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MIRELLA 05 ALGUÉM COMO VOCÊ PHOEBE GALLANT O encontro com 1 homem que fez sacudir a

MIRELLA 05 ALGUÉM COMO VOCÊ PHOEBE GALLANT

O encontro com 1 homem que fez sacudir a vida de Allie e a fez pensar que promessas de felicidade podiam não ser só promessas! Alison Mills leva 1 vida confortável e feliz ao lado do marido bem-sucedido. Seus 4 filhos estão crescidos e ela acaba de inaugurar um negócio junto com suas duas melhores amigas da época de faculdade. Mas, de repente, a vida de Allie se transforma drasticamente com a morte do marido e ela precisa se mudar para o Arizona. Quando acha que não há mais razão para ser feliz, Allie conhece um charmoso guia turístico que a convida para fazer uma excursão pelo Grand Cânion e pelas águas do rio Colorado. A magia está no ar, e Allie percebe que aquela é sua grande chance de recomeçar uma vida nova. Mas será que conseguiria amar novamente?

Copyright © 1994 by Phoebe Gallant Originalmente publicado em 1994 pela Kensington Publishing Corp. PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY. NY-USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas.

Terá sido mera coincidência. Título original: With Someone Like You Tradução: Mayza Bernardelo Editora e Publisher: Janice Florido Editora: Fernanda Cardoso Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maldonado Paginação: Dany Editora Ltda. EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Rua Paes Leme, 524 - IO 2 andar CEP 05424-010 - São Paulo - Brasil Copyright para a língua portuguesa: 2005 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA. Impressão e acabamento: RR DONNELLEY

Terá sido mera coincidência. Título original: With Someone Like You Tradução: Mayza Bernardelo Editora e Publisher:
Terá sido mera coincidência. Título original: With Someone Like You Tradução: Mayza Bernardelo Editora e Publisher:

Prólogo

Bermudas, Junho de1979

Por entre a espessa cortina de cabelos castanhos que lhe caíam sobre as faces, Alisòn observou as mãos elegantes e másculas tocarem-lhe a ponta do nariz. No instante seguinte, dedos longos mergulharam por entre os fios de seus cabelos e traçaram uma linha sensual da orelha até o queixo oval, antes de contornarem-lhe os lábios com movimentos circulares e ter- rivelmente sedutores. Um fogo intenso a consumia internamente. O desejo impregnava todas as células de seu corpo, fazendo-a vibrar no compasso frenético da paixão e sensualidade. Céus, como aquilo era bom! Que sensação maravilhosa era poder estar casada e entregar-se inteiramente aos anseios de seu corpo e às carícias do homem a quem amava de todo coração. Lânguida, gemeu e encostou-se mais em Charles. Tinham ficado a tarde toda na areia da praia deserta, inebriados um pelo outro e tendo a paisagem do local paradisíaco como cenário do momento mais especial de suas vidas. Amaram-se e amaram-se, tocaram-se com desejo e satisfação, conhecendo-se tão intimamente como nunca haviam feito antes, arqueando-se quando a chama da paixão incendiava-lhes as entranhas para logo depois caírem exaustos e inebriados de amor nos braços um do outro. Entre um momento de êxtase e outro, nadavam um pouco no mar turquesa, depois voltavam a estender-se sobre a areia quente e fofa, rindo, beijando-se e fazendo planos para a vida que estavam começando juntos. Aliás, para Alison o casamento só foi parecer real, e não um daqueles sonhos maravilhosos que sempre tinha, quanto entraram no avião que os levaria para o Arquipélago de Bermudas e retiraram os grãos de arroz que ainda traziam nos cabelos. Rindo, tomou as mãos de Charles entre as suas e as conduziu até a curva generosa de seus seios, insinuando-se para o marido que, no mesmo instante, curvou-se para beijar os mamilos rosados. — Minha noiva querida e adorada! — Charles gemeu extasiado. — Você me amará sempre assim, Charlie? — quis saber ela, sentindo-se flutuar de emoção. — Sim, meu anjo, sempre — prometeu o marido, erguendo a cabeça para fitá-la nos olhos. — Vamos ser um casal muito diferente dos outros. Nosso amor vai durar até a eternidade, nos amaremos e nos respeitaremos até o último dia de nossas vidas. — Oh, céus, espero mesmo que seja assim — murmurou ela, beijando-lhe os cabelos dourados.

— Vai ser anjo. Para começar firmaremos um compromisso de honestidade e fidelidade, diremos tudo o que pensamos um para o outro, sempre com respeito e amizade e jamais esconderemos o que realmente sentimos. — E o que mais? — Teremos quatro filhos, como planejamos — Charles continuou —, um cachorro e compraremos uma linda casa com quintal e um jardim cheio de margaridas, lírios e alamos. Todas as noites jantaremos juntos em uma imensa mesa com vista para o pátio interno e usufruiremos desses momentos em família como nunca ninguém mais fez.

—Isto parece maravilhoso, meu amor. Mas você é advogado e advogados nunca chegam em casa cedo para o jantar — gracejou Allie, beijando-o levemente nos lábios. — Este aqui chegará. E toda noite, após o jantar, lerei uma história para as crianças, contarei história sobre nós, nossos pais, nossa família para que eles saibam exatamente quem são e de onde vêm. Enquanto isso, você poderá tomar um banho de espumas, relaxar e ter um instante só seu. Depois os colocaremos na cama e seguiremos para nosso quarto para nos amarmos com paixão, exatamente como estamos fazendo hoje. — Parece bom demais para ser verdade — disse Allie, enrascando os dedos delicados nos pêlos dourados do peito de Charles. — Vai ser mais do que bom. Vai ser perfeito, anjo. E em troca você só terá de me amar como ama agora. — Isto não será nenhum sacrifício, Sr. Mills. Você é a coisa mais importante que já aconteceu em minha vida — confessou ternamente. — E você é meu anjo que caiu do céu — repetiu Charles pela milésima vez desde que tinham começado a namorar. No princípio hesitara muito em admitir seus sentimentos por Allie, pois além de ser doze anos mais jovem, ela ainda era uma caloura na universidade em que ele fazia mestrado em direito. Porém, à medida que a conhecia o sentimento se intensificava e era quase impossível ignorá-lo. Então, quando teve certeza de que Allie também o amava, confessou seu amor e a pediu em casamento. Tudo tinha acontecido muito rápido, mas os dois não poderiam estar mais felizes. — Um dólar por seus pensamentos! — Allie provocou-o ao vê-lo silenciar por um longo momento. — Estava pensando que agora somos o senhor e a senhora Mills, um casal extraordinário que irá envelhecer junto em uma confortável casa de classe média, cercado de filhos e depois de netos, mas sem nunca deixar que a chama do amor se apague — gemeu, voltando a acariciá-la de maneira sedutora. Allie colou o corpo ao dele e ergueu os lábios para serem beijados. Charles aceitou aquela oferta tão cândida e silenciosa. Segurando-a pelos quadris, trouxe-a para junto de si e lentamente desamarrou os lacinhos do biquíni azul. A pele ainda estava úmida, mas era suave e macia, tão deliciosa quanto o sol dourado que brilhava no céu, tão quente quanto o desejo que o consumia desde a primeira vez que a tinha visto no campus da universidade. Ela era a garota mais linda e delicada que já conhecera em sua vida, mas, paradoxalmente, também era a mais sedutora e charmosa das mulheres com as quais se deparara. Queria amá- la, queria tocá-la com uma profundidade tão intensa e pungente quanto os sentimentos que lhe incendiavam corpo e alma. Alison notou o brilho de desejo surgir nas íris azuis do marido e com um sorriso maroto mordiscou-lhe o canto dos lábios, descendo o beijo ao longo da linha do pescoço, dos ombros

largos, do torso nu e do abdome plano. De repente, ouviu-o gemer e agarrá-la com mais ardor. Charles não podia mais se controlar. Ele a deitou na areia macia e foi sua vez de beijá-la. Beijou-a inteira, dos cabelos castanhos até a ponta dos dedos do pés, com uma sensualidade e destreza que fez Allie arquear-se e enterrar as unhas nas costas bronzeadas e másculas.

Ao sentir que ela estava preparada para recebê-lo dentro de si, segurou-a pelos quadris e mergulhou profundamente no corpo da mulher a quem amava como nunca imaginara ser possível amar. Movimentos rápidos, mãos ávidas, corpos trêmulos, bocas sôfregas a intensificar um beijo que era pura chama e desejo. Por fim, o êxtase, o momento supremo de epifania que apenas os seres humanos mais apaixonados conseguem atingir. Um longo silêncio se seguiu antes de recomporem suas forças e voltarem a falar. — Charlie? — Sim, querida? — Eu te amo ... — Também te amo, anjo. Muito! — exclamou ele, beijando-a na testa e aninhando-a em seus braços fortes como se nunca pretendesse deixá-la sair dali. Mas nunca era muito tempo para alguém driblar os planos do destino ...

Capítulo I

Framingham, Massachusetts Primavera, 2003

E um lindo tom de amarelo, mas não é bem isto que você está procurando, não? — Alison colocou um pedaço de lã verde ao lado do design que acabara de criar para as almofadas da sala de jantar de Sarah Langtry. Cruzando as pernas, esperou que a amiga decidisse. — Por que não? É uma cor alegre. — Sarah era uma das decoradoras mais requisitadas de Framingham, mas quando tinha de escolher algo para sua própria casa costumava ser muito indecisa. Um "caso perdido" segundo ela mesma. — Ah, não me olhe assim, Allie. Qual o problema com o amarelo? — Bem, é uma cor muito forte para ambientes internos e com o passar do tempo vai ficando cansativa. É melhor escolher algo que pareça sempre novo e atual, que não demonstre quan- tos anos de uso tem. — Bah, nem me fale em parecer novo e demonstrar quantos anos tem! — A decoradora fez uma pequena careta e tocou os cabelos recém-tingidos num tom de chocolate intenso. — Por mais que me esforce, os anos são impiedosos, querida. Allie sorriu, mas notou que a amiga estava realmente parecendo mais velha. Sarah tinha emagrecido muito e havia linhas marcantes ao redor de seus olhos e boca. — Se quer mesmo saber — prosseguiu a decoradora em tom de confidencia, não sei se devo me preocupar com estes detalhes. Quem sabe onde estarei daqui a quinze ou vinte anos? — Não diga bobagem, Sarah — recriminou Allie, você só tem quarenta e cinco anos e muito para viver. Além disso, pense em como seria interessante deixar algo para que sua família sempre se lembre de que foi feito por você. Algo que sobreviva à impiedade do tempo. Alguém poderá dizer: veja estas almofadas, foi minha avó quem as bordou, exatamente como digo

daqueles trabalhos ali — falou apontando para algumas amostras de trabalho protegidos por vidro e que agora ornamentavam a parede de seu estúdio. Sarah entortou os lábios. — Você é muito sentimental, minha cara. Mas está bem. Que seja o verde, então. — Vai ficar ótimo em sua sala. As almofadas são lindas e as cores estarão todas em harmonia. — Alison apoiou os cotovelos sobre a mesa de desenho e ajustou a luminária para concentrar- se no projeto. Tinha gostado muito de desenhar as almofadas da nova sala de jantar de Sarah e sentia-se orgulhosa do resultado obtido até agora. Juntas, as duas amigas de mais de vinte anos se debruçaram sobre livros de design e fotografia para escolher o motivo floral que estamparia o trabalho. O tempo que passaram juntas foi muito gratificante, pois puderam rir e conversar despreocupadamente como faziam na época de faculdade ou de recém-casadas. E pensar que agora Sarah estava viúva e Allie e Charles iriam completar vinte e cinco anos de casamento em breve. Os filhos estavam criados e ambas tinham tempo para voltar a se dedicar a seus próprios negócios sem se sentirem culpadas pela ausência. Aliás, esta era uma das grandes vantagens de se chegar aos quarenta, ponderou Allie, você ainda está plena e absoluta física e emocionalmente e a maioria das situações difíceis como filhos pequenos e trabalho já foi contornada de alguma maneira. — Esta é uma das raras vezes em anos que encomendo algo para minha própria casa e não para um cliente — Sarah disse rindo. —Talvez seja porque você tem andado ocupada demais com o trabalho. Deveria parar um pouco e descansar — Alison retrucou, preocupada com a magreza excessiva da amiga. — Manter-me ocupada ajuda a vencer o vazio e a solidão — confessou Sarah. — Não é pelo dinheiro, Allie, você sabe disso. Joe me deixou muito bem amparada financeiramente. Mas preciso fazer algo para me sentir ativa, real, eficiente. Sem meu trabalho sou apenas a velha Sal, mãe de dois belos rapazes e viúva de Joe. Não é isso que quero para mim. Allie observou a expressão no rosto da amiga. Sarah estava viúva há dois anos e todos que a conheciam admiravam-lhe a coragem e a energia. Ela nunca parava, estava sempre envolvida em algum projeto e quando o tempo permitia oferecia jantares espetaculares para manter a casa sempre cheia de amigos. Embora todos a considerassem uma vencedora, Allie sabia que no fundo Sarah se esforçava muito para nocautear o medo e a solidão. — Bem, para mim a velha Sal está se saindo melhor que muita gente — Allie disse. — Olhe a seu redor. Veja os casais que conhecemos. Honestamente, quem tem uma vida que poderia invejar? — Quer dizer exceto você e Charlie? — Tudo bem, exceto Charlie e eu — anuiu, sabendo que seria hipócrita se reclamasse. Sua vida, como todos faziam questão de dizer, era muito boa. Um marido charmoso e bem- sucedido. Quatro filhos adultos, todos morando fora de casa, todos trabalhando e cuidando da própria vida, bons e velhos amigos, o trabalho de design e paisagismo que adorava tanto fazer. O estúdio sobre a garagem e até mesmo uma pequena estufa onde cultivava as mudas para os projetos de jardinagem e paisagismo. Sim, tinha uma vida charmosa e feliz exatamente como Charles prometera em sua lua-de-mel. Era tão feliz que às vezes até tinha

medo. Será que aquilo iria durar para sempre? — Sei que sou privilegiada e agradeço a Deus todos os dias por isso — confessou não querendo parecer afetada demais. — Você merece toda a felicidade do mundo, meu bem — Sarah comentou, tocando-lhe uma das mãos. — É uma das melhores pessoas que conheço. — Ora, Sal. Obrigada. — Por falar em merecer, como vão os negócios? — Muito bem. Graças a suas indicações tenho dois novos jardins para fazer. Um é para aquele casal da Maple Avenue. Eles querem um jardim todo branco. Um desafio e tanto para minha imaginação. — Quando fiz a decoração da casa também quiseram todas as paredes brancas e um estilo mais anos sessenta. Quer-se saber, não entendo como Lucy conseguiu lhes vender aquela casa. Não combina com a personalidade deles. — Pois eu ainda não vi uma casa que Lucy não consiga vender, estando o mercado em recessão ou não — ponderou Allie. —Por falar nisto, Lucy deve chegar a qualquer momento. Terminamos aqui, não? Vai ser o verde mesmo? —Sim, você venceu. Apenas me passe uma tela de cada vez para bordar. Acho que vou começar com os lírios — Não vai arrepender-se de sua escolha. Ficará lindo. — Sei que ficará, suas criações são maravilhosas, querida. Acho que é por isto que, das três, é a que está ganhando mais dinheiro — gracejou Sarah. — Ah, não é verdade. Além disso, fizemos uma promessa de nunca nos compararmos — apagou a lâmpada e pegou uma das sacolas de plástico com o logo da Busy Hands para colocar as telas que Sarah iria bordar. Aquelas sacolas eram uma indulgência, mas Charles a encorajara a fazê-las. Aliás, Charles sempre a encorajava a fazer as coisas e em noventa e nove por cento das ocasiões ele estava certo. Com as sacolas não fora exceção, suas clientes as adoravam e as carregavam para todos os lugares, o que aumentava a visibilidade de seu negócio, numa espécie de marketing silencioso, mas eficiente. Ainda conversando, as duas mulheres deixaram o estúdio e seguiram para o pátio que havia junto ao jardim, nos fundos da casa. Alison passou um braço carinhosamente por sobre o ombro de Sarah. — Está se saindo muito bem, querida. Tenho muito orgulho de você e Lucy. Há vinte anos, quem poderia imaginar que nos tornaríamos mulheres de negócio? — Sim, mas confesso que eu nunca conseguiria fazer seu trabalho. Tanto tempo parada e desenhando, confinada em um estúdio! — Ora, eu também jamais seria capaz de fazer o seu. Dizer às pessoas que tipo de colcha combina com o papel de parede, tentar dissuadi-las de usar o aparador horrível que foi de seus avós, falar polidamente que certas escolhas são um verdadeiro desastre. Ah, não, impossível para mim! — Bem, ainda assim é melhor do que o trabalho de Lucy. Pode imaginar mostrar casas o dia inteiro para pessoas que só querem ver e não comprar? É como se fosse um zoológico, minha cara. Eles vêm olhar a jaula e algumas vezes os animais estão dentro. Mas Lucy sabe exatamente como lidar com isto. — Acho que o segredo do sucesso é o entusiasmo dela. Isto faz com que os clientes acreditem que tudo em suas vidas vai ser maravilhoso na nova casa, e na nova vizinhança. Lucy é capaz

de fazer com que uma dessas mulheres chiques da sociedade acredite que está comprando tudo o que suas amigas gostariam de ter. — Sim, então eu decoro a casa para que elas possam ter as fotos estampadas nas revistas de decoração mais famosas da cidade, na Town & Country, por exemplo. — Claro, e a foto da capa da revista será tirada no jardim que eu projetei para a tal madame

— Allie entrou no espírito da brincadeira. — Ah, e não se esqueça do cachorro. Certamente ela terá um lindo cãozinho sentado em seu colo, cheio de lacinhos e tudo o mais. Como se aquela fosse sua deixa para entrar em cena, o Fox terrier de Allie veio correndo e latindo ao encontro delas. No mesmo instante, Allie levantou os olhos e viu que um carro acabava de estacionar em frente a casa. Lucy King chegara. Como sempre, ela tocou a buzina demoradamente a fim de anunciar que estava ali. Primeiro ouviu-se o som da porta do automóvel abrindo e fechando e depois uma voz alta e firme:

— Olá, meninas — saudou a corretora de imóveis juntando-se a elas no jardim. Os cabelos tinham começado a ficar grisalhos antes dos trinta anos e agora estavam quase totalmente brancos o que juntamente com as bochechas rosadas lhe conferia um ar matronal e confiável. — Ah, não deixe minhas filhas a ouvirem nos chamando assim, querida — Allie falou bem-humorada. — Meninas são apenas para as que ainda não têm vinte anos. — Jovem senhoras, então — Lucy colocou a agenda sobre a mesa de ferro fundido, protegida pelo guarda-sol listrado de verde e branco, num motivo que combinava com as almofadas das cadeiras altas. As três se acomodaram ali, sorrindo exatamente como haviam feito no primeiro dia de aula na faculdade, há mais de vinte anos. — Pensando bem, senhoras é coisa para velhos. Nós não somos velhas. Estamos na plenitude de nossas vidas -— reconsiderou Lucy. — E hoje vamos ter um de nossos almoços só para garotas, certo? — Certíssimo! — Allie curvou-se e abraçou levemente a amiga. Nos últimos anos, Lucy havia ganhado peso e abraçá-la era como abraçar um travesseiro macio e aconchegante. Ela cheirava a lavanda e pó de arroz. De seus braços pendiam pulseiras de aro dourado e ninguém mais, a não ser Lucy, ainda usava vestidos florais em azul e branco do catálogo da Talbot. Apesar disso, Lucy King era uma das pessoas mais carismáticas que Allie conhecia. Ela nunca havia se casado, o que era quase um fenômeno para mulheres da geração delas, mas estava sempre feliz e bem-humorada, como se a solidão jamais tivesse ousado bater em sua porta. — Agora vocês duas fiquem aqui admirando meu jardim que vou buscar nosso almoço, certo? — Com movimentos rápidos, Alison foi até a cozinha e trouxe uma jarra de chá gelado e alguns copos para as amigas se refrescarem. — Não devo demorar nem cinco minutos, ok? E tratem de não falar mal de mim enquanto estou lá dentro dando o máximo para alimentá-las gracejou. — Ah, não falaremos — prometeram as duas mulheres em coro, exatamente como faziam na faculdade. Rindo, Allie rumou para a espaçosa cozinha. Ao parar diante da pia, viu seu reflexo na janela envidraçada.

Ninguém seria capaz de imaginar sua idade. Os cabelos castanho-dourados caíam em um tradicional corte Chanel na altura do queixo, a pele era clara e lisa, sem rugas ou vincos, e os olhos tinham o mesmo brilho e vivacidade da adolescência.

Embora nunca tivesse sido dada a fazer exercícios físicos, gostava muito de caminhar e cuidar do jardim, o que a ajudara a manter um corpo esguio a despeito das três gestações, uma de gêmeos. A cintura continuava fina, os seios eram pequenos e firmes, e os quadris insinuantes, exatamente como Charles gostava. Ah, Charles! Eles ainda faziam amor com a mesma paixão do início do casamento. Allie adorava sentir o marido tocando em seu corpo, beijando seus mamilos, acariciando-lhe os qua- dris antes de consumarem o ato do amor, com o passar dos anos e com a experiência, só fora se tornando melhor e melhor. Ela riu para o próprio reflexo ao imaginar que naquela noite colocaria uma das lingeries insinuantes que o marido apreciava e eles fariam amor até perder o fôlego. Só de pensar o sangue correu-lhe mais rápido nas veias e o coração bateu descom- passado. — Alison Mills, você não toma jeito! — ralhou consigo mesma procurando se concentrar no que viera fazer ali. Uma das boas coisas da maturidade era saber que havia tempo para tudo, havia tempo para amar e ser amada, mas também havia tempo para indulgências como um bom almoço com velhos amigos. Dando um longo suspiro, rumou para a geladeira. Jeepers, o temer da família, pulou em suas pernas e começou a grunhir de maneira engraçada. Allie acariciou a cabeça do cãozinho. — Já sei, está na hora de seu biscoito — falou, pegando um biscoito da jarra e colocando na boca do animal que, feliz da vida, pegou seu quitute e foi saboreá-lo no tapete da sala de estar. Rapidamente, Allie tirou a salada de galinha que preparara no início da manhã da geladeira e colocou-a sobre o balcão, juntamente com um pouco de molho provençal, salada de alface com croutons e uma cestinha com pão italiano fatiado. Colocou tudo em uma bandeja e estava começando a seguir em direção às amigas quando se lembrou de que havia se esquecido de pegar o suco de limão e azeite que deixara preparado para Sarah. Afinal, com seu fanatismo por regimes, Sarah jamais comia salada se esta não fosse temperada apenas com limão e azeite. — Como se ela precisasse se preocupar com o peso! — murmurou, mais uma vez aflita com a magreza excessiva da amiga. Enquanto considerava se havia algo que pudesse fazer para ajudar Sarah, seguiu pelo corredor e depois pelo caminho ladrilhado que levava até o jardim de lírios e margaridas, cercado por árvores frutíferas e alamos. O sol brilhava altaneiro no céu azul e sem nuvens. Allie podia ouvir os pássaros cantando ao fundo e Jeepers ronronando bem perto dali. Ela e Charles moravam naquela casa há vinte anos. Era a casa de seus sonhos, tinham poupado muito para comprá-la. Quando os dois primeiros filhos nasceram moravam numa casa pequena e apertada, e Allie ainda estava terminando a faculdade, depois, conforme as coisas melhoraram, começaram a procurar o lugar onde viveriam o resto de suas vidas. Saíam todos os finais de semana para olhar imóveis, mesmo quando ainda não tinham como arcar com o custo da casa que desejavam. Para eles, esta era um forma de manter o sonho bem vivo e lutar para conseguir concretizá-lo. Então, quando finalmente encontraram aquela casa nos subúrbios de Framingham, Allie soube que era ali que desejava morar e Charles concordou de pronto. Eles fizeram loucuras para consegui-la. E, graças aos céus, tudo dera

certo!

Claro que não ficaram isentos de pequenas dificuldades, mas todas contornáveis, como o fato de não haver banheiros suficientes para atender às necessidades de quatro adolescentes com hormônios à flor da pele. Por fim, quando uma a uma as crianças tinham ido embora para a universidade, a casa começou a parecer grande demais, restando apenas Jimmy, o caçula, o mais tranqüilo e romântico de seus filhos, o único que não ligava o som no último volume ou tocava instrumentos barulhentos. Agora até mesmo Jimmy tinha partido para cursar Engenharia em Dartmouth. Ela e Charles estavam vivendo como recém-casados outra vez, perambulando pela casa sem roupas, comen- do lanches em bandejas diante da lareira ou passando tardes indolentes deitados nas espreguiçadeiras do jardim. E, o mais delicioso de tudo, podiam fazer amor em qualquer lugar e mesmo sem precisar trancar a porta do quarto ou temer que um dos meninos os interrompesse. De súbito, uma nuvem escura cruzou os pensamentos de Allie. Sua única preocupação era com a saúde de Charles, ele andava meio abatido e temia que o enfisema pulmonar que o acometia estivesse piorando com o passar dos anos. — Não! — exclamou com mais veemência do que o necessário quando Jeepers tornou a pular em suas pernas, trazendo-a de volta à realidade. — Não vou lhe dar mais um biscoito, mocinho. — Sabia que não adiantava se preocupar tanto, pois Charles iria ver um médico naquela tarde e logo saberiam qual era o verdadeiro progresso da. doença. Sua vida sempre lhe parecera tão perfeita, tão distante dos grandes problemas que às vezes temia que o pior ainda estivesse por vir. O terrier latiu novamente como se quisesse tirá-la daquele instante de reflexão. — Ok, menino. Vamos deixar isto para mais tarde — sorriu e aproximou-se das amigas tentando parecer o mais tranqüila e natural possível. — Aqui está, senhoras — falou colocando a bandeja sobre a mesa e começando a distribuir os pratos e talheres. — Adivinhem só o que teremos? — Nem preciso adivinhar — Lucy fez uma careta. — Conhecendo vocês duas como conheço, posso jurar que é algo leve e que depois vou precisar chegar a casa e comer novamente. — Não seja injusta, fiz minha salada de galinha predileta — Allie retrucou, sabendo muito bem que embora Lucy estivesse dizendo a verdade sobre almoçar novamente, ela jamais tivera intenção de ofendê-la. — Ora, você também deveria começar a se preocupar com sua aparência, Lu. — Sarah comentou com a intimidade que só velhos e verdadeiros amigos podem ter. — Tem ganhado muito peso, o que é uma pena, pois ... — Tem um rosto tão lindo e olhos maravilhosos! — Lucy completou a frase pela amiga com um largo sorriso. — Desistam. Gosto de ser gordinha, não tenho nenhum osso me incomodando ou marido ranzinza me cobrando para estar em forma. Também não tenho qualquer problema com os ponteiros da balança. Você sim é magra demais, Sarah. Aquilo soava como elogio aos ouvidos de Sarah. — Claro e me esforço muito para continuar assim. Allie serviu-se de uma generosa porção de salada de galinha e tentou mudar de assunto. — Então, o que há de novo? — Bem, acho que consegui um comprador para aquele mausoléu da Woodmont Street — Lucy contou orgulhosa. — Cruzem os dedos, meninas. Mais uma comissão generosa e

poderei bancar minhas férias deste ano.

— Lucy vivia em um pequeno apartamento no centro da cidade e guardava cada centavo que ganhava para suas férias anuais, em geral, cruzeiros por lugares exóticos. No ano anterior ela tinha ido à Grécia, antes tinha ido à Antártica para ver pingüins. Também já tinha visitado o Marrocos e todas as ilhas do Caribe. — Quero ir para o Peru este ano, meninas — confidenciou a corretora de imóveis. — Ou quem sabe para o Himalaia. E desta vez Sarah virá comigo, não, meu bem? Sarah apoiou o garfo sobre o prato. — Vamos ver. É possível que sim. — Que idéia maravilhosa! — empolgou-se Allie. — Vocês duas viajando pelo mundo, livres, leves e soltas. — Não é bem assim — Sarah a contradisse. — Não sei se minhas finanças me permitirão gastar tanto dinheiro em um cruzeiro. Preciso pensar bem no assunto. — Ah, você se preocupa demais, Sal! — Lucy falou, devorando um pedaço de pão com a satisfação de alguém que amava comer. — Existem opções para todo tipo de bolso. Das mais caras às mais baratas e nós podemos ir a uma que tiver um preço mais acessível. — Bem, nesse caso não sairemos de Massachusetts — Sarah argumentou com uma nota mais aguda em sua voz. Allie e Lucy se entreolharam reconhecendo aquele tom mordaz dos tempos de faculdade. Estava na hora de deixar o assunto de lado. — Desculpem meninas — Sarah deu um longo suspiro. — Gosto daqui. Quem sabe no próximo ano eu decida viajar, mas agora tem coisas mais urgentes me preocupando. Não quis se rude com vocês. — Não mesmo, foi apenas muito suco de limão nesta salada de folhas que a azedou — Lucy não resistiu à tentação de provocá-la. — Pare de pegar no meu pé, Lu — Sarah replicou, mas desta vez estava sorrindo. — Ouça bem, tive uma idéia que pode mudar nossas vidas. O que acham de nos associarmos? Trabalharmos as três juntas. Falei com meu contador sobre isto e ele concordou que seria econômica e fisicamente viável. Allie ouviu uma sirene de alarme ecoar em seu cérebro. A Busy Hands era um negócio só dela. Como poderia dividi-lo com mais alguém, mesmo se fosse com suas melhores amigas? — O que acha disso? — perguntou, voltando-se para Lucy e tentando disfarçar seu desconforto. — Assessoria imobiliária, decoração, paisagismo, design personalizado. Tudo que as emergentes de classe média alta procuram em um só lugar, uma só empresa. Lucy já tinha tirado sua agenda eletrônica da bolsa e começava a se preparar para anotar algo. — Acho que é uma idéia danada de boa! Mas como faríamos, quero dizer, dividiríamos os lucros e prejuízos? Sarah pressionou os lábios um contra o outro. — Para ser franca, não entrei em tais detalhes. Porém, acho que devemos adotar um modelo que permita que os clientes possam contratar os serviços individualmente ou em pacote, conforme lhes for mais conveniente. Assim poderemos tanto trabalhar em conjunto como separados. — Seria o ideal — Allie disse, começando a ver a idéia de maneira menos territorialista. — Desta forma poderíamos fazer tanto os trabalhos grandes quanto os pequenos. — E poderíamos ter um escritório de verdade com secretária e tudo — completou Lucy.

— Uau

Devagar com o andor, mocinhas — Sarah as preveniu. — É melhor começar com um

... pequeno negócio em vez de ir com muita sede ao pote. Estive investigando e vi que existe uma sobreloja vazia na Barrow Street, próximo à delicatessen. É um excelente ponto. Não muito caro e perto de tudo. Certo, Lucy? — Sim, você é muito esperta, Sarah Langtry. — Bem, faz algum tempo que venho pensando nisto — admitiu. — Sempre encarei a decoração como algo complementar em minha vida, uma atividade de uma esposa suburbana para ajudar no orçamento doméstico. Mas agora o negócio cresceu muito e, além do mais, estou viúva, não é mais um hobby e sim uma atividade que me sustenta e dá prazer de viver. —E eu preciso de um escritório—Lucy confessou. —Também tenho de aprender a lidar melhor com computadores. Eles podem ajudar muito em meu negócio, mas sou um tecnodon't e tenho medo de nunca aprender a controlar essas malditas máquinas. —Claro que pode aprender—Alison a contradisse. —Charles me ensinou e vive dizendo que é quase como dirigir um carro ou andar de bicicleta:

uma vez que você aprende o básico o resto será uma questão de reflexo e curiosidade. —E verdade, eu mesma aprendi a mexer sozinha. Já comprei até um notebook. — Contou Sarah. — Você comprou? — Lucy e Allie perguntaram em coro. — Sim, e estou tendo aulas para lidar melhor com os recursos que toda essa tecnologia moderna nos oferece. Se nos associarmos, poderemos equipar o escritório com máquinas que facilitarão nosso dia-a-dia e o custo não será pesado demais para nenhuma das três. — Excelente idéia — Lucy foi a primeira a concordar. Embora eu não precise escrever cartas, necessito urgentemente de um fax e de e-mail para enviar e confirmar propostas de compra. — E eu preciso de um software que me ajude a criar design cada vez mais rápido e a guardar cópias de meus projetos com segurança e precisão. — Novamente, aquele alarme territorialista voltou a soar dentro de Allie. Não que a idéia de uma sociedade não lhe agradasse, mas o fato era que tinha trabalhado duro demais para conquistar um nome respeitável no mercado e de alguma forma queria que a Busy Hands continuasse a ser só sua. Mas, como a própria Sal dissera, deveria haver um jeito de trabalhar tanto em sociedade como separadamente. — Por que não marca uma hora com esse seu contador para verificarmos todos os detalhes técnicos da história? — Lucy sugeriu muito empolgada. — Acho a idéia excelente. Para mim seria ótimo. Pode imaginar quantos negócios chego a perder por não ter alguém para atender ao telefone quando estou fora e o celular não funciona?. Sarah sorriu divertida e, de repente, Allie notou que a amiga ficara até mais bonita depois que lhes fizera aquela proposta de sociedade. Certamente, ela estava muito apreensiva e preocu- pada antes de falar com as amigas sobre o assunto: afinal, uma sociedade poderia tanto solidificar uma amizade quanto acabar com ela. Sarah sabia disto muito bem e deveria estar pesando os prós e contras do assunto. — E você, AH? — Lucy a cutucou levemente. — Acha que Charles vai ser contra nossa sociedade? — Não, claro que não. Acho que ele vai adorar. Afinal, sempre insiste para que eu faça algumas inovações e este empreendimento é a cara dele. —Sim, minha querida, você tem sorte. Charles é um príncipe, um príncipe muito inteligente.

— Ótimo. Agora que todas concordamos — Lucy terminou i lc engolir o último pedaço de pão

italiano — podemos ir direto a sobremesa ou será que terei de passar numa loja de doces lambem depois de almoçar novamente? — Já entendi a deixa. — Sorrindo, Allie foi até a cozinha e voltou trazendo uma imensa travessa de pudim de caramelo com calda de chocolate. Durante alguns instantes, elas se concentraram na sobremesa. Até mesmo Sarah, que evitava aquele tipo de iguaria, levou uma generosa porção aos lábios. Era quase como estivessem todas tentando visualizar o futuro e o que ele lhes traria. Mas o futuro a Deus, ou para os céticos, ao destino pertence ... De volta ao estúdio, Jeepers deitou-se aos pés de Allie enquanto ela avaliava alguns projetos ao som de um CD dos Brandenberg. A mesa de trabalho ficava diante da janela envidraçada, com vistas para o jardim que ela mesmo planejara e executara. Aquela era a hora do dia de que Alison mais gostava a hora que sempre tivera só para si, mesmo quando as crianças ainda eram pequenas. Era o momento do pôr-do-sol. Criada como filha única de pais bem mais velhos, Allie tinha tido muito tempo para vivenciar seus momentos de privacidade e para o resto de sua vida aprendera a cultivá-los como verdadeiras relíquias. Quanto mais velha ficava, mais tesouros tinha para recordar, bastava fechar os olhos que era capaz de abrir as cortinas do passado e assistir às cenas mais marcantes de sua vida. Suspirando, ela ajeitou-se na poltrona e tirou os sapatos, deixando que Jeepers se acomodasse junto a sua pele desnuda. Alison, Sarah e Lucy. A bela, a sábia, e a espirituosa. Amigas e, quem sabe, dentro em pouco, também sócias. De uma certa forma sempre tinham sido sócias, haviam partilhado muitas coi- sas, muitos segredos, muitos sonhos, muitos temores, a história de suas vidas inteiras ... "— Você acha que eles já fizeram aquilo?" — Allie sussurrara para Sal depois de ver Lucy entrar no dormitório da universidade com as faces rubras e os lábios molhados após um encontro com o namorado Deke. "— Não sei. Lucy está muito apaixonada por Deke. E eles estão noivos. Pode ser." "Será que é mesmo como diz o poema? Como um foguete que corta os céus, rasga a alma e faz o corpo explodir" — Allie repetira as palavras que lera em um poema e só de pronunciá-las sentia o corpo tremer. "— Um dia descobriremos " — ponderou Sal, olhando mais uma vez para o canto do quarto onde Lucy fitava o teto com ar sonhador. O CD acabou e o silêncio repentino trouxe Allie de volta à realidade. Sim, muito tempo depois Lucy lhe confessara que tinha feito amor com o namorado, uma coisa pouco comum naquela época. Mas, afinal, o que havia de errado em Lucy e Deke terem feito amor? Eles iam se casar e se amavam com loucura. Ninguém tinha dúvida disso. No entanto, o que eles não sabiam naquela época era que o destino tinha outros planos para o casal. Uma noite, alguém batera na porta do quarto delas gritando que Deke tinha morrido num acidente. Lucy entrou em desespero. Precisou deixar a escola e seus pais acabaram por mandá-la morar com os tios num rancho do Oeste. Ela só voltou para casa dois anos depois e nunca mais tivera ninguém em sua vida, jamais se casara, não gerara um filho. Porém, ironicamente, das três amigas Lucy sempre parecera a mais feliz e espirituosa de todas. Ela tivera sua porção de desespero, lutara e não se deixara derrotar. Aprendera a viver com o que a vida lhe dera e por isso Allie a admirava tanto. Era uma lição de vida para os que estavam dispostos a aprender e Alison Mills era uma dessas pessoas.

Capítulo II

Bem — Charles disse, colocando o drinque de lado e batendo levemente nas pernas para atrair Jeepers —, essa é toda a história, querida. Alison respirou fundo e cruzou a sala aproximando-se do marido e sentando-se a seu lado. Carinhosa, abraçou-o pela cintura e recostou a cabeça no peito viril. Podia ouvir o coração de Charles bater descompassado e sua respiração ofegante, o que não deixava dúvida de que fora muito difícil para ele lhe contar tudo. — Arizona? — perguntou, erguendo o rosto para fitá-lo. — O médico disse mesmo que tem de ser o Arizona? — Não propriamente, mas ele deixou claro que precisava ser algum lugar no cinturão do sol. E o Arizona é a melhor opção para mim dentro deste contexto restrito. Na verdade, pouco sei sobre aqueles estados, mas fiz várias pesquisas. O pior é que o médico disse que preciso partir antes de o inverno chegar. —Falta muito tempo para o inverno, querido. Ainda estamos na primavera. — Allie franziu o cenho. — Mas e o escritório, quando vai falar com o pessoal? — Ok, querida, chegou a hora de contar toda a verdade — Charles respondeu dando um longo suspiro. Allie pôde notar o medo que permeava a voz de Charles. Ele tinha muito mais a contar. Naquela noite ficara sabendo que Charles não só tinha uma doença séria e potencialmente perigosa, o enfisema, mas que estava progredindo rapidamente. Tentando se preparar para o que viria a seguir, ela sentou-se ereta e pegou o copo com brandy que estava sobre a mesinha lateral. Levou o líquido forte aos lábios, mas teve dificuldades para engolir. Estava com um nó na garganta. Charles correu os dedos longos por entre os cabelos grisalhos. Estava pálido e tinha um ar cansado. — É difícil para mim, Allie, mas, por favor, não fique brava. Se não contei antes foi para protegê-la. — Tudo bem, então, conte logo o que ainda não sei. Estou com um péssimo pressentimento. — Todo tipo de pensamento torpe cruzou sua mente naquele breve instante de espera: "Estamos quebrados! Não, ele vai me deixar! Ou será que está morrendo?" Este último foi quase insuportável e Alison fez um esforço sobre-humano para bani-lo para longe de sua mente. Com movimentos rápidos, levantou-se e seguiu para junto de Charles. — Desculpe querido, seja o que for lidaremos juntos com isso. Somos um casal extraordinário, lembra? — Brincou, tocando-o de leve nas faces. — Sim, somos, meu bem — Charles anuiu, parecendo mais aliviado. — O que ainda não contei é que sabia disto há meses. Faz tempo que estou indo ao médico e fazendo todos os tipos de exames. Também já tentei diferentes tipos de medicação. Não estava em meus planos me aposentar tão cedo. — É só isto? — Allie insistiu desconfiada. — Sim. Relaxe. O resto é apenas uma conseqüência. Quero dizer, tive de falar com Roger alguns meses atrás. — Você contou a seu chefe antes de falar para sua própria esposa? — Sim. Escute, Allie. Roger queria que eu assumisse um caso muito importante. Eu teria que viajar por vários meses, quem sabe até um ano.

Não poderia aceitar e também não podia simplesmente dizer não ao chefe. Então decidi contar a ele sobre as recomendações do médico. —E o que Roger disse?

— Para esperar e ver o que o médico decidiria. De qualquer forma, sugeriu que eu continuasse na empresa como consultor, pois este tipo de trabalho eu poderia fazer em qualquer lugar, mesmo se precisar me internar numa dessas clínicas de repouso para fazer o tratamento. — Clínica de repouso? — Sim, meu médico sugeriu que eu deveria receber tratamento adequado em uma clínica de repouso. Quero dizer, quando nos mudarmos para o Arizona, deveríamos procurar uma dessas

clínicas. Hoje em dia elas são quase como um resorte

...

Bem, vou precisar de cuidados

médicos porque certamente terei problemas para respirar. Allie sentia como se o chão estivesse se abrindo sob seus pés. Seria mesmo verdade o que estava acontecendo? Não podia acreditar que sua vida perfeita e seu casamento tão maravilhoso estivessem sendo atacados por uma doença impiedosa. — Não gosto da idéia de irmos para uma clínica. Não podemos simplesmente morar em uma casa? — Não, querida, não quero sobrecarregá-la. Na clínica teremos ajuda especializada. — Como se não pudesse mais encará-la, Charles seguiu até a janela e fitou os alamos que dançavam embalados pela brisa suave da primavera. Allie não o seguiu, sabia que ele estava tentando lidar com a doença da maneira mais prática possível. "Ora, ora, Alison Mills", ralhou consigo mesma. "Deixe de ser negativista, isto é só uma mudança. As coisas vão melhorar e Charles ficará bem se estiver num lugar com o clima apropriado!" Naquela noite, quando se deitaram, Charles a trouxe para junto de si e a amou com ternura. Havia uma delicadeza impressionante em seus gestos. Lentamente, ele despiu o robe azul e tirou a camisola de seda de Allie, quase como se quisesse memorizar cada detalhe de seu corpo. Então, recostou a sobre os travesseiros macios e a beijou, primeiro nos olhos, depois no nariz, faces, boca, pescoço, lóbulos da orelha aos poucos foi descendo para a curva generosa dos seios firmes e rosados, tocando-os como se fossem duas gemas preciosas que precisavam ser acariciadas com a ponta dos dedos, beijadas com lábios quentes e úmidos, sugadas por lábios ávidos de amor. As mãos grandes e másculas deslizaram pelo abdome de Allie, traçando um círculo em volta do umbigo e descendo para os quadris e para a parte interna de suas coxas, antes de chegar ao calor úmido de sua intimidade. Allie estremeceu. Após vinte anos, Charles ainda a fazia vibrar de desejo e paixão como no primeiro dia em que fizeram amor. Ele era um amante maravilhoso, sabia exatamente onde e como tocá-la. Quando seus corpos se uniam em busca da comunhão total, as emoções transcendiam tudo o que era huma- namente conhecido, havia um frenesi de desejo e, ao mesmo tempo, uma total complementação de almas. Seus corações pulsavam no mesmo ritmo, seus corpos moviam-se no mesmo compasso e a vida parecia ganhar um quê de eternidade. Instintivamente, Allie e Charles sabiam disso, sabiam que o momento culminante do amor que viviam seria perpetuado para a eternidade, como o brilho de uma estrela cadente que cruza os céus por milhares e milhares de anos antes de mudar seu curso para outro planeta, outro universo, ou, quem sabe, apenas outra dimensão ... Na manhã seguinte fazia menos de cinco minutos que Charles tinha saído para o trabalho quando tocou o telefone. Era Lucy. — As coisas estão caminhando mais rápido do que o esperado, Allie — foi logo dizendo a corretora. — Sal marcou uma reunião com o contador para hoje no final

da tarde. Passarei às quatro para pegá-la, tudo bem? Allie respirou fundo. Depois que tinham feito amor, Charles adormecera e ela passara grande parte da madrugada pensando em como a notícia do agravamento da doença do marido iria afetar sua vida. Um dos pontos mais vulneráveis era justamente a sociedade que Sal e Lucy haviam proposto. Seria quase impossível mantê-la. Afinal, iria se mudar para o Arizona, do outro lado do país. — Lucy? — Allie disse num tom mais sério do que costumava usar. — O que você está fazendo? Quero dizer, está muito ocupada? — Não, claro que não — Lucy garantiu de pronto. Conhecendo Alison como conhecia, sabia que havia algo errado. — Por que uma corretora de imóveis estaria ocupada numa quinta-feira de manhã? Ninguém compra casas numa quinta-feira, meu bem. — Será que pode passar aqui para conversarmos? — Claro. Algum problema? — Preciso conversar com alguém. Lucy estaria lá em menos de quinze minutos, Alison tinha certeza. Ela não iria caminhar naquela manhã. Era muito mais importante conversar com uma amiga. Acertara com Charles que colocariam a casa à venda o mais rápido possível, pois o ideal era vendê-la antes de mudarem para o Arizona. O dinheiro também serviria para pagar a clínica de repouso que o médico de Charles recomendara, em Carefree. — Carefree, Arizona. Parece mais o nome de um desodorante do que o nome de uma cidade — falou consigo mesma, ligando o chuveiro para tomar um banho e esperar por Lucy. De repente, aquilo tudo lhe parecia terrivelmente cômico, ou será que deveria dizer, tragicômico? Allie ouviu uma gargalhada sarcástica escapar de seus lábios. Quase não podia acreditar que fora ela mesma quem emitira aquele som gutural. Era um som duro, áspero, histérico, reconheceu, esfregando o corpo com mais força do que era necessário. Quando desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha de felpa branca ainda estava rindo e chorando. Era como se não pudesse acreditar que seu pequeno paraíso, o mundo dourado em que vivera nos últimos anos, estava desmoronando. Lágrimas rolaram por suas faces durante todo o tempo em que se enxugou e vestiu a primeira roupa que encontrou. Então, quando terminou de pentear os cabelos ouviu Jeepers latir e em seguida a campainha ecoar estridente pela casa toda. Enxugando as lágrimas desceu para atender à porta. — Nossa você está péssima! — Lucy falou com sua franqueza peculiar. Mas Allie não se importou, sentia-se péssima mesma e suas emoções refletiam-se em sua aparência. Usava jeans, camiseta branca e um tênis antigo que já estava gasto demais para ser aproveitado em suas caminhadas matinais. — Certo, antes de qualquer coisa me ofereça um café, mocinha. Você está precisando e eu também. — Lucy entrou no hall e a empurrou em direção à cozinha como se soubesse que ela estava necessitando de ajuda.

Allie serviu duas xícaras generosas de café com creme e sentou-se com a amiga diante da enorme mesa de madeira que tomava boa parte do vão central do aposento. Então, respirando fundo, contou tudo a Lucy. Falou sobre Charles, seu problema de saúde, a recomendação do médico, o arranjo que o marido havia feito no trabalho e sobre a clínica de repouso em Carefree, onde o médico sugerira que Charles passasse uma temporada. — Carefree? — Lucy riu alto. — Parece mais o nome de um absorvente do que de uma cidade

— falou tentando animar o espírito de Allie. — Mas, se está preocupada com a nossa sociedade, não precisa ficar, meu bem. Podemos mandar-lhe os projetos; você os preparará e os mandará de volta. Será até melhor termos uma sociedade. Você poderá se mantiver no negócio aqui em Framingham e Sal e eu seremos seus contatos. Grande parte de seus projetos são feitos para os clientes de Sarah e isto deve continuar assim. Para que existe correio e ; internet se não for para nós mandarmos o trabalho e você de- | volvê-lo com aquela criatividade que ninguém mais possui? De repente, Allie viu uma luz acender no fim do túnel. Lucy nunca saberia o quanto lhe era grata por estar dizendo aquilo. — É verdade. Não tinha pensado nisto, obrigada. Só vou sentir falta de meus trabalhos como paisagista. — Por quê? Acha que eles não têm jardins no Arizona? — Não banque a engraçadinha! — Allie recriminou-a com um sorriso. — Que eu saiba no deserto só tem cactos e pedregulhos. — Isto é o que você pensa meu bem. A tevê coloca um monte de estereótipos em nossa cabeça e acreditamos neles como idiotas que somos. Se eu fosse você, começaria agora mesmo a pesquisar que tipos de planta se dão bem naquela parte do planeta. Lembre-se de que além de um ganha-pão é também uma maneira de se manter viva e ativa. — Você tem razão — concordou, dando-se conta pela primeira vez que nem ela nem Charles haviam recebido uma sentença de morte, eles iriam apenas se mudar para um lugar onde a doença do marido não seria agravada pelo clima úmido e frio. Quem sabe iriam até acabar gostando da nova vida. — Obrigada mais uma vez, Lucy. Você é uma amiga adorável. Mas agora quero falar com a Sra. King, a profissional. — Sou toda ouvidos. — Charles e eu gostaríamos que você vendesse esta casa para nós — Têm certeza disso? — Sim. O médico de Charles nos recomendou que procurássemos ficar numa destas clínicas- rayom. Quero dizer, é um conjunto de apartamentos com clube social e clínica para atender às pessoas com problemas de saúde e a idosos. Eu e Charles conversamos sobre o assunto e decidimos ficar numa destas até ele melhorar e conhecermos bem o lugar. Depois, se tudo der certo, poderemos comprar uma casa no campo. Jeepers vai adorar. O fato é que o clima frio e úmido de Massachusetts está definitivamente fora de questão e teremos mesmo de vender esta casa, por mais que a adoremos. Estava tentando ser prática, mas no fundo sentia o coração apertado por ter de se desfazer do lugar onde passara os melhores anos de sua vida. Olhou ao redor da cozinha antiga que tanto amava. Nunca tinha reformado aquela parte da casa. Era um aposento aconchegante e acolhedor, do tipo que todos adoram e onde se sentem à vontade, mas que os decoradores odeiam. Sarah mesmo já tentara fazê-la redecorar o local várias vezes e Allie sempre se recusara. Agora, certamente quem comprasse a casa iria fazê-lo. — Se quer assim, vou colocar a casa no meu portifólio de venda. Tenho certeza de que não terá dificuldade em conseguir um comprador. Tudo vai depender do preço. — Bem, Charles e eu concordamos que você é a melhor pessoa para avaliá-la. — Falou tristemente. —Escute aqui, bela—Lucy a segurou pelo queixo e a forçou a encará-la. — Você não está sozinha nesta. Sarah e eu somos suas amigas e iremos ajudá-la. Encare tudo como uma mudança, o começo de uma nova vida e não o fim de outra. Vivemos ciclos, querida, você e Charles têm um novo ciclo a começar. Pense bem, eu venderei esta casa. Você

e Charles vão para o apartamento no resort, compraremos um excelente computador para o escritório e nos falaremos todos os dias a respeito de trabalho e dos novos projetos. Tudo dará certo. Tenho certeza. É só ter paciência que as coisas acabam acontecendo, meu bem. Quando Alison olhou para o rosto rechonchudo de Lucy, a amiga lhe pareceu mais bonita do que nunca. Sempre a considerara a mais ponderada das três, mas nunca antes notara o quanto a vida a tornara forte e sábia. Só agora começava a fazer uma idéia do que ela sofrerá com a morte do noivo e como fora preciso lutar para sobreviver. — Escute — a voz de Lucy a trouxe de volta à realidade vamos fazer uma coisa: você adianta o trabalho que tem para fazer hoje e eu vou fazer umas pesquisas de mercado para verificar quanto vale esta casa e depois volto às quatro para apanhá-lo para a reunião com o contador. O que me diz? — Está bem, então. — Ótimo boa menina — Lucy a abraçou e saiu. Alison foi até a janela da cozinha e a viu entrar no cadilaque branco e desaparecer na rua arborizada. Estava triste era verdade, mas seu lado mais racional insistia em que era uma pessoa de sorte, tinha um marido que a amava, filhos ótimos e amigas maravilhosas como Lucy e Sarah que nunca a abandonavam, nem mesmo nos momentos mais difíceis. — Lucy está certa. Preciso pensar em tudo como se fosse apenas uma mudança. O começo de um novo ciclo em minha vida e não o fim ...

Capítulo III

Nicholas Henry segurou firmemente o violão e começou a tocar o último refrão da música. A composição era de sua autoria e aquela era a primeira vez que a cantava em público. Bem, talvez, público não fosse a expressão mais apropriada para descrever seus ouvintes. Estava tocando no happy hour do Sun City Resort Center, em Carefree, Arizona. Era a terceira vez que se apresentava para os moradores do resort e eles pareciam estar mesmo gostando. Sempre que tocava ali aprendia um pouco mais sobre o que realmente lhes agradava e sobre as canções antigas com melodias harmoniosas que permitiam dançar de rosto colado, numa atmosfera de romantismo, estava se tornando cada vez mais rara nos tempos modernos. Eram músicas que a maioria dos moradores do resort costumava ouvir quando jovem melodias ao compasso das quais havia dançado, amado e feito amor. Muitos delas Nick nem conhecia. Era seu pai que o ajudava a escolhê-las e também quem lhe ensinava letra e ritmo. Havia ocasiões em que os ouvintes cantavam com ele ou o acompanhavam com palmas. Em certos momentos, ao final de uma canção, as mulheres choravam e os homens ficavam com os olhos perdido no infinito como se estivessem pensando numa época que ficara para trás. Agora, por exemplo, estavam aplaudindo a balada romântica que Nicholas Henry acabara de compor, A princesa do rio Colorado, com muito entusiasmo. Nick terminou de cantar e passou as mãos pelos cabelos castanho-avermelhado, depois pela barba bem aparada. — Bravo! Bravo! — ouviu-se um grito vindo do fundo do salão. Ele levantou-se, curvou-se levemente para agradecer, depois se postou ao lado da cadeira de rodas do pai. Num gesto carinhoso, colocou as mãos sobre os ombros frágeis antes de girar a cadeira de rodas de forma que ficasse de frente para o resto da sala. Os aplausos aumentaram em volume e intensidade e um homem de longos cabelos grisalhos gritou:

— Bis! Bis! — Cante Red River Valley, por favor! — pediu uma jovem senhora, parecida com Diane Keaton. O mesmo corte de cabelos, o mesmo sorriso contagiante que chegava até os olhos castanho- dourados a ponto de iluminar toda a sala com seu carisma e beleza madura. Nick sorriu embevecido com aquela figura jovial, que parecia deslocada em meio a tantas pessoas mais idosas. O que ela estaria fazendo ali? Não pôde deixar de questionar. Mas então os aplausos e assobios aumentaram novamente e ele precisou erguer as mãos e falar num tom entre brincalhão e carinhoso:

— Não há nada no mundo que eu não faça por vocês, meus queridos, especialmente ... — apertou os ombros do pai num gesto de carinho — especialmente para este jovem cavalheiro aqui, que me deu meu primeiro violão quando eu tinha apenas oito anos de idade. Chet Henry ergueu o rosto para encarar o filho. Orgulho e felicidade mesclavam-se na expressão que pairava sobre as faces enrugadas. — Então, pai, o que acha de atendermos ao pedido da jovem dama de azul? Chet fez um sinal positivo e Nick prosseguiu:

— Vamos lá, então. Senhoras e senhores, Red River Valley, como nos velhos tempos—disse, empurrando a cadeira de rodas do pai até onde estava seu melhor amigo e companheiro de xadrez, Abe Sweeney, antes de ajeitar o violão sobre o joelho. — Você tem um filho e tanto, meu caro! — Nick pôde ouvir o elogio do Sr. Sweeney, enquanto preparava os primeiros acordes da canção. De súbito, o silêncio voltou a imperar no enorme aposento que abrigava quase uma centena de residentes, alguns idosos e outros nem tanto assim. As pessoas chegavam ao Sun City Re-sort pelas razões mais diferentes do mundo. Alguns se mudavam em busca de paz e tranqüilidade, outros para usufruir os últimos anos de sua vida de maneira prática e saudável, pois ali havia uma excelente infra-estrutura, tanto em termos médicos como de lazer. No prédio central funcionava uma clínica com tudo o que havia de mais moderno em termos de equipamentos e recursos. Havia também o salão do clube, onde agora estava se apresentando, chalés com vistas para as montanhas e um enorme edifício que funcionava como flat para aqueles que não podiam ou não queriam se preocupar com as demandas de uma casa. Nick lembrava-se bem de como chegara ali, cinco anos atrás, procurando um local para acomodar seu pai doente. Sua procura fora árdua, pois queria algo que mantivesse a atmosfera de lar, oferecesse opções de lazer, fácil acesso a médicos e a tratamento e ao mesmo tempo fosse muito próximo ao rio Colorado e de Fagstaff, que era seu principal ambiente de trabalho, pois ali possuía um barco e trabalhava como guia turístico da região, organizando verdadeiras expedições que o deixavam fora por muito tempo.

No início Chet Henry ficara deprimido, mas logo fora se adaptando e, aos oitenta anos, deixava bem claro que só deixaria Sunset quando morresse. Um suspiro escapou dos lábios carnudos de Nick e ele procurou se concentrar nas cordas do violão. A canção que a dama de azul pedira era a favorita de seu pai e de sua mãe e ele lembrava-se de tê-los vistos dançando juntos muitas vezes ao longo de sua infância. Talvez fosse por isso que seu coração tivesse sido inundado por uma intensa onda de amor e ternura conforme as primeiras palavras da melodia emergiam de sua garganta:

"— Com alguém como você..." "— Alguém tão maravilhoso e verdadeiro" — ouviu uma segunda voz unir-se a sua. Era uma voz suave e agradável, jovem demais para estar ali. "Encontrarei a verdadeira paz e felicidade" — completaram Nick e sua acompanhante que agora atraía muitos olhares.

Extasiado pelo dueto inesperado, Nick modulou a voz para que prosseguissem em perfeita harmonia.

"— Em algum lugar sob um lindo céu " ... Era a dama de azul. Ela parecia tão bela e delicada cantando, como se as palavras lhe saíssem diretamente do coração, que Nick sentiu um ímpeto de acariciá-la e tomá-la nos braços. A desconhecida estava usando uma blusa branca por baixo da jaqueta azul, cinto de couro, calça jeans e uma faixa azul nos cabelos que, apesar de fora de moda, caía-lhe muito bem. Os seios redondos e firmes movimentavam-se no mesmo compasso da melodia e a cintura parecia ser tão estreita que ele poderia segurá-la em uma única mão. "Vamos construir um lindo e doce ninho de amor em algum lugar do Oeste" — forçou-se a continuar cantando, a despeito do estranho desejo que o acometia. Ora, será que havia enlouquecido? Como poderia desejar uma mulher que nunca tinha visto antes? Verdade que ela parecia bela e indefesa como uma daquelas princesas de conto de fadas. Mas princesas de conto de fadas são coisas em que se acredita na infância e não em plena idade adulta. Quarenta e cinco anos é um pouco tarde para se ter uma recaída, não?, ponderou Nick, preparando-se para os últimos acordes Foi então que uma terceira voz juntou-se a eles. "— E ali esqueceremos o resto do mundo" — concluiu Chet Henry, num tom de barítono muito parecido com o do filho. Quando a música acabou os aplausos soaram ainda mais fortes do que antes. Nick ficou em pé, determinado a conhecer a dona da voz doce e dos olhos brilhantes que despertaram um

desejo há muito adormecido em seu

corpo. .

O mais impressionante era que aquela voz doce e

melodiosa pertencia a uma mulher que não só conhecia a letra, mas também gostava muito de sua canção favorita. No entanto, antes que pudesse fazer alguma coisa, viu a bela dama de azul e a taciturna senhora que a acompanhava saírem apressadamente da sala. A julgar pela aparência de ambas, a mais velha deveria ter sua idade e a bela dama de azul não deveria ter nem quarenta anos. Certamente elas deviam estar ali visitando algum parente como ele próprio. Nick olhou novamente em torno de si, esperando vislumbrar alguma pista que o levasse até a dama misteriosa. — Bis! Bis! — pediram os presentes, mas Nick descartou os pedidos com um leve gesto de mão. — Desculpem senhores, mas a linda dama me mostrou que não posso mais cantar esta música sozinho.

— Falou, curvando-se em agradecimento e começando a deixar o palco improvisado. Tudo em que pensava agora era que precisava conhecer aquela mulher que, de repente, havia ateado um fogo intenso a seu corpo e alma. Céus, e ele nem mesmo sabia quem era ela! O sorriso que havia no rosto de seu pai o deixou mais feliz do que um lindo pôr-do-sol às margens do rio Colorado, pois era quase tão belo quanto os raios dourados do astro-rei se pro- jetando contra as paredes do desfiladeiro e produzindo as mais incríveis nuances de vermelho, dourado e alaranjado. Satisfeito, Nick guardou o violão na caixa aveludada e preparou-se para tomar um chá com biscoito com o pai e seus amigos do resort. Afinal, tinha tempo de sobra agora, pois ainda faltavam dois dias para começar a próxima temporada de verão no rio Colorado. Claro que havia todo o equipamento para checar, o barco para preparar, muita papelada para assinar e revisar antes de se lançar numa aventura pelo rio com pelo menos mais seis pessoas a bordo, porém esta era sua vida agora. Uma vida que

adorava e fazia imensamente feliz, pois além de todas as belezas naturais com as quais se deparava quando estava trabalhando, tinha opção de conhecer pessoas interessantes que escolhiam passar os meses de verão nas águas do rio Colorado, que por vezes eram calmas, e por outras muito turbulentas. Durante o resto do ano podia viajar para os lugares distantes do planeta a fim de fugir do inverno, ou simplesmente ficar em casa e usufruir o aconchego de seu pequeno chalé nas montanhas, a poucos quilômetros do centro de Fagstaff. Quando comprara o chalé o que mais o encantara fora a atmosfera de paz e tranqüilidade que havia ali. Era um chalé pequeno, com paredes pintadas de branco e janelas em forma de arco num belo tom de verde. Uma das coisas de que Nick mais gostava de fazer era estender-se diante da enorme lareira de pedra e ouvir um dos milhares de CDs que havia na estante que ocupava toda a parede principal do aposento. Durante anos a fio ele tinha feito um grande esforço para ser um marido ideal, um bom pai e um excelente analista financeiro, mas apenas sua porção paternal parecia ter obtido um certo sucesso. Ficara casado com Joanie por quase vinte anos, até Mareie ir para a faculdade, e Deus era testemunha do quanto se esforçara para fazer aquele casamento dar certo. Porém, com o passar do tempo ele e Joanie haviam se tornado tão diferentes quanto a água e o vinho:

enquanto ele buscava satisfação nas coisas simples da vida, sua ex-esposa ansiava pela vida em alta-sociedade, vibrava com festas exóticas e com os compromissos infindáveis no Country Clube. Nick gostava de cinema, teatro, Joanie preferia ir a jantares e chás da tarde onde as pessoas falavam mal umas das outras e só se preocupavam com quem estava vestindo o quê. Por fim, o inevitável aconteceu: a separação, e Nick não pensou duas vezes antes de deixar a bela casa para a esposa, largar o emprego de analista e partir em busca de uma vida que atendesse aos anseios de sua alma, uma vida ao ar livre, simples, mas extremamente gratificante. "E vamos esquecer o resto do mundo!", pensou, lembrando-se do último refrão da música que acabara de cantai' junto com a bela desconhecida. Fora exatamente o que fizera ao sair de casa. No início procurou empregos em empresas menores, cidades pequenas e até mesmo em Denver, mas logo percebeu que não era isso que desejava para si. Então, quando um velho amigo o convidara para fazer uma viagem ao rio Colorado encontrou o que realmente estava buscando.

Agora, cinco anos depois, tinha sua própria empresa de turismo, e continuava trabalhando como guia durante as temporadas de verão. O mais importante era que finalmente podia se disser um homem feliz que achara seu exato lugar no mundo. A única coisa de que às vezes sentia falta era de uma linda companheira com quem pudesse cantar rir, conversar e ficar sentado na varanda do chalé observando languidamente até o sol baixar no horizonte e a lua tomar seu lugar, brilhando imperiosa no céu repleto de estrelas. O problema era que essa mulher a quem procurava teria que aceitar candidamente os longos períodos em que ele passava trabalhando no rio. "Ah, acho que estou me tornando um grande machista!", pensou ao perceber o quão exigente estava sendo. Nenhuma mulher no mundo iria aceitar um relacionamento como o que ele estava descrevendo, nenhuma. Involuntariamente, e sem entender muito bem o que estava acontecendo, Nick pensou na bela mulher com quem fizera dueto há pouco. Ela tinha um olhar inteligente, sorriso generoso, e aquela faixa tipo Alice no País das Maravilhas que trazia nos cabelos castanhos lhe conferia um ar de princesa de conto de fadas. Quem seria ela? Será que ainda a veria hoje?

— Você foi ótimo, Nick. — A voz rouca do pai o trouxe de volta à realidade. — O pessoal adorou. Nick riu e levou a xícara de chá que uma das enfermeiras lhe entregava aos lábios. — Obrigado, pai, mas há de convir que tive uma grande ajuda, não? — Sim, uma ajuda danada de boa — Chet Henry confirmou com um largo sorriso. — Quem é ela, pai? Você a conhece? É parente de algum de seus amigos? — Não, não é. Parece que veio aqui para conhecer Sun City, pois o marido, que é bem mais velho, está muito doente e precisa de um lugar como esse para ficar. Marido? Então ela era casada? Nick sentiu como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre sua cabeça. Céus, mas por que a surpresa? Retrucou seu lado mais racional. Uma mu- lher linda como aquela certamente deveria ter um marido, não? O que estava pensando, afinal. Que ela era uma princesa encantada a espera dele, o príncipe que viria montado num fogoso corcel branco? "Bah, estou mais para sapo do que para príncipe! E cheguei aqui montado em um Porsche branco, não em um fogoso alazão", Nick riu de si mesmo, tentando tirar a desconhecida da cabeça mas tendo dificuldades para fazê-lo. A verdade era que nunca antes tinha ficado tão impressionado com uma mulher. — Bem, a festa está muito boa, mas preciso ir andando, pai. Tenho que me preparar para a temporada de verão que começa em dois dias. Quer que o leve até seu apartamento? — Fez a pergunta por educação, pois conhecendo seu pai como conhecia, sabia que ele não se retiraria do salão do clube até que a festa não tivesse acabado. E Chet confirmou suas suspeitas, pois sugeriu que, em lugar de o filho acompanhá-lo, ele é que o acompanharia até o estacionamento do resort. Após se despedir rapidamente das pessoas que conhecia, Nick rumou para o estacionamento, ajudando o pai a manobrar a cadeira de rodas. Assim que passaram pelo pátio da piscina e da sauna, Nick avistou a dama de azul, sua taciturna companhia e a Sra. Pessy, diretora da clínica, uma mulher baixa e roliça que andava saltitando em seus escarpam brancos.

A Sra. Pessy falava e gesticulava ao mesmo tempo, apontando para a enorme piscina em forma de feijão, os guarda-sóis coloridos, as plantas, os bancos de madeira colocados sob as árvores do jardim. Embora o som de sua voz pudesse ser ouvido do estacionamento, Nick não conseguia entender o que estava dizendo. De qualquer forma, ele viu quando seu belo anjo cantante segurou o braço da senhora de vermelho que a acompanhava e após dizer-lhe algo no ouvido riu divertida, parecendo ainda mais bela que antes. Era óbvio que as três mulheres não os tinham visto e, por uma fração de segundo, Nick teve vontade de se aproximar, mas conteve-se, pois se lembrou de que o pai dissera que era casada. Bem, talvez fosse melhor assim, decidiu. "Pode ser que eu nunca mais volte a vê-la e isto não passe de um simples atração momentânea. Você está ficando velho e sentimental Nicholas Henry. Pare com isto ou algum dia as águas do rio Colorado ainda vão tragá-lo para sempre!", ralhou consigo mesmo. No entanto, ainda estava perturbado na hora que pararam diante de seu Porsche branco e se despediu do pai. — Devo estar de volta na última semana de setembro. Enquanto isso, cuide-se, ouviu?

—Pode deixar, você também—Chet Henry retribuiu o beijo do filho, antes de perguntar curioso:

— Tem levado o violão para suas excursões? — Não, prefiro levar a gaita, é mais prático e estou ficando muito bom nisto. — Imagino que sim. Você é um músico nato, pode tocar qualquer cosia que quiser. Mas tome cuidado, ouviu? — Vou tomar. Até mais, pai. — Nick abriu a porta do carro e acomodou as pernas longas e musculosas no pequeno espaço sob o volante. Logo o ruído do motor se fez ouvir no pátio todo e Nick sentiu suas costas se encaixarem como uma luva no encosto de couro. Estava pronto para iniciar sua jornada. Com grande habilidade, manobrou e colocou o carro em movimento. Ao passar junto ao portão, apertou a buzina e colocou o braço para fora da janela a fim de acenar para o pai. Chet, que já começava a mover sua cadeira de rodas em direção ao hall, fez uma pausa e retribuiu ao aceno. Por alguma estranha razão, não conseguia deixar de pensar na voz do filho e da bela dama de azul cantando juntos Com alguém como você... —Aqui—a Sra. Pessy disse ao chegarem a um amplo espaço aberto e ladeado de árvores — fica o terraço onde costumamos nos sentar à tarde e conversar. É quase como viver ao ar livre. O bom é que daqui temos uma bela vista da piscina. "E do estacionamento também!" Allie pensou, e, dando um passo a frente, divisou um Porsche branco. Um homem alto e forte estava parado ao lado do carro e logo ele se curvou para beijar as faces de um senhor na cadeira de rodas. Ela os ouviu rir e falar num tom carinhoso, mas não entendia o que diziam. Confusa, voltou-se para a diretora do resort e tentou prestar atenção no que estava sendo dito, mas não conseguiu fazê-lo. Seus olhos involuntariamente se voltaram para a figura alta e máscula que acabava de entrar no carro. Era o cantor com quem fizera dueto há pouco, reconheceu, estremecendo. Fazia tempo que uma canção não a deixava tão emocionada a ponto de fazê-la esquecer todo a tristeza e preocupação que vinha sentindo desde que soubera da gravidade da doença de Charles. Havia algo de diferente naquele homem, algo que despertava nela uma estranha sensação de liberdade.

Talvez fosse o próprio romantismo das canções que ele interpretava Allie não sabia ao certo. O fato é que ele a perturbava de uma forma que há muito tempo não acontecia. — Allie, você não está ouvindo — Sarah sussurrou a seu lado. — Preste atenção. Foi para isto que fizemos esta viagem até aqui, para você conhecer tudo antes de se mudarem. Allie piscou várias vezes seguidas, tentando se concentrar no que a Sra. Pessy dizia, mas continuou observando quando o pai do cantor trilhava o caminho de volta ao salão. — Olá, Sra. Pessy — Chet Henry acenou ao passar por elas. — Bela voz, moça. Cantou muito bem.

— O

Obrigada—Allie balbuciou um pouco envergonhada.

... — Boa noite, Chet — a diretora falou sorrindo. — Mas é melhor se apressar para não perder a

hora do jantar. Allie olhou para o relógio e viu que faltavam cinco minutos para as seis horas. "Atrasado para o jantar? Céus será que Charles vai agüentar viver aqui? Jantar às seis da tarde, ceia às nove, café da manhã às sete, almoço ao meio dia? Como vamos suportar uma vida tão regrada depois de termos vivido com tanta liberdade nos últimos anos?" Pela milésima vez desde que soubera do agravamento da doença do marido, Allie sentiu um nó

na garganta, uma vontade imensa de chorar, mas sabia que de nada adiantaria fazê-lo. Tinha de ser forte para apoiar Charles e ajudá-lo a viver da melhor forma possível, mesmo que fosse num lugar como o Sun City Resort. — Coragem, Allie — Sarah sussurrou em seu ouvido. —Tudo vai passar e você vai voltai - a ser feliz. Tenho certeza disto. Allie colocou o braço no da amiga e forjou um sorriso. Sarah e Lucy a estavam ajudando muito naquele momento difícil. Agora por exemplo, enquanto Lucy estava em Framingham acertando os últimos detalhes da venda da casa, Sarah viera até o Arizona com ela, apenas para lhe dar apoio. Como se não bastasse, as duas ainda estavam cuidando de tudo na Busy Hands e até mesmo a ajudavam com alguns projetos mais simples. Então como podia reclamar? Era uma felizarda por ter amigos e em lugar de ficar se lastimando deveria erguer a cabeça e enfrentar as surpresas que o destino lhe preparara, mesmo se essas não fossem tão boas quanto gostaria. Como o carteiro que sai para caminhar pela cidade em seu dia de folga, depois que o último grupo de turistas da temporada se despediu, Nick pegou um de seus caiaques infláveis e decidiu fazer um passeio solitário pelo rio a fim de relaxar e descansar um pouco. Aquela tinha sido uma temporada difícil, um dos grupos era formado por uma família com duas adolescentes e um garoto que ficavam brigando o dia todo e reclamando da falta de conforto do passeio. Em outro grupo havia um casal em lua-de-mel, o que era muito comum acontecer, mas marido e mulher passaram mais tempo com suas câmaras do que na companhia um do outro. Claro que ao final do passeio deveriam ter conseguido material para um fantástico álbum de recordação, mas sem nenhuma lembrança romântica para guardar para o resto de suas vidas. O clima, porém,'tinha sido perfeito, o céu permanecera claro e limpo e as noite, eram frescas e estreladas, sem as bruscas mudanças de temperatura que costumavam acontecer na região.

No entanto, para Nick, que era um homem que gostava de aventuras e uma novidade a cada dia, o clima chegara até a parecer monótono, sentira falta de passar por uma corredeira sob um forte tempestade de verão, ou mesmo de navegar pelo rio num daqueles dias escuros e nublados, pois isto o fazia ver a paisagem que conhecia tão bem sob uma nova perspectiva, o que só vinha a confirmar sua tese de que nada no mundo é exatamente igual para sempre, tudo muda. Graças a Deus! Ele ergueu o remo acima da cabeça e olhou a silhueta da ponte Navajo que surgia no horizonte. Não importava quantas vezes já tinha passado por ali, sempre ficava impressionado com aquela visão que só confirmava que, por mais indomável e selvagem que o cânion pudesse ser, naquele ponto ele tinha sido domado. Um leve sorriso curvou seus lábios carnudos. "Ao contrário de você, meu caro", pensou, lembrando-se do mundo real que estava a algumas milhas de distância dali. Ele só tinha algumas noites para passar sozinho no rio antes de voltar à civilização. Sim, mais alguns dias e deveria voltar para casa em Flagstaff, checar suas finanças, ir ao banco, pagar as contas e outras coisas a que todos os mortais estão sujeitos. Feito isto, iria visitar o pai em Sun City. Sua última visita ao resort tinha acontecido há um mês, mas Nick lembrava a voz de soprano que se juntara a sua e do rosto oval da moça com a faixa de Alice tão bem como se a cena tivesse acabado de acontecer. Quem era aquela mulher e por que não conseguia tirá-la da cabeça? Por mais que quisesse, todas as vezes que fechava os olhos o sorriso dela o perseguia

e fazia seu coração bater de uma forma totalmente estranha e atípica. Nick respirou fundo e voltou a remar, não fazia sentido ficar tão interessado por alguém que nem conhecia e, pior, seu pai ainda havia lhe dito que ela era casada. Como podia se interessar por um mulher casada? O que sua filha Mareie pensaria se soubesse disso? Certamente o repreenderia com suas frases repletas de eufemismo, mas cujo tom não deixava sombra de dúvida sobre qual fora a intenção inicial ao pronunciá-las. Sim, Mareie tinha um temperamento forte. Era determinada e sabia exatamente o queria da vida, tal como ele, precisou reconhecer. Contudo, Nick lamentava que o exacerbado senso de responsabilidade de Mareie a impedisse de aproveitar a vida como deveria. Ela estava sempre muito preocupada para relaxar. Preocupada com o trabalho, com o novo namorado da mãe, com ele ... — Está na hora de criar juízo e voltar à civilização, pai — Mareie lhe dissera quando se falaram ao telefone dois dias atrás. — Por que, filha? Tenho meu trabalho aqui, gosto do que faço e não preciso de mais dinheiro do que tenho para sobreviver -— respondera naquele dia. — Porque me sentiria muito melhor em saber que meu pai finalmente tomou juízo e está vivendo uma vida normal. Talvez uma esposa, ou uma companheira para conversar. — Para mim a vida no rio é normal — ele retrucara rindo. — Sim, mas e depois quando estiver mais velho e não puder mais enfrentar as corredeiras? Vai querer arrumar uma vaga para você em Sun City? Não seria melhor encontrar alguém e se assentar? Não, Nick não pretendia passar o resto de seus dias em Sun City, e quanto a arrumar uma companheira, só havia uma pessoa em que conseguia pensar, e ele mal conhecia esta pessoa, a não ser pelo fato de terem cantado juntos um mês antes. — Por falar em Sun City, seu avô tem sentido sua falta. — Ele mudou rapidamente de assunto. —Quando pretende visitá-lo?

— E por isto que liguei — disse Mareie. — Já comprei uma passagem para Phoenix para o feriado do Dia de Ações de Graças, de lá sigo para Sun City para me encontrar com você. Terei dois ou três dias de folga. Se quiser podemos combinar algo de especial para fazer. — Lamento, Mareie. Não posso — Nick respondera e agora, lembrando daquela conversa que haviam tido ao telefone, sentiu certo pesar. No entanto, sua próxima viagem estava agendada justamente para o período que a filha tinha disponível: era um grupo de turistas alemães que haviam exigido a presença do melhor guia da região e, como dono da empresa, Nick não podia dizer não. Mesmo trabalhando por conta própria, havia princípios a seguir, normas a respeitar ou então, tudo iria literalmente por água abaixo. — Ou será que devo dizer por rio abaixo? — ele riu e passou por sob a delicada estrutura da ponte Navajo, sentindo como se as impiedosas garras da civilização moderna estivessem fechando o cerco a seu redor. Por quanto tempo ainda resistiria antes de sucumbir a uma das armadilhas de sua maior opositora? Nick não sabia, mas ele continuaria lutando para preservar sua liberdade.

Capítulo IV

Já te contei a novidade? — Chet Henry perguntou, olhando para o filho por sobre o tabuleiro de xadrez.

— Que novidade?

Nick disse,

sem desviar os olhos

das

peças

do jogo.

O

pai

o tinha

derrotado por três vezes seguidas e ele tentava evitar que isto se repetisse. — Bem, lembra-se daquela bela jovem que cantou com você da última vez em que esteve aqui? Lembra-se dos raios de sol? Do brilho das estrelas? Da beleza de uma manhã de primavera? De sua primeira bicicleta? Do primeiro beijo? Nick não pôde evitar pensar, mas ao responder disse simplesmente:

— Claro. Por quê? — Porque ela está se mudando para cá na semana que vem. Vocês poderão cantar juntos muitas outras vezes, certo? Nick fitou o pai perplexo. — Ela virá para ficar? Quero dizer, é tão jovem e parece saudável demais para morar aqui. — Pelo que soube é o marido quem está muito doente e precisa de cuidados. Pobre homem tem um problema no pulmão que já começou a afetar até mesmo o funcionamento do coração. Marido? Ah, sim, seu pai havia dito da outra vez que o marido era muito mais velho do que ela. — Será bom ter gente nova por aqui — Chet falou empolgado. — Só lamento porque a moça é jovem demais para ficar enfurnada neste lugar, junto com um monte de velhos e doentes. Nick lembrou-se da bela voz de soprano: "vamos esquecer-nos do resto do mundo". O coração deu um salto dentro de seu peito e ele se remexeu inquieto na cadeira. Chet o fitou pelo canto dos olhos. — Está com fome? Quer comer alguma coisa? — Claro, vamos para o refeitório — Nick concordou, levantando-se e segurando a parte superior da cadeira de rodas do pai. — Deixe-me ajudá-lo com isto. Jogaremos outra partida depois do almoço. Chet concordou com um movimento de cabeça, mas nem por um momento deixou-se enganar. Tinha divisado o brilho no fundo dos olhos castanhos do filho e sabia muito bem o que aquilo significava. Afinal, não se chega aos oitenta anos impunemente, quanto mais o tempo passa, mais se aprende sobre a alma humana e seus segredos. Ele só esperava que Nick não sofresse desta vez como sofrerá ao descobrir que seu casamento tinha fracassado. No entanto, agora só lhe restava rezar e esperar que os acontecimentos determinassem o destino de seu filho e da bela dama de azul. Na vida tudo pode acontecer até mesmo o impossível! Allie procurou estirar as pernas na espreguiçadeira do terraço e olhou para o relógio como se quisesse se certificar de que o tempo estava realmente passando e que não estava vivendo um daqueles sonhos onde a dor parece se repetir num círculo macabro. Fazia um mês que ela e Charles estavam morando em Sun City e, por mais que quisesse, não conseguia se sentir à vontade ali. A não ser pela nova amiga que fizera Phyllis, tudo parecia estranhamente surrealista. Charles não era mais o mesmo. Estava deprimido, falava pouco, não se reunia com os outros residentes, ficando a maior parte do tempo preso no apartamento que lhes fora destinado, concentrado em fazer revisão dos processos que o escritório lhe mandava ou então, como agora, ia para o Hospital Samari-tano de Phoenix para fazer exames e verificar o quanto a difi- culdade respiratória tinha afetado seu coração. — O que os médicos dizem? — perguntou Phyllis, trazendo-a de volta à realidade. Allie olhou para a nova amiga que estava sentada em uma moderna cadeira de rodas. Phyllis tinha a idade dela, mas estava presa a uma cadeira de rodas por causa da esclerose múltipla. Contudo, era uma pessoa alegre e bem-humorada, e desde que Allie chegara ao

resort as duas mulheres tinham descoberto que possuíam muita coisa em comum. Allie gostava de Phyllis quase tanto quanto gostava de Sarah e Lucy que, a esta altura, estavam ocupadas demais com o novo escritório da Busy Hands em Framingham. Como haviam prometido, as duas amigas tinham lhe mandado muitos trabalhos por e-mail. Allie reservava as manhãs para se dedicar a seus projetos e ocupava suas tardes dando aulas de bordado para alguns dos moradores locais. Para sua surpresa, as aulas eram um sucesso. Além do quê, isto a ajudava a manter a mente ocupada e a impedia de se entregar ao desespero. — Allie? Você me ouviu? — a voz de Phyllis a trouxe de volta à realidade. — Ah, desculpe. Os médicos dizem que Charles pode melhorar se fizer o tratamento correto e evitar esforços e estresse. O que não podemos é voltar a morar na costa leste por causa do tempo úmido e frio. Mas há grande esperança para ele, a medicina está avançada. O que me preocupa, porém, é que de- pois que chegamos aqui Charles parece ter desistido de viver. Não quer mais falar com as pessoas, vive debruçado sobre os papéis que o pessoal do escritório manda e jamais participa das festas aqui embaixo. É como se ele quisesse evitar este mundo para sempre. Phyllis ouviu atenciosamente enquanto Allie falava, depois indagou com voz gentil:

— Gostaria que eu falasse com seu marido? Quero dizer, posso contar um pouco de minha experiência de vida e como não deixei que a doença me tornasse infeliz e solitária — explicou, ajeitando a trança negra sobre um dos ombros.

Phyllis era uma bela mulher de quarenta e poucos anos, olhos escuros e cabelos dignos de um comercial de xampu e, embora a esclerose tivesse roubado grande parte de seus sonhos, ela não permitira que a doença acabasse com sua alegria de viver. Passava longas horas fazendo fisioterapia e no tempo que sobrava escrevia romances maravilhosos. Segundo ela própria, era assim que ganhava a vida, contando lindas histórias de amor para outras pessoas sonharem. Ora, Allie pensou talvez Charles pudesse mesmo aprender um pouco com Phyllis. — Você faria isto por mim? — indagou, emocionada. — Claro. Seu marido vai ficar surpreso quando contar a ele que há dez anos os médicos disseram que eu não tinha muito tempo de vida e que, se tivesse, seria um vegetal. E olhe, aqui estou eu, continuo lutando contra a doença, mas não desisto de meus sonhos. — Gostaria que Charles também pensasse assim. — Allie deu um longo suspiro e fechou os olhos para deixar que o sol lhe beijasse as faces. — Não sei o que seria de mim se não fosse por você e Chet—falou, tocando-a gentilmente nas mãos. —Vocês dois foram as pessoas que mais me deram apoio desde que cheguei aqui. — Interessante — Phyllis atalhou pensativa. — Seus dois melhores amigos usam cadeira de rodas. Devemos ter algo em comum. Mas, por falar em Chet, já ganhou alguma vez dele no xadrez? — Está brincando! Chet é invencível no xadrez. Ele é praticamente um mestre e eu apenas uma aprendiz. — O que você acha daquele filho maravilhoso dele? Nunca vou esquecer-me da primeira vez que a vi cantando junto com aquele deus grego. Por que não desceu para o jantar na última vez em que ele esteve aqui? Poderiam ter cantado para nós. Seria ótimo. — Não pude. Charles não estava se sentindo muito bem. — Sabia que ele é o favorito das mulheres do resorfl Todas nós fantasiamos a respeito dele. Eu até mesmo criei o herói do meu último livro baseada em Nicholas Henry. Se tivesse um bom

par de pernas certamente não o deixaria escapar impunemente. — O que ele faz? — Allie perguntou, sentindo-se estranhamente desconfortável com aquela conversa. — Você não sabe? Chet fala a respeito do filho o tempo todo, como ele a deixou escapar? — Chet conversa comigo sobre xadrez e também sobre minhas aulas de bordado. Imagine que ele é um dos alunos mais aplicados! Nunca pensei que um homem tão grande pudesse ter mãos tão delicadas e habilidosas. Mas me conte, o que o tal filho faz além de cantar? Phyllis riu. — Ele só canta para nós e para os amigos. Esta não é sua profissão. Nicholas Henry trabalha como guia no rio Colorado. Ele tem uma empresa de turismo. Segundo dizem as más línguas, Nick não precisa de dinheiro, pois foi analista financeiro durante muito tempo e quando abandonou a profissão tinha recursos para viver bem para o resto da vida. Acho que ele trabalha no rio porque gosta, é uma convicção, entende? — Sim, entendo. Existem pessoas que têm coragem de largar tudo e fazer o que realmente gostam. Admiro muito isto. E o que poderia ser mais glamoroso do que passar os dias descendo por entre as muralhas de pedra do cânion, navegando em um caiaque ou em um pequeno barco inflável? — Pelo que o sei usa canoas maiores quando transporta um grande número de turistas. O barco inflável tem lugar para quatro pessoas apenas e o caiaque para uma única pessoa, às vezes duas.

Allie esperou que Phyllis prosseguisse e, como ela não o fez, perguntou:

— Mas ele faz isto durante o ano todo? Quero dizer, e o clima? — Não, parece que é só no verão. Sei que tem uma época do ano em que Nick costuma viajar para a América do Sul para fazer algumas pesquisas. Ele tem um lado meio intelectual por baixo da aparência de aventureiro. — E quanto à Sra. Nicholas Henry? — Alison não sabia por que estava tão interessada no filho de Chet, afinal só o vira uma vez. — Ex Sra. Henry, meu bem. Estão divorciados há bastante tempo. Existe uma filha, Mareie que vive tentando convencer o pai a vestir terno e gravata novamente. Aliás, ela é a meni-na-dos- olhos do avô. — É uma vida e tanto essa! — Allie disse pensativa. — Imagine só poder vencer as corredeiras do rio Colorado, depois deixar o barco vagar a esmo por águas mais calmas e dormir olhando as estrelas, sentindo o beijo da brisa em suas faces, seus cabelos ... Phyllis riu. — Allie, você andou lendo meus romances? As duas mulheres deram uma sonora gargalhada. — Bem que eu estava precisando de um pouco de romantismo para me animar. Ela falou. — Ótimo, então quando Nicholas Henry vier para o resort, e pelo que soube ele estará aqui na próxima semana, vocês dois cantarão juntos. Melodias românticas são ótimas para deixar o coração mais leve. Até pouco tempo atrás Allie também pensava assim, mas agora não tinha tanta certeza de que cantar junto com o homem alto e atraente, dono de uma maravilhosa voz de barítono, seria uma boa idéia. O bom senso a prevenia de que deveria se afastar de Nicholas Henry se quisesse continuar a ser a mesma Alison Mills de sempre, cujo único interesse era o bem-estar de Charles e dos quatro filhos, não importava que estes últimos já estivessem bem crescidinhos e emancipados. Assim que Charles adormeceu, Allie desceu para a sala de estar do prédio principal de Sun

City. Ao entrar no enorme aposento, surpreendeu-se por não haver mais ninguém ali. Eram apenas nove e meia da noite, mas todos já deveriam ter se recolhido a seus apartamentos. Talvez fosse melhor assim, ela pensou, acomodando-se em uma das poltronas e se preparando para reler Um bonde chamado desejo. Afinal se aquela estadia em Sun City estava servindo para alguma coisa era para pôr sua leitura em dia. Allie aproveitava para reler velhos clássicos e tirar deles novas lições de vida, porque a interpretação que fazia de cada leitura era diferente dependendo do momento que vivia. Ela não sabia ao certo há quanto tempo estava ali quando viu a Sra. Leverett, diretora de eventos do resort, surgir a seu lado. — Ah, que bom tê-la encontrado, Sra. Mills. Queria muito lhe falar. Gostaríamos de lhe pedir um grande favor. — Claro. Em que posso ajudar? — Allie deixou o livro de lado e voltou-se para encarar a outra mulher. — Bem, a verdade é que diversos residentes têm solicitado que promovêssemos outra apresentação musical do filho do Sr. Henry. Allie sentiu o rubor tingir suas faces e o pescoço enrijecer. Diante da simples menção ao filho de Chet, a lembrança de uma figura morena e máscula acenando da janela do Porsche branco veio à tona.

Recordava-se perfeitamente bem do rico tom de barítono daquela voz, da maneira quase carinhosa como ele segurava o violão e de como haviam cantado Red River Valley juntos, como se mais do que cantar naquela noite os dois estivessem falando um com o outro e selando uma linda promessa de amor. — Nicholas Henry estará aqui na semana que vem — prosseguiu a Sr. Leverett, tirando-a de seu instante de devaneio. — E já concordou em cantar para nós. A voz de Wilma Leverett ficou cheia de entusiasmo quando ela se pôs a falar sobre o programa da apresentação. Segundo ela, os residentes tinham feito uma lista com suas canções pre- feridas e o departamento de eventos do resort tinha até mesmo mandado imprimir o programa com a letra de todas as canções que seriam apresentadas. Allie franziu o cenho, perguntando-se aonde a outra mulher queria chegar com aqueles comentários. No entanto, não demorou muito para saber a resposta a sua pergunta silenciosa. — A verdade é que gostaríamos muito que você cantasse junto com o Sr. Henry. Fizeram muito sucesso naquele dia em que cantaram Red River Valley e todos estão pedindo bis. Allie engoliu em seco. Como poderia atender àquele pedido? — Sinto muito, Sra. Leverett — falou, após pigarrear levemente. — Não posso ajudá-la. O sorriso desapareceu do rosto de Wilma Leverett. — Meu marido está muito doente e eu não me sentiria bem se o deixasse em seu quarto, já que ele nunca participa destes eventos, para cantar em público. — "Mentira!", Alison falou para si mesma, "você se sentiria maravilhosamente bem, só tem medo de ficar lado a lado com aquele homem outra vez". — Por favor, pense melhor no assunto antes de responder — pediu a outra mulher. — Ainda faltam algumas semanas para o dia de Ação de Graças e quem sabe algo a faça mudar de idéia. Allie deu um longo suspiro. Sim, logo seria o feriado de Ação de Graças, o primeiro que a família não passaria reunida, pois Sam e Shelley, os gêmeos, pretendiam ir para Vancouver, Carol estava grávida e não se sentia bem para viajar e Jimmy, seu doce caçula Jimmy, iria conhecer os pais de sua noiva numa cidadezinha de Idaho. E uma vez que Charles não iria

querer descer para festejar com os outros residentes, ela passaria o feriado praticamente sozinha. Será que era isto mesmo que desejava para si? — Acabei de vir do apartamento de Chet Henry — Wilma continuou, e ele está empolgadíssimo com a idéia. Disse que não vê a hora de ouvi-los cantando. Bastou a menção ao nome de Chet para fazê-la mudar de idéia. Adorava o velho senhor e não queria decepcioná-lo. — Está bem, farei o que me pede, mas não pode ser um programa muito longo — acabou por ceder. — Ótimo! — Wilma Leverett bateu palmas de satisfação. — Cuidarei para que tudo seja perfeito. Não precisa se preocupar. Nicholas Henry chegará alguns dias antes para passar o feriado com o pai e vocês poderão ensaiar. Lembre-se apenas de cantar como um passarinho, minha querida. Cantar como um passarinho? Allie tinha muitas dúvidas se conseguiria fazê-lo, mas prometeu a si mesma que, pelo menos, iria tentar. Nick estava parado no salão principal do resort quando Alison apareceu depois ter sido avisada pela recepção de que o Sr. Henry a esperava no saguão. Nem por um minuto sequer lhe ocorreu que poderia ser o filho e não o pai, pois era CHet quem costumava pedir que o recepcionista a chamasse pelo interfone. Assim, quando viu que era Nicholas, ficou parada na soleira da porta por um longo momento. Ele sorriu e deu um passo à frente. — Sra. Mills — disse, cumprimentando-a com um aperto de mão. — Que prazer em vê-la. Desculpe a ousadia de tê-la mandado chamar, já que nem ao menos fomos formalmente apre- sentados — foi logo dizendo, ao perceber que ela estava surpresa com sua presença. — Por favor, pode me chamar de Alison — falou, recuperando-se do susto inicial e se aproximando do centro do aposento. — Bem, Alison. Meu pai disse que me cederia a vez de falar com você, pois este é o horário reservado para vocês jogarem xadrez. Allie riu. — É verdade, Chet é um mestre no xadrez e tem me ensinado muito — admitiu, sentindo-se um pouco mais à vontade. Contudo, por mais que quisesse seus olhos não conseguiam se des- viar da boca carnuda, dos ombros largos e quadris estreitos marcados pelo jeans claro que ele vestia. Sem sombra de dúvida, Nicholas Henry era um homem muito atraente. Quantos anos teria? Uns quarenta e cinco, quarenta e seis, no máximo. Não que aparentasse, mas sim porque Chet havia lhe dito que a neta tinha vinte e quatro anos e que ela nascera quando Nick estava no último ano de faculdade, o que lhe permitira fazer as contas mentalmente e chegar a um número aproximado. — Ora, ora, parece que a admiração é recíproca, meu pai disse que você é a melhor aluna que já teve e isto me deixou desolado, perdi meu posto de aluno preferido. — Ele gracejou, conduzindo-a para a sala de estar. — Não precisa se preocupar, Chet adora você. — Eu sei — Nick murmurou surpreso por estarem conversando tão intimamente como se se conhecessem há muito, muito tempo. Céus, ela era ainda mais bonita do que se lembrava! — Você ainda não disse por que mandou me chamar. — A voz suave e feminina o trouxe de volta à realidade. — Ah, claro, achei que talvez fosse uma boa hora para ensaiarmos o que vamos cantar na apresentação de amanhã. Não podemos fazer feio. Eles estão contando os minutos nos dedos para nos verem cantar novamente. Allie o viu pegar o violão que estava sobre uma das poltronas da sala e colocar sobre o joelho.

— Tudo bem. Tem alguma idéia por onde quer começar? —Nick pegou o programa que Wilma Leverett lhe entregara. — Que tal por aquela "nossa" canção? — sugeriu com tanta intimidade que Allie sentiu o coração bater descompassado dentro do peito. "Nossa canção", Nicholas falava como seja tivessem vivido uma história juntos e, o pior, uma história de amor. — Você pode fazer a primeira voz e eu a segunda — ele continuou alheio aos sentimentos que despertava. Allie assentiu, forjou um sorriso: então, assim que os acordes do violão foram ouvidos, começou a cantar. Eles ensaiaram uma duas, três, quatro vezes, até que não puderam mais contar. O tempo passou rápido demais e ao final daquele ensaio era como se fossem amigos de longa data. Entre uma música e outra, Nick lhe falara de seu trabalho no Grand Canyon, do quanto gostava do rio, e de como isto aborrecia sua filha Mareie que queria que o pai voltasse para o mundo civilizado. Sem perceber, Alison também falou sobre a doença de Charles, sobre os filhos Sam e Shelley que viviam na Califórnia, sobre Carol que estava prestes a ter um bebê, e sobre seu caçula Jimmy que pretendia se casar no próximo verão. Talvez, depois de tudo isto, não fosse de admirar que estivessem se sentindo como se conhecessem há uma eternidade. Além do quê, apesar da forte atração que os unia, a conversa fluía facilmente, pois tinham muito em comum. — Acho que sei a razão de gostarmos tanto de Red River Valley — Nick falou, assim que terminaram de cantar. — Ora, a melodia é linda. — Sim, mas não é só isto. — O que seria, a letra, então?

— Mais do que isso, é porque é uma música que fala direto ao coração, uma melodia doce e sensível, uma letra verdadeira que nos faz pensar sobre os caminhos que desejamos seguir na vida — Nick comentou, sem desviar os olhos dos dela. — Vou me lembrar desta canção enquanto estiver passando o inverno no Chile. — Ao vê-la franzir o cenho explicou:

— Devo viajar pouco antes do Natal, mas espero que possamos cantar juntos muitas outra vezes depois que eu voltar da América do Sul. — Mas nós ainda nem cantamos em público pela primeira vez? — Allie gracejou. — E se a apresentação for um grande fiasco? Nick deu uma sonora gargalhada e jogou a cabeça para trás. — É muito tarde para isto, Alison. Você já conquistou meu coração e esta música vai fazer com que eu me lembre sempre de como a cantamos juntos. Nick parou de rir abruptamente. Aquelas palavras pareceram deixá-lo tão embaraçado quanto a ela própria. Por isso, ele guardou rapidamente o violão e ficou em pé. — Preciso ir, meu pai está à minha espera — disse com um sorriso forçado.

— A gente se vê amanhã e

Boa sorte!

... — Para nós dois — Alison respondeu, sabendo que ele se referia à apresentação. Então girou nos calcanhares e seguiu para as escadas que ficavam no final do corredor. Agora nem mesmo se quisesse conseguiria apagar Nicholas Henry de seus pensamentos, pois ele não era mais a figura mágica com quem cantara uma canção de amor, e sim o homem charmoso com quem rira e conversara durante uma tarde inteira, sentindo como se o conhecesse há muito, muito tempo. — Talvez até de outra vida

—Allie falou para si mesma ao entrar no apartamento e mirar o próprio reflexo no espelho que havia no pequeno hall de entrada. Mas outras vidas não existiam e, naquele exato momento, sua vida era cuidar para que Charles ficasse bem, nada mais importava, nem mesmo a maneira como seu coração batera descompassado quando ficara frente a frente com Nicholas Henry. Allie parou na entrada do enorme salão de festas do Sun City Resort, e passou a mão para ajeitar a saia de veludo caramelo. Escolhera aquela saia longa de um veludo leve e corte perfeito, pois além de cair graciosamente sobre as curvas generosas de seus quadris, acentuando a cintura fina, ela também favorecia seus movimentos, deixando as pernas livres e ao mesmo tempo protegidas. Para combinar com a saia, escolhera uma camisa de seda com vários matizes de marrom e bege e um cinto com fecho de madrepérola. Ficara um pouco indecisa quanto ao calçado, mas acabou se decidindo pela bota de cano alto, pois além de ser confortável, ainda a fazia caminhar com mais elegância. — Será que posso ter o prazer de conduzi-la ao salão, Sra. Mills? — A voz rouca de Abe Sweeney surgiu vinda de um ponto à suas costas e Allie virou-se para encarar o melhor amigo de Chet Henry.

— Será um prazer, Sr. Sweeney — falou, curvando-se para retribuir à reverência que o veterano da Guerra da Coréia lhe fazia. Abe era um homem inteligente e divertido e, embora mancasse de uma perna ferida em combate, jamais se queixava de nada. Allie queria muito que Charles tivesse um pouco da alegria de viver daquelas pessoas. Mas, seu marido não parecia se interessar por nada. Hoje, por exemplo, quisera comer no quarto e enquanto ela se preparava para descer, Charles dissera que preferia digitar alguns contratos no computador, pois não tinha o menor interesse em assistir a um concerto improvisado. O som de risos e vozes um pouco mais altos do que o habitual a fez olhar em torno de si. Todos estavam elegantemente trajados esta noite. Os homens vestiam terno enquanto as senhoras usavam seus melhores vestidos. Isto bastou para fazê-la decidir que também daria o melhor de si para fazê-los felizes e se divertir. Afinal, o que lhe restava a não ser sonhar com dias melhores embalados pelo som de doces melodias românticas? Sorrindo, deixou os pensamentos tristes de lado e aceitou o braço que Abe lhe estendia. — Posso lhe oferecer uma bebida, senhora? — perguntou o veterano, assim que se aproximaram da mesa dos drinques. — Claro. Aceito um licor de pêssego, por favor — pediu. Então olhou para o lado oposto do salão onde uma pequena fila começava a se formar. —Será que não estamos no lugar errado? — perguntou ela, aceitando o cálice que Abe lhe entregava. — Não, o jantar só será servido daqui a meia hora. Elas estão em fila porque já se acostumaram tanto com a rotina deste lugar que não conseguem fazer nada diferente do habitual. Pobres almas. Não sabem como é bom ser livre. Allie sabia exatamente o que Abe queria dizer: ser livre para fazer o que quiser, na hora que quiser. Quanto mais o tempo passava, ela pensava mais e mais nisto. Estava se tornando qua- se uma obsessão e precisava fazer algo a respeito. — Venha, vamos ver como estão as coisas lá fora — Abe chamou, depois de vê-la sorver o licor. Um pouco atordoada, Allie se descobriu sendo puxada para o ponto onde ficava o estacionamento do resort. Assim que chegaram lá, arregalou os olhos boquiaberta. — Nossa! — exclamou, vendo os cones cor de laranja que haviam sido colocados de maneira a formar uma pista improvisada e seis cadeiras de rodas estarem devidamente alinhadas junto

da enfermeira Fosdick, que trazia um apito nas mãos. Um pequeno grupo de espectadores se reunia junto aos competidores. Imediatamente Allie avistou Nicholas Henry ao lado da cadeira do pai. — Ah, chegamos bem na hora — Abe cochichou em seu ouvido. —Quer dizer que vamos ter uma corrida de cadeiras de rodas? — Claro. E a competição do dia de Ação de Graças. Já se tornou uma tradição do resort. — Abe queria estar com os amigos e por isso puxou Allie para junto do grupo onde estavam Nick e Chet Henry. Phyllis a avistou e ergueu a mão para lhe acenar. Um dos médicos da clínica estava parado junto à pista improvisada e Allie pode ver que logo atrás dele havia dois enfermeiros e uma maça, o que era um bom sinal, pois seria uma pena se alguém se machucasse. — Vamos Allie, faça uma aposta—Nick Henry disse, assim que a viu se aproximar — Quem acha que vai vencer? — Eu, é claro! — Phyllis gritou da linha de partida, preparando-se para pôr a cadeira em movimento. Nicholas Henry aproximou-se e segurou Allie pelo braço, fazendo-a estremecer. — Ela ganhou no ano passado — contou, apontando em direção a Phyllis. — Desta vez acho que a Sra. Fetter tem mais condições de vencer. Allie seguiu o olhar de Nick até a última cadeira de rodas da fila, onde uma senhora de cabelos grisalhos e olhos azuis parecia pronta para vencer qualquer desafio. Apesar das pernas que jaziam inertes na cadeira, Frieda Fetter mantinha o rosto erguido, o corpo ligeiramente projetado para frente e suas mãos agarravam as rodas da cadeira com muita firmeza. Sem sombra de dúvida, Nick era um bom observador; a julgar pela expressão determinada, a Sra. Fetter deveria mesmo ganhar. — Concordo, mas não tenho nenhum trocado comigo — respondeu ela, rindo divertida. — Por isso não. Eu banco sua aposta, Alison — falou, oferecendo-lhe uma moeda de um dólar. Allie pegou a moeda e apontou para Frieda Fetter. — Aposto tudo naquela senhora de rosa. Chet riu e, no instante seguinte, a enfermeira Fosdick levou o apito aos lábios, dando início à corrida. Como Nick previra, a Sra. Fetter chegou em primeiro, seguida de perto por Phyllis e Chet Henry. A jovem alta è morena que estava parada um pouco mais afastada do grupo aproximou-se e enlaçou Chet pelo pescoço, beijando-o com ternura. Instantaneamente Allie soube que aquela deveria ser a filha de Nick, Mareie. — Ah, vocês ainda não se conhecem — Nick falou, como se pudesse ler os pensamentos dela. — Mareie, esta é Alison Mills. Alison, esta é minha filha Mareie Elas apertaram as mãos, mas Mareie não sorriu. Pelo contrário, lançou um olhar perscrutador em sua direção, como se quisesse descobrir todos os segredos que lhe iam à alma. Será que ela estava com ciúme por Nick a ter segurado pelo braço? Perguntou-se Allie, sentindo-se um pouco desconfortável com a situação, mas então a Sra. Leverett anunciou que todos deveriam voltar para o salão principal, pois o jantar estava servido. — Alison — Nick falou, segurando-a pelo braço e forçando-a a encará-lo. — Você vai se sentar conosco, não? Papai já convidou Phyllis e Abe, portanto, temos mais um lugar à mesa. — Eu adoraria, obrigada. Mas, se não se importam de guardar meu lugar, gostaria de subir e dar uma espiada em Charles.

— Ele não vai se juntar a nós? — Abe Sweeney perguntou. — Não, estava se sentindo muito cansado e pediu uma sopa mais cedo — explicou com um sorriso triste. —Não se preocupe, meu bem—Chet Henry falou. — Guardaremos seu lugar. Vá e volte logo para darmos muitas risadas juntos. Allie os deixou na porta da frente e começou a subir as escadas, mas alguma coisa a deteve. Não sabia explicar bem o que era. Talvez fosse a certeza de que Charles ficaria furioso se soubesse que subira apenas para espiá-lo. Ele odiava ser tratado com um doente e, sempre que podia, Allie procurava respeitar sua vontade. Assim, ela girou nos calcanhares e voltou para junto do grupo alegre, que agora se reunia numa das mesas de um canto do salão, Chet Henry estava de ótimo humor por ter conseguido uma excelente colocação na corrida, apesar de ser de longe o mais velho dos participantes e falou sem parar.

Phyllis também estava feliz, pois naquela tarde o médico finalmente a liberara para fazer o cruzeiro de volta ao mundo com que tanto sonhava e Nick a congratulou pelo espírito de aventura. Segundo ele, as pessoas seriam muito mais felizes se permitissem que seus instintos naturais viessem à tona tornando-as mais livres. Allie se lembrou do que Abe dissera e sorriu. Parecia que todos haviam escolhido aquela noite para lhe falar como era sentir-se livre. Seria ironia do destino ou apenas a famosa Lei de Murphy? A única que parecia não estar muito feliz era Mareie Henry. Durante toda a noite a jovem observou Allie pelo canto dos olhos e quando viu o pai contar sobre a viagem que faria à América do Sul no inverno, chegou até mesmo a fazer uma pequena careta. Allie soube de imediato que sua primeira impressão fora correta: Mareie tinha ciúme de Nick, ela queria passar mais tempo com ele e se ressentia de sua ausência. Shelley e Carol também tiveram uma reação parecida antes de se casarem, cada uma a seu modo tinha exigido mais atenção dos pais. O mesmo não acontecera com Jimmy e Sam: Sam era muito sério e interes-

sado em seu trabalho e Jimmy, bem Jimmy sempre fora muito ligado a ela. E pensar que em breve seu filho caçula ia se casar! — Preciso de uma ajuda sua, Nick — ela falou, achando que acabara de ter uma idéia brilhante. — Meu filho caçula vai se casar no próximo verão, em junho para ser mais exata, e Charles e eu gostaríamos de lhe dar um lindo presente de lua-de-mel. Algo inesquecível. Pensei que uma viagem ao Grand Canyon poderia ser o ideal. — Eu diria que é o melhor presente do mundo! — Nick exclamou entusiasmado. — Junho é um mês muito concorrido, mas, se quiser, posso conseguir uma reserva para você. O que prefere: botes infláveis, caiaques, barcos de madeira com capacidade para um grande número de passageiros? — Não sei. — Ah, os barcos infláveis são os melhores—Chet interveio. — Podemos falar sobre isto depois de cantar ou amanhã, se preferir. Agora precisamos nos apressar, parceira—Nick falou, notando que ela mal tocara no prato que tinha diante de si. — Nosso público nos espera. Parceira? A palavra fizera com que o coração de Allie disparasse dentro do peito. Como seria

ser parceira de Nicholas Henry? Parceira na música, em suas peregrinações pelo rio

na

... cama, ou onde quer que houvesse um lugar para que seus corpos se unissem e dançassem ao

ritmo frenético da paixão e desejo. O salão principal estava lotado. Parecia que todos os oitenta residentes de Sun City, e as pessoas que tinham vindo visitá-los por causa do feriado do Dia de Ação de Graças estavam ali. Fileiras e fileiras de cadeiras dobráveis estavam espalhadas pelo imenso salão. Até mesmo dois pacientes com seus balões de oxigênio tinham sido trazidos pelas enfermeiras. Só mesmo Charles parecia ter preferido ficar em seu quarto. Allie remexeu-se inquieta no banquinho que fora colocado ao lado do lugar onde Nicholas estava segurando o violão e preparou-se para cantar. Extrovertido, Nick cumprimentou a todos, fez algumas brincadeiras, então dedilhou os primeiros acordes do violão e meneou a cabeça, deixando claro para Allie que era sua vez de soltar a voz. E uma vez que começaram a cantar junto todo o nervosismo e preocupação que ela porventura estivesse sentindo foram completamente esquecidos.

Cantar com Nicholas era como se estivesse conversando com um velho conhecido, a música fluía com naturalidade de suas gargantas e as vozes, embora aparentemente opostas, uma de barítono e a outra de soprano, mesclavam-se na mais perfeita harmonia. Uma canção levou a outra, e a outra e no final da primeira hora quase todos os presentes estavam cantando junto com eles. Alguns dançavam, outros trocavam olhares carinhosos com seus parceiros e Allie sentiu-se imensamente feliz por ter aceitado o convite da sra. Leverett, não só por si mesma, mas também pela alegria que via estampada nos olhos de muitos de seus amigos. Eles já haviam cantado duas ou três músicas que não faziam parte do programa oficial e, quanto mais cantavam, mais as pessoas pediam bis. Depois de algum tempo atendendo a tantos pedidos, Nick curvou-se para Allie e sussurrou:

—Vamos terminar com Old Smoky. Ela assentiu de pronto, pois embora estivesse se divertindo, sabia que sua voz não agüentaria por muito tempo. Como sempre, todos cantaram o refrão com eles e, quando a canção chegou ao fim e as pessoas começaram a deixar a sala, Alison virou-se para Nick com ar de interrogação. Embora nenhuma palavra tivesse sido dita, ele entendeu perfeitamente bem o que Allie estava querendo saber. — Desculpe, não pude fazê-lo — falou, colocando o violão na caixa de veludo, obviamente evitando encará-la. — Aquela é a nossa música, Alison. Não quero dividi-la com mais ninguém, não quando cantamos juntos. Céus, será que tinha ouvido direito? Allie estremeceu, sentindo o coração bater tão forte dentro do peito que tinha medo que os outros pudessem ouvi-lo. — Venha — Nick falou, puxando-a pelo braço e conduzindo-a para um imenso corredor que levava à entrada de serviço e dali para os fundos do prédio principal. — Não podemos fazer isto! — Allie protestou, lutando consigo mesma. — O que as pessoas vão pensar? — Isto não vai demorar muito, Alison — garantiu, empurrando a porta de ferro e levando-a para fora. — É melhor voltarmos. Você terá problemas com Mareie se ela perceber que saímos. Ela está com ciúme de nós, não notou? Nick deu um largo sorriso. Bem, parece que sua filha o conhecia melhor do que imaginara o que era um ótimo sinal. — Esqueça Mareie, eu me entendo com ela depois

— atalhou, apontando para um banco solitário junto a um canteiro de azaléias. Eles se sentaram e antes que Allie se desse conta do que estava acontecendo, Nick pegou-lhe a mão e aninhou-se entre as suas. — Sabe muito bem porque não cantei aquela canção, não? — A voz de barítono agora não era mais que um sussurro. De repente, não fazia o menor sentido fingir que não tinha compreendido aonde Nick queria chegar, por isso ela assentiu com um movimento de cabeça. — A primeira vez que a cantamos, quer dizer, a única vez que a cantamos, exceto pelo ensaio de ontem, algo mágico aconteceu. — Nick a fitou intensamente. — Sei que isto não é correto, pois você está passando por um momento difícil com seu marido e não quero de forma nenhuma que pense que eu estou me aproveitando disto para assediá- la.

—Eu não

...

—Alison começou a dizer, mas Nick a silenciou, colocando o dedo em riste sobre

seus lábios.

— Por favor, não diga nada. Eu só queria que soubesse que é muito especial para mim, exatamente com diz a música, "alguém tão real e verdadeiro". Sei que não posso exigir nada de você e meu lado egoísta lamenta muito por isso, mas se algum dia precisar de alguma, coisa de mim, por favor, diga. Quero ser seu amigo, um amigo especial. "Já que não posso ser aquele que dorme com você nos braços depois de fazermos amor até cansar, quero ser aquele que a embala com carinho todas as vezes que você precisar! Mas não ousou dizer aquilo, porque Alison já estava muito assustada com tudo o que estava lhe acontecendo.

— O

Obrigada, Nicholas. Vou me lembrar disto — Allie falou, então o beijou levemente na

... testa e se afastou apressadamente dali. Durante o resto da noite ninguém mais a viu. Era óbvio que ela deveria ter se assustado e se refugiado no quarto. Mas Nick não pretendia assustá-la, aquele era apenas o seu jeito franco de fazer as coisas. Os dias após o feriado de Ação de Graças passaram rapidamente. Para surpresa de Allie, Nicholas Henry aumentou a freqüência de suas visitas a Sun City, mas nunca mais voltou a lhe falar sobre seus sentimentos. Assim, aos poucos, ela começou a relaxar e a apreciar sua companhia. Nos finais de tarde, após as famosas aulas de bordado, Allie e Chet seguiam para a sala de visitas onde Nick os aguardava e juntos riam, conversavam, jogavam xadrez, como uma família que se conhece há anos e se permite usufruir a companhia um do outro. Quase sempre Chet alegava estar cansado e os deixava sozinhos. No começo Allie estranhara, mas depois as coisas foram lhe parecendo muito naturais e nem ela nem Nick jamais voltaram a falar sobre a canção e os sentimentos que esta despertava. O assunto preferido eram os livros que tinham lido ou mesmo os velhos filmes antigos, que ambos adoravam. Uma tarde, após assistirem a um filme com Phyllis, Chet e Abe Sweeney, Nick disse que já tinha acertado tudo com uns amigos para a viagem de lua-de-mel de Jimmy. Eles teriam o melhor guia da região e também um quarto especial no alojamento que ficava na trilha do Anjo Brilhante, bem no sopé do Grand Canyon. Allie ficou tão satisfeita que se curvou para beijá-lo na face. Aquele foi seu erro, porque, no instante em que o fez, Nick virou-se e seus lábios se roçaram levemente. Todos os sentimentos que estiveram sufocando até então vieram à tona e foi preciso um grande esforço de ambas as partes para não sucumbirem ao desejo. Depois disto, Nick não voltou a visitar Sun City e Allie sabia que ele estava agindo assim para o

bem de todos. "Foi melhor assim!", falou para si mesma numa tarde quando voltava de sua aula de bordado. "A única coisa que posso dar a Nick é minha amizade, nada mais. Charles é meu marido e eu o amo!" Sim, ela amava Charles, amava por tudo o que tinham vivido juntos, por tudo o que haviam construído, pelos filhos lindos que tiveram e mais ainda por ele ter sido um marido maravilhoso que a fizera feliz durante vinte e cinco anos de casamento. Mas Charles mudara muito depois que tinham chegado a Sun City e, às vezes, Allie quase não o reconhecia, era como se fizesse de tudo para empurrá-la para a companhia de outras pessoas. Ela ainda estava pensando nisto quando entrou no apartamento que partilhava com o marido e de onde Charles raramente saía.

No instante em que abriu a porta Allie pressentiu que havia algo errado, a cadeira junto ao computador estava caída no chão e na tela havia uma mensagem em letras grandes e brilhantes.

Allie, querida. Perdão por não ter podido cumprir minha promessa de felicidade eterna até o fim. Mas chegou minha hora de partir. Quero que saiba que fui muito feliz por tê-la a meu lado. Durante todos estes anos, você foi a melhor esposa que um homem poderia desejar e uma mãe maravilhosa. Mas nossos filhos agora são adultos e, por isso, assim que eu me for quero que comece a pensar em si mesma e afazer tudo o que deseja. Por favor, não chore minha ausência. Viva cada dia como se fosse o último e seja feliz. Você merece! Eu a amo.

— Charles! — ela gritou assim que notou o tom de despedida da carta e saiu correndo para o quarto conjugado. Charles jazia inerte no centro da cama, a pele branca como uma folha de papel e olhos abertos mas totalmente sem expressão. — Charles! Charles! — gritou, apertando a campainha que havia ao lado da cama para pedir ajuda, ao mesmo tempo em que tentava reanimá-lo. Não demorou muito para os médicos aparecerem e assumir o comando em seu lugar. Lágrimas rolavam em profusão pelo rosto de Allie enquanto um turbilhão de emoções pulsava em seu peito. Então, um dos médicos se aproximou e a fitou com expressão triste. — Sinto muito, sra. Mills. Não há mais nada que possamos fazer. O coração dele não agüentou, estava muito debilitado por causa do problema respiratório. Allie deixou-se cair na poltrona ao lado da cama. Céus, Charles estava morto, o homem com quem fora casada durante vinte e cinco anos estava morto.

Capítulo V

Nick reescreveu a carta uma, duas, três vezes, mas rasgou todas as folhas, uma após a outra. Pensativo, sentou-se no degrau inferior da varanda de sua casa em Flagstaff, com uma xícara de café ao lado e a prancheta com papel de carta apoiada sobre os joelhos. Apesar de ser dezembro e o clima estar bastante frio, o fax terrier parecia fazer questão de continuar a seu lado. Dando um longo suspiro, Nick ponderou que, àquela hora, na manhã seguinte, estaria embarcando para a América do Sul. Suas malas estavam prontas, mas ele ainda precisava resolver algumas coisas antes de partir.

Ficaria três meses por lá, quase quatro. Era bastante tempo. — Sim, muito tempo — disse, afagando a cabeça de Rex com uma das mãos e levando a xícara de café aos lábios com a outra. O cachorro parecia entender o que o dono dizia, pois abanou o rabo e fitou-o intensamente, como que concordando. — Como um homem escreve uma carta de, condolências para uma mulher por quem está se apaixonando!, Rex? — Nick indagou e suas palavras o deixaram. Perplexo. Céus, até então não tinha admitido nem para si mesmo qual era a verdadeira natureza de seus sentimentos por Allie. A palavra amor jamais lhe ocorrera, embora não conseguisse tirar Alison Mills da cabeça desde aquele fatídico dia em que tinham cantado juntos no happy hour do Sun City Resort. Talvez inconscientemente estivesse tentando negar que a atração que sentia por ela pudesse se transformar em algo mais forte. Contudo, o fato era que agora não precisava mais ocultar o que sentia. Alison estava viúva e isso por si só o permitia sonhar. Novamente o cão pareceu entender como ele se sentia, pois esfregou a cabeça em seus joelhos, como para consolá-lo. — O que digo a Allie, Rex? — falou, mas sabia que só lhe restava expressar o quanto lamentava a perda que ela sofrerá e colocar-se a sua disposição para o que precisasse. Dir-lhe- ia que lhe desejava toda a força do mundo naquele momento de pesar e comentaria que esperava ansioso para acompanhar seu filho e a futura nora na excursão que programavam para junho. Para concluir, fecharia com um inofensivo comentário de como fora agradável cantar ao lado dela em suas últimas visitas a Sun City. Agradável? Talvez essa não fosse bem a palavra para descrever suas sensações em relação a Alison Mills. O frisson que experimentava quando estavam perto um do outro era algo que demandava palavras muito mais fortes e românticas, como desejo, paixão, atração. Claro que não poderia falar isso a ela antes de deixar passar um tempo considerável daquele momento de luto e dor, poderia? Mas que diabos, afinal, poderia ser considerado um tempo considerável numa situação como aquela? O bom senso lhe dizia que era melhor deixar que o destino tomasse conta da situação. Ficaria fora do país por vários meses e Allie ainda estava passando pelo primeiro estágio de seu luto por Charles. Como viajaria para América do Sul na manhã seguinte, seria mais sensato deixá- la descobrir o que faria dali por diante antes de bombardeá-la com uma confissão e partir para a conquista logo de cara. Seu pai lhe contara que logo após a morte do marido Allie havia fechado o apartamento no resort e partido para a casa da filha em Cleveland, pois iria ficar com Carol para ajudá-la nos primeiros meses do bebê. Então o que fazer? Como agir? Nick repassou o plano mentalmente, cada vez ele lhe parecia mais plausível. Abril seria mais apropriado para procurá-la. Como sempre fazia antes de o verão começar e os turistas chegarem em bandos, ao retornar da América do Sul faria uma viagem pelo rio Colorado sozinho. Seria uma boa idéia convidá-la para acompanhá-lo. Poderia ensiná-la a navegar pelas corredeiras e os dois apreciariam a vista magnífica da paisagem ao longo do rio. Mas teria mesmo coragem de convidá-la? Será que não seria muito grosseiro e precipitado de sua parte fazê-lo considerando a morte recente do marido de Allie? Não, não seria. Fora seu pai quem sugerira convidá-la e se Chet Henry dissera que era possível, então ele o faria. Sorriu lembrando-se do último telefonema de Chet. O velho Chet Henry era muito mais sábio do que deixava transparecer. Tinha descrito o jantar que partilhara com Allie e Phyllis na noite

anterior à partida dela para Cleveland. Ele anotara seu endereço e telefone e assumira a função de Allie como instrutora no projeto de desenho e ponto-cruz do clube do resort. Já tinha até mesmo começado a orientar as senhoras em seus novos trabalhos. Segundo o próprio Chet, ele descobrira que tinha um talento natural para o trabalho e Allie o incentivara a assumir o posto de instrutor. — Ela é uma mulher muito forte e decidida — comentou Chet com o filho. — Está cheia de planos para o futuro, mas, por enquanto, todos ainda terminam com um grande ponto de interrogação. Pelo que entendi, Allie deve ficar com a filha em Cleveland até o bebê nascer e Carol se acostumar com a nova estrutura familiar.

Tenho certeza de que depois disso partirá em busca de uma nova vida. Apesar da tristeza, há um novo brilho no fundo dos olhos castanho-dourado. Detesto dizer isto de uma mulher que acabou de perder o marido, mas Alison Mills me lembra um pouco um belo cavalo selvagem que foi domado e que finalmente, após anos de controle, ficou livre das rédeas. Acho que nem mesmo ela compreende bem o que está acontecendo, mas pela primeira vez, vai pensar em si

mesma e não no marido e filhos, se é o que entende o que estou querendo dizer, meu filho. Nick entendia. Estava espantado com a percepção aguçada de seu pai, mas não deveria estar, concluiu pouco depois. Chet Henry sempre estivera certo em suas considerações sobre Joa-nie, sobre Mareie, e até sobre o próprio Nick e sua necessidade de se livrar definitivamente do terno e gravata para se tornar um homem livre e feliz. — Bem, olhe, diante das circunstâncias, devemos ser cautelosos — Chet dissera naquela noite, sem jamais se referir abertamente à atração que sabia existir entre o filho e Allie. — Faça um grande favor àquela bela dama. Convide-a para um passeio no rio Colorado, naquelas viagens que você costuma fazer antes de o verão começar. Trate-a com muito carinho e respeito. Seja muito amigo e companheiro. Será uma excelente oportunidade para ajudá-la a resolver qual o melhor caminho a seguir e também para afastá-la um pouco dos filhos. Cada um deles tem um plano diferente para a mãe, mas tenho certeza de que Allie não

gosta destes planos. Ela precisa de tempo para se. O que acha da idéia?

...

Qual é mesmo a palavra? Ah, sim, recompor-

— Danada de boa! — Nick concordara, mas não poderia sugeri-la agora, não em uma carta de condolências. Teria de esperar um tempo considerável antes de fazê-lo. Deixando as lembranças e considerações de lado, pegou a caneta dourada que Mareie lhe dera em seu último aniversário e começou a escrever:

Querida Allie, Lamento muito tudo o que aconteceu. Sei que palavras não são suficientes para amenizar a dor de sua perda, mas quero que saiba que temem mim um amigo com quem sempre poderá contar ...

Desta vez ele terminou a carta e não a rasgou como as outras três. Foi breve e direto, falando

com sinceridade, mas sem deixar que as emoções que o acometiam transparecessem nas pa- lavras gentis que colocara no papel. Resistiu à tentação de usar clichês e frases batidas, mas teve muita vontade de escrever algo como "Deus fecha uma porta, mas abre uma janela". Sabia que Alison o menosprezaria se fosse tão óbvio. Assim, preferiu terminar com um simples "com carinho". Postaria a carta na manhã seguinte, no próprio aeroporto. Aliviado por ter concluído a primeira parte de seu plano para conquistá-la, levantou-se e entrou na cabana que se transformara em seu lar desde que deixara o mercado financeiro. Pouco tempo depois, parou diante da janela do quarto e ligou para Mareie. Queria desejar-lhe

boas festas, pois dentro de três dias seria Natal e mal se lembrara de enviar um cartão para a própria filha. Ela, no entanto, lembrara do aniversário do pai na semana anterior e lhe enviara não só um cartão, mas também um presente. Na mensagem que lhe escrevera, Mareie deixara claro que já era a hora de o pai crescer e parar de brincar de Indiana Jones. Nick sentiu um certo remorso. Tinha sido um pai ausente para Mareie nos últimos anos. Era um excelente guia turístico, um profissional ainda melhor do que fora como analista financeiro, mas talvez só isto não bastasse para fazer aqueles que amava felizes. Era um primeiro passo, mas não o mais importante e estava na hora de ele começar a pensar seriamente em construir uma vida que agregasse valor a sua própria e à daqueles que o cercavam. Um bocejo escapou de seus lábios. Aquilo poderia esperar um pouco mais, pensou, ou pelo menos até o dia seguinte quando estivesse mais descansado e alerta para tomar decisões. Compenetrado, observou o próprio reflexo na janela envidraçada e viu que os cabelos castanho-avermelhado agora tinham mais fios grisalhos do que antes. Sua barba, no entanto, continuava escura. Ele estava envelhecendo, mas ainda mantinha uma aparência bastante atraente e máscula.

— Bem, não há nada errado em se passar dos quarenta — falou para a imagem refletida na janela e sorriu. — Sempre é tempo para amar e o amor maduro é o melhor e mais pleno de todos — concluiu, lembrando-se da dona de certa voz que se juntara a sua em certo do dia de setembro. "Vou procurá-la assim que voltar para casa na primavera” decidiu percebendo que só mesmo um amor maduro era sábio e paciente o bastante para esperar o momento certo para se manifestar. Naquela noite, Nick demorou a adormecer, porém, quando finalmente o fez, teve o mais maravilhoso de todos os sonhos que já experimentara. Sob a tênue névoa da inconsciência, viu uma Allie sorridente e maravilhosa puxá-lo pelas mãos e levá-lo até uma praia coberta de areia branca e reluzente, tendo um mar azul-turquesa e folhagens verdejantes como cenário de fundo. Então, como só acontece nos sonhos, de repente, ambos estavam nus. Seus corpos colavam- se um ao outro com perfeição. Os seios redondos e firmes eram tão belos e sensuais quanto Nick imaginara que seriam e ele os segurou entre as mãos, beijando-os com avidez, como se estivesse sorvendo um cálice do vinho mais puro e sagrado que a humanidade já inventara. Allie gemeu baixinho antes de puxá-lo para mais perto de si e começar a acariciar-lhe as costas e ombros, primeiro delicadamente, depois com uma ânsia voraz e insaciável. Aquela Ali- son de seu sonho tinha um quê de selvagem, era uma mulher totalmente diferente, que havia deixado a timidez e o recato de lado para se permitir ser feliz, amando sem reservas, sem falsos pudores, dedicando cada fibra de seu corpo à necessidade primordial do ser humano:

superar a tristeza, os temores

e ser feliz.

... Assim, quando juntos, embora em sonhos, eles atingiram o ápice do prazer, Nick soube que

aquela era a mulher pela qual esperara durante toda a sua vida

...

Só ela podia fazê-lo plena e

totalmente feliz ... Alison sentou-se na cadeira de balanço da casa de Carol e ninou a neta carinhosamente enquanto a filha tirava um cochilo no andar superior e Doug estava no trabalho. A casa estava tranqüila e silenciosa. Lá fora o tênue sol de março refletia-se na neve que ainda recobria' o solo. Um sorriso brincou nos lábios de Allie quando ela olhou para o rostinho rosado da pequena Charlotte e experimentou aquela sensação maravilhosa, mescla de serenidade e amor, inundar-lhe o peito. Era uma emoção completamente nova para ela. Nunca imaginara que ser avó poderia ser algo tão sublime, ainda mais perfeito do que o amor

que acompanha a maternidade. Carol e o marido tinham dado o nome de Charlotte à filha em homenagem ao avô e ao se lembrar de Charlie Allie apertou a neta ainda com mais força nos braços. Quatro meses tinham se passado desde a morte de seu marido e Alison começava a sentir que era hora de seguir em frente e deixar a tristeza e os pesares para trás. Precisava ir embora e resolver o que faria de sua vida.

Carol já tinha se acostumado com o dia-a-dia do bebê. Doug, por sua vez, era um ótimo pai e a pequena família poderia muito bem seguir sozinha dali em diante, sem precisar de sua presença ou ajuda. Assim, precisava preparar-se para dar o próximo passo na vida nova que a esperava. Pretendia aprender a viver sozinha, de acordo com suas próprias crenças e verdades. Charlotte estirou-se nos braços da avó erguendo as mãos que pareciam duas pequenas estrelinhas claras e brilhantes. Lentamente, a menina abriu os olhos castanhos e a fitou. Era tão parecida com Jimmy quando bebê que, às vezes, Allie tinha a sensação de que estava carregando o filho caçula nos braços. Mas vinte anos tinham se passado desde que Jimmy era um bebezinho e ela, Charlie e as crianças formavam um família grande e feliz. Agora Jimmy estava prestes a se casar e Charlie se fora para sempre.

A pior fase do luto já havia passado. Claro que ainda tinha dias em que uma grande tristeza se apossava dela e as lágrimas teimavam em rolar por suas faces. Porém, uma força que até então não imaginara possuir a fazia ressuscitar das cinzas de pesar, como uma Fênix, e ela ousava fazer planos para o futuro, aceitando o que o destino lhe preparara. Claro que milhares de cenas de sua vida passavam em sua mente como se fossem um filme exibido por um daqueles retroprojetores antigos. Ela e Charlie quando se conheceram o casamento, a lua-de-mel, a promessa de que seriam um casal diferente, a primeira vez em que haviam feito amor. A compra da casa dos sonhos, o nascimento dos filhos ... Sim, aquele era o Charlie de quem se lembrava um homem maravilhoso e ativo que a fizera feliz durante quase vinte e cinco anos, mas que terminara sua jornada ali antes dela e Alison precisava continuar seu caminho também, era isso que Charles desejara fora isto que ele lhe pedira na carta de despedida que deixara na tela do computador. E era exatamente isto o que iria fazer. Estava tão imersa em seus pensamentos que se esqueceu de mover a cadeira de balanço. Charlotte reclamou no mesmo instante.

— Shhh ...

Certo, certo, já entendi, princesa — murmurou, levantando-se e seguindo até a

janela. A neve que recobria o solo começava a derreter-se sob o tênue sol do início da primavera no hemisfério Norte. Ela acalmou o bebê e apreciou a paz que remava naquela rua de subúrbio em Cleveland. Era incrível como na garagem de quase todas as casas da rua parecia haver o mesmo tipo de carro, vans ou carros grandes que acomodam famílias inteiras, quase todos em preto ou cinza. Seu próprio carro, que também era uma minivan, estava estacionado diante da garagem de Carol. — Acho que está na hora de trocar de carro — falou para o bebê, mas na verdade estava conversando consigo mesma. — Vou comprar o conversível vermelho que sempre quis ter. "Vamos dirigir vans até as crianças crescerem", Charlie tinha dito quando ela ficara grávida dos gêmeos. "Mas quando todos eles forem para a universidade, vou dar-lhe o conversível ver- melho que sempre desejou ter, meu bem!"

E Jimmy fora o último a deixar a casa dos pais, mas Charlie não tivera tempo de cumprir o prometido. — Bem, eu mesma poderei comprá-lo — concluiu Alison, sorrindo para a neta. Sim ira comprar um MG. Não, não, este modelo não era mais fabricado. Quem sabe um Mercedes ou BMW? Mas será que tinha condições de pagar pelo carro? Ora, claro que sim. Charles a deixara com uma boa reserva financeira e mais um seguro de vida bastante razoável, portanto dinheiro não era problema. Além do mais, se queria começar um vida nova, era bom remodelá-la por inteiro, afinal estava na hora de prestar atenção a seus impulsos e desejos mais secretos. Era viúva, seus filhos estavam criados, não tinha problemas financeiros, estava em perfeita forma física e mental. Tinha apenas quarenta e poucos anos. O que mais poderia desejar? — Um carro novo! — falou em voz alta para tentar sufocar um pensamento torturante que lhe cruzou a mente. No entanto, não foi rápida o bastante para enganar a resposta que vinha de seu coração. Era impossível afastar a imagem de um homem alto e forte segurando um violão e cantando uma linda canção de amor ... O carro escolhido foi um Mazda Miata vermelho, cuja cor parecia ainda mais intensa e forte quando comparada aos tons neutros dos outros carros da vizinhança da rua de Carol. Tinha sido um mimo bastante caro, embora não fosse um carro zero quilômetro. Segundo o vendedor da loja, o carro pertencera a um professor universitário que se dispusera dele para comprar uma minivan, pois a esposa estava grávida. Allie não pôde deixar de pensar em como a vida era engraçada e como os ciclos da existência se cruzavam: vida e morte estavam sempre presentes de alguma forma e os seres humanos não tinham como fugir delas, apenas adaptar-se. Veja só o professor trocando de carro porque um filho ia nascer e ela trocando por um carro menor porque o marido acabava de morrer. Certamente isto deveria ter algum significado que ainda fugia à compreensão de todos, inclusive dos maiores filósofos. Mas quem era ela para desvendá-lo? Não estava ali para desvendar todos os mistérios da humanidade. Queria apenas ser feliz. Satisfeita consigo mesma, girou a chave na ignição e ouviu o som do motor potente silenciar. Quase não podia acreditar que o Mazda era seu mesmo. Afinal, era o primeiro carro que comprava sozinha. Até então, Charles sempre comprara todos os carros da família, trocando- os na época certa para conseguir o melhor preço e evitar que dessem maiores problemas. Ele sempre comparava preços, percorria todos os classificados dos jornais e fazia uma análise crítica e racional da compra, muito diferente dela que comprara com o coração, por impulso e para atender a um antigo desejo que sufocara durante anos. Ainda sentia falta de Charles, todos os dias alguma coisa a fazia lembrar o marido, mas isto não acontecia em todos os momentos. O luto era muito diferente do que havia imaginado que seria. Ele vinha em pequenas ondas de pesar, uma pontada de saudade, mas depois se afastava e não voltava a incomodá-la pelo resto do dia. Sentia- se feliz cuidando de Charlotte, mantinha-se ocupada escrevendo cartas e realizando alguns projetos no computador para enviar para Sarah na Busy Hands. Em outros momentos, ligava para Lucy e ficava sabendo dos últimos acontecimentos em Framingham. Não que as fofocas a interessassem, mas era uma maneira de manter a mente ocupada e deixar as portas bem trancadas para que a solidão jamais ousasse entrar em sua vida. Aliás, Lucy a tinha ajudado muito neste aspecto. Cada dia que passava sentia-se mais próxima da velha amiga que não a deixara só nem por um instante, mesmo morando a milhares de quilômetros de Cleveland. De uma certa forma, aqueles meses de luto haviam ensinado Allie a nunca acreditar em

estereótipos, pois as reações do ser humano diante da morte de um ente querido eram algo tão íntimo e particular quanto a digital de uma pessoa. O luto não era aquele mar de choro e desespero que todos diziam ser. Para ela, por exemplo, era a saudade que sentia de Charles, mas, ao mesmo tempo, tinha plena convicção de que haviam sido abençoados por partilhar de tantas coisas boas juntos.

Por que as pessoas só se concentravam na dor que restara e não nos momentos felizes que haviam partilhado com aqueles que se foram? Allie chegou a pensar que talvez tivesse algum problema, mas depois concluiu que não. Ela era uma otimista por natureza. Assim, decidira manter as lembranças da vida e não as da morte. E aquilo não era uma fuga, era sim lembrar-se da pessoa que amara durante tantos anos da maneira mais digna e justa. Charlie merecia isto, ela merecia isto, seus filhos mereciam isto. Tinha sido uma boa esposa, boa mãe, excelente companheira e agora também seria uma boa viúva, decidiu, saindo do carro e deixando que o ar fresco da primavera beijasse-lhe as faces. — Obrigada, Charles — falou olhando para o céu e depois acariciando o carro que comprara e que batizara de Coração Selvagem, pois era ele que a conduziria pelas estradas de uma vida muito diferente da que levara até então. — Céus, o que é aquilo? — Carol perguntou assim que Alison entrou no hall e pendurou o casaco. — Aquilo é meu novo carro, querida. Gostou? Carol abaixou-se para pegar os muffins que deixara no forno. Lentamente, colocou-os sobre o balcão antes de voltar a encarar a mãe. — Você está indo embora, não é? Allie sentiu seu ânimo arrefecer. Era a mesma sensação daquela que se experimenta em um elevador que despenca do último para o primeiro andar a toda velocidade. — Já falamos sobre isto antes, querida. Não posso ficar aqui para sempre. Esta é sua casa. Sua de Doug e Charlotte. Não é a minha. — Sim, mas eu tinha esperança ... — Não é como se eu estivesse indo embora amanhã, Carol — tentou consolar a filha.

—Mas já está se preparando para alçar vôo. E o que significa este carro, mãe? Não tem nada a ver com você. Ah, céus, você está muito diferente. — Sim, todos estamos querida. Veja você, por exemplo. Está mudada. Agora é mãe e está reestruturando sua vida para adaptá-la à chegada de Charlotte. Eu também, agora estou viúva e preciso me ajustar a essa realidade. — Só que não está agindo como uma viúva — Carol falou tão suavemente que Alison mal conseguiu ouvir suas palavras. Dando um longo suspiro, Allie foi até a filha e a abraçou. Ficaram ali em silêncio, até a chaleira apitar anunciando que a água do chá estava pronta. — Desculpe mãe — lamentou Carol. — Não pretendia ser rude. — Afastou-se e colocou água nas xícaras que já continham o sache com chá de hortelã. — Sei o que quis dizer. — Bem, é só que depois que papai morreu você parece estar tão diferente. Parece mais livre e

solta, quase

radiante. E só faz quatro meses que ele se foi. Sinto muita falta dele.

... — E acha que eu não sinto? — Não sei. — O que realmente a incomoda, Carol? — Acho que é o fato de minha mãe não parecer mais a mesma pessoa. Sempre a vi como uma pessoa tão firme, séria, constante ...

— Previsível você quer dizer. — Talvez. Imaginei que iria cuidar de você depois que papai se fosse.

Ajudá-la a superar o luto. Sei que às vezes você fica triste, mas, então, de repente, está

radiante de novo como se nada tivesse acontecido. Como se o problema não passasse de uma simples dor de cabeça, um resfriado sei lá. Algo que incomoda, mas vai passar por que não faz muita diferença. Allie lançou um olhar penetrante para a filha. — Você se sentiria melhor se eu estivesse em frangalhos? Indagou. — Quero dizer, preferiria que eu estivesse como alguém com pneumonia grave ou síndrome da fadiga crônica, para usar sua própria analogia? — Ah, pare com isto! É impossível falar a sério com você, ultimamente! — exclamou, mas, desta vez, estava sorrindo. — Claro que não desejo vê-la triste. Tenho orgulho por ser tão forte e corajosa. Acho só que preferia que você se enquadrasse no perfil de viúva. — Vamos, Carol, você não iria gostar nem um pouco se eu ficasse me arrastando pelos cantos e decidisse encostar-se a você e Doug para sempre. — Doug adora você, mãe — assegurou a filha, talvez, rápido demais. — Gostaríamos muito que ficasse um pouco mais conosco. Ou, quem sabe, arrumasse um lugar para morar aqui perto. Não sabemos quais são seus planos para o futuro e nem para onde pretende ir. Allie não respondeu. — Mãe, para onde está pensando em ir? Estranhamente, Allie lembrou-se de uma cena de um filme de Marlon Brando a que assistira com Charlie: "Para onde está pensando em ir?", alguém perguntava. "A lugar algum, eu apenas vou", Brando respondia. O título do filme era justamente Coração Selvagem. — Por que está rindo? — quis saber Carol. — Olá, Terra para Sra. Mills. Fiz uma pergunta, mãe. — Não sei. Mas não tenho a mínima pressa em decidir. Terá de ser paciente comigo, Carol. Aliás, vocês todos terão. Pretendo tirar um tempo só para mim. Pegar meu carro novo e fazer uma longa viagem. — Mas para onde? Quero dizer, não pode simplesmente sair por aí dirigindo em direção ao pôr-

do-sol. Ah, eu estava quase esquecendo

...

Aquele senhor de Sun City ligou para você.

— Chet Henry? — Sim. Estava falando com ele quando vi um conversível vermelho parado na rampa da minha garagem. — E? — Ele pediu para lhe dizer para reservar a terceira semana de abril. — O que mais? — Foi tudo. Exceto pelo fato de ele ter mencionado algo sobre Phyllis ter ido para São Francisco e estar prestes a sair velejando por aí. Achei muito estranho. Velejando? — Ela vai fazer um cruzeiro de volta ao mundo. — Nossa, parece que de repente todos resolveram sair por aí sem rumo e sem destino — Carol falou com uma pequena careta. — Mas o que ele quis dizer com aquela história de re- servar a terceira semana de abril, mãe? Não está pensando em voltar para aquele lugar,está? — De jeito nenhum! — Allie garantiu, sabendo que a filha se referia ao resort. — Mudando de assunto, quem você conhece o Chile? — indagou Carol, pegando a pilha de

correspondência de sobre o balcão e estendendo um envelope para a mãe. — Correspondência misteriosa para a Sr. Mills.

Alison pegou o envelope e viu que não havia nem nome nem endereço do remetente. Apenas o

carimbo e o selo do correio, além da cor do envelope, indicavam a procedência da carta, mas ela sabia exatamente de quem era. — Seu rosto está completamente vermelho, mãe. Como é, vai abrir ou não? — Acho que mais tarde. — Embora o nome do remetente não estivesse ali, reconheceu imediatamente a caligrafia de traços firmes e fortes. Tinha recebido uma carta de condolências exatamente igual àquela há quase quatro meses, logo após a morte de Charles.

A terceira semana de abril

Então Nick deveria estar de volta da América do Sul na terceira

... semana de abril. Pronto para começar a temporada e descer o rio Colorado em seu barco como uma espécie de Indiana Jones moderno. — A carta é daquele homem, não? — Carol quis saber. — Aquele com quem você costumava cantar no resort. Allie assentiu. — Sim, o filho de Chet Henry. Nicholas. Desta vez foi Carol que se aproximou e a abraçou. — Mãe, sei que estou sendo muito chata e enxerida. Mas só quero vê-la feliz. Você está tão diferente depois que ficou viúva que me sinto perdida, não sei como agir ou o que pensar. Está parecendo mais minha irmã do que minha mãe. Preciso me acostumar a isto. — Ser mãe é muito mais fácil, querida, pois, os instintos estão todos dentro de nós, esperando apenas para aflorar no momento em que damos à luz a nosso primeiro rebento. Porém, ver sua mãe se comportar como uma "quase" irmã é bem mais difícil. — E como! Mas espere só para ver a reação que nossos outros irmãos terão minha cara — Carol gracejou. — Shelley vai ter uma síncope quando vir seu carro vermelho e Sam ... — Acho que Sam estará ocupado demais para notar—Allie concluiu, mas sabia que não seria bem assim. Sam também não entenderia aquela veia aventureira que, de repente, se revelava nela. O único que certamente iria insistir para que fizesse exatamente o que queria seria Jimmy. Afinal, Jimmy estava apaixonado, iria se casar em breve e, com certeza, adoraria o Miata. — Pode ser. — Escute meu bem — Allie sussurrou junto aos cabelos da filha. — Continuo sendo sua mãe. Só me dê uma chance de provar isto. Preciso de um espaço só meu para me reintegrar à sociedade como uma mulher sozinha. Antes eu era a esposa de Charles Mills. Agora sóu Alison Mills e quero viver de acordo com tudo em que acredito. Inesperadamente, Carol a beijou na face e sorriu. — Não sei, não, Alison Mills. Lembra-se de quando eu lhe pedia para me dar uma chance e você respondia que se me desse a mão eu iria querer também os braços e pernas? Brincou mais relaxada. — Isto foi há muito tempo. As coisas mudaram muito deste então. As duas mulheres ficaram ali na cozinha por muito tempo, sorvendo o chá e degustando os mufftns que Carol acabara de preparar. — Admito que é um belo carro, mãe — Carol falou, observando o veículo através da janela envidraçada. — Você merece. Como se aquela fosse a deixa para tirar Carol de cena, Charlotte acordou e começou a chorar. Alison viu a filha sair apressadamente para o andar de cima e foi até a janela. Mal podia

esperar para ver o que Nick escrevera na carta. — Glória, aleluia! — Lucy gritou entusiasmada do outro lado do telefone ao ouvir a notícia. — Estava mesmo na hora de fazer algo por si mesma, bela! Allie sentou-se na poltrona da sala de visitas de Carol, ainda com a carta na mão. Ligara para Lucy no momento em que decidira aceitar o convite de Nick para uma excursão pelo rio Colorado. — Bem, nunca fiz nada parecido como isto antes. — Então já estava mais do que na hora de fazer, bela. Sarah disse que ele é muito atraente. Aliás, lembro-me exatamente das palavras de Sal: "Alguma coisa acontece quando nossa Allie abre a boca para cantar com aquele homem maravilhoso. É como se, juntos, eles mexessem no relógio do tempo e ficassem uns vinte anos mais jovens." E agora você está me dizendo que vai velejar pelo rio Colorado rumo ao pôr-do-sol com este pedaço de mau caminho. — Não vamos velejar, Lucy — corrigiu-a Alison, encabulada. — Nick tem um barco pequeno, mas muitos trechos são feito em um caiaque ou em botes infláveis. — Poupe-me destes detalhes porque se já tenho medo de uma embarcação grande imagine então dessas canoinhas em um rio imenso como aquele. — Pois eu adoro a idéia da aventura. — E que aventura! Vai ficar uma semana inteira sozinha com aquele deus grego? — Exatamente, uma semana. — E depois?

— Não faço a menor idéia — Allie confessou. — Quero dizer, não tenho planos para o longo e médio prazos. Tenho algumas idéias apenas para o curto prazo. Esticou o braço e pegou um calendário que havia sobre o aparador. Então contou a Lucy o que pretendia. Uma semana no rio com Nick, uma breve escapada da vida real, então dirigiria para Los Angeles para visitar Sam e Shelley, ficaria mais uma semana por lá. Subiria pela Costa Oeste até o Norte e depois faria todo o caminho de volta ao Leste de carro. Queria conhecer o Oregon, Dakota do Norte e cruzar a fronteira até Toronto no Canadá, para ver o outro lado dos Grandes Lagos. — Vai fazer todo o trajeto sozinha? — espantou-se Lucy. — Claro preciso disto. Mas em seguida você terá o prazer de minha companhia, pois seguirei direto para Framingham. Devo chegar aí para o feriado do Memorial Day, na última semana de maio e ficarei para o casamento de Jimmy. Allie estava chamando aquela data de o Grande Recomeço, pois, além de ser o final de seis semanas de férias, seria também seu retorno a uma vida normal. Pretendia estabelecer-se, comprar uma casa e tudo mais. Não uma casa grande como a que tinha antes, mas algo

aconchegante e confortável onde pudesse viver tranqüilamente com Jeepers e

...

Quem sabe

alguém mais. — Não vejo a hora de colocarmos nossa conversa em dia, bela. O telefone limita muito. Sinto falta daqueles nossos almoços semanais. — Eu também, Lucy. Quando desligou, Allie percebeu que o que acabava de dizer era a mais absoluta verdade. Ninguém a entendia ou a aceitava como Lucy. Fosse o que fosse a amiga de mais de vinte anos estava sempre ali para dar apoio e suporte nas horas difíceis. "O fato é que os anos se passaram, mas, no fundo, embaixo da aparência de respeitáveis senhoras de quarenta e poucos anos, continuamos as mesmas garotas da faculdade. Românti- cas e sonhando apenas em ser felizes, cada uma a seu modo!" Não era de admirar que Carol tivesse dito que estava se comportando mais como irmã do que mãe. Afinal, há muito tempo não se sentia tão livre e empolgada para seguir seu caminho sem

se preocupar com marido e filhos. Agora era só ela própria, seus sonhos e ...

Nick Henry. Por mais que desejasse se contiver, não conseguia parar de pensar em como seria fazer amor com aquele homem absolutamente maravilhoso. Será que ele tentaria tocá-la com intimidade quando estivessem sozinhos no barco? Só em pensar em tal possibilidade Allie sentiu todo seu corpo estremecer. Nick era alto e viril. Tinha ombros largos, braços fortes, mãos enormes e uma boca que parecia ter sido feita para levar qualquer mulher à loucura. Como seria senti-lo beijando-a de alto a baixo, percorrendo de seus lábios até as partes mais íntimas de seu corpo, para depois mergulhar dentro dela com uma força pungente e avassaladora até fazê-la gritar de prazer de satisfação? Certamente maravilhoso. Mas estaria pronta para ser amada por outro homem depois de ter feito amor com Charles durante vinte e cinco anos? Só o tempo poderia dizer.

Capítulo VI

Depois de passar horas debruçada sobre o mapa dos Estados Unidos, Alison decidiu mudar o itinerário de sua viagem solitária pelo país. Não iria mais passar pela Califórnia. Aliás, desistira até mesmo de planejar o itinerário dia-a-dia. Depois de pensar melhor, decidira que o ideal seria traçar um roteiro ao qual pudesse se ajustar de acordo com as circunstâncias, estabelecendo apenas um ponto de partida e outro de chegada. Sim, embarcaria em seu belo Coração Selvagem e partiria para aquela aventura sem ficar se atendo muito aos detalhes. Decidiria o que fazer conforme as situações fossem se apresentando diante dela. Afinal, os acontecimentos recentes a fizeram ver que de nada adiantava ser minuciosa e detalhista, pois nada acontecia exatamente como planejado. Ainda podia se lembrar da cara de espanto que Sam fizera diante de seu Miata vermelho quando chegara a Cleveland, de surpresa, na semana anterior. Tudo acontecera dè repente. Allie tinha ouvido uma conversa de Carol ao telefone naquele mesmo dia em que trouxera o Miata para casa e recebera a carta de Nick. Aparentemente, a filha não tinha compreendido tão bem as intenções de Allie quanto ela imaginara a princípio. — Estou preocupada com a mamãe, Sam — Garol dissera ao telefone, não percebendo que Allie podia ouvi-la perfeitamente bem do quarto ao lado. — Ela está diferente. Mais ousada, imprevisível. Nunca tinha falado nada sobre comprar um conversível e, de repente, aparece com um Miata vermelho. Allie levantou-se da cama de um salto ao ouvir tal comentário. Pé ante pé, seguiu até a porta e continuou a ouvir a conversa sem um pingo de remorso, afinal os filhos estavam falando a seu respeito como se fosse uma criança travessa ou, pior, uma adolescente problemática. — Não, ela não está deprimida—prosseguiu Carol. — Muito pelo contrário, parece até racional demais. Não sei explicar, jamais a vi tão radiante e cheia de vida. O problema é que nunca imaginei que minha mãe iria comprar um conversível vermelho e, ainda por cima, decidir se lançar sozinha em uma viagem de costa-a costa do país. Esta não é nossa mãe, não se parece com a Alison Mills que todos conhecemos. Allie retesou-se toda diante de tal comentário. — Não, não precisa fazer isso, Sam — Carol ergueu o tom de voz, obviamente aborrecida com algum comentário que o irmão fizera — Não liguei para deixá-lo alarmado. Só achei que você é

Shelley deveriam ser informados do que está acontecendo. — Já chega! — exclamou Allie, amarrando o robe em torno de sua cintura e saindo apressadamente para o corredor. Embora a porta do quarto da filha estivesse aberta, fez questão de bater para anunciar sua presença. — Só um minuto, Sam — falou a moça, erguendo o rosto para encarar a mãe. — Ouvi tudo o que disse, Carol e não gostei nem um pouco. Não precisamos disto, precisamos? Atordoada, Carol voltou-se para o marido que estava sentado na cama, aparentemente lendo um livro. Então, quando percebeu que Doug não tinha a menor intenção de se intrometer na- quele assunto de família, virou-se para Allie, ainda mantendo o fone junto ao ouvido. — Pensei que nós duas já tivéssemos nos entendido e que você compreendesse por que quero fazer esta viagem. Parece que me enganei. A filha continuou calada. — Vamos, passe este telefone que quero falar com Sam. — Alison precisou se controlar para não pegá-la pela orelha como fazia quando era criança. Um pouco perturbada Carol obedeceu, mas Sam deveria ter ouvido a breve conversa e pressentido o perigo iminente, pois desligou. — Quer que ligue de novo? — Carol ofereceu-se de pronto. — Não, obrigada. A esta altura Sam já deve estar ligando para Shelley. — Sinto muito, mãe. Não fiz isto por mal. Só estou preocupada com você. Allie respirou fundo e olhou da filha para o genro. Doug fingia estar concentrado em sua leitura, mas as orelhas e o nariz vermelho deixavam claro o quanto estava constrangido diante daquela cena. —Eu também sinto, Carol — falou, decidindo não prolongar o calvário do genro, que afinal, não tinha nada a ver com a história. — Não pode nem imaginar o quanto! Depois de tudo isso, não foi surpresa nenhuma quando Sam chegou a Cleveland na tarde seguinte. Da cadeira de balanço junto à janela, onde costumava ninar Charlotte, Allie viu o táxi parar

diante da casa e seu filho mais velho descer carregando uma pasta de couro. Embora estivesse brava, não pôde deixar de notar que, dos quatro, Sâm era o que mais se parecia com o pai. Aliás, ele e Shelley se pareciam com Charles e Carol e Jimmy com ela. Talvez fosse esta a explicação para os laços que se formavam dentro da família: Sam e Shelley sempre contavam tudo ao pai e, desde a infância os três tinham sido amigos inseparáveis. Jimmy era mais apegado à mãe, e Carol, bem, pobre Carol, a filha do meio, nunca conseguirá se encaixar definitivamente em nenhum dos dois grupos familiares. Mas não era hora de dar vazão a suas emoções e considerações maternais, Allie ralhou consigo mesma. Os filhos estavam criados e cada um tinha sua própria vida. Era preciso pensar em si mesma e no que desejava fazer dali por diante. Merecia essa chance, fora uma boa mãe, boa esposa, boa companheira por vinte e cinco anos. Agora queria ser apenas Alison, o ser

humano, a mulher e

Quem sabe, a amante.

... Assim, levantou-se e foi até a cozinha onde Carol estava preparando um bolo de carne para o

jantar. — Tome, segure Charlotte — disse, entregando o bebê à mãe no mesmo instante em que a campainha ecoou pela casa. — Sam está aí. Quero falar sozinha com ele, entendeu? Carol a fitou como se estivesse prestes a chorar. Então a campainha soou novamente e Allie girou nos calcanhares apressando-se para atender à porta. Assim que esta foi aberta, Sam deu um passo à frente e fez menção de abraçá-la.

Allie o repeliu com um gesto de mão. — Não, Sam. Sei que não veio de tão longe só para me ver ou fazer uma visita de cortesia, portanto, sejamos práticos. —Mãe, acalme-se, por favor!—Sam pediu, tirando o casaco e pendurando-o no hall de entrada. — Não estou nervosa, mas sim irritada com você e Carol e, por certo, com Shelley. A menos que eu esteja muito enganada, você a teria trazido consigo se pudesse, não? — Sim, mas Shelley está com problemas. Ela precisa falar com você sobre algumas coisas que estão acontecendo. — Então deixe que sua irmã mesma faça isso quando puder — replicou Allie num tom firme. Já na sala, acomodou-se no sofá e gesticulou indicando que Sam deveria fazer o mesmo. — Se não se importa, gostaria de dizer olá para Carol antes de começarmos. — Depois. Já avisei sua irmã que primeiro quero conversar sozinha com você. Afinal, viajou uma boa distância só para estar aqui hoje e me dizer o que pensa. Então, vamos lá, Sam, diga. Sou toda ouvidos. — Ah, não posso falar quando você está assim, mãe. Ela não se moveu, continuou sentada impassível, os braços cruzados na altura do peito, o rosto sério e os olhos fixos nos do filho. — Sabe muito bem por que estou aqui — Sam admitiu por fim. — Shelley e eu conversamos ... — Deixe Shelley fora disto! Sua irmã pode me dizer o que pensa por si só. — Mas Shelley me pediu para falar que ... — Só vou ouvir o que você tem a dizer. Não preciso de garotos de recados. — Mãe, você está dificultando as coisas para mim. — Bem a recíproca é verdadeira, querido. Constrangido, Sam pigarreou, afrouxou a gravata e apertou as mãos nervosamente. Allie não se lembrava de ter visto seu filho mais velho tão inseguro antes. Não Sam que fora aceito em Harvard aos dezessete anos e agora aos vinte e cinco já era um advogado bastante conceituado. — Mãe, queremos apenas tomar conta de você. Desejamos o melhor e ... — O que seria o melhor para mim na opinião de vocês? — Ah, aquele carro que comprou, por exemplo. Não pode ficar com ele, não é seguro, não tem nem air bags. — Quer dizer que já checou? — Claro. Reconheço que estava precisando de um carro novo, mas deveria ter pedido minha ajuda. Conheço carros. Poderia ter encontrado um bom Volvo a um preço bem justo. — Eu não quero um Volvo Sam. E, para sua informação, dirijo desde os dezesseis nos, o que significa mais de vinte e tantos anos, sua idade, sem nunca ter sofrido um acidente sequer. — Allie calou-se, pois percebeu que não fazia sentido proclamar suas qualificações como boa motorista para um filho para quem tinha servido de chofer durante anos a fio. — O fato é que sempre quis ter um conversível vermelho. Ponto. — Isto é algum tipo de protesto? — Não, querido, é um tipo de meio de transporte — esclareceu num tom irônico. Sabia que estava tornando as coisas mais difíceis para Sam, mas não ira permitir que os filhos interfiram em sua vida e no que desejava fazer.

— E já chega desta história do carro. Não vou mudar de idéia. Agora, prossiga o que mais o perturba, Sam?

— Aquele homem com quem quer descer o rio Colorado. — Desta vez Sam estava totalmente enrubescido. Parecia nem mesmo saber onde por as mãos, no bolso, para trás, para frente, e também as passando pôr entre os cabelos como o pai costumava fazer. Allie sentiu uma onda de compaixão invadir-lhe o peito, mas conteve-se a tempo. Se cedesse agora, nunca mais poderia ter sua independência de volta. — Viajar sozinha com um homem que mal conhece não tem nada a ver com você, mãe e nos deixa totalmente desconcertados.

— O que quer dizer com não tem nada a ver comigo? O que sabe sobre mim? Se nunca fiz nada parecido antes era por que fui uma mulher casada durante vinte e cinco anos. Amava seu pai e não precisava de mais nada além de nosso relacionamento para ser feliz. Mas, agora sou viúva, as coisa mudaram. Sou livre para sair com quem desejar. — Não consigo vê-la assim. Sei que só tem quarenta e três anos e se casou aos dezoito. É linda, maravilhosa, meus amigos sempre comentam como tenho uma mãe jovem. Mas, para mim, é apenas minha mãe. Aquilo ela até podia compreender. — Sempre serei sua mãe, Sam. Não importa o que aconteça. Mas terá de aprender a conviver com a idéia de que sou uma mulher livre. Isto pode levar algum tempo, mas enquanto isso, não quero mais vê-lo cruzando metade dos Estados Unidos para dizer que não concorda com uma decisão que tomei a respeito de minha própria vida. — Viajar sozinha com um homem é um pouco demais, mãe! — Se quer transformar uma bela viagem pelo rio Colorado em algo sujo e despudoramente vulgar é problema seu. Não vou mais me pronunciar a respeito. O que eu queria era lhe contar quais são meus planos para esta viagem e depois para a jornada de costa-a-costa que pretendo fazer, como contei a Carol e como sempre fizemos nesta família. Nunca escondemos nada.

— Eu

O problema é você viajar sozinha. Se fosse uma excursão com vários turistas até

... entenderia. — Ah, então veio ate aqui para tentar me dissuadir da viagem? Quer colocar um pouco de juízo em minha cabeça? — Allie não pôde evitar o sarcasmo. — Sim, você é muito ingênua, mãe. Este sujeito obviamente tentará se aproveitar disto. O mundo mudou. — Já chega! Está passando dos limites, Sam. Devo uma satisfação a você e seus irmãos sobre o lugar onde estarei nas próximas semanas, mas jamais sobre o que pretendo fazer ou como devo agir. Além disto, não precisa explicar que o mundo mudou para a pessoa que o trouxe a este mesmo mundo e que lhe ensinou as coisas mais básicas da vida até mesmo as primeiras palavras. Allie pressentiu que havia alguém mais ali e virou-se. Carol estava parada na soleira da sala de visitas. — Entre. Já estou pronta para conversar com vocês dois. — Falei para você não vir! — Carol reclamou com o irmão. — Precisava vir. Não poderia deixar simplesmente deixar para lá. Allie pigarreou para indicar que não ia tolerar que os dois discutissem em sua frente. — Pensei que tivéssemos nos entendido quando lhe contei meus planos, Carol — falou. — Eu também, mãe. Só que depois comecei a ficar muito preocupada. Tive medo que não tivesse percebido o perigo iminente. Achei que poderia estar sendo ... — O quê? Ingênua? Desleal para com a memória de seu pai? Promíscua? — Mãe, por favor! Você nem mesmo conhece esse homem direito.

— É muito cedo para

...

— começou a dizer Sam. Allie endireitou o corpo e fitou-os, beligerante.

— Basta! Mudei de idéia. Não vou ouvir mais. Vocês que me escutem agora! Sam e Carol se entreolharam surpresos. — Vou ser breve — Allie assegurou. — Primeiro, quero que saiba que amo vocês como sempre amei. Nada mudou ou jamais mudará. Como mãe, serei sempre a mesma, estarei sempre aberta para ajudá-los e apoiá-los no que for preciso. Porém, como Alison Mills, sou uma pessoa diferente agora. Estou solteira e, muito provavelmente, ainda tenho muitos anos de vida pela frente e pretendo decidir sozinha como quero passar estas décadas que me restam e o que é melhor para mim. Neste momento, resolvi que iria satisfazer um sonho antigo e ter um conversível vermelho. Também já planejei tirar seis semanas de férias que incluíram um passeio pelo rio Colorado com Nick Henry e uma viagem de costa a costa pelo país. Ao final destas seis semanas, visitarei Lucy e Sarah em Framingham para decidir o que fazer com minha participação na Busy Hands. Desde que seu pai morreu me afastei dos negócios e está na hora de resolver se voltarei a trabalhar na empresa ou se desistirei da sociedade de uma vez por todas. Apesar de ter decidido jamais ceder, Allie sentiu a raiva diminuir e o pulso voltar ao normal. A simples visão de seus filhos encarando-a com uma mescla de inconformismo, embaraço e surpresa foi o suficiente para tocar seu coração de mãe. Precisou ser muito forte para não os abraçar e assegurar-lhes de que no final tudo ficaria bem. — E depois? — Sam perguntou, ao vê-la calar-se. Bom ali estava sua deixa. Era melhor agarrá-la. — Depois ainda não sei ao certo. Tenho muitas idéias, mas nenhum plano definitivo. Direi a vocês quando souber. Aliás, sempre poderão contar comigo, como espero sempre poder contar com vocês. Mas espero que respeitem minha privacidade como respeito a de vocês. — Só queremos tomar conta de você, mãe — insistiu Sam. — Shelley e eu ... — Por favor, Sam. — Mãe, gostaríamos que viesse morar conosco na Califórnia. Poderíamos encontrar uma bela casa na praia, ou nas montanhas, se preferir e ... — E também um belo Volvo? — Pois eu preferia que ficasse aqui em Cleveland — foi a vez de Carol intervir. — Mas acho que já sei por que não quer ficar. Nunca gostou muito do Meio Oeste. — Era seu pai que não gostava querida, não eu. Seria muito bom se entendesse isto. — Vocês sempre nos ensinaram a não ser sarcásticos, mãe. — reclamou Carol. Allie respirou fundo. Era hora de fazer uma pequena concessão. — Vocês tiveram uma grande perda. Só que, lembrem-se, não vão me perder também. O que eu não quero é que tentem tomar as rédeas de minha vida em suas mãos — permitiu-se esboçar um leve sorriso. —Talvez daqui uns trinta anos chegará o dia em que precisarei pedir que façam isto. Mas, até lá, serei senhora do meu próprio destino. Fui clara? Os dois assentiram. — Ótimo. Agora deixe Charlotte comigo e termine o jantar, Carol. Presumo que Sam ficará por aqui esta noite. — Sim, tenho reservas no vôo de amanhã—respondeu Sam, fazendo menção de se aproximar da mãe. — Ainda não, Sam. Trocaremos um abraço mais tarde. Ainda estou muito zangada para ser verdadeira — falou, antes de pegar o bebê e seguir para o andar superior. Depois de alguns minutos, Charlotte adormeceu e Allie aproveitou para pegar o telefone e discar o número de Shelley. Foi a secretária quem atendeu, mas passou a ligação rapidamente tão logo ela se identificou.

— Serei muito breve, Shelley. Sei que não tem tempo a perder. Mas como já falei com seus irmãos, exceto Jimmy, é claro, agora falarei com você. — Sem pestanejar, repetiu o mesmo discurso que fizera para Sam e Carol pouco antes. — Espere um segundo, mãe — disse a gêmea de Sam do outro lado da linha. — Quero fechar a porta de meu escritório. Allie esperou, pois não era do perfil de Shelley tentar prolongar uma conversa ao telefone, especialmente uma cujo assunto era tão desagradável. — Também tenho algo para lhe falar — prosseguiu a moça ao retornar à linha. — Foi o que Sam disse. — Será que ela estava grávida? Allie esperava que sim, toda mulher tem de ficar grávida um dia e um filho talvez suavizasse um pouco aquele traço competitivo da personalidade de sua filha. — A notícia não é boa — ela foi logo adiantando. — O fato é que Dan e eu estamos nos separando. A irritação que Allie sentia até então deu lugar a uma onda de simpatia. Ouviu atentamente enquanto Shelley explicava o problema. Não, ela não precisava da ajuda da mãe naquele mo- mento, estava bem e tinha o trabalho para distraí-la. Além do mais, Sam estava sempre lá para apoiá-la. Mas agora precisava desligar porque tinha agendado uma reunião. —Acho que foi por isso que fiquei tão desconcertada quando soube que tinha comprado um conversível vermelho — Shelley admitiu. —Mães viúvas não costumam fazer estas coisas. Mas, afinal, vocês não parece uma mãe de marmanjos como a gente, e muito menos uma viúva. Ainda é muito jovem, mãe. Allie ignorou o comentário e fez o que pôde para consolar Shelley. Sentia certo alívio ao saber que Sam jamais a deixaria sozinha naquele momento difícil. Os gêmeos sempre tinham sido muito próximos e quando tinham algum problema preferiam recorrer um ao outro do que ao resto da família. Assim, quando desligou, sentiu que aquele capítulo de preocupação e problemas estava encerrado. Agora podia pensar em si e nas seis semanas de férias que teria pela frente. Aproveitando que Charlotte ainda dormia, encheu a banheira e mergulhou num relaxante banho de espumas. Seu caminho para a felicidade estava sendo um tanto acidentado, mas isto não significava que iria desistir da jornada antes de chegar ao fim. De jeito nenhum! Quando fechou os olhos e deixou que a água quente e relaxante envolvesse- a como num terno abraço, imaginou que na linha de chegada daquele longo trajeto haveria um homem alto e forte esperando-a de braços abertos ... Por um momento, Nick teve medo de que nada sairia como o planejado. Eram tantos detalhes, tantos cuidados que deveria tomar para que tudo desse certo que teve medo de não dar conta. Quando fazia aquela viagem pelo rio sozinho não costumava planejá- la, decidia o que fazer conforme as coisas aconteciam. Escolhia pontos para acampar e passar a noite de acordo com a beleza da paisagem e seu estado de espírito, mas agora seria diferente, não podia simplesmente deixar que as coisas acontecessem. Não queria meter os pés pelas mãos e afugentar Alison para sempre.

Seu pai tinha razão quando lhe dissera que precisava tratá-la com carinho e respeito, no fundo isto significava fazê-la feliz e afugentar-lhe todos os temores. Mas como poderia fazer isto se não planejasse a jornada com toda a cautela e destreza do mundo? "Idiota!", ralhou consigo mesmo enquanto desfazia a mala que trouxera de sua viagem à América do Sul. "Tudo dará certo no final. Seja mais confiante. Nem parece um homem de quarenta e cinco anos!"

Rindo de si mesmo, Nick abriu a janela e deixou que o ar da montanha invadisse a casa que tinha ficado fechada nos últimos quatro meses. Com movimentos ágeis como os de um felino foi até a estante da sala e colocou o Segundo Concerto de Brandenberg para tocar no moderno aparelho de som. Talvez a civilização tivesse algumas vantagens sobre a vida ao ar livre, afinal. Música fora uma das coisas de que mais sentira falta em sua estadia no Chile, música e a voz suave e melodiosa de uma certa dama que conhecera no final do último verão. Alison Mills. A esta altura ela deveria estar a caminho do Arizona. O simples pensamento o deliciava e aterrorizava ao mesmo tempo. Tinha quarenta e cinco anos e estava tão nervoso quanto um adolescente que se preparava para acompanhar a garota de seus sonhos ao baile de formatura do colégio. O mais engraçado era que ele nunca tinha ficado nervoso antes, não no que se referia à mulheres. Todos os seus relacionamentos tinham acontecido naturalmente, e nenhuma dama jamais o deixara tão apreensivo, nem mesmo Joanie com quem ficara vinte anos casado. Tudo em sua vida tivera um certo ar de calmaria. Embora Joanie tivesse ficado grávida quando am- bos tinham apenas vinte anos, Nick conseguira um bom emprego em um conceituado banco de investimentos e logo puderam comprar uma casa e manter um excelente padrão de vida. Mas aquilo fora até ele começar a se sentir aprisionado em um mundo que não desejava para si. O estresse do mercado financeiro, as cobranças da mulher que adorava uma intensa vida social e detestava as aventuras e as viagens quase rústicas que Nick escolhia fazer em seus poucos dias de férias anuais foram se tornando mais e mais insuportáveis até que o casamento finalmente desmoronou e ele decidiu deixar tudo para trás e fazer o que realmente gostava. Quando completara quarenta anos Nick já tinha ganhado dinheiro o suficiente para se manter pelo resto da vida. O mercado financeiro tinha destas vantagens e foi justamente o que lhe facilitara tomar a decisão final de se tornar um guia turístico. Era uma atividade da qual gostava e que não o mantinha preso a urri escritório. Não era o dinheiro que o movia e sim a paixão pela natureza e por aventura. Enfim, tudo o que sua ex-mulher e a filha Mareie detestavam. Agora ali estava ele, depois de ter lutado tanto para ser um homem livre e feliz, sentindo-se receoso e apreensivo por causa de uma mulher que conhecera há pouco menos de um ano. Palavras como destino, sorte e sina sempre o tinham feito curvar os lábios com ironia. Não estava mais tão certo de que tudo aquilo era uma grande bobagem, como costumava dizer. Alison Mills tinha tocado seu coração de uma maneira tão poderosa e intensa que Nick não sabia mais o que pensar. Talvez fosse exatamente por isto que estivesse com medo e assustado. Um sentimento como aquele era algo completamente novo para ele. E se, de repente, em meio à excursão pelo rio a magia acabasse e não conseguissem achar assunto para conversar?

E se

Não,

não seria assim, o bom senso o recriminou. A intensa atração que os puxava um

... para o outro como se fosse um ímã gigantesco era forte demais para ser vista apenas como sexo ou luxúria. Ainda que nunca tivessem falado abertamente sobre o assunto, Nick não tinha a menor dúvida de que Alison sentia a mesma coisa. Percebera o excitamento na voz delicada quando ligara para ela na semana anterior a fim de acertar os últimos detalhes da viagem: a emoção que a acometia era quase palpável, apesar do fato de estarem a milhares de quilômetros um do outro. Depois de trocar as formalidades de sempre, combinaram de se encontrar no Rancho do

Fantasma. Nick ofereceu-se para contratar um guia que levasse Allie até as margens do rio no lombo de uma mula, que era o principal meio de locomoção para o trajeto, mas ela insistiu que desejava seguir pela trilha do Anjo Brilhante a pé, pois tinha comprado muitos guias da região e aquele lhe parecera o modo mais interessante de fazê-lo. A verdade era que Alison Mills era uma mulher que sabia exatamente o que queria e não havia ninguém que pudesse fazê-la mudar de idéia. Então, que fosse feita a vontade dela. Nick sabia que tinha três dias pela frente antes de encontrá-la no Rancho do Fantasma. E, uma vez que estivessem juntos no rio, não haveria mais como voltar atrás. Seguiriam pela água até Pearce Ferry onde sua velha picape estaria à espera deles levá-los para o Grand Canyon. E depois? Aquela era a parte mais difícil. Nick podia visualizar a viagem sem grandes transtornos. Afinal, como seu pai costumava dizer, o rio era quase como se fosse o quintal de sua própria casa. Mas assim que voltassem ao mundo real o que aconteceria? Tinha excursões agendadas para toda a temporada de verão e não poderia sair dali de forma alguma. O que Allie faria? Para onde iria? Como poderia segurá-la? As perguntas o torturavam uma após a outra, mas não tinha resposta para nenhuma delas. Suspirando, Nick recostou-se em sua poltrona favorita e tentou ser racional. Ora, não fazia sentido se preocupar tanto. Relacionamentos entre homens e mulheres podiam ser definidos como frágeis, perigosos, difíceis, além de envolver uma grande dose de incerteza, mas as pessoas vinham fazendo isso desde o princípio dos tempos, então ele e Allie não seriam diferentes. Além do mais, o Grand Canyon era um lugar mágico, especial. As coisas aconteciam de maneira diferente ali. — Você é um tolo, Nicholas Henry! — ralhou consigo mesmo, admitindo que seu desejo por Alison Mills era tão intenso que não havia como compará-lo a uma coisa banal que acontece com todos. Queria tê-la só para si, conversar por horas a fio, rir e cantar com ela, mergulhar nas cachoeiras que ficavam ao longo do trajeto e perder-se completamente naqueles braços macios e claros como as primeiras horas da manhã. Sim, não tinha a menor dúvida de que desejava fazer amor com Alison, senti-la gemer e estremecer a seu toque, implorando-lhe que a amasse como só um homem maduro sabe fazer. Então, sob a noite estrelada, ele a possuiria e juntos gritariam de prazer. Nick nunca desejara tanto uma mulher como desejava Alison e isto o amedrontava mas, por outro lado, também o deixava fascinado e disposto a conquistá-la a qualquer preço. Ora, ora, não era justamente com esse amor desmedido, essa entrega total que todas a mulheres sonhavam? Concluiu ele, pensando em tudo o que já ouvira e lera sobre o amor entre homens e mulheres e as diferentes expectativas de cada um.

Foi então que uma grande idéia lhe ocorreu. Prepararia uma surpresa de boas-vindas para quando Alison tivesse chegado ao fim da trilha e estivesse prestes a se encontrar com ele no rio. Uma surpresa que Allie jamais esqueceria ... A placa na rodovia estadual dizia: "Bem vindos ao Arizona". Por um instante, Alison se perguntou o que estava fazendo ali. Então o choque momentâneo deu lugar a uma sonora gargalhada. Sabia exatamente o que estava fazendo ali. Estava to- mando as rédeas de sua vida em suas próprias mãos. Desde o momento em que tirara o Miata vermelho da garagem de Carol e rumara para a estrada sentia-se totalmente livre, leve e solta. Durante seis semanas, e seis semanas eram um bocado de tempo, deixaria tudo e todos para trás, inclusive o sentimento de culpa, preocupando-se apenas em fazer o que queria.

Aquelas seis semanas seriam dela e de mais ninguém. A viagem de Cleveland até ali fora mais interessante do que tinha imaginado. O Miata deslizava suavemente pela estrada e, quando podia deixar a capota baixada, tinha o prazer de sentir o vento primaveril beijando suas faces e acariciando seus cabelos. Acordava bem cedo pela manhã, dirigia em média duzentos quilômetros antes de parar para o almoço e depois mais trezentos até o anoitecer, quando parava em algum motel que encon- trava. Raramente fazia reservas para estas paradas pois, como a temporada de verão ainda não tinha começado, sempre conseguia um lugar para ficar. Além do mais, queria se sentir livre para fazer o que quisesse. Certa noite, depois de dois dias de viagem, seguiu uma placa que indicava a existência de uma pousada em uma das vias secundárias da auto-estrada do Kansas. Acabou parando diante de uma casa vitoriana, circundada por uma imensa varanda. Quando desceu, avistou um homem que preparava um churrasco no jardim. — Não costumamos oferecer jantar também, mas, já que está aqui, gostaria de se juntar a nós? Comeram na varanda, em uma mesa coberta por toalha xadrez de vermelho e branco. Havia crianças e cachorro na casa e apenas outra hóspede que estava viajando da Califórnia para Cape Cod a fim de visitar os filhos. Ela viajava com um enorme pastor alemão e dissera- lhe que preferia seguir por estradas secundárias em lugar de pegar as rodovias estaduais, pois a paisagem era muito mais bonita longe do asfalto e do concreto. Alison gostou imediatamente dela e pós o jantar, ambas saíram para um passeio pela cidadezinha do interior do Kansas, acompanhadas do cachorro. Sylvia era divorciada e os filhos já eram crescidos e casados. Contou-lhe que tinha uma pequena drogaria e que vivia sozinha há quase dez anos. — Nunca fui tão feliz — disse ela. Allie não perguntou nada sobre o casamento dela, como quanto tempo durara ou se fora bom, mas a própria Sylvia lhe forneceu os detalhes. — Bill e eu tivemos bons momentos juntos. Então, um dia, quando ele estava prestes a completar quarenta anos alguma coisa mudou. Ele não conseguia ficar quieto. "Não agüento mais vê-la sentada no mesmo lugar de sempre", disse-me naquela noite. Porém, eu sempre tinha me sentado no mesmo lugar desde que nos casáramos e isto nunca o tinha incomodado antes. — E o que respondeu? — Engraçado — Sylvia disse. — Não sei por que, mas acho que foi minha resposta que selou nosso destino como casal. Perguntei a Bill, "você quer que eu me sente em outro lugar ou quer apenas ir para onde não precise mais me ver aqui? " Ele fez uma pausa e respondeu: "como sempre você está certa, sou eu quem desejo mudar, pode ficar em sua cadeira, querida". — E ele se foi, assim, sem mais nem menos? — Alison estava perplexa. — Sim, foi. Mudou-se para o Alasca, mas antes se despediu dos meninos e transferiu todos os bens que tínhamos para o meu nome. Nunca mais voltou, nem mesmo para o casamento dos filhos. — E você ficou com o coração partido? Sylvia pensou por um instante antes de dizer:

— Na verdade não. Meu orgulho ficou ferido, mas meu coração continuou intacto. Acho que sempre fui uma solitária por natureza. Um mês depois de Bill ter ido embora eu já me per- guntava como tinha conseguido viver com alguém durante tantos anos. Era uma delícia ficar sozinha e fazer o que quisesse. — Não consigo imaginar como possa ser. Quero dizer, não sente falta de ...

— Sexo? — Sylvia completou antes que Allie pudesse encontrar uma forma delicada de fazê-lo. — Eu não disse que sou uma eremita ou celibatária, querida. Só gosto de viver sozinha, não de dormir sozinha. O amor faz bem à alma — brincou, acariciando a cabeça do cachorro. — E quanto a você? — Estou viúva há poucos meses — comentou e como a outra mulher não dissesse nada, prosseguiu: — Para ser franca, estou a caminho do rio Colorado e vou fazer uma viagem com um homem. — Então me permita lhe dar um conselho, isto é, se quiser ouvir. — Claro, diga. — Não fique surpresa se de repente se pegar comparando seu ex-marido com o atual namorado. No começo é assim. Temos muito medo de estar sendo desleais e, às vezes, isto atrapalha. Deixe que seu coração fale mais alto, não se prenda a remorsos e aos fantasmas do passado, pois eles se foram e você continua aqui. Allie gostaria de conversar mais com aquela mulher sábia e certamente mais experiente do que ela, porém, a esta altura já tinham regressado à pousada e o cachorro estava começando a ficar irrequieto. As crianças estavam assistindo à tevê na sala de estar e, após ficarem ali com elas algum tempo, Sylvia desejou-lhe boa-noite e começou a rumar para as escadas. Antes que pudesse conter-se, Allie indagou*:

— Ei, e o que você fez com aquela cadeira depois de tanto tempo? A outra mulher inclinou a cabeça para trás e deu uma sonora gargalhada. — Continuo sentando nela até hoje — contou, divertida. Na manhã seguinte, elas trocaram endereços e se despediram como velhas amigas. Sylvia seguiu para o Leste e Allie para Oeste. Como sempre, o Miata vermelho não decepcionou. Allie sentia-se quase flutuar conforme cobria a distância que a separava de seu destino. Ao meio-dia, depois de ter percorrido mais de duzentos e cinqüenta quilômetros, parou para almoçar e descansar um pouco. Duas horas depois retomou o trajeto e só foi parar novamente ao anoitecer. Desta vez escolheu pernoitar em um hotelzinho charmoso em Amarilho. Chegaria ao vilarejo de Grand Canyon no dia seguinte e depois seria apenas uma questão de horas até se encontrar com Nick. Diante da simples lembrança, fechou os olhos e teve a sensação de que ele estava bem ali, a seu lado, tocando-a com intimidade e falando suavemente em seu ouvido. Era quase como se pudesse sentir a respiração quente e ofegante em sua nuca e as mãos fortes e viris se fechando sobre seus seios. Involuntariamente, ficou a imaginar Nick sem camisa, curvando-se para ajeitar o caiaque, de maneira a deixar os ombros fortes e as costas largas totalmente expostos a seus olhos ávidos. Aquela imagem era tão perturbadora que Allie mal conseguiu terminar seu jantar. Assim, decidiu seguir até o saguão do hotel e pediu um brandy para relaxar. O garçom a serviu imediatamente e, à medida que sorvia o líquido perfumado, o rosto anguloso de Nicholas Henry voltou a sua mente. Lembrava-se de cada detalhe daquele rosto, os olhos sagazes, o nariz de traços retos, a pele bronzeada, a boca carnuda. De repente, imaginou-o tocando violão, com o pé apoiado sobre as laterais do barco. Como naqueles filmes em que o herói fazia um linda serenata para sua heroína enquanto a fitava embevecido. Sua imaginação estava lhe pregando peça, pois, no instante seguinte, Nick já estava curvado sobre ela, beijando-a com avidez e carregando-a nos braços até uma pequena praia de areia branca e macia, amando-a com maestria a ponto de fazê-la gemer de desejo. — Está tudo bem, senhora? — a voz do garçom a trouxe de volta daquele momento de devaneio. — Precisa de mais alguma coisa?

— Não, obrigada, está tudo perfeito — garantiu. Dando-se conta pela primeira vez do que há muito já decidira que se Nick quisesse fazer amor com ela não faria qualquer objeção. Aliás, muito pelo contrário, desejava-o como nunca desejara outro homem, nem mesmo Charles. Talvez porque agora era mais madura e experiente do que quando conhecera o marido, ou quem sabe porque cada amor é tão especial em sua maneira de ser e acontecer que não permita mesmo qualquer tipo de comparação, seja esta de qualidade, intensidade ou razão de ser ... Era preciso apenas amar e deixar-se amar, sem tentar encontrar explicações racionais para o fato. Dando um longo suspiro, Allie deixou o copo de lado e subiu para seu quarto. Estava tão ansiosa para que o dia seguinte chegasse logo, que até esqueceu de ligar para casa como sempre fazia.

Capítulo VII

Ela parou e contemplou extasiada uma das sete maravilhas do mundo. Se houvesse alguém a seu lado naquele instante teria sido incapaz de falar ou fazer qualquer comentário. Sua primeira visão do Grand Canyon a deixou estupefata. A imensidão majestosa daquela obra da natureza era tão impressionante que Alison mal podia acreditar que estava realmente ali. Não seria um sonho? Uma peça de sua imaginação prodigiosa? Não, tudo era real. A beleza da paisagem, a sensação mágica que a dominava e a brisa suave e fresca da manhã a beijar-lhe as faces eram marcantes demais para ser obras de sua imagi- nação. Estava sozinha no alto do penhasco, bem junto ao início da trilha do Anjo Brilhante. O sol iluminava o cânion como se fosse um gigantesco holofote especialmente criado para valo- rizar a grandiosidade da cena, tornando-a ainda mais fantástica e surpreendente. Allie sentia-se privilegiada por estar ali, vendo os raios dourados se refletirem sobre a muralha esculpida pela natureza durante milhares e milhares de anos, num trabalho paciente e ca- prichoso que resultará em uma preciosidade à qual os homens ainda não davam o devido valor. Por um instante, considerou-se a própria Perséfone que estava a caminho das entranhas da terra para se encontrar com o príncipe da escuridão. Com a diferença de que ela, Alison, estava fazendo aquela jornada por livre e espontânea vontade, em plena primavera, e desceria pela trilha do Anjo Brilhante porque queria, não porque fora obrigada. Sim, estava deixando a segurança de seu próprio mundo e mergulhando numa fantasia romântica e mítica por livre e espontânea vontade. O fato de o portal que a conduziria até o fundo do Grand Canyon ser uma trilha por onde muitos costumavam seguir com máquinas fotográficas no pescoço e câmaras digitais de última geração nas mãos não parecia fazer qualquer diferença naquele instante. Era como se uma mão gigante e poderosa estivesse mantendo a enorme garganta de pedras bem aberta para que ela pudesse divisar o brilho prateado do curso de água que jorrava lá em- baixo. Aquela era a nascente do rio. O rio pelo qual viajaria com Nick. O rio que a levaria ... Para onde? Sentindo um calafrio percorrê-la de alto a baixo, ergueu as mãos e puxou o lenço azul e branco sobre a cabeça, numa tentativa de proteger os cabelos da poeira fina e pegajosa. — Ficará mais quente e agradável à medida que descer. O vento também melhora — alguém havia dito e esperava que essa boa alma estivesse certa, pois estava prestes a iniciar sua descida. Há uma hora mais ou menos tinha observado um grupo descer a trilha no lombo de mulas que estavam amarradas umas às outras por cordas de náilon. Assim, resolveu esperar até perdê-

los de vista para iniciar sua própria peregrinação. Durante toda a viagem de Ohio até Jali ficara imaginando como seria esse momento. Claro que fazia uma idéia do que a esperava, pois já tinha visto o Grand Canyon em filmes e fotos diversas vezes. Contudo, ninguém jamais a preparara para algo tão gigantesco. Era como se, de repente, ela e a enorme garganta de pedra e vegetação fizessem parte de algo muito maior. O universo nunca lhe parecera mais real e palpável, ainda que, paradoxalmente, fosse tão incompreensível para a inteligência humana. Enchendo-se de coragem, Allie deu o primeiro passo na trilha do Anjo Brilhante. As primeiras milhas não apresentaram maiores dificuldades. Porém, à medida que descia parecia haver mais e mais obstáculos a transpor e, ao mesmo tempo, uma vista maravilhosa ia se descortinando diante de seus olhos atentos. Não estava cansada, mas mesmo assim fez uma pausa quando atingiu o ponto conhecido como Caracol do Diabo, uma série de várias curvas e declives muito íngremes que pareciam conspirar para jogá-la lá para baixo. Allie seguiu com cuidado e, passada esta dificuldade, tudo foi mais fácil. A temperatura realmente melhorou e o vento não parecia mais tão impiedoso. Por um instante, antes de chegar ao final da trilha, olhou para o céu azul e por todo o caminho que havia percorrido para chegar até ali. Estava se sentindo uma vitoriosa, mas sabia que aquela jornada tinha apenas começado, havia muitos outros obstáculos a transpor. — Coragem, você consegue, Alison Mills — falou para si mesma, ajeitando a mochila nas costas e tomando um longo gole de água do cantil que trazia pendurado no pescoço. Respirando fundo, Allie caminhou pelos últimos metros da trilha e alcançou o fundo do cânion e também o fim de seu caminho solitário. O alojamento da trilha do Anjo Brilhante estava a poucos passos e ela rumou para a construção rústica com um sorriso nos lábios. Nick havia feito reserva em seu nome e, portanto, Allie sabia que aquela noite teria um lugar onde dormir. Mas como seriam as outras que passariam juntos? Só o tempo poderia dizer, a aventura estava apenas começando. Quando retornou à sua cabana depois de um surpreendente jantar no prédio principal do alojamento, AUie ficou surpresa ao encontrar um buquê de flores silvestres colocado casualmente em um vaso sobre seu criado-mudo.

No mesmo instante, a conversa que tivera com um casal de viajantes na hora do jantar veio à sua mente. — Tivemos de esperar sete anos para conseguir a licença para navegar por aqui — contara o homem de cabelos grisalhos chamado Clint. Ele e a esposa Gert costumavam descer o rio de caiaque todos os anos, antes da temporada de verão. — Sim, mas nunca desistimos de nosso sonho — explicou Gert, sorrindo para o marido. — Passamos nossa lua-de-mel aqui. Por isso voltamos todo o ano para um passeio a dois. Será que devemos contar a ela quanto tempo faz que realizem esse passeio, querido? — Ora, ora, como se nossa memória ainda fosse boa o suficiente para lembrarmos, meu bem— Clint gracejou, mas logo acrescentou. — Casamos no início dos anos setenta e quando viemos para cá as coisas eram muito diferentes por aqui e nosso barco também. — Acho melhor contar toda a história a Allie, Clint. Caso contrário nunca entenderá seu último comentário. E foi isto que ele fez, em poucas palavras contou-lhe que naquela manhã, ao sair com o barco, tinham sofrido um pequeno acidente que o deixara com sérias avarias. Por sorte, tinham recebido ajuda de um estranho que navegava num reluzente barco inflável.

— Sim, tivemos muita sorte — Gert acrescentou. — Afinal, foi a única pessoa que encontramos durante todo o trajeto. Ele estava sentado em uma rocha às margens do rio tocando uma música antiga na gaita e, de repente, a correnteza nos pegou desprevenidos e foi aí que tudo aconteceu. Ele nos ajudou a fazer os reparos e pediu-nos que ... Surpresa, Allie notou quando Clint cutucou a esposa por baixo da mesa de madeira. Gert levou as mãos aos lábios como para abafar as próprias palavras e rapidamente mudou de assunto. Naquele instante Allie não entendeu o que poderia estar acontecendo, porém agora sabia muito bem o que era. Ora, ora, jamais imaginara que Nicholas Henry pudesse ter um lado tão romântico a ponto de lhe deixar um buquê de flores silvestres para recepcioná-la. Rindo escovou os dentes e vestiu o pijama antes de mergulhar por entre os lençóis rústicos, mas imaculadamente limpos. Ajustou o relógio para despertar às cinco e meia da manhã e ajeitou o travesseiro, perguntando-se se de fato conseguiria acordar tão cedo. Seus olhos estavam tão pesados que logo adormecesse. A certa altura da noite, um enorme estrondo ecoou por todo o cânion e a fez sentar-se na cama assustada. Um segundo estouro seguiu o primeiro e Allie notou que as janelas de madeira da cabana estremeceram diante do impacto. Confusa, pegou a lanterna que havia na cabeceira da cama e saiu para a pequena varanda do chalé. Para sua surpresa havia uma imensa faixa branca amarrada de um pilar ao outro da varanda, onde se lia em letras escarlates: "Bem vinda, Alison!" Um terceiro estrondo ecoou pelo cânion. Allie ergueu os olhos e viu o céu escuro ser iluminado por uma cascata verde, vermelho e dourada e depois por uma espécie de chuva de prata. Fogos de artifício! Fascinada, desceu os degraus e ficou ali, no meio da noite, a olhar para o céu enquanto absorvia a novidade. Nunca recebera uma mensagem de boas-vindas tão inusitada e ... Maravilhosa. Lágrimas brotaram-lhe dos olhos, Nicholas Henry era mesmo um homem cheio de surpresas! Quando se virou para entrar, avistou Clint e Gert escondidos atrás de um dos arbustos e soube de imediato como eles haviam retribuído Nick pelo conserto do barco. De repente, lembrou-se de Sylvia e do conselho que ela lhe dera sobre novos relacionamentos. — Tem razão, Sylvia, não vou me prender ao passado, vou viver o futuro e fazer o que meu coração mandar, sem comparações nem remorso. Algum tempo depois, quando fechou os olhos, visualizou mentalmente a chuva prateada que caía do céu e a faixa de boas-vindas na varanda. Por um instante desejou que Lucy estivesse ali para poderem falar sobre o momento mágico que estava vivenciando, porém, logo se deu conta de que a amiga estava longe dali, em uma parte de sua vida que deixara para trás, pelo menos enquanto estivesse conhecendo Nicholas Henry melhor. A próxima semana seria só deles, de mais ninguém ... — Bom dia, sra. Mills. — A voz rouca e grave veio de algum lugar às suas costas e Alison virou-se lentamente, deixando a caneca de café sobre a mureta da varanda. — Ah, bom dia, sr. Henry — respondeu suavemente, estendendo-lhe a mão num suposto gesto de cortesia. Sentiu os olhos castanhos percorrerem-na da faixa azul que usava nos cabelos, passando pela camisa de sarja branca, cinto de couro, short caqui de escoteiro, meias brancas três quartos até chegarem às botas confortáveis no estilo Indiana Jones. Aquele era um olhar de admiração, embora também fosse cálido e reconfortante. Um sorriso brincou nos lábios carnudos e Allie não pôde deixar de pensar em como Nick era

atraente. Os ombros largos pareciam ainda mais imponentes sob a camisa jeans enrolada na altura do cotovelo e a calça de um tecido leve e claro, quase caqui, que lhe moldava os quadris com perfeição. — E então, dormiu bem? — Nick quebrou o silêncio. — Digamos que foi uma noite como nunca tive antes — brincou Allie, cheia de sons e cores e mais o aroma delicado das gérberas e cravos que estavam na cabeceira de minha cama. Fui muito, muito bem recebida mesmo. Eles estavam parados do lado de fora da cabana de madeira. Eram sete horas da manhã, horário combinado para começarem a descida pelo rio. Nick tinha trazido uma caneca de café consigo, provavelmente do pequeno refeitório que ficava no centro do alojamento e juntos eles se sentaram para sorver o líquido escuro, como que obedecendo a um ritual de passagem. "Sim, um ritual de passagem para uma vida diferente!", Alison pensou, fitando o local junto à porta onde deixara sua mochila com roupas e apetrechos de viagem prontos para partir. Havia colocado uma das flores que ele lhe dera atrás da orelha e, pelo olhar que Nick lhe dera, era certo que havia gostado do gesto. Estranhamente, nenhum dos dois estava nervoso. Toda a ansiedade que antecedera aquele encontro parecia ter-se dissipado. — Este clima é perfeito para nossa viagem — disse ele entre um gole e outro. — O rio está tranqüilo. Nosso primeiro dia deverá ser adorável. Está pronta para partir? — Sim. — Então aquilo estava mesmo acontecendo! — Obrigada pelas flores. — Foi um prazer. No começo não tinha idéia como poderia fazê-lo antes que você me visse. Foi então que conheci aquele casal e eles me asseguraram que dariam um jeito de colocar as flores na cabana da linda dama de azul.

— Humm ...

gostei desta parte do lindo drama. Preciso agradecer-lhes por isso. Será que já

partiram? — Sim, deixaram o acampamento antes de o sol nascer —contou Nick terminando de tomar o café e balançando a xícara de um lado para outro. — Também estão seguindo para o Lago Meat, mas não precisamos comer a poeira deles, se é que entende o que quero dizer. A menos que você queira disputar uma espécie de corrida pelas corredeiras. Allie fitou-o nos olhos. — Não, obrigada. Acho que já estou indo rápido demais. Nick pegou a mochila azul que estava junto à porta e jogou-a sobre os ombros. — Então, vamos. Pronta para iniciar sua jornada pelo rio Colorado, Alison Mills? — Sim. Mas será que poderia me dar mais cinco minutinhos? Tem algo que gostaria de fazer. Ele assentiu, deixou a mochila no chão e voltou a se sentar na velha cadeira de balanço da varanda, erguendo os braços e colocando as mãos embaixo da cabeça. Allie entrou no quarto, pegou sua pasta e escova de dente e colocou na bolsa, tipo pochete, que trazia junto à cintura. A chave do Miata e seus óculos também estavam numa bolsa pro- tegida por tecido impermeável e colocada junto à cintura, exatamente como Nick a instruíra a fazer no último telefonema. Será que ele riria se lhe dissesse que antes de partir queria deixar alguns postais na caixa de correios do alojamento? Já tinha até mesmo escrito os postais e selado na noite anterior. "Deixe de ser boba, Allie!", ralhou consigo mesma. "Faça como acha que deve ser feito. Não seja tímida. Esta é a nova Alison, aquela que faz o que acha que é certo sem se preocupar com o que os outros acham. Mesmo se for Nick Henry!"

E ela fez exatamente assim, pegou os postais e passou por Nick com todos na mão fazendo-lhe apenas um breve gesto que deixou claro qual era sua intenção. Ao todo eram seis postais, um para cada um de seus filhos e mais um para Sarah e Lucy, as amigas que sempre apoiaram sua decisão de viajar. Satisfeita, voltou para junto de Nick que, sem dizer nada, fez sinal para que ela o seguisse para a trilha que conduzia até o local onde ele havia deixado o barco. — Devo avisá-la de que mudei de idéia sobre qual seria o melhor meio de transporte para usarmos nessa viagem — contou ele, ajeitando a mochila azul nos ombros. — Viajaremos com mais estilo e até um pouco mais de conforto. Allie ficou aturdida por um instante. Então, quando Nick apontou para um enorme barco inflável amarelo ancorado junto a uma rocha, compreendeu melhor a mensagem. Quando se aproximaram da embarcação, ouviu atentamente enquanto ele a instruía a guardar suas coisas numa enorme sacola plástica preta que ficava presa em um dos cantos do barco inflável e, também, quando Nick lhe mostrou como o tampo da caixa de alimentos podia ser dobrado para se transformar em banco e como o convés estava preparado para receber os sacos de dormir e servir-lhes de camas. Ele também a ajudou a vestir o colete salva-vidas. No último instante tirou uma corrente extra de óculos do bolso e jogou para Allie. — Tome, amarre seus óculos de sol aqui, caso contrário os perderá na primeira corredeira por que passarmos. Obediente, Allie amarrou a corrente na armação de seus óculos e logo se viu acomodada no interior do barco inflável. — Aqui vamos nós — avisou Nick. — Poderá se sentar de frente quando chegarmos a águas mais claras, por enquanto é melhor virar-se para mim. — Sorriu, pegou os remos e conduziu-os para o centro do rio. — Está sentindo a água correr sob seus pés?

Allie tentou senti-la por um instante, mas quando o efeito não foi bem o desejado, tirou as meias e as botas e apoiou os pés desnudos sobre o fundo emborrachado. Sim, agora podia sentir as águas de o rio fluírem de encontro à sua pele numa espécie de carícia selvagem e inesquecível. Ao longo das primeiras milhas, Allie esforçou-se para manter a boca bem fechada. No entanto, conforme seguiam por entre o penhasco imponente que parecia se erguer até o céu azul e sem nuvens, ela se pegava balbuciando interjeições que revelavam todo seu encantamento diante da paisagem idílica. Era a mesma sensação que tivera quando chegara ao Grand Canyón e parará no alto da trilha do Anjo Brilhante para apreciar a paisagem. Estava maravilhada demais com o cenário que se descortinava diante de seus olhos para dizer qualquer coisa, mas ao mesmo tempo, também não conseguia conter os gemidos de prazer cada vez que olhava em torno de si e pensava que a natureza levara milhares de anos para esculpir aquela preciosidade. Era óbvio que Niek entendia o que ela estava sentindo, pois seu olhar a acompanhava com um brilho de satisfação. Depois de uma hora de silêncio, quebrada apenas pelo barulho da água batendo contra o casco do braço, Nick sorriu e disse:

— Esta faixa em seus cabelos ... — Sim, o que há com a faixa? — Allie indagou, adorando o som daquela voz de barítono. — Você a estava usando naquele dia em que a conheci em Sun City. Sempre me lembro de você assim, com a faixa nos cabelos.

Involuntariamente, Allie levou a mão até os cabelos castanhos. — Minhas filhas dizem que está fora de moda, mas gosto dela assim mesmo — confessou. — Alice no País das Maravilhas está fora de moda? — gracejou Nick esboçando um sorriso divertido. — É assim que penso em você algumas vezes, sabia? Como Alice no País das Maravilhas à procura de algo que lhe é muito precioso. Embora estivesse sorrindo, Alice sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo de alto a baixo. Então, de repente, viu algo se mover em algum ponto indefinido pouco atrás das costas de Nick. Ele acompanhou seu olhar à medida que ela se voltava para os rochedos do penhasco. — Tem alguma coisa ali — sussurrou Allie, franzindo as sobrancelhas. Nick parou de movimentar os remos, deixando-os apoiados no suporte ao lado do barco, depois sinalizou para que fizesse silêncio. O barco inflável flutuou ao sabor da correnteza durante algum tempo. — Você foi premiada — disse ele, depois de pegar um binóculo e focá-lo no ponto onde Allie dissera haver algo. — É uma cabra de chifres longos e seu filhote. —Sim, mas parece haver três deles—Allie completou quando ele lhe passou o binóculo. — O macho deve estar protegendo a família, enquanto a mãe tenta alimentar o filhote. Os animais estavam bem junto à borda íngreme do rochedo com os olhos fixos naqueles que ousavam invadir seu território. Após alguns instantes em que pareceram estar avaliando qual a gravidade da situação, o maior dos três animais desapareceu por entre as rochas no que foi logo seguido pela mãe e seu filhote. —Tem idéia da sorte que teve em vê-los? — Nick perguntou quando ela devolveu o binóculo. — Alguém pode passar dias e dias no rio sem ver nenhum deles. Os turistas costumam deixar suas câmaras de última geração preparadas para tirar um foto destes animais, mas eles parecem se esconder de propósito. Corri você, no entanto, pareceram fazer questão desse mostrar. Deu muita sorte mesmo. Sorte? O que era isso? Allie ergueu os olhos para o alto do penhasco e observou uma nuvem parecida com um grande chumaço de algodão enroscar-se em volta da rocha pontiaguda. A luz do sol refletia-se sobre as paredes de pedra do cânion, projetando sombras róseas e douradas sobre a água e sobre a parte inferior do penhasco. Fechou os olhos e recostou-se nas bordas do barco, experimentando uma sensação de total comunhão com a natureza. Ao voltar a abri-los, Nick continuava remando silenciosamente. Allie observou os músculos dos braços fortes e peito largo se moverem conforme ele remava e sentiu um leve tremor sacudir seu corpo, produzindo uma inesperada sensação de calor e sede. Sabia muito bem o que era aquilo: desejo, luxúria. Sim, o desejo queimava-lhe as entranhas e a parte mais íntima de seu corpo. Aquele característico arrepio no pescoço só vinha a confirmar isto. — Um dólar por seus pensamentos-gracejou Nick, rompendo o silêncio. — Bem, por um dólar só posso lhe dizer no que NÃO estou pensando. — Que seja então. — Ele riu divertido. — Ok, lá vai. Não estou pensando nos meus filhos, no déficit econômico, no trabalho, no que ainda preciso fazer. Enfim, não estou pensando no resto do mundo e em seus problemas. Só estou pensando em mim e em como é bom estar aqui. Nick parou de remar. "Será que o assustei?", Allie pensou por uma fração de segundo. "Será que fui muito apressada em revelar o que me vai à alma?" Um longo tempo se passou antes que finalmente Nick lhe dissipasse os temores. — Sei que ainda é muito cedo para você, Alison — falou com voz rouca.

— Se eu a apressar, por favor, diga. O problema é que chego até a esquecer que nós dois não estamos juntos há uma eternidade e enfio os pés pelas mãos. Allie queria responder, mas sabia que seria melhor não fazê-lo, pelo menos não agora, não ali. Tinha que ter cuidado para não se precipitar com esse homem que certamente acabava de lhe dizer as primeiras palavras de amor que já haviam trocado. Ainda estava pensando em uma resposta quando o barco começou a ir mais e mais rápido. — Salva pelo gongo — Nick disse, agarrando os remos e preparando-se para guiá-los pela primeira grande corredeira com a qual se deparavam. — Vire-se e incline-se um pouco para frente para nos dar mais equilíbrio — ordenou-lhe. Allie fez o que lhe fora dito e ouviu o barulho das águas agitadas intensificar-se ainda mais, a ponto de quase abafar as palavras de Nick. — Segure-se! — ouviu-o gritar. Nick não teve tempo para evitar a parte central da corredeira. Porém, ele sabia muito bem o que fazer em uma situação como aquela. Seria muito fácil driblar o trecho mais difícil se fizesse conforme planejara, porém, no último instante, decidiu jogar a cautela para o alto e mostrar a Alison como um pouco de adrenalina fazia bem a qualquer um. Ao passarem pelo ponto central da corredeira o barco foi jogado para o ar e de novo sobre a água, como se o contato fosse apenas superficial. De repente, uma onda imensa ergueu-se diante dos olhos de Alison e ela só teve tempo de fechar os olhos antes de a onda cobri-los da cabeça aos pés. Quando voltou a abrir os olhos, o barco não sacolejava tanto, mas a água continuava agitada. A esta altura estava encharcada até os ossos, mas estranhamente, um sorriso de prazer brincava em seus lábios. — Huuu! — Nick comemorou, satisfeito por ter vencido a travessia turbulenta. Sentindo que estavam em águas calmas outra vez, Allie soltou a alça do barco onde segurara até então e levou as mãos aos cabelos para se certificar de que sua faixa estava no lugar. — Então, gostou? — quis saber Nick erguendo a voz para que os som da água não abafasse suas palavras. Estava remando bastante rápido agora e as paredes de pedra do cânion passavam por eles como se fossem reflexos azulados cobertos por raios rosados e dourados. Allie ainda estava surpresa demais para falar. Quando finalmente reuniu forças para dizer algo, perguntou:

— Aquela foi uma das grandes ou não? — Uma das maiores — informou Nick e continuou remando forte durante algum tempo. Então, a certa altura, fez uma pausa e inclinou-se em direção a ela. — Quer mesmo saber a verdade?

Hã...

Não estou muito certa disso. — Ainda se sentia um pouco desorientada, tremia

levemente por causa do contato com a água fria do rio Colorado. — Ok, vamos, diga tudo de uma vez. — Foi tão forte que o barco quase tombou. Sou bom nisso, mas você me distraiu Alison Mills. — Foi mesmo sério? — Sim. Não estava brincando quanto a isso. Mas, por sorte, nos saímos muito bem. — Quer dizer, você se saiu muito bem, pois tudo o que fiz foi segurar desesperadamente nas alças do barco — ela falou rindo, e Nick a acompanhou dando uma sonora gargalhada. Ainda estavam rindo quando Nick conduziu o barco para uma pequena pedra rochosa em forma de lua crescente. Juntos ancoraram o barco inflável na rocha maior e desceram. A água do rio estava gelada e ela sentiu seus tornozelos congelarem diante do breve contato. Nick se curvou sobre a pequena geladeira de isopor que ficara na parte de trás da embarcação

e tirou uma garrafa de chá gelado e duas laranjas dali, antes de puxá-la pela mão, conduzindo-a para a parte mais plana e seca da minúscula praia, onde se sentaram lado a lado. Allie percebeu que se movesse a perna apenas um centímetro encostaria-se às coxas musculosas dele. A medida que descascava sua laranja, estudou-o pelo canto dos olhos. Os músculos firmes, o pêlo escuro e encaracolado que cobria o peito e antebraços, o pescoço

largo, o abdome plano

...

amor?-

Como seria tê-lo colado ao seu e movendo-se na frenética dança do

— Em que ponto estamos? — perguntou, de repente, tentando banir os pensamentos torturantes para longe. — Boa pergunta. Allie o viu retesar-se todo quando, ao se mover para encará-la, suas pernas roçaram uma na outra. — Quis dizer em milhas — apressou-se em esclarecer quando percebeu que sua pergunta tinha um certo duplo sentido.

— Bem, estamos exatamente a cem milhas da nascente do rio e temos mais cento e sessenta e nove para percorrer rio abaixo — informou antes de levar um gomo da fruta aos lábios e sorvê-lo com avidez. Disfarçadamente, Allie o observou, a barba bem cortada, o queixo anguloso, o movimento preciso dos lábios carnudos, a maneira displicente como o cabelo castanho com reflexos aver-

melhados caíam sobre a testa altiva, o nariz clássico

Sim, Nick Henry era muito bonito e

... másculo, o tipo de homem pelo qual qualquer mulher se sentiria atraída. Por que ele escolhera passar sua última semana de férias com ela quando não havia dúvida de que poderia ter quem quisesse? Isto só o próprio Nick poderia responder. Allie respirou fundo e apreciou a magnífica paisagem que tinha diante de si. Se alguém lhe tivesse dito que antes do próximo verão estaria sentada em uma praia deserta na companhia de um belo homem que lhe era quase desconhecido teria rido muito. Agora, no entanto, tudo lhe pareceria maravilhosamente real. —Estou gostando muito daqui—falou num fio de voz como se estivesse conversando consigo mesma. — Eu também—confessou Nick virando-se e ficando ainda mais próximo dela. Seus ombros estavam quase se tocando e apenas um centímetro separava-lhes os quadris. Durante os dez minutos que se seguiram, ficaram no mais completo silêncio, contentando-se em ouvir o barulho da água quebrando contra os rochedos e o barco amarelo e o sussurrar do vento que serpenteava por entre as muralhas do cânion. O silêncio quando estava na companhia de outra pessoa sempre a deixara nervosa antes. Mas agora era quase como se fosse uma dádiva. Céus, onde tinha ido parar sua dor e pesar pela morte de Charles, a preocupação com os filhos, as incertezas com relação à Busy Hands e à sociedade com Sarah e Lucy? Como que num passe de mágica aquela parte de sua vida tinha desaparecido, como se estivesse guardada numa gaveta especial de sua mente. Tudo o que importava eram o momento presente e as emoções novas que a assolavam. Allie ergueu o rosto e sorriu para Nick, que sorriu de volta. Mesmo sem proferir uma única palavra eles estavam selando uma promessa de felicidade. Então, de súbito, Nick ficou em pé, estendendo-lhe a mão bronzeada para ajudá-la a fazer o mesmo. — Ainda temos pelo menos mais três horas pela frente — falou com voz estranhamente rouca.

— São milhas e milhas de rio antes de eu poder lhe mostrar uma das paisagens mais ma- ravilhosas deste roteiro e pescar uma deliciosa truta para nosso jantar. Pelo menos, assim espero. —Olhe que promessa é divida Sr. Henry! — exclamou Allie, seguindo-o de volta para o barco e ajudando-o a soltar a âncora que os prendia à praia da lua crescente. Uma vez de volta ao curso principal do rio, viajaram sem falar muito, cada imerso em seus pensamentos. Tinham encontrado o próprio ritmo tão rápido e facilmente que era espantoso! Seria o rio que ajudava as pessoas se entenderem sem precisar de muitas palavras? Indagou- se Allie. Se não fosse, o que seria então? Por que não se sentia apreensiva ou pelo menos desconfortável na presença de um quase estranho e ainda por cima em uma situação que lhe era totalmente nova? — Ei, moça, prepare-se! — Nick gritou para fazer-se ouvir. — Temos mais uma corredeira pela frente. Olhos bem abertos, mãos firmes na corda e boca bem fechada! Allie se posicionou para a aventura. Desta vez manteve os olhos bem abertos, olhando ocasionalmente por sobre os ombros para ver Nick manobrando o barco e segurando os remos com grande destreza. Em alguns momentos, sentiu a água erguê-los bem alto como se fosse uma mão poderosa e gigantesca, que logo os soltava outra vez. Na verdade esta era uma seqüência de corredeiras, mas nenhuma tão forte quanto a primeira que haviam transposto. O mais espantoso era que cada uma delas tinha um nome: Turquesa,

Safira, Rubi

Nick ia falando conforme passavam por elas.

... Quando finalmente emergiram para águas calmas, estavam encharcados outra vez. Surpreendentemente, os raios de sol não penetravam mais entre as muralhas do penhasco. Esticando a mão para ajudá-la, Nick pediu que deixasse a proa e sentasse ao lado dele. — Daqui até o acampamento o trajeto será bem tranqüilo. Devemos flutuar apenas, nada de corredeiras ou pequenas quedas d'água. — Instintivamente passou o braço em torno dos ombros dela e seus coletes salva-vidas se chocaram produzindo um som estranho. — Com frio? — Só um pouco — admitiu Allie estremecendo, mas não sabia se ò tremor devia-se à temperatura da água, ao fato de estar encharcada ou se era causado por aqueles dedos que a seguravam pelos ombros. Um pouco confusa Allie deixou-se ficai; ali enquanto as paredes enormes do penhasco passavam rapidamente diante de seus olhos, mudando de forma, .de cor e de textura. De súbito, um pássaro emitiu um som estridente e Allie ergueu os olhos para ver a ave pousar no alto de um rochedo pontiagudo. — É um falcão — explicou Nick, seguindo a direção de seu olhar. — Nunca vi nada tão impressionante quanto este lugar — ela confessou sorrindo. —Acho que se morresse agora morreria feliz. — Morrer? De jeito nenhum, Alison! — Nick exclamou, forçando-a a encará-lo. — A palavra certa para descrever este momento é justamente o oposto: reviver, renascer. Nós dois estamos renascendo para uma nova vida. Eles acamparam num lugar mágico, uma enseada que levava a uma passagem para um cânion menor, o Elvis Canyon. Musgos e hera cobriam as paredes úmidas do rochedo. Uma cascata de águas cristalinas caía gentilmente sobre a piscina natural que se formava próximo à praia. Em torno desta, as rochas eram redondas e secas e de uma surpreendente suavidade ao contato com a pele. O sol ainda não se pusera quando ancoraram na enseada e se prepararam para acampar. Aquela seria a primeira noite que passariam juntos.

Allie estremeceu quando seus pés mergulharam na água gelada e depois engoliu em seco quando viu o interior da geladeira de isopor em que Nick trouxera os alimentos. — O jantar desta noite será especial — ele informou separando um filé, alguns abacates e tomates e uma garrafa de vinho italiano. Não entendendo direito o que Nick pretendia, Allie observou enquanto ele montava um pequeno fogareiro a gás, enrolava duas batas em folhas de papel alumínio e colocava os bifes em uma panela, marinando-os em um molho que trouxera pronto. Então, ao terminar os preparativos para o jantar, abriu a garrafa de vinho e serviu o líquido vermelho nas canecas de cerâmica, entregando uma a Alison pouco antes de ajudá-la a sentar em uma das pedras de formato arredondado. — Por que está com essa cara de espanto? Por acaso esperava que fôssemos comer apenas pão com manteiga de amendoim e geléia? — Bem, eu certamente não esperava que trouxesse filé com molho de abacate e tomate, nem nada tão sofisticado quanto isto — Alison confessou. — Pensei que, com um pouco de sorte, comeríamos salsicha assada, atum enlatado e marshmallow de sobremesa. — Ora, ora, Alison Mills. Você está me subestimando. Este é seu primeiro jantar no rio Colorado e precisa ser algo especial. — Num gesto significativo ergueu a caneca de vinho e tocou na dela produzindo um som característico. — Bem vinda ao rio, Alison. Espero que nunca mais se esqueça deste momento. E como ela poderia?

Perguntou-se, fitando e sorrindo. Sim, como poderia esquecer aquela cena em que Nick era iluminado pelos últimos raios de sol que conseguiam penetrar na muralha, tendo as águas cristalinas da cascata formando um halo prateado em torno da figura máscula e atraente. Conforme o sol ia baixando no horizonte as sombras foram caindo sobre o rio. Eles sorveram até o último gole de vinho e só então Nick pegou um pequeno lampião de uma das caixas de equipamento que descera do barco e o acendeu. Terminaram de preparar a refeição juntos e o aroma do filé suculento cozinhando junto à cebolas, tomates e pimentões quase fez Allie desmaiar de fome. O jantar foi servido sobre uma das pedras maiores cuja parte superior era perfeitamente plana. Eles sentaram-se no lado a lado no chão com as pernas cruzadas e os braços colados ao corpo para não tocar um no outro. Como o aroma já denunciava, o filé estava deliciosamente suculento e as batatas, embora um pouco duras no centro, estavam divinas. Para completar, Nick aproveitara o que sobrara de abacate e tomate e fizera uma deliciosa salada temperada unicamente com suco de limão e sal. Allie nunca provara nada melhor. Bastou outra caneca de vinho para fazer seus músculos relaxarem por completo. Por um instante, fechou os olhos e deixou-se ficar inalando o ar puro da noite. Quando voltou a abri-los, percebeu que Nick tinha lavado os pratos no rio e que agora os enxugava num dos vários panos brancos que trouxera. — Um dólar por seu pensamento — disse, aproximando-se dela e fitando-a com um sorriso. — Não acha que é pouco para desvendar os segredos de uma mulher? — brincou ela, vendo-o guardar os pratos na caixa e sentar-se novamente a seu lado. — Não se eu realmente gosto desta mulher e quero vê-la feliz. Allie sentiu o coração dar um salto dentro do peito. Céus! Ainda não estava preparada para aquilo. Por mais que quisesse, não estava preparada. — Sei que você está recomeçando sua vida, Allie e não quero assustá-la. Só quero lhe mostrar

quem sou e como vivo. Talvez goste. — Gostar? Estou adorando. Como foi que descobriu este lugar? Parece um daqueles paraísos perdidos. — Pode parecer estranho, mas para chegar até aqui também trilhei um longo caminho — falou em tom de confissão e, pela primeira vez depois de muitos anos, decidiu abrir seu coração para uma mulher. — De qualquer forma acho que tive sorte. Depois de anos me sentindo infeliz apesar de todos os meus esforços, consegui mudar as coisas. Quer dizer, não fui eu que mudei as coisas, mudaram para mim. Allie encarou-o, mas não ousou interromper, tinha a nítida sensação de que aquele momento seria um marco divisório no relacionamento de ambos. Era muito importante conhecê-lo melhor e saber o que pensava e tudo em que acreditava. — O mais engraçado é que minha mulher e eu fizemos caminhos inversos nesta busca por autoconhecimento e satisfação. Quero dizer ela nasceu em uma cidadezinha do Wisconsin e sonhava e sempre sonhou com fama, dinheiro e sucesso. Eu, por outro lado, vinha de uma família de classe média, morava numa grande cidade, me formei em Engenharia e fui trabalhar como analista financeiro de um grande banco. — Sua esposa não trabalhava? — Bem, ela ficou grávida quando estávamos na faculdade e por isso acabou se dedicando a Mareie e à casa. No começo tudo era maravilhoso, pois eu ganhava o suficiente para manter um bom padrão de vida. Quando chegava em casa à noite Mareie e Joanie estavam me esperando para o jantar. Conversávamos-nos, riamos juntos, cuidávamos de Mareie. — Até aqui está me parecendo uma família perfeitamente normal — atalhou Allie, não entendendo direito onde estava o problema. — Bem, os problemas começaram quando comecei a ganhar mais e mais dinheiro e Joanie decidiu se tornar um membro ativo do Country Clube local. Junto com essa decisão vieram as festas todas as noites, os jantares, as futilidades. Eu chegava em casa, queria curtir minha filha e minha família mas sempre tínhamos convidados ou festas para ir. Quanto mais tranqüilidade eu queria, mas vida social minha mulher queria. — Chegaram a conversar sobre isso? — Inúmeras vezes. Mas no final, o peixe fora d'água era eu. Meu trabalho ia cada vez melhor, Mareie era uma criança maravilhosa e eu continuei fingindo que nada estava acontecendo. Afinal, minha filha e minha mulher estavam felizes e tinham tudo que queriam. — Mas você não estava feliz, certo? —Não, não estava E também não podia mais suportar aquilo. Para piorar, meu trabalho também era cada vez mais insuportável pessoas se debatendo por dinheiro como peixes num aquário onde a água não tem oxigênio para todos. Foi aí que decidi deixar tudo para trás e tentar descobrir o que realmente me faria feliz. Foi assim que cheguei a este lugar. Allie o encarou com ternura. — Nunca falei sobe isto antes, mas achei que você deveria saber quem sou, do que gosto e o que espero da vida. Uma boa relação sempre deve começar sobre bases sólidas e para isto a franqueza é indispensável. Por um instante, Allie o fitou aturdida. Então, de repente, percebeu aonde Nick queria chegar:

ele estava lhe dizendo claramente que pretendia se envolver com ela. —Obrigada por me contar, Nick. Jamais me esquecerei disto — disse, tocando-o gentilmente no ombro. — E quanto a você? Quero dizer, como foi seu casamento, sua vida até aqui? — Bem, me casei com dezoito anos, estava perdidamente apaixonada por Charles. Meu marido era doze anos mais velho e isto fascina uma garota, acho que é o que chamam de o charme da

experiência. Contrariando as expectativas de muitos de nossos amigos, fomos realmente muito felizes juntos, todos nos chamavam de casal extraordinário. Tínhamos um relacionamento perfeito, filhos maravilhosos, uma casa encantadora. Charles gostava de seu trabalho, eu do meu e tudo corria calmamente até que ele adoeceu. O resto da história você já conhece. — Sim, conheço. Mas você está diferente desde a última vez que nos vimos. Não sei explicar. Se eu fosse místico diria que sua aura está mais leve, seu carma menos pesado; se fosse um poeta acrescentaria que seu sorriso está mais cativante, seus olhos mais brilhantes e o conjunto mais fascinante. Mas como sou apenas um velho guia turístico prefiro perguntar:

pode me dizer o que mudou desde que ficou viúva? Allie ergueu o rosto e fitou as estrelas. Aquela veia poética de Nick a pegou completamente desprevenida. — Você tem razão. Eu mudei. Acho que só agora estou me permitindo pensar em mim mesma

como Alison e não como a esposa de Charles, a mãe de Sam, Carol, Shelley e Jimmy. Já posso ser eu mesma, pois não tenho mais medo de decepcionar Charles ou meus filhos. Tive meus dias de luto, mas agora quero ser feliz e acredito que você pode me ajudar muito neste pro- cesso de busca da felicidade, Nicholas Henry. — Mesmo? — ele perguntou, aproximando-se dela e envolvendo-a nos braços. — Espero que sim. Lentamente, como em um daqueles filmes antigos de que Allie tanto gostava seus lábios procuraram um pelo outro em um beijo que tinha um raro sabor de compreensão, afeto, ami- zade, respeito. Aos poucos, as línguas experientes se entrelaçaram e os elementos desejo e paixão foram adicionada à mistura de emoções e sentimentos que os movia naquele instante. Allie fechou os olhos e passou as mãos em torno do pescoço viril. Aquele primeiro beijo estava sendo ainda melhor do que havia imaginado. Foi um beijo longo e demorado mas, em nenhum momento Nick ousou ir além dele. Sabia que ainda precisavam de tempo para dar vazão ao desejo que pulsava em seus corpos. Quando se afastaram, ele segurou-a pelo queixo e forçou-a a encará-lo. — Queria fazer isto há muito tempo — contou com rouquidão na voz. — Eu também — Alison confessou, mas, subitamente sentia-se tímida como uma colegial. Tinha sonhos eróticos com Nick, queria muito gemer de prazer em seus braços, sentia todo seu corpo vibrar quando ele estava por perto, mas ainda não estava preparada para consumar aquela relação com um contato físico completo. — Ei, não se preocupe — murmurou Nick, beijando-a na testa. — Também estou com medo. Na verdade, estou apavorado.

— O

O quê?

... — Sim, faz muito tempo que não gosto de uma mulher como gosto de você, Alison Mills. Isto também é uma novidade para mim, porém jamais a forçarei a fazer algo que não queira. Tudo acontecerá na hora e no tempo certo. Relaxe, sim, princesa ... Allie deu um longo suspiro e aninhou-se no peito másculo. O momento de desconforto passara e aquele gesto de compreensão e respeito ajudara a criar uma maior proximidade entre eles, aprofundando os laços que os uniam de forma mais firme e duradoura. Estava frio e muito escuro agora. Nick afastou-se dela com movimentos felinos e foi até o barco, de onde voltou com os sacos de dormir e uma pequena gaita. — Deite-se e aprecie as estrelas, princesa — ordenou ele. — Vou fazer uma serenata para você. Quero que se lembre desta noite para o resto de sua vida. E como não poderia lembrar? Perguntou-se Allie, ouvindo

os primeiros acordes da melodia que haviam cantado juntos no dia em que se conheceram. De repente, seu coração foi inundado por uma emoção completamente nova e inebriante. Era amor, sabia que era, mas não um amor igual ao que sentira por Charles. Afinal, o amor que estava nascendo em seu peito era especial, era seu amor por Nicholas Henry e só agora ela compreendia que todo amor na vida de um ser humano é único, especial, ímpar, com sensações e emoções que jamais se repetem. "Talvez por isso todo amor seja eterno!", pensou, deixando-se embalar pelo suave som da gaiata. Sim, como dizia o poeta: "eterno enquanto dure".

Capítulo VIII

No dia seguinte eles acordaram bem cedo e retomaram o trajeto interrompido. As horas pareceram voar. Allie estava aprendendo a rotina do rio rapidamente já sabia como acender o fogareiro, fazer o café no utensílio improvisado, esfregar as canecas com areia do rio e também a remar, pois nos trechos mais calmos e planos Nick a deixava conduzir a pequena embarcação, primeiro ao lado dele, cada um com um remo, depois sozinha, com Nick sentado à sua frente a fitá-la com expressão embevecida e um largo sorriso a brincar nos lábios carnudos. Foram horas maravilhosas que fizeram Allie se sentir no comando da própria vida. Ainda pela manhã eles passaram pela parte mais estreita do rio, o chamado "Corredor dos Conquistadores" e, ao olhar para o alto do rochedo, avistaram os silos antigos dos índios Ana- sazi. Uma construção rústica e robusta que parecia resistir aos ventos e à força da gravidade com bravura. Durante um longo tempo, Allie ficou pensando que as coisas que realmente im- portavam na vida eram como aquela construção, simples, mas resistente a intempéries da natureza e às peças que o destino costumava pregar. Estava tão imersa em suas considerações que nem se importou com o fato de que naquele dia Nick não queria parar para o almoço, pois ele tinha um acampamento especial em mente. Como Nick previra, o tempo que economizaram no almoço ajudou-os a chegar ao ponto onde passariam a noite bem antes de o sol se pôr no horizonte. Ao descer do barco para ajudar Nick a desembarcar o equipamento, Allie não pôde conter um suspiro de satisfação. A pequena praia era coberta por uma areia branca e macia e, banhada pelos róseos raios de sol do entardecer, parecia quase idílica. Vista do ponto onde tinham ancorado, era como um daqueles cartões postais que a"s agências de turismo usam para convencer os clientes a fazerem viagens estapafurdiamente caras. Eles montaram acampamento num dos cantos mais protegidos da praia, onde o vento não os incomodaria ao cair da noite e, assim que tudo estava sem eu devido lugar, Nick seguiu até a pequena enseada que havia mais a leste, pois pretendia pescar uma truta para o jantar. Allie o observou manejar um arpão apropriado para aquele tipo de pesca, o que a fez lembrar- se de um dos filmes de náufragos o que Sam e Jimmy tanto gostavam de assistir quando crianças. Não havia como negar que Nick estava estupendo com o torso nu exposto aos últimos raios de sol. Ela admirou-lhe os ombros largos, os braços fortes, a pele bronzeada e a linha de pêlos escuros que descia do tórax até o cós da calça de tactel verde-exército. Sem sombra de dúvida Nicholas Henry era um homem magnífico. Ele possuía aquela mistura perfeita de sensibilidade e força bruta que toda mulher sonha encontrar em um companheiro. Era capaz de tratá-la com todo carinho e respeito e, ao mesmo tempo, agir como um bravo guerreiro que protege sua donzela dos ataques de dragões imaginários criados por suas fobias e pelos fantasmas do passado.

"Quanta bobagem, Alison Mills! Você está parecendo uma adolescente apaixonada que vive criando fantasias românticas!", recriminou-se em pensamento, sem ousar desviar os olhos dele nem por um instante sequer. O bom senso lhe dizia que Nick sabia perfeitamente bem que estava sendo observado, embora fingisse estar compenetrado na pesca da truta para o jantar. Allie sorriu. Não se sentia mais impaciente e insegura, muito pelo contrário. Sabia que estavam dando os primeiros passos na dança do amor. Seu coração lhe dizia que naquela noite haveria muito mais do que apenas um beijo e, para sua surpresa, sentia-se preparada para recebê-lo em seu corpo e alma. Nick era especial, ela era especial e a praia deserta incrustada numa imensa muralha de pedra

às margens do rio Colorado era o local perfeito para darem vazão aos sentimentos que os con- sumiam. Parecendo notar o turbilhão de emoções que a assolava, Nick se aproximou e beijou-a levemente na testa antes de lhe mostrar o belo peixe que conseguira fisgar.

— Humm

o jantar promete — Alison brincou, mas seu apetite e antecipação de prazer não

... eram só por causa da comida, ambos sabiam disso. — Sim, espero não decepcioná-la. — Nick riu e a puxou de volta para o local onde haviam acampado. Naquela noite jantaram a enorme truta com batatas douradas e cenoura ralada. Claro que o vinho italiano não poderia faltar para dar um toque romântico à refeição servida à luz do lampião. — Não vá ficar mal-acostumada e esperar uma refeição como esta todas as noites, sra. Mills — Nick brincou, sentando-se ao lado dela na areia quente e fofa. — Isto é apenas uma concessão que faço pelo fato de ser sua primeira vez nesta jornada. — Entendo perfeitamente, Sr. Henry. E vou me lembrar sempre disto — acrescentou, pois o verdadeiro sentido daquelas palavras não lhe passou despercebido. O jantar estava delicioso e eles terminaram de comer em silêncio, Então, depois de lavar a louça no rio acomodaram-se junto à fogueira, que Nick acendera para protegê-los de pequenos animais e insetos, apreciando um pouco de café com brandy. As horas passaram rapidamente enquanto conversavam e, ao contrário do dia anterior, a noite estava quente e clara. A lua parecia um imenso medalhão a brilhar no céu estrelado. Uma brisa suave beijava-lhes o rosto, mas mesmo assim Allie sentia seu corpo queimar. Olhando para a água cristalina que refletia o brilho do luar, de súbito ela se deu conta de que não havia nada no mundo que desejasse mais do que fazer amor com Nicholas Henry, sentir seu toque, seus beijos e depois deixá-lo penetrar na intimidade úmida de seu corpo, preenchendo-a e fazendo-a vibrar de paixão e desejo. Atordoada com a intensidade de suas emoções olhou para o rio e decidiu que talvez um mergulho fosse uma boa idéia para acalmar o fogo que lhe incendiava corpo e alma. Lenta- mente, deixou a caneca de lado e ficou em pé. — Que tal um mergulho? — sugeriu, começando a baixar o zíper do shorts que usava. Nick a fitou com o cenho franzido, mas logo sorriu. Imitando seu gesto, ficou em pé, deixou a caneca sobre uma das pedras e então se livrou rapidamente da camiseta branca. — Ok, mas lembre-se de que isto foi idéia sua Sra. Mills — falou com voz rouca, virando-se de costas para tirar a bermuda verde. Estranhamente, Allie não sentia o mínimo pudor ao despir a blusa, desabotoar o sutiã e ficar totalmente nua diante de um homem que conhecia há pouco menos de um ano. Um intenso arrepio a percorreu de alto a baixo, mas não era de frio, e sim por antecipação a tudo o que estava por vir. Não era ingênua, sabia que seu gesto fora um convite silencioso para Nick e ele

o aceitara sem pestanejar. Sentindo-se um pouco confusa, afinal era a primeira vez que tomava uma atitude tão ousada, ela deu mais alguns passos e deixou a água gelada envolver seu corpo como um veludo negro e misterioso antes de mergulhar rapidamente e começar a nadar. Não o viu entrar no rio, mas no instante seguinte Nick emergiu a seu lado. Os ombros largos e fortes estavam plenamente visíveis pouco acima do espelho d'água e os cabelos castanhos caíam como uma massa escura junto ao pescoço másculo. Ele parecia ainda mais belo e atraente sob a luz do luar, se é que isso era possível. — Acha que podemos atravessar até o outro lado e voltar? — Allie sugeriu, apontando para a margem oposta ao mesmo tempo em que seus dedos tocavam-nos dele. Por alguma estranha razão, sabia que o esforço físico ajudaria a controlar seus impulsos mais primitivos — Claro, siga-me — Nick assentiu antes de dar vigorosas braçadas na direção sugerida. Os dois eram exímios nadadores, mas a correnteza também era muito forte e foi preciso um grande esforço para driblá-la. Se for até o outro lado do rio tinha sido um árdua tarefa, retornar à praia se mostrara ainda mais difícil. Ofegantes, pararam de nadar num ponto em que a água lhes atingia a altura dos quadris.

A água estava gelada e, de repente, a brisa noturna também parecia fria e impiedosa. Allie começou a tremer e passou as mãos vigorosamente pelos braços. — Não pensei que fosse tão difícil — confessou ofegante. — Mas estou feliz por termos conseguido. — Sim, somos bons nisto, não? Fortes e guerreiros. Nem mesmo a natureza consegue nos vencer. Antes que Allie pudesse se dar conta do que estava acontecendo, Nick cruzou o pequeno espaço que os separava e a trouxe para junto do corpo forte e viril. Ela podia sentir a pele quente e úmida colar-se à sua, os músculos firmes de encontro a seus quadris e o sinal inegável da excitação dele insinuar-se junto a suas pernas. O contato íntimo e inesperado a excitou. Obedecendo a um impulso, ergueu os braços e o abraçou. Silenciosos, caminharam juntos para a parte mais rasa do rio até atingir a pequena praia. Estavam levemente trêmulos, não só por causa do frio, mas também pela proximidade sensual de seus corpos desnudos. Nick pegou uma enorme toalha felpuda do chão e passou-a em torno deles, antes de puxá-la para si e beijá-la levemente nos lábios. Então inesperadamente afastou-se dela apenas o tempo suficiente para pegar um dos confortáveis sacos de dormir que estavam no barco e fazê-la entrar no casulo escuro a seu lado. — Assim está melhor — murmurou ele e, com movimentos carinhosos, fez a deitar-se no tecido quente e macio, depois se curvou sobre ela, beijando-lhe a boca, o queixo, a garganta. Num gesto sensual, tomou os seios redondos e firmes nas mãos e começou a mordiscá-los até que esses não deixassem a menor sombra de dúvida do quanto o toque sedutor a excitava. Sorrindo, Nick voltou a beijá-la com ardor ao mesmo tempo em que deslizava as mãos fortes e viris por sobre o abdome plano, os quadris de curvas generosas e o ponto quente e úmido entre suas pernas, tocando-a consuma intimidade enervante, mas, ao mesmo tempo, delidos — Você é tão linda! —- disse num fio de voz, as pernas musculosas enroscando nas dela e forçando-a abri-las para sentir a parte mais íntima de sua masculinidade aproximar-se do local onde ambos gostariam que estivesse. Allie moveu-se involuntariamente para mais junto dele, ansiando por intensificar o toque e a proximidade que experimentavam. Sufocando um gemido, mergulhou os dedos nas costas musculosas e se insinuou para Nick num oferta clara e sensual.

Mas ele se recusava a ser apressado, tinha esperado muito para amá-la. Assim, beijou-lhe o contorno das faces, enquanto as mãos experientes continuavam explorando cada centímetro do corpo dela. Allie tinha plena consciência do ar frio da noite sobre suas peles desnudas, mas, de repente, isto não tinha a menor importância, tudo o que importava eram os dois e as sensações Inebriantes que estavam descobrindo juntos. —Estou tentando fazer isto se prolongar ao máximo, querida — disse Nick com voz rouca e gutural. — Faz tanto tempo que a desejo, que sonho em tê-la em meus braços, por isso quero prolongar este momento de prazer pela eternidade Allie gemeu, mas não estava tão certa de que poderia esperar por muito mais tempo. — Ah, Nick, quero senti-lo dentro de mim. Preciso de você. Ele curvou-se e a beijou avidamente, então ergueu um pouco o corpo apenas para ajustar o encaixe de seus quadris de maneira a ficar mais confortável e excitante.

Por um instante, Alison não conseguiu evitar pensar que Nicholas Henry era o homem mais maravilhoso e sexy que havia na face da terra. E, pelo menos por aquela noite, ou quem sabe durante os próximos dias, ele era dela, só dela. Emocionada, apertou-o nos braços. Nick respondeu ao toque imediatamente, seus lábios e suas mãos cobrindo-a por inteiro, fitando-a com olhar atento como se quisesse memorizar cada detalhe daquele instante de amor. Um gemido rouco escapou dos lábios rosados de Allie. Queria senti-lo dentro dela o mais rápido possível, de maneira que ficassem tão intimamente ligados que seria difícil saber quem era quem. Precisava experimentar sensações que nunca conhecera antes, queria provar o tipo de paixão que só vivenciara na mais criativa de suas fantasias românticas. E se alguém poderia lhe dar isto este alguém era Nick Henry. Afinal, a seu ver ele era o amante mais perfeito e viril que existia na face da Terra, disso Allie não tinha dúvida. — Oh, Nick! — Sua voz era tão rouca que mal podia reconhecê-la. Nick afastou-se um pouco para encará-la. Havia um desejo quase animal brilhando no fundo dos olhos escuros. O ar em torno deles parecia estar fervilhando e soltando anéis de fumaça por causa do calor que exalava de seus corpos. Mas por que se surpreender? Este momento estava fadado a acontecer desde a primeira vez em que seus olhos se cruzaram e haviam cantado juntos aquela canção de amor. — Oh, Allie, quero você, quero mais do que tudo nesta vida! — Falou Nick num tom quase primitivo. — Se não quiser fazer isto, por favor, diga agora — sussurrou ofegante. — Eu nunca quis tanto algo quanto quero você, Nick — respondeu Allie com franqueza. — Por favor, não pare! — Alison! — Nick exclamou antes de beijá-la e deixar a parte mais quente e protuberante de seu corpo mergulhar dentro dela, tomando a posse definitiva do que era seu por direito. Allie gritou ao experimentar aquela sensação deliciosa espalhar-se por todas as células de seu corpo. Nick não fez amor com ela gentilmente, como Charles fazia. Mas Allie não queria que Nick fosse gentil, seu amor por ele era muito diferente das emoções ternas e tranqüilas que conhecera em seu casamento. Era uma nova história de amor que iniciava e assim teria de ter um novo enredo, novos persona- gens, novas formas de amar. Além do quê, ela não era mais uma virgem de dezoito anos, era

uma mulher que sabia das necessidades de seu corpo e alma. E esta mulher que Allie sabia ser participou ativamente do ato de amor, deixando muito claro que era isto que queria. Nick por sua vez também demonstrou que estava adorando cada minuto daquele contato extasiante. Eles atingiram juntos o ápice do prazer e foi como se milhares de fogos de artifício explodissem no céu estrelado, fazendo-o brilhar com todas as cores do arco-íris. Allie até podia jurar que o chão tinha estremecido sob seus corpos no instante em que os gritos de prazer ecoaram pela praia deserta. Assim que se recuperou um pouco, Nick a abraçou bem forte, banhando suas faces com beijos, murmurando doces palavras a seu ouvido e segurando-a com firmeza até que os tremores cedessem e o coração começasse a pulsar num rimo mais controlado. Quando sua mente parou de rodar naquele redemoinho típico da paixão e ela conseguiu voltar a raciocinar de forma normal, Allie percebeu que, acontecesse o que acontecesse depois da- quela semana navegando pelo rio Colorado, jamais se arrependeria por ter feito amor com Nick. — Boa noite, amor — ouviu-o dizer, beijando-a ternamente na testa. — Boa noite, querido — respondeu quase automaticamente e fechou os olhos para mergulhar num sono profundo e benfazejo. Depois de ter se manifestado em toda sua força e pungência naquela primeira noite, o amor deles passou a fluir como as águas do rio pelo qual navegavam, alternando momentos de intensa paz, tranqüilidade, companheirismo, riso fácil, com longos silêncios e, então, quando menos se esperava, o sentimento que os assolava se tornava tão intenso e frenético quanto as corredeiras do rio, levando-os a se moverem num louco frenesi de paixão e desejo que acabava se consumando num ato de entrega e prazer total, em que a adrenalina aumentava- lhes a pulsação fazendo-os esquecer do resto do mundo. Apesar de alguns dias terem passado desde aquela noite em que haviam se amado sob a luz do luar e tendo a praia deserta por testemunha, nenhum dos dois ousara mencionar a palavra amor, mas nem por isso deixaram de aproveitar os instantes mágicos que partilhavam. Além disso, o clima também estava cooperando bastante para ajudá-los a viver momentos inesquecíveis. Os dias eram quentes e agradáveis, com um sol generoso brilhando no céu azul e sem nuvens, enquanto as noites e manhãs eram bem mais frescas, na temperatura ideal para fazê-los se aninhar no saco de dormir e se entregarem à paixão que pulsava em suas veias. Nenhum dos dois tinha pressa, havia tempo suficiente para as paradas para o almoço, longas caminhadas ao longo das margens dos rio, o doce far niente enquanto ouviam encantados o som maravilhoso de uma cachoeira ou conversavam sobre suas vidas, contando histórias sobre a infância, adolescência, vida adulta, estreitando os laços de amizade antes de pensar em fir- mar um compromisso de amor com palavras que poderiam soar precipitadas demais. Às vezes Allie se lembrava de Charlie e de sua morte recente, mas então Nick se aproximava e a tomava nos braços e ela se esquecia de tudo, concentrando-se apenas em dar e receber amor e prazer. Geralmente depois do jantar, Nick pegava a gaita que deixava na caixa preta do barco e tocava as músicas antigas que costumava cantar em Sun City. Segundo ele lhe confidenciara, preferia a gaita ao violão, pois além de ser muito mais prático de manusear, o instrumento traduzia com perfeição o que sentia ao estar ali sob as estrelas, tendo o som da água como backvocal. No entanto, depois da primeira serenata que lhe fizera ao luar, Nick jamais voltara a tocar a música deles. Tinham um acordo tácito sobre o assunto, pois pronunciar a letra da melodia era

como se estivessem assumindo um compromisso para o qual nenhum dos dois estava preparado. Allie não havia trazido uma câmara consigo, não tinha nem mesmo um diário para registrar aqueles dias fantásticos com precisão. Contudo, acontecesse o que acontecesse, ela sabia que se lembraria em detalhes daquela viagem pelo rio Colorado. Agora por exemplo uma curva abrupta os levara até Havasu Creek, um mundo verde-azulado que de tão perfeito parecia ter saído de outro planeta. O verdadeiro paraíso esquecido na face da Terra. De mãos dadas, Alison e Nick ergueram o rosto para o horizonte e tentaram entender como a natureza podia ser tão perfeita e, ao mesmo tempo, tão humilde e despretensiosa. Tal- vez esse fosse o segredo para fazer as coisas realmente funcionarem. Nada de grandes expectativas ou planos, deixando que tudo acontecesse ao acaso. Entre um beijo, um abraço, um tórrido momento de paixão e outro eles conversavam até altas horas da noite, revelando sonhos, esperanças, medos, desapontamentos, temores, triun-fos, fracassos e conquistas. Aliás, o único assunto sobre o qual nunca ousavam falar era sobre o futuro de seu relacionamento. Por fim, dormiam abraçados, satisfeitos e felizes por terem um ao outro. Na manhã do quinto dia Nick preparou um café da manhã especial com panquecas e geléia em lugar do tradicional cereal com frutas e café preto. — Coma tudo, mocinha. Prepare-se que hoje vai precisar de muita energia para vencer o desafio que temos pela frente. Vamos passar por Lava Falls. Ela já tinha ouvido falar de Lava Falls, a mais rápida e íngreme de todas as corredeiras do rio e sorriu ao pensar na aventura que teria pela frente. Mal podia esperar para começarem. Uma forte descarga de adrenalina pareceu jorrar por suas veias e Alison deu um gritinho extasiado. Driblar as corredeiras do rio era algo tão prazeroso e intenso quanto fazer amor. — Bem, se não estivesse sem um centavo no bolso daria um dólar por seus pensamentos — gracejou Nick, ao ver os olhos castanho-dourado brilharem de empolgação. — De qualquer forma, gostaria muito de saber por que está assim como, como ... — Como uma criança pronta para ir a um parque de diversões? Completou-a. — Simples, estou empolgada como se fosse subir pela primeira vez numa montanha-russa da Disney. —Então me deixe dizer-lhe que Lava Falls e Vulcan' s Anvil são ainda melhores e mais emocionantes do que qualquer montanha-russa. — Ele fez uma pausa e a encarou com ar preocupado. — Por acaso está com medo? Allie negou com um movimento de cabeça. — Não, sei que por mais difícil e íngreme que for o trajeto você estará lá para me proteger. Nick riu, antes de beijá-la com ardor. Suas mãos passearam da cintura até o quadril de curvas generosas, então ele a empurrou gentilmente para longe de si. — Ah, você me distrai e se quisermos passar por Lava Falls na melhor parte do dia precisamos4 r andando. — Sim, capitão — Allie sorriu e ajudou-o a colocar os últimos apetrechos no barco. Três milhas antes de chegar a Lava Falls eles passaram por Vulcan's Anvil, uma ilha de basalto que se formava como uma grande rocha escura no centro do rio, no alto da qual brotavam vários cactos. Naquele trecho, as paredes de cada lado do cânion eram formadas por lava negra a que haviam endurecido depois de milhares e milhares de anos da erupção que lhes dera origem. Então, pouco antes de atingirem o ponto alto do trajeto do dia Nick parou de remar, recolheu os remos e procurou se certificar de que todo o equipamento estava na mais perfeita ordem para enfrentar a famosa corredeira.

Também checaram os coletes salva-vidas e colocaram óculos e capacete de proteção. — Engraçado — Nick disse, ajustando o capacete junto ao queixo anguloso. — Faz mais de três dias que não cruzamos com ninguém. Nunca vi o rio tão vazio e silencioso. — É por que todos sabiam que queríamos ficar sozinhos querido — Allie gracejou, mas podia notar o tremor em sua voz e o leve tom de preocupação que permeava a dele. — Agora segure firme! — Nick gritou pegando os remos e levando-os para o centro da enorme formação em V que se abria como se fosse a boca de um terrível monstro. A força e a beleza de Lava Falls surpreendeu Allie, ela sentiu o coração bater descompassado em seu peito à medida que o barco inflável era sacudido de um lado para outro, de cima para baixo, de baixo para cima, enquanto milhares e milhares de litros d'água pareciam jorrar de todos os lados, encharcando-os até os ossos.

Como se não bastasse, o barulho era quase ensurdecedor. Contudo, a visão dos raios de sol penetrando através da cortina d'água era de uma beleza tão ímpar que Allie esqueceu de todos os seus temores. Após o que lhe pareceu uma eternidade, a velocidade do barco diminuiu e Lava Falls ficou para trás. Acabara. Sim, e aqueles tinham sido os momentos mais empolgantes de sua vida. Será que conseguiria voltar para sua rotina calma e tranqüila de designer e paisagista depois de ter vivido uma experiência tão empolgante quanto aquela? Não era de admirar que poucos eram capazes de descrever as emoções de um ser humano ao vencer os perigos de uma queda d'água. Durante um longo momento, eles navegaram em silêncio. Nick apoiou os remos na parte superior do barco e procurou descansar, enquanto Allie olhava para cima e via as muralhas de pedra se erguerem até o céu azul. Tinha plena consciência de que cada milha que deixavam para trás a estava levando de volta à sua vida normal e para longe de Nicholas Henry. Mas qual seria sua vida normal, aquela que pretendia retomar em Framingham ou a que acabava de descobrir ao lado desse homem absolutamente fascinante? Alison teria pouco tempo para descobrir a resposta à sua pergunta. Naquela noite após saborear um dos fartos jantares preparados por Nick e tomar um longo gole de brandy, deitaram-se de mãos dadas no convés do barco inflável, nus como Adão e Eva no paraíso. O ar fresco e perfumado acariciou-lhes a pele e os cabelos e, ao longe, ouviu-se o som de uma águia careca ecoando por todo o desfiladeiro. Tinha ficado deitado ali por quase uma hora, enquanto o sol se escondia no horizonte produzindo o mais fantástico efeito de cores e luzes sobre as paredes de pedra, produzindo vários matizes que iam do dourado ao vermelho. Então, o céu foi se tornando mais e mais escuro e a primeira estrela assumiu seu posto de guardiã sobre o veludo negro da noite. Cansados depois de terem feito amor com paixão e ainda sentindo-se extasiados após viver a experiência de ter vencido a força de Lava Falls, sentiam- se plenos e felizes. No entanto, quando Nick pegou-lhe a mão e levou-a aos lábios, Allie sentiu a paixão despertar dentro de si como se só estivesse esperando por este sinal para se manifestar. Sentiu uma onda de desejo tão poderosa e intensa que praticamente a jogou nos braços fortes e musculosos. Movida por um impulso, insinuou-se junto ao corpo viril e ficou extasiada ao perceber o quanto aquele gesto o deixara instantaneamente excitado. Nick gemeu baixinho antes de se virar e abraçá-la com ardor. Os dedos longos acariciaram-lhe os lóbulos da orelha, depois a forçaram a abrir a boca para sentir a língua quente e úmida mergulhar entre seus lábios, e beijá-la sensualmente. Ela retribuiu ao beijo com a mesma ânsia voraz e colocou as mãos espalmadas sobre o peito

largo e viril. Como sempre, Nick a cobriu de carícias e palavras gentis antes de deitar-se sobre ela e mergulhar em sua intimidade com força e vigor. — Oh, Nick! — Allie exclamou, movendo as mãos do peito para as costas largas e sentindo-o se retesar todo enquanto tentava prolongar aquele momento de amor ao máximo. No instante seguinte, sentiu-o mergulhar a cabeça na curva delicada de seu pescoço e tremer ligeiramente. A esta altura, Allie já sabia que aquele era o sinal de que Nick não podia esperar nem mais um minuto para consumar o ato de amor.

Adorando senti-lo vibrar em seu corpo, Alison passou a mover-se com Nick num ritmo alucinado e frenético. A medida que suas peles roçavam uma na outra e suas pernas procuravam intensificar o contato que os mantinha unidos formando um só corpo, um só desejo, suas respirações se tornavam mais e mais ofegantes, o sangue corria-lhes rápido nas veias e os corações batiam descompassados. Era como se não houvesse mais nada no mundo a não ser a necessidade de consumar o ato de amor. Sim, precisavam disso, tanto quanto precisavam respirar para viver. Quando finalmente chegaram aos píncaros do prazer, Allie experimentou a mais completa e imensurável satisfação que uma mulher pode almejar. Durante um longo tempo, nenhum dos dois voltou a falar. Ficaram ali deitados, mãos entrelaçadas, corpos colados um ao outro e o ar doce e cálido da noite primaveril soprando- lhes as peles ainda quentes e úmidas por causa do ato da paixão. Finalmente, Nick a empurrou um pouco para o lado, abriu o saco de dormir, ajeitou os travesseiros e gentilmente puxou a coberta sobre ela. Allie aninhou-se no peito bronzeado, acomodando as pernas entre as dele e deixando que a ponta de seus dedos se tocassem. Suas respirações se mesclaram quando desejaram boa noite um ao outro. A esta altura, ela sabia exatamente quando Nick adormecia, pois já conhecia cada nuance de sua respiração. E naquela noite Nick dormira quase que imediatamente após terem feito amor.

Allie esfregou o rosto no tórax viril, num gesto afetuoso, então fechou os olhos e deixou seu corpo relaxar. "É como chegar em casa depois de uma longa jornada", pensou, suspirando. "Sim, quando estou nos braços de Nick sinto-me como se estivesse chegando em casa depois de uma jornada longa e cansativa/' No entanto, isto pareceu não ser o bastante para ajudá-la a adormecer naquela noite. Sempre soubera que aquela era uma viagem de sonhos, mas também uma espécie de fuga da reali- dade, um interlúdio romântico, uma breve fuga da realidade. Porém, agora mais que nunca, queria que o que começara como uma fuga se transformasse em algo duradouro e real, não só enquanto estavam navegando pelo rio Colorado, mas também depois quando pisassem em terra firme. Por mais que se esforçasse para ser racional, Allie não conseguia imaginar como seria viver sem o maravilhoso encantamento que descobrira nos braços de Nick. E faltavam apenas dois dias, uma noite para que tudo chegasse ao fim. Allie sabia quantas milhas faltavam para aportarem, quantos dias, quantas horas, quantos minutos, quantos se-

gundos ...

Calculara tudo mentalmente. Eles deveriam chegar ao Lago Mead, colocar o barco

inflável na caminhonete de Nick que a levaria de voltar ao vilarejo de Grand Canyon, onde ela deixara o Miata. Ali Allie destrancaria seu conversível vermelho e eles diriam ...

Adeus? Assim, como se nada tivesse acontecido? É, fora assim que Alison planejara ao iniciar a viagem, um simples adeus, sem mais palavras antes de seguir em sua viagem solitária de costa-a-costa do país. O romance entre eles fora apenas uma atitude ousada de uma velha senhora de Massachusetts, que depois de vinte e cinco anos de casamento, ficara viúva e decidira fazer coisas que nunca tinha feito tentou convencer a si mesma, mas seu coração não estava prestando atenção a tais argumentos, que pareciam vazios e inexpressivos diante de tantas emoções vi vendadas durante a última semana.

"Ora, Nick também vai ter pressa de retomar a própria vida!", falou para si mesma, conjeturando que, logo após dizerem adeus um para o outro, Nick voltaria para Flagstaff e teria apenas o final de semana para si antes de começar a temporada de verão e receber o primeiro grupo de turistas daquele ano. Nick suspirou em seu sono e virou a cabeça para o lado, os cabelos escuros e macios roçaram nos lábios de Allie. Ela sentiu um calafrio a percorre La de alto a baixo. Pela primeira vez, desde que iniciara aquela aventura, dava-se conta de que estava dormindo com um quase estranho. O que era muito assustador. Muito tempo depois, ela finalmente adormeceu, mas não foi um sono fácil e reparador, pelo contrário, sonhos estranhos a assolaram e a fizeram acordar várias vezes. Sonhos que Allie não queria lembrar, como aquele em que via Nick se afastando no rio e ela o fitando solitária do alto do Grand Canyon, ou outro em que seus filhos a chamavam, gritavam seu nome en- quanto ela sumia nas águas turbulentas de Lava Falls e nem lhes dava atenção. Era como se os sonhos quisessem preveni-la de que teria de escolher um dos dois caminhos. Assim, não foi de admirar que, ao acordar na manhã seguinte, Allie sentisse um enorme aperto no peito. Como se não bastasse, o tempo também parecia refletir seu estado de espírito: o céu estava escuro e um vento frio soprava sobre as águas do rio, que pareciam mais escuras e barrentas do que no dia anterior. Allie saiu do saco dormir, ainda nua, pegou sua bolsa com uma camiseta limpa e os seus objetos de higiene pessoal e seguiu até a praia. Após se lavar na pequena queda d'água que havia ali, escovou os dentes, penteou os cabelos e vestiu a camiseta limpa com o shorts caqui que usara no primeiro dia de viagem. Assim que terminou sentou-se em uma enorme rocha que dava vistas para a parte central do rio e ficou observando a súbita mudança da paisagem. Os rochedos agora, em lugar de exibir matizes de dourado e vermelho, tinham um tom amarronzado quase soturno que só fazia piorar seu humor. Uma mistura de ansiedade e preocupação a invadiu. Desconfortável, Allie olhou para o relógio que trazia no pulso, algo que não fazia desde que iniciara a descida pela trilha do Anjo Brilhante. Um longo suspiro escapou de seus lábios e ela meneou a cabeça de um lado para outro ten- tando recuperar o prazer e satisfação que vivenciara ao longo daquela fantástica semana em que descera o rio na companhia de Nick. Porém, quando fechou os olhos lembrou-se da carta de despedida de Charles e voltou a pensar nos filhos, em sua vida em Framingham, em Sarah, Lucy e todos os amigos que deixara para trás. Seria justo substituir Charles tão rapidamente depois dos anos maravilhosos que haviam passado juntos? Ela não sabia mais o que pensar. Quando aceitara o convite de Nick para fazer aquela viagem pensara apenas em viver uma aventura como sempre havia sonhado em fazer, dando vazão a seus desejos mais secretos e antigos. Contudo, agora sabia que não podia simplesmente viver uma aventura e esquecer-se de tudo quando essa terminasse. Teria de pagar um preço por

isso e, esse preço, em seu caso, era nunca mais experimentar a doce sensação de prazer que experimentara nos braços de Nicholas Henry. Será que desejava mesmo isso? O que falava mais alto, a forte atração que sentia por Nick ou a obrigação de honrar a memória de Charles assumindo o papel de viúva que parecia ser tão importante para seus filhos? Um sonoro assobio a fez deixar as considerações de lado. Nick havia se levantado e estava preparando o café do outro lado da praia. Allie acenou para ele e disse a si mesma que não tinha o direito de estragar o resto da viagem com seus pensamentos sombrios, medos e incertezas. "Não, não vou estragar isso!", decidiu, levantando-se e seguindo até Nick. Ao vê-la se aproximando, ele estendeu um braço e a envolveu num terno abraço, antes de beijá-la no alto da cabeça e reassumir seu posto de cozinheiro oficial da embarcação. "Ele sabe!", Allie pensou. "E vai tentar tornar as coisas o mais fácil possível para mim." De repente, sentiu uma onda de ternura e afeto inundar-lhe o peito, mas, infelizmente, havia uma certa distância entre eles agora, não física, mas emocional, e Allie se perguntou se teria forças para transpô-la. Por sorte o nefasto estado de espírito não afetou seu apetite e, assim que o café foi servido, comeu até a última migalha de torrada, café e cereais que tinham. Em silêncio, lavaram a louça no rio e se prepararam para seguir viagem. Depois de algum tempo, as nuvens pesadas foram se dissipando e os primeiros raios de sol se esgueiraram sorrateiramente pelo céu. AHie sentiu o beijo do sol em suas costas e sorriu para Nick, que sorriu para ela e falou de seus planos para o dia. — Devemos passar por Diamond Creek pouco antes do almoço — ele informou com olhos brilhantes. — Será a última corredeira importante pela qual passaremos antes de começar a subir pelo Travertine Canyon. Será uma aventura e tanto, mas nada comparado a Lava Falls. Portanto, esteja preparada para tudo. À medida que ouvia as explicações quase didáticas de Nick, Alison sentiu seu humor voltar ao normal e a ansiedade se dissipar. Talvez o que sentira fora apenas uma indisposição pas- sageira, quem sabe seu bom humor habitual e a felicidade que descobrira na última semana estivessem de volta. Afinal, o rio era um sedutor por "natureza, naqueles últimos dias enquanto navegava pelas águas turbulentas aprendera que para driblar as corredeiras, deveria estar preparada para elas, pois afinal de cada uma delas sempre havia um longo trecho de águas tranqüilas e límpidas que lhe permitiam descansar e se preparar para o próximo trecho difícil da jornada. Mais animada colocou o chapéu na cabeça e ajustou o cordão que o prendia no pescoço de maneira a não ficar muito frouxo. Não demorou muito para passarem por Diamond Creek. Estavam num trecho lindo do rio e as corredeiras eram grandes o suficiente para empolgá-los, mas não tão impressionantes quanto Lava Falls. Ou talvez fosse ela que estivesse se tornando viciada naquele tipo de emoção. Era muita adrenalina e isto lhe fazia bem, alimentava-lhe o espírito. — Ainda temos um trecho longo pela frente — Nick falou, movimentando rapidamente os remos para evitar um grupo de rochas que surgira de repente. Sorrindo, Allie o ajudou a conduzir o barco inflável para águas mais tranqüilas e pensou que talvez pudesse voltar ali algum dia. Quem sabe mais cedo do que imaginava. Então, de repente, um grito agudo cruzou os ares e a fez arregalar os olhos aturdida. Era a primeira vez em dias que ouvia uma voz humana que não fosse a sua própria ou a de Nick.

— O que foi aquilo? — perguntou, franzindo o cenho e olhando em torno de si à procura de uma resposta. A princípio não viu nada, mas então o grito se fez ouvir outra vez, mais alto e forte do que anteriormente. Allie virou-se instintivamente para a esquerda. Ali, numa estreita faixa de praia, havia uma pessoa acenando freneticamente para lhes chamar a atenção. Nick segurou firmemente nos remos e seguiu rápido para o local em que a figura pequenina estava. Conforme se aproximavam da praia, divisaram outra pessoa deitada sobre um cobertor e, mais adiante, junto a uma formação de rochas havia um pequeno barco de madeira totalmente danificado, como se tivesse sido atacado por um monstro marinho, embora, claro, eles estivessem longe do mar. — Céus, é Gert! — Allie gritou, ficando em pé e acenando de volta para a mulher que conhecera no acampamento ao final da trilha do Anjo Brilhante. — Sente-se! — Nick ordenou.—Escute, jogue a corda assim que eu disser para fazê-lo, tá? Allie pegou a corda e enrolou-a, como Nick já tinha lhe ensinado a fazer em outras ocasiões, antes de jogá-la em direção à praia. Gert pegou-a no mesmo instante e, enquanto Nick remava, a mulher ajudou-os a chegarem em segurança até a praia, pois havia muitas rochas pontiagudas por ali. Nick saltou primeiro do barco e, pegando a corda das mãos de Gert, puxou a embarcação até a areia da praia antes de ajudar Allie a descer. Juntos, amargaram o barco em uma das rochas para que não fosse levado pela correnteza. — Ele está muito ferido — Gert foi logo dizendo, enquanto apontava para o local em que o marido jazia inerte sobre um cobertor. — Pensei que nunca mais fôssemos ver alguém. Nem sei mais há quanto tempo estamos aqui. Allie fitou-o e quase pôde ler os pensamentos dele. Clint e Gert tinha partido apenas algumas horas antes deles, portanto, não poderiam estar mais que um dia ou um dia e meio de viagem na sua frente. — O que aconteceu? — Não sei — Gert falou num fio de voz. — Descemos a corredeira sem maiores problemas e quando começávamos a navegar em águas tranqüilas alguma coisa nos atingiu por baixo. O barco virou no mesmo instante, eu me segurei nele e procurei por Clint, mas não conseguia vê-lo. Então â correnteza me puxou para longe e, de alguma forma, eu tive forças para nadar até esta praia. Fiquei desesperada, não conseguia ver nem sinal de Clint, achei que estivesse morto. Foi então que vi o colete salva-vidas dele. Meu marido estava desmaiado, boiando perto daquela pedra onde está o que sobrou do barco. Enchi-me de coragem e consegui trazê-lo até a praia. — Vamos dar uma olhada para ver se podemos ajudar — Nick disse, tocando-a gentilmente nos ombros. — Mas você fique aqui — completou, antes de gesticular para que Allie fizesse companhia à mulher. Mas Gert não iria se afastar de Clint por nada no mundo e, com movimentos rápidos, seguiu Nick até o local onde Clint jazia sobre o cobertor. — Traga a maleta de primeiros socorros, Alison — ele ordenou, assumindo o controle da situação. — E também um pouco de água e a garrafa de brandy, Ela fez o que lhe fora dito e quanto retornou viu Nick tentando movimentar as pernas de Clint. Ao que tudo indicava, a parte superior do corpo do marido de Gert não tinha ferimentos, mas a perna dele tinha sido bastante torcida e estava com algumas fraturas expostas. — A perna está quebrada — Nick atalhou, após ajudar Clint a se inclinar e tomar um gole de brandy diretamente da garrafa. Aquela era uma forma antiga de amenizar a dor quando não se tinha analgésicos. — Está com dor?

Clint assentiu, mas ainda não conseguiu falar. Nick colocou as mãos espalmadas de encontro à testa pálida. — Também está com febre — acrescentou, pegando a água que Allie trouxera, um chumaço de gaze que havia na maleta de primeiros-socorros e começando a fazer compressas na testa de Clint.

— Acha que conseguirá nos tirar daqui? — Gert perguntou. Nick ergueu os olhos para o céu. O vento estava soprando forte e nuvens escuras tinham voltado a encobrir o sol, num prenuncio evidente de que havia uma tempestade a caminho. — Bem, vou tentar fazer contato com o helicóptero de resgate pelo rádio — disse ele. — Mas sei que estes é um dos piores trechos do rio para se aterrissar. — Eu teria que ... Nick passou um braço em torno do ombro de Gert, tentando reconfortá-la. — Se o helicóptero conseguir pousar, eles poderão levar Clint para o hospital e você virá conosco. — Não, não posso deixá-lo sozinho. Nunca nos separamos antes! Mas Nick não tinha tempo para resolver esse detalhe. Rapidamente, voltou para o barco e abriu a caixa preta onde ficava o rádio-comunicador. Ele não demorou muito para encontrar a freqüência que buscava e logo estava falando com alguém. Allie o observou explicar a situação, esperar pela resposta do outro lado e depois falar novamente. Quando Nick desligou voltou para junto das duas mulheres com expressão grave. — Eles vão tentar fazer o resgate, mas os ventos estão muito fortes. Pode ser que não consigam e, se for assim, teremos de sair daqui sozinhos. E durante duas horas eles esperaram pelo resgate. Gert não tinha comido nada desde o acidente e Alison lhe preparou um sanduíche de queijo e presunto acompanhado de um pouco de leite, o que a ajudou a trazer a cor de volta às faces alvas da mulher. Clint, no entanto, mal conseguia engolir. Mesmo assim, Nick obrigou-o a tomar muita água para tentar controlar a febre e a desidratação por causa da elevada temperatura. Preocupado, enrolou o senhor de cabelos grisalhos em mai£ um cobertor e ajudou-o a se recostar em uma das pedras menos saliente. Quando ficou claro que o vento forte certamente estava impedindo o helicóptero de chegar até ali, Nick voltou a pedir socorro pelo rádio. Desta vez lhe disseram que deveriam esperar mais um dia para serem resgatados, pois o vento estava tão forte que o helicóptero não conseguira nem mesmo decolar. Se o fizesse, certamente seria jogado contra as paredes rochosas do desfiladeiro. Mas Nick não tinha menor intenção de esperar mais um dia para serem socorridos, assim fez sinal para Allie fosse com ele até o barco e confidenciou-lhe:

— Acho que devemos sair daqui o mais rápido possível. Vamos tentar colocar Clint em meu barco. Não gostei nada de ver como as batidas do coração dele estão fracas. Não quis falar na frente de Gert, mas creio que o estado de Clint é mais grave de que parece a princípio. Allie observou a embarcação amarela com grande atenção. Por mais que se esforçasse, não conseguia imaginar como ela poderia acomodá-los, pois certamente Clint teria de viajar dei- tado, o que não daria espaço para Nick utilizar os dois remos. — Vou remar da proa — Nick explicou, parecendo ter a capacidade de ler seus pensamentos. — É o único jeito. Vamos deitá-lo no centro do barco, em um dos sacos de dormir, você e Gert se sentarão na parte de trás e usaremos um remo cada um. Teremos de trabalhar juntos para conduzir o barco em segurança.

As palavras dele eram firmes e decididas, não deixando espaço para contestações. Aquele era o Nicholas Henry profissional, um homem que estava acostumado a guiar turistas pelas corredeiras do rio Colorado. Eleja tinha visto muitas situações de emergência antes e nunca perdera um passageiro sequer. Agora estava fazendo seu trabalho e designara Alison para ser sua ajudante.

Em pouco menos de dez minutos, de alguma forma que nenhum dos três jamais soube explicar, conseguiram colocar Clint no barco e deixá-lo bem acomodado junto ao banco central. Para a maior segurança do passageiro, Nick o prendeu ao banco com cordas estreitas, pois assim, se o barco se desestabilizasse, Clint não seria jogado para fora. Gert por sua vez provara ser surpreendentemente forte para alguém do seu tamanho; ela os ajudara a erguer o marido e a ajeitá-lo no barco, sem nem ao menos gemer. Uma vez a bordo, tomou a cabeça de Clint entre as mãos e beijou-o ternamente nos lábios. — Tudo vai dar certo, meu bem. — Não vamos fazer nenhuma parada, seguiremos o mais rápido possível — Nick informou, assim que começaram a se afastar da praia. Tirei algumas frutas e salgadinhos da caixa de alimentos e se tiverem fome podem comer. Agora, quanto antes levarmos Clint a um hospital, melhor. — Tem alguma chance de o helicóptero nos alcançar antes de chegarmos? — Pode ser, mas tem outra possibilidade, a de que eles mandem um barco a motor subir o rio para nos encontrar na metade do caminho. Aliás, é exatamente com isto que estou contando. Eles remaram durante horas e horas a fio. O rio pareceu cooperar, pois não havia corredeiras nos trechos por que passaram. Porém, com o passar do tempo, Clint parecia mais pálido e debilitado do que antes, às vezes delirava e falava coisas sem nexo. Allie percebeu que se tivessem demorado mais um minuto para aparecer, as chances do velho homem seriam quase nulas, ele estava mesmo muito mal. Durante todo o trajeto Gert seguiu ao lado do marido, tocando-o e acariciando. Em certas ocasiões seus lábios se moviam mas não proferiam uma única palavra em voz alta. Allie não teve dúvida de que ela estava rezando. Então, no final da tarde a chuva finalmente começou a cair, primeiro como uma espécie de garoa fina e depois como grossos jatos d'água. Como Nick lhe ensinara desde o primeiro dia da jornada, Allie curvou-se para pegar as capas de chuva do compartimento externo e estendeu uma para Gert. Por sorte, havia meia dúzia de capas no compartimento e com duas delas eles cobriram Clint que ainda ardia em febre. A noite caiu mais cedo do que de costume. Não havia lua no céu. O rio estava correndo tranqüilo demais, porém um som ao fundo fez Allie perceber que estavam se aproximando de uma corredeira. Como fariam? Como lidar com uma corredeira quando o remador estava num ponto diferente do barco e ela não tinha a menor habilidade para ajudá-lo a controlar a fúria das águas? Nick passou a remar mais fundo e com mais vigor do que antes, os músculos retesados deixavam claro seu esforço descomunal para mantê-lo firme. Então, de repente o ouviu gritar para remar mais forte e procurar conduzir o barco para uma das margens. Não havia praia ali, apenas uma pequena enseada ladeada de pedras, mas naquele instante era o lugar mais seguro para se abrigarem. — Não temos como atravessar a próxima corredeira—Nick sussurrou para Allie. — É impossível fazer isso com quatro pessoas no bote e apenas dois remos. Ela olhou em torno de si tentando achar uma saída para a situação. Naquele ponto o rio era mais largo e o vento e a chuva tinham diminuído um pouco, talvez o helicóptero de resgate

conseguisse finalmente baixar. Olhou de soslaio para Clint que parecia cada vez pior. Gert permanecia ao lado do marido, e a expressão de seu rosto deixava claro que ela começava a ficar apavorada com a situação. — Vou pedir ajuda outra vez

— Nick falou, ligando o rádio-amador e tentando desesperadamente fazer contato. Desta vez a voz do outro lado soou alto e clara e, em poucas palavras, Nick explicou a situação e deu as exatas coordenadas de onde estavam. A resposta foi melhor do que o esperado. O helicóptero já estava a caminho. Segundo disseram, como o rio era largo, não havia perigo de o helicóptero ser jogado de encontro às muralhas do desfiladeiro. — Estaremos aí rapidamente — soou a voz do outro lado, entrecortada por alguns ruídos de estática. — Você não poderia escolhido lugar melhor para parar, Henry. —Bem, não posso receber todos os créditos por isso—Nick respondeu tenso. -— Sabia que não tinha como vencer as águas turbulentas da 232. Allie o esperou desligar e voltar-se para ela antes de perguntar:

— O que é a 232? — A próxima corredeira. Lembre-me de lhe contar a história dela quando tudo isto acabar. Foi ali que o casal em lua-de-mel morreu afogado. — Recentemente? — quis saber, pensando imediatamente em Jimmy e em sua bela noiva My Lin. — Não, em 1928, mas acabaram se tornando uma lenda do rio. Agora vamos, devemos estar preparados para a hora em que o helicóptero chegar. Eles levarão Gert e Clint para o hospital mais próximo. Juntos, amarraram o bote inflável numa das pedras maiores e procuraram posicioná-lo de maneira que não se chocasse contra as margens rochosas. Assim que teve certeza de que estavam seguros, Nick curvou-se e sorriu para Clint. — Vai ficar tudo bem, o socorro já está a caminho. — Obrigado. E nosso barco? — o homem indagou com voz fraca e trêmula. Um suspiro quase imperceptível escapou dos lábios de Nick. Ele sabia que dificilmente o barco poderia voltar a navegar. O estrago fora grande, porém também sabia que aquele barco tinha um valor sentimental para Gert e Clint e quanto tempo tinham passado sonhando com ele. — Pode deixar, assim que chegar ao vilarejo pedirei para alguém resgatá-lo para vocês. Quando puder virão buscá-lo. Aquelas palavras pareceram reconfortar Clint, pois ele fechou os olhos e sua respiração quase se normalizou. Allie e Nick entreolharam-se com tristeza. Tinham plena consciência do que significava aquilo:

a viagem dos sonhos do velho casal tinha terminado de maneira trágica. E a deles, como terminaria? Restavam apenas dois dias para se despedirem. No entanto, nem Allie nem Nick tiveram chance de descobrir a resposta para suas dúvidas, pois naquele instante o helicóptero surgiu no céu e preparou-se para pousar. Clint estava salvo.

Capítulo IX

O dia seguinte

foi

mais

um

daqueles

dias

gloriosos.

Pela

manhã o

tempo

ainda estava

encoberto, mas à tarde o sol voltou a brilhar no céu azul e Allie aproveitou para relaxar, estirando-se no convés.

As horas passaram rapidamente e logo eles deveriam parar para passar a noite. Nick a observou pelo canto dos olhos, então colocou os remos dentro do bote inflável e, aproximando-se dela, enlaçou-a pelos ombros. — Acho que sei o que a está preocupando, princesa. Mas estou certo de que tudo ficará bem. — Espero que sim. Clint teve muita sorte de ter sido resgatado a tempo.

— Sim, teve, mas não era sobre isto que eu estava falando. Era o mesmo tom que Allie tinha ouvido na voz de barítono

naquela noite do concerto em Sun City o que significava que a conversa era séria e

...

íntima.

Assim, apertou as mãos nervosamente esperando que Nick prosseguisse. — É o velho e famigerado mundo lá fora que a está preocupando, certo? — Ele falou sem

rodeios. — O dragão da vida real está querendo roubar minha princesa para sempre, não? Allie assentiu com um movimento de cabeça. — Acho que precisa encará-lo de frente, querida. Como nunca fez antes. — Nunca fiz? Por que acha que estou aqui? Estou enfrentando meus temores e crenças suburbanas para tentar ser feliz outra vez. — Não como estava fazendo antes de encontrarmos Clint e Gert. Naquela manhã você acordou muito diferente. Sabia que ele estava certo, mas ainda não estava pronta para admitir a verdade, não quando Nick falava com ela naquele tom de superioridade irritante. —Talvez o acidente tenha me abalado um pouco—resolveu sair pela tangente. — Oh, Alison, minha querida Alison. — Nick deixou o bote flutuar. O trecho por onde passavam era de águas calmas e tranqüilas e não faria mal nenhum se navegassem ao sabor da brisa do entardecer. Assim, lentamente ele a trouxe para junto do peito musculoso e beijou-lhe as mãos. — Mãos frias — sussurrou, fitando-a nos olhos. — Espero que isto signifique coração quente. — Nick, por favor, ainda não estou pronta para esta conversa — Allie pediu, retesando-se toda. De repente, sua mente estava tomada pela imagem de pessoas nas quais evitara pensar desde o instante em que começara a descer pela trilha do Anjo Brilhante: Carol e Charlotte, Shelley com seu casamento passando por dificuldades, Jimmy que estava prestes a se casar, sua que- rida Sarah com a anorexia não assumida e Lucy, a boa e velha Lucy. Como ficaria a sociedade delas se desistisse de tudo? Sim, suas dúvidas entrelaçavam passado, presente e futuro em uma complicada teia de causas e efeitos. — Temos apenas mais um dia e uma noite no rio. Não podemos deixar este assunto para depois? — Não, não podemos. Sabia que isto acabaria acontecendo, Allie. O rio exerce um efeito fascinante sobre as pessoas, ele as transforma, mesmo os casais mais felizes que vêm navegar por essa estreita garganta em meio aos desfiladeiros saem daqui mudados. A paisagem e a maneira como a natureza trabalha ardilosamente por aqui faz com que vejamos o mundo com outros olhos. — Pode ser, mas vamos esperar alguns dias mais para falar sobre isto. Será que não podemos simplesmente nos agarrar a esta magia? — Podemos. Mas o que faremos depois? Olharemos cada um em seu relógio, você pegará seu carro, eu o meu e pronto, acabou? — Não sei, não tenho mais certeza de nada — confessou ela, respirando fundo. — Ora, vamos, Allie, podemos dar um jeito de conciliar tudo. Não quero pressioná-la. Sei que uma parte de você ainda está de luto. Também reconheço que está tentando se adaptar a uma nova maneira de viver, ainda tem seus filhos, sua neta. Mas e nós? O que pretende fazer em

relação a nós? — Nós? O que quer dizer com nós? Durante todo o trajeto pelo rio, jamais tinham feito planos para o futuro. Claro que Allie sabia que dentro de três ou quatro dias Nick estaria ocupado acompanhando o primeiro de muitos grupos de turistas que haviam feito reserva para o verão, mas depois disso tudo era uma grande incógnita. — Quero você a meu lado, Allie — ele disse com suavidade. — É muito simples. Não há razão para termos medo ou negarmos o que estamos sentindo. Quero você comigo para sempre. Isto é tão ruim que não podemos nem a menos falar a respeito? Allie queria muito responder, mas não encontrava palavras para fazê-lo. O que poderia dizer? Tinha inserido essa semana de aventura em sua vida como alguém que coloca uma fita no videocassete e depois espera para assistir a uma grande aventura. Então, quando o filme termina, as luzes se apagam e todos retornam à vida normal e a seus afazeres rotineiros, esquecendo-se completamente do romance e da emoção que experimentaram ao vivenciá-lo. Ao ver que ela não pretendia responder, Nick afastou-se e voltou a remar. Allie se aproximou da proa e inclinou-se sobre as laterais de borracha, olhando fixamente para

a água. Durante seis dias deixara o resto do mundo para trás e agora em pouco mais de vinte e quatro horas esta viagem terminaria, pois o rio se abriria para se transformar no Lago Mead. Eles desembarcariam, pegariam a caminhonete de Nick e depois seguiriam para o vilarejo no alto do Grand Canyon e ela se prepararia para entrar no Miata vermelho e dizer adeus. Seria mesmo adeus? Não sabia. Mas o que mais poderia dizer? Ainda não estava preparada para falar sobre o futuro. Precisava de mais tempo. De qualquer forma, o bom senso lhe dizia que era muito im- portante responder ao comentário de Nick, mas como? Talvez fosse uma boa idéia dizer-lhe que nunca se sentira mais viva e feliz do que nos momentos em que passara em seus braços, sugeriu uma voizinha vinda do fundo de sua alma. Ou quem sabe, que nunca estivera tão em paz consigo mesma e, ao mesmo tempo, tão à vontade, como quando jantavam e riam juntos depois de um longo dia navegando por águas

calmas e outras nem tanto assim. Que amava ouvi-lo rir, conversar e

...

Também fazer amor.

"Céus, o que mais uma mulher poderia desejar na vida?" — Ei, levante o corpo e prepare-se! — a voz de barítono a trouxe de volta à realidade. Allie ergueu um pouco o rosto e só então se deu conta de que estavam adentrando em uma área de águas turbulentas. Rapidamente, tentou ajeitar o corpo e estendeu o braço para se- gurar na corda de proteção, mas um jato de água atingiu-a nos olhos e ela não conseguiu agarrar a corda a tempo. Por que Nick não a avisara antes que estavam prestes a enfrentar uma corredeira?, perguntou- se, mas antes que tivesse encontrado a resposta para sua pergunta, tinha sido jogada para o alto e, quando seu corpo voltou a baixar, não foi o conforto do barco que encontrou, mas sim a água fria e turbulenta que a envolvia num abraço congelante. Ao emergir, pode ouvir Nick gritar seu nome e algumas outras palavras, mas estava assustada demais para compreender o que ele dizia. Tudo em que pensava era em voltar à segurança do bote amarelo. Céus, o que estava fazendo ali, no meio do rio Colorado quando deveria estar em casa cuidando dos filhos ou da neta? Perguntou-se, com seu lado mais racional vindo à tona. O que Charles diria se a visse naquele momento? Ele odiava pessoas impetuosas e aventureiras, preferia sempre ter tudo planejado e sob controle. Escolhera até mesmo onde e como morrer. — Pegue a corda!

— a voz de Nick a trouxe de volta à realidade. De repente, ela sentiu a corda sendo atirada bem junto de sua cabeça e se agarrou a ela como se fosse a tábua de sua salvação, não só literal, mas figurativamente também. Enquanto segurava a corda, percebeu que estava sendo puxada para o barco, e no instante seguinte viu-se enlaçada pelos braços fortes e poderosos de Nick. Naquele momento, Alison se deu conta de que ele era literalmente sua única esperança de ser resgatada com vida. Ainda estava um tanto aturdida pela queda, mas, mesmo assim, tinha consciência de ele tê-la enrolado num cobertor antes de vencer a corredeira e conduzi-los para uma praia que havia na margem oposta do rio. — De todas as corredeiras que passamos você escolheu a menor para ser tragada pelas águas — Nick brincou, entregando-lhe uma xícara de café com brandy e acariciando-lhe os braços e os cabelos. — Acho que o próximo esporte que vai praticar será body surflng. — Ah, muito engraçado, Sr. Henry! — exclamou ela, puxando o cobertor para mais junto do corpo. — O que aconteceu? Estava distraída? — quis saber ele, tirando-lhe a sandália e esfregando- lhe o pé com delicadeza. Allie ainda não conseguia falar direito, estava trêmula e ofegante, por isso limitou-se a menear a cabeça num movimento afirmativo. — Tudo bem, princesa, agora já passou — tranqüilizou-a beijando-a de leve nos cabelos e depois na orelha, o que a fez estremecer ainda mais. Naquele instante, Allie queria apenas ser ninada e abraçada pelo homem maravilhoso que a fitava com carinho. Nas horas que se seguiram, Nick não voltou a falar do futuro. Eles acamparam na praia de areias escuras, fizeram uma fogueira, cozinharam, tiraram as roupas e as deixaram secar penduradas nos galhos de uma pequena árvore que havia ali e até fizeram alguns planos para o dia seguinte, o último que passariam no rio. O jantar, contudo, foi muito atípico para os padrões de Nick, apenas uma lata de sopa de legumes e alguns nacos de pão. Ao se deitarem nos sacos de dormir, ele a abraçou como sempre, mas não procurou uma proximidade maior. Ao que Allie sentiu-se extremamente agradecida. Como sempre, Nick foi o primeiro a dormir e Alison ficou ali, olhando para o veludo negro do céu enquanto tentava organizar seus pensamentos. Aquela praia deserta a fazia lembrar das Bermudas, de sua lua-de-mel e de tudo que ela e Charles haviam prometido um ao outro. Sim, de certa forma as promessas tinha sido cumpridas, eles tinham comprado uma bela casa, tiveram quatro filhos, compraram Jeepers quando Jimmy era pequeno e sempre diziam tudo um ao outro fazendo questão de manter a mais absoluta transparência em suas palavras. Todos diziam que eram um casal extraordinário, viviam na mais perfeita harmonia, e Allie lembrava-se de tudo com muito exatidão. Contudo, lembrar e ser grata por tudo o que recebera não significava que devia ficar presa a suas lembranças para sempre e dizer não à sua grande chance de ser feliz junto de outra pessoa, alguém muito diferente de Charles e da vida que tinham levado juntos. Mas, talvez fosse justamente esta diferença que a atraía tanto. Nick, com certeza, jamais se encaixaria no perfil do marido de classe média americano, chegando em casa todos os dias às seis para o jantar, assistindo ao noticiário e conversando com a família, mas, por outro lado, ele seria perfeito no papel de amigo e amante, sempre disposto a fazer uma loucura para agradá-la. E para que precisava que ele fosse o mais ponderado e previsível dos seres humanos? Ela própria tinha essa porção regrada e controlada dentro de si, não seria exatamente isto que daria o equilíbrio necessário para viverem como

casal? Em seu sono, Nick jogou uma perna sobre as dela e mergulhou o rosto na curva de seu pescoço. Allie sentiu uma imensa onda de amor invadir seu peito. Será que depois daquela semana que tinham passado juntos seria capaz de esquecer a forma como os lábios carnudos se curvavam num sorriso, o perfume que exalava dos cabelos escuros, o gosto dà boca máscula e experiente sobre a sua, a maneira enlouquecedora como ele a levava aos píncaros do prazer? Dificilmente. "É por isto que tenho tanto medo!", percebeu Allie de súbito. "Na verdade estou com medo de perder a liberdade que conquistei nestes últimos meses, pois sei que jamais conseguirei esquecê-lo. Mas o que Nick quis dizer quando falou em querer que fiquemos juntos para sempre?" Allie debateu-se contra os próprios pensamentos. Que tipo de vida poderiam levar juntos? Onde morariam? O que fariam no inverno já que no verão e primavera Nick costumava se ocupar com os turistas e com viagens a algum país longínquo da América do Sul? Atordoada, sentou-se no saco de dormir e meneou a cabeça de um lado para outro tentando achar pelo menos uma das muitas respostas que procurava. — Um dólar — ouviu a voz rouca e sonolenta vinda de um ponto atrás de suas costas. Embora a frase não tivesse sido completada, Allie sabia muito bem o que ele queria dizer. — O meu preço é muito mais alto do que isto, Sr. Henry. Terá de pagá-lo agora mesmo se quiser saber o que estou pensando e, antes que me esqueça, a única moeda aceita é muito prazer, paixão e amor. Bastou o convite inesperado para deixá-lo totalmente desperto. No mesmo instante, Nick esticou o braço e a trouxe para junto de si, beijando-a com ardor enquanto suas mãos a acari- ciavam com movimentos avassaladoramente sensuais. Allie sentiu o coração bater descompassado dentro do peito e retribuiu o beijo com tanto ardor que chegou a surpreendê-lo. Sua mente ficou completamente desprovida de qualquer pen- samento mais racional ou coerente, apenas seus instintos mais selvagens pareciam estar guiando seus gestos e, talvez por isso, não pensou duas vezes antes de erguer os braços e jogar a camiseta branca para longe no que foi imediatamente imitada por Nick. Quando não havia mais nenhuma roupa impedindo-os de se tocarem por inteiro, eles rolaram juntos no chão, embalados pela frenética dança do desejo. Tomada por uma ousadia que não sabia possuir, Allie passou as pernas em torno da cintura de Nick e puxou o corpo másculo para mais junto do seu. Não havia tempo para preliminares, queria senti-lo dentro de si e queria que isso acontecesse o mais rápido possível. Nick pareceu intuir que ela não podia mais esperar, pois, no mesmo instante, mergulhou na intimidade úmida e quente, fazendo-a gritar de prazer. Juntos se moveram freneticamente. Al- lie sentia o sangue correr rápido por suas veias e a respiração ofegante. Nunca tinha feito amor de forma tão selvagem. Os gestos eram rápidos, desesperados, quase animais, e tão intensos e poderosos que pareciam transportá-la para outra dimensão. O auge do prazer aconteceu como se fosse uma grande explosão de fogos de artifício, sensações e cores mil. Gradualmente, a ânsia da paixão foi diminuindo e eles caíram satisfeitos nos braços um do outro. Allie acariciou os cabelos de Nick e ele passou-lhe gentilmente as mãos pelos quadris. Um leve sorriso escapou de seus lábios. Tinha ouvido sua própria voz gritando de prazer e pedindo para Nick não parar, porém, também ouvira o grito dele na hora em que todo aquele desejo tinha sido consumado. — Ei, gata selvagem — ele disse, erguendo-se um pouco para encará-la. t — Oi—Allie murmurou, um pouco envergonhada. —Nick, estou pronta para conversar.

— Agora? — Pode ser amanhã se preferir. — Tudo bem. Agora deite aqui e deixe-me aproveitar esse momento mágico. Amanhã será outro dia. Na manhã seguinte, eles tomaram o café em silêncio e, quando se sentaram com as costas apoiadas em algumas rochas, Nick foi o primeiro a falar. — Recebi um convite para dar aulas na universidade — ele contou de repente. Allie virou-se para encará-lo. Os primeiros raios do sol iluminavam a face angulosa e acentuavam o tom bronzeado da pele. Parecendo nervoso, Nick cocou o queixo antes de passar a mão por sobre a barba. — Na verdade recebi este convite alguns anos atrás, mas eu o recusei. Naquela época achava que não conseguiria trabalhar para ninguém. Agora as coisas mudaram. Liguei para a univer- sidade assim que voltei da América do Sul e disseram que a vaga é minha se eu quiser assumi- la. Estou pronto para fazer isto. — Dar aulas? — Allie perguntou. — Aulas do quê? — Aposto que você não sabe, mas sou fluente em português e espanhol e tenho um mestrado em literatura latina. Conseguir alguém que, além de dominar estes idiomas, ainda possua um título em Literatura Latina é muito importante para o Departamento de Letras da Faculdade que, por acaso, é dirigida por um velho amigo meu. Então, o que acha? — Estou impressionada — Allie confessou. — Mas e as excursões, os passeios pelo rio? — Por que acha que trouxe este assunto à tona? — Lançou-lhe um olhar perscrutador e segurou-lhe as mãos entre as suas. — Estou pensando em ter uma atividade mais fixa, criar raízes novamente, como diz Mareie. — E sua casa em Flagstaff? — Bem, podemos mantê-la se quisermos. É aconchegante e perfeita para meu trabalho na universidade, pois não fica muito longe. Este é o lado bom de ser professor, você tem férias duas vezes por ano e as férias de verão são longas. Nós poderemos passar nossos verões no rio. — Nós? — Claro. Você e eu. — Acha mesmo que é tão simples? Quero dizer, eu nem mesmo sabia que línguas você sabia falar ou que era Mestre em Literatura Latina, o que prova que mal nos conhecemos e ... — A meu ver conhecemos nos o bastante para saber que queremos ficar juntos. Allie respirou fundo. — E o que eu faria enquanto você estivesse dando aulas ou mesmo navegando pelo rio? — Pode fazer o que quiser. Tenho a sensação de que não demorará muito para decidir como quer passar seu tempo daqui por diante. Seus olhares se encontraram e foi como se estivessem travando uma dura batalha. Allie tinha vontade se atirar nos braços dele e dizer sim à proposta maravilhosa, mas seu lado mais racional insistia em que deveria sair correndo para longe dali o mais rápido possível. —Talvez seja apenas o bom e velho sexo—ela argumentou, tentando soar razoável. — Pouco provável princesa. Por melhor que seja, o sexo não faria com que nos sentíssemos assim. — Assim como?

— Allie indagou num fio de voz e, de repente, lembrou-se da letra daquela fatídica canção de amor. Como se pudesse ler seus pensamentos, Nick cantarolou:

"— Com alguém como você..." "— Alguém tão maravilhoso e verdadeiro" — Allie prosseguiu, movida por um impulso mais forte do que a razão. Tinha prometido a si mesma que não voltaria a cantar essa música com Nick, pois, de alguma forma, para eles aquela letra era muito mais íntima e reveladora do que o melhor sexo que pudessem fazer. Porém, agora que tinham começado sabia que a cantariam até o fim. "— Encontrarei a paz e a felicidade." "— E juntos vamos construir um lindo e doce ninho de amor em algum lugar do Oeste" — ela completou. Será que aquela canção estava se tornando realidade? Quando terminaram de proferir as últimas palavras Nick e Allie sabiam que seu destino estava selado. — E quanto ao resto do mundo? — Ela perguntou, recostando-se no peito largo. —Vamos simplesmente nos esquecer dele e pronto? — Claro que não. — Tem minha família, meus filhos. — E a minha — Nick falou. — Preciso pensar em Mareie e no velho Chet Henry. Estou certo de que Mareie vai ficar esfuziante quando souber que seu velho pai finalmente tomou juízo e vai abandonar a vida errante. — Espero que sim, porque da última vez ela teve ciúme de mim. Agora, para ser franca, também não sei como meus filhos reagirão. — Vamos ter de pagar para ver, querida. — Como se para reconfortá-la, Nick a trouxe para junto de si e a beijou na testa. — Flagstaff — murmurou Allie. — Nunca estive lá, quero dizer, passei pela rua principal no caminho para cá, mas não prestei muita atenção. Jamais me imaginei morando em Flagstaff, Arizona, às margens do Grand Canyon. —É como qualquer outro lugar no mundo, Allie. Não parece real até que você monta uma casa e estabelece uma rotina, cultivando amigos e laços profissionais O comentário foi o bastante para fazê-la ter uma idéia brilhante. Ali era o Sudoeste dos Estados Unidos, lugar em que as pessoas amavam trabalhos manuais e artesanato. Com um pouco de sorte, poderia manter a sociedade com Lucy e Sarah e ao mesmo tempo ter um ateliê onde realizaria seus designs e projetos sob encomenda. — Vamos, diga? — Nick a cutucou sorrindo. — Dizer o quê? —Em que está pensando. Posso ver pelo brilho de seus olhos que esta cabecinha está trabalhando a todo vapor. Ela meneou a cabeça de um lado para outro, como se o gesto pudesse ajudá-la a pensar melhor. — Promete que não vai rir se eu fizer uma pergunta? — Não posso prometer nada, você tem um talento nato para me fazer rir. — Bem, acha que posso conduzir um barco sozinha? — Puxa, pensei que nunca fosse perguntar! — Existem mulheres trabalhando como guias no rio? — Sim, existem algumas, e também existem casais que trabalham juntos como guias turísticos durante o verão. Só que isto pede um aprendizado longo, cansativo e demorado. Allie olhou para as próprias mãos e depois as ergueu com as palmas voltadas para cima. —Acho que posso lidar com isso! — Respondeu espirituosa, enquanto um lado de sua mente pensava: "O que Sam e Shelley vão dizer quando souberem? E Carol, como ela reagira?". — Tinha certeza de que responderia algo assim, princesa — Nick falou, tocando-a gentilmente

nas faces. — Por isso trouxe um presente para você. Allie ficou imóvel, vendo-o levantar e seguir com movimentos felinos até o bote inflável. — Estava esperando o momento certo para entregá-lo — falou por sobre os ombros. — Confesso que à certa altura tive medo de que este momento jamais chegaria. Quanto mais ele falava, mais curiosa Allie ficava. Não parecendo estar com a mínima pressa, Nick ergueu o tampo do banco central, embaixo do qual havia um compartimento que Allie nunca vira antes. Dali ele tirou uma imensa caixa de forma retangular. Havia uma etiqueta nela, com um cartão preso junto ao que parecia ser a tampa. Com movimentos ágeis, Nick colocou a caixa diante de Alison. Era óbvio que se tratava de algo muito pesado e Allie arqueou as sobrancelhas se perguntado o que Nick poderia ter trazido, durante toda a viagem esperando o momento certo para lhe entregar. — Abra — ele disse, apontando para o cartão que estava num envelope bege. Allie obedeceu sem pestanejar. "Este é um presente meu e do rio para o grande amor de minha vida", estava escrito naquela caligrafia firme e rebuscada que ela conhecia tão bem. Lágrimas rolaram pelas faces ovais e foi preciso um grande esforço para conter suas emoções. Trêmula, rasgou a parte superior da caixa de papelão. Ali havia um material emborrachado nas cores azul e amarelo, que estava arrumado em dobras milimetricamente iguais. — Deixe-me ajudá-la com isto — Nick falou, puxando e puxando quase três metros de um

caiaque inflável azul e amarelo. — Chamamos isto de caiaque-esporte — explicou, fitando-a atentamente. — Eu sei — Allie sussurrou. — Vi alguns nos sites que visitei na internet antes de vir para cá e também em anúncios em revistas. Mal posso acreditar que vou ter meu próprio caiaque. Isto era tudo o que eu queria da vida! — exclamou batendo palmas de alegria. — Ora, vamos, você só está sendo gentil. — Gentil coisíssima nenhuma! Estou é muito feliz. Imagine só, agora sim vou ser senhora de meu próprio destino. Posso pegar meu caiaque e seguir pelo rio como uma veterana — gracejou. — Não senhora, mocinha. Só vai usar este caiaque depois que tiver aprendido a manobrar o barco e driblar as corredeiras como uma expert. Até lá, eu darei um passeio com ele. — Ah, entendi, foi um presente com segundas intenções — Allie falou, pegando o cartão e guardando-o com cuidado antes de seguir até ele e enlaçá-lo pelo pescoço. — Obrigada, meu amor. Adorei.

Ele a encarou

perplexo. .

— Será que ouvi bem? Allie meneou a cabeça afirmativamente.

— Claro que ouviu, mas ainda teremos de passar pela prova do mundo real para confirmarmos nossas chances de sermos felizes. — Será que não podemos pular essa parte?—Nick gracejou, segurando-a pelos quadris e trazendo-a para junto do corpo musculoso. — É muito mais agradável aproveitar a magia do momento. Não sabe como é divino fazer amor sob os primeiros raios de sol? — Não, não sei, mas creio que o senhor poderia me mostrar como é — respondeu com voz provocante, ao mesmo tempo em que mergulhava as mãos por sob a camiseta que Nick vestia e acariciava-lhe as costas com movimentos sensuais. — Será um prazer! — ele grunhiu antes de se apossar de seus lábios e beijá-la com paixão. Desta vez, embora o desejo fosse tão intenso quanto antes, fizeram amor sem pressa e sem a selvageria da noite anterior. Havia muito tempo para as preliminares e Nick se esmerou em fazê-la sentir-se a mulher mais desejada e amada do planeta, acariciando-lhe os seios, beijando-a da cabeça aos pés, tocando-a nas partes mais sensíveis de seu corpo até fazê-la

arquear-se toda para recebê-lo dentro de si. "Este é o homem com quem quero passar o resto de meus dias", Allie pensou, quando repousava plenamente satisfeita nos braços de Nick. — Eu te amo, Nicholas Henry — confessou, chamando-o pelo nome pela primeira vez. — Também te amo, Alison Mills — ele falou com ternura. — E vou amá-la até os últimos dias de minha vida. — Shhh! — Allie o fez silenciar, colocando o dedo em riste sobre seus lábios. — Vamos dizer apenas que este amor seja eterno enquanto dure ... Quando quase dois dias depois chegaram ao Lago Meat, Allie tinha passado vários horas remando e aprendendo como controlar uma embarcação tanto em águas calmas quanto em corredeiras turbulentas. Suas mãos finas estavam cobertas de bolhas, seus músculos doloridos e suas costas travadas, porém seu espírito não poderia estar melhor. Sempre que parava para pensar a respeito, o que não era muito freqüente, pois remar consumia muitas horas seguidas de total atenção e nos intervalos, ela e Nick faziam amor até caírem exaustos nos braços um do outro, perguntava-se se aquilo tudo era verdade ou se não estava vivendo um sonho que acabaria no momento em que saíssem do barco e entrassem na caminhonete de Nick. Por sorte, não havia muito espaço para dar vazão a seus temores e ela procurou fazer o máximo para não o decepcionar. Durante a última parte do trajeto, passaram por algumas corredeiras, nenhuma delas tão perigosa e violenta quanto Lava Falls mas, a cada uma que driblava, Allie se sentia mais e mais orgulhosa de si mesma. Pena que, como tudo o que começa tem um fim, eles inevitavelmente chegaram ao final daquela viagem fantástica, cujo objetivo principal parecia ter sido a busca do verdadeiro eu interior de cada um, antes que pudessem existir como "nós". "Em busca do tempo perdido", Allie esboçou um leve sorriso ao pensar que o título da trilogia de Mareei Proust parecia perfeito para contar sua história com Nicholas Henry. Sim, eles tinham tentado ser felizes na companhia de outras pessoas, tiveram filhos, foram golpeados pelo destino, amaram, sofreram, riram e choraram antes de, finalmente, se encontrarem em uma daquelas encruzilhadas do destino para a qual os seres humanos não possuem explicação. Satisfeita consigo mesma, Alison deu um longo suspiro e tentou se concentrar na paisagem a seu redor. Aquela era uma manhã ensolarada de maio e, silenciosos, eles ancoraram o barco e trocaram um olhar significativo. Sim, estavam de volta à civilização, era preciso se preparar para os problemas do mundo real. Agora a luta ia de fato começar.

Capítulo X

Assim que chegaram ao posto de serviços junto ao Lago Mead, o recepcionista cumprimentou Nick efusivamente e disse que havia cartas para ele e sua bela acompanhante. Allie franziu o cenho, um pouco preocupada, perguntando-se o que teria acontecido para alguém ter lhe mandado uma carta. Afinal, as únicas pessoas que sabiam para onde mandar mensagens, já que o celular estava fora de área, eram seus filhos. — Tenho até medo de abrir — ela falou, olhando de soslaio para Nick e fitando os dois envelopes, um branco comercial e outro rosa, que o rapaz lhe entregara. Nick beijou-a de leve nos lábios. — Relaxe, querida. Deve ser apenas o mundo real nos chamando de volta. Veja, esta é de Mareie — disse, mostrando-lhe a mensagem que era quase um bilhete. Allie obedeceu e leu o que estava escrito em letras grandes e redondas. Mareie pretendia visitar o pai nos próximos dias e queria saber se a poderia incluir em um de seus grupos de tu- ristas para que pudessem ficar juntos um tempo.

— É uma grande coincidência, não? — Nick comentou rindo divertido. — Quando decido que vou criar raízes como Mareie sempre desejou que eu fizesse, ela me manda um bilhete dizendo que quer passar algum tempo comigo. — Criar raízes? — Allie repetiu as palavras dele com uma expressão zombeteira no olhar. — Bem, digamos que tenha decidido ter uma vida mais regrada. — Assim está melhor, porque meu sexto sentido me diz que você sempre vai ter um pé naquele rio e outro em terra firme, sr. Henry. Jamais criará raízes no sentido exato da palavra, vai apenas mudar sua rotina um pouco. Allie passou-lhe os braços em volta dos ombros e riu. — Ah, o que mais gosto em você, Alison Mills, é esta sua sensibilidade aguçada. — E eu que pensei que fossem meus lindos olhos azuis. — Atalhou espirituosa, antes de erguer os envelopes que recebera e procurar o nome dos

remetentes, mas não havia nada ali. Assim, abriu o primeiro e leu rapidamente o que estava escrito. O envelope branco era uma carta de Lucy, dizendo que a empresa estava funcionando a pleno vapor e que não via a hora de tê-la de volta. Mais que isto, sua velha amiga estava lhe pedindo para entrar em contato o mais cedo possível, pois tinham sido convidadas para tomar parte em um projeto que previa a reforma de um enorme prédio empresarial de Framingham, desde os jardins até a decoração e design de interiores. Lucy, claro, fora a responsável pela compra do prédio por uma empresa multinacional e mal cabia em si de contentamento. A comissão tinha sido fabulosa. — Boas notícias? — Nick perguntou ao ver Allie sorrir encantada. — Ótima. É de minha sócia e melhor amiga Lucy. Nós nos conhecemos na faculdade e ela foi a pessoa que mais me ajudou desde que soubemos da gravidade da doença de Charles. Além, também, de ter sido a única pessoa que se ofereceu para ficar com Jeepers, nosso Fox terrier, até que pudéssemos voltar a viver numa casa novamente. — Bem, por mim está tudo certo. Você pode trazer Jeepers para morar conosco, Rex vai adorar, pois não terá que passar tanto tempo no canil ou na casa do vizinho. — Ora, ora, primeiro problema do mundo real resolvido com sucesso — disse Allie, antes de voltar sua atenção para o envelope rosa. Quando desdobrou o papel que havia ali, percebeu que desta vez a mensagem era muito mais longa. Era uma carta de Shelley.

Mãe, Dan e eu resolvemos nos separar definitivamente. Acabei de pedir uma licença médica no trabalho, pois preciso de algum tempo para pôr a cabeça em ordem. Agora entendo o que você sentiu e porque decidiu fazer essa viagem sozinha. Por falar nisto, será que posso acompanhá- la no resto do trajeto? Será um tempo só para nós duas. Algo que nunca fizemos antes e que estamos precisando. Posso me encontrar com você no aeroporto de Phoenix? Com amor, Shelley

Allie releu a carta várias vezes para se certificar de que havia entendido bem. Shelley estava dizendo que queria voltar para casa, embora não houvesse mais uma casa no sentido físico da palavra para onde pudessem ir. Sim, mas casa era o lugar onde aqueles que amamos estão e era isto que Shelley estava procurando. O mais surpreendente de toda aquela história era que, em lugar de ter recorrido a Sam, como ela sempre fazia, agora a filha tinha procurado a mãe, de quem fora muito distante. — Ei, diga alguma coisa — a voz de barítono de Nick a trouxe de volta à realidade. — Esta carta é de minha Shelley, aquela de quem lhe falei, nunca fomos muito íntimas, pois Shelley sempre foi mais ligada a Sam, que é seu irmão gêmeo e a Charles, com quem é muito

parecida. — Eu não disse que tudo parecia muita coincidência? — Nick exclamou obviamente se referindo ao temperamento forte de Mareie. — Sim, Shelley quer me encontrar no aeroporto de Phoenix para cruzarmos juntas o país. Chegando a Framingham no início de junho para o casamento de Jimmy com a doce My Lin. — Se me permite, eu sugeriria que você pedisse para Shelley a encontrar em Albuquerque, pois aí teriam a oportunidade de passar alguns dias em Santa Fé. É um passeio imperdível. — Ah, falou o guia turístico, mas acho que vale a pena ouvir seu conselho, pois até hoje você não me decepcionou, Nicholas Henry. Nick a abraçou e a virou de frente para ele. — Espero mesmo que não, princesa. — Havia um tom malicioso em sua voz. — Mas agora é melhor encontrarmos um telefone e ligar para casa, pois seu celular está fora de área e eu não gosto destes equipamentos modernos, portanto, não tenho um. Antes que Allie pudesse se dar conta do que estava acontecendo, ele já a empurrava pelas ruas estreitas à procura de um telefone público, que não demoraram muito a encontrar. Nick ligou primeiro para Mareie e, quando a voz mecânica da secretária eletrônica se fez ouvir, ele deixou uma mensagem dizendo que certamente havia um lugar para a filha em seu grupo de turistas, mas que ela teria de se apressar, pois partiriam de Lees Ferry em dois dias. Dois dias, Allie pensou antes de consultar o calendário do relógio. Nick ficaria no rio por duas semanas, depois teria uma folga de três dias antes de voltar com um novo grupo de turistas e passar uma temporada de mais duas semanas acompanhando um novo grupo pelas montanhas da região próxima ao rio. Ela fez um breve cálculo mental e concluiu que Nick estaria livre apenas na véspera do casamento de Jimmy. Sim, há pouco tempo a data do casamento de seu filho caçula parecia estar tão distante e agora falta apenas um mês para o grande dia. Com tantas coisas acontecendo, quando ela conseguiria ver Nick de novo? — Sua vez — a voz de barítono a trouxe de volta à realidade e ela pegou o telefone. Primeiro ligou para Lucy e garantiu que participaria do grande projeto que a amiga pretendia assumir, mesmo se não estivesse morando em Framingham. Depois ligou para os filhos, primeiro para Carol que não atendeu e obviamente tinha se esquecido de ligar a secretária eletrônica, depois para Sam que estava no tribunal, e para Shelley, mas também teve de se contentar em deixar uma mensagem com os detalhes da data e local onde deveriam se encontrar. Só não ligou para Jimmy, pois sabia que àquela hora ele estava na universidade. Nick continuava a seu lado, observando-a com olhar terno e carinhoso, a mão grande e másculas continuava sobre os ombros delicados de Allie. Assim que ela desligou, Nick a empurrou até a caminhonete preta que estava estacionada junto ao lago.

Juntos guardaram todo equipamento no veículo e menos de meia hora depois estavam a caminho da vila no topo do Grand Canyon, onde Alison tinha deixado seu Miata em um dos es- tacionamentos para turistas. A medida que o carro deslizava pela estrada cheia de curvas, Allie sentiu-se estranha por estar navegando em uma pista de asfalto e não nas águas surpreendentes do Rio Colorado. Talvez Nick estivesse certo quando lhe dissera que o rio viciava as pessoas: mal o deixara e já estava com saudade. — Acabei de ter uma idéia — Nick disse, de repente, fazendo-a virar-se para encará-lo. —Tá, um dólar por seu pensamento, Sr. Henry — respondeu ela fazendo um gracejo em relação ao comentário que Nick usava com tanta freqüência.

— Bem, você ainda tem um dia pela frente antes de se encontrar com Shelley. Sei que uma viagem daqui a Albuquerque deve levar em média umas dez horas. — Sim, partirei amanhã, ao romper da aurora. — Ora, então cancele a reserva do hotel para esta noite e venha comigo para Flagstaff. Quero lhe mostrar a casa, a cidade e tudo o mais. — Não posso, Nick. Já está tudo planejado e ... — E você pode mudar de idéia. Não precisa fazer tudo exatamente como planejou a princípio.

Afinal, quando decidiu passar a noite no hotel da vila antes de seguir viagem pelo país você não imaginava como nosso relacionamento iria evoluir depois de uma semana no rio. — Não sei se evoluir é uma boa palavra para explicar o que aconteceu com a gente, mas vou levar este argumento em consideração. — Ora, vamos, Allie. É muito importante que você conheça minha casa. Também quero levá-la até a faculdade para que veja o local em que pretendo trabalhar. — Não sei, não Nick — respondeu, incerta. — Pense bem, é importante que saiba exatamente como será sua vida e onde viverá quando estivermos juntos, querida. Quero que tenha isto em mente enquanto estiver seguindo para o Leste. Você ficará mais tranqüila e eu também, pois saberei que não ficará desapontada com o

lugar que viveremos juntos. "Um lindo ninho de amor em algum lugar do Oeste

...

",

Allie

repetiu mentalmente, não podendo esquecer-se do refrão da música que tanto amavam e que fora o elo mágico que os unira quando todas as circunstâncias conspiravam para separá-los. — Então, o que me diz? — Está bem, então, mas não posso ficar nem um minuto mais do que o planejado, certo? — Sim, senhora — Nick aquiesceu com um sorriso que lhe ia de orelha a orelha. O sol já começava a baixar no horizonte quando chegaram ao vilarejo no topo do Grand Canyon e Allie pegou o Miata vermelho no estacionamento. Assim que transferiram a bagagem dela para o porta-malas do Miata vermelho, eles voltaram para a estrada. Allie seguia cautelosamente atrás da caminhonete preta de Nick, mantendo-se dentro da velocidade permitida, pois as curvas eram bastante acentuadas. Talvez por isso os quarenta quilômetros de trajeto até Flagstaff tenham demorado quase uma hora. Certamente Nick não desejava apressá-la, pois queria que ela tivesse bastante tempo para apreciar a paisagem de uma beleza ímpar: montanhas verdejantes em alguns trechos, formações rochosas em outro e um céu tingido nos mais incríveis matizes de dourado e vermelho que alguém poderia imaginar.

Ao entrarem nas ruas estreitas de Flagstaff, Allie percebeu que a cidade não era tão pequena quanto imaginara a princípio: a rua do comércio parecia bastante movimentada e o pequeno centro empresarial também exibia um ar cosmopolita. Mas, então, quando Nick pegou uma via secundária que começava a levar para o subúrbio de Flagstaff, a paisagem mudou drasticamente, as casas eram amplas e espaçosas, iguais àquela em que ela e Charles haviam morado durante vinte anos, só que com jardins mais espaçosos e uma natureza muito mais esfuziante. Depois de cinco ou dez minutos, as casas começaram a ficar mais distantes uma das outras e Allie notou que o estilo das construções também havia mudado bastante, pois neste trecho as casas eram chalés de madeira ladeados por enormes varandas com vista para o pico da montanha. Na frente de cada um dos chalés havia árvores centenárias que emprestavam suas

sombras para proteger os moradores do sol do final de primavera início de verão. Foi exatamente frente a um destes graciosos chalés que Nick estacionou. Nem em seus sonhos mais românticos Allie poderia ter imaginado que um dia moraria num lugar charmoso e idílico como aquele. Havia plantas penduradas na varanda do chalé de Nick, uma enorme rede balançava em um dos cantos; no outro havia uma daquelas cadeiras de balanço de vime, com enorme encosto, pintada de branca para combinar com as janelas e as cercas baixas de madeira. Do jardim bem cuidado brotavam margaridas e lírios silvestres, brancos e amarelos, parecendo uma cópia em miniatura do jardim que ela projetara para a antiga casa de Framingham. Pelo visto, os dois tinham mais coisas em comum do que podiam imaginar, seus gostos eram também muito parecidos. — Uma de minhas vizinhas cuida do jardim e de meu cachorro quando estou fora — Nick explicou, quando subiram os degraus da varanda e Allie acariciou um enorme vaso repleto de cravos que havia junto à porta de entrada. Allie assentiu com um movimento de cabeça e o acompanhou até o interior da casa que, interiormente, já estava chamando de sua casinha de bonecas. Curiosa, olhou em torno de si como se quisesse absorver cada detalhe do novo ambiente. Havia duas salas, não muito grandes, mas bastante aconchegantes embora estivessem mobiliadas num estilo muito masculino e prático para seu gosto feminino, três quartos, um dos quais fora transformado em escritório, e uma cozinha equipada bem ao estilo do Oeste, com móveis de madeira rústica e uma enorme pia, sobre a qual havia uma janela envidraçada dando vistas para um pequeno quintal e para a casinha do cachorro. — Gostei muito da cozinha — Allie disse sorrindo. — Faz com que me sinta em casa, é muito aconchegante. Nick pegou uma garrafa de suco na geladeira e entregou a ela, depois pegou uma para si. — Mas esta será sua casa, Alison. É aqui que vamos viver, lembra? — E isto o assusta? — Perguntou, erguendo o rosto para encará-lo. — O quê, o fato de tê-la morando comigo? — Não, o fato de que minha presença pode implicar em uma mudança dramática de estilo de vida. Vai assumir outro trabalho. Terá dois cachorros em vez de um. O que acontecerá quando sentir saudade do rio? — Bem, não serei o primeiro guia a levar dois cachorros para o rio. Sabe que eles até fabricam coletes salva-vidas para cães. Allie riu e forçou Nick a se sentar na cadeira diante da mesa redonda. — Vamos falar sério. Gostei muito da casa e acho que posso me acostumar a morar aqui sem problemas, mas claro que querer ajeitar algumas coisa. Sou um designer por natureza e adoro artesanatos, o sofá da sala precisa de almofadas novas e eu adoraria desenhá-las. Nick deu uma gargalhada. — Já imaginava que diria algo parecido. Mas, quer saber, o que esta casa realmente está precisando? É de um toque feminino. Por isto, vá em frente. Faça como achar melhor. Allie segurou-lhe as mãos entre as suas. — Cuidado, Nick. Uma mulher nunca dá um toque apenas. Vamos muito além disto, mudamos todas as coisas, invadimos todos os espaços e depois fazemos questão de tomar posse do que nos pertence e não dividir com mais ninguém. Já pensou nisto, homem das montanhas? — Sim, já pensei e não me importo desde que você fique comigo. Ela curvou-se e beijou-o de leve nos lábios. — Obrigada por ter me trazido até aqui, Nick. Agora vai ser muito mais fácil sonhar com o dia em que estaremos juntos. — Não precisamos sonhar querida. Nós já estamos juntos — ele falou, antes de puxá-la para

seu colo e beijá-la com ardor. No entanto, ao contrário do que Allie havia imaginado, eles não fizeram amor. Nick estava muito mais interessado em lhe mostrar o lugar e ajudá-la a se ambientar, embora seu desejo por ela ainda continuasse bem visível no fundo dos olhos escuros. Mas Nicholas Henry não era um homem que se preocupava só com seus impulsos animais, ele queria antes e acima de tudo fazê-la feliz. Assim, naquela noite Nick a levou para jantar em um charmoso restaurante mexicano que ficava no centro de Flagstaff e Alison sentia como se estivesse em um daqueles filmes românticos em que a mocinha é tratada como uma princesa por seu herói. Como poderia não o amor depois de todas as experiências maravilhosas que ele lhe proporcionara? Pensando nisto, muitas horas mais tarde, ao se deitarem na enorme cama de madeira escura que havia no centro do quarto principal do chalé, Allie tomou a iniciativa de amá-lo. Pela primeira vez na vida, ela ousava manifestar seu desejo antes que seu parceiro pudesse fazê-lo. Não que tivesse tido muitos parceiros: casara-se virgem com Charles e agora conhecera Nick. Mas havia coisas que uma mulher sabia intuitivamente, como, por exemplo, qual o local certo a tocar, como deveria beijá-lo, em que momento provocar e em qual recuar, para depois ex- plodirem juntos de prazer. Afinal, no fundo, o jogo do amor era um pouco parecido com uma daquelas brincadeiras de caça ao tesouro: primeiro, uma pista quente aguça os ânimos e faz a adrenalina se espalhar pelas veias dos participantes, então, pouco a pouco eles seguem por uma trilha paradoxalmente perigosa e eletrizante e, por fim, quando estão perto de encontrar o maior de todos os tesouros, seus corações batem descompassados, seus corpos estremecem, o corpo transpira, o céu parece explodir em mil fagulhas coloridas, inicia-se uma dança frenética e ... bingo! Chega-se ao maior de todos os prêmios: a mais plena e completa satisfação que os homens já experimentaram ao longo de sua passagem pelo planeta. Por isso, AUie não se fez de rogada e amou Nick da maneira como ele a amara desde o primeiro dia, com carinho, ternura, desejo, tocando-o da cabeça até os pés, com beijos sensuais, mãos atrevidas, corpos insinuantes e palavras de amor e desejo que nunca imaginou ser capaz de pronunciar. Foi só quando tocou na parte mais protuberante da masculinidade de Nick e percebeu que ele estava pronto para pulsar de prazer no interior de seu corpo, que ela o conduziu para dentro de si. Juntos, gemeram, gritaram, riram e por fim adormeceram exaustos nos braços um do outro. Se alguns meses atrás alguém tivesse dito a Allie que logo ela voltaria a ser feliz novamente, teria dado uma gargalhada histérica e mandado esta pessoa procurar um psiquiatra.

Agora, porém, sabia que os dias de luto tinham ficado para trás. Sua vida havia chegado a uma daquelas encruzilhadas em que o viajante tem de tomar uma decisão crucial diante de dois caminhos opostos. No caso dela o primeiro era se anular para o mundo, entregar-se a um luto eterno e se tornar uma daquelas pessoas amargas com as quais nos deparamos em nosso dia-a-dia; o outro a fazia sofrer um pouco no início, pois a obrigava a dispor de grande parte da bagagem de crenças e valores que trazia consigo para subir por uma passagem íngreme, difícil, mas que, ao final, era quase como se escalar uma montanha, uma vez vencidos os obstáculos e os temores, a vista que se tinha do alto era de uma beleza ímpar, que fazia seu coração se abrir para a vida obrigando-a a agarrar a felicidade com os dois braços, antes de esta desaparece outra vez. Quando Allie acordou no dia seguinte, a casa cheirava a bacon com ovos. Eram apenas seis da manhã. Nick obviamente tinha se levantado primeiro para lhe preparar o café antes que ela partisse,

Allie concluiu ao olhar para o lado e ver que ele não estava mais na cama. Rapidamente, foi até o banheiro conjugado, tomou um banho e vestiu o jeans e a camiseta que havia deixado separados para a viagem até Albuquerque. Não queria se atrasar, Shelley estaria à sua espera e este reencontro tinha um sabor de uma segunda chance para o relacionamento de mãe e filha. Assim, pouco tempo depois já estava entrando na cozinha. — Ah, bom dia, bela adormecida — Nick a saudou, aproximando-se para beijá-la na testa. — Dormiu bem? — Muito bem, mas agora preciso me apressar, não quero que Shelley me espere muito tempo. Nick serviu os ovos com bacon e sentou-se diante dela. — Escute princesa, tudo vai dar certo. Você e sua filha vão se entender muito bem e as coisas voltarão á ser como antes. Espero que você tenha razão, seria um problema a menos para nós. — Estou convencido de que seremos capazes de contornar todos. Por falar nisto, tinha um recado de Mareie na secretária. Ela deve ter ligado enquanto estávamos no restaurante mexicano. — E? — Allie o fitou com olhos brilhantes. — Bem, ela disse que estará à minha espera em Lees Ferry. Vai ser a hora da verdade. Sei que Mareie é difícil, mas, por outro lado, ela é muito parecida comigo, o que significa que será muito justa também e estou certo de que vai adorar minha decisão de dar aulas e ficar mais tempo por aqui. — Tenho medo de que ela não aceite nosso relacionamento, Nick. Durante o jantar de Ação de Graças acho que teve ciúme de nós. — Não era isso, querida. Eu sou culpado desta reação infantil. O problema é que andei negligenciando minha filha a ponto de ela ficar tão carente de atenção que, nos poucos momentos que estávamos juntos, ela não queria me dividir com mais ninguém. Mas agora as coisas vão mudar, decidi que serei um pai muito mais presente para Mareie e quero dizer isto a ela nesta viagem. Ao vê-lo falar com tanta tranqüilidade sobre seu problema com a filha e o que pretendia fazer para resolvê-lo, Allie sentiu-se mais animada para enfrentar sua dificuldade de relacionamento com Shelley. Nick a fazia sentir-se mais segura e decidida e isto era um bom sinal em um relacionamento. "Quem sabe os problemas do mundo real não são tão monstruosos quanto pensamos a princípio", falou consigo mesma, enquanto tomava o último gole do café forte. Nick a deixou comer em silêncio e, assim que a viu se levantar entregou-lhe um pacote com sanduíches e suco que havia preparado para seu almoço, antes de acompanhá-la silenciosamente até o Miata vermelho estacionado ao lado da caminhonete preta. Eles se despediram com um longo beijo e um terno abraço, nenhum dos dois disse nada. Afinal, já haviam trocado telefones e endereços para contato na noite anterior: Allie deixara o número do telefone de Lucy em Framingham e Nick o de sua empresa e dos locais onde pretendia se hospedar com os turistas. De qualquer forma, era certo que dificilmente voltariam a se encontrar antes do verão, pois Allie estaria na estrada com Shelley e Nick no rio com Mareie e seus turistas. Portanto, agora é que a grande prova de fogo começaria para eles. — Dirija com cuidado — Nick murmurou, fechando a porta do Miata vermelho para ela e depois erguendo o braço musculoso para acenar enquanto o pequeno carro esporte desaparecia nas ruas de Flagstaff. A viagem até Albuquerque demorou mais do Allie previra inicialmente. O sol estava muito quente e embora tivesse feito grande parte do trajeto com a capota do Miata abaixada, Allie se viu obrigada a erguê-la para proteger-se dos fortes ventos. A esta altura seus cabelos estavam

embaraçados e ela não se sentia tão empolgada com a possibilidade de cruzar o país até a Costa Leste em seu querido Coração Selvagem. No entanto, assim que avistou Shelley no aeroporto de Albuquerque e abriu os braços para recebê-la, seu estado de espírito melhorou. Lágrimas chegaram-lhe aos olhos quando enlaçou o corpo frágil da filha e a trouxe para junto de si como há muito tempo não, fazia. — Oh, mãe, estou tão feliz que esteja aqui! — Shelley falou ao mesmo tempo em que procurava um lenço na bolsa para enxugar as lágrimas. — Foi muita bondade sua me deixar viajar com você. —Bondade? Está brincando! — Allie voltou a abraçá-la. — Agora vamos pegar suas malas e colocar os pés na estrada rapidinho, não quero perder nem um minuto sequer. — Certo mãe. Você é quem manda. Aquela era a primeira vez que Shelley concordava com ela desde que se tornara adulta, o que significava que deveria estar mesmo sofrendo com o divórcio. — Escute, antes de prosseguirmos, quero lhe pedir perdão por todas as vezes em que fui injusta com você — desculpou-se Shelley, segurando-a pelo braço. — Inclusive quando me opus à sua viagem e ao fato de ter comprado um carro-esporte. Agora percebo que estava errada. Você tem todo o direito de ser feliz como escolher, mãe. Allie sentiu seus olhos se encherem de lágrimas outra vez. "Oh, Deus, obrigada!", agradeceu em pensamento. "Obrigada por estar me devolvendo minha vida e minha família depois da terrível tempestade que se abateu sobre nós!" —Já passou, querida—respondeu, colocando uma das mãos por sobre os ombros de Shelley e conduzindo-a até o local em que o Miata estava estacionado. — Agora quero que conheça Coração Selvagem, nosso companheiro de viagem. Shelley olhou para o carro e depois deu uma sonora gargalhada. Sua primeira demonstração de alegria desde que descera do avião. — Mãe, você é ótima! Adorei seu Coração Selvagem! Aquela foi uma viagem da qual Alison iria se lembrar para o resto de sua vida. Ela e Shelley aproveitaram cada instante do passeio, transformando o trajeto de volta à Nova Inglaterra em um fantástico roteiro de férias.

Todas as noites Allie telefonava para Lucy e informava à amiga de onde estavam e quais eram suas planos para os próximos dias. Como Nick sugerira, elas deram uma rápida passada por Santa Fé, depois seguiram para o Norte, visitando algumas cidades do Colorado e Nebraska. A certa altura, Allie decidiu que não era tarde demais para passar pelas Dakotas do Norte e do Sul. Assim, pegaram a Route 29 com a capota do Miata bem abaixada deixando que o vento soprasse seus cabelos e beijasse suas faces num daqueles momentos especiais de liberdade total. — Estou me sentindo um pouco como Telma e Louise — brincara Shelley, colocando um lenço nos cabelos e olhando divertida para a mãe. A cada dia que passava, Shelley ficava mais falante e parecia estar menos triste por causa do divórcio recente. — Acho que estou sofrendo de um terrível caso de logorréia — disse a moça ao perceber que estava falando demais. —Logorréia? — Álison estreitou os olhos diante do comentário. — Sim, é uma espécie de diarréia da boca, quando se fala sem parar. Acho que nem em minha época de colégio falei tanto. Allie limitou-se a sorrir e a deixar que a filha continuasse. Shelley precisava falai - , tinha de pôr para fora tudo o que estava em seu peito. Afinal, exatamente como Sam, ela entrara muito

cedo na faculdade e se casara bastante jovem, quando ainda não estava preparada para fazê- lo. Embora fosse uma profissional brilhante como o pai e o irmão, Shelley era muito mais sensível e por isto sofria. Contudo, Allie estava certa de que o tempo a ajudaria a fazer suas escolhas de maneira menos dolorida. E como Alison previra, depois da primeira semana os laços de amizade entre ela e a filha estavam fortes o bastante para que lhe contasse sobre Nicholas Henry e sua intenção de mo- rarem juntos. —Você se casaria de novo, mãe? Shelley perguntou após ouvi-la em silêncio. — Não sei, a esta altura de minha vida o mais importante é ser feliz, e não apenas ter um papel que diz que sou a Sra. Fulana de Tal. Shelley deu uma sonora gargalhada. — Nossa você está muito mais moderna do que imaginei. Eu aqui pensando que iria querer um casamento à moda antiga e você diz que não com a maior tranqüilidade! — Eu não disse que não, Shell. Apenas afirmei que, quando duas pessoas se amam e se respeitam como eu e Nick, o casamento não é o mais importante. Nós queremos namorar, estar juntos, nos conhecer, viver felizes. — Você merece ser feliz, mãe. Pode contar comigo para o que precisar. Allie teve vontade de chorar ao perceber que o primeiro apoio que recebia para se unir a Nicholas Henry vinha de onde menos imaginava ser possível. "É, a vida tem dessas coisas!", pensou consigo mesma, enquanto conduzia Coração Selvagem por uma auto-estrada que levava ao Canadá. Naquela noite, quando ligou para Lucy, sua velha amiga de mais de vinte anos atendeu com um risinho malicioso. — Ah-ah, tenho um recado para você, bela — Lucy disse. — Estava na minha secretária eletrônica quando cheguei em casa. Eu até anotei para não se esquecer de um único detalhe! — outro risinho. —Vamos lá: "Esta mensagem é para Alison Mills. Desde já agradeço por entregá-la assim que possível. Alison sinto muito sua falta e gostaria que pudéssemos estar juntos agora. Dei a notícia a Mareie e ela ficou muito feliz. Finalmente nos entendemos. Tudo vai dar certo, amor. Ah, e dois cachorros vão ficar perfeitos na nova casinha que estou construindo. Vejo-a logo." Que diabo ele quis dizer com dois cachorros? — Lucy perguntou mal podendo conter sua curiosidade. — Nada. Nick gosta de animais. — O que você andou aprontando, Alison Mills? — Agora Lucy ria abertamente. — Vamos, conte para esta sua boa e velha amiga! Fisgou o bonitão, não foi? — Está bem, você venceu. Nicholas Henry e eu estamos completamente apaixonados. — Ah, eu tinha certeza disto! — soou a voz animada do outro lado da linha, e elas conversaram por mais de uma hora e nem mesmo assim conseguiram pôr todos os assuntos em dia. Finalmente, Alison desligou. Alison ainda estava rindo quando ajeitou a cabeça nos travesseiros e se preparou para uma merecida noite de sono, pois, ela e Shelley deveriam partir bem cedo se quisessem chegar a Cleveland para o almoço. E Allie estava louca de saudade de sua netinha de rosto rosado:

Charlotte. A estadia em Cleveland provou ser melhor do que o esperado e Shelley acabou decidindo ficar com Carol e Doug até o casamento de Jimmy, em lugar de seguir viagem com a mãe. Allie passou dois dias na casa da filha do meio, a maior parte dos quais esteve com a doce e meiga Charlotte nos braços enquanto Carol tentava reconfortar a irmã por causa do divórcio recente. Nunca vira as duas filhas parecerem tão íntimas e amigas, pois quando pequenos Carol se

ressentia pelo fato de os gêmeos serem tão unidos e se afastava. Mas Allie estava satisfeita como as coisas estavam acontecendo agora, era mesmo hora de começar a fortalecer os laços de família. —Mudei de idéia sobre seu carro-esporte mãe—Carol falou quando Allie estava arrumando suas coisas para partir. — Acho que combina perfeitamente com você, que, aliás, está muito mudada. Parece mais bonita, mais alegre, mais viva. Com certeza não é mais o tipo que sai por aí dirigindo uma minivan cinza. Por trás daquelas palavras Allie sabia haver uma nota sutil de aprovação e apoio sobre a decisão que tomara. No dia em que chegara a Cleveland, contara à filha e ao genro sobre Nicholas Henry e seus planos de se mudar para Flagstaff e estabelecer seu negócio por lá. A princípio, nenhum dois dissera nada, nenhum comentário contra ou a favor, eles apenas sorri- ram e lhe desejaram felicidade. Agora, à sua maneira, Carol estava dizendo que a aprovava. — Obrigada, Carol — Allie murmurou, dando um passo a frente e envolvendo-a num forte abraço. — Não sabe como isso é importante para mim. — Claro que sei, mãe. Gostaria que Charlotte também respeitasse meus desejos e interesses quando ela crescer. Estou começando por lhe dar o exemplo. Mas, acima de tudo, faço isto porque desejo que seja feliz. Você ainda é muito jovem, casou-se tão cedo com papai que merece uma segunda chance. Aliás, todos merecem uma segunda chance. Mais uma vez Alison agradeceu a Deus por ter lhe dado filhos tão maravilhosos. Agora só falava falar com Jimmy e Sam Jimmy não seria problema, estava muito apaixonado para se opor a um relacionamento amoroso, mesmo que fosse o de sua mãe. Agora, o mesmo ela não podia dizer de Sam ... Aquela última semana na estrada pareceu voar e, quando Alison chegou a Albany, já estava morrendo de saudade de Nick. Em seus sonhos queria sentir os braços fortes envolvendo-lhe o corpo, a boca carnuda cobrindo a sua e aquela voz de barítono a sussurrar palavras de amor junto à sua orelha.

Enquanto Shelley estivera em sua companhia, fora muita mais fácil driblar a saudade e o desejo de revê-lo, pois as duas conversavam muito o dia todo. Porém, quando passou a viajar sozinha, as coisas mudaram. Havia momentos em que nem ao menos conseguia se concentrar na beleza da paisagem que se descortinava diante de seus olhos. Por isso, assim que chegou ao hotel em Albany, checou o calendário: Nick deveria estar no alojamento da Trilha do Anjo Brilhante na noite seguinte e ela deveria chegar à casa de Lucy ao anoitecer, o que significava que estaria lá para atender ao telefone assim que ele ligasse. Só de pensar que iria ouvir a voz máscula outra vez sentia o sangue correr mais rápido nas veias e o coração bater descompassado. Suspirando, Allie fechou os olhos e lembrou-se dos dias que passaram juntos navegando pelo rio Colorado. Sim, foram momentos maravilhosos que trouxeram o sol de volta à sua vida. Ela era mesmo uma pessoa abençoada, pois após perder toda a felicidade que construíra durante vinte cinco anos de casamento agora recebia a chance de começar de novo. Amava Ni-cholas Henry e tinha certeza de que ele também a amava; portanto, não havia mais nada que pudesse impedi-los de serem felizes. Era apenas uma questão de ter paciência para que aque- las longas excursões de verão chegassem ao fim e então eles pudessem se atirar nos braços um do outro, entregando-se à paixão e ao desejo que queimava em seus corpos e almas ... Lucy estava debruçada sobre o pequeno balcão da cozinha. Seus cabelos grisalhos estavam cobertos por um lenço e ela tinha farinha no rosto e nos braços. O som da batedeira só era

sobrepujada pelo da melodia country que ecoava do rádio no máximo volume. Allie riu ao observar o quanto a velha amiga parecia ser feliz naquele mundo que construíra só para si. Pé

ante pé, Allie abriu a porta da cozinha e tapou os olhos da amiga com as mãos pequeninas. — Adivinhe quem é! — falou bem-humorada Lucy virou tão rápido que uma porção do recheio de damasco que preparava foi parar no rosto de Allie.

—Humm ...

Muito bom—Allie falou, passando o dedo sobre o local que fora atingido pelo doce

voador e depois o levando à boca. — Desculpe — Lucy pediu, lavando rapidamente as mãos e tirando o avental. — Mas venha já para cá. Deixe-me vê-la melhor! — exclamou, empurrando-a para o pequeno terraço do apartamento. E elas conversaram o dia todo, colocando os assuntos pessoais em dia, falando sobre as novas propostas para a Busy Hands e, claro, sobre Nicholas Henry. — Por falar nisto, querida, ele deixou um recado ontem à noite. Allie franziu o cenho. Como Nick poderia ter deixado um recado se supostamente deveria estar no rio? — Foi a recepcionista do Alojamento da Trilha do Anjo Brilhante que ligou. Segundo ela, o sr. Henry não poderia ligar hoje à noite, por causa de uma súbita mudança no percurso da excursão, mas ele pedia que dissesse à Sra. Mills para esperar uma surpresa. —O quê? Só isto?—primeiro Allie ficou um pouco confusa, depois uma onda de empolgação se espalhou por seu peito. Quem sabe a surpresa a que Nick se referia seria uma visita inesperada a Framingham? Só de pensar nesta possibilidade, Allie ficou ainda mais animada. Afinal, o casamento de Jimmy seria no próximo final de semana e, se Nick realmente viesse para a cidade, poderia co- nhecer toda sua família. — Sam também ligou — Lucy prosseguiu, parecendo ler os pensamentos dela. — Ele, Shelley, Carol e o marido devem estar aqui na sexta-feira. Bem como Jimmy e os parentes da noiva.

A pousada de Gina foi fechada para os convidados do casamento e está tudo correndo muito bem. — Oh, Lucy, muito obrigada por ter cuidado dos preparativos do casamento de Jimmy para mim. Afinal, foi você quem cuidou da decoração, da festa e também das reservas na pousada. O que seria de mim sem você? — ela perguntou, sorrindo para a outra mulher a quem amava como a uma irmã. — Ora, pare com isso. Afinal, sou madrinha de Jimmy e para que servem as madrinhas se não for para participar de todos os momentos felizes da vida do afilhado? Allie a beijou levemente na testa antes de perguntar por Sarah. Logo ficou sabendo que a outra sócia da Busy Hands tinha acompanhado um cliente a Nova York para comprar algumas peças de decoração. —Mas, não se preocupe, ela estará de volta para o casamento de Jimmy. Na manhã do casamento de Jimmy, Allie tomou o café da manhã com os quatro filhos, Doug e os amigos de Jimmy. Apenas a noiva, My Lin, não estava presente, pois queria que o noivo a visse apenas no momento da cerimônia. Sam tinha chegado atrasado para o jantar do ensaio e, segundo contara seu primogênito, tinha feito milagres para pegar uma ponte aérea de Boston até ali. Naquele exato momento, Sam tomava café junto aos demais, porém estava estranhamente quieto e pensativo. Allie observou as olheiras escuras no rosto de pele clara, maSj apesar da fadiga, Sam parecia muito bonito e feliz. Era alguma coisa diferente em seu olhar e na maneira como oca-

sionalmente ele curvava os lábios em um meio sorriso. Tomada por um misto de preocupação e curiosidade, ela sentou-se ao lado do filho e tentou puxar conversa. — Você está diferente. Aconteceu alguma coisa? — Ah, mães, nunca conseguimos esconder nada de vocês, não? — Sam falou num tom brincalhão. — Venha, vamos conversar um pouco lá fora, Sra. Mills AUie o seguiu até o jardim da pousada que ficava na mesma rua de sua antiga casa e depois começaram a caminhar pelo quarteirão. Eles estavam quase em frente à antiga casa quando Sam parou e segurou-lhe as mãos. — Mãe, tem alguém que quero que você conheça. Allie não precisou ouvir o resto para saber o que viria a seguir, as mães sabem essas coisas instintivamente. — O nome dela é Mary, é advogada em Minnesota e ... — Bem, não vejo nada de errado com Minnesota. — Sei que não, mas Mary não quer se mudar para a Califórnia e, bem, nos dois concordamos em que Framingham seria um bom lugar para viver. Por isso conversei com Roger e ele me aceitou como associado no escritório. Vou trabalhar no lugar de papai. — Oh, Sam, que bom! — Sim, tem mais — falou ela, tirando um molho de chaves do bolso. — Comprei nossa velha casa de volta. Eu e Mary gostaríamos de criar nossos filhos aqui e você pode vir ficar conosco quando quiser. Allie sentiu lágrimas de felicidade rolarem por suas faces. A velha casa dos alamos estava de volta à família e ela veria seus netos crescerem ali. Céus, que maravilha! — Nem posso dizer o quanto estou feliz, Sam. Tenho um apego especial por ela e sei que você e Mary vão construir uma linda família ali.

— Mãe, por falar em família, quero pedir desculpas por tudo o que disse quando fui visitá-la em Cleveland. Escute, falei com Shelley e Carol e elas me contaram sobre Nicholas Henry. Allie franziu o cenho, aborrecida. — Não, por favor, não as recrimine, elas só queriam defendê-la e certificar de que eu não estragaria sua felicidade, mas não se preocupe, não vou fazer isso. Quero mesmo que seja muito feliz, seja com esse tal Nicholas Henry ou com outra pessoa que aparecer sem sua vida. Saiba apenas que sempre poderá voltar à sua velha casa se alguma coisa der errado. — Oh, Sam, meu querido. Obrigada! — Não precisa agradecer. Agora venha, vamos ver como estão as coisas por aqui. Vai adorar ver que ninguém mexeu em sua cozinha. E, juntos, mãe e filho entraram na velha casa com o jardim de margaridas e lírios. Como se fosse uma recepção de boas-vindas, os pássaros que se empoleiravam nos alamos entoaram uma linda canção e o vento soprou mais forte, beijando-lhes as faces e fazendo-os sentir a beleza e a plenitude da vida.

Epílogo

Aquela era uma manhã gloriosa de junho e, à medida que colocava o tubinho verde-água e o sapato Chanel creme, num tom muito próximo ao do colar e os brincos de pérola que usava, Allie não pôde deixar de pensar que seu filho caçula estaria se casando dentro em pouco, o mais velho certamente o faria em breve, Carol estava imensamente feliz com a doce Charlotte

e o marido, e Shelley parecia ter finalmente conseguido superar o divórcio. Tudo em sua vida estava caminhando bem, pois não havia mais com que se preocupar. Sentia apenas um leve descontentamento por Nick não estar ali ao seu lado. Por certo tinha in- terpretado mal o recado que ele lhe enviara, sugerindo que lhe faria uma surpresa. Claro que Nick não atravessaria o país apenas para vê-la por um dia ou dois, já que sua próxima excursão começaria em dois dias. Além do quê, naquela época do ano quase todos os vôos eram lotados, isto para não falar no preço abusivo das passagens. Ah, ela não deveria nem mesmo ter pensado em tal possibilidade. Imagine, a surpresa que ele mencionara deveria ser algo muito diferente. Mas teria que esperar até o telefonema daquela noite para saber, pois, enfim, eles teriam a chance de conversar apesar de estar a milhares de quilômetros um do outro. Sufocando a saudade que teimava em invadir-lhe o peito, Alison aplicou um pouco de maquiagem e ergueu os cabelos num coque elegante e discreto. O reflexo que vislumbrou no espelho com moldura dourada era o de uma mulher jovem, de bem com a vida, que tinha finalmente encontrado a felicidade. Sorrindo, pegou sua bolsa e se preparou para seguir para a igreja que ficava bem perto do prédio de Lucy. Sua amiga, aliás, tinha ido à frente, pois queria se certificar de que tudo estava perfeito para a recepção que aconteceria ao ar livre, num clube da região. Allie sabia que, para Lucy, era como se Jimmy fosse o filho que não tivera, assim deixou que ela assumisse o comando do evento e tratou de aproveitar cada minuto. Ainda estava pensando nisto quando entrou na igrejinha charmosa, repleta de flores cujo perfume inundava o ar. A maioria dos convidados já tinha chegado Muitos deles eram amigos de Jimmy e estavam informalmente vestidos. Vários membros da família de My Lin também estavam lá e pareciam muito felizes em abençoar aquela união. Allie não pôde deixar de pensar que certamente seus futuros netos seriam lindos por causa da mistura oriental com os traços clássicos de Jimmy. My Lin e as damas de honra já estavam na porta de entrada e Sam estava ao lado do irmão no altar, parecendo imensamente orgulhoso pelo fato de agora ser o chefe da família. Uma forte emoção inundou o peito de Allie. Tentando se conter, ela se preparou para seguir até o banco da frente, onde os membros da família deveriam ficar, mas, de, repente, sentiu dedos longos e fortes se fechando sobre seu cotovelo. Não precisou nem se virar para saber quem era. Reconhece-ria aquele toque até de olhos fechados. O coração deu um salto dentro de seu peito e a respiração se tornou mais ofegante. Ele estava ali. Nicholas Henry, o homem do Rio Colorado estava ali! E quando Allie se virou descobriu uma versão totalmente remodelada do homem que amava. Nick estava usando um terno cinza, camisa branca e gravata num tom de cinza mais escuro que o terno. Seus cabelos tinham sido cortados, embora ainda continuassem um pouco mais longos do que a maioria dos homens usava, a barba estava impecavelmente feita e ele usava um perfume amadeirado deliciosamente masculino, não que seu cheiro natural não fosse bom, Allie pensou involuntariamente, recordando-se de quando ficavam abraçados nus apreciando as noites estreladas. — Não disse que tinha uma surpresa para você, princesa? — Nick exclamou, não ousando beijá-la, mas o brilho nos olhos escuros dizia mais do que mil palavras. — Que bom que veio — Allie sussurrou. Então uma das organizadoras da cerimônia aproximou- se e os conduziu para o banco da frente. Ao vê-los, Shelley e Carol se entreolharam com expressão zombeteira, mas Nick não se abalou, sorriu de volta para as jovens usando todo o charme que tinha e, naquele instante, Allie soube que ele também as tinha conquistado.

Quando a cerimônia começou, Nick segurou a mão dela discretamente, como se estivesse dizendo que queria tomar parte em todos os momentos importantes de sua vida. — Veja só a tia Lucy! — Shelley cochichou, enquanto Lucy ciceroneava os convidados alegremente. — Eu nunca a vi tão feliz — atalhou Carol, no mesmo tom confidencial. — É como se Jimmy fosse o filho que ela não teve. Lucy e Nick se entreolharam felizes. A família do noivo estava reunida em uma das muitas mesas espalhada pelo jardim do clube e todos conversavam alegremente. Como Allie previra, seus filhos receberam Nicholas Henry como se o conhecessem há muito tempo. — Então, Nicholas, está gostando do casamento? — Doug perguntou, tentando inseri-lo na conversa. — Sim, muito. — Desde que o mundo é mundo os casamentos fascinam a humanidade — Sam falou. — Acho que é por causa do "felizes pra sempre". — Pois eu não acredito em final feliz — disse Shelley, um pouco empertigada. — Ora, não exagere Shel — Carol interveio. — Só porque não deu certo com Dan não quer

dizer que não encontrará alguém que a faça feliz. Ele apenas não era a pessoa certa. — Sim, tem razão. Quem sabe não exista um final feliz, mas vários finais felizes na vida da gente. — Existem várias formas de romance, maninhas. Cada pessoa tem de descobrir qual é a sua — De repente, o cético Sam parecia ter se tornado um romântico incorrigível. — Se me permitem um aparte — atalhou Nick, segurando as mãos de Allie e sorrindo para ela, antes de se voltar para o grupo de jovens. — A própria expressão final feliz é muito vaga e imprecisa. — E qual a sua opinião sobre o assunto, professor? — Shelley quis saber. — Para mim a expressão "felizes para sempre" não passa de um clichê. O que importa mesmo é que as pessoas vivam suas histórias de amor intensamente, sabendo que a vida é como um rio que em certos momentos, flui calmamente e, em outros, nos obriga a enfrentar turbulências e corredeiras que só servem para nos fortalecer ainda mais. O que importa é nunca perdermos a esperança e saber que sempre é possível se recomeçar, mesmo se a história que vivemos anteriormente não obedeceu ao clichê do "felizes para sempre". — Uau, professor, você arrasou! — Carol exclamou, aplaudindo. — Observação muito interessante, Nick — Sam falou, fitando-o com admiração. — Obrigado. — Sorrindo, Nick se levantou e ajudou Allie a fazer o mesmo. — Agora, se me dão licença, gostaria de dançar com esta linda dama que parece mais a irmã do que a mãe do noivo. De repente, Allie se viu envolvida nos braços fortes e musculosos e sentiu todo seu corpo vibrar de prazer. Então, antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, ouviu a banda que fora contratada para o casamento começar a tocar Red River Valley. — 0.que é isto, um complô?—disse fitando-o intensamente. — Digamos que eu combinei com Lucy que assim que a levasse à pista de dança, ela pediria para a orquestra tocar nossa música. — Oh, Nick, esta é uma canção que nunca vou esquecer — Allie falou, apoiando a cabeça no peito viril e fechando os olhos. — E eu prometo que iremos cantá-la juntos pelo resto de nossas vidas, coração. Pois finalmente encontrei ...

— " ...

Alguém como você" — Allie concluiu a frase, beijando-o de leve nos lábios. — "alguém

com quem vou construir um lindo ninho de amor em algum lugar do Oeste". Um longo beijo selou a promessa que os dois haviam feito desde a primeira vez que cantaram juntos. Não havia mais como voltar atrás, seus destinos estavam irremediavelmente entrelaçados.

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