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MAP-2013 – Benjamin Soares de Azevedo Neto Proposta de tema para Projeto Final / Dissertação

Reforma da Representação Democrática: Desafiando a mediação partidária

Sumário:

A proposta é um estudo de caso com foco na crise de representação democrática explicitada pelas manifestações populares de junho/2013. Pretendemos realizar pesquisa exploratória com listagem dos problemas existentes, revisão das principais propostas de reforma política e a comparação com outros contextos e teorias de representação que possam ter aplicação ao caso em estudo.

O objetivo é ao final avançar na construção de modelo com alternativas para aperfeiçoamento da atual representação mediada pelos partidos políticos e também com novas formas de representação democrática não partidária, através das quais a representação social possa se fazer de modo mais efetivo, com o mandato outorgado pelo voto sendo mais aderente, alinhado e vinculado aos interesses do eleitor. Tudo isto em formato capaz de vencer as previsíveis resistências para mudança de tal natureza ser aprovada pela própria classe política.

Detalhamento:

Com as expressivas manifestações populares de junho de 2013 em todo o Brasil veio incorporar-se à antiga discussão da reforma política, aí incluso o sistema eleitoral, forte questionamento da representação democrática, colocada em cheque pelos protestos.

Pesquisa realizada pelo IBOPE durante as manifestações confirmou como uma das principais motivações dos protestos o fato do povo não se sentir representado pelos partidos e pelos representantes eleitos.

Por disposição constitucional, e a exemplo da praxis no resto do mundo, a representação democrática é mediada pelos partidos políticos. Para alguém poder disputar uma cadeira parlamentar ou um cargo executivo deve estar filiado a um partido político.

E o cidadão enquanto eleitor, independentemente de seus interesses, associações e preferências, somente pode escolher seus representantes dentre os membros dos partidos políticos designados candidatos pelos próprios partidos. Há assim o monopólio dos partidos como canal de escolha da representação democrática. As pessoas fazem parte de muitos clusters, e com os quais mantêm ligação mais profunda, por razões profissionais, religiosas, sindicais, raciais, de minorias, convicções ou estilo de vida. Mas estas afinidades não podem ser representadas diretamente numa eleição, pois a legislação vigente impõe obrigatoriamente a intermediação partidária.

Convive assim com o sistema político todo um contexto de afinidades e interesses naturais que se manifesta na forma de grupos de interesse e bancadas, que se integra com o sistema partidário de forma transversal, relacionando com este, mas sem com ele se confundir: bancadas ruralista, evangélica, da saúde, etc.; movimentos sindicais e de minorias; lobbies diversos; e agora explicitados, os movimentos populares organizados através das redes sociais. Estes últimos responderam pelas manifestações de junho último, trazendo surpresa a todos, inclusive a própria classe política e os estudiosos da política, todos assombrados com a força e velocidade de mobilização do movimento, a despeito da pauta pouco definida e da ausência de real coordenação.

Os partidos por sua vez, em sua maioria, perderam identidade ideológica e funcionam como estruturas de intermediação no processo eleitoral, num momento buscando votos, e no exercício do mandato buscando obter vantagens que os sustentem e permitam se preparar para o ciclo eleitoral seguinte. Este processo traz como consequência campanhas eleitorais caras e induz nos políticos, em parte por instinto de sobrevivência, comportamentos rentistas irregulares quando no poder, que

se sobrepujam à defesa de pontos programáticos. O eleitor não tem controle da atuação do seu representante e não se sente representado, como revelou a pesquisa pós-manifestações.

Como parte de disciplina do MAP no período passado apresentei uma proposta diferenciada de reforma eleitoral, explorando abordagens distintas das tradicionalmente encontradas, que trago um resumo no apêndice ao final deste projeto. Em lugar do voto distrital, que leva para a Câmara interesses regionais, propusemos ideia diametralmente oposta, com sistema misto que reserva 112 cadeiras para “deputados nacionais” escolhidos através de votação nacional, sem alterar, contudo, o número total de deputados, mantido em 513. Os “deputados nacionais” seriam escolhidos sem mediação partidária, através de mecanismos como candidatos avulsos (personalidades e candidatos de opinião) e/ou pela clusterização de grupos de interesse diversos e sua inserção no processo eleitoral como mediadores da representação, à semelhança dos partidos políticos, mas em disputa apartada destes. O deslocamento da votação destes Deputados Nacionais para o conjunto da nação coaduna-se com a noção de que a Câmara deveria tratar temas de estratégicos e proposições nacionais. Ao mesmo tempo resgatamos a representação proporcional dos estados ao reservar em nova distribuição por estados as 411 cadeiras remanescentes para “deputados federais”, que continuariam a ser eleitos em colégio eleitoral estadual e através da mediação partidária e com viés regional.

Sem nos prendermos a esta nossa proposta, iremos rever junto com ela as propostas de reforma eleitoral formuladas ultimamente pelos principais cientistas políticos e movimentos políticos organizados, analisando os detalhes das mesmas e a experiência de outros países. Veremos outros possíveis efeitos das opções estudadas, como influência na redução do custo das campanhas eleitorais. As alternativas sugeridas nestas propostas podem apresentar dificuldades análogas às existentes e que devem ser explicitadas e analisadas, como por exemplo a escolha dos representantes de grupos de interesse, que demanda mecanismos equivalentes às listas partidárias fechadas ou abertas e a garantia de futura aderência dos representantes às inspirações do grupo. Alterações que promovam maior diversidade da representação, ao mesmo tempo que espelham melhor os interesses dos eleitores, trazem também consequências quanto à governabilidade ao fragmentar ainda mais o quadro político e ao mesmo trazer posições ideológicas mais firmes e menos flexíveis.

Pretendemos explorar também possíveis referências em outras teorias relacionadas, eventualmente aplicáveis ao caso concreto, como teoria de redes, redes sociais, coprodução, legislação societária e práticas de governança corporativa, enfim diferentes contextos em que diversos participantes são representados em uma instância empoderada e estão presentes as mesmas questões de representatividade, poderes delegados e limites do mandato outorgado. Estes outros campos podem trazer novas construções aplicáveis ao problema da representação democrática.

O quadro político tem uma forte inércia e resistência à mudança. As propostas para alteração e aperfeiçoamento destes mecanismos sujeitam-se à aprovação pelo próprio Congresso e, salvo oportunidades como a crise gerada pelas manifestações, as dificuldades de mudanças muito bruscas e radicais são substanciais, pois há evidente conflito de interesses entre o que deseja a sociedade e o que interessa a partidos e parlamentares. Há, portanto, que se verificar que as propostas de mudanças não representem uma ruptura total com o status quo e ao mesmo tempo tenham atrativos capazes de mobilizar a parcela mínima de apoio necessária à sua aprovação, tendo potencialmente mais apoiadores do que opositores.

Apêndice: Resumo da Proposta de Benjamin Azevedo para Reforma do Sistema Eleitoral

O núcleo da proposta é a alteração da composição da Câmara de Deputados, visando criar novo mecanismo de representação, ao mesmo tempo em que, como subproduto da alteração, reduz as diferenças de representação entre os Estados. A Câmara de Deputados, mantido o número atual de 513 Deputados, passaria a ter 411 Deputados Federais, representando os Estados ,eleitos pelo mecanismo atual através de disputa partidária; e 112 Deputados Nacionais, eleitos conforme novo mecanismo, com votação consolidada a nível nacional, sem intermediação partidária, representando movimentos sociais diversos e candidaturas avulsas.

Abriríamos assim espaço para deputados de opinião (personalidades nacionais reconhecidas como capazes de contribuir com os debates nacionais que devem ter lugar na Câmara) e para a representação direta, sem intermediação dos partidos. Assim, evangélicos, aposentados, categorias sindicalizadas, estudantes, militares, homossexuais, idosos, mulheres, minorias organizadas, etc., poderiam buscar participação direta na Câmara.

A divisão de 80% das cadeiras pelo mecanismo tradicional e 20% pelo novo mecanismo permite introduzir a novidade sem uma ruptura brusca, de modo que se possa conhecer seus efeitos sem riscos excessivos. Os grupos funcionariam à semelhança das legendas partidárias. Na urna eletrônica ter-se-ia apenas mais um “cargo” para votação, deputado nacional, em paralelo com os demais já existentes.

Abaixo a simulação da proposta, no que se refere às bancadas de Deputados Federais por estado, repartidas conforme o Censo IBGE (2010), considerando novo limite inferior de representação estadual, reduzido de 8 para 2 cadeiras. Foi mantido o limite máximo de 70 cadeiras para um estado. As percentagens de representação dos estados ficam bastante próximas da distribuição populacional.

ATUAL

PROPOSTA

 

%

Deputados

%

Deputados

%

ESTADO

População

Popul.

Federais

bancada

Federais

bancada

Acre

733.559

0,4%

8

1,6%

2

0,5%

Alagoas

3.120.494

1,6%

8

1,6%

7

1,7%

Amapá

669.526

0,4%

8

1,6%

2

0,5%

Amazonas

3.483.985

1,8%

9

1,8%

8

1,9%

Bahia

14.016.906

7,3%

39

7,6%

32

7,8%

Ceará

8.452.381

4,4%

24

4,7%

19

4,6%

Distrito Federal

2.570.160

1,3%

8

1,6%

6

1,5%

Espírito Santo

3.514.952

1,8%

9

1,8%

8

1,9%

Goiás

6.003.788

3,1%

17

3,3%

14

3,4%

Maranhão

6.574.789

3,4%

18

3,5%

15

3,6%

Mato Grosso

3.035.122

1,6%

8

1,6%

7

1,7%

Mato Grosso do Sul

2.449.024

1,3%

8

1,6%

5

1,2%

Minas Gerais

19.597.330

10,3%

55

10,7%

44

10,7%

Pará

7.581.051

4,0%

21

4,1%

17

4,1%

Paraíba

3.766.528

2,0%

10

1,9%

8

1,9%

Paraná

10.444.526

5,5%

29

5,7%

24

5,8%

Pernambuco

8.796.448

4,6%

24

4,7%

20

4,9%

Piauí

3.118.360

1,6%

8

1,6%

7

1,7%

Rio de Janeiro

15.989.929

8,4%

45

8,8%

36

8,8%

Rio Grande do Norte

3.168.027

1,7%

8

1,6%

7

1,7%

Rio Grande do Sul

10.693.929

5,6%

30

5,8%

25

6,1%

Rondônia

1.562.409

0,8%

8

1,6%

4

1,0%

Roraima

450.479

0,2%

8

1,6%

2

0,5%

Santa Catarina

6.248.436

3,3%

17

3,3%

14

3,4%

São Paulo

41.262.199

21,6%

70

13,6%

70

17,0%

Sergipe

2.068.017

1,1%

8

1,6%

5

1,2%

Tocantins

1.383.445

0,7%

8

1,6%

3

0,7%

BRASIL

190.755.799

100,0%

513

100,0%

411

100,0%

Deputados Nacionais

112

TOTAL

513