Você está na página 1de 13

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS – CCJ


INFORMÁTICA JURÍDICA

Os Tempos Hipermodernos – Resenha

Victor Cavallini

Florianópolis – SC
2009

RESENHA DO LIVRO “OS TEMPOS HIPERMODERNOS”, DE


GILLES LIPOVETSKY COM SÉBASTIEN CHARLES
2

- Informações técnicas:
LIPOVETSKY, Gilles e CHARLES, Sébastien. Os Tempos
Hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004. 129 p.

1. Prefácio – Por Pierre-Henri Tavoillot:

Gilles Lipovetsky, desde seu primeiro livro (A era do vazio – 1983),


marcou profundamente a interpretação da modernidade, explorando as múltiplas
facetas do indivíduo contemporâneo. Ele, em sua obra, supera o antagonismo
tradicional entre os antigos e os modernos, bem como a concepção “de uma
racionalidade para a qual existem não mais fins, e sim apenas meios” (p. 8).
Lipovetsky apresenta uma visão paradoxal do nosso presente,
demonstrando que não há apenas uma ascensão do materialismo e do cinismo, mas
também um reinvestimento em certos valores tradicionais, se opondo aos valores
individualistas cada vez mais presentes e fortes.
“Neste livro, escrito em colaboração com Sébastien Charles,
Lipovetsky fala de sua trajetória intelectual e das diferentes etapas de seu
trabalho; mas oferece também uma contribuição fundamental para sua
própria interpretação da "segunda revolução moderna", dedicando-se pela
primeira vez a descrever os traços mais característicos daquilo que, para
melhor ou pior, a "hipermodernidade" nos reserva.” (p. 9)

2. O individualismo paradoxal: Introdução ao pensamento de Gilles


Lipovetsky – Por Sebástien Charles

Desde a antigüidade, a condenação do presente era a crítica


mais comum apresentada pelos escritores, poetas e filósofos. Seja pela
perspectiva da decadência, onde o passado era o lócus das virtudes e da
felicidade e o presente era a conseqüência de uma grave degeneração
daquele, presente na concepção de Platão e outros pensadores antigos
como no mundo cristão, bem como na perspectiva moderna, onde não
mais o passado, e sim o futuro seria o lócus da felicidade vindoura –
otimismo que caracteriza a filosofia das luzes – a ser atingida através do
desenvolvimento e conquistas da ciência, o presente era visto como algo a
ser superado.
No entanto, em virtude das catástrofes presenciadas pelo século
XX, tanto o passado quanto o futuro acabaram desacreditados, surgindo a
tendência de supervalorizar o presente, o hoje. No entanto Gilles mostra
que as coisas não são assim tão simples, porque a consagração do
presente não é tão evidente e porque as críticas feitas a essa consagração
passam por cima do essencial. Lipovetsky se preocupa em analisar
3

sempre os dois aspectos do real, possibilitando uma análise mais


detalhada dos fenômenos do mundo.

2.1. Da modernidade à pós-modernidade: o abandono do universo


disciplinar

A crítica mais feita à modernidade é a de que ela não conseguiu


atingir a autonomia prometida pelas Luzes, dando lugar a uma verdadeira
subjugação, burocrática e disciplinar. Focault afirmava que essa disciplina
imposta produzia uma conduta normatizada e padronizada, submetendo os
indivíduos a uma fôrma idêntica. Lipovetsky, distanciando-se desta
concepção ao mesmo tempo em que Focault ainda fazia das disciplinas o
princípio de inteligibilidade do real, anuncia que havia se entrado numa
sociedade pós-disciplinar (pós-modernidade) e encarando-a pelo domínio
da moda (que permite também uma análise fora da luta de classes).
Essa lógica da moda tem origem nas rivalidades de classe, mas
estas não podem ser o princípio explicativo das variações incessantes da
moda. As variações derivam de novas valorações sociais ligadas a uma
nova posição e representação do indivíduo frente à sociedade. É uma
valorização da renovação das formas, a valorização do novo em
detrimento do passado. Essa lógica da moda estendida ao corpo social
que permitiu a emergência do mundo pós-moderno, onde a normatividade
não se impõe mais pela disciplina, mas pela escolha e pela
espetacularidade, que permitiu realizar os ideais das luzes; entretanto, de
forma que os mecanismos de controle não aparecem, por estarem
adaptados.
Essa pós-modernidade se mostra paradoxal na medida em que é
dupla: valoriza a autonomia (maior tomada de responsabilidade) e
aumenta a independência (maior desregramento). De um lado o
compromisso, autocontrolar-se, de outro, deixar-se levar.
“(...) se a obra de Lipovetsky propõe uma visão da pós-
modernidade mais complexa e menos unívoca, (...) isso não se dá para
enaltecer nosso presente, mas para sublinhar os paradoxos essenciais e
apontar a ação paralela e complementar do positivo e do negativo” (p. 22)

2.2. Da pós-modernidade à hipermodernidade: do gozo à angústia

A pós-modernidade se caracterizava como o momento histórico


em que os freios institucionais que se opunham à emancipação individual,
dando lugar às manifestações de desejos individuais subjetivos, e o âmbito
social passa a ser um prolongamento do privado. O que possibilitou a
passagem da modernidade à pós-modernidade foram o consumo de
massa e os valores que ele veicula.
A sociedade hipermoderna seria a sociedade da hipervalorização
das sensações íntimas, do hipernarcisismo, onde os paradoxos da
4

modernidade se exibem às claras. Está muito presente a dicotomia


responsável-irresponsável: “Os indivíduos hipermodernos são ao mesmo
tempo mais informados e mais desestruturados, mais adultos e mais
instáveis, menos ideológicos e mais tributários das modas, mais abertos e
mais influenciáveis, mais críticos e mais superficiais, mais céticos e menos
profundos.”. (p. 28)
O indivíduo hipermoderno se encontra inquieto, corroído pela
ansiedade, não mais gozando o presente como se não houvesse amanhã,
e sim se cuidando no presente para chegar bem ao amanhã. Ou seja,
pode-se tudo, mas o indivíduo faz apenas o que não apresenta perigo.

2.3. A perda do sentido e a complexidade do presente

“A era do hiperconsumo e da hipermodernidade assinalou o


declínio das grandes estruturas tradicionais de sentido e a recuperação
destas pela lógica da moda e do consumo.” (p. 29)
A lógica da moda passa a se impor sobre e superar os discursos
ideológicos. Esses discursos não mais limitam ou impõem resistência, bem
como as antigas restrições culturais e estruturais, à lógica do consumo, o
que permite que a vida social e individual se organize em torno dela. Essa
hipermodernidade chegou permitindo que o domínio do consumo se
estendesse ao máximo, com todas as tecnologias de transmissão de
informação existentes. Assim, os indivíduos se encontram livres, capazes
de exercer o livre arbítrio, de informar-se, de escolherem os seus próprios
sistemas ideológicos; no entanto esses sistemas ideológico-espirituais de
restrição continuam presentes, porém não mais se valendo da imposição,
mas sim da argumentação, sendo também endossados pela opinião
pública. A diferença é que hoje há liberdade de escolha.

2.4. Onipotência da lógica consumista?

O mundo do consumo parece estar avançando cada vez mais na


vida da sociedade hipermoderna, os seus valores e princípios estão
impregnados nas vidas das pessoas, e apesar das críticas não se
consegue propor nenhum contramodelo crível. Nem a religião e os valores
culturais tradicionais escapam dos valores hipermodernos; a
hipermodernidade está constantemente reciclando o passado, reutilizando
o que pode gerar prazer para alguns. No entanto, nem tudo pode ser
reciclado segundo a lógica do consumo: a preocupação com a verdade ou
com o relacional, a afetividade, o “amor”.
É falso, portanto, acreditar que o consumo reine sobre tudo sem
nenhuma restrição, bem como pensar que ele, reduzindo os indivíduos ao
papel de consumidores, favoreça uma homogeneização social. Os valores
irrecicláveis dos indivíduos nos permitem mensurar uma possível mudança
5

na sociedade, com uma promoção desses valores, desde que estes


consigam superar o consumo.
“Os átomos sociais não torcem o nariz para a idéia de
reencontrar-se, comunicar-se, reagrupar-se em movimentos associativos,
sendo estes marcados pelo egocentrismo, porque a adesão é espontânea,
flexível e segmentar, em todos os aspectos conforme a lógica da moda.”
(p. 36)

2.5. A ética entre a responsabilidade e a irresponsabilidade

“Será que a hipermodernidade, caracterizada por um consumo


emocional e por indivíduos preocupados antes de tudo com a própria
saúde e segurança, é o sinal da ascendência da barbárie sobre nossas
sociedades?” (p. 37)
Claro, o hedonismo individualista favorece um relativismo
desmedido, ao minar as instâncias tradicionais de controle social, mas
também há aspectos positivos na hipermodernidade: esta é apenas uma
das facetas de análise da hipermodernidade. Há uma maior aceitação dos
direitos humanos, os valores de tolerância e respeito estão mais intensos,
e a hipermodernidade se desenvolve paralelamente a um imperativo ético.
A moral não foi de todo substituída pelo egoísmo. Em todas as esferas da
sociedade se faz necessário um controle ético, que se apresenta de
maneira opcional, não mais obrigatório como antes, no entanto se fazendo
muito bem aceito.
Claro que esse “afrouxamento” pode, muitas vezes, causar o
efeito inverso, decorrentes de um individualismo irresponsável. No entanto,
por consenso, a maioria busca agira de maneira responsável, muitas vezes
ou para preservar a sua imagem ou por assim estar de acordo com os
seus valores morais próprios. No entanto, o hedonismo é apenas uma
pequena parte dessa sociedade, nem tudo é determinado por isso.

2.6. Os paradoxos do quarto poder

A moral é imposta de fora, pelas mensagens veiculadas na mídia,


e não mais determinada de dentro. Essa imposição não se dá de forma
incisiva, mas de modo que a mídia enaltece o ato correto de acordo com a
moral, ou seja, houve uma adaptação à lógica do consumo, onde é feita
uma “campanha de marketing” em torno da moral. A mídia, então, tem
papel fundamental nessa questão, já que tem um grande poder (porém um
poder não absoluto) de induzir e favorecer determinados comportamentos
perante as massas.
No entanto, a mídia não tem controle sobre o comportamento das
pessoas. A lógica da moda e do consumo tornou as pessoas indiferentes
às mensagens publicitárias e aos objetos industriais, fazendo com que as
6

pessoas passassem a ter uma maior autonomia, pois há um maior leque


de opções para escolha e um maior acesso às informações.
A mídia, ao mesmo tempo em que desempenha um papel
normatizador, permitiu maior acesso aos valores hedonistas e libertários.
O universo da mídia tem a única função de relativizar os
fenômenos, e as análises que partem dela também são permeadas pela
lógica dual característica do mundo hipermoderno, que torna tudo
ambivalente.
A mídia, inclusive, tem esse aspecto dual: favorece a liberdade
de escolha, o acesso à informação; por outro lado, muitas vezes padroniza
o pensamento e faz a reflexão ceder espaço à emoção. A mídia, então,
favorece tanto aquelas atitudes responsáveis quanto aquelas
irresponsáveis.

A sociedade hipermoderna, por si só, é capaz de explicar tanto a


responsabilidade quanto a irresponsabilidade; no entanto, o futuro da
mesma depende do triunfo da ética da responsabilidade sobre os
comportamentos irresponsáveis.
“(...) emocional e individualista, a sociedade de consumo de
massa permite que um espírito de responsabilidade, dotado de geometria
variável, coabite com um espírito de irresponsabilidade incapaz de resistir
tanto às solicitações exteriores quanto aos impulsos interiores.” (p. 45)
Para Lipovetsky, a tomada de responsabilidade coletiva é “a
pedra angular do futuro de nossas democracias” (p. 46), bem como as
atitudes conscientes, mas essa tomada de responsabilidade tem que partir
antes do âmbito individual, onde cabe a cada um se conscientizar e
assumir a autonomia legada pela modernidade.

3. Tempo contra tempo, ou a sociedade hipermoderna – Por Gilles


Lipovetsky

A noção de pós-modernidade entrou no cenário intelectual a


partir dos anos 70, designando a era em que se abalaram os alicerces da
racionalidade e das ideologias, e da dinâmica de individualização e
pluralização de nossas sociedades. Substituiu-se a idéia de progresso e as
expectativas do futuro (típicas do modernismo), dando lugar a uma visão
mais curta, individualista e efêmera. Passou-se a dar importância para o
aqui-agora.
O neologismo pós-moderno tinha o mérito de descrever essas
mudanças, no entanto, logo entrou em desuso, pois aquele novo gênero
de pensamento foi como uma fase de transição para o período que se
seguiu pouco tempo depois. Fazia-se necessário, assim, um novo nome
para descrever o que estava acontecendo nas sociedades, agora
marcadas pela acentuação de tudo, em todos os aspectos, como uma
7

modernidade elevada à potência superlativa, agora sem freios


institucionais-ideológicos para os valores individualistas e de consumo: se
ergue, portanto, a hipermodernidade.
A era instaurada é marcada pela hipercirculação de capital, de
informações, as grandes e numerosas mudanças tecnológicas, o dilúvio de
números da internet: “milhões de sites, bilhões de páginas, trilhões de
caracteres, que dobram a cada ano” (p. 55); as multidões atulhadas em
cidades, as multidões nas viagens de férias, as multidões nos shows, as
multidões que consomem um mesmo produto; a hipervigilância que
substituiu a disciplina totalitária; o hiperindividualismo. Tudo é pego na
engrenagem do extremo, da maximização.
É uma nova sociedade moderna, onde tudo se renova a cada
instante, tudo deve ser mais rápido, mais novo e mais eficiente – ou seja, é
a lógica do sempre mais, sem se saber ao certo aonde isso vai dar. Mas
essa nova modernidade é uma modernidade integradora: ela não nega o
anterior, recicla-o, de acordo com as lógicas modernas do mercado.
O passado ressurge, a inquietação com o futuro substitui a
expectativa com o mesmo, as operações e os intercâmbios se aceleram, o
tempo é escasso, o presente se faz extremamente importante. Esse texto
tem o propósito de compreender tudo isso.

3.1. As duas eras do presente

Não foram apenas as decepções com a idéia de progresso que


transferiram o centro da gravidade temporal do futuro para o presente.
Envolveram-se nisso novas paixões, sonhos e seduções que se
manifestaram pouco a pouco. Houve uma revolução no cotidiano de cada
pessoa, que levou a uma mudança na sociedade: a consagração do
presente.
Assim, surgiu um novo arranjo do regime do tempo social: uma
economia voltada ao consumo e à comunicação de massa, e uma
sociedade-moda reestruturada pelas técnicas do efêmero, da renovação e
sedução permanente, que permeou setores cada vez mais amplos da
sociedade.
A busca do prazer imediato também se tornou muito importante.
As pessoas passaram a não esperar mais, a não se preocupar com as
sociedades futuras, e sim com o seu próprio prazer e o próprio futuro. A
palavra-chave dessa sociedade veio a ser velocidade, principalmente com
os avanços tecnológicos da mídia e informática, grandes veiculadoras de
informação.
Não só a vida privada das pessoas, mas também a vida
econômica se reformulou segundo esses princípios, o que, claro, não
deixou de ter conseqüências, pois ao se valorizarem os resultados
imediatos, o desempenho a curto prazo, ocorrem, por vezes, reduções
maciças de quadros de funcionários, o emprego precário, ameaça de
8

desemprego. Houve, num momento, certa despreocupação com o futuro,


porém, o que se vive agora é a insegurança com este.
Esta insegurança invade os espíritos. Não se fala em construir
mundos perfeitos, mas há a preocupação com a segurança, em manter o
que está aí.
A sociedade está mais descontraída, com normas sociais mais
flexíveis, o que dá maior liberdade e sensação de leveza, ao mesmo tempo
em que a vida fica estressante por causa das inseguranças.

3.2. Os novos hábitos do futuro

É errado, por ser uma visão reducionista, achar que o indivíduo


hipermoderno está encerrado em si mesmo e completamente desligado do
passado e do futuro, que a cultura presente é a do presente eterno.
“Tal conceitualização deixa passar excessivamente em branco as
tensões paradoxais que animam o regime do tempo na hipermodernidade.”
O presente em que vivemos está sempre aberto a outras coisas
além de si mesmo.

3.3. Confiança e futuro

Não há mais uma espera pelas graças que virão no futuro, pelo
contrário, ele é encarado mais com receio e insegurança. No entanto, isso
não levou à morte da crença no progresso da ciência, apenas foi
adicionado um novo ponto de vista. O futuro pode, ainda, ser bom, mas há
um grande medo de que a ciência leve ao caos e à catástrofe. Assistimos
ao surgimento de uma idéia pós-religiosa do progresso, “de um porvir
indeterminado e problemático – um futuro hipermoderno.” (p. 67)
Essa inversão do tempo vivida pelas sociedades modernas não
extinguiu o prolongamento de esquemas herdados do espírito religioso de
forma laicizada, desvinculadas de uma crença incondicional nas utopias. O
futuro pode ser garantido, claro; todavia, sem garantias.
A ciência seria a encarregada de tornar o futuro um ambiente
agradável, muitas vezes buscando construir coisas magníficas, irreais,
projetando um futuro quase que fictício, onde tudo seria revolucionário. O
futuro está menos romântico, mas percebe-se que a sociedade ainda se
volta para ele. Morrem as utopias coletivas, mas intensificam-se as
atitudes pragmáticas de previsão e prevenção.
Evidentemente, as preocupações com o futuro estão presentes,
mas os interesses econômicos imediatos têm precedência sobre a
atenção. Mas as preocupações tendem a produzirem efeitos com o tempo.
“Na hipermodernidade, a fé no progresso foi substituída não pela
desesperança nem pelo niilismo, mas por uma confiança instável,
oscilante, variável em função dos acontecimentos e das circunstâncias.” (p.
70)
9

3.4. O declínio do carpe diem

Instalou-se um clima social e cultural que se distancia cada dia


mais da tranqüilidade descontraída dos anos pós-modernos. Por mais que
esteja permeada a preocupação presentista de aproveitar o aqui-agora, há
uma grande inquietação diante de um futuro incerto e arriscado. A febre
consumista das satisfações imediatas está mais presente do que nunca,
mas envolta por um halo de temores e inquietações. O futuro se tornou
precário, e a preocupação com ele se torna cada vez mais adiantada.
Como se vê, a importância do futuro não decai, e sim a idéia moderna de
futuro garantidamente melhor.
A moral do aqui-agora cede espaço para a ideologia da
prevenção, e é dada uma prioridade ao depois sobre aquele. O
hiperindividualismo é mais projetivo que instantaneísta, pois a relação com
o presente integra cada vez mais a relação com o porvir.
Mostra-se, aí, um dos limites da cultura presentista.
“Fica evidente que o instante puro está longe de ter colonizado
por completo as existências privadas, pois a sociedade hipermoderna dá
nova vida à exigência de permanência como contrapeso ao reinado do
efêmero, tão causador de ansiedades.” (p.74)

3.5. Conflitos de tempo e crono-reflexividade

A sociedade hipermoderna caracteriza-se pela hipereconomia de


tempo: as pessoas buscam fazer o máximo no menor tempo possível,
tanto na economia quanto na vida pessoal, o que causa tensões inéditas.
Há também uma conflitualização objetiva da relação com o
tempo, quanto ao que fazer com ele: aproveitar o presente ou garantir o
futuro? O que privilegiar?
De um lado têm-se as limitações dadas pelo tempo, e de outro o
avanço da independência individual e da subjetivação. Para gerir o tempo,
as sociedades individualistas necessitam de arbitragens, retificações,
previsões e informações.
“É preciso representar a hipermodernidade como uma
metamodernidade à qual subjaz uma crono-reflexividade.” (p. 77)

3.6. Tempo acelerado e tempo redescoberto

Uma das conseqüências do regime presentista é a pressão que


ele faz pesar sobre a vida das pessoas. A sensação de que o tempo é
curto, decorrente do ideal de eficiência (mais no menor tempo possível), de
competitividade, de que para garantir o seu lugar deve-se ser melhor que
os outros, causa uma sensação de estresse e uma atmosfera de
dramatização.
10

Claro que nem todos são os que reclamam da “falta de tempo”.


De um lado, aquele indivíduo hiperativo que desfruta a intensidade do
tempo, de outro aquele marcado pela ociosidade. Nisso se assiste uma
desigualdade social com base no tempo.
As pessoas criam as suas próprias maneiras de aproveitar o seu
tempo, de maneira individual. Há um poder maior de organização individual
da vida.
O consumo, nesse contexto, parece servir para preencher o vazio
do presente e do futuro e suprir essa falta de tempo que temos para fazer
coisas que gostamos, servindo para intensificar, reintensificar, reavivar e
simular a aventura no seu cotidiano. Percebe-se que o consumo serve
como uma cura, uma saída da rotina, do cotidiano repetitivo que assola a
sociedade. Renascer das cinzas a toda hora.

3.7. Sensualismo e desempenho

No universo da pressa, o vínculo humano, a qualidade de vida e


a sensorialidade são substituídos pela rapidez, pela eficiência, pelo frenesi,
pelos prazeres abstratos proporcionados pelas intensidades aceleradas.
Claro que não se deve tomar a parte pelo todo. São tantas as
práticas e gostos que revelam uma época da sensualização e estetização
em massa dos prazeres. Há a tendência de acelerar os ritmos e que tende
à desencarnação dos prazeres e a tendência de estetização dos gostos,
felicidade dos sentidos e a busca de qualidade no agora. Dois princípios
constitutivos da modernidade técnica e democrática: a conquista da
eficiência e o ideal da felicidade terrena.
“O indivíduo hipermoderno é igualmente prudente, afetivo e
relacional: a aceleração dos ritmos não aboliu nem a sensibilidade em
relação ao outro, nem as paixões do qualitativo, nem as aspirações a uma
vida equilibrada e sentimental.” (p. 82)
A sociedade hipermoderna, como se vê, não é unidimensional;
assemelha-se muito mais a um caos paradoxal, uma desordem
organizadora onde coexistem concepções antagônicas de modos de vida.
Nesse contexto, a preocupação deve estar voltada não para a
dessensualização nem a “ditadura” do prazer, mas a fragilização das
personalidades. O indivíduo, liberto de poderes reguladores, fica muito
mais suscetível e cambiante, o que significa menos a afirmação de alguém
que é senhor de si mesmo do que a desestabilização do eu.

3.8. O passado revisitado

Não é apenas com o futuro que se observam fenômenos na


hipermodernidade. Há também um fenômeno interessante com relação ao
passado: o revivescimento do mesmo.
11

Quanto mais as sociedades se dedicam a um funcionamento-


moda focado no presente, mais há uma reflexão acerca do passado, uma
reutilização dele de acordo com a lógica do consumo. O passado passa a
ser, então, revisitado a fim de se extraírem “redescobertas”.

3.9. A memória em tempos de hiperconsumo

Em nossa época é muito presente a comemoração da memória.


A sociedade hipermoderna faz uso do antigo, valorizando-o e
comemorando-o. Presencia-se a inflação proliferante da memória.
Essa sociedade hipermoderna revela cada vez mais o impacto
econômico da preservação do patrimônio histórico: a conservação deles
não é mais um fim em si mesmo, mas sim justificada pelos efeitos
financeiros, desenvolvimento turístico ou da imagem midiática das cidades
e regiões.
A celebração do passado, também, está permeada de um
aspecto frívolo e efêmero do instante da comemoração, e não mais por um
registro permanente da memória nos próprios locais do passado. As obras
do passado não são mais contempladas, mas sim consumidas em
segundos, funcionando como objeto de animação de massa.
A voga do passado também pode ser vista no sucesso dos
objetos antigos, clássicos, que tem uma tradição: produtos “legítimos”,
“autênticos”, cujos produtores os fabricam “desde” datas antigas, que
despertam nostalgia. A antiguidade se tornou argumento comercial.
Já a vida cotidiana, mesmo exprimindo o gosto pelo passado, é
regida pela ordem cambiante do presente. O passado não é mais
instituidor, ele é reciclado e renovado ao gosto de nossa época. A tradição
se tornou um objeto-moda, não convocando à repetição, apenas valores
estéticos e lúdicos. “O passado nos seduz; o presente e suas normas
cambiantes nos governam.”
O passado serviria, então para dar a sensação de conforto, um
referencial da vida com qualidade e segurança.

3.10. Identidades e espiritualidades

Dentro do retorno de referenciais passados, estão as


revivescências religiosas, reinvidicações nacionais e regionais,
ressurgimento étnico – o que mostra a necessidade de referências da
sociedade hipermoderna.
Em muitos casos, a reativação da memória histórica funciona em
oposição frontal aos princípios da modernidade liberal. Entretanto, estas
reativações não devem ser vistas como repetições do passado, já que,
apesar de reatar com mentalidades antigas, se tratam de formas inéditas
12

de conflito. Os movimentos que reavivam a chama do sagrado ou das


raízes estão muito longe de ser de mesma natureza e de manter a mesma
relação com a modernidade liberal. A era hipermoderna não põe fim à
necessidade de se apelar ao sagrado, apenas rearranja mediante
individualização, dispersão, emocionalização das crenças e práticas.
A racionalidade não exclui da vida social a necessidade de uma
religião, apenas faz diminuir a ascendência dela sobre a vida social. Por
outro lado, ele também recria exigências de religiosidade e de
enraizamento numa crença, à medida que o universo hipermoderno se
constitui de maneira insegura, caótica e atomizada, carecendo de uma
unidade de sentido.
Essa remobilização da memória não pode ser separada de um
novo modo de identificação coletiva, que hoje está mais para um objeto de
apropriação dos indivíduos, que se dá de maneira reflexiva, reivindicativa e
individual. Essa reivindicação de uma identidade não se encerra no âmbito
meramente consumista e competitivo da hipermodernidade, mas se faz aí
presente a necessidade de reconhecimento pelo que se é pela diferença
comunitária e histórica. É uma ampliação do ideal de respeito, de um
desejo de hiper-reconhecimento, que não deixa de ter ligação com a
sociedade do bem-estar individualista de massa.
Na sociedade hipermoderna, investe-se emocionalmente naquilo
que é mais próximo. Esse foco da vida nas felicidades privadas foi o que
desencadeou, paradoxalmente, uma vontade de reconhecimento da
especificidade conferida pelas raízes coletivas.
Todas essas referências buscadas nas tradições e nas religiões
são as que podem servir para a construção de identidades e a realização
pessoal dos indivíduos.
“O que define a hipermodernidade não é exclusivamente a
autocrítica dos saberes e das instituições modernas; é também a memória
revisitada, a remobilização das crenças tradicionais, a hibridização
individualista do passado e do presente.” (p. 98)
Ou seja, a idéia de reciclagem também se faz presente, como em
tantas outras áreas, também na religião, cultura e imaginário. Bem como a
hipermodernidade é metamodernidade (reciclagem dos ideais da
modernidade), ela também se apresenta como uma metatradicionalidade,
uma metarreligiosidade sem fronteiras.

4. Conclusão1

Apesar de haverem vários fenômenos que permitam


interpretações relativistas do universo hipermoderno, é reducionista a idéia

1Originalmente, o livro não traz um título, apenas um espaçamento maior entre o último capítulo e a
parte onde o autor traz as idéias de conclusão; logo, a fim de não causar confusões na leitura, foi
colocado o título neste trabalho.
13

de que foram extintos os ideais superiores e que não há mais valores


compartilhados pela sociedade, que não existem mais referenciais de
sentido. “Não é verdade que o dinheiro e a eficiência se tornaram os
princípios e os fins últimos de todas as relações sociais.” (p. 99) Há
sempre um forte embasamento e um consenso acerca dos fundamentos
ético-políticos da modernidade liberal; existem ainda coisas que não
podem ser compradas (amor, amizade, etc.); está bem presente a
exigência de moralização das trocas econômicas, da mídia e da vida
pública, as reações de indignação diante das novas formas de escravidão
e de barbárie; a hipermodernidade é “uma espiral técnico-mercantil que se
liga ao reforço unanimista do tronco comum dos valores humanistas
democráticos.” (p. 99-100)
O mundo, do jeito que anda, provoca mais inquietação do que
otimismo desenfreado, mas diagnosticar um processo de “rebarbarização”
do mundo seria subestimar o poder de autocrítica e autocorreção que
continua a existir no universo democrático liberal. O presente não está
fechado em si mesmo, e, dado que a depreciação dos valores supremos é
sem limites, o futuro continua em aberto. Nada na sociedade hipermoderna
democrática e mercantil está pronto, acabado: não se pode dizer que é
assim que as coisas são, mas apenas como elas estão, pois essa
sociedade está apenas no começo de sua história.