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maneiras

capa Celia Ribeiro celia.ribeiro@zerohora.com.br modernas


Visita
Casa dos pais não é motel
Filhos adultos que adiam a saída
da casa dos pais geram debate
Geração diplomática
“O diplomata que está em seu
país, ao receber um representante

A
sobre acomodação. Mas psicólogos dificuldade atual morada indique o lugar onde vai sen- de outra nação, deve se comuni-
de rapazes e mo- tar. Já imaginou um rapaz acomodar- car na sua língua ou na do visi-

Canguru
observam: é a divisão de tarefas ças com diplomas se na cadeira do chefe da família ou tante? Como atuam os intérpre-
se tornarem inde- da senhora? Também só deve pegar tes em caso de necessidade?”
que determina se uma relação é pendentes finan- nos talheres depois que eles começa- WALDIR
ceiramente, aliada rem a comer. – É de praxe quem recebe falar
imatura ou adulta à liberalidade dos pais em relação à Levantar-se quando chegar à sala o idioma de seu país, e o visitan-
vida sexual deles, torna bastante con- uma pessoa mais velha que vai cum- te, se lhe for possível, empregar a
fortável que permaneçam na casa pa- primentá-lo. Evitar chamar o avô da mesma língua, como cortesia.
terna por mais tempo. O reflexo desse namorada de “vovô”, usando o trata- Nota-se que os dirigentes de na-
comportamento se faz sentir na loca- mento “senhor”. Aos pais da namora- ções, ao discursar, usam seu idio-
ção de apartamentos JK, até algum da, em vez de “tio” e “tia”, chamá-los ma de origem, com tradução si-
CAMILA SACCOMORI tempo disputados pelos jovens soltei- pelo nome. multânea. Nas reuniões da ONU
ros ciosos de sua liberdade. Esse tipo Ao chegar à mesa de refeições, o ra- (Organização das Nações Unidas)
publicitário Rafael to, os casamentos ocorrem mais de imóvel está menos cotado por lo- paz retira o boné. O certo, quando é assim. O uso do inglês como

O
Furtado, 33 anos, mora tarde. Resultado: a saída do ninho catários com esse perfil. não existe intimidade, é, ao cumpri- língua básica do mundo globali-
em uma casa grande pode ser adiada indefinidamente. Também adolescentes trazem os mentar os donos da casa, estar com a zado é freqüentemente adotado
com piscina no bairro O novo relacionamento entre namorados e namoradas para passar cabeça descoberta. Esse é um diferen- em visitas menos protocolares. A
Boa Vista. Está solteiro pais e filhos que vivem na mesma a noite, imaginando que seu quarto, cial de boa educação para um jovem posição de um intérprete é a
há um ano, depois de casa é o tema de estudo da psicó- fechada a porta, é um pequeno JK. responsável. mais discreta possível, atrás da
dois anos namorando. loga Célia Regina Henriques, dou- Mas não é bem assim. Há o convívio O modo de um hóspede usar o ba- pessoa a quem está fazendo a
Freqüentemente pro- toranda na PUC do Rio de Janei- com os pais e a família, e não é agra- nheiro é um teste de civilidade. Ele pe- tradução simultânea. Podem re-
move festas para os ro. Para a pesquisadora, autora da dável para uma mãe se confrontar, de a toalha à namorada e não sim- parar que, em banquetes, ficam
amigos na área ao ar dissertação de mestrado Geração inesperadamente, no corredor da área plesmente abre o armário e retira a sentados fora da mesa, um pou-
livre da residência. Trabalha em Canguru: o Prolongamento da íntima de seu apartamento, com um primeira da pilha. A moça que recebe co atrás da pessoa a quem presta
uma das lojas da família, o que Convivência Familiar, pais e filhos desconhecido “hóspede” da filha, e um namorado terá escovas de dente seus serviços.
lhe daria condições financeiras pa- que convivem sob o mesmo teto ouvir um “oi, tia”. A boa educação e na embalagem para oferecer quando
ra sair da casa dos pais, mas ele por opção, e não necessidade, são o respeito precisam existir nessas cir- ele ficar.
não quer. O motivo? A falta de mais unidos. cunstâncias de ambas as partes. Ao sentar na poltrona, não ficar es- Elegância
um. – Essa geração de pais construiu Os pais, em nome da tranqüilidade tatelado, como se estivesse em sua diante da gafe
– Eu tenho uma um ideal de fa- de saber que seus adolescentes estão própria casa, com as pernas por cima
suíte, com banheiro,
computador e TV no
“Tenho mília baseado
na igualdade
dormindo em casa, protegidos da in-
segurança nas ruas, aceitam esse con-
do braço do estofado ou esticadas,
mostrando a sola dos sapatos e atra-
“Tenho um tio grande aprecia-
dor de vinhos. Outro dia, em sua
quarto, e toda priva-
cidade do mundo. privacidade e de direitos e li-
berdade. Ago-
vívio ocasional. Os filhos trazem seus
namorados para freqüentar amistosa-
palhando o vaivém da família.
À hora das conversas, em especial
casa, fiquei observando enquanto
ele punha em ordem sua adega,
Sem falar que me
dou muito bem com me dou bem ra, criou-se
uma situação
mente a casa, e os pais os conhecem
ao natural, sem forçar a barra, para não atitudes agradáveis, sem serem invasivos
quando há visitas, ouvir muito e falar
pouco.
até que pegou uma garrafa de vi-
nho branco e comentou não ser
meus pais. Para que boa para am- fazer da casa um motel. à família que os acolhe sem convite. É claro que maioria dessas atitudes dos melhores. Por isso, o passaria
vou me mudar? – com meus bos os lados: Pode-se arrolar algumas recomenda- Ao comparecer à mesa de refeições, corretas vale para as moças que ficam adiante para alguém que não en-
explica Rafael, que eles vivem os ções para os jovens hóspedes assumirem aguardar que a dona da casa ou a na- na casa do namorado. tendesse de vinho. Casualmente,
divide a casa com o pais. Para que últimos mo- fui eu que lhe dei de presente o
Reviver os
pai e a mãe, além de
três irmãos de 16,
20 e 40 anos.
mudar?”
mentos como
pais, e os filhos
aproveitam os bons tempos movia temporadas de desfiles
ERA ASSIM vinho e fiquei muito chocada, a
ponto de não dizer palavra. Agi
certo?” BEATRIZ
A família últimos mo- semanais, com as mais creden- Dava-se nenhuma importância à higiene do – Você foi perfeita, pois, se
Furtado repre- mentos como Nos anos dourados das lojas ciadas manequins de Porto corpo durante os séculos 16, 17 e 18 na Europa, identificasse o seu presente, dei-
senta um fe- Rafael Furtado, filhos antes de da Andradas, na esquina da Alegre. e, em certos países, tomar banho era considera- xaria o tio constrangido, e ele
nômeno social construírem Borges, a Casa Louro destaca- Depois de 30 anos, a Casa do um hábito pagão. O rei Luiz XIV, que tinha não teve a intenção de magoá-
cada vez mais 33 anos uma nova fa- va-se como sofisticado reduto Louro retorna rebatizando as uma grande banheira em seus aposentos do pa- la, justamente por haver esqueci-
freqüente na clas- mília – avalia de moda, suas vitrinas espe- lojas Rincão, da família Gal- lácio de Versailles, nunca fez uso dela – que foi do quem lhe dera o vinho. Foi
se média brasileira: Celia. lhando as tendências de Paris. binski, especializadas em ma- parar nos jardins. simplesmente uma gafe, da qual
filhos adultos que prolongam a es- O engenheiro químico Jayme O proprietário, Juan Sonder- lhas uruguaias, nos shoppings Quando Napoleão Bonaparte se tornou famo- nem tomou conhecimento, gra-
tada na casa paterna compõem Moura, 57 anos, e a decoradora mann, não conversava apenas Moinhos e Iguatemi. As saco- so, seus subordinados não podiam se conformar ças a sua discrição. É sempre pe-
a chamada “Geração Canguru”. Jussara, 53, são dessa geração que sobre suas mercadorias, mas, las estampadas em xadrez pre- com sua mania de tomar banho todos os dias. A rigoso oferecer bebidas a enten-
São pais que carregam os fi- deixou o ninho cedo. Ele saiu de com os mais chegados, falava to e branco e a rosa vermelha chegada do imperador a Paris coincidiu com a didos, quando não se tem segu-
lhos – jovens com mais de Uruguaiana aos 15 anos para es- sobre música, festivais de Salz- também estão de volta, como difusão do sabonete para uso pessoal, o que se rança. O amigo gosta de vinho?
30 anos, que trabalham e ga- tudar na Capital. Ela saiu da casa burg e suas experiências de vi- um afago de tradição às novas refletiu na invenção das saboneteiras em prata e Dê-lhe um livro sobre o assunto
nham salário – por mais tem- dos pais aos 21, para casar. Com da. Duas vezes ao ano, pro- gerações de porto-alegrenses. de porcelana que enfeitavam os lavatórios. ou um abridor de garrafa.
po que as gerações anteriores. as filhas – a farmacêutica Leonor,
Nascidos nas décadas de 40 e 29 anos, e a administradora de
50, os pais cangurus saíram de ca- empresas Ana Paula, 26 – já é di-
sa cedo, para trabalhar, casar e ser ferente. Quando os pais viajam,
independentes. Muitos cresceram elas promovem festas em casa
em lares sem liberdade sexual e com aprovação deles.
com pouco diálogo familiar. Seus – É mais seguro – alegam Jay-
filhos, nascidos a partir dos anos me e Jussara.
70, experimentam uma criação Com seus salários, as filhas co-
mais aberta: hoje em dia, é permi- brem os próprios gastos – ginásti-
tido levar companhias para o quar- ca, cursos, gasolina dos carros.
Fotos Carlinhos Rodrigues

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