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1. Introdução

LUZ: ONDA OU CORPO?

João Francisco Guimarães

Qual o significado cultural de "Ciência", nos dias de hoje? Por quê acreditar nas afirmações e descobertas dos cientistas?

As teorias científicas sucedem-se sem que, para tal, haja qualquer critério de qualificação, para caracterizá-las como boas ou más, ou uma melhor do que a outra. Aliás, asseguram os homens e as mulheres de ciência que as teorias científicas ganham existência exatamente para serem contestadas, argüidas e, até mesmo, demolidas em prol de novas teorias, num “fio de Ariadne” sem fim. Daí aquelas perguntas retóricas iniciais Inúmeros cientistas têm demonstrado um vivo interesse pela filosofia da ciência, até porque a filosofia dá consistência ao discurso, qualquer que seja sua essência, dando-lhe conhecimento de causa. Galileu Galilei, Isaac Newton e Albert Einstein, por exemplo, não só revolucionaram, em suas épocas respectivas, o conhecimento científico, como deixaram contribuições vultosas para a epistemologia e para a filosofia da ciência. Galileu Galilei, físico italiano nascido em Pisa, no século XVI, não só introduziu o importantíssimo método experimental como acabou condenado à prisão, pela Inquisição, por ter “mudado os paradigmas” de movimento dos corpos celestes (entre eles o nosso planetinha). Esteve envolvido com fenômenos luminosos tendo construído, ele mesmo, um telescópio para a observação astronômica. Sir Isaac Newton, matemático e físico inglês, do século XVII, um dos mais célebres físicos de todos os tempos, sistematizou as leis da mecânica, lançou a teoria da gravitação universal (com substancial suporte a partir das idéias de Galileu e Kepler) e estabeleceu sua versão do cálculo matemático. Considerava a filosofia um saber total e denominou a sua física de Filosofia Natural. Por intermédio da sua teoria das cores, viu-se, também, atraído pelos fenômenos da luz. Suas idéias revolucionárias principais foram divulgadas em um único e memorável ano, o de 1666.

Coordenador do Curso de Sistemas de Informação do Centro Universitário Euro-Americano (UNIEURO).

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Albert Einstein, engenheiro e físico alemão, do século XX, de ascendência judaica, é o protótipo da genialidade dos dias atuais. Em seis trabalhos clássicos [a saber: teoria da relatividade (restrita), segunda parte da teoria da relatividade (generalizada), efeito fotoelétrico, análise do movimento desordenado de partículas em suspensão em um líquido (movimento browniano; dois trabalhos) e determinação de dimensões moleculares (tese de doutoramento)], todos divulgados no ano de 1905, por isso mesmo chamado de “ano miraculoso da física”, praticamente passou a limpo o arcabouço científico, contribuindo, assim, decisivamente, para a mudança da face do planeta. Tudo é relativotornou-se um chavão após a teoria da relatividade, de Einstein. Nessa teoria ele acabou com o caráter absoluto dos conceitos de espaço e tempo, ao adotar a velocidade da luz como um tipo de limite para todos os corpos. Na segunda parte da relatividade, ainda usando a luz, demonstrou a relação entre energia e massa como sendo constante e igual ao quadrado da velocidade da luz (E = M * C2 ou (E/M) = C2). Einstein mesmo qualificou de "revolucionário" seu trabalho sobre o efeito fotoelétrico, no qual propôs que a luz era formulada por corpúsculos - os chamados “quanta” (plural de “quantum”, que significa quantidade discreta e constante de energia; na verdade o corpúsculo que transporta esse “quantum” de energia é denominado fóton). Daí teoria quântica ou mecânica quântica, torpedeando, assim, a teoria ondular da luz e a necessidade da existência do incógnito e indetectável “éter”, para a propagação da luz. Esse artigo possibilitou-lhe o Prêmio Nobel de 1921. Daí, então, o título deste ensaio, a saber: “Luz: onda ou corpo?”, que lida com idéias relativas a fenômenos luminosos, como pretexto para esgrimir dúvidas filosóficas. O trabalho apresenta a seguinte estrutura de itemização:

Capítulo

Diretriz

1. Introdução

Traça generalidades sobre paradigmas, formação de paradigmas e as características da teoria científica.

2. Motivação

Enfatiza o objetivo do ensaio, aspectos dialéticos da filosofia da ciência, à luz de um fenômeno como o da luz, que a respeito da dubiedade como é definida, é extremamente consistente, firme e incisiva nos seus efeitos mercadológicos, sociais, tecnológicos técnicos (tais como mecânica quântica, “leds”, fibra óptica, laser, telecomunicações, sinalização, plasma, cristal líquido, fotoeletricidade, holograma )

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3.

Teorias sobre a

Dá breve descrição sobre teorias da luz, como sejam: corpuscular e de ondas eletromagnéticas.

Luz

4.

Física Quântica

Explora filosoficamente algumas definições e tipicidades da teoria quântica da matéria, mormente no que tange às mudanças de paradigmas entre a mecânica newtoniana e a quântica.

e Filosofia

5. Refutações

Busca trazer, sobre o tema em estudo, as conjecturas e refutações de Popper.

6. Conclusões

Converge para o fechamento do ensaio, tentando deixar reflexões, ou melhor, mais dúvidas!

As técnicas e tecnologias disponíveis neste início de século XXI oferecem ao mercado várias soluções, sob profusa exploração mercadológica, apoiadas no uso da luz, tais como:

células de armazenamento de energia solar, células fotoelétricas de controle (elevador,

fibras ópticas locais e intercontinentais, “CD-Players”, “DVD Players”, leitores

portas

ópticos dos terminais de auto-atendimento bancário (para pagamento de boletos com códigos de barras), assinaladores à laser, mira-laser, instrumentos cirúrgicos à laser (hemostático), corte

de precisão (industrial à laser), dispositivos de portaria e telemedição etc

),

2. Motivação

A despeito disso, da franca utilização dos fenômenos luminosos, permanece a dúvida sobre a característica de a luz manifestar-se sob a forma de onda ou partícula (corpo) ao mesmo tempo(?). Parece irrelevante, dada a realidade imediata, mercadológica, pragmática e acachapante, mas a perseguição de tal questão tem trazido, sempre, e cada vez mais, melhorias para a exploração prática e consumista da luz. Para chamar um acervo qualquer de “conhecimento”, Platão usava 3 (três) requisitos, como se seguem:

CRENÇA

quem formula uma tese ou afirmação deve crer nela;

VERDADE

o “conhecimento” expressado deve ser, necessariamente, verdadeiro;

PROVA

deverão existir provas que verifiquem o “dito conhecimento”.

Se inexiste “crença” da parte de quem formula a tese ou afirmação, ainda que haja “provas” e “verdade”, será inegável a ausência de “conhecimento”. O mesmo no caso de faltar o requisito “verdade”. Da mesma forma, também, havendo “crença” e “verdade”,

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mas sem “prova”, a tese ou afirmação não passará de mera opinião, não chegando a constituir “conhecimento”. Obviamente, tais requisitos são rudimentos da estrutura de pensamento epistemológico, hoje muito mais sofisticados. Não obstante isso, todo o “conhecimento” armazenado sobre a luz, com seu infinito patrimônio fenomenológico, seu arsenal metodológico e seu exuberante potencial epistemológico, segue derrubando e edificando, erigindo e demolindo teorias, teses e ou afirmações sobre a presente contradição do dualismo onda-corpo (ou onda-partícula) da luz.

O anseio e o afã de saber é de tal sorte que estudiosos do século XX mergulharam

verticalmente em antigos pensamentos aristotélicos, de séculos antes de Cristo, que buscam o

equilíbrio entre a possibilidade e a realidade, já que o gênero humano “não consegue” medir simultaneamente a posição e o momento de uma dada partícula elementar da matéria. Há uma incerteza flagrante (e assustadora) na energia de uma dada partícula, e isso é uma ambigüidade cósmica, quanto ao seu estado espaço-tempo. Roger Penrose, físico da Universidade de Oxford, propõe nova Física para eliminar

dúvidas e dualismos desse tipo. E apoia-se em experimento clássico sobre o paradoxo da teoria quântica proposto por Erwin Schrödinger (físico austríaco; Nobel de 1933, sobre nova teoria ondulatória; morto aos 74 anos, em 1961). A idéia de Penrose é unificar a mecânica quântica com a teoria da relatividade.

O paradoxo do gato de Schrödinger começa quando o gato cai em uma caixa e fica na

mira de uma arma carregada, e apontada para sua cabeça, disparada por um sensor de luz. Nesse momento, um “fóton” desarvorado é liberado (por outro dispositivo que não a arma) contra um espelho semi-reflexivo (chamado separador de raios).

Se o “fóton” passa pelo espelho (atravessando-o, é corpo!) irá ativar, automaticamente,

o sensor de luz que, por sua vez, disparará a arma matando o gato. Se, por outro lado, o

espelho reflete o

No mundo quântico, das partículas no íntimo da matéria, as duas possibilidades

acontecem ao mesmo tempo! O gato está (até hoje, 70 (setenta) anos depois) vivo e morto, e

nem morto nem vivo

Aparentemente, o que é contrariado por Penrose, o Universo inteiro divide-se no instante em que o “fóton” atinge um espelho semi-reflexivo, como seja: em um Universo o “fóton” passa e o gato morre; no outro Universo o “fóton” é refletido e o gato é poupado; isso constitui injustificada ambigüidade cósmica.

fóton” (é onda!)

para longe do sensor, o gato segue vivo.

e isso perdurará até que alguém abra a caixa

Afinal, o gato está vivo ou está morto?

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A combinação de elementos objetivos e subjetivos é um paradoxo? É viável? Estaria a evolução humana incapaz de descrever todos os fenômenos existentes na natureza? Ou possibilidade e realidade redundam em ordenamentos cósmicos diferentes? Os paradigmas mudam; a conjugação de sensibilidade em relação ao fenômeno, o desenvolvimento de novos métodos e técnicas no arsenal metodológico e o acúmulo de novos potenciais epistemológicos, conhecimento teórico adjacente, provocam mudanças radicais nos rumos que a ciência tomará. O relativismo da ciência, de acordo com Thomas Kuhn, afirma que, talvez, os fatos também mudem, dado que a natureza da evidência modifica-se em função da dinâmica sofrida pelas teorias científicas e, afinal, a evidência é o único acesso que se tem aos fatos empíricos (da realidade imediata). Para Kuhn, as causas das mudanças são quase exclusivamente intelectuais e pertencem a uma reduzida comunidade de cientistas e especialistas. Vale aduzir, até para o encerramento dessas idéias motivadoras, que há, ainda, inúmeras “verdades elucidativas” no passado do pensamento humano, como é o caso de Francis Bacon, filósofo inglês do século XVI. Em sua fenomenologia do erro, Bacon buscava novo método de investigação da natureza, em que se eliminasse as tendências do intelecto humano para ocultação da verdade. Ele chamou essas tendências de “ídolos”/ “idola”, a saber:

IDOLA TRIBUS

- tendências a pensar que as coisas existem em grau de ordem,

qualidade,

maior do que se encontram na realidade;

IDOLA SPECUS

- da caverna; tendências das características específicas de cada um; nascem da objetividade e das idiossincrasias;

IDOLA FORI

- do mercado; tendências derivadas dos contatos e relacionamentos; são quase sempre ocasionadas pela linguagem;

IDOLA THEATRI

- do teatro; tendências advindas das falsas teorias, que enganam os humanos, tal como os atores "vendem ilusões", nos palcos.

Esta é a motivação.

3. Teorias sobre a luz

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É da condição humana sentir-se capaz de explicar fenômenos, destrinchar a realidade imediata e equacionar a natureza circunjacente. Havendo ou não tendências para a ocultação da verdade, a espécie humana, escudada pela ciência, sempre tece teorias e traz luz para as evidências, em incessante moto- contínuo. Sim, é ostensivo o fato de que a ciência lida com duas teorias simultâneas para explicar fenômenos luminosos e de propagação da luz. Há a teoria corpuscular, que descreve e explica fenômenos físicos partindo da premissa de que a luz é formada por corpos (partículas) chamados fótons. E há a teoria ondulatória, via ondas eletromagnéticas. Vale a pena, ademais, alinharem-se algumas premissas que conformam, presentemente, a construção de uma dada teoria, a saber:

 

Premissas

Qualquer modelo ou teoria está fundada em suposições e alimentada por evidências;

 

O

conjunto de suposições pode ser denominado

paradigma;

 

O

paradigma

deve responder às questões:

 

o que é ou qual é a natureza da realidade? como identificar o que é o conhecimento?

Quem é responsável por aquilo que é,

por sua mudança ou estabilidade?;

 

A

teoria quântica (física ou mecânica quântica),

paradigma atual para a Física e para a

Filosofia, implica o reconhecimento da interligação entre

todos os eventos;

 

O

observador,

cuja

essência

material

é,

também,

objeto

da

Física

Quântica,

é

parte

integrante e determinante no equacionamento das evidências;

 

O

observador é, a um só tempo, analítico (sob o modelo analógico do pensamento

matemático) e holográfico (sob o modelo holístico, que percebe e participa de um

Universo cosmologicamente total;

 

O

modelo analítico, derivado do pensamento lógico/dedutivo/matemático, é incapaz de

equacionar a consciência (do observador) e suas dimensões intuitivas e transpessoal (que conforma a autoconsciência);

Sob premissas holísticas a consciência deve:

 
 

ser informação, desdobrar-se em inúmeras hierarquias de informações, em qualquer nível dessa hierarquia, ser tão intensa quanto a quantidade de informações ali existente.

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As teorias, como comprova o chamado progresso científico do gênero humano, pavimentam o caminho que pode levar à sua própria substituição por outra teoria. Inobstante tal constatação, a luz e todos os conceitos quânticos congêneres e subjacentes seguem as duas teorias já citadas, que coexistem sob tensão, sempre ameaçadas e, até agora, nunca profundamente abaladas, por novas físicas, como é o caso de Roger Penrose, de Oxford.

Cronologia

Período

Evento

Final

Jeans e Lord Rayleigh demonstraram muita dificuldade ao usarem calor e radiação para equacionar o corpo negro;

Séc. XIX

1895

Planck estudou o átomo e emitiu a lei de Planck da radiação térmica; publicou, então, sua hipótese quântica;

1905

Einstein, no ano miraculoso da Física, apresentou o efeito fotoelétrico; sabia-se que a luz poderia apresentar características de onda e de corpo (partícula); seria ela partícula e onda ao mesmo tempo?;

1911

Becquerel, Mme. Curie e Rutherford ampliaram o conhecimento sobre a estrutura do átomo;

1913

Bohr combinou a teoria quântica com o modelo do átomo e explicou a estabilidade dos átomos;

1923

Compton

comprovou

os fótons (quantum de luz presentes na radiação das

ondas eletromagnéticas);

1924

De Broglie estendeu a dualidade onda-corpúsculo às partículas e subpartículas do íntimo quântico da matéria; Bohr, Kramers e Slater resgataram a potentia Aristotélica, e buscaram equilibrar a evidência entre a possibilidade e a realidade, introduzindo a onda de probabilidade;

1925

Surge a mecânica quântica propriamente dita, pela prova matemática (matricial) de que posição e movimento da partícula não se conjugam, diferentemente da mecânica Newtoniana (ou clássica);

1926

Schrödinger, reduzindo tudo à teoria ondulatória

(já que não digeria bem os

corpúsculos!),

desenvolveu a equação da onda de luz;

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Bohr

reinterpretou

a

onda

de

probabilidade

para

as

ondas

da

equação

de

Schrödinger;

 

1927

Surge a interpretação de Copenhagen,

sobre

a teoria quântica,

complementada pela coexistência dual onda-corpúsculo, da luz, e concebida por Bohr (físico dinamarquês que sofreu forte influência existencialista de Kierkegaard).

Tanto a mecânica das partículas quanto a óptica das ondas são tradicionalmente independentes entre si, com suas próprias cadeias de experimentações e hipóteses. As teorias em pauta são complementares e não há maneira de derivar-se uma da outra ou vice-versa.

Teoria corpuscular da luz

ou

teoria quântica da luz

O efeito fotoelétrico é o fenômeno pelo qual a superfície de um dado metal emite elétrons, quando a referida placa metálica é atingida por luz de freqüência suficientemente alta (luz ultravioleta, por exemplo). Um feixe de luz forte produz mais fotoelétrons do que um fraco, para a mesma freqüência (e o mesmo metal), mas a energia média de cada elétron, por incrível que pareça, é a mesma. Assim como não há intervalo entre a chegada de luz na placa

e a emissão de fotoelétrons. Outro ponto estranho é que, abaixo de certa freqüência, para cada metal específico, não são emitidos fotoelétrons. Ou seja, a energia média de cada fotoelétron depende da freqüência da luz usada. Einstein enunciou que tais características estão em confronto com a teoria ondulatória, e não são explicadas por ela.

Conforme a teoria ondulatória, as ondas propagam-se, a partir de uma dada fonte,

e a energia transportada pela luz distribui-se continuamente por toda a onda.

A concepção de que a luz propaga-se como uma série de pequeníssimos pacotes de

energia (quantum ou fóton), implica a luz difundir-se, a partir de uma dada fonte, com

uma série de concentrações de energia, cada uma podendo ser absorvida por um único elétron. Essa é a teoria quântica da luz.

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Teoria ondulatória da luz

A teoria ondulatória da luz tornou-se conhecida décadas antes de ser revelada a natureza eletromagnética das ondas. Os pioneiros da óptica consideravam líquida e certa a existência do éter, meio elástico que penetrava em toda a parte e que a luz usava para propagar-se. Maxwell, teoricamente em 1869, e Hertz, experimentalmente em 1887, colocaram em xeque a idéia do éter. Em 1887, também, os americanos Michelson e Morley, supondo, ainda, a

existência do éter (e que a velocidade da Terra ao redor do Sol, isto é, velocidade da Terra pelo éter, é de 30 km/seg), fizeram dois raios solares, perpendiculares entre si, atingirem o mesmo anteparo de observação. Essa foi chamada a experiência de Michelson-Morley e esperava-se, com o deslocamento da Terra pelo éter, que as franjas de interferências dos dois raios fossem diferentes ao chegarem à tela. Mas, contrariando as expectativas, os raios chegaram aditivamente e brilhantes. Tal constatação pôs por terra, definitivamente, o conceito de éter e abriu espaço para a teoria da relatividade restrita, dado que a velocidade da luz no vácuo é a mesma, independente da fonte, do referencial (que seria o éter) e do observador (ou tela). A ausência do sistema universal de referência (denominado, até então, éter) ocasionou o desenvolvimento, por Albert Einstein, em 1905, da teoria da relatividade restrita, que se baseia em dois postulados, quais sejam:

I) as leis da Física podem ser expressas em equações que possuem a mesma forma, qualquer que seja o sistema de referência;

II) a velocidade da luz no vácuo possui o mesmo valor para todos os observadores,

independentemente dos movimentos que fazem entre si. Um dos triunfos da Física moderna é a confirmação experimental desses efeitos, sempre por intermédio das propagações de ondas eletromagnéticas.

4. Física Quântica e Filosofia

Assim como Enrico Fermi, físico italiano, Nobel em 1938, descobridor da fissão nuclear que originou a bomba atômica, declarou-se influenciado por Pietro Ubaldi, defensor da doutrina teológica do monismo, há fortes indícios de que Bohr, físico dinamarquês, sofreu influências do filósofo existencialista Kierkegaard, na

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formulação do princípio da complementaridade, que foi a importante solução de Copenhagen, conjugando características da dualidade onda-corpúsculo.

Einstein, mesmo tendo tido Bohr como auxiliar, opunha-se a essa complementaridade, dado que requeria a introdução da estatística e das probabilidades no meio da Física, para o devido equilíbrio da evidência, entre a realidade e a possibilidade. Einstein afirmava que Deus não joga dados com o Universo. Heisenberg aprofundou a questão, oferecendo um terceiro ponto de vista, qual seja:

- a visão complementar onda/partícula origina-se quando diferentes observações são feitas;

- cada experimento apresenta resultados consistentes, mas os resultados são incompatíveis entre si (estaria o gato morto ou vivo?);

- não há maneira de saber qual a concepção mais fundamental;

- as teorias, em cada caso, devem continuar duais, até porque reina a incerteza. O princípio da incerteza, de Heisenberg, é hoje aspecto comprovado e familiar da Física. Se há grande incerteza na energia de dado sistema, então, essa incerteza só pode existir durante tempo muito curto, curtíssimo.

A dificuldade, a par de ser difícil localizar certas coisas no Universo (do

isqueiro ao elétron, passando pelas chaves de casa e um pé de sapato, por exemplo), é o fenômeno chamado superposição de estados, que ocorre no mundo quântico, até que alguém - o observador - vá constatar o que está ocorrendo, abrindo a caixa; aí, então, a superposição entra em colapso.

O observador, nesse mundo quântico, faz parte da experimentação e o ato de

observar é crítico, pela quebra do estado duplo, no espaço e/ou no tempo, selando o

destino do gato de Schrödinger. Como todos os eventos estão interligados (estaria certo o economista quando diz

que o vôo de uma borboleta, na Nova Zelândia, pode determinar o resultado de uma

há uma corrente de pensamento que assegura que

o Universo é um holograma, interpretado por um cérebro holográfico ou, o que dá na mesma, o cérebro é um holograma ao interpretar o Universo holográfico. Holografia, a propósito, é um instantâneo de fotografia sem lentes e sem foco, no qual o campo ondulatório da luz é registrado na chapa fotográfica como padrões de interferência. O holograma assim montado é esse registro (formado de espirais iguais, sem qualquer significado aparente) e, quando submetido a um feixe de laser (luz coerente, de uma só freqüência), aparece uma imagem tridimensional!

colheita chiapa, no México??

),

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Dado que não há focalização nem lente, qualquer pedaço do holograma - que pode, portanto, ser picado em diversos pedaços - pode reconstruir a imagem inteira. Daí, também, o termo holístico significar a totalidade ou a inteireza do objeto sob estudo: o todo contém a parte e a parte contém o todo!

Poderiam as leis físicas mais importantes serem descobertas por uma ciência que se esforça por dividir o mundo em várias partes? Asseguram alguns pesquisadores que a matéria-prima do Universo é a matéria-

prima da mente humana. Ouvidos e sistema nervoso acústico

(re)constroem o som para que seja percebido no cérebro, em um local que se sabe ser impossível de produzir esse dado som(?). Qual seria a realidade: a aparência recebida ou o evento físico que gerou aquela aparência? O cérebro analisa no domínio da freqüência; nas sinapses entre neurônios, e não dentro deles. Tempo e espaço entram em colapso no domínio das freqüências, que está relacionado com o domínio imagem/objeto. Como o domínio holográfico está, também, correlacionado com o domínio imagem/objeto, implica as operações mentais

refletirem a ordem básica do Universo.

No início do desenvolvimento da Física Quântica reconheceu-se que o princípio da incerteza, de Heisenberg, tinha relação direta com a questão filosófica do livre-arbítrio. Até mesmo o espaço entre os neurônios está na grandeza diminuta da faixa quântica. As possibilidades de erro e de ilusão são múltiplas e permanentes: as advindas do exterior cultural e social inibem a autonomia da mente e impedem a busca da verdade; as oriundas do interior, às vezes, imersas nos próprios conhecimentos do observador, causam equívocos nas mentes

O progresso é certamente possível, mas é incerto e há incertezas por toda parte. A realidade do gênero humano deriva da sua idéia de realidade. Importa, por conseguinte, compreender a incerteza do real e saber que há algo possível ainda invisível no real. Cumpre dizer, em defesa da extrema necessidade de postura positiva diante do futuro, que cabe à educação armar cada um para o combate vital, rumo à lucidez. Seja qual for a realidade, a evolução do pensamento humano deve continuar buscando a compreensão do mundo, mesmo que tenha de combinar sujeito (o próprio ser humano) e objeto ( o mundo a sua volta). Ou, também, que tenha de refutar todas as teorias até hoje válidas

humanos,

Isso está de acordo com a teoria quântica.

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5. Refutações

Mas refutar não é trivial Estaria a humanidade refém das teorias científicas, dado que suas respectivas refutações demandariam aparato igual ou superior, com ônus igual ou superior? A compreensão do mundo passa pelo entendimento dos paradigmas que, segundo Kuhn, a despeito de ser conjunto de suposições, são quase exclusivamente intelectuais e estão conectados ao relativismo da natureza da evidência. Einstein afirmou que o melhor destino para uma teoria seria o de indicar o caminho para teorias mais abrangentes, onde a primeira continuaria a viver como uma situação limítrofe. A teoria da relatividade, de Einstein, do início do século XX, firmava um paradigma gravitacional capaz de afetar a própria luz, o que causou incredulidade. Ou seja, a luz também deveria ser atraída pelos corpos celestes de muita massa. E isso foi comprovado, em 1919, por Eddington, ao observar a luz ser atraída pelo Sol, durante um eclipse. Tais evidências foram irrefutáveis Popper assegura que o critério que define o estado científico da teoria é sua capacidade de ser testada ou refutada. A partir daí, então, ele tece as seguintes considerações sobre as teorias:

1.

é

fácil

obter-se

confirmações

ou

verificações

para

quase toda teoria,

desde que se

procure;

 

2.

as confirmações

só devem ser consideradas se resultarem de predições

arriscadas;

ou

seja, caso haja dúvidas quanto à teoria em questão, espera-se acontecimento incompatível capaz de refutar a teoria;

3.

toda teoria científica

boa

é

proibição, dado que:

proíbe

certas

coisas de acontecer;

quanto mais proíbe melhor é a teoria;

 

4.

a teoria que não for refutada por qualquer

evento

concebível,

não

é

científica;

a

irrefutabilidade, diferentemente do que se pensa, não é virtude, mas vício;

 

5.

todo teste genuíno da teoria é tentativa de refutá-la; a possibilidade de testar-se

implica igual possibilidade de demonstrar-se sua falsidade; a despeito disso algumas teorias são mais expostas às refutações do que outras;

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6.

a evidência confirmadora só deve ser considerada se resultar de teste genuíno da teoria

em questão;

7.

algumas teorias genuinamente testáveis continuam a ser sustentadas por admiradores,

quando se revelam falsas; para sustentá-las seus admiradores desdobram-se em adicionar suposições auxiliares, “novas” reinterpretações, em flagrante operação de salvamento, contra a refutação, pagando o preço do aviltamento ou destruição do seu padrão científico.

A verdade aristotélica não pressupõe relações com conhecimento. Daí, então,

usarem-se os termos verificada ou refutada para rotular-se, respectivamente, a prova de dado enunciado caso “verdadeiro” ou “falso”. Logo, uma afirmação verificada é necessariamente verdadeira, ainda que outra afirmação possa ser verdadeira sem estar provada; da mesma forma uma afirmação refutada é necessariamente falsa, mesmo que uma outra possa ser falsa sem que tenha sido refutada. O estado do gato de Schrödinger é tipicamente um vazamento de informação, isto é, a observação da caixa tem um papel crítico dado que a transmissão física dessa informação causará o colapso da superposição de estados. Mas e se não ocorrer nunca a observação? E se tudo continuar, como até agora, completamente isolado do mundo exterior? Schrödinger criou essa prova ou essa evidência não comprovada para mostrar que

O que se verificou na Física foi a postura

há algo de errado na teoria quântica derrotista de que é assim que as coisas são!

Neste ponto, ademais, seria lícito reinvocar a consciência para enquadrar a espécie humana como o maior de todos os mistérios. Aliás, enquanto a consciência é individual o pensamento é coletivo! A percepção limitada do ser humano tende a organizar tudo de forma dicotômica e por oposição, como sejam: luz e trevas, macho e fêmea, ricos e pobres, frio e quente, bem e mal etc. Daí dizer-se que existe uma tensão bipolar na natureza, entre tendências criadoras e destruidoras.

Se, de um lado, a natureza ignora qualquer dimensão moral e está alheia ao que

o homem polariza como criação ou destruição, por outro lado, é fácil comprovar-se a evidência de que a figura de Einstein é ponto de partida e de chegada para o entendimento pleno de teorias que cruzam o campo científico e adentram ao campo filosófico, e vice- versa.

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A consciência multidimensional de Einstein, posta em xeque para explicar um simples aspecto da natureza, tal como a trajetória do raio de luz, talvez tenha limitações, de ordem tempo-espaço, para traduzir todo o fenômeno em linguagem natural. O próprio Einstein, enquanto figura com dimensão cósmica, torna-se poderoso impeditivo para a refutação da teoria. Mas é um mote perfeito para a conclusão

7. Conclusões

Vale perguntar: como um físico isolado da comunidade científica, trabalhando em simples repartição burocrática de patentes, como é o caso de Einstein, em um único

ano (1905), laborando em condições precaríssimas, pode editar seis trabalhos de níveis nunca imaginados? Perguntas aparentemente sem respostas merecem todos os esforços no sentido de se tentar respondê-las, consciente de que muitas respostas serão colhidas ao longo desse caminho, de vez que a resposta final não é única.

A ciência está inserida no círculo dos questionamentos mais profundos do indivíduo e

há que se cultivar a idéia de incompletude para que o anseio de criar/destruir teorias,

bipolarização humana repleta de condições morais, ganhe componentes estáveis e serenos até para que a demolição de uma dada teoria não se verifique por ruptura ou salto

descontínuo. Assim como Gregory J. Chaitin, da IBM americana, evidenciou que há afirmações que ultrapassam a capacidade da própria Matemática de demonstrá-las, o estado da arte da Física pode estar atingindo a área limítrofe da incompletude, na qual o potencial epistemológico acumulado é insuficiente para a demonstração das evidências. E o gato permanece vivo e/ou morto! Só chegou até aqui, neste ensaio, e desfrutou de seus conceitos turbilhonários, aquele que gosta de ciências. E, portanto, compõe uma minoria.

É possível

Mas, o que seria a vida sem TV, Internet, aviões, celulares etc? adivinhar um futuro com tal sofisticação que os robôs terão conduta humana

Qual a diferença entre conhecimento e sabedoria? O homem normal médio, da realidade imediata das ruas, afinal, deve crer nas afirmações dos cientistas?

A ciência assusta, mas a ignorância gera o medo. Nas mãos da ignorância, a

ciência torna-se monstruosa. (Cumpre enfatizar que a tradução da palavra “Bush”,

em inglês, não significa “apocalipse” nem “armagedom”

).

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Submetida à eterna bipolarização do bem e do mal, apenas presente nas consciências humanas, a ciência subjuga os humanos com suas progressivas amenidades e confortos e, por outro lado, ameaça com armas locais e globais de destruição. O lado luz e o lado sombra da ciência refletem o padrão moral que o próprio homem introduziu (já que a natureza e seus fenômenos são amorais); a sabedoria reside em saber-se o que fazer com o conhecimento adquirido. O conhecimento é aventura incerta que traz em seu próprio bojo o risco de ilusão e de erro. A realidade, enquanto objeto do homem, não é facilmente legível. As idéias e

teorias não refletem e, sim, traduzem a realidade; essa tradução pode ser errônea dado que a realidade, de fato, é a idéia humana da realidade! Corpo, onda, partículas, corpúsculos, refrações, são idéias! O caminho, por si só, usado para comprovações de fenômenos ondulatórios e/ou corpusculares da luz, tem promovido a felicidade dos homens, mercê das amenidades e confortos consumistas trazidos pelo avanço científico.

as respostas

encontradas ao longo da busca são tão ou mais importantes do que a resposta final, que certamente virá. Dado o volume de benefícios trazidos, mesmo com a aparente incompletude das teorias.

Isso pode ser dito ou lido de outra maneira, como seja:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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