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DIPLOMACIA E GUERRA NA CONSTRUÇÃO DA FRONTEIRA

INTERNACIONAL DE MATO GROSSO DO SUL

Eronildo Barbosa da Silva*

*É mestre em educação e autor do livro Sindicalismo no Sul de


Mato Grosso 1920/1980. Também é professor do Centro
Universitário de Campo Grande UNAES.

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Resumo

Este trabalho analisa o processo histórico que culminou com a


construção da fronteira internacional do Mato Grosso do Sul,
iniciada com o Tratado de Tordesilhas de 1494, celebrado entre
os reinos de Portugal e Espanha, que, nos dias de hoje, limita-se
com a República do Paraguai e com a república da Bolívia.

Palavras chaves : Fronteira;América Latina; Mato Grosso do Sul

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INTRODUÇÃO

O objetivo central desse trabalho é refletir sobre o processo


histórico que culminou com a construção da fronteira internacional
de Mato Grosso do Sul que nos dias de hoje faz fronteira com a
República da Bolívia e com à República do Paraguai. A seleção
de dados e de outras informações não foi uma tarefa fácil. O
problema é que, apesar de o Mato Grosso estar localizado numa
área de fronteira, ainda é relativamente pequeno o numero de
trabalhos que tratam especificamente do tema fronteira. Só mais
recentemente as Universidades do Estado mostraram interesse em
conhecer e atuar na faixa de fronteira. Uma importante iniciativa foi
a criação do CEFRON- Centro de Estudos Fronteiriços entidade
formada por professores da Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul e do Centro Universitário de Campo Grande – Unaes,
liderado pelo professor Tito Carlos, com o objetivo refletir sobre as
fronteiras do Estado.

As principais fontes históricas a que se teve acesso foram escritas


entre as décadas de 1930 e 1950, particularmente no campo da
geografia, e foram influenciadas por interesses geopolíticos. No
geral, são trabalhos escritos por militares do exército e da marinha
que tiveram algum contato com esta fronteira. Aliás, os militares
deram grande contribuição para o conhecimento das fronteiras
nacionais.

A fronteira é um lugar especial, um espaço rico em contradições. A


existência formal de fronteira é algo relativamente novo na história
da humanidade. Os povos primitivos viveram milhões de anos sem
necessidade de fronteiras.Estas surgiram, inicialmente, com as
conquistas imperialistas do Império Persa e do Império Romano e
ganharam força com a criação dos estados modernos, a partir do
século XV, quando se iniciou o modo de produção capitalista e o
conceito formal de pátria.

A geografia moderna deu uma excelente contribuição para o


estudo da fronteira. É cada vez maior o numero de estudiosos que
refletem a fronteira como um lugar de simetria e
complementaridade.Um espaço criativo e dinâmico e não como

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um lugar marginal, secundário, embrutecido, como durante muito
tempo, equivocadamente, se tentou pensar a fronteira.

O geógrafo americano, Frederick Jacson Turner, ofereceu uma


importante contribuição para a teoria das fronteiras ao reconstruir a
história do seu país, EUA, a partir das fronteiras, dos pioneiros e
dos índios. Turner destaca o papel central que exerceram os
homens e as mulheres da fronteira que, sabiamente, buscaram
construir coisas novas, diferentes, numa perspectiva diferente da
européia.

Nessa perspectiva, também, atua o geógrafo francês Camille


Vallaux. Ele afirma que nas zonas de fronteira é que se encontra,
muitas vezes, a máxima pressão das forças econômicas, políticas
morais e militares dos povos limítrofes, porém não servem elas
apenas de meio de separação, mas também de interpretações de
culturas, interesses e objetivos diferentes.(Mattos, 1990. p.9)

Essa nova forma de olhar a fronteira representa um passo muito


importante para que, cada vez mais, os povos da fronteira
persigam o intercambio e lutem para que a fronteira seja um
espaço democrático, criativo e solidário, um lugar de encontros e
desencontros como diz o sociólogo José de Sousa Martins.

Navegar é preciso

Para entender como se processou a construção histórica da


fronteira internacional do Sul de Mato Grosso, é necessário voltar
ao século XV e refletir sobre a expansão comercial que a Europa
vivenciou nessa época. Também, precisa-se conhecer o papel
que Portugal e Espanha desempenharam na busca de novas
terras,comércio e metais preciosos. Naquela época, os reinos de
Portugal e Espanha direcionaram esforços políticos e econômicos
para ocuparem terras e riquezas no Oriente e na América.O
Tratado de Tordesilhas, celebrado em 1494, foi o instrumento
jurídico e político que ancorou esse processo ao assegurar que as
terras existentes no raio de 370 léguas, a Leste de Cabo Verde,
pertenceriam à Portugal, e as terras que ficassem a Oeste
pertenceriam à Espanha.

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Na busca de novas terras, Portugal e Espanha desenvolveram
grande progresso no campo da pesquisa marítima.Os principais
centros náuticos dos séculos XV e XVI estavam localizados nos
portos da Península Ibérica.Ademais, o sistema mercantil que
surgiu na Europa no século XVI foi um importante motor que
impulsionou essas aventuras. A busca do lucro no oriente e na
América impulsionou esse movimento que aos poucos concentrou,
como diz Karl Marx, montante considerável de capital, viabilizando
a chamada acumulação primitiva de capital. (Marx,1994, p.285).

O governo português, atendendo, também, a interesses Italianos e


Holandeses, decidiu procurar um caminho que ligasse a Europa às
Índias.O fato de o navegador Cristóvão Colombo ter chegado à
América em 1492, inaugurando uma nova rota, encorajou os
portugueses a conhecerem e ocuparem o Brasil. Nesse sentido,
além de um novo caminho para as Índias objetivo geral da
expedição de Cabral, havia, também, a possibilidade de uma
pequena parada no litoral brasileiro para recolher informações
sobre a nova terra.Muito provavelmente, já era do conhecimento da
coroa portuguesa que Vicente Pizón e outros navegadores, a
serviço da coroa espanhola, tinham aportado no litoral brasileiro
antes de Cabral.

Em março de 1.500, partiu de Portugal uma forte esquadra


comandada por Cabral. Em abril do mesmo ano, essa esquadra
chegou ao litoral brasileiro.Após conhecerem parte das
potencialidades da nova terra e manterem contatos com os
silvícolas, além de outras providências, como mandar uma nau de
volta a Portugal para informar sobre as novidades da terra de Santa
Cruz, os portugueses partiram para as Índias.

Na seqüência, durante quase trinta anos, o Brasil foi praticamente


esquecido pela coroa portuguesa. Não mais do que cinco
expedições foram mandadas à colônia nesse período. O foco da
administração lusa estava centrado no comércio com as
índias,porém, a partir em 1530, com a decadência do império
português no Oriente, bem como com a ameaça real de os
franceses ocuparem parte importante do Brasil, inclusive o Rio de
Janeiro, Portugal resolveu tomar providências concretas voltadas
para ocupar e produzir na nova colônia.

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Entre as providências, a coroa Lusa decidiu dividir o Brasil em
capitânias hereditárias. Era uma alternativa para desenvolver e
guarnecer o país. Duas delas São Vicente e Pernambuco, tiveram
relativo sucesso econômico e político. São Vicente, localizada onde
hoje se encontra o Estado de São Paulo, foi responsável por um
conjunto de ações que contribuíram decisivamente com o processo
de ocupação do Sul de Mato Grosso.

Enquanto os Portugueses criavam as condições para explorar as


riquezas do Brasil, a Espanha, que disputava com Portugal a
hegemonia do comércio mundial, mandava seus marinheiros
explorar a região da Bacia do Rio da Prata com o objetivo de
encontrar metais preciosos e um caminho para as índias.

Portugueses e Espanhóis no Sul de Mato Grosso

Embora a região da Bacia do Rio da Prata pertencesse


formalmente à Espanha, por força do Tratado de Tordesilhas, os
portugueses, na medida do possível, exploravam essas terras
colocando o brasão da sua coroa. Em 1514, por exemplo, dois
marinheiros portugueses, João de Lisboa e Estevão Fróis,
capitaneando uma expedição com setenta homens, adentraram no
estuário do Rio da Prata e foram até onde hoje se localiza o
Uruguaio (Filho,1969,p.127). Nessa viagem, pela primeira vez, os
europeus tiveram contato com os índios Charruas e ficaram
sabendo da existência de prata e outras riquezas. A história registra
que o próprio João de Lisboa adquiriu dos silvícolas algumas peças
confeccionadas em prata e as doou ao rei de Portugal, como prova
de que a região era rica em metais preciosos.

Muito provavelmente, as autoridades da Espanha foram informadas


sobre a viagem desses portugueses. Na época, guardada as
devidas proporções, funcionava um competente serviço de
informação e contra-informação nas embaixadas. Eram nelas em
que os segredos mais importantes eram revelados às custas de
muito dinheiro e chantagem.

Assim, como resposta à ação portuguesa, o rei Dom Fernando da


Espanha organizou uma expedição com o objetivo de explorar o

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Rio da Prata e seus afluentes. Coube ao navegador Juan Dias Solis
a missão de comandar essa expedição. Em outubro de 1515,
Juan Dias Solis partiu do porto de Lepe, Espanha, comandando
dois navios com setenta tripulantes. Em janeiro de 1916, Solis
adentrou no estuário do rio da Prata região que mais tarde ficou
conhecida como Província do Rio da Prata, formada pela área que
compreende os Estados de Mato Grosso, Goiás, Parte de São
Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, além das repúblicas do
Paraguai, Uruguai e parte da Argentina e do Chile.

Juan Dias Solis chegou ao atual Uruguaio e fundou a cidade de


Montevidéu, no entanto, quando voltava para a Europa foi morto
pelos Charruas. Membros da sua expedição que se encontravam
em outro navio deram continuidade à viagem de volta à
Espanha,no entanto, quando atravessavam a costa de Santa
Catarina, nas proximidades do Porto dos Patos, o navio naufragou.
Alguns marinheiros conseguiram se salvar, entre eles, Aleixo
Garcia, Henrique de Montes, Melchior Ramires e Francisco do
Porto. ( Esselin,2000, p.22)

Esses náufragos foram importantes para o conhecimento da


região da Bacia do Rio da Prata. O português Aleixo Garcia,
especialmente, cumpriu um papel de destaque na exploração dos
sertões. Acompanhado de índios e alguns europeus, ele
empreendeu uma das mais fantásticas viagens ao Peru, em 1523
ou 1524, oportunidade em que trilhou pelo caminho do Peabiru e
pelos rios de Mato Grosso do Sul, tornando-se o primeiro europeu a
atingir essas terras. Garcia conseguiu conquistar em solo
peruano, grande quantidade de prata, mas, quando adentrava o
sul de Mato Grosso, no retorno, foi morto pelos
índios.(Filho,1969,p.125).Antes de ser atacado, porém, Aleixo
Garcia conseguiu enviar para Santa Catarina exemplares dos
objetos que ele e seus companheiros conquistaram,sendo tais bens
encaminhados à corte espanhola.

A notícia de que Aleixo Garcia encontrou prata nos Andes


ensejou que os campos e rios de Mato Grosso do Sul passassem
a ser vasculhado, por portugueses e espanhóis, na esperança de
encontrarem o caminho que os levassem aos minérios peruanos.

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Soberania espanhola em perigo

A idéia de ficar rico alimentava o espírito dos aventureiros,o que fez


aumentar o número de homens que buscavam os caminhos de
Mato Grosso do Sul para atingir as serras peruanas. A Espanha
não tinha, em virtude das dificuldades de administrar uma imensa
região, condições de controlar seu território. Esse fato deixava
vulnerável a região. Assim, a coroa de Castela determinou que
fosse feito esforço para ocupar e povoar a província da prata. Aos
poucos, surgiram várias edificações de caráter militar as margens
dos rios. Era o início da colonização formal da América espanhola
na província do Rio da Prata da qual Mato Grosso fazia parte.

Por outro lado, o fato de haver uma certa indefinição sobre os


limites reais da fronteira era motivo para pequenas e grandes
escaramuças entre os representantes das duas nações. Mesmo
no período em que a coroa Espanhola e a Coroa Portuguesa foram
unificadas, de 1580 a 1640, o processo de disputa continuou aceso.
O que estava em jogo para portugueses e espanhóis que
habitavam a região era a possibilidade de se ficar rico de um dia
para o outro, portanto, os problemas políticos entre as duas nações
tinham importância relativa.O que garantia a vida do homem
comum: colono, índio, roceiro, garimpeiro, bandeirante, entre
outros, era o conjunto de iniciativas que eles tomavam no seu dia-
a-dia.

Com as incursões dos bandeirantes na linha de fronteira, a situação


ficou mais tensa. Para defender seu território “da gente que não
teme descomunhões nem mesmo obedece a cédulas reais, e que
não faz caso da justiça de deus nem dos homens”, segundo padre
Nicolas Duran, provincial da companhia Jesus no Paraguaio (
Sousa. 1958.p.18), o governo espanhol determinou que fossem
providenciadas novas construções militares ao longo dos rios e
pontos estratégicos.

Nesse sentido, foram fundadas as povoações às margens do Rio


Parapanema de Loreto e Santo Inácio, em 1610; no vale do Rio
Tibagi, San Xavier, em 1623; San José, em 1624, Encarnacion, em
1625, San Miguel em 1628 e Jesus e Maria em 1630.No vale do
Rio Pardo, foram fundadas as povoações de San Pedro e San

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Pablo, Cruz de Bolanos, San José de Itatines e Angeles. Seguindo
essa orientação, também foram construídos os povoados de
Ontiveros, nas margens do rio Paraná, 1554, e o núcleo de
Santiago de Xeres, em 1579, nas margens do Rio Miranda, que
depois se transferiu para as margens do Rio Aquidauna.

Santiago de Xerez foi fundada pelo espanhol Dias Melgarejo.Este


núcleo era habitado por índios e religiosos que praticavam
agricultura de subsistência. Em varias oportunidades, Xeres foi
atacada pelos Bandeirantes Paulistas na busca de capturar seus
índios. Entre os anos de 1579 e 1596 Santiago de Xeres foi forçada
a mudar várias vezes de local, entretanto, no ano de 1632, Xerez,
mais uma vez, foi atacada e destruída pelo sertanista Antonio
Raposo Tavares. Nesse ano, ela estava localizada nas margens
do Rio Aquidauna a uma distancia de 15 quilômetros do município
de Aquidauna, em terras pertencentes hoje ao proprietário rural
Rudel Espíndola Trindade. ( Fernando,1993, p. 10.)

Com enormes dificuldades, os espanhóis conseguiram comandar


os destinos da região da Bacia do Rio da Prata até meados do
século XVII, quando se intensificou o processo de interiorização
dos Bandeirantes Paulistas, na busca de prear indígenas, iniciativa
que ajudou a derrubar parte importante das barreiras da segurança
espanhola. Nesse período, o governo espanhol não tinha condições
econômicas de manter seu exército ao longo da intensa e íngreme
fronteira,limitava-se a enviar seus pelotões para vistoriar os
Campos de Vacaria, na vã tentativa de frear o ímpeto dos
paulistas.Na pratica essas iniciativas renderam pouco resultado,
principalmente, quando aconteceu a revalorização da mão-de-obra
indígena, fruto, entre outras coisas, do controle que os holandeses
passaram a exercer sobre a mão-de -obra escrava que vinha da
África.

Não havendo escravo negro disponível para o sudeste do país os


fazendeiros encomendavam, lotes de índios, mesmo sabendo que
eles não possuíam habilidade especifica para o trabalho formal,
porque não conheciam o chamado trabalho moderno. Assim
mesmo, eram caçados como bicho.De olho no comercio de
humanos, grupos de bandeirantes, relativamente autônomos,
passaram a prender indistintamente os indígenas para vendê-los

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como escravos. Eles davam preferência aos índios aldeados nas
reduções jesuíticas, pois os mesmos já conheciam parte da
cultura do colonizador. As reduções, foram por muito tempo, o alvo
preferido dos Bandeirantes. Existem autores que falam em até dois
milhões o número de índios escravizados pelos Bandeirantes
Paulistas nos 150 anos em que essa prática foi adotada.

A ação dos bandeirantes contava com o apoio da capitania de São


Paulo. A estratégia oficial consistia em empurrar a linha divisória
entre as duas coroas para o Sul, para as terras da Espanha. O foco
central era a região da Bacia do Rio Prata. O argumento formal
usado pelos representantes da coroa portuguesa foi um
documento emanado da Igreja católica, a Bula Romani Pontifis, de
1676, que criou a diocese do Rio de Janeiro com limite meridional
no Rio da Prata (Góes,1999,p. 133).

Para enfrentar os bandeirantes os espanhóis armaram e treinaram


parcela importante dos indígenas que viviam na região dos sete
povos das missões. Apesar da superioridade militar dos
bandeirantes, eles perderam algumas batalhas, notadamente nas
regiões em que os índios estavam mais organizados e mais
próximos das autoridades castelhanas.

Mesmo assim, paulatinamente, a fronteira foi empurrada para o


Sul. Além da ação do bandeirante, parcela importante dos colonos
que habitavam os chamados Campos de Vacaria também deixou
de reconhecer a autoridade dos espanhóis sobre essas terras. A
propósito, os historiadores contam que Pedro Leme da Silva
,Patriarca da família Leme, responsável por uma grande prole que
se espalhou pelos Campos de Vacarias, criando fazendas e
cidades, conhecido na época como o El Torto, puxou a espada da
cinta e negou-se a assinar documento reconhecendo que as terras
dos campos de vacaria pertenciam à coroa espanhola.(Rodrigues,
1983, p.11).

Demarcação formal das fronteiras

Na segunda metade do século XVIII melhoraram as relações


políticas entre as coroas de Portugal e Espanha. O casamento do
Rei Fernando VI da Espanha com D. Maria Bárbara, infanta de

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Portugal, foi a causa desse novo momento. Em ambiente familiar,
foi discutido o problema dos limites da fronteira americana. Como
produto dessas discussões, nasceu o Tratado de Madri de 1750,
que, apesar da sua curta duração, significou um passo
importante da diplomacia ibérica. Em linhas gerais, o tratado de
Madri demarcou o Brasil de hoje.

O princípio que norteou o Tratado de Madri foi o uti possidetis. “No


preâmbulo do documento, assinado em Madri, dizia que cada parte
há de ficar com o que atualmente possui e transferiu da esfera do
direito Romano para o direito internacional público o instituto do uti
possidetis”( Emir 1943.p. 35). Na prática, ficou valendo como limite
de fronteira aquilo que já estava ocupado de alguma forma.Essa
alternativa possibilitou o aumento da área brasileira em torno de
dois terços, se comparado com as linhas que balizavam o tratado
de Tordesilhas.

No caso concreto da fronteira de Mato Grosso, os bandeirantes já


tinham ocupado parte importante das terras que pertenciam à
coroa espanhola. Por isso, o Tratado de Madri foi benéfico aos
interesses lusos, porém é necessário ter em mente que no Oriente,
Portugal cedeu as ilhas Filipinas e Molucas para os espanhóis.
Houve algum grau de compensação, não foi uma derrota pura e
simples da Espanha,como alguns chegam a pensar.

O Tratado de Madri não agradou os súditos da coroa espanhola.


Os colonos, os jesuítas e os indígenas que habitavam as terras
consideradas espanholas, notadamente a área conhecida como
sete povos das missões, protestaram duramente contra seu
governo. Em função desses protestos que culminou com a
expulsão dos jesuítas do Brasil e dos territórios espanhóis, o
Tratado de Madri foi anulado por força do tratado de El Pardo, em
1761. Sem um tratado formal para balizar a fronteira, os problemas
voltaram, ou seja, cada coroa voltou a ocupar pelos meios
possíveis as terras que antes reivindicavam. Naturalmente,
também, recrudesceram as escaramuças.

O período que vai de 1763 a 1777 foi marcado pelo aumento das
lutas fronteiriças. Também em face da entrada dos portugueses em
terras consideradas espanholas, notadamente na Amazônia, bem

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como do receio que os espanhóis tinham de que suas terras
também fossem ocupadas por outras nações que já estavam
explorando a América central, Holanda, Inglaterra e França, o
governo espanhol convidou os portugueses para nova rodada de
negociação sobre a linha de fronteira na América.Nessa nova
oportunidade, nasceu o Tratado de San Idelfonso, em 1777, com o
objetivo de corrigir eventuais distorções verificadas no tratado de
Madri e melhorar a relação entre os súditos das duas coroas na
região. Esse novo Tratado pouco alterou nos limites de Mato
Grosso do Sul. O impacto maior foi verificado nas fronteiras do
Paraná e do Rio Grande do Sul.

Com a definição formal das fronteiras, a província de São Paulo


tomou medidas concretas objetivando ocupar e colonizar a região.
A experiência já tinha ensinado aos portugueses que a garantia da
linha de fronteira era a presença física de homens e mulheres
ocupando cada palmo de chão. Assim, paulatinamente, iniciou-se
no sul de Mato Grosso a construção de vários fortes ao longo dos
rios, bem como em lugares considerados importantes para a
defesa do território.

Por ordem do Marques de Pombal, em 1748, foi criada a capitania


de Mato Grosso, sendo seu primeiro presidente o português
Antônio Rolim de Moura, que, entre outras ações administrativas,
procurou vigiar a área de fronteira, pois, com a descoberta de
ouro nos rios do Norte, pelo bandeirante Pascoal Moreira, em
1718, existia o risco de os espanhóis tentarem participar da
corrida ao ouro coxiponês. Ainda como forma de defender a região,
foi construído em 1769 o forte de Iguatemi. Na seqüência, foram
também erguidos os fortes de Coimbra em 1777, o forte de
Miranda em 1797, o forte de Albuquerque em 1786, além de outras
fortalezas nos municípios de Corumbá e Ladário.

Ao lado do trabalho de defesa, aos poucos, foram nascendo


alguns núcleos populacionais e algumas fazendas na região sul do
Estado, com o objetivo de atender aos habitantes que viviam nos
Campos de Vacaria e em outras regiões do Sul de Mato Grosso. A
fazenda Camapuã, localizada onde hoje está erguida a cidade de
Camapuã, criada em 1719, é um exemplo desse novo momento de
ocupação.

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Em que pese a definição formal das linhas de fronteiras, ancorada
no Tratado de Santo Idelfonso, os problemas lindeiros não foram
totalmente resolvidos. A questão que antes era tratada diretamente
entre as duas coroas ganhou novos sócios, nas primeiras décadas
do século XIX. A guerra que Napoleão Bonaparte iniciou na Europa
contra a Inglaterra repercutiu fortemente no império espanhol e
português na América latina. Após a invasão da Espanha pelas
tropas de Napoleão, em 1808, surgiu uma nova perspectiva no
processo de luta pela independência no continente. Em poucos
anos, o império espanhol na América desapareceu. O paraguaio e
a Bolívia foram diretamente beneficiados.O Brasil também.

O Paraguaio se tornou república em 1811, tendo como chefe de


governo José Gaspar de Francia. Em 1825, sob o comando do
herói argentino Simon Bolívar, as províncias de Santa Cruz e
outras que conformam a atual Bolívia foram emancipadas, dando
origem à república da Bolívia. O Brasil também foi beneficiado com
essa guerra. O rei Dom João VI fugiu de Portugal para o Brasil em
1808, por pressão do exército francês. Em terra brasileira, o
monarca tomou um conjunto de iniciativas que melhoraram as
condições gerais da colônia, no plano político e no econômico. A
independência do Brasil, realizada em 07 de setembro de 1922, por
Pedro I, é conseqüência dessa guerra.

O desmembramento do império espanhol e a criação das novas


fronteiras seguiram, no geral, o instituto do Usi Possidetis, ou seja,
cada povo ficou com as terras que já ocupavam historicamente.
Porém, no caso da fronteira desses países com o Brasil, que tinha
sido demarcada precariamente pelo Tratado de Santo Idelfonso em
1777, não foi aceito o instituto do Usi Posidetis. Bolívia e Paraguai
se negaram a assinar, com o Brasil, qualquer tratado tendo como
base a orientação do Tratado de 1777.

A inexistência de um tratado com essas nações para resolver


disputas territorial, comercial e de navegação se revelou um
combustível importante para o surgimento de escaramuças ao
longo das duas fronteiras. O problema nasceu com a comissão de
demarcação, criada em 1777, para definir os limites fronteiriços
entre o império espanhol e o Brasil. Por má fé ou desconhecimento,

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o representante espanhol na comissão de limites criou varias
dificuldades que acabaram inviabilizando o processo de
demarcação das linhas de fronteiras. Limites, na verdade,
preestabelecido tanto no Tratado de 1750 como no de 1777. A
missão dessa comissão era apenas localizar os acidentes
geográficos identificados no tratado.

Porém, não foi isso o que aconteceu. O representante da comissão


espanhola alegou que não poderia encerrar o trabalho de definição
dos limites com o Mato Grosso porque não tinha encontrado o Rio
Igurei. A solução por ele oferecida foi estabelecer o limite por
outro rio, o Branco, em terras já ocupadas pelo Brasil. O
representante português não aceitou a proposta. Sem uma
conclusão final, deixou-se para o futuro a definição da fronteira.
Isso provocou muita confusão, que culminou, inclusive, com a
famosa Guerra do Paraguai.

Negociação com a Bolívia

Os problemas de fronteira com a república da Bolívia surgiram em


1825 em meio ao processo de libertação daquele país. O episodio
que iniciou a discussão formal da fronteira com a Bolívia foi a
desastrada ocupação feita pelo Brasil de uma parte do território
desse país. O governo da região de chiquitos que era contrário á
forma como estava se dando a emancipação das províncias
bolivianas, tarefa liderada por Simon Bolívar, solicitou ao
comandante da região militar de Mato Grosso que anexasse a
região de chiquitos ao império do Brasil.Sem consultar as
autoridades do império, o comandante de armas de Mato Grosso,
Manoel Veloso Rebelo, achando, provavelmente, que estava
prestando um grande serviço ao Brasil, resolveu atender ao
inusitado pedido. Pela força das armas, a região de chiquitos foi
anexada ao império, porém, quando Dom Pedro I foi informado da
situação, ordenou que o militar abandonasse a região boliviana.

Mesmo após a devolução do território, não foram poucos os


protestos das nações vizinhas contra a política brasileira. Simon
Bolívar, por exemplo, enviou uma carta de protesto ao imperador.O
governo argentino, por sua vez, aproveitando o clima de clara
desconfiança que os vizinhos nutriam em relação ao império,

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cogitou desencadear uma guerra das províncias do Rio da Prata
contra o Brasil.

O episódio de chiquitos, claramente negativo, foi superado pela


ação firme da diplomacia dos dois países.Em 1867, foi assinado um
tratado entre o Brasil e a Bolívia que disciplinou o problema de
limites, amizade e navegação.(Junior,1954,99) Na fronteira de MS,
foram resolvidas as principais dificuldades diplomáticas. Restou
uma disputa na região acreana que foi resolvida em 1903, por
ocasião do Tratado de Petrópolis, quando o Brasil cedeu para a
Bolívia áreas no Mato Grosso; construiu a estrada de ferro
Madeira-Mamoré e indenizou a Bolívia em 2.000.000 de libras
esterlinas.

As terras que a Bolívia recebeu como parte do tratado de 1903


foram as seguintes : 723 Km adjacentes a baia negra (abaixo do
forte de Coimbra); 116 km na lagoa de cáceres ( junto a Corumbá) ;
20,3 Km na lagoa mandiroré ( na altura do porto do Dourados, na
serra do amolar,) ; 8,2 km na lagoa Guaíba( na ponta norte da
serra do Amolar), ganhando a Bolívia acesso à navegação do Rio
Paraguaio. ( GUIMARÃES ,2001, p,192)

Negociação com o Paraguai

A negociação de limites com a república do Paraguai foi marcada


por muita tensão,embora, ambas as nações, no primeiro quartel
do seculo XIX, estivesse envolvidas em problemas internos e
externos bem maior que as dificuldades de limites. O Estado
Brasileiro estava envolvido com as chamadas revoluções nativistas
que brotavam em várias províncias ameaçando seriamente a
unidade do país.No plano externo, o Brasil estava preocupado em
contornar os problemas com a Inglaterra que, pela força das
armas, teimava em exigir um acordo comercial claramente
prejudicial para o Brasil . Soma -se a isso o esforço econômico e
militar para controlar o território do atual Uruguai, problema que
aumentava ainda mais a desconfiança dos demais países com o
Império.

O governo paraguaio também enfrentava conflitos internos e


externos, que tramavam contra a consolidação da independência

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do país. No plano interno, Francia lutava em duas frentes: a
primeira objetivava acabar com o poder dos antigos comerciantes
ligados à burguesia comercial de Buenos Aires, que se sentiam
prejudicados com a independência do Paraguai e, por isso,
continuavam com ligações econômicas e políticas com os
portenhos, num claro desafio á orientação do novo presidente
que desenvolvia esforços para criar um comércio independente de
Buenos Aires, controlado por uma burguesia nativa que estava
nascendo ancorada na força do Estado. Francia também combatia
a Igreja Católica que apoiava abertamente o esforço espanhol para
restabelecer o controle sobre os territórios emancipados na
América.

Na arena externa, Francia enfrentava a oposição dos comerciantes


de Buenos Aires que lideraram a luta pela emancipação de parte,
muito importante da América latina e, por isso, queriam controlar o
comércio da região. Como Francia não aceitou a proposta
portenha, eles bloquearam o Rio Paraná, impedindo que os
produtos da nação guarani fossem escoados por meio do oceano
atlântico. Isso tudo conspirava fortemente contra o sucesso da
independência paraguaia. Por isso, o Império, desde o primeiro
momento, esteve solidário com a independência paraguaia.Claro
que essa decisão também estava ancorada no receio de que
Buenos Aires incorporasse o Paraguai e as demais províncias do
Rio da Prata e,com isso, alterasse a balança geopolítica da região
que era francamente favorável ao Brasil.

Todos esses fatos contribuíram para que o Paraguai desenvolvesse


uma política de auto-isolamento.Francia trabalhava com a idéia de
que tanto o Brasil como Buenos Aires tinham interesse em anexar
suas terras. No caso concreto dos portenhos, a ameaça era
real,pois eles achavam que o Paraguai era parte do seu território.
Nesse clima, era natural que qualquer negociação fosse precedida
de muita tensão.

Em 1824 o Império iniciou conversações com o Paraguai acerca de


um tratado mínimo que permitisse a livre navegação de barcos
brasileiros ao longo do rio paraguaio.Esse rio era a principal rota
para se chegar à província de Mato Grosso, daí a importância de
um acordo. Foi escolhido para representar o Brasil o diplomata

16
Manoel Correia Câmara.O governo paraguaio solicitou alterações
na interpretação do Tratado de San Idelfonso, proposta que
culminaria com a perda de uma parte das terras ocupadas pelo
Brasil, de acordo com o referido tratado de 1777. Como o Brasil
não aceitou a reinvidicação de Francia, as conversas não tiveram
sucesso,embora as portas continuassem abertas para um novo
acordo.

Em 1826, Manoel Correia procurou o dirigente Guarani para tratar


da questão do Rio Paraguaio,porém não foi recebido por Francia
que alegou que o Brasil não cumpriu a promessa de doar ao
Paraguai um lote de armas. Manoel Correia tinha prometido armas
para o Paraguai enfrentar as ameaças vindas de Buenos Aires.O
fato de Correia não ter cumprindo o combinado serviu de pretexto
para que Francia congelasse com Brasil as conversas sobre limites
e navegação do Rio Paraguaio, até sua morte em 1840.

Com a morte de Francia, o fazendeiro Carlos Solano Lopes


assumiu a direção do governo paraguaio.O novo dirigente
concentrou parte dos seus esforços para modernizar o país.
Investiu no setor de ferrovias e de fundições e buscou tirar o
Paraguai do isolamento através de contatos com governos da
Europa e dos Estados Unidos da América.Contratou técnico e
comprou tecnologia para melhorar a infra-estrutura do país. O
grosso dos contatos na Europa foi feito pelo seu filho Francisco
Solano Lopes,ministro plenipotenciário, e, mais tarde, presidente da
república.

Com o novo governo, a questão da fronteira que, na época de


Francia, estava relegada a um segundo plano, voltou para o
centro do debate. Aos poucos, a situação foi se tornando mais
crítica. Pequenas escaramuças entre tropas brasileiras e
paraguaias começaram a surgir com certa freqüência. O Paraguai
reivindicava que a linha de fronteira fosse estendida até o Rio
Branco.

O Império não concordou com a exigência do Paraguai,por isso,


cada vez mais, o problema da fronteira passou a exigir ação firme
da diplomacia de ambos os paises. Por intermédio do tenente
Augusto Leverger, foram feitos contactos com o governo

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Paraguai para resolver parte do problema, notadamente a livre
navegação no rio paraguaio, causa muito cara para o Brasil. Depois
de algumas protelações, em 1844, deu-se inicio a uma nova
rodada de conversações sobre comercio e navegação. Nesse ano,
através do embaixador brasileiro Pimenta Bueno, foi feito um
acordo que garantia o comércio e a navegação ao longo do rio
paraguaio. Também assegurava que caso o Paraguai sofresse
alguma agressão de Buenos Aires o império ficaria ao lado da
nação guarani (Doratioto,1991, p.28/29).

Na verdade, esse acordo demorou a sair porque o Brasil tinha uma


política muito dúbia sobre a navegabilidade dos rios. Pedia livre
navegação no Rio Paraguaio e no Paraná mas mantinha fechado o
Rio Amazonas para embarcações de outros países.Por outro lado,
Carlos Lopes, também, criava dificuldade para a efetivação de um
acordo mais completo sobre a fronteira. Só em 1847, ele enviou ao
Brasil uma missão para tratar do problema da fronteira.Depois de
dias de discussões, os diplomatas não conseguiram chegar a um
acordo. O governo paraguaio continuava exigindo que a linha de
fronteira tivesse o seguinte contorno:

“a)que estas, partindo da foz do iguaçu, seguisse o


rio Paraná até o Salto Grande ( Guairá) e, daí, pela
serra de Amambaí e de maracajú,até as vertentes do
Rio Branco e por este até sua confluência com o rio
Paraguaio ( pouco abaixo do Forte Olimpo);
b)que fosse neutralizado o território entre os rios Apa
e Branco,ficando vedado aos dois países erigir nele
fortalezas, postos militares ou estabelecimentos
permanentes –enfim,uma terra de ninguém- até que
se desse solução definitiva ao caso.O Brasil não
aceitou insistindo nos limites pelo Apa”. (GUIMRÃES
e CAMPESTRINI,2000, p. 67)

O governo brasileiro não aceitou a proposta.A alegação principal


era que o Brasil iria perder parte importante de terras que, pelo
tratado de Madri, pertenceria ao Brasil.Também não aceitou a zona
tampão proposta pelo representante guarani,ou seja, uma área
neutra na fronteira entre o rio Branco e o Rio Miranda. Assim, a
discussão sobre os limites da fronteira não avançou. Por conta

18
própria, o Império resolveu aumentar a segurança das terras que
considerava sua. Mandou erguer, em 1850, um forte na região
conhecida como fecho dos Morros.Essa iniciativa repercutiu muito
mal junto às autoridades paraguaia.

Em represália a essa construção, nesse mesmo ano, seiscentos


soldados paraguaios cercaram a fortaleza que ainda estava em
construção e exigiram que os soldados brasileiros abandonassem
o edifício. O comandante do forte não aceitou a rendição o que
resultou num forte combate em que morreram dez soldados do
império.Sem condições para continuar resistindo, dada à
inferioridade do efetivo brasileiro, o comandante e os soldados
abandonaram a praça de guerra. O ataque Paraguai teve ampla
repercussão na corte e no parlamento brasileiro, onde não faltaram
propostas estimulando o governo Imperial a revidar o ataque e abrir
a navegação Rio Paraguai para os barcos brasileiros com a força
das armas.

Por outro lado, em 1853, o governo Lopes resolveu expulsar do


seu país o diplomata brasileiro Pereira Leal.O motivo que
estimulou Lopes a tal ato foi a defesa constante que o embaixador
fazia da necessidade de se resolver a questão da fronteira pelos
limites apontados pelo tratado de Santo Idelfonso. A posição do
representante brasileiro também era contrária à criação de uma
zona neutra como queria Lopes, entre o rio Apa e o Miranda. A
desfeita provocada por Carlos Lopes recebeu resposta em 1855.O
Império, desnecessariamente, enviou uma forte esquadra ao
paraguaio para exigir do governo um tratado sobre
comércio,navegação e fronteira.

Pressionado pelas armas, Lopes aceitou parte do acordo


notadamente a questão comercial e a liberação do Rio Paraguai
para embarcação brasileira.Porém, a questão dos limites ficou
para outra oportunidade. Como a negociação não contemplou a
questão de limites o governo imperial se negou a assinar o referido
acordo.A negativa de Dom Pedro II ensejou que a diplomacia
marcasse uma nova reunião para 1856. Nessa oportunidade a
questão da navegação foi separada da questão da fronteira,isto é,
a discussão sobre fronteira foi adiada para 1862.
Porém,astutamente,o governo paraguaio começou a colocar novas

19
exigências para que os barcos brasileiros singrassem pelo Rio
Paraguai. Essa situação exigiu outra rodada de negociação em
1857, que culminou com o tratado de 12 de fevereiro que permitiu
a embarcação de qualquer bandeira explorar o Rio Paraguaio.(
TEIXEIRA.1973. p.248).

Em 1862, representantes brasileiros e paraguaios deveriam voltar à


mesa de negociação para tratar da questão da fronteira, porque
neste ano expirava o prazo de 06 anos acordado no tratado de
1856. Aconteceu que, em 1856, morreu Carlos Solano Lopes e no
seu lugar assumiu seu filho Francisco Solano Lopes.

Solano Lopes filho era general e assumiu o poder com 38 anos de


idade. Antes, porém, estudou na Europa onde fez amizade com
autoridades civis e militares daquele continente e dos Estados
Unidos da América. Na condição de ministro plenipotenciário do
Paraguai não economizou dinheiro, contratou técnico estrangeiro e
comprou armas e navios. Quando assumiu o governo, continuou
desenvolvendo ações para modernizar seu país, inclusive e
principalmente, no campo militar.Para isso, construiu fábrica de
pólvora e de armas e organizou um exército com 60.000 mil
homens.Ao longo do Rio Paraguai ele também mandou construir
modernas praças de guerra. É bem provável que o jovem general já
tivesse plano de resolver a questão de limites com a Argentina e
com o Brasil pela força das armas. Por isso, as negociações,
doravante, não tiveram sucesso.

Aos poucos, Lopes iniciou ações claramente hostis ao Brasil.


Ainda em 1862, ele enviou a Mato Grosso o coronel Resquin, para
conhecer as potencialidades da região: numero de soldados,
viabilidade agrícola, rebanho bovino, rios, cidades e outras
informações importantes de cunho militar. Lopes também passou a
exigir que barcos brasileiros fossem vistoriados em seus portos.
Essa era uma das formas que ele tinha para saber se o governo
brasileiro estava enviando homens e armas para a província de
Mato Grosso.

Lopes também resolveu intervir na disputa que o Brasil travava com


o governo Blanco do Uruguai.Uma parcela importante dos
comerciantes e pecuaristas brasileiros, que tinha atividade no

20
Uruguai, começou a reclamar para o Império que o governo Blanco
estava discriminado os brasileiros.Reclamavam de alguns
privilégios que eles perderam no comercio de gado e carne e seca.
Era uma reclamação que não justificava um ato de força por parte
do Brasil. Essa diferença poderia ser resolvida sem o uso do
exército. O Uruguai era um país soberano e podia adotar o modelo
econômico que fosse melhor para seus interesses.No entanto, não
foi esse o entendimento do gabinete imperial.

A ocupação parcial do Uruguai serviu, também, para o Império dar


uma satisfação à população. A questão é que o Brasil estava
mantendo uma disputa econômica com a Inglaterra, com reflexos
internos muito negativos. Pela força das armas, a Inglaterra
bloqueou o porto do Rio de Janeiro e exigiu que o governo
brasileiro pagasse uma indenização,sob protesto, pelo saque
efetuado ao barco inglês Prince of Wales, que naufragou na região
sul no país. Assim,provavelmente para compensar a humilhação
sofrida pelos Ingleses, o Brasil invadiu o Uruguai e derrubou o
governo Blanco.Em seu lugar foi indicado um político colorado,
ligado aos interesses comercial dos brasileiros. A reação
paraguaia a invasão do Uruguaio foi muito dura.

A Guerra do Paraguai 1964/1870

A invasão do Uruguai foi o pretexto que Lopes esperava para


declarar guerra ao Brasil e a Argentina,ou,quem sabe, para mostrar
que tinha força militar e desejava participar mais ativamente da
geopolítica da bacia do Rio da Prata. No dia 12 de setembro de
1864, o Brasil entrou com seus exércitos na República do Uruguai
iniciando o processo de ocupação. Antes, em 30 de agosto,
Solano Lopes enviou a embaixada Brasileira uma carta de protesto
contra a invasão do Uruguai. Eis uma síntese da carta:

“O governo paraguaio protestou (...) contra qualquer


ocupação do território uruguaio por forças de mar e
terra do Brasil, porque seria contra o equilíbrio entre
os estados do prata e afirmou não assumir a
responsabilidade pelas conseqüências de qualquer
ato brasileiro”.( DORATIOTO.1991. p. 58)

21
No dia 12 de novembro do mesmo ano, sem que as autoridades
brasileiras esperassem, o navio brasileiro Marques de Olinda de
propriedade de uma companhia privada, que fazia o transporte de
carga e pessoal nos rios Paraná e Paraguaio, foi aprisionado.O
embaixador brasileiro no Paraguai, Viana de Lima, protestou contra
a prisão do navio brasileiro e do novo governador da província de
Mato Grosso, Coronel Frederico Carneiro de Campos.Como
resposta, recebeu uma carta em que Solano rompia formalmente
com todas as relações com o governo brasileiro e proibia que os
barcos brasileiro, sob qualquer pretexto, mercante ou civil,
navegassem no Rio Paraguai na parte sob controle da nação
guarani.

Lopes também aproveitou o momento para expulsar o embaixador


brasileiro Viana de Lima.Esses fatos marcaram o inicio da guerra.
No dia 23 de dezembro, Solano Lopes iniciou a invasão da
província de Mato Grosso.Vejamos o poder militar usado pelo
Paraguai nessa invasão.

“três batalhões de infantaria, com 2.100 praças ; dois


esquadrões de cavalaria, com 200 praças;meia
companhia de sapadores (gastadores ) ,com 50
praças,dois ferreiros;quatro cirurgiões ;16
enfermeiros;16 praças para guarnição de dois
canhões de bronze;12 praças para guarnição de dois
canhões cônicos ; e 40 praças para guarnição de
dois canhões raiados(...)As forças de Resquim eram
constituído de 400 praças;dois regimentos de
cavalaria,com 960 praças;30 sapadores;quatro
cirurgiões;16 enfermeiros;40 artilheiros para canhões
de quatro,num total de 1.450 homens; e a coluna
Urbieta,em separados, com dois esquadrões de
cavalaria de 240 praças,uma companhia de
infantaria com 100 praças ,25 sapadores,num total de
365 homens” .(GUIMARÃES.2001.p.137/138).

As forças regulares, que estavam guarnecendo a fronteira de Mato


Grosso sediadas nas cidades de Corumbá, Miranda,Dourados e
Nioaque não passava de 330 militares. O armamento e a
quantidade também deixavam a desejar,portanto, não havia a

22
menor condição dessas tropas deter à invasão paraguaia. Sem
muita dificuldade, o exército Paraguai ocupou Corumbá,
Miranda,Nioaque,Bela Vista chegando até ao município de Coxim.
No caminho nada foi poupado. Gado, armas, cavalo,
alimento,prédio tudo foi surrupiado ou destruído.

Depois de invadir o Mato Grosso o Paraguai pediu autorização ao


governo argentino para invadir a região sul do Brasil. Argentina não
concedeu a permissão, por isso teve seu território também
ocupado pelo exército Paraguai.Por outro lado, como os blancos
que tinham ligações com Solano Lopes perderam o poder no
Uruguaio, na prática, começou o fim da era Lopes. Nem mesmo a
Bolívia que no início da guerra demonstrou algum grau de
solidariedade a Lopes, por força do acordo estabelecido com o
Brasil em 1867, buscou a neutralidade, recaindo sobre o povo
paraguaio a missão de enfrentar, sem qualquer ajuda substancial
externa,o poderio de três exércitos unidos sob a bandeira da tríplice
aliança.

O Paraguai perdeu a guerra.Perdeu também parte importante do


território que reinvidicava. Sem condições de negociar um acordo
melhor, porque estava derrotado, o novo governo paraguaio foi
obrigado “aceitar” um tratado de limites claramente prejudicial aos
seus interesses. Perdeu um terço das terras que reinvidicava. Em
20 de junho de 1872, foram assinados os tratados de Paz e
Amizade Perpétua, e de limites,com o Paraguai.

O território do império do Brasil, atualmente, divide-se com o da


república do Paraguai:

“pelo álveo do rio Paraná, desde onde começam as


possessões brasileiras, na voz do Iguaçu, até o Salto
Grande das Sete Quedas, continua a linha divisória
pelo mais alto da, serra de maracajú, até onde ela
finda;daí segue em linha reta,ou que mais se
aproxime, pelos terrenos mais elevados a encontrar a
serra Amambaí;prossegue pelo mais elevados a
encontrar a Serra Amambaí; prossegue pelo mais alto
desta Serra até a nascente principal do rio Apa, e
baixa pelo álveo deste até sua foz, na margem

23
oriental do rio Paraguai;todas as vertentes que
correm para Norte e Leste pertencem ao Brasil e as
que correm para Sul e Oeste pertencem ao Paraguai.
A ilha do Rio do Fecho – dos - Morros é do domínio
do Brasil”.(TEIXEIRA.1973.p.256/257)

A guerra e a diplomacia ancoraram por muito tempo a construção


da fronteira internacional de Mato Grosso do Sul. Nos nossos dias
são as relações econômicas e culturais as novas bases que
garantem a vida na fronteira. Nessa região onde se realizou vários
combates, com prejuízos enormes para as nações envolvidas,
felizmente,brotaram importantes cidades cuja preocupação central
é buscar caminhos coletivos que permitam melhorar as condições
de vida de toda população.

É cada vez maior a idéia de que as dificuldades da fronteira


precisam ser resolvidas com a comunhão dos que escolheram a
fronteira para viver e trabalhar. Nesse sentido não são poucas as
iniciativas econômicas e sociais implementadas pela sociedade
civil, pelas prefeituras e pelos Governos dos Três paises.

A construção e exploração do gasoduto Brasil/ Bolívia é um


exemplo muito positivo do que pode ser feito para integrar cada vez
mais os povos. As parcerias com o Paraguai objetivando combater
as doenças do rebanho bovino, a construção da empresa
binacional Itaipu, ou os diversos convênios voltados para a
proteção do Rio Paraguai expressam um novo momento nas
relações bilaterais.

Na fronteira do Mato Grosso do Sul com a República da Bolívia


existem as cidades de Porto Suares e Porto Quijarro dois
importantes centros comerciais do país vizinho, distante poucos
quilômetros do histórico município de Corumbá/ Brasil. As
cidades são ligadas por rodovia, ferrovia e pelo Rio Paraguaio.

Na divisa de MS com a República do Paraguai existem 18


cidades, sendo 12 em solo do Brasil, como Porto Murtinho, Bela
Vista, Ponta Porá, Coronel Sapucaia, Paranhos, Sete Quedas,
Antonio João, Eldorado, Japorã, Mundo Novo, Aral Moreira e
Tacuru. Em solo Paraguai existem as cidades de Valhemi, San

24
Carlo, Bela Vista Norte, Pedro Juan Cabalero, Ipê Hun e Capitan
Bado.

Duas formas de fronteira dividem essas cidades. Uma é seca e a


outra é pelo Rio Paraguai. Ponta Porá e Pedro Juan Cabalero, por
exemplo, são cidades geminadas, e muitos dos problemas
econômicos e sociais são resolvidos coletivamente pela duas
cidades.

A idéia de complementaridade econômica e social é muito forte


entre as cidades. Isso não quer não dizer que não existam
problemas, que não existam bolsões de resistência a idéia de
integração das fronteiras. Lamentavelmente, alguns, ainda teimam
em ver a fronteira como um lugar marginal, distante, embrutecido,
visão muito distante da realidade da fronteira nos nossos dias.

Quem visita a fronteira internacional de Mato Grosso do Sul


depara-se com uma região rica, com muita soja, gado, trigo,
algodão, sorgo, milho, belezas naturais, muita água, algumas
industrias e um comércio relativamente moderno. Em meio a essa
riqueza, contraditoriamente, como é a natureza do capitalismo,
também tem miséria.

Essa é a realidade da fronteira internacional de Mato Grosso do


Sul. Fronteira que precisa e vai se integrar cada vez mais. O
destino das fronteiras é ligar os povos nas suas mais diversas
dimensões. Essa é a tarefa do momento.

Campo Grande, MS, 2006.

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