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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


HISTÓRIA DO DIREITO

Resenha não-crítica do livro “Síntese de uma História das Idéias


Jurídicas”: da Antigüidade Clássica à Modernidade

Victor Cavallini

Florianópolis
2009
RESENHA DO LIVRO “SÍNTESE DE UMA HISTÓRIA DAS IDÉIAS
JURÍDICAS”: DA ANTIGÜIDADE CLÁSSICA À MODERNIDADE, DE
ANTONIO CARLOS WOLKMER
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- Informações técnicas:
WOLKMER, Antonio Carlos. “Síntese de uma História das Idéias
Jurídicas”: da Antigüidade Clássica à Modernidade. Florianópolis: Fundação Boiteux,
2006. 232p.

CAPÍTULO I: AS ORIGENS DO PENSAMENTO JURÍDICO NA


ANTIGUIDADE CLÁSSICA

Introdução:
Não se pode definir a existência do pensamento jurídico ático nos tempos
homéricos (antes do século VII a.C), observando-se o surgimento de uma cultura
grega de viés racional com a formação das cidades-estado. O mundo simbólico
passou a ser sucedido por uma consciência humana que busca explicar as coisas
por processos de racionalização, com um traço forte pela especulação e pela
metafísica, o que diferenciou bastante os gregos dos romanos, que se preocupavam
com coisas mais práticas, objetivas e instrumentais.
Aí se vê que o mundo helênico não se inclinava à especificidade do
mundo jurídico, apesar de se haver uma forte discussão sobre os princípios e os
fundamentos de justiça, que tinha uma origem divina. Entre os séculos V e IV, no
período clássico, que se começou a conceber um conceito desmistificado, ideal e
moral de justiça.

1.1 Concepção de lei justa na dramaturgia ática:


A primeira conscientização feita no tocante à resistência humana às leis
injustas dentro da cultura helênica evidenciou-se com os pensadores sofistas, que
afirmavam que as leis são resultantes da força arbitraria dos que exercem e
controlam o poder, que as elaboram segundo seus interesses privados, onde a
justiça existe para camuflar o domínio dos detentores do poder. Evidente fica o
choque entre justiça por natureza (lei superior dos deuses) e justiça por convenção
(lei dos “mais fortes”), onde a primeira seria mais justa, tendo em vista que a
segunda geralmente tende a desrespeitar a dignidade humana para garantir
privilégios – embate bem ilustrado pela tragédia de Sófocles: Antígona.
1.2 Filosofia jurídica como expressão da natureza cósmica:
Além da Antígona, também contribuíram para o processo de
transformação do pensamento grego com a inserção dos problemas sociais,
políticos e morais relacionados à condição humana, substituindo o naturalismo
cósmico, inserção inicialmente feita pelos sofistas, cuja herança é repassada aos
pensadores clássicos, como Sócrates, Platão e Aristóteles.
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Sócrates resgatava a idéia de caráter justo da lei, ou seja, por ser válida a
lei tornava-se uma forma de justiça que deveria ser respeitada como um imperativo
imprescindível, mesmo que fosse uma lei errada ou criminosa.
Platão, discípulo de Sócrates, faz uma projeção ideal de um Estado que
tem a função ética de realizar a justiça, onde a justiça é identificada à sabedoria e à
virtude da alma, ou seja, um homem sábio e virtuoso, e não mais um representante
dos deuses na terra, deveria governar e ter a plena responsabilidade pela justiça. A
concepção de Platão não está, então, objetivada em termos de direitos e
obrigações, situando-se na esfera da moralidade social. As leis, para Platão, seriam
úteis, com um valor educativo da lei enquanto instrumento ético.
Já Aristóteles rompe com o idealismo ao elaborar um sistema metafísico
que viria a influenciar a sistematização da teoria do conhecimento e a construção da
lógica dedutiva clássica. Sua ética e filosofia político-jurídica são permeadas por
uma idéia de virtuosidade, de equilíbrio. Aristóteles propõe uma ordenação dos
critérios de justiça de acordo com a natureza dos diferentes tipos de pessoas
presentes no corpo social da polis, criando assim um equilíbrio (virtude) social. Já
que a justiça apresenta certa ambigüidade, ele examina a justiça no sentido total ou
geral e no sentido particular. A primeira é mais universal, o acatamento da lei no
respeito àquilo que vige para o bem de todos, e a segunda refere-se ao outro
singularmente no relacionamento direto entre as partes. Seria, então, mais
“particular”.
Ele também vinculava o princípio de justiça aos homens iguais, com
capacidade para a virtude e para as práticas cívicas. Tratamento dos iguais de forma
igual. Após sua morte, a filosofia grega entra em declínio, favorecendo o surgimento
de algumas correntes menores que repercutiram no mundo antigo pós-clássico,
como as escolas cínica, estóica e epicuréia.

1.3 Fundamentos estóicos do direito natural em Roma:


Os romanos, por sua natureza prática e pouco voltada a especulações
profundas, souberam absorver diversas fontes e compuseram um apreciável modo
de vida pluralista. Essa vocação pela vida prática combinada com essa grande
absorção de culturas exteriores fez com que os romanos legassem à posteridade a
sua maior e mais duradoura contribuição, um eficiente sistema normativo, um Direito
que desempenhava um papel de força agregadora do império.
Cícero foi um autor que soube sistematizar o ideário grego do Direito
natural superior e universal, vindo de Platão, Aristóteles e do estoicismo, adequando
de acordo com o ideal de uma legalidade material, um espírito prático e à natureza
operacional dos romanos.
“[...] suas preocupações éticas e culturais com a formação do homem na
prática da virtude, da equidade e da justiça contribuíram pra desenvolver as
humanidades em Roma.” (p. 36)
As idéias ciceronianas sobre justiça e sobre o Direito Natural fluíram dos
gregos para os antigos cristãos, e depois para os grandes escolásticos medievais.
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CAPÍTULO II: TRAJETÓRIA DO PENSAMENTO JURÍDICO NA IDADE


MÉDIA

Introdução:
Os eventos históricos mais importantes que ocorreram no início da
Europa Medieval são o declínio do mundo antigo, ilustrado pela desintegração do
Império Romano Escravista no século V e o advento e consolidação do cristianismo
como doutrina hegemônica. O período da Idade Média reproduziu a adequação
cristã de uma cultura que herdou o pensamento grego e a tradição jurídica romana.
Os homens passarem a ser valorizados não mais por suas posses, qualidades e
feitos heróicos, mas sim reconhecidos como homens, unidade composta por matéria
e espírito, o que permitiu a construção de uma concepção transcendental da
dignidade humana, preparando o terreno para o surgimento das declarações de
direitos do período moderno.

2.1 Formação e desenvolvimento do Cristianismo na Alta Idade Média:


Mesmo vivendo em um mundo onde as formas de saber e verdade
estavam expostas no Novo Testamento, nas Escrituras Sagradas e nos
ensinamentos dos Padres da Igreja, não houve uma total ruptura dos cristãos com a
herança clássica. Fez-se presente a interpretação dos grandes pensadores cristãos
das obras de Platão, Aristóteles, etc., de acordo com a teologia cristã.
A Alta Idade Média foi a fase mais representativa de seus fundamentos
filosóficos, no período que ficou conhecido como patrística, momento em que se
desenvolveu uma doutrina apologética para servir de fundamento à teologia.
O cristianismo foi muito mais uma elaboração que objetiva a salvação dos
homens e redenção dos oprimidos do que uma filosofia política, tanto que, mesmo
com determinadas idéias sobre governo presentes em passagens do novo
testamento, a igreja passou a não ser um acessório do Estado, e institui-se, assim, o
cristianismo: a Igreja ao lado do Estado. Nesse contexto, a Igreja Romana ficou
como a instituição legítima dos ensinamentos cristãos. A igreja que dá legitimidade
aos governos, e o poder religioso, através de doutrinas que emergiram a partir de
embates entre imperadores e papas, ficou sobre o poder civil.
Sintetizando, o pensamento medieval se encontrará impregnado e
reproduzirá concepções marcadamente teológicas, “sendo que os substratos
teóricos do poder político e do Direito reinante entre os homens respondem a uma
ordem e hierarquia de representação religiosa.” (p. 44)

2.2 A herança jurídica romana e o Digesto de Justiniano:


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Três momentos revelam a produção significativa de temas que constituem


uma filosófica jurídica para a idade média. Primeiramente, o legado e a presença da
cultura jurídica de Roma através do Digesto, feito no século VI e parte do código de
Justiniano, que representava um cenário de ascensão do poder espiritual da Igreja
Cristã. Mais tarde viria o desenvolvimento maior da filosofia jurídica medieval com as
contribuições de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, e por último as
primeiras manifestações de um pensamento secularizador, expressos nos
argumentos de Marcílio de Pádua.
O Digesto de Justiniano, efetivado durante o governo do Imperador
Justiniano (527-565), serviu para formalizar o conteúdo jurídico originado das obras
dos antigos jurisconsultos clássicos. Foi um projeto grandioso, formado por uma
comissão de 16 membros, onde foram consultados mais de dois mil volumes, e essa
obra ficou dividida em 50 livros, que regulavam assuntos como princípios gerais do
Direito, da jurisdição, dos bens, da penhora, do testamento e da posse. Esse digesto
tinha como objetivo não só a sistematização, mas a praticidade, a confiabilidade e a
autoridade das fontes antigas.
Os livros de número I a VI (excetuando-se o IV) da primeira parte do
Digesto são os que mais diretamente expõem substratos que podem compor uma
filosofia jurídica acerca dos interesses e das necessidades do homem, enquanto o
livro IV refere-se à autoridade das constituições dos príncipes como fonte de
positivação legal, o livro VII discorre sobre matérias de adoção, o VIII sobre a divisão
e qualidade das coisas, o IX dos senadores e o X sobre o ofício e as atividades dos
administradores.

2.3 O Jusnaturalismo Teocêntrico em Santo Agostinho:


A Idade Média apresenta uma primeira fase conhecida como patrística,
tendo em Santo Agostinho seu mais destacado pensador cristão. A reflexão proposta
por ele na sua mais importante obra é a de que a história humana tem percorrido um
eterno dualismo entre a cidade de Deus (lugar mais próximo do divino) e a cidade
terrena (marcada pelo pecado; comunhão com valores e exigências do mundo
pagão). Assim está presente o dualismo maniqueísta da cidade celestial que,
corporificada pela Igreja, se ocupará dos interesses do espírito, reinando sobre os
indivíduos, enquanto o Estado temporal se encarregará das coisas materiais. As
duas cidades existem lado a lado, e continuarão até o final dos tempos, quando a
cidade de Deus subsistirá para construir a eternidade.
“Ainda que Agostinho não tenha sido um teórico político ou um filósofo do
Direito, sua obra oferece ricos subsídios para a interpretação sobre as relações
entre Estado e Igreja, os fundamentos da lei natural e da lei positiva, a questão da
legitimidade do poder dos governantes, a formulação cristã da idéia de justiça e a
discussão do significado da guerra justa.” (p. 56)
A concepção agostiniana de justiça verdadeira só se efetivaria no âmbito
do cristianismo, vivenciado pelas práticas do amor, da caridade e da fé cristã.
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2.4 Escolástica e Filosofia Jurídica em Santo Tomás de Aquino:


Entre os séculos XI e XIV, emerge um segundo ciclo na produção cultural
filosófica da Idade Média na Europa Ocidental, em decorrência dos indícios de crise
e declínio do feudalismo que se apresentam no século XI. A escolástica representou
o ápice da produção intelectual, filosófica e teológica da Europa cristã desse
período.
O principal objetivo dessa corrente era demonstrar, por um raciocínio
lógico formal, a autenticidade dos dogmas cristãos. Para eles, a filosofia estaria a
serviço da teologia nesse processo, colocando um fundamento filosófico sob todo o
edifício da fé. O nome mais expressivo da escolástica foi Santo Tomás de Aquino
que, influenciado por concepções de Aristóteles e Santo Agostinho, desenvolve uma
notável doutrina jurídica sobre a natureza das leis e uma distinção geral destas em
lei eterna, lei natural, lei humana e lei divina.
Santo Tomás de Aquino estabelece uma justiça geral (onde é atribuído a
cada um o seu) e uma justiça particular (onde cada um tem a sua medida de
atribuições), além de adotar também, como Aristóteles, a distinção clássica de
justiça: distributiva e comutativa.
“[...] ao retomar e aprofundar as idéias da justiça aristotélica, Santo Tomás
de Aquino realça a finalidade da justiça, que é edificar ‘uma igualdade fundamental
nas relações entre os homens, e exigir que essa igualdade seja restabelecida,
quando violada’.” (p. 67)
Fica clara a contribuição de Tomás de Aquino não só para o pensamento
medieval, mas para a constituição de um Jusnaturalismo que influenciará a moderna
filosofia do Direito.

2.5 Concepções Jusfilosóficas em Fins da Idade Média:


“[...] entre o século XIV e início do XV, a Europa Ocidental é sacudida
pelos conflitos entre o papado e o império [...] pelo declínio da Escolástica [...] e pelo
gradual processo de secularização do poder político.” (p. 68)
Nesse contexto surgem idéias políticas de alguns autores reformistas e
antipapistas, como os italianos Dante Alighieri e Marsílio de Pádua. Dante foi autor
da consagrada obra “Divina Comédia”, no entanto, suas idéias políticas aparecem
em sua obra intitulada “De Monarchia”, que tem seu mérito em apresentar um certo
“secularismo” apresentado pela incisiva diferenciação entre o temporal e o espiritual.
Marsílio de Pádua foi não só o expoente maior do espírito secularizador
para o pensamento político-jurídico, mas sobretudo quem levantou as críticas mais
radicais ao Papado e à Igreja Romana. Ele constrói uma teoria do poder derivada do
povo, bem como a origem do Estado e da própria lei, assumindo assim uma
orientação voluntarista, cética e laicizadora.
Marsílio se mostrou profundamente oposicionista com relação do poder
da Igreja, e buscou romper bruscamente com a cultura oficial dominante,
despertando assim novas perspectivas.
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Marsílio de Pádua sistematizou, possivelmente, a primeira formulação da


doutrina chamada de positivismo jurídico, reduzindo o direito ao mandato coativo do
Estado, bem como a afirmação da origem e do fim absolutamente humanos (não
mais divinos) do poder estatal e do Direito. Aí se vê o nascedouro do humanismo
antropocêntrico, que marcará a sociedade moderna.
Na mesma época de Marsílio, outros pensadores de relevância também
surgem, como o mestre inglês Guilherme de Occam, que defendia concepções
menos rigorosas e menos radicais que as de Marsílio, mas que abriu novas
perspectivas para a teologia e filosofia. Occam denunciava as práticas contraditórias
da igreja, bem como a pobreza, atribuía restrições ao poder papal, etc.

CAPÍTULO III: ESBOÇO DA TRADIÇÃO JURÍDICA NA AMÉRICA


LUSO-HISPÂNICA

Introdução:
A produção jurídica que foi transposta para a América luso-hispânica a
partir do século dezesseis advém de fontes romano-germânicas e da adequação de
normas institucionais da colonização ibérica. O rompimento com Espanha e Portugal
criou condições para a emergência de uma elite local, que incorporou de difundiu os
princípios de uma tradição jurídica marcada pelo idealismo abstrato jusnaturalista,
pelo formalismo dogmático-positivista e pela retórica liberal-individualista, onde se
situou uma realidade excludente, sócio-político excludente. Inexistiu uma filosofia
jurídica autenticamente americana e emancipadora do humanismo retórico e erudito
dissociado da vida humana com dignidade, liberdade e justiça.

3.1 Horizontes Jurídicos no Tempo da Conquista e da Colonização:


Na Península Ibérica o ideário humanista renascentista não se fazia
chegar, o que ocasionou o desenvolvimento de uma regulamentação jurídica que
não levava em conta os ideais de igualdade e respeito, e que mais legitimava o
processo de exploração e colonização, legislação essa montada a partir do velho
direito espanhol.
Na época da conquista, como não havia um Direito específico, buscou-se
a legislação já consagrada (Código das Siete Partidas e a Lei de Toro), com grande
guia do processo judiciário no primeiro momento da colonização, mais tarde vindo o
Novo Direito, que foi resultado da luta e perseverança de alguns teólogos-juristas
imbuídos do ideário humanista. As normas criadas por estes (Leyes de Índias)
levavam em conta a diversidade geográfica, a distinção de indivíduos e grupos
sociais, e buscava atender aos interesses econômicos e políticos da coroa, a política
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de lucro e riqueza dos conquistadores e evangelização e bom trato aos índios, por
isso sendo marcado pela freqüente mudança de regras.
Com a grande dizimação dos indígenas, o Estado viu a necessidade de
se criar um freio ao ímpeto devastador do colonizador, produzindo assim uma nova
legislação, configurada nas Leis de Burgos, que apesar de não lograr com todos
seus objetivos abriu caminho para as Leis Novas, que representavam a mais
autentica vitoria do humanismo cristão da época. Mas estas, mesmo sendo
inovadoras e tendo contribuído para moderar a violência, não erradicaram a
violência e a escravidão das populações indígenas.

3.2 Filosofia Jurídica Humanista e Bartolomé de Las Casas:


“Em fins da Idade Média surge uma filosofia jurídica humanista,
questionadora da tradição escolástica (que dá substrato à legitimação ordenadora
dos colonizadores ibéricos) e defensora da legislação em defesa dos inocentes
aborígenes do novo mundo.” (p. 82)
Entretanto, esses defensores humanistas dos índios, dentre os quais se
destaca Bartolomé de Las Casas, não conseguiram mudar completamente a
realidade de violência e exploração. Esse pensamento estimulou também, nessa
época, o pensamento político e o pensamento religioso, estreitamente ligados.
“Diante do espírito da época e dos argumentos consagrados em
instrumentos legais como o Requerimento, marcados pela arbitrariedade e
irracionalidade, emerge o repúdio e forte ação humanista de religiosos dominicanos”
que “imbuídos filosófica e moralmente no humanismo de tradição crista e calcados,
juridicamente, ma doutrina do Direito natural, não só admitiam dignidade e liberdade
humana aos gentios, como sobretudo não reconheciam o poder total do papa e a
pretensão universal de jurisdição dos monarcas sobre os nativos.” (p. 85)
Nesse contexto Bartolomé se destaca como o precursor do conceito
moderno de pluralismo racial, cultural, político, religioso e jurídico. Houve também
uma renovação Espanhola no campo das artes, das letras, da teologia, da filosofia,
da política e no campo jurídico, o que propiciou um debate muito profundo e de
grande repercussão no centro cultural e filosófico da Escola de Salamarca, acerca
do tratamento humanitário dos seres vivos, bem como da necessidade de uma
legislação mais justa e solidária, e do direto à liberdade das populações
conquistadas do Novo Mundo.

3.3 Aspectos Históricos da Cultura Jurídica Latino-Americana:


A utilização e aplicação retórica dos princípios do humanismo
secularizado na América luso-hispânica colonizada não representaram
manifestações autenticas de transformação e emancipação, mas revelaram-se
abstratas, portadoras de efeitos contraditórios.
Os três séculos de colonização espanhola e portuguesa na América foram
marcados por invasão, massacre e diversas praticas anti-humanistas, o que, junto
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com outros fatores internos contribuíram para as lutas de independência que não
deixaram de manifestar posturas plenamente humanistas, de um humanismo já
concreto, nascido da prática histórica de exaltação do nativo.
A independência das nações latino-americanas não representou uma
ruptura total e definitiva com Espanha e Portugal, mas muito mais a reformulação da
tradição ibero-latina clássica, sem mudança expressiva na ordem social e política.
Buscava-se compatibilizar as doutrinas emergentes e novas forças sociais com a
manutenção das antigas estruturas de caráter corporativo e patrimonialista.
O individualismo liberal penetrou na América numa sociedade
predominantemente agrária, logo a juridicidade moderna de corte liberal vai
repercutir diretamente sobre a propriedade da terra. Os códigos positivos e as
constituições políticas proclamam “neutralidade cientifica”, independência de
poderes, garantia liberal de direitos e a condição imperante do “Estado de Direito”, o
que não é de todo feito, já que na pratica as instituições jurídicas são marcadas pelo
controle centralizado, burocrático e pouco democrático do poder oficializado.
“Torna-se correto reconhecer a cotidianidade de uma tradição jurídica que
convive com uma cultura política, marcada por democracia excludente, por sistema
representativo clientelista, por formas de participação elitista e por experiências de
pluralismo limitado” (p. 96), que vai totalmente contra os propósitos dos ideais
liberais com o qual se “compromete”.
CAPÍTULO IV: EVOLUÇÃO DAS IDÉIAS JUSFILOSÓFICAS NA
MODERNIDADE DO OCIDENTE

Introdução:
“Na forma das idéias modernas acerca do Estado do Direito, não deve ser
desconsiderado o legado clássico do pensamento greco-romano. Igualmente, não se
pode desconhecer as teses de intérpretes de que as origens do mundo moderno
prendem-se às transformações trazidas pela Igreja Romana Ocidental (unidade e
independência desencadeadas por Gregório VII, perante imperadores, reis e
senhores feudais) entre fins do século XI e no inicio do século XII. Entretanto, o
direcionamento que aqui se assume é pelo discurso analítico, levando-se em conta
as raízes históricas dos valores político-jurídico e das instituições modernas irão
constituir-se num período compreendido entre o século XIV e o XVI. Em tal cenário,
instauraram-se a dissolução das instituições ate então hegemônicas (Igreja
Romana), o aumento do poder real com o surgimento das monarquias nacionais
(França, Inglaterra), o enfraquecimento do papado, a emergência do reformismo
filosófico, o aparecimento cultural do humanismo renascentista e a secularização da
política.”

4.1 Pressupostos do Pensamento Jurídico nos Primórdios da Sociedade


Moderna Européia.
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“Preliminarmente importa registrar, no âmbito do sistema produtivo, a


formação de um capitalismo mercantil como novo modelo de desenvolvimento das
forças materiais em que o capital é o instrumento essencial das atividades reais.
Trata-se da passagem da economia agrário-senhorial para a implementação da
atividade econômica de mercado livre, pela sistematização do comercio por meio
das trocas monetárias e pela força de trabalho assalariado. Em fins da Baixa Idade
Media, inaugura-se um processo de crise e de ruptura do Feudalismo que irá
desencadear profundas transformações na vida produtiva, substituindo a economia
agrícola de servidão e de subsistência pela atividade mercantil, financeira e
lucrativa. Particularmente, é nas repúblicas mercantis do norte da Itália que se
desenvolve, desde o século XIII, o espírito capitalista. Entretanto, o Capitalismo irá
constituir-se gradualmente, consolidando-se e alcançando quase toda a Europa
depois do século XVI e XVII. Nas suas origens a mentalidade capitalista esta
identificada as práticas comerciais, ao empreendimento individualista e competitivo,
bem como ao afã de lucro ilimitado, ao cálculo previsível e ao procedimento
administrativo racionalizado.”

4.2 Renascimento, Reforma Protestante e Humanismo Jurídico.


“Certamente que os albores do mundo moderno gestados por um
processo crescente de secularização e racionalização proveniente de fenômenos
culturais como o Humanismo do Renascimento e a Reforma Protestante. A crise e a
derrocada do universo medieval na Europa central no âmbito da religião, da filosofia,
da economia e da política desencadearam os ingredientes para uma nova
mentalidade um novo pensamento e novos procedimentos científicos. As
emergentes formas culturais marcadas pelo espírito de ruptura, naturalismo e
individualidade estão impregnadas por uma visão clássica do mundo, expressa no
que se convencionou designar Renascimento.”

4.3 Origens e Desenvolvimento das Escolas Jusracionalistas do Século XVI ao


XVIII
“A sociedade moderna européia dos séculos XVI e XVII que influenciaria a
cultura Jurídica da época contem, no sei bojo todo um processo crescente de
secularização, racionalização, individualização e progresso cientifico. Por trás de tais
características, devem ser consideradas as mudanças engendradas por uma
estrutura social moderna já constituída pelo impulso econômico capitalista, pelo
aparecimento de burguesia, do humanismo e do Estado como centralização maior
do poder.”

4.4 Iluminismo, Racionalismo e Pensamento Jurídico Pós-revolução


“O século XVIII é inaugurado por um cenário político que consolida a
legitimação do Estado Absolutista, quer pela origem divina do poder, quer por
fundamentos jusfilosóficos, assentados em teses contratualistas e em modelos
teóricos racionalistas.[...] Em que pesem a predominância e o reflexo da cultura
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iluminista ao longo do século XVIII, há de se considerar o romantismo como


movimento mais significativo de reação à ‘filosofia do esclarecimento’.”
“Foi na França do absolutismo monárquico que o movimento iluminista
alcançou seu maior florescimento e radicalismo. Os philosophes acreditavam na
supremacia da razão, mas desde que utilizada para fins práticos, objetivando critica
às superstições, à intolerância e às injustiças sociais. Os principais pensadores
franceses da época, que instituíram e aderiram ao ‘enciclopedismo’, expressão mais
autentica do espírito da ilustração francesa, criaram o ‘seu ideal de explicação e
compreensão segundo o modelo das ciências naturais’. Não se inspiraram em
Descartes, mas buscaram elementos advindos do empirismo de Newton, ‘cujo
método não era a dedução pura, mas a análise’ rigorosamente cientifica”.
“Inegavelmente, umas das construções mais vigorosas e influentes do
pensamento filosófico moderno encontra-se em Immanuel Kant (1724-1804),
responsável por uma admirável síntese das grandes tradições epistemológicas que
chegaram até o século XVIII, ou seja, de um lado o racionalismo de matriz
germânica proveniente de Leibniz, que foi difundido por Christian Wolff; de outro, o
empirismo inglês de Lock e Hume, mas sem deixar de absorver certos traços do
sentimentalismo rousseaniano. [...] Finalmente, a conclusão a que se pode chegar
com referencia ao século XVIII é o inegável desenvolvimento de seu Direito,
marcado pela consolidação histórica de um processo de racionalização, da
afirmação de uma cultura individualista e liberal, da distinção entre o Direito e a
moral, e da progressiva secularização do Direito rumo à unicidade e à positivação.”

4.5 Fundamentos e Desenvolvimento Histórico do Positivismo Jurídico


“O cenário filosófico europeu, que cobre grande parte do século XIX, seria
dominado por tendências que se filiam, ora ao idealismo, ora ao materialismo, em
seus matizes positivistas ou dialéticos. Na trajetória marcada pela Revolução
Industrial, pela consolidação do capitalismo e pelas lutas sociais que refletem a
consolidação burguesa e a marginalidade das camadas populares, a dinâmica
sóciopolítico ocidental se caracterizaria, em grande parte, “[...] pela tensão entre o
liberalismo econômico[...] da revolução vitoriosa e as tendências socialistas, que
procuram encarnar as exigências de prosseguimento, no caminho da revolução.”

4.6 Tendências Jurídicas Antiformalistas e Materialistas em Fins do Século XIX


“É mister, uma vez mais, lembrar que a teoria jurídica no século XIX é
marcada, principalmente,ora pelo exegetismo francês, ora pelo pandectismo
germânico, sem desconsiderar igualmente as inclusões analíticas dos ingleses. A
influencia francesa engendrada pelo caráter sagrado do Código Napoleônico
favorece o espírito para um rigoroso positivismo, enquanto na Alemanha, a reação à
codificação de tipo francês volta-se para a sistematicidade das construções
conceituais romanísticas. Não é de se estranhar que, num cenário dominado pelo
positivismo jurídico formalista, diversas reações sociais e políticas provenientes da
sociedade começam a afetar o discurso e a prática do jurista.[..] Mesmo
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distanciando-se do formalismo essencialista de tradição panddectista, Jhering


jamais rompeu com certos vínculos estatistas e positivistas na forma de conceber o
Direito.[...] Ora, a reação às diversas nuanças do formalismo positivista não ocorre
apenas por meio de orientação sociológicas, culturalistas e jusnaturalistas, mas
decorre de posturas identificadas ao materialismo histórico, fortemente devedor do
legado filosófico proveniente de Georg Wilhlm F. Hegel (1770 – 1831)”

CONCLUSÃO

“Em suma, a obra “Síntese de uma História das idéias Jurídicas. Da antiguidade
clássica a modernidade” revela que, além de ocupar-se em fazer uma releitura
crítica da historicidade das idéias jurídicas, seu conteúdo permite avançar na direção
de conceber o Direito ora lugar de luta, resistência e combate, ora como instrumento
de viabilidade da justiça, do bem comum e da dignidade humana. É o Direito
projetado como instrumental, comprometido com a gestação do conhecimento
democrático, pluralista e participativo que sirva a práticas sociais e políticas
emancipadoras.