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O Corte

Arthur Batista Cordeiro

A obra que vos apresento eu mesmo – seu autor – lhe dei o título de “O corte”.
Cabe a mim, que concebi a obra, explicar o que ela mostra em si, ou seja, num
campo real e não semântico ou, para os que gostam de Heidegger, na terra e não
no mundo. Ela consiste numa performance que culmina num vídeo que não é
registro, mas também debate essa questão. O vídeo tem no máximo 50 segundos.
A performance consistiu em andar por todo o lugar aonde ia durante uma semana
com um curativo na face, na minha bochecha direita, molhado em iodato – o que
dava a entender que havia me ferido profundamente – se me perguntassem o que
havia ocorrido a resposta era simples: Um corte. Se insistissem a resposta era a
mais irônica, ou sarcástica –como quiserem -possível: Feri-me num safári pela
África quando 32 ninjas poloneses, clandestinamente, surgiram para caçar um dos
leões.

Enfim, essa foi a performance. O vídeo consistia em um título no seu início (“O
corte”) em letras brancas e um fundo preto, e uma pessoa com uma faca –eu com
um cutelo- apontada e pressionada contra o rosto (é extremamente necessário que
fique claro aqui que em momento nenhum eu me feri), não havendo música ou som
algum durante o plano seqüência, apenas o artificial silêncio, durante todo o vídeo.
No momento em que se espera que finalmente aconteça o corte em minha face
acontece um corte para um tela preta e em seguida aparecem os créditos.

Pois bem, esta é a obra. A sua concepção partiu do pedido de um professor para
que criássemos uma obra prima. É eu sei: uma obra prima? O que é uma obra
prima foi o meu primeiro questionamento, em seguida foi o que é uma obra, depois
o que é uma obra de arte, enfim o que é arte. Como percebem, e eu também
percebi, é meio difícil se responder a essa(s) questão(o que eu deveria por aqui
para que vocês percebam que pode ser “questão” ou “questões”?), logo, decidi por
fazer uma obra e dá-la todo o meu empenho - pelo menos o mental, que para mim
é o que mais vale, mesmo sabendo que não vale por ela toda – e começar a
trabalhar. Toda obra de arte – disso eu já sabia quando pensava a obra – como
pude perceber durante os meus estudos na faculdade parte de um princípio básico:
um problema. Para que a obra tenha potência, ou seja, o poder de ser
compreendida por qualquer um, o seu problema deve ser referir a algo de um
cônscio geral. Qual problema? Depende do artista e de sua época. Pode ser a
representação do espaço (a perspectiva no renascimento); a representação de
idéias e não de meras mimeses (no tempo em que os gregos filosofavam com o Sr.
Platão); a luz na pintura (os impressionistas, vide o Sr. Manet); ou a voz da arte de
uma nação (a semana de arte moderna de 22); enfim, não importa a época nem se
é escultura, pintura ou desenho o que importa é a potência do problema que a obra
irá ferir.

Qual foi o meu problema? Amigos, foram vários. Tirando os monetários, o meu
problema era o que víamos quando não víamos. Será que era preciso ver para
entender ou sentir? É óbvio que não. Além desse, também decidi incluir na obra um
questionamento que vem me aborrecendo durante um tempo. O problema era o
corte cinematográfico. Ismail Xavier, Jean-Claude Carrière, e Bernadet – sem
desmerecer ninguém, esses foram os que lembrei- entendem que a linguagem
cinematográfica se diferencia, primordialmente, da teatral no que confere o
nascimento do corte. Assim sendo ironizei o meu corte, o que é sugerido com a
faca, com o corte cinematográfico.

Já a performance surge a partir do vídeo. Para que eu pudesse ganhar a tensão


(não confundam com atenção, não foi um erro de digitação eu realmente quis dizer
“tensão”) dos espectadores do meu vídeo era preciso que meu corpo
correspondesse ao vídeo, as marcas que ele deixou (deixaria) em mim. Por isso,
uma semana antes da apresentação do trabalho (e eu nem o tinha feito ainda) eu
comecei a andar com o curativo. É claro que isso também dava um teor de
credibilidade ao meu “filme” já que funcionou como uma maneira publicitária. Mas
quem disse que a arte não pode ser encontrada também na publicidade?

Lembro-me agora do filme BORAT. Um filme que gerou repercussão mundial, tanto
pelo teor dele quanto pela sua maneira de chamar o público. A ação publicitária
consistiu no ator do filme durante um tempo viver exatamente como a personagem
que interpretara, assim, muitos entenderam que o filme na verdade não era ficção
e sim real. Ou seja, o ator fez uma performance.

Longe aqui de passar delongas linhas discutindo esse tema (publicidade e


performance) que acho tão mais incrível que o trabalho que discuto – o meu – vou
pará-lo por aqui.

Retomando:
Enfim apresentei o vídeo, muitos (a maioria) se sentiram enganados e até
ofendidos, alguns ameaçaram não acreditar mais em mim, outros entenderam
tudo como uma grande piada. Mas afinal de contas –pergunto eu- quem quer
mentira maior que a arte? Quem de nós, que já parou para pensar um pouco sobre
arte, mercado artístico ou a profissão de artista não se sentiu enganado e até
ofendido, ameaçamos não acreditar mais nela ou até a entendemos como uma
grande piada? Não me elevo nesse discurso a um artista, e também não rebaixo a
arte a minha obra, apenas abro a discussão – é o que vale mesmo, não?
- .
Claro, a inúmeras falhas em minha obra e eu mesmo posso apontá-las ao
espectador menos atento: Para os que não viram a minha performance a obra
perde potência; ela só fala em um contexto de sala de aula e não consigo a ver
falando mais que isso (a não ser pela questão do corte cinematográfico). Num todo
foi um bom trabalho, e não vejo nada além disso. Obra prima? Acho que sim:
enganei a todos no final das contas.