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SERENID ADE.

Martin Heidegger

Tradução de Marcos Paulo Lopes Vieira da versão castelhana de Yves Zimmermann, publicada pelas Ediciones del Serbal, Barcelona, 1994.

A primeira palavra que me permito dizer publicamente em minha cidade natal somente pode ser uma palavra de agradecimento.

Agradeço ao meu país natal tudo aquilo me tem dado ao longo de um extenso caminho. Intentarei expor em que consistem estes dotes em umas poucas páginas que apareceram pela primeira vez sob o título de “O Caminho do Campo” no ano de 1949 para comemorar o centenário da morte de Conradin Kreutzer. Agradeço ao senhor prefeito Schühle por sua cálida saudação. E agradeço ainda particularmente a agradável tarefa de pronunciar uma alocução comemorativa na ocasião da celebração de hoje.

Distintos convidados!

Queridos conterrâneos!

Estamos reunidos para comemorar nosso conterrâneo, o compositor Conradin Kreutzer. Quando queremos celebrar um desses homens que são chamados para criar obras, devemos, em primeiro lugar, render à obra a homenagem devida. No caso de um músico isto sucede

quando fazemos ressoar as obras de sua arte.

Na obra de Conradin Kreutzer soam hoje o canto e o coro, a ópera e a música de câmara. Nestes sons está presente o artista mesmo, pois a presença do mestre na obra é a única que é autêntica. Quanto maior o mestre tanto mais puramente desaparece sua pessoa por detrás da obra.

Os músicos e os cantores que participam da celebração de hoje garantem que a obra de Conradin Kreutzer ressoe para nós neste dia.

Porém, é a celebração já por isso uma celebração comemorativa (Gedenkfeier)? Uma celebração comemorativa exige que pensemos (denken). Contudo, o que pensar e o que dizer em uma celebração comemorativa dedicada a um compositor? A música não se caracteriza pelo fato de que “fala” já pela mera sonância de seus sons de modo que não precisa da fala comum, da fala da palavra? Diz-se assim. Apesar de tudo, a pergunta persiste: a celebração com música e canto é já por isto uma celebração comemorativa, uma celebração na qual pensamos? Presumimos que isto não seja assim. Por isso, os organizadores incluíram uma “alocução comemorativa” no programa. Isso deve nos ajudar a pensar especialmente no compositor homenageado e em sua obra. Esta comemoração se torna viva desde o momento em que recordamos novamente a vida de Conradin Kreutzer e enumeramos e fazemos um relato de suas obras. Por efeito desta narração, podemos fazer a experiência de múltiplas coisas; algumas, felizes e tristes; outras, instrutivas e dignas de imitação. No fundo, porém, com semelhantes palavras somente nos deixamos entreter. Não é, em absoluto, necessário pensar quando as escutamos, isto é, meditar acerca de algo que, a cada um de nós nos concerne diretamente e em cada momento em sua essência. Por

isto, inclusive uma alocução comemorativa não assegura ainda que uma celebração comemorativa seja, para nós, uma ocasião de pensar.

Nós criamos, para nós, ilusões. Todos nós, inclusive aqueles que, por assim dizer, são profissionais do pensar, todos somos, com muita freqüência, pobres de pensamento (gedanken-arm); estamos todos, com demasiada facilidade, carentes de pensamentos (gedanken-los). A carência de pensamento é um hóspede incômodo que no mundo de hoje entra e sai de todas as partes. Isto porque hoje em dia se tem notícia de tudo pelo caminho mais rápido e econômico e se esquece no mesmo instante de tudo com a mesma rapidez. Desse modo, um ato público segue ao outro. As celebrações comemorativas são cada vez mais pobres de pensamento. Celebração comemorativa (Gedenkfeier) e carência de pensamento (Gedankenlosigkeit) se encontram e concordam perfeitamente.

Nada obstante, quando estamos carentes de pensamento não renunciamos a nossa capacidade de pensar. Nós a usamos inclusive necessariamente, mesmo que de uma maneira estranha, de modo que na falta de pensamento deixamos erma nossa capacidade de pensar. Contudo, somente pode ser ermo aquilo que em si é base para o crescimento de algo, como por exemplo, um campo. Uma rodovia, na qual não cresce nada, também não pode ser nunca um campo ermo. Do mesmo modo que somente podemos chegar a sermos surdos porque somos ouvintes e do mesmo modo que unicamente chegamos a ser velhos porque éramos jovens, por isso mesmo, também, unicamente podemos chegar a ser pobres e inclusive carentes de pensamento porque o homem, no fundo de sua essência, possui a capacidade de pensar, possui “espírito e entendimento”, estando da mesma forma destinado e decidido para o pensamento.

Somente aquilo que possuímos com conhecimento ou sem ele, podemos também perdê-lo, ou como se diz: desembaraçarmo-nos dele.

A crescente carência de pensamento reside, dessa forma, em um processo que consome a medula mesma do homem contemporâneo: sua fuga diante do pensar. Esta fuga diante do pensar vem junto ao fato de que o homem não a quer ver nem quer admiti-la. O homem de hoje negará inclusive completamente esta fuga diante do pensar. Afirmará o contrário. Dirá — e isto com todo o direito — que nunca em nenhum momento se realizou planos tão vastos, estudos tão variados, investigações tão apaixonadas como hoje em dia. Certamente. Este esforço de sagacidade e deliberação tem a sua utilidade, e mesmo uma grande utilidade. Um pensar deste tipo é imprescindível. Porém, continua sendo certo que este é um pensar de tipo peculiar.

Sua peculiaridade consiste em que à medida que planificamos, investigamos, organizamos uma empresa, contamos já sempre com circunstâncias dadas. Nós as tomamos em conta com a intenção calculada de algumas finalidades determinadas. Contamos, pois, antecipadamente com determinados resultados. Este cálculo caracteriza todo pensar planificador e investigador. Semelhante pensar permanece sendo cálculo ainda quando não opera com números nem ponha em movimento máquinas de somar nem calculadoras eletrônicas. O pensamento que conta, calcula; calcula possibilidades continuamente novas, com perspectivas cada vez mais ricas e, ao mesmo tempo, cada vez mais econômicas. O pensamento calculador corre de um estado ao seguinte, sem deter-se nunca nem parar para meditar. O pensar calculador não é um pensar meditativo; não é um pensar que pense desde o sentido que impera

em tudo quanto é.

Há, assim, dois tipos de pensar, cada um dos quais é, por sua vez e à sua maneira, justificado e necessário: o pensar calculador e a reflexão meditativa.

É a esta última à qual nos referimos quando dissemos que o homem de hoje foge diante do pensar. De todas as maneiras, replica-se: a mera reflexão não se dá contas de que está nas nuvens, por cima da realidade. Perde o chão. Não tem utilidade para abordar os assuntos correntes. Não contribui com benefícios para as realizações de ordem prática.

E, caso se acrescente finalmente à mera reflexão a meditação persistente, isso resulta para o entendimento comum algo de demasiado “elevado”. Considerando esta evasiva, é certo apenas que o pensar meditativo se dá de uma maneira tão pouco espontânea como o pensar calculador. O pensar meditativo exige, por vezes, um esforço superior. Exige uma ampla preparação. Requer cuidados ainda mais delicados que qualquer outro ofício autêntico. Porém, do mesmo modo que o campônio, deve saber esperar que as sementes brotem e cheguem a amadurecer.

Por outra parte, cada um de nós pode, à sua maneira e dentro de seus limites, acompanhar os caminhos da reflexão. Por que? Porque o homem é o ser pensante, isto é, meditante. Assim sendo, nós não necessitamos, de forma alguma, de uma reflexão “elevada”. É suficiente que nos demoremos junto à proximidade e que meditemos acerca do mais próximo: acerca do que concerne a cada um de nós aqui e agora; aqui, neste recanto da terra natal; agora: na hora presente do acontecer mundial.

No caso de nos encontrarmos dispostos a meditar, o que é que nos sugere esta celebração? Observamos então que neste caso floresceu uma obra de arte da terra natal. Se refletirmos sobre este simples fato, acabaremos por nos surpreender que a terra suábia tenha dado à luz grandes poetas e pensadores durante o século passado e no anterior. Pensando bem nisto, vê-se em seguida que a Alemanha Central também fora, neste sentido, uma terra fértil, o mesmo também se aplica à Prússia Oriental, Silésia e Bohemia.

Tornamo-nos pensativos e perguntamos: o pleno florescimento de uma obra depende do enraizamento em um solo natal? Johann Peter Hebel escreveu uma vez: “Somos plantas —gostemos ou não de o admitir — que devem sair com as raízes da terra para poder florescer no éter e dar frutos”. (Obras, ed. Altweg, III, 314).

O poeta quer dizer: para que floresça verdadeiramente alegre e vigorosa a obra humana, o homem deve poder se elevar desde a profundidade da terra natal ao éter. Éter significa aqui: o ar livre do alto céu, a região aberta do espírito.

Nós nos tornamos ainda mais pensativos e perguntamos: o que há, hodiernamente, disto que Johann Peter Hebel diz? Dá-se ainda esse aprazível habitar do homem entre o céu e a terra? Prevalece, ainda, o espírito meditativo no país? Ainda há a terra natal de raízes fecundas sobre cujo solo possa o homem repousar e ter desse modo enraizamento?

Muitos alemães perderam a sua terra natal, tiveram de abandonar seus povos e cidades, expulsos do solo natal. Outros tantos, cuja terra natal lhes fora preservada, emigraram, no entanto, e foram lançados

na agitação das grandes cidades, obrigados a se estabelecerem no deserto dos bairros industriais. Tornaram-se, por força disto, estranhos à velha terra natal. E os que nela permaneceram, em muitos aspectos estão ainda mais desenraizados que o exilados. A cada dia, de hora em hora se encontram enfeitiçados pelo rádio e pela televisão. De semana em semana

o cinema os arrebata rumo aos âmbitos insólitos para um comum sentir,

porém com freqüência são assaz ordinários e simulam um mundo que não

é mundo algum. Junto a isso, em todas as partes estão sempre à mão

revistas ilustradas. Tudo isto com que os modernos instrumentos técnicos de informação estimulam, assaltam e agitam o tempo todo o homem —

tudo isto resulta para ele mais próximo que o próprio campo em torno da casa; mais próximo mesmo que o céu sobre a terra; mais próximo ainda que o caminhar das horas, o caminhar dos dias para as noites; mais próximo que o usos e os costumes do povo; mais próximo que a tradição do mundo em que nasceu.

Tornamo-nos mais pensativos e perguntamos: o que acontece aqui é o mesmo, entre os que foram expulsos de sua terra natal e entre aqueles que permaneceram nela? Resposta: o enraizamento do homem de hoje está ameaçado em seu ser mais íntimo. Além disso: a perda do enraizamento não advém simplesmente causada pelas circunstâncias externas e pelo destino, nem tampouco reside somente na negligência e na superfluidade dos modos de viver dos homens. A perda do enraizamento procede do espírito da época na qual todos nós viemos a nascer.

Tornamo-nos ainda mais pensativos e perguntamos: se isto é assim, pode o homem, pode no futuro uma obra humana ainda prosperar a partir de uma fértil terra natal e elevar-se ao éter, isto é, à amplidão do céu

e do espírito? Ou tudo será detido pelas tenazes da planificação e cibernetização da organização e do empenho automatizado?

Se intentarmos meditar o que a celebração de hoje nos sugere, observaremos que nossa época se encontra ameaçada pela perda do enraizamento. Perguntamos então: o que acontece propriamente nesta época? O que a caracteriza?

A época que agora começa se tem denominado ultimamente de a era atômica. Sua característica mais aparente é a bomba atômica. Porém este sinal é muito superficial, pois que posteriormente nos damos conta de que a energia atômica pode também ser proveitosa para fins pacíficos. Por isso, hoje a física atômica e seus técnicos estão, em toda parte, tornando efetivo o aproveitamento pacífico da energia atômica mediante planejamentos de largo alcance. As grandes associações industriais dos países influentes, liderados pela Inglaterra, já calcularam que a energia atômica pode chegar a ser um negócio gigantesco. Vêem o negócio atômico como a nova felicidade. E a ciência atômica não se mantém à margem dessa expectativa. Proclama publicamente esta felicidade. Desse modo, no mês de julho deste ano, dezoito titulares do prêmio Nobel reunidos na ilha de Mainau declararam literalmente em um manifesto: “A ciência, ou seja, a ciência natural moderna — é um caminho que conduz a uma vida humana mais feliz”.

O que há nesta afirmação? Nasce de uma meditação? Pensa alguma vez nos vestígios do sentido da era atômica? Não. No caso de que nos deixemos satisfazer pela afirmação citada, a respeito da ciência, permaneceremos distanciados o máximo possível de uma meditação acerca da época presente. Por que? Porque esquecemos do refletir. Porque

esquecemos do perguntar. Ao que se deve que a técnica científica tenha podido descobrir e pôr em liberdade novas energias naturais?

Deve-se a que, desde alguns séculos, o fato de ocorrer uma revolução em todas as representações cardeais (massgebenden Vorstellungen). O homem se translada, dessa forma, para uma outra realidade. Esta revolução radical de nosso modo de ver o mundo se consuma na filosofia moderna. Daí nasce uma posição totalmente nova do homem no mundo e com respeito ao mundo. Agora o mundo aparece como um objeto ao qual o pensamento calculador dirige seus ataques, aos quais nada doravante deve poder resistir. A natureza se converte, desse modo, em uma única estação gigantesca de combustível, em fonte de energia para a técnica e para a indústria modernas. Esta relação fundamentalmente técnica do homem em relação ao mundo como totalidade se desenvolveu, em primeiro lugar, no século XVII, e, além disso, na Europa e somente nela. Semelhante relação permaneceu durante muito tempo desconhecida nas demais partes da terra, como também, fora de todo estranha às anteriores épocas e destinos dos povos.

O poder oculto na técnica moderna determina a relação do homem com o que é. Este poder domina a terra inteira. Com isso, o homem começa então a se afastar dela para penetrar no espaço cósmico. Em apenas duas décadas foram descobertas fontes atômicas tão gigantescas que, em um futuro previsível a demanda mundial de energia de qualquer espécie estará satisfeita para sempre. A provisão imediata das novas energias já não dependerá de países determinados ou de continentes, como é o caso do carvão, do petróleo e da madeira dos bosques. Em um tempo previsível se poderão construir centrais nucleares em cada lugar da terra.

Sendo assim, a pergunta fundamental da ciência e da técnica contemporânea já não reza: de onde se obterão as quantidades suficientes de carburante e combustível? A pergunta decisiva é agora: de que modo poderemos dominar e dirigir as inimagináveis magnitudes de energia atômica e assegurar assim para a humanidade que estas energias

gigantescas não se desloquem muito bruscamente —mesmo que sem propósitos beligerantes — e venham a explodir em algum lugar aniquilando tudo?

Caso se alcance o domínio sobre a energia atômica, e se alcançará, começará então um desenvolvimento inteiramente novo do mundo técnico. O que hoje conhecemos como técnica cinematográfica e televisiva; como técnica do tráfego, especialmente a técnica aérea; como técnica de notícias; como técnica médica; como técnica de meios de nutrição, representa, presumivelmente, tão somente um grosseiro estado inicial. Ninguém pode prever as radicais transformações que se aproximam. Todavia, o desenvolvimento da técnica se efetuará cada vez com maior velocidade e não poderá ser detido em parte alguma. Em todas as regiões da existência o homem estará cada vez mais estreitamente cercado pelas forças dos aparatos técnicos e dos autômatos. Os poderes que, em todas as partes e em todas os momentos, desafiam, acorrentam, arrastam e acossam o homem sob alguma forma de utilização constante de utensílios técnicos ou no âmbito da instalação técnica, estes poderes há muito tempo que já não se encontram sob o alcance da vontade e da capacidade de decisão humanas, isto porque não foram feitos pelo homem.

Mas também é característico do novo modo, no qual se dá o mundo técnico, o fato de que seus sucessos sejam conhecidos e

publicamente admirados pelo caminho mais rápido. Assim, hoje todo o mundo pode ler o que se diz sobre o mundo técnico em qualquer revista conduzida com competência, com também pode ouví-lo pelo rádio.

uma coisa é ter ouvido ou lido algo, isto é, ter meramente notícia

disto ou daquilo, outra coisa é reconhecer o ouvido ou o lido, isto é, deter-

Porém

se em pensá-lo.

No verão deste ano de 1955 voltou a acontecer novamente em Lindau o encontro internacional dos laureados pelo prêmio Nobel. Nesta ocasião, o químico estadunidense Stanley disse o seguinte: “” Aproxima-se a hora em que a vida estará posta nas mãos dos químicos, que poderá descompor ou construir, ou modificar a substância vital ao seu arbítrio”. Atenta-se para uma semelhante declaração. Admira-se inclusive a audácia da investigação científica e não se pensa, porém, nada a respeito disso. Ninguém pára para pensar no fato de que aqui se esteja preparando, com os meios da técnica, uma agressão contra a vida e a essência do ser humano, uma agressão comparada com aquela, que há bem pouco tempo, significava a explosão da bomba de hidrogênio.Porque precisamente quando as bombas de hidrogênio não mais explodirem e a vida humana sobre a terra estiver salvaguardada, aí então será quando, junto com a era atômica, acontecerá uma inquietante transformação do mundo.

O verdadeiramente inquietante, contudo, não é o fato de que o mundo se tecnicize completamente. Muito mais inquietante é que o ser humano não esteja preparado para esta transformação mundial; que ainda não consigamos enfrentar, de uma maneira meditativa, o que propriamente se aproxima nesta época.

Nenhum indivíduo, nenhum grupo humano nem comissão alguma, mesmo que seja composta por eminentes homens de estado, investigadores e técnicos; nenhuma conferência de dirigentes da economia e da indústria podem refrear e nem mesmo sequer sondar a causalidade que rege o processo histórico da era atômica. Como também, nenhuma organização exclusivamente humana é capaz de fazer frente ao domínio

técnico sobre a época.

Se realmente pudesse fazer frente a este domínio, o homem da era atômica se encontraria liberto— tão indefeso estaria quanto confuso —, da irresistível prepotência da técnica. E efetivamente essa libertação sucederia se homem de hoje não renunciasse o pôr em jogo, um jogo sempre decisivo, o pensar meditativo face o pensar meramente calculador. Porém, uma vez desperto, o pensar meditativo deve operar sem trégua, mesmo nas ocasiões as mais insignificantes; portanto, também aqui e agora, e precisamente no âmbito da ocasião desta celebração comemorativa. Ela nos dá a pensar algo particularmente ameaçado na era atômica: o enraizamento das obras humanas.

Por isso perguntamos agora: será que mesmo o velho enraizamento está se perdendo, não poderá ser presenteado ao homem um novo solo e fundamento a partir dos quais o seu ser e todas as suas obras possam florescer de um modo novo, inclusive dentro da era atômica?

Quais seriam o solo e o fundamento para um enraizamento vindouro? O que buscamos com esta pergunta talvez se encontre muito próximo, tão próximo que muito facilmente nem o reparamos. Porque para nós, humanos, o caminho para o mais próximo é sempre o mais longínquo e por isso o mais árduo. Este caminho é o caminho da reflexão. O pensamento meditativo requer de nós que não fiquemos atados unilateralmente em uma única representação, que não saiámos correndo por uma via única e em uma só direção. O pensamento meditativo requer de nós que nos comprometamos com algo (einlassen) que, à primeira vista, vindo deste algo mesmo, parece não nos dizer respeito.

Façamos então uma prova. Para todos nós, as instalações, aparatos e máquinas do mundo técnico são hoje indispensáveis, para uns em maior e para outros em menor medida. Seria néscio arremeter cegamente contra o mundo técnico. Seria míope querer condenar o mundo técnico como obra do diabo. Dependemos dos objetos técnicos; eles nos desafiam, inclusive, em sua constante perfectibilidade. Sem nos darmos conta, no entanto, nos encontramos de tal forma atados aos objetos técnicos, que caímos em uma relação de servidão em relação a eles.

Entretanto, também podemos fazer outra coisa. Podemos usar os objetos técnicos, servirmo-nos deles de forma apropriada, mantendo- nos, porém, ao mesmo tempo, livres deles ao ponto de a qualquer momento podermos nos desvencilhar deles. Podemos usar os objetos tal como devem ser adequadamente usados. Porém, podemos, ao mesmo tempo, deixar que estes objetos descansem em si, como algo que, no mais íntimo e próprio de nós mesmos, já não nos concerne. Podemos dizer “sim” ao inevitável uso dos objetos técnicos e podemos, ao mesmo tempo, dizer-lhes “não”, retirando-nos desse modo de um âmbito no qual eles nos requisitam de uma maneira tão exclusiva que desvirtua, confunde e, finalmente, chega quiçá a assolar nossa essência.

Se dissermos, porém, simultaneamente “sim” e “não” aos objetos técnicos, a nossa relação com o mundo técnico não se converterá em algo equívoco e inseguro? Muito ao contrário. Nossa relação com o mundo técnico se torna maravilhosamente simples e aprazível. Deixamos entrar os objetos técnico em nosso mundo cotidiano e, ao mesmo tempo, os mantemos fora, ou seja, nós os deixamos descansar em si mesmos como coisas que não são algo absoluto, mas dependem, elas mesmas, de algo

superior. Quereria denominar esta atitude que diz simultaneamente “sim” e “não” ao mundo técnico com um antiga palavra: a Serenidade (Gelassenheit) em relação às coisas.

Com esta atitude, deixamos de ver as coisas tão somente desde uma perspectiva técnica. Começamos agora a ver claramente e a notar que a fabricação e utilização de máquinas requer de nós uma outra relação com as coisas que, de qualquer forma, não é desprovida de sentido (sinn- los).Desse modo, por exemplo, a agricultura e a agronomia se convertem em indústria alimentícia motorizada. É certo que aqui — assim como em outros domínios — se opera uma profunda viragem na relação do homem com a natureza e com o mundo. Porém, o sentido que impera nesta viragem é coisa que permanece sendo obscura.

Rege, desse modo, em todos os processos técnicos um sentido que reclama para si o obrar e a abstenção humanas (Tun und Lassen), um sentido não inventado nem feito primeiramente pelo homem. Não sabemos que significação atribuir ao inquietante aumento do domínio da técnica atômica. O sentido do mundo técnico se oculta. Sendo assim, se consideramos, continuamente e de modo próprio, o fato de que em todas as partes nos atinge um sentido oculto do mundo técnico, nos acharemos em um ponto no âmbito do qual se nos oculta e que, ademais, se oculta à medida que vem precisamente ao nosso encontro. O que assim se mostra e ao mesmo tempo se retira é o traço fundamental do que denominamos mistério. Denomino a atitude na qual nos mantemos abertos ao sentido oculto do mundo técnico a abertura para o mistério.

A Serenidade para com as coisas e a abertura ao mistério se pertencem uma a outra. Ela torna, para nós, possível residir no mundo de

um modo muito distinto. Prometem-nos um novo solo e fundamento sobre os quais nos mantermos e subsistirmos, estando no mundo técnico, mas resguardados de sua ameaça.

A Serenidade em relação às coisas e a abertura ao mistério nos abrem a perspectiva para um novo enraizamento. Algum dia, este poderia inclusive chegar a ser apropriado para fazer reviver, em uma figura mudada, o antigo enraizamento que tão rapidamente se desvanece.

Neste momento, entretanto — não sabemos por quanto tempo — o homem se encontra em uma situação perigosa nesta terra. Por que? Apenas porque poderia subitamente estourar uma terceira guerra mundial que teria como conseqüência a aniquilação completa da humanidade e a destruição da terra? Não. Ao iniciar-se a era atômica é um outro perigo, muito maior, o que ameaça, precisamente depois de se haver descartada a ameaça de uma terceira guerra mundial. Afirmação estranha! Estranha, sem dúvida, mas somente enquanto não refletimos ainda sobre o seu sentido.

Em que medida é válida a frase anterior? É válida enquanto a revolução da técnica que se aproxima na era atômica puder fascinar o homem, encantá-lo, deslumbrá-lo e cegá-lo de tal modo, que um dia o pensar calculador poderá chegar a ser o único válido e praticado.

Que grande perigo se aproxima então? Nesse caso, junto à mais elevada e eficiente sagacidade do cálculo que planifica e produz, coincidiria a indiferença em relação ao pensar reflexivo, uma total ausência de pensamento. E então? Então o homem teria negado e abandonado longe de si aquilo que tem de mais próprio, a saber: que é um

ser que reflete. Por isso, há que salvaguardar esta essência do homem. Por isso, há que manter desperto o pensar reflexivo. Ocorre, porém, que a Serenidade para com as coisas e a abertura ao mistério não nos caem do céu. Não acontecem (Zu-fälliges) por acaso. Ambas crescem somente a partir de um pensar incessante e vigoroso.

Talvez, a celebração comemorativa de hoje seja um impulso para isso. Quando respondemos a ele, pensamos então em Conradin Kreutzer, ao pensar na proveniência de sua obra, na seiva vital da terra natal, Heuberg. E somos nós que pensamos desse modo quando, aqui e agora, nos sabemos enquanto os homens que devem encontrar e preparar o caminho para a era atômica, através e fora dela.

Quando a Serenidade em relação às coisas e a abertura ao mistério se despertarem em nós, ai então poderemos esperar chegar a um caminho que conduza a um novo solo e fundamento. Neste fundamento, a criação de obras duradouras poderia lançar novas raízes.

Dessa forma então, de uma maneira renovada e em uma época renovada, poderia novamente ser verdade o que disse Johann Peter Hebel:

Somos

plantas — gostemos ou não de admitir isso — que

devem sair com raízes da terra para poder florescer no éter e dar frutos”.

Tradução realizada, a partir da versão espanhola, por Marcos Paulo Lopes Vieira.