Você está na página 1de 15

1

A Teologia das Cartas de Paulo 1

PROF.D.F.IZIDRO

www.dfizidro.blogspot.com

www.izidro-anthropos.blogspot.com

1. Teologia de Gálatas

1.1. A Controvérsia que motivou a redação de Gálatas

Os crentes das várias congregações na Galácia eram em grande parte, mas não exclusivamente, gentios.

Mas agora eles estavam sendo encorajados por um certo grupo de pessoas a se circuncidar e a guardar os diversos dias e ocasiões especiais (festas judaica:Gl.4.10).

A

epístola aos Gálatas pretende discutir sobre a verdadeira natureza

do evangelho e seus benefícios.

Havia um grupo de pessoas se movimentando em torno de diversas congregações estabelecidas por Paulo, procurando mudar o pensamento e a prática de seus convertidos. Estes eram apelidados de “judaizantes”,com base no verbo grego de 2.14.

J.Lous Martyn refere-se a eles como um movimento missionário com

o

objetivo de converter os gentios a uma versão do evangelho

obediente à lei. Eram cristãos judeus que entendiam o evangelho como um movimento cristão que funcionaria como meio de acomodar os gentios ao povo judeu e ao judaísmo. Esse grupo se opunha a Paulo, o qual afirmava ser necessário apenas a fé em Jesus para tornar-se membro do povo de Deus, sem a prescrição da circuncisão e de outros aspectos da lei.

O

fato de os judeus não comerem com os gentios, nem do que é feito

por eles, uma vez que os gentios não observam os regulamentos dietéticas da lei, criou um problema prático para os cristãos judeus tendo em vista que a refeição eucarística e outras práticas de comensalidade na igreja como os ágapes.

O

argumento dos cristãos judaizantes, que queriam condicionar os

gentios à observância da lei para serem salvos e fazer parte do povo

de Deus, trazia as seguintes implicações importantes:

1 Bibliografia: LADD,G.E.Teologia do Novo Testamento.São Paulo:Editora Hagnos,2003;MARSHAL,H.I.Teologia do Novo Testamento.São Paulo:Vida Nova,2007;IZIDRO,D.F.Introdução à Literatura do Cristianismo Primitivo.SEBI/BRASÍLIA-DF.2011.

2

1) O questionamento da autoridade de Paulo: se crer em Jesus não é suficiente para ser salvo e fazer parte do povo de Deus, como diziam os judaizantes, Paulo deveria ser considerado um deturpador do Evangelho por anunciar o contrário. Paulo seria considerado um traidor do judaísmo; sua apostolicidade seria questionada quanto a sua origem; 2) A imoralidade de quem está livre da lei: Se as pessoas não observassem a lei, dar-se-i-a então o caso de se tornaram imorais em seu comportamento,pois por rejeitar a lei elas também rejeitariam suas demandas morais.

Paulo, então, argumentará em Gálatas tanto em favor de sua autoridade apostólica, quanto contra a libertinagem que a libertação da lei poderia implicar;

Mas porque os cristãos judeus queriam cumprir a lei? A interpretação tradicional era que o propósito de cumprir a lei era adquirir mérito diante de Deus para a própria justificação.

Uma nova interpretação,contudo,designada como “Nova Perspectiva” em Paulo, cujo principal representante parece ser E.P.Sanders,argumenta que a visão tradicional está equivocada devido uma má compreensão do Judaísmo.

Segundo Sanders, no Judaísmo, os indivíduos são situados dentro do povo da aliança de Deus com base em sua graça eletiva; não lhes é exigido observar a lei para entrar ,mas uma vez dentro eles observam a lei para ali permanecer – de modo que observar a lei era a resposta a graça, não a sua condição.

Portanto, as obras da lei seriam exigidas como marcas ou sinais do pertencimento ao povo de Deus e não condição para fazer parte dele.

O que Paulo, então, contestava era o estabelecimento desses requisitos que significaria que os gentios deveriam cumprir a lei para fazer parte do povo de Deus.

Não obstante, mesmo aceitando nova luz na soteriologia judaica, objeta-se que uma vez que o uso de um sinal passa a ser uma exigência, ele claramente torna-se uma condição para a salvação e não apenas alguma coisa que alguém pode fazer se desejar.

Desse modo, embora o termo mérito não apareça em Gálatas, se diz ali que as pessoas devem cumprir as exigências de Deus, expressas na lei, para serem salvas e,assim, tais exigências tornaram-se também as marcas de identidade judaica.

3

Paulo, então, está contestando a observância da lei judaica tanto como sinal de identidade do povo de Deus, quanto como meio de salvação.

O que parece estar em jogo para os judaizantes de Gálatas é a questão da identidade nacional judaica e,portanto,a identidade do povo da aliança de Deus,cujas principais características distintivas eram justamente a circuncisão,as festas e a dieta de “alimentos puros”.

O evangelho de Paulo, portanto, parece ter ameaçado a identidade judaica dos judaizantes (2.14).

Enredo Teológico de Gálatas

1.1-2.13: A Autoridade de Paulo e o “outro evangelho”

No prólogo epistolar, Paulo anuncia dois temas que serão desenvolvidos depois: 1) a autoridade de seu apostolado (cf.1.1) e 2) Jesus Cristo como a única solução para o problema do pecado (1.4; 2.17;2.20;3.13; 5.2; 4.5;);

Paulo caracteriza a mensagem dos judaizantes como “outro evangelho” ( e(/teron eu)agge/lion),1.6-9;

Em contra-partida, Paulo alega ter recebido sua mensagem diretamente de Cristo,sem depender de homem algum,mesmo dos apóstolos de Jerusalém,os quais apenas reconheceram a legitimidade de seu ministério aos gentios e de sua mensagem (1.11-2.10); nem mesmo o desentendimento temporário (cf.1Co.3.21-23;9.5) de Paulo com Pedro,em Antioquia, eliminara o reconhecimento de Paulo por parte dos outros apóstolos (2.11-14);

Tanto a mensagem quanto o apostolado de Paulo são de origem divina (1.1,11);

Paulo passa da discussão sobre sua autoridade para a natureza do evangelho de Cristo, a partir dos vv.14-16;

2.14-6.18: A Natureza do Verdadeiro Evangelho

Paulo começa dizendo que os cristãos judeus, como Pedro e ele próprio,sabiam que a justificação era pela fé em Cristo, e não pela observância da Lei (2.14-16);

O que Paulo quer dizer é que,se a lei não é necessária para justificar os judeus cristãos,muito menos os gentios cristãos; essa também teria sido a decisão do concílio de Jerusalém (2.1-10);

4

Em 2.17-21,Paulo ataca o pressuposto dos judaizantes de que é possível observar cabalmente a lei; a inevitável transgressão da lei leva à maldição,na verdade; voltar a submeter-se a lei,portanto, levará a pecar e ficar sujeito à maldição da lei (cf.Dt.27.26);

Em 3.1-5,Paulo apela a experiência do recebimento do Espírito Santo como prova da salvação cristã sem a necessidade da lei;

Paulo ressalta que seus leitores receberam o Espírito Santo antes e independente da Lei que são induzidos a observar agora;

O conceito de carne (sa/rc) aqui precisa ser explicado: refere-se àquilo que o homem faz com suas próprias forças e mérito, ao contrário da ação exclusiva e meritória de Deus no homem;

Em 3.6-14, Paulo apela às Escrituras e ao exemplo de Abraão,justificado pela fé,antes de ser circuncidado e antes da outorga da lei; sua justificação pela fé,portanto,é benção invocada sobre todos os seus descendentes espirituais, judeus ou gentios;

Paulo argumenta que as próprias Escrituras apóiam o princípio da justificação pela fé (Hc 2.4); e coloca também que ninguém pode cumprir a lei (cf.3.10),logo trazendo sobre si a maldição,maldição da lei da qual Cristo veio nos libertar (cf.Rm.3.9-20);

Em 3.15-18,Paulo reitera o caráter fundamental e irrevogável da promessa de Deus a Abraão e de sua aliança com ele,independentemente da chegada posterior da lei de Moisés;

Em 3.19-25, Paulo trata sobre a função e propósito da lei;

Paulo usa a imagem do guardião que conduzia as crianças, no mundo romano, à escola; quer com isso dizer que a lei era provisória visando conscientizar as pessoas de seus pecados, controlando-o de alguma forma ao dizer o que deviam e não deviam fazer,até que o caminho de Deus para tornar as pessoas justas pela fé em Cristo fosse revelado;

De 3.26-4.7,Paulo mostra que por meio dessa fé em Cristo fomos feitos filhos de Deus através do Espírito Santo, um só povo, sem distinções, em Cristo – esses são privilégios que recebemos em Cristo;

Paulo, em 4.8-11,se volta para seus leitores gentios encorajados à circuncisão e admoesta-lhes a não se submeter à uma nova servidão,a saber, à lei mosaica, pois outrora serviam aos ídolos;

Num misto de argumento e súplica,Paulo,em 4.12-20,pede aos gálatas que não se deixem levar por aqueles que querem persuadi-los a observar a lei judaica e se afastar de Paulo e seu Evangelho;

Mais uma vez,Paulo apela as Escrituras,em 4.21-5.1,e faz uma alegoria entre os filhos de Abraão,para contrastar a lei/judaísmo

5

como símbolo de escravidão e a Jerusalém vindoura,símbolo do reino da promessa e da liberdade em Cristo;

Ao tratar sobre a liberdade em Cristo Paulo,em 5.2-15, continua advertindo seus leitores de que observar a lei judaica é se submeter de novo à escravidão,a qual traz a morte;O apelo irônico de Paulo é para que seus oponentes se castrem, no v.12;

Os filhos de Deus não estão sujeitos à servidão da lei, mas nem por isso estão dispensados de suas responsabilidades morais em Cristo, especialmente o dever do amor; mas,se não andarmos no Espírito,dádiva àqueles que foram justificados pela fé em Cristo, e sim na confiança da carne,na fraqueza humana,o que se revela na observância da lei, não cumpriremos a exigência do amor,nem qualquer exigência de Deus; querer observar a lei para ser justo é confiar na carne,isto é,na fraqueza humana,o que leva ao pecado;antes,devemos nos submeter ao Espírito que é dado àqueles que foram justificados pela fé em Cristo,independentemente das obras da lei;

Na seqüência, então, em 5.16-26, Paulo demonstra que os crentes em Cristo não precisam se render às fraquezas pecaminosas da carne, pois têm o Espírito Santo que os capacita a servir a Deus produzindo neles qualidades de uma nova vida em Cristo; a lei não pode vencer a carne,só a direção e influência do Santo Espírito;

No restante da epístola, 6.1-18, Paulo instrui sobre como lidar com quem peca (6.1-14), e sobre a motivação carnal,isto é, a soberba e exibicionismo dos que querem induzir os gálatas a guardar a lei e afastá-los de Cristo e de sua cruz (6.11-18).

2. Epístolas aos Tessalonicenses

2.1. 1 Tessalonicenses

2.1.1. Circunstância Histórica que Motivou a Redação da Carta

A primeira epistola aos Tessalonicenses foi escrita,por volta de 50-51 d.C., para um grupo de cristãos recém-convertidos na cidade de Tessalônica, formado majoritariamente, mas não exclusivamente, por gentios (cf.1Ts.1.9); Trata-se de uma comunidade cristã primitiva implantada por São Paulo Apóstolo durante sua segunda viagem missionária (cf.At.17.1-

9);

Ainda durante sua segunda viagem missionária,quando de sua estada em Atenas,Paulo encontra-se com Timóteo e o envia a Tessalônica para saber do estado espiritual dos tessalonicenses,

6

os quais Paulo parece ter evangelizado recentemente,e deixado muito repentinamente,conforme os dados de Atos

(cf.1Ts.3.1,6;At.18.5);

Com base no relatório de Timóteo, levado a Paulo, agora em Corinto, sobre a situação da comunidade cristã de Tessalônica,é que Paulo lhes escreve essa correspondência;

A redação da dessa primeira epístola de Paulo aos crentes de Tessalônica persegue dois propósitos gerais: (1) parabenizar os crentes tessalonicenses pela sua fé e exemplo (1-3) e (2) fazer exortações de cunho ético e relacionadas à escatologia (4-5). Congratular e Admoestar, eis o propósito básico da redação da primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses.

Paulo escreve também para encorajar uma comunidade cristã que está sendo pressionada a abandonar a sua fé (cf.1Ts.3.5) e para estabelecer mais profundamente o estilo de vida cristã;

2.1.2. O Enredo Teológico de 1 Tessalonicenses

1.1-3.13: Paulo e sua Relação com a Igreja de Tessalônica

Após o pré-escrito epistolar (1.1), Paulo começa a carta com uma oração de saudação (1.2-10), onde expressa sua confiança na piedade dos destinatários , trazendo a memória a experiência de conversão deles, conversão essa que resultou no abandono da idolatria e na expectativa da vinda de Jesus (1Ts.1.5-6). Paulo também ressalta nessa saudação que tanto a proclamação quanto a aceitação da mensagem do Evangelho por parte dos tessalonicenses foram obras do Espírito Santo;

O conteúdo da pregação de Paulo aos tessalonicenses resume-se no que Deus fez através da morte-ressurreição de Cristo, para salvar os homens do poder do pecado e da condenação eterna resultante dele;

Paulo ressalta que a conversão dos tessalonicenses é resultado da iniciativa de Deus em chamá-los para Cristo (1.4;2.12;5.24);

A história da conversão dos cristãos de Tessalônica é mencionada por Paulo com o fim de encorajá-los a continuar firmes na fé em Cristo, não obstante a oposição que eles estavam enfrentando e que se previa que ficaria pior;

O termo comumente usado na teologia paulina para se referir a essa experiência de conversão é (pi/stij); essa fé significa um complexo que engloba confiança,compromisso e obediência a Deus e ao seus Filho Jesus Cristo;

7

Embora a fé fosse conhecida no AT e em outras religiões, é só no Evangelho de Cristo que ela é tão central e característica, a ponto dos seguidores de Jesus Cristo serem designados também como “crentes

(cf.1.7;2.10,13);

Em 2.1-16, Paulo prossegue dando mais detalhes sobre o trabalho missionário em Tessalônica; Seu principal objetivo nessa parte da carta é animar os crentes que estão sendo pressionados a abandonar sua fé; Paulo faz referência aos seus sofrimentos e os compara a comunidade cristã, também perseguida, na Judéia, lugar onde Jesus e os profetas foram mortos e onde foram expulsos os apóstolos que evangelizavam os gentios (2.12-16);

Em 2.17-20, Paulo demonstra o compromisso dos missionários com a obra e sua relação de amor com os convertidos;

Paulo chama de “evangelho” ao conteúdo da pregação (2.2,4,8,9),o qual pode ser definido como a mensagem cristã básica sobre a morte e ressurreição de Jesus para a salvação dos pecadores da condenação eterna (cf.1Co.15.3-5);

Em 3.1-8, Paulo adverte os tessalonicenses de que já havia lhes antecipado as tribulações e sofrimentos pelos quais, como servos de Cristo, inevitavelmente teriam de passar, levando em conta ser essa a vontade de Deus (ga.r oi;date o[ti eivj tou/to kei,meqa ); e sobre a reação natural de seu inimigo, satanás,o qual persegue sempre o povo de Deus (cf.2.18);

Em 3.9-13, Paulo fala de suas orações em favor dos tessalonicenses e também intercede por eles;

4.1-5.28: Instruções de Paulo à Comunidade Cristã de Tessalônica

Paulo começa sua doutrinação ressaltando a necessidade do cristão crescer em santidade e amor aos irmãos, em 4.1-12;

Nessa epístola, o conceito de santidade é mais direto do quem em qualquer outra epístola de Paulo (3.13;4.3,4,7;5.23);

Ao lado da santidade encontram-se também três facetas fundamentais do caráter cristão: a fé, o amor e a esperança (1.3;5.8), essas três facetas formam uma tríade tradicional recorrente no NT,resumindo as relações dos crentes com Deus [pi/stij],com as outras pessoas [a)ga/ph] e com o futuro [e)lpi/j]. Em 1 Tessalonicenses, 1-3 ocupa-se da ,4.1-12 do amor e 4.13-5.11 da esperança;

Em 4.13-5.11, Paulo trata da chamada parousi/a a segunda vinda de Cristo, respondendo,especificamente, às preocupações dos tessalonicenses sobre o que aconteceria por ocasião desse evento

8

escatológico e sobre o destino dos mortos em Cristo. Essa é a mais longa seção temática na epistolografia paulina sobre o assunto;

A

parousi/a , portanto, constitui-se importante sanção para a vida

cristã em termos de recompensa e alegria,mas também de destruição

e

julgamento;

Paulo realmente acreditava que a vinda de Jesus poderia se dar em seu tempo como também a maioria dos cristãos pensava. Isso fica claro no uso de “nós”, em 4.15,17. Não obstante, nenhuma datação específica jamais fora apresentada pelos autores do Novo Testamento. Portanto, Paulo parece acreditar na possibilidade, mas não na certeza da vinda de Cristo para o seu tempo;

Dois pontos controlam a discussão de Paulo. O primeiro é o temor de que os membros da comunidade já mortos, ou que viessem a morrer, estivessem em desvantagem e fossem excluídos da participação dos

eventos da parousi/a. Paulo explica, no entanto,que os que morreram em Cristo terão prioridade na parousi/a, sendo ressuscitados e em seguida trasladados parra o encontro com o Senhor Jesus.

A linguagem paulina aqui é tipicamente apocalíptica,pois inclui ressurreição dos mortos,retorno do Senhor nos céus de forma audível

presumivelmente visível e um arrebatamento literal dos crentes para encontrar-se com o Senhor nos ares.

e

Parece que os leitores de Paulo estavam familiarizados com o conceito de parousi/a ,mas não de ressurreição dos crentes

falecidos. O soar das trombetas parece representar a convocação para

a

reunião do povo escolhido de Deus, um chamado feito aos vivos e

mortos em Cristo.

O segundo ponto na discussão de Paulo aqui diz respeito ao tempo do evento e à necessidade da prontidão para ele. Paulo acreditava que a parousi/a seria uma surpresa para os que não a estivessem esperando ou não acreditassem nela, os quais não estariam prontos para a mesma, a qual cairia sobre os ímpios como julgamento.

Mas os cristãos que sabiam de sua ocorrência não seriam apanhados de surpresa, pois a estariam aguardando,mesmo não sabendo quando exatamente se daria.

Os Cristãos, portanto,devem estar sempre num estado de prontidão espiritual,para que não sejam envergonhados com o mundo ao se encontrarem com seu Senhor.

Em 5.12-28, Paulo termina, então, essa epístola dando instruções práticas sobre a vida cristão em comunidade, ressaltando a necessidade de harmonia, amor, disciplina e critério no que tange às supostas manifestações do Espírito, especialmente a profecia.

9

2.2. 2 Tessalonicenses

2.2.1. Circunstância Histórica que Motivou a Redação de 2 Tessalonicenses

Trata-se de uma segunda carta de Paulo à comunidade cristã de Tessalônica, como o mostram algumas semelhanças de conteúdo e de estilo.

2.2.2. O Enredo Teológico de 2 Tessalonicenses

1.1-12: A Perseguição da Igreja de Tessalônica

Após o pré-escrito epistolar de 1.1-2, Paulo começa a sua carta,em 1.3-10, ressaltando o desenvolvimento espiritual de seus leitores na tríade cristã mencionada na primeira epístola: a fé,o amor e a firmeza,não obstante tenham continuado as perseguições do mundo. Paulo prossegue discorrendo sobre os ataques do mundo ímpio à igreja de Jesus Cristo, e julgamento final de Deus que aguarda aqueles que se opõem a Deus e a seu povo. O julgamento final de Deus sobre os infiéis se mostra mais uma vez ponto crucial na teologia paulina. A igreja,por outro lado,aguarda a recompensa de Deus,em Cristo;

Em 1.11-12, Paulo fala de suas orações para que os crentes de Tessalônica sejam conformados a seu status espiritual de Igreja,isto é,à vocação ou chamado de Deus e a tudo o que Deus,em Cristo,determinou aos santos; (cf.Ef.4.1);

2.1-17: O Dia do Senhor

Outra preocupação de Paulo nessa carta é com alguns que haviam sido levados a crer que a vinda de Jesus estava muito próxima e que,portanto,eles estariam vivendo no “dia do Senhor”, o qual Paulo identificava com o tempo que a parousi/a estaria prestes a acontecer;

Talvez esse tenha sido um mal-entendido em relação ao que fora dito, também, na primeira carta.

Naquilo que é talvez a passagem mais enigmática das epístolas paulinas,o apóstolo declara que,apesar de tudo o que foi dito sobre o dia do Senhor vindo de forma inesperada e em breve,todavia,a vinda

10

de Cristo deve ser precedida de outros eventos que (fica implícito) ainda não haviam acontecido.

Segundo Paulo,aqui em 2.1-12, haverá algum tipo de rebelião e a ascensão de um poderoso oponente de Deus,que enganará o povo,levando-os à incredulidade.

No momento, o oponente ainda não surgiu por causa de algum tipo de poder impeditivo. É suficiente observar que, de alguma forma,Paulo afirmou conhecer a rigorosa ordem e a natureza dos eventos futuros.

A talvez a única parte da narrativa que vai além do que poderia ser literal é o esplendor da vinda de Cristo com um sopro poderoso de sua boca para destruir os inimigos,como um dragão na fábula. Um homem assentando-se em um trono num templo e produzindo falsos milagres e levando as pessoas ao engodo é perfeitamente concebível, e tais coisas aconteceram;

Contra esse quadro de pessoas sendo enganadas pelo poder de Satanás, um tema paulino que encontramos em outro lugar (2Co.4.3,4),temos,em 2.13-17, descrita a situação privilegiadas dos crentes,os quais estão certos de sua escolha de Deus para salvação.

3.1-18: O Lugar da Oração [fio conduto]

A terceira parte da epístola está relacionada aos aspectos práticos da vida da igreja e de sua missão.

De significado teológico é o pedido de Paulo por orações em seu favor e de sua obra,em 3.1-5: Ele confia na fidelidade e no poder protetor de Deus, não obstante pede orações pelo sucesso da missão e por sua própria segurança (3.1-2);

Do mesmo modo, ele expressa confiança em que seus leitores permanecerão fieis e ainda roga a Deus que os capacite para a perseverança (3.4-5);

Em 3.6-12, Paulo admoesta sobre aqueles que andam desordenadamente,provavelmente, com base em uma crença escatológica equivocada da iminência da vindo do Senhor;

Os vv.13-17 trazem as últimas recomendações do apóstolo – aqui Paulo fala de benevolência,fidelidade e disciplina na igreja, invocação da paz incondicional de Deus,autenticação da carta e saudação final;

3. Efésios

11

3.1. Circunstâncias da Redação da Carta

Há dúvidas sobre a autoria paulina dessa carta. Não obstante há também defesas convincentes da autoria paulina.

Seu destinatário também é desconhecido, bem como seu propósito mais específico. Não parece haver situação específica que tenha motivado a correspondência.

Os manuscritos mais antigos da carta não contêm a importante frase “em Éfeso”,a qual identificaria seu destinatário original histórico.

Efésios está muito interessado em tratar sobre a natureza da salvação, tendo Deus Pai como principal personagem e agente da história redentiva.

Efésios é considerado um dos documentos mais teológicos do NT. Em Efésios a teologia paulina é apresentada de modo novo, cheio de orações longas nas quais o fluxo do pensamento paulino é difícil de acompanhar. Seu caráter também é bastante doxológico.

À semelhança das outras epístolas da prisão (Filipenses, Colossenses

e

Filemon), Efésios também foi escrita durante o primeiro

encarceramento de Paulo em Roma (58-60 d.C.), enquanto esteve morando por dois anos como prisioneiro em sua própria casa

 

alugada;

A

doutrina central da epístola é eclesiológica, isto é, a igreja e as

relações de Cristo com ela. A igreja é para Cristo o que o corpo é para a cabeça (1.23), o que a esposa é para o marido (5.23-32).

Após a parte dogmática (1-3), onde, neste contexto, é reafirmada a salvação pela graça oferecida a todos os homens, gentios e judeus, uma parte ética (4-6) exorta sobre a unidade e a santidade, a moral pessoal e a armadura espiritual do crente (6.10ss);

3.2. O Enredo Teológico

1.1-3.21: Seção Doutrinária e/ou Teológica da Carta

1.1-14: Louvor a Deus por seu Plano Redentivo

12

Após o Pré-escrito epistolar, em 1.1-2, Paulo não começa a carta com orações por seus destinatários ou fazendo referências a fé e piedade deles, como lhe é típico; antes,o que demonstra o caráter geral dessa carta,Paulo inicia sua fala com um discurso de louvor a Deus Pai por seu plano de redenção dos pecadores em Cristo Jesus,nos vv.3-14;

Cristo é o agente de Deus na execução de seus planos salvíficos e o Espírito Santo é o penhor que faz da igreja propriedade de Deus;

Há uma estrutura de três partes: cada parte termina com a frase “para louvor da sua glória” (cf.1.6,12,14);

A primeira parte,1.3-6,começa com a declaração de que Deus abençoou o seu povo,em todos os sentidos,nas regiões celestiais em Cristo. A expressão “em Cristo” aqui, como é típico em toda a carta, refere-se a pessoa ou ao meio por meio do qual Deus realiza seu propósito.

A expressão “nas regiões celestiais” (cf.1.20;2.6;3.10;6.12) diz respeito ao fato de que os crentes estão assentados nas regiões celestiais com Cristo,experimentando assim as bênçãos espirituais dessa esfera divina de existência.

Paulo acredita que os crentes ressuscitaram espiritualmente e por

isso,num sentido espiritual, já estão no céu,embora isso não os livre dos poderes do mal no mundo e no céu.o resto dessa primeira parte

se

ocupa da escolha que Deus faz de seu povo.

A salvação está arraigada no propósito e iniciativa exclusiva de Deus,antes mesmo da criação do mundo. Diante disso,então,Paulo louva a glória da graça de Deus como todos os cristãos deveriam fazer também.

A segunda parte, 1.7-12, trata sobre como o plano de Deus foi

realizado através de várias ações de Deus e por intermédio de Cristo.

A

graça também está em ação quando Deus transmite conhecimento

a seu povo (cf.1Co.1.24,30). O conhecimento aqui é especificamente do plano de Deus. O Espírito Santo é o penhor da igreja até que Deus venha redimir totalmente o seu povo para si.

A

terceira parte, em 1.13-14, é onde Paulo se volta diretamente aos

seus leitores, na segunda pessoa, o que fará até 2.2, aplicando a eles

todas essas bênçãos espirituais em Cristo.

 

1.15-23: A Oração de Paulo

Nesse relato de oração, Paulo pretende demonstrar aos seus leitores de que modo ora por eles; Paulo ora para que obtenha conhecimento sobre a providência de Deus em relação ao seu povo.

13

O poder de Deus também é ressaltado em relação a toda e qualquer oposição a ele e seu povo. A igreja, portanto, pode superar qualquer poder que se opõem a ela. O mundo hostil que se opõem a igreja,mas não pode vencê-la (esse conflito espiritual será retomado em 6.10-

18);

2.1-22: Judeus e Gentios

No capítulo 2, Paulo trata sobre a condição dos cristãos, judeus e gentios, antes da conversão. Estavam mortos no que diz respeito a responder a Deus e destinados a ira. Foram, portanto, objetos de uma ressurreição espiritual;

Também é enfatizado que a salvação se deve à iniciativa exclusiva e graciosa de Deus por meio de Cristo independentemente de qualquer contribuição ou mérito humano;

As obras são o resultado da salvação e não a causa dela; é da salvação que advém uma vida que se conforma a vontade de Deus e não o contrário. Nem mesmo a observância da lei judaica ou qualquer outra obra pode assegurar a salvação;

Paulo também luta contra a idéia de que os gentios teriam sido salvos a parte dos judeus, estando separados destes;

Paulo ressalta que em Cristo ambos, judeus e gentios, foram unidos em uma mesma igreja de Deus, não havendo mais separação, antes mediada pela lei, entre eles;

Os gentios foram incluídos no povo de Deus, do qual Israel sempre fez parte. Os gentios agora fazem parte desse templo de Deus, onde ele está presente, fundado pelos apóstolos e profetas cristãos sobre Cristo, a pedra angular.

3.1-13: A Missão Apostólica aos Gentios

Paulo fala sobre a proclamação do Evangelho aos gentios enquanto plano oculto de Deus agora revelado aos apóstolos. Paulo fala de sua própria vocação de pregar Cristo aos não-judeus. O plano oculto de Deus, agora revelado, consistia em reunir judeus e gentios em um único povo de Deus, em Cristo.

3.14-21: Paulo ora por seus leitores

Nessa sua oração pelos leitores, Paulo roga a Deus Pai por seu fortalecimento e crescimento espiritual na plenitude do conhecimento dos propósitos de Deus.

14

Louva ainda a Deus por seu glorioso plano eterno e pelo cumprimento antecipado dessa oração.

4.1-6.20: Seção Prática e/ou Parenética da Carta

4.1-16:Unidade e Diversidade na Igreja

O v.1 já começa relacionando as exortações de Paulo a seguir com tudo o que fora dito anteriormente sobre a condição espiritual da Igreja em Cristo, sobre o significado de seu chamado, isto é, sua vocação;

Sendo a igreja um só povo de Deus, formado por judeus e gentios, ela deve preservar sua unidade;

Pois não obstante seus diferentes dons, a igreja trabalha para o fim último de sua unidade e crescimento em Cristo.

4.17-6.9:A Velha Vida e a Nova Vida em Cristo

Os leitores gentios são conclamados a abandonarem sua antiga vida de pecado, pois não são mais ignorantes quanto a essas coisas, antes como igreja sabem agora o tipo de caráter que devem ter agora que estão em Cristo Jesus;

Paulo contrasta, então, a antiga e a nova natureza, o despir-se das roupas sujas da primeira e o revestir-se das roupas novas e limpas da última;

O perdão mútuo tem exemplo no ato de Deus, em Cristo, em perdoar os pecadores. A morte sacrificial de Cristo é paradigma e referencia comportamental para o viver dos cristãos;

Os crentes devem viver de conformidade com sua condição de Igreja de Deus, em Cristo, nas regiões celestiais, comportando-se com distinção em relação ao mundo sem Deus.

Deve encher-se do Espírito Santo (5.18-6.9).

6.10-24:Batalha Espiritual

De forma pedagógica, Paulo prossegue, e termina sua carta, chamando a atenção da igreja para a oposição constante de satanás ao cristão, com suas armadilhas;

O poder e ação do inimigo não deve ser subestimada,mas antes combatida pelas virtudes (fé) e dádivas que Deus deu ao seu povo.

15

O princípio fundamental consiste em revestir-se de Cristo (Rm.13.14;1Ts.5.8) através de seus dons. Oração e atenção da igreja as ações do diabo são fundamentais.