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A FOTOGRAFIA COMO FONTE DE PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO:

usos, dimensão visual e material, níveis e técnicas de análise.

Rosangela Silva Oliveira Doutoranda em Educação/UFRN raltamira@ig.com.br Nilton Ferreira Bittencourt Junior Mestrando em Educação Tecnológica /CEFET-MG niltonbittencourt@gmail.com

Palavras-chave: fotografia fonte histórica tecnologia - análise iconográfica

O artigo propõe reflexões para pesquisadores que se propõem trabalhar com fotografia como fonte histórica, considerando sua força representacional constituída em duas realidades: antes e depois do clik da máquina. O esforço teórico caminha no sentido de compreender a fotografia como documento rico em códigos sociais, aliando a abordagem semiótica à perspectiva histórica. Apresenta níveis e técnicas de análise iconográfica para realizar a crítica interna e externa de fotografias como fonte e documento histórico.

1 Os usos sociais da fotografia Entre as fontes historiográficas existentes há um consenso de que os registros fotográficos revelam-se de pertinaz importância por permitirem a observação cuidadosa das rupturas e continuidades nos ambientes urbanos, sociais e culturais em épocas distintas tornando possível compreender estes processos pelas informações que o material fotográfico fornece.

O uso da fotografia no século XIX ampliou as percepções de mundo antes circunscrita ao seu contexto local.

“Quando a fotografia ingressou no mercado, em versões técnicas variadas, lançadas em pequenos lapsos de tempo entre 1839 e 1850, rapidamente nela se identificou a capacidade de atender às mais diferentes demandas sociais. A rapidez da produção em série e o baixo custo tornaram-se pré-requisitos em uma sociedade com crescente industrialização. (LIMA; CARVALHO, 2011, p.29).

Considerada como documento que poderia dar maior visibilidade e divulgar para as gerações futuras informações científicas e referenciais de vistas e paisagens urbanas e rurais, a fotografia também foi aceita como oportunidade para perpetuar a imagem publica colocando em evidência seus ornatos arquitetônicos.

No final do século XIX as fotografias eram preteridas como documento. Possuía apenas o valor de ilustração, prova ou testemunho, documento complementar para a construção de narrativas positivistas lineares e evolutivas. Desempenhavam papéis pedagógicos de acentuado caráter narrativo e alegórico, usadas estrategicamente para tornar hegemônicas as representações de identidade nacional vinculadas a interesses de grupos políticos e econômicos. A autenticidade da fotografia exigia sua confirmação em documentos escritos que lastreavam a imagem ou a desqualificava. (PINSKY; DE LUCA, 2011, p. 37). Entretanto o historiador modernista Lucien Paul Victor Febvre (1878-1956), co- fundador da Escola dos Annales advertiu que a história também pode ser reconstituída quando os documentos escritos não existem.

A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a

habilidade do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na falta das

flores habituais. Logo, com palavras. Signos. Paisagens e telhas. (

com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem (FEBVRE, 1949 p.428 apud LE GOFF, 2003 p. 530).

) Numa palavra,

Este historiador ainda sugere procedimentos de investigação que recomenda a análise das evidências detectadas nas fontes históricas como interpretação, nunca como representação do passado. Ao assumir o ofício de interpretar o passado em fontes iconográficas o historiador pode explorar os sinais subjetivos, porém evidentes, na fotografia e suas relações com outras fontes históricas, notadamente marcada pela objetividade da línguagem escrita.

Devido à propriedade de suscitar sentimentos, há quem pense que fotografias não podem ser consideradas para análise histórica, especialmente se não estiverem acompanhadas por textos. Porém, intrínseca à sua própria característica imagética, além de sentirmos emoções, podemos ler informações, entender situações, descrever paisagens, objetos e pessoas de forma não textual, imaginar épocas e pessoas, enfim lembrar. (STAMATTO,

2009).

Nessa perspectiva é necessário considerar na pesquisa histórica que uma imagem fotográfica pode ser mais expressiva que alguns documentos escritos.

Quando dispara uma câmara, o fotógrafo cria e produz mundos. Torna-se um viajante que oferece a seu leitor imagens visuais cujo poder de persuasão pode ser muito superior e mais eficiente do que o que emerge do relato escrito. Enquanto o relato textual produz no leitor uma visão de conjunto apenas quando a leitura do texto se encerra, diante do texto visual, o expectador apreende, de uma só vez a mensagem que se quer transmitir. (BORGES, 2003 p. 92).

Embora haja muitas dificuldades em analisar a imagem fotográfica sem

referencial escrito não é possível entendê-la como simples percepção sensorial, separada de sua historicidade.

A ausência do documento escrito pode ser superada com uma sequência de

registros fotográficos mas, como todo documento, existe a possibilidade de registros falsos.

O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro voluntária ou involuntariamente determinada imagem de si próprias. No limite não existe um documento verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo. (LE GOFF, 2003 p. 538).

Fotografar é falar o mundo por outras palavras, um discurso diferente da

linguagem oral e escrita (STAMATTO 2009), mas as relações entre imagem e realidade

fragmento congelado

um registro que cristaliza uma

ínfima porção de espaço do mundo exterior” ( KOSSOY, 2001, p. 156 ). A fotografia em si, como as demais fontes historiográficas, não é a representação fiel dos fatos nem testemunhas isoladas, não é explicativa por si mesma, mas poderá ser confirmadora de mudanças ocorridas ao longo de um período. “O papel da fotografia é conservar o traço do passado ou auxiliar as ciências em seu esforço para uma melhor apresentação da realidade do mundo.” (DUBOIS, 2009, p.30). Outrossim é necessário advertir que o uso da fotografia como fonte histórica não dispensa o emprego de metodologias capazes de extrair informações corretas de sua imagem, mesmo que seja uma sequência fotográfica.

de uma realidade passada” (KOSSOY. 2003, p. 37), (

devem ser cuidadosamente analisadas. A fotografia constitui um (

)

)

As praticas fotográficas devem ser entendidas dentro de um campo de forças, em

que cada indivíduo ou grupo se posiciona e, a partir deste lugar, apropria-se da fotografia como um marcador social. Um sociograma leigo que permite descobrir em seus elementos

cenográficos, relações e papéis sociais como advertiu Pierre Bourdieu e Marie-Claire Bourdieu no artigo “O camponês e a fotografia”. A imagem fotográfica possui um discurso, uma linguagem interessada para circular numa arena de poder e dentro de estruturas institucionais responsáveis pela produção de consensos que têm como eixo interesses dominantes.

2 Considerações sobre a dimensão visual e material da fotografia

A fotografia evoca lembranças, emoções e muitas informações. Constitui-se registro e memória visual que retém a imagem fugidia de indivíduos e sociedades. Como registro visual e material a fotografia apresenta-se como fonte e documento privilegiado para uma aproximação entre fragmentos do tempo histórico , permitindo a perpetuação de um momento difícil de ser resgatado com precisão, mas o historiador deve observar que ela não é apenas um complemento da informação oral ou escrita. Uma imagem fotografada possui informação da realidade registrada e, igualmente, historicidade. Difere de outros tipos de iconografia como pinturas, desenhos, gravuras e ilustrações, já que comporta dados de fatos objetivos da realidade apreendida, de lugares que existem ou existiram e de pessoas e sociedades que viveram em um momento determinado (STAMATTO, 2009). A fotografia, analisada com o auxilio de outras fontes históricas permite muitas reflexões sobre as intervenções humanas nos espaços urbanos, as realizações materiais na paisagem, possibilitando a expressão do imaginário social, político e econômico dos sujeitos pertencentes deste núcleo observado, consentindo a divulgação e preservação de uma

memória cultural da cidade.

acontecimentos que esta registra ao contrário de apontarem para um passado inacessível – são potencialmente históricas e levam os sinais e rastros do seu tempo.” (BORGES, 2007). A esse respeito vale ressaltar que a realidade contida na imagem fotográfica não apresenta apenas o testemunho puro e/ou bruto dos fatos sociais. Ali também estão presentes as motivações e interesses do criador da imagem que inclui e exclui conteúdos ou informações. A essa trama de acontecimentos que ocorre antes do click da máquina o pesquisador e historiador paulista Boris Kossoy denomina de primeira realidade ou tempo da criação, de escolhas de poses e seleção de elementos cenográficos. Após o ato fotográfico passa a dialogar com emoções e referenciais culturais distintas, a segunda realidade. Na primeira realidade circulam aparências, contradições, ausências, rastros do passado que trazem informações que, contextualizadas no processo histórico, podem abrir diálogos com outras fontes documentais, com os fundamentos teóricos e hipóteses dos historiadores. Após o efêmero momento do ato fotográfico surge o simbólico ou segunda realidade. O ato criador se dilui no momento em que é registrada a imagem recebe significados distintos ou representação simbólica, oferece uma leitura plural dependendo dos

fotografia assim como os

perspectiva

Nesta

“[

]toda

conhecimentos prévios, interpretações, valores e expectativas do observador. A memória, contudo, permanece na fotografia.

3 Níveis e técnicas de análise da fotografia

A análise iconográfica exige muitas vezes, uma busca de informações em outras

fontes documentais e um trabalho de reflexão sobre as hipóteses de pesquisa, o que permitirá estabelecer as perguntas a serem feitas. Esta relação fontes-hipóteses sugere a necessidade da crítica interna da fotografia, ou seja, indagar ao documento aquilo que ele não deseja revelar, priorizando as informações contidas nas entrelinhas do mesmo, sem perder a perspectiva do contexto histórico e do momento cultural responsável, em parte, pela forma e pelo conteúdo registrado pelo documento. A fotografia pode ter sofrido um processo de falsificação o que

deve ser considerado na análise.

A possibilidade de falseamentos na imagem fotográfica existe, mas o importante é

saber por que o falseamento aconteceu e a quais propósitos serviu. A fotografia é quase sempre menos realista do que parece e distorce a realidade social mais do que a reflete. E

interpretação da

fotografia depende de nossos conhecimentos e o sentido que dela captamos está ligado a outras informações que não aparecem na imagem.” (STAMATTO, 2009, p. 142). Então considere o seguinte: as imagens fotográficas dão acesso não ao mundo social diretamente, mas sim a visões contemporâneas daquele mundo; o testemunho das imagens fotografadas necessita ser colocado em uma série de contextos plurais, sejam culturais, políticos ou de outras ordens; uma série de fotografias oferece testemunho mais confiável do que uma fotografia individual; o historiador, como sujeito de interpretação da primeira realidade, é também um receptor que elabora suas interpretações de acordo com seu

repertório cultural; o uso da fotografia como fonte histórica exige a observação cuidadosa de seus elementos significativos.

apesar de haver elementos indicativos que explicam a imagem “ [

]nossa

O historiador Ulpiano T. Bezerra de Meneses, conforme Lima; Carvalho (2011)

apresenta os seguintes níveis de análise iconográfica:

Análise morfológica: seus atributos formais expressos bimensionalmente e assentados em um sistema de representação. Análise do contexto de produção e circulação: envolve reflexões desde as motivações do fotógrafo, condições materiais da imagem produzida (equipamentos, se foi realizada em estúdio ou não, se feita por amador ou profissional, destinada a que

tipo de circulação) até os desdobramentos da circulação e as formas de apropriação que sempre implicam resignificações. Sugestões de análise, considerando o contexto da circulação da fotografia:

Fotografias no contexto jornalístico (menor dificuldade): analisar as repetições da imagem em diferentes fontes jornalísticas assim como as referencias textuais ou verbais a ela como críticas e especulações;

Imagens em cartões postais ou álbuns turísticos (maior dificuldade): analisar, além da imagem de que é suporte, os textos e inscrições; identificar recorrências temáticas e de composição na série de documentos ou produções de ampla difusão, elas favorecem construções de sentidos vinculados à prática social;

Retrato de família (circulação reduzida): a análise deve levar em conta seu teor simbólico porque é orientado por convenções na escolha da cenografia e da pose. Cumprem funções afetivas e didáticas ao materializar regras familiares e ritos sociais (casamentos, batizados etc). Por se tratar de uma forma simbólica de representação pública dos sujeitos é importante que se considerem as expectativas sociais e individuais (o olhar do expectador).

O pesquisador quando analisa uma imagem fotográfica deve relacionar aquele momento e o espaço que está na fotografia e o momento que ele está vivendo. Observar que a distribuição dos objetos no espaço fotográfico não é gratuita. O lugar dos corpos também não

é considerado espontâneo, eles traduzem orientações: linhas de autoridade, de subordinação,

de hierarquia, deixando claro a cultura e política de suas relações sociais. Esta observação das imagens remete o pesquisador a uma outra problemática, a da interpretação, cujo significado depende do seu contexto social de forma ampla, os valores de sua época, bem como as circunstâncias nas quais a imagem tenha sido encomendada ou o lugar físico onde foi originalmente exibida. Como já foi dito, o documento visual tem a pretensão de ser natural, neutro, análogo do real, no entanto é sempre codificado, conotado. Sendo que o código de conotação

é sempre histórico e reforçado por uma ideologia onde o objeto talvez não possua uma força, mas por certo, possui um sentido. Na imagem fotográfica a conotação é produzida por uma modificação do próprio real, isto é, da mensagem denotada. A fotografia surge aparentemente como natural e espontânea, disfarçada sob a mascara objetiva da denotação, contudo, não é próprio da imagem fotográfica tentar passar por denotada uma mensagem que, na verdade é fortemente

conotada. Ela gera uma linguagem que corporeifica práticas sociais específicas. Assim é

também importante considerar o olhar do expectador e as expectativas individuais e sociais. De uma forma geral, as pessoas fazem a mesma leitura, mas cada uma interpreta

de sua forma, em função de sua idade, do seu sexo, da sua profissão, de sua ideologia, enfim,

de seus conhecimentos em função de seu objeto de estudo. Na verdade é a competência

interpretativa é de quem olha que fornece significados à imagem. As técnicas de análise externa da fotografia devem considerar as marcas de sua historicidade (relações com aquilo que a cerca, com aquilo que a situa num dado tempo, espaço, sociedade, cultura, relações políticas, econômicas) e as marcas de sua temporalidade (datação, localização espacial, autoria). As técnicas de analise interna da fotografia devem considerar os seguintes elementos inerentes às marcas da sua temporalidade e historicidade: expressão e conteúdo; tempo e espaço; percepção e interpretação. Responder questões como: Quem a produziu? A partir de que valores? De qual grupo cultural? Para quem foi produzida? Com que intenções? Observando os seguintes procedimentos:

análise detalhada das evidências internas e a comparação das fotografias com outras imagens;

identificação da história da fotografia, incluindo as limitações e convenções tecnológicas;

estudo das intenções e dos propósitos do fotógrafo e da maneira pela qual as imagens foram usadas pelo seu criador ou detalhes da composição do cenário desprezado pela atenção do fotógrafo, mas captados pela velocidade da câmara fotográfica;

observação do objeto fotografado e suas relações entre si;

revisão das evidências históricas relacionadas, incluindo o exame dos usos já feitos das imagens por outros; (SCHERER, 1996, p.72).

A fotografia registra o fragmento de um fato ou acontecimento mas também é

escolha, portanto constitui representações simbólicas dos códigos culturais de quem a produz.

A intenção do fotógrafo, suas escolhas e decisões, as técnicas fotográficas, as correntes

estéticas da época, a qualidade do material empregado, o papel, tipo de máquina escolhida e o

enquadramento do que retratar feito pelo criador da imagem, alteram o sentido da imagem e a pretensa normalidade.

O diálogo estabelecido entre o observador e a fotografia pode oferecer uma

reconstituição histórica se a análise iconográfica, mesmo carregando a interpretação do historiador, identificar os elementos icônicos e suas representações criadas dentro de um

tempo, espaço, cultura e grupo social, considerando a impossibilidade de reconstruir um passado, apenas significá-lo.

4 Fotografia e as novas mídias Nesta parte do texto a análise se volta para a fotografia como fonte histórica e sua relação com as novas tecnologias, focando o tratamento dado à cultura da preservação. O objetivo é uma reflexão sobre as novas tecnologias e seu impacto sobre as fontes históricas, com foco na fotografia. Muito da motivação desta discussão surgiu após a leitura do livro “Arquivos, Fontes e Novas Tecnologias questões para a história da educação” que foi organizado pelo Professor Luciano Mendes de Faria Filho, que é o resultado do Seminário “O impacto das novas tecnologias na pesquisa e na formação do pesquisador em história da educação” que foi organizado pelo Grupo de Trabalho de História da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) realizado em Belo Horizonte em agosto de 2000. Hoje existe um amontoado de fotos. Fotos da câmara digital, do celular, Instagram e do tablet, armazenadas em CD-ROM, Pen Drives ou publicadas nas páginas pessoais das redes sociais. Até no Currículo Lattes há espaço para, no mínimo, publicar a foto do autor das proezas descritas no currículo. Se fosse para imprimir ou ‘revelar’ todas as fotos produzidas certamente surgiria a possibilidade de uma reprodução do conto de Júlio Cortázar 1 , só que em vez de escritos seriam fotos. Nota-se que em torno do mundo virtual já está existe inúmeras linguagens de imagens. É natural todo pesquisador em história, e neste caso, em história da educação a preocupação com a preservação de documentos, registros e fotografias antigas e atuais. Este zelo, invariavelmente acaba influenciando atitudes como potenciais fontes históricas para o futuro. Assim esta reflexão converge para três pontos relativos ao tratamento de informação, da fotografia em especial, e a preservação da fonte imagética e o impacto das novas tecnologias nesta preservação. São eles: A atual “sociedade do esquecimento”; as novas formas de armazenamento de informações; e por último a necessidade de equipamento mediadores para o acesso às informações.

1 Conto “Fim do mundo do fim” conta sobre o aumento no número de escribas, em consequência a reprodução de manuscritos foi tão grande que o mundo ficou constituído de livros. U mar de livros, paredes de livros. Parte deste conto foi apresentado por Diana Vida l, no citado livro “Arquivos, Fontes e Novas Tecnologias questões para a história da educação” que foi organizado pelo Professor Luciano Mendes de Faria Filho, nas páginas 31, 32 e 33.

O avanço tecnológico da 3º revolução industrial, que iniciou após a 2ª Guerra

Mundial, é marcada pela revolução da tecnologia da informação, tendo por base o

desenvolvimento da microeletrônica, computadores e telecomunicações. Aumentou

consideravelmente a produção e troca de informações e, com isso, as formas de

armazenamento.

Tais fatos criam para o homem contemporâneo quase a obrigação de consumir a informação de forma acrítica, sem maior cuidado seletivo, perdendo-se, portanto, uma das mais importantes funções da memória humana a capacidade seletiva que é o PODER de escolher aquilo que deve ser preservado, como lembrança importante e aqueles fatos e vivências que podem e devem ser descartados. (VON SIMSON apud FARIA FILHO 2000 p. 64).

Hoje os suportes de memória e registros se ampliaram de tal forma que é difícil acompanhá-los. Da escrita à nuvem de armazenamento os aparatos tecnológicos vão se modificando e com eles surgiram novas profissões e instituições, atuando como filtros de seleção do que deve ser retido e o que deve ser descartado, tomando-se como base a cultura de determinada sociedade.

São elas os museus, arquivos e centros de memória, que de alguma forma e segundo critérios previamente estabelecidos realizam o trabalho de coletar, tratar, recuperar, organizar e colocar à disposição da sociedade a memória de uma região específica

(VON SIMSON apud

ou de um grupo social retida em suporte materiais FARIA FILHO 2000 p. 64).

No caso da fotografia, outras formas de armazenamento não profissionais que sempre existiram também sofreram modificações. E de certa forma sofreram uma ação reversa ao tratamento de informações. Os antigos álbuns de família, retratados e compostos por profissionais, hoje estão difundidos e popularizados devido ao fácil acesso a equipamentos digitais. A escolha e descarte agora são instantâneos, afinal a foto tem a imagem capturada “revelada” na visualização do display das máquinas. O cenário preparado de antes virou o informal e casual de hoje. As redes sociais são os “álbuns modernos” onde se registra de tudo um pouco. O descarte também é instantâneo, não se guarda mais fotos, retrata-se o momento, publica-se em redes sociais e fim! Algumas são selecionadas e são guardadas em aparatos tecnológicos de armazenamentos como pen drives, CD-ROM. Poucas fotografias são “reveladas” (impressas). Outro risco para os ‘albuns de família modernos’ ou redes sociais é o aparecimento de um programa, que pode até ser de qualidade pior, que entre na moda. A migração de usuários do programa ‘orkut’ da Google Co., para o Facebook por exemplo pode ter causado o efeito de descarte de histórias e fotografias de uma década. Estão lá, abandonadas uma infinidade de histórias e registros à espera de um pesquisador, no caso da história da educação em busca de relações educativas.

Mas não é só as redes sociais que caem em desuso. Os aparatos de armazenamento de dados também evoluem. A capacidade de armazenamento aumenta quase na mesma proporção que seu tamanho diminui. Hoje não há nem a necessidade da existência física deste assessório de memória. Isso vem acompanhado de outra questão: “Os códigos de leitura necessitam ser partilhados e construídos historicamente. No entanto, seu fechamento nunca é tão completo quanto o disquete ou CD-ROM, cuja leitura deve ser sempre mediatizada pela máquina” (VIDAL, 2000, p. 35) A evolução deste aparato tecnológico no pensamento de Le Goff (apud FELIZARDO & SAMAIN, 2007) é o aparato que revoluciona a memória, a sociedade da época, o pensamento moderno e as implicações desta evolução na memória coletiva e individual. Logo, as reflexões sobre o impacto das novas tecnologias na leitura mediatizada pela máquina (suporte digital) e o rápido descarte de equipamentos de armazenamento e leitura de drivers (disquete 3 e 1/4 por exemplo) podem ser medidas importantes que vão colaborar com a pesquisa histórica.

Para Diana Vidal (2000) aponta a necessidade urgente de uma política de preservação e descarte documental, sob o risco de legarmos ao futuro o que o passado nos legou: documentos que sobrevivem a uma espécie de seleção natural. As formas de apropriação do dado, suas fragilidades e o tempo que uma informação pode ser guardada em suporte digital são pontos de análise que crescem no campo da história da educação na proporção direta do surgimento de novas tecnologias e no descuido da preservação dos equipamentos-suporte do suporte documental. Segundo Diana Vidal o Bibliotecário Fred Lerner aponta dois pontos que também devem ser observados: a) manutenção de um quadro de especialistas que constantemente se ocupem de atualizar informações, renovando os programas e as máquinas de uso; b) guarda, por parte das bibliotecas de várias versões de hardware e software, de forma a permitir que cada peça seja lida no equipamento para a qual foi produzida.

4 Considerações Finais

A fotografia como fonte histórica é relevante, mas é preciso considerar que, assim como os testemunhos orais e textos escritos, deve ser tratada como um vestígio de uma época que possibilite o entendimento de uma realidade e a elaboração de uma versão do passado.

A memória humana não pode ignorar a fotografia como diversificação dos

fragmentos/documentos históricos, conforme sinalizam as escolas historiográficas

contemporâneas.

REFERENCIAS

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VON SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes. Memória, cultura e poder na sociedade do esquecimento: exemplo do Centro de Memória da UNICAMP In: FARIA FILHO, Luciano Mendes(Org). Arquivos, Fontes e Novas Tecnologias questões para a história da educação. Campinas-SP: Autores Associados, 2000. p. 63-74.