Você está na página 1de 16

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO

12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa


MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

Exmo. Sr. Juiz de Direito da Vara Especializada de Ação Cível Pública e Ação Popular
da Comarca de Cuiabá.

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO
ESTADO DE MATO GROSSO pelo Promotor de Justiça abaixo assinado, no
exercício de suas atribuições legais, por delegação, conforme Portaria 082/2009-PGJ,
legitimado pelos arts. 127 e 129 inciso III, da Constituição Federal, art. 103 da
Constituição Estadual, art. 1º da Lei Complementar Estadual nº 27/93, 25 inciso IV,
letra “b”; 26, inciso I e 29 inciso VIII, da Lei nº 8.625/93-LONMP e pela Lei Federal nº
7.347/85 – ACP vem perante Vossa Excelência propor a presente AÇÃO CIVIL DE
RESSARCIMENTO DE DANOS AO ERÁRIO C/C PEDIDO LIMINAR DE
INDISPONIBILIDADE DE BENS E EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS contra:
1 – JOSÉ GERALDO RIVA, brasileiro,
separado, Deputado Estadual, Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de
Mato Grosso, portador da cédula de identidade RG n° 297.707/SSP-MT e do CPF n°
387.539.109-82, nascido em Guaçuí-ES em 08/04/59, filho de Daury Riva e Maria
Pirovani Riva, residente na rua Sinjão Curvo, nº 207, Bairro Santa Rosa, em Cuiabá-
MT, podendo também se encontrado na Assembleia Legislativa Estadual;
2 – HUMBERTO MELO BOSAIPO,
brasileiro, casado, Conselheiro do TCE/MT e advogado, inscrito na OAB/MT sob o nº
3.655/MT, com CPF n° 094.169.601-44, nascido em Goiânia-GO em 03/11/54, filho de
Antônio Bosaipo e Teresa Costa Melo Bosaipo, residente na rua Manoel Leopoldino,
apt° 265, Ed. Luciana, Bairro Araés, em Cuiabá-MT, podendo também ser encontrado
no Tribunal de Contas Estadual;
Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 1 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

3 – GUILHERME DA COSTA GARCIA,


brasileiro, casado, economista, servidor da Assembleia Legislativa de Mato Grosso,
portador da cédula de identidade RG nº 099.641/SSP-MT e do CPF nº
001.706.071-00, nascido em Vila Bela da Santíssima Trindade-MT em 08/11/43, filho
de Joaquim da Costa Garcia e Trinidad Poquiviqui, residente na rua Estevão de
Mendonça, n° 2148, bairro Morada do Sol, em Cuiabá-MT;
4 – NIVALDO DE ARAÚJO, brasileiro,
casado, funcionário público, portador da cédula de identidade RG nº 1305768-5/SSP-
MT e do CPF nº 042.675.241-49, nascido em Cáceres-MT em 15/09/48, filho de
Gastão de Araújo e Saturnina de Araújo, também conhecida como “Bazurina de
Araújo”, residente e domiciliado na rua Cel. João Lourenço de Figueiredo, quadra 3,
casa 1, Jardim Tropical, em Cuiabá-MT; pelos motivos de fato e de direito que passa a
aduzir.

I - SÍNTESE DOS PEDIDOS


1 - O Ministério Público do Estado de Mato
Grosso, por meio dessa ação pretende a condenação dos requeridos JOSÉ
GERALDO RIVA e HUMBERTO DE MELLO BOSAIPO ao ressarcimento dos danos
causados ao erário em razão de atos ilícitos, no valor de R$ 1.899.538,50 (um milhão,
oitocentos e noventa e nove mil, quinhentos e trinta e oito reais e cinquenta centavos),
porque na qualidade de gestores responsáveis pela Administração da Assembleia
Legislativa Estadual foram responsáveis por aquele desvio.
Também busca-se responsabilizar os requeridos GUILHERME
GARCIA e NIVALDO DE ARAUJO pois estes na qualidade de servidores públicos
responsáveis à época dos fatos pelos setores de finanças, licitação e patrimônio da
Assembleia Legislativa Estadual, colaboraram diretamente na prática dos atos
fraudulentos, concorrendo para consecução dos mesmos, beneficiando-se direta e
indiretamente dos ilícitos perpetrados contra o patrimônio público. Ressalta-se a não
inclusão de LUIZ EUGÊNIO DE GODÓY no polo passivo da presente ação, ante a
circunstância de ter falecido em 03/04/2007 (fls. 392), bem como por ser solidária a
responsabilidade dos demais requeridos pelos danos causados ao erário.
2 – Reivindica-se pelos fundamentos
expostos na presente ação, liminar de indisponibilidade de bens dos requeridos, assim

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 2 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

como exibição de documentos por parte da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.


II – FATOS
3 – Em 19/11/04 o autor instaurou o
Inquérito Civil nº 112/2004 (GEAP nº 000388-002/2004) com dois volumes e três
anexos, em continuidade às investigações relativas às denúncias de desvio e
apropriação indevida de recursos públicos do Poder Legislativo Estadual, através da
emissão e pagamento com cheques para empresas inexistentes ou irregulares.
As investigações tiveram início em virtude da notícia e
encaminhamento de documentos pela Justiça Federal, demonstrando que mais de
sessenta e cinco milhões de reais oriundos da Assembleia Legislativa do Estado de
Mato Grosso haviam circulado pelas contas da Confiança Factoring Fomento Mercantil
Ltda, empresa pertencente ao grupo João Arcanjo Ribeiro, sendo isso um dos
desdobramentos da operação intitulada “Arca de Noé”, desencadeada em conjunto
pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual, visando
desmantelar a organização criminosa chefiada pelo então temido e poderoso
“comendador” (fls. 78/101 do anexo I).
4 - Os documentos apreendidos na factoring
de propriedade de Arcanjo demonstraram uma inusitada movimentação financeira,
com o desconto em favor da Confiança Factoring de um grande volume de cheques
sacados contra a conta corrente da Assembleia Legislativa deste Estado (AL/MT), que
somados ao relatório do Banco Central encaminhado ao MPE pela Justiça Federal (fls.
03/178, anexo I), geraram a suspeita de que a factoring de Arcanjo teria sido utilizada
para a lavagem de dinheiro proveniente da AL/MT, mediante pagamentos efetuados
para pretensos credores.
5 – Para apurar a ocorrência destes
pagamentos o autor desta ação ingressou com uma medida judicial de exceção ao
sigilo bancário da conta corrente nº 86.100-6, Agência Setor Público do Banco do
Brasil de Cuiabá-MT, de titularidade da Assembleia Legislativa do Estado de Mato
Grosso. Em virtude desta medida, foram encaminhados ao Ministério Público cópias de
inúmeros cheques emitidos e sacados contra a conta corrente da AL/MT, sendo que
dentre os documentos mencionados foram identificadas 39 (trinta e nove) cópias de
cheques nominais à empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA., a seguir
relacionados (fls. 63/138, do anexo II):

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 3 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

cheque nº data valor observação


983649 18/05/99 R$ 50.000,00 c/c Confiança Factoring
422 01/06/99 R$ 44.200,00 c/c Confiança Factoring
414 01/06/99 R$ 55.400,00 c/c Confiança Factoring
694 02/07/99 R$ 53.365,00 c/c Confiança Factoring
1111 26/08/99 R$ 4.000,00 compensado, banco 1, ag. 469
1089 26/08/99 R$ 6.000,00 compensado, conta 75628-x
1104 26/08/99 R$ 10.000,00 sacado
1106 26/08/99 R$ 5.000,00 sacado
1107 26/08/99 R$ 5.000,00 sacado
1112 26/08/99 R$ 8.000,00 compensado, banco 1, ag. 469
1110 27/08/99 R$ 6.000,00 Sacado
1170 31/08/99 R$ 37.200,00 c/c Confiança Factoring
1533 28/09/99 R$ 44.000,00 c/c Confiança Factoring
907400 24/12/99 R$ 55.000,00 c/c Confiança Factoring
2761 15/02/00 R$ 1.000,00 sacado, endosso Bosaipo
2997 02/03/00 R$ 68.673,50 c/c Confiança Factoring
3614 05/04/00 R$ 72.000,00 c/c Confiança Factoring
3065 05/04/00 R$ 74.400,00 sacado, endosso Riva
3480 05/04/00 R$ 72.500,00 c/c Confiança Factoring
3893 05/05/00 R$ 76.000,00 c/c Confiança Factoring
3865 05/05/00 R$ 62.000,00 c/c Confiança Factoring
3523 05/06/00 R$ 65.000,00 c/c Confiança Factoring
5003 22/09/00 R$ 62.000,00 sacado, endosso Bosaipo
5046 06/10/00 R$ 65.000,00 compensado, banco 291, ag. 159
5190 01/11/00 R$ 50.000,00 sacado, endosso Godoy
7743 22/12/00 R$ 68.500,00 sacado, endosso Riva, Bosaipo e G. Garcia
8257 06/03/01 R$ 75.000,00 sacado, endosso Godoy
8506 10/04/01 R$ 75.000,00 sacado, endosso Godoy
7258 24/05/01 R$ 47.150,00 sacado, endosso Godoy
9691 19/07/01 R$ 73.870,00 sacado, endosso Godoy
9903 01/10/01 R$ 60.000,00 compensado, banco 291
10520 09/10/01 R$ 73.870,00 sacado, endosso Godoy
9917 30/10/01 R$ 70.000,00 compensado, banco 291
10754 08/11/01 R$ 66.000,00 sacado, endosso Godoy
9905 06/12/01 R$ 75.000,00 compensado, banco 291
11202 06/12/01 R$ 46.410,00 compensado, banco 237
11186 18/12/01 R$ 17.000,00 compensado, banco 291
9911 10/01/02 R$ 75.000,00 compensado, banco 291
12207 05/02/02 R$ 25.000,00 sacado, endosso Godoy
Total: R$ 1.899.538,50

6 – Diante da grande quantidade de cheques

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 4 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

e do alto valor pago à empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA., o autor


realizou diligências buscando averiguar a idoneidade e a existência da empresa acima
indicada, bem como requisitou ao Presidente da AL/MT cópias de todos os
procedimentos de licitação, empenho e comprovantes de recebimento de mercadoria
ou da prestação de serviços relativos a todos os pagamentos efetuados para aquela
empresa, sem contudo obter resposta.
7 – Iniciadas as investigações, prontamente
apurou-se que a empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA. nunca funcionou
no endereço constante de seu contrato social, conforme relatório do GAECO/MT (fls.
63/64). Além disso, sua Inscrição Estadual foi suspensa por irregularidades cadastrais
e os recolhimentos efetuados em seu nome no período de recebimento dos cheques
da AL/MT, foram apenas de pequenas quantias a título de taxa de serviços, sem
nenhuma movimentação (fls. 54/59) e as informações da Secretaria Municipal de
Finanças apontam que não recolheu ISS, nem renovou sua licença nos exercícios de
1999 a 2004 (fls. 24/29).
Conforme se verifica da primeira alteração contratual (fls. 15/17),
a empresa originalmente constituída em nome de Maria Benedita Pereira da Paz e Joel
Quirino Pereira (contador responsável pela criação de diversas empresas utilizadas no
esquema de desvio de dinheiro dos cofres da AL/MT), foi transferida para o nome de
dois sócios fictícios, Charles Palácio de Massedo e José Antonelli Vieira Filho, em abril
de 1.999 para pouco tempo depois, em 18/05/99, receber o primeiro dos cheques da
AL/MT. Ao que parece e tudo indica, essa modificação foi feita com o único propósito
de servir de pretexto para os saques do dinheiro público, afastando a responsabilidade
dos verdadeiros proprietários.
Importante registrar que os supostos novos proprietários não
constam como eleitores no TRE/MT (fls. 31 e 34) e não possuem qualquer benefício
previdenciário (fls. 36, 38 e 42). Isso leva a acreditar que eles são pessoas fictícias,
criadas para figurar como sócios de uma empresa inexistente, utilizada para prática de
atos fraudulentos, dilapidando o patrimônio público. Não há dúvida, era empresa
“fantasma”.
8 – Como se vê pelo quadro acima e pela
análise da documentação referente a empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO
LTDA., está claramente demonstrado que a empresa foi utilizada fraudulentamente

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 5 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

para justificar a emissão dos cheques de titularidade da AL/MT, restando evidente a


existência de um esquema de lavagem e desvio de dinheiro público.
Durante investigações realizadas no âmbito do inquérito policial nº
252/03, instaurado pela Delegacia Fazendária para apuração de crimes contra a ordem
econômica e tributária e no cumprimento de determinação judicial de busca e
apreensão, foram encontradas no escritório de contabilidade dos irmãos QUIRINO
PEREIRA, robustas provas da montagem fraudulenta de empresas, utilizadas
posteriormente como pretensas fornecedoras da AL/MT.
Entre os documentos apreendidos encontram-se arquivos
referentes aos contratos sociais das empresas e um arquivo intitulado “Relatório AL”,
onde consta relação de firmas e a indicação de que elas seriam utilizadas para
licitações junto à AL/MT. Consta ainda desse “relatório”, relação de empresas
utilizadas, data de emissão dos cheques e respectivos valores. Cópias de tais
documentos foram encaminhados ao MPE e encontram-se juntadas no anexo III, que
faz parte integrante do inquérito civil que embasa esta demanda.
Como já foi acima registrado, a empresa LIVRARIA E
PAPELARIA PALÁCIO LTDA. foi originalmente constituída em nome de Joel Quirino
Pereira e só após transferida para os sócios fictícios (fls. 15/17). Além disso, o nome
da empresa e dos supostos novos proprietários aparece em diversos documentos do
anexo III (fls. 5, 6, 7, 9, 31, 122, 125, 140), o que demonstra sua utilização no esquema
de desvio de dinheiro público. Verifica-se daqueles documentos também que os sócios
fictícios também foram incluídos na composição societária de outras empresas que
foram utilizadas no esquema. Bastante reveladora é também a observação constante

às fls. 17 daquele relatório: falta abrir + cinco empresas.


9 – A empresa mencionada nesta ação, foi
utilizada dolosamente como pretensa fornecedora da Assembleia Legislativa Estadual
por GUILHERME DA COSTA GARCIA e NIVALDO ARAÚJO, responsáveis à época
dos fatos pelos setores de finanças, licitação e patrimônio da AL/MT, que colaboraram
com as falcatruas e beneficiaram-se do esquema montado. Todos eles agiam em
conjunto dentro da Assembleia Legislativa e sob orientação e comando dos Deputados
HUMBERTO MELO BOSAIPO e JOSÉ GERALDO RIVA, como verdadeira quadrilha,
organizada para desviarem e apropriarem-se criminosamente de dinheiro público.
Visando apurar tais fatos, expediu-se ofício datado de 02/04/04
Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 6 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

(fls. 61/62), mas o então Presidente da AL/MT, José Geraldo Riva, deixou transcorrer o
prazo sem prestar qualquer informação.
Posteriormente foram extraídas de outro procedimento fotocópias
de atos do Poder Legislativo Estadual, constando os nomes dos membros da
comissão de licitação desde o ano de 1995 e termos de declarações por eles
prestadas, que foram acostadas ao inquérito que serve de base a esta ação (fls.
148/236).
A verdade é que até o presente momento, a AL/MT mantém em
sigilo indevido, imoral e ilegal os documentos que teriam dado origem ao pagamento
narrado nestes autos. Pela atitude constatada é bem provável que eles nem existam!
10 – A análise das cópias dos cheques e
dos extratos bancários referentes à conta corrente da AL/MT, bem como do relatório
do Banco Central, mostra que dos cheques emitidos em favor da suposta empresa
LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA., 16 deles foram sacados diretamente na
boca do caixa, conforme consta da relação que está no bojo desta inicial.
Observa-se dos cheques sacados diretamente na boca do caixa,
consta no verso uma assinatura que pretensamente pertenceria a um dos
representantes da empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA., mas que na
verdade é uma assinatura falsificada, uma vez que a empresa e seus proprietários não
existiam. Além da assinatura do pretenso representante da empresa, consta também
do verso destes cheques a assinatura de um dos emitentes, ou seja, de um dos
requeridos que á época representavam a AL/MT.
Em vários cheques consta também a assinatura de HUMBERTO
BOSAIPO, JOSÉ GERALDO RIVA, LUIS EUGÊNIO GODOY e GUILHERME GARCIA.
Essa assinatura funcionava junto ao Banco do Brasil como uma autorização dada
pelos emitentes do cheque para o saque direto no caixa, sendo que algumas vezes
eles mesmos sacavam os cheques e em outras o saque se dava por pessoas por eles
indicadas, sendo por eles providenciada, inclusive, a provisão de numerário junto ao
banco para os saques.
Esses fatos foram confirmados pela gerente de contas da agência
do setor público do Banco do Brasil, Raquel Alves Coelho em 10/03/03, através de
declarações prestadas nos autos do Inquérito Civil Público nº 009/03, juntadas às fls.
132/133 do procedimento que dá suporte a esta inicial.

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 7 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

11 – Também é certo que parte dos cheques


emitidos em favor da suposta empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA.
foram creditados, via compensação bancária, na conta corrente de titularidade da
CONFIANÇA FACTORING, empresa pertencente ao grupo JAR (João Arcanjo Ribeiro)
e por onde circularam, conforme relatório do banco central (fls. 78/101 do anexo I),
mais de sessenta e cinco milhões provenientes da Assembleia Legislativa do Estado.
Os requeridos RIVA e BOSAIPO alegaram que a AL/MT não
mantinha negociações diretas com a factoring e que este montante foi movimentado
por credores e fornecedores da AL/MT que mantinham negócios com a empresa de
João Arcanjo Ribeiro. Todavia, essa versão não corresponde à verdade, pois o que
realmente ocorria era a utilização da factoring para sacar dinheiro público, forjando
pagamentos inexistentes e indevidos, dando aparência de legalidade a um plano
arquitetado para espoliar fraudulentamente o erário.
As investigações revelaram que necessitando de dinheiro para
pagamento de despesas pessoais ou decorrentes de campanhas eleitorais, os
requeridos JOSÉ RIVA e HUMBERTO BOSAIPO recorriam, freqüentemente, à
Confiança Factoring onde emprestavam dinheiro e, em troca, para garantir a quitação
das referidas operações (empréstimos) eram entregues por eles cheques emitidos
contra a conta corrente da Assembleia Legislativa Estadual (conta n° 86.100, Agência
Setor Público do Banco do Brasil de Cuiabá-MT). Tais cheques eram nominais a
supostos fornecedores da AL/MT (como no caso da empresa ora investigada) e eram
registrados junto à factoring como se estivessem sendo descontados em uma
operação de fomento mercantil, tudo como forma de encobrir o desvio e a apropriação
indevida de recursos públicos.
Para que isso ocorresse, emitiram cheques como se essas
empresas fossem fornecedores da AL/MT, encaminhando-os para a Confiança
Factoring, onde eram trocados por dinheiro ou por outros cheques emitidos pela
factoring e nominais a pessoas ou empresas indicadas pelos referidos deputados.
Para completar a operação de rombo, posteriormente os cheques emitidos contra a
conta corrente da Assembleia Legislativa Estadual eram compensados ou sacados em
prol da Confiança Factoring, fechando-se assim o círculo criminoso de desvio de
dinheiro público.
12 – Nesse sentido, bem esclarecedoras são

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 8 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

as declarações de Nilson Roberto Teixeira, à época dos fatos gerente da empresa


Confiança Factoring. Primeiramente, ouvido em sede inquisitorial em 21/06/03 (fls.
98/111) confirmou a utilização fraudulenta do nome de uma das empresa do
“esquema” para mascarar uma operação de crédito realizada entre a Confiança
Factoring e os Deputados José Geraldo Riva e Humberto Bosaipo. Tais fatos foram
plenamente confirmados pelo depoimento de Kátia Maria Aprá, colhido em 30/07/03
(fls. 117/119), funcionária da Confiança Factoring, encarregada da tesouraria e
responsável pela emissão dos cheques pela factoring, obedecendo as ordens de
Nilson Teixeira. A mesma Kátia Aprá em depoimento colhido posteriormente, em
09/03/04 (fls. 123/127), corroborou as declarações anteriores.
13 – É evidente que toda essa operação de
desvio e apropriação indevida de dinheiro público não poderia de forma alguma ter
sido realizada com êxito, sem a efetiva participação dos Deputados Estaduais JOSÉ
RIVA e HUMBERTO BOSAIPO que, à época dos fatos, exerciam cargo de comando
na Assembleia Legislativa deste Estado. Foram co-responsáveis e eram ordenadores
de despesas, além de emitentes dos cheques nominais a supostos credores, utilizados
para a quitação de operações financeiras realizadas junto à Confiança Factoring. A
efetiva responsabilidade deles é reforçada pelas declarações já prestadas por Nilson e
Kátia, que afirmam que as operações eram realizadas a pedido daqueles deputados.
Essa versão é confirmada pelas declarações de JURACY BRITO
(fls. 403/405) e CRISTIANO GUERINO VOLPATO (fls. 394/396), onde eles afirmam
que como funcionários da AL/MT compareceram, mais de uma vez, à Confiança
Factoring, a mando dos Deputados JOSÉ GERALDO RIVA e HUMBERTO BOSAIPO e
que lá receberam cheques, que, posteriormente, foram sacados ou endossados em
prol dos referidos Deputados.
Esclarecedoras também são as declarações prestadas por
ROMILDO ROSA NASCIMENTO (fls. 398/401), onde afirma que, como funcionário da
AL/MT, exercendo o cargo de motorista à disposição do Deputado JOSÉ GERALDO
RIVA, obedecendo a ordens deste, pagava as contas pessoais do Deputado, tais
como, água, telefone, energia, escola dos filhos etc... e que, para isso, descontava
cheques que muitas vezes eram de emissão da Confiança Factoring. Afirma também
que algumas vezes os cheques eram emitidos pela Confiança Factoring nominais a
ele, que descontava os referidos cheques e pagava as contas pessoais do Deputado

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 9 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

JOSÉ GERALDO RIVA.


14 – Em relação ao servidor GUILHERME
DA COSTA GARCIA, foi incluído no pólo passivo desta ação porque atuava como
ordenador de despesas, por integrar a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa e por
atribuição do cargo de Secretário de Finanças (tesoureiro) da AL/MT e nessa
qualidade ele assinava cheques emitidos contra a conta corrente daquele Parlamento
Estadual. Por sua vez, NIVALDO DE ARAÚJO era um dos responsáveis pelos setores
de licitação e patrimônio, portanto incumbido da fiscalização e obediência aos
princípios norteadores da licitação pública, sua legalidade e regularidade, o que em
nenhum momento foi observado.
15 – Desse modo, com o encerramento das
investigações promovidas no âmbito do inquérito civil nº 112/2004 (GEAP nº
000388-002/2004), comprovou-se que R$ 1.899.538,50 provenientes de verbas da
Assembleia Legislativa de Mato Grosso, foram desviados pelos requeridos em proveito
deles, por meio de ardiloso esquema em que utilizaram a empresa LIVRARIA E
PAPELARIA PALÁCIO LTDA. como falsa fornecedora de bens, emitindo trinta e nove
(39) cheques daquela Casa de Leis para ela, no intuito de justificar a saída ilegal de
dinheiro daquele parlamento.
16 – Em face do ocorrido e das provas
anexas a esta inicial, não resta outra alternativa ao Ministério Público Estadual senão
ingressar com a presente ação civil pública para buscar o ressarcimento dos prejuízos
causados ao erário pelos diversos desvios perpetrados.
III - D I R E I T O
17 – A Lei nº 7.347/85 (Ação Civil Pública),
em seu artigo 5º e 21, remetendo também ao Título III da Lei nº 8.078/90 – CDC, prevê
a ação de responsabilidade por danos causados a qualquer interesse difuso ou
coletivo. A natureza difusa dos danos ao erário é inconteste, tendo em vista que a
agressão não fere exclusivamente a pessoa jurídica de direito público interno, mas sim
a toda a coletividade, que mantém o funcionamento da administração pública por meio
do pagamento de tributos. A respeito da natureza do bem jurídico tutelado no caso em
concreto, leciona o professor Paulo de Tarso Brandão1:
... É inegável o caráter preponderantemente difuso do

1 BRANDÃO, Paulo de Tarso. Ação Civil Pública. São Paulo: Obra Jurídica. 1996.
Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 10 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

interesse que envolve a higidez do erário público.


Talvez esse seja o exemplo mais puro de interesse
difuso, na medida em que diz respeito a um número
indeterminado de pessoas, ou seja, a todos aqueles
que habitam o Município, o Estado ou o próprio País,
a cujos governos cabe gerir o patrimônio lesado, e
mais todas as pessoas que venham ou possam vir, ainda
que transitoriamente, a desfrutar do conforto de uma
perfeita aplicação ou a ter os dissabores da má
gestão do dinheiro público.
Lembro que, infelizmente, as sanções pela prática de ato de
improbidade administrativa não poderão ser aplicadas, em virtude da prescrição.
Porém, perfeitamente preservado o direito de buscar o ressarcimento da importância
que deixou os cofres públicos indevidamente e proporcionou enriquecimento ilícito aos
particulares, a teor do artigo 37, § 5º, da Constituição Federal, cabendo ao Ministério
Público a proteção do patrimônio público por expressa determinação contida nos arts.
127 e 129, inciso III, da Constituição Federal, art. 103 da Constituição Estadual, Lei
Complementar Estadual nº 27/93, Lei 8.625/93 – LONMP, Lei Federal nº 7.347/85 –
ACP e Lei Federal nº 8.078/90.
18 – A atitude dos requeridos causou
prejuízo ao erário, saltando aos olhos a necessidade de serem condenados ao
ressarcimento. O fundamento jurídico que determina a indenização do dano é princípio
antigo do direito, segundo o qual todo aquele que causa dano tem o dever de fazer sua
recomposição, pois as normas jurídicas não admitem o enriquecimento sem causa,
sendo certo que o prejuízo sofrido pelo patrimônio público possui uma característica
sui generis, o fato de ser, por mandamento constitucional, imprescritível.
Portanto, do cotejo entre os fatos relatados com o direito posto, a
única conclusão aceitável e admitida é a condenação dos requeridos no dever de
indenizar o patrimônio público pelo imenso prejuízo que lhe causaram, na medida em
que desviaram mais de R$ 1.899.538,50 dos cofres estaduais para proveito próprio,
enriquecendo-se às custas da população matogrossense.

IV – PEDIDOS DE LIMINARES
A) PEDIDO DE INDISPONIBILIDADE DE BENS
19 – Nos termos do art. 12, § 1º da Lei nº
7.347/85, requer-se em sede liminar a indisponibilidade dos bens dos requeridos JOSÉ
GERALDO RIVA, HUMBERTO MELO BOSAIPO, GUILHERME DA COSTA GARCIA

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 11 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

e NIVALDO DE ARAÚJO até a medida necessária para o ressarcimento do dano aqui


fixado.
A documentação que instrui esta ação colaciona provas
manifestas da prática de atos pelos requeridos que prejudicaram os cofres públicos. A
decretação da indisponibilidade de bens do deputado e de seus cúmplices é medida
obrigatória que visa resguardar o ressarcimento integral do dano causado ao
patrimônio público com acessórios e demais penalidades previstas em lei (multa civil,
correção monetária e juros), especialmente pelo montante desfalcado e pelas várias
ações civis públicas já propostas (quase oitenta), representando altos valores em reais,
com enorme possibilidade de serem frustradas futuras execuções.
Nesse sentido, cautelarmente, requer-se a concessão de
liminar de indisponibilidade de bens dos requeridos e, para assegurar seu
cumprimento, requeiro a Vossa Excelência sejam ordenadas as seguintes
providências:
(a) – oficiar aos cartórios de registro de imóveis de Cuiabá, Várzea Grande, Juara,
Juína, Portos dos Gaúchos, Chapada dos Guimarães e Barra do Garças, para que
se averbe em todas as matrículas de imóveis pertencentes aos requeridos a
cláusula de indisponibilidade aqui versada, para ciência de terceiros, remetendo-se
a este Juízo cópias das matriculas encontradas em nome dos requeridos;
(b) – oficiar ao Presidente do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN/MT, para
que insira restrição de indisponibilidade nos registros e se abstenha de efetuar
qualquer transferência de veículos pertencentes aos requeridos desta ação,
encaminhando a este Juízo relação com informações completas de todos os bens
encontrados;
(c) – mandar intimar os requeridos da concessão da liminar de indisponibilidade de
bens, ordenando-lhes expressamente que se abstenham da prática de quaisquer
atos que impliquem alienação parcial ou total dos seus patrimônios, sob as penas
da lei.
B) PEDIDO DE EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS
20 – É fundamental para o deslinde da
presente ação o exame de todos os procedimentos referentes às hipotéticas licitações,
contratos e demais documentos atinentes à despesa pública, tais como empenhos,
comprovação da entrega de bens ou serviços e dos pagamentos efetuados pela

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 12 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

AL/MT em favor da empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA., se é que eles


existem, pois tudo indica o contrário.
Embora estes documentos tenham sido requisitados, não foram
apresentados ao Ministério Público para análise durante o processamento do
procedimento que serve de base à presente ação (fls. 61/62). Quem sabe agora, por
determinação judicial, eles apareçam!
Importante registrar que no curso da Ação Civil Pública nº
146/2008, diante da determinação do juízo para que a Assembleia Legislativa
apresentasse os documentos relativos a processos licitatórios da contratação da
empresa K.A. Sardinha – Publicidade e Eventos, o Parlamento Estadual se esquivou
de tal obrigação argumentando que os documentos já haviam sido descartados,
segundo tabela de temporalidade instituída pelo Ato nº 369/96, pela comissão
constituída pelo Ato nº 370/96 (fls. 407/410).
Essa conduta reforça a reiterada negativa do réu José Geraldo
Riva e da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, em apresentarem tais documentos.
Especialmente, considerando o fato da comissão de descarte de documentos ter sido
composta por Geraldo Lauro, Luiz Eugênio Godoy e Juracy Brito, todos réus não
apenas na presente ação, como também na quase centena de outras que envolvem o
esquema de desvio de dinheiro dos cofres da AL/MT.
21 – Ainda que se considere válida a
autorização para descarte de documentos controversos, como é o caso dos autos, já
que o requerido RIVA e a AL/MT tinham conhecimento de que o MPE buscava essas
provas, o artigo 3º do ato nº 369/96 prevê que os dados essenciais dos documentos
destruídos deveriam ser registrados em livro próprio. Se não bastasse isso, o citado
ato refere-se apenas ao descarte de “contratos e/ou similares” e “licitações/editais”.
Os procedimentos de liquidação da despesa (empenho,
liquidação, notas fiscais, atestados de recebimento e pagamento), previstos no artigo
58 da Lei nº 4.320/64, deveriam estar preservados e arquivados, se existissem. Caso a
empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA. realmente tenha prestado algum
serviço ou fornecido algum produto para a Assembleia Legislativa do Estado de Mato
Grosso, os documentos da liquidação da despesa (empenho, liquidação, notas fiscais,
atestados de recebimento e pagamento) merecem e devem ser exibidos para análise
nestes autos, já que deveriam estar arquivados, pois não estavam abrangidos pelo ato

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 13 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

(369/96) citado.
Do mesmo modo, o processo licitatório e contrato supostamente
existentes, em face de serem controversos, também devem estar devidamente
preservados, levando-se em conta que Ato nº 369/96 cede diante da exigência da lei nº
8.159/02 (art. 1º e seguintes), de âmbito nacional, a qual veda descarte de documentos
que sirvam como elemento de prova, considerando que já havia requisição ministerial
buscando os documentos em foco.
Ora Excelência, se não havia mais interesse da AL/MT em
preservar tais documentos, supostamente existentes e esta já estava devidamente
cientificada do interesse do Ministério Público em comprovar a existência ou
regularidade daqueles documentos, deveria tê-los remetido ao Autor, em obediência à
requisição legalmente fundamentada (Lei nº 7.347/85, Lei nº 8.625/93, e Lei
Complementar Estadual nº 27/93).
22 – Anoto que os artigos 355 a 363 do
Código de Processo Civil trazem como meio de prova lícito o pedido de exibição de
documento ou coisa, concedendo ao magistrado o poder de ordenar que a parte ou um
terceiro apresente, em juízo, documentos que estejam em seu poder e que sejam
importantes para o deslinde da causa.
Assim, diante dessa possibilidade e considerando a
necessidade da medida, pois administrativamente a Assembleia Legislativa se
nega a conceder cópia da documentação, requer-se liminarmente que Vossa
Excelência determine, cumulativa e alternativamente, à Assembleia Legislativa, por
meio de seu representante e com fundamento no art. 360 do CPC, o seguinte:
(a) - EXIBIÇÃO de todos os documentos relativos às possíveis licitações, contratos
ou quaisquer processos de compra que envolva a empresa LIVRARIA E PAPELARIA
PALÁCIO LTDA.;
(b) - EXIBIÇÃO de todos os comprovantes da liquidação de despesa, contendo
empenho, liquidação, notas fiscais, atestados de recebimento e pagamento
envolvendo a empresa LIVRARIA E PAPELARIA PALÁCIO LTDA.;
(c) - EXIBIÇÃO do livro que registrou a suposta destruição de documentos, onde
deveriam estar relacionados e individualizados todos os documentos descartados.
O autor requer desde já e expressamente, em caso de não
exibição e apresentação de tais documentos ou livro, seja aplicado o art. 359 do CPC,

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 14 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

admitindo-se como verdadeiros todos os fatos que por meio dos documentos
que pleiteia a exibição, se pretende provar, quais sejam, que os pagamentos feitos
pelos cheques indicados na tabela constante do item 5, emitidos em favor da empresa
Livraria e Papelaria Palácio, foram ilícitos e fraudulentos, conforme já explanado no
item II desta inicial.
V – PREQUESTIONAMENTO
23 – Expressamente e desde já o Ministério
Público prequestiona a matéria legal e constitucional envolvida na presente causa,
para efeitos de eventual recurso especial e extraordinário, devendo sobre ela esse
Juízo posicionar-se de forma clara e precisa.
Na verdade, trata-se de simples cautela processual para, na
eventualidade de serem potencialmente utilizados os recursos especial e
extraordinário, não se faça Juízo de Admissibilidade Negativo, com fundamento na
ausência de prequestionamento, em todas as instâncias.
Assim, o não acolhimento da pretensão formulada pelo Ministério
Público nesta causa, contraria e nega vigência a lei federal, consubstanciada no artigo
5º e 21 da Lei Federal nº 7.347/85, art. 81, inciso I da Lei nº 8.078/90 e também
contraria dispositivo da Constituição da República, consubstanciado no artigo 37 caput
e 5º.
VI – PEDIDOS DE MÉRITO
24 – Pelo acima exposto o Ministério Público
de Mato Grosso requer a Vossa Excelência:
(a) – a distribuição, registro e autuação desta petição juntamente com o Inquérito Civil
112/2004 (GEAP nº 000388-002/2004), com dois volumes, contendo os anexos I, II
e III que integram as investigações, justificam a propositura da presente demanda e
contém provas dos atos lesivos ao erário;
(b) – seja determinada a distribuição, registro e autuação com o recebimento da inicial,
procedendo-se à intimação pessoal do ESTADO DE MATO GROSSO, na pessoa
do Excelentíssimo Procurador-Geral do Estado, o qual pode ser encontrado na rua
06, s/nº, Centro Político Administrativo, nesta Capital, a fim de que, dentro do prazo
de 15 (quinze) dias, manifeste-se sobre a ação, observando-se a que esta intimação
deverá anteceder a citação dos requeridos, eis que poderá integrar a lide na
qualidade de litisconsorte ativo;
Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 15 de 16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
12ª Promotoria de Justiça do Núcleo de Defesa do Pat. Público e da Probidade Administrativa
MISSÃO: Defender o regime democrático, a ordem jurídica e os interesses sociais e individuais indisponíveis, buscando a justiça social e pleno
exercício da cidadania.

(c) – seja adotado rito ordinário e observada a Lei nº 7.347/85-LACP, já que


pretende-se apenas o ressarcimento dos danos causados ao erário, determinando-
se a citação dos réus para apresentarem contestação, no prazo e forma legal, com
as advertências dos arts. 285 e 319 do CPC, sob as pena da lei;
(d) – seja permitido provar-se o alegado por todos os meio em direito admitidos, tais
como perícias, a serem especificadas oportunamente, depoimentos de
testemunhas, a serem arroladas tempestivamente, juntada oportuna de novos
documentos e especialmente a colheita de depoimento pessoal dos requeridos, sob
pena de confissão;
(e) – ao final, seja julgada procedente em todos os seus termos a presente ação para
condenar solidariamente os réus ao ressarcimento integral do dano causado ao
erário, no valor de R$ 1.899.538,50 (um milhão, oitocentos e noventa e nove mil,
quinhentos e trinta e oito reais e cinquenta centavos), valor não atualizado, sobre o
qual deverá incidir correção monetária e juros de mora, até o efetivo ressarcimento
aos cofres do Estado, a serem apurados em futura liquidação;
(f) – sejam os requeridos ainda condenados ao ônus da sucumbência, uma vez que a
lei da ação civil pública não os isentou desse encargo, quando vencidos;
(g) – que determine a intimação pessoal do autor (MPE) nesta ação, conforme
determinação do art. 236 § 2º, do CPC, no endereço constante do rodapé,
observando-se ainda o disposto no art. 18 da Lei nº 7.347/85 (sem adiantamento de
custas, emolumentos, honorários periciais ou outras despesas).
25 – Dá-se à presente causa para efeitos
legais o valor de R$ 1.899.538,50.
Nestes termos, pede deferimento.
Cuiabá, 18 de junho de 2009.

CÉLIO JOUBERT FÚRIO


Promotor de Justiça

Edifício Sede das Promotorias de Justiça Reunidas, setor do Ministério Público, rua 04, s/nº., Centro Político Administrativo - CPA.
CEP 78.049-921 – Cuiabá-MT – fones (65) 3613-1647 – E-mail:probidade.administrativa@mp.mt.gov.br – SRS - Pags. 16 de 16