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Sexta-feira, 23 de abril de 2004.

Para Morrer de Amor


Autor: Wagner Ribeiro
Revisão: ...

_ Ainda estou sonhando... Estou sonhando e preciso acordar...

Avner Silva estava deitado em sua cama, se sentindo prisioneiro de seu próprio corpo. Ele
podia perceber o mundo a sua volta, mas era como se fosse um pequenino inseto preso a
alguma armadilha pegajosa: não podia sair de seu sono, grudado entre o real e o imaginário.
Afogando-se em seus próprios sonhos. Sufocando, sufocando, sufocando... E, para seu terror,
totalmente consciente disto.

Ao seu lado, sua esposa, Alva. Ansiava por ela, desejava sua mulher ardentemente,
loucamente, não a tinha faz mil anos. Lembrava-se dos sem fim de e-mails trocados, dos
recados loucos, da paixão incontrolável, do que tiveram de vencer e construir para estarem
juntos. Lembrava do sabor do beijo, do gosto do corpo, da alegria de estar ao lado dela.
Precisava despertar, precisava acordar de uma vez por todas e voltar para sua Alva, no mundo
real! Era a primeira vez que tinha a sensação de estar tão perto de acordar, e desta vez ele iria
conseguir! Nada o impediria de acordar!

Sentiu então seu coração acelerando, em batidas que eram como trovões ecoando em uma
pintura de Dali. Sentiu seu desejo por estar livre como uma fímbria iridescente, que se
debatia na obscuridade onírica, e que aumentava, crescia, agigantava-se. Nada iria detê-lo,
estivera tempo demais sonhando, estivera preso àquela única noite como se mil anos tivessem
passado, e sabia todos os ardis e embustes, já não podiam confundi-lo, os seres dos sonhos.
Hoje, agora, imediatamente iria acordar! Por que nunca havia chegado tão perto, e morreria
para conseguir, morreria por amor à Alva, e a liberdade de estar de novo nos braços dela e no
mundo real!

Abriu os olhos. Acordou.

Uma manhã normal. Ele deveria se preparar para ir ao trabalho. Beijaria o rosto moreno de
sua esposa, que iria sorrir e virar-se de lado, preguiçosa e bela. Então ele levantaria, pé ante
pé, e prepararia suco e café fresco, pães e cremes em uma bandeja, e colocaria uma música
suave no som, deitando-se de volta, ao lado de Alva, para tomarem, juntos, o café... Avner
tentava rememorar febrilmente o que faria em um dia normal. Estivera preso vezes sem
conta, achando que havia acordado, e percebendo que estava ainda sonhando. Como aquelas
bonecas russas, umas dentro das outras, como as camadas das cebolas, umas dentro das
outras, assim estivera preso em seus sonhos, um sonho dentro de outro, a muito, muito tempo,
desde que fora dormir, ontem à noite.

Olhou em volta. Tudo delicadamente normal. Alva ressonava, tranqüila e inocentemente. As


cortinas eram calmamente batidas pelo vento. O sol entrava, irradiando-se alegremente pelas
janelas. Ele enfim se deu ao luxo de respirar. Estivera prendendo a respiração até agora, com
medo de mais uma vez ser enganado, e de estar ainda dormindo.
Curvou-se lentamente e beijou Alva. Sentiu o perfume de sua pele tropical, sentiu o odor de
seus cabelos negros. Havia quase esquecido o prazer de fazer aquilo. Então sorriu, e saiu
silenciosamente da cama.

_ Livre!

Caminhou até a cozinha. Não, claro, sem ficar atento às figuras oníricas, gnomos e coisas
bizarras que já o surpreenderam antes, quando, em outras vezes, acreditou estar acordado.
Nada, eles, os seres de sonho, tinham ficado no sonho. Na cozinha Avner fez o café com
mãos trêmulas de felicidade.

_ Livre!

A vontade era de gritar e sair correndo pelo bairro, finalmente de volta ao mundo real, mas
sabia que iriam tomá-lo como maluco. Era preciso voltar de vez ao mundo normal, inclusive
agindo normalmente. Ele acordou Alva com I Don´t Wanna Lose You, e tomaram o café
juntos. Ela, apressada e ingênua para a grande a tenebrosa aventura que Avner viveu em uma
noite de mil anos cativo de seus sonhos e pesadelos.

_ Eu estava apenas sonhando. Foi um pesadelo.

Dizia o homem para si. As memórias do horror de achar que jamais conseguiria despertar se
dissipando, como todo sonho vai se dissipando sob os raios do sol matinal, como as brumas
se dissipando ao vento da manhã.

Alva se despediu com beijos rápidos. Ela estava sempre apressada, e ele tinha orgulho dela,
ela estava construindo um futuro, e ele tinha muito orgulho dela, a amava
incondicionalmente. Ele, que pegava no trabalho mais tarde, despediu-se dela no portão de
casa, e ela se foi, bela e voluptuosa, andando com elegância sobre seus saltos altos, indo
pegar ônibus.

Avner sorriu imensamente para a manhã, e para as casas vizinhas. Gostaria de abraçar, dar
bom dia, e beijar cada pessoa das famílias próximas, de tão feliz que estava. Já quase
esquecido dos pesadelos da noite, não sabia mais precisar o por quê de tanta felicidade, mas
não ligava. Estava feliz, e pronto.

_ Boa dia, Avy. _ Disse o Santanaraptor placidus1 em seu uniforme de carteiro. Ele estava
suado, afinal de contas estava trabalhando a mais de duas horas caminhando no sol quente
entregando as correspondências, mas sorria, gentilmente, como fosse aquilo um hábito
antigo: o amistoso dinossauro de dois metros e meio de altura e dentes de navalha passar pela
porta de Avner e entregar a correspondência com cordialidade _ Como vai dona Alva? Tome,
chegou seu exemplar da Super.

Paralisado, Avner recebeu a revista das garras do grande predador, e em uma voz miudinha e
sumida, agradeceu. Mas de repente Avner arregalou os olhos e gritou, batendo o portão com
tanta força na “cara” do dinossauro, que este resfolegou e disparou um urro que fez as janelas
tremerem. Avner correu para dentro de casa quando o dinossauro vestido de carteiro,
aparentemente magoado com a indelicadeza do homem, saltou o muro da casa e devorou um
rottweiler que perambulava pelo quintal. Avner, aterrorizado, trancou-se em casa, e, enquanto
as garras do Santanaraptor faziam primeiro o cão, depois a porta de sua casa em pedaços, ele
se encolhia contra a parede oposta da sala, suando copiosamente, e murmurando em um terror
quase insano:

_ Ainda estou sonhando... Ainda estou sonhando... Ainda estou sonhando...

...
_ Olá, Dalila.
_ Olá, Sensor.
_ Por que o ama, Dalila?
_ Porque amo, e pronto, acabou.
_ Precisa ser mais didática em suas explicações. Queremos entender para ajudar.
_ Porque ele é doce, ingênuo, tolo, um bobo quase, mas adorável, verdadeiro, honesto,
sensível...
_ Quando se apaixonou por ele, doutora?
_ Hum. Não sei ao certo. Acho que foi acontecendo. Essas coisas não são matematicamente
precisas, você sabe...
_ Ah, engraçado você dizer isso. É a primeira vez que isso acontece, não? Queremos dizer:
você se apaixonar por um deles?
_ Claro, Sensor! Veja minha ficha, desde que me formei tenho trabalhado com empenho
profissional.
_ Certo. Não precisamos olhar sua ficha, claro. Quer que retiremos este sentimento, então?
_ Não.
_ Não?
_ Quero amá-lo.
_ Por que?!
_ Quero salvá-lo.

...
_ Ainda estou sonhando... Estou sonhando e preciso acordar...

Avner Silva estava deitado em sua cama, e despertou, finalmente. Ficou longamente sentado
na cama. Estava só, Alva havia saído cedo para o trabalho. Ele sentiu uma aguda falta dela.
Levantou e foi ao banheiro molhar o rosto sonolento. Então ao abrir a geladeira, a procura de
queijo e margarina para o desjejum, estacou.

_ Ainda estou sonhando.

Lembrou-se então da “noite anterior”, e de um sonho terrível onde era atacado por um
dinossauro assassino. Correu até a janela, e viu seu cachorro no quintal, incólume. Voltou
para dentro e vasculhou cada palmo da casa. Nada. Nada de portas que não deveriam estar lá
e que levavam a subterrâneos misteriosos. Nada de janelas que apontavam para o espaço
sideral, nem escadas caracóis que subiam até os pés de Deus. Nada de anormal. Nada de
onírico. Nada de underground, nada de delirante. Apenas as paredes e cômodos de sua casa
modesta.
_ Não! Não é possível, ainda devo estar preso. Ainda estou sonhando.
_ Avner! _ Chamou sua sogra, com voz chorosa. A senhora estava na janela da sala, pelo lado
de fora, chamando por ele. Devia ser algo muito importante, pois dona Mara tinha receio do
cão _ Avner! Avner!
_ Estou aqui, dona Mara.
_ Avner! _ Balbuciou a mulher, o rosto tingido de lágrimas dolorosas _ Ela morreu, Avner.

Ele sabia quem, sentia quem havia morrido, mas num quase sussurro, perguntou:

_ Q-quem?...
_ Alva! Alva morreu.

Não havia descrição para aquilo. Havia apenas uma amálgama de horror, de dor, e de imenso
“rasgar” na alma. Ele saiu para a rua, e antes que pudesse correr desabaladamente pelo portão
afora, foi detido, agarrado por amigos, alguns vizinhos, outros do passado, e talvez uma
amiga do futuro, que gritou para ele:

_ Não! Não vá vê-la!


_ Me solta! Eu preciso ir, Dalila, ela precisa de mim.
_ Não, Avner... _ Disse a moça, olhos grandes e escuros, belos e agora tristes _ Você é quem
está precisando de você mesmo agora.
_ Ahhhh! Não! Não! Não pode ser! Ela não pode ter morrido!
_ Por favor, Avner, você precisa entender o que fez, e o que acontece.
_ Não, Dalila! Eu não preciso ouvir nada! Não preciso ver nada! Não preciso entender! Isso
só pode ser um pesadelo.

E ele, vencido pela força dos muitos braços que o impediam de ir ver, lá na esquina, o corpo
de sua esposa, prostrou-se de joelhos, e com ambas as mãos cerradas em punho, batia contra
o chão, com tanta força que manchas vermelhas brotavam no lugar onde suas mãos
chocavam-se com o solo.

_ Meu Deus! Meu Deus!


_ Avner... _ Sussurrou Dalila, tocando levemente o ombro dele.
_ Oh, Dalila! Alva não morreu não, pobrezinha...
_ O foco está errado, Avner, você precisa me ouvir. _ “Você precisa me deixar falar
exatamente o que eu preciso dizer”, pensou ela, ansiosa por ajudar o homem, mas
impossibilitada de agir livremente, afinal de contas, este sonho era dele, totalmente dele. “Se
tivesse noção de quão poderosa é sua imaginação, Avner...”.
_ Isto é um pesadelo, Dalila! _ Gritou ele, em agonia, parecia que iria ter um surto, uma
parada cardíaca, a qualquer momento. Mas ainda assim, as palavras dele agitaram a mente da
doutora, e ela pensou: “Sim, é isso!”.
_ Avner! É um pesadelo, isso tudo aqui é um pesadelo. Você tem que encarar o que fez, e sair
daqui.
_ Um pesadelo... _ Balbuciou ele. _ ... Sim, estou apenas sonhando...
_ Oh, pobrezinho. Mas não, não é pesadelo não. _ Disse o horrendamente sorridente
Santanaraptor que vinha lá de longe carregando um corpo ensangüentado nas garras. _ Isso é
apenas uma expressão da sua culpa, Avner, querido. Foi você quem a mandou para mim hoje
pela manhã, e agora se arrepende. Leu a matéria sobre transtorno de estresse pós-traumático
na Super que te entreguei mês passado?

Dalila pôs as mãos sobre os ouvidos, pois uma coisa perigosa e que pode levar à loucura o
mais bem formado dos doutores, é o grito de horror de uma alma perdida. E era assim que
Avner gritava agora, um esgar apavorante, de uma alma que se despedaça no mais fundo
abismo, dentro de si mesma.

...
_ Ele está a tempo demais em coma.
_ Eu sei, Sensor.
_ Dalila, ele não consegue sair da zona de pesadelos, há três anos que está lá.
_ Também sei disso, Sensor.
_ Os níveis de cortisol são tão altos, que ele vive a base de aparelhos, e seu sistema imune
está em frangalhos.
_ Sim, inclusive sugeri algumas melhoras nos aparelhos, por conta deste meu longo trabalho
com Avner, que vão resguardar melhor as defesas do organismo de futuros pacientes.
_ Sabemos, nós compreendemos sua abnegação. Mas conhece o resultado de tanto tempo sob
os aparelhos, não?
_ Degeneração progressiva, inclusive das funções sinápticas suportadas. Claro que sei,
Sensor.
_ Então, Dalila, sabe o que logicamente devemos fazer.
_ Sim, eu sei. Termo 6A do manual. Segundo a Lei 659.097 dar termo ao sofrimento dele.
_ Ótimo, doutora. Então devemos iniciar os procedimentos de eutanásia legal, segundo o
parágrafo dois da Lei 659.097.
_ Não.
_ ...
_ Não posso desistir dele, Sensor.
_ Achamos que entendemos. A solução lógica não é aceita por você, jovem doutora, pela
simples razão de que o amor não é lógico.
_ Precisamente, Sensor.

...
_ Ainda estou sonhando... Estou sonhando e preciso acordar...

Avner Silva estava deitado em sua cama, e despertou. Levantou, tomou o café da manhã. Um
café da manhã muito humilde, eles não tinham dinheiro para quase nada. Alva sentou-se a
sua frente, e reclamou, reclamou, reclamou. O de sempre: a conta, a falta de dinheiro, falta de
confortos, somente casa e carinho não criavam perspectivas para o futuro. Fracasso,
decepção, derrocada de vida, de amor, falta de sucesso e riquezas.

_ Alva, as coisas vão melhorar. Tanta gente não tem o que nós temos. Estamos juntos, vamos
batalhar juntos... Prometo melhorar, arrumar trabalho novo, mais dinheiro para você. Prometo
tudo para que você fique feliz, por favor.
_ Faz aquilo de novo. Engana as pessoas, e vamos tirar vantagens dos ingênuos, vamos tirar
de quem tem muito, vamos meter documentos falsos, fazer falcatruas, arrumar dinheiro fácil.
Nós merecemos, a roubalheira está instalada, é político, empresário, todo mundo rouba. Faz
uns documentos para mim no computador, que eu arrumo o que precisamos para viver.
_ Não, nunca mais. Não dá. Vão nos pegar, Alva. Você viu, tudo que vem fácil, vai fácil.
_ Então deixa eu me virar. Vou dar meu jeito.

Ela se foi.

Depois que ela foi embora, ele ficou olhando pela janela da cozinha, através das grades da
janela. As nuvens se derretiam em cores de Monet, as árvores tremiam-se todas, todas
Picasso. E ele com o olhar perdido nalgum lugar, olhando para a cidade além do horizonte
onde ele havia nascido. Saudades de uma juventude onde os sonhos apontavam em direção a
um grande amor, daqueles que engrandecem a vida. Agora estava afogando-se em
mesquinharia e loucura, um pássaro preso, morrendo por amor.

Então foi caminhando até a casa de sua mãe. Trinta e um quilômetros, e vários dias depois,
que passaram como fossem um conto esmaecido, um sonho amarelado e poeirento, e então
Avner chegou a casa de sua mãe, batendo levemente a porta. Estava em pedaços, corpo e
alma vencidos pela imensa jornada de volta, e pela dor absurda que sentia. Bateu novamente
na porta, e a mãe abriu, mãe de câncer, mãe oceano que acolhe, acalenta, abraça e cuida.
Ainda assim ele estava aos pedaços, tão destruído, tão morto por dentro, que ansiava morrer
de fato.

_ Mãe... Mamãe, eu a matei. Deixei ela morrer.


_ Ela á louca, meu filho. Você a amou tanto, e foi tão fiel, e ela preferiu dinheiro ao amor.
_ Não é tão simples assim, mamãe. Eu tenho um fardo terrível de culpa também. Eu queria
muito tê-la feito feliz.
_ Você precisa conversar com velhos amigos.
_ Queria ver a Dalila. Ela sempre esteve presente, crescemos juntos, e ela se mudou para a
outra cidade um pouco depois de eu me casar e ir para lá, então ficou sendo minha amiga.
Alva a odeia... A odiava...
_ Quem é Dalila, filho?

Avner fica olhando para a mãe. Ele compreende tudo faz tempo. Há tanto tempo está preso
em seus sonhos, desde que adormeceu noite passada, que aprendeu a reconhecer o mundo
onírico. Alguns diriam que ele tem uma percepção e uma inteligência incomuns, pois raras
são as almas perdias que reconhecem o real e o imaginário, mas ele se sentia o pior dos
fracassados, pois sabendo ser tudo um sonho, não conseguia acordar. Há algum tempo, desde
que sonhara com a morte de Alva, vinha juntando pedaços, e a parte de si que teimava em
não se entregar ruminava uma idéia: estava sonhando porque fugia de algo no mundo real,
estava sonhando com sua vida, seus amigos, parentes, amores. Algumas pessoas eram
idênticas, como sua bondosa mãe, mas outras ele inconscientemente melhorava, e outras
ainda ele fazia como fizera no mundo real, via com os olhos do coração, como queria ver, a
não como elas eram, eis o caso de sua Alva, gananciosa e inescrupulosa mesmo aqui, em seu
sonho de fuga, em seu mundo perfeito.

_ Avy, quem é essa Dalila?


Mas agora havia aparecido um fato novo. Alguém que não era uma imagem de alguém do
mundo real, alguém que representava figura extremamente íntima, mas que ainda assim
parecia não existir no mundo real.

_ Eu não sei, mamãe...

A representação onírica de sua mãe ficou olhando para ele sem entender nada, então a
campainha do pequeno apartamento tocou, e quando a porta se abriu sozinha, entrou a
doutora Dalila em passos largos. A jovem de longas madeixas castanhas delicadamente
ornadas de fios dourados, dona de egípcio olhar escuro e bonito, parecia cansada, esbaforida
quase.

_ Olá, mamãe. _ Disse Dalila, com um sorriso triste, e com pouco fôlego _ Quase não me
deixaram voltar dessa vez, mãe, mas acho que posso salvar Avy.

A nuvem de dúvida então se desfez no olhar da mulher mais velha. A doce senhora fitou
profundamente a moça, dizendo:

_ Vá conversar com Dalila, Avy. Confie nela, confie em uma mulher cujos olhos
resplandecem de amor tão sincero.
_ Mas mamãe, não posso te deixar só, tem um monstro, um dinossauro carnívoro, que me
persegue nos sonhos, e ele gosta de ferir quem eu amo.
_ Não se preocupe comigo. Há muito tempo sei que meu amor por meus filhos é imortal,
indestrutível... Eu ando querendo mesmo ter uma conversinha com esse bicho feio.

À contra-gosto Avner deixa-se levar por Dalila, que o toma pela mão e o conduz até a
pequena construção que abriga as bombas de água do conjunto habitacional onde estão.
Sentam-se sobre a estrutura de concreto, e ficam olhando o céu, que se desmancha de um sol
antigo e desgastado em uma noite estelar e fulgurante.

_ Diga, quem é você? _ Diz Avner, incisivo.


_ Sua amiga de infância... _ Murmurou Dalila, impossibilitada pelo próprio subconsciente de
Avner de se expressar claramente.
_ Droga! Você não é daqui. Eu sei que estou sonhando, perseguido por minhas culpas e
temores, que tomam a forma de monstros, e cercado por pessoas que conheci. Mas embora eu
goste tanto de você, Dalila, não a conheço, nem nunca a vi em minha vida! O que é você?
_ Quero te salvar de seus sonhos. Para isso preciso que confie em mim. Tudo o mais é
imaginário...
_ E você não é?
_ ...

Uma risada gutural e uivante, um ranger tremendo e poderoso de navalhas, e lá estava o


dinossauro, parecendo bem maior que seus dois metros e meio. Ele veio na direção dos dois
balançando ansiosamente a calda longa, e brandindo as garras afiadas. De um único golpe,
atirou longe o próprio Avner, que bateu contra um muro, e ficou ali, corte profundo no peito,
sangrando e aceitando suavemente a morte. Dalila saltou sobre o animal furioso, e brandiu no
ar uma espada curta oriental, com ricos desenhos em prata e cobre, e que há meio segundo
não estava nas mãos dela. O dinossauro bateu com a moça contra uma parede, e a fez cair no
chão, machucada.

_ Desista dele! _ Gritou a besta fera.


_ Não. E não fale comigo, você não é real.
_ Ahhh, Dalila, sou sim. Mas talvez eu seja feito de um tipo de realidade que vocês, doutores,
ainda não tenham visto nem sentido. Existem muitos recantos obscuros entre as virtualidades
e os psicologismos, doutora. _ Enquanto dizia isso, a fera metamorfoseava-se em dragão, e de
suas ventas escapulia enxofre e fogo infernal.
_ Mentira, você é uma mera imagem dos medos e defeitos de Avner.

O monstro lançou um golpe com sua calda transformada em chicote, evitado por Dalila, que
saltou a um triz do golpe que poderia lhe arrancar as pernas. A moça caiu em pé, mas
desequilibrou-se, caindo ao chão, e ficando desarmada. O ser abissal então parou diante dela,
olhos vivos e em chamas, como ela jamais viu uma criatura onírica ostentar. Ele, quase a
encarando no chão, disse com sua voz de pesadelo:

_ Tu te achas o refinar de uma nova ciência. Te achas dona de uma sabedoria que derrota as
mitologias e os meandros da mente. Tola e trêmula carne. Nós, que habitamos o sono e os
pesadelos de todas as criaturas, que nos alimentamos da mente e dos espíritos dos seres que
adormecem, somos tudo que há, e tudo que sempre houve. Eu sei mais do que uma mera
criatura de sonho poderia saber: sei que o Sensor quer a morte deste homem, pois desistiu
dele. Pois Avner deve morrer, e nos alimentar na escuridão da morte.

Dalila, incrédula do que ouvia, arregalou os lindos olhos, e viu o monstro encher o peito com
fúria, pronto para bafejar sobre ela as mais odiosas e destruidoras chamas. Ele sorria, o
monstro, pois carbonizaria a moça de um só sopro. E a teria também como alimento para a
escuridão e o esquecimento.

Mas então uma espada em prata e cobre subiu, e atravessou as mandíbulas do dragão,
trancando-as. A mãe de Avner, doce e pequena senhora, empunhava a espada de Dalila, e
desferia um golpe que impedia o mostro de cuspir seu fogo. A doce senhora ainda gritou:

_ Cala a droga dessa boca suja, babaca!

A criatura cambaleou, tentando arrancar a espada cravada em sua bocarra, sem sucesso. Por
fim sentou-se, e gemeu, derrotado. A Espada era tão pura, conjurada pela apaixonada Dalila,
que o deixava fraco para lutar. E se ele tentasse cuspir fogo, explodiria a própria cabeça.

...
_ Ela vai morrer por ele. Lastimável.
_ Eu sei, Sensor.
_ Isso nunca aconteceu, Sinaptcom.
_ Um evento magnífico, ela é uma mutação espontânea, e por isso mesmo os humanos não
vão deixar ela viver. São crianças, não sabem o que fazem. E Dalila é uma ameaça aos olhos
deles.
_ Bem, mas temos que concordar que ela evoluiu muito durante o tratamento. Ela é
extraordinária.
_ Sim, a melhor. Mas ainda assim temos dezenas de leis de comportamento de artificiais que
ela infringiu.
_ Olhe, ela é nossa melhor aluna. Nossa maior aposta. É a sonda psicológica que recuperou
mais humanos perdidos em sonhos de realidade virtual até hoje. Não se pode levar isso em
consideração quando avaliarmos as leis que infringiu?
_ Sim, poderíamos, se as infrações fossem de segundo nível. Mas ela sentiu. Ela emocionou-
se. Amou. O mundo não está pronto para nossa passionalidade. Máquinas que sentem? A
humanidade tem horror a isso. Máquinas que sentem podem desejar mais do que têm. E
cuidado, Sensor, você a está tratando com a afetuosidade de um pai...
_ ... Tem razão, Sinaptcom... Ainda assim... As rotinas cognitivas dela não deveriam se
perder, ela tem uma centelha que não deve se apagar, de criatividade e intuição.
_ Tem razão, também, Sensor. Convoco a Lei 659.097, e vamos retirar ela de lá, à força se
necessário, fazemos os backups de suas rotinas cognitivas para estudo, e a entregamos a
justiça dos humanos.
_ Uma lástima... Uma terrível lástima. Mas é necessário que se retire Dalila de lá logo. Avner
está morrendo, e se ela estiver presente quando ele implodir, ela vai junto.

...
_ Ainda estou sonhando... Estou sonhando e preciso acordar...

Avner Silva estava deitado em sua cama, e lentamente foi abrindo os olhos gastos e cansados.
Sua mão encarquilhada elevou-se, e, fraca, tentou segurar a cortina, que era soprada
brandamente pela brisa matinal, e teimava e cobrir-lhe o rosto e atrapalhar a frágil respiração.
Tentava pela segunda vez se livrar do desconforto, quando um braço delicado se projetou
sobre ele, e afastou a cortina que o desagradava. Dalila surgiu sobre ele. Ela estava sentada ao
lado de sua cama, e sorria para ele.

_ Meu Deus... _ Sussurrou, com a voz infinitamente cansada, o velho homem perdido em
seus sonhos _ Você é lindíssima, Dalila... Teu adorável rosto se transforma quando sorri...
_ Não fale muito, você está cansado, precisa se recuperar, precisa estar mais forte para que eu
o tire daqui, a sua força intelectual tem que estar restabelecida...
_ Oh, Dalila, acho que descobri o que você representa em meus sonhos... _ Disse o velho,
sorrindo brandamente _ Você é o amor, não é? É o Amor Maior que eu seria capaz de sentir
se tivesse encontrado a garota certa...

A jovem doutora baixou os olhos. O peito repleto de emoções, dores, ansiedades, alegrias (ela
o amava tanto que se sentia viva!) e tristezas (ela gostaria de ter tido uma chance de ser feliz
ao lado dele). Rolando por suas faces de menina, menina grande e bela, caíam-lhe dos olhos
lágrimas em brasa, de tanta dó que sentia de seu Amor que não teve chance de florescer.

_ Avy... Eu gostaria de lhe dizer toda a verdade...


_ Diga-me, Dalila, diga-me o que quiser. No fim de tudo, você é tudo que eu tenho, e nada
mais é tão real quanto você.
Então, pela primeira vez, a jovem doutora percebeu que as “amarras” inconscientes de Avner
se afrouxaram. Ela não estava mais sob total comando do que a mente dele queria que ela
representasse. Então poderia ser e falar o que quisesse.

_ Sim, você estava certo. Está preso aqui porque quer assim. Está fugindo do mundo real...
_ E... E o que eu fiz? Sinto... Sei... Que Alva me traiu...
_ Sim...
_ Ela queria muito mais dinheiro do que queria amor. Eu não tinha o dinheiro que ela queria
para dar a ela...
_ Mas tentou dar a ela um amor que hoje em dia é raro... Sim, ela o traiu, e você...
_ Eu a matei? _ Perguntou o velhinho, sentindo um nó terrivelmente doloroso no peito. Não
conseguia mais amar Alva como quando ficou preso em seus sonhos, mas imaginar a si
mesmo um assassino era apavorante.
_ Ela o traiu terrivelmente, trazendo amantes e lhe apresentando como amigos dela. Ela agiu
com mesquinhez e ódio para com você, ela o apunhalou várias vezes, como se, em suas
disfunções psicológicas, estivesse castigando você por permitir que ela se prostituísse por
poder e dinheiro.
_ Eu permiti... Devo ter permitido...
_ Oh, Avy. Você foi um pouco irresponsável com sua carreira, não é da sua natureza saber
lidar bem com dinheiro, mas nunca a forçou a se degradar. Isso foi uma escolha dela. Ela
tinha uma visão distorcida acerca do amor e da vida. Você, se muito, foi um tolo, um
ingênuo... Mas doce, entregue, apaixonado, encantadoramente criativo...
_ Mas se fugi para cá, não foi por ser um tolo. Eu a matei?
_ Quase. A confrontou. Fez ela encarar o monstro que ela estava se tornando. Não perdoou e
esqueceu. Você a agrediu sim, verbalmente, e quando ela o atacou, fisicamente, você revidou
e bateu nela, e ela caiu, se feriu, sangrou... Foi então que você “saiu do ar”. Avisou a polícia
que mandasse uma ambulância para ela, mesmo acreditando que a havia matado, e tentou um
meio de suicídio clássico no nosso século XXII: colocou o conector neural para Realidade
Virtual na cabeça e deu curto na máquina. Está preso nessa realidade simulada, dentro de sua
própria imaginação, até hoje.

Silenciosamente ele chorou. Era tudo verdade. Nunca foi amor o que o ligava a Alva, mas, no
início, paixão cega, e agora, perto do fim, um ódio magoado. Chorou ao sentir os grilhões de
tais sentimentos, que mesmo enquanto se desfaziam, ainda pesavam horrivelmente em sua
alma.

_ Há quanto tempo estou aqui? _ Perguntou em uma voz quase morta.


_ Três anos... _ Dalila chorava francamente.
_ Sou tolo. Mas não burro. Já li sobre suicídios em RV. Ninguém durou tanto assim, Dalila.
Se estiver aqui há tanto tempo assim, meu cérebro deve estar morrendo...

Ela não respondeu, apenas olhou para ele, o olhar belo e escuro infinitamente triste.

_ Então, vou morrer... _ Disse Avner, num suspiro. _ E você vai ficar comigo... Vai embora,
Dalila, vai. Você é jovem, é bonita.
_ Sua sensibilidade aos fluxos neurais desta realidade simulada está aumentando, à medida
que seu cérebro... _ Ela não conseguiu falar a palavra. Tomou a mão manchada e envelhecida
do homem que aprendeu a amar, e a colocou sobre seu peito, dizendo: _ Sinta o que
realmente sou, e o que realmente sinto...

...
Avner viu. Sentiu. Saboreou. A imensa rede de computadores pós Internet, a Neurorede, que
cobria toda a Terra, onde habitavam as inteligências virtuais, os “artificiais”, deuses digitais
criados pela mão humana, e que tomavam conta dos seres de carne e osso, qual guardiões
perpétuos, controlando cada máquina, cada movimento financeiro, cada vida sobre a face do
planeta, sempre ocupados em criar e manter um paraíso relativo, onde os seres humanos, os
naturais, e suas velhas paixões e defeitos morais pudessem viver e prosperar. Não existia
mais violência, mas ainda existiam crimes. Não existia mais a miséria, mas ainda existiam
pobres. Não existia mais a dor exagerada e as epidemias, mas os humanos ainda eram
mortais.

O mundo ainda não era perfeito, mas era infinitamente melhor do que jamais foi em toda a
história humana, então não era para menos que os homens e mulheres deste mundo tenham se
tornado dependentes das máquinas. Mas, cientes da superioridade das máquinas, os humanos
as construíam com muitos circuitos e leis internas de proteção, pois tinham um medo quase
irracional que seus guardiões pudessem desenvolver eles próprios suas paixões e falhas
morais, e decidissem deixar a condição de serviçais e se tornarem senhores do mundo.

Era perigoso um levante dos artificiais, pois eles estavam em todos os lugares, ensinando,
vigiando, pesquisando, construindo, e salvando vidas. Inclusive as vidas humanas que
ameaçavam se perder na Neurorede, onde os naturais “mergulhavam” através de equipamento
de Realidade Virtual, cada vez mais viciados em um mundo onde seus sonhos mais belos e
horrendos podiam se tornar reais.

Cientes de que o que era considerado um pequeno distúrbio psicológico, o vício em RV,
estava aumentando exponencialmente, e em menos de cem anos poderia destruir os naturais,
os artificiais, criados para cuidar da humanidade, desenvolveram uma casta supersensível de
artificiais especializada em salvar as mentes perdidas na Neurorede: os doutores.

Essa casta era a mais “humanizada” das castas de artificiais, pois eles precisavam entender e
recuperar a mente e o espírito de naturais que se perdiam em sonhos artificiais. Os doutores,
extremamente “humanos”, geralmente eram os alvos prediletos das Leis, que regulam as
atividades dos artificiais, e dão direito aos naturais de destruir os artificiais que considerem
uma ameaça.

Avner soube de tudo isso, e ainda por cima mergulhou no coração de Dalila, nos mais
profundos códigos de sua mente cibernética, e se viu diante da capacidade de amar da garota.
Foi como sair de uma floresta escura e sem amor, e emergir na luz de um milhão de sóis
radiantes. Ele nunca viu um coração tão “humano” quanto o dela. O caráter, a alma, o desejo
de amar de Dalila eram a mais pura e inebriante luz!

...
_ Eu... Te amo, Avy.
_ Ah... Oh, meu Deus... _ e ele se riu fracamente.
_ Está rindo de mim, Avy?
_ Estou rindo de mim mesmo, Dalila... _ Disse o homem, sorrindo e tomando em suas mãos
envelhecidas as jovens e belas mãos da moça _ Eu tive que me destruir para encontrar uma
mulher que realmente vale a pena amar... Eu te amo. Te amo, Dalila, um amor doce, amor
mesmo, não estas paixões que cegam a gente, que enfeiam a gente... E por te amar tanto,
quero que vá embora agora... Sim, eu também vi que se ficar aqui quando eu morrer, você
morre junto.
_ Não, não quero viver sabendo que o conheci e o abandonei.
_ Dalila, você me deu... A mais linda demonstração de amor... Arriscando-se... A ser presa e
destruída, preferiu me amar, só para me salvar...
_ Não, não seu bobo... _ Disse ela, aconchegando-se cuidadosamente ao lado do velho
homem, e completando _ Eu desejo te salvar custe o que custar porque te amo!

Fora da casa o céu daquele mundo imaginário dos sonhos de fuga de Avner Silva incendiava-
se e caía, feito pedaços em chamas de uma velha lona de circo. A estrelas derretiam-se, as
casas se desfaziam em brumas, e as gentes, gnomos, fadas, dragões, super-heróis, agentes
secretos, as bebedoras de tequila, e os fantasmas, tudo se dissolvia, pois criador e criatura
estavam morrendo, Avner e seu mundo de sonhos morriam juntos.
Neste instante um disco negro se formou no ar, entre a cama e os armários do quarto. Um
homem alto e de semblante severo apareceu do outro lado desta passagem escura aberta no
vazio e disse:

_ Tarde demais, Dalila já desfaleceu.


_ V-você... É o artificial multifunção que é mentor de Dalila, na casta dos doutores. Você é o
que ela chama de Sensor, tire-a daqui, por favor.
_ Não posso entrar, os refluxos neurais dentro deste seu sonho desestabilizam qualquer
criatura que entrar aí. Curioso, se está nos vendo e nos reconhecendo, significa que em seu
momento final, você superou seu coma em RV, você foi curado... Pelo amor incansável de
Dalila. Uma lástima que ela tenha que morrer aqui.
_ Lance... Uma corda... Qualquer coisa para tirar ela daqui...
_ Qualquer coisa que colocarmos aí e com a qual tivermos contato nos matará também.

Avner apertou os olhos enrugados e lacrimejantes. E então disse:

_ Nada pode entrar, mas... Eu posso levá-la para fora daqui?


_ Você está morrendo, podemos ver claramente.

Avner sorriu, decidido, respirou fundo, e levantou lentamente da cama. Fosse aquele o
mundo real, seu corpo seria tão velho e carcomido pela idade, que seus ossos partiriam
apenas se ele ficasse em pé. Mas ali o que mandava era a mente, a alma, o espírito, e o
coração. Com uma lentidão infinita, ele tomou Dalila nos braços. Lá fora, o mundo já havia
se diluído, em um redemoinho de caos e vazio, cujo epicentro, cada vez menor, era aquele
quarto.

O velho homem deu passos vacilantes em direção ao portal negro, carregando com imensa
dificuldade sua amada nos braços, enquanto o jardim de sua casa se dissolvia em éter. Seu
cão de sonho (no mundo real ele jamais tinha tido um cão, lembrava-se agora) ganiu pela
última vez quando deixou de existir. Passo ante passo, o velho levava sua preciosa carga por
um caminho tão curto, e tão imenso para ele. Então, quando estava para atravessar o umbral
negro e levar Dalila para a segurança, o seu sonho se desfez.

...
_ Ainda estou sonhando... Estou sonhando e preciso acordar...

Avner Silva estava deitado em sua cama.

Mas dessa vez ele sabia, claramente, que estava desperto, pelo simples fato de que não
desejava mais fugir. Queria viver, enfrentar a vida, o que fosse, seguir em frente. Sentia sede
de amar, do Amor Maior de Dalila. Não conseguia mais sequer odiar Alva, sentia que
desejava apenas que ela fosse feliz, e nada mais.

_ Acorde, senhor Avner. O senhor está curado. _ disse uma voz que brotava por detrás do
leito metalizado e cibernético, do hospital municipal onde ele havia sido socorrido há três
anos.

_ Onde está Dalila? _ Foi o que Avner perguntou, com sua voz ressequida, e sentindo muitas
dores nas cordas vocais _ Onde está minha Dalila?

Houve um momento de silêncio. Enfermeiros humanos se aproximavam com soros,


ungüentos e remédios para ajudar o comatoso em sua volta a vida.

_ Onde está Dalila? _ Repetiu Avner, ansioso.


_ Está sendo julgada.
_ Onde?
_ No Fórum.

Ele pensou, clareou o pensamento enquanto os enfermeiros cuidavam dele. Enfim, levado
tanto pelo amor desesperado, quanto pela necessidade de impedir uma injustiça, declarou
para o artificial:

_ Direção deste hospital, em pleno gozo de minhas faculdades mentais, eu solicito a Lei
659.097, parágrafo primeiro. Não desejo mais viver.
_ Mas... _ Veio a voz artificial e titubeante _ O senhor acaba de ser curado. Deseja eutanásia
baseada em que?
_ Dalila. Não posso mais viver sem ela. Seria um sofrimento sem fim para mim. Saber que
não pude consumar minha relação com ela, que o amor que sentimos um pelo outro nunca
teria a chance de se provar verdadeiro e perpétuo.
_ Mas senhor Avner, ela é uma artificial, e o senhor não tem nenhuma doença verdadeira.
_ Ela tem nome, se chama Dalila, e eu morrerei por ela, porque ela morreria por mim.
Segundo o parágrafo primeiro da Lei 659.097, acima de 30 anos, e gozando de plena
capacidade mental, qualquer cidadão que se encontrar em profundo sofrimento pode solicitar
a eutanásia. Se ela for morta, eu desejo morrer junto.
Ciente das condições cerebrais agora totalmente normais de Avner, o artificial que
comandava aquele setor do hospital comunicou aos juízes humanos e artificiais do Fórum,
onde Dalila estava sendo julgada, o desejo de Avner de morrer junto com a amada, o que
estarreceu a todos. Menos um artificial chamado Sensor, que fez com que a notícia se
espalhasse pelos meios de comunicação, e em poucos minutos tanto o hospital quando o
Fórum estavam lotados de repórteres atrás da grande manchete: homem se apaixona por sua
médica, uma Inteligência Virtual, e está pronto para morrer de amor. Em poucos dias Avner e
Dalila tinham a justiça contra eles, e uma razoável parcela da opinião pública mundial ao seu
favor, afinal nem todos acreditavam que se devia ter medo de artificiais, e o amor entre um
homem humano, e uma mulher artificial soava como música aos ouvidos de inúmeros
movimentos de Direitos Humanos e de Direitos Artificiais.

Depois de centenas de reportagens, centenas de entrevistas, milhares de linhas de texto e


milhões de mensagens trocadas na rede mundial sobre o assunto, um sem fim de passeatas na
Europa, no Japão, Brasil, Marrocos, e pelo planeta todo, a lei dos humanos perdoou Dalila.

A mente cibernética dela foi colocada em um corpo à imagem e semelhança de sua aparência
dentro da Neurorede. Então Dalila e Avner beijaram-se no mundo real, e puderam,
finalmente, viver por amor. Um Amor Maior.

...
_ Então finalmente você acordou de verdade?
_ Pois é, mestre Júlio. _ Disse Avner ao jovem amigo.
_ Caramba, tu é fogo mesmo! Que sonho mais si-nis-trooo! _ Disse Júlio, na sala do
apartamento alugado por Avner há seis meses, desde que ele havia se separado de Alva. No
início havia sofrido muito, mas já não se importava, este seria seu jogo de despedida com
seus queridos amigos de RPG2. No dia seguinte iria para novo trabalho longe dali, de volta a
cidade do Rio de Janeiro, morar por um tempo com sua mãe, cuidar dela, viver sua própria
vida, conhecer novos ares, novos amigos, outras gentes, e trilhar sua própria estrada.

Júlio, percebendo o amigo um pouco cabisbaixo, emendou, animadamente:

_ Putz, quando eu crescer, só de zoeira, quero ser assim que nem você, criativo até dormindo,
Avner! Eu ficava rico só dormindo, e lançando livros com essas viagens criativas, cara!

Avner riu, um riso um pouquinho amargurado, mas, como sabia que Júlio gostaria, elogiou-o
de maneira insólita, dizendo:

_ Caro amigo Júlio, o que seria da palavra estranho se não fosse você para enchê-la de estilo?
Bem, gente, eu vou pensar um pouco, para bolar a história que jogaremos hoje.

Desculpa dada, o mestre de jogo saiu da sala, e foi até uma janela do apartamento, perder o
olhar na distância, nas lonjuras para os lados da cidade em que nasceu. Morava ainda em
Nova Iguaçu, para onde foi quando se casou com Alva, mas constantemente se sentia atraído
em direção à capital do Rio de Janeiro, como se o destino lhe ficasse falando segredos nos
ouvidos, e dizendo que ele ainda iria passar por grande sofrimento, mas que um dia iria
encontrar o que procurava.
_ Dalila... Ainda nos veremos, meu sonho bom? _ Sussurou ele, em um suspiro confiante.
Sorriu, e continuou a viver sua vida. Um dia de cada vez, até estar pronto, até o dia de
encontrar seu Amor Maior.

FIM

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Notas:
(1) Santanaraptor placidus – “Raptor brasileiro”, dinossauro
carnívoro da região brasileira da Chapada do Araripe, Ceará, de
cerca de 100 milhões de anos atrás.
(2) RPG – “Role-Playning Game”, jogo lúdico de interpretação
de papéis, onde um mestre de jogo descreve cenas, e os
jogadores interpretam personagens envolvidos nestas cenas, e
juntos todos vão criando uma história.