchia casa é uma convertidos encontrou-se o Barão Vogelsang, fundando,
obra flaubertiana às avessas: a heroína, sentindo ódio ins- depois, em Viena o poderoso partido católico que defendeu
tintivo contra a irmã mais nova, descobre nos papéis do os interesses da pequena burguesia contra a grande burgue-
adorado pai, já morto, a origem do seu sentimento; a irmã sia liberal: "cristianismo social", talvez errado, mas signi-
é fruto do adultério da mãe. Neera recusou o zolaísmo, ficativo como oposição.
então dominando a Itália. E r a realista, conservando os cri- São, todos eles, figuras isoladas. Mas havia delas em
térios morais do passado, superando assim a mentalidade toda a parte. A literatura dinamarquesa, apesar de pos-
antiilusionista da época. suir Ewald, Oehlenschlaeger, Aarestrup, Drachmann, não
E m todos esses escritores, a superficialidade da rela- produziu poeta mais sério do que Paludan-Mueller ( 1 0 °), o
ção entre estilo literário e ideologia moral, ou então a ca- autor de Adam Homo, poema épico-satírico, história de
sualidade do contato é evidente. Quase se parecia confir- um homem que vendeu a própria alma para chegar a honras
mar a opinião dos eslavófilos e pan-eslavistas russos, de- e fortuna. Parece estranho que Paludan-Mueller tenha em-
fendida por Dostoievski, de que o cristianismo europeu es- pregado uma forma romântica — o poema satírico à manei-
tava morto ou agonizante. Mas foi um erro. O cristianismo ra de Byron — para denunciar o romantismo das vitórias
só se encontrava acanhado, continuando à margem da socie- fáceis; porque a tendência parece dirigir-se contra o oti-
dade burguesa. Mas continuou vivo, menos como ingre- mismo do Aladdin de Oehlenschlaeger. Paludan-Mueller
diente do "compromisso vitoriano" do que em alguns es- não visava, porém, o próprio o Aladdin, e sim os "filhos de
píritos isolados, chegando às vezes à franca oposição con- Aladdin", os que traíram os ideais românticos para vencer
tra a sociedade.
Podem-se citar os nomes de Tommaseo (° 7 ), na Itália,
e de Marceline Desbordes-Valmore (° 8 ), na França; e a 99) Ida Graefin Hahn-Hahn, 1805 — 1880.
Graefin Faustine (1841); Aus der Gesellschatt (1844), etc.
quem pretende explicar tudo nesses casos como romantis- A. Jacoby; Ida Graefin Hahn-Hahn. Mainz, 1844.
mo atrasado será lembrado o nome da Condessa Hahn- 100) Frederik Paludan-Mueller, 1809 — 1876.
Amor og Psyche (1834); Adam Homo (1841/1848); Lujtskipperen
og Atheisten (1853); Ahasverus (1853); Kalamus (1854); Bene-
96) Neera (pseudónimo de Anna Radius Zuccari), 1846 —1918. áikt af Nurcia (1861); Paradiset (1862); Ivar Lukkes historie
Teresa (1886); Anima sola (1894); La vecchia casa (1900), etc. (1866/1873); Adónis (1874).
B . Croce: "Neera". (In: La Letteratura delia Nuova Itália, vol. Edição por V. Andersen, 3 vols., KJoebenhavn. 1909.
III. 3.» ed. Bari, 1929.) F. Lange: Paludan-Mueller. KJoebenhavn, 1899.
97) Cf. "Romantismos de Evasão", nota 94. V. Andersen: Paludan-Mueller. 2 vols. KJoebenhavn, 1910.
H. Martensen-Larsen: Den virkelige Paludan-Mueller. KJoebe-
38) Cf. "Pontos de Partida do Romantismo", nota 55. nhavn, 1924.
2240 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2241

em carreiras burguesas. A ideia é profundamente cristã; garam a preferi-la ao famoso irmão. A leitura das poesias
e Paludan-Mueller não cessou de opor os ideais cristãos habitualmente representadas nas antologias não confirma
aos apetites desordenados do tempo. Em Kalamus apresen- este juízo. "A Birthday" ("My heart is like a singing
tou um asceta indiano, em Benedikt ai Nurcia o patriarca b i r d . . . " ) , " W h e n I am dead", "Remember" são poesias
dos monjes ocidentais. Enfim, o velho poeta, vindo dos muito belas, cheias de sentimento sem sentimentalismo, de
tempos do romantismo, reconheceu solenemente o reino da uma facilidade de expressão que lembra a poesia popular,
prosa, escrevendo um ronfance, Ivar Lykks historie, novo mas por isso mesmo inferiores à arte consumada de Dante
e último protesto contra o "espírito do tempo", seja liberal, Gabriel Rossetti. Outras poesias, menos divulgadas, mo-
seja radical. Paludan-Mueller, em função do seu cristianis- dificam a impressão. Os admiradores mais apaixonados da
mo radical, está perto do seu contemporâneo Kierkegaard; poetisa, Swinburne, Saintsbury, De la Maré, reabilitaram-
e Adam Homo exerceu influência sobre o Peer Gynt. Quer Ihe a memória, colocando "Sleep at Sea", "Avent", "Goblin
dizer, Paludan-Mueller é um dos primeiros escritores eu- Market" entre os maiores poemas religiosos da língua. Com
ropeus que duvidaram da razão de ser moral da burguesia, efeito, "Passing Away" seria digno de George Herbert, de
preparando o caminho do poeta que colocará a burguesia, um Herbert moderno; só depois da experiência romântica
perante a "exigência moral". Também é significativo o f i t o podia ser escrito um yerso como este de " T h e One Cer-
de o protestante rigoroso ter evocado a figura do grande tainty":
monge; os poetas cristãos da época revelam todos, mesmo " . . . A n d morning shall be cold and twilight grey."
quando protestantes, inclinação ao catolicismo, que se en- Às vezes, o leitor de Christina Rossetti tem a impressão
contrava, por assim dizer, fora da sociedade moderna e pa- irresistível de que as suas maiores poesias nunca foram es-
recia, por isso, mais oposicionista. critas; que só estão lembradas nas entrelinhas das poesias
Essa inclinação contribuiu para a conversão de New- existentes, fatalmente inferiores:
m a n ; e continuou entre os anglo-católicos, no meio dos
quais surgiu, no entanto, a maior poetisa religiosa do an- " W i t h stillness that is almost Paradise.
glicanismo, Christina Rossetti ( 1 0 1 ). E m vida, foi eclipsada Darknesse more clear than noonday holdeth her,
pelo irmão Dante Gabriel Rossetti; depois, os seus admi- Silence more musical than any song."
radores conseguiram destronizar Elizabeth Barret-Brown-
ing, proclamando Christina a maior poetisa inglesa; e che- É a confissão de um místico autêntico.
Outra confissão de Christina Rossetti está no começo
do "Bride S o n g " :
101) Christina Georgina Rossetti, 1830 — 1894.
Góblin Market and Other Poems (1862); The PrincCs Progress
anã Other Poems (1866); A Pageant anã Other Poems (1881). "Too late for love, too late for joy,
Edição por W. M. Rossetti, London, 1904.
D . M. Stuart: Christina Rossetti. London, 1930. Too late, too late!"
E. Biikhead: Christina Rossetti anã Her Poetry. London, 1930.
E. W. Thomas: Christina Georgina Rossetti. New York, 1931.
I M. Zaturenska: Christina Rossetti. A Portrait vAth Background. Depois de duas experiências infelizes, a poetisa renuncia-
New York, 1949. ra ao amor terrestre, levando uma vida de freira voluntária,
M. Sawtell: Christina Rossetti. Her Life and Religion. Londoa.
1955. assim como o anglo-catolicismo desejava restabelecer a ins-
2242 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2243

tituição monástica dentro da Igreja anglicana. Daí foi só "Publication is the auction
um passo para a conversão que abrirá novas perspectivas, Of the mind of m a n . . . "
nem todas ascéticas. Patmore deu esse passo. A americana
Só depois da sua morte editaram-se as poesias, mais de
Emily Dickinson ( 1 0 2 ), filha da terra puritana da Nova-
oitocentas — e continuam a publicar-se inéditas — todas
Ingiaterra, não era capaz de dá-lo; tornou-se cristã de uma
de laconismo epigramático, logo reconhecidas como do-
espécie singular e poetisa das maiores de tocTos os tempos,
cumentos de uma extraordinária experiência religiosa, e
A única experiência erótica da sua vida, amor a um ho-
por isso, no início, mais estudadas pelos professores de psi-
mem casado do qual escrúpulos justificados a afastaram, cologia do que pelos poetas. Ainda há quem defenda esse
deixou-a perplexa para sempre. Até então, fora a única re- ponto de vista — a psicanálise forneceu argumentos. Mas
voltada no seio da sua família da mais pura ortodoxia cal- Louis Untermeyer, crítico de poesia, já falou da "colossal
vinista; agora, parecia passar além de todos os preconceitos substance" da obra de Dickinson, na qual nenhuma linha
ascéticos do puritanismo, fechando-se na sua casa de Am- seria dispensável. Emily Dickinson não é, ou não é só, um
herst, pequena cidade de Massachusetts, mantendo contato "caso" psicológico. É considerada, hoje, como o maior
com o mundo apenas través da correspondência com poucos poeta americano. Não inspirará nunca admiração perplexa,
amigos, nem sequer recebendo visitas. Aquelas cartas re- como Poe, nem será tão popular como Whitman. É poesia
velam o mesmo espírito insubmisso da sua mocidade, quan- para os poucos "poet's poetry".
do ela se recusava a "mortificar-se num dia tão alegre A sua obra poética é das mais originais em língua in-
como o de Natal". Emily Dickinson era mesmo alegre, es- glesa, quase sem analogias. Emily Dickinson gostava de
pirituosa até a mordacidade — mas isso também acontece Robert Browning, talvez mais do seu otimismo do que da
em velhas tias, e assim ela foi considerada pelos parentes. sua poesia, e mais da poesia de Emerson, poesia filosófica
Escreveu poesias, é verdade, mas não quis publicá-las, pelo e epigramática como a sua. O amigo com o qual ela se cor-
pudor antiexibicionista que herdara dos antepassados: respondia sobre poesia, era o emersoniano Thomas W e n t -
worth Higginson, que em vão tentou ensinar-lhe uma lin-
guagem mais correta e expressão mais sentimental, mas que
a fortaleceu na religiosidade alegre, a puritana, quase pan-
102) Emily Dickinson, 1830 — 1886.
Poems (1890): Further Poems (1929); Bolts of Melody (1945). teísta. Emily Dickinson experimentou verdadeiros êxtases
Edição por M. Dickinson Bianchi e A. Leete Hampson, New diante da Natureza; tudo adquiriu,-para ela, significação
York, 1937 (2.a ediçfio, aumentada, London, 1947).
M. Dickinson Bianchi: The Life and Letters of Emily Dickinson. mística. Mas nada de romantismo. A inteligência poética,
New York, 1924. agudíssima, de Emily Dickinson não deixou passar nenhu-
A. Tate: Reactionary Essays on Poetry and Ideas. New York, ma palavra sem sentido exato; doutro lado, excluiu as afir-
1936.
G. Taggard: The Life and Mind of Emily Dickinson. New York, mações de natureza lógica, próprias da ''poesia filosófica",
1938. didática, chegando assim ao laconismo de oráculos poéticos
G. F. Whicher: This Was a Poet. New York, 1938. que nem sempre é possível decifrar. No afã de dar só poe-
H. W. Wells: Introduction to Emily Dickinson. Chicago, 1947. r.ia essencial, escolheu as formas mais elementares, quadras
R. Chase: Emily Dickinson. Boston, 1952.
R. Patterson: The Riddle of Emily Dickinson. Boston, 1952. .i maneira dos provérbios rimados do povo, mas duma in-
M. Todd Bingham: Emily Dickinson. A Revelation. New York,
1954.
2244 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2245

tensidade extraordinária, densas como condensações de poe- poeta anglo-saxônico, Coventry Patmore ( 1 0 3 ), conseguiu
sias mais longas, como estenogramas. A vítima dessa téc- resolvê-lo pela conversão ao catolicismo. Dando esse pas-
so, saiu da sociedade inglesa do século XIX, tornando-se
nica poética é a gramática,
contemporâneo de Dante, com o qual revela certo parentes-
co estranho. Mas abraçando o dogma que toma a sério a
" . . .1 only said the syntax, , santificação das coisas terrestres pela Encarnação, tornou
And left the verb and the pronoun out". inexistente aquele conflito erótico. A obra principal de
Patmore, o poema The Angel in the 11 ouse, foi um dos
A poesia de Emily Dickinson está cheia de elipses violen- maiores, talvez o maior sucesso de livraria de um livro de
tos, como de uma visionária que tem que contar coisas ine- poesia no século X I X . É uma glorificação do matrimónio,
fáveis e só o pode fazer balbuciando; as fraquezas mesqui- e os ingleses consideravam-no como o Cântico dos Cânti-
nhas da língua humana não importam. Visionária Emily cos do "nome, sweet home". É um poema fraco, de senti-
Dickinson era; viu até as profundidades do Céu e os abis- mentalismo excessivo, hoje quase ilegível. Da antiga fama
mos do Inferno. Com razão, porém, Van W i c k Brooks sa- de Patmore salvaram-se, nas antologias, algumas pequenas
lientou, ao lado da visão, a miopia da poetisa, velha tia, poesias avulsas como " T h e Revelation", "Magna est Veri-
tas", "Heaven and Earth", destacando-se versos extraordi-
usando óculos que lhe permitiram ver com exatidão minu-
nários, como este:
ciosa as pequenas coisas desta Terra. Contradição daquelas
das quais nasce, conforme I. A. Richards, a grande poesia.
No começo, Emily Dickinson tentou eliminar pela ironia " . . . angels, mirth
os obstáculos terrestres da sua visão poética. Depois, jun- Is one in cause, and mode, and kind
W i t h that which they profaned on earth."
tou os dois mundos por meio duma espécie de trocadilhos
— e reconhece-se a maneira meio mística meio chistosa dos
Eis aí o poeta místico, o "Píndaro cristão" das grandes
"metaphysical poets" do século X V I I , de Donne e Herbert.
odes, pouco conhecidas, como "To the Body", com o verso
A religião de Emily Dickinson não era, evidentemente, a
final, entusiasmado.
mesma. Não era anglo-católica, e sim filha de puritanos "Quick, tender, virginal, and unprofaned." A fé de
americanos. A Natureza, na sua poesia, é, conforme a ob- Patmore era a santificação do amor físico pelo amor divino.
servação de Allan Tate, um símbolo da Morte. Mas todo
o esforço da poetisa visava à transfiguração desse fato si-
nistro em acontecimento puramente interior, místico: 103) Coventry Patmore, 1823 — 1896.
Poems (1844); The Angel in the Hou.se (18B4/185B); The Un-
know Eros (1877).
" P a r t i n g is ali we know of heaven, Edição por B . Champneys, 5.a ed., London, 1038.
E. Gosse: Coventry Patmore. London, 190B.
And ali we need of hell." O. Burdett: The Idea of Coventry Patmore. Oxford, 1921.
F. Page: Patmore, a Study in Poetry. Oxíord, 1933.
D. Patmore: The Life and Times of Coventry Patmore. Lon-
Enquanto realmente há "caso", irresolúvel e irresolvi- don, 1949.
C. J. Oliver: Coventry Patmore. New York, 1958.
do, em Christina Rossetti e Emily Dickinson, um outro J. C. Reid: The Mind and Art of Coventry Patmore. London, 1958.
2246 OTTO MABIA CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2247

Patmore é, na literatura de todos os tempos, o grande poeta tos eram inevitáveis; e repeliram-se quando Gezelle tentou
do amor conjugal. E i s o sentido daquele grande poema, fomentar o sentimento nacional flamengo entre os semina-
oposto e no fundo incompreensível à época vitoriana de ristas. Foi gravemente advertido e, depois, destituído do
homens e mulheres assexuados pelo cant. Patmore era mís- magistério; devia levar, durante decénios, a vida de um po-
tico. E m outra obra, Sponsa Dei, pretendeu dar, em forma bre pároco de aldeia. Assim como esse nacionalismo fla-
doutrinária, uma analogia minuciosa do "amor entre Deus mengo, em conflito com o Estado e a Igreja afrancesados,
e alma e do amor entre homem e mulher. Quem lhe aconse- é diferente do nacionalismo catalão em conflito com o Es-
lhou destruir o manuscrito foi Gerard Manley Hopkins, o tado e a Igreja da Castela, assim a poesia de Gezelle é di-
mesmo que devia realizar aquilo a que Patmore aspirava; ferente do romantismo exaltado e das formas artificiais,
mas Hopkins só foi reconhecido em 1918, duas gerações de- parnasianas, de Verdaguer. Gezelle abandonou logo o sen-
pois da sua morte. A época vitoriana não suportava "The timentalismo romântico, algo lenauiano, da sua primeira
Revelation". coleção Kerkhofbloemen. Adotou o tom simples da poesia
i popular, mas depositou nesses Gedichten, Gezangen en Ge-
Cristianismo radical tomou, naquela época, fatalmente, beden despretensiosos um amor extático à natureza, ao sol,
uma feição oposicionista; e poesia é, por definição, radical. "obra esplêndida de mãos venerandas" —
ft característica a existência de poetas-sacerdotes que, sem
"O heerlijk handgedaad van hoogst eerweerde han-
sair da fé dogmática, entraram em conflito com a própria
den" — ao silêncio das noites de inverno, quando a neve
Igreja. Um deles era Verdaguer ( 1 0 4 ), o místico catalão.
"jaz sobre o agro do mundo" —
Outro é Gezelle ( 1 0 5 ), o místico flamengo, que já foi com-
parado àquele, se bem que as analogias sejam poucas. Ge-
"Een witte spree
zelle, professor de seminário em Bruges e outras pequenas
ligt overal
cidades de Flandres, ousou escrever versos em língua ho-
landesa, numa época na qual a Bélgica estava inteiramente gespreid op's werelds akker".
afrancesada e o alto clero apoiava a situação que conde-
nava os flamengos a constituir uma massa muda. Os confli- É como nos quadros flamengos do século X V : sobre as
aldeias abre-se o céu da fé gótica, tendo o pintor a visão de
todos os anjos cantando. Gezelle era uma natureza francis-
104) Cf. nota 46. cana, a sua poesia é "cântico do sol e despedida"—
105) Guido Gezelle, 1830 — 1899. "Zijn Zonnelied en afscheid van de wereld." Sendo
Kerkhojbloemen (1858); Gedichten, Gezangen en Gebeden (1862);
Tijdkrans (1893); Rijmsnoer (1897); Laatste verzen (1899). um dos poetas mais independentes e mais completos do
Edição por A. Vermeylen, Fr. Baur e outros, 11 vols., Antwerpen,
1930/1940. Béculo XIX, Gezelle criou, ou antes, ressuscitou uma litera-
H. Rommel: Un poète-prêtre. Guião Gezelle. Bruxelles, 1900. tura que dormira desde muitos séculos, a literatura flamen-
G. L. van Roosbroeck: Guido Gezelle, the Mystic Poet of Flanders.
Vinton, Io., 1919. ga; e isso o coloca, de longe, ao lado de Mistral. Mas
• A. Walgrave: Het leven van Guião Gezelle. 2 vols. Amsterdam, o fato característico da sua vida é aquele conflito, que não
1923/1924.
A. Schillings: Guido Gezelle, ãe mensch en de dichter. Antwer- •« originou da sua mística e só aparentemente do seu na-
pen, 1930. lonalismo. Gezelle era cristão extratemporal; seu m u n d o
M. Willems: Guido Gezelle. Bruxelles, 1944.
2248 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2249

não o suportava. Fatalmente, o cristão autêntico devia estar Baudelaire. Na verdade, a boémia quase é a consequência
em oposição ao "compromisso vitoriano". inevitável da situação social do aristocrata decaído, quando
Por isso, esses cristãos em oposição podiam adotar for- intelectual; e isso também é importante para compreender
mas literárias pouco gratas aos bien-pensantes; o realismo a "oposição católica" inteira. Enfim, aquelas frases foram
flaubertiano e até o naturalismo zolaiano. De Barbey escritas, por Barbey d'Aurévilly, em defesa do seu estilo
d'Aurévilly ( 10c ) só se lêem hoje os escritos de crítica lite- naturalista contra os ataques do católico conservador Veuil-
rária. Mas não sabia interpretar com imparcialidade obras lot; e isso prepara os futuros conflitos entre a "oposição
alheias, e os seus julgamentos são as mais das vezes injus- católica" e o próprio catolicismo.
tíssimos. Mas era um grande escritor, vigorosíssimo, e os Esses conflitos anunciam-se em Hello ( 1 0 7 ). Na litera-
seus ataques, quase se diria ataques de cavalaria, contra Zo- tura universal, Hello sobreviverá devido à menos conhecida
la e contra o naturalismo em geral, guardam o valor do ' T a r t das suas obras, o volume Contes extaordinaires; contos hof-
pour 1'art" polémico de um jornalista extraordinário. Ata- fmannescos, de tendência marcada, que se poderia chamar
ques injustificáveis aliás, porque o próprio Barbey d'Au- "social-cristã". O conto "Ludovic" — história de um ca-
révilly, como romancista, adotou o estilo do inimigo. "J'ai pitalista que adorava o dinheiro como a um deus e que en-
usé de cette grande largeur catholique qui ne craint pas louqueceu porque esqueceu a palavra "Deus", que abre a
de toucher aux passions humaines, lorsqu'il s'agit de faire fechadura do seu cofre — é um símbolo magistral. Hello é
trembler sur leurs suites; romancier, [il a] accompli sa ta- hoje famoso comp escritor apologético contra o espírito da
che de romancier, qui est de peindre le coeur de l'homme sua época; através de Bloy, o "renoveau catholique" na
ÍÍUX prises avec le péché, et il l'a peint sans embarras et França está em relação com êle; e assim se esqueceu o con-
sans fausse honte." A citação serve para refutar um bien- flito do seu misticismo estranho com o dogma ortodoxo.
pensant como H e n r y Bordeaux, pretendendo reduzir Bar- A solução, quer dizer, a derrota deu-se em António
bey a um " W a l t e r Scott normand". Regionalista vigoroso Fogazzaro ( 1 0 8 ). Quando, por volta de 1904, rebentou o
êle era; mas o seu desembaraço veio do estilo boémio da conflito entre a suprema autoridade da Igreja e os moder-
sua vida, e o vigor veio da posição de aristocrata católico
em franca oposição contra a sociedade burguesa. Barbey 107) Ernest Hello, 1818 — 1885.
d'Aurévilly demonstrou que boémia e catolicismo não eram L'homme (1872); Paroles de Dieux (1878); Contes extraordinaires
incompatíveis; e isso será importante para compreender (1879), etc.
J. Serre: Ernest Hello, Vh.om.me, le penseur. Paria, 1894.
St. Fumet: Ernest Hello ou Le drame de la lumiire. Paris, 1928.
108) António Fogazzaro, 1842 — 1911.
106) Jules Amédée Barbey d'Aurévilly, 1808-1889. Miranda (1874); Valsolda (1876); Malombra (1881); Daniele
Une vieille maitresse (1851); Uensorcelée (1854); Le chavalier Cortis (1885); Fedele (1887); 11 mistero dei poeta (1888); Plccolo
des Touches (1864); Un prêtre marié (1865); Les diaboliques mondo antico (1896); Piccolo mondo moderno (1900); II Santo
(1874); — Les oeuvres et les hommes (26 vols., 1860/1909). (1906); Poesia (1908); Leila (1911).
E. Grele: Jules Barbey d'Aurévilly, sa vie et son oeuvre. 2 vols. Edição por P. Nardi, 12 vols., Milano, 1932/1940.
Paxis, 1904. T. Gallarati Scotti: La vita di António Fogazzaro. MUano, 1920.
H. Bordeaux: Le Walter Scott normand: Barbey d'Aurévilly. Pa- P. Nardi: Fogazzaro. Milano, 1929.
ris, 1925. L. Portier: António Fogazzaro. Paris, 1937.
E. Creed: Le ãandysme de Barbey d'Aurévilly. Paris, 1938. E. Donadoni: António Fogazzaro. 2.11 ed. Bari, 1939.
H. Quéru: Le dernier grand seigneur: Jules Barbey d'Aurévilly. R. Viola: Fogazzaro. Firenze, 1939.
Paris, 1946. A. Píromalli: Fogazzaro e la critica. Firense, 1952.
2250 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2251

nistas, que pretenderam "modernizar" o dogma, Fogazzaro, tido simbólico atrás dos acontecimentos reais. Assim se
já então muito lido, colocou-se ao lado dos rebeldes; a essa apresenta o conflito entre o católico Franco e sua mu-
atitude deveu o curto momento de fama universal, para cair lher livre-pensadora Luísa, em Piccolo mondo antico, a
depois no meio desprezo de ser considerado romancista an- obra-prima do autor, belo panorama da burguesia lombar-
tiquado, provinciano, sem importância permanente, mais da de 1860, obra típica do estilo vitoriano: realista sem
ou menos à maneira de Palácio Valdês. Com efeito, Fogaz- "excessos", delicadamente humorística em meio de sérios
zaro é "provinciano"; não porque o ambiente da sua cidade conflitos ideais. Fogazzaro é como a continuação moderna
de Vicenza constitua o fundo de muitas obras suas, mas de Manzoni; o ambiente é o mesmo, os palácios aristocrá-
porque a Itália inteira de 1880 ou 1900 era, em relação ao ticos de Vicenza, atrás de cujas venezianas sempre fecha-
resto da Europa, provinciana e atrasada. E Fogazzaro é das homens nobres se debatem entre os preconceitos do
realmente "antiquado"; o estilo realista dos seus romances passado e as exigências do mundo novo. Mas Fogazzaro
não é de 1900 nem de 1880, mas de 1860. Essa apreciação não sabe dominar-se tão bem como o grande Manzoni. A
atual de Fogazarro encerra, no entanto, uma injustiça sua sensualidade é invencível, é a dum eterno adolescente,
evidente. Em várias fases da história literária italiana, a sempre receando o confessor e sempre disposto a fugir de
"pequena" literatura das províncias era superior à preten- casa para viver uma "primeira" experiência erótica. Essa
siosa literatura classicista, literatura oficial dos intelec- sensualidade não é "moderna"; ao contrário, é o seu tributo
tuais. E Fogazzaro não é mais provinciano do que os seus ao romantismo, à boémia, assim como no católico Barbey
verdadeiros contemporâneos, os romancistas "insulares" da d'Aurévilly e no "catholique, mais athée" Baudelaire. F o -
Inglaterra vitoriana. É superior a eles pela atmosfera de gazzaro julgava-se "moderno"; e era duplamente vitoriano,
decisões históricas que pairava desde sempre sobre a Itá- ao colocar no centro dos seus escrúpulos religiosos o evo-
lia. O modernismo de Fogazzaro não foi uma atitude pre- lucionismo darwinista. E i s o elemento antiquado em Fo-
cipitada; anunciara-se na sua obra inteira e confere a este gazzaro, que o levou fatalmente ao conflito com a Igreja,
"romancista de 1860", que vive por volta de 1880 e 1900, anunciando-se já na continuação daquela obra-prima, em
importância inconfundível para se compreender a situação Piccolo mondo moderno. Desde então, todos os personagens
do cristianismo "oposicionista" em face ao mundo burguês. de Fogazzaro parecem neuróticos. Choram e rezam muito
Daniele Cortis não é o melhor romance de Fogazzaro, em face de contínuas tentações sexuais, às quais é difícil
mas um dos mais característicos; o herói fracassa pelo con- resistir. O "mundo moderno" de Fogazzaro é muito reli-
flito íntimo entre as suas convicções católicas e uma pai- gioso e fala corajosamente em "reforma da I g r e j a " ; mas
xão erótica; mas acredita malograr, devido à incompatibi- não se passa realmente nada, os sentimentos sufocam a
lidade da sua situação de chefe do partido católico-liberal ação, e Deus, continuamente invocado, permanece mero
com o conservantismo das supremas autoridades da Igreja. nome, assim como nas proclamações oficiais do Estado bur-
Com efeito, o catolicismo liberal fora impossível depois guês. Assim / / santo, o romance em que Fogazzaro defen-
de 1870. Também é démodé o realismo de Fogazzaro, rea- deu o modernismo teológico. Com grande escândalo e para
lismo moderado, algo entre George Sand e Flaubert. Mas grande proveito do editor, o livro foi posto no Index dos
o romance salva-se, como quase todos os romances de Fa- livros proibidos pela Igreja. Ainda hoje pode comover a
gazzaro, pela alta qualidade dramática, reflexo de um sen- cena dramática no Vaticano, a conversa noturna entre o
2252 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2253

Papa e o "santo" que lhe pede a reforma da Igreja. Mas, deformações, transformações e transfigurações que a ima-
no resto, o romance é insuportavelmente sentimental, cheio gem do poeta —
dum falso misticismo, acabando em inação desesperada. Re- " . . . vase de tristesse, ô grande taciturne" — sofreu
presenta a espécie católica do "compromisso vitoriano". nos olhos da posteridade: do "Satan d'hôtel garni, un Bel-
Fogazzaro foi um vencido. A sua obra, ou, antes, uma parte zébuth de table d'hôte", de Brunetière, até o "Notre Bau-
essencial dessa obra, salva-se pelas qualidades líricas, ele- delaire", do católico Fumet. Aos académicos parecia Bau-
gíacas, do canto de um vencido, pela música secreta à qual delaire o pós-romântico degenerado, guardando alguns es-
muito será perdoado. plendores da poesia de Hugo — e Baudelaire guardou mes-
A importância histórica de Fogazzaro reside nesse ro- mo alguns dos melhores elementos da poesia de Hugo, ao
mantismo do realista, na boémia erótica do burguês, na re- qual dedicava admiração profunda; mas parecia deformá-
ligiosidade do homem moderno; no conflito entre esses ele- los pelo péssimo gosto de "cantor das prostitutas" e da
mentos antagónicos na sua alma. Nesse sentido histórico, decomposição fúnebre, gosto patológico de uma boémia já
'Ton peut comparer sans crainte d'être injuste" o lirismo
mórbida. No seu tempo, esse grandíssimo artista do verso
algo frouxo de Fogazzaro ao lirismo intenso de Baude-
parecia estar perto dos parnasianos; mas esses burgueses
laire.
moderados envergonharam-se da sua companhia indecente,
Numa tese de Stirnberg sobre as vicissitudes póstumas
achando "exagerado" e "perverso" o seu pessimismo negro.
da poesia de Baudelaire (10°) é possível acompanhar as
Em compensação, esse pessimismo agradou aos decaden-
109) Charles Baudelaire, 1821 — 1867. tistas do "fin du siècle": eles não tinham medo de "épater
Les Fteurs du Mal (1867, 1861, 1868); Les paradis artificieis le bourgeois". Celebraram em Baudelaire o poeta de
(1860); Petits poèmcs em prose (1868).
Edição completa por I. J. Orépet, 10 vols., Paris, 1923/1937.
Edição de Mon Coeur mis à Nu e Fusées por Oh. Du Bos, Pa- "La sottise, 1'erreur, le péché, la lésine..."; e "La Cha-
ris, 1930. rogne", templo sujo de "mes amours décomposés", parecia-
C. Mauclair: Baudelaire. Paris, 1916.
G. de Reynold: Baudelaire. Paris, 1920. lhes o cume da poesia "moderna"; talvez seja mesmo o poe-
E. Raynaud: Baudelaire et la religion du Dandysme. Paris, 1922. ma mais perfeito de Baudelaire. Enfim, prestou-se aten-
Ch. Du Bos: Approxímatíons. Vol. I. Paris, 1922.
St. Fumet: Notre Baudelaire. Paris, 1926. ção à estranha preferência estilística do poeta pelas expres-
R. Vivler: Uoriginalité de Charles Baudelaire. Bruxelles, 1928.
P h . Soupault: Baudelaire. Paris, 1931. sões litúrgicas. Na evocação de
J. Pommier: La mystique de Baudelaire. Paris, 1932. "Des Trones, des Vertus, des Dominations" reconhe-
A. Ferran: Vesthêtique de Baudelaire. Paris, 1933.
H. Stirnberg: Baudelaire im Urteil der Mitwelt und Nachwelt. ceu-se algo mais do que uma das blasfémias habituais do
Muenster, 1935.
J. Charpentier: Baudelaire. Paris, 1937 . poeta satanista; antes a visão mística do homem perdido
F . Kemp: Baudelaire und das Christentum. Marburg, 1939. no abismo do pecado. Descobriu-se a qualidade dantesca
J. P. Sartre: Baudelaire. Paris, 1946.
G. Macchia: La critica d'arte âi Baudelaire. 2 vols. Napoli, 1951. de Budelaire, poeta do Limbo ou do Purgatório, poeta es-
J. Prévost: Baudelaire. Essai sur 1'inspiration et la création poé-
1 tiques. Paris, 1953. piritualista porque tomou a sério o pecado como condição
M. Turnell: Baudelaire. A Study of his Poetry. London, 1953. terrestre da alma, sofrendo do
M. A. Ruff: UEsprit du Mal et Vesthêtique Baudelaírienne. Pa-
ris, 1955. "Spectacle ennuyeux de rimmortel péché." Revelou-se
L. J. Austin: UUnívers poétigue de Baudelaire. Paris, 1956. enfim, aos críticos, a Angústia de Baudelaire. —
J. P. Richard: Poésie et profondeur. Paris, 1956.
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" . . . 1'Angoisse atroce, despotique, feio e patológico, e quanto à sua fé em Deus continuam as
Sur mon crâne incline plante son drapeau noir." dúvidas mesmo depois das interpretações de Du Bos. Mas
em duas coisas ele acreditava com a convicção mais firme:
E essa angústia não seria outra coisa que a consciên- na Beleza e no Diabo.
cia contrita do pecador no confessionário, próximo da abso- Um contemporâneo de Baudelaire que, parece, não o
lvição, da derrota do seu orgulho satânico pela Graça divi- conhecia, Mathew Arnold disse: "There is not a creed
na. O próprio Anatole France já tinha reconhecido que which is not shaken, not an accredited dogma which is not
"Baudelaire n'est pas le poete du vice, mais du péché, c'est shown to be questionable, not a received tradition which
qui est bien différent." Eis o Baudelaire'católico de Du does not threaten to d i s s o l v e . . . But for poetry the idea
Bos e F u m e t : uma alma perdida no abismo romântico, mas is everything; the rest is a work of illusion of divine illu-
sentindo náusea do pecado, salva-se, subindo para o céu s i o n . . . T h e strongest part of our religion to-day is its un-
católico, romano, onde "tout n*est qu'ordre et beauté". Daí conscious poetry." A poesia de Baudelaire é consciente no
a singularidade da sua poesia: conteúdo romântico em for- máximo grau. Substituiu-lhe a religião perdida. Daí o
ma clássica, o que significa a perfeição absoluta. culto à Beleza, o seu ' T a r t pour 1'art" que o fêz aparecer
como parnasiano. A religião da Beleza devia satisfazer às
São três imagens diferentes de Baudelaire. Cada uma
suas fortes necessidades religiosas, porque — e é preciso
parece incompatível com as duas outras. Na verdade, Bau- f
salientar isso — Baudelaire passara por todas as dúvidas
delaire é uma das figuras mais complexas da literatura uni-
do século; era incapaz de acreditar em dogmas e tradições.
versal, tão complexo que as três interpretações poderiam
Acontece, porém, que as necessidades religiosas eram mais
muito bem coexistir, explicando três aspectos diferentes da
fortes do que as satisfações estéticas; e essa insatisfação
sua poesia e personalidade. Baudelaire seria, ao mesmo
afasta-o, mais uma vez e definitivamente, do parnasianismo.
tempo, o romântico desesperado, o boémio perverso, o pe-
Baudelaire não era uma "anima naturaliter christiana", mas
cador arrependido. Mas não seria isso um "compromisso",
sim uma "anima naturaliter religiosa". E como a religião
incompatível com o radicalismo intrépido do poeta mais
tradicional não era capaz de consolá-lo na sua angústia pa-
original do século? Certo, se pudéssemos acreditar firme-
vorosa, Baudelaire chegou a inventar uma religião parti-
mente no seu radicalismo. Mas aí surgem as primeiras dú-
cular. A situação parecia-se com a dos últimos pagãos de-
vidas. Uma parte da poesia de Baudelaire, sobretudo a par-
pois do advento do Cristianismo, desesperados no seu de-
te erótica, não é "poésie p u r é " ; a restrição não tem sentido
senfreado naturalismo sexual, fabricando-se religiões sin-
moralizante, mas estético. Nem sempre Baudelaire dizia a
cretistas de elementos gregos, cristãos e orientais: o gnosti-
verdade. Mentiu às vezes, e intencionalmente. Gostou até
cismo. Baudelaire, em situação parecida, apoderou-se de to-
de envolver-se numa aura de demonismo inacessível aos ou-
dos os fragmentos de religião ao seu alcance, inclusive do
tros mortais, fazendo os gestos do satanismo; e mais uma
ocultismo swedenborgiano. Criou um gnosticismo sui gene-
das suas armas de isolamento era um culto meio sublime,
ris, um maniqueísmo com a figura de Lúcifer no centro.
meio ridículo da Beleza, o "dandysmo". Parece, porém,
Falou do "Prince des Ténèbres" com maiúsculas. Acredita-
que Baudelaire nunca foi mais verdadeiro, mais sincero,
va no Diabo. Daí a seriedade, quase se diria a serenidade do
do que justamente nessas duas poses, de mise-en-scène ma-
seu pessimismo infernal, sem melancolias românticas, sem
gistral. Nem sempre foi sincera a sua poesia intencional do
2256 OTTO MARTA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2257

lamentações elegíacas. Ao seu naturalismo sexual corres- Baudelaire, evidentemente, não compreendeu bem o seu
ponde um naturalismo poético, capaz de transformar tudo próprio romantismo, e não é admirável que outros se tenham
em poesia, a prostituição e o ópio, os cheiros exóticos da equivocado, considerando-o como romântico degenerado.
índia e a perplexidade das ruas de Paris — Baudelaire é, Na verdade, o seu romantismo parecia assim porque é in-
em "Tableaux parsiens", o primeiro poeta da grande cidade compatível com o romantismo grandiloqiiente ou senti-
moderna — o amor lésbico e a decomposição fúnebre — to- mental de H u g o e Musset. A êles Baudelaire opunha um
dos esses novos mundos que Baudelaire conquistou para a romantismo íntimo, psicológico, de descobertas inesperadas
("Au fond de 1'inconnu pour trouver du n o u v e a u . . . " ) ; é o
poesia. Sua teologia do Mal e sua filosofia das "correspon-
"outro romantismo", o "romantismo de profundidade", do
dances" entre todas as coisas no Universo são as bases de
qual na França só Nerval tivera noção, o romantismo má-
sua ampliação da poética: a estética do Feio.
gico dos sonhos de Novalis e Hoffmann. Não pelo natura-
Essa conquista é um dos feitos mais notáveis do poeta
lismo dos assuntos e das expressões eróticas, mas por meio
Baudelaire, tanto mais notável que essa liberdade de falar dessa magia verbal é Baudelaire precursor e mestre de toda
de tudo em poesia precedeu à liberdade de falar de tudo no a poesia moderna, até e inclusive do surrealismo. Do ponto
romance (conquista de Zola) e precedeu de muito à liber- de vista do "romantismo social" o "outro" romantismo, o
dade de falar de tudo na prosa da vida cotidiana (conquista mágico, é uma deformação: resultado da pressão mental
de F r e u d ) . Com essa conquista, Baudelaire tornou-se um da época burguesa e capitalista, cuja imagem aparece nos
verdadeiro libertador da poesia, libertando-a do monopólio grandiosos "tableaux parisiens": não uma "divine comédie
tirânico dos temas petrarquescos e românticos — amor de Paris", porque não são realmente realistas, e sim visioná-
ideal, lua e o resto. Baudelaire é o Petrarca da poesia mo- rios. É esclarecedora a comparação de Baudelaire com os
derna. Mas a comparação com Zola e Freud não é inequi- seus discípulos, imitadores e falsificadores: Swinburne,
vocamente positiva. Essa poesia de ruas, tavernas, prosti- Wilde, D'Annunzio, Dário, Heym e tantos outros. Baude-
tutas — o seu naturalismo — é a parte mortal da poesia laire é mais sincero do que todos êles. Não serve a Satã
de Baudelaire, a parte anedótica, romântica às avessas, fei- com prazer, mas com pavor. A sua Paris não parece infer-
ta para "épater le bourgeois"; hoje, já não assusta a nin- nal, mas é o Inferno. Não deforma para assustar, mas por-
guém. Aí há resíduos da atitude provocante, também "sa- que está assustado. O seu pessimismo angustiado leva-o
áiretamente à fé no poder de Satã, ao maniqueísmo; a essa
tanista", de Byron, Baudelaire é o último byroniano. Como
fé êle dá o dogma do pecado original como fundamento,
pós-romântico, descobriu a grandeza no romantismo de De-
acusando a Natureza inteira, a criação de Deus, como cul-
lacroix, reconheceu a importância de Wagner. Chegou a
pada — de maneira pouco cristã — para desculpar a sua
supervalorizar o romantismo de Poe, a cuja poesia musical
própria culpabilidade. Baudelaire aceita o dogma da Cria-
e vazia só ele, Baudelaire, conferiu o sentido metafísico que ção do mundo por Deus para empregá-lo como arma con-
transformou a Poe em precursor do simbolismo. Foi Bau- tra Deus que criou tudo aquilo. Daí o seu protesto contra
delaire que levou a sério a charlatanesca estética de Poe, qualquer tentativa de enfeitar ou embelezar a realidade das
excluindo da poesia todos os elementos narrativos, didáti- coisas. Daí o seu protesto contra a idealização romântica
cos e de eloquência, lançando, assim, os fundamentos de do amor. Daí o seu protesto contra a fé na bondade dos
toda a poesia moderna.
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homens e contra a fé no progresso. Daí, Baudelaire está minar da poesia, mas não da vida. Baudelaire é o poeta da
perto de De Maistre, e são frequentes as suas afirmações má consciência da burguesia. Expiou, na angustia, as co-
de aristocratismo político, reacionário. vardias e "compromissos" da sua época. Odiava "l'horloge!
Um poeta assim, de oposição sistemática, não pode dei- dieu sinistre", o deus da burguesia, contra a qual a sua ati-
xar de inspirar equívocos a seu respeito. O seu anti-ro- tude não podia ser outra senão a do boémio dissoluto ou do
mantismo sugeriu a todo mundo a imagem de um Baudelai- dandy provocante, ou então a do reacionário à maneira de
re parnasiano; só os académicos não se enganaram, excluin- De Maistre. No mundo do utilitarismo apareceu a mais
do-o tenazmente da "boa sociedade". Baudelaire, com efei- inútil das criaturas, o poeta —
to, não é da boa sociedade. É um boémio como Aloysius "Lorsque, par un décret des puisaances suprêmes,
Bertrand. Mas distingue-se da boémia comum pelo dandis- Le Poete apparait en ce monde ennuyeux • • - para
mo intencional; e no fundo do dandismo j á se descobriu substituir os determinismos biológico e económico pelo ter-
uma religião; religião falsa, mas religião. É boémia de pro- ror da predestinação religiosa, para anunciar, como os cris-
fundidade. Daí a mistura de sarcasmo mordaz e frieza su- tãos heréticos Tertuliano e Kierkegaard, seus irmãos no es-
blime que caracteriza a arte de Baudelaire; daí o fundo ex-
pírito, os terrores apocalípticos do Fim. Antecipando ideias
tático da sua poesia ("Les transports de 1'esprit et des
de Dostoievski e Nietzsche, previu, como um profeta, o
s e n s . . . " ) , a descoberta swedenborgiana das "correspondan-
processo de decomposição do seu m u n d o : "Le monde va ti-
ces", e a anotação dessas descobertas em tom friamente clás-
nir. La seule raison pour laquelle il pourrait durer, c est
sico. "Conteúdo romântico em forma clássica", isso quer di-
qu'il existe. Que cette raison est faible, comparee à tou-
zer, a eliminação implacável dos elementos retóricos e didá-
tes celles qui annoncent le c o n t r a i r e . . . Car, en supposant
tico-tendenciosos, que desfiguraram a poesia do romantismo
qu'il continuât à exister matériellement, serait-ce une exis-
francês: uma "poésie p u r é " como espelho puro de um mun-
tence digne de ce nom et du Dictionnaire h i s t o r i q u e ? . . .
do extra-mundano, irracional, onde "tout n'est qu'ordre et
beauté"; mas também " . . . luxe, calme et volupté". H á um Ces temps sont peut-être bien proches; qui sait même s'ils
grão de verdade nas afirmações incompreensivas de Sar- ne sont pas vénus?"
t r e : Baudelaire é, por condições psicológicas e psicopatoló- Mas o F i m ainda não chegara. Baudelaire nao podia
gicas, um adolescente eterno, adorando o Vício desconheci- ser compreendido no século da burguesia. Equivocaram-se,
do. Foi, como homem, imaturo. Mas desejava o amadureci- considerando-o como romântico degenerado, • • t a m a t a pro-
mento e a perfeição. " J e hais le mouvement qui déplace les vocador, falso profeta. Só em nossos dias, q u a n d o o fim da
lignes", afirmou; e o seu desejo supremo foi mentalidade burguesa se revelou próximo, começou a verda-
deira influência de Baudelaire, fundador da poesia lírica
" A h ! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres". Nem moderna, assim como Petrarca fundara a a n t i g a .
sempre, mas muitas vezes, Baudelaire satisfez a essa exigên- A comparação de Baudelaire com P e t r a r c a seria capaz
cia. Les Fleurs du Mal, eis o Código de uma poesia perma- de fornecer alguns esclarecimentos i m p o r t a n t e s de ordem
nente. psicológica e formal. Só a distância do t e m p o não nos per-
Dessa importância permanente de Baudelaire é preci- mite reconhecer imediatamente no poeta i t a l i a n o do século
so distinguir a sua importância histórica. O "Ennui", que o XIV as mesmas complicações psicológicas c o m o no poeta
assombrava, é aquele elemento racional que conseguiu eli- francês do século X I X , fonte de poesias mais parecidas com
2260 OTTO M A R I A CARPEAUX

as de Baudelaire do que a forma clássica de Petrarca e dos


seus discípulos e imitadores revela. Não é menos perfeita
a forma de Baudelaire — os dois são, afinal, sonetistas; e,
nos dois, a cultura formal tem o mesmo sentido de discipli-
na : resistência contra a destruição do mundo ideal da poe-
sia, mas resistência de poetas, intimamente contaminados
pelo "espírito da época", que é, nas cidades italianas do CAPÍTULO II
"Trecento" e, igualmente, na Paris de Napoleão I I I , o es-
pírito da burguesia. Petrarca e Baudelaire, os dois são ar- O NATURALISMO
tistas de formação humanista, mas inquietados e perturba-
dos pela angústia dum mundo que acaba. A um crítico li- ££T"\ O realismo ao naturalismo": o caminho parece em li-
terário do século X I V —se. tivesse então existido essa es- *-* nha reta. O naturalismo teria sido um realismo mais
pécie — Petrarca pareceria a última expressão poética do radical. A evolução teria começado com o realismo, ainda
grande humanismo medieval; só na perspectiva de séculos moderado, de Balzac, radicalizando-se em Flaubert e che-
posteriores, ele parece o primeiro poeta do novo humanismo gando, enfim, ao radicalismo naturalista de Zola.
da Renascença. Quanto a Baudelaire, essa perspectiva his- Mas esse esquema não resiste à análise. Pode Balzac
tórica ainda não existe: Baudelaire é o poeta do tempo em ser chamado, em qualquer sentido que seja, de escritor "mo-
que o liberalismo económico e o determinismo científico derado"? Êle é o contrário disso. O próprio Zola foi menos
da burguesia acabaram com a autonomia do espírito, com "imoderado". Mas, antes de t u d o : Flaubert não é o inter-
a herança da Antiguidade grega. Baudelaire é "le Poete", mediário entre Balzac e Zola. Suas intenções não eram so-
com maiúscula, do "monde ennuyeux" do advento da bur- ciológicas, como as de Balzac e Zola; e suas realizações
guesia: uma "contradictio in adjecto", como a poesia mo- pertencem a outra variedade de obra. Não se pode imagi-
derna inteira. Mas essa contradição será levada em conta, nar um Flaubert construindo ciclos de romances. Aquele
como mérito, quando o século terá de comparecer perante esquema não reflete fielmente os fatos. Na evolução per-
"les Dominations" para ser julgado. corrida do realismo ao naturalismo, devem ter agido outras
influências mais que o radicalismo sociológico.
Encontramos, no meio do caminho entre 1840 e 1880,
uma figura que não é possível colocar em qualquer ponto
daquela suposta linha reta: é o poeta-músico Richard
Wagner. É verdade que sua influência literária só se fêz
sentir mais tarde, na poesia do simbolismo; mas não é a
poesia simbolista dos seus conterrâneos alemães; estes já
t i o imitadores dos simbolistas franceses. Wagner é, por
volta de 1885, uma grande potência literária na França. Por
outro lado, a obra de W a g n e r tem — o que êle, como na-
cionalista alemão, não pôde nem quis admitir — mais do
2262 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2263

que uma raiz no romantismo francês: na música de Auber, foi relizada por Bismarck e os Junkers prussianos. Em
de Meyerbeer, de Berlioz, no romantismo social de Prou- 1870, o nacionalismo perdeu o aspecto democrático; até
dhon. Pois o romantismo não deixou de agir depois de na França vencida e chauvinisme tornar-se-á monopólio da
1848, embora de maneira menos espetacular. Balzac ainda direita. Na Alemanha e na Inglaterra o nacionalismo reve-
é meio romântico. Flaubert é romântico contra a vontade la os primeiros sintomas imperialistas. Começará a luta
e às avessas. Zola, enfim, é mais romântico que os dois. pelas colónias. O acontecimento principal da época, de-
Aquele germe que intensificou tanto o realismo, até êle pois de 1870, é a industrialização rapidíssima da Alemanha,
virar naturalista, é o próprio romantismo. Mas será melhor derrotando as potências de economia agrária e obrigando
falar em neo-romantismo. E o maior dos neo-românticos é os países industrializados a esforços inéditos para manter
mesmo Wagner. o equilíbrio nos mercados.
O fato só surpreende porque não estamos acostumados As consequências eram de ordem geográfica, política e
a colocar o alemão Wagner ao lado daqueles romancistas social. A concorrência alemã nos mercados internacionais
franceses. A literatura francesa é entre 1840 e 1900, a pri- arranca a Inglaterra da sua splendid isolation insular; e
meira da Europa; a literatura alemã da mesma época é po- desde então, a literatura inglesa será mais inclinada a acom-
bre e provinciana. Mas Wagner não é propriamente "lite- panhar os movimentos literários no Continente do que na
rato" : é o homem que impôs à literatura do seu século a in- primeira metade do reinado da Rainha Vitória. Tampouco
fluência da mais forte expressão artística dos alemães — a é acaso o aparecimento de novas literaturas no panorama
música. O fato não pode deixar de ter uma relação qualquer europeu: escandinavas e russa. Durante a primeira metade
com o fato que impôs à Europa a predominância política do século os países escandinavos estavam dominados pela
da Alemanha. A vitória alemã em 1870 não chegou a criar influência cultural da Alemanha. Mas quando, em 1864, a
uma nova civilização alemã; mas modificou o mapa espiri- Prússia investiu contra a pequena Dinamarca, arrancando-
tual da Europa. lhe metade do seu território, as simpatias mudaram; e o pós-
O ano de 1870 marcou época na história europeia. Os romantismo sonolento foi substituído pelas novas tendên-
contemporâneos, talvez com exceção do velho Carlyle, te- cias francesas, despertando forças inesperadas. Em 1876
riam protestado contra essa apreciação; a vitória da Ale- começou-se a movimentar a Rússia, nos Balcãs e contra a
manha sobre a França parecia-lhes devida simplesmente à Turquia; e os seus exércitos foram acompanhados de uma
força bruta, mecânica, do exército prussiano, sem signifi- nova literatura, violentamente nacionalista e reacionária.
cação alguma na história das coisas do espírito, nem sequer Deste modo, a Alemanha viu-se isolada no momento do
na ordem económica. Mas não é tanto assim. Até 1870 seu maior triunfo, voltando à situação "atrás de muralhas
o nacionalismo estava sempre aliado ao liberalismo e à de "chinesas" de antes de Lessing e Herder. Os outros países
mocracia, aliança que veio dos dias da Revolução Francês - não lhe imitaram a estrutura política, a aliança dos pode-
quando "jacobinismo" e "patriotismo" eram sinónimos, res feudais com a grande burguesia industrial. Ao contrá-
unidade nacional da Itália foi conseguida pelo liberalismo rio, uma onda de democratismo radical passou pela Europa
de Cavour, aliado ao democratismo de Garibaldi. Na pró- de Gambetta, Gladstone e Crispi. A burguesia ocidental
pria Alemanha, os revolucionários de 1848 foram naciona- fitava enfraquecida; e os intelectuais de origem pequeno-
listas; mas fracassaram. A unidade nacional da Alemanha burguesa prometeram uma nova "Era das luzes", de "Enli-
2264 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2265

ghtenment". Estavam eles, como a pequena burguesia in- o pálido herói byroniano, com as ideias liberais de um " J u n -
teira, gravemente ameaçados pela rápida industrialização; gdeutscher" de 1840, passou por exemplo de "profundidade
daí o conteúdo principalmente político e intelectual, mas alemã". Spielhagen empregava a técnica de Sue com certa
pouco social, do seu radicalismo. Ao mesmo tempo, esse habilidade; In Reih' und Glied, (Em Marcha) biografia
romanceada de Lassalle, é mesmo bom romance, apesar da
radicalismo acompanhava-se de um pessimismo cada vez
incompreensão do autor pela questão social. Hoje, é ver-
mais grave, reflexo do determinismo económico que o ca-
dade, já ninguém é capaz de ler romances assim. Contudo,
pitalismo industrial impôs ao mundo.
numerosos leitores alemães conservaram-se fiéis a Spielha-
O pessimismo, depois de 1870, encontra-se igualmente
gen até em pleno século XX, e esse fato revela o atraso
na França de Taine e Zola e na Alemanha de Burckhardt e
quase incrível do gosto literário da Alemanha de então,
Wagner. Na França, os motivos eram evidentemente po-
julgando-se superior ao mundo inteiro do qual ela estava
líticos: a derrota militar, considerada como sintoma de
separada por aquela "muralha chinesa". Havia, porém, mais
decadência nacional. Alegaram-se, porém, motivos seme-
uma razão por que um numeroso grupo de alemães, contem-
lhantes para justificar o pessimismo na Alemanha vence- porâneos de Zola, Tolstoi e Dostoievski continuavam leito-
dora: a unificação nacional não fora feita pelas forças da res fiéis de Spielhagen: eram os liberais; e Spielhagen —
liberdade, mas pelas do prussianismo; daí a insatisfação fato raro — continuara liberal, depois do triunfo da Prús-
geral com o novo "Reich" de Bismarck, poderosíssimo, mas sia em 1870, sem aderir a Bismarck. Leu-o a parte liberal
em que a civilização alemã entrou em decadência manifesta. da burguesia, enquanto leitores mais modestos preferiram
Admitindo-se tudo isso, não é possível, no entanto, ignorar o humorista F r i t z Reuter ( 3 ), antigo revolucionário, fisica-
as consequências da industrialização, a destruição das ve- mente destruído pela prisão de muitos anos; no saboroso
lhas estruturas sociais. Justamente com respeito à Alema- dialeto dos camponeses de Mecklemburgo, o "Plattdeutsch",
nha foi acentuada ( L ) a relação entre os progressos do ca- descreveu as experiências amargas da sua vida, consolando-
pitalismo e a perda da "alegria de viver", entre o determi- se pelo álcool e pelo humorismo.
nismo económico e o fatalismo resignado dos que naqueles
anos se tornaram leitores de Schopenhauer ( 1 _ A ). Ao mesmo tempo viveu na Suíça, fora das fronteiras
Quando o Reich se construiu, o romancista alemão mais <lo Reich um orgulhoso e materialista, um modesto funcio-
nário do governo cantonal de Zurique, solteirão mal-humo-
lido era Spielhagen ( 2 ), cujo Problematische Naturen (Ca-
rado e sarcástico. Só poucos iniciados sabiam do seu pas-
racteres Problemáticos) foi traduzido para várias línguas:
sado literário, abandonado havia decénios; mas, quando
conseguiram vencer-lhe o pudor de fracassado na vida,
1) G. Dehn: "Der evangelische Mensch und der Sozialismus. (In: arrancando-lhe a permissão de reeditar obras já esquecidas,
Neue Blaetter fuer ãen Sozialismus, 8, 1930.)
IA) G. Lukács: Deutsche Realisten des 19. Jahrhunderts. Berlln,
1952.
2) Friedrich Spielhagen, 1829 — 1911. ) Fritz Reuter, 1810 — 1874.
Problematische Naturen (1860); In BeiJi' und Glied (1866); Kein Huesung (1858); Ut mine Featung3tid (1861); Ut mine
Sturmjlut (1876), etc, etc. Stromtid (1862/1864), etc.
H. Henning: Friedrich Spielhagen. Leipzig, 1910. Edição por K. F. Mueller, 18 vols., Leipzig, 1905.
V. Klemperer: Spielhagens Zeitromane und ihre Wurzeln. Ber- A. Wllbrandt: Fritz Reuter. 2.* ed. Berlln, 1896.
lin, 1913. M. Moeller: Fritz Reuter. Berlln, 1905.
2266 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2267

a literatura de língua alemã tinha mais um grande escritor: de 1870, voltou a escrever: remodelou aquele romance e
Gottfried Keller ( 4 ). Fora, na mocidade, romântico; do- alguns contos, também esquecidos. As suas ideias artísticas
cumento disso é a sua poesia lírica, meio lenauiana, mais destinaram-no para o classicismo, assim como a Alemanha
tarde supervalorizada pelos admiradores. Como jromântico de então estava cheia de epígonos de um goethianismo fal-
entusiasmado foi para Berlim, para estudar pintura. Lendo so. Mas Keller não era alemão; era suíço. A sua gente des-
Feuerbach e frequentando os círculos dos "jovens hegelia- cende, toda, de camponeses, é dura e algo pesada, gosta de
nos", perdeu a fé em Deus; a sua miopia e o desgosto da exprimir-se com realismo franco e humorismo grosseiro, e
"grande" pintura histórica de então fê-lo perder, também, a revela — Gotthelf é o "tipo ideal" do escritor suíço — in-
fé na sua a r t e ; voltou para a sua terra, onde uma decepção clinação marcada para tendências pedagógicas. Keller tam-
erótica o fêz perder a fé em si mesmo. O documento dessa bém é assim. Realismo e humorismo, e uma pedagogia se-
evolução é o romance Der gruene Heinrich (Henrique Ver- creta, caracterizam as Zuericher Novellen (Novelas Zuri-
de), que ficou então despercebido. E Keller retirou-se da quenses), contos que se passam em três séculos diferentes
literatura, levando durante mais de vinte anos a vida silen- da história da cidade de Zurique: Keller nunca escreveu
ciosa do "escrivão de Estado" do cantão de Zurique Der coisa melhor do que Der Landvogt von Greifensee, colocan-
gruene Heinrich é a Éducation sentimentale alemã: a his- do no ambiente engraçado dos literatos Zueriquenses de
tória da derrota do romantismo. Mas pertence à literatura 1750 a dolorosa educação de um Keller de então, de namora-
alemã: é o último dos grandes "Bildungsromane", "roman- dor romântico a solteirão sereno, e do que Das Faehnlein
ces de formação", género tipicamente alemão, que come- der sieben Aufrechten, em que opõe aos revolucionários pa-
çara com o Simplicissimus, de Grimmelshausen, culminou lavrosos de 1848 o democratismo calmo e congénito dos suí-
no Wilhelm Meister, de Goethe, e acabou com o Gruener ços. A arte de Keller não é absolutamente ingénua ou pro-
vincianamente antiquada; seu realismo é mais "real" do
Heinrich.
que o dos realistas contemporâneos da Alemanha quase to-
Keller tinha renunciado ao romantismo e a toda a li-
dos eles algo fantásticos; pois Keller visa o chão firme de
teratura; mas não aos seus ideais. Apenas pretendia reali- uma sociedade tradicional, da democracia suíça. Tampou-
zá-los só no seu modo de viver: o racionalismo superior de co é sua arte inofensivamente idílica, como os críticos na-
um Lessing, o humanismo equilibrado de Goethe. Depois turalistas acreditavam. Um conto tão intensamente trágico
como Romeo und Júlia auf dem Dorfe basta para demons-
trar o contrário, enquanto os outros contos da coleção Die
4) Gottfried Keller, 1819 — 1890. Leute von Seldwyla (A Gente de Seldwyla) são do mais
Gedichte (1846); Der gruene Heinrich (1854/1855; 2.a versão».
(1880); Die Leute von Seldwyla (1856); 2.a ed., 1874); Siében Le- •aboroso humorismo, zombando da vaidade provinciana, da
genden (1872); Zuericher Novellen (1878); Das Sinngedicht (1882); desonestidade comercial e da falsa cultura popular da gen-
Martin Salander (1886).
Edição por E. Ermatinger e F. Hunziker, 10 vols., Stuttgart, 1919.. te de uma típica cidadezinha Suíça — mas o ambiente geo-
Edição critica por J. Fraenkel, 26 vols., Erlenbach, 1926/1953. ráfico-político desaparece atrás do estilo, inesgotável em
F. Baldensperger: Gottfried Keller, sa vie et ses oeuvres. Paris.
1899. aditas metáforas humorísticas, cheio de verdades huma-
M. Hay: A Study of Kéllefs Life and Works. Bern, 1920. • em forma epigramática, de modo que Kleider machen
H. Maync: Gottfried Keller. Berlin, 1923. Ute, Pancraz der Schmoller ou Die drei gerechten Kam-
E. Ermatinger: Gottfried Kellers Leben, Briefe und Tagebuecher
3 vols. Stuttgart, 1924/1925.
G. Lukacs: Deutsche Realisten des 19. Jahrhunderts. Berlin, 1952.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2269
OTTO M A R I A CARPEAUX
2268
vés de narrações de testemunhas dos acontecimentos pas-
macher não têm nada de contos provincianos; apresentam
sados; técnica que lembra a Conrad, e serve, no caso de
símbolos permanentes de conduta humana. O fundo é pes-
Saar, para atenuar a crueldade da vida, apresentando des-
simista. Quase sempre, em Keller, os homens são fracos
graças dolorosas como lembranças longínquas. Todos os
e as mulheres ruins, e todos aspiram às aparências falsas e
personagens das Novellen aus Oesterreich (Novelas Aus-
vistosas. No último romance, este sim um romance regio-
tríacas) são vencidos; e o "Gloria victis!" de uma das no-
nal, Martin Salander, a Suíça moderna aparece como o pa- velas é um grito muito fraco. Saar amou à sua terra, mas
raíso dos faiseurs e brasseur d'affaires. Mas a vida tem sem esperança. As Wiener Elegien (Elegias Vienenses)
força educadora — eis a última fé do ateu impertinente são um quadro poético da grande cidade, outrora centro
Keller — e os poucos bons sujeitos que existem ela os trans- do imenso império dos Habsburgos, agora provincializan-
forma, através de vicissitudes dolorosas, em estóicos se- do-se cada vez mais, sacudida pelo tremor das reivindica-
renos, "pequenos Goethes" de uma vida honesta, laboriosa ções sociais, mas ainda com o mesmo sol de outono sobre a
e afinal feliz, enquanto há felicidade nesta terra. Os outros paisagem e as cúpulas e torres de outros séculos. Poesia
não valem a pena da atenção, senão de um riso que mata. de outono. "Outono transfigurado" é toda a literatura ale-
E Keller podia despedir-se da vida com o verso goethiano, mã séria dessa época infeliz. Poesia de outono é a qualida-
dionisíaco, da sua mocidade, sobre "a abundância áurea do de dos romances da baronesa turingiana Luise von Fran-
mundo": çois ( 6 ), que não tinha nada da força viril de Marie von
Ebner-Eschenbach, mas algo da mestria dos pintores holan-
"Trinkt, o Augen, was die Wimper haelt, deses de quadros de genre, narrando a transformação dolo-
Von dem gold'nem Ueberfluss der Welt." rosa das famílias aristocráticas, caindo para o standard de
vida pequeno-burguesa.
Sem esse "presente dos deuses" — o humorismo — a
Toda a literatura de ficção na Alemanha, entre 1850 e
época admitiu só um consolo: a lembrança melancólica de
1880, é um documento histórico de transição social: no co-
dias mais felizes. Outro "provinciano", isto é, um alemão
meço da época, os personagens são sempre condes e barões;
fora da Alemanha, o austríaco Saar ( B ), não tinha humor;
no fim, pertencem à classe média ( 7 ). E o "Reich" alemão,
os seus contos descrevem a Áustria depois da derrota de
enriquecendo-se enormemente, sofreu perda pavorosa de
1866, separada da Alemanha e procurando o seu caminho
substância cultural, porque as novas classes dirigentes já
próprio, mas sem muita esperança. É como a continuação de
não admitiam os valores do humanismo, entregando-se por
Grillparzer. A técnica novelística de Saar é digna de nota:
completo ao materialismo económico.
os destinos dos personagens revelam-se indiretamente, atra-

fl) Luise von François, 1817 — 1893.


5) Ferdinand von Saar, 1833—1906. Ausgewaehlte Novellen (1868); Die letzte Reckenburgerin (1871);
Innocens (1866); Novellen aus Oesterreich (1876); Drei neue No- Frau Erdmuthen Zwillingssoehne (1872).
vellen (1883); Wiener Elegien (1893); Neue Novellen aus o H. Bender: Luise von François. Hamburg, 1894.
H. Enz: Luise von François. Zuerich, 1918.
reich (1897).
Edição por J. Minor, 12 vols., Leipzig, 1908. 7) E. Kohn-Bramstedt: Aristocracy and the Middle Classes in Ger-
many. Social Types in German Literalure, 1830-1900. New York.
J. Minor: Ferdinand von Saar. Wien, 1898. 1937.
A. Bettelheim: Ferdinand von Saars Leben und Schaffen.
1909.
OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2271
2270
Os vencidos — as classes médias antigas, de formação fantasiados de romanos ou de italianos da Renascença ou de
humanística — leram Schopenhauer ( 8 ), cuja repercussão franceses da Revolução. E n t r e essa falsa "arte de costume
começou nesse tempo; não a repercussão da sua metafísica histórico" e o pessimismo existe uma relação íntima, em
romântica, mas a do seu pessimismo que iluminava e con- 1880 e em modas literárias posteriores.
fortava os desiludidos. Keller e Saar eram leitores assíduos Os "provincianos" como Keller e Saar resistiam melhor
de Schopenhauer; estudaram-no e imbuíram-se no seu espí- a esse perigo do que os escritores de sucesso urbano. Assim
rito os Raabe, Hamerling e Richard Wagner. A repercus- também o mais provinciano de todos, Raabe ( i 2 ) . Nenhum
são de Schopenhauer tornou-se internacional (°). Leram- outro escritor alemão é tão difícil, quase incompreensível
no Flaubert e Turgeniev, Tolstoi, Hardy e Machado de para leitores não-alemães como Raabe; até os títulos dos
Assis. As traduções inglesa (por R. B. Haldane, 1883-1886) seus livros são intraduzíveis. Mas também, na própria Ale-
e italiana (por O. Chilosetti, 1888) acompanharam a intro- manha, nunca foi muito popular; o seu alto valor só foi de-
dução do naturalismo pessimista na Inglaterra e na Itália. vidamente apreciado, por uma elite literária, cada vez me-
A tradução francesa de A. Burdeau (1888-1890) tornou-se nor em número. Hoje, porém, os seus romances e contos
uma das bíblias do simbolismo decadentista. Havia schope- continuam também lidos por gente menos culta, que o pre-
nhauerianos poloneses como Asnyk, rumenos como Emines- fere porque não tem nada de "moderno". Com efeito, Raabe
cu; e vários escritores húngaros, como Kemeny ( 1 0 ), um é um escritor "antiquado". Narra os seus enredos meio ro-
dos últimos grandes representantes do romance histórico manescos vagarosamente, comentando-os por meio de di-
à maneira de Scott, transformando-o em veículo de estudos gressões moralizantes ou humorísticas. A escola de Jean
psicológicos, marcados pelo pessimismo; e Madách ( n ) , Paul é evidente. Como este é Raabe, numa época de pros-
cuja Tragédia do Homem acompanha o homem sofredor peridade geral, o amigo dos pobres, humildes, ofendidos;
por todos os séculos da história. A introdução do pessimis- menos dos proletários propriamente ditos — esses nfio exis-
mo schopenhaueriano, essencialmente a-histórico, na filo- tem no seu ambiente provinciano, atrasado — do que dos
sofia da história deu quase sempre resultados infelizes. aristocratas e burgueses empobrecidos e mais cultos do
Pretendendo-se demonstrar a igualdade dos sofrimentos hu- que os nouveaux riches; dos mestres-escolas incompreendi-
manos em todos os tempos, os personagens históricos trans- dos entre gente bárbara; dos pequenos comerciantes, víti-
formaram-se em manequins, schopenhauerianos modernos, mas dos grandes; das criadas maltratadas e das crianças.

12) Wilhelm Raabe, 1831 — 1910.


Chronik der Sperlingsgasse (1857); Unsers Nergotts Kanzlei
8) Cf. "Romantásmos de Oposição", nota 13. (1862); Der Hungerpastor (1864); Drei Fedem (1865); Abu Telfan
9) J. Krauss: Studlen Veber Schopenhauer. Leipzig, 1931. (1866); Der Schuedãerump (1870); Horacker (1876); Alte Nester
(1880); Kloster Lugau (1893); Die Akten des Vogelaangs (1895);
10) Zsigmond Kemény, 1815 — 1875. Novellen (1900).
Os iluminados (1858); Tempos duros (1862), etc. Edição por F . Hesse e L. Geiger, 18 vols., Berlin, 1913/1916.
Edição por P. Gyulai, Budapest, 1896. A. Spiero: Wilhelm Raabe. 2.» ed. DarmstaUt, 1926.
L. Nogrady: Vida e obras de barão Zsigmond Keményi. Budapest, R. Guardini: Stopfkuchen. Muenchen, 1932.
1902 (em língua húngara). W. Fehse: Wilhelm Raabe's Leben. 2.* ed. Berlin, 1937.
G. Lukacs: Deutsche Reálisten des 19. Jahrhunderts. Berlin,
F. Papp: Barão Zsigmond Keményi. 2 vols. Budapest, 1922/1923. 1952.
(Em língua húngara). H. Pongs: Wilhelm Raabe. Heldelberg, 1958.
11) Cf. "O Advento da Burguesia", nota 10A.
«

2272 OTTO MARIA CARPFAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2273

A sua mistura de realismo e idealismo tem algo de Dickens. crente, tinha fé na possibilidade de uma ordem superior.
Horacker, o melhor dos seus contos, parece um idílio bucó- Sentiu inveja dos homens de pé firme. Gostava do século
lico; mas os personagens são vagabundos, mendigos e cri- XVI, tão sinistro na história alemã, porque foi o século da
minosos. Raabe sintetizou o seu "ideal-realismo" na máxi- Reforma, do protestantismo militante. Raabe, como scho-
ma: "Presta atenção às ruas e olha para as estrelas!" O que penhaueriano, não acreditava em nenhum dogma cristão;
êle desprezava era o reino intermediário entre as ruas dos menos na doutrina de que a Terra é um vale de lágrimas.
pobres e o céu dos ideais: o reino do sucesso material. Mas o "Deus", que há de ter num romance de estilo antigo,
Esse alemão alemaníssimo não se conformou nunca com o em Raabe é o terrível "Deus absconditus" dos luteranos pri-
"Reich" de Bismarck, dos nacionalistas prussianos e dos mitivos dos quais o escritor descendia. Raabe lembra algo
burgueses industriais. E r a conservador demais para isso. a Jacob Boehme, o sapateiro místico da Silésia; gostava
Detestava a nova Alemanha barulhenta, em comparação mesmo dos sapateiros que trabalham humilde e silenciosa-
com a qual a Alemanha antiga lhe parecia um idílio de ver- mente, pensando em coisas superiores, esmagados pela in-
dadeira nobreza. Em Abu Telfan, um alemão que viveu dústria moderna. Raabe sempre tomou o partido do ho-
muitos anos entre os selvagens da África central, sonhando mem antigo contra o homem moderno, do artesão contra o
da pátria, volta e experimenta a maior desilusão; é signifi- industrial e o operário. Os seus personagens lembram os
cativo que na obra de Raabe aparecem muitos reemigrantes artesãos, mendigos, doentes e aleijados que, nas gravuras
assim. No mais conhecido dos seus romances, Der Hunger- de Rembrandt, rodeiam o Cristo: é muito incerta a luz mís-
tica que transluz pelas trevas do claro-escuro. Não é fácil
pastor, Raabe descreveu com compreensão surpreendente
compreender a Raabe. Quando velho e já muito lido, mas
as transformações econômico-sociais que lhe mataram os
continuando incompreendido, Raabe comparou-Be a si mes-
ideais de conservador incurável. Mas o seu pessimismo não
mo a "um carteiro morto que leva cartas lacradas para des-
se limitava a uma determinada época. Escolheu, para tea-
conhecidos". Às vezes, as cartas de Raabe, escritas nas le-
tro dos seus romances e contos históricos, as épocas de
tras indecifráveis de séculos passados, revelam comentários
grandes desgraças na história alemã — sobretudo a época
permanentes da condição humana.
da Reforma e da Guerra de Trinta Anos — para chegar a
conclusões sempre iguais: a vida é a grande inimiga dos Raabe ainda não era lido, e já todo o mundo admirava
homens. Der Schuedderump — expressão arcaica que dá o os poemas do austríaco Hamerling ( 18 ) como expressões do
título à sua obra-prima — é a carreta na qual, em tempos de mais profundo pessimismo filosófico, seja porque se tratas-
peste, o carrasco levou os cadáveres para a vala comum; se da aparição do J u d e u E r r a n t e em meio das orgias e hor-
para Raabe, é o símbolo da vida. rores da Roma imperial, seja porque cuidasse da revolução
Grande leitor e admirador de Schopenhauer, Raabe ti- dos sectários anabatistas em Muenster. Poesia monstruosa
rou do seu conservantismo idílico as conclusões filosófi- e até grotesca, na qual se apreciavam o colorido histórico
cas mais negras. Mas o fundo do seu pensamento não era
antiquado, e sim antimoderno; e, pensando-se bem, não é
tão antimoderno seu "mal-estar dentro da civilização", ex- 13) Robert Hamerling, 1830 — 1889.
Sehwanenlied der Romantik (1862); Ahasverus in Rom (1866);
pressão sua que Sigmund Freud tomará emprestada para Des Koenig von Sion (1869).
título de um dos seus livros. Apenas, Raabe, embora des- M. M. Rabenlechner: Robert Hamerlings Leben unã Werke.
Hamburg, 1897.
2274 OTTO MARIA CARPEAUX HlSTÓBIA DA LlTEBATURA OCIDENTAL 2275

e as e n t r e l i n h a s e r ó t i c a s . E r a a é p o c a n a q u a l u m p i n t o r e r o m a n c e s d e s c r e v e u o a m b i e n t e a r t í s t i c o d a c a p i t a l báva-
medíocre, Hans Makart, despertou delírios de admiração, r a ; e m " g r a n d e s " t r a g é d i a s a p r e s e n t o u as o r g i a s e c r u e l d a -
e n c h e n d o v a s t o s q u a d r o s h i s t ó r i c o s c o m m o n t a n h a s d e cor- d e s da R o m a i m p e r i a l ; n o d r a m a f i l o s ó f i c o Der Meister
pos de m u l h e r e s nuas. A o lado da V i e n a de M a k a r t e H a - von Palmyra exprimiu o pessimismo nobre de u m epígono
merling, M u n i q u e , a cidade de P i l o t y e Lenbach, era o cen- •culto e f a t i g a d o .
t r o d a q u i l o q u e o R e i c h b i s m a r c k i a n o c o n s i d e r a v a c o m o cul- A m a i o r f i g u r a d e M u n i q u e era H e y s e ( 1 T ) , a t é f i g u r a
t u r a a r t í s t i c a . L á se p i n t a r a m n a s A c a d e m i a s e e s t u d o s as e u r o p e i a , p e l o s e l o g i o s q u e B r a n d e s d i s t r i b u i u ao s e u l i -
d e s g r a ç a s h i s t ó r i c a s d e t o d o s os t e m p o s — d e p o s i ç õ e s , a b d i - b e r a l i s m o r e l i g i o s o e m o r a l . C o m e f e i t o , H e y s e era l i v r e -
cações, e x e c u ç õ e s — e as o b r a s d o s p o e t a s e e s c r i t o r e s e r a m p e n s a d o r n o s d o i s s e n t i d o s ; n o r o m a n c e Kinder der Welt
c o m o l e g e n d a s em b a i x o d e s s e s q u a d r o s . A s s i m H a m e r l i n g (Filhos Deste Mundo), r o m a n c e fraco à m a n e i r a d e S p i e -
n a p o e s i a ; e os r o m a n c e s m a i s a d m i r a d o s e r a m Eine aegyp- Ihagen, combateu a intolerância e a hipocrisia em questões
tische Koenigstochter (1864), n o qual o e g i p t ó l o g o G e o r g morais. Mas a luta não era o seu lado mais forte, e a liber-
E b e r s se s e r v i u d a s u a e r u d i ç ã o r e s p e i t á v e l p a r a fazer ficção dade erótica parecia-lhe mais importante do que qualquer
t r i v i a l í s s i m a , e Ein Kampf um Rom (1876), e m q u e F é l i x o u t r a . N o s s e u s c o n t o s e n o v e l a s t r a t a - s e d e s i t u a ç õ e s com-
Dahn, excelente historiógrafo da época das migrações bár- plicadas entre amantes, problemas psicológicos que o autor
baras, descreveu, com acentuado nacionalismo "germânico" resolve de m a n e i r a s e m p r e engenhosa, mas n e m sempre ve-
c alusões anticlericais, a derrota dos godos pelos bizanti- rossímil, como n a r r a d o r habílissimo sem m u i t a profundida-
nos, na Itália. d e . P a r a o c u l t a r esse d e f e i t o — H e y s e era a r t i s t a m u i t o
A é p o c a a p r e c i a v a o r o m a n c e h i s t ó r i c o e as l e m b r a n ç a s •consciente — a s s u m i u a p o s e s e r e n a d e u m c l a s s i c i s t a g o e -
d o passado alemão. Scheffel (14) continuava Iidíssimo. O t h i a n o . T a m b é m e m p r e g o u o r e c u r s o d e f a z e r p a s s a r os
c o n d e S c h a c k e s t a v a e m casa t a n t o n a I t á l i a , c o m o n a E s - a c o n t e c i m e n t o s , as m a i s d a s v e z e s , na I t á l i a m o d e r n a ou d a
p a n h a ou n a P é r s i a . E m M u n i q u e , a c i d a d e d o s p i n t o r e s , R e n a s c e n ç a , p a í s e m q u e se i m a g i n a v a m as p a i x õ e s m a i s
reuniu-se em t o r n o do epígono Geibel (15) u m a "escola" f e r v o r o s a s e n o e n t a n t o s e r e n a d a s pela b e l e z a d a p a i s a g e m
d e p o e t a s e e s c r i t o r e s q u e se j u l g a v a m g o e t h i a n o s p o r q u e -e d o a m b i e n t e a r t í s t i c o . E m b o r a H e y s e e s t i v e s s e c o m o e m
imitavam a Platen, usavam barbas, capas e chapéus carac- casa n a I t á l i a , a " I t á l i a " d o s s e u s c o n t o s t e m a l g o d e i r r e a l ;
terísticos dos pintores de então, e viajavam cada ano para n ã o é a I t á l i a d o s i t a l i a n o s , e s i m a I t á l i a d o s t u r i s t a s es-
a Itália, paraíso dos estetas. É evidentemente, o parnasia-
nismo alemão. U m a figura típica, embora mais ligada a
Viena do que a Munique, era W i l b r a n d t ( 1 0 ) : em comédias 37) Paul Heyse, 1830 — 1914.
Novellen (1855); Neue Novellen (1858, 1862, 1875); Meraner No-
vellen (1867); Moralische Novellen (1869, 1878); Kinder der Welt
14) Cf. "Romantismos de Evasão", nota 11. (1873); Troubadour-Novellen (1882); Unvergessbare Worte und
15) Cf. "Fim do Romantismo", nota 41, e "Advento da Burguesia", andere Novellen (1883); Villa Falconieri und andere Novellen
nota 64. (1888); Novellen vom Gardasee (1902).
Edição por C. Petzet, 15 vols., Stuttgart, 1924.
A. Helbig: Geibel und die Muenchner Schule. Aarau, 1912. Q. Brandes: "Paul Heyse". (In: Moderne Qeister. 4.a ed. Ber-
16) Adolf Wilbrandt, 1837 — 1911. lin, 1901.)
Die Maler (1872); Arria und Messalina (1874); Der Meister von
Palmyra (1889); Hermann Ifinger (1892); Die Osterinsel (1895). H. Spiero: Paul Heyse, der Dichter und sein Werk. Stuttgart,
V. Klemperer: Adolf Wilbrandt. Stuttgart, 1907. 1910.
P. Zincke: Paul Heyse's Novellentechnik. Karlsruhe, 1930.
2276 OTTO M A R I A ÍCARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2277

trangeiros. Esses contos têm hoje sabor especial das coisas radores dos métodos científicos e técnicos, tão eficientes,
agradavelmente antiquadas. Talvez sejam os melhores os dos alemães.
que se passam fora da Itália propriamente dita, no Tirol Na obra de Carducci ( 1 8 ), essa influência é óbvia. Ao
italiano. Assim, no começo da carreira literária de-Heyse, diletantismo estético dos seus patrícios o austero poeta,
as Meraner Novellen, contos comoventes da vida dos tuber- professor temido da Universidade de Bolonha, opunha o
culosos que procuram alívio naquela região paradisíaca; e r trabalho exato no terreno da história literária, as edições
no fim, as Novellen vom Gardasee, do lago clássico de Ca- críticas, a revisão dos textos. Mas o professor era poeta.
tulo e dos quadros de Boecklin. T u d o isso é "coisa anti- Não sabia resistir à tentação de tirar conclusões sintéticas,
quada do tempo de antes da grande guerra"; Heyse morreu, esboçar panoramas históricos; e chegou a uma síntese da
octogenário, em 1914. Nos seus contos, até os camponeses história literária, moral e civil da nação italiana, baseada,
italianos são gente culta que fala de sutilezas da psicologia ao seu ver, integralmente na civilização clássica, greco-
erótica em termos de poetas petrarquescos; e na atmosfera latina, e só deformada pela influência do cristianismo. Pre-
há qualquer coisa de "halcyônico" que sugere, na releitura, tendendo acompanhar a renascença nacional da Itália por
a nostalgia de um mundo não mais feliz, mas mais belo. meio de uma renovação literária, o humanista Carducci
J á os contemporâneos da segunda metade da longa vida voltou-se para as fontes; e a métrica de Platen, do qual
de Heyse sentiam isso. O "poeta do E r o s " tornou-se leitu- traduziu várias poesias, forneceu-lhe o modelo de uma poe-
ra para moças do colégio. Foi considerado como o ú l t i m o sia italiana em metros antigos, as Odi barbare. Não cor-
descendente da estirpe de Goethe; e em 1910 conferiram- respondia, porém, o novo reino aos seus ideais sublimes.
Ihe o Premio Nobel. Hoje em dia, Heyse já não é muito Ao contrário. E o professor de Bolonha tornou-se poeta
lido. Permanecem as suas excelentes traduções de poetas cívico, patriota extremado, republicano, anticlerical; o poe-
italianos, de Parini, Leopardi, Giusti, Belli. ta da oposição. Depois, fêz escândalo a sua apostasia po-
lítica: a conversão do republicano, comovido pela beleza
Dois traços característicos dos epígonos-parnasianos de
Munique são estes: a cultura formal do estilo conforme a s
normas de Platen, e o entusiasmo estético pela Itália. O
conhecedor da literatura italiana lembra-se imediatamente 18) Giosue Carducci, 1835 — 1907.
Levia Gravia (1868); Poesie (1871); Nuove poesie (1872); Odi bar-
de um contemporâneo dos muniquenses, nacionalista e h u - bare (1877); Nuove odi barbare (1882); Rime nuove (1887); Terze
manista italiano e admirador tão assíduo de Platen que odi barbare (1893) etc, Delle rime di Dante (1865); Dello svol-
gimento delia letterature nazionale (1871); Crítica e arte (1874);
chegou a basear na métrica do poeta alemão a sua renovação Pietro Metastasio (1882); Uopera di Dante (1888) etc.
da poesia italiana: Carducci. Em 1870, a Alemanha, an- Edição N. Zanichelli, 20 vols.. Bologna, 1889/1909.
A. Jeanroy: Giosue Carducci, Vhomme et le poete. Paris, 1911.
tipatizada na Europa inteira, tinha perdido as suas provín- E. Thovez: Jl pastore, la gregge e la zampogna. Napoll, 1911.
cias de influência cultural no estrangeiro: a Holanda, a A. Meozzi: Uopera di Giosue Carducci. Firenze, 1921.
B. Croce: Giosue Carducci. Bari, 1927.
Escandinávia, a Rússia. Em compensação, ganhou uma A. Galletti: Uopera di Giosite Carducci. 2 vols. Bologna, 1929.
nova zona de influência na Itália. Menos porque ajudara à E. Palmieri: Giosue Carducci, studio intorno alia critica e alia
lirica carducciana. Firenze, 1930.
unificação política da península, ligando-se ao novo reino G. Santangelo: Carducci. Palermo, 1945.
por uma aliança, do que por os italianos se tornaram admi- G. Natali: Giosue Carducci. Bologna, 1950. (2.a ed. Firense, 1961).
M. Saponaro: Carducci. 2.° ed. Milano, 1951.
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da Rainha Margherita e pelo liberalismo do Rei Umberto. Itália", puramente clássica, infelizmente deformada pelas
Carducci acabou como "Poet Laureate" da Itália. nefastas influências do cristianismo. Então, o poeta das
Daí os aspectos diferentes e até contraditórios da sua Primavere elleniche adotou o falso paganismo de Swin-
obra, elogiada até as alturas e censurada acerbamente/ Car- b u r n e ; acreditava ser baudelairiano, escrevendo um Inno
ducci era um grande erudito e um grande professor. As a Satana. Apareceu como cantor furioso do republicanismo
suas edições continuam modelos até hoje. Ninguém antes, jacobino, do ça ira. E no Saluto itálico dirigiu-se às re-
e ninguém depois, dominava como êlje a literatura italiana giões "irredente", ainda dominadas pela Áustria —
inteira, relacionando-a sempre à literatura latina e ao espí- " . . . in faceia a lo stranier, che armato accampasi
rito grego. Daí ter sido êle um homem livresco, e~a sua su'l nostro suol, cantate: Itália, Itália, Itália!"
poesia, feita de citações e alusões, poesia de professor, "ex- Carducci estava enganado. T u d o isso não era tão "sa-
cellent scholar's poetry", retórica e retumbante. É poesia tânico" como parecia. Todo mundo na Itália era partidário
de epígono, poesia parnasiana; e as perspectivas históricas, do "irredentismo", inclusive os círculos oficiais, que o dis-
desenvolvidas nas grandes odes como Dinanzi alie Terme simulavam por motivos diplomáticos. Nenhuma persegui-
di Caracalla, Alie fonti dei Clitumno, Su YAdda, Su Monte ção ameaçava aos republicanos na Itália liberal. E o anti-
Mário, revelam, além da influência de Hugo, a de Leconte clericalismo era doutrina oficial do Estado, ao qual o Va-
de Lisle. Justamente por isso foi Carducci tão admirado t i c a n o recusou o reconhecimento diplomático. Carducci,
pelos professores e, depois, também pelos círculos oficiais quando se converteu à monarquia, não precisava retratar-
da nova Itália; e foi esse lado retórico da sua poesia que se em nada. Mas os efeitos da sua poesia, acolhida em todos
aborreceu aos "jovens", aos estetas à maneira de D'Annun- os manuais escolares, já estavam aí. Carducci criara mais
zio e aos partidários do futurismo de Marinetti. Talvez do que uma consciência nacional, antes um mito coletivo
nunca um poeta cercado da admiração nacional tenha so- da nova Itália. Neste sentido, é o tipo do professor furi-
frido ataque tão mordaz como Carducci sofreu no livro de bundo que tira dos seus livros slogans de violência nacio-
Enrico Thovez, cujo título II pastore, il gregge e la zam- nalista. Menos de vinte anos depois da morte do grande
poeta democrata, poesias suas como Nell' annuale delia
pogna já revela a tendência de denunciar o poeta como ora-
fondazione di Roma eram peças oficiais da literatura fas-
dor oco, sedutor da mocidade ingénua. O ataque atinge os
cista. E os d'annunzianos e futuristas, os anticarduecianos
imitadores numerosíssimos que devastaram, com efeito, a
de outrora, assistiram à nova vitória, póstuma, do velho
poesia italiana, mas não aprecia bem a origem da retórica
poeta.
carducciana. E s t a origem encontra-se na sua situação so-
cial, que o aproxima, mais uma vez, dos parnasianos alemães, Vitória efémera; e, mais uma vez, a culpa não é de
platenianos como êle: intelectuais pequeno-burgueses, li- Carducci mas dos seus imitadores e exploradores. Basta ler
berais por definição, decepcionados com o lendemain da os numerosos estudos críticos de Carducci — uma das me-
unificação nacional. Até então, Carducci fora só humanista lhores e mais duradouras partes da sua obra — para saber
e poeta idílico. Foi a indignação que o transformou em que não era um hugoniano ôco nem um retórico pré-fascis-
poeta cívico, no satírico dos Giambi ed Epodi, moldados ta. As suas convicções" eram profundamente humanitárias,
nos Châtiments de Hugo. Mas vieram coisas piores. Àque- de um grande cosmopolita de coração generoso; na Itália,
la indignação juntou-se à teoria fantástica duma "terza lie amava o centro de uma civilização da qual êle esperava
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2281
2280 OTTO M A R I A CABPEAUX

a libertação da humanidade inteira. Não foi o primeiro fas- gílio. O poeta da Roma imperial também não conseguira
cista, mas o último humanista. E no foro intimo, ele tinha criar um mito político em poesia; mas salvou-se pelo senti-
mento profundamente humano em que as supremas neces-
mesmo essa consciência de ser "último", epígorlo. Numa
sidades da urbe e da humanidade se identificaram. Isso já
das grandes odes, Nella piazza di San Petronio, confessa
não era possível com respeito à nova Roma, capital do rei-
escrever \
no nacional da Itália. Mas aquelas grandes odes também
" . . . il verso in cui trema se salvam, porque se baseiam numa tradição humanitária
un desiderio vano delia bellezza antica." que é bem italiana e que a mocidade d'annunziana e futu-
rista não sabia continuar. Deste modo, Benedetto Croce,
"Desiderio vano"! Na poesia de Carducci é frequente o último grande liberal da Itália, tinha razão, ao terminar
uma melancolia pouco helénica e inesperadamente român- um ensaio sobre Carducci com um verso de Tasso, citado
tica. Na famosa ode Alia stazione in una mattina d'autun- bem a propósito:
no confessa mais: "D'Italia grande, antica, Tui timo vate."
Não há dúvida, porém, de que esta Itália do professor
"Oh qual caduta di foglie, gélida, erudito não era a do povo. Carducci é um poeta incomen-
continua, muta, grave, su 1'anima! jsuràvelmente maior do que todos os parnasianos franceses
io credo che solo, che eterno, e muniquenses alemães juntos; mas a sua posição era a
che por tutto nel mondo é novembre." mesma; e a êle também se opunha a voz modesta de resis-
tência popular, a das províncias. Na Itália, aliás, a oposição
Como tantos outros parnasianos era Carducci um ro- entre a poesia retórica, "cósmica" e classicista, dos cultos,
mântico secreto; e como tantos outros românticos ele tam- e a poesia provinciana e dialetal, do "popolo minuto", é um
bém era um idilista irritado e exacerbado. Talvez se apli- fenómeno permanente, desde os dias dos marinistas e ar-
que bem a Carducci o que o seu admirador Benedetto Croce cadianos e da commedia delVarte. Verdadeira antítese de
dizia de um outro poeta italiano, de Pascoli: um idilista Carducci é Cesare Pascarella ( 1 9 ), poeta em dialeto de
que assumiu erradamente o papel do bardo, do vate nacio- Roma, dos proletários e pequenos-burgueses da mesma
nal. E n t r e as peças mais belas de Carducci encontram-se Roma que a Carducci significava a capital histórica da civi-
as de poesia íntima e paisagística: "II bove", "Traversan- IÍ2ação europeia. Para Pascarella, não. O seu horizonte
do la Maremma toscana", "San Martino". E quando ele diz acaba na fronteira do subúrbio de Trastevere. A epopeia
dos olhos do b o i : geográfica de Colombo, na Scoperta deli'America, é para

" . . . dei grave occhio glauco entro 1'austera


dolcezza si rispecchia ampio e quieto 19) Cesare Pascarella, 1858 — 1940.
Villa Gloria (1886); Scoperta deli' America (1894); Sonetti (1904).
il divino dei pian silenzio verde." — E. Veo: / poeti romaneschi. Roma, 1925.
B. Croce: "Cesare Pascarella". (In: La Letteratura delia Nuova
Itália. Vol. I I . 3.» ed. Bari, 1929.)
revela-se uma maneira de sentir realmente clássica, não li- A. Bizzarri: "Vita dl Cesare Pascarella". (In: Quadrivio, 1933.
vresca, estudada, mas de um descendente autêntico de Vir- 10/11)
2282 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2283

ele assunto de conversas numa taberna romana, e o episódio "Questa bella mia sirena
heróico-patriótico de Villa Gloria torna-se a coisa mais anti- F a morirmi co' suoi canti."
patética do mundo. Pascarella é humorista; mas* não con-
vém confundi-lo com o poeta de hoje em dialeto romano, Os contos de Di Giacomo bastam para desmentir essa
o famoso Trilussa, "humorista" inofensivo. Pascarella é apreciação. São dum naturalismo muito mais amargo do
poeta autêntico; e dentro dos limites que o dialeto impõe, que os romances naturalistas de Matilde Serao-Scarfoglio.
a sua arte verbal, sobretudo nos sonetos, não é menor do Os seus personagens preferidos são as pobres moças cam-
que a de Carducci. ponesas que vêm à cidade em busca de trabalho e caem na
Contudo, o romano Pascarella apenas é poeta menor em prostituição suburbana; é o troubadour dessas infelizes do
comparação com o napolitano Di Giacomo ( 2 0 ). Durante amor físico. E atrás dessas vítimas levanta-se o grito de
mais de vinte anos, a sua poesia correu, admiradíssima, pelo todas as criaturas infelizes da grande cidade, infelizes em
mundo inteiro que lhe desconhecia por completo o nome. face da natureza mais bela do mundo, e dessa desarmonia
O caso é singular. Di Giacomo era um grande erudito, co- estridente tira o poeta Di Giacomo as harmonias perfeitas
nhecedor íntimo do passado da sua cidade; as suas obras dos seus versos, verdadeiramente clássicos, grande arte em
sobre o assunto são valiosas; o próprio Benedetto Croce dialeto popular, música que desmente a arte dura e falsa dos
é, a esse respeito, discípulo dele. Conhecendo como nin- poetas classicistas que viram Nápoles, sempre, apenas pe-
guém a vida popular de Nápoles, Di Giacomo participava los óculos de Teócrito e Virgílio. Di Giacomo é hoje jus-
das famosas festas folclóricas, escrevendo textos para as tamente apreciado; apenas o dialeto, algo difícil até para os
canções; e, com a música, esses textos, ora alegres, ora sen- italianos do resto da península, impediu-lhe a repercussão
timentais, sempre saborosos, percorriam o mundo. O poeta- devida.
diletante não pensava em reuni-los, tampouco os contos fol-
E m parêntese, poder-se-ia mencionar uma evolução qua-
clóricos que publicou ocasionalmente em revistas locais.
se análoga na Espanha. Lá desempenhou o papel de Car-
Croce revelou o poeta. À primeira vista, Di Giacomo pare-
ducci o autor dos Ecos nacionales, o hugoniano Ruiz Agui-
ce o rei do lugar-comum napolitano; canta tudo aquilo que
lera ( 2 I ) . Nem de longe pode ser comparado ao grande ita-
os turistas conhecem de sobra — os lazzaroni, as serenatas, liano; mas os contemporâneos dedicaram-lhe a mesma ad-
as belas noites de lua no mar em face da cidade que é ne- miração, não apenas um Palácio Valdês, mas também o
cessário ver antes de m o r r e r : grande naturalista Pérez Galdós e até o renovador da E s -
panha em espírito democrático, o educador Francisco Giner
de Los Rios. A popularidade de Ruiz Aguilera só foi que-
20) Salvatore Di Giacomo, 1860 — 1933. a
Poesie (edit. por B. Croce e F. Gaeta 2. ed.. Napoli, 1907). brada pelo poeta popular Salvador Rueda ( M ) , o cantor
Novelle napoletane (edit. por B. Croce, Milano, 1914).
K. Vossler: Salvatore Di Giacomo, ein neapolitanischer Volksdi-
chter in Wort, Bild und Musik. Heidelberg, 1898.
F. Gaeta: Salvatore Di Giacomo. Napoli, 1911.
L. Russo: Salvatore Di Giacomo. Napoli, 1921. 21) Cf. "Romantismo de Oposição", nota 77.
B. Croce: "Salvatore Di aGiacomo". (In: La Letteratura delia 22) Salvador Rueda, 1857 — 1933.
Nuova Itália. Vol. m . 3. ed. Bari, 1929.) Poesias completas (1911).
E. Moschino: "Salvatore Di Giacomo e la sua arte". (In: Leo- A. Martínez Olmedilla: Salvador Rueda, su vida, sus obras. Ma-
nardo, X/2, 1939.) drid, 1908.
2284 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2285

da Andaluzia, infelizmente um verbalista torrencial, de fa- Norte, veio o frísio Storm ( 2 4 ), que ainda nascera como sú-
dito dinamarquês. Escandinava é a sua grave melancolia,
mília hugoniana. A verdadeira renovação parecia caber a
nas poesias e nos contos. Como contista, Storm sobrevive
outro poeta regionalista, Gabriel y Galán ( 2 3 ), paisagista
e sobreviverá, comentarista dos homens silenciosos e me-
emocionado — lancólicos que vivem no litoral dos mares nórdicos, acostu-
mados à luta contra uma natureza hostil, fechando em si
"La duice poesia de mis campos mesmos, com o máximo pudor, os seus sentimentos e tragé-
Como el agua resbala por la piedra!" — dias íntimas. E m Storm há algo da arte severa de Brahms,
Quem leu In St. Juergen, Carsten Curator, Die Soehne des
idilista sentimental, de sinceridade inegável, embora o seu Senators, Hans und Heinz Kirch, guardará lembrança ines-
"realismo" seja mais romântico do que se deseja. O suces- quecível da terra e da gente de Theodor Storm, da pequena
so de Gabriel y Galán foi tão grande que o compararam a cidade cinzenta sobre a qual está zunindo, durante o ano1
Garcilaso de la Vega. Comparação absurda, tle consequên- inteiro, o vento frio do Mar do N o r t e ; e nas noites lamen-
tam no ruído desse vento as vozes das almas que passaram
cias funestas. A crítica conservadora tentou jogar Gabriel
e que não encontram paz porque nunca foram capazes de se
y Galán contra Dário e os "modernistas"; e a renovação
abrir. Storm condensou essa "Stimmung" num pequeno
da poesia espanhola não veio do regionalismo europeu e sim
,poema, com o verso-refrão que é como a epígrafe da sua
da América. obra inteira: "Querida cidade cinzenta à beira do mar"—
A renovação da literatura alemã veio realmente da pro-
víncia — e do pessimismo. O que faltava sobretudo a Heyse
"Du graue Stadt am Meer."
c a todos os epígonos-parnasianos era a atmosfera; aquilo
a que os alemães chamam "Stimmung": o acorde entre a A importância histórica do grande contista Storm re-
emoção e o ambiente, o lirismo. É tudo literatura livresca. side, principalmente, na sua poesia lírica. Depois de um
"Stimmung" havia em Raabe, mas o humorismo algo esqui- intervalo de duas gerações de prosa, Storm reencontrou o
sito a ocultava. "Stimmung", a da melancolia tipicamente
austríaca, havia em Saar. É muito significativo que o liris- 24) Theodor Storm, 1817 — 1888.
Immensee (1852); Gedichte (1852); In St. Iuergen (1867); Ein
mo, depois de 1870, só sobreviveu na província, nas margens stiUer Musikant (1874); Aquis submersus (1877); Carsten Curator
(1877); Zur Wald-und Wasser/reude (1878); Renate (1878);
do Reich, longe da nova capital industrializada e da "cida- Eekenhof (1879); Die Soehne des Senators (1880) Rans und
de dos pintores" afetados. Saar era um homem à margem, Heinz Kirch (1882); Ein Fest auf Haderslevhuus (1885); Boetjer
Basch (1887); Der Schimmelreiter (1888).
geográfica e humanamente. Da outra margem, do extremo Edição por A. Koester, 8 vols., Leipzig, 1919/1920.
Eg Lukacs: "Theodor Storm". (In: Die See leund die Formen.
Berlin, 1911.)
A. Biese: Storms Leben und Werke. Leipzig, 1917.
P. Pitrou: La vie et 1'oeuvre de Theodore Storm. Paris, 1923.
23) José Maria Gabriel y Galán, 1870 — 1905. P. Schuetze e E. Lange: Storms Leben und Dichtung. 4.a ed. Ber-
Castellanos (1902); ExtremeUas (1902); Campesinas (1904). lin, 1925.
A. Revilla Marcos: José Maria Gabriel y Galán. Su vida Fr. Stuckert: Theodor Storm. Sein Leben und seine Welt. Bre-
obras. Madrid, 1923. men, 1955.
F. Iscar Peyra: Gabriel y Galán, poeta de Castilla, Madrid.
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tom da poesia popular, a música romântica dos Brentano e trício Liliencron ( 2 5 ) da imitação epigônica; deu-lhe a co-
Eichendorff; dir-se-ia Lenau, se Storm não fosse superior ragem de falar imediatamente, com lirismo direto, da sua
pela cultura cuidadosa, quase parnasiana, do verso. O ele- própria realidade pessoal. E assim Liliencron se tornou um
mento romântico é forte em Storm: aparece na sua melan- dos maiores poetas líricos de língua alemã. No começo,
colia, no gosto da solidão. Mas também é realista, enca- encontrou resistência dura da parte dos conservadores que
rando a realidade sem sentimentalismo; e, além do binó- o consideravam como diletante e revolucionário inábil do
mio romantismo-realismo, está a sua técnica novelística, que verso. Depois, muito da sua poesia — Liliencron era fe-
lembra a Saar e, mais do que este, a Conrad. Quase nunca cundo e escreveu demais, muitos versos fáceis — entrou
Storm narra diretamente os acontecimentos do enredo; um na memória dos menos cultos; e, então, começou a resis-
amigo conta, numa noite de conversa, coisas que viu na mo- tência dos "modernos". Os contemporâneos imediatos de
cidade, há muitos anos passados, ou então coisas que ouviu Liliencron eram os decadentistas melancólicos e requin-
contar, naquela época, por um velho que as testemunhara tados, imitadores do simbolismo francês; a eles, o alemão
na mocidade dele. Deste modo, tudo aparece refletido e ^ g o grosseiro com a sua aparente alegria de viver era in-
mais uma vez refletido; tudo, em Storm, é lembrança lon- tensamente antipático; e, em parte, essa resistência conti-
gínqua. O mundo lírico de Storm é uma transfiguração de nua e será impossível, porque Liliencron, pela sua situação
realidades passadas pela memória. Neste sentido, Storm social, não pode ser simpático ao mundo. Descendente de
é evasionista como Saar e Raabe. Mas, enquanto Raabe de- barões dinamarqueses, era aristocrata prussiano, da pequena
formava as coisas pelo humorismo e Saar pela melancolia aristocracia dos JunJkers, e era oficial prussiano. Lembran-
nostálgica, Storm deformava a realidade num sentido mais ças da guerra de 1870 e cenas da vida militar prussiana na
plástico: criou símbolos de significação permanente. Já paz são frequentes na sua poesia; até as poesias eróticas
refletem aventuras de tenente. E há muita gente que não
a novela histórica Ein Fest auf Haderslevhuus e o conto
gosta disso. O "militarismo" em Liliencron é, porém, só
"Hans und Heinz Kirch" destacam-se assim; ainda mais a
uma lembrança nostálgica de dias mais felizes. O poeta foi,
última e mais forte das suas novelas, Der Schimmelrejter
cedo, reformado; e depois de uma experiência malograda
(O Cavaleiro Branco), em que um fantasma da superstição
no serviço público civil, tinha que viver miseravelmente
popular se revela como lembrança quase mítica de uma
como literato profissional, boémio; desde então, a sua poe-
grande figura esquecida do passado: do homem que sim-
sia, embora conservando os mesmos assuntos, tornou-se
boliza a luta daquela gente germânica contra o mar. Aí,
Storm, aproximando-se do tamanho e forma do romance,
ultrapassou definitivamente o binómio romantismo-realis- 25) Detlev von Liliencron, 1844 — 1909.
Adjutantenritte (1883); Gedichte (1889); Neue Gedichte (1893);
mo; através da narração duplamente indireta aparece uma Kriegsnovellen (1894); Poggjreâ (1896); Nebel und Sonne (1900);
realidade superior, a da arte. Bunte Beute (1903); Balladenchronik (1906).
Edição por R. Dehmel, 8 vols., Berlin, 1911/1913.
H. Spiero: Detlev von Lilíencrons Leben und Werice. Berlin,
A poesia lírica de Storm não é comparável à sua arte- 1913.
H. Maync: Detlev von Liliencron. Berlin, 1920.
narrativa; mas teve repercussão mais profunda. Libertou J. Elema: Stil und poetischer Charakter bei Liliencron. Amster-
— e é este o mérito principal do poeta Storm — o seu pa- dam, 1937.
H. Leip: Liliencron. Leipzig, 1943.
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cada vez mais "moderna". Não parece assim, à primeira "Und der gesungen dieses Lied,
vista. É paisagista de estilo meio romântico, como Storm. Und der es liest, im Leben Zieht
Uma das poesias melancólicas desse género, "Auf dem Kir- Noch frisch und froh;
chhof" ("No Cemitério"), é conhecida mundialmente pela Doch einst bin ich und bist auch du
música de Brahms. Além desse poema, o mundo lá fora Verscharrt im Sand zur ew'gen Ruh' —
ignora o poeta, que tem algo de regionalista: poeta do W e r W e i s s Wo."
mar e das florestas sombrias da Alemanha setentrional, e
sobretudo da estepe que êle descobriu poeticamente; e nes- Todos nós, que andamos pela vida, um dia estaremos
enterrados — "Quem Sabe Onde".
ses Heidebilder é que Liliencron aparece em toda a sua
In einer grossen Stadt revela as angústias do homem
"modernidade", dum realismo muito franco e tratamento
perdido entre milhões de homens alheios, sozinho na gran-
muito pessoal, antitradicionalista, do verso.
de cidade. E m toda a parte, em Liliencron, está a obses-
Liliencron não pertence à "escola clássica" da poesia são da morte, para a qual encontrou afinal o símbolo nos
alemã; não tem nada com Klopstock e Hoelderlin, pouco versos quase clássicos de Acherontisches Froesteln, a visão
com Goethe e Moerike. Os seus antepassados poéticos são do rio Lete, que o levará para o silêncio frio:
Matthias Claudius e Eichendorff, a "escola da poesia po-
"Durch kahle Aeste wird ein Fluss sich zeigen,
pular". Por isso sabia escapar do epigonismo; mas à músi-
Der sçhlaefrig an mein Ufer treibt die Faehre,
ca do lied juntou o realismo que faz o encanto de poesias
Die mich hinueberholt ins kalte Schweigen."
como "Maerztag", a sensibilidade impressionista dum ofi-
cial e caçador, acostumado a viver ao ar livre, observando
Do começo até o fim, a poesia de Liliencron apresenta
as oscilações da atmosfera:
um quadro completo da existência humana, não excluindo
nada. Preparou-se assim a lírica naturalista do seu amigo
"Wolkenschatten fliehen ueber Felder, Richard Dehmel, que devia editar-lhe as obras completas.
Blauumdunstet stehen ferne W a e l d e r . . . " Mas este, se bem que menos profundo, tem horizonte mais
amplo: já está emocionado pela questão social, que Lilien-
O horizonte poético de Liliencron era limitado: vida cron ignorava ou quis ignorar, limitado pelos preconceitos
da sua casta.
militar, caça, paisagens, fugitivas aventuras eróticas, boé-
Doutro lado, essa casta aristocrática prussiana, embo-
mia, e muita nostalgia de ocasiões perdidas. Mas esse jun-
ra dirigindo o país, abrigava grande número de pequenos
ker era poeta nato, em todas as suas consequências. A vida
icrratenientes e oficiais subalternos que, gozando de pri-
normal rejeitou-o. E êle reagiu com pessimismo cada vez
vilégios de aparência, não participavam da prosperidade
mais negro. Quando, em Wer Weiss v/o, pretendeu es- geral. Os grandes aristocratas prussianos, sobretudo os da
crever a balada patriótica dos soldados mortos na batalha Silésia e da Renânia, tornaram-se sócios dos reis do car-
e enterrados, "quem sabe onde", ocorreram-lhe os versos , do aço e da "indústria química. Os pequenos viram-se
finais — M. reduzidos à condição de oficiais subalternos e funcionários
2200 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2291

públicos mal remunerados, mas cumprindo o dever com tério, L'Adultera, começou a série dos seus romances "mo-
a mesma tenacidade e honestidade dos antepassados e ocul- dernos", realistas. Com o romance da sedução de uma po-
tando, precariamente, a pobreza vergonhosa. Liliencron bre moça por um oficial, Irrungen, Wirrungen, conseguiu
era dessa gente. Mas, em geral, eles não sabiam escrever. o primeiro êxito. E o seu romance mais famoso, Effi
Acharam o cronista fiel num homem de outra estirpe e até Briest, é uma Madame Bovary prussiana. O sentido secre-
de outra raça, homem acima dos partidos de qualquer es- to dessas histórias, narradas com elegância despreocupada,
pécie, políticos, sociais e literários: Fontane. é uma crítica ao conceito de honra da aristocracia prussia-
A literatura alemã renovou-se pelo provincialismo; n a : continuam idolatrando esse fetiche, em condições so-
consumou-se essa renovação pelo escritor que descobriu a ciais que j á não admitem o culto sincero, permitindo, po-
província em redor da capital e enfim a província dentro rém, atos poucos honrosos contra gente inferior ou inde-
da própria capital. O ponto de partida de Fontane ( 26 ) fesa. Contudo, Fontane não considerava como melhor a
eram os romances nos quais Alexis glorificara a história nova burguesia. Não tinha censurado as atitudes aristocrá-
modesta e contudo significativa de Brandemburgo. Numa ticas; só tinha demonstrado, com objetividade imparcial,
obra na qual trabalhou durante vinte anos, publicando-a em as consequências morais, desastrosas. Tampouco censurou
pedaços, as Wanderungen durch die Mark Brandenburg, a burguesia; preferiu o sorriso sarcástico; e Frau Jenny
descobriu Fontane o encanto íntimo e as lembranças histó- Treibel é um panorama altamente divertido das atividades
ricas daquela paisagem que fora considerada feia porque de uma grãfina berlinense. Fontane é mais humorista do
é sombria. Escreveu mesmo romances históricos, dos quais que satírico. Em Irrungen, Wirrungen (Equívocos, Confu-
o mais importante, Vor dem Sturm, descreve a corrução sões), o oficial culpado é, afinal, um arrependido sem cul-
moral na Prússia antes da derrota de 1806. Mas poucos o pa propriamente dita; e Jenny Treibel é, apesar de tudo,
leram e ninguém lhe reconheceu as qualidades literárias. muito razoável e simpática. Fontane não toma partido
Fontane ganhava a vida como jornalista nos grandes diá- contra os seus personagens. Para atitudes partidárias fal-
rios berlinenses; e depois de 1870 foi êle, parece, o único ta-lhe o entusiasmo; é antipatético. Não gosta da nova
que observava a transformação da pequena capital quase época burguesa. Mas também duvida dos "bons, velhos
provinciana de outrora em grande cidade moderna. As ob- tempos". Acha que todos os tempos foram ruins, que a
servações do jornalista ensinaram-lhe o realismo. Mas o Justiça e a Bondade nunca tiveram oportunidade de vencer,
modelo imediato era Flaubert. Com um romance de adul- e que ao homem honesto não resta outra solução do que a
lei moral dos prussianos à antiga: cumprimento do dever
26) Theodor Fontane, 1819 — 1898. sem esperança de recompensa. Ainda havia gente assim;
Wanderungen durch die Mark Brandenburg (1862/1881); Vor c no romance magistral Die Poggenpuhls Fontane reve-
dem Sturm (1878); Grete Minde (1880); L'Adultera (1882); Irrun-
gen, Wirrungen (1887); Stine (1890); Frau Jenny Treibel (1892); lou-lhes a existência de oficiais pobres, residindo em bair-
Effi Briest (1895); Die Poggenpuhls (1896); Der Stechlin (1898).
Edição S. Flscher, 21 vols., Berlin, 1905/1908; Edição dos roman- ros baratos de Berlim: província dentro da própria capital.
ces, 8 vols., Muenchen, 1959. Fontane é mestre do colorido regional. Uma época
C. Wandrey: Theodor Fontane. Muenchen, 1919.
H. Maync: Theodor Fontane. Berlin, 1920. da vida berlinense e brandemburguense fica fixada nos seus
K. Hayens: Theodor Fontane. London, 1920. romances. Os enredos não são muito importantes. Os per-
G. Radbruch: Fontane oder Skepsis und Glaube. Leipzig, 1945.
O. Lukacs: Deutsche Realisten ães 19. Jahrhunderts. Berlin, 1952. •onagens revelam-se dialogando; o último romance, Der
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Stechlin, consiste só em diálogos e conversas, sempre deli- de 1870, sem vontade de submeter-se ao novo estado de coi-
ciosas. " E m toda conversa precisa-se de um que se cala", sas. O divórcio entre o Reich alemão, a organização polí-
reza uma das frases aforísticas de Fontane. Êle mesmo era tico-militar-econômica, e a civilização alemã era completo.
o observador silencioso dos seus personagens, aos quais Mas a linha de separação não acompanhava a fronteira
comunicava o seu próprio talento extraordinário de cau- entre os programas políticos. Os socialistas e os católicos,
seur espirituoso. Talvez se encontre nesse talento o se- os inimigos mais decididos do Reich de Bismarck, não es-
gredo de Fontane. E r a berlinense típico; mas descendia tavam representados dentro daquela "oposição literária".
de huguenotes franceses, daqueles que emigravam para a E liberais da velha estirpe como Freytag aderiram ao Reich,
Prússia no fim do século X V I I , desempenhando desde en- enquanto o "oposicionista" Raabe era conservador. A dis-
tão um grande papel na vida social e cultura de Berlim. tinção entre "literatura da capital" e "literatura da provín-
Daí o esprit de Fontane e a sua capacidade de ignorar os cia" é melhor, mas também inexata — Fontane era berli-
preconceitos da sua gente, a sua imparcialidade que limi- nense — e sem conteúdo ideológico. Críticos modernos
tou a sátira ao sorriso complacente. "É preciso não exage- gostam de lembrar os místicos do século X V I I e os pietis-
rar as tragédias", dizia F o n t a n e ; e, com exceção de Effi tas do século X V I I I , os "Stillen im Lande" (os "Quietos
Briest, os seus romances não terminam com desfecho trá- no País"), retirados do mundo barulhento; e essa defini-
gico; mas tampouco com happy end. As soluções ficam ção acerta pelo menos com respeito a Keller, Raabe e Storm,
indecisas, em suspenso. Eis o elemento de "compromisso sem excluir Fontane. Contudo, a distinção não ê satisfató-
vitoriano" em Fontane, mas também mais uma prova da ria: parece indicar que os escritores provincianos estavam
sua imparcialidade objetiva em face da vida. O jornalista mais longe da realidade do que os outros, enquanto se dá,
liberal, que glorificava a aristocracia prussiana, não per- na verdade, o contrário. J á com respeito à psicologia dos
tencia a nenhum partido, tampouco a um partido literário. personagens, os "provincianos" são os mais sinceros, rea-
Tinha — como único crítico berlinense — a coragem de listas, livres da ambição de fantasiar as suas criaturas como
saudar os começos do naturalismo zolaísta na Alemanha; e bonecos históricos ou exóticos, o que caracteriza o epigo-
com espanto e surpresa os jovens da vanguarda literária nismo parnasiano. Quanto ao ambiente, também se limitam
verificaram que esse velho já tinha realizado a parte melhor a coisas vistas e vividas — e foi esse realismo no qual o
das suas próprias aspirações. Fontane foi celebrado pelos Reich não achou graça, Keller, Raabe, Storm, por mais
jornais liberais e ignorado pelos círculos oficiais. Numa arcaica que pareça a sua maneira de narrar, são os equiva-
pequena poesia humorística, descrevendo a festa do seu lentes alemães do realismo europeu dos Flaubert e Tha-
setuagésimo aniversário, Fontane comenta a ausência de ckeray e, sobretudo, de Trollope; è Fontane revela mesmo
todos os nomes aristocráticos que enchem os seus roman- muita semelhança com os dois ingleses; a diferença deve-se
ces, consolando-se com a presença de tantos jornalistas ju- à situação fechada da civilização alemã, então separada das
deus. Fontane não era oficialmente reconhecido. grandes correntes europeias. Os "novos senhores", porém,
Por volta de 1875 ou até de 1880, Keller e Fontane não podiam gostar desse realismo que cheirava a oposição.
eram desconhecidos; Raabe e Storm eram leitura dos "me- O gosto oficial continuou "histórico": a nova burguesia
nos cultos" ou "atrasados". A todos eles negou-se o reco- precisava de uma árvore genealógica, e os junkers de Bis-
nhecimento oficial, porque refletiram a Alemanha de antes marck, de um costume medieval.
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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2295

Daí uma nova onda de historiografia política na Ale- eloquente em favor da liderança prussiana na Alemanha.
manha, comparável à historiografia política de 1830 e 1840,. Esse precursor do pangermanismo era de longínqua des-
de Guizot e Thiers, Macaulay e Gervinus; escreveu-se his- cendência eslava; e já se comparou a sua eloquência tor-
tória para aludir, nas entrelinhas, a atualidade. O mau rencial às canções de batalha dos lendários bardos eslavos.
exemplo fora dado por um dos maiores historiadores de Treitschke é o maior nome da literatura oficial do novo
todos os tempos, Mommsen ( 2 7 ). E r a um gigante da eru- Reich, tão pobre em valores culturais como rico em forças
dição, conquistando novos continentes da arqueologia, nu- militares e económicas e em trabalho científico a serviço
mismática, epigrafia e jurisprudência romanas. Um monu- daquelas. Não é fácil descobrir um só nome representativo
mento também é a Roemische Geschichte (História de da literatura oficial. O mais indicado parece ser Wilden-
Roma); mas aí já aparece a maneira de "atualizar" a his- bruch ( 2 9 ), que glorificou em poemas narrativos as vitórias
tória, representando-se Cícero como advogado nacional- de 1870; como dramaturgo, apresentou no palco príncipes
liberal, Catilina como agitador lassalliano, os generais ro- prussianos e imperadores medievais, com tanto sucesso que
manos como junkers. Mommsen, ligado ao seu conter- se ousou comparar as peças, cheias de retórica retumbante,
râneo Storm como amigo de mocidade, era e continou li- às "histórias" de Shakespeare. Mas nem sempre agradou
beral. Mas, conforme a sua própria confissão, a Roemis- aos poderosos. Wildenbruch era parente da casa imperial
che Geschichte é fruto das decepções de 1848, protesto con- dos Hohenzollern, mas um caráter independente, o jovem
tra o palavrório vazio dos oradores parlamentares, que não- Imperador Guilherme I I detestava-o como a um oposicio-
conseguiram a unificação nacional. Mommsen admirava a nista.
César; não gostava de Bismarck, mas, quanto à Antigui- A distinção entre "oficial" e "oposição" é insuficien-
dade, revelou simpatias perigosas para com a "política da
te. Na verdade, havia na Alemanha de 1880 três "classes
mão forte". Essas simpatias inspiraram, de todo, a histo-
literárias" diferentes, correspondentes às classes sociais
riografia de Treitschke ( 2 8 ). Ao julgá-lo, não se deve es-
dos burgueses-capitalistas, dos burgueses atrasados da pro-
quecer a sua atividade como publicista oficial de Bismarck,
víncia, e dos rentiers. A primeira dessas classes exprimiu-
como chefe dos prussionófilos na Saxônia, orador parla-
se através da literatura epigonista-parnasiana; a segunda,
mentar, jornalista nacionalista e anti-semita. A sua gran-
através da literatura dos "quietos"; e a terceira através do
de obra histórica, a Deutsche Geschichte von 1815 bis 1848,
renascentismo italianizante. Impõe-se, logo, mais uma dis-
(História da Alemanha Entre 1815 e 1848), é um panfleto
tinção. Os poetas de Munique também gostavam muito da
Itália e, particularmente, da Renascença italiana, como de
uma época de criaturas belas, inteligentes e fortes no am-
27) Theodor Mommsen, 1817-1903. biente de uma arquitetura suntuosa. Os burgueses ricos de
Roemische Geschichte (1854/1856) .
J. Hartmann: Theodor Mommsen. Berlin, 1908. 1880 gostavam de reconhecer os seus antepassados espiri-
W. Weber: Theodor Mommsen. Stuttgart, 1929.
28) Heinrich von Treitschke, 1834 — 1896.
Historische und politische Aufsaetze (1865, 1870); Deutsche Ges- 20) Ernst von Wildenbruch. 1845 — 1909.
chichte von 1815 bis 1848 (1879) . Vionville (1874) Sédan (1875); Die Karolinger (1882); Harold
E. Marcks: Treitschke. Ein Gedenkblatt. Berlin, 1905. (1882); Die Quitiows (1888); Der Generalfeldoberst (1889); Der
W. Bussmann: Treitschke, sein Welt-und Geschichtsbild. Goettin- neue Herr (1891); Heinrich und Heinrichs Geschlecht (1895).
gen, 1952. B. Litzmann: Ernst von Wildenbruch. 2 vols. Berlin, 1913/1916.
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HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2297
tuais naquelas grandes figuras; e para a nação reconhecer
geralmente o parentesco com as maiores épocas da história, Pela decadência do humanismo, a Itália deixou de ser
mandaram construir palácios e edifícios em todos os estilos, o país da arte greco-latina, transformando-se em país da
com predileção no gótico das ricas cidades medievais e no arte renascentista. Esse processo foi bastante complicado.
estilo da Renascença italiana: aquele carnaval de arqui- A interpretação do fenómeno "Itália" percorreu, até a for-
tetura, que é o equivalente artístico da poesia parnasiana. mação do conceito "Resnascença", um certo número de fa-
Mas o chamado "Renascentismo" tem outros motivos e ou- ses ( 3 0 ), entre as quais se destacam duas hipóteses opostas:
tras raízes sociais: os seus portadores eram os rentiers a primeira, literária e livresca; a segunda, artística e "exis-
cultos, até muito cultos, uma elite espiritual, filhos da anti- tencial". Os romeiros medievais que se serviram dos Mi-
ga burguesia pré-capitalista, das cidades suíças meio aris- rabilia, espécie de Baedekers religiosos, para conhecer e
tocráticas, de Zurique e Basileia, e daquelas grandes ci- visitar os santuários de Roma, são os antepassados dos hu-
dades alemãs que sucumbiram menos à influência prussia- manistas eruditos que na Itália só procuraram manuscritos,
inscrições, achados arqueológicos. Do ponto de vista filo-
na, como Francfurt e Hamburgo. E n t r e eles, havia muitos
sófico, não há diferença entre relíquias cristãs e relíquias
judeus ricos, filhos de banqueiros, excluídos da vida pú-
pagãs. Os romeiros recitaram versículos bíblicos diante
blica pelo anti-semitismo alemão, assim como os outros es-
dos lugares famosos na história eclesiástica; e um Addison,
tavam excluídos da evolução capitalista pela particularida-
nas Remarks on Several Parts of Italy, cita abundante-
de da sua situação económica. Mas o fenómeno não era,
mente versos de poetas latinos, quando avista os lugares
de modo algum, exclusivamente alemão. Havia "renascen-
famosos da história romana.
tismo" na França e, sobretudo, na Inglaterra. Em toda a
parte, a "velha burguesia", base social dos esforços e ati- No pólo oposto encontram-se os chevaliers dos séculos
vidades culturais, começava a perder a importância eco- X V I e X V I I , cuja formação terminava regularmente com
nómica; e com isso estava em perigo a própria civilização uma viagem pela Itália, a "cavalier tour" ou "tour de che-
nacional, cedendo ao utilitarismo científico-técnico. Daí a valier"; procuraram na Itália aprender boas maneiras e ex-
nostalgia de épocas de civilização mais artística, mais com- perimentar aventuras eróticas. O último desses chevaliers
pleta, enquanto o interesse pela Renascença italiana se ori- foi Stendhal, fugindo da França "trivial e burguesa" para
ginou também do enfraquecimento do humanismo greco- a Itália das "paixões selvagens". E um eco epigonístico
latino. Quanto mais o humanismo clássico perdeu, tanto desse conceito é a novela erótica de Heyse. E n t r e os dois
mais era preciso procurar outros modelos no passado: não pólos situam-se os artistas plásticos, entusiasmados pelo
apenas na Itália, como fizeram tantos alemães e ingleses, passado como os humanistas, mas tão pouco livrescos como
os chevaliers. Durante o século XVI, os artistas estran-
mas também no próprio passado nacional. De modo que o
geiros, na Itália, são simples aprendizes; até um Duerer
resultado do renascentismo italinizante foi, em muita par-
sentiu-se assim. Mas os pintores franceses do século X V I I ,
te, um renascimento de tradições nacionais, esquecidas mi
abandonadas, e enfim o nacionalismo orgulhoso e agressivo
Neste sentido, o renascentismo é um fenómeno geral na .'10) W. Rehm: Das Werden des Renaissancebíldes in der deutschen
Europa. Dichtung. Leipzig, 1924.
W. Waetzoldt: Das klassische Land. Berlin, 1927.
J. R. Hale: England and the Italian Renaissance. The Groioth of
interest in its History and Art. London, 1954.
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 2299
OTTO M A R I A CARPEAUX
2298
italianofilia encontre-se em Gregorovius ( 3 1 ), filho da lon-
quando a arte italiana contemporânea já foi considerada
gínqua P r ú s s i a oriental, que passou a vida inteira no país
decadente, só chegam para estudar o passado. Descobrem
aos seus sonhos nórdicos. Numa imensa Geschichte der
os palácios e vilas, os jardins de Roma, os logradouros pú-
Stadt Rom is* Mittelalter, (História da Cidade de Roma na
blicos e a gente viva entre as ruínas, as osterias, o vinho e
Idade Média), descreveu, com o colorido de um romance
as moças. Ao lado da Êcole Française de Roma vive a boé-
histórico, o período mais sombrio da história italiana:
mia dos artistas franceses e, depois, a de outras nações.
Roma na Idade Média, em ruínas, devastada pelos bárbaros
O mármore frio já não satisfaz. Procura-se, depois da arte
e pela peste, governada por prelados ignorantes e fanáticos
greca-romana, a arte italiana, mas não a contemporânea —
— em Gregorovius há muito preconceito de protestante.
"Barroco" tinha sentido pejorativo — e sim a histórica.
Mas era um poeta nato. A sua obra de medievalista é como
Evidentemente, conforme o gosto classicista dos franceses,
o pedestal da magnífica Itália livre da Renascença. A sua
prefere-se agora aquela arte italiana que mais harmoniza
emoção revela-se na epígrafe que escolheu para a obra má-
com a antiga: a do Cinquecento. Rafael"é o maior nome.
xima da sua italianofilia, os Wanderjahre in Italien (Anos
O século X V I I I consagrará essa escolha, acrescentando o
de Viagem na Itália): o verso virgiliano "Deus nobis haec
suave Correggio. O Quattrocento é desdenhado como épo-
otium f ecit". A Itália era como o dia santo da humanidade.
ca infantil da arte. Ainda Goethe passou por Florença sem
As dúvidas surgiram quando a italianofilia passou para
ver nada. O romantismo modificou a perspectiva. Por
as mãos dos rentiers. A decadência do humanismo já não
volta de 1820, os pintores alemães em Roma estão cheios
lhes permitia outra atitude em face da Itália q U e a renas-
de entusiasmo religioso pela arte ingénua do F r a Angélico
centista; mas ao seu passadismo meio pessimista de epí-
da Fiesole. Enfim, Ruskin e os pré-rafaelitas ingleses
gonos faltava a vitalidade dos artistas. A Renascença foi
prestam a última homenagem a Rafael, chamando "pré-
uma época genial, pensavam, mas genial demais, corrom-
rafaelita" a arte italiana "antes dele", a do Quattrocento,
pendo-se a si mesma pelo excesso de individualismo. O pro-
à qual dedicam a maior admiração. Raffaello é substituído
blema que ocupava os rentiers foi a explicação da derrota
por Botticelli. O século XX dará mais um passo para trás:
da Renascença. Neste sentido escreveu Gobineau ( 32 ) as
entronizará a Giotto.
cenas históricas La Renaissance, espécie de "diálogos dos
A literatura percorreu o caminho inverso. No século
mortos" ou "imaginary conversations" entre os génios da-
X V I I I , a Itália, como país de cultura, merecia apenas a
atenção dos grecistas e latinistas. Os românticos já pre-
ferem Dante e celebram as aventuras político-militares dos
31) Ferdinand Gregorovius, 1821 — 1891. -
imperadores alemães medievais na Itália. Começa-se a fa-
lar da "eterna nostalgia dos povos germânicos pelo Sul".
Os italianófilos ingleses, os Byron, Shelley, Keats, Landor, F. J. Hoenig: Gregorovius, der Geschichtschreiber der Stadt Rom
Stuttgart, 1921. " " " Kom-
Browning, justificam bem essa teoria. Landor e Brown- 32) Joseph Arthur, comte de Gobineau, 1816-1882.
ing já são contemporâneos dos pintores pré-rafaelitas: o Essai sur Vinégalité des roces humaines (1853/1855): NouvelTr*
asiatiques (1878); La Renaissance (1877). "ouveiles
século XV, o Quatrocento, é festejado como o maior pe- M. Lange: Le comte de Gobineau, étude biographique et critiaue
ríodo da civilização humana depois da Grécia; comparam Strasbourg, 1924. . * •
M. Brion: Gobineau. Marseille, 1927.
Florença a Atenas. Talvez o mais belo eco literário ci
2300 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2301

quele grande tempo, quando já moribundo. Gobineau pre- ca já decadente das cidades suíças; ele mesmo era mais do
feriu o século X V I , não por motivos estéticos, mas porque que decadente, sofrendo de ciclotimia, passando a mocida-
na Renascença o interessava principalmente o fim em cor- de inteira numa espécie de letargia sonolenta. Só com qua-
rução moral, crimes, degradação e derrota. E r a pessimista. renta anos de idade tornou-se capaz de começar atividades
Como diplomata, tinha visto o mundo inteiro — as Nou- literárias; e na velhice caiu novamente em graves distúr-
velles asiatiques são uma lembrança deliciosa disso; mas o
bios mentais. Se este homem gostava de escrever novelas
mundo inteiro o aborrecera. E m toda a parte encontrou só
históricas cujos personagens são, de preferência, super-
decadência. O seu orgulho aristocrático, ilimitado, expli-
homens de instintos violentos, o caso parece já explicado:
cava esse fenómeno pelo aburguesamento, que ele identifi-
um burguês decadente, fantasiando-se de trajes históricos
cava com uma deterioração da raça, chegando, assim, à
para satisfazer mentalmente os instintos mórbidos. Com
teoria racista que é o motivo principal da sua sobrevivên-
efeito, grande parte da obra de Meyer pertence ao parnasia-
cia e o estigma do seu nome. À raça nórdica, pretenso ber-
nismo dos epígonos; e o patriotismo suíço do romance
ço da alta aristocracia francesa, atribuiu todos os feitos e
histórico Juerg Jenatsch não esconde os motivos da admi-
méritos da história e civilização; responsabilizou as raças
inferiores, os "sublatinos", "levantinos", "semitas", pela ração pelo herói amoral. Apenas, Meyer é um artista muito
decadência da humanidade. Considerava a isso como "filo- maior do que todos os outros parnasianos de língua alemã.
sofia da história", e procurava demonstrá-la, apresentando Empregou a técnica novelística indireta de Storm na maior
os momentos "críticos" da história, quer dizer, aqueles que das suas novelas, e Storm aparece ao lado do suíço como um
revelam a "morte" de uma raça e de uma civilização. E i s o pobre-diabo provinciano: na Hochzeit des Moenchs (O
sentido de La Renaissance. A teoria na qual a obra se Casamento do Monge). Dante, exilado na corte de Verona,
baseava, sem exprimi-la diretamente, só encontrou aten- é maltratado pelos cortesões que o querem obrigar a con-
ção muito mais tarde. A época dos grandes quadros histó- tar uma história; e o poeta conta uma novela sinistra na
ricos admirava a obra como "panorama", e admirava-a de- qual se repetem e entrelaçam os destinos reais dos presen-
mais, porque não tomou conhecimento de outra interpreta- tes — enfim, todos estão estupefatos, e Dante sai da sala
ção da Renascença, mais profunda e mais artística: a de noturna, uma tocha solitária iluminando-lhe o início do
Conrad Ferdinand Meyer, baseada em doutrina imensa- amargo caminho solitário pelos séculos. Meyer tem o sen-
mente diferente e, no entanto, de conteúdo psicológico pa- so das grandes cenas dramáticas, apresentando-as em es-
recido.

Conrad Ferdinand Meyer ( 3 3 ) era o último rebento de Edições por R. Faesi, 4 vols., Leipzig, 1926, e por J. Fraenkel, 4
vols., Zuerich, 1928.
uma grande família de Zurique, da burguesia aristocráti- R. DUarcourt: Conrad Ferdinand Meyer. Paris, 1913.
A. Frey: Conrad Ferdinand Meyer, sein Leben und seine Werke.
3.° ed. Stuttgart, 1919.
F . J. Bauragarten: Das Werk Conrad Ferdinand Meyers. Re-
33) Conrad Ferdinand Meyer, 1825 — 1898. naissanceempfinden und Stil. Muenchen, 1920.
Gedichte und Balladen (1864); Huttens letzte Tage (1871); En- H. Maync: Conrad Ferdinand Meyer und sein Werk, Frauenfeld,
gelberg (1882); Juerg Jenatsch (1876); Der Heilige (1880); Gedi- 1925.
chte (1882); Novellen (1883); Die Hochzeit des Moenchs (1884); Dié R. Faesi: Conrad Ferdinand Meyer. Frauenfeld, 1925.
Richterin (1885); Die Versuchung des Pescara (1887); Angela C. K. Bang: Maske und Gesicht in den Werken Corand Ferdi-
Borgía (1890). nand Meyers. Baltimore, 1940.
HJSTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2303
2302 OTTO MARIA. CARPEAUX
duzindo mais uma vez uma analogia aparente com Gobi-
tilo muito elaborado — "Meyer", disse Gottfried Keller,
neau. Para revelar o caráter dos seus personagens, Meyer
"é como brocado". colocou-os no momento de grandes crises históricas, nas
Muitas dessas novelas são só "brocado", decorativas, quais se aproxima do homem a tentação de agir contra a
já menos legíveis hoje em dia. O valor permanente de vontade de Deus, contra a sua predestinação, para desviar
Meyer reside na sua poesia lírica: síntese única do gran- o destino, o destino individual e o da época. Uma tenta-
de classicismo de Goethe e Hoelderlin com o tom simples e ção assim ataca na Versuchung des Pescara (A Tentação
comovido da poesia popular, na tradição de Eichendorff e de Pescara) um herói exemplar da Renascença italiana;
Storm. E i s o segredo da arte de Conrad Ferdinand Meyer: Guicciardini, tipo do intelectual corrompido, pretende ex-
é como um diamante de muitos reflexos, expressões da plorar as ambições ideais do nobre, já mortalmente ferido.
alma complicada de um suíço algo primitivo e burguês de- Mas Pescara vence a tentação; morre puro como vivera. E
cadente, artista requintado e cristão angustiado, e esse úl- a sua viúva, Vittoria Colonna, acabará em reclusão e deses-
timo ponto é de importância interpretativa. Meyer con- pero, e o mundo da Renascença, já sem heróis, acabará em
servou-se fiel ao calvinismo rigoroso dos seus antepassa- degradação. O próprio Meyer venceu uma tentação como
dos. Conseguiu até o que nenhum poeta antes conseguira, a de Pescara. Lutaram na sua alma o individualismo amo-
isto é, exprimir numa fórmula de simplicidade comovente ralista e a timidez mórbida perante o destino. Venceu tal-
o terrível dogma da predestinação, nas rimas monótonas do vez, menos pela consciência cristã do que pela consciência
Saeerspruch, sobre os "grãos da semente de Deus" — do peso inelutável da história, representado tão impressio-
" . . . und keines faelt aus dieser Welt, natemente nos versos do seu Chor der Toten, do coro dos
und jedes faellt, wie's Gott gefaellt." '"mortos que são muitos":
O calvinismo ortodoxo de Meyer corresponde ao or- " W i r Toten, wir Toten sind groessere Heere
gulho aristocrático de Gobineau. O cristão sincero, porém, Ais ihr auf der Erde, ais ihr auf dem Meere!"
é incapaz de acusar aos outros; só pode acusar a si mesmo.
E os meios de auto-acusação do calvinista, que não tem Essa consciência histórica encontrou a sua expressão
oportunidade para confessar-se, são limitados. Meyer ti- máxima em Burckhardt ( 3 4 ), professor da história das artes
nha que acusar-se, a si mesmo, de instintos recalcados. No
34) Jacob Burckhardt, 1818 — 1897.
seu calvinismo sobreviveu a "vontade do poder" dos ante- Die Zeit Konstantins des Grossen (1852); Der Cicerone (1855);
passados. Exprimiu-a na novela Der Heilige (O Santo), Die Kultur der Renaissance in Italien (1860); Weltgeschichtliche
Betrachtungen (1868/1871; publ. 1898); Griechische Kulturges-
cujo herói, o arcebispo-martir Thomas Becket, é o tipo da chichte (publ. 1898/1902).
imperiosidade clerical e ao qual Meyer deu os traços ca- Edição por K. E. Hoffmann, 14 vols., Basel, 1929/1934.
C. Neumann: Jacob Burckhardt. Muenchen, 1927.
racterísticos de um intelectual moderno; exprimiu-a na W. Rehm: Jacob Burckhardt. Frauenfeld, 1930.
admiração pelos super-homens meio geniais, meio crimi- K. Loewith: Jacob Burckhardt. Luzem, 1936.
A. von Martin: Niletzsche und Burckhardt. Zwei geistige Welten
nosos da Renascença. Mas tremeu èm angústia pascaliana im Dialog. 3. a ed. Basel, 1945.
— era grande leitor de Pascal. Aproximou-o do francês • W. Kaegi: Jacob Burckhardt. Eine Biographie. 3 vols. Basel,
1947/1955.
comunidade da doença física e mental. A ciclotimia de W. Kaegi: Jacob Burckhardt. Eine Biographie. 3 vols. Basel, 1947/
Meyer influiu, sem dúvida, no seu conceito da história, pro- 1947/1958.
• — *

2304 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2305

plásticas na Universidade de Basileia, de uma grande fa- de historiografia que, dando atenção menor aos aconteci-
mília da "burguesia aristocrática" da cidade de Erasmo e mentos políticos, considerava em primeira linha os fenó-
dos humanistas; velho solteirão, vivendo com egoísmo culto menos culturais; a "Kulturgeschichte". A Kultur der Re-
às suas predileções artísticas e históricas. Além da Kultur naissance in Italien é u m panorama: uma obra de arte, só
der Renaissance in Italien (A Civilização da Renascença comparável aos grandes panoramas de Michelet, mas mais
na Itália), livro fundamental do renascentismo, publicou serena, embora comovida pela luta íntima em Burckhardt,
pouco em vida; e as publicações póstumas ficaram quase em face das grandes figuras da Renascença, entre admira-
despercebidas, até o século XX reconhecer em Burckhardt ção artística e horror moral. O problema é o de Gobineau;
um dos espíritos "cruciais" do nosso próprio tempo. Pelas mas a conclusão é incomensuràvelmente mais profunda:
origens e condição social e pelo gosto do "brocado", Bur- todo poder é mau, por definição. Daí o pessimismo histó-
ckhardt parecia-se com Conrad Ferdinand Meyer. Mas não rico de Burckhardt, leitor assíduo de Schopenhauer. En-
era calvinista nem cristão, e sim um céptico, acreditando em fim, o humanista encontrou o seu próprio pessimismo nos
gregos, descobrindo o "lado noturno" da civilização helé-
nada senão na arte como único valor e justificação da exis-
nica, martirizada pela tirania política da "polis" totalitá-
tência humana. E r a humanista, da estirpe de Erasmo; e
ria. Burckhardt morreu como profeta, em angústia apo-
Goethe era o seu modelo, um Goethe aburguesado do fim
calíptica.
do século X I X . Sentindo-se desterrado no seu tempo uti-
litarista, só podia encontrar os seus ideais no passado, e No seu tempo, Burckhardt tinha só um discípulo que
com preferência no país das "nostalgias germânicas pelo o compreendeu: Nietzsche; e este, isento dos escrúpulos
Sul", na Itália. Aos tesouros artísticos da Itália dedicou morais do velho basileense, o compreendeu mal. Burck-
uma grande obra, uma espécie de guia, o Cicerone. Mas sa- hardt, como pessimista, tinha destruído o conceito tradi-
bia da fragilidade do seu ideal em face das forças brutas cional de uma antiguidade idílico-harmoniosa; o discípulo,
políticas e económicas. A notícia, aliás falsa, da destrui- filólogo e helenista entusiasta, pretendeu lançar as bases de
ção do Museu do Louvre na ocasião do sítio de Paris, em uma nova civilização. O paradoxo reside, porém, só no
1870 comoveu o velho até às lágrimas. Naquele ano repe- lado psicológico. A tradição humanista, decadente desde
tiu, na Universidade de Basileia, o curso que os seus her- muito, sofreu em 1870 uma derrota pavorosa; no novo Reich
deiros editaram, postumamente, como Weltgeschichtliche estava relegada à condição de preparatórios escolares para
Betrachtungen (Considerações Sobre a História Universal), estudos "mais úteis". A nação alemã entrou no seu novo
um dos maiores livros do século, reflexões sobre a relação período histórico sem tradição alguma, como bárbaros. A
entre a força e a cultura, sobre as grandes crises históri- decadência cultural era tão rápida como o desenvolvimento
económico. A tradição antiga, conservada pelas elites, es-
cas, sobre a sorte e a desgraça na História. O passadismo
tava "apolítica", impotente. Foi então que Nietzsche con-
de Burckhardt baseava-se nas suas experiências políticas:
cebeu a ideia de lançar as bases de uma nova civilização,
na mocidade fora jornalista, partidário das velhas famílias
invertendo o pensamento de Burckhardt: o poder não é o
conservadoras de Basileia, opondo-se em vão à democrati-
inimigo, mas o fundamento da cultura, da qual o jovem fi-
zação da cidade. Desde então, Burckhardt era consciente-
lósofo acreditava v e r a aurora na música de Richard
mente "apolítico", e nesse espírito criou uma nova espécie
Wagner.
2306 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2307

W a g n e r ( 3 5 ), o grande músico, ocupa na história da ças dramáticas não vivem fora do palco. Não era por acaso
literatura alemã e europeia um lugar eminente, embora não que Wagner sonhava do "Gesamtkunstwerk", isto é, da co-
justificado pelo valor literário das suas obras. Quando um laboração de todas as artes no palco. Não conseguiu de todo
admirador apaixonado o comparava a Goethe e Beethoven, esse fim, que teria degradado a poesia e a pintura a meros
um céptico respondeu: "Está certo, W a g n e r faz música auxiliares da música; só no teatro barroco dos jesuítas se
melhor do que Goethe e melhores versos do que Beetho- encontra coisa semelhante. Mas conseguiu o suficiente
ven". Na verdade, W a g n e r não era poeta. Os seus versos para ser chamado, com razão, o maior "teatromonarca" do
são lamentáveis; vivem só em função da música que os século XIX. Nasceu mesmo para o t e a t r o ; era ator, inclu-
acompanha, mas que é, por sua vez, inseparável do texto. sive na vida, fazendo com o maior sucesso o papel do génio;
Wagner não era poeta; era compositor. Mas fora das par- e no seu "caso" estudou Nietzsche "o elemento de ator na
tes sinfónicas das suas obras, só é compositor num sentido psicologia do artista". Daí a falsidade evidente de tantas
especial, sem precedentes na história da música. Pôs as atitudes e gestos de W a g n e r ; mas esse elemento teatral
duas artes, a música e a poesia a serviço do teatro. Wagner correspondia ao gosto da época pelo costume pitoresco e as
é um grande dramaturgo; mas isso também num sentido poses patéticas. Foi assim que W a g n e r se tornou o artista
especial. J á se notou que Wagner aprendeu em Schibe a oficial do novo Reich: o imperador e os príncipes aparece-
arte de apresentar e solucionar complicações dramatúrgi- ram na ocasião da inauguração do teatro de festivais wag-
nerianos em Bayreuth.
cas; e Tristan und Isolde e Die Meistersinger von Nuern-
berg (Os Mestres Cantores de Nuremberg) têm, inegavel- Essa aliança tinha motivos profundos. W a g n e r enten-
mente, verdadeira força dramática. Mas assim como os tex- dia de teatro como ninguém. Reconheceu como razão da
tos de Wagner não são nada sem a música, assim as suas pe- fraqueza do teatro moderno a falta de uma fé comum de
público e do dramaturgo. Sem uma fé comum assim, que
35) Richard Wagner, 1813 — 1883. existia em todas as grandes épocas da história do teatro,
Rienzi, der letzte der Tribunen (1842); Der jligende Hollaender o dramaturgo só pode apresentar, em vez de convicções
(1843); Tannhaeuser und der Saengekrieg auf der Wartburg
(1845); Kunst und Revolution (1849); Lohengrin (1850); Das coletivas, opiniões particulares; o que não se harmoniza
Kunstwerk der Zukunft (1850); Das Judentum in der Musik com a índole coletiva da arte teatral. Por isso, W a g n e r
(1850); Oper und Drama (1851); Der Ring des Nibelungen (1853);
Tristan und Isolde (1865); Die Meistersinger von Nuernberg pretendeu ressuscitar o "mito", quer dizer, um sistema de
(1868); Modem (1878); Religion und Kunst (1879); Erkenne dich símbolos nos quais todos acreditam. A ideia veio do ro-
setbst (1881); Heldentum und Chrístentum (1881); Parsifal (1882).
Edição por J. Kapp, 14 vais., Leipzig, 1914. mantismo, da mitologia romântica de Schellíng, Goerres e
K. F. Glasenapp: Das Leben Wagners. 6 vols. Leipzig, 1894/1911. Creuzer; e Wagner, na mocidade, fora romântico. Nos anos
E Newman: The Life of Richard Wagner. 3 vols. New York, 1932/
H. Lichtenberger: Wagner, poete et penseur. 4.B ed. Paris 1907. de luta em Dresden, tornou-se materialista revolucionário,
E. Ludwig: Die Entzauberten. Berlin, 1913. partidário de Feuerbach e dos "jovens hegelianos"; tam-
H. St. Chamberlain: Richard Wagner. 6.a ed. Muenchen, 1919.
G. Adler: Richard Wagner. 2.ft ed. Muenchen, 1923. bém leu muito Proudhon. O conceito do "ouro", do dinhei-
E. Kurth: Die romantische Harmonik und ihre Krise in Wagners ro, que, no Ring des Nibelungen (Anel dos Nibelungen),
Tristan. 3.a ed. Berlin, 1927.
E. Newman: The Life of Richard Wagners. 3 vols. New York, gera todos os males, é um vestígio dessa fase; Shaw acre-
1932/1941. ditava reconhecer nisso o "socialismo de Wagner". Mas
P. A. Loos: Richard Wagner. Vollendung und Tragik der deusts-
chen Romantik. Bem, 1953. l i t e já tinha encontrado, naquela época, a fonte inesgotá-
2308 OTTO M A H I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2309
vel da sua nova fé teatral: o mito germânico. Só foi pre- mo da fin du siècle: na França de Mallarmé e Barres, na
ciso substituir o otimismo materialsta de Feuerbach pelo Inglaterra de George Moore, na Itália de D'Annunzio. A
pessimismo espiritualista de Schopenhauer — Wagner con- importância histórica de W a g n e r não pode ser determina-
verteu-se a Schopenhauer depois da desilusão de 1848 — da pelas suas ideias pseudofilosóficas, nem pela influência
para chegar ao neo-romantismo teutônico de Bayreuth: se- estética que exerceu, hipnotizando o público e, sobretudo,
ria como se Burckhardt fosse interpretado no sentido do os literatos. Devemos ter a coragem de determinar a im-
nacionalismo de Treitschke. Foi isso em que Nietzsche portância de W a g n e r na história literária, pelos valores da
acreditava descobrir o fundamento de uma nova civilização sua música.
alemã: a "Kultur" como "Gesamtkunstwerk", a serviço da
Como músico, W a g n e r é a figura central do neo-ro-
nação. mantismo. Quer dizer: foi romântico, embora moderno.
O idílio durou poucos anos; Nietzsche passou a de-
As raízes de sua arte estão no romantismo alemão. Schel-
nunciar com a maior violência o nacionalismo romântico
ling já tinha antecipado a ideia do teatro como "Gesamt-
e o romantismo pessimista de Wagner. Esses dois elemen-
kunstwerk". Fouqué tinha antecipado o entusiasmo tea-
tos amalgamaram-se no mestre de Bayreuth duma maneira
tral pelos Nibelungen. Wackenroder e Tieck tinham cria-
bem estranha. Embora nacionalista, W a g n e r olhou com a
do a fascinante imagem da Nuremberg medieval, da cidade
preocupação pessimista da sua época inteira o futuro dos
de Duerer e Hans Sachs, que será o cenário dos Meister-
alemães que lhe pareciam decadentes. Explicou a decadên-
singer von Nuernberg. Novalis tinha criado a "poesia da
cia pelo racismo de Gobineau; publicou panfletos anti-se-
noite", essência dos "sonhos de desejo" do romantismo que
m i t a s ; perdeu-se, interpretando Gobineau pelo pessimismo
encontrarão sua plena realização — o testamento do roman-
schopenhaueriano, num niilismo religioso de diletante, es-
tismo — em Tristan und Isolde, o "opus metaphysicum" de
pécie de budismo cristão-germânico. Reuniu em Bayreuth
Wagner. É o ponto mais alto do romantismo alemão; e é
grande número de partidários fanáticos da sua arte e das
seu fim trágico, expiado pela religiosidade romântica de
suas ideias, os "wagnerianos". O diretor de teatro tornou-
Parsifal.
se profeta e fundador de seita.
Foi um episódio dos mais desagradáveis na história do Mas W a g n e r não é só um fim. O "élan vital" e a força
espírito alemão. Temos, no século XX, assistido à repetição revolucionária da sua obra vieram do romantismo francês;
desse episódio, com violência desdobrada, quando os herdei- não é por acaso que os neo-românticos franceses, os poetas
ros dos "wagnerianos" se apossaram da Alemanha, procla- simbolistas, se tornarão wagnerianos apaixonados. Até o
mando o racismo e o mitologismo de W a g n e r como dou- "anti-Wagner" francês, Debussy, não escapará a essa in-
trina oficial do Terceiro Reich. O fim dessa falsa "Re- fluência avassaladora: o "reino de acordes da nona", Pel-
nascença", em sangue e vergonha, ao som da marcha fú- iéas et Mélisande, não teria sido possível sem a harmónica
nebre do Crepúsculo dos Deuses, revelou mais uma vez o nova, o cromatismo desenfreado de Tristan und Isolde, obra
caráter episódico daquele Wagnerismo, sem importância •m que a harmonia romântica entra em plena crise: os her-
alguma na história do espírito europeu. [tftiros e superadores dessa crise serão Debussy, Schoenberg
Mas também foi mero episódio a forte influência de Alban Berg. O passadista Wagner também foi uma fôr-
W a g n e r nos começos da poesia simbolista e no decadentis- do futuro.
OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2311
2310

Mas essas crises não se podiam prever por volta de dências iniciais do movimento. Assim, no fino narrador
1870, quando o "episódio W a g n e r " só teve, por enquanto, Emil Strauss ( 3 7 ), o pessimismo do humanista em face da
repercussão na Alemanha. W a g n e r criou naquele tempo civilização capitalista; e no calvinista Wilhelm Schae-
um estilo da vida artística e um estilo da vida pública. As fer ( 3 8 ), o apelo angustiado às forças criadoras do pas-
casas burguesas guarneceram-se de mil enfeitos e enfeite- sado nacional. Strauss e Schaefer acabaram no mais radi-
zinhos em estilo "Renascença alemã" de Nuremberg; e o cal dos nacionalismos. O wagnerianismo e o langbehnismo
jovem Imperador Guilherme I I , na sua couraça brilhante, provinciano aliaram-se ao espírito revolucionário das or-
julgava-se novo Lohengrin ou Siegfried. O nacionalismo ganizações da juventude; e a "grande renovação da Kultur
cultural tornou-se a religião dos intelectuais pequeno-bur- alemã" levou ao nacional-socialismo.
gueses da província, reagindo contra o cosmopolitismo li- A evolução "renascentismo — renovação nacional —
beral das camadas tradicionais e da capital. O porta-voz nacionalismo" parece um fenómeno particularmente ale-
desse radicalismo provinciano era um obscuro panfletário, mão. Mas foi um movimento europeu. Apenas, nem sem-
Langbehn ( 3 6 ) : em livro anónimo, dedicado a Rembrandt, pre é fácil diagnosticá-lo, porque aparece combinado com
sem revelar compreensão alguma pela arte profunda do outros movimentos e estilos, até com o naturalismo e o cor-
"maior artista de raça germânica", Langbehn, o "Rem- respondente radicalismo político. É possível estudar e ana-
brandtdeutsche", denunciou a falta de estilo na vida alemã, lisar esses mesmos elementos contraditórios num movimen-
exigindo uma nova Kultur, antiutilitária; já sendo sem tra- to de aparências muito diferentes e no outro pólo da Eu-
dição humanista, esse antiutilitarismo só pôde ser naciona- ropa: na reação portuguesa da "Escola de Coimbra".
lista; e foi assim, violentamente. Langbehn era um espírito
confuso, homem que fracassou lamentavelmente; acabou, O papel petrificador do parnasianismo foi desempenha-
convertido ao catolicismo, como vagabundo, que os seus' do em Portugal pelo pós-romantismo de Castilho; e contra
novos correligionários, iludidos, chamavam de "francisca- cie reagiram os estudantes da geração de 1870 da Univer-
no". O seu livro, sem originalidade nem muito sentido, edi- «idade de Coimbra, exigindo a modernização e europeiza-
tado em 1890, foi publicado no mesmo ano em 18. a edição. ção da vida portuguesa ( 3 9 ). O precursor dessa renovação
A consequência imediata do sucesso era uma reação lite-
rária, dirigida igualmente contra o parnasianismo muni-
37) Emil Strauss, 1866 — 1960.
quense e contra o naturalismo, como "estilos estrangeiros". Der Engelwirt (1901); Freund Hein (1902); Kreuzungen (1904);
Os literatos provincianos dedicaram-se às "fontes da vida Der Spiegel (1919); Der Schleier (1920); Das Riesensprielzeug
1934).
nacional", aos costumes e paisagens regionais. Essa "Hei- J. Hofmiller: Emil Strauss. (In: Corona, 3, 1933).
matkunst" produziu, as mais das vezes, só obras de nível Fr. Endres: Emil Strauss. Muenchen, 1936.
inferior, leitura das classes médias menos cultas. Nos pou- 18) Wilhelm Schaefer, 1868 — 1952.
cos regionalistas de importância literária revelam-se as ten- Anekdoten (1908, 1911); Karl Stauffers Lebensgang (1912); Der
Lebenstag eines Menschenjreundes (1912); Dreizehn Buecher der
deutschen Seele (1922).
F. Stucket: Wilkelm Schaefer. Muenchen, 1935.
) F. Pacheco: A Escola de Coimbra e a Dissolução do Romantismo
36) Julius Langbehn, 1851 — 1907. Llaboa, 1917.
Rembrandt ais Erzieher. Von einem Deutschen (1890.) Fld. de Figueiredo: História da Literatura Realista. 2.B ed. Lisboa,
C. Gurlitt: Langbehn, der Rembrandtdeutsche. Berlin, 1927. nr.M.
23J 2 OTTO MARIA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 2313

era u m m o d e s t o p o e t a l í r i c o , J o ã o d e D e u s ( 4 0 ) . A s u a Os outros, embora logo separados de Braga, adotaram


popularidade notável é especificamente portuguesa; ne- o seu radicalismo político. O pessimista parnasiano Quen-
nhum crítico estrangeiro ainda descobriu um grande poeta t a l ( 4 2 ) , a f i g u r a p r i n c i p a l e n t r e os c o i m b r a n o s , a d e r i u a o
e m J o ã o d e D e u s . M a s s e r á a c e s s í v e l a t o d o s os l e i t o r e s , s o c i a l i s m o da P r i m e i r a I n t e r n a c i o n a l . R a m a l h o O r t i g ã o
j u s t a m e n t e o q u e d i s t i n g u e esse p ó s - r o m â n t i c o e l e g í a c o d o (48), u m dos maiores jornalistas do século X I X , empreen-
pós-romantismo dos castilhistas: a musicalidade intensa do deu uma campanha admirável de "limpeza" do país, criti-
seu v e r s o — c a n d o o falso t r a d i c i o n a l i s m o e a r o t i n a e m t o d o s os s e t o -
res. Mas será difícil definir com exatidão o seu progra-
"vago, impalpável, infinito, eterno." ma p o l í t i c o . E as m e s m a s d ú v i d a s p e r m a n e c e m c o m r e s -
p e i t o ao g r a n d e r o m a n c i s t a E ç a d e Q u e i r ó s , q u e t r a d u z i u
E m c o n t r a d i ç ã o a p a r e n t e c o m isso e s t á o g o s t o d e J o ã o e m ficção a c r í t i c a d o s e u a m i g o .
de D e u s pelas expressões epigramáticas, a l g u n s admirado-
E ç a de Queirós (44) é u m a das figuras mais proteicas
r e s já se r e c o r d a r a m d a Anthologia graeca. S e r á c o n v e n i e n -
da l i t e r a t u r a u n i v e r s a l . B r i l h a e m m u i t o s r e f l e x o s c o m o o
t e l e m b r a r o g o s t o do p o v o p e l o p r o v é r b i o r i m a d o . J o ã o d e
seu F r a d i q u e M e n d e s ; e qualquer definição que p r e t e n d e
Deus é sempre poeta popular, de espontaneidade admirável,
poeta tipicamente português também pela frequência do s e r e x a t a , será i n c o m p l e t a e u n i l a t e r a l . A v e l h a g u a r d a e
motivo erótico e pelo sentimentalismo da saudade — a g r a n d e m a i o r i a dos e c i a n o s r e v o l t o u - s e , c o m m u i t a r a z ã o ,
q u a n d o A n t ó n i o S a r d i n h a fêz a t e n t a t i v a d e d e f i n i r o r o -
"Tão íntima saudade, m a n c i s t a como " r e n o v a d o r " e p r e c u r s o r d o n a c i o n a l i s m o lu-
T ã o íntimo desejo, sitano, integralista. Mas essi interpretação não teria sur-
De u m m u n d o que não vejo." p r e e n d i d o t a n t o se n ã o t i v e s s e s i d o t ã o g e r a l m e n t e a c e i t a

O p o p u l a r i s m o d e J o ã o d e D e u s foi o q u e l h e g a n h o u
os c o r a ç õ e s d a m o c i d a d e : a o p a t r i o t i s m o g r a n d i l o q i i e n t e 42) Cf. "Advento da Burquesia", nota 75.
dos "trovadores" castilhistas opôs u m nacionalismo ingé- 43) José Duarte Ramalho Ortigão, 1836 — 1915.
As Farpas (1871/1887); A Holanda (1883).
nuo, seduzindo até o positivista e hugoniano Theófilo Bra- Ric. Jorge: Ramalho Ortigão. Lisboa, 1915.
g a ( 4 1 ) , e n t ã o l i g a d o ao m o v i m e n t o d e C o i m b r a . 44) José Maria Eça de Queirós, 1846 — 1900.
O Crime do Pe. Amaro (1876); O Primo Basílio (1878); O Man-
darim (1879); Os Maias (1880; A Relíquia (1887); A Correspon-
dência de Fradique Mendes (1891); A Ilustre Casa de Ramires
40) João de Deus Nogueira Ramos, 1830 — 1896. (1900); A Cidade e as Serras (1901); Contos (1902); Obras Pós-
Flores do Campo (1868); Ramo de Flores (1875); Campo âe Flo- tumas (1925/1926) etc.
res (1893). M. Silva Gaio: Eça de Queirós. Coimbra, 1920.
Edição por T. Braga, 4." ed., Lisboa, 1915. Castelo Branco Chaves: "Eça de Queirós". (In: Estudos Críticos.
M. Silva Gaio: João de Deus, Coimbra, 1903. Coimbra, 1932.)
V. Nemésio: O Erotismo de João de Deus. Coimbra, 1930. Álvaro Lins: História Literária de Eça âe Queirós. Rio de Ja-
J. G. Simões: "João de Deus ou o Sentimento de Altitude". (In: neiro, 1939.
O Mistério da Poesia. Coimbra, 1913.) J. G. Simões: Eça de Queirós. O homem e o Artista. Lisboa,
Fel. Ramos: "A Crítica de João de Deus e a Mentalidade Portu- 1945.
guesa". (In: Ensaios de Critica Literária. Lisboa, 1933.) Ant. Ramos Almeida: Eça. Porto, 1945.
A. J. Saraiva: As Iáéis de Eça de Queirós. Lisboa. 1947.
41) Cf. "Romantismos de Oposição", nota 83. E. Da Cal: Lengua y estilo de Eça de Queiroz. Coimbra, 1954.
2314 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2315

a interpretação precedente que apresentara o romancista dade eciana", o seu estilo pessoal, irónico. Justamente isso
como radical, inimigo da monarquia, da I g r e j a e dos bien- não pôde aprender em Zola. Aprendeu-o antes me Flaubert,
pensants. cuja influência se nota no segundo romance, O Primo Basí-
Esta última opinião baseia-se num argumento fortís- lio, obra admirável de construção novelística e caracteriza-
simo: corresponde de todo ao primeiro romance de Eça. ção dos personagens. É um romance altamente dramático,
O Crime do Padre Amaro. É uma sátira terrível contra a a maneira de Balzac. E Balzac, esse sim, era a grande ad-
corrução do clero português; e a última cena do romance miração francesa de Eça de Queirós. Com um pouco menos
— os dois padres infames e o aristocrata reacionário, con- de diletantismo e um pouco mais de força construtora, Eça
fraternizando e congratulando-se porque Portugal sonolen- teria sido capaz de escrever a Comédie humaine da socieda-
to não sucumbe às tentações do liberalismo e socialismo — de portuguesa. Só nos deu fragmentos dessa epopeia sa-
já justifica por si só aquela interpretação. O Crime do tírica. Mas um dos fragmentos é grande: o romance Os
Padre Amaro é o romance mais divulgado de Eça de Quei- Maias recompensa pela perda daquela epopeia. É o máximo
rós ; está traduzido para todas as línguas, assim como vários do que se podia esperar, um panorama da sociedade lisboeta
outros romances seus estão traduzidos para o espanhol e de 1880, povoado de caracteres tão bem definidos que se
francês, em edições baratas, às vezes escandalosamente ilus- tornaram representantes típicos da nação portuguesa. Eça
tradas, revelando logo a espécie de interesse que prende os é um grande realista; o seu panorama de Portugal difere
leitores a essas obras: além do radicalismo subversivo — muito das cenas violentamente sentimentais do romântico
e mais do que este — as cenas eróticas, bem desenvolvidas, Camilo Castelo Branco. Mas por isso não está provado que
que lembram imediatamente o naturalismo francês. A clas-
0 quadro de Eça seja mais fiel, mais verdadeiro. Eça tam-
sificação de Eça de Queirós como naturalista é tão usual
bém viu a Portugal "à travers un tempérament", tempera-
como a afirmação do seu radicalismo. Mas radicalismo e
mento de um irónico mordaz, aborrecido da vida portuguesa
naturalismo de Eça de Queirós ficam sujeitos à mesma
c ironizando o que aborrecera. Ao mesmo tempo houve,
dúvida.
nesse antipatriotismo, uma secreta saudade: Eça lembra-
O Crime do Padre Amaro é de 1876; e La faute de do e cria, ao mesmo tempo. É o processo de Proust. Daí
Yabbé Mouret de Zola, romance um pouco parecido, é de 1 composição "proustiana", algo incoerente de Os Maias.
1875. Mas a obra de 1876 só é a segunda versão, muito re- Nu ironia de Eça age como força deformadora o sentimento.
modelada, do Crime do Padre Amaro, já publicada no me Ao ataque falta a última coragem destrutiva, substituída
mo ano de 1875 n a Revista Ocidental, órgão da "Escola polo sorriso de superioridade de u m cavaleiro muito viajado
Coimbra". O português não deveu nada a Zola; e não H pouquíssimo nostálgico da vida lisboeta, por pior que
imitou em nenhuma das suas obras seguintes. Eça estav • lhe afigure. Eça de Queirós não matou nem melhorou a
sem dúvida muito afrancesado, sem que essa observaçi cledade portuguesa; mas melhorou o estilo dos jornalis-
signifique censura alguma. A influência francesa era fort portuguêses e brasileiros. Só isso lhe podiam imitar. O
em Portugal, servindo as mais das vezes só de enfeite du; fora arma terrível contra a burguesia tornou-se o sal
sociedade decadente e atrasada. Eça aproveitou-se melh crónicas dominicais nos jornais burgueses.
das leituras francesas: revolucionou a l í n g u a portuguôi A burguesia é o objeto do ódio de Eça de Queirós; so-
petrificada pelos gramáticos, dando-lhe a famosa "flexibll '«MIO aquela burguesia que usa as frases-feitas e trajes
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2317
2316 OTTO M A R I A CARPEAUX

tins ( 4C ), estilista brilhante e resumidor arbitrário de estu-


da Monarquia e da Igreja, do tradicionalismo, para cobrir
dos alheios, que começou como republicano socialista, para
as suas misérias permanentes. A indignação de Eça é de
acabar glorificando a monarquia portuguesa e as suas vir-
ordem estética; daí a aparência da superficialidade. Como
tudes tradicionais. A tentativa de renovar uma civilização,
seu Fradique Mendes, é Eça um céptico blasé, abusando
renovando-se a cultura de uma elite, levou ao nacionalismo.
de leituras de Renan e usando bigode, bengala e monóculo.
Os dandys de 1880 eram todos assim; mas entre eles havia A discussão em torno do verdadeiro sentido da Escola
só poucos artistas. E Eça de Queirós foi um grande ar- de Coimbra poder-se-ia repetir — e repetiu-se — a propó-
tista. sito do grande precursor espanhol Ganivet ( 4 7 ). Seu Idea-
rium espano] forneceu à geração de 1898 os motivos: a
O esteticismo de Eça de Queirós explica a sua pouca
análise da decadência ibérica e a necessidade da renovação
fidelidade aos ideais do radicalismo. Nas suas últimas obras
radical da Espanha. O livrinho desse génio malogrado con-
aparece como regionalista português, com pruridos tradi- tém, porém, algo mais do que só pessimismo e radicalismo.
cionalistas. Tinha visto e experimentado tudo o que Paris Fornece uma tipologia da historia espiritual da Espanha:
ofereceu, e voltou-se para Portugal como um turista, ávido o senequismo como filosofia nacional espanhola; Dom Qui-
de novas sensações exóticas. Por isso, a última fase de Eça xote como herói nacional; a doutrina de Vida es sueno
de Queirós não constitui base suficiente para a reinterpre- como ideologia ibérica. São os temas de Unamuno, do "an-
tação de António Sardinha ( 4C ), que teria gostado de poder tieuropeu"; e a tentativa de Ganivet de escrever um drama
apresentar Eça e a escola coimbrense inteira como "nacio- calderoniano, El escultor de su alma, é mais uma prova do
nalistas renovadores", precursores do integralismo. Nem seu tradicionalismo literário. Será, no entanto, difícil iden-
basta para isso a referência a Camões e à glória perdida de tificar — como já foi tentado — esse tradicionalismo de
Portugal naquela cena final do Crime do Padre Amaro; Ganivet com o nacionalismo totalitário moderno. Os seus
nem o parentesco puramente literário de Eça com Balzac. romances filosóficos, cheios de sátira violenta e anar-
Mas, por mais arbitrária que seja aquela reinterpretação, quismo subversivo, bastam para desmentir a tentativa.
não deixa de conter um grão de verdade: Eça de Queirós
era uma natureza artistocrática; e todos aqueles coimbren-
ses eram aristocratas intelectuais. O pessimismo niilista de 46) Joaquim Pedro Oliveira Martins, 1845 ~ 1894.
Quental coloca-se entre o catolicismo da sua carta em de- História da Civilização Ibérica (1879); História de Portugal (1879);
Portugal Contemporâneo (1811); História da República Romana
fesa do Silabo do Papa Pio IX e a sua participação na rea- (1885); Os Filhos de D. João I (1891); Vida de Nun'Alvares (1893);
ção antiinglesa, patriótica, de 1890; e o seu estudo da de- O Príncipe Perfeito (1896).
L. Magalhães: Perfil de Oliveira Martins. Lisboa, 1930.
cadência ibérica estava inspirado pelo desejo de uma "vita
47) Angel Ganivet, 1862 — 1898.
nuova" da nação. O nacionalismo do positivista e republi- Idearium espaúol (1897); La conquista dei reino de Maya por el
cano Teófilo Braga está fora de dúvidas. E como último último conquistador espanol Pio Ciã (1897); Los trabajos dei infa-
tigable creador Pio Ciã (1898); El escultor de su alma (publ.
comprovante está aí a carreira do historiador Oliveira Mar- 1916).
Edição por M. Fernandes Almagro, 2 vols., Madrid, 1943.
M. Fernández Almagro: Vida y obras de Ganivet. Valência.
1925.
Q. Saldaria: Angel Ganivet. Madrid, 1930.
45) A. Sardinha: "O Espólio de Fradique". (In: Purgatório das Ideias. A. Espina: Ganivet, el hombre y la obra. Buenos Airps. 1942.
Lisboa, 1929.)
2318 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2319

Discussões desta espécie nunca terminam com conclu- A literatura vitoriana, estudada de perto, revela-se
sões definitivas. O que se pode concluir é só uma tipologia quase inteiramente antivitoriana. Todos os grandes vitoria-
daqueles movimentos paralelos na Alemanha, Portugal, E s - nos têm protestado contra o espírito dominante da sua épo-
panha e, também, na Inglaterra e na França. O primeiro ca; mas nem todos protestaram contra as mesmas expres-
elemento característico é o pessimismo. E m todos esses ca- sões desse espírito: há uma oposição contra os abusos da
sos está no início a convicção pessimista de um fim dos economia burguesa, a de Carlyle, Dickens e Ruskin; há uma
séculos, de uma decadência da nação. Mas esta decadência oposição de estetas contra o utilitarismo, a dos pré-raphae-
não é considerada irremediável. Procura-se um modelo his- litas; há uma oposição de europeizantes contra o puritanis-
tórico ; e do ponto de vista da tipologia não importa se esse mo e o espírito de insularidade, a de Matthew Arnold. Em
modelo é encontrado na Renascença italiana ou na tradi- geral, essas oposições não são radicais: vão até certo pon-
ção medieval da própria nação; ou então, no mito germâ- t o ; e depois se conformam, aderindo ao "compromisso vi-
nico, como em Wagner, ou no Barroco, como em Ganivet. toriano". O melhor critério dessa timidez dos grandes vi-
Tampouco importa, do ponto de vista da tipologia, se o ra- torianos é a diferença entre a sua prosa e a sua poesia; e o
dicalismo, que constitui a última conclusão e a proposta prá- melhor exemplo e Matthew A r n o l d : na prosa, um liberal
tica para a renovação, é um radicalismo democrático e so- impenitente, e na expressão mais imediata da poesia tão
cialista, ou um radicalismo nacionalista e reacionário. Mais melancólico e resignado como Tennyson. Até o pessimis-
do que uma vez — como no caso da Escola de Coimbra — mo fatalista de Hardy enquadra-se nesse panorama. A ex-
as duas interpretações são possíveis; e o que parecia radi- ceção é a poesia otimista de Browning.
calismo revolucionário no século X I X pode parecer radica-
Robert Browning ( t 8 ) é um dos poetas mais poderosos
lismo reacionário no século XX. Taine, renascentista à ma-
de língua inglesa; mas muitos críticos já lhe negaram essa
neira de Burckhardt, parecia radical subversivo à gente de
distinção. No começo, sobretudo havia resistência: os lei-
1880; mas já antes de 1900 tornara-se mestre do tradiciona-
tores, acostumados à música de Tennyson, acharam Brown-
lismo francês.
ing duro e incompreensível. Respondeu-se-lhes, porém, que
Por volta de 1880, é fundamental a diferença entre a a aparente obscuridade do poeta reside apenas na sua ri-
zona alemã, monárquica e conservadora, da Europa, e, por queza em alusões eruditas, de modo que só leitores cultos
outro lado, a zona ocidental na qual se nota um enfraque- o podem compreender; e constituíram-se Browning Socie-
cimento da burguesia e uma forte corrente democrática. ties para divulgar os conhecimentos necessários e comen-
Democrática não apenas no sentido político; trata-se de
um ataque geral da intelligentzia pequeno-burguesa contra
as convenções da sociedade burguesa; no mundo anglo-sa- 48) Robert Browning, 1812-1889.
Paracelsus (1835); Sorãello (1840); Bells and Pomegranates and
xônico, particularmente, de ura ataque contra as conven- Pippa Passes 1841; Dramatic Lyrics 1842; Dramatic Romances and
ções de ordem sexual. Mas não é possível uma separação Lyrics (1845); Dramatis Personae (1864); The Ring and the
nítida: Dante Gabriel Rossetti, o pré-rafaelita, foi incluí- Book (1868/1869); Asolando (1889).
Edição por A. Birrell, 2.a ed.. 2 vols., New York, 1919.
do por Robert Buchanan entre os "criminosos" da "escola G. K. Chesterton: Robert Brownig. London, 1903.
da poesia carnal". Não é possível nem preciso enrijecer os E. Dowden: The. Life of Robert Browning. London, 1904.
St. A. Brooke: Hhe Poetry of Robert Browning. 2.* ed. 2 vols. Lon-
esquemas, que só servem de fios através de um labirinto. don, 1905.
2320 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2321

tar as obras do poeta. Ignorância é uma coisa que ninguém ca bem. A sua poesia é a de um inglês rico que viajou
gosta de confessar. Começaram todos a fingir admiração muito e conhece todas as literaturas e a arte de todos os
por Browning; e esse esnobismo tornou-se tão forte que países. Os índices das matérias dos seus volumes de versos
sobreviveu a várias mudanças do gosto literário, encontran- são de natureza enciclopédica: "Soliloquy of the Spanish
do-se enfim com a admiração de muitos "modernistas" in- Cloíster"; " T h e Laboratory, Ancien Regime"; "Saul";
gleses de 1920: estes como que reconheceram-se em Brow- "Cleon"; "Abt Vogler"; "Rabbi Ben E z r a " ; "A Toccata of
ning, na sua obscuridade hermética, na amplitude do seu G a l u p p i V — quase um carnaval histórico de "dramatis per-
horizonte cosmopolita, na harshness inconvencional do seu sonae", assim como nos quadros da época. Como os ingleses
verso, enfim, no seu otimismo. Otimistas eram os jovens, ricos do seu tempo, Browning prefere a Itália —
aborrecidos com o pessimismo oficializado de Tennyson e
as elegias melancólicas dos poetas georgianos. Só recente- "Open m y heart and you will see r v c v ^ - - - * '" r t
mente uma nova crítica, baseando-se em princípios socioló- Graved inside of i t : Italy." —
gicos e em mais rigorosos critérios estilísticos, duvida da
qualidade do otimismo browninguiano. Salienta que Brow- mas menos a Itália viva, com. a qual simpatizaram Byron,
ning era um grande burguês, passando a vida em palácios Shelley e Landor e a sua própria mulher Elizabeth, do que
em Florença e Veneza, dedicado só aos estudos, leituras a Itália da Renascença: a dos grandes artistas ("Andrea
e à arte. Não se lhe nega o entusiasmo de idealista; mas « dei Sarto"; " F r a Lippo Lippi"), dos grandes humanistas
teria sido um idealismo impotente, incapaz de escapar ao ("A Grammarian's Funeral"), dos bispos descrentes e es-
seu tempo. Daí a relativa incapacidade de expressão, a tetas ("The Bishop Orders His Tomb at St. Praxedis'
obscuridade confusa. Browning teria sido um parnasiano Church"), das paixões de homens fortes ("The Statue and
sem cultura da forma. the Bust"). Browning é renascentista. Comparando-se, po-
O otimismo de Browning não harmoniza com a clas- rém, essas poesias com os objetos que as inspiraram, ligei-
sificação como parnasiano. Mas o poeta era, como os epígo- ra decepção é inevitável. Da beleza harmoniosa das obras
nos, um "scholarly poet". de arte italiana entrou pouco nos versos do inglês, e não
"This man decided no to Líve but Know", diz Brow- é possível afastar de todo aquela suspeita de incapacidade
ning em "A Grammarian's F u n e r a l " ; e o verso se lhe apli- de expressão. Uma análise compreensiva revela, no entan-
to, que as aspirações de Browning não visaram à harmonia
A. Symons: An Introduction to the Study of Browning. 2.a ed.
London, 1906. plástica. O seu renascentismo não é .prazer estético sem
W. H. Griffin e H. C. Minchin: The Life of Robert Browning. New luta nem esforço. A Renascença o interessava como mo-
York, 1910.
P. Berger: Robert Browning. Paris, 1912. mento histórico em que homens fortes e geniais se defron-
E. Koeppel: Robert Browning. Berlin, 1912. taram com crises perigosas da moral pública e particular.
P. De Reul: Uart et la pensée de Robert Browning. Bruxelles,
1929. Nas poesias de outro assunto não-italiano, Browning tam-
F. R. G. Duckworth: Browning. Background and Conflict. New bém prefere tempos de crise, situações extraordinárias, ho-
York, 1931.
B. Miller: Robert Browning. A Portrait. London, 1952. mens esquisitos. Escolheu a forma e o tom conforme os
J. M. Cohen: Robert Browning. London, 1952. assuntos; nem sempre foi possível evitar expressões obs-
H. Ch. Duffin: Amphibion. A Reconsíderation of Browning.
London, 1956. curas e prosaicas, e às vezes nem tentou dizer coisa algu-
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m a : existem várias interpretações divergentes do famoso gram's Apology" é o esboço de uma teologia muito moder-
poema "Childe Roland to the Dark Tower Carne"; mas o na. Neste último poema encontra-se o leitmotiv de Brow-
próprio poeta confessou o intuito de apenas sugerir a ning:
atmosfera de pavor misterioso. Esse autor de duros versos
filosóficos preferiu entre todas as artes a menos acessível "EnthusiasnVs the best thing, I repeat."
à razão: a música; a sua poesia "Abt Vogler" conferiu ao
esquecido organista alemão uma auréola como o pobre Vo- O seu liberalismo não era o liberalismo parlamentar de
gler nunca a possuíra, quase como a um Beethoven: Macaulay. Ainda o epílogo do volume Asolando, publica-
" T h e C Major of this l i f e . . . " do no dia em que Browning morreu, é um manifesto como
O fundo de "Abt Vogler" é uma profissão de fé: um uma marcha de batalha. O otimismo do liberal Browning
credo de panteísmo artístico. Nem sempre, mas quase sem- era algo sentimental como o de Pippa, otimismo de um ho-
pre Browning pretende afirmar alguma coisa, proclamar mem rico e feliz que sofreu pouco na vida. Daí a relativa
uma mensagem; com razão, foi chamado "ensaísta em ver- falta de profundidade da sua "mensagem": e Chesterton
sos". A sua poesia é a de um grande intelectual; e um críti- teve a coragem de enfrentar os Browning Societies de dois
co moderno comparou-lhe os monólogos dramáticos com a continentes, negando que Browning tivesse sido filósofo ou
maneira dialética dos "metaphysical p o e f s " do século X V I I . poeta filosófico.
Resta definir-lhe a metafísica. Qual foi a mensagem de Mas se não foi isso, o que foi? Não foi profeta. Mas
Browning? tampouco foi poeta lírico, esse autor de versos tão duros
O panteísmo luminoso de "Abt Vogler" baseia-se numa e tão pouco acessivo. O hermetismo de Browning não tem
grande confiança no mundo e na natureza humana. nada com o hermetismo de Mallarmé ou da poesia moderna.
Browning é difícil, porque não quer falar diretamente.
"Schemes of life, its best rules and right uses, the Fala através de máscaras deliberadamente assumidas: como
nos seus famosos monólogos poético-dramáticos. Revela
[courage that gains."
almas (menos a sua própria). Não é profeta nem lírico,
mas psicólogo; como um romancista, embora em versos.
Browning viu o mundo em harmonia; e a mais famosa
E sua maior obra, The Ring and the Book é um romance
das suas obras, o pequeno drama Pippa Passes, culmina
num grito de júbilo: em versos.
The Ring and the Book é a história, bastante melodra-
"God's in His heaven — mática, de um crime passional, meio sórdido, na Itália do
All's right with the world!" século X V I I , de enredo parecido com os contos de Sten-
dhal; mas a técnica de narração do poema inglês é outra:
Não poderia ser maior a oposição ao pessimismo grave os diferentes personagens contam, dos seus diferentes pon-
de Tennyson; os dois maiores poetas vitorianos constituem tos de vesita, o que aconteceu; e o resultado é um panora-
contraste completo. E m "Caliban upon Setebos, or Natu- ma, composto de vários quadros subjetivos. Essa técnica
ral Theology in the Island", o liberal Browning zombou da é a de Storm e.Conrad; mas em Browning, ela tem outro
ingenuidade dos teólogos antidarwinistas; e "Bishop Blou- fundamento psicológico. Não lhe importa a atenuação das
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paixões pela melancolia passadista, nem um mistério cós- O pendant de Browning é a arte novelística de George
mico ao qual o homem só se pode aproximar. O que lhe im- Eliot (• ,8 ). Assim como Browning iniciou — técnica e ideo-
porta é a justiça. Cada um, no grande drama da vida, tem logicamente — uma poesia nova, assim a crítica inglesa fala,
a sua parcela de razão; e o liberalismo vital de Browning a propósito de George Eliot, da "new novel": na história
do romance inglês, ela desempenhou o papel de Flaubert
não quer julgar e sim compreender. Há nessa grande gene-
na França. Parecem tão imensamente diferente porque o
rosidade algo do sentimentalismo do século X V I I I — e esse
conservantismo inglês ligou a romancista à arte novelística
ponto é fundamental na interpretação do liberal-entusiasta do século X V I I I ; por isso, é ela grande humorista, que
— mas também há certa indecisão e até confusão. Vive- aprendeu muito em Jane Austen. E o seu ponto de parti-
ram várias almas dentro da alma de Browning; cada uma da não era o romantismo, como no caso de Flaubert, mas
desejava exprimir-se, assim como na Odisseia as almas dos o protestantismo sectário. Daí a gravidade da luta religio-
heróis mortos desejam beber do sangue para poder falar a sa e a alta seriedade das preocupações morais do romancis-
ta, verdadeiro oráculo ou "sibila" do seu tempo.
Ulisses — às vezes, a poesia de Browning é como uma sin-
fonia mal orquestrada de muitas vozes, confusa e obscura. A arte de George Eliot não nos parece tão "moderna"
como aos seus contemporâneos; nem tão "antiga" como a
E m The Ring and the Book, o poeta conseguiu a dramati-
certos críticos anglo-americanos de hoje que a opõem, como
zação. Assim também se explica aquela forma singular da
"arte novelística dos bons velhos tempos", aos neonatura-
maioria das poesias de Browning: são monólogos dramá- listas. Desde então, as mudanças dos costumes e da opinião
ticos — um volume se intitula Dramatis Personae — de pública foram tão radicais que mal compreendemos a indig-
força shakespeariana de caracterização. Browning orgu- nação da sociedade inglesa contra a escritora que traduziu
Ihava-se dessa invenção poética, falando de "inquiries into a herética Vida de Jesus, de David Friedrich Strauss, e vi-
espécies of Mankind". Não se contenta com a apresentação veu durante anos com um homem casado e não divorciado.
É preciso dizer que essas atitudes corajosas não se revelam
de personagens pitorescos; estuda os motivos psicológicos,
as consequências morais. Os resultados nem sempre har-
monizam bem com o otimismo das afirmações. E na verda- 49) George Eliot (pseud, de Mary Ann Evans), 1819 — 1880.
Scenes of Clerical Life (1857); Adam Bede (1869); The MUI on the
de, Browning só acredita na vida porque acredita na trans- Floss (1860); Silas Marner (1861); Romola (1863); Félix Holt the
Radical (1866); Middlemarch (1871/1872); Daniel Deronda (1876).
figuração da vida pela arte. Eis o tributo que Browning Edição: Warwick Edition, 12 vols., Edinburg, 1901/1903.
pagou ao espírito parnasiano da época. Mas não é um par- W. C. Brownell: "George Eliot". (In. Vivtorian Prose Masters.
New York, 1901.)
nasianismo frio, e sim um renascentismo, expressão artís- L. Stephen: George Eliot. London, 1902.
E. S. Haldane: George Eliot and Her Times. London, 1927.
tica de um grande liberalismo, religioso e laicista. Não P. BoinThonne: George Eliot. Essai de biographie intellectualle et
inorale. Paris, 1934.
é em nada vitoriano. O esteticismo de Browning é a sua B. C. Williams: George Eliot. London, 1936.
arma para proteger-se contra o caos do mundo dos agnósti- G. Bullett: George Eliot. Her Life and Books. London, 1947.
J. Bennett: George Eliot. Her Mird and her Art. Cambridge, 1948.
cos, para escapar à tragédia. Neste último ponto, porém, F. R. Leavis: The Great Tradition. London, 1949.
R. Spealght: George Eliot. London, 1954.
éle também continuou vitoriano. B. Hardy: The Novéis of George Eliot: a Study in Form. Lon-
don, 1959.
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claramente na obra de George Eliot. Sobretudo os grandes geral, compridos de mais para o nosso gosto; a leitura tor-
romances são antes tradicionais, estão na tradição de Fiel- na-se, muitas vezes, torturante. Daniel Deronda é uma das
ding, romancista do realismo onísciente. Na época vito-
obras mais tediosas da literatura inglesa, mas nesse roman-
riana, porém, a franqueza de Fielding parecia, novamente,
ce também pode F . R. Leavis destacar o episódio trágico
quase sensacional; e as convicções e a coragem da roman-
em torno de Gwendolen Harleth. O lado forte de George
cista revelam-se nas conclusões que ela tirou de enredos
Eliot revela-se no romance meio autobiográfico The MUI
meio sérios, meio humorísticos: aconteceu, até, aquela coi-
sa inédita no ambiente vitoriano, o fim trágico em vez do on the Floss, em que, num ambiente descrito com fino hu-
happy end costumeiro. morismo, o desfecho trágico decorre, com a maior natura-
lidade, do caráter rebelde da heroína Maggie Tulliver. E
George Eliot começou onde George Sand acabara: com
sobretudo na obra-prima da autora, Middlemarch, romance
novelas rústicas. Mas a mentalidade que concebeu as Sce-
de uma vida frustrada ou antes, de vários vidas frustra-
nes of Clerical Life é diferente. Aí já se encontra a mis-
d a s ; mas é muito mais do que isso. É o panorama completo
tura de elementos humorísticos e trágicos, característica do
espírito dramático da romancista; The Sad Fortunes of da existência numa pequena cidade inglesa por volta de
the Reverend Amos Barton é uma comédia de inspiração 1830. O panorama é compreensivo e rico como a própria
fieldinguiana. O ambiente é o da égloga à maneira de W o r - vida. Os destinos dos numerosos personagens entrelaçam-
dsworth; mas o sentido é a saída do sectarismo protestan- se de maneira complicada; George Eliot sempre preferiu,
te em que a escritora fora criada. Agora, ela será livre- um pouco como George Sand, os enredos melodramáticos.
pensadora. Mas o realismo inato não lhe permite fazer obra Também desempenham papel muito grande, e grande de-
propagandística à maneira da Sand; assim como nos ro- mais para o gosto moderno, o acaso e as coincidências. Mas
mances de George Eliot não entrará nada de defesa do não há, também, acasos e coincidências na realidade? A
amor livre. A liberdade íntima da escritora em questões fidelidade do realismo está garantida pela psicologia: des-
religiosas exprime-se, nos romances, só como reflexo, de- de Shakespeare e J a n e Austen, ninguém criou tantos per-
terminando o julgamento dos acontecimentos e persona- sonagens inesquecivelmente vivos, Dorothea e o velho Broo-
gens. Revela-se isso até no idílio rústico de Silas Marner, ke e o pseudo-intelectual Casaubon e o casal Lydgate e Ro-
num humanitarismo menos espetacular do que o de Dickens, samond e tantos outros; e toda essa multiformidade da
e no romance trágico Adam Bede, que escandalizou a so- obra está seguramente dirigida, dir-se-ia governada pelo
ciedade vitoriana. Para nós outros, hoje, o valor de Adam infalível senso moral da escritora que sabe tudo e sabe tudo
Bede reside, principalmente, na apresentação fiel da vida bem. Middlemarch é um dos grandes romances panorâ-
na countryside inglesa. Mas George Eliot não é idilísta; micos da literatura universal.
é uma grande intelectual. Nem sempre conseguiu manter
puro e livre de tendências o seu realismo. A propaganda Apesar de tudo isso e apesar da crescente admiração da
de ideias estragou-lhe duas obras de vulto: Daniel Deron- crítica moderna, George Eliot ainda está pagando, postu-
da; e Félix Holt, o romance político, embora F . R. Leavis mamente, o preço pela admiração excessiva que lhe dedica-
possa destacar o episódio altamente dramático de Mrs. ram os contemporâneos. Leitores modernos, leitores jo-
Transom e seu filho. Os romances de George Eliot são, em vens sobretudo, ainda a acham "antiquada". Mas esse pre-
2328 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2329
conceito já não impede a apreciação do extraordinário pa- A solução demorou m u i t o ; e as fases da evolução fo-
pel que George Eliot desempenhou na evolução histórica ram rolorosas. Um poeta como Clough ( 5 0 ) ; amigo de
do romance inglês. O grande tamanho dos romances elio- Matthew Arnold, nato para evocações musicais de paisa-
tianos explica-se pela necessidade de preparar cuidadosa- gens nórdicas e elaboração artística de metros complicados,
mente e tornar compreensível a conclusão trágica de acon- perdeu o equilíbrio mental em dúvidas religiosas, que Ten-
tecimentos num ambiente, cuja descrição exigiu realismo nyson, em In Memoriam, conseguira tranquilizar. De Clou-
gh sobrevivem, com certa injustiça a respeito da sua "poe-
humorístico. É por isso que George Eliot voltou ao rea-
sia pura", quase só os versos epigramáticos de perplexida-
lismo do romance inglês do século X V I I I ; e na época vi- ']
de espiritual. Mais um passo para a frente foi W h i t e ( B 1 ),
toriana, esse realismo, abandonado havia tanto tempo, já foi que usou o pseudónimo Mark Rutherford para assinar os
sentido como novidade, até como novidade audaciosa. Mas seus fortes romances autobiográficos, histórias da liberta-
George Eliot não era um Fielding feminino. Adotando a ção religiosa e moral de um puritano da classe-média pro-
técnica da onisciência, sem ceder ao sentimentalismo dic- vinciana. Todos esses "libertadores" ingleses lutam com
kensiano, ela ia mais longe do que o humorista na com- dificuldades, quase dom-quixotescamente, porque são al-
preensão das possibilidades trágicas da vida humana. O mas e inteligências bastante complicadas. Mas para dar com
elemento vitoriano na romancista era a forte consciência da coragem, o passo decisivo, precisava-se de certa ingenuida-
d e : eis o mérito do romance Story of an African Farm, da
responsabilidade moral, resíduo na sua educação religiosa;
sul-africana Olivia Schreiner ( ° 2 ) ; o tom feminino e meio
daí também as reticências com respeito ao problema sexual,
pietista dessa obra de libertação de uma escritora-diletante
que constituíram para torná-la "antiquada". O elemento não ocultou o fato central: Olivia Schreiner, descrevendo
novo, da new novel, é que ela evitou toda grandiloquência . a luta de uma moça contra as doutrinas religiosas e con-
sentimental. Com firmeza tanto maior sabia salientar o sen-
tido moral das suas histórias de gente humilde e pouco im-
portante. Nenhum grande romancista da literatura univer-
50) Arthur Hugh Clough, 1819 — 1861.
sal é tão modesto, na atitude literária, como George Eliot. The Bothie of Tober-na Vvolich (1848); Amours de Voyage (1849);
Mas atrás dessa modéstia encontra-se uma curiosidade dra- Dipsychus (1850) .
Edição por C. Whibley, London, 1913.
matúrgica e um senso de crítica moral tão fortes como no J. J. Osborne: Arthur Hugh Clough. London, 1920.
grande poeta intelectualista, em Browning. Apenas George G. Levy: Arthur Hugh Clough. London, 1938.
51) William Hale White, 1831 — 1913.
Eliot, menos complicada e menos confusa, compreendeu a
The Autóbíography of Mark Rutherford (1881); Mark Rutherford's
incompatibilidade desse moralismo com a religiosidade Deliverance (1885).
H. Klinke: William Hale White. Frankfurt, 1931.
tradicionalista da época vitoriana. Daí a preferência que C. M. Maclean: Mark Rutherford. A Biography of Willam Hale
dá aos desfechos trágicos. Estava plantado o problema re- White. London, 1955.
I. Stock: William Hale White. A Criticai Study. London, 1956.
ligioso, sem cuja solução o renascentismo inglês não teria 52) Olivia Schreiner, 1862 — 1920.
sido capaz de ultrapassar as fronteiras de um esteticismo The Story of an African Farm (1883); Trooper Peter Halkett
(1897).
vago. S. C. Schreiner: The Life of Olivia Schreiner. London, 1924.
V. Buchanan Gould: Not Without Honour. London, 1948.
2330 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2331

venções morais do puritanismo, afirmou claramente o que grande mestre, um professor de cultura para uma nação
nos romances de George Eliot ficara reservado à consciên- inteira. Em dias mais calmos teria sido um educador se-
cia da romancista. O pendant da diletante Olivia Schrei- g u r o ; o tempo em que nasceu, angustiou-o de tal maneira,
ner nos círculos da alta inteligência era Mary W a r d ( 5 8 ), que o seu classicismo majestoso nos parece hoje uma ten-
cujo Robert Elsmere, história das dúvidas religiosas e per- tativa permanente de auto-educação, daquele self-control
da de fé de um teólogo, causou sensação enorme. Como es- que o pai Thomas Arnold ensinara em Rugby. Matthew
critora, Mary Ward não é menos diletante do que Olivia Arnold não era um vitoriano completo. O tempo colocou-o-
Schereiner; e o realismo das suas descrições da sociedade entre seu amigo Clough e sua sobrinha Mary W a r d ; e essa
até é mais superficial. Mas Mary W a r d dizia coisas das situação é simbólica. Como Clough, Arnold era um espí-
quais a outra nem sabia. E r a uma mulher altamente intelec- rito de inquietação religiosa; doutro lado, o tio de Mary
tualizada, a sobrinha daquele Matthew Arnold que fora o W a r d é o tio-avô de Aldous Huxley e Julian Huxley, da
amigo de Clough. Em torno de Arnold, filho do teólogo gente mais cosmopolita da Inglaterra, netos do agnóstico
liberal Thomas Arnold, fecha-se um ciclo. Thomas Henry Huxley. O próprio Matthew Arnold foi
Thomas Arnold (1775-1842), "headmaster" e reforma- criado em Rugby, sob os auspícios do pai, a cuja memória
do da famosa escola de Rugby, fora um dos maiores peda- dedicou um dos seus poucos poemas profundamente como-
gogos ingleses, talvez o maior desde os dias de Colet e vidos: "Rugby Chapei". Estudava em Oxford, parecia
Erasmo. O filho, Matthew Arnold ( 5 4 ), também foi um destinado a um helenista de estilo mais puro. O seu primei-
ro ensaio, On Translating Homer, já é obra dum grande
53) Mary Humphry Ward, 1851 — 1920. scholar e humanista. Mas não de um humanista ortodoxo.
Robert Elmsre (1888); The History of David Grieve (1892); Mar- Discute a "questão homérica", lembra H e r d e r ; e herdaria
cella (1894); Sir George Tressady (1895); Helbeck of Bannisdale
(1398) etc, etc. na é a sua tentativa de ressuscitar uma literatura esquecida:
J. S. Walters: Mrs. Humphry Ward, Her Work and Influence.
London, 1912. On the Study of Celtic Literature. Herderiana é a tenta-
J. P. Trevelyan: The Life of Mrs. Humphry Ward. London, 1913. tiva de chamar a atenção para literaturas estrangeiras, dis-
54) Matthew Arnold, 1822 — 1888. cutindo a ironia de Heine, o classicismo de Maurice de
Poems (1853); Poema (1855); Essaya in Criticism (1865); On the
Study of Celtic Literature (1867); New Poema (1867); Schoola Guérin, o cepticismo de Renan. Na Inglaterra vitoriana,
and Universities on the Continent (1868); Culture and Anarchy ilha quase hermeticamente fechada às correntes literárias
(1869); Literature and Dogma (1873); God and the Bible (1875);
Essays in Criticism (1888). do continente, era isso trabalho de apóstolo. E Arnold era
Edição completa por Q. W. E. Russell, 15 vols., London, 1903. um apóstolo da civilização. Até a sua função oficial de ins-
Edição das poesias por H. B. Forman, 2 vols., London, 1900/1902.
H. W. Paul: Matthew Arnold. London, 1902. petor do ensino forneceu-lhe oportunidade para quebrar
St. P. Sherman: Matthew Arnold. New York, 1917. o isolacionismo inglês, chamar a atenção para as vantagens
H. Klngsmlll: Matthew Arnold. London, 1928.
C. H. Harvey: Matthew Arnold, a Critic of the Victorian Perioá. ilo ensino superior à maneira europeia, sobretudo na Ale-
London, 1931.
L. Trilling: Matthew Arnold. London, 1939. manha. Notou, porém, dois grandes obstáculos da europei-
C. B. Tinker e H. F. Lowry: The Poetry of Matthew Arnold. Lon- tação dos ingleses: o utilitarismo económico, que acredita-
don, 1940. va poder comprar tudo por dinheiro, tudo até cultura; e o
L. Bonnerot: Matthew Arnold poete, essai de biographie psycho-
logique. Paris, 1947. puritanismo, com o seu moralismo estreito, hostil à beleza.
E. K. Brown: Matthew Arnold, a Study in Conflict. Chicago, 1948
Cl. Dyment: Matthew Arnold. London, 1948.
2332 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2333
Atacou esses dois inimigos na mais importante, se bem não do nos sonetos e outras poesias de tamanho menor; e uma
melhor, das suas obras, Cultuie and Anarchy. vez, em Requiescat escreveu um dos versos permanentes da
Demonstrou que a civilização material, por mais prós- poesia inglesa:
para que seja, degenera em anarquia espiritual, se não fôr
acompanhada de cultura pessoal. E esta, Arnold não era "The vasty hall of L)eath."
capaz de encontrá-la na Inglaterra, cuja população lhe pa-
recia dividida em três grupos: "barbarians", "philistines", Arnold é tão melancólico como Clough. A luta ínti-
and "populace". Contra a suficiência inglesa, Arnold pre- ma entre as dúvidas religiosas e a fé nos valores espirituais,
tendeu definir o que é cultura — é esta a pretensão de to- entre o cosmopolitismo estético e a respeitabilidade do pro-
dos os renascentistas, mesmo quando o seu supremo ideal fessor e grande burguês, produziu em Arnold uma espécie
não é a Renascença mas o modelo da própria Renascença: de "mal du siècle", muito típico nos melhores entre os vi-
a Grécia. O aluno de Rugby e Oxford era discípulo de torianos. Em Arnold havia fortes resíduos românticos: o
Goethe: cultura não existe sem a harmonia que se expri- admirador de Wordsworth também era leitor infatigável
de Sénancour; e a crítica moderna também descobre o ro-
me através da beleza grega. Aproveitando-se de uma dis-
mantismo na sua maneira da crítica literária, sacrificando
tinção de Heine, Arnold tomou o partido do "espírito helé-
a estrutura e a ideologia das obras à escolha e elogio dos
nico" contra o "espírito hebraico", quer dizer, contra o pu-
"belos versos e trechos". Os maiores documentos do ro-
ritanismo inglês. Mais uma vez lembra a Herder a sua ten-
mantismo arnoldiano são dois poemas da angústia: "Dover
tativa de demonstrar a beleza literária da Bíblia. Só assim, Beach" e " T h e Scholar-Gypsy". Angústia do intelectual
acreditava, a Bíblia poderia salvar-se numa época de irreli- perante a visão de tempestades terríveis —
giosidade crescente que acabará admitindo só uma religião:
a da arte. O ponto final da atividade de Arnold, filho do
" . . . confused alarms of struggle and flight,
teólogo liberal Thomas Arnold, é o ataque ao dogma or-
W h e r e ignorant armies clash by night." —;
todoxo.

A t é aí, Matthew Arnold parece bastante rebelde. Mas mas a inquietação espiritual do scholar-gypsy calma-se na
não é assim a sua poesia. Não é poeta de primeira ordem, atmosfera humanista de Oxford. A última Impressão que
mas poeta sincero. Poeta culto e até poeta erudito, tra- a poesia de Arnold sugere é sempre harmonia perfeita, har-
tando assuntos de todas as épocas e regiões à maneira nar- monia entre o sentimento romântico e a forma clássica.
Na poesia como na atitude em face da religião, Arnold é
rativo-contemplativa de Wordsworth, e quase nunca fa-
parnasiano; um crítico francês lembrou-se, a seu respeito,
lhando: fosse em "dramas" líricos de assunto grego, como
de Leconte de Lisle. O espírito vitoriano de Arnold não
Merope e Empédocles on Etna; fosse em temas nórdicos,
chega, porém, aos extremos da cultura meramente formal
como The Forsaken Merman e Balder Dead; fosse em poe-
c do anticristianismo. Acredita na arte como um cristão
mas orientais, como "Sohrab and Rustum". A poesia do
•m Deus, mas com a severidade de um puritano. Arnold
Arnold é algo fria, professoral, "excellent scholar's poetry". 6, em primeira linha, um "grande moralista. Julgava-se "gre-
Mas também dispõe de autênticos acentos líricos, sobretu- go"; mas era muito "hebraico". Um apóstolo entre infiéis
2331. OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2335

que pretendeu converter, iluminar. O filho de Thomas Ar- evasionismo superficial e insincero, "romantismo de ricos"
nold também foi um educador. (Meredith). Mas houve, entre tantos pintores e poetas eva-
A primeira lição de Arnold que os intelectuais ingle- sionistas, um pintor-poeta autêntico; talvez porque foi, en-
ses ouviram, foi o esteticismo cosmopolita; aceitaram-na tre tantos italiniazantes, o único italiano autêntico: Dante
com o mesmo fervor religioso com o qual Carlyle tinha Gabriel Rossetti.
abraçado a harmonia moral da Idade Média. Para transfor- Rossetti ( 5 0 ), filho de um patriota italiano, protestan-
mar o evangelho medievalista de Carlyle em evangelho re- te e poeta, exilado na Inglaterra, era artista nato; e a sua
nascentista dos pré-rafaelitas, as condições estavam dadas: condição contribuiu para entranhá-lo, cada vez mais, no so-
no esteticismo de Keats, na italianofilia de Shelley e Lan- nho de um renascimento de Florença em meio da neblina
dor e de toda a burguesia culta da Inglaterra, procurando de Londres. O pré-rafaelitismo, artifício para os outros,
o paraíso italiano para fugir da atmosfera de fumaça das era o seu clima natural; mas prejudicou antes o seu ta-
fábricas inglesas. lento. Sem ser um pintor de primeira ordem, teria bastan-
te força para fazer ilustrações muito poéticas para edições
"Open my heart and you will see de Dante e Petrarca; em vez disso, elaborou essas ilustra-
Graved inside of it, " I t a l y " ; ções como grandes quadros místicos, simbólicos, sensuais,
enfim fantasias históricas ao gosto da época. Em compen-
cantou Browning, e o pintor Edward Burne-Jones comen- sação, contribuiu para a poesia inglesa um realismo pictó-
tou: "Meu corpo está passando pela neblina das ruas de rico, até então desconhecido; o mundo de Dante e Beatrice
Londres, mas o meu espírito está em Florença". Burne- parecia revelar-se logo nos primeiros versos da Blessed
Jones, junto com os pintores William Holman H u n t e John Damozel:
Everett Millais, fundara a Pre-Rephaelitic Brotherhood,
associação de monjes da arte, dedicados ao culto da beleza " T h e blessed Damozel leaned out
italiana, sobretudo do Quattrocento "antes de Raffaello"; From the golden bar of Heaven;
da arte de F r a Angélico, Perugino e Botticelli, que o crí- Her eyes were deeper than the depth
tico Ruskin lhes interpretou. Porque só naqueles, pinto- Of waters stilled at even;
res "ingénuos" ainda havia a pureza moral, condição de She had three lilies in her hand,
suprema beleza física, que merecia o culto quase religioso. And the stars in her hair were seven".
O movimento pré-rafaelita ( 55 ) contava entre os seus adep-
tos muitos pintores e alguns poetas. Na história literária,
esse movimento artístico entra como influência difusa, pre- 56) Dante Gabriel Rossetti, 1828 — 1882.
sente na poesia de Tennyson e Browning e de muitos poe- Poems (1870); Ballads and Sonnets (1881).
Edição por W. M. Rossetti, London, 1911.
tastros que desacreditaram, depois o pré-rafaelitismo como A. C. Benson: Rossetti. London, 1904.
Ch. Davies: Dante Gabriel Rossetti. London, 1925.
E. Waugh: Rossetti, His Life and Works. London, 1928.
L. Wolff: Dante Gabriel Rossetti. Paris, 1934.
H. Rossetti Angelí: Dante Gabriel Rossetti. London, 1948.
55) W. H. Hunt: Pre-Raphaelitism and the Pre-Raphaelitic Bro- O. Doughty: A Victorian Romantic. Dante Gabriel Rossetti. Lon-
therhood. 2 vols. London, 1905. don, 1949.
F. E. Welby: The Victorian Romantics, 1850 — 1870. London, 1929.
2336 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2337

A força sugestiva dessas imagens é de todo moderna ; seu disfarce esteticista, a fuga da responsabilidade. Reagi-
não tem nada que ver com o simbolismo intelectualista da ram, então, as duas forças que estavam reunidas no Mestre
Vita Nuova, que Rossetti traduziu magistralmente. Simbo- A r n o l d : o moralismo e o racionalismo anti-romântico. Daí
lismo forçado é o único defeito, ocorrendo casualmente, as duas verdadeiras oposições que pretenderam "limpar"
dos sonetos do House of Life, que estão entre os mais belos a civilização da burguesia inglesa: a de Ruskin e M o r r i s ;
de uma literatura que possui os de Shakespeare, Donne, e a de Meredith e Butler.
Milton, Wordsworth e Keats. O simbolismo de Rossetti Ruskin ( 67 ) não é o mesmo para os europeus continen-
parece destinado a esconder, antes do que a revelar, a sua tais e para os ingleses. No continente, sobretudo na Fran-
doutrina da união mística entre as almas e os corpos, dou- ça, foi entendido como um dos maiores estetas do século
trina "carnal", altamente escandalosa aos críticos vitoria- X I X ; como o prosador insuperável que tinha descrito, nos
nos. E a sensualidade de Rossetti foi bastante mórbida. Modem Painters, os quadros de Turner, de tal modo que
Colocou o manuscrito ainda inédito da House of Life no o leitor acredita vê-los; que tinha reconstruído, em pala-
caixão de sua mulher, Elizabeth Eleanor Siddal; sete anos vras, nas Seven Lamps of Architecture, as catedrais da Ida-
depois, mandou exumar o corpo da amada para publicar a de Média; e em cujos Stones of Venice se respira a obscuri-
obra. Parece um conto fantástico de Poe, ou uma loucura dade mística do interior da basílica de São Marco. Nesse
sentimental de poeta "noturno" do tempo de Young. E sentido foi Ruskin uma grande influência na França de
ninguém definiu melhor do que o próprio Rossetti essa Mallarmé, Barres e Proust. Aos ingleses, Ruskin parecia,
morbidez poética: antes, um iconoclasta, querendo colocar a arte acima dos
lucros e destruir a sociedade moderna em favor de sonhos
"Under the arch of life, where love and death, utópicos; é o homem da eloquência torrencial e confusa
Terror and mystery, guard her shrine, I saw de Unto this Last e de Fors clavigera. Parte da confusão
Beauty e n t h r o n e d . . . " é culpa do próprio Ruskin, espírito pouco claro, mais ora-
dor do que pensador, confundindo problemas da arte e pro-
Nisso não há nada de Renascença, nem de italiano. blemas da vida, valores estéticos e valores morais. Apesar
Rossetti descende do esteticismo de Keats e P o e ; foi capaz
de redescobrir Blake e antecipar o Simbolismo. A sua poe-
57) John Ruskin, 1819 — 1900.
sia já revela todo o encanto musical e vago dos simbolistas Modem Painters (1843/1860); The Seven Lamps of Architecture
célticos, cumprindo uma profecia do crítico Arnold. Como (1849); The Stones of Venice (1851/1853); Unto this Last (1860/
1862); Munera Pulveris (1862/1863); Sesame and Lilies (1865);
este, mas com franqueza maior, é Rossetti uma natureza The Crown of Wild Olive (18C6); Fors Cíavigera (1871/1884).
romântica, quebrada pelo vitorianismo ("The lost days of Ediç&o por E. T. Cook e A. D. O. Weddèrburn, 39 vols., London,
1902/1912.
my life until t o d a y . . . " ) . A perfeição de Rossetti é menos Fr. Harrison: John Ruskin. London, 1902.
poética, do que artística; e foi artística demais para o seu A. Chevrillon: La pensée de Ruskin. Paris, 1909.
E. T. Cook: The Life of John Ruskin. 2 vols., London, 1911.
tempo. Os pré-rafaelitas, espíritos e corpos pálidos, não F. W. Roe: The Social Philosophy of Carlyle and Ruskin. New
aguentaram tanta intensidade, fosse mesmo mórbida. York, 1922.
H. A. Ladd: The Vivtorian Morality of Art, an Analysis of Ruskin's
Por mais paradoxal que pareça, o pré-rafaelitismo não Esthetic. London, 1932.
G. Grew: Ruskin. London, 1936.
é a contradição e sim o último refúgio do vitorianismo: o P. Quennell: John Ruskin. London, 1D50.
2338 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2339
disso, existe na sua evolução uma lógica quase rigorosa. fleto poderoso contra o individualismo capitalista, contra
Arnold tinha exigido uma nova civilização, sem definir- o coletivismo escravizador da máquina, em favor de um
lhe o conteúdo. Ruskin indicou aos pré-rafaelitas o cami- socialismo espiritualista.
nho da Itália. Mas fez logo uma restrição: não a Renas- Ruskin exerceu influência enorme; mas não aquela que
cença do século X V I , arte independente da vida, nem se- desejara. Despertou em inúmeros corações a fome da be-
quer a Renascença inteira do século XV, mas sim a arte leza, mas não converteu nenhum capitalista ao cristianis-
gótica, expressão existencial da vida dos artistas. Daí os mo e nenhum operário ao artesanato gótico. A culpa era
ataques contra pintores classicistas, como Poussin e Clau- sua. O seu medievalismo era impotente, porque um medie-
de Lorrain, nos Modem Painters; daí os ataques contra a valismo sem fé dogmática é meramente estético. Também
arte mentirosa, de fachada, da alta Renascença, nos Stones era estético o "socialismo" de Ruskin, socialismo idílico e
of Venice. Ruskin chega a reconhecer o mal, a mentira, na romântico dum descendente de Wordsworth. Com efeito,
própria consciência artística que visa a fins fora das ne- a influência de Ruskin na Inglaterra acabou com o pré-
cessidades vitais do homem. Opõe ao artista o artesão, que rafaelismo que êle mesmo criara; mas não o substituiu por
serve em vez de dominar. Ruskin apresenta uma doutrina doutrina social coerente. Não era possível resolver os pro-
coerente de fé, sacrifício e obediência, nas Severt Lamps blemas sociais por meio de aulas de pintura e de história
of Architecture: o elogio entusiasmado do estilo gótico. das artes plásticas. Mas, à pintura, deu Ruskin uma nova
Isso parece, à primeira vista, muito vitoriano. O artesão base, uma doutrina social. À pintura e a todas as expres-
está mais perto do técnico do que o artista; e a época vi- sões artísticas; então a arte — o caso não é único — re-
toriana gostava imensamente do gótico, construindo nesse percutiu na vida, produzindo uma nova maneira de agir.
estilo o novo Parlamento e inúmeras prefeituras e estações William Morris ( 68 ) vive na história inglesa como uma
de estrada de ferro, até a gare em Calcutá. Ruskin, artista das figuras mais singulares e mais poderosas do século
nato e puritano até a raiz dos cabelos, reconheceu a menti- XIX. Mas a sua personalidade está mais viva do que a
ra neogótica. Responsabilizou justamente o técnico que sua obra. Os seus grandes poemas narrativos, coleçoes
não é um artesão, servindo a Deus, mas um criado do ma-
monismo. A conclusão lógica desse medievalismo antibur- 58) William Morris, 1834 — 1896.
The Defence of Guenevere and Other Poems (1858); The Life
guês à maneira de Carlyle — a filiação era consciente — anã Death of Jason (1867); The Earihly Paradise (1868/1870);
é o ataque ao mundo moderno, quer dizer, à organização so- Sigurd the Volsung and the Fali of the Nibelungs (1876); News
from Nowhere (1891).
cial que impede a verdadeira expressão artística. A arte, Edição por M. Morris, 24 vols., London, 1910/1915.
conforme Ruskin, está intimamente ligada à vida; exprime J. Spargo: The Socialism of William Morris. London, 1906.
A. Noyes: William Morris. London, 1908.
mesmo a estrutura social da época. Nessa ideia revela-se A. Compton-Rickett: William Morris. A Study in Personality.
Ruskin como contemporâneo de Marx, em cuja vizinhança London, 1913.
A. CIutton-Brock: William Morris, His Work and Influence.
— as casas estavam separadas por poucos quarteirões — London, 1914.
J. W. Mackail: Life of William Morris. New York, 1922.
foram escritos livros como Munera Pulveris, Sesame and B. J. Evans: William Morris and His Poetry. London, 1925.
Lilies, The Crown of Wild Olive, ataques terríveis ao li- P. Bloompield: William Morris. London, 1934.
M. Morris: William Morris. Artist, Writer, Socialist. 2 vols. Ox-
beralismo económico; contra a liberdade de economia, para ford. 1936.
salvar a liberdade da arte. Sobretudo Unto this Last, pan- M. R. Grennan: William Morris, Medievalist anã Revolutionary.
New York, 1945.
2340 OTTO M Á F I A CAPPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2341

enormes de imagens fantásticas, encontram, cada vez me- plicou-se na famosa "Apology" do Earthly Paradise, poe-
nos, leitores; as suas realizações nas artes gráficas e decora- sia que merece comentário como uma das produções poéti-
tivas pertencem a um gosto já antiquado; o seu socialismo cas mais significativas, mais reveladoras, do século intei-
era militante, mas utópico. ro. Morris começa confessando a impotência vital da sua
A injustiça contra o poeta Morris é grande, embora arte:
pareça irremediável. Não é um artista tão perfeito como
Rossetti, mas dotado de poder muito maior de imaginação, "Of Heaven or Hell I have no power to sing,
um verdadeiro visionário de imagens. Não eram imagens- I cannot ease the burden of your fears,
originais, isso é verdade, mas essa originalidade faz falta
Or make quick-coming death a little thing,
ao século X I X inteiro; e, afinal, toda a literatura, desde o-
Or bring again the pleasure of past ycars,
Barroco ou já desde a Renascença, viveu de imagens em-
Nor for my words shall ye forget your tears,
prestadas. Morris, que não era italiano e sim um inglês-
Or hope again for aught that I can say,
típico, preferiu ao "Trecento" italiano o "Trecento" i n -
T h e idle singer of an empty day".
glês; em vez de Dante, escolheu Chaucer como modelo,
romantizando-o ao gosto do século XIX, tratando-lhe os
Depois dessa declaração de falência do pós-romantismo
assuntos como se fossem de Spenser. A fórmula "Chau-
vitoriano, tennysoniano, Morris explica numa comparação
cer-Spenser" forneceu-lhe a possibilidade de transformar
extaordinàriamente bela o fim do seu poema e do medie-
os temas medievais pelo romantismo pré-rafaelita, sejam
valismo-renascentista dos pré-rafaelitas:
temas da lenda céltica (Defence of Guenevere), sejam t e -
mas nórdicos (Sigurd the Volsung). E m Chaucer (e em.
Froissart), Morris aprendeu o requinte da sua arte poéti- "Folk say, a wizard to a northern king
ca: tratar assuntos da Antiguidade grega como se fossem' A t Christmas-tide such wondrous things did show,
romances de calavaria medievais. A Idade Média fizerai T h a t through one window men beheld the spring,
assim, com toda ingenuidade, os seus romances de Tróia And through another saw the summer glow,
e de Alexandre, o Grande; Morris escreveu assim, com a r t e And through a third the fruited vines a-row,
consumada, The Life and Death of Jason, e enfim a sua W h i l e still, unheard, but in its wonted way,
obra capital, o Earthly Paradise, em que se enquadram 12 Piped the drear wind of that December day.
novelas de assunto grego e 12 novelas de assunto nórdico' So with this Earthly Paradise it i s . . . " , —
ou normando, sempre no mesmo estilo medieval. É a r t e
que lembra as maravilhosas tapeçarias medievais do museu arte de lanterna mágica, criando "a shadowy isle of bliss"
do Hotel Cluny, mas também as decorações suntuosas, d e no meio do Oceano nórdico, frio e terrível,
gosto pouco certo, das casas grande-burguesas de 1880.
Morris, como poeta, colocou-se, de propósito, fora da rea- "Whose ravening monsters mighty men shal slay,
lidade industrial e comercial da Inglaterra moderna; eva- Not the poor singer of an empty day."
sionismo que devia degradar a arte a mero enfeite sem
função vital. Morris estava consciente desse perigo. E x - A grandeza de Morris reside na sua coerência, superior
u de Ruskin. Tirou as conclusões, enfrentando a realidade.
2342 OTTO M A R I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2343

Venceu o vazio, o "empty day", realizando com as mãos, gura típica é o grande scholar Leslie Stephen ( D0 ), estu-
literalmente, aquelas imagens mágicas. Criou, como sócio dioso dos free-thinkers deístas do século X V I I I , defensor
de um agnosticismo não-materialista contra as reivindica-
e diretor artístico de uma fábrica de móveis e tapeçarias,
ções teológicas de Newman; um Swift sem amargura nem
D nova arte decorativa que devia dominar o fim do século;
misantropia, o precursor do antivitoriano Lytton Strachey.
fundou a Kelmscott Press, publicando edições maravilho- Da mesma família de espíritos foi Meredith ( c o ), anti-
sas de livros de poesia antigos e modernos, uma nova arte cristão decidido, darwinista sem conclusões materialistas
gráfica, de repercussões até hoje. E enfim, o autor da uto- e, nesse pormenor, ainda um vitoriano, algo confuso, inca-
pia News from Nowhere resolveu alistar-se entre os "mi- paz de expressão direta. Um dito muito conhecido afirma
ghty men", combatendo os "ravening monsters": em 1881. que "Meredith não escreveu em inglês, e sim em Meredith".
tornou-se membro da Social Democratic Federation, do Mas é justamente isso o que negam os últimos críticos e
partido socialista ao qual pertenceu a atividade dos últi- reabilitadores do romancista, elogiando-lhe a imperecível
frescura juvenil do estilo, sobretudo nas descrições da Na-
mos anos da sua vida: para construir a nova Jerusalém do
tureza. Meredith é o "poet's novelist". E é mesmo poeta.
socialismo "in England's green and pleasant land".
Na poesia de Modem Love e Poems and Lyrics of the Joy
Como poeta, Morris parece-se com A r n o l d : a sua poe-
sia é mais conformista, "conforme" o "compromisso vitoria-
no", do que a sua doutrina. Mas o ideal arnoldiano de uma 69 Leslie Stephen, 1832 — 1904.
Hours in a Library (1874/1879); A History of Englisli Thought in
nova civilização, Morris realizou-o à sua maneira. Era, en- the Eíghteenth Century (1876); An Agnostics Apology (1893);
t r e os estetas, o único que sabia "realizar", "fazer" alguma Studies of a Biographer (1898/1902).
F. W. Maitland: The Life and Letters of Leslis Stephen. London.
coisa, fosse móvel, fosse livro, fosse comícios públicos e 1906.
ameaças de revolução. Venceu o passadismo evasionista; 60) George Meredith, 1828-1909.
The Ordeal of Richard Feverel (1859); Evan Harrington (1861);
revelou o sentido "futurista" do renascentismo. Modem Love and Poems of the English Roadside (1862); Sandra
Belloni (1864); Rhoda Fleming (1865); The Adventures os Henry
O preço que tinha de ser pago por isso, foi a destruição Richmond (1871); Beauc1iamp's Career (1876); The Egoist (1879);
Ths Tragic Comeãians (1880); Poems and Lyrics of the Joy of
do "compromisso vitoriano", ao qual os semipuritanos Ar- Earth (1883); Diana of the Crossways (1885); Lord Ormont and
nold e Ruskin ficaram ligados, ao passo que Morris se tor- His Aminta (1894); The Amazing Marriage (1895); The Idea of
cornedy and the zlses of the Comic Spirit (1897).
nou socialista. A grande burguesia, mesmo na sua parte Fdição: Memorial Edition. 27 vols., London,-1909/1911.
a. M. Trevelyan: The Poetry and Philosophy of George Meredith.
mais culta, não podia acompanhar esse passo que lhe des- London, 1906.
truiria os fundamentos económicos da existência. Justa- J. Moffat: George Meredith, a Pmer to the Novéis. London, 1909.
J. W. Beach: The Comic Spirit in George Meredith. New York,
mente os grandes intelectuais, como as famílias Arnold e 1911.
W. Chislett: George Meredith, a Study and Appraisal. London,
Huxley, preferiram a atitude, de menor responsabilidade, 1925.
J. B. Briestley: Meredith. London, 1926.
da aristocracia do século X V I I I : deixar de lado as ques- R. E. Sencourt: The Lije of George Meredith. London, 1929.
tões sociais e reservar-se os privilégios do livre-pensamen- S. Jassoon: Meredith. London, 1948.
L. Stevenson: The Ordeal of George Meredith. New York, 1953.
to — e de algumas outras liberdades menos puritanas. Fi- J. Lindasay: George Meredith, his Life and Worlhs. London, 1956.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2345
2344 OTTO M A R I A CABPEAUX
middle class" e aristocracia — que vive de terras, rendas,
of Earth — os títulos são significativos — conseguiu um
ações, divertindo-se com golfe, críquete e arte pré-rafaelí-
estilo direto, vigoroso, lembrando a Wordsworth, mas pro-
tica, fazendo e desfazendo casamentos, disputando eleições
fessando doutrinas opostas: um panteísmo pagão, antipu-
para a Casa dos Comuns, conversam muito e falam por afo-
ritano, alegre e intenso, sem o verbalismo de Swinburne
rismos espirituosos que são o meio preferido de expressão
nem a morbidez de Rossetti. Na "união mística" de Ros-
de George Meredith: assim, Evan Harrington, Sandra
setti, o corpo apoderara-se da alma, produzindo as angús-
Belloni, The Adventuies of Harry Richmond. Um título
tias de "tales of horror" em versos vividos; em Meredith,
como Lord Ormont and His Aminta é altamente simbólico:
opondo a love ao sex, a alma assimila-se à sexualidade —
são "romances pastoris" da sociedade vitoriana, mas sem
isso também é pouco grego, mas muito moderno no sentido
falsas ilusões. Em Diana of the Ctossways chega a certa
de 1920. Meredith é, até certo ponto, um precursor de D.
crueldade da observação; e flaubertiano, mais uma vez,
H. Lawrence; e na frescura de pensador ao ar livre, que
é o maior dos seus romances, The Egoist, o desmascara-
conservou até a extrema velhice, é um precursor de Shaw.
mento completo do herói eterno de Meredith.
Opôs desmentido vigoroso ao pessimismo do seu amigo
H a r d y : ao passo que Hardy viu nas mulheres as vítimas Todos esses romances são notáveis; dão ao leitor a
do determinismo biológico, Meredith as considerava como impressão de pertencer, durante as horas da leitura, àque-
as últimas criaturas instintivas, filhas de Pan. A sua fa- la sociedade brilhante e exclusiva. As comédias de Wilde
mosa frase — "Woman will be the last thing civilised by dão a mesma impressão; mas facilitam a entrada. Meredith,
man" — não é de desprezo e sim de esperança. Meredith não. O seu senso social não é bem desenvolvido. Em Beau-
tirou na literatura as consequências que George Eliot só champ's Career zombou dos políticos radicais, e The Tra-
ousara tirar na vida. gic Comedians é um panfleto contra Lassalle; radicalismo
Meredith revela alguns pontos de contato com George e socialismo também seriam sentimentalismos. É uma con-
Eliot e até com George Sand. No ambiente rústico passa- cessão ao espírito vitoriano. E m relação com isso está a
se o romance Rhoda Fleming, tão diferente dos romances pouca habilidade estilística do prosador Meredith, pelo
rústicos de Hardy. Meredith acredita reconhecer a identi- menos nas análises psicológicas; tudo o que diz é compli-
dade de sentimentalismo erótico e egoísmo estreito. "Sen- cado, talvez por relutância de dizê-lo diretamente. O meio
timentalismo quer o prazer sem as consequências": esse flaubertianismo de Meredith evita os desfechos trágicos,
egoísmo é o grande inimigo contra o qual Meredith luta. enquanto fôr possível; evita o chocking. Evita a sátira di-
Seu esforço de desiludir os sentimentalismos românticos reta, ficando no humorismo satírico. Tem mais de Sterne
lembra a Flaubert. Bem flaubertiano é o primeiro grande do que de Swift. O humorismo — definido como "luz
romance de Meredith, e conforme a opinião de muitos o oblíqua", no admirável ensaio The Idea of Comedy and the
melhor: The Ordeal of Richaid Feverel, história de um Uses of the Comic Spirít — é a grande arma de Meredith
moço, estragado por uma educação puritana, apaixonando- contra egoísmo e sentimentalismo. É o espírito da comédia
se sentimentalmente pela primeira jovem que encontra, e como força social. Mas é comédia, ligada aos costumes de
acabando desiludido. "As mulheres são o nosso ordálio." determinada clas.se e época, por isso condenada a envelhe-
Assim se inicia a longa série dos romances-comédias de Me- cer; e os romances de Meredith já envelheceram muito.
redith, passando-se, todos eles, na alta sociedade — "uper
2316 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2347

O humorismo desempenhou papel bastante grande no fantil de Carroll passa hoje por clássico da língua. E aquilo
trabalho de minar o espírito vitoriano. A revista humorís- a que Dodgson só aludiu, disse-o francamente Butler.
tica Punch fêz contribuições notáveis para esse fim. Crí- Samuel Butler ( e a ) é o enfant terrible da literatura vi-
ticos modernos chamaram a atenção para o fato de que toriana. Enquanto a teologia liberal lutava pela liberdade
William Schwenk Gilbert ( 0 1 ), autor de libretos de opere- da exegese bíblica, chegou Butler a ressuscitar uma hipó-
tas burlescas como The Pirates of Penzance e The Gondo- tese de certos free-thinkers do século X V I I I , afirmando
liers para o compositor Sullivan, antecipou boa parte da que Cristo não morreu realmente na cruz, sendo a ressur-
sátira antiaristocrática e antiesnobística de Shaw. "I don't reição um erro ou uma fraude das testemunhas. Enquanto
think much of my profession", diz o pirata de Gilbert "but os pré-rafaelitas se entusiasmavam por Florença e Veneza,
contrasted with respectability it is comparatively honest". afirmou Butler ter descoberto maravilhas da arte numa
O mais engenhoso e o mais encoberto desses humoristas foi província tão pouco visitada como o Piemonte. Os shakes-
"Lewis Carroll" ( 6 2 ), cujas Alice's Adventures in Wonder- peariólogos tinham que indignar-se com a sua hipótese so-
land continuam sendo a delícia de todas as crianças de raça bre o sentido secreto dos sonetos, e os filólogos com as suas
anglo-saxônica. O autor, Charles L. Dodgson, era em eru- teorias sobre a origem da Odisseia. Enfim, Butler ousou o
dito professor de matemática, não gostando de confessar a incrível: atacou o santuário científico dos vitorianos, o
paternidade daqueles divertimentos em literatura infantil. darwinismo, exigindo uma finalidade espiritual da evolu-
Alice in Wonderland fêz uma carreira espantosa e abre ção biológica, uma futura super-raça, livre dos antigos pre-
perpectivas maravilhosas. No seu uso de combinações en- conceitos e capaz de começar uma nova era da humanidade.
graçadas e deliberadamente absurdas de palavras, os "port- No diletantismo científico de Butler existe muita coi-
manteau words", que revelam então sentido inesperadamen- sa séria, como por exemplo a descoberta da arte barroca no
te simbólico, descobre a crítica moderna o processo estilís- Piemonte; diletantes e autodidatas, livres dos preconcei-
tico de Joyce, em Ulysses e Finnegarís Wake; a intenção tos dos profissionais, têm sempre sorte assim. Mas há, em
de zombar da linguagem científica e técnica, talvez fosse Butler, uma grande porção de blague. E, enfim, muita sá-
isso o que o cientista Dodgson gostasse de ocultar. Sua obra tira mordaz contra a mistura vitoriana de progresso racio-
fêz carreira oposta à de Gulliver's Traveis: a grande sáti- nalista-utilitarista e puritanismo suficiente. Não é mero
ra de Swift transformou-se em livro infantil, e o livro in-
63) Samuel Butler, 1835 — 1902.
Erewhon (1872); Erewhon Revisited (1901); The Way of AU Flesh
61) William Schwenk Gilbert, 1836-1911. (1903); Notebooks (1912), etc. etc.
The Pirates of Penzance (1880); The Mikaão (1885); The Gondo- Edição por H. F. Jones e A. T. Bartholomew, 20 vols., London,
liers (1889), etc. 1923/1926.
H. Pearson: Gilbert and Sullivan. New York, 1935. G. Cannan: Samuel Butler, a Criticai Study. London, 1915.
C. E. M. Joad: Samuel Butler. London, 1924.
62) Lewis Carroll (pseudónimo de Charles Lutwidge Dodgson), 1832 — P. Meissner: Samuel Butler der Juengere. Eine Studie zur Kultur
1898. des ausgehenden Viktorianismus. Leipzig, 1931.
Alice's Adventures in Wonderland (1865); Through the Looking- C. G. Stilman: Samuel Butler, a Mid-Victorian Modern. London,
Glass (1871). 1932.
Edição por A. Woollcott, New York, 1936. J. B. Fort: Samuel Butler, étude d'un caractere et d'une intelli-
S. D. Collingswood: The Life and Letters of Lewis Carroll. gence. 2 vols. Bordeaux, 1934.
New York, 1899. P. N. Furbank: Samuel Butler, 1835-1902. Cambridge, 1949.
H. M. Ayres: Carroll's Alice. New York, 1936. Ph. Henderson: Samuel Butler. London, 1953.
2348 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2349

acato a identidade de nomes entre Samuel Butler, o autor antiteológica, que o coloca ao lado de tantos teólogos male-
de Erewhon, e Samuel Butler, o autor de Hudibras. "Erew- dicentes, como Erasmo, Rabelais, Swift, Sterne e o abbé
hon" é o anagrama de "Nowhere"; mas não daquele "Now- Jérôme Coignard, de Anatole France.
h e r e " do qual o socialista Morris trouxe notícias de Utopia. Butler exerceu influência considerável no século XX.
O "Nowhere" de Butler é a Inglaterra vitoriana caricatu- Bernard Shaw descobriu o esquecido, explorando-lhe lar-
rada: tudo o que existe na Inglaterra da Rainha Vitória gamente os paradoxos provocadores; Wells tomou-lhe em-
é exagerado e levado a extremas consequências, absurdas: prestados vários humorismos e propostas utópicas; Arnold
como o culto da máquina. Mas nem tudo é absurdo em Bennett ficou impressionado com o quadro cinzento da
E r e w h o n ; algumas coisas que lá existem antecipam o so- vida familiar inglesa; Gide fortaleceu na leitura de Butler
cialismo de Shaw e o imoralismo de Nietzsche. a sua aversão de adolescente permanente contra as leis mo-
N o fim de sua longa vida de estudioso e criador de rais da família; D. H. Lawrence continuou com radicalis-
ovelhas na Nova Zelândia, Butler voltou a fazer uma visi- mo maior na linha do sexualismo espiritualizado. Só hoje
ta em Erewhon. Mas Erewhon Revisited apresentou-se di- tendo desaparecido na própria Inglaterra os últimos ves-
ferente, corrompido por uma religião falsa, que é uma ca- tígios do puritanismo, The Way of AU Flesh começa a en-
ricatura maliciosa do cristianismo. Butler, teólogo aposta- velhecer sensivelmente: revelado como documento pessoal
siado, fora discípulo de Voltaire; na velhice, a sátira anti- e como "period piece". Agora já se pode melhor situar,
cristã tornou-se ódio de um misantropo isolado, de um pes- historicamente, o livro: pertence às primeiras décadas do
simista exilado da sociedade como Swift. Butler é o mais século XX, embora escrito no século XIX. Butler, o lu-
radical dos antivitorianos. Tentou destruir o vitorianismo tador destemido, tinha tido a coragem de atacar aberta-
pelo menos em si mesmo; mas com sucesso duvidoso. A mente a mais fundamental das instituições puritanas. The
emigração para a Nova Zelândia não dera o resultado de Way of AU Flesh só foi publicado como obra póstuma, no
livrar-se do vitorianismo. Butler estava perseguido pelo começo do século XX, colocando-se, deste modo, fora do
fantasma do puritanismo e, enfim, resolveu eliminá-lo no seu tempo e dando a impressão de que Butler tivesse sido
seu berço, na família inglesa. The Way of AU Flesh repre- um fenómeno isolado na sua época. Admitindo-se a singu-
senta essa tentativa de destruição: emprego do instrumen- laridade da sua figura, contudo, não é tanto assim. Há con-
to novelístico de Thackeray para a apuração antimoralista temporâneos autênticos de Butler — Melville, Multatuli,
de um ambiente que Butler conheceu tão bem que o roman- de Coster; e todos eles, mesmo fora da Inglaterra, pagaram
ce tomou feição autobiográfica, enchendo-se de vida e vi- mais caro do que êle a independência do espírito.
gor inéditos. The Way of AH Flesh seria só um grande O mais curioso entre esses "contemporâneos" de Bu-
documento psicológico, de um Stendhal inglês e amargu- tler é o americano Melville (° 4 ). Tinha escrito alguns bons
rado, se não o tivesse inspirado a fé idealista que Butler
depositara nos seus inesgotáveis Notebooks: fé num fim
(14) Herman Melville, 1819 — 1391.
ideal da evolução biológica, espécie de lamarckismo espi- Typee (1846); Omoo (1847); Redburn (1849); Mardi (1849);
ritualista; mística sem Deus. Butler não conseguira liber- White Jacket (1850); Móby Dick (1851); Pierre (1852); Piazsa
Tales (1856); The Confidence-Man (1857); Bílly Budd (publ.
tar-se de todo da teologia. Ficou teólogo até na sua sátira 1924).
Edição: Standard Edition, 16 vols., London, 1922/1924.
2350 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2351

romances da vida marítima, Redburn, White facket, para Melville não é apenas um "caso". De cada um dos seus mo-
cair depois em esquecimento completo, sobrevivendo quase tivos de revolta contra o calvinismo nôvo-inglês encontra-
40 anos à sua atividade literária; a pausa corresponde à se um paralelo em Butler; e asism como o antipuritano
grande distância, na obra de Butler, entre Erewhon e Erew- Butler era o antipuritano Melville: um erudito-diletante.
hon Revisited. Por volta de 1920, quando Butler já estava Numerosas alusões nos seus romances demonstram a sua
glorioso, também redescobriram Melville. Conservaram-se- curiosidade e vastos conhecimentos filosóficos e literários,
lhe sempre fiéis alguns leitores românticos, gostando da sobretudo da literatura elisabetana e da romântica. Mel
sua obra como documento do tempo em que os veleiros ville é — o que Butler não era — artista. Prova disso é a
americanos navegavam pelo Pacífico, antes de a guerra veemência lírica do seu estilo, absolutamente pessoal, estilo
civil acabar com a marinha mercante dos Estados Unidos. capaz de maravilhas extraordinárias da arte de narrar, como
Agora descobriu-se nesse romântico "atrasado" um grande na novela "Benito Cereno", nos Piazza Tales. Parece um
poeta épico e nas aventuras do capitão Ahab contra a baleia thriller de elaboração artística. Mas a ambição dessa arte
Moby Dick a epopeia do espírito de aventura americano.
era muito grande. Melville pensava, por um momento, ser
Mas a descoberta ia mais longe. Não foi voluntariamente
o Shakespeare do romance americano, um Shakespeare ro-
que Melville interrompera as atividades literárias. A sua
mântico visto através de Poe, parecendo-se com John Ford,
vida foi quebrada pelo escândalo provocado pelo seu roman-
o dramaturgo do incesto, e com J o h n Webster, o dramatur-
ce Pierre, confissão de um amor incestuoso. Agora estava
go da decomposição moral. Com as peças jacobéias pare-
aberto o caminho da interpretação psicanalítica. Moby
ce-se Moby Dick, obra antivitoriana porque a vitória cabe,
Dick seria o monstro, surgindo do subconsciente de um
no desfecho, ao espírito do mal. O romantismo de Melville,
puritano, revoltado contra o ambiente que Hawthorne des-
alimentado por motivos subconscientes, por assim dizer
crevera. Melville seria um caso de "pessimismo por frus-
tração", uma grande curiosidade. "impuros", não é, porém, autêntico, assim como o seu pes-
simismo só é reação contra o rousseauanismo inicial dos
Com isso estão bem definidos os motivos psicológicos idílios no Pacífico, Typee e Omoo. Melville é um escritor
da arte de Melville; mas só os motivos e não os resultados. forçado. Suas intenções são das mais sérias. Suas ambições
são grandiosas, serão desmesuradas. Também foi desmesu-
rado seu sucesso póstumo, devido, em parte considerável,
R. Weaver: Herman Melville, Mariner and Mystic. New York. ao interesse psicológico do seu "caso" e ao desejo dos nor-
1921.
J. Freeman: Herman Melville. New York, 1026. te-americanos de possuir um grande poeta épico. Quase
L. Mumford: Herman Melville. New York, 1929. sempre em Melville, a realização fica atrás da intenção;
W. Thorp: Herman Melville. New York, 1938.
C. R. Anderson: Melville in the South Seas. New York, 1939. menos, talvez, nas novelas curtas e em "Belly Bridd" basea-
J. Simon: Herman Melville, marin, métaphysicien et poete. Pa- do em experiência trágica. Melville não se realiza comple-
ris, 1939.
W. E. Sedgwick: Herman Melville. The Tragedy of Mina. Cam- tamente quando não se baseia em experiência vividas. "Sub-
bridge Mass., 1945. consciente" disso, procurava apoiar-se numa documentação
R. Shase: Herman Melville, a Criticai Study. New York, 1949.
N. Arrin: Herman Malville. New York, 1950. quase de naturalista; Moby Dick é um manual da pesca das
L. Thompson: Melville's Quarrel with God. Princeton, 1952. baleias. Isso aproxima-o de Zola e, mais, de Multatuli.
L. Howard: Herman Melville. Berkeley, 1952.
O. M. Netcalf: Herman Melville. Cambridge, Mass., 1954. Como este, era um romântico ao qual as circunstâncias ex-
2352 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2353

teriores e interiores impuseram o realismo. Dessa contra- dizer "sofri muito", é o pseudónimo que Eduard Douwes
dição nasceu, nos dois casos, uma atitude semelhante à de Dekker adotou por motivos justificados.
B u t l e r : a atitude satírica. Em Butler e Multatuli, a sátira Romantismo ou ambição, ou antes ambição romântica
é de natureza social. Em Melville, ao qual devemos um ro- levou-o para as índias Holandesas onde esperava encontrar
mance satírico contra o charlatanismo na vida americana, um idílio rousseauano; e encontrou a exploração implacá-
The Confidence-Man, também existem motivos sociais da vel dos servos javaneses pela aliança vergonhosa do gover-
arte, expressão da transição da vida americana para a ra- no colonial com os régulos indígenas. O conflito de Dek-
cionalização capitalista; daí a nostalgia do "tempo dos ve- ker, quando "residente", isto é, governador do distrito de
leiros". Mas êle era artista. Os motivos sociais perderam- Lebak, com os seus superiores foi violento; levou à sua
se, como em Swift, numa grande visão — dir-se-ia, visão de destituição, à volta forçada para Europa; e desse choque
místico — da existência humana: de Typee, idílio entre entre romantismo e realidade nasceu o maior romance da
antropófagos — até Moby Dick, epopeia dos esforços inú- literatura holandesa, Max Havelaar. A forma, indireta, é
teis da humanidade contra as forças da Natureza talvez paródia de muitos romances históricos do romantismo,
a primeira obra de literatura universal em que no centro apresentados como transcrições de manuscritos antigos.
dos acontecimentos não está colocado o homem, mas a rea- Batavus Droogstoppel, comerciante no ramo de café em
lidade objetiva das forças extra-humanas do mar, do Des- Amsterdã, encarnação do espírito mercantil e hipócrita dos
tino como peso material. Contra esse inimigo só vale a * holandeses, encontra por acaso o manuscrito em que Max
atitude cervantina. Assim, em "Benito Cereno", a atitude Havelaar, residente demitido de um distrito nas índias Ho-
do capitão, parecendo louco mas agindo assim porque age landesas, conta a história das suas experiências na colónia.
como prisioneiro de piratas, é um símbolo da escravização Droogstoppel está curioso de saber pormenores sobre pro-
do homem pelo destino: expressão simbólica do dogma pu- dução e comércio do café; e encontra, em vez dessas infor-
ritano da predestinação, e alusão ao "way of ali flesh". mações, uma acusação violenta contra a sua estirpe e con-
Casos ideologicamente parecidos são os de dois escri- tra si mesmo. Max Havelaar é, antes do que um romance,
tores dos Países-Baixos, menos conhecidos, de modo que uma coleção de documentos, interrompidos por episódios
até agora, não se tentou a aproximação: Multatuli, na Ho- inventados, dos quais o mais famoso, a história de Saidjah e
landa, e Charles de Coster, na Bélgica. Multatuli ( 6 5 ), quer Adinda, reúne os elementos principais da arte de Dekker.
Em primeira linha, o romantismo: amor rousseauano da na-
65) Multatuli (pseudónimo de Eduardo Douwès Dekker), 1820 — 1887. tureza tropical, sentimentalismo rousseauano também na
Max Havelaar of de Koffiveilingen der Nederlandsche Handel- apresentação dos amantes, separados pela brutalidade dos
STnaatschappij (1860); Minnebrieven (1861); Ideen (1862/1877);
Millioenenstudien (1870); Vorstenschool (1872). " governantes e exploradores, e um humorismo alusivo à ma-
Edições por M. Schepel-Dekker, 2.a ed„ 10 vols., Amsterdam, 1891/ neira de Dickens na caracterização maliciosa da hipocrisia
1892, e por G. Stuiveling e F. C. A. Batten, Amsterdam, 1950 sgg.
S. Lublinski: Multatuli. Berlin, 1899. holandesa, que se aproveita do suor dos servos, sufoca em
J. Prinsen: Multatuli en de romantiek. Amsterdam, 1909. sangue as suas rebeliões, e dá graças a Deus "que lutou mais
J. Van den Bergh Van Evsinga: Multatuli. Amsterdam, 1920.
J. De Gruyter: Het leven en de werken van Eduard Douwes Dekker. uma vez ao lado dos exércitos cristãos". Eis já o segundo
2. vols. Amsterdam, 1920/1921. elemento, a eloquência de um grande propagandista das
E. Du Perron: De man van Lebak. Amsterdam, 1937.
A. J. de Maré: Multatuli-literatuur. Amsterdam, 1948. ideias humanitárias, eloquência de fervor oriental, como
2854 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2355

convinha ao assunto; Multatuli foi um dos maiores orado- Multatuli é um radical dos anos de 1860, numa época
res-pensadores-estilistas do século X I X e o renovador da de radicalismos agitados e na qual o radicalismo obteve
prosa holandesa. Ao assunto também convém o terceiro ele- muitos triunfos. As ideias radicais de Multatuli também
mento, oposto aos dois outros: os episódios, como a histó- triunfaram, num setor limitado: na administração das co-
ria comovente e revoltante de Saidjah e Adinda e tantos lónias. Mas êle mesmo não foi reconhecido, tampouco como
outros, baseiam-se em documentação minuciosa, apresen- foram reconhecidos Butler e Melville. E n t r e eles e o ra-
tada pela transcrição de atos e processos oficiais do gover- dicalismo está o romantismo inato que não conseguiram
no colonial; toda a história de Max Havelaar é, afinal, uma afastar das suas almas, e que os desviou da sátira social
autobiografia, melhor documentada do que um romance de para o exotismo e o erotismo. Somente na vizinhança des-
Zola. A esse método naturalista ligam-se o êxito imediato ses radicais sui generis se compreende a figura singular de
e a importância histórica da obra: é o primeiro romance Charles de Coster (m)} tão isolado que o seu nome mal
colonial em que as tendências sociais importam mais do aparece nas histórias da literatura francesa, e que até nas
que os encantos do exotismo. Foi mais a documentação histórias da literatura belga de expressão francesa só lhe
irrefutável do que a tendência que sacudiu as consciências cabe um lugar de precursor. Mas a glória dos decadentistas
na Holanda; o resultado foi uma reforma completa da ad- belgas — Maeterlinck, Rodenbach — já empalideceu, e Ver-
ministração colonial, ao passo que o "culpado" dessa re- haeren, grande poeta, não voltará à atualidade sem ter pas-
forma, Dekker, se transformou em Multatuli, atacado por sado por discussões difíceis. Charles de Coster, porém, é o
todos como caluniador e inimigo da pátria, caçado de lu- maior e o mais original escritor da literatura franco-belga,
gar para lugar, vivendo em miséria perpétua e terminando que, depois, de uma interrupção de séculos, com êle res-
a vida no exílio. suscitou. Contudo, não era de origem francesa; era fla-
mengo, e a essência germânica da sua obra impediu até
E i s a segunda fase na vida e obra de Multatuli: a sua hoje o pleno reconhecimento do seu valor pela crítica fran-
revolta integral contra todas as convenções sociais, o aban- cesa, ao passo que a língua que adotou, o exclui da litera-
dono da mulher e o "casamento livre" com outra, os ata- tura flamengo-holandesa. Charles de Coster é o pendant
ques furiosos, nas Minnebrieven e Ideèn, contra toda auto-
ridade política e social e contra o cristianismo, a defesa do
amor livre e do anarquismo; e todo esse furor romântico de 66) Charles de Coster, 1827 — 1879.
um liberal indignado exprime-se em Ideias, isto é, coleções Contes brabançons (1861); Legendes flamandes (1867); La Legende
de contos, parábolas, aforismos, crónicas jornalísticas so- de les aventures héroiques, joyeuses et glorieuses d' Ulenspiegel et
de Lamme Goedzak (1868).
bre atualidade do dia, interpretadas como a documentação Edição do Ulenspiegel: Editions sociales intematlonales, Paris,
de um naturalista-idealista. "Sou um Dom Quixote ou um 1937.
C. Lemonnier: La vie belge. Paris, 1905.
santo?", perguntou o próprio Dekker. Foi Dom Quixote do L. Monteyne: Charles de Coster, de mensch en de kunstenaar.
Antwerpen, 1917.
romantismo e santo do radicalismo naturalista. Sua in- H. Liebrecht: La vie et le rêve de Charles de Coster. Bruxelles,
fluência moral, como germe subversivo de um idealismo 1927.
J. Hanse: Charles de Coster. Leeuwoen, 1928.
revolucionário, ainda não acabou na Holanda de hoje, meio G. Charlier: Charles de Coster. Bruxelles, 1942.
puritana, meio socialista. M. Van de Voorde: Charles de Costefs Ulenspiegel. 3.a ed. Kortrijk,
1948.
2:$56 OTTO MABIA CARPEAUx HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2357

d e C o n s c i e n c e : este, f r a n c ê s d e o r i g e m , e s c o l h e u a l í n g u a turalista, no sentido de Zola, ao passo que se trata de ex-


f l a m e n g a p a r a se t o r n a r p a s s a d i s t a r o m â n t i c o ; C o s t e r p a s - pressões de um naturalismo diferente, de um naturismo de-
sou-se para o lado francês, fugindo d o romantismo nacio- senfreado, seja de rebelião sexual, seja de política anar-
n a l , d o qual o s s e u s Contes brabançons e Legendes flaman- quista. Considerava-se como naturalista o norueguês Hans
des ainda dão testemunho. Coster tornou-se escritor fran- Jaeger ( C7 ), porque em toda literatura moderna não existe
cês para revoltar-se contra as convenções literárias, român- expressão mais franca do amor livre do que nos seus ro-
ticas, e as convicções político-religiosas, católicas, da sua mances, literariamente fracos, Fra Kristiania-bohême (Boé-
gente. Imitando com habilidade extraordinária a língua mia de Oslo) e Syk kjaerlighed. (Mocidade Doente). O
arcaica de Rabelais, adotou ao mesmo tempo algo do espí- próprio Jaeger acreditava ser socialista; militava no par-
rito rabelaisiano, da abundância erótica e culinária da Fran- tido social-democrático norueguês. Só quando, depois do
ça pré-clássica, para evocar a Flandres "pré-católica": o escândalo, provocado pelos seus romances, já meio esque-
herói do Ulenspiegel, personificação lendária do espírito cido, confessou-se anarquista. De valor heurístico é, aliás,
popular belga, é no romance de Coster o herói das guer- a palavra "boémia" no título do primeiro romance: a pró-
ras contra a opressão espanhola, com marcada tendência pria ideia do amor livre tem a origem na boémia romântica,
anticlerical. É discutível se a reconstrução da época é tão assim como o propósito de reabilitar a prostituição, como
fiel como a da língua, que tampouco se passa de anacronis- protesto contra as convenções sexuais da burguesia. Talvez
mos. Ulenspiegel talvez traduzisse menos o espírito fla- uma das últimas expressões dessa ideia seja a Magdalena,
mengo do século X V I — o tempo já não era o de W a l t e r do tcheco Machar ( o s ), novela em versos, em estilo român-
Scott — do que o espírito belga permanente através de tico; Machar, poeta satírico à maneira de Heine, adotou a
todos os séculos, "le coeur de la mère Flandre", ainda vivo, distinção de Heine e Arnold entre espírito helénico e es-
e sempre vivo no ambiente arcaico e pitoresco das cidades pírito hebraico para justificar a sua atitude rebelde, êle, an-
belgas, cujos palácios municipais estão em pé como ou- ticlerical como Charles de Coster, socialista e nacionalista
trora e cujas ruas ainda ressoam do barulho das mesmas tcheco ao mesmo tempo; acabou como versificador patrió-
paixões políticas. "Ulenspiegel est notre Bible nationale", tico, poeta oficial da República Tcheco-Eslovaca.
dizia Lemonnier; e isso se refere igualmente à forma do O afrouxamento das convenções sexuais é um dos obje-
livro, série de quadros nem sempre coerentes, mas sempre tivos mais importantes dos radicais, para minar a burgue-
vivos, pitorescos, emocionantes, como quadros de Brueghel sia; e tem as raízes no espírito antiburguês da boémia ro-
ou Metsys — "tous les belges sont des peintres-nés". Char- mântica, da Lucinde, de Friedrich Schlegel até às Fleurs
les de Coster foi pintor nato e anarquista nato, e assim,
com independência admirável do espírito, morreu na mi-
séria. 67) Hans Jaeger, 1854 — 1910.
Fra Kristiania-bohême (1885); Syk kjaerlighed (1893); Anarkis-
mens Bibel (1907).
Essa aliança entre romantismo e radicalismo, erotis- J. ipsen: Hans Jaeger. Oslo, 1926.
mo e anarquismo, continuou em plena época naturalista; 68) Jan Svatopluk Machar, 1864-1942.
porque se trata antes de um estado de espírito do que de Tristium Vindobona (1893); Magdalena (1894); Con/iteor (1900/
1902); Sob os raios, do sol grego (1907); O veneno de Judeia
uma ideologia ou de um estilo; e nada é mais fácil do que (1907); Prisão (1918).
confundir os produtos desses espíritos com a literatura na- J. Martinek: Jan Svatopluk Machar. Praha, 1912.

*
H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 2359
2358 OTTO MARIA CARPEAUX

du Mal, d e B a u d e l a i r e — a d i f e r e n ç a d o s v a l o r e s l i t e r á r i o s l i b e r d a d e e r ó t i c a d o s f i l h o s c o n t r a as c o n v e n ç õ e s r i g o r o -
não importa na análise da evolução histórica. A porta d e sas d a f a m í l i a francesa, d a s q u a i s a " p r o s t i t u t a v i t u o s a " s e
entrada das ideias boémias para a literatura burguesa é u m t o r n a a vítima. H á nisso muito de George Sand e da "jeu-
género de valor literário r e d u z i d o : o teatro burguês de nesse d o r é e " ; e mais da boémia de Musset do que da de
P a r i s do S e g u n d o I m p é r i o . A i n d a s e r á p r e c i s o a p r e c i a r M u r g e r . A s s i m c o m o S c r i b e r e d u z i r a os a c o n t e c i m e n t o s
d e v i d a m e n t e o p a p e l h i s t ó r i c o d a peça, c u j a r e p r e s e n t a ç ã o históricos, "explicando-os" como complicações de natureza
só p a r e c e o p o r t u n i d a d e p a r a a r r a n j a r u m p a p e l b r i l h a n t e pessoal, assim D u m a s Filho, discípulo de Scribe com res- (
a atrizes v a i d o s a s : L a dame aux camélias, de Dumas F i l h o . p e i t o à t é c n i c a d r a m a t ú r g i c a , r e d u z i u os p r o b l e m a s sociais
A árvore genealógica da "pecatriz p e n i t e n t e " e justificada a conflitos entre gerações, conflitos de natureza erótica
pelos sofrimentos é m u i t o a n t i g a : o historiador dessa ideia ou financeira, enfim conflitos menos da sociedade do que I
l e m b r a r - s e - á , a l é m d a s M a d a l e n a s do t e a t r o r e l i g i o s o espa- da "sociedade" parisiense à qual pertenceu e que o público
nhol, da Francesca da Rimini de D a n t e ; e parece m e s m o p a r i s i e n s e e do m u n d o i n t e i r o a d m i r a v a com e s n o b i s m o in-
que outra Francesca da Rimini representa o "missing-link" g é n u o . A p a l a v r a " s o c i a l " , em D u m a s F i l h o , t e m o s e n t i d o
entre L uc inde e M a r g u e r i t e G a u t h i e r : a heroína da t r a g é - desse t e r m o nas "notícias sociais" dos jornais. S e m p r e o
d i a Francesca da Rimini, do r o m â n t i c o i t a l i a n o S i l v i o P e l - d r a m a t u r g o se e s f o r ç o u p a r a d a r c e r t o r e l e v o " s o c i o l ó g i c o "
l i c o ( 6fl ) ; d e m o d o q u e o p a t r i o t a s o f r e d o r d a s Mie prigioni à s s u a s p e ç a s : s o b r e t u d o os p r e f á c i o s f a l a m em t o m g r a v e
e cristão resignado da prisão de Spielberg seria o p r e c u r s o r de perigos que ameaçam a família francesa, das forças que
de D u m a s F i l h o e até de Ibsen, criador das N o r a e R e b e k k a e s t ã o c o r r o m p e n d o a m o r a l d a n a ç ã o — m a s as p r ó p r i a s
W e s t . A evolução realizou-se no palco de Paris, d e n t r o d o peças, c o m p o s t a s d e causeries espirituosas e efeitos céni-
género "drama burguês", que deveu a Scribe a técnica ha- cos r e u m b a n t e s , d e s m e n t e m a s e r i e d a d e d a q u e l a s p r e o c u p a -
b i l í s s i m a e a A u g i e r ( 7 0 ) a thèse b u r g u e s a e a n t i - r o m â n t i c a . ções m o r a l i s t a s e s o c i o l ó g i c a s , m e r o s r e c u r s o s p a r a o c u l t a r
La dame aux camélias d e D u m a s F i l h o ( 7 1 ) , f i l h o d o f a m o s o a frivolidade vazia dos "problemas" e das "soluções". Da-
romântico, é a antítese das ideias de A u g i e r : este a d v e r t i u mas F i l h o é u m continuador de S c r i b e ; e o t e a t r o parisien-
os p a i s c o n t r a a s p e r i g o s a s a v e n t u r a s e r ó t i c a s d o s f i l h o s , se s e g u i u - l h e os c a m i n h o s , a c a b a n d o n a h a b i l i d a d e frívola
corrompendo a família francesa; Dumas Filho defendeu a e divertida de Sardou ( 7 2 ) . Na evolução das ideias literá-
rias n a F r a n ç a , esse t e a t r o d e i x o u d e s e r u m f a t o r d e c i s i v o ,
de m o d o q u e d e s d e e n t ã o a r e n o v a ç ã o do t e a t r o f r a n c ê s
dependia do r o m p i m e n t o completo com a tradição scribia-
69) Cf. "Romantismos de oposição", nota 74-A. n a ; r o m p i m e n t o q u e foi r e a l i z a d o p o r B e c q u e e p e l o " T r é â -
70) Cf. "O advento da burguesia", nota 8. tre L i b r e " de Antoine. Mas, fora da França, a técnica dra-
71) Alexandre Dumas fils, 1824-1895.
La dame aux camélias (1852); Demi-monâe (1855); La question
ã'argent (1857); Le fils naiurel (1858); L'ami des femmes (1864);
La jemme de Claude (1873); Francillon (1887).
P . Lamy: Le théâtre d'Alexandre Dumas fils. Paris, 1929. 72) Victorien Sardou, 1831 — 1908.
O. Gheorghiu: Le théâtre de Dumas fils et la société contempo- Nos intimes (1861); La famille Benoiton (1865); Nos bons villa-
raine. Paris, 1931. geois (1866); Divorçons (1880); La Tosca (1887); Thermidor
T . Linge: La conception de 1'amour dans le drame de Dumas (1891); Madame Sans,-Gêne (1893) etc.
fils et d'Ibsen. Paris, 1935.
D. S. Braun: The Cortisane in the French Theatre form Hugo H. Rebell: Victorien Sardou. Paris, 1903.
to Becque. Baltimore, 1947. J. A. Hart: Sardou anã the Sardou Plays. London, 1913.
2360 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2361

matúrgica de Scribe, Augier e Dumas Filho podia servir das criadas; e em Manette Salomon, o dos artistas. O re-
para acabar com as inatualidades românticas e chamar a sultado foi desolador: aquela corrução moral que os bur-
atenção do público inadvertido para os problemas da reali- gueses denunciaram na boémia, é comum a todas as classes,
dade social, apresentados no palco; eis a intervenção da de modo que a "questão da boémia" se transforma em ques-
"técnica francesa" na carreira dramatúrgica de Bjoernson tão social, no sentido mais amplo da palavra. Também no
e Ibsen ( 7 3 ). sentido sociológico: porque, sendo aquela corrução inde-
O problema da boémia não podia, por enquanto, ser de- pendente dos níveis da educação e de credos de qualquer
batido com seriedade em teatros que dependiam do público espécie, tampouco depende dos indivíduos, que são meros
burguês. A discussão continuou no romance, ao qual Flau- bonecos das convenções e instintos; a corrução é fruto de
bert tinha conquistado a liberdade de apresentar a corrução todos os ambientes sociais, diferindo só pelos pretextos mo-
documentada; sobretudo naquela parte da produção nove- rais e pelas expressões linguísticas. Daí resultaram as obri-
lística que permaneceu à margem do grande mercado pa- gações do romancista: basear suas obras numa experiência
risiense de livros; romances escritos por artistas profis- fidedigna, documentada; e apresentar essa documentação
sionais para os letrados profissionais. É assim a "novelist's sociológica na linguagem do ambiente descrito e com os
novel" dos irmãos Edmond e Jules de Goncourt ( 7 4 ), des- pormenores característicos do respectivo meio social. T u d o
cobrindo ambientes e corruções desconhecidas e descobrin- isso já estava desenvolvido ou em germe, em Flaubert;
do a mesma corrução no ambiente burguês bem conhecido. mas este só aplicara o processo a questões de ordem pes-
Desta maneira revelou-se, em Charles Demailly, o ambiente soal. "Madame Bovary, c'est moi", dizia Flaubert; mas ma-
dos "hommes de lettres" profissionais; em Soeur Philomè- dame Bovary, como tipo, e o "bovarysmo", como doença so-
ne, o mundo dos hospitais; em Renée Mauperín, a vida das cial, são criações da crítica literária que tinha passado pelas
moças de alta sociedade; em Germinie Lacerteux, o mundo lições de Taine e Zola. Os irmãos Goncourt parecem in-
termediários nessa evolução: depois do realista Flaubert,
73) J. Marsan: Théâtre d'hier et théãtre d'aujourd'hui. Paris, 1926. são eles os primeiros naturalistas.
74) Edmond de Goncourt, 1822 — 1896, e Jules de Goncourt, 1830-1870. Essa opinião sobre os irmãos Goncourt, como meros
Charles Demailly (1860); Soeur Philomène (1861); Renée Mau-
perín (1864); Germinie Lacerteux (1865); Manette Salomon precursores, está hoje tão firmemente enraizada que nin-
(1867); Madame Gervaisais (1869); La filie Elisa (de Edmond de guém, quase, já lhes lê os romances. É uma das mais gra-
Goncourt) (1877); Les frères Zemganno (de Edmond de Gon-
court) (1879); — Uart au XVTIIe siècle (1859); La jemme au ves injustiças literárias: não são, decerto, obras-primas
XVJIe siècle (1862; Journal, 22 vols., Paris, 1897/1859.
Edição da Academia Goncourt, 27 vols., Paris, 1926/1935. permanentes, mas são romances de grande valor e do mais
A. Delzant: Les Goncourt. Paris, 1889. alto interesse. A crítica moderna já tem dito isso. Mas o
G. Loesch: Die impressionistische Syntax der Goncourts. Nurem- sucesso do trabalho de reabilitação é duvidoso. Continuam
berg, 1919.
P. Sabatier: Uesthétique des Goncourt. Paris, 1920. mais lidos os brilhantes estudos dos irmãos Goncuort sobre
E. Seillière: Les Goncourt moralistes. Paris, 1927. a arte e a sociedade do Rococó, mas a maior glória literá-
M. Immergluck: La guestion sociale dans 1'oeuvre des Goncourt.
Paris, 1931. ria dos Goncourts é seu o Journal, vasta crónica social,
P. Sabattier: Germinei Lacerteux des Goncourt. Paris. 1848. literária e artística do Segundo Império, um dos grandes
R. Ricatte: La création romanesque chez les Goncourt. Paris,
1953. documentos da história da civilização francesa. A leitura
A. Billy: Les frères Goncourt. Lè vie littéraire à Paris pendant do Journal não revela, nos autores, interesses de sociologia
la seconde moité áu XIXe, siècle, Paris, 1954.
2362 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2363

científica; antes são contemporâneos do Parnasse, estetas Taine ( 7B ) já é menos lido hoje em dia; daí a necessida-
requintados, preocupadíssimos com sutilezas estilísticas e de de repetir a afirmação de que é um escritor muito gran-
sintáticas. O moralismo dos Goncourts não é o moralismo de. A crítica censurou àsperamnte o seu estilo retórico,
político de Taine, nem o moralismo social de Zola, nem se- cheio de metáforas intencionalmente realizadas; e quase se
quer o moralismo romântico e anti-romântico de Flaubert; esqueceu o poder de evocação nas caracterizações da pintu-
antes o moralismo sentimental do século X V I I I , em que os ra veneziana e holandesa, na explicação de Racine pelo am-
Goncourts estavam em casa. Continuam a tradição novelís- biente do "grand siècle", na comparação das Ifigênias de
tica do Abbé Prévost, de Choderlos Laclos, de Restif de la Racine e Goethe. Talvez ainda maior do que essa "beleza
Bretonne. Daí a sua "estética do feio", apresentando os de trechos seletos" seja, em Taine, a força construtiva: as
vícios e as perversões, com todas as nuanças, num estilo obras historiagráficas de Renan são coleções de quadros
complicado, altamente impressionista. O moralismo dos encantadores, acompanhados de reflexões espirituosas; Tai-
Goncourts é o de estetas que sentem a sua existência amea- ne escreveu a epopeia da literatura inglesa, a epopeia da
çada pela decadência da sociedade; assim como os seus monarquia e da revolução francesas, e foi justamente esse
precursores do tempo do Rococó, esperam e temem uma ca- poder de composição que prejudicou o pensador: porque
tástrofe moral. O seu "rococoísmo" é o equivalente do "re- Taine exigiu que as suas obras fossem aceitas como resul-
nascentismo" alemão nas suas últimas fases; ao mundo pa- tados rigorosamente científicos; e isso já não é possível ad-
risiense de antes de 1870 apresentam um modelo de civili- mitir. A Histoire de la Httérature anglaise é importante
zação autêntica, complemento do seu naturalismo nove- para o conhecimento de T a i n e ; como obra científica, res-
lístico. sente-se de lacunas inexplicáveis de informação, além da
deformação violenta de certos fatos e personagens para jus-
O romance dos Goncourts não teria, talvez, dado como
tificar um esquema preconcebido. Acontece o mesmo com a
último resultado o naturalismo de Zola, se não sobreviesse
a sua preocupação; em 1870, a sociedade decadente do Se-
gundo Império se desmoronou. O pessimismo que já prece-
75) Hippolyte Taine, 1828-1893.
dera à "année terrible" revelou-se como previsão "super- Essai sur les jables de La Fontaine (1853, 1861); Voyage aux eaux
estrutural". Uma geração morreu em 1870 — Sainte-Beuve, âes Pyrénées (1855, 185fl); Essai sur Tite-Live (1850); Essais de
critique et d'nistoire (1858); Histoire de la Httérature anglaise
Mérimée, Jules de Goncourt. Os sobreviventes desespera- (1864/1869); Nouveaux essais de critique et d'histoire (1865);
Voyage en Italie (1866); Vie et opinions de Tomas Graindorge
ram — Renan aconselhou não perturbar a agonia da Fran- (1868); De VIntelligence (1870); Les origines de la France con-
ça. Três soluções eram possíveis e foram encaradas: a temporaine I: UAncien Regime (1875J; Les origines etc. II: La
Révolution (1877/1884); Philosophie de 1'Art (18B2); Les origines
reação política, preconizada por Renan na Reforme intel- etc. III: Le regime moderne (1890/1894).
lectuelle et morale; o abandono de todas as ilusões, voltan- V. Giraud: Essai sur Taine, son oeuvre et s»n influence. Paris,
1901.
do-se para os fatos positivos, solução de Comte; e o radi- J. Zeitler: Die Kunsthilosophie von Hippolyte Taine. Leipzig,
1901.
calismo revolucionário — na política o da Commune, na
P . Lacombe: Taine historien et sociologue. Paris, 1909.
literatura o de Rimbaud. Todas as três correntes encon- V. Giraud: Hippolyte Taine. Paris, 1928.
A. Chevrillon: Taine. Formation de sa pensée. Paris, 1932.
tram-se em Taine, que é a figura central da literatura fran- M. Leroy: Taine. -Paris, 1933.
cesa da segunda metade do século XIX. K. de Schaepdryver: Hippolyte Taine, essai sur Vunitè de sa pen-
sée. Paris, 1938.
2364 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2365

história da Revolução, cuja documentação parece abundan- deu um passo mais adiante: substituiu o determinismo eco-
te, mas foi cuidadosamente escolhida para chegar a deter- nómico, que era a fé não confessada do seu tempo, pelo de-
minadas conclusões políticas; depois dos estudos de Au- terminismo mesológico, que será, como naturalismo, a fé
lard e Mathiez, a obra ainda pode ser lida, mas já não con- dos últimos decénios do século X I X .
sultada. Unamuno não estava longe da verdade quando cha- A primeira conclusão refere-se à psicologia, agora su-
mou a Taine "falsificador genial". bordinada ao estudo do ambiente social e das corersponden-
Apenas, Taine não pode ser julgado como pesquisador, tes reações no tererno psicofísico. O modelo da análise des-
apesar de uma vida de pesquisas. Essa grande alma não era sas reaçoes e relações já estava em Le Rouge et Le Noir; e
seca; não conseguiu ser meticulosa, exata. O reino de Tai- a descoberta de Stendhal é o outro grande feito crítico de
ne fica em alguma parte entre a ciência e a arte, lá onde Taine. Essa volta à psicologia materialista do século X V I I I
Montesquieu acredita ser historiador e Zola acredita ser foi entendida, no século X I X , como altamente revolucioná-
sociólogo. O positivismo de Taine está tão cheio de "arriè- ria, destrutiva — assim a censurou Bourget no Disciple;
re-pensées" artísticas como está cheio de "arrière-pensées" e esse equívoco é da maior importância para compreender
místicas o positivismo de Comte que dera o nome ao progra- a interpretação usual de Taine por volta de 1880: como
ma de abandonar as ilusões metafísicas par estudar só os um dos grandes ideólogos do radicalismo. Mas não era
fatos palpáveis. Taine tornou-se positivista assim como tanto assim. Taine, isso é verdade, continuou uma revolu-
Flaubert se tornou anti-romântico; e as duas atitudes reve- ção; mas, sendo profundamente hostil ao "romantismo so-
lam mais do que uma analogia. Les Origines de la France cial" e a todo romantismo, continuou uma outra revolução,
contemporaine é um romance histórico, tão bem ou tão mal anterior, a pré-romântica. Taine, como crítico, é o con-
documentado como Salammbô, mas com o realismo pes- tinuador de Herder, ao qual chegou através de Madame de
simista de uma Éducation sentimentale dos franceses de- Stael, e ao qual compreendeu à maneira do "mesologista"
pois da derrota. Assim como Flaubert, Taine é pessimista, Montesquieu. Assim como Herder, Taine não fala de psi-
porque ambos não acreditam muito no resultado definitivo cologia individual — já o Shakespeare de Herder é "o tipo
da educação; Flaubert acabou no pan-imbecilismo de Bou- da dramaturgia germânica" — e sim de psicologia coletiva.
vaid et Pécuchet; e T a i n e confessou a sua convicção mais Taine é o contemporâneo de Burckhardt e Gobineau. Em
íntima: "A proprement parler, Thorrime est fou". Dois todas as suas caracterizações de almas coletivas, de nações
pessimistas: Flaubert, porque acredita na incurabilidade e épocas, através das expressões artísticas, revela-se Taine
da natureza humana. Taine, porque acredita na incapacida- como o represntante francês do "renascentismo", para cuja
de do homem de vencer o ambiente, que é o Destino. O bibliografia contribuiu duas obras capitais, a Voyage en
romancista preferido de Taine não é Flaubert, e sim Bal- Italie e a Philosophie de 1'Art. Mas não são menos "renas-
zac — tê-lo compreendido, contra os preconceitos de Sain- centistas" as suas evocações da civilização grega, da arte
te-Beuve, é um dos grandes méritos do crítico Taine. Bal- holandesa, até — apesar da antipatia íntima — a do "Grand
zac é, para Taine, mais do que o fundador do romance rea- Siècle": são modelos de civilizações completas, apresen-
lista; é o fundador da sociologia. Balzac, como primeiro, tados a uma época de civilização fragmentária, de decadên-
compreendeu as relações sociais e descobriu o sangue que cia. Aliás, já Stendhal considerara como decadente a Fran-
circula nos tecidos da sociedade: o dinheiro. E Taine ça, quando fugiu para a Itália, país da arte viva e das pai-
2366 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2367

xões mais fortes. E outro grande renascentista ocidental, ciam mais evidentes: aos escritores, a interpretação posi-
Matthew Arnold, não foi menos pessimista quanto à situa- tivista que levou ao naturalismo de Zola; aos pensadores
ção da civilização inglesa. Arnold, como anglo-saxão, acre- filosóficos e políticos, a interpretação materialista que en-
ditava no poder da educação. Taine, embora antijacobino, quadrou Taine no movimento do novo radicalismo europeu.
continuou a acreditar em revoluções. E m Stendhal, mais O jovem Zola ( 78 ) viu as ideias de Taine através da
uma vez, encontrou a fórmula: a "energia". Taine chegou psicofísica pessimista de Claude Bernard (™), que lhe for-
à pretensão de ressuscitar as energias nacionais, anestesia- neceu um fio de orientação psicológica no caos das relações
das pela desilusão anti-romântica. Nesta sua última fase, sociais, perturbadas pela corrução do Segundo Império e
Taine já era anti-revolucionário, quer dizer, hostil à revolu- pela derrota. Quer dizer, a influência de Bernard sobre
ção jacobina, mas favorável à contra-revolução. Intervirá Zola, por maior que fosse, não foi decisiva. A diferença
a influência do "Burckhardt francês", Fustel de Coulan- fundamental entre os Goncourts e Zola provém da influên-
ges ( 7 0 ), revelando a influência da religião sobre a "Cida- cia de Taine. Sob essa influência, o jovem romancista mo-
de" antiga. E o naturalismo mesológico de Taine, que pare- dificou os seus projetos de um grande romance flaubertiano
cera tão subversivo, prestar-se-á para fundamento do na- que devia passar-se no sul da França; La Conquête de Plas-
cionalismo pseudocatólico, racial e geográfico, de Barres. sans, revelando analogias bastante grandes com Madame
Numa interpretação da literatura moderna ( 7 7 ), Taine Bovary, é um fragmento conservado do projeto original
é apresentado como o continuador legitimo de Lessing, Her- ( 79 " A ). Desde então, Zola abandonou a psicopatologia pseu-
der e Madame de Stael, como o spiritus rector dessa litera- do-romântica de Thérèse Raquin, a mais "claube-bernardia-
tura moderna; teria feito para o futuro, o que Sainte-Beuve na" das suas obras. Afastou-se até de Flaubert, voltando-
fizera com respeito ao passado. Aapreciação está certo se para Balzac, que Taine lhe revelara, retomando o fio da
enquanto se dá conta da natureza das ideias de T a i n e : não Comédie Humaine, projetando a "histoire naturelle et so-
são criações de ficção, nem conceitos científicos, mas sím- ciale d'une famille sous le second Empire", antecipação no-
bolos de um reino intermediário entre arte e ciência, o da velística das Origines de la France Contemporaine. A in-
crítica literária. São "ideias literárias", capazes de inter- tenção não era revolucionária; a revelação duma decadên-
pretações diferentes, todas "justas" e todas "erradas", por- cia nunca é revolucionária. A t é em 1877, quando das críti-
que naquele reino não vigora o axioma do terceiro excluí- cas hostis da imprensa republicana contra UAssommoir,
do. Pelos princípios do século XX, Taine aparecia princi- Zola não quis ser chamado "écrivain démocratique et quel-
palmente como ideólogo da contra-revolução nacionalista. que peu socialiste", negando qualquer intuito político da
Aos seus contemporâneos, duas outras interpretações pare- sua obra puramente objetiva. O Zola de 1871 e 1877 ainda
não é o da affaire Dreyfu e dos Quatre Êvangiles. Mas

76) Numa-Denis Fustel de Coulanges, 1830-1889. 78) Cf. nota 107.


La cite antique (1864); Histoire des institutions politiques de l'an- 79) Claude Bernard, 1813 — 1878.
cienne France. (1875/1892.) Jntroduction à 1'étude de la médecine experimentale (1865).
J. Tourneru-Aumont: Fustel de Coulanges. Paris, 1931. J. L. Faure: Claude Bernard. Paris, 1925.
77) P. Colum: From These Roots. The Ideas That Have Made Mo- 79A) U. Tolomei: Tutto Zola. (In: Letteratura, II/4, 1939).
dem Literature. 2.B ed. New York, 1944.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2369
2368 OTTO MARIA CARPEAUX

cujo evolucionismo discutível, estabelecendo analogias en-


intuito é uma coisa e interpretação é outra. Na França, a
tre a "storia letteraria" e a "storia civile", não o impediu
obra de Zola repercutiu principalmente pela forte impres-
de tornar-se o intérprete extraordinário de Dante, Maquia-
são das cenas eróticas sobre as massas dos leitores; Zola
vel, Manzoni e Leopardi, o intérprete mais genial de obras
parecia um revolucionário escandaloso; e os protestos dos
literárias no século X I X ; o seu radicalismo dera-lhe a li-
republicanos de 1877 só pretenderam defender 'Thonneur
berdade de uma crítica conforme princípios puramente es-
des classes ouvrières" contra o caluniador dos costumes po-
téticos sem perder de vista as relações da arte com a vida.
pulares. E fora da França, em ambientes literários mais
Assim escreveu a Storia delia letteratura italiana como uma
atrasados, Zola foi fatalmente interpretado como radical,
espécie de "Origines de 1'Italie contemporaine". A doutri-
assim como Taine.
na estética, hegeliana, de De Sanctis, atacada por Carducci
Um dos fatos característicos da época de 1870 é certo
enfraquecimento da grande burguesia nos países ocidentais, e os positivistas, foi logo esquecida, para ressuscitar só
ou antes a transição para uma fase mais democrática da evo- muito mais tarde, graças aos esforços de Croce; mas as
lução capitalista. É a época na qual a figura do socialis- atividades de De Santcis na vida universitária e à frente do
ta elegante Lassalle empolga o mundo, o anglicano ortodoxo Ministério da Educação da Itália contribuíram para trans-
Gladstone se converte à democracia, e Gambetta aparece formar o anticlericalismo oficializado do novo reino na-
como última encarnação do demagogo jacobino. Constitui-se quele clima de liberdade espiritual que fez da Itália de
uma espécie de Intelligentzia europeia. "Tudo o que agora 1900 o paraíso da Intelligentzia europeia. Esse novo radi-
tem valor na Europa, milita sob a bandeira da liberdade e do calismo celebrou triunfos notáveis na Inglaterra vitoriana.
progresso", declarou Georg Brandes aos seus ouvintes, em Enquanto Leslie Stephen se mantinha na atitude reserva-
Copenhague; e, em breve, esse docente-livre dinamarquês da das Hours in a Library, desceu Huxley ( 81 ) para a are-
será um porta-voz da Europa radical. A mudança da atmos- na, transformando o darwinismo em grande máquina de
fera é realmente radical. H á pouco, o representante daquela guerra contra os teólogos, revelando-se como o "orador"
"liberdade e progresso", na Itália, fora o romântico Maz~ mais notável — com exceção de Brandes — do novo radi-
zini. Agora é o pós-hegeliano Francesco De Sanctis ( 8 0 ), calismo. Os "positivistas" e agnósticos ingleses não conhe-
ciam os embaraços filosóficos da formação hegeliana de
De Sanctis. Buckle ( 8 2 ), o "Taine inglês", historiador me-
80) Francesco de Sanctis, 1817 — 1883. Bológico da civilização inglesa ignora os "preconceitos me-
Saggi critici (1866); Saggio sul Petrarca (1869); Storia delia
letteratura italiana (1870/1871); Nuovi saggi critici (1872); Stu-
ãio sul Leopardi (publ. 1885); La letteratura italiana dei secolo
XIX (publ. 1897). ei) Thomas Henry Huxley, 1825 — 1895.
Edição da Storia por B. Croce, 2 vols., Bari, 1913; Edição dos Man's Place in Nature (1863); Lay Sermons (1870); Collected
Saggi por L. Russo, 3 vols., Bari, 1952/1954.
B. Croce: Gli scritti di Francesco De Sanctis e la loro varia for- Essays (1894).
tuna. Bari, 1917. H. Peterson: Huxley, Prophet of Science. New York, 1932.
L. Russo: Francesco De Sanctis e la cultura napoletana. Vene- A. Huxley: "T. H. Huxley as a Literary Man". (In: The Huxley
Memorial Lectures. New York, 1932.)
zia, 1928.
E. Cione: Francesco De Sanctis, il Romanticismo e il Risorgimento. •2) Henry Thomas Buckle, 1821 — 1862.
Roma, 1932. History of Civilísation in England (1857/1961).
E. Cione: VEstética di Francesco De Sanctis. Firenze, 1935. J. M. Robertson: Buckle and His Critics. London, 1895.
F. Fraenkel: Buckle und seine Geschichtsphilosophie. Bern, 1906.
L. A. Breglio: Life and Criticism of Francesco De Sanctis. New
York, 1940.
2370 OTTO M A R I A C A R P E A U X H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A O C I D E N T A L 2371

tafísicos", escrevendo história sem e contra a "filosofia" d e u , e m favor d o r a d i c a l i s m o , as p r o v í n c i a s c u l t u r a i s f o r a


desprezada. Lecky ( 8 3 ), pesquisador das superstições anti- das suas fronteiras políticas. P e r d e u a influência n a H o -
cientificas e dos conflitos entre a teologia e o progresso, é landa, país de Multatuli, onde agora Allan Pierson, p a s t o r
— com exceção dos seus trabalhos sobre história irlandesa apostasíado, podia defender as ideias de Renan, e B u s k e n
— menos historiados do que o grande jornalista do progres- H u e t (85) podia realizar u m a verdadeira revolução intelec-
sismo racionalista. Enfim, Spencer ( 8 4 ), sistematizando os tual : distinguir entre valores morais e valores estéticos n a
resultados da ciência e antropologia conforme um esquema literatura, distinguir entre valor permanente e valor histó-
evolucionista, deu ao positivismo de Comte e Mill uma r i c o ; condenar, do primeiro p o n t o d e vista, os romances d e
feição radical; o darwinismo, que tinha servido de apoio W o l f f e D e k e n , e, d o s e g u n d o , m e t a d e d o s " c l á s s i c o s " h o -
ao capitalismo implacável dos "hard times", vira em Spen- landeses, inclusive H o o f t ; rejeitar a literatura retórica e
cer base duma doutrina de liberalismo principalmente in- p a t r i ó t i c a d o s T o U e n s e Vaci L e n n e p ; s a l i e n t a r , c o m o b o m
dividualista, que chega, em The Man versus the State, às "renascentista" e poeta parnasiano n a s suas horas livres, a
fronteiras do anarquismo; é o pólo oposto à doutrina polí- harmonia da civilização holandesa do século X V I I , e p r o -
tica de Hegel, revelando porque esse neo-radicalismo era curar uma nova idade áurea das letras por meio do radica-
incapaz de aliar~se ao marxismo. Todos esses ingleses são l i s m o r e n o v a d o r . E , c o m e f e i t o , o " m o v i m e n t o d e 1880",
escritores notáveis, sobretudo Huxley. E m todos eles vive a maior revolução na história da literatura holandesa, já ba-
algo da eloquência clara e elegante, sem ênfase, dos ensaís- teu à s p o r t a s .
tas ingleses do século X V I I I . Por meio de inúmeras tra- Sobretudo, a civilização alemã p e r d e u a sua influên-
duções, essa prosa anti-romântica conquistou a Europa, de- cia n o s p a í s e s n ó r d i c o s . O n o r u e g u ê s S t e f f e n e o s u e c o
cidindo em toda a parte a vitória do radicalismo, até na Sturzenbecker foram meio-alemães. Os dinamarqueses B a g -
Rússia de Tchernichevski; menos, porém, na Alemanha, gesen e Oehlenschlaeger escreveram p a r t e das suas obras
então fechada no seu prussianismo suficiente e provincia- em a l e m ã o , ou t r a d u z i r a m a s s u a s p r ó p r i a s o b r a s p a r a a
nismo melancólico, senão sonhando de Renascença. Com o língua falada em Schleswig, província alemã da D i n a m a r -
desaparecimento da repercussão de Hegel, a Alemanha per- ca. O s p r o b l e m a s d i s c u t i d o s p e l o s H e i b e r g , G o l d s c h m i d t ,
Kierkegaard, Paludan-Mueller, eram problemas da civili-
zação alemã. A t é n a Suécia, mais afastada, o pós-romantis-
83) William Edward Hartpole Lecky, 1838 — 1903. mo alemão continuou a dominar. " A l e m ã o " é o fino-sueco
History o) the Rise and Influence of the Spirit of Rtionalism
in Europe (1865); History of European Morais from Augustus to
Charlemagne (1869); A History of Englanã in the Eigtheenth
Century (1878/1890). 85) Conrad Busken Huet, 1826-1886.
Mrs. Lecky: Memoir of W. E. H. Lecky. London, 1909. Brieven over de Bijbel (1857); Litterairische Fantasièn (1874/
84) Herbert Spencer, 1820 — 1903. 1880); Potgieter (1877); George Sand (1877); Het land van Ru-
First Principies (1862); Principies of Biology (1864/1867); Princi- bens (1879); Het land van Rembrandt (1884).
pies of Psychology (1870/1872); Principies of Sociology (1876/ J. B. Meerkerk: Conrad Busken Huet. Haarlem, 1911.
G. Colmjon: Conrad Busken Huet, een groot Nederlander. Hag,
1896); Principies of Ethics (1879/1892); The Man versus the 1944.
State (1884.)
H. Elliot: Herbert Spencer. London, 1917. C. G. N. De Nooys: Conrad Busken Huet. Hag, 1949.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2373
2372 0TTO MARIA CARPEAUX

de Bjoernson ( 8 9 ), "Synnoeve Solbakken", "Ame", "En


Runeberg ( 8 6 ), o poeta mais popular de língua sueca, can-
tor da paisagem finlandesa e da vida dos suecos neste país glad gut" ("Um Bom Rapaz"). São contos à maneira de
então sob dominação russa. Faenrik Staals Saegner (As Auerbach, mas mais ingénuos, com toda a frescura do am-
Histórias do Alferes Staal), epopeia da guerra desesperada biente rústico norueguês, terra incógnita até então. É algo
dos fino-suecos contra os russos em 1809, tornou-se o poe- como um novo "escandinavismo", diferente do escandina-
ma nacional da Suécia. São baladas à maneira de Uhland; vismo dos pré-românticos pelo realismo da atitude; desco-
e será difícil dizer se elevam o sentimento patriótico ou bertas de novas regiões geográficas para a literatura ligam-
corrompem o gosto poético da mocidade escolar. Contri- se sempre a uma atitude pré-romântica; e a arte de Bjoerson
buem para os mesmos fins os contos populares, popularís- e dos seus contemporâneos terá realmente, na Europa, os
simos, de outro, fino-sueco, Topelius ( 8 7 ), contos históricos, feitos de um novo pré-romantismo. Mas Bjoernson já é
contos humorísticos e contos de fadas, produtos de um pós- um radical fervoroso entusiasmado pelo progresso.
romantismo despretensioso em que se formará a arte de
O idílio alemão-escandinavo sofreu o primeiro golpe
Selma Lagerloef. Do espírito do pós-romantismo alemão
em 1848, quando os liberais alemães tentaram demonstrar a
ainda nasceu a famosa novela Phantasterne, do dinamarquês
sua vocação nacionalista pelo ataque à província dinamar-
Hans Egede Schack ( 8 8 ), que se enquadra na literatura
quesa de Schleswig. Em 1864, a Prússia conseguiu con-
"provinciana" alemã, entre Raabe e Storm. Enfim, ao "ci-
quistar a província, arrancando deste modo à Dinamarca
clo alemão" ainda pertencem os primeiros contos rústicos
metade do seu território. Desde então, a Dinamarca virou
francamente germanófoba, acompanhada neste sentimento
pelos intelectuais noruegeuses e suecos; e a influência li-
86) Johan Ludwíg Runeberg, 1804 — 1877.
Dikter (1830/1843); Algskyttarne (1832); Julkvaellen (1841); terária e filosófica dos alemães, ainda defendida por certo
Faenrik Staals Saegner (1848/1860); Kungarne pá Salamis tempo pelos círculos conservadores, cedeu o lugar ao libe-
(1863). ralismo e radicalismo de origens inglesa e francesa. O
Edição por C. R. Nyblom, 2.B ed., 6 vols., Stockholm, 1907.
I. A. Heikel: Johan Ludwig Runeberg. 2 vols. Stockholm, 1926. porta-voz dessa mudança era o crítico Brandes. Em cir-
W. Soederhjelm: Johan Ludwíg Runeberg. 2.ft ed. 2 vols. Sto- cunstâncias normais, a sua atuação ter-se-ia limitado ao
ckholm, 1929.
R. Hedvall: Runeberg och hans diktning. Stockholm, 1931. Norte da Europa. Aconteceu, porém, que pelo mesmo tem-
Y. Hirn: Runébergkneten. Helsinki, 1935. po as literaturas escandinavas, até então provincianas, con-
87) Zakris Topelius, 1818 — 1898. quistaram de repente inesperada importância europeia; e
Ljuriblommer (1845/1854); Faltskaems Beraettelser (1859/1867);
Laesníng foer barn (1865/1896). Brandes tornou-se o profeta do naturalismo, crítico de re-
V. Vasenius: Zakris Topelius. 6 vols. Stockholm, 1921/1930. percussão universal.
P. B. Nyberg: Zakris Topelius. Stockholm, 1949.
88) Hans Egede Schack, 1820-1859.
Phantasterne (1857).
Edição por C. Roos, 2.a ed. Kjoebenhavn, 1951. 80) Cf. "A conversão do naturalismo", nota 10.
V. Vedei: Litteratur og Kritik. vol. II. Kjoebenhavn, 1890.
2374 OTTO M A M A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2375

Georg Brandes ( 00 ) pertenceu à burguesia judia de derna, espécie de "Origines de 1'Europe littéraire contem-
Copenhague; sempre revelou os traços característicos da poraine". Esses Hovedstroemninger — Tendências Princi-
sua origem, grande talento de análise lógica, um esprit pais na Literatura do Século XIX — não podem ser consi-
quase francês, e o liberalismo de autodefesa de uma mino- deradas como obra de historiografia exata; são antes um
ria ameaçada. Como crítico psicológico suporta a compa- romance histórico bem documentado, com tendência de um
ração com Sainte-Beuve; a revelação do espírito mórbido libelo contra todo e qualquer romantismo, que teria sido,
no poeta aparentemente clássico Tegnér é magistral. Como conforme Brandes, mera mistura de sonhos mórbidos e rea-
liberal, adotou as doutrinas de Mill, Buckle, Renan, Taine, Ção política. Essa obra de Brandes, encontrando-se com
tomando atitude acentuadamente anticristã. O seu ideal li- uma forte corrente europeia, foi traduzida para todas as
terário era o "naturalismo" — conceito em que confundiu línguas e teve repercussão enorme, tanto maior que o crí-
Balzac, Flaubert e Zola, enfim tudo o que tratava de assun- tico, em apoio da sua tese "modernista", era capaz de citar
tos modernos e se prestava para interpretações no sentido alguns nomes de poetas escandinavos tão grandes que a
do radicalismo, de modo que Bjoernson, Ibsen, Tolstói e propaganda de Brandes não encontrou dificuldades em con-
Dostoievski também lhe pareciam "naturalistas". Deste quistar-lhes a celebridade universal: Jacobsen, Bjoernson,
ponto de vista fêz o processo ao "aladinismo" romântico e Hamsun, Strindberg, e, em primeira linha, Ibsen. À vitória
irresponsável dos dinamarqueses, ao seu ver o culpado da europeia de Ibsen, dramaturgo provinciano de um país en-
derrota de 1864; com a mesma severidade julgou Kierke- tão quase fora da Europa, o nome de Brandes está indis-
gaard, ao passo que deu nova interpretação luminosa e en- soluvelmente ligado.
tusiasmada de Holberg, herói da "ilustração" na Dinamarca.
Brandes conservou-se sempre fiel ao liberalismo radi-
Observando que os seus patrícios, formados no espírito es-
cal. A última das suas grandes obras biográficas é uma
treito de uma província alemã, pouco conheciam os gran-
reabilitação de Voltaire. Repara-se nas últimas obras do
des nomes estrangeiros que citou em seu apoio, Brandes
crítico certa amargura, como de um solitário decepcionado
resolveu esboçar um panorama da literatura europeia mo-
pelo rumo que as coisas do mundo tomaram; e está em
relação com isso a única oscilação ideológica na vida de
Brandes: por volta de 1890, pareceu por um momento aban-
90) Georg Brandes, 1842-1927. donar a bandeira do radicalismo, proclamando-se nietzs-
Aestfietiske Studier (1868); Kritiker og Portraiter (1870); JDen
franske Aesthetik (1870); Hovedstroemninger i ãet 19 Aarhunáre- chiano — Nietzsche também é, aliás, uma revelação de
des Litteratur (1877/1898); Esaias Tegnér (1876); Danske Digtere Brandes ao mundo. Mas Brandes,, na realidade, não tinha
(1877); Benjamin Disraeli (1878); Soeren Kierkegard (1879);
Ferdinand Lassalle (1881); Mennesker og Vaerker (1883); Litãwig abandonado os seus; os seus discípulos dinamarqueses fo-
Holberg (1884); Essays (1889); Det moderne Gjennembruds Maend ram que abandonaram a ele.
(1891); Udenlandske Egne (1893); Heine (1897); Henrik Ibsen
(1898); Voltaire (1916/19Í7) etc. etc. O "naturalismo" dinamarquês, entre 1870 e 1890, é um
A. Ipsen: Georg Brandes. 3 vols. Kjoebenhavn, 1902/1903.
P. Rubow: Georg Brandes og Tuins laerare. Kjoebenhavn, 1927. movimento singular; desenfreou paixões literárias, polí-
P. Rubow: Georg Brandes og den kritiske tradition. Kjoebenhavn, ticas e pessoais tão fortes que até hoje não foi possível es-
1931.
P. Rubow: Georg Brandes' briller. Kjoebenhavn, 1932. crever uma história imparcial daqueles acontecimentos,
2376 OTTO MARIA. CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2377

existindo só grandes panfletos pró ou contra ( 0 1 ). Mas (c'a) cumpriu as duas exigências do mestre: era naturalis-
ta e livre-pensador. Atacou, em Uden Midtpunkt (Sem
assim como a pequena Dinamarca já serviu de limitado cam-
Centro), o esteticismo pálido dos últimos românticos; des-
po de observação para estudos o "Biedermeies" literário
creveu, em Smaafolk (Gente Desprezada), no estilo de Zola
na Europa, assim a evolução do naturalismo naquele pe-
e com emoção, a vida miserável das criadas; denunciou, em
queno país tem valor de exemplo.
Frigjort, as seitas protestantes, tão poderosas na Dinamar-
Quando Brandes apareceu, a geração nova apoiou-o, ca. Contudo, Schandorph mal pode ser citado como natu-
com entusiasmo, contra a resistência dura dos conservado- ralista. E r a um filólogo de grande erudição e maior curio-
res literários e políticos. E m 1871, quando começou a dar, sidade, versado em Rabelais e Gozzi; na descrição de "ca-
na Universidade de Copenhague, as aulas que constituem sos" modernos gostava da oportunidade de empregar ex-
a base dos Hovedstroemningei, a vitória estava obtida. E m pressões fortes, pitorescas, arcaicas. E r a um humorista no-
1877, as humilhações, que sofrera por parte dos conserva- tável, às vezes grosseiro, o que então parecia naturalista.
dores, fizeram-no preferir o exílio voluntário na Alemanha. Dos naturalistas autênticos distinguiu-se pelo otimismo cor-
Mas quando voltou, em 1883, para a Dinamarca, já famoso ei e-rosa, às vezes frívolo.
como figura europeia, viu-se abandonado por quase todos "Naturalismo" tinha outro sentido para Drachmann ("*),
os seus discípulos dinamarqueses. Conservou-se-lhe sem- o poeta lírico do movimento: pretexto para libertar to-
pre fiel só seu irmão Edvard Brandes ( 9 2 ), dramaturgo há- dos os instintos, nem sempre bons, da sua vitalidade e do
bil, tratando problemas ibsenianos, mas antes no espírito seu temperamento, sem os freios da convenção religiosa
da comédia francesa de Dumas F i l h o ; Et Besoeg (Uma ou burguesa. E r a um romântico rebelde, um pequeno-bur-
Visita) é mesmo uma peça muito boa. Edvard Brandes fêz guês com o gesto de Byron e o "helenismo" de Heine, in-
escândalo com romances nos quais recomendou o amor teiramente despreocupado com o próximo que costumava
sacrificar ao seu " E u " exigente. Os temas da sua poesia
l i v r e ; e toda a sua vida estava repleta de polemicas amar-
gas. E r a um excelente crítico de teatro e grande jornalis-
ta. E m 1884, fundou Politiken, o grande jornal da democra-
93) Sophus Schandorph, 1836 — 1901.
cia dinamarquesa, que venceu politicamente no momento Vden Midtpunkt (1878); Smaaflok (1880); Thomas Fri's Historie
em que o correspondente movimento literário acabou. En- (1881); Brigittes Skaebne (1888); Frigjort (1896) etc.
N. Kjaer: "Sophus Schandorph". (In: Borger of Billeder. Oslo,
tre todos os brandesianos dinamarqueses, só Schandorph 1898.)
94) Holger Drachmann, 1846 — 1908.
Med Kul og Kridt (1872); Digte (1872); Daempede Melodier
(1875); / Storm og Stille (1875); Ungt Blod (1876); Tannliaeuser
(1877); Sange ved Havet (1877); Ranker og Roser (1879); Oesten
91) J. Joergensen: Essays. Kjoebenhavn, 1906. jor Sol (1880); Puppe og Sommerfugl (1882); Strandby Folk
G. Brandes: Danmarlc, 3 vole. Kjoebenhavn, 1919. (1883); Fjeldsange og Aeventyr (1885); Kunstnere (1888); San-
J. Bomholt: Dansk Digtning fra den industrielle Revólution Hl genes Bog (1889); Forskrevet (1890); Voelund Smed (1894); Gurre
vore Dage. Kjoebenhavn, 1930. (1899), etc.
92) Edvard Brandes, 1857 — 1931. Edição (pelo autor), 12 vols., Kjoebenhavn, 1906/1909.
Kjaerlighed (1887); Overmagt (1888); Et Besoeg (1889); Det unge V. Vedei: Holger Drachmann. Kjoebenhavn, 1909.
Blot (1891); Muhammed (1895). P. Rubow: Holger Drachmann's Ungdom. Kjeobenhavn. 1940.
G. Brandes: "Edvard Brandes". (In: Skandinavische Persoenlich- P. Rubow: Holger Drachmann, 1878-1857. Kjoebenhavn, 1945.
keiten. Gesammelte Schriften, vol. IV. Muenchen, 1903.) P. Rubow: Holger Drachmann, Sidste Aar. Kjoebenhavn, 1950.
2378 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2379

são tão variados como esse egocentrismo despótico o per- uma das mais finas do fim do século XIX, e a sua presen-
m i t e : a mulher, em primeira linha; depois o vinho, de- ça entre os radicais positivistas de Brandes e os naturalistas
pois um gosto irresistível de caminhar, de vagabundear, a à maneira de Zola parece um erro da história. Jacobsen
paisagem dinamarquesa, os bosques, as dunas da praia, o escreveu uns poucos contos, muito delicados, e um roman-
mar — e tudo isso refletido em gritos de alegria, rebeldia, ce psicológico, Niels Lhyne, no mais intenso lirismo; um
ternura e lamento, sem outra disciplina do que certa estrei- romance histórico, Fru Marie Grubbe, que se compõe de
teza do horizonte intelctual. Mas Drachmann era um gran- uma série de quadros impressionistas; e algumas poesias
de músico da língua, o maior nessa língua musical que é a em verso livre. Em tudo parece pertencer ao simbolismo
dinamarquesa. Invadiu todos os géneros, romance, drama, para o qual o destinava a delicadeza do seu corpo, minado
mas ficou sempre lírico, o mais abundante da sua literatu- pela tuberculose, e do seu espírito lírico. Mas Jacobsen
ra e, nesse sentido, o poeta mais rico das literaturas nór- ignorava, como a Dinamarca do seu tempo, o simbolismo;
dicas. O que lhe faltava por completo é o conteúdo intelec- aderiu de todo o coração aos irmãos Brandes, que, ao seu
tual. O seu romantismo é, conforme as definições france- lado, parecem plebeus. Não apostasiou do movimento bran-
sas, expansão do "eu"; Drachmann devia apostasiar do mo- desiano, pois morreu antes da dissolução dele; e, apesar de
vimento de Brandes, não para aderir a outro grupo, mas só tudo o que se tem dito, não é provável que, se tivesse vivido
para ficar Holger Drachmann. O comentário prosaico da por mais tempo, tivesse apostasiado mais tarde. Ficou e
sua obra não são os seus próprios romances, mas os de E r i k sempre ficaria impedido de professar uma fé mais positiva,
Skram ( 0 5 ), propagandista do amor livre, que deve porém fosse mesmo a fé vaga do neo-romantismo, porque era um
sua permanência nas letras dinamarquesas ao fino roman- espírito irónico, descendente de um romantismo raro, des-
ce psicológico Gertrude Coldbjoernsen, situado entre Phan- trutivo sem eloquência, tão sem eloquência que parece o
tasterne, de H a n s Egede Schack, e as novelas de J e n s Peter mais anti-romântico — dos românticos.
Jacobsen.
Os biógrafos afirmam que Jacobsen perdeu cedo a fé;
Jens Peter Jacobsen ( 98 ) foi chamado o "Ariel do natu- talvez nunca a tivesse tido. Estudou botânico; tornou-se o
ralismo dinamarquês". Na verdade, é uma figura angélica, primeiro darwinista na Dinamarca, abraçando o radicalismo
anti-religioso do seu amigo Georg Brandes. A sua obra
95) Erik Skram, 1847 — 1923. principal, o romance Niels Lhyne, foi chamado "bíblia do
Qertrude Coldbjoernsen (1879); Agnes Vittrup (1897); Hellen
Vige (1898). ateísmo"; e, com efeito, o ateísmo é o único ponto firme em
G. Brandes: "Erik Skram" (In: Skandinavische Persoenlichkeiten. que se apoia Niels Lhyne, homem de natureza aristocráti-
Gesammelte Schriften, vol. IV. Muenchen, 1903.)
ca, ligeiramente decadente, abúlico, incapaz de exercer uma
96) Jens Peter Jacobsen, 1847 — 1885.
Mogens (1872); Fru Marte Grubbe (1876); Niels Lhyne (1880); profissão séria, caminhando por mil aventuras e desilusões
Mogens og andre Noveller (1882); Digte (1886). eróticas, até a morte na guerra de 1864, morte de ateísta
Edição por E. Brandes, 3. a ed., 5 vols., Kjoebenhavn, 1924/1929.
G. Brandes: "Jens Peter Jacobsen". (In: Mennesker og Vaerker. impenitente mas com o lirismo de um santo. Niels Lhyne
2* ed. Kjoebenhavn, 1903.) é mais uma novela que um romance; uma série de quadros
J. Jacobie: Jens Peter Jacobsen. Kjoebenhavn, 1911.
H. Bethge: Jens Peter Jacobsen. Berlin ,1920. impressionistas, lembrando a arte de Degas, que foi mal
G. Lukacs: Theorie des Romans. Berlin, 1920. compreendida então, como se fosse pendant da literatura
W. Rehm: Experimentum medietatis. Studien zur Geístes-und Li-
teraturgeschichte des 19. Jahrhunderts. Muenchen, 1947. naturalista. Quanto à técnica pictórica, a arte dos impres-
2380 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 2381

sionistas francesas parece-nos, hoje, estar mais perto do que exerceu a maior influência no estrangeiro, não sobre
simbolismo; e com a arte verbal de Jacobsen acontece o os naturalistas e em função do seu ateísmo, mas sobre os
mesmo: é mesmo "arte verbal", o estilo mais elaborado, simbolistas, e isso em função da angústia secreta que treme
mais fino que se escreveu, no século XIX, em qualquer na "morte difícil" de Niels Lhyne e na resignação fatalista
língua. Às vezes, sobretudo nas pequenas novelas, a arte de Marie Grubbe. Só os simbolistas chegaram a apreciar
de Jacobsen aproxima-se de virtuosidades gongoristas. Mas os "états d'âme" desse Hamlet moderno, príncipe da litera-
o espírito da pintura dos impressionistas franceses é bem tura da Dinamarca. Só um Rilke chegará a compreender o
o naturalista: atomização das impressões subjetivas e obje- fundo metafísico da abulia do ateu Niels L h y n e : o "grande
tivação delas sob a pressão de uma força extra-subjetiva e enfado", com em Gontcharov mas teria Jacobsen previsto
puramente material: a luz, entendida como fenómeno da tudo isso? É preciso distinguir entre efeito e intenção.
física (seja ondular ou corpuscular). Nas descrições de O fato de Jacobsen ter exercido profunda impressão sobre
Jacobsen, a luz também desempenha grande papel, depen- Rilke — basta mencionar Os Cadernos de Malte Laurids
dendo das modificações da iluminação a própria "alma das Brígge — não é prova do seu simbolismo nem do seu mis-
coisas". À capacidade de observação do cientista especia- ticismo. Revela apenas a independência da sua arte de
lizado, Jacobsen juntou a sensibilidade aguda do doente, qualquer modificação do gosto literário; e revela a possibi-
vendo o que ninguém viu antes. O fundo do seu lirismo lidade de uma angústia quase kierkegaardiana se ter escon-
é tão triste como a fisiologia experimental de Zola; e sen- dido no fundo do chamado naturalismo dinamarquês.
do Jacobsen um grande artista da palavra, empregou a
Essa angústia tomou forma plenamente naturalista no
sua arte para objetivar em palavras a filosofia fatalista do
escritor mais poderoso da literatura dinamarquesa inteira,
naturalismo ateu. Não era romancista nato. E r a artista dos
em Pontoppidan ( 0 7 ). A crítica hesita em chamar "litera-
valores plásticos. O seu romance histórico Fru Marie Grub-
tura" ao conjunto imponente das suas obras; tanto parece
be é, por meio do artifício verbal de uma imitação perfeita
expressão espontânea do solo da Jutlândia, do espírito dos
da linguagem arcaica, uma reconstituição admirável da Di-
camponeses pobres e tenazes daquela terra. Com efeito,
namarca do fim do século X V I I ; mais uma vez, são quadros
Pontoppidan é de origem popular. Vem da "literatura dos
impressionistas que acompanhavam o caminho de vida, para
mestres-escolas", dos vigários e professores primários ju-
baixo, de uma mulher aristocrática, vítima dos seus instin-
tlandeses — Thyregod e os outros — que observavam de
tos. O fim é uma profissão de fé fatalista. Jacobsen não se
perto a sua gente e notaram as suas observações com rea-
entregou ao romantismo, apesar das muitas despedidas lí-
lismo despretensioso. Pontoppidan é da mesma família.
ricas das quais se compõe à sua obra; até a comovente des-
pedida no fim da sua última novela " F r u Foenss", que foi
a despedida definitiva do poeta.
97) Henrik Pontoppidan, 1857 — 1943.
Jacobsen deixou poesias em verso livre; não cultivou Sandice Menighed (1883); Fra Hytterne (1887); Folkelivsskil-
ãringer (1888/1890); Skyer (1889); Det Jorjaettede Land (1891/
muito o género, porque Brandes e êle mesmo acharam que 1895); Den gamle Adam (1894); Lykke Per (1898/1904; edição de-
o tempo da poesia lírica já acabara. Contudo, naquelas poe- finitiva, 1907); De Doedes Rige (1912/1915); Manda Himmerig
(1927).
sias, Jacobsen revela-se como precursor do simbolismo. É V. Andersen: Henrik Pontoppidan. Kjoebenhavn, 1917.
êle, com excecão de Kierkegaard, o escritor dinamarquês E. Thomsen: Henrik Pontoppidan. Kjoebenhavn, 1931.
C. M. Vevel: Henrik Pontoppidan. 2 vols. Kjoebenhavn. 1945.
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Apenas, os seus primeiros contos, já qualificados de "na-
contra os demagogos radicais, em cuja agitação descobre
turalistas", são mais amargos. Aqueles escritores popula-
as manobras da burguesia de Copenhague para mobilizar
res, embora sem muita formação literária, guardaram fiel-
a propriedade rural. Em Den gamle Adam (O Velho Adão)
mente os restos do romantismo, decaído para a subliteratu-
já tinha denunciado a propaganda do amor livre como novo
r a ; Pontoppidan é anti-romântico decidido; a sua natureza
romantismo; e Lykke Per, o novo Adam Homo, acaba na
de camponês sóbrio reage contra o lirismo idílico; não acre-
resignação fatalista; para êle e o seu criador não existia o
dita em enfeites artificiais desta vida dura; é hostil a todos conforto espiritual do cristianismo. Digna de nota é a com-
que pretendem falsificar a realidade, sobretudo aos sectá- posição de Lykke Per: a forma cíclica, a de Zola e vários
rios que prometem o céu aos pobres sob a condição de su- outros naturalistas, convinha tanto aos desígnios de Pon-
portarem sem resistência a opressão dos ricos e poderosos. toppidan que a empregou, mais uma vez, na terceira das
Contra a mais importante dessas seitas, os grundtvigianos, suas grandes obras, De Doedes Rige (O Reino de Morte),
lançou Pontoppidan a sua primeira grande obra, Det for- composição de cinco romances que apresentam, através das
jaettede Land (Terra de Promissão), composta de três ro- vidas de dois tipos representativos, o pensativo Forben e o
mances reunidos em ciclo: Mued, Det for jaettede Land e sonhador J y t t e , o romantismo de anteontem e o anti-ro-
Dommens Dag (Juízo Final). É um grande panorama da mantismo de ontem — e parece a Pontoppidan que ambos
vida nos campos da Dinamarca por volta de 1880, da luta tenham falido. A "terra de promissão" tornou-se "país dos
dos agitadores socialistas contra as classes conservadoras mortos".
que gozavam do apoio dos grundtvigianos. Aqueles mestres- Pontoppidan recebeu em 1917 o premio Nobel; nem
escolas eram luteranos ortodoxos. Pontoppidan é anticris- essa publicidade lhe granjeou a atenção universal que me-
tão resoluto, a sua filosofia é a dos radicais; e brandesiano recera. Talvez fosse responsável por isso seu niilismo des-
também é o seu anti-romantismo: "Sempre estávamos so- consolado. Os estrangeiros só chegaram a apreciar as finas
nhando, e nunca realizamos nada." A tendência é, como em descrições de paisagens nos seus contos. Ao mundo lá fora,
escritos contemporâneos de Brandes, dirigida contra o mito Pontoppidan parecia regionalista. Na própria Dinamarca,
nacional do "Aladdin" ao qual a sorte dá tudo de presente. só a literatura regionalista dos camponeses da Jutlândia o
Afastando-se de Brandes, Pontoppidan conservou-se acompanhou. Skjoldborg ( 0 8 ), cujos romances constituem
fiel ao seu anti-romantismo: mas a sinceridade incorrutí- o documento valioso da penetração do socialismo entre as
vel do camponês tinha reconhecido a parte de ilusionismo populações agrárias do Norte da E u r o p a ; e Soeiberg (° 9 ),
nas promessas dos radicais; e, para êle, pouco importava se cuja trilogia De levendes Land (O País dos Vivos) preten-
o "forjaettede Land", a "terra da promissão", prometido pe- de desmentir o "país dos mortos" de'Pontoppidan, opondo
los sectários cristãos ou pelos jornalistas radicais. Enten- ao falso cristianismo dos ricos o verdadeiro cristianismo
de-se assim a tendência da sua obra máxima, Lykke Per, dos pobres.
ciclo de oito romances breves em torno de Per Sidonius,
um Aladdin às avessas, derrotado pelo ambiente. A des- 98) Johan Skjoldborg, 1861 — 1936.
crição desse ambiente é uma das grandes sátiras da litera- En Stridsmand (1896); Kragehuset (1899); Qyldholm (1902);
Spillemandens Hjemkomst (1914.)
tura universal, sátira de um homem acima dos partidos, A. F. Schmidt: Johan Skjoldborg. Kjoebenhavn, 1938.
igualmente indignado contra os conservadores cristãos e 99) Harry Soeiberg, 1880.
De levendes Land (1916/1920).
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As angústias religiosas que Pontoppidan não confes- A derrota de Brandes prejudicou mais à literatura di-
sara, constituíram a base das reações mais fortes contra namarquesa do que ao seu crítico: separando-a do movi-
Brandes. Mas o caminho de volta para o cristianismo lute- mento europeu, causou-lhe um atraso estranho, novo pro-
rano dos antepassados estava definitivamente barrado, pelo vincianismo. A maioria dos escritores dinamarqueses, e não
menos aos intelectuais de Copenhague, entre os quais se só os piores entre eles, ficou vacilando entre a sátira na-
tentaram novas experiências espirituais. Gjellerup ( l 0 °), turalista de Schandorph e o lirismo pós-romântico de
que fora um dos naturalistas mais radicais, entregou-se, pri- Drachmann. Naturalista julgava-se Gustav Wied ( 1 0 2 ), na
meiro, ao mito germânico, interpretando-o à maneira de verdade um grande satírico, inimigo irritado de tudo o que
W a g n e r ; e através de W a g n e r e Schopenhauer chegou ao é feio e ridículo na sociedade moderna. Em Pastor Soeren-
budismo, escrevendo grandes romances, cientificamente do- sen & Co., zombou dos beatos; em Faedrene aede Druer,
cumentados, sobre "os oito caminhos de salvação" e a me- dos burgueses; em Slaegten, dos decadentistas, sempre com
tempsicose. Deram-lhe em 1917 metade do prémio Nobel a indignação amargurada e o cinismo pseudomaterialista
para contrabalançar o efeito da outra metade, dada a Pon- de um hipersensitivo; acabou no suicídio, que foi, em 1914,
toppidan; mas até na própria Dinamarca censurou-se a como sinal de fim de uma época. Os poetas que sucederam
inconveniência da homenagem ao escritor pretensioso e iná- a Drachmann, retiraram-se para um romantismo algo fácil,
bil, nem sequer dominando bem o idioma e lido só na Ale- como Blaumueller ( 1 0 3 ), considerado, aliás, o maior artista
manha, onde residia. A solução radical, embora a mais ines- do verso em língua dinamarquesa, e Holstein ( , 0 4 ) , que
perada de todas no Norte protestante, encontrou-a Johan- substituiu as paisagens impressionistas do mestre por idí-
nes Joergensen ( 1 0 1 ) : naturalista na prosa e simbolista na lios inofensivos, quadros bonitinhos que lembram a pintu-
poesia, converteu-se em Assisi ao catolicismo. A sua bio- ra do "Biedermeier" dinamarquês, Marstrand e Skovgaard,
grafia de São Francisco é uma das mais belas entre os inú- comparação que não pretende diminuir, mas, ao contrário,
meros livros sobre o santo; e a sua autobiografia Mit Livs indicar altas qualidades artísticas. Enfim, a poesia drach-
Legende (Lenda da Minha Vida) é o grande documento fi- manniana, tão revolucionária no seu tempo, chegou a hon-
nal do brandesianismo. Joergensen foi notável poeta lírico - ras oficiais em Roerdam ( 1 0 5 ), grande poeta num género
mas sua conversão quase o excluiu da vida literária do Nor menor, em idílios rurais, paisagens impressionistas, poesias
te da Europa, limitando-lhe a influência.

102) Gustav Weid, 1858-1914.


100) Karl Gjellerup, 1857-1919. Erotik (1896); Slaegten (1898); Livsens Ondskab (1899); Pastor
Oermanernes Laerling (1882); Brynhild (1884); Pilgrimmen Ka Soerensen & Co. (1901; Dansemus (1905); Ranhe vilje (1907);
manita (1906); Verdensvandrerne (1910). Faedrene aede Druer (1908); Circus mundi (1910).
P. A. Rosenberg: Karl Gjellerup. 2 vols. Kjoebenhavn, 1921 E. Holten-Nklsen: Gustav Wied. Kjoebenhavn, 1931. ,
1923. E. Salicoth: Omkring Gustav Weid. Kjoebenhavn, 1946.
101) Johannes Joergensen, 1866-1956. 103) Edvard Blaumueller, 1851-1911.
Den yderste Dag (1897); Digte (1898); Vor Frue af Damnar Agnete og Havmanden (1894).
(1900); Frans af Assisi (1907); Mit Lies Legende (1916/1923). 104) Ludvig Holstein, 1864-1943.
A. Walden: Der Dichterphilosoph Johannnes Joergensen. Muen Mo sog Muld (1917); Aebletld (1920).
chen, 1904.
E. Frederiksen: Johannes Joergensens Ungdom. Kjoebenhav K. Balslev: Ludvig Holstein og hans Lyrik. Kjoebenhavn, 1941.
1946. 105) Cf. "O Equilíbrio europeu", nota 78.
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patrióticas: o "Poet Laureate" do povo dinamarquês. A li- clarecer melhor as coisas, esboçando um panorama geográ-
teratura dinamarquesa já tinha deixado de exercer influên- fico da difusão do naturalismo, ou antes, dos diversos na-
cia na Europa. turalismos.
A derrota de Brandes na Dinamarca foi um caso de im- A fronteira corre, mais ou menos, pelo meridiano de
portância local. Nem na Noruega, cuja literatura encontra- Berlim. Ao oeste desta linha divisória, na França, Países
ra em Brandes o maior propangadista, se repetiu o caso. Baixos, Irlanda e Inglaterra, encontram-se os representan-
Porque só na Dinamarca a influência de Brandes era tão tes do "naturalismo europeu"; ao Leste, na Alemanha
grande que êle pôde pretender impor ao país o seu concei- Oriental, Escandinávia, países eslavos e sobretudo na Rús-
to do naturalismo, provocando, depois, a reação hostil. Evi- sia, estão os representantes de outros "naturalismos", dife-
dentemente há uma diferença essencial entre o naturalismo rentes, que hoje não nos parecem naturalistas. É o caso do
francês e europeu e o "naturalismo" escandinavo; mas Bran- realista norte-americano Howells (loo-A^ q U e s o f 0 j simpa-
des, intencionalmente ou por equívoco, os confundira. tizante do zolaísmo, ao passo que a obra de Stephen Cra-
"Tudo o que agora tem valor na Europa, milita sob a ban- ne (10<J-B) j a é uma ponte para o neonaturalismo posterior,
deira da liberdade e do progresso", declarara Brandes na- de Dreiser. Mas, sobretudo na Rússia, não houve natura-
quela famosa aula em Copenhague, continuando: "na I n - lismo propriamente dito, talvez porque toda a literatura
glaterra: Mill e Darwin, Spencer e Swinburne; na França: russa da época é naturalista, mas num sentido que nada tem
Taine e Renan, Zola, Flaubert e os Goncourts; na Alema- com o naturalismo de Zola. Um Rechetnikov (io«-°) ou um
Uspensk (10e-D) s ão anteriores a Zola; e o mais zolaísta dos
nha: Auerbach, Paul Heyse, e Gottfried Keller; na Itália:
russos, Kuprin ( ^ « - E ^ j a pertence ao século XX. Ha, mais,
Carducci; na Rússia: Turgeniev, Dostoievski e Tolstói."
algumas figuras atípicas, de origens geográficas muito di-
A lista de nomes não poderia ser mais heterogénea; a con-
versas, mas que revelam analogias evidentes: são Verga, na
fusão é completa. Mas essa confusão divulgou-se em toda
Itália; Pérez Galdós, na Espanha; Hardy, na Inglaterra. O
a parte onde a propaganda de Brandes exerceu influência.
caso menos típico de todos é o da Alemanha, na qual o natu-
Na introdução dum livro famoso ( 10e ) sobre as origens do
ralismo entrou muito tarde, não encontrando eco considerá-
naturalismo na Alemanha, citam-se como os representantes
vel na Renânia e no Sul, mas empolgando o Oeste: o jovem
principais do naturalismo europeu: Balzac, Flaubert, os
Hauptmann ("«-*) é da Silésia; Conradi ( 10 °-O), da Saxônia;
Goncourts, Zola, Tolstói, Dostoievski, Bjoernson e Ibsen. Holz (106-H) e Sudermann da Prússia oriental; Kretzer
É preciso esclarecer essas confusões. Os nomes, cuja pre-
sença naquela frase de Brandes causa a maior estranheza,
são os de Swinburne, Heyse e Carducci; Brandes escolheu- 106A) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 99.
os porque lhe pareciam anticristãos, pagãos. De maneira 106B) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 100.
ingénua, identificou o radicalismo ("liberdade e progres- 106C) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 39.
so") com o realismo e naturalismo literário. É possível es- 106D) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 40.
106E) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 44.
106F) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 25.
106) A. Soergel: Dichtung und Dichter der Zeit. Vol. I 19.B ed. Leip- 106G) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 21.
zig, 1928. 106H) Cf. "Conversão do Naturalismo", nota 24.
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