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ZERO HORA | GERAL PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 16/07/2002 | 35

PM milita pela causa gay “


GENTE Integrante da BM reivindica a aceitação de sua homossexualidade O que eles dizem
Leonel Lucas Lima, presidente da
Associação dos Cabos e Soldados da Brigada Militar
“Desconheço evidências de homossexualismo dentro
da corporação. Em princípio, não temos preconceito.”
ADRIANA FRANCIOSI/ZH

Coronel Geraldo Coimbra Borges, oficial da reserva


“No meu tempo, isso não era permitido. O caso de
“ Sempre respeitei
a minha farda
homossexualismo era submetido a um Conselho de
Disciplina. Se comprovado, era excluído na hora. Eu

” entendo como sendo um problema glandular ou um


vício, e ambos os casos são tratáveis.”
Coronel Cairo Camargo, presidente da Associação de
Oficiais da Brigada Militar
“Não vemos com tanta admiração uma situação
dessas, mas o direito precisa ser preservado. Partimos
do princípio de que cada um tem sua opção, inclusive
sexual, e que ninguém deve ser prejudicado no seu
trabalho por causa disso.”

Dedicação: o soldado João Carlos, cuja residência ostenta a bandeira do movimento, serve à corporação há 22 anos
NAURO JÚNIOR, BANCO DE DADOS/ZH – 14/07/02
CAMILA SACCOMORI
– Sou respeitado lá
dentro, e respeito o ser-
O soldado João Car- viço que eu faço. Jamais
los de Souza, 39 anos, pensei em trocar de pro-
tem dois nomes de fissão – conta o soldado,
guerra. que aprendeu o ofício
Nos fichários da Bri- com a mãe quando
criança.
gada Militar, para a Aos 25 anos, assumiu
qual presta serviço há a opção sexual perante a
22 anos, é João Carlos. família. O pai já havia
À frente de uma enti- falecido, e o sonho da
dade por ele fundada mãe era ter um filho far-
em Alvorada, é conheci- dado.
do como Lilica. – Meus seis irmãos são
heterossexuais, e ne-
oão Carlos, ou Lilica, nhum deles deu essa ale-
J como é mais conheci-
do na corporação de 165 Apoio:
gria para ela. Já eu, ape-
a mãe de Lilica (E), Maria (C), foi a Pelotas com ele sar da discriminação de
anos, milita a favor da algumas pessoas, sou um
causa homossexual. No domingo tas fechadas, ele disse que iria me grande motivo de orgulho para ela
passado, foi um dos destaques da transferir para o Interior, pois a – conta, emocionado.
parada gay de Pelotas, realizada na minha conduta não condizia com A mãe o apóia, a ponto de parti-
“Avenida da Diversidade”. Acom- a política militar – afirma o solda- cipar a seu lado de eventos como a
panhado da mãe, Maria, 74 anos, do, que denunciou o caso à Co- Parada Gay de Pelotas.
divulgava a organização não-go- missão de Direitos Humanos na – Me diziam que era doença,
vernamental Se Ame – Movimento Assembléia Legislativa. que eu tinha de levar o meu filho
pela Livre Orientação Sexual. ao médico para curar. Não conse-
Criada em outubro de 2000, a en- O soldado atua como guia acreditar. Mas, desde que não
tidade não tem fins lucrativos e a- cozinheiro do Palácio roube e não assalte, ele não está
tua em defesa de gays, lésbicas e Ele aguarda o resultado do pedi- fazendo nada de errado. Então, eu
simpatizantes, o grupo GLS. do, feito ao deputado federal Mar- tive de aceitar – diz Maria.
– O Se Ame foi criado por eu cos Rolim (PT), de retirar a pala- O PM está solteiro no momento,
ser policial militar, estar há anos vra “pederastia” do Código Militar depois de nove anos junto com um
na corporação vendo o que acon- e do Código Penal. A ONG luta homem por quem admite ainda
tece dentro dos quartéis, sem ter a também para incluir a livre orien- nutrir amor. Lilica mora numa ca-
vida respeitada. Sempre respeitei a tação sexual dentro do código dis- sa simples em Alvorada, com duas
minha farda. A minha ficha dentro ciplinar da Brigada Militar. amigas homossexuais e pretende
da Brigada é limpa. Comecei o Já integrou a Polícia de Choque, permanecer na Brigada até ir para
movimento para mostrar que a mas não em confrontos e sim co- a reserva. Seu sonho é seguir lu-
profissão tem de ser afastada do mo cozinheiro. Desde 1998, de- tando contra o preconceito dentro
relacionamento. Entre quatro pare- sempenha a mesma função no Pa- da corporação.
des e com a pessoa que eu vivo, só lácio Piratini. Serve almoço e jan- – Eu queria que todos os poli-
compete a mim e a ela a nossa tar para o governador, a primeira- ciais militares com a mesma op-
convivência – afirma. dama e convidados. Conta que até ção sexual que a minha se juntas-
A luta de Souza pelo fim da dis- mesmo Olívio Dutra o chama pelo sem ao movimento e mostrassem
criminação de sua homossexuali- apelido, Lilica, recebido logo no a cara para a sociedade. Não é
dade dentro do quartel é antiga. início da carreira militar por causa porque somos homossexuais que
– Já sofri diretamente ameaça de do filme Pixote, a Lei dos Mais vamos perder a dignidade de usar-
um superior. Numa reunião a por- Fracos. mos farda – discursa.