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Salomão Rovedo

O breve reinado das donzelas


(Contos)

Rio de Janeiro
2009
Salomão Rovedo 2

O breve reinado das donzelas


(contos)

Rio de Janeiro

2009
Índice 3
1. Amor por Anita, pg. 4

2. Anjo, antes Jorginho, pg. 9

3. Dez para as nove, pg. 14

4. Greve, pg. 24

5. O breve reinado das donzelas, pg. 29

6. O caso João, pg. 39

7. O crime de Jesus Carlos, pg. 43

8. El día em que el mariscal Bolgueredo se


tornó heroe nacional, pg. 50

9. Juana, Joana, pg. 54

10. O diário desconhecido, pg. 63

11. O evangelho segundo, pg. 73

12. Um caso intrincado, pg. 78

13. Uns natais, pg. 88

14. Primeiro Natal, pg. 95

15. Segundo Natal, pg. 100


AMOR POR ANITA 4
Quem visse o Jorge Fontes andar diria que ele era um inválido
sem ocupação. Mas, isso não acontecia com o Jorge Fontes. No seu
andar coxeante escondia toda a ira que possuía. Por que? Ninguém
sabia. Talvez por ser assim todo torto ou por ser um desses que vivem
à margem da sociedade, mas tendo que conviver na marra. Para essa
mesma sociedade, ele era o símbolo de vícios e viciados.

Tinha o lado direito do corpo quase todo congestionado, por


conta de uma poliomelite. O braço direito vivia sempre dentro do
bolso como se pudesse esconder do mundo a mazela que retardava
todo o organismo. As pernas tortas produziam um caminhar
requebrante, desconexado. Os pés metidos em botinas que vinham até
o tornozelo escondiam o dedo boloso, o calcanhar ossudo e disforme.
Andava com quem desce uma escada. A perna direita sempre abaixo
da esquerda.

Uma coisa, porém, Jorge Fontes fazia questão de não esconder: a


sua inteligência e capacidade acima do normal. Formado em Direito
gostava de demonstrar a facilidade com que os códigos, leis e sistemas
jurídicos se adaptavam fácil ao cérebro. Tendo escrito algumas
poesias e contos não escondia igualmente as lindas composições.
Sendo líder estudantil por época do colégio não vacilava em liderar
grupos e associações de caráter semi-político. Era por todas essas
razões um socialista.

Por época das eleições estaduais buscava se enquadrar num


partido oposicionista e saía a fazer campanhas e discursos sem cobrar
nenhum dinheiro por isso. A sua oração vibrante prendia toda a
assistência por longas horas. O candidato se consolidava sempre como
um homem que mereceria ser eleito. Às vezes o merecimento era
válido, outras não. E quantas e quantas vezes o seu candidato se elegia
à custa de sua oratória vibrante.

Porém, nunca o Jorge Fontes se candidatou a nada. Nunca.


Sindicatos o convidavam e a negação vinha sempre. Partidos e
coligações fortes faziam visitas à sua residência e obtinham um não
firme e sincero.
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Oferecia o seu serviço sem dúvida nem recompensa, desde que
fosse uma oposição. Sempre em defesa do povo e das massas. Sempre
em defesa do operariado e da plebe. A palavra fluía-lhe
maquinalmente e empolgava. Era um verdadeiro líder e não tirava
quaisquer lucros financeiros dessa situação.

Combatia pelo interior do estado como verdadeiro Cristo.


Levava aos camponeses a palavra de libertação do jugo latifundiário.
A palavra de um futuro promissor e longo. Era tanta a sua fama que as
autoridades não deixaram de abrir uma ficha especial com o nome de
José Jorge Fontes. E era respeitado pelos intelectuais que defendiam a
livre democracia. Antes de tudo, Jorge Fontes estudou a fundo toda a
literatura que circundava a questão ideológica em voga no mundo.

Gostava, não negava a ninguém, de beber e se divertir, quase


sempre sem limites. Gostava de mulheres e eram freqüentes suas
aventuras com mulheres casadas. Tudo, porém, discretamente. Só os
íntimos é que tinham conhecimento de algumas aventuras. E possuía
no interior uma moça de quem era noivo.

Era uma história à parte. Estava noivo e pretendia casar-se


dentro em poucos meses. Na sua vida turbulenta havia sempre um
adiamento para o tal casamento. Mas o dia haveria de chegar. Depois
que montasse o escritório de advocacia poderia marcar a data do
enlace e executá-lo. Então, viveria tranqüilo somente para sua família.
Abandonaria o Partido e viveria como um homem qualquer. Vivendo
do seu escritório que daria por certo algum dinheiro em virtude dos
conhecimentos das necessidades populares.

O encontro tardou. A demora foi grande. Jorge Fontes vivia


sempre muito ocupado com as lutas pela causa. Queria um futuro
melhor para seus filhos e netos. Para ele não. Ele deveria ser
sacrificado para que, no futuro, alguém pudesse viver em abundância.
Era o que ele pensava. Tinha aquela obsessão por um mundo melhor e
não se largava daquilo. E se pensava que alguma coisa daquelas não
desse certo. se não fosse o que imaginara.
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E o sacrifício despendido por Anita? Anita sonhara com um
casamento feliz. Com Jorge Fontes não sabe por quê. Por que gostava
dele. O fato é que gostava e não era um gosto desses de cidade. Ela
nascera no interior e fora criada ali. O pai, fazendeiro rico a levou na
Cidade para estudar. Interna, no convento de freiras, Anita criou
princípios inabaláveis de cristandade. Estudou e era inteligente
sabendo discernir os dois princípios pelos quais se preocupara. A
questão socialista-católico-democrática tomou firmeza quando
conheceu Jorge Fontes.

A sincera personalidade de Jorge Fontes a encantou. Passada a


primeira etapa de simpatia pôde analisar serenamente o caso e aceitou-
o como companheiro. Era frágil e possuía uma palidez encantadora.
Tinha saúde precária. O pai tratava-a com carinho como filha única.
As duas famílias se conheciam e fizeram o compromisso à parte. Tudo
socialmente. E, se tudo desse certo haveriam de ser felizes. Ela, a
esperança de ter uma prole de três ou quatro filhos. Ele, com o mesmo
desejo sobrepujando as aspirações idealísticas.

Ali, não era o Jorge Fontes dos discursos inflamáveis e das


exaltações ante um povo comprimido. Era simplesmente José para
Anita e para ele mesmo. Um José comum como milhares de Josés que
existem pelo mundo a fora. Um namorado tímido que gostava de falar
coisas poéticas quando a lua encimava os rincões sertanejos. A terra
interiorana com seu esquisito valor comete as mesmas venturas aos
que por lá amam. A influência é nítida. a diferença entre os amores
citadinos e do interior é clara. Ainda mais quando se tem uma alma
igual a dos poetas antigos, porém, adaptada à vida moderna.

Subitamente Jorge Fontes partia. Ninguém chamava, mas ele


sabia a hora que deveria ir. Encontrava-se de novo na qualidade de
homem do povo. Lutador e fogoso como um animal de raça. Combatia
e cansava. O silêncio de que necessitava? O repouso? Ares puros e
cheiro de mulher? Anita era quem fornecia esses elementos. E de
vontade própria anexava a essas necessidades um amor e um carinho.
Eram essas horas de que Jorge Fontes se lembrava com mais
insistência. Era por isso, que desejava uma vida de casado sem
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preocupações com seus ideais políticos. Era José amoroso ou Jorge
Fontes vibrante. E a decisão tinha que ser breve, pois há certas coisas
que não podem esperar. Anita era uma dessas.

A figura de Jorge Fontes brilhava nas poças de chuva. Eu estava


com ele. Eu era o seu companheiro de bebidas e de discussões.
Tínhamos choques tão grandes na questão ideológica que às vezes
quase brigávamos. Quem passasse no momento em que discutíamos
pensaria que não havia amizade nenhuma entre nós. No entanto,
havia. Talvez essa discordância fosse a criadora dessa amizade. Talvez
a bebida. Conheci-o numa mesa de bar. Nós ficamos bons amigos e a
amizade até hoje perdura. E faz dez longos anos que nos conhecemos.

Quanto tempo! Só não conheci Anita. Aquela Anita que ele me


falava com um tom diferente na voz. Uma Anita a quem ele
declamava poesias de Bilac, Drummond e outros com qualidade
insuperável. Isso quando a bebida já tomava conta de nossos corpos
sem virilidade. Já dormentes pelo álcool virávamos pessoas
entrelaçadas. Um só corpo, um só valor. Fazíamos também, longas
farras pelas ruas, bares, sentando na beira das calçadas com pessoas
desconhecidas. Um anonimato que nos agradava igualmente.
Virávamos irmãos. E desejávamos que assim fosse por muito tempo.
Eu tive que viajar. Ele ficou não sei como.

Só não fui o primeiro a ter conhecimento da notícia porque a


família dele soube antes. Foi o que ele me disse e eu acreditei:

– Alfredo, você será o primeiro dos amigos a saber que minha


noiva morreu.

Foi só. Não me contou como e eu não perguntei. Não me deu


detalhes e eu não quis saber. E fomos beber juntos mais uma vez para
lamentar a morte de Anita. Anita que eu não conheci, mas que sempre
a tinha na imagem pelas descrições perfeitos que ele me fazia. Uma
figura esbelta e alta com os cabelos negros caindo pelos ombros. A
face pálida. E aqueles olhos inquietos. Eu já gostava de Anita como
pessoa da família. Era-me íntima e eu falava com ela em pensamento.
Se ele vivia as discussões com ela eu vivia também. E se ele sofreu
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com a morte dela.

Nem sei se era como uma pessoa de família. À primeira


descrição descobri que Anita era também o tipo que me agradava. Ou
o tipo que agrada a todo mundo? Imaginava os cabelos pretos caindo.
Acariciava-os. Sentia minha mão deslizar sobre eles e aproximar-se do
pescoço fino. Ela arqueava-se a essa carícia. Os lábios iam em direção
ao céu e semi-abertos beijavam o infinito. Somente sua mão delicada
era que me devolvia a carícia recebida. E depois de apertar levemente
a minha mão fugia esvaindo-se pelas nuvens noturnas. (1963)
ANJO, ANTES JORGINHO 9
Quando Anjo acordou chovia e o dia estava cinzento, quase
escuro deixando aquele vazio por dentro mais intenso. Sentia uma
solidão imensa. Levantou e foi à janela onde a água escorria
abundantemente. A paisagem adiante se mostrava turva ante Anjo e,
vendo-o através do vidro, era como se chorasse e tivesse os olhos
cheios de lágrimas.

A praia extensa era toda ondas, encaracolada e encoberta por


uma névoa tênue. Anjo encostou o nariz no vidro frio e ficou vendo as
ondas estirarem-se na praia até uma curva onde a neblina tornava-se
mais espessa engolindo tudo. Atrás de si a porta abriu-se e Anjo viu
sua mãe entrar exclamando admirações por encontrá-lo já acordado.

Aproximou-se: querido! Já estás de pé? Deu-lhe um beijo na


face que não foi retribuído. Contrariada observou a frieza do
recebimento e do rosto. Falou-lhe também por estar ale encostado
àquele vidro frio.

Anjo continuou sem qualquer vontade de mover-se dali, embora


não visse mais coisa alguma, pois os olhos já ficavam turvos
igualando-se ao vidro que recebia água da chuva. Mecânico,
lentamente saiu ante a voz imperiosa da mãe:

Saia daí! Anjo caminhou para o banheiro, cabisbaixo e passos


marcados. Conseguiu, antes de sair do quanto, já à porta, perguntar
num fio de voz:

Mãe, quando é que papai volta?

Prosseguiu caminhando e, já no corredor, escutou a resposta da


mãe, ainda meio contrariada:

Ah, é isso. Ele vem logo. Amanhã ou depois já estará aqui.


Quem manda ele arranjar essas viagens demoradas?.
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E continuou falando coisas que Anjo não mais ouvia. Lembrava-
se apenas da noite anterior. Um ódio, raiva mesmo, cobria-lhe o rosto
dum vermelho vivo e sentia a cabeça quente, bem quente, além
daquele amargor na boca que a pasta dental não apagava.

Na rua chovia ainda.

Rápido filhinho está na hora da escola.

Era sua mãe que dizia andando pela casa toda, arrumando-se e
dando ordens à empregada. No quarto, viu Lúcia, sua irmã, deitada
com os cabelos louros esparsos no travesseiro.

Foi até lá, curvou-se e encostou-se no rosto de Lúcia, quente e


macio. Lúcia era bonita, achava.

Minha irmãzinha linda pensava enquanto dava-lhe um beijo e


mais outro, antes de sair.

Mamãe. Quando é que a Lúcia vai estudar? Perguntou na


esperança de que fosse logo para tê-la ao seu lado, para brincar com
ela o dia todo no colégio. Não queria que Lúcia ficasse em casa para
ver certas coisas que trariam infelicidade e tristeza. Ele já era um
homem e iria tomar conta de Lúcia até ela ficar grande e poder tomar-
se conta. Ninguém haveria de tocar um dedo em Lúcia na sua frente.
Jamais!

Lúcia é muito nova para ir ao colégio, só ano que vem.

Esperou triste sua mãe dar últimas ordens apressadas e ir até o


quanto onde Lúcia ainda dormia. Viu-a na imaginação dar um beijo no
rosto de Lúcia e sentiu-se com vontade de puxá-la pelo braço para
evitar que a marca de batom ficasse no rosto dela. Ninguém suma o
rosto de Lúcia na sua frente! Ninguém!

Caminhou para o elevador chateado com a demora da mãe.

Mããêê!
Caminhava pendurado no braço da sua querida mãe bonita que
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todo mundo olhava com admiração. Gostava de ter uma mãe assim.
Mascava chicles e uma bola verde de quando em quando flutuava sob
seu nariz para depois estourar. Olhava vitrines, mas não podia parar
para vê-las melhor porque sua mãe estava com pressa. Viu-a parar
depois continuar andando a meios passos. Foi aí que viu aqueles pés
grandes ao lado dela. Olhou.

Um homem alto de grandes bigodes conversava com sua mãe e


não gostou nada. Achou-o logo feio, além de fazer com que sua mãe
parasse ali aonde não tinha nada para se ver. Puxou-a pelo braço, com
toda força que tinha, e gritou:

Mãe! Vamos.

Viu a face dela ficar irritada, bem contrário à voz que


murmurante lhe dizia:

Fique quieto, Jorginho. Tome um chicle pra você.

Cuspiu o chicle que tinha na boca. Não queria mais chicles. Sua
cabeça ficou quente e sentiu um amargor na garganta. Ficou com raiva
daquele homem que estava fazendo sua mãe ficar zangada. Morderia o
braço dele, que agora estava segurando o braço da mãe, e estaria livre
daquele bigodudo feio que veio atrapalhar o passeio pela cidade.

Eu ao quero chicles mãe!

O homem tentou se gentil. Acariciou-lhe a cabeça que logo


afastou e quis falar com voz macia. Não queria.

O que você quer meu benzinho?

Era a voz da mãe que perguntava, cortando seus pensamentos de


dar um chute na canela daquele homem. Largue o braço de mamãe!
Queria gritar a ele, mas sentia faltar-lhe a voz. Aquele homem alto era
muito forte. Mas não sentia medo algum.
Eu quero ir para casa!
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Não, não queria ir para casa. Queria passear com sua mãe ao
lado, vendo as vitrines e as outras crianças que estavam também
passeando. Mas, aquele homem de bigode veio atrapalhar tudo!

Eu quero ir para casa, repetiu com firmeza. Seria melhor ir para


casa ver televisão que estar ali no meio da calçada, naquele lugar que
não tinha nada para ver. Todas as vitrines bonitas estavam ainda à sua
frente. Bastaria andar alguns passos para ver de novo tudo bonito.

Eu quero ir pra casa, mãe, insistiu.

Admirou-se de sua mãe quando a ouviu dizer:

Pois bem, já vamos para casa.

Alegrou-se, pois viu que sua mãe ainda gostava dele. Não estava
mais com aquela cara irritada e já falava naturalmente. Quis mostrar a
língua aquele homem de grandes bigodes numa careta que
demonstrasse que sua mãe estava livre dele. E fora ele, Anjo, que a
salvara com a sua insistência em ir pra casa, lugar que não queria ir
mesmo. Mas, o sacrifício pela mãe, que ele tanto adorava, que se
sentia alegre quando a chamavam de linda, com aquele bonito garoto
ao lado. Era ele.

Ao subir ao táxi novamente sua cabeça inchou, ficou quente, que


fez sentir a garganta fechada por um nó. Aquele amargor estúpido.

Mataria aquele sujeito!

Quando Anjo subiu no táxi com sua mãe, o homem de grandes


bigodes abaixou-se e deu um beijo na face linda de sua mãe. Anjo,
num ultimo esforço conseguiu puxar o braço dela e, então chorou.
Chorou muito durante toda a viagem de táxi. E sua mãe não o conteve
por mais carinhos fizesse, por mais palavras dissesse.
Repeliu a mão que acariciava seu cabelo. 13
Nunca esqueceria aquele homem de bigode nem as palavras ditas
após o beijo do táxi:

Às oito.
DEZ PARA AS NOVE
(Em ritmo da Confissão)
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Não se deve abominar a guerra, ela é tão necessária quanto à
paz. É o próprio prenúncio à paz. O mundo todo hoje guerreia em
busca da paz. Que a guerra tenha, pelo menos, esse caminho
honroso.

Desliga esse rádio. Pronto! Clique. O silêncio tomou conta do


quanto. Fumavam os dois estirados na cama. Marília se levantou
preguiçosa e ficou admirando a manca disforme no lençol,
enquanto César dormitava virado para o outro lado a fim de não
sentir-lhe o cheiro.

- César, levanta!

César se virou e viu Marília, as calcinhas negras. Marília, os


seios jogados à frente. Marília, os cabelos lisos além dos ombros.
Marília, a pele alva e a pele morena de sol. Marília, as coxas fortes.
Marília, as plumas no sexo.

Livrando-se da dormência César levantou, foi até o banheiro,


se deixou molhar pela água fria. O que aconteceu? Nada,
absolutamente nada. A tarde ia morna deixando um rosa-
vermelho no ar. Marília era virgem. Foi um dia. Era até as três
horas da tarde morna. Seu corpo não estava dolorido, não se
sentia chateada e a pasta de dentes tinha o mesmo gosto. No
quarto, somente os ruídos que faziam na faina de se arrumarem.

- Vamos ao cinema?

Iriam ao cinema assistir a qualquer fita, depois Marília


retornaria à sua residência e ele ficaria rondando à noite em busca
do nada. Esta seria a repetição de tantos dias e noites passadas e
repassadas. Conversaria com conhecidos entre risadas de parte a
parte, nenhuma comunicação do ocorrido com Marília.
Um segredo feliz que nunca contaria. 15
Na segunda-feira o emprego traria a rotina cotidiana e
inevitável. Correspondências, conversas apenas de serviço que
tomariam conta do dia até que tudo se apagasse. No futuro, novos
encontros com Marília. Ela gostaria. Para rever um corpo, sentir o
cheiro da cama, o calor da carne rejuvenescida. No rádio gostaria
de ouvir de novo Bach, a mesma música, mas gostaria de evitar
aquela voz falando de guerra como um padre fala de Deus: Não se
deve abominar a guerra.

Eu sei, eu sinto, eu vejo, você uma mulher sofrida,


supersensível, que ainda não encontrou o caminho, o que busca,
isto é, ainda não deu definição à vida, faltando algo para sentir-se
mais inteiramente realizada, como gente, como mulher, como
pessoa, enfim, que necessita de realização, encontro consigo
mesma, ou alma, ego espírito. Nessas horas tenho o coração
aberto enternecido para você, gostaria que me contasse tudo,
tudo, tudo aquilo que está dentro, no fundo, no mais fundo do
coração e da alma, saber de tudo devagarzinho, contado aos
poucos, intimamente, como se fosse um romance em capítulos
semanais.

Não penso realmente que essa coisa eu sinto faltar em você,


noto você procurando achar loucamente com ansiedade e muita
garra de mulher valente, força de vontade, não penso que seja eu
essa coisa, mas bem que gostaria. Tenho o sentido suicida da
viúva-negra que mata para perpetuar a espécie. Gostaria, sim, de
peito aberto, ter sido essa pessoa, coisa, porto amigo. Na verdade
sei que é desejo impossível, ao mesmo tempo esperança que me
alimenta o amor, a alma, a vida.

É esse o sentimento que gostaria de transmitir a você, mas


não consigo jamais. Não diga que devo perder todas as esperanças
de amá-la totalmente (aqui vale a palavra em toda a sua extensão
física), tenho certeza que várias úlceras vão me castigar
internamente, roendo minhas vísceras. Nesse exato momento uma
parte de mim há estará morta.
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Por outro lado, você não consegue de modo algum captar o
que sinto e transmito, participar do sentimento que irradio e
desejo fazer sentir, algo me faz insistir, insistir e insistir sempre,
para que não me torne um robô, como sistematicamente temo que
ocorra toda vez que, como uma anêmona, você vem e vai ao sabor
do vento, da maré.

Por que certas horas deixo de falar com você? Por que em
muitos momentos procuro o exílio voluntário para demonstrar
minha mágoa? Parece contraditório tudo isso, a pessoa que diz e
confessa amar de verdade simplesmente se afasta do convívio do
ente querido! Como, porém, resistir permanecer ao seu lado
sentindo um calor abrasante que transmite o seu corpo com todas
as intimidades. Ter você, sua boca, lábios, ali bem próximos ao
menos aceno das mãos sem nada poder fazer? Como agir se desejo
loucamente gozar tudo isso o maior dos gozos, fazê-la sentir o
mesmo, gozar de todas as maneiras e artes que sei fazer? Você tão
perto e tão longe, tão acessível e tão impossível, se for pensar
continuamente nisso é para ficar louco mesmo!

Então aí está como sentir-se melhor com a pessoa amada.


longe e sem falar com ela, um modo muito pertinaz de fazer
sobreviver em impossível contato, amor, embora tudo continue
fantasia!

Queria na verdade encontrar com você e andar por aí lado a


lado, conversando sobre essas coisas (se me falta a fala, a
palavra!), puser todos os podres para fora e principalmente
escutando tudo o que tem a contar, como nos velhos tempos.

Desejara, enfim deitar ao seu lado e acariciar palma a palmo,


milímetro a milímetro o seu corpo, pois só assim estarei
conhecendo você de verdade.
Quem carrega essa vida monótona nas costas? Quem nasce e
espira sem deixar sequer o fedor sobre a terra?
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César, que tem como motivo de vida ter nascido.

Não se deve abominar a guerra, pois ela é um prenúncio de


paz.

Imagina um mundo de paz. Seria uma catástrofe! Como se


para os felizes, o mundo não fosse sempre de paz.

O silêncio reinou por alguns instantes. Fumavam.

- Levanta-te César, disse Marília.

César não se levantou. Deitado como estava – de cueca e


estirado na cama – ficou pregado à dormência do sono. Virou-se
para o outro lado de onde não veria Marília arrumando-se
somente de calcinhas frente ao espelho.

- César, levanta.

De novo a ordem, um pouco impaciente, ficou no ar ecoando


nos ouvidos de César. Aquele cheiro de cama usada atraía-o.
Ficava relaxado sem ligar até para os ruídos.

Decidiu acordar e agitou-se. Viu Marília, as calcinhas negras,


passando um batom de leve cor nos lábios. Marília, os seios
jogados à frente Marília, os cabelos lisos além do ombro, Marília, a
pele alva e a pele morena de sol Marília, as plumas no sexo.

De um pulo levantou-se em direção ao banheiro. Passando


por Marília nua deu-lhe uma palmada na bunda e caiu no chuveiro
de água fria.
O que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. A tarde ia
morna deixando um rosa-vermelho no ar. Marília era virgem. Era.
18
Até as três horas da tarde morna.

- Vamos ao cinema?

Seu corpo não dia, não se sentia chateado e a pasta de dentes


tinha o mesmo gosto. Iriam ao cinema de qualquer fita. Depois
Marília voltaria à sua casa e ele estaria rondando a noite em busca
de nada. Conversa com conhecidos, riso, muito riso e nenhuma
comunicação do ocorrido.

Na segunda-feira o emprego e a rotina cotidiana, inevitável.

No futuro, novos encontros com Marília (ela gostaria). A


cama é quente qualquer dia. No torpor do leito, cheirando o cheiro
de carne por entre os lençóis, de novo a ordem:

- Vamos ao cinema? César! Levanta!

A mordida que Marília dera em seu peito seria repetida? Ou o


rasgo da carne e o delírio do gozo foram as razões? Na eletrola
giraria um disco, seria Beethoven? Ou seria alguma voz chata na
televisão? Ou Chopin, ou Bach, ou Stravinsky? Não sabe.

César que tem como motivo de vida ter nascido.

Isabel é a praia.

Isabel, estirada sob a barraca de lona colorida, fuma com os


olhos cerrados ao tempo. Ao longo da praia milhares de pessoas
formigam travando contato com a areia, com a água, com os
corpos bronzeados e redondos.

- César.
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César, a cara enfiada entre os braços, não responde. As costas
voltadas ao sol queimam-se e estão excessivamente vermelhas.
Dormita. Apenas o murmúrio das águas, contínuo, penetra-lhe os
ouvidos. Vê, na imaginação, as ondas em seu sobe-e-desce, às
vezes estrondando, às vezes deslizando sobre a areia.

- César, repete Isabel.

- Hum.

César não se mexe. A voz parece-lhe vir de longe e é como se


não estivesse na praia com tanta gente em redor. Ouve mais uma
vê a voz que repete tua boca e não está disposto a mover-se. O
corpo dormente não reage.

- César, tua boca!

É a voz imperiosa e real que tenta acordá-lo. Abre os olhos


vendo em meio à intensa claridade Isabel, a face junto à sua, a
respiração forte e o hálito quente batendo-lhe no rosto.

Já conhece esse César, tua boca! É uma ordem-súplica


emaranhada ao desejo. Ordem que ele não pode desobedecer.

Dá-me a língua, chega esses seios pra cá, abre um pouco mais
a boca, as pernas, vira, fecha os olhos, levanta um pouco, assim, oh
que coisa linda ver o corpo em decúbito, humhum, estou bebendo,
engolindo o sumo da vida, alma, sem morder, não morde, devagar
com muito carinho, oh isso! Levemente, tomara que nunca acabe!
Não tente fazer isso na minha cara, meu rosto, louca, maluca! Está
pensando que sou o quê? Oh que bunda, não, não aperta minha
língua, veja bem sinta bem o que faço, gosta? Quero ouvir, quero
escutar bem alto: diz que gosta muito, dos seus lábios cheios, algo
além de murmúrios de prazer, suspiros, alguém já beijou aqui?
Assim? Nunca? Pois é assim eu gostaria de ser sempre: o primeiro
– não é egoísmo, ou é? – gosta da minha loucura? E assim? Mais?
Realmente acho que ninguém jamais imaginou beijar e enfiar a
língua aí! Mas dizem que nada é novo no mor. nem sei mais o que20
fazer e não canso jamais de passar m seu corpo, você me devolve o
prazer! Que coisa! Não faz, não pára, mais, cada vez mais, ficaria a
vida toda assim, amando sem palavras como deve ser o amor, sem
pensar em comida e bebida, antes, definitivamente comendo e
bebendo o seu corpo, seu gozo, seu suor, sua saliva, beijando os
seios e se machucam irritados contra meu corpo, vem, vamos
recomeçar tudo outra vez e continuar o que dá no mesmo, me dá a
língua, quero senti-la na garganta como se fosse a minha, chega
esses seios pra cá um e outro, quero abocanhá-la totalmente e à
flor rósea plantada entre as pernas, morder os bicos irritados dos
peitos que ao se acanham nunca, veja como um deles está
sangrando um pouco, acho que mordi forte demais, mas apenas
goza, vou passear com a boca colada em seu corpo, nas axilas enfio
meu rosto e aspiro o suor, o cheiro de suor e do amor eu reascendi
no ambiente, depois caminho pro umbigo desmaiado e lambendo
o ventre úmido a caminho do além obedecendo somente ao ritmo
de suas contorções como um trem veloz, suas coxas me atraem
como um barco eu atraca no porto, os pelos envolvendo macios o
meu rosto, minha boca, oh abre um pouco mais as pernas que me
sufoco. Bebendo o sumo, engolindo a alma, a própria vida, nada
me escapa nem quero deixar perder uma gota sequer do seu gozo,
não morde, aperta devagar, com mais carinho, oh isso! Agora vira,
levanta bem as nádegas assim, não vai acabar jamais, cuidado com
o meu rosto, não faz isso! Louca mulher, aperta com carinho a
minha língua, quero ouvir dos seus lábios que está gostando e eu
sou o primeiro a passear nesse vai e vem por esses caminhos, está
adorando? Alguém já chupou aqui? Como gostaria de ser o
primeiro, o único, o egoísmo me diz que sou o único que ama de
verdade, agora deita seu rosto suado no meu peito e dorme.

Entreabre a boca, aceita os lábios e a língua úmida de Isabel.


Depois, o peso do rosto que não quer mais retirar-se dali.

Isabel não era virgem. Nem até ontem à noite quando,


fugindo do calor reinante, andavam nus no apartamento, bebiam
bebida com cubos de gelo, fumavam, dançavam e a cama foi o
21
último reduto. Olha, a gente só encontra felicidade quando nada se
procura.Todo fútil é feliz!

No dia seguinte foram à praia para o repouso, o sol ardente


queimando-lhes as entranhas, o reviver da garganta ressequida.

A boca de Isabel desgrudou-se. O corpo, entretanto,


continuou montado ao de César, colado, e ele inerte.

- Isabel, sabe que eu vou casar? Imagina: um mundo de paz!


Será uma catástrofe, não?

- Teu mundo nunca será de paz. Como homem liberto que és


o lar não será um muro que te detenha. E a paz então será guerra
pura!

- César! – pensamento vago.

- Ela era virgem? – interrompeu Isabel.

E aquele era virgem, o verbo horrivelmente no passado,


penetrou-lhe corpo adentro, chocante, concreto.

Esmeralda é como se fosse uma irmã. E César ama-a como


irmã e como mulher. Esmeralda, como se fosse uma irmã percebia
o sentimento de frustração e compreendia que esse abandono
peculiar de César não era indolência, mas repulsa a tudo e todos.
Sabe que César não é de mostrar-se demasiadamente afetuoso
nem de externar carinho a não ser na hora da cama onde seu
acumulado amor extravasa abundantemente. Sabe que é,
definindo, homem de cama. E como se fosse uma irmã Esmeralda
controlava as crises de que era tomado nas horas em que saía de
casa em busca do amplo desafogo. Dava-lhe, então, apoio moral e
físico.

- César, deita-te.
É Esmeralda quem pede, com a voz terna, a César que anda22
entre a cama e a janela indeciso e vago. Tenta obedecer à voz que
pede sem o conseguir. Quer abraçar o corpo esguio de Esmeralda,
enterrar o rosto entre os seios e sentir o pulsar do coração: Tum-
tum, Tum-tum, Tum-tum. Sentir a aceleração irregular
conseqüente da aproximação do amor. Quer penetrar na janela da
frente onde alguma mulher se veste, quer sair dali e beber alguma
coisa num botequim onde tenha gente estranha, quer saber das
dificuldades alheias.

Quer deitar-se ao lado de Esmeralda e deixar seu corpo livre


ante as carícias dos rodeios que a mão finíssima transmitiria ao
rosto, às orelhas, ao nariz. Quer virar-se abruptamente e apertar
com todas as forças o corpo frágil de Esmeralda, senti-la gemer e
não ter medo de quebrá-la como a uma porcelana fina.

Através da janela vê as luzes dos automóveis correndo pela


estrada com se fugissem de alguma coisa. A sua vista perde-se
pela extensão da noite até ao mar que longe deixa entrever-se.
Sente os braços de Esmeralda em volta de seu corpo, César acorda,
vira-se e também a abraça, os corpos colados.

- Esmeralda, tenho medo de olhar através das janelas. É


como se estivesse preso num outro mundo diferente do lá de
baixo. É uma guerra que mantenho comigo mesmo.

- Eu tenho medo de guerras.

- Não se deve abominar a guerra. A guerra é necessária. Só


com a guerra se consegue paz. Qualquer guerra traz paz. Por
exemplo: quando a terra estremece sob o impacto das bombas
sente-se a tranqüilidade da paz.

Esmeralda arrasta-o até a cama e entre os lençóis avos César


mais uma vez confirmará a condição de homem de cama,
desamparado. César que tem como motivo de vida ter nascido.
Lembro-me bem dos dias em que ficávamos os dois a
conversar horas e horas numa escadaria – era como se
23
buscássemos um ao outro para falar de nossas preocupações não
só sentimentais, mas também materiais, existenciais – era como se
procurássemos um ao outro para mastigar o amargo da vida,
vazar nossos temores, nossa iras, as frustrações, amores
inconstantes que perturbavam as existências, aquela mútua
procura, aquela atração singular de duas almas mesmo
conflitantes (o que nos une é o confronto?), aquele desespero
mordido por dentro e vomitado a qualquer instante – já era amor!

Já era amor aquela ânsia que trazia a ausência de cada um de


nós, precisando – lembra-se? – inarredavelmente falar com o
outro fosse à hora do dia ou da noite, sendo qual sendo o estado
de ânimo que nos acercava, o choro, o riso, mais assiduamente a
tristeza acompanhada das companheiras, a decepção, a final
somos filhos do vácuo político, cultural e espiritual que se abate
sobre nós há mais de dez anos, perceptível no ar como se fosse um
mau agouro, um gás inodoro, mas letal, presságio de violência e de
fome – e já era amor!

Hoje estamos assim: casados para um lado e pro outro,


partilhando da mesma cama tal e qual bandidos foragidos,
cassados pelo temor de amar, banidos a um lar feito, desfeito.

Vem pra cá, me dá a língua.


GREVE 24
O cais estava muito diferente dos dias de trabalho. Parecia um
domingo de tanta desolação. Os trilhos seguiam sua rota retilínea sem
rangerem ao peso dos vagões que, cobertos, dormiam a somo solto. Os
guindastes, mudos, pareciam monstros de ficção. Aço e cabos nulos e
sem ocupação. Os navios encostados tomavam um descansado banho.
A maré corria e gaivotas rasteiras pescavam. Em todo aquele silêncio
destacava-se o murmúrio de homens que se divertiam.

Era dia de greve. Estivadores, ensacadores, arrumadores e outras


classes adjacentes misturavam-se em rodinhas de conversa ou
assistiam, esperando vez, ao jogo de pife. Outras rodas jogavam
truque, 21 e víspora. Outros ainda mais pacientes traçavam um gamão,
uma dama ou discutiam porrinha valendo cigarro.

Os mais interessados em política palestravam discorrendo sobre


o preço da greve. Alguns menos informados até perguntavam a razão
da mesma, demonstrando o desinteresse que possuíam por greves.

Entre estes estava Fabriciano, estivador dos que têm a fama de


ganhar por mês mais que o presidente da república. Viera cadinho
trabalhador, apesar de ter ouvido no rádio as ameaças de deflagração
de greve. Fazia uma semana que o cais não recebia visita de navios, e
agora que chegaram alguns se apressava a pegar serviço. Estava
necessitando de dinheiro. A semana inútil devorava as reservas. No
fim do mês tinha que pagar a prestação da geladeira e dos móveis que
comprara a crédito. Além disso, tinha que comer e as crianças iriam
para o colégio.

Mas, ao chegar de manhã encontrou aquele movimento. Greve.


Que azar! Seus colegas explicavam brincando a razão da greve. Então
greve é brincadeira? Porque o presidente não assinara um decreto
aumentando o vencimento de uns militares. Então, que temos como
militares? Não estava o cais agora mesmo cheio deles a fim de evitar
desordens? Não estavam prendendo quem andava armado?
As razões não se acomodavam na cabeça de Fabriciano. Não via25
motivo para greve, ainda mais quando precisava de dinheiro. E ficou
com a camisa na mão a olhar pensativamente para os navios
abandonados. Jogou a camisa no ombro e voltou para casa.

Pensando no que haveria de fazer para conseguir dinheiro.


Poderia pedir emprestado, mas o dinheiro só daria para alguns dias.
Com o trabalho, não. Arranjaria dinheiro para passar um mês parado.
Era só estar prevenido. Mas assim, subitamente, ninguém seria capaz
de ajeitar que o dinheiro desse para cobrir os dias de greve.

Achou que estava decididamente de azar. Primeiro a falta de


navios. a compra dos móveis novos. e greve.

Só falta alguém adoecer em casa, pensou.

E tinha alguém doente em casa. Não era nenhum dos quatro


filhos. Nem a esposa. Todos estavam bem. Mas, Job não estava.
Quando chegou observou a esposa levando uma tina de água quente
com um pano na mão. Acompanhou-a silencioso e viu que Job estava
deitado na grama do quintal. E gemia dolorosamente. Apalpou-o
lentamente e notou o local em que os gemidos aumentavam. Na altura
do estômago. Foi no cercado e apanhou uns galhos de mastruz verde e
andou a preparar o chá. Dizem que mastruz cura até defunto. Fez Job
tomar o chá e aproveitou o mastruz machucado para fazer uma atadura
em redor da cintura. Trouxe o cachorro para dentro cobriu-o e foi
sentar-se à beira da calçada do boteco da esquina.

Duas semanas depois a greve continuava. Não era mais por


causa de aumento dos militares. Os estudantes queriam a retirada dum
diretor do colégio. E os marítimos aderiram à greve para dar poder aos
estudantes. E passaram seis dias parados, numa nulidade estúpida.
Não sabiam quantos funcionários não trabalharam em conseqüência
disso. E quantos trabalharam noite e dia para solucionar os problemas
que qualquer criança saberia solucionar de um modo prático.
Problemas que em si nada tinham de excedente, nada tinham de
anormal. Problemas que foram criados por não existirem problemas.
Fabriciano conseguiu algum dinheiro pescando, ao mesmo
tempo em que conseguia alimento para casa. Mas, e os móveis? O
26
dono da loja não iria esperar além do fim do mês. E o fim do mês
estava se aproximando. Se não resolvessem esse negócio da greve até
dia 30, perderia os móveis. Uma coisa ele nunca gostou: de ver
cobrador na porta de casa. Para que isso não acontecesse, sempre
pagava pontualmente todos os débitos e dívidas. Não iria falhar agora.
Nos momentos de altivez ele pensava em arranjar qualquer coisa que
fosse para conseguir dinheiro.

Ainda veio a doença de Job atrapalhar a vida de Fabriciano. Não


que ele não gostasse do cachorro. Gostava. E as crianças gostavam
também. Encantou-se com Job, e trouxe-o para casa. Era um cachorro
bem alegre e vistoso. Só não sabia da raça, mas deveria ser boa. Seria
um mestiço de lobo com vira-lata. De qualquer forma nunca faltou a
Job um bom osso ou um banho no mar dia de domingo. Hoje ele
estava ali, deitado, com os olhos tristes de cachorro-sem-dono. Olhava
inexplicavelmente aos amigos sem vontade de fazer alguma coisa.
Uma fraqueza percorria-lhe o corpo e só queria ficar deitado. A
gurizada ficava horas deitada ao lado dele acariciando os pêlos e
dizendo palavras de consolo. Job olhava-os e não compreendia
aquelas palavras. Queria dormir.

Todos os dias Fabriciano fazia um chá de mastruz e dava a Job.


O cachorro já não bebia com gosto. Era preciso forçar a boca e dar-lhe
aquela coisa amarga. Depois saía ao boteco para bater papo com os
colegas. Saber das novidades a respeito da greve. Quando iria
trabalhar de novo? Esperava a hora da pesca deixando logo uns quilos
de peixe encomendados. Tomava umas caninhas com limão,
conversava um bocado e caminhava. Passava à tarde em casa
arrumando as crianças para o colégio. Marise, sua mulher, cuidava da
casa e das crianças. Sempre fora resignada desde os tempos em que
Fabriciano era pobre. Pobre no modo de dizer, quando não tinha nada.
Hoje lutava com a mesma vontade de vencer que tinha naqueles
tempos. Eis por que Fabriciano fazia tudo para nada faltar em casa.
Tudo que fosse necessário, tudo que fosse desejado pela mulher e
filhos, dentro do possível. Ele satisfazia. Eis pó que estavam unidos há
mais de vinte anos sem haver brigado seriamente uma vez.
27
A tarde caía lentamente. Fabriciano pega sua canoa e sai para a
pescaria. Para que possam viver muitos anos mais sem que os filhos
sintam que a vida dá baques grandes. Sem que possam notar o valor
que os pais lhes dão. para que possam ser um dia aquilo que muitos
não o são: homens que não precisam de greve para ter o necessário,
para viver em tranqüilidade.

Raios vermelhos entrosam-se nas águas ternas do mar do futuro.

Fabriciano movimenta-se entre os estivadores que trabalhavam


comentando a última greve. Os comentários divergiam-se ante as
opiniões mais diversas. Cada um dava o seu tom pessoal às
ocorrências havidas durante o movimento grevista. Cada qual queria
impor-se tal um líder. Mas o que todos concordavam, o que todos
sacudiam a cabeça ao pronunciarem o nome, era quando falavam no
presidente do sindicato. Todos eram unânimes em afirmar que o
presidente tinha se saído em ante a imposição presidencial. Durante as
negociações, firmara-se com um não irretratável e só concordou com
o encerramento da greve depois que os chefes e diplomatas recuaram,
dando assim a vitória aos grevistas. Orgulhava-se de ter sido chamado
a Brasília para tratar dos assuntos de grande interesse da nação!
Enfunava o peito e comunicava a candidatura a prefeito nas próximas
eleições. Talvez se candidatasse a deputado estadual.

Ninguém - comentou Fabriciano. Ninguém perguntou se ele


havia gostado da atuação do nosso presidente. Se assim o fizesse teria
uma resposta seca e talvez um desagradável não. se estivesse mais
disposto, contaria tudo o que aconteceu durante a greve vitoriosa.
Contaria tudo.

Fabriciano arrumou-se e saiu de casa. Agora que havia arranjado


dinheiro, dinheiro que dava para passar uma semana parado, sentiu
que não havia quase necessidade dele. Pôs a camisa no ombro e foi até
o boteco da esquina tomar uma caninha para ir ao banho. Não queria
falar com ninguém nada que tivesse relação com a greve. Tomou sua
pinga despreocupado e foi para casa. No caminho pensou o que
encontraria de novo por lá. Sabia, no entanto, o que não encontraria.
28
Job não iria recebê-lo. Marise por certo iria sentir um apequena alegria
ao saber que o dia voltara a ser proveitoso. Nem tanto uma alegria,
mais um alívio. As crianças, que sempre foram alegres, notariam a
diferença do tratamento do pai. Embora nunca os tratasse rigidamente,
a espontaneidade é mais válida, mesmo às crianças, que a alegria
falsificada por necessidade. Notaria a diferença no cheiro da comida,
pois agora levava uma boa lingüiça para fritar com ovos. E comeria
com uma vontade de comer muito para esquecer que ontem não tinha
o que comer.

Arrastou-se pelas vielas barrentas enquanto o sol caía


lentamente. Cumprimentando a todos os vizinhos, chegou a sua casa.
Abriu o portão e foi entrando. As crianças pulavam corda e brincavam
de pegador. Lula, o menos de todos, veio correndo e agarrou-se em
suas pernas rodeando-o. Passou a mão sobre a cabeça murmurando
uma frase alegre. Subiu os degraus da casa e olhou de relance no canto
da cerca de terra fofa onde fora enterrado Job. Uma cruz ornava o
túmulo dando uma alma e um lugar no céu a um cachorro simples que
só queria viver, só brincar com crianças, só servir de caçador. (1963)
O BREVE REINADO DAS DONZELAS 29
- Vosmecê vai atirar?
– Não quero matar ninguém – era a voz de Luna
Gato. – Mas também não quero morrer
Adonias Filho – O Túmulo das Aves

Espera-se para as próximas horas uma sangrenta revanche


político-amorosa como vingança pelo frio assassinato do famigerado
ex-bandido e atual protetor de donzelas Santino Alvo. Mais conhecido
pela alcunha de Coração Branco, protegido-mor do Coronel Mendes
(do qual é homem de fé), ele foi abatido alta madrugada num trecho
pouco habitado da Estrada da Fome de Amor, no rumo de quem vai
para a Grande Capital.

Nascimento de Jesus, apelidado Jesuzinho, um sobrinho


talqualmente apadrinhado do mesmíssimo Coronel Mendes, escapou
do atentado gravemente atingido, porém, jurando desforra. Jesuzinho
é tal qual Coração Branco um protetor de donzelas há muito servindo
o citado coronel. Foi recolhido do chão espumando ódio, ajudado por
populares e imediatamente levado pra a Casa de Saúde Nossa Senhora
da Proteção. Localizada em lugar afastado da cidade, a existência da
Casa de Saúde é exclusivamente dedicada ao atendimento de
mandados dos grandes coronéis ilicitamente endinheirados, já que não
podem aparecer nos hospitais públicos ou oficiais.

O atentado, o último de uma série numerosa de violentas mortes,


teve como motivo básico a luta pelo predomínio e posse da discutida
área que se estende por toda Vila Felicidade. A disputa dará ensejo ao
vencedor – caso sobreviva à matança – ser nomeado definitivamente
Protetor geral das Donzelas (filhas e enteadas) do Coronel Mendes. As
filhas e enteadas do Coronel Mendes são atualmente tidas como as
mais belas e disputadas que a região jamais deu. Essa posição
perpetuará o eleito com aquele que teve o privilégio de gozar todas as
prerrogativas e amores das damas do coronel, cuja fama de beleza
percorre florestas e vara sertões – além de outros benefícios
inconfessáveis.
30
Embora o Protetorado esteja oficialmente renegado a um plano
secundário diante das firmes investidas do Governo Central, com o
apoio decidido de combatentes federais, ele continua funcionando
com o único objetivo de garantir as antigas posições, conquistadas a
sangue e a defuntos dos seus poderosos donos.

Mesmo nos locais onde a guarda é feita pessoalmente por


membros das famílias (os antepassados dos protetores se juntaram à
família protegida unindo assim os troncos genealógicos), as moças
estão sob forte e voluntária proteção dos pretensos candidatos
ocasionando dupla guarda inexpugnável. Estes aguardam apenas o
oportuno momento para assumir seus postos sem ameaça de serem
molestados pelos agentes federais ou remetidos presos à Ilha do
Grande Presídio, temida por todos.

Como se vê a guarda é feita à revelia dos grandes Coronéis e


proprietários rurais interessados, que acatam a proteção dada pelos
vencedores dessas batalhas criminosas. Geralmente o vitorioso reúne
todas as ótimas qualidades profissionais de um bom protetor, apesar
da rudeza de que são possuidores, dos golpes baixos e subterfúgios
aplicados para a posse ditatorial da posição.

Continua detido incomunicável na delegacia de polícia o idoso


protetor de nacionalidade italiana Amore di Amore ou Amor Fino
simplesmente, como é reconhecido nas rodas. Ele sofre de mal
cardíaco e palpitações adquiridos em decorrência de terríveis sustos
amorosos levados como protetor de moças por mais de trinta anos de
intensa atividade. Em virtude disso tudo Amor Fino resolveu requerer
aposentadoria de fabulosa soma, em dólares, como ordenado. O
processo a esse respeito tramitou em diversas instâncias e, ao que se
sabe, ainda corre na Capital. Os funcionários especialistas estão se
virando para classificar a profissão de guarda-cabaço, inexistente
mesmo nos catálogos dos impostos de renda, ICM, etc.

Amor Fino é peça fundamental para o total esclarecimento dos


últimos homicídios ligados aos Coronéis e aos protetores. Na sua
derradeira confissão contou à polícia que Coração Branco – a vítima –
esteve em sua residência poucas horas antes da fatalidade.
Conversaram bastante sobre a atual situação em que se encontram os31
protetores, desamparados de qualquer apoio sócio-financeiro oficial,
sem institutos e instituições que amparem sua família, com médicos,
seguro de vida, professores. O exemplo da aposentadoria de Amor
Fino serviu de modelo para mostrar em que pé está a situação de
amparo social da classe. Ao fim da conversa se mostrou Coração
Branco bastante nervoso, sem, contudo chamar demasiado atenção.

– Na profissão é comum a gente tremer. Até adquirir mal


qualquer incurável, como eu. Ou ficar com o coração de ferro, frio que
nem laje de cemitério, como muitos outros – declarou Amor Fino.

A visita era natural, como comum é o apelo dos jovens


guardadores de moça aos conselhos de velhos protetores, de grande
valia pela palavra abalizada na profissão, pelo prestígio mantido junto
aos coronéis e patrões a que serviram. Na hora da verdade a
experiência só vale se for vivida e sentida na carne.

Coração Branco antes de se retirar requereu um vidro de


perfume Flores Silvestres, preparo especial, a título de ajuda
sentimental, pois estava necessitado.

Tal fragrância é especialmente fabricada por Amor Fino, muito


respeitada pelos consumidores. Gente de toda camada, inclusive social
vinda da cidade grande, atesta a sua infalibilidade: nunca fracassou na
missão santa de renovar amores, levantar moral de cabeças arriadas e
outras mumunhas físico-eróticas.

Ao deixar a residência de Amor Fino, Santino Alvo percorreu a


pé os jardins naturais de Vila Felicidade recolhendo, apaixonado, as
rosas de sua preferência, de vários espécimes, clandestinamente
exploradas por Amor Fino, o qual, ainda que detido na delegacia,
controlava o mercado sexual paralelo à proteção do cabaço, com
produtos como o citado levanta-pica e outros mais danados e
afrodisíacos ainda.
Por tradição Amor Fino serviu de mediador em muitos casos
tidos como insolúveis, assim era o seu prestígio e razão de ser
32
tenazmente procurado.

Foi daí em diante que os criminosos passaram a seguir Coração


Branco. Trazendo pelas rédeas seu cavalo tordilho continuava
enlevado o passeio. O puro-sangue relinchava de alegria e de repente
passou a fungar como que pressentindo algo anormal. Portava o
cavalo na anca a marca da Fazenda Rústica (dois corações rasgados
por várias flechas – sinal de tanto amor e tanto sentimento) de
propriedade do afamado Coronel Mendes. Foi presenteado pelo patrão
a Coração Branco como prêmio por excelentes serviços prestados não
só de guarda-donzela, mas até de capanga e homem de fé e confiança
total.

Coração Branco formava com Amor Fino e mais Francisco


Alves – Chiquinho Bico Doce – a cúpula do sindicato que protegia a
maioria das belas moçoilas de Vila Felicidade e arredores. Até então
eram temidos por todo mundo: ninguém jamais ousaria levantar dedo
ou voz contra atos do famoso trio. O povo tinha especial atenção e
adoração por eles e não havia gente de bem insatisfeita quando
recorria a seus préstimos. Mas os jovens chegam quase sempre
violentos destruindo tudo quanto é preconceito e império bolorento.
Por isso mantinham os três um pacto de mútuo respeito e ajuda
profissional.

Para desmontar o valoroso tripé de proteção, seus inimigos


começaram por liquidar covardemente Chiquinho Bico-Doce,
seqüestrado de uma caleça azul bordô, último modelo, quando
abandonava o aveludado quarto da donzela de 15 anos (olhos verdes,
cabelos longos, boca louca), sua amada e protegida, filha do coronel,
patrão e amo. Foi encontrado muito depois por populares, no KM 69,
o corpo melancolicamente crivado de balas por todos os lados.
Chiquinho Bico-Doce fitava em vão o longo da estrada da Fome de
Amor. Os matadores enfeitaram o cadáver com o símbolo mortal,
espécie de marca registrada que trazia horror a quem visse: um
coração sangrento trazendo dentro de si uma caveira, tíbias
atravessadas em cruz.
Ontem de madrugada chegou a vez e hora de Coração Branco
33
bem como a de Jesuzinho, que seriam mortos a uma só vez por
medida de economia. Oficialmente Jesuzinho – como se lembra
escapou quase ileso – tomou rumo ignorado e ninguém sabe o
endereço da clínica onde está internado. As autoridades encontram
dificuldades para tomar informações do ovo onde as vítimas são bem
conceituadas. Escapou Jesuzinho através de um campo de futebol
abandonado, caminho também preferido por Chiquinho Bico-Doce,
como se viu, anteriormente liquidado na guerra sem dono. A verdade
está registrada oficialmente nas linhas passadas.

As três da madruga o assassino (ou assassinos) ultrapassou a


dupla. Súbito a redondeza se vê acordada por rajadas de revólveres e
metralhadoras. No silêncio da noite o inferno se fez presente, o diabo
em pessoa lançando fogo pelas ventas, devastando, arrasando,
ceifando preciosas vidas e ensinando o mal às crianças.

Entre os atacados, gente boa, estava Santino Alvo, caráter


irreprochável, amante de boas coisas, papo dos melhores, santo! E
nascimento de Jesus, crianção que gostava de grandes aventuras e de
ajudar necessitados. Um meninão que podia ser o diabo em pessoa
(muitas vezes era), mas não gostava da profissão. Coração Branco
morreu na hora varado por seis tiros: alto da cabeça, ouvido esquerdo
e região torácica foram as partes mais atingidas. O rosto desfigurado
deixava Coração Branco partir sem qualquer expressão, não podendo
deduzir o povo a qual das três partes do além ele se destinava.

Jesuzinho, tido por todos como pistoleiro de alta periculosidade,


escapou gravemente ferido por dois balaços: na clavícula direita e na
altura dos rins. Gritava em altos brados dizendo que isso não ficaria
assim. Voltaria para a vingança implacável. Claudicante foi protegido
involuntariamente por meninos de uma casa próxima que admiravam
e assistiam ao tiroteio, acordados pelo ruído da metralha. Ele nunca
jurou em falso.

Coração Branco, provavelmente para se proteger das investidas


dos federais, tinha em seu poder uma colorida falsa carteira de
34
identidade Inspetor da Guarda Noturna de jardins e Praças, o que lhe
permitia andar armado. Mas não teve sequer tempo de sacar o revólver
calibre 38 especial.

O azar só correu por conta de Chiquinho Bico Doce, o Francisco


Alves, teve o privilégio de ser o primeiro a falecer na terrível batalha
de Vila Felicidade. Quando foi abatido seus olhos denotavam toda a
alegria possível num homem endurecido pelo rigor da profissão. Saído
então do quarto da amada moça, olhos verdes de 15 anos.

A seguir tocaria a vez de Coração Branco quando justamente


procurava se reabilitar das fracassadas investidas amorosas – assim
apontam as circunstâncias e o frasco de fragrâncias solicitado a Amor
Fino. Jesuzinho soube sumir a tempo e hora exatos. A ocasião
reservada a Amor Fino foi desfeita pelo amparo protetor oficialmente
dado pela polícia, pressionada pelas autoridades civis, eclesiásticas e
militares da Capital. Eles querem saber tudo detalhadamente e têm
interesses no caso.

Rememorando: a antiga prática de guardar moças – encontrou


em Vila Felicidade o auge de difusão – surgiu das várias reclamações
registradas pelos candidatos a marido, que alegavam encontrar as
donzelas desvirginadas. Com isso anulavam o casamento e obtinham
dos ricos Coronéis grandes somas a título de indenização. Outros
interesses causadores dessas denúncias continuam ainda hoje
obscuros. Buscavam fugir do anel conjugal? Pouco provável. Havia só
a tentativa de arrancar dos velhos a indenização? Ninguém em sã
consciência pode confirmar.

Na falta de uma defesa idônea – bem que alguns pais conheciam


as ardências entre as pernas de suas donzelas – os coronéis instituíram
a prática de guarda-cabaço para evitar não só a desmoralização do
nome tradicional, como também para acabar com a quadrilha de
assaltadores (e aí falam do início da influência decisiva das esposas,
vital para o desfecho do caso, como se verá). Contrataram
famigerados capangas das grandes cidades arrebanhados,
imediatamente ganharam do povo o apelido carinhoso de guarda-
cabaço, ficando fundada a profissão.
Logo após um dos pais percebeu certa improcedência numa das
35
acusações dum futuro marido. Quando o dito afirmava não ser a noiva
mais pura, se apurou que ele sim era afeminado e impotente. Houve
quem afirmasse ter visto o dito de amores com vaqueiros nos currais e
no mato. Os guarda-donzelas viram sua posição reafirmada com o
ocorrido. Aumentaram o poder e o privilégio. Foi p princípio da
ascensão da classe.

As donzelas, porém, se multiplicaram em número maior que os


machos (além desses equívocos lamentáveis, também homens
morreram na guerra, enviados pelo exército). Tornaram-se superiores
numericamente, muitas vezes intelectualmente. O feitiço virou contra
o dono quando as moças passaram a exigir dos coronéis o guarda que
lhes conviesse. De preferência altos, fortes e de beleza brutalmente
máscula. Tipo machão, Adônis subnutrido. Os pais, até então cheios
de mando, viram-se submetidos a exigências incabíveis e inegáveis
porque visavam – segundo justificativa usual – salvaguardar
interesses, hombridade moral e feridas insanáveis, além de famílias
ameaçadas pelo ridículo em várias ocasiões. Para manter a aparência
de poder apelaram os Coronéis para um tratamento rigoroso com
subalternos, empregados e até com o povo inocente em tudo. Tal coisa
não conseguiu evitar que as matronas e donzelas mantivessem
obstinado e vigoroso mando ditatorial sobre os Coronéis a partir de
então.

Esta súbita transformação por que passou Vila Felicidade


transtornou seus pacatos dias. Ninguém reconhecia na Vila agitada,
cheia de gente de fora ambiciosa em dar o golpe do cabaço, a
cidadezinha morna dos passeios matinais do padre. Das ocorrências
raras de violentas lutas ou das mal contadas histórias a respeito de
uma estrela milagreira nas noites escurecidas.

Os homens chegados, ansiosos por deitar não na comodidade de


ter casa, comida e dinheiro grátis, além das várias mulheres que
seriam creditadas, atraíram também moda e vícios da cidade grande.
Trouxeram consigo as donzelas enfeitadas com avançada moda
citadina à espera do prometido protetor, disputa do futuro amado. Às
mães a impossibilidade de negar incondicional apoio, e os Coronéis36
foram ficando cada vez mais impotentes – derradeira alegria do povo
sofrido de Vila Felicidade.

Os puteiros cresciam e as aberrações sexuais nasceram em


sucessão vertiginosa: é bom o termo. Jogo de bicho (proibido nas
cidades), cassinos clandestinos, jogos de azar expulsos da civilização,
casas suspeitas e mais estranhos programas ainda. Todo o mal
encontrou guarita na desgraçada Vila Felicidade. Um permanente
mistério e esquisitos freqüentadores: macumba, feitiços, candomblé,
umbanda. Só faltava a poluição total de rios, mares e ares para Vila
Felicidade ser condenada eternamente ao cataclismo.

Os grupos se tornaram distintos adversários e diferentes


ideologias eram propagadas fazendo explodir a guerra total em Vila
Felicidade. O estopim foi a fuga espetacular de uma filha do Coronel
Mendes com um guarda-cabaço do Coronel Flint – estrangeiro e
vizinho, o mais ferrenho adversário, o maior inimigo do Coronel
Mendes.

- Já não bastam as inimizades naturais de nossa terra, inda vem


estrangeiros aporrinhar minha vida, desabafou o Coronel, machucado
no amor próprio.

O casal tinha amor de verdade e nenhuma força política é capaz


de deter. Correu sangue, mas notícia posterior dava conta da ventura
existente entre os dois numa terra super-distante cuja neve alegrava os
dias de Natal. O Coronel Mendes deserdou do testamento a mais dileta
filha.

A guerra alastrou como fogo em roçado abatido. O ódio escapou


ao controle da minúscula administração estadual. Os matos eram
regados a sangue, o mar serviu de túmulo a culpados e inocentes. Um
mero aparelho de proteção foi transformado em ditadura mortífera,
engolindo seus criadores, abrangendo altas esferas políticas e
econômicas de decisão nacional. Morte e atentados se consumaram
com velocidade além do tempo. Tocaias, atos terroristas, duelos sem
fim, subversão e rixas entre famílias e seus capatazes guardadores
37
foram agigantando vitalizados por um incontrolável rancor. O povo de
bem iniciou a debandada da terra, a fila foi rebatizada como Vila
desgraça. Até ações guerrilheiras foram anotadas pelas autoridades.

O Governo Central imediatamente declarou Vila Felicidade área


de segurança nacional. Aboliu direitos individuais, censurou a
impressão de todos os jornais e livros e revistas, decretou toque de
recolher e nomeou interventor militar para promover a devassa dos
Coronéis. O Serviço Secreto de Informações também intervém.

Famosos historiadores acreditam que aí foi quando iniciou


finalmente a decadência irremediável dos famosos Coronéis de
patente comprada ou herdade. Nós da terra sabemos a verdade
purificada: já não existia poder algum em suas mãos há muito tempo.
A derrocada experimentada com essa sangria atingiu diretamente o
reinado das matronas e das donzelas, de quem os Coronéis eram
apenas testas-de-ferro. A intervenção federal provocou fuga
desenfreada. Os vivos caçadores de dotes rapidamente fugiram para
outras freguesias. Os que estavam já instalados entraram em recesso
forçado, inteligentemente pagaram os pecados cometidos e aderiram à
monotonia. O mal retornou à origem: a cidade grande, antro de vícios.
Os Coronéis tiveram de agüentar firmemente e foram beneficiados ao
fim. Já se podia voltar a plantar no adubo de sangue.

As donzelas em breve período se tornariam mulheres carregadas


de filhos, gritos irritantes e chatas As moças foram enviadas à grande
cidade, não apenas para escapar ao escândalo e seus malefícios, como
até para adquirir melhor educação social e cultura superior. Novos
conhecimentos feitos, a mentalidade evoluirá naturalmente para
contatos com novos amigos e futuros companheiros de vida. Apenas
com inteligência, beleza natural e caráter, sem qualquer abuso ou
força de poder. Algumas hão de retornar solteironas, mas é muito
certo que Vila Felicidade se transforme em mera estância de férias.
Nunca mais experiências desastrosas.

Os dias tornam pouco a pouco à mornidão convidativa. Já se


pode passear pelas ruas seguindo o hábito ancião do padre sem ser
molestado pelos tiroteios de balas sem rumo, insolências e brigas
38
intermináveis dos guarda-cabaços, cujas disputas aventurosas vão
sendo arrancadas da memória do povo como coisa comida pelo tempo.
Os velhos coronéis reavendo antigos costumes da cria de gado,
plantações e comércio: a carcomida e indevassável exploração
humana. Mansos como boi de curral, apesar de tudo, e o povo perdoa
humildemente (burramente) as humilhações sofridas. As rédeas de
Vila Felicidade estão de volta às mãos dos donos. As rédeas das
gigantes fazendas às mãos dos Coronéis. Matando saudade.

O delegado, sempre de mau humor, dificultou enormemente a


reportagem.
(TRANSCRITO DO DIÁRIO DE VILA
FELICIDADE – EDIÇÃO CLANDESTINA DE
22/03/1942).
O CASO JOÃO 39
São Luis, pode crer, é o fim do mundo. Foi lá exatamente que o
Diabo perdeu o rabo e é lá mesmo onde o vento faz a curva. Todas as
estradas – de todo o Brasil – se dirigem à São Luis, mas só com
passagem de ida. De lá pra diante o mar toma conta de tudo. São Luis
é uma ilha em toda plenitude: é o começo e o fim. É a terra do Cão, o
Inferno.

Como as máquinas, os homens que vão para São Luis não têm
como voltar. Vão ficando por falta de retorno, esperando melhorar,
com pouco mais arranjam família, os filhos vão sujando os pés de
barro e a raiz tá criada. Antes disso tudo, agüentar aquela calorama
toda só encarando as bocas do mato, a zona, o Buraco do tatu ou os
randevu lá pras bandas do Tirirical.

Isso no tempo em que se deu o Caso João, hoje não sei nem
quero saber – pra mim São Luis é terra boa, ela lá e eu aqui.

Com João se deu o mesmo. O sujeito era viajado, Argentina, Rio


de Janeiro, essas coisas, veio do Paraná rasteando o Brasil engajado
no Serviço de Proteção aos Índios, que naqueles tempos nem tinham
esse nome. Chegou zoneiro, conquistador mais pro lado de
aventureiro dos interiores, mas, em se chegando a Rosário encontrou
uma Catarina de olhos claros, pele alva e de muito boa família.
Descendia de sociedade aparentada de barões, cantava se
acompanhando no violão ou piano, tanto fazia, representava no teatro,
participando de toda e qualquer tertúlia lítero-recreativa para a qual
fosse solicitada. E era. Mas, com João foi amor à primeira vista, como
existia antigamente.

Ela viu o moreno, tipo alto e bonitão e passou a desprezar as


ofertas de casamento que choviam ao seu redor. Era gente de todo tipo
– todos finos – e pretendentes de alta linhagem familiar, coisas da
sociedade. E vinham forrados de dotes e mais dotes, nomes e renomes
tradicionais. Pois Zelda – apelido pros mais íntimos – desprezou tudo
isso, seus olhares e langores tinham um só dono, seu sangue meio sírio
só fervia na presença física ou imaginária de João. E esse apelido
carinhoso soava sinfonicamente na boca do amado. Qualquer
chamado, mesmo do velho, do qual era a menina dos olhos – a
40
dengosa – não possuía o mesmo tom mágico do que quando feito por
João. Zelda, Zelda – dizia João enquanto se encontrava às pressas em
qualquer canto da cidade. E aquilo era um hino de guerra, um convite
ao desespero e à fuga.

Um dia, fugiram.

Pegaram o trem e foram casar em Teresina.

Quando voltaram, a família só pôde aceitar o aventureiro como


filho. João, ainda inquieto como um solteiro, teve que fazer viagens ao
Piauí e ao interior maranhense até se acomodar. Os filhos foram
nascendo, a família da mulher arranjou uma colocação no Fomento, a
vida foi passando, oito filhos já contavam. E ali era São Luis, onde
ninguém quer subir na vida. Os cargos melhores iam cegando e João
passava-os adiante para ajudar os que precisavam.

Foi envelhecendo encardido pelo sol desgraçado da ilha, que


todo o ano se apresenta o pino marcando o meio-dia. Num tempo
andou distribuindo os filhos pelas casas dos parentes para aliviar um
pouco a mesa. A ida já não era tão fácil e o ordenado de sua função
não dava mesmo para agüentar sustento de oito bocas, que comiam
tanto quanto esses carrões bebem gasolina. Das refeições, uma era a
mais simbólica – o jantar constava de café com leite, pão e manteiga.

O pão era apanhado num vilarejo distante, fiado a pagar no fim


do mês. O mesmo com a mercearia, que anotava tudo numa
cadernetinha: arroz, $, feijão, $, açúcar, $, farinha, $, café, $. Depois o
feijão foi deixando de ser um prato de pobre, como o foi algum dia e
cada vez mais se tornava inacessível. Outros gêneros acompanharam a
alta do dia a dia. O pão, quando não se pagava o mês, ficava suspenso.
Então o café com leite era com farinha d’água, banana com farinha
d’água, feijão com farinha d’água, café preto com farinha d’água.
41
Bendita farinha d’água! Se não fosse ela por certo a gente morria
de fome, como devia de ter outras famílias que passavam pelo mesmo
aperto!

Muitas vezes o jeito era ir pegar caranguejos e siris no mangue.


Ou futucar o mato em busca de jerimum cavalo, que um só dava pra
muitos dias. Era a aventura da sobrevivência, que João assistia
impassível.

As dificuldades iam passando o tempo. E pouco a pouco, quase


sem sentir mesmo, o coração de João ia se estourando. Às vésperas da
aposentadoria, quase na mesma função em que se iniciara no serviço
público (talvez tivesse subido um degrauzinho só), a doença tomou
corpo e começou a pregar João dentro de casa.

Na varandinha, sentado numa cadeira de vime, passava a vista


pelo bairro de ruas e casas simétricas, cumprimentando jeitosamente a
todos que passassem. Pra cada um, um modo diferente de falar. Talvez
dali mesmo passasse vista no passado da fama de conquistador, fama
que não perdeu mesmo depois de casado e com oito filhões na gaveta.
Aliás, era produção pra mulher nenhuma botar defeito. Dizem as más
línguas até que era bem capaz de João ter outro time, do mesmo naipe,
em algum lugar da cidade. Por isso – repetiam essas linguarudas – o
ordenado nunca dava pra sustentar a família.

As pernas estiradas na cadeira, o pés inchados, a respiração


difícil, me faziam sentir que João se deixava morrer. Por certo achou
que já tinha vivido muito, que agora só atrapalhava a mulher e os
filhos – que poderiam ter vida melhor sem ele, coisas assim. E nesses
extremos, aumentava o amor pelos filhos. Dizia-me lembro bem – que
ninguém, ninguém mesmo, gostava tanto dos filhos quanto ele.

A ilha era o ataúde, a moldura e o caixão dos sofrimentos de


João. Ali não tinha recurso. Pra se tratar ou tinha que pagar hospital
caríssimo, como a tal de Santa casa de Misericórdia (nunca ninguém
entendeu esse nome, pois, são verdadeiros mercenários das doenças –
onde a misericórdia) ou outro qualquer particular. O filho tentou
mudar o dependente para o IAPC, mas, informou o funcionário, isso
demoraria meses. O IPASE não tinha nem nunca teve hospital. E à 42
maneira que se descobria que o homem brasileiro não tem assistência
médica do Estado, o caso de João se tornava cada dia mais grave, mais
desesperador para a esposa e filhos que já antecipavam o desfecho, se
nenhuma providência fosse rapidamente tomada. Os amigos
ajudavam, mas João piorava. Não era caso para ajuda de amigos.

No último dia de resistência o alento desesperado: os amigos


ajudam e vem um médico especialista. Ordena o imediato
internamento, outro sacrifício, e levam-no para a Santa casa de jipe.
Viagem de mais de hora, João não resiste, lança um último olhar para
a mulher atrás, a mulher grita, ele está morrendo! E estava mesmo. Na
tal de Santa Casa, só o coração latejando já nas últimas – praticamente
morto, outro sacrifício – aliás, exigência – teve que pagar para entrar
no portão. Pagou, entrou e só saiu pro meio da sala dentro do caixão.

No outro dia um beijo na testa fria selou o caixão. A mulher


chorando de desespero, os filhos reunidos em torno do pesado caixão.
Lá fora o sol lascado torrava sem piedade a única fortuna que João
amealhara em todos esses anos: os amigos, conhecidos e parentes
distribuídos em quase cem automóveis que formavam o cortejo.

A viúva ficou com uma pensão de $ 300,00 para sustentar, dar


comida e educação aos oito filhos.
O CRIME DE JESUS CARLOS 43
Aquele calor estranho continuava a perseguir-lhe teimosamente
por dentro e por fora. O cheiro do tabaco ordinário consumido pelo
delegado penetrava-lhe as narinas e ia arder-lhe a garganta. O
delegado escrevia por entre as sucessivas perguntas protocolares.

- Qual é o teu nome, negro?

Ele tinha sempre que responder: uma, duas, três e até quatro
vezes. quanta perguntasse o delegado.

- Jesus Carlos – respondia. E diante a insistência do guarda: da


Silva – completava.

Nunca soubera por que lhe deram o nome de Jesus. Um Jesus


preto, ora essa, nunca existiu. Por que então? Jesus.

Apoiava a cabeça entre os pulsos cerrados, e ficava pensando: O


quê eu fiz, me Deus! O quê? Para estar, agora, aqui sentado à espera
do cárcere fedorento e imundo? Para ficar a espera do que lhe
dissessem: Estás preso, preto. O quê?

- Idade? Quantos anos, negro? – perguntava o delegado. Idade,


peso, mãe, pai, avô, tudo! Tudo! De tudo ele precisava saber
automaticamente, como se fosse uma fita magnética onde as respostas
estavam gravadas. E aquele calor intenso, aquele suor porejando-lhe o
rosto e pingando sobre o peito ensopado. E aquela secura nos lábios
que água nenhuma saciava.

- Cabo, traz um copo d’água pra mim. Dá um pro negro também.


Queres água, preto?

(Talvez aquele homem que estivesse sentado por trás daquela


escrivaninha não fosse tão mau como parecia à primeira vista. Por
certo ele teria uma família em casa à sua espera – pensava Jesus
Carlos – uns filhos alegres pulando-lhe no pescoço, nesse pescoço que
parece um pescoço de touro).
Mas eram apenas pensamentos vagos que se entremeavam na
44
realidade cruciante. O verdadeiro pensamento de Jesus Carlos não
estava ali presente. Desviavam-se anos e anos atrás, nas recordações,
ora graves, ora alegres. Lembrava-se da sua negra Maria das Dores.
Lembrava-se do quanto gostava dela. E pensava na família que viria
com o casamento. O preto Jesus Carlos não estava ali naquele cárcere
poeirento. Estava passeando com a sua Maria das Dores no bosque
fervilhante de aves e do vento sorridente que ali soprava. Estavam
noivos depois de três anos de namoro. Namoro sério. Os pais de Maria
das Dores sabiam e aprovavam o namoro.

- O Jesus Carlos é um moreno trabalhador. Quando o homem é


trabalhador vence na vida e pode dar conforto e alegria para a família.
A família então será feliz – dizia o pai de Maria das Dores.

De fato, Jesus Carlos era trabalhador. Não dispensava um


serviço! E trabalhava lá no armazém do seu Augusto Português. E seu
Augusto gostava tanto dele que de vez em quando dizia: - Jesus, tu
ainda vais ser meu sócio. E Jesus Carlos alegrava-se com isso! – Isso
quer provar que o preto dá pro comércio. Pensava. E o preto mais
trabalhava. Disposto, alegre, sempre cantando uma melodia da moda
ou cantigas do bumba-meu-boi. Botava com facilidade três sacas de
arroz na cabeça. E ainda levava uma debaixo do braço pra equilibrar,
dizia.

Aos domingos lá ia Jesus Carlos de braço dado com a sua negra


Maria das Dores à missa ou ao cinema assistir um filme de amor.
Levava Maria das Dores para passear na cidade onde ficavam de braço
dado olhando as vitrines coloridas. As vitrines onde tinhas os modelos
de vestidos que os brancos usavam. E Jesus Carlos ficava alegre com
a alegria da Maria das Dores. Comprava-lhe diversos presentes: um
chinelo japonês que o marreteiro vendia. um perfume que o camelô
apregoava se francês. Já lhe dera um sapato branco de salto alto, um
corte duma fazenda toda vistosa, cheia de flores. Mas Maria das Dores
tudo que via os brancos usarem queria para si. E Jesus Carlos não
gostava disso: Preto é preto, das Dores, eu gosto de ver preto que tem
orgulho de ser preto. Maria era ambiciosa. queria porque queria e
Carlos acabava cedendo aos pedidos. Afinal, ele gostava daquela
mulata. Ia casar com ela. Então tinha que se acostumar. Mas ela
45
também devia respeitá-lo e às vezes fincava o pé e não dava mesmo: -
Nêga, nós vamos casar e é preciso haver união: por isso aprende a
fazer o que eu mando. Ou então vai ter – completava em tom de
ameaça.

Sedo assim, Maria das Dores tinha quase tudo o que desejava:
meias, sapatos, vestidos e jóias. Ia até no salão de beleza e saía toda
jeitosa. Carlos admirava-se toda vez que ela aparecia na porta do
salão. E perguntava brincando: É tu mesmo, Maria, ou eu estou
sonhando? Mas, taí onde Carlos ficava embrutecido. Era quando
Maria das Dores pedia para ele a deixarela esticar os cabelos. Largava
o braço dela, afastava-se um pouco e dizia irado: Negra que estiva os
cabelos não tem vergonha na cara. E se tu, um dia, esticar os teus eu te
meto uma faca na barriga. Maria das Dores disfarçava sorrindo e
dizendo toda alegre:

- Tô brincando, meu nego. Eu só queria ver se tu gostas de mim


assim como eu sou.

- Se eu não gostasse, tu achas que teria namorado três anos


contigo? Já tinha te largado há muito tempo, viu?

Era a resposta que ele dava. Olhou pro corpo e viu que estava
agora todo molhado. O calor, os pensamentos e aquele tabaco
horrível, traziam-lhe à realidade. Ainda continuava naquele cárcere
imundo e fedorento. Onde aquele delegado, sempre pedindo um copo
d’água, continuava suado. O delegado estava agora com a camisa toda
aberta pondo à mostra o seu peito cabeludo e ensopado. Sempre
escrevendo, sempre perguntando. Sempre chamando Jesus Carlos de
preto (ou negro, o que dá na mesma). E Jesus Carlos não gostava
daquilo.

- E agora, preto, que horas foi que tu deixaste a tua noiva


dormindo?
A pergunta do delegado fez Jesus Carlos levantar a cabeça.
Preto, preto, preto. Por que sempre lhe chamava de preto?
46
- Preto não, eu tenho um nome – e o senhor já o conhece muito
bem. Eu já repeti muitas vezes: JESUS CARLOS! – a resposta de
Jesus Carlos surpreendeu a si próprio. E por que aquele grito: Jesus
Carlos! Era preto mesmo. E não gostava de ser preto? Na se orgulhava
da cor?

- Chame preto, mas chame com o pê maiúsculo, porque eu sou


muito macho pra qualquer branco, viu? – disse Jesus Carlos tentando
desculpar-se e impor-se a uma só vez.

- Ah, é assim, não é pretinho? A gente te trata bem, em


consideração aos moradores, que gostavam de ti. Em consideração a
ti, que já foste um preto decente e trabalhador e tu me vens com
estupidez pra cá! Se eu tivesse dado umas borrachadas tu estarias
murchinho aí no canto. Eu até gosto de ti negro, por isso não te faço
nada.

O delegado continuou falando, mas Jesus não escutou mais nada.


Era certo. Todo mundo gostava do preto Jesus Carlos no Lugar. Hoje
as vizinhas comentando o fato dizem ao ouvido: - Sabe o Jesus
Carlos? E a outra ao saber da notícia: Foi? Coitado, tão bonzinho que
ele era. Aposto que estava enfeitiçado por alguma outra que o
desejasse. Aposto! Quase ninguém acreditava na notícia e exprimia
sempre com uma exclamação poética: O Jesus Carlos? Foi, menina?
Quem diria, hem? Por quê?

- Vamos, Jesus Carlos – disse o delegado com calma – é a rotina,


que horas foi?

- Foi às quatro horas da tarde, seu delegado. Ela veio do salão de


beleza. – Estava quase chorando. Começou a falar palavras sem
sentido. O delegado não queria saber ainda do resto, só da hora. Mas
Carlos continuou falando. As palavras saíam pela porta, guardada por
dois soldados e perdia-se na calada da noite escura.
Num daqueles domingos em que Jesus Carlos saía perfumado e 47
alegre, foi que aconteceu a tragédia. Levava consigo um presente para
a sua Nega Maria das Dores: as alianças para ao casamento. Só pudera
comprá-las depois de anos de trabalho. Agora levava as alianças
escondidas no bolso do paletó branco. Ia fazer-lhe uma surpresa.
(Porém, Maria aguardava-lhe uma surpresa muito maior). Chegou ao
salão de beleza, onde Maria das Dores deveria estar. Vacilou um
pouco e resolveu ficar na esquina à espera de Maria das Dores.
Quando ela saísse, ele a abraçaria fortemente e mostraria na palma da
mão as alianças douradas e brilhantes ao sol. Já havia imaginado a
alegria de Maria das Dores ao ver as alianças. O grito de alegria que
ela daria e o aperto no pescoço, bem apertadinho que ela haveria de
dar. E ficou ali tremendo de emoção como se fosse vê-la pela primeira
vez. Recordou-se dos tempos em que namorava escondido: que ficava
a espera, ao entardecer, na pracinha da igreja todo enfarpelado na sua
beca de dia de domingo. Ficou ali naquelas ternas recordações.

Observando todo mundo que saía do salão de beleza, não


conseguiu ver Maria das Dores. Ela ainda não havia saído. Estava
demorando. Ou será que ela não foi ao salão de beleza hoje? Começou
a inquietar-se. Uma vez deu um pulo ao ver uma moça que saíra do
salão de beleza, mas, ao vê-la por trás, desanimou: não era Maria das
Dores. Aquela era loura, pensou, a sua Maria era mulata. Mas
admirou-se de tanta semelhança. Deram seis horas da tarde e Maria
nada de aparecer. Foi ao salão, entrou, e procurou-a. Não estava mais
lá. Havia saído – disse-lhe a cabeleireira – há muito tempo.

Jesus Carlos saiu desolado e surpreso. Que diabo, não a viu sair.
Mas não tirou os olhos da porta. Acabou deduzindo que foi quando ele
se virou para olhar uma morena bem feita. Bem feito – diria ela – para
não olhar mulher dos outros. Resolveu ir para casa. À noite veria
Maria das Dores e mostraria as alianças. Mas, quando chegou a casa –
aí estava a verdadeira surpresa da sua vida. Sentiu um pulo em seu
pescoço, sentiu duas mãos tapando-lhe a vista e escutou a voz de
Maria das Dores.

- Adivinha meu nego.


48
Jesus Carlos – disse o delegado – amanhã tu vais para a capital,
no trem das 5 horas. Serás julgado e, por certo, condenado. Quero que
saibas que eu fiz apenas o que sou obrigado a fazer. Cumpri com o
meu dever. Mas continuo sendo teu amigo.

Jesus Carlos quase chorou. É. Além de sofrer intimamente a


morte da sua noiva ainda teria que sair da sua vila. Aquele lugar onde
nasceu e que esperava se casar, ter uma porção de negrinhos com a
sua negra Maria das Dores.

- Eu fiz tudo o que podia por ti lá na capital. Tenho uns guardas


amigos na delegacia de lá e, se tu fores preso, vão te tratar bem. Eu
não conheço o doutor, mas sei que é um bom homem. O que te vai
defender. Eu acho que vai se necessária a minha presença lá. Se eu
for, ficarei sempre do teu lado.

Talvez fosse melhor para ele ter que sair daquele lugar. As
lembranças desapareceriam mais depressa.

- Seu delegado, eu posso me despedir da minha gente? Eu queria


ainda uma vez vê-los. Queria ver meu pai, meus irmãos e minha mãe.
Dar um abraço neles.

- Pode sim, Jesus. Eu vou providenciar para que eles venham


aqui te ver. Tu não podes é sair daqui – respondeu o delegado.

Jesus Carlos pensou em se despedir do seu Augusto Português,


do Tônho seu amigo (desde pirralho), do padre Alemão. Mas, se fosse
se despedir de todos os conhecidos teria que passar uma semana só
despedindo-se. Afinal não conhecia todo mundo ali? Não! Não
poderia nem olhar para a cara deles. Se visse o seu Augusto, que
queria ser seu sócio, não poderia fixar a vista com ele. Ele não
quereria um sócio que matou a própria noiva. Não, não queira.

- Jesus Carlos, vem cá. Mete aqui nesta cachola por que iria um
preto decente como tu matar uma garota bonita como a tua noiva. Por
quê? Por que negro? Eu não vejo uma razão sequer. Tu não gostavas
49
dela? Ela não gostava de ti? – perguntou o delegado. – Vocês não iam
se casar?

Jesus Carlos levantou a vista. Seus olhos faiscaram de ódio, os


dentes cerrados! E disse palavras que o delegado de pronto não
compreendeu:

- Ela era aquela loura que saiu do salão de beleza de cabelos


espichados! (1963)
EL DIA EN QUE EL MARISCAL BOLGUEREDO SE TORNÓ
HEROE NACIONAL
50
El Reino de Bosil, bellas tierras clavadas en las llanuras andinas,
fue heredado por la facción de los Bolgueredos allá por los idos de
marzo, cuando un grupo de mariscales ha expulsado a palo el último
de los presidentes electos por lo arcaico sistema de elecciones
directas, llamado democracia.

Y por años y años la familia de los Bolgueredos viene reinando –


se no pacíficamente, como era de se esperar – por lo menos
manteniendo los opositores a una buena margen de distancia, mismo
si para tal fin fuera preciso usar el viejo método del palo.

En realidad el clan de los Bolgueredos tiene facciones diversas y


disidentes que también almejan el poder eterno de la presidencia y
viven así creando opositores, reteniendo la gente, matando, echando
por ahí en los locales yermos, cadáveres perforados, torturando
mujeres, señoras, viejas y mismo los niños, en el afán de acusar a los
enemigos. Es por eso llamado de El escuadrón de la muerte.

El propio Mariscal Bolgueredo fue entonces el dilecto escogido


para dirigir los destinos de la Tierra de Bosil, justamente en el 15º año
de existencia del heredado reino, enfrentando, todavía, una sólida
resistencia de varios sectores de los disidentes que también tenían sus
candidatos al ambicionado cargo.

Entretanto, Bolgueredo é aquel que mejor reúne cualidades para


el cargo que le fue destinado, además de tener una simpatía personal
muy grande y ser el predilecto del entonces Presidente Supremo – por
si só suficiente para nombrar cualquier pretendiente, visto ser no
Reino de Bosil el deseo do mandatario una orden superior, mayor
mismo que los designios de Diós! Cuanto más de un mísero pueblo de
ciento y cincoenta millones de habitantes.

Escogido y aclamado el Mariscal Bolgueredo preparó se


galardonadamente para a pompa das festividades de pose,
principalmente a su garbosa farda cuyos alamares y condecoraciones
relucen cercados pelas centellantes 10 estrellas del mariscalato.
51
A ciudad de Bosília, capital federal incrustada no centro dos
altibajos andinos, nunca estuve tan linda en fiesta. Los atrios do
Palacio Presidencial ornado con banderolas, confetis, serpentinas. El
palanquee oficial mostraba-se aparatado con realce para las colores
verde y azul, da patria bandera, en infindables arabescos. Balones
multicores fluctuaban en los mastos y un enorme cercado de ripas
caprichudamente lisadas serviría para recebé, a través de su portera
principal, el populacho ansioso para asistir al ato.

Todo tenia olor de fiesta! La festividad del siglo!

Dicho y hecho. En la ocasión el expresidente hizo un breve y


conmovente discurso, deseando al mariscal un buen mandato y en acto
solemne le pasó la faya presidencial. Bolgueredo, por su vez,
visiblemente emocionado agradeció elogiando as obras y hazanas de
su antecesor, como era a praxis en los últimos 15 años.

Até ahí todo normal, como a populación ya costumnada a tales


festividades. EL extraño mismo ocurió a partir do primero día de pose
do mariscal Bolgueredo.

Para sorpresa de todos el mariscal inició o su mandato asignando


decretos que revocaban decretos y más aún: los decretos y actos que
constituían as llamadas Leyes de Excepciones (las conoscidas
salvaguardas del regimen), incluso el ACTO MAYOR Nº 15! – o AM
15! – el más rigoroso representante de esa generación legislatura!

En seguida – no segundo día – en otro ato que dixo la nación (y


todos os componentes y mentores do reinado heredado por ele)
perpleja, amnistió todos os presos políticos, encarcelados y/o exilados
(que, segundo as más lenguas, son cerca de 12 mil y segundo as
peores lenguas cerca de 100 mil), bien como anuló as millares de
demisiones ocurridas por acto de los ACTOS MAYORES y mismo
por influencia personal de un o otro enemigo do funcionario.
52
No día siguiente – el tercero – autorizó la inmediata readmisión
de aquellos injustamente penalizados y funcionarios vis y militares,
garis, profesores, jueces, etc., pudieran retornar a sus operosas
actividades, solucionando con eso inúmeros problemas do reino y da
sociedad.

Toda a Nación del Bosil aplaudía entusiasmada as reformas: en


fin un Bolgueredo con todas las condiciones de tornarse el único, el
grande y indefectible heroe nacional, satisfaciendo los aseos
embustidos da populación!

Hube ciertamente una reacción de aquellos contrarios a tal


sistemática de gobernar, mas el Mariscal Bolgueredo mostró-se à
altura de su poder y fuerte suficientemente para repelillos
inmediatamente, recebiendo para tal o apoyo do pueblo.

En todas as partes realizaban manifestaciones de


confraternización al Presidente, algunas delas reuniendo mas de 100
mil espectadores, cosa jamáis vista en todos os 15 años de Rey nado
del grupo Bolgueredo, incluyendo el operariado, el clero, estudiantes,
militares, donas de casa, labradores y demás clases.

No cuarto día ordenó Bolgueredo a todos os ministerios rigoroso


controle nos precios dos alimentos (Finanzas), no quinto día autorizó a
concesión de bolsas de estudio gratuita en las escuelas estatales a los
pobres (Educación), asistencia médica gratuita a todos (Salud).

No sexto día – espanto general – el mariscal supremo ordeno la


suspensión general de la censura a todas las publicaciones nacionales
y extranjeras, bien como para obras y espectáculos artísticos,
cinematográficos y musicales.

Las ideas pasaran a ser entonces discutidas libremente y un


congraciamiento mayor das culturas de varias naciones fue observado.
A paz, que ya existía en estado latente en la índole do pueblo
bosiliense surgió mas nítidamente, con alegría, o medo y el pavor
sufocados.
53
Reencendidos el amor y la hermandad nativas nos habitantes, el
Bosil pasó a ser una nación respetadísima en todos los círculos do
mundo, siendo consultada continuamente pelas demás quando
decisiones internacionales da mayor importancia eran tomadas.

En el septimo día el Mariscal Bolgueredo convocó elecciones


nacionales, abolidas de ha mucho do calendario bosiliense, para eligir
deputados, senadores, gobernadores, prefectos y para a propia
Presidencia!

Estupefacto general!

Heroe Nacional, aclamado por todos los hombres, cantado en


prosa y en verso, finalmente pude el Mariscal Bolgueredo asignar su
último ato – la renuncia – y descansar! (1978)
JUANA, JOANA 54
A paisagem:

A janela. Donde se desprende o corpo que chega às esquadrias.


A janela, Juana na janela. Dela exala a luz, fluorescente, amarelada e
videaliza a imagem inicialmente despida. A luz é Juana. O guarda-
roupa e o espelho são os objetos projetados em vida ao espião que vê
engolidas as peças emolduradas. Portasseios, liga, calcinha, meias: é a
mulher adornada que surge numa nova dimensão cada vez mais (nua)
pura. Juana aparece mais pura e nua. O vidro serve de lente de contato
e a janela de olhos escancarados. Os lábios se mostram fazendo parte
do todo. Os lábios de Juana aparecem, sorriem. As mãos tomam conta
dos seios, trazem toda a sua beleza em concha aos ávidos e
perscrutadores olhos de espião. De longe, o todo é Juana nua, os seios
pendendo são seios vivos. A janela ri da graça, garras cerradas
trazendo a noite da rua. Juana (perdida) na rua.

A voz:

Juana com u mesmo. Pai analfabeto, o que não é vergonha


nenhuma naquele fim de mundo, e o escrivão também parecendo
outro. Não foi nada de espanholismo, não. Burrice mesmo. O padre eu
não sei se é ignorante porque foi batizado coletivo. Todo mundo em
fila, alguns já marmanjos, vinha ele chegando, sabendo o nome da
gente e deixando com algumas palavras em estrangeiro a cabeça
molhada de água-benta e a boca amargando o primeiro sal da vida. O
nome saindo falado da gente tanto faz ser com o ou com u e a mesma
coisa. E tudo isso é besteira porque nome mesmo não aumenta nem
diminui rumo de vida de ninguém. Vivência sim. Carrega o corpo de
mil olhos a mais, trejeitos e maneiras instintivas, fazendo a vista
longínqua, limpa de cisco que nem vista de marujo.

Se fosse tornar pra terra onde nasci o pessoal iria me parecer


mais idiota ainda. Mas este desejo me corrói por dentro. Toda. Voltar,
retornar, reviver. só de imaginação. A gente sai do meto e é engolida.
No fim de tudo, aprendemos todos a sobreviver em florestas: de mata
ou de cimento mesmo. Nasci no mato, sim. E quem nasce na roça vê
55
muito além da imaginação e sempre vai bater na cidade grande. Por
exemplo: empregada em casa de amiga de um fazendeiro qualquer,
em ajuda de pagamento da dívida insanável.

A cidade tem muito que mostrar. Gente pobre vendo coisas na


cidade é como estar com o estômago corroendo a si próprio, em frente
à vitrine de um restaurante ou confeitaria, mostrando alimentos e
doces coloridos. A cidade é uma prisão de liberdade. E a visão de
dentro da gente não é a visão citadina, não é mesmo. De fato, de
verdade mesmo, ver não resolve nada. A gente logo em seguida quer
tocar e possuir depois. Quando para ter é preciso dinheiro e se os
patrões pagam mal e porcamente, o jeito é aceitar as ofertas
descaradas de dona Liza:

- Tem um doutor senador importante que é muito amigo meu


(arrogante). Anda louco para ter um cabaço novinho, ainda cheirando
a mato (confidente). Não se preocupe, ninguém saberá (amiga).

Dá um bom dinheiro, afinal. E no primeiro domingo de folga


encontro com dona Liza. Leva-me ao seu apartamento. tem aí umas
coisas que eu não sabia nem imaginava, jamais: banho cheio de sais
perfumados (nem adiantou ter falado do banho tomado), raspagem dos
pelos das pernas, do sovaco e de outras beiras mais pra dentro.
Cuidadosamente, apesar de macios e raros os meus pelos. A novidade
maior: tenho de vestir roupagem de freira. Que explicação dá dona
Liza a isso?

– Falei pro doutor senador que você está no convento.

Somente, nada mais. Enfim, dinheiro é dinheiro, necessidade é


necessidade. Lá vem ela mantendo em mim toda aquela roupagem.
Onde conseguiu, não sei nem pergunto. Mas tem tudo que uma freira
deve ter: aliança na mão direita, roupa de dentro alvinha, depois um
monte de azul-marinho. Um quase véu me cobria as orelhas e um
rosário de contas grandes. Cristo flutuando entre as minhas coxas.
Quando me vi no espelho ate tomei um susto. Nem parecia eu. Dona
Liza é quem diz:
56
– Parece que você não nasceu pra outra coisa. Nasceu pra freira.

Dona Liza há de repetir estas palavras toda vez que notar uma
nova qualidade na interiorana. Depois o doutor senador. Velho, quer
saber muitas coisas do convento e eu conto. Coisas que não sei, pois
convento eu nunca vi. Mas a sabedoria me trouxe ao mundo e eu
conto coisas que o ilustrado senador não sabe, nunca viu um convento
também. Conversamos, conversa vai, e dona Liza tem de sair. Fazer
compras, fingir. Estando sós, o seu doutor já se achega a mim. Eu não
sou uma freira, mas seus olhos não dizem isto. È uma noiva de Cristo
que ele acaricia. É sob as vestes espessas de uma candidata a santa que
sua mão trêmula passeia. Minha natural inocência a tudo que acontece
de repente, trazida do mato, só me aumenta a febre. As roupas
transtornadas em louco desalinho e eu sentindo estranhos tremores a
percorrer as linhas dos meus nervos. Nem consigo ver direito o
senador, embaraçado entre panos e saias. o crucifixo jogado
displicente para cima de mim, tudo sumindo da minha visão. Do lado
de cá só eu e Cristo mesmo.

Tempo depois:

– Alô. É do Convento das Purezas?

Atendo o telefone chateada de ter sido acordada àquela hora,


boca amargando os sais da vida, a cara franzida e marcada pelo sono
atrasado, a luz do dia varando as frestas da persiana, a voz cansada se
arrastando em palavras. Apenas resmungos bem ditos, entremeados de
palavrões. Dona Liza arranja clientes imprevistos e nas mais diversas
horas, sem qualquer respeito ao descanso alheio. Dinheiro é chatice.

– Um recado para madre Joana. O senador seu tio chega hoje e


aguarda sua visita.

Joana, Juana. De novo o doutor senador. Hoje a freira vai reabrir


as pernas, vestes cheias de panos sobrando, oferecer suas partes
íntimas à ávida língua, lábios ardentes, o crucifixo jogado no umbigo
nu. Quanto anos, freira Juana? Muito tempo foi passado e Juana
transformada em máquina de fazer sexo (não amor). Perdida no limiar
do prazer. Mas veio o dinheiro, que é bom, e Juana pode satisfazer
metade de todos os sonhos. A outra metade é cria da cidade mesmo: o
57
incontrolável desejo de retorno às origens libertar-se de tudo e ser uma
Juana sem chamados especiais. Ninguém entende nem procura
explicar – o dinheiro não trouxe a liberdade esperada. Através do
sexo, é mais um elo na cadeia inexorável da cidade grande.

– Ela sabe o endereço. O doutor senador é um homem muito


importante e ocupado, tem uma reunião governamental e inadiável.
Amanhã vai inaugurar um colégio, viajando a seguir. Só pode ser
hoje.

Só vem aqui ver a sobrinha, rápidos momentos. Sei da farsa. O


doutor estará ao lado do telefone aguardando ofegante a resposta.
Estará também feliz com o consentimento para gozar os prazeres
proibidos com uma freira saída não sabe de onde. Dentro em pouco
um cândido olhar e puros gestos remetidos por dona Liza e será
joguete nos braços de um pecador voluntário. Sob a maquiagem,
entretanto, o olhar estará acompanhado de fartas olheiras. O princípio
pudico como arma, as palavras dosadas com sabor de Deus, o tom de
oração a sós. Não faltará o Cristo entre os seios, testemunha muda dos
prazeres criminosos.

Ainda depois:

Quantas faces conseguiu Juana criar com perfeição?

A vida de madre e de outros tipos foi cambiando fácil, fácil. Do


tipo adequado para tais metamorfoses, cabelos curtos e lisos,
juventude e corpo de adolescente que os anos ultrapassavam em
aparente imutabilidade. Podia-se jurar que o tempo não passou por
aquela alma. O verde dos olhos acentuado pela pele queimada desde a
infância interiorana. O sorriso irônico ou infantil – ninguém sabe –
tosco e eterno. Os dentes chamuscados pela nicotina, as olheiras que,
paradoxais, davam um toque de Maria pureza ao quase sempre tens
semblante. Uma frágil aparência no corpo, seios e quadris um pouco
mais alvos (a marca sensual da pele queimada), tudo formando um
quadro de desejos. As mãos, os dedos falando sozinhos em gestos que
contavam histórias da infância, passarinhando ou brincando de
esconder com os meninos, companheiros ao lado do quarto escuro, as
58
mãos correndo pelas coxas, o nariz do mais audacioso roçando
ingênuo no seu corpo imberbe.

Juana que nem parecia a atriz consumada de hoje, fazendo a


moça recém-casada ainda vestida de noiva (diretamente da igreja para
o freguês), ser ainda virgem secretamente, vestido longo de casamento
no mesmo papel de obstáculo tentador. Tudo como num quadro: a
noiva sendo possuída pelo amante antes mesmo do marido, um ramo
de flores resistindo bravamente às contrações da mão em gozo, o
noivo esperando nalgum lugar, nervoso, desesperado. Como num
quadro.

Não, não era a mesma Juana que contava histórias mal passadas,
os olhos úmidos de brilho e alegria, a que hoje vinha de farda azul-e-
branco, livros ajeitadamente abandonados, pupilas distendidas
(incontroladas) exaltando a ânsia estudantil de conhecer mil segredos.
O hipnótico farfalhar da saia curta, meias brancas arriadas até o
calcanhar, o sapato negro, o sorriso. O sorriso de uma pressuposta
gazeta, uma fuga conivente, tudo improvisado.

A Juana de desejos satisfeitos plenamente por dona Liza – a que


consegue saciar todos os raros anseios surgidos do mais profundo no
ser humano: berrantes, loucos, idiotas, bizarros. A que consegue iludir
Juana – e mais outra centena – sempre e sempre. O carrossel gira
rápido como um raio, impossível controlar e deter. O círculo torna-se
um vício: é mais fácil enganar duas pessoas sobre uma cama que o
universo todo reunido.

Sempre dois, Juana uma, um outro qualquer, encoberto por


títulos igualmente provisórios: deputado, padre, doutor, senador ou
fazendeiro, ou tudo isso junto, bestamente junto.

Joana, Juana já perdeu também o corpo e deixa a alma aos


cuidados de dona Liza – a menina que fez primeira comunhão, em
plena brancura, a velinha caindo no chão, apagada de gozo. gozo de
agulhas pelo corpo todo, o suor escorrendo pelas orelhas, pelas pernas,
o arrepio percorrendo os nervos. As mãos em busca de porto agarram
desesperadamente algo que apareça ou ficam mesmo abandonadas por
59
aí num canto de carne qualquer. Um sapato de nuvem atirado a esmo,
tudo à vontade, tudo formando um novo quadro para saciar as retinas
dos que – fora das camas – trajam instintos mais que feudais,
antiquados e falidos. dos que transmitem aos filhos ensinamentos
mentirosos, opostos diametralmente em tempo, qualidade e espaço,
aos que aplicam sedentos nas juanas.

Primeiras confissões:

Juana é tudo na vida. Passageira do sexo, em cada viagem uma


aventura, homens e destinos diferentes. Desejos heterogêneos
plenamente satisfeitos. Por que ao contar tudo o que sai da cabeça?
Ah, a vontade de dizer tudo de uma vez num turbilhão, de si mesma,
de dona Liza, de todos os outros. A moça recém-casada ainda vestida
de noiva, Juana que fez a primeira comunhão mais de uma vez, as
vestes comungatórias salpicadas de esperma, a aeromoça fardada – o
broche de asas – do aeroporto direto para a escala da cama. Juana
freira, noviça, as vestes paramentares, enviada do silencioso convento
para o altar do sexo, a estudante normalista vestida de azul e branco, o
sorriso moleque, a gazeta, os livros atirados sem jeito.

Finalmente, os cuidados para não criar situações vulgares, ser


enfim a prostituta para que atende somente a chamadas especiais e não
admite de modo algum ser assim vulgarmente intitulada, a existência
de colegas em idêntica situação, a esperança de um dia largar tudo,
jamais se ruma nova dona Liza, e voltar a ser a mesma Juana do mato.
Antes que a velhice chegue demolidora. Também significa se libertar
das coisas acontecidas que permanece espectrais dentro da gente
perseguindo nossa vida até o túmulo, tal almas penadas. E pelo menos
falar alivia o peso adquirido no curso da maldita existência. O peso de
saber, o peso da experiência, do conhecer a dura vida, puta vida! O
peso de sentir perder a liberdade pouco a pouco ante a contingência de
ganhar o fácil dinheiro através do seco, pelo sexo, para o sexo.

O padre Abel chegou e Juana foi logo se ajoelhando. Era o


horário dele, bem sabia. Com a mão pousada nos cabelos de Juana
60
ordenou que se levantasse. Não ficava bem naquelas horas confissões
de joelho no chão, explicou, Juana agradeceu com uma reverência,
dando logo início ao rosário:

Seu padre sabe como a gente pobre é atirada no rumo das


cidades grandes, sei que sabe. Nasci no mato, sim, e quem nasce na
roça vê muito além da imaginação e da alma. E foi assim que eu vim
parar aqui, nessa vitrine de restaurante ou de confeitaria onde a gente
se corrói por dentro.

Padre Abel suspirou resignado e anuindo compreensivamente


desabotoou metade da blusinha de Juana. Os lados rosados dos seios
arfaram ligeiramente.

Daí encontrei dona Liza. Alma boa a dona Liza, mas sabe bem
aproveitar nossas necessidades. Alegrou-me um doutor senador muito
importante que – sabe – era louco por virgindade, essas coisas. Dá um
bom dinheiro, afinal, e quando os patrões pagam mal e porcamente o
jeito é aceitar essas ofertas descaradas. A cidade grande tem o que
mostrar é uma prisão de liberdade, padre.

O padre sentindo calor atirou o chapéu de lado e desafogou a


batina mostrando parte do peito cabeludo. Juana faz um carinho terno
no rosto do padre, não sente o tremor que isso provoca, beija-lhe as
mãos como quem pede perdão pelos pecados cometidos. E continua:

O padre sabe – tenho mais que certeza – como essa vida é difícil.
O doutor senador quer saber muitas coisas do convento que imagina
eu estar internada. Coisas que não sei, pois convento nunca vi. Eu não
sou freira, mas seus olhos não dizem isto. É uma noviça que ele
acaricia e beija, as roupas transtornadas em louco desalinho sob as
quais suas mãos passeiam em carícias. Nem consigo ver mais o
senador ora embaraçado entre panos e saias. Do lado de cá só eu e
Cristo mesmo.

Padre Abel já mostra as faces avermelhadas, gotas de suor


ameaçado correr pelas bochechas. De súbito arranca a blusa já solta de
Juana, que reage num diminuto suspiro de surpresa e imediata
compreensão. A custo o sutiã detém os seios que a respiração mais
acelerada a todo instante ameaça liberar. Uma vez livres flutuarão
61
como gaivotas sobre o mar.

Depois, padre – Juana recomeça com um sorriso – dona Liza


arranja cada vez mais clientes, imprevistos nas mais diversas horas,
sem qualquer respeito ao descanso alheio. E tudo passa a correr
aceleradamente. De novo o senador, de novo a freira vai reabrir as
pernas e oferecer suas partes íntimas aos ávidos lábios ardentes.
Minha vida foi transformada numa máquina de fazer sexo, mesmo
vindo o dinheiro – que é bom – estive perdida no limiar dos prazeres.

O padre não resistindo ao suor que já banhava o seu corpo arriou


a parte superior da batina, de entremeio Juana nem sentiu a saia ir
deslizando lentamente rumo ao chão. Suas coxas já sofriam o assédio
carinhoso do padre. As confissões deixaram o casal absorto, agindo
mecanicamente, mas Juana assim mesmo prossegue:

Quanta face teve de representar com perfeição? A vida da noviça


e de outros tipos foi mudando fácil. Podia-se jurar, porém, que o
tempo não passava por mim. Tinha juventude e corpo de adolescente,
a pele queimada desde a infância atraía os homens, meus seios duros e
leves, meu sorriso, minha boca, a frágil aparência no corpo. Fazendo a
noiva que saía diretamente da igreja para os braços dos amantes, um
ramo de flores preso na não contraída de espasmos. Como num
quadro.

Padre Abel já estava de cuecas.

Aquela, padre, não era a mesma Juana do interior. Mas, oh, não
adianta admirar as coisa, as flores, quando se é puta. A vida resumida
num apartamento, não num lugar qualquer pulguento e fétido, um
lindo apartamento de luzes coloridas, cortinas aveludadas, música ao
fundo. Uma prisão em cores, de viver à noite e morrer de dia. Tudo,
padre, um sonho real mal contado. Entreacordado o sonho trazia o
japonês que só queria ir atrás, louco e beijar todas as minhas partes. O
senhor sério, que falava de voz embargada tipo um candidato, porém
igual a todos os anormais – pedia para meter o dedo não sei aonde até
gozar. Aquele outro que não teve nem tempo de ter relações e foi
embora apressadamente, para não perder o avião. Mas deixou o
62
dinheiro. Quantos tipos tiveram posse de meu corpo, padre, milhares e
milhares, de acordo com o seu temperamento e vontade momentânea.
Mas, oh, não adianta falar tudo isso para quem não escuta, o bom
ainda é admirar a natureza, as flores, quando se é uma Juana qualquer.

Padre Abel, nu, não tinha mais ouvidos. Juana displicente coçou
o bico do seio onde uma gotícula de suor tinha se acomodado. O sutiã
balançava ao vento pendurado na janela. O padre acompanhava-o no
vai e vem ritmado.

Tinha dias que eu ao agüentava e ficava totalmente, calada,


como se perdesse a voz. Ninguém sacava nada da minha alma
naqueles instantes. Dona Liza dizia que tinha prejuízo, mas a
experiência ensinava que era natural agir assim. Em transe, olhando as
cabeças dos edifícios lá embaixo, telhados velhos sendo demolidos,
janelas varandas, pensamento voavam longe varando o tempo. A luz
ofuscante do sucesso financeiro, padre, projetava imagens despidas de
qualquer luxo numa cidadezinha antiga do interior. O meu
contentamento é que nesses instantes eu me torno a Juana filha de
minha mãe, irmã de minhas irmãs, humilde de pé no chão, essa
imagem que dona Liza jamais conseguirá derrotar. A lágrima presente
nesses momentos não era de tristeza. Era o arrebatamento da alegria, a
fuga espiritual da prisão em que se encontram as pessoas que vêm do
interior para a cidade, sem possibilidade de retornar jamais.

Juana nua na cama, num gesto repetido milhares de vezes, abria


as pernas para entregar o amor. Num fio de voz a pergunta
desesperançada:

- Padre, eu tenho penitência?


O DIÁRIO DESCONHECIDO 63
Chegadas acidentalmente às minhas mãos, passo adiante, com
isenção, algumas anotações de um (apaixonado) desconhecido. Não
são, entretanto, apenas notas de amor, baboseiras escritas por um
amoroso, embora esse estilo predomine sobre outros. Têm algo de
social, tentativas de contos e algumas poesias realmente de valor. Não
sendo especialista, deixo a análise para o leitor. Os textos não têm
cronologia, seguem à minha vontade. Devo desculpas, também, por
interferir em algumas palavras riscadas e textos sobrepostos. Às vezes
o texto anterior não deveria se modificado. Vai tudo conforme está.
As primeiras anotações que seguem têm o título de Palavras a
Georgette (com dois tês) e entre parênteses: que iam ser ditas no dia 6
de junho, quando foi mais fácil dizer apenas ADEUS.

Carta

Mais uma vez aconteceu o que seria de esperar. Você, sem


motivo algum aparente (ou com objetivo certo?) arrumou mais uma
briga. Digo que seria de esperar, apenas pelo lado lógico das coisas:
ocorreu uma vez, repetiu-se e se repetiria sempre. Eu já agora tenho
absoluta certeza do seu desamor. Sei quando me tornei um empecilho,
um tirador de liberdade exatamente quando a gente mais precisa: na
juventude. Quanto a isto deve perdoar-me. O meu amor é tão grande
que fui egoísta a ponto de sacrificar sua juventude para tê-la ao meu
lado. Tinha consciência da próxima separação qualquer dia: estava
apenas adiando-a, prolongando o meu sofrimento, a minha felicidade.
Na verdade, a diferença de idade (11 anos) foi ponto vital. Apesar de
que várias pessoas têm vivido plena felicidade com tal divergência.
Isso só se verifica quando ambas são adultas, o que não acontece
conosco. Nessa última briga de amor prometi a mim mesmo acabar
definitivamente com mais um (frustrado) amor. Apesar d medo de
deixar você – por vários motivos, sabe, essa proteção que a gente quer
dar sempre à pessoa amada. Apesar de saber que muito vou sentir com
sua ausência. A realidade me aponta o caminho a seguir. Verdadeiro
paradoxo: tantas bobagens feitas e sentir que você faz falta realmente:
e saber que continua absolutamente necessária a separação.
Verdadeiro paradoxo.
Desculpas sei que devo, das muitas vezes que usei 64
artimanhas e influências para mantê-la junto a mim. Para gozar mais
alguns dias de felicidade. Para fazê-la sentir os prazeres que sei dar.
Quantas vezes usei de conversa para tê-la ao meu lado. Palavras que já
não lembro, que só um louco amor fazia criar e sair de mim.

(Hoje também tenho confirmado o afeto que tenho a F. e M. R.


Apesar de saber que M. R> - em igualdade de condições – tanto fez
par que estivesse comigo, quanto fez para separá-la de mim, quando
assim quis. Apesar de saber muito que você (por fim) não gostava de
mim, apesar de saber que nos mantinha unidos era um pouco de pena
e sentimento de culpa.).

Aí termina o primeiro escrito. Pareceu-me inacabado. A seguir


vai uma poesia, que penso não ter nada com o caso amoroso do autor
com Georgette. O título (sempre duplo) é: Postal ou Coisas de Amor.
Leiam:

1ª poesia: Postal ou Coisas de Amor

Amor ou amizade,
pergunta o coração à saudade
vendo céleres os dias (ante) passados,
a verdade confundida.
Amor fosse
Fixos sempre em lembranças róseos,
Ternos dias de ânsia sufocante.
Os murmúrios intraduzíveis, os beijos.
Sendo amor, resta sólido sentimento
- respeito à alma puríssima,
Embora, ó mundo! De criatura vilipendiada,
de irmanado afeto – idem.
Se amor.
temporariamente retornará mental
a plural vontade de ressentir:
(o meigo rosto, carícias, hálito quente,
beijos, corpos em nó, gozo)
e saudade, saudade.
Amizade. as formas, fumaça simplesmente
E volatizados seremos, frios
65
(gélidos)
Coloridos como postal de cidade.

Vou permitir-me uma breve análise. minha opinião,


naturalmente. Pareceu-me que a cafonice utilizada nos primeiros
versos foi premeditada. Digo isto em razão do valor da algumas
imagens posteriores. Ademais, como verão, o autor sempre alterna
boas criações com situações infantis, ou quase.

A outra poesia que se segue não é do escritor, segundo uma


anotação ao pé da página: com licença de Saul Lessa. Segundo
deduções minhas, confirmadas, a poesia dói retirada de uma revista de
palavras cruzadas, na qual o autor colaborou. É uma poesia ingênua,
na qual o nosso poeta substituiu o nome da original pelo da sua musa.
Ficou assim:

2ª poesia: Recado a Georgette

Georgette, sei que me odeias


pois meu mal não remedeias
e amas os que me maldizem.
Contar-te porém me atrevo
(nestas linhas que te escrevo)
o que tuas flores dizem.
Dizem que foste contente
e nem sequer reparaste
como triste de repente
ficou tudo o que deixaste.
Um cravo, mais paciente,
diz que não o abandonaste,
mas anda meio doente
porque ainda não voltaste.
Notaram mil outras flores
que eras outra a cada dia.
Falam as rosas multicores
que nem mais tu as queria.
Nem para a minha agonia
66
eu não te peço favores,
mas.volta, volta Georgette,
pelo bem de tuas flores!

Sem comentários. A seguir encontro outra poesia, também isenta


desse infeliz amor. Bastante ritmada, parece mais feita para musicar.
O ritmo está mais acentuado que a rima, e a rima é bem musical.
Também faço uma análise apenas supérflua, em virtude das
explicações acima. Vamos ao poeta. Espero que estas anotações
deixem vocês tão interessados quanto a mim. É um segredo de alma.

3ª poesia: Tintas

Pintei meu céu de outra cor,


fui amar com meu amor.
Chega de guerra,
batalhas politicais, (sic)
chega de vida
- nem viver quero mais
Pintei meu céu de outra cor,
fui brincar com meu amor.
Chega de bombas
terrestres, extra-orbitais,
chega de morte
- nem morrer quero mais
Pintei meu céu de outra cor,
pintei de amor.

Apresenta, sem dúvida, um progresso. Poeticamente falando, um


progresso desprendido da situação amorosa em que se encontrava o
autor dessas linhas. Novamente, entretanto, volta o nome de Georgette
em nova poesia. Como falei, não há ordem cronológica. Assim, não
sei em qual ponto localiza-se tal poema. Creio que depois das
palavras. É um poema desesperado:

4ª poesia: Poema ao Deus que levou Georgette e não devolveu


Deus que levou para os seus, sem pedir,
67
o amor-mulher de um homem,
não Te perdôo
Sei a razão: por castigo.
Paga eu mereço
até ter a vida arrancada da alma
Sei que é Teu dever dedo em riste acusar
e julgar condenado aqueles a quem a vida
tornou um mau
E que à nossa semelhança deves também
cometer lastimáveis erros.
Deus Te perdoe, Deus
- que eu não hei de fazê-lo.
Ter meu viver sacrificado não lastimo
e são tantas as cruzes que mundo afora carrego
que até Cristo Teu filho envergonhar-se-ia
Mas, Deus,
mulher de macho não se tira assim, assim
quando muito se deve aumentar o seu amor
pelo homem que- herói – oferece-lhe
o produto de músculos, carnes, espíritos e mente.
coração, sangue e amor
Resultado:
A máquina de fabricar mais um robô
de somente carne e ossos
que a terra verme há de devorar – verme
Pedra sou, diverso do Teu Pedro, onde
nada será erigido
- pedra apenas para nada sentir
Também o futuro registrará que a máquina
projetou uma prostituta social
esposa-aparelho-caça-níqueis-mercenária
Queiras Tu que não
mas é mais que certo acontecer
Como pedra sou, serei (novo ou velho) desmoronado morto
sem Te acreditar, sem considerar-Te um
boa praça como antigamente fazia
Sem respeitar Tuas leis
- que me traz prejuízos acatá-las
68
Injustiça Deus
de um homem não se tira a Georgette amada,
em vista do que não posso perdoá-lo
Que Deus Te perdoe, Deus.

Outro avanço, sem dúvidas, outro avanço. Trata-se de um poeta


perdido entre os seios de uma Georgette amada. Como falei
anteriormente, um poema cheio de desespero, descrença e falta de fé
no mundo. Um abandono total, por causa de um abandono amoroso. A
linguagem torna-se mais poética, mais séria, mais à vontade. É pena
que eu não seja um especialista para desmembrar mais os textos deste
desconhecido. dissecar as palavras em explicações claras a respeito da
vida íntima do homem, A próxima poesia tem o título de O Forasteiro
ou O Destino Provisório. Repete-se a duplicidade de títulos. A que
creditar isso? Talvez uma permanente incerteza quanto a tudo que
escrevia. Talvez quanto a tudo o que ocorria em seu torno. Mas a
poesia gira em volta de recordações. É assim:

5ª poesia: O Forasteiro ou O Destino Provisório

A cidade onde nasci


de onde a memória é breve
(lembro bastante o cheiro do mar)
por poucos anos suas terras detiveram-me
Parti
S. Luis o próximo destino
que encravou imagens mais fortemente
hoje se perde desvanecida: ah o progresso
(Antes que tal ocorra em definitivo escrevo)
Mais nitidamente
- que eu saiba e lembre –
tem telhados, azulejos, mulheres
e também o cheiro de mar perdido nas
estreitas ladeiras
outra base para novas aventuras
Tem amigos, juventude, teve infância
e o princípio de homem
Novamente a largada, novas terras ao sul
69
São devastadas: Curitiba, S. Paulo, Rio,
(Apenas mais um breve acampamento, onde a
partida virá breve, antes que a cidade
devore a liberdade: até quando?)

Aqui foi notado apenas uma evolução na pontuação. De fato, a


poesia requer um mínimo de pontuação gráfica. As pausas e cadências
devem ser efetuadas mediante divisão de palavras e não como excesso
de pontuação. Foram abandonados os pontos e seus subordinados,
mantendo vírgulas, dois pontos, interrogações.

Também nada de amor. Desprendimento total a esse respeito,


liberdade em nada falar. Pareceu-me poesia de um tempo anterior ao
caso amoroso. E até mais experimentada. Não entendo, realmente,
como pode ser isso. Decida você, leitor, as idas e vindas e o sobe e
desce dos escritos encontrados.

Para mim continua sendo um mistério. Vamos prosseguir nas


poesias, até chegar ao fim, onde guardo uma surpresa (pelo menos o
foi pra mim).

6ª poesia: O Robô

Vim de longe, do solitário deserto,


encontrar (em você) o amo, o ânimo, a paz
reunidos em necessário elo, vital engrenagem
ao (frágil) homem que mecânico vive
Logo funcione o coração, são barreiras superadas:
umas primeiro, mil outras depois.
coerentes em valiosas funções,
inúteis obstáculos, porém,
à vibrante edificação humana assim dinamizada
Como inesperada tempestade
a ferrugem intransponível surgiu:
meu coração cessou o pulsar,
parados estão os nervos e os sentidos,
os olhos não vêem um palmo além,
só porque o robô perdeu (você) o dínamo.
70
Para quem não notou, dou a dica: a musa desta poesia está
mencionada nas letras iniciais de cada verso. Exatamente formado está
o nome Vera Lúcia Campos. É raro ver-se uma musa citada
nominalmente, e com sobrenome! Mais uma notação para se ver no
escritor analisado. A poesia também perde muito da tradicional
cafonice dos apaixonados e passa a ser poesia séria, embora com tema
amoroso. Muito diferente da musa primeira, Georgette. O muito amor
prejudicou o escritor e sua obra. Aliás, a poesia que virá agora tem
como tema a mesma Georgette. Segundo uma notação de pé de
página, a mesma foi publicada na revista de palavras cruzadas de onde
saiu aquele poema adaptado, citado anteriormente. O título é um lugar
comum: duplo.

7ª poesia: Georgette ou Um Longo Poema de Amor

Georgette que conheci


Em noites consecutivas
Cabelos caindo aos ombros
alegria incontida eternamente
O aconchegar-se a mim
cabeça pousada (sic) nos ombros meus
exigindo descanso ao trabalhoso dia
O sono adquirido à vontade
amplo, relaxado
a mostrar para que serve ombros amigos
Georgette que conheci
em minutos, horas, dias, semanas,
meses, eternidade limitada há um ano
Olhos verdes que não quero esquecer:
a boca, o sorriso, aquela forma de rosto
Indefinível
O amor, um longo amor entremeado com
flores, risos, lágrimas, tristezas,
como todo amor comum
Planos futuros não vingados
sementes mal lançadas em terra virgem
Georgette que amo e conheço
71
não outra qualquer
(esta não quero esquecer
outras nem quero lembrar)
De repente o universo foi encolhendo
eu a resistência
Como ficou mesquinho, deus
Os dias contados reversivamente:
9-8-7-6-5-4-3-2-1-0
Um coração pelas ruas.

Desculpem-me se falei que o amor prejudica o escritor e seus


escritos, aí está o desmentido. De fato, agora, somente agora,
verifiquei quão linda é esta poesia. E com todas as qualidades de
poema amoroso. Apaixonado. Cafona. Um coração abandonado vaga
pelas ruas.

Eu tinha prometido uma surpresa e aqui está. O último escrito é


um esboço de um conto ou novela. Sério, sem qualquer ligação com
os outros escritos. Esqueça o que leu anteriormente, esqueça no bom
sentido. Porque o que aí vem é algo assustador em comparação com o
que foi lido. Não tem títulos nem outras anotações. Algumas palavras
sobrepostas substituindo outras, frases e pontuações. Mas nada que
identifique o escrito. Vou chamá-lo de A Fábula do Cidadão.

Vamos ver, e despeço-me desde já, deixando a análise final para


você, leitor, para quem foi feita esta juntada de textos diversos,
abandonados. Adeus.

A Fábula do Cidadão

Todos os dias o cidadão bem trajado passa no terreno doado à


nossa comunidade para trazer boas novas. Segundo ele as coisas vão
sempre bem, o progresso avança a largos passos, todos vão ter o de
comer e beber. Enquanto isso nossa barriga incha, braços e pernas
definham. A cara cada vez mais amarelada (isto é que é país – diz ele).
Nossa boca mais ressequida. Nossa mente, cada vez que o bicho
72
atravessa nossa terra, torna-se mais estreita. A idiotia ataca forte meus
companheiros. Ninguém reclama, ninguém diz um ai. Entre todos, o
único que aprendeu a falar alguma coisa sou eu.

- Estamos com fome.

Grito enquanto o homem passa.

- Com sede e sem dinheiro.

Finge que não me vê, não me escuta. Cada vez mais grito, cada
vez mais pioramos.

- Plante, replica. A terra que nos coube é árida, seca. Não temos
adubo, trator ou arado, qualquer equipamento. Plante, insiste o
monstro.

Minha gente fica louca e só falta levantar-se o ditador nos


ombros, carregá-lo em triunfo. Tudo por causa das palavras
hipnotizadoras, ilusionistas. Sorriem e alegram-se com ele. Cada vez
mais idiotas, bêbados de burrice. Alguns já morrem, outros estão
atacados de paralisia, mas o homenzinho diz que o progresso está
chegando e todos acreditam.

- A fome e a sede serão suprimidas.

Todos crêem. O dinheiro virá em abundância. E os camaradas


comem capim. E prometem dar a metade do que têm para o homem. É
o cúmulo. Para manter a lucidez (um resto de lucidez) como todas as
substâncias alimentícias possíveis. Reclamo, berro, luto, em vão.
Nada. O homem sempre me diz que não tenho mais companheiros
para ouvir-me. Ninguém mais dá apoio. Olho minha gente bestificada,
cega. Como não vêem? Como conseguem não escutar? Breve o capim
vai acabar. Preciso acostumar-me a apoiar o anormal que representa
interesses alheios e, se possível, também carregá-lo nos ombros em
triunfo.

Em triunfo!
O EVANGELHO SEGUNDO 73
E Jesus gerou a Davi e Davi a Salomão da que foi mulher de
Urias. E Jacó gerou a José marido de Maria da qual nasceu Jesus que
se chama Cristo. Aquele que seria o Nazareno Rei dos Judeus e de
toda a humanidade.

Ora, foi assim o nascimento de Jesus: estava Maria desposada de


José e antes de se ajuntarem achou-se grávida.

Bendita és tu entre todas as mulheres Maria, pois de teu ventre


surgirá o reformador da sociedade, o profeta dos povos de Judá, de
Israel, de Cafarnaum, de Getsemane, de Nazaré, de Jerusalém. Aquele
que virá minorar o sofrimento da população sofrida. Aquele que
tornará um inferno a vida dos Reis provisórios.

E nasceu o Salvador em Belém da Judéia, Terra de Judá, quando


César Augusto decretava obrigatório o alistamento sob o aquiescente
olhar dos presidentes dos povos. Vieram uns reis orientais para
negociar com Herodes o Patriarca quando foram surpreendidos por
um cometa de cauda abundante e ultra luminosa. Eis que lembrados
das profecias anteriores seguiram a luz cujos últimos raios incidiam
sobre Belém. Lá interrogando a todos descobriram que somente o
menino Jesus havia nascido naquele exato momento. E comentaram:
Finalmente é nascido o enviado de Deus, o Messias, que os profetas
maiores anunciaram. aquele para quem João pregará abrindo os
caminhos do deserto.

Retornando da entrevista com Herodes voltaram então à casa de


José e Maria para anunciar a estranha e curiosa insistência do
Patriarca em saber detalhes do nascimento do menino. Aconselharam
então à Maria e José a fuga para o Egito em companhia de Jesus.

No Egito recebeu Jesus dos sábios as primeiras lições e, tendo de


retornar à sua terra com a família, verificou, num encontro com
sacerdotes e doutores no templo, que a filosofia precisava ser
modificada para atender aos reclamos do povo miserável que
constituía a maioria da população das cidades que o cercavam.
74
Retornou então ao Oriente, abandonando a família, onde pôde estudar
todas as escrituras antigas e suas leis, principalmente a filosofia
milenar da região. Aos 30 anos, pronto física e mentalmente, retorna
Jesus à sua terra para iniciar a batalha decisiva rumo ao poder,
encontrando pregando pelo deserto o profeta João Batista. Jesus
acompanha-o como ouvinte atravessando desertos anunciando a vinda
do Prometido. O deserto é o local ideal para apanhar as pessoas em
êxtase. Ali, onde a natureza é imprevisível e dura, os homens se
encontram em perfeito estado de graça e compreensão. João escolheu
o deserto para pregar sabendo que todos os seus caminhos levam às
cidades. Sua palavra e seu grito correriam com o vento de boca em
boca em todos os rumos. Logo todo o povo estaria à espera de um
novo líder. E em breve o próprio povo exigiria um novo líder.

Eis que Jesus inicia, então, a sua investida. Ante visionando a


estrada a percorrer rumo ao poder central prega paralelamente a João,
já como o próprio Salvador. Os que ouviam João e se deixavam
batizar logo sentiam em Jesus que o Messias estava presente e se
lançavam com ímpeto ao ataque.

João, profeta revolucionário maior, atravessa desertos para


prever com sua palavra instigadora a chegada do que será o líder.

Jesus, após batizado por João, habita em Capernaum, cidade


marítima no caminho do mar, além do Jordão, a Galiléia das Nações.
A primeira tentativa de pregação no perímetro urbano resulta em
fragorosa derrota. Jesus expulso de Nazaré. Daí sua insistência futura,
ferido em seu amor próprio, em vitorioso retornar à cidade que o havia
desprezado. Vencedor, como em todas as outras aspirações, Jesus foi
recebido auspiciosamente em Nazaré tempos depois. Ovacionado
pelas multidões que já o reconhecia como o verdadeiro Rei. Em
Capernaum, onde foi bem recebido no início, fez a sua base e pôde
trabalhar sossegado. Sempre que possível feria os preceitos morais
vigentes curando no sábado, que era dia sagrado. renovando os
direitos do povo. enaltecendo o respeito à pessoa humana mesmo
quando prostituída.
75
Enquanto isso João previa sua própria queda diante dos guardas
de Herodes. Enviou mensageiros para conferenciar com Jesus e saber:
És aquele que estamos esperando? Jesus prometeu seguir todos os
sistemas pregados por João, já que os objetivos a alcançar eram os
mesmo. Os emissários apressam-se a levar a nova ao seu Mestre. Pôde
então respirar aliviado e dar as suas últimas instruções aos seus
apóstolos. Os últimos resquícios de revolta seriam lançados em plena
cidade entre o povo e os cidadãos até que a impiedade de Herodes (e
Herodíades) fizesse saltar do corpo a desgrenhada cabeça do
guerrilheiro João. Formou então Jesus o grupo que o assessoraria, não
mais de doze: Pedro, André, Tiago, João, Felipe, Bartolomeu, Mateus,
Tomé, Judas Tadeu, Paulo, Simão e Judas Iscariotes, que foi o traidor.
E saindo eles pregaram o evangelho em todas as aldeias e vilas.

E percorreram com seu Mestre toda a Galiléia ensinando nas


Sinagogas e orando nos desertos e curando as enfermidades curáveis:
os afeminados, os endemoninhados, os lunáticos, os paralíticos e Ele
curava a todos. Ditava novas leis: Ninguém deita remendo de ano
novo em veste esfarrapada porque semelhante asneira rompe a veste e
faz maior o rasgão. Uma nova verdade é violentamente pregada. E
disse Jesus a seus comandados: Não ireis pelos caminhos das gentes
nem entrareis em cidades de samaritanos, mas ide aos desertos aonde
vivem as ovelhas perdidas e extraviadas e dizei-lhes: - é chegado o
fim das injustiças, é chegado o reino dos céus e das primaveras
eternas.

Instruídos sobre toda a ação, o futuro iria das aos apóstolos o


lugar merecidamente conquistado pela consolidação da evolução dos
direitos humanos, destaque que deve ser estendido antes a João e seus
companheiros de luta, direito adquirido como precursores de um
movimento libertador antes apenas regional, mas que os séculos
tornarão mundial. A tática guerrilheira de pregar nos desertos onde os
regulares sempre encontraram dificuldade venceu o senso incontido e
revoltoso de Jesus. Achou, porém, que já era tempo de levar a
revolução da palavra até o cimento, à pedra, à construção humana, eis
que João havia sido subjugado e morto e o líder dos movimentos
operários, o profeta dos direitos urbanos Barrabás estava detido.
Herodes busca saber quem ainda ousa levantar a voz nos desertos
novamente, após esses duros exemplos de João e Barrabás. Quem era
aquele que tomou as rédeas do rebanho abandonado pela Voz que
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Clama nos Desertos e já se aproximava das cidades em perigosas
incursões para o regime? Jesus, o de divino olhar, o de voz segura e
rigorosa para como os fortes e amena e carinhosa para os fracos e
pobres. o de físico e estatura capazes de resistir às mais duras reações
humanas e inumanas. Sob seus pés curvaram-se mais de mil povos
subjugados pelo olhar penetrante, voz aguda como as espadas árabes.
Aquele que perdoou Maria Madalena de todos os pecados tornando-a
sua amada amante e reconhecida pela dedicação e trabalho como o 13º
apóstolo.

Traído por um beijo de Iscariotes (novamente o egoísmo falou


mais alto) Jesus foi preso em Getsemane, Pedro procura reagir
incitando seus companheiros a segui-lo, impensada resolução logo
repudiada por Jesus. Para que sua voz prosseguisse sendo ouvida em
todas as camadas da população, para que pudessem ser conseguidas as
mínimas reivindicações era necessário que os profetas subsistissem.
Diante da ordem superior, melhor foi silenciar, negar. E Jesus foi
preso e julgado e condenado.

Herodes não quis assumir perante a História a responsabilidade


sobre o destino do homem que começara a sacar dos corações das
gentes o estigma da revolta e da revolução. O desrespeito à autoridade
fantoches e às suas leis falsas que amparavam somente a alguns
apenas. O julgamento caiu nas mãos de Pôncio Pilatos que previu o
jogo sujo de Herodes dando-lhe explosivo sangue inocente nas mãos.
Sabiamente colocou o povo da cidade no julgamento e em suas mãos
o destino do Nazareno.

Ora, estava o líder mais conhecido, Barrabás, detido à espera de


julgamento e condenação, e para as autoridades seria menos perigoso
solta-lo, que acatava certas imposições, cujas possibilidades de revolta
já haviam se esgotado. Jesus – que também recusou acordo com
governos e com o próprio Barrabás, estava com a vida nas mãos de
um povo que o desconhecia e ainda não assimilara de todo sua
pregação, sem conhecimento da totalidade de seus milagres e curas.
Assim é que o tribunal público, sabiamente utilizado por
Herodes e sua polícia (que apresentaram Barrabás como o verdadeiro
77
líder) escolheu-o condenando Jesus à crucificação.

O Salvador cavou sua própria sepultura ao carregar uma cruz


através da cidade deixando todos cansados de tanta perversão e
maldade, de tanto gozo e diversão maléfica feita com um condenado.
Só e abandonado no Calvário, desfalecido e dado como morto, Jesus
teve seu corpo retirado e lançado numa cova lapidar. Familiares e
mulheres que o acompanhavam deram-lhe os últimos beijos e
suspiraram. Retiraram-se todas, todas menos uma que teve fé: Maria
Madalena a quem todos um dia chamaram de prostituta, repudiada por
todos foi quem aproveitou o silêncio da noite chuvosa para visitar seu
bem amado. No túmulo tratou das feridas mortais e sentiu em Jesus
um último e distante hálito de vida, Sim, Ele ainda vivia! Que tanta
resistência trazia dentro de si? Afinal, quem agüentou dias e mais dias
no deserto e jejuava para poder dividir pão e peixe com seus amigos
era bem capaz de resistir à própria morte. Madalena tirou-o do túmulo
e fez contatos com os apóstolos e remanescentes de João Baptista. E
levou-os ata Betânia e lá Jesus abençoou-os levantando suas mãos
sobre as cabeças: Quando estivestes comigo nada lhes faltou. Hoje,
entretanto é necessário ter alimentos em suas mochilas e voz limpa em
suas gargantas para continuar a pregação. O alicerce está lançado e
vós sereis as pedras da construção.

E de todos se apartou e foi nos braços de Maria Madalena


elevado aos céus pelos votos de amor eterno até a morte verdadeira.
UM CASO INTRINCADO 78
(Vila Felicidade teve alguns dias de desassossego quando
ocorreram uns casos que abalaram e destruíram parte da estrutura
social sobre a qual pousava o povoado. Os fatos poderiam passar
despercebidos e ocultos. Mas, o crime de morte requer mais que
investigações abafadas. E a situação foi aproveitada para explorar
segredos da alta roda, dos quais o povo conhecia apenas de talhes
contados em forma de boato ou invenção. Muita coisa se perdia no
vento. muitas situações eram de mentira. e a verdade não tinha hora de
aparecer, submergida nessa onda toda de inventiva.

Nem mesmo o delegado perdoou as pessoas envolvidas na


situação e foi inquiridor da maior rigidez.

A imprensa tomou conhecimento das ocorrências e foi mais


sensacionalista ainda. A vila ainda sofre conseqüências de uma
intervenção federal rígida onde a imprensa funcionou na
clandestinidade enfrentando toda espécie de ameaça e censura
tornando-se depois escora do governo e única fonte útil de informação
honesta. Logo, não haveria porque reprimir as manifestações
jornalísticas no presente caso nem em outro qualquer.

Ademais daquela intervenção pra hoje, os títulos sociais pouco


significam, os falsos poderes derrubados permanecem impotentes, e
cheira até um pouco de liberdade revolucionária nessa transformação
porque passou a vila. Por isso a melhor fonte de informação ainda é a
imprensa, inda mais esta que é a imprensa sofrida, marginal muitas
vezes clandestina, e revolucionária sempre.

Evidentemente as conseqüências advindas ao conhecimento


popular do presente caso foram além do descrito nestas páginas. O
registro dá pra extrair o de bom e de ótimo que trouxe o
acontecimento para a vila e sua gente. Na mais tradicional forma
proverbial: pra bom entendedor meia palavra basta.

Eis aqui a reprodução mais ou menos fiel da matéria jornalística.


APÓS SER REPELIDO MATOU A ESPOSA com seis tiros.
Viveram juntos em regular felicidade durante dezoito anos até que
79
desentendimentos constantes levaram Fernando C. Machado a tomar
uma drástica decisão, pois queria a reconciliação de qualquer modo,
com qualquer conseqüência. Não teve sucesso em inúmeras tentativas
feitas: telefonando, pedindo a amigos comuns que intercedessem.
Lucy Cruz Machado, descendente de alta linhagem em Vila Felicidade
(o Coronel Mechado ficou famoso por não tomar parte nas disputas
havidas entre os guardadores de cabaços), recusou delicadamente
todos os insistentes pedidos. Impedido de restabelecer a paz comum,
Fernando Correia Machado, armado, foi fazer a última tentativa.

Funcionário público estimado na repartição até ser aposentado


acabou por assassinar com seis tiros a esposa e companheira Lucy
Cruz Machado no interior de sua residência. A Rua Paz e Amor foi
abalada com o inditoso crime. O criminoso, não tão nobre quanto à
esposa (tomou o nome Machado em virtude do completo
desconhecimento de seu sobrenome nas camadas sociais), foi preso
pelo filho do casal Hélio Vida-Bonfim Machado, tenente servindo
junto ao Corpo de Benfeitoria Geral.

Há cerca de dezoito anos Fernando e Lucy começaram uma vida


feliz que se estendeu ao longo do tempo. Após o último ano, porém,
os desentendimentos foram tantos e tão freqüentes que resolveram
pela separação. Foi Lucy, aliás, quem deu a idéia e Fernando, embora
ferido em seu amor próprio, resolveu concordar passando a viver fora
da companhia de Lucy.

Ultimamente Fernando começou a fazer várias diligências e


novas pressões para retornar à vida comum e desejava reconciliação a
qualquer custo. mas Lucy o queria apenas como amigo, se tanto.
Como companheiro nunca mais, apesar de confessar desejos pelo
gosto e jeito do homem na cama.

Fernando não desistia jamais. Deixava passar um, dois, três dias
e tornava à carga com maior veemência. Ora por telefone, ora
pessoalmente, quando presente na vila. vezes por cartas, vezes por
telegrama se ausente da localidade. jamais desistindo, jamais. As
pessoas amigas da família preocupadas, não podendo recusar, por 80
motivos sociais, intercessão junto a Lucy que permanecia irredutível.
Não cedia milímetro.

Ontem, às primeira horas da noite, Fernando armado com um


revólver calibre 32, curto, marca Ina-942, foi à residência de Lucy
tentar pela derradeira vez convencimento, fazer as pazes. Esquecer o
passado, iniciar tudo de novo como se a vida conjugal iniciasse ali
naquele instante. É evidente que Fernando possuía outras intenções
caso não obtivesse o sucesso desejado.

Chegando, Lucy o recebeu como sempre amavelmente. Seu filho


se encontrava em casa recolhido ao quarto. Notou na chegada que o
velho estava armado. Sem suspeitar dos malévolos inconfessáveis
propósitos ainda indagou com naturalidade e em tom brincalhão:

Está armado pra quê? Vai caçar?

Ao que Fernando respondeu textualmente, riso cínico já se


projetando nos lábios:

Fique tranqüilo rapaz. Se eu quisesse já teria feito uma besteira


das grossas. mas não é de minha tenção.

Hélio se afastou da sala convicto de que realmente nada de


anormal ou dramático iria sobrevir, dada a avançada idade de ambos.
Mas se enganava redondamente.

Lucy e Fernando ficaram conversando velhos temas e coisas


banais. Amenidades. Mesmo espaçadamente se podia escutar alguns
risos e alegres observações. Lucy serviu Licor de café de preferência
dos dois, que era servido, entre a palestra. Logo foi incluído o assunto
da reconciliação. Mau momento, a seriedade penetrou no ambiente. o
sorriso desapareceu. Uma sombra de mal estar pairou na conversação.
Muitas vezes Lucy disse não aos apelos incisivos e suplicantes de
Fernando. Estava senhora de si e da situação, ao contrário de
Fernando que via o mundo ruir desastrosamente. Tornaria a ser apenas
Fernando, sem qualquer título próximo à nobreza e ao militarismo.
- O que está feito está feito. O passado nunca volta. é
81
irreversível. Opinião de Lucy encerrando definitivamente o assunto
com o velho.

Ante a intransigência Fernando só fez insistir mais e mais.


Parecendo buscar, remediar e transferir para outra ocasião a terrível e
fatídica decisão que tomaria no caso de Lucy decretar a recusa final.
Chegou a se ajoelhar aos pés de Lucy, no calor das súplicas e do licor,
na insistência dos pedidos. E Lucy só fez repetir mecanicamente pela
milésima vez a revoltosa palavra:

- Não.

Tresloucado o velho Fernando puxou o revólver e fez seis


disparos fatais. Lucy ante o impacto dos projéteis rodopiou e caiu. A
face transtornada implorando no minuto final vida e piedade.
Segundos depois estava morta, infalivelmente morta.

Praticado o crime monstruoso Fernando arriscou a fuga em


desabalada carreira. O filho surpreso ante tudo que ocorrera em fração
de segundos saiu do quarto contíguo, equipado com a arma de sérvio
(uma Beretta-45) logrou prender Fernando ofegante alguns metros
além. Não conseguiu o velho a prisão sentimental, mas não logrou
escapar à justiça dos homens. Hélio desarmou o criminoso que
renunciou à arma docilmente e conduziu a seguir para a Delegacia de
Crimes Amorosos onde foi autuado em flagrante delito. Julgaram ver
algumas lágrimas nos olhos abatidos do velho Fernando. Ou era o
reflexo do lampião amarelado da delegacia?

O corpo de Lucy foi recolhido ao Instituto Legalizador de


Cadáveres para sofrer a necropsia, sob as miradas eróticas do doutor
de plantão, e posteriormente remetido à fazenda do Coronel
Machadão.

(Convêm algumas palavras antes de deixar o caso bailando nas


mentes, quanto ao tratamento dado no jornal aos personagens. Nada
de senhor ou senhora. Tudo igual a todo mundo. Inclusive a necrópsia
foi exigida pelo delegado para demonstrar que não existem mais
privilégios de classe. A menção ao título do coronel Machadão,
82
justifica-se: é um homem reto, merece respeito. No mais tudo
igualzinho aos outros.)

(A desgraça seguinte não deu tempo pro povo respirar e mastigar


o assunto inicial. Foi talvez conseqüência da primeira desgraça que
Hélio Vida-Bonfim Machado mudou o modo de vida e passou a beber
e ter casos abertamente com várias mulheres. Virou brigão sendo
acatado por todos não só pela sua patente como também, pela
descendência direita do Coronel Machadão – que dava costas quentes
e largas ao neto adorado. Sugeriram, em falas ocultas, um amor
pecaminoso com a falecida mãe. A palavra ainda é do Diário de Vila
Felicidade, em plena forma e na melhor tradição jornalística. Sem
dúvida o redator da seção de crimes tem veia poética. A nossa
intervenção se prende apenas ao esclarecimento mais fácil. Sei que
tem muito bom entendedor por aí, mas conheço também o pessoal de
pouco ver.)

COSTUREIRA FUZILOU O SEDUTOR com um tiro à


queima-roupa. A humilde costureira Maria Graciosa (21 anos, solteira,
residente na Rua Paz e Amor s/nº) depois de seduzida por um tenente
do Corpo de Benfeitoria Geral (Hélio Vida-Bonfim Machado, maior,
24 anos, neto querido do Coronel Machadão) matou contem com um
certeiro tiro à queima-roupa o amante.

Depôs a costureira na Delegacia de Crimes Amorosos, que Hélio


vivia alimentando o caso de amor com falsas promessas de montar um
apartamento completo na cidade grande para os dois que mais tarde
trataria do casamento com véu, grinalda e tudo. Uma sensacional festa
seria dada aos amigos e parentes do casal.

No início do idílio é fácil se perceber a tentativa de ser agradável


a todo custo. Prometer então não tem fronteiras. depois muito mais
simples é deixar sair da memória o apalavrado.

Descobriu Maria Graciosa que Hélio mantinha várias amantes e


alguns filhos espalhados pela vila e redondeza e não poderia jamais
83
cumprir o prometido. Mesmo assim, por muito amor, resolveu aceita-
lo de qualquer maneira sujeitando sua vida à humilhação de ser a outra
de muitas outras.

Ontem Hélio veio fazer visita mais uma vez. Como era praxe,
estava completamente alcoolizado, cheirando a bebida. Discutiram
sobre assuntos diversos aloucadamente, debate sem nexo que provoca
a ira rapidamente. A situação irregular de ambos veio à tona, como
seria inevitável. Maria Graciosa sempre alegava em seu favor ser a
última das mulheres do mundo por manter essa situação desastrosa.

- Nem uma puta! Vive com eu, pois tem liberdade de escolha.
Relembrava as vãs promessas, as mentiras alimentadas por ambos, as
tentações oferecida pelo militar para conseguir o que finalmente
conseguiu: seduzir e abandonar (com seduziu) (como abandonou). A
sobra naquela ridícula posição social.

A altercação muitas vezes chegou à agressão física. Também o


palavreado rastejou com as feras, aproximou-se ao vulgar com
palavrões impublicáveis. Os nossos leitores merecem o melhor.
Graciosa, desolada como ninguém, sentiu seu mundo desmoronar.

A modesta costureira, porém não possuía outros meios de se


livrar dele ou da prisão amorosa em que estava enredada.

A condição física de Hélio não permitia escuta de tais sermões,


andava em busca de paliativo para suas bebedeiras. Resmungou contra
as reclamações de Graciosa soltando palavrões e insultos. A
vizinhança ouviu:

- Você está sendo demais na minha vida. Já encheu as medidas.


Por isso vou te deixar definitivamente.

Maria Graciosa se viu perdida repentinamente. Fez uma


retrospectiva de sua vida de luta e sofrimento em busca de uma
posição mediana condizente com suas possibilidades. Lançada na vida
com ardor, ao trabalho objetivo, à luta honesta. Conseguir alguma
posição elevada ou algum marido – seu sonho. Para solidificar a
posição social adquirida em breve fundaria um casa de costura e a
prosperidade viria mais rápido. Recompensa pelos anos ásperos em
84
que enfrentava só a tudo e todos.

Hélio surgiu em sua vida como uma complementação da


aspiração. Militar que ganhava razoavelmente bem, ótima aparência,
muitas vezes carinhoso (quando nada bebia) e descendente de família
nobre. Certamente daria bom marido e excelente pai. Sonho justo das
moças que lutam individualmente na vida. O amor fez Maria Graciosa
investigar a vida aventureira de Hélio, apenas desencargo de
consciência. A princípio tudo foi levado esportivamente como quem
sabe que nenhuma mancha frustraria suas ambições.

O destino reservou um castigo maior que o previsto. Sim, não


seria nada anormal se Hélio tivesse um caso amoroso passado: todos
os homens têm problemas desse tipo. À medida que a busca se
ampliava as mulheres foram multiplicando e o desespero começou a
penetrar no futuro da simples costureira. Que fazer? Ser apenas mais
um aonde o amor plantara a tragédia? Onde jogar o amor adquirido
em alguns anos?

Naquele dia, pressionada pelo vigor dos fatos, surgiu a decisão


de pronto na menta desvairada da moça, desiludida com promessas
sem fundo.

Tudo era um mar de rosas até o dia em que Hélio decidiu pela
separação. Maria Graciosa viu ali não só a sua libertação, mas a de
todas as mulheres, cinderelas anônimas que ninguém mais acredita
existir, enganadas por homens atores de primeira página, cafajestes de
piores resquícios humanos.

Por causa de um genioso amante que partia para a violência


desastrada: antevendo o mar de maus tratos que seriam infligidos no
decorrer dos anos, a costureira Maria Graciosa desfechou um tiraço
em seu amante Hélio Vida-Bonfim machado. Tirou a vida do homem
que desgraçara a sua.

Um certeiro tiro na cabeça à queima-roupa.


(Mas onde foi parar Maria Graciosa. Descoberta uma casa 85
suspeita, mantida por uma ricaça de origem citadina, nada mais nada
menos que Maria Graciosa era ali a mais requisitada, a mais querida –
além de maior incentivadora das posições heterossexuais cultivadas
pelos freqüentadores.

Escolhidos a dedo da fina flor da sociedade felicense,


constituíam os sócios freqüentadores dessa sociedade secreta,
conforme se poderá ver (ainda) pelo inexplicavelmente resumido
relatório publicado pelo Diário.

NO LIMIAR DO 4º SEXO

Maria Graciosa, costureira, famosa tristemente pelo crime de


morte que custou a vida de Hélio Vida-Bonfim Machado, filho do
Coronel Machadão, acontecido há poucos dias. Maria Graciosa,
residente na Rua Paz e Amor, esteve assim envolvida no triste caso de
assassínio do amante.

Olhos claros, cabelos castanhos, corpo escultural e voz macia


com certo acento gutural, quem a vê na rua 21anos e andar
bamboleante, não a supõe no limiar do 4º sexo. Foi presa ontem num
antro de lésbicas e heterossexuais mantido por conhecida milionária
vinda periodicamente da cidade grande – passar férias e descansar,
segundo informação oficial.

Retornou Maria Graciosa à Delegacia de Crimes Amorosos,


onde já é conhecida, pra depor. A casa de perdição e vícios foi
desmantelada ante insistentes e sucessivos registros de queixas contra
o barulho de músicas (geralmente eróticas e pornográficas) até altas
horas da madrugada, invadindo manhã a fora. Houve reclamações
também contra o cheiro estranho de ervas (maconha) e dos gritos
alucinantes dos picados por morfina e dopados de cocaína – bolinhas
vindas não se sabe donde para a pacata Vila Felicidade. Aliás, tem de
se notar também que juventude da vila já emprega tais vícios e outros
semelhantes: protestos políticos e social. uso de roupas berrantes,
colares e enfeites mirabolantes. formação de tribos e comunidades
isoladas com vida própria. e, como se não bastasse, uniões conjugais
86
sem qualquer registro em cartório ou pretoria. Posição lamentável a
que chegaram os jovens mal dirigidos, tanto pela família como pelo
governo.

Na delegacia ante os flashes curiosos dos fotógrafos e com


regular assistência, não se perturbou Maria Graciosa, nem demonstrou
intimidação com as perguntas malévolas do delegado de plantão,
explorando todos os ângulos da questão. Seu olhar desafiante ganhou
um brilho singular e efetivo ao dar desconcertantes respostas e ao
fundar escolas filosóficas avançadas e desconhecidas por todos nós,
talvez também por ela mesma.

Não é atrasada e vive a sua vida sem dar satisfação a quem quer
que seja. A não ser pela denúncia de ruídos durante a noite e ao uso de
excitantes e psicotrópicos (este realmente perdoável), não vê crime
algum no modo de vida adotado por ela e seus amigos. Aos 21 anos,
sofrida, já se considera experiente nos trejeitos e segredos mais
profundos do sexo. Até a tragédia, era separada do amante do qual
sofria maus tratos que só os homens sabem dar. Após vários anos de
vida semi conjugal sabe muito bem o que significa a dedicação a um
ente que só fez esgotar suas reservas femininas. Aturar beberragens e
posteriores pancadas, discussões eternas e sem rumo – só até se tornar
independente. A tragédia veio acelerar a sua libertação e a
oportunidade bem que não seria desperdiçada.

Já o amor feminino e entre heterossexuais é mais entendido:


duas pessoas do mesmo sexo só podem se entender melhor. Melhor
proveito das ocasiões apresentadas, sem qualquer perigo sexual ou
moral, a não ser essas denúncias escandalosas e sem caráter.

Oficialmente nada pode acontecer-lhe. Mesmo que ganhe uma


repreensão ou uma detenção nenhuma outra medida judiciária ou
oficial pode ser tomada. Se fosse mais jovem e subalterna à família
caberia aos pais a correção. Uma reprimenda então bastaria?

Para onde irá Maria Graciosa? Fará parte de uma nova jovem
humanidade minoritária? Qual será o caminho dado por nós e pelos
responsáveis com opção?
(Uma reportagem curta e estarrecedora. O Diário de Vila
87
Felicidade foi citado e mencionado a prêmio pelo forte e sincero apelo
a um novo rumo, pelo oferecimento de um novo e independente
mundo aos nossos camaradas: os jovens).
UNS NATAIS 88
Meu Papai Noel de todo mundo eu tive quando era criança. Na
casa onde morávamos, eu e meus irmãos, havia sempre uma alegria
sem fim quando de manhã bem cedinho dávamos um pulo da rede pro
chão. Era um pulo. Zás, agarrávamos os nossos pacotes e, casa um, de
per si, abria-os para deslumbrar o seu presente. Alguns tinham uma
tristeza momentânea ao verificar que o brinquedo pedido na cartinha
não estava ali e sim outro às vezes mais feio ou mais barato. É que
geralmente pedíamos o que o sonho imaginativo mandava. Trens
elétricos, bicicletas, automóveis e outros brinquedos que o nosso
Papai Noel não podia dar. E nós não sabíamos que ele não podia nos
presentear coisas tão caras.

Esse meu Papai Noel era o Papai Noel universal. Tinha barbas,
tão brancas, o rosto corado e gorducho, usava roupas grandes e
vermelhas, um cinto preto com um bruta fivela dourada, botas de cano
longo e um sorriso eterno nos lábios. Andava geralmente num trenó.
Deslizando por sobre a neve alva como a sua barba. Mas lá onde
morávamos não tinha daquelas neves branquinhas. Onde andaria ele
então? Depois, olhando cartões de Natal verifiquei que ele andava
também pelos ares. Flutuando. Aqui no Norte – pensei – ele por certo
vem assim, flutuando.

Quando começávamos a discutir por causa dos brinquedos papai


e mamãe ficavam zangados. E, às vezes, fazíamos a asneira de destruir
os brinquedos dados com tanto sacrifício por Papai Noel.

- Papai Noel fica trabalhando o ano todo em sua oficina para dar
os presentes para vocês e vocês vão quebrar. Ano que vem ele não
dará nada, nada mesmo!

Era mamãe falando. Mas logo ficávamos arrependidos de ter


deformado os presentes. Era uma dor que fazia a gente chorar o dia
todo. E daí tratávamos com mais carinho as coisas ganhas.

Os vizinhos também têm Papai Noel. A manhã toda saíamos pela


redondeza para ver e admirar. Era cada coisa bonita, cada brinquedo
que fazia coisas que só gente grande. Uma coisa que eu não 89
compreendia era por que o Afonso, filho do seu Gerardo tinha aqueles
brinquedos bonitos que ninguém mais tinha. Corria e dizia a mamãe:

- Mamãe, o filho do seu Gerardo ganhou um automóvel grande


que cabe ele dentro. Tem farol, direção e até marcha-a-ré. É Ford.

E não compreendia também quando ela me respondia que o pai


dela era rico.

Essas ilusões acabaram quando mamãe me pediu que ajudasse a


colocar os brinquedos debaixo das camas. Que brinquedos? Aí mamãe
me explicou que quem dá os presentes é papai, Pensou que eu já sabia.
Não, eu não sabia. E aquela explicação tirou-me do sono alegre de
despertar e correr debaixo da cama e apanhar o pacote. Ou correr para
a rede dos manos e ver os presentes antes deles acordarem. Tirou-me
tudo isso e deu-me muita coisa também, A realidade de que Papai
Noel trabalha o ano todo para nos dar, não somente o presente de fim-
de-ano, mas também tudo o que se tinha durante o ano. Comida,
escola, os pequenos presentes diários, bom-bons e chocolates, e aquele
amor que nenhum dos filhos compreendia. Que nenhum dos filhos,
aparentemente, tinha necessidade.

Foi assim que perdi o meu Papai Noel de infância. A gente tem
que perdê-lo um dia e eu o perdi com 12 anos e fui convidado a ajudar
a por os presentes para meus irmãos. Perdi aquela alegria e ganhei a
alegria de conservar a tradição em meus irmãos até que eles viessem a
compreender a luta de Papai Noel.

Desde esse tempo, e eu não sabia, fui transferido para a


qualidade de segundo chefe de família. Com o sacrifício de ser o meu
papai Noel e o Papai Noel de meus irmãos. Sacrifício.

- Ora, está certo, a história é chata e antiga, mas em vez de


malandrear pó aí fica escutando. Não te incomoda que depois nós
vamos sair juntos. Que tal mais uma cerveja? Garçom! Uma.
Depois eu fiquei grande. Não compreendia muito da vida. Só 90
dessa vidinha que se leva em beira de calçada. Em pracinhas batendo
um papo com os colegas. Da vida mesmo eu não sabia nada. Dessa
vida que faz a gente chorar depois de grande. Que faz não sentir pena,
desde os 15 anos que dou duro na vida. Pouco ajudava em casa, mas
só o trabalhar já me dava ares importantes e de independência. Como
fui criado brutamente não sentia vontade de ser miado nem de agradar
aos meus. Só dava-lhes desgosto. Discussão e brigas. Uma danação
dos infernos! Não era disso que eles estavam necessitando. Eu
também se hoje estou assim, sem querer nada com a vida, é porque me
falta um carinho. Uma mulher que saiba o que a gente quer na hora
que quer. Sem pedira. Que traga seu corpo e encoste-o no da gente na
hora precisa. Um entardecer ou um anoitecer que tem aquele sabor de
recordação todo especial. Sabe que era assim? Quem sabia dar o
necessário a quem necessitava? Mamãe. Ela sim era o tipo de mulher
que eu quero para mim. Ela cumpriu com o dever. Do que papai
precisou e eu não dei, ela deu. Foi assim.

Eu devo casar? Sim, mas não é assim, assim. A gente deve sentir
quando a mulher é assim. Mesmo que não sinta amor. Talvez eu
encontre, quem sabe?

Mas isso não interessa. Eu estou com uma vontade louca de sair
pelo mundo sem um tostão no bolso. Liso. Sofrer tudo sem se
preocupar. Mas isso é covardia, e eu ao sou covarde. Devo lutar. Não
por mim, que eu tenho a impressão que não estou vivendo um sonho.
Estou acordado.

Tenho aquele pensamento de que a luta cotidiana é inválida.


Aquele pensamento doido para que viver? para depois morrer? Sem
ter feito nada que valha a peã de ter vivido? pensamento de quem não
crê em nada. Nem em deus? Não, estou falando. em nada disso que a
vida traz. Como se diz? Matéria. Sim, é isso: Matéria. Sabe que até já
me esqueci de Deus? É, tão acabrunhado que estou.

Espera aí, rapaz, será cedo. Não, escuta mais. Não já te disse que
nós vamos sair juntos? Não faz isso. Eu pago, pago. Se tenho
dinheiro? Tenho sim. Como eu consegui? Ora, não te preocupa com
91
isso. É dinheiro e pronto! Basta. Não se deve querer saber de onde
saiu o dinheiro, basta que tenha. É vontade louca querer saber isso.
Dinheiro é como a vida: querer saber de onde veio e para onde vai é
sacrilégio! Sacrilégio mesmo.

Eu ia segurando papai. Num jipe. A gente poderia ter esperado


um automóvel. Sacudia menos, o médico disse. Mas papai respondeu:
Vou nesse mesmo, doutor, eu já estou aqui. Eu acho que ele estava
com vontade de viver. Ele não queria nos abandonar. Mas papai era
inteligente. Sabia alguma coisa.

Eu ia segurando ele. Mamãe atrás. O jipe bem devagarzinho. O


hospital era longe. Engraçado, tinha outro hospital mais perto, mas
ninguém se lembrou. Já estávamos bem perto, quando papai deu uma
respiração profunda e estertorante, os braços forçaram para cima,
numa contração, e pronto! Pendeu a cabeça sobre o peito. E eu fiquei
ali do lado abanando-o com uma folha de papelão. Inutilmente.
Quando papai deu o ataque, atrás, mamãe deu um grito que me
penetrou nos ouvidos alucinante:

- Ele está morrendo!

Olhou para o doutor pedindo, suplicando: Salve-o, faça alguma


coisa, com um olhar de quem sabe que não há nada a fazer. E eu
abanando papai. Ele não está morto, dizia para mim. Minha razão
respondia: está. Não está. Não está. Não.

Nós estamos perto do Natal. Eu já vejo o Natal que vou passar.


Viaje para cá numa esperança de poder reviver. Trabalhar para poder
consolidar o que papai iniciou. Hoje uma tia minha me deu uma capa
de presente de Natal dizendo:

- Toma esta capa. Eu só ia te dar dia 25, mas como vais viajar,
leva, pois pode estar chovendo. Este é o presente da Mamãe Noel.
Vamos ver se o Papai Noel vai ser melhor.

Meu pensamento analisou e me disse: Teu Papai Noel já morreu!


E eu fiquei naquela crise. Uma vontade de dizer: Meu Papai Noel já
92
morreu! Mas não disse. Essas palavras que a gente não diz, são as que
mais nos torturam. Ficam por dentro, girando no cérebro para toda a
vida. É melhor dizer para qualquer coisa a frase presa. Basta abrir a
boca, e isso é tão difícil. Dizer ao vento, ao sol, a uma parede,
qualquer coisa pode escutar. Basta dizer. Mas não se diz. Fica ali,
ruminando e engolindo. Afinal, essas frases sempre nos são preciosas.
Ninguém as merece escutar. A não ser a pessoa a quem estão
destinadas. E quando esta pessoa não existe mais.

Esse é que é o meu estado. Estou trabalhando, mas sem vontade.


Se tento me divertir, o divertimento parece-me uma consolação. Mas
não é. Se bebo, a bebida me traz um gosto de remédio. O quê que eu
faço, então?

Sim, vamos dar a nossa volta. Talvez seja uma volta proveitosa.
Mas, enquanto nós andamos, eu vou continuar falando. Se não
quiseres escutar eu falo só, mas hoje eu tenho que falar.

Engraçado. A gente sempre dizia a papai que ele teria que se


hospitalizar, mas ele nunca quis. Tenho a impressão que ele não
queria dar trabalho a ninguém. Finalmente ele havia decidido fazer u
tratamento sério. Mandou um telegrama a um irmão que reside no Sul.
Eu mesmo passei o telegrama. O texto dizia: necessito cem mil
cruzeiros fim hospitalização vg podendo empreste. Note bem como
ele escreveu: podendo empreste! Estava pedindo a um irmão. Se
pudesse para emprestar. No dia que papai morreu, recebemos um
telegrama em resposta que dizia: estamos providenciando dinheiro vg
informe como vai João. João é papai.

E os médicos? Ah, esses foram os mais safados e ordinários. Um


deles, a quem papai sempre consultava, disse para um vizinho uma
semana antes de papai morrer, que não tinha esperança. Que era caso
de dez, vinte dias. O vizinho não nos disse nada. Eu também não diria.
Nas o médico deveria autorizar um internamento imediato. Ou então
comunicar à família. Não fez nada disso. Receitou apenas alguns
remédios e pronto. Eu ia escrever nos jornais da cidade. Tirava a
metade dos clientes dele. Poderia ser processado mais tarde, mas que
esculhambava, esculhambava!
Outro, tal de Dr. Murad, ao ser chamado mandou dizer que não
93
poderia atender. Medite bem: não poderia atender porque estava
descansando! Isso é crime perante a Lei. Mas onde é que tem Lei
nesta cidade? Lei é uma merda, devia era ir lá na casa dele e meter
uma bala na cara. Senvergonha! Patife! Depois uma irmã de mamãe
que era casada com um filho de barão mandou chamá-lo e ele
respondeu que, como era para ela, ele iria. Para ela, entenda bem! Era
o caso da gente processar e pedir indenização. Mas esse carcamano
filho da puta tem dinheiro que pague a vida do meu pai? Nem o couro
dele é paga para tal.

Mesmo assim, fomos até a Santa Casa de Misericórdia. Quem


disse que eles deixaram a gente entrar? Papai já morrendo e nada: só
com 25.000,00 de depósito. Santa Casa de Miséria, isso sim! Um
bando de freiras ladras. Sabe o que o médico estava fazendo? Jogando
xadrez sozinho. Um desses jogos pequenos de bolso. Arrumava as
pedras e ficava no corredor jogando xadrez, enquanto gente morria na
porta. É assim! E quem me afirma o contrário? Ainda bem, senão essa
história não acaba.

Era nesse ponto que queria chegar, meu amigo. Papai sofreu
muito. Não queria incomodar ninguém. Acabou me incomodando pra
o resto da vida. Nunca prejudicou a alguém. Se no emprego dele abria
uma vaga superior e o chefe dissesse: João, eu tenho um sobrinho que
está desempregado, tu não estás precisando dessa vaga, estás? Então
deixa que eu o ponha lá que quando aparecer outra tu entras. Bastava
dizer essa e outras mentiras para que ele cedesse. Nunca subiu na vida.
Mas foi feliz. E ser feliz nesse mundo desgraçado, é muita arte. É ser
alguma coisa na vida!

Foi assim que perdi o meu Papai Noel de grande. Eu só sei que
não sou covarde. Tenho que agüentar o rojão até o fim. E vai ser um
fardo pesado. muito pesado mesmo. Sabe que eu me orgulho do modo
que papai morreu? Morreu em pé. Eu acho que quero morrer assim
também. Em pé. Andando.
94
Mas eu sei que ele não queria morrer. Quem quer morrer, afinal?
Todo mundo sabe que vai morrer um dia, mas quando chega esse dia.

Quem? Aquela? Sim, manda sentar. Não, hoje eu pago tudo. De


onde eu tenho dinheiro? Ora, não te incomoda. Dinheiro é dinheiro,
não interessa de onde vem. Basta que todo mundo o aceite. Cerveja!
Senta aqui do meu lado.

Eu estou apaixonado? Não, minha filha, estou louco. Por ti?


Talvez.
PRIMEIRO NATAL 95
O Natal mais feliz da minha vida foi
aquele em que descobri que Papai Noel
era meu próprio pai.
Sérgio Porto.

Existem certas coisas que nunca consigo entender. É muito


difícil para mim, pois estou na idade quase juventude, embora mamãe
ache ideal para ajudar a pôr brinquedos sob as camas dos meus
irmãos. Justamente quando me despedi aparentando um sono que na
verdade não existia, antegozando amanhã seguinte, o embrulho de
papel enfeitado sobre o mais bonito par de sapatos existente, debaixo
da cama. O acordar quase madrugada ainda, a gritaria alegre, as
sacudidelas nos manos para saciar a curiosidade de saber o conteúdo
de seus pacotes. Nesse justo momento mamãe convida-me a não
dormir e ajudá-la na feitura e distribuição dos embrulhos. Onde vou
colocar agora a imagem serena do velho vestido de vermelho, botas e
cinto pretos, o fivelão dourado, a deslizar no trenó? As renas cheias de
vitalidade, os chifres arabescos, correndo em flutuações no ar, onde as
terei agora?

Talvez o convite se desse por minha velha considerar-me mais


inteligente que outros garotos da mesma idade. Chega a chamar-me de
nomes absurdos e esquisitos: gênio precoce, etc. Minha reação
primeira foi uma tristeza imensa, mais por medo de não ganhar
brinquedos que outra coisa. Eu que pedira tantas fantasias na minha
carta de duas páginas. Entretanto, após orgulhoso ter tido o trabalho
nos presentes e já com verdadeiro sono, atirei-me à cama chateado. A
manhã seguinte foi revigorante porque trouxe a confirmação da visita
noturna de Papai Noel a todos nós. Aliviou-me o peso trazido por
tamanha responsabilidade de saber a identidade desse barrigudo e
agradável senhor de barbas brancas.

Hoje, muitos anos depois, estou no mesmo dia que antecede o


Natal. Espremido num canto da sala, observo o vai e vem da gente que
veio visitar mamãe. Alguns chegam até mim, acariciam minha cabeça
e entendem o olhar vazio de compreensão que tenho. Olhar que indaga
96
já sabendo não haver resposta. Minha mãe, sentada, chora de tempos
em tempos. As mãos cercam o rosto, vez em quando negaceia
desconsolada. Sinto nela problemas idênticos aos meus: o imenso dom
da incompreensão, a incomunicabilidade. Meus irmãos formam grupo
em torno dela, outras vezes à minha volta, que sou o mais velho. Trato
de consolá-los o quanto posso. Bancando o valente, os olhos
comprimidos violentamente para não chorar. Os lábios contraídos
escondem o grito que se esforça por sair. Às vezes tento contar uma
história alegre, mas uma força maior existente absorve qualquer
tentativa nesse sentido.

As pessoas entram e saem. Chegam parentes que me parecem


mais numerosos agora. Atenciosamente confortam mamãe e
oferecem-lhe dinheiro. Antigamente era mais difícil consegui-lo. Os
parentes chegam conversando entre si em sussurros, mamãe à
margem. Nunca consigo entender o que eles falam e parecem estar
sempre negociando. De repente dão uma olhada no relógio, saindo
num carreirão logo após as despedidas. Estão sempre muito ocupados
os parentes. Só fica uma ou outra tia bem intencionada para conosco.

Os outros, visitas apenas, em pequenos grupos de até seis ou


mais, esses sim, contam anedotas rindo bastante largas gargalhadas.
Bebem muito café, após cada xícara sempre um cigarro. A noite já
chegada com a fumaceira torna a atmosfera da sala um tanto azulada,
irrespirável quase. Contam também histórias de defuntos e falsos
fantasmas. Quebram um copo e justificam entre risos dizendo que traz
felicidade. Não sei de que jeito se mamãe vive a lamentar-se entre
lágrimas que jamais foi tão infeliz na vida. Essa gente me aborrece
deveras. Tenho vontade de chegar a eles e dizer uma porção de
verdade: que devem rir baixo, que não contem anedotas, nem histórias
de defunto u fantasmas, que não devem fumar tanto, pois a fumaça
está fazendo mamãe chorar em dobro. Dizer-lhes que não abusem
muito da hospitalidade que ela dá. Não são tão adultas quanto à gente
pensa essas pessoas barulhentas sem educação. Não saio do calado,
porém, por achar que minha pobre velha se aborrecerá ainda mais com
o meu falatório. Todas as vezes que vou defender uma causa familiar
mamãe sempre fica aborrecida, muito nervosa e chora, chora até não
poder mais, aconchegando-me ao seu colo. Sinceramente, não
97
entendo. Ao ter razão em qualquer caso todos deveriam dar-me apoio,
o que não ocorre. Termino por ficar só, mamãe sempre sofrendo.

Outro dia. Manhã cheia de sol. As crianças saem todas à rua para
mostrar seus brinquedos ganhos durante a miraculosa noite. Aquela
fusão de coisas lindas com outras não tão belas confundia-me. O
vizinho, por exemplo, achava meu carro tanque de madeira bastante
feio (horrível, em seu dizer). De fato, contrastando com seu reluzente
Cadilac colorido, luzes acendendo e apagando, freio a ar e buzina,
meu caminhão não passava de um poeirento pau-de-arara. A pistola
plástica de meu irmão foi humilhada severamente por um lustroso
revólver-38 tipo far-west, o cabo de madrepérola com uma cabeça de
touro incrustada fielmente desenhada. O estrondo do seu tiro de
espoleta artificial abafava o clic-clic diminuto da arma negra de meu
irmão. A boneca loura da maninha nos deixava a todos orgulhosos cm
seu choro inhééé e seus olhos azuis. Sua cabeleira, entretanto, não
chegava à metade da outra ganha pela colega, a maior do bairro. Além
de tudo andava e falava papá e mamã. Nem por isso ficávamos tristes.
Não se pode chamar a esse sentimento menor tristeza. Apenas um
pouco diminuídos, porém contentes porque tínhamos ganho o que
realmente pedimos e satisfazia os nossos desejos. Afinal de contas, ao
fim do dia os brinquedos todos já haviam cumprido a sua missão e
tanto o Cadilac quanto a choradeira de cabelos louros e olhos azuis,
tanto o revólver-3 niquelado quanto meu caminhão-tanque de
madeira, tanto a pistolinha plástica quanto a boneca falante de cabelos
longos já estavam saturando com se4uas presenças. Era bom sentir-se
esvaziar toda aquela sensação criada na noite anterior, quando até o ar
encheu-se de expectativa. Existem certas noites não-comuns: a noite
de Natal é uma delas.

As ocasiões se fazem conforme nosso comportamento inferior. A


noite de Natal espera-se, tem de ser estrelada, o céu de ampla
escuridão chamuscado de luzes. As estrelas têm que cintilar. Sem
aquelas oscilações luzidias elas nada seriam, luz-morta. Se possível
for, que suas luminosidades se transformem em arco-íris. Tem uma
estrela, fico olhando, que muda de cor, fugidia. Rapidamente, a gente
nem sequer classificou ainda a cor e ela transfigura-se. Assim, com
rapidez dinâmica, a estrela é simultaneamente verde-vermelha-
amarela-branca. amarela-verde-branca-vermelha. Nos intervalos 98
outras cores aparecem indefinidas. A noite de Natal teria que ter todas
as suas estrelas como esse solitário arco-íris, coloridas.

Mesmo que chova, não tem importância. A noite seria, ainda


assim, bela e cheia de magia. As gotas de chuva trespassadas por
artificiais luminosos transformam-se em brilhantes. Os enfeites da
praça, ornamentos de presépio, apesar de molhados hipnotizam
sugestivamente. Fieiras de lâmpadas coloridas poste a poste formam
uma gigante estrela-dalva, a cauda apontando o horizonte. As comuns
luzes de postes deitam seu clarão na água correndo e com ela se
perdem na escuridão. Mesmo assim, chovendo, não tem importância:
a noite é cheia e bela. Das casas surgem longínquas cores-vivas das
árvores de Natal. Pinheiros artificiais verdes, dourados ou de prata,
exibem bolas cintilantes e frágeis. Ornamentos exóticos e modernos
imitam a terna cena da estrebaria. Um galo solitário, várias estrelas,
alguns carneiros pastando despreocupadamente, a cercar o menino
entre palhas. No gesso, fielmente traduzidos, os olhares admirados e
respeitosos, dos pais, dos pastores. Os Reis Magos aproximam-se dia
a dia, ajudados por nós. O pisca-pisca das lâmpadas verdes e
vermelhas cinematografam a imagem. A gente cresce e as figuras
crescem também, em dimensão, valor, interpretação. Os personagens,
sim, são imutáveis e varam o tempo. A noite de Natal deveria ter seu
céu de estrelas manchado, coloridas, o negrume chamuscado pelo
arco-íris. Mas mesmo chovendo não tem tanta importância: a noite
ainda assim é bela como a magia das gotas trespassadas pelas
lâmpadas e suas luzes.

É manhã e estou só com meus parentes. Alguma ou outra tia


apenas. Mamãe permaneceu a noite toda na sala, sempre chorando de
intervalos a intervalos. Eu também corajosamente fiquei a seu lado,
pois sou o mais idoso. Agora, diz minha velha, sou o homem da
família. Daqui a pouco as crianças da redondeza vão sair à rua,
barulhentas, mostrar a mais nova conquista. As bonecas rosadas, os
automóveis coloridos, os revólveres. Serão iguais os brinquedos, eu
sei, serão iguais. A boneca, por exemplo, além de andar e falar já de
fazer outra coisa. Talvez faça pipi ou se alimente de mamadeira.
Talvez sorria e pisque o olho azul (ou verde?), mas será a mesma. O
automóvel, que terá de novo um automóvel? Eles sempre vêm com
novidades. Novas alterações. Terá alguma cor mais berrante e mais
99
variada. As quatro rodas, entretanto, vão traí-lo e mostrar que até o
Cadilac é o mesmo. O revólver vai dar mais tiros? O revólver, esse
sim se transforma. Pode ser que seja uma metralhadora ou um canhão.
Se o fizerem com muita perfeição é capaz de matar até. Bem, mesmo
que mude, sua finalidade será exatamente a mesma.

Na hora de carregar o caixão, igualmente como o mais velho sou


chamado. Sinto-me por essas tantas coisas, orgulhoso como o meu
procedimento. Mamãe diz que estou cumprindo rigorosamente bem
asminhas obrigações. Não é de todo infeliz este momento da minha
vida.

O trajeto é curto. Apenas uma calçada em declive (o que ajuda


um pouco) até ao carro preto. Lá fora minha vista arde ante o vigor da
luz do sol. É um dia quente que se anuncia. O restante das pessoas
ajuda, um ou outro vizinho mete a cabeça curiosa na janela. Se eles
dão adeus é apenas com os olhos ou com a mente, eu nada vejo. Meus
irmãos dormem, Deixemos os outros dormirem, que já basta a tristeza
de acordar sem os presentes empacotados sob a cama. Basta ter tido
esta última noite de Papai Noel ausente. Nos próximos anos eles já
serão crescidos e saberão entender certas coisas. Basta ter de aturar o
dia todo a vizinhança desfilando seus brinquedos. Deixem-nos dormir.

À sala retorno sozinho após ver o último carro do cortejo sumir


na esquina. Uma mesa vazia, algumas pétalas caídas no chão.
Comprimido no canto da sala observo o vento carregá-las deixando
apenas seu perfume. Lá fora a luminosidade vigorosa do sol faz arder
a minha vista. Nesse dia quente que se anuncia as coisas me parecem
mais áridas. A paisagem mais desfigurada.
SEGUNDO NATAL 100
A solidão é o fato central e inevitável da
existência humana
Thomas Wolfe.

A história é muito simples. É uma história de amor. E se está


guardada foi justamente por ter ocorrido no Natal. No Natal, num
aeroporto. O caso é o seguinte: o herói sai da província para a cidade
grande. Na mesa do bar a solidão espreita. Noutra mesa uma mulher
também só provoca aquela atração simultânea de olhares. A atração é
fácil e as palavras saem fluentes, unidas:

- Sozinha?

Foi a gota necessária. Falou e falou. Eu estava desacostumado


aos rostos ovais, aos olhos claros. À palestra desinteressante, de
assuntos vários. Eu estava só. O seu nome?

- Um nome comum, hoje em dia. Adivinha.

Os nomes comuns: marias, joanas, paulas (Paula não). que


diabo! Sou um péssimo adivinhador. Nunca fui disso.

- Vera Lúcia.

Comum não sei pra quem. Eu estava desacostumado. A solidão


faz dessas coisas. Vera Lúcia estava no aeroporto, por que mesmo?

- Eu queria ser aeromoça, mamãe não deixou. Venho, sempre


que posso ao aeroporto. Ver aviões. Acho lindo as aeromoças,
comandante, pilotos e comissários descerem, Meio cansados, mas
sempre felizes. Os rostos, risos, alegres.

Aviador eu nunca quis ser. Mas já quis ser marujo, limpar


latrinas e levar almoço ao comandante só para conhecer o mundo.
Europa, Estados Unidos, Suécia. O herói sempre foi louco pela Suécia
O frio, as louras, os olhos azuis e a pele salpicada de sardas. A
101
liberdade para quem vive preso desde criança. É capaz de o herói
morrer sem ver a Suécia, sem sentir o cheiro da liberdade. Liberdade
mesmo, de dizer o que sente, o que quer, embora torto.

- E você, está só? Mas como você pode deixar a família em casa
e vir para a rua só? Não posso. Não, infelizmente não posso passar o
Natal com você. Vá pra casa. Que idéia! Passar o Natal na praia,
vendo macumba, aí, não posso acreditar.

Vera não sabe que o solitário mesmo rodeado de gente está só


por dentro. Alma, carne, cérebro. Só. Solidão não se apalpa. É um
fluído que acompanha a gente desde que um dia se achegou. Nunca
mais abandona, enraizada no todo. Mesmo ali, ma mesa de alguns
chopes, tinha deixado um amigo para falar com Cera. E, no entanto eu
estava só. Ele estava só. Mesmo bebendo com amigos a solidão tava
dentro de mim.

Aliás, teve um Natal pior. No Paraná, nas terras frias, quando a


solidão me levava pelos caminhos das putas, um Natal assim quase. A
cidade menos que uma cidade. Os cabarés abordados de marinheiros,
estrangeiros na maioria. A alegria do Natal invadia todo o mundo
presente. Quem poderia jurar que ali estavam em comunhão?
Ninguém, aí, pode afiançar que aquilo tudo não era uma cambada de
solitários. Bebendo não mais pelo Natal que por sua solidão.
Comemorando a solidão mais que ao Natal. Os marujos, quão
longínquas era suas terras? As putas mesmo, apenas algumas eram
dali. Outras do sul e outras argentinas e uruguaias. Atravessando terras
em busca do ouro. Eldorado inexistente. O herói ali participando dos
caminhos por onde levam solidões.

Agora no aeroporto. Também aquela mania de aeroporto,


rodoviárias e cais do porto, aonde parte gente, aonde gente chega, é
um mal provocado pelo só. Não é Vera?

- Minha vontade era de viajar. Viajar, viajar. Que horas são?


Está quase na hora de ir para casa. Você sabe, o pessoal me espera.
Você quer ser meu amigo? Toma aqui o meu telefone. Liga pra mim.
102
Você não sabe a imensidão do prazer que me deu. conhecê-lo. Olha
foi amá-lo um pouco. Breve, breve, mas amor.

Um beijo, na face. Breve, breve. O herói mortifica-se com a


brevidade do amor. Curto que só o caminho da vida. Agora sim,
solitaríssimo. Com a ida de Vera Lúcia, de volta à mesa. Satisfazer a
curiosidade do amigo: - Velho, deixa pra lá. Não deu nada.

- Ela é lindinha. Bonita mesmo. Os olhos, verdes? Quase.


Castanhos claros. O corpo: magro, mas bem feito. E que pernas bem
arrumadas ela tem, hem? Você não quer me contar, mas deu coisa,
não deu?

A solidão machuca a gente.

O herói na província é herói conhecido. Onde quer que esteja


encontra amigos. No bar, na esquina. Na igreja, missa do galo, ta todo
mundo lá. Nas ruas, nas praças.

- Feliz natal.

- Pra você também.

Na cidade grande as imensidões dos edifícios de cimento, as


árvores de natal de 20 andares de altura. As ornamentações de ruas,
nas praças os presépios grandiosos e modernos. As figuras são todas
diferentes. Luminosas, fogos de artifício coloridos. Nas faces de todo
mundo, também a felicidade penetra e faz-se sentir.

- Feliz Natal.

- Pra você também.

O cumprimento existe. Os brindes, a proximidade do fim-de-ano,


as amizades breves. Feitas nos bares. As famílias reúnem-se nas ruas.
Passar o Natal na rua. Cear num restaurante famoso, bem, comida
tradicional. Peru recheado. Nozes, passas, castanhas, tudo como Jesus
talvez quisesse que o mundo fosse. Não apenas um dia. Jesus conhece
103
as impossibilidades e passou a por elas. Isso, entretanto, ocorre apenas
com os sós. É quem tem a liberdade de ver as coisas, enquanto os
outros passam por elas. Ver, enxergar, sentir. Somente o só consegue.

- O amigão vai me desculpar, mas tenho que cumprir as


obrigações familiares. Bom Natal, amigão!

- Pra você também.

Agora, a rua. Rua, andar, passear, rir, acenar. Ver vitrines,


brinquedos incríveis: a metralhadora que faz barulho real e bota fogo
pelos canos. o foguete Saturno que sobe de verdade. a pistola que atira
um jato d’água a cinco metros. e outros mais difíceis de explicar.

A noite vai sendo engolida pela madrugada, mas as luzes não se


apagam nem dos rostos que restam. Na praia dançam furiosamente os
macumbeiros comemorando o nascimento de Jesus. Iemanjá, sei lá. A
areia revolvida pelos brancos e negros cuja fé é abalada pelo
misticismo, procuram resolver seus negócios e dificuldades através
dos despachos e serviços. Ilhotas de velas, flores, tigelas com farinha,
dendê, cachaça. Oferecidos à Rainha do Mar. A líder de todos
Oxóssis, Oguns, ebiris, xaxarás. Maior que Oxalás, Oxuns e Ijexás.

A visão do solitário viaja por todos os mares. Navega na noite


em busca de amor. Não fora a cidade grande ruim de cabaré. Quantas
gentes vêm à procura do mesmo? Sentados, outro bar, outras bebidas
(ou as mesmas?), o herói está acompanhando somente do telefone de
Vera Lúcia. É bom ligar essa hora e desejar Feliz Natal.

- Pra você também.

Agora pude ler mais demoradamente o discurso que Vera Lúcia


fez aos seus colegas de trabalho. Erros diversos, caligrafia meio ruim.
O amor breve não vê isso. Só quem nota defeitos no breve querer é o
cidadão respeitável e casadouro. Puteiro de fama e vontade não vê
essas coisas.
104
Queridos colegas. São poucas as palavras, mais não
poderia deixar de dizê-las. Porém, só a vontade de
desejar a vós todos e também a todos os familiares
que este Natal seja a conclusão de vossos desejos
irrealizados durante o decorrer do ano. Que a paz
que Jesus trouxe no coração seja convosco a
companheira.

Baboseiras sem dúvida nenhuma. E pensar que o herói teve de


elogiar isto tudo. Pra ver os catedráticos que o amor não tem
gramática. Em compensação pouco se lembra dos versos que fez por
solicitação de Vera. Poeta não foi, não é, a não ser nos dias de dor de
corno em dias de serestas, coisas que a cidade grande não tem ou se
tem são engolidas pela vida. A vida rápida, cansada e cheia de
problemas, trambolhos que levam mais rápido ao cemitério. Mais
rápido e mais leve:

Vim ver o mar, a solidão, o ar,


Encontrei o breve amor da brisa:
Rápido como a felicidade do ver,
Ameno como o riso da Monalisa.
Louca e incerta – a vida do só
Une-se a todas as outras vidas,
Como as vidas que o Natal encerra:
Imaginárias de abundância e paz,
Alegres como a paz na guerra.

Já madrugada ou já quase dia. É reconfortante ver ao longe, onde


o mar engole o céu em coito, os embriões da alvorada. Luzes filtradas
através das nuvens violentando suas entranhas lançam-se aos céus. Os
postes escondem vergonhosos seus pequenos frutos ante o sol. Em
breve estarão cegos.

A praia está quase deserta, alguns bêbados, alguns amantes. O


resto de uma população imensa cuja circulação deixou marcas nas
calçadas, ruas, areias. O Natal é ido.
105
O herói encosta-se no cimento, deita-se no chão e paga por todos
os seus pecados naquele momento da purificação. Uma mulher ao
lado: empregada, puta ou patroa, ou mulher simplesmente. (Se desse
tempo a gente ia dar uma trepada). Ai, que a vida é assim mesmo:
quem muito reclama de solidão acaba encontrando. Não pode estar só
agora porque a sua mão se mexe, apalpa, acaricia. Sua boca beija, é
beijada, ai. Os amores se chocam e o breve deixou de ser: é
consistente, palpável, fácil e bom. Quem nasceu mesmo?

- Meu amor vai me perdoar, mas eu tenho que ir. Acontece que
eu disse em casa que ia ver a macumba. E a macumba já acabou. Não
tenho telefone. Não tenho endereço. Esquece.

A bebida ajuda o herói a dar de ombros àquelas palavras mal


ditas. Não entendeu mais nada sobre o amor e desistiu.

Dentro em pouco o sol estaria alto. As crianças encheriam as


praças com seus novos brinquedos. Para evitar certas lembranças do
passado seria melhor ir dormir. Empreender a caminhada de volta.
Nem mais nem menos só que antes.

- Ó meu. Teve bom Natal? Tem fogo, por favor?

- Pra você também.

Em casa iriam comentar a ausência. Mas os parentes já sabem


dos seus desvios. Não que dar ou receber presentes, abraços, beijos.
Congratulações e desejos de felicidades. Ainda mais de quem tem
pensamentos tortos do que seja tudo isso. O herói, porém, não se
atreve a definir o que é felicidade visto que todos que o tentaram
estreparam-se em redondo. Mas o certo é que não é aquilo, é? O Natal
é morto.

Ademais ninguém pode afirmar que aquela noite de Natal não


tenha sido feliz. O herói encontrou dois amores. Um breve e outro
com promessas de longevidade. Ou os dois breves? Encontrou
algumas almas irmãs, sós. Encontrou mesmo? Bebeu a bebida que
quis, dinheiro no bolso. Quisesse toparia alguma putinha no meio da
106
rua e ia trepar quando Jesus nascia. Mas não é disso. Se por acaso
alguém reclamasse de viver só: Não é da conta. A solidão é também
um caminho para a felicidade, a vida. Nem continência nem
abstinência: solidão.

Quem se atreve a meter o bedelho aonde não é chamado? Por


exemplo, ali, naquele mesmo instante, o sol era uma bola de fogo
vermelha. Sangue. Luz. E era felicidade ver o sol naquele momento
supremo, em que se pode vê-lo. Ai. Quem tem com isso?

O lugar ao lado do herói está vazio. Mas a marca da bunda da


mulher está presente. É capaz de seu calor ainda estar ali, vivo.
Mesmo que não, sua presença é existente. Ou a sua ausência está
presente? Até que esta já tenha sumido da memória Vera Lúcia é
realidade: o telefone material está nas mãos. A sua letra irregular, seus
erros, sua voz. Se quiser posso ligar para ela agora mesmo.

- Pra você também.

A caminhada de volta leva o herói pela cidade. Garis limpam as


ruas, jornalistas gritam seus jornais. Os ônibus já trafegam em grande
velocidade. Em breve, a casa.

Mesmo no Natal as figuras do ônibus a esta altura são simples:


uns estão a caminho do trabalho, outros a caminho de casa. Ambos os
tipos sonolentos: os que saem a cara ainda mostra restos de sono, os
que caminham para a cama pendem as cabeças. O ônibus aproveita e
lhes prega uma peça. As sacudidelas, curvas em velocidade, fazer com
que as cabeças circulem loucas sobre o pescoço. Dir-se-ia que são
capazes de voar a qualquer instante. Rolar pelo chão a caminho da
porta e finalmente perderem-se no asfalto. O motorista pouco liga. Um
passageiro desce ou outro sobe. As trocas se fazem satisfeitas. Uma
única mulher tem suas pernas devoradas pelos poucos olhos abertos.
Só as pernas? Suas entranhas, talvez.

Ai, que o herói está cansado. Os ombros pesados, as pálpebras


caídas. O corpo meio pro mole não resiste à vida noturna e mundana.
Vida de corno! Que Natal!
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O herói sai da província e é engolido pela cidade grande. A
solidão espreita nas mesas dos bares. Curto que nem o caminho da
vida o amor se faz presente. Breve, breve, mortificando o herói a
brevidade do amor. A vontade é viajar, viajar. Fugir, fugir, o prazer
imenso de fugir.

O solitário mesmo com mundo de gente em redor é só por


dentro, no coração, nas almas, carnes, entranhas. Só, só. A solidão
quando chega nunca mais abandona a gente. Impalpável, é um fluído
sem cheiro, sabor, paladar, odor. Mesmo com amigos a solidão entra
na gente e acompanha o corpo até a terra.

O herói na província é conhecido. Na cidade grande árvores de


Natal com 20 andares de altura, as ornamentações, as árvores
salpicadas de luzes coloridas, na cidade grande o herói é engolido,
deglutido, defecado. Nem é herói.

Somente o solitário consegue tudo ver. O cumprimento, as


amizades de bar, a fuga, o cumprimento é fuga, ceias em restaurantes
lindos, perus com maçãs no bico. Comida tradicional. Como deveria
ter o ano todo, Jesus era capaz de querer assim? O solitário tem a
liberdade de ver as coisas nuas. Até o Natal quando ninguém vê.
Ofuscados pelos brinquedos modernos: o revólver que mata mesmo!
Luminosos, fogos de artifícios, fazem forçosamente penetrar na pele a
felicidade. Felicidade mesmo?

A visão do solitário navega nas noites, viajando pelos mares em


busca do amor, não fora a grande cidade pecadora passa o amor. Ruim
que só bicho de pé. Não adianta buscar remédios em alguns Oguns,
Oxósses, Orixás. Iemanjá não resolve solidão, nem ebiris, ijexás.

Queridos colegas são poucas as palavras.


Vim ver o mar, a solidão, o ar,
Encontrei o breve amor da brisa.

O herói paga naquele momento por todos os seus pecados. A


purificação na areia. Ver o sol, bola de fogo, desflorar as nuvens no
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infinito. Ai, que a vida é assim mesmo. Os comentários da ausência,
os desvios. Nem presentes nem abraços nem congratulações. O herói
só faz com desconhecidos. A solidão tem dessas coisas.

- Bom natal, amigão.

- Pra você também.


O AUTOR 109
Salomão Rovedo (1942), de formação cultural em São Luis (MA), mora no Rio de Janeiro
desde a década de 1960.

Poesias: Abertura Poética (Antologia), Walmir Ayala/César de Araújo, 1975; Tributo, 1980;
12 Poetas Alternativos (Antologia), Leila Míccolis/Tanussi, 1981; Chuva Fina (Antologia), Leila
Míccolis/Tanussi Cardoso, 1982; Folguedos, c/Xilos de Marcelo Soares,1983; Erótica (Poesia),
c/Xilos de Marcelo Soares, 1984; Livro das Sete Canções (Poesia), 1987.

Em e-Books:
Poesia: Porca elegia, 7 canções, Sentimental, Amaricanto, bluesia, Mel, Espelho de Venus, 4
Quartetos para a amada cidade de São Luis, 6 Rocks Matutos, Amor a São Luis e ódio,
Sonetos de Abgar Renault (antologia), Glosas Escabrosas (c/Xilos de Marcelo Soares).
Contos: O sonhador, Sonja Sonrisal, A apaixonada de Beethoven, Arte de criar periquitos, A
estrela ambulante, O breve reinado das donzelas.
Outros: Cervantes e Quixote (artigos), Gardênia (romance), Stefan Zweig (Antologia), Ilha,
romance, Meu caderno de Sylvia Plath (Antologia), Viagem em torno de Dom Quixote
(Pesquisa), 3 x Gullar (Ficção), Literatura de Cordel (Ensaio), que estão disponíveis grátis na
Internet e em: http://www.dominiopublico.gov.br
Foto: Priscila Rovedo

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