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UNIVERIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA QUÍMICA

BIOMETANIZAÇÃO DA FRAÇÃO ORGANICA DO RESÍDUO SÓLIDO URBANO: Uma revisão do estado da arte

Felipe Guedes Pucci

Trabalho

de

Graduação

apresentado

ao

Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de São Carlos .

Orientador: Prof. Wu Hong Kwong

São Carlos – SP 2013

“Isto sabemos. todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família... Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo.”

- TED PERRY, inspirado no Chefe Seatle (extraído do livro A Teia da Vida de Fritjof Capra)

BANCA EXAMINADORA –

Orientador:

Wu

Hong

Kwong,

DEQ

Departamento

de

Engenharia

Química/UFSCar – Universidade Federal de São Carlos Convidado: Valdir Schalch, DHS – Departamento de Hidráulica e Saneamento/USP São Carlos Professor da disciplina: Fabio Bentes Freire, DEQ – Departamento de Engenharia Química/UFSCar – Universidade Federal de São Carlos

Trabalho de Graduação apresentado no dia ______ de __________ de _____ perante a seguinte banca examinadora:

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer à toda turma da teia da minha vida. Amo verdadeiramente todos que passaram, deixaram um pouco deles e levaram um pouco de mim.

RESUMO

O homem urbano não fecha seus balanços de energia e matéria. Sua dependência dos combustíveis fósseis e o vislumbre de sua depleção no horizonte dos próximos sécuos exige que sejam desenvolvidas todas as formas de obtenção de energia de fontes não fósseis. A biometanização da FORSU e de outras fontes de MO é um dos agentes que pode ajudar a reverter esse quadro. Neste trabalho se buscou fazer uma revisão bibliográfica do tema „Biometanização de MO‟ com a meta de auxiliar o grupo de pesquisadores do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo de São Carlos para terem parametros de realização de experimentos envolvendo a digestão anaeróbia da FORSU separados na fonte.

ABSTRACT

The high percentage of people living in the cities and their actual consumption rates, does not close the energy and mass balances. The great dependence mankind have on fossil fuels and the actual organic matter generation rates within cities, creates the possibility of energy reclamation through this alternative renewable energy source which is the biometanation of SS-OFMSW (source separated- organic fraction of municipal solid waste. This constitutes one of many other renewable energy sources that must be developed in order to emancipate ourselves from fossil fuels. This present final essay aims to make a review of the „state-of-art‟ of AD of SS-OFMSW, in order to help the research that will start next semester by a research group of people from Departemento de Hidráulica e Saneamento located at Universidade de São Paulo, São Carlos – Brazil.

LISTA DE FIGURAS

Figura 2.1 Classificação dos resíduos sólidos de acordo com a fonte geradora. ................... 8 Figura 2.2 Classificação dos RD em função dos tipos de materiais que o compõem. ........ 11 Figura 2.3 Composição percentual média do Resíduo Sólido Domiciliar – RSU no Brasil.12 Figura 2.4 Composição porcentual média do Resíduo Sólido Domiciliar – RSU nos E.U.A.12 Figura 2.5 Composição porcentual média do Resíduo Domiciliar – RD em São Carlos em 1989. .................................................................................................................................... 14 Figura 2.6 Composição porcentual média do Resíduo Domiciliar – RSU em São Carlos em 2007. .................................................................................................................................... 14 Figura 2.7 Os avanços da análise das sequências de RNA ribossómico revelam uma árvore de evolução de três domínios, deixando o termo „procariota‟ obsoleto. ............................. 18 Figura 2.8 Diagrama da digestão anaeróbia ........................................................................ 20 Figura 2.9 Ilustração das moléculas resultantes da hidrólise lipídica. ................................ 21 Figura 2.10 Foto em microscópio de uma comunide sintrófica de archaeas e bactérias. A barra na base da foto representa 500nm. ............................................................................. 23 Figura 2.11 Ilustração dos processos de degradação anaeróbia, os processos bioquímicos constam no eixo vertical e os processos fisicoquímicos no eixo horizontal. ...................... 25 Figura 2.12 Fluxograma esquemático da ETE da cidade de Franca –SP. ........................... 27 Figura 2.13 Representação de um reator UASB com topo mais largo para promover melhor decantação. A parte inferior do reator com pontilhado mais denso representa o leito de lodo. ................................................................................................................................ 32 Figura 2.14 Gráfico representativo dos tipos de reatores anaeróbios em função de seu tempo médio retenção hidráulico médio e fração de sólidos alimentados. ......................... 34 Figura 2.15 Ilustração do reator de base seca desenvolvido pela empresa européia Valorga.36

Figura 2.16 Ilustração do sistema de reator anaeróbio em base seca do tipo Dranco. ........ 37 Figura 2.17 Esquema de tratamento em dois estágios onde se propicia a hidrólise e acidogênese no primeiro estágio e a metanogênese no segundo estágio. ............................ 40 Figura 2.18 Esquema de um reator SEBAC, utilizado para fornecer o inóculo líquido, a ser incorporado no experimento. O reator da esquerda é um leito lixiviado por onde é recirculado o inóculo de modo a se transpor para a fase aquosa os microorganismos do esterco de porco, ao mesmo tempo em que estes de aclimatam a FORSU também é misturada no leito. ............................................................................................................... 43 Figura 2.19 Gráfico comparando as reações da produção de metano de 4 reatores ante à diminuição de temperatura de 55 para 20°C, mantidos para (a) 1h, (b) 5h, (c) 12 h e (d) 24h. ..................................................................................................................................... 45 Figura 2.20 Esquema de um tanque com uma coluna de recheio acoplada utilizada para a lavagem do biogás e retidarada de gás carbônico e gás sulfídrico. ..................................... 50

LISTA DE TABELAS

Tabela 2.1 Composição dos rejeitos .................................................................................... 13 Tabela 2.2 Comparação temporal da composição do RD de da cidade de São Carlos. ...... 15 Tabela 2.3 Porcentagens de bactérias, archaeas, e destas últimas, proporção de hidrogenotrofas e acetoclásticas. ......................................................................................... 24 Tabela 2.4 Exibição dos parâmetros operacionais de diversas experiências de plantas de tratamento da FORSU na Europa ........................................................................................ 38 Tabela 2.5 Solubilidades aproximadas do CO2 na água. ................................................... 49

NOMENCLATURA

Siglas e Abreviações ADN ADM1 DQO eAGV MO ARN C/N E.U.A ETE FO FORD FORSU FORI GIRS IBGE RS RD RI RSU RSPSB Séc. TS Ácido Desoxiribonucleico (DNA em inglês) Anaerobic Digestion Model n.1 Demanda Química de Oxigênio Eletron Ácidos Graxos Voláteis Matéria Orgânica Ácido Ribonucleico (RNA em inglês) Carbono/Nitrogênio Estados Unidos da América Estação de Tratamento de Esgoto Fração Orgânica Fração Orgânica dos Resíduos Domiciliares Fração Orgânica dos Resíduos Sólidos Urbanos Fração Orgânica dos Resíduos Industriais Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Intituto Brasileiro de Geografia e Estatística Resíduos Sólidos Resíduos Domiciliares Resíduos Industriais Resíduos Sólidos Urbanos Resíduos de Serviços Públicos e Saneamento Básico Século Teor de Sólidos

SUMÁRIO

BANCA EXAMINADORA ................................................................................................. iii AGRADECIMENTOS ......................................................................................................... iv RESUMO .............................................................................................................................. v ABSTRACT ......................................................................................................................... vi LISTA DE FIGURAS ......................................................................................................... vii LISTA DE TABELAS ....................................................................................................... viii NOMENCLATURA............................................................................................................. ix ............................................................................................................................................. x SUMÁRIO ............................................................................................................................. x

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1 INTRODUÇÃO O momento histórico que a humanidade passa é complexo, assim como os novos paradigmas a serem incorporados no sistema conceitual-linguístico de nossa espécie (MORIN, 2005). Ao mesmo tempo em que nos é obrigado repensar nossa dependência energética e material dos recursos fósseis, acontecem crises de produção e consumo de mercadorias, crises oriundas do paradigma consumista e de acumulação, que pensa apenas nos ganhos individuais de cada um e que não se percebe como parte do todo nos ciclos de matéria e energia (CAPRA, 1996). A forma da ciência de adquirir o conhecimento mudou com o advento da mecânica moderna que, ao desvendar superficialmente a natureza do comportamento das partículas subatômicas, integrou de maneira complexa o ser humano na teia de relações que compõem o fenomeno da vida e o universo, dando legitimidade científica a religiões de base experimental-empirista como o budismo (GYATSO, 2005). O conhecimento, que no iluminismo do séc. XVII nos clareou com a racionalidade necessária para desenvolver o logos, a cognição, culminando na revolução industrial, nos inflou o sentimento de liberdade. Esse mesmo conhecimento, dessa vez mais profundo, escancara a natureza ambígua de dependência-autonomia que temos de todo o resto do universo, como o sol e a o resto da vida do planeta Terra. Os processos humanos nunca foram um fluxo linear com começo e fim. Para o pensamento pósindistrial, se urge que os resíduos não sejam apenas uma seta que sai fora do fluxograma do projeto. Ao se perceber a natureza efêmera das jazidas minerais, tanto no âmbito energético dos combustíveis fósseis quanto no âmbito material dos minérios, surge a necessidade do reciclo ocupar um lugar primordial no desenvolvimento do nosso pensamento. Os “loops”, como se diz em inglês, são elementares a qualquer sistema e fundam o conceito de cibernética desenvolvido por Norbert Wiener, presente em qualquer sistema. No sistema neural do nosso cérebro, no sistema lingúistico/simbólico, no sistema de controle dos processos industriais e no sistema trófico da cadeia alimentar (BERTALANFFY, 1969). Quando se tenta esquematizar os fluxogramas dos sitemas naturais, emerge uma complexidade oriunda da retroação circular destes. Este conceito se reforça ao se concluir que nós, como seres humanos, somos uma mero organismo, numa intrincada rede transversal de transformações entre matéria e energia, culminando no surgimento da informação (redução de entropia). Essa teia engloba todos os organismos vivos e entidades cósmicas como os planetas e estrelas. É uma tendencia natural não querer mais se conceber

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como um indivíduo dotado de uma linearidade que não fecha os ciclos de matéria e energia que participa. Do lado da demanda energética e material, o sistema capitalista global em voga na atualidade, não incentiva a reflexão acerca do conceito de consumo, sob a pena de ver a demanda pelos produtos sofrer quedas, e isso afetar o lucro dos sistemas de produção. Do lado da oferta energética e material, o amparo planetário de energia fóssil e matéria mineral que foi a matriz da revolução industrial, dá os seus primeiros sinais de que quer que nos emancipemos de sua tutela. Se observa hoje a uma sofisticação das transferências de massa e energia, que se tornam cada vez mais sutis através dos sistemas de informação. Um documentário muito coerente que ilustra bem essa situação de exaurimento do petróleo é o “Poder da Comunidade: Como Cuba Sobreviveu ao Pico do Petróleo”, produzido em 2006, mostra como Cuba após 1990, se reinventou ao ter que continuar vivendo com menos de 50% do petróleo e 80% da comida, que eram importados. Ao mesmo tempo em que já sofria um embargo econômico dos EUA e de todos os outros países que mantêm relações diplomáticas com este, Isso a impediu de exportar seus produtos agrícolas trópicais (cacau, tabaco, café, algodão, cana) a que estava acostumada a exportar para os países do bloco do regime socialista. A necessidade de se emancipar dos combustíveis fósseis requer não apenas o desenvolvimento de uma só fonte de energia alternativa, e sim de um conjunto de todas as fontes possíveis, como a hidroelética, eólica, fotovoltáica, térmica solar, maremotriz, geotérmica, núclear de fissão (e quiçá um dia de fusão), célula de combustível, e a biometanização dos resíduos orgânicos, no caso do presente estudo. Ao mesmo tempo em que a reciclagem da matéria orgânica via biometanização é uma das fontes de energia alternativa para se desenvolver como solução do problema dos combustíveis fósseis, a geração e falta de tratamento de matéria orgânica é um fato que está na raiz de muitos problemas de saúde das populações urbanas. Esse problema decorre tanto das águas resíduárias urbanas(esgoto) não coletada e/ou não tratada, quanto da fração orgânica do resíduo sólidos tanto industriais quanto urbanos. Os restos orgânicos, uma vez misturados com o resto do resíduo sólido coletado, comprometem sistemicamente a situação de toda a cadeia de resíduos sólidos do município, na medida em que: É rico em água, isso gera um peso a extra a ser carregado pelos veículos de coleta, resultando em maior consumo de combustível. Uma vez que se está dentro do saco de lixo, se decompõe anaeróbiamente e isso gera mau odor, e torna insalubre o trabalho dos garis, da central de reciclagem e dos locais de disposição (aterros).

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Enquanto espera nas ruas pelo serviço de coleta de RD municipal, este se torna um atrator de vetores, como ratos, baratas, mosquitos, aves e cães de rua. Uma vez encaminhado ao aterro sanitario, é esta fração orgânica que gera o gás do aterro e o líquido percolado (chorume) que além de terem uma enorme facilidade de poluír o ar e os corpos hídricos, constituem as principais considerações a serem feitas por quem projeta um aterro sanitário, reduz sua vida útil, e encareçe o custo de construção deste. Considerando que o biogás gerado em um aterro sanitário é um efeito colateral não desejado a princípio, as prefeituras poderiam reduzir suas despesas no setor de saneamento se promovessem a separação e coleta na fonte dos resíduos domiciliares orgânicos biodegradáveis e promovesse a biometanização e/ou posterior

compostagem/vermicompostagem deste, que pode tranformar gastos em lucros com a entrada de capital com a venda de gás metano e composto.

1.1 Motivação

A capacidade da vida de ser autoreguladora (LOVELOCK, 1975, 1979), naturalmente impõe que nossa espécie busque novas fontes de energia, no presente caso a produção de biogás a partir da fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos, já que as cidades já são o local de 84,4% da população brasileira (IBGE, 2010). A coleta seletiva de resíduos sólidos recicláveis já existe em alguns municípios. Contudo, políticas em torno da fração biodegradável dos resíduos sólidos urbanos são raras no Brasil e estes são em sua maioria misturados já nos locais de geração com os outros tipos de resíduos sólidos. Segundo estudo feito por Frésca (2007, p. 94), a fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos coletados pela coleta convencional da cidade de São Carlos-SP, está em torno de 59,08% com desvio padão de 8,10%. A média brasileira está em torno de 50%. Ou seja, mais da metade em massa do resíduo sólido coletado consiste em um potencial de geração de energia e produção de fertilizante. Além disso, em comparação com o processo aeróbio o processo anaeróbio gera muito menos biomassa e portanto menos quantidade mássica a ser tratada. No brasil o gerenciamento da FORSU ainda é pouco significativo, de acordo com o IBGE na PNSB (2008) se quantificou que são gerados 259.547 t/dia de RSU no país e destes, apenas 1.635 t/dia são reaproveitados em unidades de compostagem. Ou seja, apenas 6,2 % do RSU são encaminhados a algum modo de gestão de RO, sendo que a

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média brasileira de FORSU está na casa de 50%, ou seja ainda tem potencial de tratamento de digestão anaeróbia ou compostagem mais de 128.138,5 t/dia de matéria orgânica no país. Outro ponto é que digestão anaeróbia da FORSU nem sequer aparece nesse levantamento. Salomon (2009) estima que a produção de biogás oriunda da digestão da matéria orgânica oriunda de FORI (vinhaça), da FORSU, de lodos de esgoto e esterco animal, pode subtituír 1,05 – 1,13% do total de eletricidade gerada no país.

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1.2 Sobre o grupo de pesquisa

Este trabalho se insere como uma contribuição ao grupo de pesquisa, liderado pelo Prof. Dr. Valdir Schalch do Departamento de Hidráulica e Saneamento (DHS) da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da Universidade de São Paulo (USP) e constituído atualmente de três alunas de mestrado.

1.3 Objetivos do trabalho

Realizar uma revisão bibliográfica do tema com a meta de contribuir com a aquisição de conhecimento pelo grupo de pesquisa, assim como sugerir parâmetros que auxiliem o inicio dos procedimentos experimentais.

1.4 Objetivos Gerais do grupo de pesquisa

Desenvolver o processo de decomposição anaeróbia da fração orgânica do resíduo sólido domiciliar (FORD) puro, sem a adição de inóculo de outra origem, para aproveitamento energético da fração de metano contida no biogás, e produção de fertilizante sólido e líquido para a agricultura.

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2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 Resíduos Sólidos

O conceito de resíduo sólido pode ser definido formalmente de acordo com a Associação Brasileira de Normas técnicas (ABNT – NBR 10004 2004, p. 2):
Resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de atividades de origem industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água, ou exijam para isso soluções técnica e economicamente inviáveis em face à melhor tecnologia disponível.

Mais recentemente com a aprovação da lei Lei 12.305/2010 - PNRS, regulamentada pelo Decreto 7.404/2010, e que, institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. No artigo 13 do Capítulo I do Título III que discorre das diretrizes aplicáveis aos resíduos sólidos se tem a definição de resíduo sólido - quanto a origem - da seguinte forma:
...material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d‟água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível;

A geração de algum resíduo sólido que não fossem excretas corporais e restos de alimentos foi uma novidade que surgiu na nossa espécie com a sua sedentarizaçao, que começou a praticar a agricultura, e elaborar o seu sistema de comunicação simbólica sob a forma de linguagem, algo que nunca existiu antes na vida do planeta nesse grau de complexidade. Surgiram necessidades que não existiam antes, necessidades decorrentes do modo de agrupamento com relações cada vez mais complexas. Demandas de moradia, de limpeza, de indumentária, de proteção e de ferramentas. A cada inovação surgia algum tipo de resíduo sólido que nunca tinha sido gerado antes, e isso foi se tornando cada vez mais intenso e complexo, se distanciando cada vez mais de todos as outras espécies

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animais que normalmente geram apenas a rejeita, composta de resíduos orgânicos putrecíveis, além das excretas corpóreas. O ponto crítico da produção de resíduo sólido veio com a revolução industrial, iniciada no séc. XVIII na Inglaterra e espalhada para o mundo todo, deu-se a partida para que a curva de crescimento populacional tomasse a forma exponencial assim como a geração de resíduos de uma forma geral. A manufatura perdeu o sentido de trabalho com as mãos, e o que antes era feito com mãos utilizando ferramentas passou a ser feito com máquinas. Contudo até nesse ponto, o pensamento humano em relação a durabilidade e obsolescência não havia chegado ao ponto que se encontra hoje. Com o desenvolvimento da capacidade de uso não energético do petróleo no Séc. XX, surgiram os polímeros sintéticos que inauguraram uma nova classe de resíduos sólidos, e mais do que isso, inauguraram uma mudança cultural profunda, que aceita a descartabilidade e não reparabilidade dos objetos, aumentando ainda mais a geração de resíduos sólidos per capita. Na nossa língua portuguesa o conceito de resíduo sólido está vinculado ao termo popular de “lixo”, algo que não serve mais e que tem de ser descartado. Na norma culta esse conceito de não servir mais tem o nome de rejeito. Contudo, linguisticamente, denominar algo de rejeito, ou vulgarmente „lixo‟ expressa que o indivíduo apenas não encontrou mais nenhum uso para este, e ainda podem existir muitos outros usos para ele. O geocientista e químico James Lovelock disserta em seus livros sobre a teoria de GAIA, que o resíduo de um ser vivo é o alimento de outro e quando o resíduo de algum ser vivo não encontra um consumidor que consiga consumí-lo totalmente os ciclos de retroalimentação da vida na terra realizam mudanças nos padrões da vida. Em menor ou maior escala toda a vida é sintrófica assim como a biota dos reatores anaeróbios.

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2.1.1 Classificação dos Resíduos sólidos de acordo com a fonte geradora

Para se ter uma visão geral das fontes geradoras de resíduos, é coerente se fazer uma classificação de acordo com as fontes geradoras de acordo com a lei federal n. 12305/2010. Como constra em diagrama na Figura 2.1:

Figura 2.1 Classificação dos resíduos sólidos de acordo com a fonte geradora. Fonte: SCHALCH, 2013.

Como o foco do presente estudo é a biometanização da fração biodegradável dos resíduos sólidos sem a adição de matéria orgânica de origem animal (fezes), é conveniente discorrer sobre a fração orgânica de cada uma das fontes geradoras. 2.1.2 A fração orgânica nos Resíduos Industriais

Os RI de transformação, de usinas, e da agricultura, tem sua composição variável dependendo do tipo de processo, e por isso neccessitam de coleta distinta da de RSU. Pela lógica é sempre mais prudente que os diferentes tipos de resíduos sólidos da indústria não sejam misturados, a fim de que se torne possível aproveitar o potencial de reciclo de cada

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um dos tipos de resíduos. São nos resíduos sólidos das indústrias de alimentos e agroindústrias que a fração orgânica tem maior representatividade, e se a segregação for feita no local de origem, torna-se possível o reaproveitamento dessa fração orgânica, seja energicamente via biometanização, para a produção de fertilizante, ou uso na ração animal. Dependendo do tipo de processo industrial, pode ocorrer a geração de resíduo sólido contendo substâncias carcinogênicas, tóxicas, metais pesados e patógenos que, se misturados com águas resíduarias ou outros resíduos sólidos de outros processos, podem contaminar todo o resíduo resultante. Existem processos em que o resíduo sólido gerado tem natureza orgânica, mas durante seu processamento foi adicionado algum produto que contivesse metais pesados, o que inviabilizaria o seu reaproveitamento. Como acontece com a industria de couro, que utiliza o cromo no final do processo de curtimento e faz com que este termine contaminando as raspas de pele. Nesse caso é possível realizar a lavagem deste resíduo sólido contaminado com cromo com taxas de remoção de 30 – 60  5 %, para posteriormente realizar a decomposição anaeróbia, (FERREIRA et al. 2010) e então processeguir com a compostagem (HAROUN et al. 2007) ou se fazer a humificação com a vermicompostagem, que pode aumentar a taxa de retirada de Cr via complexação.(VIG et al. 2011). Outra fonte de matéria orgânica da industria vem das industrias e manufaturas que processam madeira, geram serragem que, se isenta de contaminantes como solventes e adesivos, pode ser incorporada a degradação anaeróbia como uma rica fonte de carbono. Se enquadram também nos RI, os resíduos do setor primário, ou seja, da agricultura. Os efeitos que a revolução industrial teve na maneira do homem de produzir seus alimentos foram drásticos, principalmente com o advento da produção artificial de amônia – NH3 para uso como fertilizante e do desenvolvimento de produtos químicos para combater infestações. Com essas inovações além das próprias mudanças das ferramentas e de introdução de maquinário na lavoura, os resíduos sólidos da agricultura ganharam uma fração não orgânica, de embalagens, recepientes, restos de máquinas e de mangueiras de irrigação, dentre outros. Mesmo assim, a maior fração dos resíduos sólidos da agricultura ainda é orgânica, que quando não há a criação de animais, é composta principalmente por restos vegetais. Pela logística de gestão e de manutenção da vida do solo, esses restos vegetais costumam ser reincorporados na própria lavoura, tanto no método orgânico quanto no método tradicional, que faz uso de defensivos e fertiliantes químicos.

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Güelfo (2011) relata a biometanização da FORI com razão de sólidos voláteis / total de sólidos de 0,22 e remoção de carbono orgânico dissolvido de 72 % e produção de metano de 0,26 L CH4 / Lreator . dia.

2.1.3 A fração orgânica nos Resíduos Sólidos Urbanos

Na parte dos RSU, existem os a fração orgânica dos restos de limpeza urbana é quase que 100% orgânica, com a maioria contituída de restos de plantas (folhas, galhos e frutos) e raramente fezes de animais como aves e cães. A excessão pode surgir com embalagens dentre outros itens de consumo, e que são descartados pelos munícipes em via pública e vão junto com a varrição urbana. Existe a possibilidade da incorporação desse resíduo na cadeia da GIRS (Gestão Integrada de Resíduos Sólidos) orgânico. A natureza rica em carbono das folhas e galhos secos permitem que este resíduo seja incorporado como fonte de carbono na decomposição, tanto aeróbica (como compostagem), quanto anaeróbia (biometanização) de modo a balançear os resíduos orgânicos ricos em nitrogênio como lodos de ETEs e restos de alimentos, de modo que se tenha uma relação de carbono/nitrogênio de 20/1 a 40/1. Devido a sua natureza distinta e peculiar, os resíduos de construção e demolição e de serviços de saúde contam com normas específicas, como a NBR 15114 de 2004 para normatizar resíduos sólidos da construção civil e a NBR 12807 de 1993 para resíduos de serviços de saúde, mesmo assim é comum que os resíduos sólidos da construção civíl sejam destinados às „entulheiras‟, locais como aterros sanitários que dão disposição final a esses resíduos. Restam os resíduos domiciliares, que são os resíduos gerados nas residências e estabelecimentos, como restos de comida, jornais e revistas, embalagens, resíduos de higiêne pessoal (lixo do banheiro) e ainda uma diveRIdade de produtos, podendo estes serem tóxicos como chapas de raio-X, pilhas e baterias, lâmpadas quebradas, ou infecciosos, como os resíduos de higiêne pessoal e outros que entraram em contato com secreções humanas.

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2.1.4 Composição e comparação dos RD dos EUA e Brasil

A Figura 2.2 mostra a classificação que pode ser feita dos tipos de resíduos sólidos que compõem o RD.

Figura 2.2 Classificação dos RD em função dos tipos de materiais que o compõem. Fonte: FRÉSCA (2007).

A caracterização destes tipos de resíduos difere de acordo com a estruturação socioeconômica do país, países mais ricos tendem a ter uma menor proporção de matéria orgânica em seus resíduos. Enquanto países pobres, com menores graus de instrução quanto a disposição e separação do RSU, carência de infraestrutura de coleta e disposição, tendem a ter uma fração orgânica no RD maior. Outro fator de influência dos países pobres é que coincidentemente, estes estão situados nas zonas intertropicais, que por receberem uma intensidade de insolação maior, tem um indice de produção de biomassa maior e isto se reflete no aumento da FORD. Nota-se na caracterização do RD dos E.U.A na Figura 2.4, que a parcela de papel e papelão é bem mais elevada que a da média brasileira da Figura 2.3, que é relativamente semelhante com as duas caracterizações feitas na cidade de São Carlos – SP.

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Figura 2.3 Composição percentual média do Resíduo Sólido Domiciliar – RSU no Brasil. Fonte: PHILIPPI, 2000.

Figura 2.4 Composição porcentual média do Resíduo Sólido Domiciliar – RSU nos E.U.A. Fonte: Relatório EPA, 2009.

A constatação que o próprio autor deste trabalho faz, com base em sua experiência empirica nos E.U.A., é de que o fato da grande proporção de papel e papelão decorre da diferença de como se formou a sociedade norteamericana, calcada na produção industrial a qualquer custo, esta nação privilegiou ao máximo o consumo de produtos descartáveis e o fez utilizando a matéria prima celulósica, abundante na vegetação de taiga predominante na zona mais setentrional da America do Norte, para a fabricação constante de pratos de papel e embalagens, comuns em uma casa típica nos E.U.A, que o faz por não ser comum nesse país a contratação de funcionários para realizar a lavagem de louça, e tarefas

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domésticas, devido ao fato da mão de obra braçal desse país ser mais valorizada que no brasil. O fato de na referida caracterização do RD norteamericano conter pouca matéria orgânica não é algo muito dificil de se imaginar, já que outro elemento que esse país vivenciou ao emplacar sua industrialização, foi a criação de eletrodomésticos que nunca existiram antes da revolução industrial, como a máquina de lavar louças e o “dispenser”, um triturador instalado na parte de baixo das pias, de forma que os restos de comidas do preparo e a rejeição dos pratos sejam encaminhadas triturados junto com a água que escorre das pias, e que contam com ralos grandes para permitir a passagem de restos de alimentos. Essa característica de alta maquinarização doméstica faz a FORD nos E.U.A. ser comumente encaminhada junto das águas residuárias urbanas, a serem tratadas em ETEs, além também do fato cultural de no referido país não se tolerar o desperdício de alimento como no Brasil. É fato que estas indagações não podem ser levadas como verdades absolutas já que países de dimenções continentais como o Brasil e os EUA, tem variabilidades internas culturais muito grandes e que certamente se refletem nos padrões de geração e separação dos RD. É importante destacar a categorização feita pela EPA dos EUA de seus rejeitos tabela 2.1:

Tabela 2.1 Composição dos rejeitos Borracha e Couro Téxteis Madeira Resíduos inorgânicos diversos Outros Total Rejeitos
Fonte: EPA, 2010

% 2,97 4,96 6,57 1,51 1,80 17,81

% do total de rejeitos 16,67 27,83 36,87 8,50 10,12 100

Feita essa distinção dos rejeitos norteamericanos pode-se constatar que mesmo dentro da categoria de rejeitos, ainda é possível realizar o aproveitamento desses materiais, sendo que a madeira, além de reaproveitada, pode ser transformada em pó de serra a ser incorporado em sistemas de compostagem, vermicompostagem e até digestão anaeróbia

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em consórcio com os outros componentes da FORSU mais facilmente biodegradáveis como os restos de comida.

2.1.5 Mudança da composição do RD de São Carlos nas últimas décadas

Ao se fazer a comparação da progresssão da característica do RD de São Carlos, nas Figuras 2.5 e 2.6, constata-se que houveram mudanças de composição como consta na Tabela 2.2:

Figura 2.5 Composição porcentual média do Resíduo Domiciliar – RD em São Carlos em 1989. Fonte: GOMES, 1989.

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Figura 2.6 Composição porcentual média do Resíduo Domiciliar – RSU em São Carlos em 2007. Fonte: FRÉSCA, 2007.

Tabela 2.2 Comparação temporal da composição do RD de da cidade de São Carlos.

TIPOS DE RESÍDUOS Matéria Orgânica Papel e Papelão Plásticos Metal e Alumínio Vidro Tetra Pak Rejeitos/outros
Fonte: FRÉSCA, 2007. Adaptado

GOMES, 1989 56,70% 21,30% 8,50% 5,40% 1,40% 6,70%

FRÉSCA, 2007 59,08% 6,44% 10,47% 1,31% 1,67% 0,94% 20,09%

É perceptível notar a maior inserção que os plásticos passaram a ter, assim como o surgimento da embalagem Tetra Pak, usada para acondicionar líquidos como leite e sucos. Outra mudança interessante é a diminuição da fração de metais e papel/papelão que gradualmente passaram a ser coletados de forma informal por catadores, e pela coleta seletiva de material reciclável, que não existia em 1989.

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2.1.6 A importânica da separação na fonte da FORSU

A gestão da FORSU pode ocorrer de diferentes maneiras. Exitem planos que não fazem a separação na fonte e investem em sistemas de separação mecânica, hidráulica e até mesmo manual. Essas maneiras envolvem gastos municipais a mais e que tem um balanço do ciclo de carbono desfaforável se comparado ao sistemas que fazem a separação da FORSU na fonte. Bolzonella (2006), no noroeste da Itália em Bassano, estuda a degradação anaeróbia em fase seca em dois reatores em grande escala. O primeiro trata 16.000 t/ano, cerca de 40 t/dia, de FORSU separada na fonte . O segundo mistura três tipos de resíduos; 3.000 t/ano de lodo de esgoto. 9.500 t/ano de resíduos orgânicos vindos do tratamento de separação mecânica do RSU não segregado de outras cidades. E 22.000 t/ano de resíduos cinzas da cidade (o RSU não segregado na fonte depois de lhe ser retirado mecanicamente sua fração orgânica). Os teores de sólidos desses reatores eram de 33 e 38 %, e o rendimento de produção de biogás de 180 e 60 m³ biogás/t de resíduo, respectivamente.

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2.2 A origem da vida e a respiração anaeróbia

A hipótese mais aceita para a progressão da vida nesse planeta, remonta à cerca 3,92,5 bilhões de anos atrás, quando a atmosfera não continha oxigênio (LOVELOCK, 1979 HOLLAND, 2006), era uma atmosfera redutora, que permitia às moléculas orgânicas um tempo de existência bem maior do que hoje. De acordo com a teoria da origem da vida mais aceita atualmente pela comunidade científica, estas iam se formando a partir de substânicas inorgânicas como a amônia, gás carbônico, gás hidrogênio, com as altas temperaturas e descargas elétricas constantes (MILLER, 1953). Se acredita que esse cenário primitivo reproduzido por Miller e depois por muitos outros ciêntistas, foi onde tornou-se possível o surgimento vida, dos primeiros ciclos autopoiéticos de reações, envolvendo também reações de complexação de atomos metálicos de transição, como o ferro. que foram se elaborando até se constituírem em multiciclos autopoiéticos de reações químicas. Vê-se esse indício arqueológico hoje na fisiologia de nossos glóbulos vermelhos, que utilizam a complexação do atomo de ferro para distribuir a molécula de oxigênio aos tecidos do corpo. Se estima que a vida tenha demorado mais de 1 bilhão de anos para conseguir, através do armazenamento da energia eletromagnética do sol via redução da água e eliminação de gás oxigênio – O2 (oxifotossíntese), alterar a composição atmosférica, alterando o padrão redox do planeta (HOLLAND, 2006), o raro oxigênio que se formava oxidava o gás metano e as espécies minerais permitindo o surgimento de uma miríade de novos minerais, ao mesmo tempo em que obrigou a vida a desenvolver novos mecanismos e por isso novas espécies para se adaptar a esse novo ambiente oxidante. O cenário anóxico de surgimento da vida na terra se alterou drásticamente, se estima que os níveis de oxigênio foram crescendo até se estabilizar em 21% de hoje, contudo a vida anaeróbia ainda continuou existindo, graças a baixa solubilidade que o gás oxigênio tem na água, esta permaneceu ativa nos locais onde era difícil a penetração do O 2 como o fundo do mar. Os sinais de que a vida surgiu nos oceanos e reproduz condições semelhantes a ele estão no corpo de espécies terrestres como a nossa, o pH e salinidade de nosso sangue se assemelham com o do oceano. Nos sistemas digestórios dos animais, se reproduzem as condições anaeróbias, para simbioticamente, com a ajuda de archaeas, se digerir substânicias que o organismo sozinho não consguiria. (LOVELOCK, 1979). Essa explicação histórica serve para demonstrar a naturalidade que a digestão anaeróbia tem de ocorrer em nosso planeta quando não há a presença de oxigênio.

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2.3 A nova classificação taxonômica de três domínios

O desenvolvimento da biologia se deu a princípio de maneira dissecatória, atribuindo características aos organismos de forma a realizar distinções em espécies, genus, famílias, ordem, classe, filo, reino e por fim os domínios. A distinção em dois domínios, Monera e Eukaryota, eram feitos de acordo com as diferenças morfológicas, bioquímicas e metabólicas. A presença de membrana nuclear separando o genoma que marcava a classificação entre os prokariotas (monera) e eucariontes. A Figura 2.7 apresenta a proposição de Woese et al.(1990) que inaugurou proposição da distinção em três domínios, Bactéria, Archaea e Eukarya (que contém Animalia, Plantae e Fungi e outros).

Figura 2.7 Os avanços da análise das sequências de RNA ribossómico revelam uma árvore de evolução de três domínios, deixando o termo ‘procariota’ obsoleto. Fonte: PACE, 2006.

A emergência da cisão do domínio Monera em Archaea e Bactéria advém das novas técnicas de análise genómica, principalmente de ARN ribossômico, que permitiram traçar mapas mais confiáveis das relações evolucionárias do que as baseadas nas diferenças morfológicas, já que toda a fisiologia está intrinsicamente ligada com os genes. (PACE, 2006) O que faz a classificação dos organismos não eucariontes em prokariotos ser errônea, está ligado ao fato das Archaeas terem diferenças significativas das bactérias, principalmente na maneira que replica e repara o ADN e ARN e na forma que armazena o

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ADN, associado a histonas (SANDMAN, 2006), características compartilhadas com organismos eucariontes. Outras diferenças estão na amplitude de ambientes de as Archaeas podem habitar dado seu alto ecletismo metabólico, desde o trato intestinal dos animais, áreas alagadas (onde produzem metano – todas as metanogênicas são Archaeas), fossas abissais, salinas e vulcões submarinos. Reconhecida a importância das archaeas, estas ainda são semelhantes

morfológicamente às bactérias por serem, organismos unicelulares de tamanho e forma semelhante (em algumas espécies), com genoma circular e sem a presença de organelas citoplasmáticas.

Podemos dividir as archaeas e bactérias em três grupos de acordo com sua rota metabólica: 

Fotótrofos; Utilizam a luz solar como fonte energética mas não realizam a fotosíntese (gerar oxigênio), sua fonte de carbono é orgânica, ou seja, não fixam carbono, exemplos são as halobacterias, ou halofílicas.

Litótrofos; Obtêm energia a partir de compostos inorgânicos reduzidos (ricos em e-), lithos significa pedra em grego e troph consumidor. Isso significa que ao invés de obter eletrons via oxidação da matéria orgânica, estes o obtêm via oxidação de moléculas e elementos inorgânicos. Como o enxofre – S, ferro – Fe, gás hidrogênio – H2 (microorganismos metanogênicos), amônia – NH3 (nitrosomonas) e nitrito – NO-2 (nitrobacter). Portanto, muitos desses indivíduos são capazes de realizar biosíntese (fixar carbono) a partir do gás carbônico – CO2.

Organótrofos; Compõem a microfauna que processa os produtos intermediários, no caso de um reator aneróbio. Organotrófos antagonizam com os litotrófos por obter energia através de compostos orgânicos. O que significa que utilizam como doadores de eletrons substâncias orgânicas, independente de qual

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2.4 Etapas da digestão anaeróbia

A digestão anaeróbia ocorre mediante a ação sintrófica de muitas espécies de microorganismos, principalmente bactérias e archaeas. Suas etapas estão descritas na Figura 2.8, envolvem a hidrolise, secreção de enzimas extracelulares que hidrolisam o material orgânico insolúvel, como lipídios, polisacarídeos, e proteínas em ácidos gráxos, açúcares e aminoácidos, respectivamente, seguido da acidogênese, produção de ácidos orgânicos voláteis pelas bactérias acidogênicas a partir dos monómeros anteriores, seguida da acetogênese, produção de ácido acético, gás carbônico e gás hidrogênio a partir dos AGVs e por fim a metanogenese, onde archaeas hidrogenotróficas e acetoclásticas, transformam H2 e ácido acético em gás metano – CH4 e gás carbônico – CO2. A Figura 2.8 a seguir mostra um diagrama do processo.

Figura 2.8 Diagrama da digestão anaeróbia Fonte: Batstone, 2011

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2.4.1 Hidrólise e acidogênese É a primeira fase da degradação anaeróbia, deriva da união de duas palavras gregas hydro, significando água, e lysis, significando quebra. Constitui as reações químicas de quebra de moléculas, normalmente com a adição de uma molécula de água. Uma parte da molécula se integra com o ion hidrogênio - H+ e outra parte se integra com a hidroxila – OH-. A hidrólise pode ocorrer com a solubilização de sais, onde as moléculas de água interagem com os ions, ou com o intermédio de enzimas, estam tem o sufixo –ase, que em grego significa quebra. Existem as proteases, enzimas que hidrolisam proteínas. Estas quebram as ligações peptídicas que ligam os aminoácidos de determinada proteína. Contudo sua ação é seletiva, apenas proteínas com uma estrutura terciária específica (forma tridimensional) se encaixam no sítio ativo das proteases, inibindo dessa forma a quebra de proteínas que sejam vitais ao organismo em questão. As lipases são enzimas que atuam na quebra de triglicerídeos (lipídeos) formando ácidos graxos e glicerol, compostos mais solúveis em água. O processo de hidrólise das gorduras é relativamente rápido comparado a degradação dos ácidos graxos resultantes. Existem estudos que mostram que concentrações altas de ácidos graxos de cadeia longa podem inibir a atividade metanogênica. (>6C), segundo Koster (1987) concentrações da ordem de 2 – 4 mM de ácido laurico (oriundo de lipídeos e uso de sabões) inibiram em 50% a atividade metanogênica acetoclástica. A Figura 2.9 ilustra as moléculas de glicerol e os ácidos graxos resultantes da hidrólise lipídica.

Figura 2.9 Ilustração das moléculas resultantes da hidrólise lipídica. Fonte: Batstone, 2011

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Existem também as enzimas responsáveis pela quebra de ligações glicosídicas, como as -glicosidases, que participam na quebra de di- oligo- e polisacarídeos como a sacarose, amido e até a celulose. A importância fundamental da hidrolise como primeiro processo de digestão anaérobica é a transformação de moléculas grandes e insolúveis em moléculas menores e mais solúveis em água, isso reduz o acúmulo de partículas insolúveis no reator, e é feito pela excreção de enzimas por bacterias fermentativas hidrolíticas. Alvarez (2000) cita que para a degradação anaeróbia de resíduos sólidos essa etapa normalmente é a etapa limitante, devido a necessidade termodinâmica que a enzima tem em alcançar o substrato a ser hidrólisado, por isso a temperatura é o primeiro fator que influi nessa etapa, assim como o tempo de residência do substrato no reator, sua composição, tamanho das partículas, pH, concentração de amônia e dos próprios produtos da hidrólise (CHERNICHARO, 1997). Uma técnica que pode ajudar a hidrólise da FORD (além de prétratamentos térmicos) é a recirculação de percolado líquido de um reator já em processo de decomposição anaeróbia estabelecida pelo resíduo orgânico novo, isso promove a hidrólise deste assim como auxilia na redução do tempo de partida do reator (GÜELFO, 2010). Esses polímeros que se tornaram monômeros, agora solúveis, podem ser degradados no interior das bactérias fermentativas acidogênicas. Existe uma grande intersecção entre espécies de bactérias fermentativas hidrolíticas e acidogênicas, contudo não se pode dizer que sejam todas hidrolíticas acidogênicas e viceversa. Os indivíduos acidogênicos fermentam esses monomeros da hidrólise (açucares, aminoácidos e ácidos graxos), produzindo compostos mais simples e que serão usados pelos microorganismos nas próximas etapas, as principais moléculas produzidas são ácidos orgânicos de cadeia curta (<5C), álcoois (R-OH), e cetonas (R=O), dióxido de carbono e hidrogênio.

2.4.2 Acetogênese

As bactérias fermentativas hidrolíticas e acidogênicas não tem necessáriamente uma relação sintrófica de ajuda mútua como as bactérias sintróficas acetogênicas tem com as archaeas metanogênicas. Isso ocorre devido ao fato de as archaeas metanogênicas não conseguirem se alimentar de ácidos graxos maiores que 2 carbonos, álcoois maiores que 1

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carbono e açúcares ramificados e de cadeia aromática e que são consumidos pelas acetogênicas, ao mesmo tempo em que as bactérias fermentativas acetogênicas dependem das archaeas metanogênicas, por causa destas últimas decomporem os produtos de seu metabolismo (gás hidrogênio e acetato), permitindo que a acetogênese possa continuar ocorrendo. Pequenas concentrações de gás hidrogênio e acetato inibem o metabolismo acetogênico. Os próprios nomes das espécies de bactérias sintróficas acetogênicas recebem, contém o termo „syntrophos‟, como Syntrophobacter e Syntrophomomas. O modo com que estas se organizam pode ser visualisado na Figura 2.10 a seguir.

Figura 2.10 Foto em microscópio de uma comunide sintrófica de archaeas e bactérias. A barra na base da foto representa 500nm. Fonte: Batstone, 2011

2.4.3 Metanogênese

É a etapa em questão que se quer estimular, já que não se quer priorizar a produção de H2, sob a pena de ocorer a reação em cadeia de redução do metabolismo de AGVs e consequente redução de pH, que por sua vez reduz a atividade metanogênica. Existem bactérias que realizam a metanogênese dentro de suas células durante seu processo de metabolismo normal mas que não chegam a liberá-la , contudo são apenas as archaeas que produzem metano de fato. Os substratos conhecidos usados pelas archaeas são o gás carbônico mais o gás hidrogênio, ácido fórmico, metanol, metilaminas, acetato e monóxido

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de carbono (JONES et al., 1987). As archaeas produtoras de metano são as mais numerosas em espécie e número no planeta e pertençem ao genero Methanosarcina e Methanothrix. Cerca de 2/3 do metano produzido na natureza é oriundo do grupo metil do acetato, enquanto os outros 1/3 vem da redução do gás carbônico – CO2 com e- oriundos do gás hidrogênio – H2 ou ácido fórmico. (FERRY, 2013). Enquanto que em reatores anaeróbios cerca de 70% do metano produzido é oriundo da rota Acetoclástica (GUJER, 1983), uma proporção relativamente próxima da proporção de produção de metano na natureza. Existem algumas bactérias anaeróbias que utilizam o acetato (metanogênicas acetoclásticas), quebram a acetil coenzima A (acetil-CoA) e oxidam o grupo metil e carbonil do acetato completamente até CO2, em contraste as archaeas quebram a molécula de acetato, em reações mais meticulosas e complexas (THAUER, 1989), onde o grupo metil (-CH3) é reduzido a metano e o grupo carbonil (C=O) é oxidado a gás carbônico – CO2 como representa a equação 2.1:

(2.1)

(∆G°‟= - 36 KJ/mol)(VOGELS,1988)

Pelo fato, da quantidade de energia liberada por esta reação ser baixa, as archaeas estritamente acetoclásticas, como as Methanosaetaceaeae, tem uma taxa de crescimento baixo (3,5 a 9 dias para a duplicação de sua população). Isso cria uma dificuldade de se ter a estabilização da atividade metanogênica dentro do reator, assim como para se reestabeleçer a atividade eficiênte de produção de metano quando se tem o „azedamento‟ de reatores (abaixamento do pH). Além desse fato, essas achaeas estritamente acetoclásticas formam filamentos que servem de suporte para toda a trama bacteriana que se forma nos grânulos dos reatores. Contudo, existem também outros generos de archaeas que são mais tolerantes, menos eficiêntes e que atuam nos momentos de partida e quando se tem eficiências baixas de produção de metano, como o gênero Methanosarcina que, como comprova Montero (2009), são mais numerosas no momento de partida do reator, como mostra a Tabela 2.3 abaixo.

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Tabela 2.3 Porcentagens de bactérias, archaeas, e destas últimas, proporção de hidrogenotrofas e acetoclásticas.

Carga orgânica (kg de volume de sólidos/dia) 4,42  32,01 5,07  16,74 5,92  7,89 7,50  15,10 87,58  7,10 67,43  17,31 60,66  8,61 60,41  8,57 12,42  7,10 32,57  17,31 39,34  8,61 39,59  8,57 Eubactérias (%) Archaea (%)

Metanogênos hidrogenotrófos (%) 11,11  5,56 8,58  3,34 6,78  2,12 7,19  1,39

Metanogênos acetoclásticos (%) 1,32  5,28 23,99  16,91 32,56  7,01 32,40  7,81

Fonte: MONTERO, 2009.

Na tabela acima os quatro valores refletem quatro estados de concentração de matéria orgânica que um mesmo reator teve ao longo dos 140 dias de sua operação. Na Figura 2.11 consta uma ilustração das reações bioquímicas e fisicoquímicas que ocorrem num reator anaeróbio, seguindo o eixo vertical e horizontal, respectivamente.

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Figura 2.11 Ilustração dos processos de degradação anaeróbia, os processos bioquímicos constam no eixo vertical e os processos fisicoquímicos no eixo horizontal. Fonte: Batstone, 2011

2.4.4 Sulfetogênese

A sulfetogênese, produção de sulfetos – S2- durante a degradação anaeróbia não é um processo muito desejável do ponto de vista da produção de metano, e ocorre na medida em que exista o elemento enxofre na matéria orgânica a ser digerida, ou a presença de sulfato e sulfitos no efluente. O enxofre orgânico se solubiliza na forma de sulfatos – SO42- , sufitos – SO32-, e outros compostos orgânicos sulfurados e são fermentados por bactérias anaeróbias estrictas, redutoras de sulfato. Estas utilizam o enxofre como aceptor de e- enquanto retiram e- da matéria orgânica. Esta reação redox, comparada ao ciclo de digestão da Figura 2.8, é mais favorecida do ponto de vista termodinâmico, e por isso consome mais

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matéria orgânica, desfavorecendo a rota metabólica normal, e compete por substratos comuns às metanogenicas, o acetato e o gás hidrogênio. A produção de sulfeto que se despreende na forma gasosa, é um ácido corrosivo, tóxico, e que apresenta um mau odor. Este, quando ocorre no biogás, precisa ser lavado para não corroer tubulações e componentes do sistema de transporte e uso do gás metano. Enquanto bioquímica de redução de sulfato, existem dois grupos de microorganismos que podem ser diferenciados, os que não conseguem oxidar a matéria orgânica completamente até gás carbônico e por isso param a oxidação no acetato, são chamadas de acetoclásticas não fermentativas, como a maiorias das espécies de bactérias do gênero Desulfotomaculum, e todas as do gênero Desulfobulbus sp., Desulfomonas sp.. Enquanto que existem as que competem com as archaeas metanogênicas, e por isso oxidam os componentes orgânicos completamente até gás carbônico, como os gêneros Desulfobacter, Desulfococcus, Desulfosarcina, Desulfobacterium e Desulfonema.

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2.5 Reatores Anaeróbios

A seguir será feita uma breve revisão dos tipos de digestores anaeróbios, baseada na abordagem de CHERNICHARO (1997) sobre digestores anaeróbios de lodo, estes reatores surgiram ante a necessidade de saneamento das águas resíduárias urbanas e industriais e, evoluíram em métodos eficazes e que operam em fase fluída com possibilidade de operar em alta taxa de carga de matéria orgânica e geram quantidades apreciáveis de biogás. Um exemplo é a ETE de Franca-SP, que conta com um reator anaeróbio de manta de lodo (UASB). Seu fluxograma está na Figura 2.9.

Figura 2.12 Fluxograma esquemático da ETE da cidade de Franca –SP. Fonte: BDTA, 2005

Vanzo (2000), em relatório sobre a referida ETE relata teores de sólidos do efluente do digestor anaeróbio da ordem de 2 a 3,5 % e que são elevados até 20 - 25% após passagem em fitro prensa de esteira e adição de polieletrólito catiônico. A vazão média de esgoto que entra no sistema é de 900 l/s e a produção de biogás mensal fica em torno de 35.000 – 40.000 m³/mês com composição aproximada de 60% de gás metano.

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Os sistemas anaeróbios de tratamento de lodo podem ser divididos em dois tipos, os convencionais e sistemas de alta taxa.

Sistemas convencionais:    digestores de lodo tanques sépticos lagoas a aeróbias

Sistemas de alta taxa: com crescimento aderido:    reatores de leito fixo reatores de leito rotatório reatores de leito expandido/fluidificado

com crescimento disperso:      reatores de dois estágios reatores de chicanas reatores de manta de lodo reatores com leito granular expandido reatores com recirculação interna

2.5.1 Sistemas convencionais  Digestores de lodo

Os digestores de lodo são tanques simples, em que a entrada de do lodo ocorre de um lado do tanque e a saída de sobrenadante do outro lado, com o fundo feito de forma inclinada de forma a facilitar o escoamento dos sólidos que se decantam no fundo. É possível melhorar a eficiência desse sistema, instalando tanques em série, ou com a instalação de mecanismos de mistura e/ou aquecimento. São normalmente projetados para pequenas estações de tratamento e normalmente não recebe o esgoto in natura.

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Tanques sépticos

Esses tanques normalmente são construídos no local e desenpenham funções múltiplas do tratamento de esgoto, realizando a sedimentação e digestão dos sólidos, separação da escuma que flutua por meio de barreiras na superfície que força a passagem do fluxo pelo meio do tanque. 

Lagoas anaeróbias

Como o nome indica, esse sistema de tratamento ocorre com a construção de uma lagoa, um tanque de elevada razão de área superficial /volume em que seu mecanismo de operação é semelhante aos dos dois tipos anteriores, como a solubilidade do oxigênio é baixa na água, esta, nos primeiros centrímetros de profundidade já cria um ambiente anaeróbio. O fato desta ser descoberta pode resultar na dispersão de maus odores. Normalmente a acumulação de lodo no fundo é lenta e períodos de retirada de lodo demoram por volta de 10 anos.

2.5.2 Sistemas com alta taxa com crescimento aderido O princípio de promover o crescimento bacteriano aderido é fazer com que o tempo de retenção de sólidos seja bem maior que o tempo de retenção hídrica, de forma que não se perca os microorganismos que se proliferam no reator, estes ficam fixados em algum meio suporte inerte, dessa forma cria-se uma razão alta de área superficial por volume de tanque. Para o meio suporte, a lógica é se criar o máximo de volume de espaços intersticiais ao mesmo tempo em que não se crie caminhos preferenciais de passagem do fluxo para que os microorganismos não sejam levados para fora do reator. Pode-se promover o crescimento aderido de três maneiras básicas: 

Leito fixo

Nesse sistema o meio suporte fica fixo por uma grade ou peneira, e a passagem do efluente pode ocorrer de forma ascendente ou de forma descendente, de maneira que o projeto do tanque não favoreça a caminhos preferenciais através do meio suporte. 

Leito rotatório

Esse utiliza o princípio de colocação dentro do tanque de digestão um eixo horizontal com discos intercalados de modo que exista um espaço inerstícial por onde o fluxo

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aconteca e forçe que o excesso de biomassa, mas não ela toda, se despreenda destes e evite entupimentos. O afluente normalmente entra pela parte de baixo do tanque e sai pelo outro lado pela parte de cima, e segue para um tanque auxiliar de decantação. 

Leito expandido/fluidificado

Nesses tanques opera o princípio de fluidização, esse princípio pode ser incorporado em qualquer sistema de tratamento e consiste na entrada do afluente pela parte de baixo de modo que sua velocidade de subida seja alta o suficiente para promover a expanção ou fluidificação do meio suporte. Isso ocorre quando a velocidade do fluxo ascendente de líquido começa a se aproximar do valor da velocidade de queda das partículas do meio suporte, essa velocidade de queda é causada pelo seu próprio peso, de modo que estas ganhem a liberdade de movimento disperso dentro do tanque. Isso elimina os problemas de difusão por entre os espaços interstíciais do meio filtrante. Para que se alcançe velocidades de subida de fluído suficientemente altas a ponto de fazer as partículas se expandirem, é necessária a instalação de uma bomba que promova a recirculação do fluido. A diferença entre o leito expandido e fluidificado são as variáveis do projeto. No leito expandido as particulas permanecem em posições relativamente constantes em relação as outras particulas do meio, de modo que o volume que as partículas passam a ocupar é de 10 a 20% mais do que se não houvesse nenhum fluxo ascendente, ou este fosse despresível diante do peso de cada partícula. Para que ocorra a fluidização, além do aumento da velocidade ascendente, se torna necessário um menor tamanho de partícula de modo que se reduza a necessidade de aumento do fluxo ascencional, menores tamanhos de partícula aumentam a relação de área superfícial total. Por esse motivo de aumento de área superfícial normalmente se reportam maiores taxas de remoção de DQO.

2.5.3 Sistemas com alta taxa com crescimento disperso Nesses tanques se utilizam os princípios de crescimento microbiológico disperso, não aderido a nenhum meio suporte e sim o princípio de crescimento da biomassa, floculação e consequente sedimentação. O crescimento da biomassa pode ocorrer de maneira sintrófica, onde microorganismos filamentosos como as metanogênicas acetoclásticas do gênero Methanosaetaceaeae e outras. Essa cooperação cria uma matriz

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que abriga os outros microorganismos de maneira que se formam grânulos compostos por diversas espécies de microorganismos. 

Reator anaeróbio de dois estágios

O primeiro estágio consiste em um CSTR (Continuous Stirred tank reactor), um tanque de mistura completa e que coloca o afluente em contato com todo o resto de fluído dentro desse reator. Eventualmente haverá a passagem direta de material não digerido, para esse fim, o segundo reator consiste em um decantador para a separação do sólido e reinserção deste no primeiro tanque. A principal dificultade deste processo é que no segundo reator a geração de gás é favorecida pela mistura ocorrida no primeiro reator, o que gera o desprendimento de gás que arrasta particulas para cima e dificulta a decantação do sólido. 

Reator anaeróbio de chicanas

Semelhante ao tanque séptico, o reator de chicanas consiste em uma série de tanques adjacentes conectados em série, e que provocam um fluxo mais eficiênte do lodo pelos volumes, isso é conseguido colocando os tubos que conectam um tanque ao outro de forma que o efluente saia do tanque anterior pela parte de cima (com barreiras na superfície para impedir a entrada de escuma) e entre no tanque seguinte pela parte de baixo, isso cria um movimento ascendente que permite a suspensão do lodo do fundo dos tanques e põe em maior contato as partículas. Como esses reatores não contatam com dispositivos que auxiliem na retenção de sólidos, picos de vazão podem ocasionar a perda de sólidos, por isso não são muito usuais esses sistemas para operar em grande escala. 

Reator de fluxo ascendente e manta de lodo

Esse é um reator de fluxo ascendente lento, com velocidades ascencionais de 0,5 a 1,5 m/h, consequentemente a entrada de afluente ocorre por baixo e não constuma haver a recirculação de líquido. Esse tipo de reator costuma ter dimensões de grande escala e é possível alimentá-lo com esgoto de tratamento preliminar (gradeamento, caixa de areia, e caixa de gordura). O lodo costuma ficar depositado no fundo do reator formando uma manta, e sua partida requer atenção especial, já que uma vez estabelecida a população microbiana, esta exibe intenso grau de atividade e se agrupa formando grânulos. Outro diferencial desse reator (UASB) é seu dispositivo de coleta de gás na parte de cima. Existe uma haleta em toda a parede circular do reator que desvia o gás formado para o centro de

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forma que as bolhas que estejam subindo rentes a parede sejam desviadas para dentro de uma cúpula de formato cônico que capta o gás. Ao lado de fora dessa cúpula, existe um espaço intersticial que permite que seja decantada algum sólido que por ventura tenha sido carregado por alguma bolha, como consta na Figura 2.13

Figura 2.13 Representação de um reator UASB com topo mais largo para promover melhor decantação. A parte inferior do reator com pontilhado mais denso representa o leito de lodo.

Reator de leito granular expandido

Este reator utiliza o mesmo principio do de manta de lodo mas com velocidades ascencionais maiores de 5 a 10 m/h, provocadas através da recirculação e uma relação altura/diâmetro elevada, promovendo uma maior mistura dentro do reator e portanto sendo mais adequado para efluentes com maior quantidade de sólidos solúveis. 

Reator anaeróbio com recirculação interna

Outra variação do reator UASB, esse é um sistema que consiste em uma compartimentalização do reator UASB convencional e que melhora a eficiência de conversão e permite a aplicação de maiores cargas orgânicas. O que ocorre é a alimentação usual do afluente na parte mais baixa da metade de baixo do reator, na zona de mistura, a digestão mais intensa ocorre nessa metade de baixo de modo que seja promovido uma grande geração de gás que é coletado pelo mesmo tipo de dispositivo cônico, só que dessa vez posicionado na metade do reator. O gás que sobe, carrega consigo líquido, até chegarem em um compartimento que fica mais alto que o topo do reator, quando o gás ocupa espaço nesse compartimento, ele desloca o líquido que subiu junto com o gás para baixo que flui por outro tubo que volta até a zona de mistura, e

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encontra afluente novo. Na metade de cima o líquido já com menor carga orgânica sobe em perfil de escoamento pistonado, e passa pelo polimento, já com menor geração de gás, a decantação ocorre mais intensamente.

2.5.4 Os sistemas de digestão anaeróbia de leito lixiviado e mistos

Todos os digestores anaeróbios tratados anteriormente tratam de efluentes líquidos que são principalmente voltados para tratar o esgoto e águas residuárias, estes tem uma natureza fluida. Com a FORSU abrem-se novas portas para métodos que não operam em fase úmida, como a digestão em leito seco lixiviado. A Figura 2.14 ilustra bem esse leque de opções que podem ser usadas em conjunto e com intercâmbio de fluxos para se promover a digestão e tratamento de todos os efluentes que se tem no ambiente humano, tanto águas residuárias quanto resíduos sólidos orgânicos, ou estes dois em consórcio.

Figura 2.14 Gráfico representativo dos tipos de reatores anaeróbios em função de seu tempo médio retenção hidráulico médio e fração de sólidos alimentados. Fonte: Batstone, 2011

35

Para o tratamento da FORSU, este já surge em sua origem com um teor de umidade bem menor do que os lodos, e a adição de água a FORSU só aumenta o volume de resíduo a ser tratado. A vantagem principal de se tratar a FORSU com leitos secos lixiviados é a redução da geração de efluente líquido a ser tratado e possíbilidade de maiores concentrações de sólidos, requerindo volumes menores do que um reator anaróbio de lodo que tratasse a mesma carga orgânica. Na digestão em fase sólida (TS > 15 %) pode ocorrer ou não a recirculação de cada um dos três estados da matéria dentro do reator. Do biogás, do lixiviado, e de sólido. Tudo depende do balanço energético feito entre energia gasta para recircular e energia gerada com gás assim como sua configuração. De qualquer forma, se quer estimular a digestão em todo o volume do reator além de facilitar a passagem dos gases gerados, sem esquecer da necessidade do resíduo sólido novo de receber microorganismos de partida.

36

Reator anaeróbio de leito seco do tipo Valorga

Nesse sistema, desenvolvido por uma empresa européria, a matéria orgânica circula por um tanque cilíndrico com uma haleta interna para aumentar o tempo de passagem da mesma, por onde é reinjetado o biogás produzido a pressão de 8 Bar, de forma que seja estimulada as trocas gasosas, o que inclui os AGV, e misturar a matéria orgânica dentro do reator, como ilustra a figura 2.15 abaixo:

Figura 2.15 Ilustração do reator de base seca desenvolvido pela empresa européia Valorga. Fonte: http://www.valorgainternational.fr/image/imagebank/digesteurlagenda.jpg

37

Reator de leito seco do tipo Dranco

Este reator opera como um reator de lodo de fluxo descendente. É desenhado de modo que parte da matéria digerida que chega no fundo cônico recircule com a matéria nova e sirva de inóculo, enquanto que a matéria orgânica que não foi recirculada termine de se estabilizar e se espessar na parte do fundo do reator para por fim ser bombeada para fora do reator, conforme ilustra a Figura 2.16:

Figura 2.16 Ilustração do sistema de reator anaeróbio em base seca do tipo Dranco. Fonte: http://i4.ytimg.com/vi/CDrBfNdHWJY/maxresdefault.jpg (adaptado e traduzido)

Na tabela 2.4 a seguir. Bolzonella (2006) faz uma revisão de experiências ocorridas na Europa envolvendo os dois reatores anteriores do tipo Valorga e Dranco, mostra os resultados operacionais em relação com os dois tipos de reatores estudados pelo autor. Em seu estudo de uma planta de metanização de RSU em Brassano na Itália. A relação de energia gerada/energia consumida nos dois reatores tipo Valorga, foram de 1,4 e 4,3 kWhgerado/kWhconsumido para o de resíduos mistos e o de FORSU pura e separada na fonte. Os custos de manutenção totais da planta foram de 29€/ttratada (50% foram gastos com mão de obra), 53€/tmateriais rejeitados enquanto que a receita foi de 100€/t e mais 15€/t em certificados „verdes‟.

38

T ab el a

2.
4 E xi bi çã o do s pa râ m et ro s op er ac io na is de di ve rs as ex Fonte: Bolzonela et al. (2006) pe ri ên ci as de pl an ta s de tr at

1 6 . 0 0 0
FORSU

4 3 3 0 78 6 0 4 – 6 1 8 0

V

0, 40

39

3 Bassano (Itália), 2003 4 . 5 0 0 8 Amiens (França), 1987 5 . 0 0 0 6 Bassum (Alemanha), 2003 0 . 0 0 0 5 Brecht (Bélgica), 2000 0 . 0 0 0 2 Salzburgo (Áustria), 1993 0 . 0 0 0
RSD + Poda e Capina Poda e Capina RSU RSU Misto

5 3 8 0 67 – 7 0 3 – 8 6 0 0, 13

V

1 6 0 7 65 – 2 5

7, 5 – 11 ,5 1 4 5

0, 20 – 0, 25

V

N D 5 7 51 . D . N. D.

1 4 7

N. D.

D

4 0

55

1 5

15 – 18

1 0 3

0, 26

N D 3 1 70 . D . N. D.

1 3 5

N. D.

40

5 Tilburg (Holanda), 1994 2 . 0 0 0 3 Engelskirch en (Alemanha), 1997 5 . 0 0 0
C a p a c i d a Local (País), Ano d e Tipo de resíduo T i p o R e a t o r , V a l o r g a o u D r a n c o RSD + Poda e Capina RSD + Poda e Capina

3 7 V – 5 5 32 65

2 0 5 5

7, 5 – 8, 6 9 2

0, 17 – 0, 32

3 5 V 4 5 55 75

2 5 – 3 0
T e m p o d e R e t e n ç ã o H i d r á u li c a , d i a s

8, 4 – 10

0, 1 2 6 22 – 0, 35

T o t a l s ó li d o s , % To tal Só lid os V ol át eis , % T S

P r T C O, kg T S V/ m³ .d o d u ç ã o g á s, m ³/ t X, m³ C H4 / kg TS V

t o n / a n o

O primeiro reator trata 16.000 t/ano, cerca de 40 t/dia, de FORSU separada na fonte. O segundo mistura três tipos de resíduos; 3.000 t/ano de lodo de esgoto. 9.500 t/ano de

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resíduos orgânicos vindos do tratamento de separação mecânica do RSU não segregado de outras cidades. E 22.000 t/ano de resíduos cinzas da cidade (o RSU não segregado na fonte depois de lhe ser retirado mecanicamente sua fração orgânica). Juntos os dois reatores tratam cerca de 50 t/ano. Uma dificuldade que surge para a operação de um reator de leito seco lixiviado é a dificuldade da partida quando se opera apenas com FORSU. A adição de algum inóculo juntamente com a aclimatação dos microorganismos se faz necessária, principalmente se for imposta alguma temperatura superior a ambiente. 

Sistemas mistos

Com a meta de se eliminar as dificuldades inerentes de cada tipo de reator e melhorar a eficiência da digestão de cada tipo de substrato, lodo de esgoto, FORSU e FORI, é possível realizar combinações sinérgicas entre cada tipo de reator, se aproveitando as vantagens que cada tipo proporciona. A Figura 2.17 a seguir ilustra uma possibilidade de comunhão entre dois tipos de reatores anaeróbios. No primeiro estágio é coerente operar com um pH menor, menor volume de reator de forma a se priorizar a ocorrência da hidrólise e da acidogênese, de maneira que o TRH fique baixo e não permita o desenvolvimento de metanogênicos nem de acetogênicos, mas aumente a proporção de nutrientes dissolvidos, (aumentar a razão Sólidos Voláteis/Sólidos Totais)

Figura 2.17 Esquema de tratamento em dois estágios onde se propicia a hidrólise e acidogênese no primeiro estágio e a metanogênese no segundo estágio. Fonte: Blumensat (2005)

Nessa proposta feita por Blumensat (2005) se tentou aplicar o modelo de digestão anaeróbia 1 (ADM1) em dois reatores agitados ligados em série. Esse modelo busca levar

42

em conta diversas reações de desintegração, relações de equilibrio em função do pH e temperatura e concentrações de diversos substratos para tentar prever o comportamento de da digestão anaeróbia. Contudo o autor cita algumas inconsistências a serem melhoradas como a inclusão de mais balanços de massa e energia, assim como a hidrólise de lipídeos. O modelo ADM1foi criado

2.6 Requerimentos para o processo

43

A digestão anaeróbia, assim como qualquer processo biológico, é um processo multiparâmetros, com cada variável tendo tanto sua influência individual no processo, assim como se interagindo com os outros parâmetros, essa natureza biológica faz da abordagem experimental empirica o caminho mais seguido pela ciência, em detrimento da abordagem teórica, que busca a criação de modelos a partir do conhecimento teórico disponível.

2.6.1 Partida

Normalmente o processo de decomposição anaeróbia pode se iniciar imediatamente com a presença de inóculo adequado, e garantindo a não entrada de ar atmosférico. Se o objetivo da digestão anaeróbia é a geração de biogás é de se considerar o ato de realizar uma partida eficiênte. A necessídade de utilização de um inóculo varia entre cada tipo de reator assim como sua escala, reatores de crescimento aderido por exemplo, normalmente não requerem um inóculo para a partida. Sua grande relação de área superficial por área de reator permite um ambiente propício para a proliferação de um biofilme aderido. Para reatores anaeróbios inundados, com teor de sólidos inferior a 15 %, é indicado se utilizar inóculo de partida na taxa de 50 %, com a progressiva redução deste valor em cada alimentação, ao longo de um período de 3-4 semanas, até se alimentar o reator apenas com o resíduo orgânico desejado (POLPRASERT, 1996). Para reatores. Rao et al.(2003), para dar a partida em um reator anaeróbio de bancada de 3,25 L, utilizou apenas 15 % de inóculo oriundo de um reator do tipo KVIC (Khadi and Village Industries Comission) que digeria apenas esterco bovino. Güelfo (2010) relata que reatores úmidos (TS de 5-10%) operando em condições mesofílicas (~35°C) tem desempenho inferior que reatores secos (TS 30%) operando em condições termofílicas (55°C), e para superar o longo tempo normalmente requerido para a partida de um reator só de FORSU, este elaborou uma modificação do método SEBAC (Sequencial Batch Anaererobic Composting - compostagem anaeróbica sequencial). Um esquema do método SEBAC adaptado pelo autor está na Figura 2.17

44

Figura 2.18 Esquema de um reator SEBAC, utilizado para fornecer o inóculo líquido, a ser incorporado no experimento. O reator da esquerda é um leito lixiviado por onde é recirculado o inóculo de modo a se transpor para a fase aquosa os microorganismos do esterco de porco, ao mesmo tempo em que estes de aclimatam a FORSU também é misturada no leito. Fonte: Güelfo et al. (2010)

Esse esquema SEBAC também pode ser usado como o próprio processo de digestão, enquanto no primeiro reator se coloca a matéria orgânica nova, que será percolada com o líquido do segunto reator, a matéria entra em contato com enzimas e se fomenta a solubilização de substâncias, com um teor de sólidos variando de 10-15% (Buitrón et al., 2006). Este segundo reator em fase líquida, pode ser um UASB ou um reator de leito granular expandido ou qualquer outro reator de lodo que consiga degradar a DQO que irá para a fase aquosa na forma de matéria orgânica dissolvida. O próprio autor intui e sugere que para se aumentar a eficiência do primeiro estágio, é possível a construção de muitos tanques primários com volume menor de forma que cada um esteja em uma fase de digestão/solubilização, e um tanque de digestão secundária bem maior. Dessa maneira se pode operar de forma semicontínua no primeiro estágio e de forma contínua no estágio secundário que pode receber outros tipos de lodos de outros tratamentos (realizar a digestão da FORSU em uma ETE por exemplo). As subfases que constituem o primeiro estágio poderiam ser uma primeira recirculação de líquido do reator secundário para posteriormente se alimentar com biogás recirculado como ocorre no proceso Valorga ou realizar os dois tipos de injeções

45

simultaneamente e independentemente, de acordo com a necessidade de controle no teor de sólidos neste reator. Essas suposições merecem alguma investigação e se constituem sugestões úteis que podem ser levadas em conta para pesquisa posterior.

2.6.2 Temperatura

A variação de temperatura diária e anual podem ter efeitos pronunciados sobre a taxa de digestão anaeróbia de matéria orgânica. Países tropicais costumam sofrer menos com as variações sazonais. Usualmente se tem dois patamares ótimos de temperatura de digestão, o mesofílico (25 – 40 °C) e termofílico (50 – 65 °C). Para temperaturas muito superiores a temperatura atmosférica torna-se necessário uma constante alimentação de calor ao reator (com o calor de combustão do próprio gás metano por exempli), assim como se urge um cuidado com a saída de calor do reator, e quanto mais isolamento térmico este tiver melhor será seu desenpenho. Contudo, existe uma faixa de temperatura entre a mesofílica e termofílica, cerca de 45°C, que não privilegia nem as bactérias mesófilas nem as termófilas e ocorre um redução na taxa de produção de biogás no reator. A operação na fase termófila é mais difícil que a mesófila, exige a entrada e controle constante do calor fornecido e pode ser uma operação instável. Polprasert (1996) levanta algumas dúvidas em torno na viabilidae de se operar um reator anaeróbio nas condições de temperatura acima de 30 – 35 °C. Além disso Duran e Speece (1997) relatam que a taxa de mortaliadade de microorganismos termófilos é maior que a mesófila. Existem também outras soluções para se manter o reator aquecido, pode-se construír um espaço anular nas paredes externas do reator de forma a se colocar material orgânico e realizar uma boa aeração e assim favoreçer a compostagem e consequente termofilia para aquecimento. Outra idéia é utilizar painéis de aquecimento solar no telhado do reator e permitir que a água aquecida circule por tubos de cobre dentro do reator. Uma variação que tem de ser levada em conta ao se aumentar a temperatura de um reator é que maiores temperaturas criam tempos de retenção hidráulica menores. Além disso nunca se deve realizar mudanças bruscas de temperatura. Chang, W. et al. (2006) estabilizou a operação de um reator termofílico em 55°C em um digestor de 2L,

46

operando com uma carga orgânica de 8.0 g SV/(L·d) e TRH de 15 dias, com um TS de 15,5% e 88,6% SV/TS. Para daí fazer reduções bruscas de temperatura para 20°C. A Figura

Figura 2.19 Gráfico comparando as reações da produção de metano de 4 reatores ante à diminuição de temperatura de 55 para 20°C, mantidos para (a) 1h, (b) 5h, (c) 12 h e (d) 24h. Fonte: Wu et al. (2006)

2.6.3 pH

A faixa de pH ótima para um reator anaeróbio está na faixa de 7- 7,5, contudo este ainda pode operar em pH 6,6 – 7,6. As acidogênicas e hidrolíticas conseguem tolerar valores de pH tão baixos quanto 5,5. Normalmente o abaixamento de pH ou vulgarmente chamado de azedamento, devido ao odor característico do biogás emanado, acontece quando se aplica uma carga orgânica muito alta para o tipo de reator anaeróbio, assim como a presença de substâncias tóxicas, que podem ser até ácidos gráxos em excesso, e também inibem as metanogênicas e produz uma reação em cascata de acúmulo de AGVs.

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É possível aplicar doses de cinzas (KOH), bicarbonato de sódio, cal e outros reagentes básicos como forma de controle do pH em níveis adequados. É possível a operação proposital de algum reator em pH ácido de forma a promover a hidrólise e acidogênese, como uma predigestão seguida de um reator com pH neutro, como foi tratado no tópico 2.5.4 Os sistemas de digestão anaeróbia de leito lixiviado e mistos. Essa é uma idéia lógica que se tem quando se observa os sistemas vivos e a maneira que estes digerem seu alimento, que no caso dos seres humanos e outros vertebrados, ocorre em um primeiro compartimento ácido (estômago) e em seguida em um compartimento básico (intestino), pode-se imitar essa estratégia a fim de se promover a digestão nos reatores. O abaixamento de pH no estômago permite que proteínas sejam quebradas em detrimento de açúcares que permanecem menos digeridos e além de se inativar patógenos, com o aumento de pH para o intestino se torna possível a emulsificação e digestão de lipídios assim como os produtos oriundos deste (glicerina e ác. Graxos).

2.6.4 Concentração de nutrientes

A relação C/N ideal para um reator anaeróbio também é similar a relação C/N para a compostagem, 25-30 C/N. Isso indica que é uma tendência geral, o consumo geral de carbono dentro do reator ser 25 – 30 vezes maior que o de nitrogênio, que serve principalmente como elemento construtívo (formação de proteínas), enquanto que o consumo de carbono está associado ao consumo da energia contina entre as ligações covalentes do mesmo. Existem muitas combinações possíveis quando se quer realizar uma digestão consorciada de muitos tipos de MO. Lodos de esgoto, urina, estercos animais tem uma relação C/N bem baixa < 17/1, seguida de grama cortada fresca. Material seco, como cascas, galhos, folhas secas e pó de serra contem uma relação C/N mais alta que o ideal de 25-30. Dessa forma torna-se possível a combinação de diversos tipos de RS de diferentes fontes para se realizar a digestão anaeróbia.

48

2.6.5 Carga de MO

Existem diversas maneiras de se caracterizar a carga de MO aplicada em um reator, as mais comuns são kg DQO/m³.dia e kg SV/m³.dia. Chernicharo (1997) cita que para digestores de baixa carga, a quantia de matéria orgânica adicionada é de 0,6 a 1,6 kgSV/m³.dia, enquanto que para reatores a alta carga, pode se operar com 1,6 a 3,2 kgSV/m³.d. Enquanto que para reatores UASB e de leito granular expandido pode se ter cargas de 5 até 25 kgDQO/m³.dia. Bolzonella et al.(2006) relata que para o reator de leito seco do tipo Valorga é possível ter carregamentos da ordem de 3- 8 kgSV/m³.dia o que constitui cargas orgânicas maiores para reatores secos, como se demonstra na Figura 2.14 onde esta posto em diagrama as cargas de sólidos e TRH dos difentes tipos de reator.

49

2.7 Efluente gasoso

O efluente gasoso da decomposição anaeróbia, chamado de biogás consiste de uma mistura de gás metano – CH4, gás carbônico – CO2, e outros gases traço como sulfetos S2-. A reforma desse gás se faz necessária para se aumentar o poder calorífico deste, na medida em que se retira o gás carbônico, que impactua negativamente na reação de combustão do metano, dessa forma reduzindo a disponibilidade do gás oxigênio atmosférico de oxidar o gás metano. O gás metano normalmente está presente no biogás com concentrações entre 35-65%, enquanto que o gás carbônico costuma estar presente na faixa de 15-50%. O poder calorífico do biogás é 4.500 – 6.300 kcal/m³, quando deste é retirado o gás carbônico esse valor pode chegar a quase o dobro 12.000 kcal/m³. Além disso a reforma do biogás é importante para se retirar ânions ácidos como sufetos, que são corrosivos para tubulações e os outros componentes envolvidos no transporte deste. Ao se reformar o biogas também se garante a aproximação de sua composição para os padrões de distribuição de gás da rede, permitindo assim a sua venda e consequente entrada de recursos. Se uma quantia de biogás tiver uma porcentagem de 35 % de gás carbônico, e assumindo que o CO2 tenha uma densidade de 1,84 kg/m³, à pressão atmosférica de 1atm, e a 20°C, seria necessária 429L de água pura para retirar todo o gás carbônico deste efluente. Outra necessidade é o resfriamento e secagem do gás metano que foi lavado, de maneira a impedir que vapor d‟água seja encaminhado com o gás tratado.

2.7.1 Lavagem por água a alta pressão

A lavagem de água a alta pressão utiliza o mesmo princípio de solubilidade do gás carbônico em água, só que se aumenta a pressão do local onde a água entra em contato com o gás para que se dissolva mais CO2/l de solução. A tabela 2.5 mostra as solubilidades do CO2 na água.

50

Tabela 2.5 Solubilidades aproximadas do CO2 na água.

Pressão Atm. 1 10 50 100 200 kg/cm² 1,03 10,30 51,70 103,00 207,00 0 0,40 3,15 7,70 8,00 10 0,25 2,15 6,95 7,20 7,95

Temperatura (°C) 20 0,15 1,30 6,00 6,60 7,20 30 0,10 0,90 4,80 6,00 6,55 40 0,10 0,75 3,90 5,40 6,05

Fonte: Nonhebel (1972)

Após feita a absorção do gás carbônico, este é levado a uma câmara com menor pressão de modo que este escape para a atmosfera, e o líquido possa ser recirculado pelo lavador. O gás sulfídrico, pode se tornar um problema na água de lavagem, se não for retirado promoverá a corrosão dos canos e equipamentos envolvidos.

2.7.2 Lavagem com solução básica

Pelo fato do gás carbônico e gás sulfídrico serem gases ácidos, a lavagem com uma solução alcalina pode aumentar o poder de absorção desses gases do que se usado um mesmo volume de água sem reagentes básicos. Os reagentes alcalinos que tem preços acessíveis são o NaOH, Ca(OH)2 e KOH. A reação de absorção do gás carbonico em uma solução de soda caustica – NaOH e consequente precipitação de bicarbonato de sódio, são:

(2.2) (2.3)

Dessa forma, a precipitação de bicarbonato de sódio permite que este seja retirado via decantação. A Figura 2.18 abaixo ilustra uma coluna de recheio para ser usada como lavador de gás quando se tem uma reação de precipitação como a da soda cáustica com gás

51

carbônico, enquanto que o líquido em que surge o bicarbonato de sódio, é deixado para decantar no tanque abaixo na coluna de recheio. A retirada de água do tanque de sedimentação pode ocorrer na medida em que o pH da solução de água mãe permaneça alto o suficiente para conseguir ainda reagir com o gás carbônico. Nesse esquema há de se ter cuidado com o calor que a NaOH libera quando se dissolve na água, por isso a alimentação de soda cáustica deve ser feita com ela já dissolvida e resfriada, sob a pena de se ter uma redução do poder de absorção da solução alcalina quanto está está mais quente, como mostra a tabela 2.5 acima.

Figura 2.20 Esquema de um tanque com uma coluna de recheio acoplada utilizada para a lavagem do biogás e retidarada de gás carbônico e gás sulfídrico. Fonte: O próprio autor (2010).

Outros reagentes como a cal virgem, ou cal hidratada (dissolvida em água), podem ser usados na solução de lavagem. Além disso tanto a soda cáustica quanto a cal também reagem com os ions sulfeto e se precipitam, essa reação demora mais que a de carbonatação, a reação é a seguinte:

(2.4)

52

2.7.3 Lavagem com solventes orgânicos

Os mesmos princípios discutidos anteriormente podem ser usados para se realizar a reforma do biogás gerado, mas desta vez se utiliza moléculas orgânicas, como o MEA (mono etanol amida) ou DMEA (dimetil etanol amida) e outros produtos comerciais. Se lava o biogás, normalmente a uma pressão maior e depois, se recupera o absorvente reduzindo a pressão de forma que o gás carbônico se despreenda deste.

2.7.4 Processo PSA (Pressure Swing Adsorbtion) O processo de adsorção com peneiras moleculares utiliza substratos como o carvão ativado ou peneiras moleculares, materiais com poros de tamanhos nanoscópicos. Se insere o biogás a alta pressão em recipientes contendo estes materiais. O biogás necessita ser previamente seco e dele retirado todo o S2-, já que o sulfeto tem uma afinidade à superfície adsorvedora muito maior que o CO2 e sua presença rapidamente satura a peneira

molecular. Esse é um processo semicontinuo onde regularmente se necessita de retirar o CO2 adsorvido via redução de pressão até níveis atmosféricos, ou algum vácuo.

2.7.5 Retirada de sulfeto por meio de óxido de ferro

A ferrugem que se acumula nos componentes de ferro que vão se oxidando com o tempo pode ser um reagente para reagir com o S2-, formando FeS. Para isso, basta fazer o biogás passar por um leito seco contendo o óxido de ferro, junto com outro elermento de recheio, como serragem que a reação ocorre da seguinte maneira:

( 2.5 )

A seguir é possível regenerar o Sulfeto de ferro, ou aquecendo, ou expondo o mesmo ao ar atmosférico para que ocorra a seguinte reação:

53

( 2.6 )

Este processo pode ser utilizado como um primeiro passo com o fim de se retirar o enxofre do efluente gasoso para proceguir com outro processo de retirada do gás carbônico. Além disso, existe a chance de se conseguir separar o enxofre – S2 e ter algum ganho com a venda do mesmo, já que não existem muitas jazidas desse mineral no Brasil.

54

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se concluir que a degradação de matéria orgânica via biometanização é um processo possível e que pode ser feito não apenas por profissionais de saneamento, se forem tomadas as devidas providências e cuidados na construção, instalação, e operação do projeto. A popularização dos processos de biometanização da FORSU que podem decorrer de pesquisas no tema, certamente ajudará o Brasil a atingir as metas propostas pelo PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos no que diz respeito a abolição de locais de descarte inadequado do RS (lixões) e consequente necessidade que surgirá das companhias que gerenciam os aterros em estender sua vida útil. Portanto um esforço não apenas do governo, e de iniciativas privadas, mas também da população como um todo, será necessário para o Brasil não ficar parado na mudança de paradigmas que será imposto à humanidade no que diz respeito a como obtém sua energia.

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4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUILAR, M.; GÜELFO, L.; GALLEGO, C.; GARCÍA, L. Effect of HRT on hydrogen production and organic matter solubilization in acidogenic anaerobic digestion of OFMSW Chemical Engineering Journal, v. 219, 2013, p. 443-449

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57

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