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CLC – Cultura, Língua e Comunicação

Catarina Fernandes

Auto-Biografia
No ano de 1989, mais
especificamente dia 3 de Agosto de
1989, quando ainda governava Mário
Soares, nasci eu, Carla Sofia Sousa De
Oliveira Reis, no Hospital Conde Castro
de Guimarães, em Cascais. Pesava
3,750kg, media 48cm e era
completamente carequinha.
O dia do meu nascimento deixou
a minha família toda alegre, isto claro,
pelo que sei. Eu fui o chamado
acidente de percurso, a minha mãe tinha acabado de fazer 40 anos e
o meu pai também.
Com o tempo fui crescendo e tornando-me numa criança, que
até se pode dizer bem comportada. Tinha o vício de quando não me
deixavam fazer as coisas de bater com a cabeça na parede, e agora
não se sabe se pode ter sido isso a causa das crises de enxaquecas
que tenho.
Neste ano, pela minha mãe me conta houve algumas alterações
no nosso país e no Mundo. Em Portugal, criou-se freguesias de
Zambujeira do Mar e Fradelos, e ainda a freguesia do Eixo recuperou
o seu estatuto de Vila. Já no Mundo, George H. W. Bush foi eleito como
o 41º presidente dos Estados Unidos da América, a retirada da União
Soviética do Afeganistão, a queda do Muro de Berlim, Fernando Collor
de Mello é eleito presidente do Brasil e mesmo no final do ano
explode a Revolução Romena de 1989.
A minha infância foi completamente normal até aos meus nove
anos. Aí vi-me numa situação que nunca pensei estar. Quando tinha à
volta de sete anos o meu pai foi despedido do emprego e muito

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rapidamente encontrou outro mas teria de ir para Angola trabalhar, e


foi o que ele fez. Ele vinha de 6 em 6 meses ver a família, mas já não
estava o mesmo, andava frio, distante, estranho…
Em 1998, meu pai veio de Angola para vir passar o meu
aniversário, e voltou ainda mais estranho. Sempre agarrado ao
telemóvel, por vezes saia e não dizia onde ia, não queria ninguém a
fazer-lhe festas… Com isso a minha mãe começou a desconfiar do
meu pai, de uma possível traição. No meu dia de anos acordei com a
minha mãe e a minha irmã a chorarem, a primeira coisa que me
ocorreu foi que a nossa cadelinha que já estava velhinha tivesse
morrido, quando vi que não era isso perguntei à minha mãe o que se
estava a passar, mas ela não me quis explicar e fechou a porta do
quarto. Eu como era e sou uma menina muito curiosa meti-me atrás
da porta e ouvi-as a falar de uma tal carta que estava na mala do
meu pai, de uma mulher para ele. Nesse momento o meu pai chegou
a casa, viu a minha mãe a mexer-lhe nas coisas e começaram a
discutir… Os meus país não ficaram bem, mas mesmo assim fizeram-
me a festa de anos, mas estava um ambiente tão estranho…
Os meus anos passaram-se, um mês também passou e nunca
mais se ouviu aquele assunto.
No dia 29 de Setembro de 1998, acordei como tantos outros,
para ir para a escola. A rotina estava completamente normal, o meu
pai deixou a minha mãe no trabalho, combinou com ela e comigo
irmos depois de eu sair comprar a máquina de lavar loiça, e deixou-
me na escola. Era 13:30, esperava pelo meu pai no portão da escola,
mas ele não estava, estava a minha irmã e a minha cunhada,
perguntei-lhes pelo pai, se íamos comprar a máquina de lavar loiça, e
elas disseram que já me explicavam, seguimos no carro até nossa
casa. Quando entro em casa, tinha a minha mãe no sofá a chorar, e o
meu irmão ao pé dela, perguntei pelo pai, e ele disse-me “vai ao
armário Carlinha”, eu fui e as coisas do meu pai tinham desaparecido
todas, perguntei “O pai voltou para Angola?” e ele “Não Carlinha o pai
saiu de casa, não sabemos nada dele”. Entrei em choque não sabia o

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que fazer, minha mãe a chorar, os meus irmãos provavelmente a


sentirem a mesma dor que eu…
No dia a seguir, a minha mãe foi para pagar a renda da casa, e
descobriu que o meu pai lhe tinha levado o dinheiro quase todo,
estávamos apenas com dinheiro para a renda e sem dinheiro para o
resto. A ajuda do meu irmão e o sacrifício da minha irmã em deixar os
estudos, os sonhos dela, para ajudar a minha mãe foi o que nos
sustentou durante algum tempo. A minha mãe também trabalhava e
o dinheiro dela com o da minha irmã dava para as despesas da casa,
o meu irmão dava-me todo o que necessitava para a escola (material
escolar), porém com o dinheiro que tínhamos era impossível
continuarmos a viver na casa onde vivíamos, por isso tivemos que
nos mudar para uma casa mais barata. Nunca me faltou nada, e isso
devo a eles… À minha família que se “esfolava” para nunca me faltar
nada.
Desde da saída do meu pai de casa, que não tive muito
contacto com ele… Nunca mais quis saber de mim, telefonava-me
uma vez por ano e falava comigo como nada fosse. Sei que tenho um
irmão de parte de pai, mas não o conheço.
Esses anos sem o meu pai foram muito complicados para mim,
perdi alguém que amava e via a destruição da minha mãe sem puder
fazer nada. A minha mãe era apenas uma alma que andava na Terra
para não me faltar nada, ela perdeu tudo, a auto-estima, o gosto pela
vida, ela amava mais o meu pai do que se amava a ela própria, foram
muitos anos ao lado dele. Durante vários anos corri imensas
psicólogas, mas nenhuma me tirava a dor que sentia, por isso
comecei a refugiar-me nos estudos… Estava sempre a estudar, não
saia com ninguém para estudar! Estava isolada… Sozinha no meu
Mundo. Entretanto comecei a sentir-me mal, a desmaiar, e fui ao
médico, fiz vários exames, e a minha médica de família mandou-me
para o neurologista, foi aí que descobriram as minhas enxaquecas
crónicas. Tive que ser seguida durante alguns anos pelo neurologista,
mas ficou tudo bem, ele consegui controla-las.

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Um dia em minha casa estava a limpar o pó o meu irmão entra


pela casa todo contente, e conta que a minha cunhada está grávida,
ficamos todos felizes, eu ia ter um sobrinho! Mas essa alegria durou
pouco tempo, logo na primeira ecografia o médico diagnosticou uma
anomalia no feto, e a minha cunhada teve mesmo que abortar,
levaram o feto para examinarem e viram que era um menino, era o
Rodrigo.
Passados uns anos a minha irmã começou a namorar, e eu não
gostava nada do namorado dela, ele roubava-me a atenção que ela
me dava antes. Depois de 3 anos de namoro decidiram casar, a
minha cunhada já estava grávida outra vez e desta vez estava tudo
bem! Era uma menina Catarina. Meses antes do casamento da minha
irmã se casar ela descobre que estava grávida, acabando por adiantar
a data de casamento.
No dia do casamento dela, estava eu mais nervosa que ela, eu
sentia as minhas pernas todas a tremer, e minha irmã ainda gozava
comigo! Foi um dia lindo, ela estava linda e feliz também.
No ano de 2002, em Maio nasce a Catarina e em Outubro nasce
a Mariana. Duas meninas lindas. Andávamos todos babados com as
bebés, era nova geração…
Os anos passaram e agora estamos em 2009, as minhas
meninas estão com sete anos e nasceu mais um elemento novo para
a família, a Beatriz. As mais velhas estão na escolinha no primeiro
ano, e estão-se a sair muito bem. A minha mãe fez 60 anos, e aos
poucos está a recuperar as coisas todas que perdeu quando o meu
pai saiu de casa, os meus irmãos estão felizes com a vida que têm, e
eu… Eu consegui comprar uma casa para mim e para a minha mãe,
ingressei para o curso de técnica de contabilidade, mas não quero
parar por aqui, um dia ainda quero ser TOC, também ando a tirar a
carta, e tenho tudo mas mesmo tudo para ser feliz (saúde, família,
amigos, trabalho, escola…)!
Sou uma das pessoas mais SORTUDAS DO MUNDO!!!

Carla Reis
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Catarina Fernandes

Da esquerda para a
direita Beatriz, Patrícia
(Mana), Mariana, Tiago

Susana e Ricardo
(Mano)

Catarina

Mariana

Carla Reis
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Beatriz

Mãe

Pedro e Cláudio (Amigos)

Carla Reis
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Hugo e Catarina
(Amigos)

Tiago, Filipe, Nuno, João,


Mariana e Inha (Amigos)

Tiago, Marta, Pedro,


Filipe, Nuno, Lúcia,
João, Inha e Zé
(Amigos)

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