1

A corporeidade na Adolescência (em Tribos Clubbers)
Tiago A. M. Malta*

Resumo: O presente estudo tem por objetivo enfocar  a visão do corpo na adolescência e a  cultura clubber, analisando  seus  movimentos  e  a  partir daí problematizar o conceito  de corporeidade.  Corporeidade  se  expressa  na  totalidade  do  seu  corpo:  expressão  de valores,  não apenas  estéticos, mas  também sociais,  éticos, religiosos, cultural, relacional e emocional. “A adolescência é o período que o adolescente busca a sua identidade, através de um processo que lhe vem acontecendo desde as fases mais primitivas do desenvolvimento humano”. Introdução   A  visão  do  corpo  humano  tem  sido  sempre  motivo  de  curiosidade  e  causa  de prazer  no  oriente  e  no  ocidente,  em  todos  os  tempos  e  em  todas  as  culturas.  A representação  do  corpo  é  extremamente  significativa,  seja essa representação do corpo nu ou vestido, registrados ao longo da história. Buscamos  o  corpo  adolescente nas suas percepções,  sensações  e  a  maneira  singular  que  apresentam  para   encarar  tantas transformações.  Estas  transformações  são  inerentes  à   multiplicidade  de  relações  que eles  experimentam  na  sociedade  pós­moderna.  Essas  relações  podem  também,  nos remeter  a  um  caminho  que  seja  alternativo,  onde  enfatizamos  uma  conscientização  do corpo,  não  no  sentido  de  uma  simples análise  corporal, mas sim a partir  dos elementos vividos  e  experimentados  na  relação  com  o  mundo,  acreditando  assim,  que  poderemos quebrar concepções e hegemonias estabelecidas. Breve resumo da historia da musica eletrônica: A  Cultura  da  Música  Eletrônica  fundamenta  a  formação  de  grupos  como  os clubbers  ou  ravers,  que significa literalmente "aquele quem freqüenta casas noturnas", ela também  fundamenta  a  produção  musical  computadorizada,  festas  raves,  vestimentas, cultura  DJ,  clubbing, ideologias (PLUR­ Peace, Love, Unity and Respect), dentre outros. O

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

2

movimento  clubber  tem  seu  inicio no  final dos anos  setenta em  nova York,  antes  mesmo da chegada  da  musica eletrônica  nos Estados Unidos, marcada  por  festas  underground; mas  as  primeiras  raves  se  iniciaram  no  final  da  década  de  oitenta  em  Manchester  na Inglaterra e em seguida em Ibiza na Espanha. Os  anos  oitenta  é  um  período  intitulado  de  pós­  modernidade,  características desse período  histórico pós­ industrial,  a  saturação  da  forma  política e do individualismo, a  deterioração,  a  massificação  das  sociedades  e  o  consumismo,  entre  outros,  são criticados por essas tribos. O que é ser clubber? Define­se  como clubber  (num sem tido mais  completo  do  termo)  aquele  que  ouve musica  eletrônica  em  seu  cotidiano, não  só  se  restringindo a casa  noturna,  mas  sim  em casa também;  neste  sentido está  inserido  o  individuo  que conhece  de musica eletrônica, sabendo  definir  diferentes  estilos (House, Techno, Acid, dentre outros); outro aspecto que o  define  é  por   conhecer  de  DJs  e  boates  especializadas  em  musica  eletrônica;  e  por ultimo,  mas  o  que  mais  marca  é  pelo  vestir­se de um modo um  tanto extravagante, mas sempre diferente de outros clubbers buscando sempre uma identidade única. Engloba­se  em  vestirem­se  também  outros  tipos  de  adornos,  como  acessórios (bolsas, e mochilas), maquiagens e etc. Este será o ponto central deste trabalho que traça uma paralela entre o que este imerso para o jovem vestir­se e o significado para ele. "Para  se  reconhecer  como  clubber  é  preciso   desvincular  o  vestir­se  como  tal privilegiando  a  ligação  com  a musica. se for  assim,  destacando  a  característica do  nível  de  conhecimento  dos  ritmos  eletrônicos  e  a  preferência  pelo  que  é vanguarda é  provável  que esta  pessoa acabe  aceitando,  admitindo­se clubber... Mesmo  deixando  este quesito, do  vestir­se  como  clubber,  em  segundo plano,  o visual,  talvez  não  tão  matizado,  também  é  uma  preocupação,  uma  forma  de valorizar­se  estrategicamente  com  um  tipo  criativo,  até  mesmo  excêntrico." (Carolina Rodrigues Paz) Atitudes Durante o processo de desenvolvimento biopsicossocial o adolescente é moldado pela  cultura,  permitindo  durante  sua  socialização  a  aquisição  de  comportamentos, atitudes,  valores  e  representações  adequadas  à  cultura  em  que  vive.  Sendo  a  cultura apreendida  através  da  educação  do indivíduo e  de  suas  reações  com  a  sociedade.   As diferenças de padrões  e  regras,  fatores  climáticos, religiosos irão influenciar cada cultura de  cada  povo. Assim, o jovem  vai desencadear  diferentes  comportamentos congruentes à cultura em  torno da  sociedade, família  e tradições que  o  influenciam. Esta modificação

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

3

que  acompanha  as  variações  da  idade  dos  jovens  transforma­os,  molda­os  para  o cumprimento de papéis sociais e em alguns casos em ritos a serem cumpridos. A  formação  da  atitude  surge  no  processo  de  socialização  no  decorrer  dum processo  de  reforço   e  modelagem  (aprendizagem)  sendo  conseqüências  de  um determinismo  social  de  viverem  em  centros  urbanos.  Neste   contexto  das  novas tecnologias  que  nascem  entre  estes  jovens,  imersos  nas  culturas  digitais  inspirados  de filmes  clássicos  dos  anos  80  como  "Blade  Runner"  e "Trom"  aos  mais  modernos  como "Matrix"  e  "Hackers".  Mesclado  as  novas  formas  de  musicas  sintéticas  e  a  busca  pela individualidade  inalcançável.  A  atitude  tem  a  função  de  ajudar­nos  a  lidar  como  o ambiente  social nos incluindo num determinado grupo que  apresentam uma  atitude  igual ou no mínimo semelhante. O  sociólogo  Tim  Weber  em  uma  pesquisa  sobre  a  cultura  Rave,  conclui  que  os jovens  buscam  em   festas  raves,  uma  experiência  libertadora,  como  remédio  ao  clima estressante em  que vivem. “Os jovens vêem as raves como micro­férias, pois  têm poucas alternativas para diversão”,  afirma Weber.  Isso  é  visto, também,  no discurso  do jornalista Mattew Collen,  quando ele  explica essa sua  definição de  e­music: “é o uso da tecnologia para  acelerar a percepção do prazer. É uma forma de se libertar da experiência mundana do dia­a­dia e viver várias visões de drama, vitalidade e alegria.” "As  atitudes  sociais  criam  um  estado  de  predisposição  à  ação,  que  quando combinado  com   uma  situação  especifica  desencadeante  resulta  em comportamento" (A. Rodrigues) Identidade   A  identidade   é  gerada  pela  socialização  e  garantida  pela   individualização  numa perspectiva  Ericksoniana,  ou  seja,  o  jovem  clubber   busca  esta  continuidade  de semelhança  com   seus  companheiros,  mas  também  procura  se  destacar sempre  destes mesmos  como  ser  único  e  individual,  talvez  isso  aconteça  com  qualquer  adolescente  e até  mesmo  com  qualquer  pessoa,  mas  na  cultura  Clubber  este traço  fica  mais evidente pelo  fato  de não  poder  haver  “imitação  de  estilo” apenas "inspiração", como se fosse um mediador, mas nunca um padronizador. "Nossa  identidade  se mostra como a descrição  de  uma  personagem  (como  em uma  novela  de  TV),  cuja  vida,  cuja  biografia  aparece  numa  narrativa  (uma historia  com  enredo,  personagens,  cenários,  etc.),   ou  seja,  como  personagens que surge num discurso (nossa resposta, nossa história). Ora, qualquer discurso, qualquer  historia  costuma  ter  um  autor,  que constrói a personagem..." (Antonio da costa Ciampa)

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

4

Vestimentas (montando o visual) Os clubbers e ravers distinguem­se dos demais pelas roupas coloridas e irreverentes, pelos acessórios ousados e pelos penteados e cortes de cabelo excêntricos. Essas vestes podem servir de código para expressar uma identidade tribal. Na gíria clubber o termo utilizado para esta atitude é “montar o visual”, que significa a partir de um dado instante ele vai decidir se vestir de um modo peculiar, e como o visual é "montado", para cada ocasião ele pode estar representando um personagem diferente, que se distingue pelos acessórios que estão usando e como estão portando. Na cultura clubbers os adereços e componentes apresentam uma simbologia. Segue alguns exemplos: 1      Roupas coloridas: é uma maneira agradável de ver a vida; 2      Roupas de Nylon, borracha, lycra: Modismo a favor da Utopia futurista 3      Tecidos Camuflados: Protesto Antimilitar 4      Coturno: movimento contra o serviço militar, “antipatriotismo”; 5      All Star: Humildade 6      Chuquinha: representam o espírito infantil; 7      Cabelos arrepiados: protesto contra as guerras e armamentos nucleares; 8      Moicano: Protesto contra o conformismo (resistência) 9      Moicano em Pé (levantar moicano): contra o armamento nuclear 10 Óculos de acrílico: Irreverência 11 Objetos fluorescentes: cada ser é capaz de emitir bons fluidos, uma luz própria a favor da paz; 12 Bodyart: Apesar do nome em inglês ela define uma das primeiras formas de arte da humanidade que é o de adornar o próprio corpo muito utilizado em culturas tribais em todo mundo, pintando o corpo (maquiando­o), tatuando e até perfurando a própria carne para enfeitá­la (piercings). Remetendo a estes grupos traços tribais e os aproximado pela significância coletiva que para eles se apresenta cada adorno corporal. E este é um ponto muito importante de nosso estudo, pois para cada local que é posto há uma simbologia totalmente diferente. 13     Maquiagens fortes: um protesto quanto à falsidade das pessoas, simboliza as máscaras; 14 Piercings: é um protesto contra o aborto, apologia a homossexualidade, desrespeito, melhorar o dom da oratória e etc. Estes significados se apresentam dependendo do local onde ele for feito e ainda pelo material que for utilizado (metal cirúrgico, plástico fosforescente, dentre outros) 15 Tatuagens: é o conhecimento do próprio corpo e a liberdade de usá­lo como vitrine

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

5

para um novo mundo; 16 Tatuagens de E.T.s e discos­voadores: representa que é uma sociedade pronta para viver em paz com qualquer outra; 17 Tatuagens Tribais: Representa a redescoberta da sua identidade primitiva 18 Tatuagens de personagens de quadrinhos: Retomada da infância, e dependendo do personagem pode estar representando com um signo que a pessoa se identifica. Exemplo: Magali (comilona), Pateta (desajeitado) e etc. Assim como os punks se vestem de preto para dizer que ninguém tem que seguir uma moda, o colorido dos clubbers é uma mistura de todas as modas, e é como se falassem que qualquer moda pode ser aceita sem preconceito algum, que qualquer um se veste do que quiser. A questão da corporeidade mais extravagante num clubber geralmente é mais representada nos adolescente, talvez por uma maior necessidade impositiva como indivíduo único dentro da "cena eletrônica", já que o falta conhecimento sobre outras questões como a historia do clubber como um movimento cultural e identificar diferentes estilos de música, por isso uma compensação pelo visual mais agressivo. Tribos e Comportamento Grupal Comportamentos  grupais,  que  tem  seus  primeiros  estudos  nos  espaços topológicos  e os sistemas de forças  de  K.  Lewin,  é  definido  como  um grupo de pessoas que  se  conhecem,  procuram  objetivos  comuns,  possuem  ideologias  semelhantes  e interagem  com  certa  freqüência,  assim  criando  certa  interdependência.  E  como  não poderia  ser diferente um  clubber também  este imerso num comportamento grupal, que o limita  e  o  restringe  aquela  determinada  cultura.  Mas  para  o  estudo  destes  é  costumeiro utilizar pelos antropólogos e psicólogos sociais o termo "Tribos Urbanas" Ao utilizar o termo “tribos  urbanas”, antes de tudo,  deve­se  ter presente  o  sistema de significações  de  onde foi retirado  esse termo. O termo “tribo” tem seu domínio original da etnologia e nela, uma forma de organização da sociedade. “Para  avaliar  até   que  ponto  esse  termo  ajuda  a  entender  os  fenômenos  que ocorrem  nas  sociedades  contemporâneas  é   importante  definir  os  significados que ele  tem no  campo em que é manejado como termo técnico, nas sociedades indígenas.  Tribo  constitui  mais  que  uma  divisão  em  clã,   linhagem,  aldeia. Trata­se  de  um  pacto  que  aciona  lealdades  para  além  dos  particularismos  de grupos domésticos e locais.” (Magnani, 2002) É  paradoxal  o  uso  do  termo  “tribo”  para  denominar  tipos  de  agrupamentos  nas sociedades  urbano­industriais  já que  esses grupos evocam particularismos, simbologias, regras,  costumes,  marcas  de  uso e significados  restritos. E  no  contexto das  sociedades

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

6

indígenas “tribo” aponta para alianças amplas. “Quando  “tribo”  é  empregada  como  uma  metáfora  pode­se  dizer  que  evoca, primitivo,  selvagem,  natural,  comunitário,  características  que  se  supõe  estarem associadas,  acertadamente  ou  não,  ao  modo  de vida de povos que apresentam, num certo nível, a organização tribal.” (Magnani, 2002) Em  um  primeiro  significado,  mais  geral,  tribo  urbana  tem  como  referente determinada  escala  que  serve  para  designar  uma  tendência  oposta  ao  gigantismo  das instituições  e  do  Estado  nas  sociedades  modernas:  diante  da  impessoalidade  e anonimato  destas  últimas,  tribo  permitiria agrupar  os  iguais,  possibilitando­lhes intensas vivências comuns,  o  estabelecimento de laços pessoais e lealdade, a criação de códigos de comunicação  e  comportamento  particulares.  Em  outro contexto, quando  tribo  evoca o “primitivo”,  designa  pequenos  grupos  concretos  com   ênfase  nos  elementos  que  seus integrantes  usam  para  estabelecer  diferenças,  por  exemplo,  vestimentas,  cortes  de cabelo  e  tatuagens,  piercings,  a  cor  da  roupa.  Quando  evoca  o  “selvagem”,  o  termo designa  principalmente  o  comportamento  agressivo,  “anti­social”  e  contestatório. Ainda, quando  são  referidas  grandes  concentrações  –  festas  raves,  shows (envolvendo  ou não consumo  de  drogas  ou  comportamentos  coletivos  tidos  como  irracionais),  evocam­se algo confusamente imaginado como “cerimônias primitivas totêmicas”. Nas  tribos  urbanas,  o  que  não  se  aplica  às  indígenas,  vê­se  grupos  cujos integrantes  vivem  simultânea  ou  alternadamente  muitas  realidades  e  papéis, assumindo sua tribo apenas em determinados períodos ou lugares, por exemplo, o bancário  que  só depois  do expediente  é  clubber, o universitário que só à noite é dark, rapper que oito horas por dia é office­boy e etc. (Magnani, 2002) Primitivos Modernos Podem­se definir  Pós­Modernidade como sendo  a combinação de modernidade e pré­modernidade.  Em  um  mundo  onde  o  “velho” (tradições  e  crenças  populares) é  cada vez  mais  abandonado,  nada  pode  ser  tão  “moderno”  do  que  reintroduzi­lo.  É  nesse contexto  que  o  movimento  dos  “primitivos  modernos” se constitui, determinados a “seguir simultaneamente  as  trilhas  do  passado  e  do  futuro  rumo  a  sua  inevitável  colisão” (Mizarch,  2002). Maffesoli (1987),  questiona­se  se  “o  ato  de  recorrer  à  história passada (folclore,  recuperação  das  festas  populares,   recredenciamento  da  sociabilidade, fascinação  pelas histórias  locais),  não é uma maneira de escapar à ditadura da” “história acabada”, progressiva, e dessa maneira de viver no presente”. O  que  torna  o   movimento,  dos  Primitivos  Modernos  incomum  é  a  busca  pela sensação.  Essa  característica pode  ser  explicada  como  resposta à  industrialização e da modernização,  que  produziram  um  “entorpecimento   psíquico”.  Os  ModPrims  (Primitivos

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

7

Modernos)  utilizam­se  da  dor,  perfurando­se (piercing) para atingir  um  estado  de  transe, como  se  através  da  negação da  dor demonstrassem  a  “possessão”  pelo divino. Retorna a idéia do conhecimento através da dor que a modernidade esqueceu. As  experiências   multisensoriais  são  vividas  nas  festas   raves,  como  um  sinal  de unidade  entre  o  passado  e  o  futuro.  A  “rave”  é  ao  mesmo  tempo  “primitiva”,  com  sua reunião  de  “tribos”  de gente jovem  para  experimentar a “participação  mística”  através de cinéticos  e  MDMA  (Ecstasy),  da  dança e  música  tribais,  e  “futurística”  (ou  moderna) com seu  uso  de  música  sampleada  e  remixada  digitalmente,  efeitos  de  luz  e  laser  e exposições  de  multimídia.  Os  “ravers”  vestem­se  ao  mesmo  tempo  de  modo  que signifique passado  e  futuro:  perfurando suas peles e narinas, usando calças dos anos 70 com bijuterias e hologramas futurísticos, combinando as modas do folk e do punk. Os  ModPrims  clamam  que  suas  performances são uma busca de transcendência, provando a capacidade  da  mente de ir  além  do estabelecido e das  limitações do corpo. Nas  batidas  repetitivas  da  música  eletrônica,  muitas  vezes  lembrando  mantras,  os clubbers  e  ravers  buscam  um  estado  alterado  da  consciência,  estado  de  transe,  de transcendência. Muitos  ModPrims  pensam  que saímos  da  linha passado­futuro,  tempo histórico, e entramos  em  algum   outro  tipo  de  tempo  cíclico,  ou  talvez  mesmo  o  “fim  da  história”. Estudos  indagam  se  este  florescimento  do  primitivismo  moderno,  com  sua  explícita rejeição  de antigas noções de progresso linear e evolução têm algo a ver com a mudança da base  material  da  cultura. Existe  o  fato de que entramos numa economia pós­industrial de  informação  e  serviço  “desconectada”  da  produção  material.  Quebra­se  com  o  ponto de  vista  “industrial”,  onde  o  tempo  é  a  fonte  da  progressiva  criação  de  riqueza,  e  se reconhece o ponto de  vista  “pós­industrial”, onde  o  tempo pode ser fonte da vida humana e  experiência.  Portanto,  passa­se  do  tempo  linear  para  o  circular  que  passado  e  futuro estão conectados (Mizarch, 2002). Ideologia e Vida Urbana Apesar  de  não  ser  muito  explicito,  existe  uma  ideologia  além  da  questão  visual, algumas  mais  estruturadas,  outras  num  campo  mais  moral,  mas  o  importante  que  se tenha  em  mente  e  se  desmistifique  o  estereótipo  de que  um clubber  é  qualquer  pessoa que  se  veste  colorido  e  usa  drogas  em  festas  noturnas.  Aqui  segue  uma  lista  destas ideologias: Orientalismo:este  conceito  é  dividido  em  dois  pontos.  O primeiro refere­se a  influencia no  budismo  tibetano  e  a  elevação  do  espírito  através  de  uma  busca  pessoal.  O desenvolvimento  do  self  do  jovem  não  acontece  através  do  processo  de  separação  e nem  de  uma  evolução  rápida.  O  jovem  oriental  não  passa  por  um  processo  grupal  de
tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

8

separação  e  de  individualização.  O  adolescente  é  considerado  um  pequeno  eu  que mantém  a  sua  independência  no  contexto  familiar  que  é  considerado  o  grande  eu,  ou seja,  o  centro  regulador  e  mantenedor  dos  padrões  culturais  da  sociedade  primitiva. Estudos  antropológicos  indicam  que  nas   sociedades  primitivas,  a  adolescência  é marcada  apenas pelo  desenvolvimento  físico. Com freqüência uma simples cerimônia de iniciação  integra  o  indivíduo  na vida adulta. Esse conceito pode ser evidenciado na forma de  como  eles  dançam,  de  uma  forma  bem introspectiva, mas  nunca solitária onde  cada um  busca seu modelo  de  encontrar a  forma  de  ser  na  pista.  A  segunda  tem  haver com a grande  Tóquio  e  sua  cultura  de  tecnologia  de  ponta  sempre  avançando  cada  vez  mais rápido,  e  isso  influencia  no  modo  da  musica  sempre  estar  se  renovando  e  os  jogos de luzes  hipnotizantes.  O jovem  que nasce imerso nesta cultura,  de  TVs, Vídeo Games, terá uma  nova leitura  de  tudo  que  esta  em  sua  volta, expandido  seus limites  e assim puxando um gancho para o próximo conceito. Ciborguização: termo criado  por  Isaac Asimov,  onde o homem torna sua continuidade a partir  da  maquina  e  a  maquina  se  torna  capaz  de  interagir  com  o  homem.  Celulares, laptops,  palmtops,  tudo se  torna parte  do  corpo  deste  jovem  urbano e sub­urbano, já que é  preciso  isso,  de  um  modo  a  facilitar  a  sua  vida.  A  partir deste conceito  nos  tornamos além de carne também maquinas (um Ciborgue). "Computadores avançam, artistas pegam carona/ Cientistas criam o novo, artista levam a fama" (Fred 04 ­ Computadores Fazem Arte) Paz  e  Amor:  O  movimento  Clubber  é  pacifista  e buscam  minimizar  seu  preconceitos.  O “amor à vida” está refletido no modo de se vestirem, sempre com um colorido "vivo". Unidade  e  continuidade:  A  união  é  uma  qualidade  muito  ressaltada  de  um  clubber. Mesmo  que  não se conheçam,  numa  casa noturna  ao se reconhecerem  como tal dois ou mais clubbers podem dançar juntos. Apenas  para afirmarem a união do movimento e auto afirma sua imagem continuando ramificado em outro semelhante. Musica  eletrônica  e  Curtição:  Os   termos  mais  fortes  e  mais  explícitos,  o  primeiro  se refere  ao  tipo  de  som  que  ouvem,  que  se  explica  por  si  só.  Já  o  segundo  refere­se  da necessidade  do  clubber  sempre  sair  pra  se  divertir, de preferência em Boates e  Festas Raves.   “Uma  vez  que a cidade só existe enquanto relação entre os diferentes grupos que interagem  em  um  dado  sistema  produtivo,  construindo  sistemas  simbólicos.  A noção  de  grupos  é  essencial  ao  entendimento  da  dinâmica   cultural  urbana“. (Amaral, 1992, 2002)
tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

9

Tribos Urbanas e Ciências Sociais Agora,  com  um melhor  entendimento da composição grupal, do período histórico e do  local  onde  os  clubbers  vivem,  aprofundaremos  como  essas  e  outras  tribos  urbanas estão se subjetivando através do campo da ciências sociais e da psicologia social. No  campo  das  ciências  sociais,  o  fenômeno  das  tribos  tem  sido  mencionado por vários  autores  como  Caiafa/1985;  Calligaris/1996;  Canclini/1997;  Castro/1998; Featherstone/1997; Maffesoli/1987 e Sarlo/1997. Maffesoli  é  quem  mais  se destaca pela importância dada  em  sua  análise  da sociedade contemporânea  ao  estudo  das  tribos  urbanas.  Propõe  que   o  "tribalismo"  ou  o "neotribalismo"   seja  tomado  como  um  novo  paradigma,  que  vem  substituir  o  paradigma do individualismo na compreensão da sociedade contemporânea. Maffesoli  afirma  que  a  humanidade  vive  um  "período  empático",  em  que predomina a  indiferenciação  e  o perder­se  em um "sujeito coletivo",  chamado  por ele de "neotribalismo".  O  neotribalismo é  presidido pelas noções de “comunidade emociona” ou "nebulosa  afetiva"  em  oposição ao  modelo  de organização  racional  típico  da  sociedade moderna.  É  seguida  pelas  noções  de  policulturismo  e  proxemia  que  são  suas conseqüências.  Nas tribos,  o ethos comunitário é designado pelo conjunto de expressões que  remete  a  uma   subjetividade  comum,  a  uma  paixão  partilhada.  A  adesão  a  esses grupamentos  é  sempre  fugaz,  não  há  um  objetivo  concreto  para  estes  encontros  que possa assegurar a sua continuidade. Trata­se apenas de redes de amizade pontuais, que se  reúnem  ritualisticamente  com  a  função  exclusiva  de   reafirmar  o  sentimento  que  um dado grupo tem de si mesmo. Já  para  Canclini,  as  tribos  compensam  a  atomização  e  a  desagregação  das grandes  cidades,  negligenciadas  pelas  macropolíticas,  oferecendo  a  participação  em grupos.  Ainda  em   sua  perspectiva,  as  tribos  funcionam  como  referências  simbólicas, suplências aos  aparatos políticos  e  culturais que se tornaram obsoletos. Já Sarlo enfatiza que  nas  tribos  busca­se  uma  certa  estabilidade  em  um  universo  simbólico,  que anteriormente era garantida pela vigência de uma moral que entrou em crise. A transitoriedade  e  o imediatismo se congregam numa certa apologia do  presente vivida  na  tribo,  não  há  projetos  futuros  ou  preocupações  com  o  destino  da  tribo.  É  o próprio movimento  do consumo que  determina o  futuro das tribos. Assim, a segmentação de grupos de  consumidores  de diferentes  gêneros musicais é um dos fatores que tomam parte  na  formação  e  difusão  de  diversas  tribos,  como  ocorreu  com  os  clubbers.  Ao

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

10

mesmo  tempo,  diferentes  adereços  e  vestimentas  são   associados  a  diferentes  estilos musicais,  tendo  função  de  distintivos  do  bando  em  relação  ao  todo  da  massa  e  em relação a outros bandos.

Conclusão A  pós­modernidade  remete­nos  a  deterioração,  onde  a  nacionalidade,  como  a individualidade,  não  diferencia  mais  os  grupos.  Nesse  contexto,  as tribos surgem  como resposta contrária ao fenômeno da globalização, ao caráter homogêneo que essa produz, pois  elas  particularizam  grupos  socioculturais  produzindo  diferenças.  Mas  a heterogeneidade  criada pelas  tribos  urbanas acaba  por contribuir  para a globalização, já que essas  tribos não  são  características de determinados países ou culturas, mas sim  da sociedade  global.  A  partir,  dessa  lógica  pode­se  entender  o  porquê  da  denominação clubber  e  raves  derivarem de espaços. Como as sociedades não mais se identificam por sua  nacionalidade,  cultura  local,  criam­se  grupos  que  tenham  na  sua  fundamentação  o lugar  que  freqüentam.  É  como  se  os  clubbers  e  ravers  dissessem  “eu  pertenço  ao club/rave, portanto minha nacionalidade é clube”. Com a diversidade  de  culturas  em um mesmo  local, os  “iguais” se agrupam formando as tribos. No  caso  dos  clubbers  e  ravers,  o  ponto  de  conexão  entre  os  integrantes  é  a música  eletrônica.   A  partir dela,  busca­se  uma  experiência  compartilhada de  sensações em  comum,  o  que é definido por Maffesoli como “paradigma estético”. Aliás, a busca  por sensações,  pelo  prazer  é  muito  presente na Cultura  da  Música Eletrônica,.caracterizada pelo  hedonismo da  busca  pelo  prazer através  da diversão, da dança, das  festas, do  uso de drogas como ácidos e ecstasy. Pode­se  pensar   que  as  festas  que  envolvem  a  música  eletrônica,  principalmente as raves,  não  são  simples eventos, ou um mero encontro entre as pessoas. Elas são uma verdadeira  viagem  subjetiva.  Elas  visam  congregar,  fazer  com  que as pessoas  possam viver uma experiência boa  de  interação  dos participantes. O próprio “U” (Unity – unidade) do dogma PLUR nos remete essa característica. Deve­se  comentar  ainda  sobre  o  consumismo  tão  presente em nossa sociedade. Os  clubbers  e  ravers  através  do  objeto  de  consumo  se  diferenciam  de  outros  grupos. Esses  objetos  acabam  por  possuir  um  valor  simbólico  de  pertencimento a  determinada tribo,  ou  seja,  o  subjetivo  está  subordinado ao  objetivo. Portanto, as “identidades”  estão submetidas  aos  objetos  de  consumo,  e  é  a  partir  desse  fato  que  podemos  entender  a lógica da troca  de  papeis  no mundo pós­moderno. Exemplificando,  como se em um local pessoa  ao  trocar  de  roupas  pudesse   também  mudar  de  personalidade.  Aqui  estão algumas  das  questões  que se construíram  ao  longo  do  trabalho.  Penso que  a Psicologia
tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

11

Social tem  muito  a  explorar  sobre  essa cultura que tem tanto a nos dizer sobre as formas de ser e de habitar na pós­modernidade.

Bibliografia RODRIGUES, A.; Psicologia Social, Editora vozes, 2002, Petrópolis. LANE,  S.T.M.;  Psicologia  social  (O  homem  em  Movimento),  Editora  Brasiliense,  1994, São Paulo. GALLATIN,  J.;  Adolescência  e  individualidade,  Tradução  Antonio  Carlos  Pereira,  1978, São Paulo. BOTTOMORE, T.B.; Introdução a Sociologia, Editora Harbra, 1987, Rio de Janeiro. GUARESCHI, P.A.; Psicologia Social Contemporânea, Editora Vozes, 2003, Petrópolis. Grupo Critical Art Esemble, Distúrbio Eletrônico, Editora Corad, São Paulo. Manual Pra Elaboração de Trabalhos Acadêmicos, dissertações e teses da Unesa WebGrafia REVISTA DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806­0528 http://www.aguaforte.com/antropologia/osurbanitas/revista/Clubbers4.html

Tiago A. M. Malta (Rio de Janeiro 18 de Setembro de2013) Endereço Eletrônico: tiagomaltapsi@gmail.com BLOG: http://tiago­malta.blogspot.com.br

tiagomaltapsi@gmail.com http://tiago-malta.blogspot.com.br

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful