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Capítulo IV REGIME TRANSITÒRIO

1. Método de cálculo de Rosich

1.1

Introdução

O golpe de aríete em hidráulica surge quando ocorre um regime transitório, é

assim designado devido ao ruído que se gera durante este evento e ás reper- cussões catastróficas que por vezes acontecem.

Desde o fim do século IX e durante e século XX vários cientistas eminentes tais como: Michaud, Jouguet; Joukowski, Allievi, Sparre, Bergeron, John Par- makian, Mendiluce Rosich, Edmund Koelle, Fox, Victot Streeter, Wylie Benja- min, Betâmio de Almeida, etc dedicaram-se ao estudo deste tipo de evento e desenvolveram diversos métodos de cálculo.

O processo de cálculo desenvolvido por Enrique Mendiluce Rosich é de sim-

ples aplicação e permite com alguma certeza avaliar as consequências que poderão advir em regime transitório em condutas simples.

Até ao momento da publicação do trabalho prático de Rosich tinham sido publicados muito poucos trabalhos que relacionavam a teoria com a prática, os quais fizeram parte da publicação “ETUDE THÉORIQUE ET EXPÉRIMENTA- LE DES COUPS DE BÉLIER” DUNOD 1918.

Devido ao aumento da dimensão dos abastecimentos de água a partir da década de 50 do século XX, com uma intensificação das alturas de bombea- mento e do diâmetro das condutas, devido ao aumento exponencial do consu- mo de água quer nas cidades, nos meios rurais, na agricultura e nas indus- trias, os acidentes devidos ao choque hidráulico tornaram-se frequentes. Como os trabalhos publicados até ao momento eram quase exclusivamente teóricos, sem uma componente prática que verificasse a teoria com a experimentação no campo, pelo que a desorientação reinava em gerações sucessivas de téc- nicos, que com os poucos métodos de cálculo disponíveis, tinham dificuldades de abordar este problema.

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Rosich após 25 anos de actividade profissional no domínio da instalação de condutas elevatórias e com a responsabilidade técnica de várias condutas ele- vatórias submetidas ao choque hidráulico, desenvolveu nos anos 60 do século passado, um sistema de cálculo simplificado baseado em investigações teóri- cas e práticas, bastante preciso para a análise do comportamento de sistemas de bombeamento com uma conduta elevatória simples.

1.2 Explicação física do fenómeno

Se numa conduta circula água a uma determinada velocidade e se interrompe o fluxo por intermédia de uma válvula, é evidente que a velocidade de escoa- mento anular-se-á junto á válvula, o restante líquido comprimirá por camadas a camada precedente até á anulação da velocidade de escoamento. A água comporta-se como os passageiros de um autocarro que se comprimem sempre que á uma travagem brusca.

Considerando que a água é compressível, o aumento de pressão inicia-se na zona da válvula e desloca-se até á origem, á medida que a água comprime até ao limite a camada que a precede, pelo que podemos imaginar uma onda de compressão máxima, que tem origem na zona da válvula e desloca-se até á fonte.

Mas neste momento a energia cinética responsável pela compressão é anula- da, pelo que tem início uma descompressão, junto á fonte que se desloca em direcção à válvula e pela lei pendular a descompressão não para no valor de equilíbrio, mas atinge um valor inferior, para reproduzir o ciclo.

Por consequência, o fecho de uma válvula, origina uma onde de compressão, que se desloca da válvula até à fonte, onde se transforma numa onda de des- compressão que reflecte-se até à válvula para se repercutir novamente trans- formando-se numa onda de compressão, repetindo ao longo da conduta o ciclo, originando variações ondulatórias de pressão conhecidas por choque hidráulico ou golpe de aríete.

Se compararmos a água com uma mola compreendemos melhor o fenómeno.

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Num bombeamento, a paragem brusca dos grupos electrobomba, produz a mesma variação de pressão mas de sinal contrário, ou seja tem lugar uma depressão a seguir á bomba que se dirige até ao reservatório de extremidade aonde se transforma numa compressão, que retorna às bombas.

Para se perceber o evento podemos compará-lo com uma composição em que a máquina empurra três carruagens, em que as ligações entre carruagens representam a compressibilidade da água.

entre carruagens representam a compressibilidade da água. Momento: Figura 1.1 - Comparação com o movimento de

Momento:

Figura 1.1 -

Comparação com o movimento de carruagens

a) Representa o regime estacionário em que a locomotiva empurra as car- ruagens, em que a compressão das ligações aproxima as carruagens entre si.

b) A locomotiva interrompe a marcha e a ligação com a primeira carrua- gem, é tencionada ao máximo.

c) Momento em que se segue o afastamento da segunda carruagem,

d) Segue-se por sua vez o mesmo com a terceira carruagem.

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e) Após todas as carruagens estarem totalmente tencionadas entre si segue-se um processo de compressão que termina em g).

Num bombeamento, quando há uma paragem brusca do grupo electrobomba, a água continua o seu movimento, criando uma quebra de pressão, até que toda a energia cinética se anule e o processo se inverta, junto á extremidade da conduta.

e o processo se inverta, junto á extremidade da conduta. Figura 1.2 - Movimento das ondas

Figura 1.2 -

Movimento das ondas de pressão devidas á paragem de um gru- po electrobomba, num sistema bomba, conduta e reservatório

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1.3 Equações utilizadas

1.3.1 Equação de Allievi

No começo do século XX, Allievi na continuação dos trabalhos de Joukowski (Memó- rias da academia das Ciências de Pétograd 1918) estabeleceu a notável teoria geral do golpe de aríete (Revista de Mecânica. Janeiro e Março de 1904), em que demonstrou que em caso de operações bruscas, ou seja quando o valor da sobrepressão for indepen- dente do comprimento da conduta, o seu valor poderá ser calculado por:

H

====

a

v

g

 

H

=

onda de pressão

a

=

celeridade da onda de pressão

 

v

=

velocidade de escoamento

 

g

= aceleração da gravidade

 

1.3.2

Equação de Michaud

 
 

H

====

2 L v

 

g T

 

L

=

Comprimento da conduta elevatória

T

= Tempo de paragem

 

Para dedução da equação, o seu autor desprezou a compressibilidade da água e a elasti- cidade das paredes da conduta, considerando a variação linear da velocidade durante o tempo de manobra.

A equação de Michaud tem o mesmo valor da de Allievi quando:

H

====

a

v

g

====

2

L v

g T

⇒⇒⇒⇒

T

2 L

====

a

a T

2

medida a partir do reservatório de extremidade

os valores da onda de pressão calculados por ambas as equações são iguais. A linha de sobrepressão crescente representativa do período de paragem tem lugar entre o reserva- tório e este ponto, a partir do qual é traçada uma recta horizontal de sobrepressão cons- tante. O comprimento l designa-se por comprimento crítico e o ponto de coincidência

Ou seja num ponto á distância

l ====

tem o nome de ponto crítico.

1.3.3 Domínio de aplicação das equações

Quando

T >>>>

2 L

a

aplica-se a equação de Michaud

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Capítulo IV REGIME TRANSITÒRIO Figura 1.3 - Representação gráfica da linha de pressão máxima em condutas

Figura 1.3 -

Representação gráfica da linha de pressão máxima em condutas curtas

Quando

T <<<<

2 L

a

aplica-se a equação de Allievi

<<<< 2 L a aplica-se a equação de Allievi Figura 1.4 - Representação gráfica da linha

Figura 1.4 -

Representação gráfica da linha de pressão máxima em condutas longas

1.4 Aplicação da equação de Allievi

Aplica-se a equação de Allievi quando o comprimento da conduta elevatória, é superior a metade do percurso da onda de choque, durante o tempo de paragem, ou seja:

L >>>>

a T

2

A utilização destas equações pressupõe o cálculo do valor da celeridade a, que coincide com a velocidade de propagação do som no meio material da conduta água que se determina de uma forma simplificada por:

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a ====

9.900 k D 48,3 ++++ e
9.900
k D
48,3 ++++
e

D

= Diâmetro da canalização em m

e

= Espessura das paredes da tubagem em m

k

= 0,5 para condutas de aço e betão armado

= 1 em tubos de ferro fundido dúctil

= 5 tubos de betão simples

= 10 tubos de plástico (PVC, polietileno)

1.5 Cálculo do tempo de anulação do escoamento

Na teoria geral do choque hidráulico, o tempo T, é o intervalo de tempo de manobra de uma válvula quer seja a abrir total ou parcialmente, quer seja a fechar nas mesmas condi- ções. È durante este período de tempo que tem lugar o regime transitório.

No caso da paragem intempestiva de um grupo electrobomba, o tempo T tem início no momento do corte de energia e termina no instante em que o caudal se anula ou seja quando a velocidade de escoamento é nula.

Para a determinação do valor de T para os grupos electrobomba temos de considerar os principais agentes responsáveis pela anulação do caudal, que são:

Energia cinética

Gravidade

As perdas de carga por atrito

Inércia do grupo

Comparando o bombeamento com um móvel impulsionado de uma forma ascendente num plano inclinado, pode mos estabelecer uma equação correspondente ao equilíbrio das três formas de energia:

i) Energia cinética

E

C

====

1

2

m v

2

ii) Energia potencial

====

1

1.000

D

2

2

4 g

L v

2

====

1.000 Q L v

2 g

kgm

Supondo uma anulação linear de caudal de Q até 0, durante o período de tempo T, a energia será:

E P

====

1.000 H Q T

2

kgm

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iii) Energia para vencer o atrito

E A

====

1.000 J Q T

4

kgm

Igualando a energia cinética á potencial e de atrito, obtém-se a expressão:

T ====

L v

g   H ++++ 

J  



2

Como as perdas de carga em geral são muito inferiores ao desnível geométrico pode igualar-se o termo entre parênteses á altura manométrica H m simplificando-se a expres- são.

T ====

L v

g H

m

Esta expressão desenvolvida por Rosich com base num raciocínio lógico foi por si verifi- cada experimentalmente.

Após um estudo aturado das diferenças entre os valores obtidos no campo e os determi- nados pelo cálculo, Rosich introduziu factores correctivos, para que as diferenças fossem de tal forma, que os resultados experimentais fossem bastante próximos dos teóricos.

Finalmente Rosich propôs uma equação que permite determinar com uma aproximação notável o tempo de anulação de caudal de um grupo electrobomba devido a paragem com válvula aberta:

T ==== C ++++

k

L v

g

H

m

A equação válida para velocidades de escoamento superiores a 0,5 m/s, considera direc-

tamente a energia cinética desenvolvida pelo grupo para colocar a água em movimento, o corte de energia, a acção da gravidade e as perdas de carga.

O coeficiente k representa o efeito da inércia do grupo electrobomba e o seu valor foi

determinado experimentalmente, em que se verificou que varia com o comprimento da conduta elevatória.

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Capítulo IV REGIME TRANSITÒRIO Figura 1.5 - Variação do valor de k com a extensão da

Figura 1.5 -

Variação do valor de k com a extensão da conduta elevatória.

A relação inversa do valor de k com o comprimento da conduta é lógica, pois com o aumento de k, a relação entre a energia cinética e o momento de inércia do grupo para a mesma altura manométrica é constante, pelo que existe um ponto para além do qual o efeito do aumento do comprimento da conduta é desprezável, nomeadamente quando o valor da energia cinética for elevado.

Quando se diminui a extensão da conduta, a energia cinética diminui relativamente á inércia do grupo e por esta razão o valor de k tende a aumentar. Para condutas com comprimentos muito reduzidos, o k pode atingir o valor de 2, a partir deste ponto o cál- culo do regime transitório já não tem qualquer sentido, porque o seu valor é muito baixo.

O coeficiente C é função do declive médio da altura manométrica:

Declive (%) ====

H

m

L

L

da altura manométrica: Declive (%) ==== H m L Figura 1.6 - Variação do valor de

Figura 1.6 -

Variação do valor de C com o declive da conduta elevatória.

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Para condutas com um declive inferior a 20 %, o valor de C = 1.

Para os declives compreendidos entre 20 e 40%, o valor de C reduz-se progressivamente até anular-se.

Para declives superiores a 50% deve utilizar-se a equação de Allievi, em todo o percurso da conduta.

Na equação podem assumir-se os seguintes valores:

De k :

Para

L

<

500

m

k = 2,00

L

500 m

k = 1,75

500 m < L < 1.500 m

k = 1,50

L

1.500 m

 

k = 1,25

L

> 1.500 m

k = 1,00

De C :

Para Declive < 20 %

C = 1,00

 

30 %

C = 0,50

40 %

C = 0,00

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EXEMPLO 1

Considere uma conduta elevatória em ferro fundido dúctil DN 400 (e = 9,0 mm), com uma extensão de 1.050 m, com um desnível geométrico de 49,2 m e um caudal de 75 l/s (v = 0,60 m/s), em que a perda de carga é de 0,77 m/km.

EXEMPLO 2

Determine a pressão máxima em regime transitório de um sistema formado por grupo

electrobomba caudal 76 l/s, conduta elevatória de aço D ext = 323,85 mm e espessura da

parede e = 12,7 mm, um comprimento de 3.727 m e uma perda de carga de 11,2 m, e um

reservatório com um desnível geométrico de 146 m relativamente ao nível de aspiração.