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Salomão Rovedo

A estrela ambulante

e outros contos

Rio de Janeiro
2009
Salomão Rovedo

A estrela ambulante
e outros contos

Compilado em 1985
Digitalizado em 2009
ÍNDICE

Alerta, alerta, perigo, pg. 4


A última vez que vi o verde, pg. 16
3
A via crucis de Manfredo, mais conhecido
pela alcunha de Xué, pg. 30
Banho de sangue, pg. 36
Estamos em guerra, pg. 40
Corpo morto, pg. 47
Eliza-Bete 45400Y, pg. 53
Esqueleto, pg. 66
A estrela ambulante, pg. 74
Jorginho, pg. 100
Mariínha, pg. 108
Morrendo, pg. 112
Notas do diário de Zeus, pg. 118
Os olhos oblíquos do Oriente, pg. 131
Resumo dos capítulos anteriores, pg. 138
(Último capítulo), pg. 141
ALERTA, ALERTA, PERIGO!

Madrugada. Hora que tudo parece sustar a vida por


alguns minutos para depois acelerar como respiração
ofegante. Tudo parece hipnotizado. Morto provisório. As
luzes, reflexo de vida, permanecem opacas não mais que 4

cumprindo o dever material. Se há lua, o clarão que dela


espraia é morto. Os néons parecem focos vibrantes em
última tentativa de fazer vida. Devido ao colorido e
intermitente pisca-pisca é o último corpo que assemelha a
vida ainda que em instantes finais.

As árvores lançam inútil sombra e são iguais a


edifícios cimentados em gigantesca estrutura, inertes.

Madrugada. Hora em que o céu ameaça aclarar-se e


surpreender a todos em meio ao pecado. Como se Deus de
repente descobrisse nossas vergonhas. Fugiríamos?

E os rostos? Os rostos são máscaras pálidas, sem


nenhum sorriso a afrontar-lhe os lábios. E sorrindo não fará
desaparecer a palidez que a madrugada pinta nas faces
teatrais. Não nos pertence. Todos são rostos cansados de
viver toda noite, em busca de quê? Caminham e falam
coisas sem incomodar-se com o hálito de bebida disperso
no ar.

No ônibus, a luz semimorta. Corpos fatigados e curvos


viajam. Destino: a cama, uma mulher talvez. Recuperação.
5

As cabeças, umas resistem em ereção mecânica,


outras pendem serenas a dormir o sono provisório. Outras
são incríveis pêndulos e circulam sobre o pescoço eixo,
ameaçando cair momentaneamente e rolar pelo chão sem
rumo. Perdidas cabeças sem dono, estão decapitadas do
corpo.

O ônibus voa, desliza ou dá enormes pulos ao


ultrapassar as inconformidades das ruas. Às vezes pára e
deixa cair algum passageiro no destino. Lá um ou outro
toma assento e somente o motor se faz ouvir entremeado
pelas conversas abstratas.

Rostos deformados pela noite: do operário que inicia o


labor e do boêmio que encerra a noite em gala.

Tentativa frustrada de fazer noitada boêmia com todos


os complementos, inclusive mulher. Andar por muitos
inferninhos, boates e bares, aparentemente divertidos de
situações momentâneas. Beber bastante e das mais
diversas bebidas, de gostos exóticos e ilusórios. A mulher
ideal para fazer companhia e desaparecer sempre que
conversa. Exploradoras, acompanhadas, intelectuais (estas
quase ideais), ignorantes e mulheres burras, incrivelmente
burras! Coitadas... 6

E a noite foi indo, empurrada pelas horas, morrendo


aos poucos até chegar ao momento supremo de inanição:
a madrugada.

A madrugada entrou assim, só. O olhar obsceno do


meu vizinho às pernas da mulher que dorme à nossa frente
bem à vontade, as violentas guinadas do motorista que
mantém o cigarro queimando ao lado da boca, os sinais do
trocador em pancadas indecifráveis, as cabeças
desmembradas circulando em órbita ao redor do pescoço
tentando cair e a madrugada que caminha para a claridade
amorosa trazida pelo sol que não veremos.

Saio cedo de casa isto é cinco e meia pras seis horas


da matina ouvindo o bip-bip intermitente da rádio-relógio
entremeado de vozes e publicidade. Até a estação de trem,
quilômetro e meio mais ou menos, tudo pode acontecer.
Algo. Sei. Como bicho que acuado pressente o perigo. Sei
é hora de marginais e bandidos voltarem pra toca
desiludidos e famintos.

Outro trabalhador noturno também, mas o bandidão


retardatário mete muito medo. Depois da noitada mal
sucedida, certamente acompanhada de espetacular e 7

cinematográfica perseguição policial, apenas por


divertimento pode atacar no meio da rua diante de todo
mundo perto do quartel da PM – saqueando violentamente
– pra levar o quê? Hoje em dia não têm medo de mais
nada. Se a vítima está sem dinheiro pior ainda: pode
ganhar gratuitamente um tiro na barriga só pelo desaforo
de andar por aí em terrível perrengue: duro e teso que nem
peru de noivo.

Como se mata! Digo sempre pra minha mulher – tenha


sempre à mão vela e lençol branco. A qualquer momento
como anjo anunciador a tragédia pode invadir a casa
despudoradamente. Até agora, porém dizer que dei sorte.
Cheguei à estação inteiro, intacto, somente o trem um
pouco atrasado como coisa normal. Daqui a pouco vem
cheio e na hora do empurra-empurra, entra-e-sai, é
possível o mão levinha bater minha carteira ou outro objeto
menos precioso qualquer. O chato não é o dinheiro que
não tem – é tirar nova carteira no Félix Pacheco entrar na
fila dar gorjeta, etc.

A escolha do pilantra não obedece a rigores: a


precaução exagerada do vitimado verdadeiramente nada
protege e até atrai o marginal que vem farejando como sutil 8

tamanduá. Estamos todos à mercê de tais vagabundos


sejam gatunos ou traficantes de quinquilharias. Na boca
dos trens ficam ali sorrateiros que nem gato atrás de rato
parecendo saltar na próxima estação. Nunca saltam. Estão
como escoteiros sempre alerta!

Sobressaltados, aproveitando ao máximo qualquer


deslize do incauto passageiro: cidadão sentado no banco
próximo a porta conversava com o cônjuge quando
malandreco raspou-lhe de macio o Mido Ocean Star. Só
sentiu coceirinha tal água de rio no pulso. Ver hora? Só no
relógio da Central! O trem partia da estação. Reclamou
chorou relógio de outro só vi que era crioulo. Dizia pedindo
consolo que ninguém deu.

A turma que viaja todo dia já ta fria pra tais


lamentações de muro. Um minuto de silêncio comenta
entre papo e outro no fim a conversa voltando pro normal –
futebol carnaval sexta-feira essas coisas. Um dia meti vale
no emprego voltando pra casa fim de semana senti um
risco na perna na altura do bolso. A grana já era! Hora de
saltar. Passei sábado e domingo muito mocorongo sem
cinema nem cigarro. Aprendi moitei malandro vou ficando.
Isso se deu, mas como disse não é o pior tá? Entretanto o
trem chegou, meti os peitos, fui invadindo até lugar melhor 9

debaixo do ventilador na cuca pra esfriar verão sem


maiores incidentes.

Na Estação Dom Pedro II (Central) as coisas


aparentam mais fáceis: deixa-se o grosso sair (ou parte na
frente) de leve mansinho vai escorregando pra roleta sem
perigo. Atravessar a Av. Presidente Vargas fora do sinal na
hora do rush aí sim precisa tirar fora a canela. Chegar à
Praça Mauá onde a luta é outra sem ser atropelado ou
levar fino de raspão e xingamentos dirigidos à progenitora
por motorista raivoso jamais. Todo dia mamãe sofre! Na tua
já sabe o risco de ser assaltado permanece latente
qualquer esquina em plena claridade, mas também há
possibilidade de sofrer apenas sobra de perseguição a
assaltante de banco safando-se dos tiros e tiras
naturalmente. É emocionante!

Mas cuidado com essa turma que lê jornal andando


principalmente se tem caneta no bolso da camisa: a
bichinha sai flutuando sem a menor saudade do ex-
proprietário na ponta do jornal e você nem sente! Mulheres
passam mal bocado com aquelas bolsonas arriadas no
ombro, pois dá pra todo tipo de furto desde dedo leve até
trombadinha ou gilete decepando tenazes alças e/ou
fundos para liberar a que contém realmente algum. Lojas 10

americanas e brasileiras ruas barateiras de comércio


intenso ou supermercados são os locais preferidos da
pivetagem.

Ali é o seu Éden. Estreitas ruas de pedestres naquele


esfrega e roça onde a alegria é aumentada por discos
rodando em estereofônicos equipamentos tocados em alto
e bom som desde Vivaldi até Jorginho Peçanha ou desde
Strauss até Dominguinhos da sanfona onde a gritaria dos
camelôs não deixa margem a dúvidas sobre produtos de
venda fácil onde cegos insistem vender gasparinhos
lotéricos que não enxergam (taí a sorte grande!) – o pilantra
se diverte praticando desde mais tenra idade o trivial
variado do crime todo tipo de assalto alguns ineficazes
porque nada rendem, mas executados apenas para manter
boa forma com se fosse célebre atleta Olímpico.

Por acaso em rotina de serviço diário percorri essa


malha de malandros e pivetes conseguindo sair invicto com
todos os objetos nos devidos lugares e de sobra como
sobremesa o sorriso mui prometedor de mulata capaz de
dar noitada de amor forrada ao estilo baiano não fosse
aquele sinal quase inaudível que dizia em estranho Morse
cuidado, cuidado alerta perigo, perigo como se fosse a
própria rádio-relógio minuto a minuto a hora certa do 11

Observatório Valongo.

Às vezes tenho suprema vontade de largar todas


essas medidas de segurança – porém reconhecendo como
causadoras de ter chegado vivo ao 35º ano de existência –
sujeitando-me a ser roubado até a última peça íntima na
primeira esquina da Liberdade! O que me prende? O que
me impede? Só esse sucesso de cadáver inesperado e
só...

No escritório onde estou agora novamente a


segurança não é tanta como parece. Sozinho corre-se o
mesmo risco não sei qualquer sujeito por pensar eu o cofre
anda cheio de dinheiro e – pior – que sei a combinação do
dito cujo – não sei nada juro mesmo por Deus! Não atire
sou pai de três filhos (duas meninas e um moleque que
está fazendo três anos, sabido como só!). Ludmilla,
Marcela e Carlos olhem pra cá o papai escrevendo! Carla,
cuidado com as crianças. Dá uma miradinha no canto
dessa revista.

Olha eu aqui! Se lembre das recomendações que


deixei a respeito de raptores. Afinal não se sabe como farei
para que acreditem que não tenho tostão para pagar o 12

resgate dos filhos amados? Vão dizer: façam campanha na


TV como pai do Carlinhos e o dinheiro logo aparecem, mas
tenho horror à televisão rádio esses sistemas de
comunicação que noticiam crimes, crimes, crimes.

Afinal se não desligarem logo o telefone como nos


filmes explicarei direitinho que sou trabalhador como
qualquer outro operário que luta para sobreviver na selva
de pedra. Sei a vida está difícil bem que poderia ser eu o
seqüestrador ou assaltante acreditem não brincaria com
caso sério desse afinal são filhos – maior riqueza da vida
verdadeira razão da família da tribo sei lá. Não. Não
convém puxar assunto problemático-familiar talvez não
entendam. Bem mulher, se tivermos cuidado, como até
hoje tivemos, talvez jamais seqüestrem os filhos. Afinal pra
que? Eles sabem motivos.

Mas, dinheiro mesmo não temos. Inda não seu nem


pra comprar apartamento pela Caixa ou BNH. Mas, como
dizia na segurança aparente do escritório tem também o
descuidista esse cara que chega indagando por uma firma
que ninguém ouviu falar. Se todo mundo estiver alerta
muito bem recebe a resposta e sai de fininho, mas estando
o pessoal distraído, num passe de mágica, coisas e objetos
à mão do sujeito desaparecem. Pode se despedir, relógios 13

e jóias nunca mais!

Assim chega a hora de voltar e para evitar


subterfúgios e riscos desnecessários ajo de modo diferente
como tática: vou até sete e pouco quando malandrecos,
pilantras e pivetes estão ocupados ou saturados na
pilhagem de suas indefesas vítimas (otários) saio de leve
olhando pros lados até o ponto final do ônibus evitando
todos os escuros e viajo sentado.

É verdade que o risco continua quase mesmo porque


tem o cara tarado por assalto a ônibus, isto é, apaixonado
por roubar logo onze ou dezenove passageiros embora a
coleta seja fraca só duro e desesperado anda nesses
ônibus fedorentos esbagaçados que ainda se dignam
disputar corridas em alta velocidade somente superados
pelos F1 embora a máxima seja estipulada sem sombra de
dúvida em 60 km/h. Mesmo assim, com todos os retentores
e limitadores de velocidade são capazes de correr mais
que Copersucar-Fitti com vantagem de não bater no guard-
rail ou derrapar na Curva-3 ensaboada de óleo. Com
imagem tão boa vou repetir: ensaboada de óleo.

A viagem prossegue com todos sentados juntos


unidos num banco apertado e permanentes inimigos. 14

Ninguém ousa conversar com o passageiro do lado com


medo de ser o próprio assaltante. Aproxima-se o ponto vou
saltar, o Méier se mostra absolutamente igual, a mesma
péssima iluminação embora todos tenham pagado
religiosamente em dia a Light. Antes mesmo de vencer a
conta! Reconheço, porém, o mesmo Méier de sempre
apenas com alguns edifícios a mais. Salto no ponto, vou
chegando em casa sem me benzer, orando por continuar
vivo vivinho da silva. Respirando esse sujo ar cheirando o
fedor do rio que passa no fundo do apartamento.

E no entanto as borboletas voejam... Só resta chegar


beijar a mulher e as crianças saber tudo bem tomar banho
ler as cartas à minha espera muitas violadas pelo correio
no afã de descobrir alguma subversão na correspondência
que mantenho com o amigo Milian Gonzalez residente em
Cuba que – como eu – é tarado por xadrez e escreve
artigos para revistas do mundo todo. Aliás, vou mandar
para ele aquele livro A Ilha que é muito bom.
Amanhã vou sair de novo por volta das cinco e meia
enfrentar o perigo numa sobra e outra lendo manchetes de
mortes e assaltos do dia anterior (tragicomédia da qual por
pouco escapei) bem delineada e diagramada bastante à
vista nas capas de O Dia ou Luta Democrática ou Gazeta 15

de Notícias.

Quem sabe chego a tempo e vivo passando bem para


assistir a novela Despedida de Solteiro antes que me
transformem num boneco ilustrador de títulos
sensacionalistas encontrados por aí, numa viela qualquer
com a boa cheia de formigas.
A ÚLTIMA VEZ QUE VI O VERDE

Chegado nesta idade perene – vivido tantos e tantos


anos – minha distração predileta é arriar mansamente o
peso numa espreguiçadeira e contar histórias para a 16

criançada reunida. A partir daquele exato momento sou,


sem tirar nem por, o deus maior daqueles meninos, o
mágico e o trapezista de seus sonhos.

De súbito sinto-me bastante importante ao constatar o


meu corpanzil de quase 2m de altura cercado de moleques
por todos os lados com os olhos pregados nos meus, o
pensamento, mas que tenso – prisioneiro das palavras que
vão saindo misteriosas, as vistas arregaladas, ofegantes,
pela ânsia incontida de querer chegar ao fim da história
antes mesmo do narrador.

Vê-los assim e pensar que, no começo, nos


momentos preliminares dos contos, todos discutem e
brigam por um lugar mais cômodo, próximo do contador,
correndo então alegações de quem havia chegado
primeiro, anotando mesmo os minutos, segundos, na
disputa de uma vaga bem junto das minhas pernonas – e
eu muitas vezes sendo o juiz.
Aquietam-se estirados ao longo da areia que nos
serve de assento – o mar logo ali, jogando na beira da praia
suas ondas barulhentas, impregnando o ambiente com o
cheiro salgado da maresia. Agora poetas não são mais que
estátuas petrificadas, mudas, só a mente a se movimentar 17

frenética no trabalho incessante de maquinar extensões da


história, excedendo-se nos exageros, ultrapassando as
fronteiras do real e do possível, indo além – muito além –
dos fantasmas milagrosos do imaginário.

Somente o seu olhar consegue expressar algo mais


visível: ora vivo e alegre em conseqüência das brincadeiras
passadas nas aventuras; ora triste e pensativo por força
das dúvidas e do entrechoque de idéias; ora lacrimoso,
quase chorando, de viver na própria carne os dramas
transitórios que ferem e magoam cada personagem da
história. Seu corpo, imperceptível, vibra a cada emoção
sentida, se agita internamente, corre com o herói,
movimenta-se todo, mas nada demonstra de forma
exagerada.

Não terá sido criança completa aquele que jamais


sentou no chão para escutar, viver histórias. Igualmente
não será jamais homem integral aquele que morrer mudo,
que não transmitir aventuras e fantasias às crianças, a
seus filhos.

Minhas narrativas não são extraídas de nenhum livro


em especial, nem copiadas das histórias vividas, outras
tantas imaginárias – total ou parcialmente – e outras ainda 18

apenas relembramento de algum tempo remoto quando,


criança, foram ouvidas do mesmo modo emocionante
debaixo de uma mangueira, em lugar onde a luz elétrica
ainda não tinha chegado, imunizando-o contra a invasão do
rádio (acreditem – a TV ainda não havia sequer saído dos
livros de Júlio Verne).

As sombras bruxuleantes que a lamparina provocava


com sua luz difusa matizavam drasticamente à imaginação
do menino as cenas das histórias e, quanto mais
emocionantes eram, mais arrepios provocavam diante da
labareda que ameaçava apagar ante a mínima brisa que
soprasse.

Hoje também, antes ou depois de contar – qualquer


aventura, as crianças agitam-se em comentários dos
sucedidos, contando como poderá ter sido o enredo se
tudo corresse de modo diferente penetrando no caminho da
própria imaginação, esmiuçando as mínimas minudências
ou querendo ir além do desenlace como se a história não
tivesse começo-meio-fim.

E é bem possível que na sua cabeça milagrosa não


tenha mesmo – e todos os próximos passos sejam mais um
lance a somar à narrativa. Outros, relembrando contos 19

passados, insistem para repeti-los integralmente, muito


embora já tenham sido contados mais de uma vez, em
todas as suas variantes.

É que tem sempre ouvido novo por perto que fica


espicaçando de curiosidade provocada pelas citações
particulares a respeito de outra ocorrência, que dá até pena
não contá-la todinha. E a cada nova narração surge nos
entremeios capítulos inéditos da história, acrescidos quase
sempre dos comentários e lembranças dos ouvintes
veteranos, que se transformam em contadores auxiliares
em potencial.

Entre essas mais solicitadas está o dramático conto


da última vez que vi o verde que, independente, já corre
mundo de boca em gozo e fama. E nesse terreno desnudo
de vegetações, à beira de um mar poluído e sujo, cobertos
– contador e assistentes – por um guarda-sol artificial e
algumas árvores de plástico, amareladas e inodoras, atiro a
memória para trás muito à vontade e cato nos recônditos
da infância o cenário e inspiração da história.

As mesmas mangueiras que emolduraram as


fantásticas narrativas que me fizeram enfrentar e viver a
vida com maior intensidade, resistir heroicamente diante da 20

selva progressista de cimento, da investida letal da fumaça


e produtos químicos que, enfim, tornaram a Terra como a
vemos hoje, pálida, despida de qualquer vida que não a
artificial, cadavericamente nua e quase morta física e
espiritualmente.

Posso assim, transmitir a eles o verde como era o


verde, a natureza vívida e intensa – selvagem e autêntica –
como era antigamente. Sinto que essa turma, num futuro
não distante, é capaz de nem ter mais a imaginação
necessária para relembrar todo esse fantástico e
maravilhoso mundo que transmito, pois, nesse futuro (que
nem quero imaginar) sua mente pode estar tão embotada e
estéril quanto às areias que ora pisamos nessa bola sem
cor, desértica e árida chamada Terra.

Existia um lugar, distante como outro planeta, que


conheci quando jovem e tinha toda a extensão de suas
terras cobertas de espessa e contínua vegetação,
intensamente verdejante. Era a floresta. Suas árvores eram
maiores que os prédios gigantescos hoje conhecidos
(murmúrios de espanto) e o solo totalmente recoberto com
uma grama mais macia eu a pluma do algodão, pontilhado
de pequenas plantas, arbustos, que davam flores de
plástico reunidas, somando também todo perfume criado 21

pelo homem (sons de admiração).

Todas as árvores davam frutos em grande quantidade,


ao seu devido tempo, saborosos e sumarentos, fáceis de
apanhar, cujas vitaminas continham mais saúde e vigor,
provocando uma vida longa e saudável, superiores e todas
as vitaminas, proteínas e sais minerais artificiais até hoje
descobertos, sem a mínima necessidade de injeções ou
prolongados tratamentos internados em hospitais.

Os frutos eram tantos e tão abundantes que caíam


sobre a cabeça dos – transeuntes à menor sacudidela dos
galhos, provocando inúmeros incidentes. Era comum
verem-se pessoas borradas de manga, algum ou outro
equilibrando sobre o chapéu um jenipapo, gente
escorregando sobre as cascas de bananas e assim por
diante. Dava constantemente e o único trabalho que se
tinha para saboreá-los era cuidar sempre com carinho de
suas árvores... E o de pôr na boca e mastigar c-a-d-a-q-u-
a-l-m-a-i-s-g-o-s-t-o-s-o que outro (desejos múltiplos
demonstrados pela salivação excessiva).

Naquela saudável selva verde animais andavam


livremente sem temer – em sua selvageria – a caça
puramente esportiva, que era terminantemente proibida e 22

as autoridades exigiam da população que não os


maltratassem – e assim todos viviam como bons amigos.

Os bichos eram muitos e dos mais diversos: a onça


superpintada que dava uns saltos de 50m de distância;
pássaros multicores que mudavam sempre a cor, num
lusco-fusco de penas (dizem que foram eles que
inventaram o arco-íris);
o papagaio auriverde-olho-de-fogo falador como o
diabo que repetia tudo que se dizia em qualquer idioma
conhecido ou desconhecido (exclamações de alegria e
resmungos de dúvidas);
e também o macaco travesso-de-rabo-de-aço que era
bicho de subir em qualquer árvore de tamanho e altura (de
tanto fazer pulitricas, diz-que foi quem ensinou aos
trapezistas a carambola e o salto-mortal com a
desenvoltura de quem sabe voar);
o cachorro papão-do-mato que ganhava na força do
próprio leão;
o cavalo malheiro-velox que vencia na corrida o
coelho;
e muitas e muitas coisas que nem eu imaginava nem
vocês jamais saberão, pois são antiguíssimas, misteriosas,
tantas e incontáveis como os sóis.
23

Naquele tempo, sim, vivia-se fartamente,


despreocupado, estudando ou estudando, sentado nas
gramas dos jardinas a descansar, admirando a maravilhosa
floresta tropical, aspirando o perfume das flores, comendo
frutos saborosos e espiando a vida alegre dos pássaros
exóticos cantando as mais variadas melodias possíveis, a
bicharada fantástica- um espetáculo à parte cada vez mais
fazendo o absurdo, o impossível.

Quase criança, eu via tudo e tudo guardava para


contar depois para meus filhos, netos, para contar para
vocês. Hoje é cada vez mais difícil a criança ver coisas
guardar para contar depois – na verdade pouco tem o que
se aproveite...

Todos se sentiam à vontade, naturalmente como


quem respira o ar puro da montanha, quando faziam essas
pausas para ver o verde, admirar as planícies extensas, tão
extensas que sumiam da vista (olhos encolhidos como
quem fita o horizonte longínquo).

O importante é que todos viviam harmoniosamente,


dentro de conceitos humanísticos, alimentando-se também
espiritualmente e comendo apenas verdura verdadeira, 24

cujo sabor até hoje os químicos não souberam reproduzir,


cereais e leguminosas nascidos diretamente do solo sem
necessidade das imensas estufas submarinas e
subterrâneas utilizadas pelos contemporâneos para extrair
algas alimentícias de sabor horrível, dos milhares de frutas
que falei e que até hoje estou louco para voltar a comer
(sensações multiplicadas de asco-algas – e desejo –
frutas).

Certa hora ao fim do dia já se tornara um hábito todos


pararem de trabalhar, de estudar ou rezar – de fazer o que
faziam – para o outro em profunda meditação, se
comunicavam conversando, trocando palavras amáveis,
como se fosse uma multidão de há muito conhecida –
embora muitos se encontrassem ali pela primeira vez.

Delicadeza e carinho para com o próximo, abraços,


amor, felicidade, tudo encontravam admirando o verde, em
busca de um lugar mentalmente mais verde ainda, mais
intensamente verde, para poder fitar as folhagens
demoradamente em êxtase, como se adivinhassem – que
tudo aquilo poderia desaparecer num repente, de hora para
outra (olhos se aprofundando nos meus ante a intensidade
da narrativa).
25

E depois iam homens, mulheres, crianças, velhinhos e


decerto também os animais, se recolherem a seus lares
sossegados, com a consciência tranqüila de ter visto o
verde, tal e qual acontece com os anjos no céu: dizem que
os anjos só ficam calmos e tranqüilos quando vem o branco
em toda a sua alvura. Todos descansam, então, um
profundo sono, de paz, do muito de paz que existia naquele
mundo distante.

Porém, pouco tempo depois começou a aumentar


gradativamente o número de pessoas que deixavam de ver
o verde, de amar a natureza. Não tinha (ou não
encontravam) mais tempo para admirar os pássaros e os
bichos alegres e aloucados pulando em piruetas nas
selvas.

Os homens, ao invés de procurar a natureza,


preferiam agora ficar brigando entre si (coisa que nunca
fizeram), discutindo sobre coisas menores, procurando
rixas com seus semelhantes por tudo de menos
importância, tomando violentamente terras e pertences dos
outros, matando e mandando matar adversários reais e
imaginários – muitas vezes o próprio irmão, gente da
mesma terra.
26

Ninguém mais possuía direito, era só a força a


violência destruindo e matando a natureza, assassinando a
fauna, extinguindo a flora, tudo para alçar ao poder, à
glória. O resto perdeu o significado (tristezas
demonstradas). O verde – que um dia fora a própria
bandeira do lugar, o símbolo e santo padroeiro – ninguém
respeitava mais o verde. Cada vez mais nada em seu
redor.

Todos iniciaram através de feituras de decretos e


editais, por intermédio de leis e regulamentos mesmo os
mais absurdos, a busca doentia do poder, da fama, do
dinheiro.

O povo começou a pagar tudo, cada taxa com um


nome de fantasia: taxa do verde, para quem ainda quisesse
vê-lo; taxa do lixo, pagavam todos os que consumiam
alguma coisa, taxas de oxigênio e espaço, para os que
respiravam muito e caminhavam mais ainda, só faltava
mesmo uma taxa celestial, mas – diziam – já estava em
preparação. Os mais puros preocuparam-se em fugir de
tudo isso, das lutas insanas que ocorriam entre o povo sem
qualquer aviso, a qualquer momento matando e arrasando
tudo.
27

E não era somente matança de guerra (tremores


internos em cada um dos ouvintes), utilizavam também
lutas químicas, produtos das fábricas – que tomaram o
lugar e o espaço do homem em nome do progresso; luta de
idéias destrutivas das máquinas e dos arranha-céus contra
a população, contra o cérebro, contra seu amor, sua alma.
A confusão – chegou de súbito e tomou conta de tudo e de
todos. E ninguém mais viu o verde... (soluços).

Nesse desespero confuso eu também fui envolvido no


caos, levado pela onda, esqueci completamente o verde.
Abandonei toda riqueza adquirida na infância – de repente
me tornei adulto, larguei de lado a grama na qual muitas
vezes corri tentando abraçar o vento, correr mais que ele.
Desisti de ver as flores se abrindo e tudo perfumando no
mistério indecifrável da natureza, de cheirar o seu aroma,
de admirar o incomparável colorido das pétalas e das
folhas. Deixei afinal de apreciar e comer os frutos
deliciosos e as verduras tenras.
Não mais tinha visto o bicho macaco repinicar de
galho em galho nas altíssimas árvores, a onça correr em
pulos quilométricos até a beira do rio para, sedenta, beber
água unto com uma lebre, até o papagaio – falador de
nascença e de costume parou de tagarelar, ficou mudo e 28

triste.

Quando tive tempo, um tempinho só roubado aos


afazeres, e fui me mirar no reflexo das águas límpidas do
rio o que vi? Os meus cabelos estavam brancos, minha
pele se enrugava toda, meus braços pesados e cansados e
as penas flácidas e sem força. De quê? Se eu não tinha
mais corrido na relva? Se não tinha mais subido nas
árvores para apanhar frutas? Se não tinha mais
mergulhado nas águas – translúcidas dos rios e mares? De
quê?

Acordado desse jeito, brutalmente acordado de um


pesadelo, voltei-me para a floresta querendo olhar tudo de
novo e o que vi fez-me chorar. Naquele exato momento o
verde estava desaparecendo totalmente (surpresa).
Primeiro as árvores foram ficando nuas, desfolhadas, os
troncos secos como os braços dum esqueleto,
transformavam-se primeiro em rocha e depois as folhas
amarelecidas e sem viço viravam pó; os frutos caíam
desamparados e logo apodreciam exalando terrível mau
cheiro.

As flores? Nem se fala. Nenhuma tinha algum perfume


para dar, sequer uma cor pálida para oferecer aos olhos 29

cansados. A natureza toda morria. Os pássaros à toa


desabavam no chão e ficavam tremelicando em estertor até
morrer (lágrimas brotaram nos olhos).

Os bichos, coitados, davam um passo e morriam,


viravam pó no mesmo instante, a terra seca transformava
as águas dos rios em vapor e todos foram secando,
secando, secando (soluços demorados), tudo morrendo e
desaparecendo da vista. Olhava para o céu, em redor,
nada. Nenhum ser vivo, nenhuma cor, nenhum perfume,
nenhum grito, tudo inanimado, nenhum verde...

Foi aí nesse momento que alguns homens bons que


sobraram se reuniram e num derradeiro esforço viajaram
para esta terra numa caravela de prata.
A VIA CRUCIS DE MANFREDO PINTO,
MAIS CONHECIDO PELA ALCUNHA DE XUÉ

Conheci Manfredo, ou Xué, se preferirem, de um


modo curioso: ele tentou bater minha carteira quando eu
subia para o ônibus. Ri e falei algo assim como que é isso 30

cara, também tou numa de pior e ele também riu, disfarçou,


foi saindo de fininho.

Depois, muitas vezes o encontrei se virando na punga.


Volta e meia a gente se esbarrava, ele livrando a minha
cara e eu entendendo porque ele dava essas tremendas
cambalhotas.

Entre um pinote e outro, paramos lado a lado num bar


e tomamos alguns chopes. Provoquei Manfredo (não
consigo chamá-lo Xué...) sobre sua vida. Ele riu, cheio de
trejeitos e gírias, ora minha vida, chapinha, é como a vida
de inúmeros pivetes que se defendem da vida por aí.

Na verdade ele começou na Praça XV vendendo


balas, mariolas, amendoim, nos ônibus e nas filas. Ajudava
a mãe com aquela mixaria, que não dava nem pro leite,
mas ajudava pensando estar no caminho. Afinal, vários
colegas seus também vendiam balas pros outros, alguns
eram explorados por maiores e daí por diante.

Em resumo, Xué ficou nessa vida até os sete ou oito


anos, quando um moleque ponderou com ele, cara, isso
não é vida, você ficar dando essas mixarias pra sua mãe 31

enquanto os gordos andam por aí com as carteiras


recheadas de barão.

Manfredo foi e se juntou a um grupo de pivetes para


trombar os coroas pelas ruas. Andavam em enxames
escolhendo as vítimas. Os mais idosos eram eleitos porque
a reação é mínima. O grupo cercava o banqueiro em
brincadeiras, um agarrava os braços do otário, outro metia
a não nos bolsos e tirava fora o cofre receado de grana.

Corriam em desabalada carreira por entre os carros


do trânsito intenso, onde ninguém mais se arriscaria, e a
reação se limitava a lamentos, foi aquele, foi esse,
roubaram, bateram a carteira.

Daqui a minutos o grupo tinha sumido no lusco-fusco


à cata de uma nova vítima, feita a racha em partes iguais
para todos.
A coisa ficou preta pro lado dele quando um dos
moleques usou um canivete para quebrar a resistência de
um velho, não era tão velho assim. O velho recebeu a
cutilada, bambeou prum lado e pro outro, e só então largou
a carteira.
32

O corre-corre do grupo foi mais agitado, cada um por


si diante da gritaria de transeuntes. Um dos pivetes não
conseguiu fugir e foi massacrado pela multidão.

Xué dias mais tarde foi preso, alegou ser menor de


idade, mas antes que provasse qualquer coisa levou mais
uns catiripapos dos tiras, uns sugeriram até o pau-de-arara.
Foi mandado pra FUNABEM.

Antes de ser corrigido, antes de aprender qualquer


ofício, como dizem, fugiu. E fugiu de modo clássico, sem
atropelos, pela porta principal, com um monte de jornal
velho debaixo do braço, com uma farda da Casa dos
Pequenos Jornaleiros. Ainda teve o desplante de oferecer
um jornal pro guarda da guarita ler, que aceitou sorrindo.

Daí em diante, de novo livre, resolveu agir por conta


própria, dando pequenos golpes, pequenos, mas
garantidos e sem grandes riscos. A punga, um ou outro
furto pequeno, puxar carangos. Nas horas difíceis teve
mesmo de pedir comida. Outra vez foi preso, teve que
subornar o guarda, mesmo assim levou umas bordoadas
pelo chavelho antes de ser solto.

Um dia qualquer, resolveu voltar pra casa, deixar 33

algumas poucas coisas pra velha mãe. Evitava voltar a


casa justamente por estar prejudicada, certamente vigiada
pelo pessoal da FUNABEM. Mas mirou pelas redondezas,
não viu tira nem sujeito suspeito e arriscou.

Soube pelos novos moradores do barraco que a velha


tinha morrido e sido enterrada como indigente. Sacudiu os
braços indiferentes, aceitou o cafezinho oferecido e deixou
alguma grana pro pessoal mesmo, gente da igualha da
mãe, da família.

Pela audácia e segurança andou pintando nas


páginas policiais dos jornais especializados. Primeiro surgiu
o provavelmente alcunhado de Xué, depois foi identificado
e o seu boneco apareceu radiante num canto da página
criminal

Alguém tentou incriminá-lo com assassinato, mas ele


pediu prum amigo fazer uma carta pro jornal desmentindo
tudo. No seu modo de agir, nada de violência, nada de
mortes. (Confessou-me, porém, que um dia teve de dar
porrada num cara, mas para se defender. Era eu ou ele).

A liberdade entre os marginais é vendida caro, bem


caro mesmo. Para não se preso tem de dar propina pra 34

guarda, polícia, delegado. Para se solto tem de morrer nas


mãos dum advogado qualquer, desses que ganham a vida
soltando criminosos. De um modo ou de outro, melhor é
não se preso.

Hoje Manfredo vive bem vestido, não me contou os


golpes que ele anda dando por aí. Bem vestido em termos,
em comparação com os velhos tempos da Praça XV, Lapa,
Praça Mauá e adjacências, Morro da saúde, e das fugas
para os bairros distantes, Jardim América, Austin, São João
de Meriti, até as coisas esfriarem.

Volta e meia é apanhado, levado prum canto da


cidade e surrado, roubado, até que os policiais que o
prenderam resolvam largá-lo num beco qualquer, em
lastimável estado. Uma vez andou toda a noite dentro de
um camburão.
Pensou se era coisa do esquadrão da Morte, se iam
largá-lo perfurado que nem peneira lá pras bandas do
Estado do Rio, Nova Iguaçu, por aí, pendurado num cartaz
de caveira, talvez com montão de dizeres indecentes. Esse
não rouba mais nem estupra mocinhas. Eu era puxador de
carros: não roubo mais. Não farei mais viciados na família 35

brasileira.

Coisas tais.

Aí então será manchete de jornal. Mais que uma foto


num cantinho qualquer, o corpo perfurado, sangrando, a
boca cheia de formigas. Duas, três, colunas unicamente
dedicadas ao seu currículo, o passado de menino sem pai,
o pivete atrevido, a fuga ousada da FUNABEM, as outras
fugas, as torturas sofridas, o fim.

Pra quem num tem nada na vida, até que não é mal,
diz com um sorriso e sai gingando malandramente o corpo.

Tchau Xué!
BANHO DE SANGUE

As notícias dos jornais dizem que estamos em guerra.


Ao meu lado rasteja um companheiro na lama. Outros
avançam lado a lado. De repente uma explosão terrível e
na cegueira da lama todos desaparecem. Fui salvo por um 36

pedaço velho de ferro que protegeu o meu corpo.


Misturadas com a lama, vísceras e pedaços de carne
envolvem-me a cara e me sujam a roupa mais ainda.
Passo a mão e vou em frente.

O sol reflete na banca onde revistas e notícias são


consumidas pelo povo que passa. Uma senhora já de idade
tenta atravessar a rua naquele local e é atropelada por um
caminhão que prossegue velozmente. O seu corpo ainda
estremece. Fazem roda em torno do cadáver, tudo circula à
minha frente e se confunde com a página de crimes dos
jornais.

Pela manhã no bar a classe média se acotovela pra


tomar café com leite, pão e manteiga. Os carros já estão
estacionados nas calçadas e os guardadores fazem a vida.
Os primeiros jornais e revistas tomam lugar nas bancas de
lata. Foi um corpo que caiu do décimo quinto andar do
edifício sobre o bar. Todos se voltam em direção à porta e
lá está o corpo espremido entre dois veículos. Corre-corre,
gritaria. Incólume do vômito bebo o meu café e parto
apressado.

É hora de assinar o ponto.


37

As fotos coloridas enviadas do Vietnã tornam comum


à nossa distante visão as chuvas de bombas, balas,
torturas e corpos lacerados sem distinção de sexo ou
idade. Mas jamais saberemos da dor, pois não é na nossa
própria carne.

O trem parte veloz das estações, cada vez mais


carregado de passageiros. É comum ler durante a viagem,
mesmo em pé, segurando o jornal com uma só mão. As
notícias voam como os vagões. O ritmo é o mesmo durante
todo o percurso. Só se ouve o pacatá, pacatá, pacatá das
rodas sobre o trilho de aço. Passou rápido pela estação de
Todos os Santos.

Ao pé do poste, na calçada, ficou um corpo estirado. A


dois metros uma banda de cabeça, no corpo o cérebro
esbranquiçado exposto. Na estação de São Cristóvão, dois,
trens superlotados se cruzaram. O barulho constante não
deixou ouvir o baque dos corpos.
Eles caem silenciosamente como anjos. Quando os
trens desapareceram na curva ficou uma estrada de
corpos, pernas e braços separados, troncos desfeitos,
cabeças despedaçadas no encontro violento com as
pedras do chão, no choque anormal do corpo com o aço. O 38

trem seguiu viagem.

Comi feijão no jantar e tive um sono agitado.


Perseguições, facadas, cabeças decepadas coando em
câmera lenta numa Praça de Bagdá. Meu filho, que está na
idade de subir em todos os lugares, foi até a janela e
despencou lá embaixo. No telhado de amianto ficou
somente uma mancha vermelha. De manhã felizmente ele
acordou a todos nós gritando do berço, como é normal.

Na cabeça, uma dor de cabeça...

No espelho a minha cara arruinada alertava para o


cansaço de tudo. Ao fazer a barba, cortei-me com a gilete:
o sangue pingou na pia e foi levado pela água velozmente.
Na trilha do rumo para o serviço um videoteipe nos
acompanha até a cidade (corpos estendidos na via férrea
como roupas nos varais). Um operário de construção não
espera o repórter e cai do undécimo andar logo no começo
da manhã. É uma notícia ao vivo que os leitores de jornal
de banca lêem na horinha.

Três assaltantes tentam roubar uma joalheria: dois


ficam estirados, um morto outro ferido e xingado. O
terceiro, um japonês, conseguiu fugir com todo o roubo. Um 39

guarda de segurança baleado recebe uma miséria por mês.


Um atropelado, um pouco menos.
ESTAMOS EM GUERRA!

Afirmam garrafais as manchetes penduradas na


bancas. Será essa a guerra? Em Miami um negro
entrincheira-se num telhado e começa a matar os brancos
que passam. Cercado pela polícia resiste até a morte. 40

Matou dois policiais e vário transeuntes. Foi fuzilado e até


hoje a polícia – não crendo que um homem só pudesse
fazer tudo aquilo, busca dois supostos cúmplices.

Nova York. Três negros são surpreendidos num


assalto a uma loja de artigos esportivos. Bem municiados
sustentam violento tiroteio com a polícia e só se
entregaram quando um companheiro morreu e a polícia
garantiu um tratamento mais humano, que certamente não
terão.

Em Topeka um negro bate nas residências de porta


em porta toda a extensão da rua. Mata sem explicação
todas as pessoas que atendem ao chamado. No fim da rua,
sem contar o número de vítimas, enfia uma bala na cabeça.

Estes fatos aparentemente isolados são elos de uma


cadeia e prenunciam uma nova era nas violentíssimas
relações entre negros e brancos americanos.
Obrigado a recorrer cada vez mais ao extremismo, ao
radicalismo, para fazer valer seus direitos e aspirações, o
negro expõe assim a falta de crença nas promessas
sempre renovadas do poder branco que, não podendo
apelar para o extermínio indiscriminado. O negro – ao 41

contrário do índio – aonde chega impõe seus costumes,


sua música, sua presença enfim. Utiliza-se uma contínua
repressão e opressão sociais para mantê-lo no seu lugar.

Com a assinatura do acordo de paz no Vietnã e a


conseqüente retirada dos contingentes americanos, os
EUA deverão sofrer uma incontrolável poderosa onda de
violência negra; os soldados negros não receberão da
sociedade a que serviram algo que signifique recompensa
ou honesta compensação pelos serviços prestados a Tio
Sam, nos campos de batalha.

Sem acreditar (muitas vezes sem mesmo aceitar) que


as perspectivas modifiquem o status; sofrer na carne o
problema do desemprego, opressão agressiva, fome,
marginalização; adquirir consciência da sua força e de que,
pelo menos na guerra, foi considerado igual ao branco;
falta de meios para expandir a força e a virilidade próprias
da raça, são problemas que o negro dá e que a
administração Nixon terá de enfrentar a partir da próxima
primavera.

O acordo de paz para o Vietnã repatriará os soldados


negros americanos. Que encontrarão? A família
eternamente em dificuldade financeira, a vida difícil, mais 42

um ou dois delinqüentes, viciados, a indiscriminação cada


vez mais sólida e sanguinária.

Eles não acreditam mais em garantia individuais,


tratamento mais humano ou na igualdade sócio-racial –
velhos jargões empregados para adiar indefinidamente o
racismo. Como no Vietnã, o negro vai partir para a luta de
vida ou morte.

Os soldados negros retornarão aos EUA no próximo


verão – e com eles a violência sem tréguas (até a morte)...
E o fogo.

Eis que estou na guerra. Obuses e bombas passam


sobre mim, luminosas, para logo depois explodir. É noite.
Estilhaços e detritos caem e por vezes me machucam.
Algumas bombas zunem e soltam um apito como as de
São João. Porém, têm uma explosão muito mais violenta e
destruidora. A noite quase se faz dia com tanta iluminação.
Estou encolhido, o capacete como que protegendo o
corpo todo. Raramente abro os olhos e quando o faço vejo
meus colegas ao lado igualmente procurando proteção. A
qualquer momento um daquelas bombas pode cair em
cima da gente. Pum! E voamos pelos ares em peças
miúdas. 43

Agora temos que avançar um pouco. Não tenho a


mínima coragem de me mover. Sinto-me enregelado, duro.
Vejo meus colegas deslizando como cobras, o que me
anima a avançar. Não sei se o medo de ficar atrás só ou se
o desejo de igualar-me a eles.

Avanço.

Na frente diviso algumas trincheiras cavadas na terra.


Uns mais adiantados já dão uns passos rápidos e atiram-se
dentro delas. Somos poucos os retardados. Estou a poucos
metros da vala à minha frente. Consigo apoiar o cotovelo,
levanto-me rápido e logo estou abrigado dos estilhaços.
Somente, porque a ameaça da bomba cair é a mesma.

Ainda bem que ninguém tem coragem de lançar uma


bomba atômica.
Sinto arrepios e mais medo. Conversam. Não sei
como conseguem abrir a boca. Um fuma. A coisa ta preta!
Vem o sargento e ordena que a gente avance. Reconheço
que consegui descansar um pouco. Demoro. Logo saio e
de novo o ribombo se faz presente e mais real. Vamos
agora, fuzil na mão, andando a passos largos, rumo a um 44

matagal que está à nossa direita.

Alcançamos o nosso objetivo e penetramos dez


metros adentro. Súbito um metralhar sobressai-se aos
ruídos fazendo-nos jogar o corpo de encontro ao solo,
como que colado. Um companheiro demora a cair.

Está morto.

Mantemos silêncio. Alguém nos vê sem ser visto e


leva esta vantagem. Agora o medo desaparece e a
mecanização do cérebro funciona. Procuramos nos abrigar
para que o movimento do corpo seja livre. Alguns se
levantam e avançam lentamente. Logo após estamos todos
nos movendo à procura do livre-atirador.

De novo o metralhar que já não nos pega de surpresa


e sim prevenidos. O fogo se fez ver através da folhagem e
é para lá que dirigimos toda nossa artilharia. Outros
aproveitam e aproximam-se cercando todo o local.

Cessamos o ataque, pois já estamos na área inimiga e


não se ouviu outra reação qualquer. Localizamos os
cadáveres fuzilados. São três e mais uma metralhadora 45

pesada. Pode haver outros, mas geralmente são deixados


pequenos grupos para retardarem o avanço de tropas.
Julgamos se dessa classe os mortos, sem abandonar a
cautela.

O sargento manda parar. Escolhe três soldados e um


cabo para um exame da região. Duzentos e trezentos
metros á frente. Ficamos à vontade. Ordem pra fumar
escondido. O sargento também fuma. Alguns já cochilam
encostados nas árvores.

Estamos longe de nossa terra nata. Lá é paz. A


lembrança às vezes nos faz chorar. A terra aqui é diferente,
o povo é diferente. Os campos são alagados e o solo é
todo úmido e fofo. Algum ou outro arrozal, sempre extenso,
faz-nos lembrar a pátria.

O arrozal lembra outro arrozal, um milharal ou um


canavial.
Víamos tudo isso, cada um em sua região em nossa
terra que dá de tudo. A gente daqui é esquisita e não
entendemos o que eles falam. Parecem amistosos, mas
são por vezes estúpidos e brutos. É a eles que defendemos
e lutamos e morremos. Por isso é insuportável que alguns 46

deles alimentem ódio por nós. Esses têm da gente a


mesma idéia que nós temos do inimigo.

O inimigo é de pedra.

Estamos isolados do mundo. Agora mais isolados


ainda. Somente o nosso rádio se comunica com o
acampamento central, que deve estar longe. Nada nos
autoriza ao retorno. Voltar para onde se a nossa retaguarda
é só desolação?

No acampamento, me lembro, a gente recebia cartas.


Muitos choravam, outros riam. Não eu, que não recebia
carta, não chorava nem ria. Pelo menos fazia parte da
tristeza e alegria dos outros. Hoje, duas semanas fora de
lá, estávamos mais desanimados quanto a um retorno
breve.
CORPO MORTO

Todos os dias de manhã cedo meu corpo se levanta,


cansado, murrinhando o lamento de abandonar os lençóis
amarrotados. Reclamando, às vezes dolorido, o corpo vai
ao banheiro, joga água e sabonete no rosto para despertar 47

mais completamente, mira no espelho a cara de sempre,


como todos os defeitos à vista.

A língua com a superfície esbranquiçada por uma


pasta amarga que sobe do estômago reflete as revoluções,
logo traduzidas em arrotos, que vêm da barriga. Esfrega,
contrariado, uma escova com pasta dental na boca e
repentinamente o amargor se transforma num gosto ácido
perene.

O corpo caminha para a mesa onde está servido o


café com leite, pão e manteiga. O radinho de pilha
transmite a voz apressada de um locutor madrugador que a
todo instante dá horas. Agora é o gosto do café com leite e
o ruído intermitente do rádio que ocupa todo o espaço e
comanda os reflexos do corpo.

O corpo arruma-se para sair, os pés caminham


apresados demais, além do exigido. O corpo já é dono de
si mesmo, sabe todos os itinerários a percorrer diariamente
que, com pequenas variações, são exatamente os mesmo.
À porta o corpo dá um beijo na mulher que fica acenando
um adeus de até logo mais.

Depois disso, mais ou menos um quilômetro de 48

calçada é percorrido até chegar ao ponto do ônibus. Já foi


tempo que o corpo andava mais um pouco, até a gare do
trem, para encarar o difícil trajeto para o trabalho.

Agora, o corpo mata o trânsito viajando de ônibus com


as dificuldades, somente um pouco atenuadas pela
limitação do veículo, e a viagem é feita em uma hora, num
percurso que normalmente seria coberto em trinta ou
quarenta minutos.

A monotonia da paisagem estratifica o corpo até seu


destino. Ali o corpo salta e vai caminhar mais um
quilômetro e meio em busca da inconfortável cadeira onde,
diante da máquina de escrever, ele esquecerá o
desconforto de viajar em pé, levando empurrões e
sacolejos, tenso, ante a expectativa de poder sentar um
pouquinho só para relaxar as pernas e os braços.
Antes de subir o corpo toma mais um estimulante
cafezinho. Mais uma vez o estômago é sacudido pelo
líquido preto e reage em revoluções que o corpo aceita
normalmente.

Agora é o elevador velho de madeira, a porta batendo 49

violentamente toda vez que abre e fecha, os comentários


despropositados que são obrigados a escutar, um cigarro
difícil de aturar num recinto tão diminuto. No ônibus já fora
violentado pela fumaça dos cigarros. E no elevador, como
no ônibus, as proibições são afixadas à vista de todos.

Corpo nenhum quer saber de punições; se pedir com


carinho e malícia, todo corpo cai no engodo, mas, se vier
com ameaças, a reação prontamente se faz sentir. O jeito
então é agüentar a fumaça e ainda chegar relativamente
bem disposto no escritório.

No escritório: escreve, escreve, fala ao telefone, fala


ao telefone ouve os carros buzinando e os motores
roncando lá embaixo, motores roncando e buzinas tocando,
fala com os chefes e patrões, fala com os colegas, escreve,
escreve.
Ao meio-dia (ou mais ou menos), ao corpo sofredor, é
o jeito ariscar a vida numa lanchonete qualquer onde os
pratos comerciais sempre são azia, indisposição, má
digestão, que o corpo galhardamente absorve numa
química que atravessa os séculos sempre em contínua
mutação. 50

Graças a essa persistência o corpo tem mantido seu


formato humanídeo, mas sua vida a cada século que passa
vai diminuindo: já não se vive 100 anos como
antigamente... Novamente um cafezinho encerra a missa:
andar, andar, andar. O corpo anda até retornar ao
escritório. Ali a prisão está conformada, o confinamento
oficializado pelos horários, a condenação cumprida
lentamente pelas obrigações. É o corpo perdendo o poder,
entregando a direção a terceiros.

O corpo diz que manda, mas na realidade oculta mau


e porcamente a sua eterna fraqueza. Escreve, escreve,
escuta o tintinlar das campainhas telefônicas, tintinlar, trim-
trim-trim, lá embaixo o ruído, subindo lentamente agarrado
nas paredes precipiciais dos edifícios, ruído, ruído, subindo,
fumaça, fumaça, subindo. Passa assim meu corpo toda a
tarde todo o dia. Lá pras cinco, seis ou sete horas o corpo
tenta por em ordem a desarrumação até o dia seguinte.
Uma breve arrumação na aparência também é
efetuada. E o elevador repete inversamente o disparo
matinal: 15-14-13-12-11-10-9-8-7-6-5-4-3-2-1. O corpo
novamente arrisca a vida, aumenta o desgaste físico
enfrentando o adversário matinal – o ônibus. 51

Parece que tudo ocorre ao contrário. Agora a viagem


é noturna, mas o veículo continua cheio, o trânsito
insuportável, os ruídos ameaçadores, freadas bruscas,
solavancos, sacudidas pra lá e pra cá, os pés doloridos e
quentes, o corpo clamando por um chuveiro, água
abundante, uma comida singela, o carinho da mulher e a
cama.

Finalmente a cama já de reparar parcialmente as


energias dispersas pelo mundo, mas, antes, o corpo ainda
tem de aturar todos os noticiários da TV, as novelas
mágicas como gêmeas, os filmes em c-a-p-í-t-u-l-o-s
intercalados por intermináveis propagandas. Fustigado na
rua, fustigado desde que desperta, o corpo tem medalhas
heróicas pregadas no couro do peito.

Só um refinado herói pode resistir a todas as torturas


que lhe são oferecidas, começando pelo despertador.
Depois o ônibus, os jornais, a política que maltrata os
corpos, os homens, os olhos, depois o escritório, o trabalho
e a política que explora os corpos, depois um breve almoço
(passo certo para o cemitério), uma breve sobremesa, um
breve cafezinho, e a volta ao escritório – onde todos os 52

males renascem, depois de uma tarde, de novo o ônibus, o


retorno, as fotos andando de trás para frente, depois, em
casa, o banho, a TV, o jantar, o café, os filmes, os
comentários breves, a cama.

O amor. Enfim, o corpo ama, o corpo ama. Difícil


descobrir o percentual de amor consumido pelo corpo,
estatisticamente, durante a existência. O amor. O amor. O
amor...
ELIZA – BETE 45400Y
(UM PASSO CURTO PARA O FUTURO)

Eliza-Bete 45400Y dirige-se cadenciada pela esteira luz-


segurança até o Ponto OE-3, ônibus elevado, a caminho de
retorno para seu ovóide. Contatou o marcador espaço- 53

tempo individual e atestou um registro: estava adiantada


fração secundária em relação ao horário fixo do OE. Era
uma lástima ter que expor-se assim, se sujeitando a sofrer
acidentes, etc.

As divergências de horário-tempo desobrigam o


indivíduo da proteção oficial. Toda vez que visitava sua
superiora-mãe Eliza-Bete 45400Y sofria percalços no
trajeto, naturais na vida atual, culpa do Governo Geral que
ainda mantinha cúmulos residenciais fora das cúpulas
cidades.

De repente, sem que houvesse aviso-alarma


antecipado, um foco luminoso lilás vindo de algum lugar
superior cercou-a. Imobilizada, Eliza-Bete45400Y iniciou
ascensão espiralada corporal antes que tentasse ameaçar
qualquer protesto de defesa. Não teve tempo sequer de
utilizar as botas de sola magnética para fixação
permanente ao solo.
Já no alto, em lenta e continuada subida, Eliza-Bete
45400Y apelou para o sistema primário de socorro. Estava
neutralizado. Acionou o canal de alarmas para qualquer
situação sem nada conseguir de positivo. A ação tinha sido
eficientemente preparada e quem estivesse por detrás 54

disso tudo conhecia perfeitamente todas as técnicas


individuais defensivas da Terra.

Arrependeu-se de não ter solicitado imediatamente


ET, Emergência Total, pois não avaliava mesmo a
extensão do perigo, quando teve plena consciência de sua
vulnerabilidade.

A Regra Geral de Salvamento ordena rigorosamente a


seqüência de apelações em caso do socorro e quem
desobedece ao número de continuidade acaba multado e
ficando sem proteção oficial do estado durante 1,869
tempo/hora ininterruptamente.

Pânico parcial. Lembrou a respeito uma antiqüíssima


portaria – Legal cuja brutalidade de texto abandonava os
pedestres à mercê dos motoristas, inocentando estes
totalmente de crime de morte por atropelamento, quando o
sinal verde autorizava o livre trânsito aos veículos rasteiros
de quatro rodas, mesmo se o pedestre caminhava sobre
faixas de segurança (?)...

Eliza-Bete 45400Y completou vôo dando entrada num


veículo espacial até agora mantido fora de visão e oculto as
esteiras de fog. Olhou uma última vez a Terra envolta na 55

atmosfera poluidora (o OE neste momento parava


automaticamente no Ponto OE-3 atraído ainda pelo calor
do corpo de Eliza-Bete 45400Y), lamentando mais esta
inconseqüente visita à sua superiora-mãe – pobre, viúva,
desconhecida, que vive obrigatoriamente no ambiente
selvagem, mortalmente hostil, fora das cúpulas cidades.

Uma última esperança mantinha Eliza-Bete 45400Y


ativa: o pedido ET, emergência total, permanece captável
durante uma semana-tempo na superfície terrena. Depois
os sinais são eliminados pela destruidora poluição sonora.

Eliza-Bete 45400Y acompanhou passiva um falso


sistema diário manhã-tarde-noite e quando a escuridão
artificial chegou adormeceu profundamente.

Acordou de um sono tranqüilo e reparador de


emoções num ovóide idêntico ao seu, em todos os
pormenores, o que a fez agir imitando os cotidianos dias
terrenos. Após a preparação mental matinal, acompanhou
os sinais de ginástica emitidos por um receptor vídeo TV;
em seguida tomou uma ducha monazítica quente-fria
simultânea; logo depois à refeição-1. Tudo como em seu
ovóide.
56

Ninguém apareceu para falar o que deveria fazer ou


para servir alimentação. Tudo ia surgindo em seu tempo
eletrônico-automático através do som direcional. A mesma
transmissão autorizava Eliza-Bete 45400Y a agir com
paciência, passiva e obediente. A seguir, recebeu vestuário
pessoal e foi levada a passeio pelas salas de saúde.

O trânsito compreendia limpeza corporal, purificação


da mente e primeiros contatos com a natureza controlada e
ar purificado artificialmente. Estava num mundo parecido
com o seu, numa perfeita reprodução, sem dúvida.
Entardecia (sistema normal manhã-tarde-noite) quando
Eliza-Bete 45400Y retornou ao seu ovóide, tendo feito as
refeições 2-3-4 em locais diferentes. A comida era gostosa,
com o sabor levemente picante, como a comida do antigo
território do Suriname...

A refeição pré-noturna teve som direcional livre e


Eliza-Bete 45400Y pode escolher música, cores e sons de
seu gosto. O prato predileto – paella com mariscos
naturais, lulas plásticas espanholas e frango artificial
primitivo, teve acompanhamento de vinho rosado velho,
safra 1900, época em que as videiras estavam a caminho
da primeira mutação, desde milênios, Ainda podia lembrar
o sabor natural do vinho, do qual o Museu da Forma e 57

Sabor possuía espécimes catalogados e diversas


variações.

Eliza-Bete 45400Y ficou feliz por não ser obrigado a


beber o acre resultado emitido pelos repetidores químicos.

Depois da refeição #5 acompanhou o noticiário do


vídeo TV. Era notícias terrenas atualizadas transmitidas
pelo Canal Oficial, o que deixou Eliza-Bete 45400Y ainda
mais intrigada sobre o que iria acontecer em seguida. Até
agora permanecia na total ignorância.

O noticiário universal não anunciou qualquer nova


beligerância contra os terrenos nem qualquer invasão da
Terra por parte de seres guerreiros. Um ou outro Conselho
Universal participava de reuniões e expedições científicas
para normais e almas-físicas, todas pacíficas e em
cooperação.
Quem quer que fosse a havia raptado com violência,
mas até agora não tinha demonstrado nenhum sentido
belicista no tratamento. Parecia mais que tinha sido
convocada para alguma experiência ultra, mesmo uma
pesquisa perigosa poderia estar sendo feita ou alguma
missão que exigisse sua presença, embora não tivesse 58

oferecido voluntariedade alguma.

Casos idênticos tinham ocorrido e muitos eram


levados a debate nas sessões de Direito Individual. Nessas
ocasiões sempre eram criados novos artigos nas leis de
Direitos humanos, os quais logo seriam desrespeitados.
Poderia mesmo estar a serviço de terrenos, não obstante o
risco que corriam à vista de rígidas punições com que eram
ameaçados.

Tentou se lembrar dos inimigos da Terra e deparou


com mais de uma dezena – dos conhecidos e desistiu de
saber qual deles era o responsável pelo rapto. O melhor
mesmo seria deixar as coisas acontecerem até surgir algo,
uma oportunidade de livrar-se daquele pesadelo, levá-la a
alguma saída. A esse respeito fora instruída rigorosamente
e assim deveria agir. Lembrou-se das aulas e conferências
sobre o controle dos sentimentos individuais e ficou mais
dona de si.
Ao correr do pensamento vieram as discussões em
que o tema versava a respeito do amor, sentimentos
paralelos. Todos chegavam à conclusão que o amor era
um problema superado – um sentimento cuja decadência
atingiria o mais baixo grau. Não preocuparia a humanidade 59

mais que o ódio, a aversão, o egoísmo, a repulsa, a


ganância e outros sentimentos cuja periculosidade
fustigava constantemente a turbulenta Terra.

Por isso, Eliza-Bete 45400Y nada sentiu durante o


rapto, permanecendo no ovóide e no mundo do
conquistador tranquilamente. Não reagiu com palavras e
gesto violento não tentou uma fuga desesperada. Todos os
gestos eram frios, medidos, na busca de uma solução que
lhe fosse favorável.

Antes de se deitar Eliza-Bete 45400Y tomou mais um


banho (desta vez espontânea). Acomodou-se e já havia
relaxado pra o sono quando começou a acontecer algo. Os
sentidos, que Eliza-Bete 45400Y mantinha em constante
alerta (não podendo recorrer a expedientes artificiais
utilizava formas primitivas que fugiam ao controle técnico),
foram distraídos pela música direcional lânguida que havia
sido introduzida na sala sub-repticiamente.
Agora um perfume erótico começava a invadir o
ambiente e seu corpo era envolvido por esferas invisíveis
de carícias. Há muito Eliza-Bete 45400Y não sentia tais
sensações. A educação central eliminava totalmente a
carícia quando da campanha universal de controle da 60

população.

Uma onda de calor percorreu todo o corpo como se


fosse uma labareda de fogo, uma língua ardente. Eliza-
Bete 45400Y estava sendo excitada para o amor de uma
maneira desusada, através do despertar erótico-sensual:
som, perfume, carícias, beijos. Apesar de ter recebido
instruções de defesa para neutralizar tais ações, sua
resistência fraquejava ante o inesperado ímpeto do ataque.

Estava se tornando um simples animal, como os/as


putas homossexuais. Novamente tudo apontava um
especialista. No íntimo, Eliza-Bete 45400Y confessava
gostar de tudo aquilo e o corpo respondia positivamente se
enrolando e se contorcendo numa agitação frenética.

O incompreensível naquele emaranhado de falsas


imagens era que o aposento continuava vazio, não se via
nada, ninguém mostrava sinais de vida, mas Eliza-Bete
45400Y sentia a presença, a forma de um ente e seu corpo
instintivamente também acusava a mesma existência.

Na força do ataque que recebia reconhecia nele (era


macho) um ser de forma primitiva, mas normal: apenas
transparente, líquido, inócuo – mas com alguma formação e 61

existência viva. Ela várias vezes teve a sensação de sentir


braços envolvendo-a fortemente (eram braços), dedos
delicados roçarem com leveza a superfície da pele (eram
dedos), lábios percorrendo toda a extensão de seu corpo
(lábios), extremo a extremo. Numa reação incontrolável
Eliza-Bete 45400Y devolvia tudo, quando estendia os
braços em busca de algum modo de resposta, encontrava
o nada.

As carícias chegaram ao ápice, Eliza-Bete 45400Y


sentiu algo incontrolável entrando, penetrando seu corpo,
sua alma, com um poder dominador absoluto, não tendo
tempo sequer de raciocinar direito. Alguém a estava
possuindo brutalmente, de modo sensual sem meios
termos, obrigando-a a permanecer passivamente
desfrutando como um animal aquele momento.

Com toda força desligou-se de tudo abandonando as


defesas psicotécnicas e se entregou ao amor físico de
modo como jamais experimentara. Naquele momento Eliza-
Bete 45400Y se tornou mulher, de novo pôde sentir o que
somente as heroínas dos romances antigos sentiam. Num
curto espaço de tempo um jato quente foi atirado em suas
entranhas e a resposta veio rápida, traduzida por um
espasmo ativo, um grito gutural e suave. 62

Depois tudo ficou sereno, o corpo flutuando


abandonado em languidez. Um fino suor cobria a sua pele.
A respiração voltou a um ritmo normal, os músculos
relaxaram, o coração agitou-se num passo cadenciado.
Eliza-Bete 45400Y procurou um sono terno e tranqüilo.

Nos dias seguintes os fatos se repetiram com


pequenas variações. Eliza-Bete 45400Y passeava – quase
livre, em vários outros lugares, se acostumando à vida que
levava, amando aquele local estranho, embora continuasse
tão desconhecida quanto antes. Sozinha, era a dona do
Paraíso. Pôde então admirar cuidadosamente todas as
belezas locais e ver maravilhada a chuva imponderável.

As gotas d’água desciam e subiam indefinidamente: a


luz laser acompanhava multicor o vai-e-vem dos pingos
transformando-os em milhares e cintilantes cristais
flutuantes. A conjugação amor-felicidade que dominava
todas suas atitudes, modificou também o modo de ver as
coisas fazendo-a abandonar a frieza que apreendera na
cruel vida terrena.

Um ser oculto estava sendo ativado dentro dela,


conseqüência de todos aqueles acontecimentos. A vaidade 63

tomou parte de seus hábitos e constantemente o espelho


era visitado, por uma mulher cada vez mais linda e
consciente da atração pessoal, da feminilidade sempre
desperta, da excitabilidade sensual que alertava uma força
sexual vibrante, ampla e sem barreira: o sexo total.

A cada novo dia seu amante fazia novas


demonstrações de potencialidade e vigor. A resposta não
se fazia esperar: pois Eliza-Bete 45400Y amava
verdadeiramente àquele invisível, mas presente ser. Com
um amor desconhecido, pela bizarria, mas respeitado pelo
poder e alma que possuía. A transparência daquela forma
ultra-humana não impedia qualquer contato nem evitava
que o amor tomasse conta dos seres. Como todo Humano
terreno, Eliza-Bete 45400Y adaptou-se à nova situação.

E durante uma semana de 30 dias amou e conheceu o


Paraíso que jamais abandonaria. As coisas mais uma vez,
porém, não ocorreram conforme seu desejo. Um dia a
semana temporal se completava, Eliza-Bete 45400Y foi
transportada pelo facho espiralado lilás para o mesmo local
de onde fora requisitada.

Novamente as reações foram controladas, os sentidos


abandonados: Eliza-Bete 45400Y sentiu leve pressão em 64

seus lábios – um beijo; braços fortes envolveram seu corpo


fortemente – um abraço. Foi assim a despedida. Eliza-Bete
45400Y teve outra reação obsoleta e seus olhos
despejaram lágrimas. Se a rua não estivesse deserta
certamente os passantes parariam para ver a mulher que
chorava.

Admirados uns, rindo e debochando outros, todos,


porém, comentariam o fenômeno e olhariam curiosos as
gotas de água desabarem no rosto de Eliza-Bete 45400Y.

Cinco meses depois Eliza-Bete 45400Y estava


virtualmente impedida de caminhar livremente pela cúpula
sem ser censurada. Todos olhavam curiosamente o
formato de sua barriga, muitos a condenavam.
Repreendiam o seu volumoso ventre – gravidez condenada
e amaldiçoada pelos governos, religiões e sociedades.
Deveria ter-se submetido à aprovação legal, controle e
implantação uterina do feto. Sem essas precauções era
uma marginalizada, ninguém jamais se responsabilizaria
pelo que acontecesse. Porém a altivez e a decisão com
que enfrentou a tudo e a todos, tornava Eliza-Bete 45400Y
imbatível. 65

Ela mesma oficializou uma defesa pessoal justificando


a gravidez e acusando as autoridades terrenas de
opressão humana ao manter um rígido esquema de pedido
de socorro sem dar aos seres a oportunidade de defesa
instintiva.

Descreveu o rapto merecendo o apoio e o respeito de


alguns intelectuais. Mesmo assim a gente da rua
desprezava a gravidez que trará mais uma boca ao mundo
já escasso de alimentos, algum ser desconhecido,
inumano, prejudicial à Terra.

Enfrentaria a todos como o fez com a Saúde Nacional


impedindo a extração do feto. Seu dilatado ventre guardava
algo que fazia parte de sua carne e do ente que nela
soubera despertar o amor primeiro. Algo que Eliza-Bete
45400Y protegeria com a alma e a própria vida.
ESQUELETO

$00 = Relatório do tecnomestre de subsolos e


maxiantiguidades, doutor Anhém 01 Vieira, 74500 de todas
as unidades estudantis, 84500 das Universidades e 94500
dos cursos Super Superiores. 66

Relatou o dito doutor que baixou às terras inundadas,


proibidas a leigos, cuja região é mui utilizada por
subversivos da ordem e guerrilheiros contestadores,
permanecendo ele ali vários dias e semanas em pesquisas
científicas, acompanhado tão somente de seus imediatos
435, 567 e 680, equipamento científico, armas pequeno-
defensivas.

Localizou o grupo lá pelos baixios do antigo local


denominado Rio de Jan Eiro terrenos submergidos nos bi-
anos Cal Grego 1980/1990 decenais, quando o Co Meta
chamado Corru Tec desviou ou teve propositadamente
desviada, por fins desconhecidos) sua trajetória Sol Ar,
provocando inúmeras inundações, degelos, cataclismos,
nos quais a maioria das gentes de todos os baixios teve
morte por asfixia aquosa e destruição completa.
§ 01 = Verificado: alguns dos seres sobreviventes
aprenderam a viver no mar de lama que então se
transformou aquele local (todo o Rio de Jan Eiro), cuja
manutenção como reserva ecológica permitiu a mutação
que fez nascer guelras e outras formas de adaptação semi-
marinha, para poderem as criaturas subsistir, sobrevir. 67

§ 02 = Pôde o tecnoprofessor doutor Anhém 01 Vieira


revelar ao mundo científico que a excursão programada
teve alento em virtude da considerável baixa verificada na
água-lama, deixando à mostra milhares de esqueletos,
tanto naturais quanto artificiais, ainda não identificados.

Teme o doutor professor que se trata de antigos


monstros petrificados de medo ante o furacão de horror
provocado pela proximidade do terrível Corru Tec, suas
mortíferas armas de Nêutron, seus supostos tripulantes,
dos quais não se teve notícia nem confirmação científica.

§ 03 = Ali, entre milhares de horrendos esqueletos,


vivem os demônios da lama, com suas guelras expostas
em busca permanente de ar (ou ar puro?) e o tecnomestre
Anhém 01 Vieira experimentou uma convivência com os
mesmos! Assegurou o doutor que as criaturas têm
resquícios de inteligência (surpresa científica!) e pontos
visíveis de contato com antepassados humanos mais
longínquos.

Recomendação: O tecnoprofessor doutor Anhém 01


Vieira faz vigorosa recomendação no sentido de se
absterem todos de industrializarem e comer a carne de 68

agradável sabor dessas criaturas, tida como iguaria


inimitável e paladar sofisticado, para que possam
sobreviver, reproduzirem-se e evoluir para emergirem da
vida submersa e da via de extinção rápida em que no
momento se encontram.

milenar poluição daquele local (na qual não se


sobrevive por muito tempo sem renovar o oxigênio puro),
conseguiu o decano doutor amostras de vários esqueletos
para exame e, posteriormente, de sua definição atômica
Mole Cular.

§ 05 = A princípio acredita-se que o doutor senhor


descobriu que a parte mais íntima do esqueleto é formada
por ossos metalizados revestidos de outros detritos
concretados que formam uma gigantesca parede protetora
onde, algum dia num passado remoto, viveram
civilizadamente os seres que hoje indevidamente
chamamos demônios da lama.
Fala gravada do tecnomestre: Só assim puderam as
criaturas resistir heroicamente a tantas batalhas que lhes
infligiram os eternos inimigos da Natu Reza terrena, que,
tais como hoje ameaçam, insistiram em multiplicar as
fábricas, as armas letais, os produtos químicos, numa 69

determinação suicida de repetir a História.

Observações: Partes a, b, c, d, y, k, e tecnofotos


agregadas. Part one, three, six and nine-one. Spars parts.
Models, and so one. Resultados clinoquímicos e
ultralaboratoriais 1-2-3-4-5 e 99. Fitas Magnetocass Etes
grilaterais canoras, trilhas I/II/III/IV – CMM. Vozes gravadas
no local. Vozes do tecnomestre doutor Anhém 01 Vieira e
demais imediatos. Ruídos, suspiros, gemidos, sons,
emitidos pelas criaturas. Finis partes §00 hasta §05.

2ª parte

Conclusões de outros exames dos materiais


requisitados pelo tecnoprofessor doutor Anhém 01 Vieira
(Vide parte um (part one, three, six and nine-one – Itens a,
b, c, y, k, tecnofotos agregadas, fitas magnetocass Etes
trilaterais, vide ademais partes 00-01-02, comentários, and
so and.).
Continuando:

Em conclusões, citou o doutormestre Anhém 01


Vieira, verdade uma para duni: os seres hoje considerados
monstros animalescos, que, entretanto nos alimentam com 70

agradável carne e saborosas vísceras, são na realidade os


antigos humanóides que dá notícia as lendas indígenas e
alienígenas; teriam a nossa forma atual identidade humana,
não fossem as terríveis catástrofes provocadas em
conseqüência do apocalipse trazido pelo Corru tec.

São seres mutantes (ousaria reconhecê-los nossos


antepassados, numa atrevida teoria) que, apesar de
constante perseguição e caça a que estão submetidos por
elementos predatórios clandestinos e da emanação
contínua e secular de gases letais ocorrida em seu habitat
natural, possuem maior resistência orgânica que nós
Omens; seu Organ Ismo pode suportar muito mais, se
assim o for exigido. E, finalmente, se toda a catástrofe se
repetisse com toda a violência, ainda assim sua espécie
não seria exterminada.

Verdade dui para tre: os esqueletos gigantescos são


realmente antigas construções piramidais, cuja técnica é,
surpreendentemente, às vezes superior à nossa; as
residências atingem grandes altitudes, pavimentos
sobrepostos, salões contínuos, instalações subterrâneas,
famílias inexplicavelmente numerosas ante registros de
controle da natalidade que conhecemos nas antigas
civilizações de todas as épocas. 71

Verdade tre para quatri: tecnografias unicelulares, que


conseguem penetrar profundamente nas camadas terrenas
registram o mais grandioso e absurdo intrincado de
esqueletos, túneis, estruturas submersas, milhares de
fundações, jamais encontrados em nenhuma outra
civilização.

Possível é supor-se que algum (ou alguns) deus


interestelar visitou a Terra e Civilizações dos seres hoje
considerados monstros, ensinando-lhes avançadas
técnicas de construção e sobrevivência. Todos os testes
comprovaram não serem tais obras da Natu Reza, porque
existem alguns elementos físicos cuja liga somente é obtida
após anos e anos de evolução tecnológica racional, e tal
segredo até hoje desconhecemos.

Bem visível nas tecnofografias um imenso subtúnel


cujas veias são formadas por milhares de filetes de aço
paralelos, como se fossem transmissores ou condutores de
algum modo de vida ou de energia.

Uma simbologia desconhecida, mas encontrada


paralelamente em outras civilizações (estudos tradutórios
nos Centros de Computação Y Tradución 1-12-81) constam 72

das paredes do subtúnel, cuadros e painéis, algumas


bocas tais respiradouros ameaçam sair à superfície e
tantos outros detalhes fazem pensar tratar-se realmente do
absurdo e ousado metrô, que levou séculos consumindo a
tecnologia e força dos antepassados e jamais funcionou,
porque quando finalmente ficou pronto estava superado,
inviável, completamente sujeito à inundação que houve!

Palavra do tecnomestre: Nada mais me surpreende ao


estudar nossos remotos antepassados, diante de tanta
maravilha apresentada. Lastimável que entre tantas
belezas pudessem inda pensar em fabricar e utilizar letais
bombas de átomos, hidrogênio e nêutrons; que não
soubessem proteger com maior dedicação os poderosos
arsenais da Natu Reza, deixando tudo à mercê de violenta
poluição, exploração predatória, etc.

Verdade quatri para qüinti: (última) assegura o


doutoprofessor Anhém 01 Vieira ter estabelecido início de
contato oral com as ditas criaturas semisubmersas,
obtendo já informações mais precisas sobre a catástrofe do
Co Meta Corru Tec, a vida sofrida a que estavam
submetidos, sua história, evolução, como as narinas deles
aos poucos se transformaram em resistentes e antitóxicas
guelras, as pernas se uniram numa só peça achatada e 73

uniforme, os dedos se transformaram em membranas


escamadas, as peles endureceram a ponto de resistir ao
ataque de armas violentas (tais como o Ar Pão Atômico).

Voz do tecnomestre gravada no local, como toda


emotividade provocada pelo contato: Sinto-me como se
estivesse neste momento mastigando meu próprio-pai,
representado aqui por este tenro e saboroso pedaço
daquelas admiráveis criaturas que amo e estudo, que
adoro como se fossem nossos irmãos.

Finis partis 2ª, agregados documentos, depoimentos,


tecnofografias unicelulares, registros, estudos dos Na Cal
Gregos 1973/1961, microassinatura do tec prof mestre
doutor Anhém 01 Vieira e respectivos imediatos 435, 566 e
680.
A ESTRELA AMBULANTE

Más allá de los pájaros, más allá de las iluvias, más allá de
los vientos, hay una gran estrella que nos aguarda.
J.J. Tharats – Carta a Charles Conrad
74

UM

A pequena localidade de Vila Felicidade tinha os dias


passados como folhas de calendário: arrancados do tempo
de simplesmente atirados fora. A renovação de sua gente
humanamente bíblica – Felizmino de Maria filho de dona
Antonieta, a que quando nova era de olhos azuis e cabelos
louros, estupidamente louros, cuja lisura ia até os pés.

A mulher do Ribamar. Com aqueles cabelos dourados


dona Antonieta era capaz de entrar nos céus levando de
quebra uma porrada de pecados, toda a filharada e
parentes.. Portanto, pouca gente há de saber como
surgiram os primeiros comentários murmurosos a respeito
das coisas iniciadas a acontecer em Vila Felicidade ou
quem ou o quê era culpado disso.

Alguém, qualquer dia fora da folhinha, teve visão de


pequenina luz flutuante, longínqua pena luminosa solta no
espaço, tal a lentidão do andar, tal a leveza baleresca com
que nadava no seu lugar nativo.

(Antes de conhecerem as atuações mágicas


pensaram todos se tratar de satélite artificial desses que os
homens estão lançando, em busca de que? 75

- Desde que passaram a mexer com luas e céus muita


coisa de esquisito e de ruim tem ocorrido. Bulir com objetos
de Deus...).

Os boquiabertos assistentes antes a confirmação


dada várias vezes e assegurada mediante testemunho
juramento; a mudez inicial dos temerosos frente ao mágico
poder do sobrenatural; o convite feito a um, dois, três
amigos e em pouco tempo toda a Vila reagia positivamente
às fantásticas e contínuas aparições.

A gente de fé ficava reunida a espera da luz ressurgir


vitoriosamente boiando no espaço sobre suas cabeças –
olho do universo a furar qualquer pensamento. A gente
temerosa mantinha a vida escondida, luzes apagadas e
velas acendidas nos cantos da casa, apenas o breve ver
entre frestas a confirmar se a estrela seguira outros mares
e destinos.
E foi lépida a fama. À simples menção de seu nome
os mais valentes e destemidos cabras tremem dos pés ao
cabelo. Pessoas influentes, ricas, fazem muxoxo,
desdenham das superstições caboclas, mas os semblantes
registram temos. Para conhecer a força estelar é só correr 76

o sertão bravo, e não apenas Vila Felicidade, indagando o


de mau e de bom que fez para se acolhida como
veneranda em todos os corações.

Atenta aos menores detalhes da vida comum é


certeira em ação. Temida e respeitada até nos secretos
terreiros de umbanda e tambor de mina, nos candomblés
tem a representação de uma estrela de seis pontas (roubo
e cópia do armarinho do judeu), tendo no centro a suástica
do caboclo vira-mundo cruzada por uma flecha (agoié),
tratada cm privilégio fora do normal, ladeando
simbolicamente o supremo orixalá do dia.

Entre os homens de fé floresceu a seguinte lei e


entendimento: se o tratamento e as ações eram pro bem,
fazia clarão de dia no céu, era a estrela lua e sol noturno,
sua luminosidade igual a um dia de vários sóis. Sobre a
terra o vento corria aragem límpida entre árvores. O sorriso
pairava nas bocas do povo... Se a justiça era condenatória,
porte, o firmamento se tornava de horrível negregor,
nuvens revoltosas surgiam quem sabe de onde?

E os trovões semelhando a tiros de canhão em luta de


guerra. O povo não se entendia, esganando que nem cão
danado e nenhuma gota d’água caía pra justificar tanta 77

revolução da natureza.

Durante a noite em Vila felicidade há apenas


escuridão. Uma lâmpada amarelada de quilômetro a
quilômetro ou nas casas das autoridades e dos mais
abastados. As pobres cabanas de sopapo se contentam
com lamparinas e as quitandas e barracões de pinga com
lampiões de querosene ou petromáx.

As pessoas mais corajosas que nada temem e não


devem nem na terra nem no céu se reúnem no terreiro de
terra batida frente à igreja fumando cigarro feito de torcido,
ou mascando em tablete, fumo-de-rolo gostoso! Como de
costume as rodadas tradicionais de caninha aumentam
consideravelmente – a garrafa festejando mão em não, o
fumo mascado como demorado sabor (as cusparadas
pardacentas provam), o pito e o cigarro tragados com arte –
um rito.
Ao som indistinto das vozes cruzadas do bate-papo
sob a mangueira, aguardam pacientemente a hora da luz
aparecer. Conversam respeitosamente baixo e contando
histórias sérias comentam épocas de roçado, de plantio e
colheita.
78

Tempo de chuva e seca, maré-de-lua, hora pra boa


pescaria: tarrafas, arrastões, atirados no mar da praia.
Falam das riquezas e das pobrezas, do grande comércio
engolidor e ruim pra diabo, do muito trabalhar até morrer
dum mal qualquer, do raro descanso e do vier difícil. Horas
de lançar arroz no alagado, os prejuízos, o milharal e as
hortas verdinhas – quando chovia.

Os moços da cidade, em férias, destruindo tudo pela


frente. Abandonando depois a terra arrasada... – Ninguém
comenta de querer mudar. Um ou outro fulano morto, um
ou outro josé nascido.

Num instante que só o tempo sabe ao certo, algum


vira o olhar para o topo da igreja e se fazia silêncio.
Exatamente sobre a cruz – que de tão imensa parece
espremer a igreja ao chão – a bondosa aparição inicia mais
um surgimento em Vila Felicidade. Quando então haveria
justiça, honra e respeito ao ser humano, princípio de
liberdade. Assim esperavam todos.

No espaço sideral a estrela assemelha-se a um barco


em alto mar, quando maré forte. Em grandes balanços
prum lado e pro outro, seguindo em frente, porém, nunca 79

pára. Vez em quando, quando em vez, apenas muda sua


rota pra fitar lá embaixo o povo nu comprimido num chão
de pecados. Todas as cabeças viradas seguindo o roteiro
santo e esperando conhecer o alvo atingido pela implacável
da ira divida. Pequenos e grandes pecados cometidos no
decorrer da tosca existência condenam a ter decepadas as
cabeças pela mortífera Luz.

Quando some no horizonte de vista, e nem os de


melhor visão enxergam sequer sombra da Luz, a conversa
volta forte e são narrados os fatos a respeito das
efetuações da venerada estrela. Então a desgraça ocorrida
com seu Abibe, barrigudo homem de negócios é verdadeira
e toma justificativa.

Seu Abibe tem a melhor cachacinha, o melhor feijão-


do-rio, a tiquira mais picante e o mais gordo toucinho,
apregoados todos em grandes e coloridos cartazes
dependurados que nem bandeirolas por toda a quitanda.
Vende caríssimo para o nível de todos os moradores, é
certo, mas só possui artigos de primeira qualidade
conforme estava escrito. Além do mais é de enorme
compreensão para com os problemas dos outros: pode
pagar paga. Não pode fica pra outro dia quando folgar.
Afinal a safra curta do arroz e os resultados da parca 80

pescaria sempre vêm desmaiar nas mãos de seu Abibe...


Para tanto se fazia de filósofo nas horas vagas:

- A vida nunca fica pior do que está, dizia acariciando


ternamente a imensa barriga. E era verdadeiro: a vida de
Vila Felicidade sempre foi tão miserável que seria
impossível vir um dia pior que o outro, tão atrasada e anciã
que era bem capaz de suas flores cheirarem a mofo.

Muito influente junto aos políticos da Capital seu Abibe


dizia que sempre tentava conseguir melhorias para a Vila:
luz elétrica – ainda não chegara para todos, mas logo, logo
viria; terraplenagem e asfaltamento das estradas carroçais
– pois danificam seriamente seus veículos todos os meses;
aumento nos preços, nas cotas de arroz e pescado – que
sempre encalham nos compradores da Capital – Dificílimo,
dificílimo!
Seus defeitos, mais conversa fiada dos adversários da
oposição, eram apagados pelas virtudes subidas e magna
bondade, todos os domingos propagadas pelo serviço de
alto-falante de sua propriedade. Uma fama de conquistador
de filhas alheias é bem entendida, pois não é seu Abibe
solteirão e rico? 81

Por outro lado não tem amantes sobejamente


conhecidas, virtude esta que o padre não se cansa de
elogiar durante os sermões dominicais, mas a maior parte
das donzelas de Vila Felicidade, de pobres famílias,
largaram o cabaço na cama de seu Abibe. Perdoável?
Perdoável... Afinal essas moças de hoje em dia andam
atrás dos machos mostrando as pernas até às coxas,
enaltecendo os peitos sem usar sutiã, realçando a bunda
apertada pelas saias, calças colantes, curtas e justas,
aumentando o rebolar.

De qualquer forma, não se há de discutir a vida


pregressa de seu Abibe porque o lá de cima tem um dia
ajustada para cada um de nós. E a estrela, toda exemplo
de justiça e liberdade, não foi boa como ele.

Num dia de grande festa – véspera de São João – saiu


ninguém sabe de onde uma donzela de cuja lindeza todos
se admiram. Já os surdos acompanhavam as matracas, já
os pandeiros eram aquecidos nas fogueiras e o boi já
expunha seus couros reluzentes de pedraria, prataria e
miçangas no veludo negro. A roqueira berrava mugidos
doloridos que penetravam no peito da gente arrancando
soluços no meio da alegria. Pega moleque assuava o rabo 82

luminoso perseguindo a rapaziada e, colando na saia do


mulherio, alegrava a molecada. Bombas e traques
estalavam nas achas de lenha e a fogueira atirava línguas
rubras rumo à escuridão.

Era véspera de São João quando a senhorita chegou


entrando logo na dança de quadrilha, como se tivesse
ensaiado durante semanas com o grupo. Cantou cantigas,
bebeu cachaça e batida como homem e tocando viola
endoidou o coração de seu Abibe. Aí Deus, será castigo?
Peito de gelo nunca tocado tão violentamente como agora.
Nenhuma piedade por coisa alguma terrena havia feito
estremecer o tal coração de comerciante.

O pessoal dos centros de fé afiançou que uma


mucama havia baixado por ali...

Seu Abibe de coração cimentado, seu Abibe sem


pena nem dó, tomou um porre dos piores esvaziando tudo
quanto é tigela de quentão e batidas de muitas frutas. Eis o
resultado preliminar da passagem célere desta dama
desconhecida e cheia de milonga... Quando de repente, no
instante em que o pessoal aproveitava a pausa do baile
para bebidas e namoros – embasbacado – viu seu Abibe
desaparecer a senhorita, momentos após localizar a 83

sorridente moça entre o povaréu. Misturada a algumas


outras pessoas (e ali estava em seu elemento) sumiu
simplesmente.

Transtornou seu Abibe. Estático quase, babando no


queixo e sobre a camisa surrada, iniciou uma caminhada
sem destino certo. Suas roupas amarrotadas pendiam
patéticas ao longo do corpo untuoso.

Raramente foi visto desde então. A quitanda


abandonada tinha o estoque de bebidas afinando
lentamente, embora ninguém fosse visto por aquelas
bandas, embora ninguém atrevesse a penetrar no mundo
corroído e pecaminoso onde baixara a justiça estelar
destruindo todos os males. Os tempos do castigo fez a
saudade comer sozinha os restos podres do pequeno
armazém. Pedaços caindo lentamente, lepra maligna
integrada ao chão e à paisagem. Em breves dias restaria
apenas um terreno baldio a mais, outro rival levando a vida
dolente no lugar de seu Abibe.

Alguém – um caixeiro-viajante pra ser mais exato –


andou trazendo notícias do velho gordo que vagueia pelas
praias, a face abobalhada eternamente voltada para o seu 84

amando estrelas e clamando esgoelado por uma donzela


sumida fulgorosa como fada de conto. Ninguém (notou o
passante) quis saber das histórias. E seguiu caminho.

Muitos, muitos dias depois, já esquecido sabiamente


por todos, seu Abibe foi encontrado ao som de intensa
trovoada, na beira da praia – espumas lambendo seus
restos inchados.

DOIS

As estrelas, no seu percurso, combatem pelo homem justo.


Sabedoria Chinesa.

Durante o dia Vila Felicidade possui em seu viver a


serenidade de um cemitério. As ruas retas e poeirentas
vêm do interior desconhecido e desembocam sempre nas
areias pardas da extensa praia. As casas, de certa parte
mais habitada pra cá, acompanham irregulares o trajeto
das ruas e suas calçadas tortas só esbarram nas águas do
mar. Maré cheia se pode sentir o marulho bater nas portas,
lá fora, o cheiro do sal invadindo o ambiente enquanto a
conversa domina os interiores. Matando tempo, esperando 85

retorno de vários pescadores que ainda arriscam o fio de


vida por alimento e um pouco dinheiro. As crianças
dormem, mulheres e velhos matutam ao tempo.

Manhã sim, manhã não, o padre reza a missa, dá a


habitual bênção e começa a caminhada distribuindo
cumprimentos sagrados aos que pouco já acordaram nesta
terra: à tropa policial (um cabo e dois soldados da Vila
mesmo), a algum ou outro vaqueiro surgido do interior para
matar sede de bebida e de mulher; principalmente aos
pescadores madrugadores de olhos enrugados do
horizonte mirar e tez morena queimada pelo sol quente dos
dias de verão.

Comentários dos que foram e seriam justiçados pela


bondade honestamente infinita da Luz – bem ou mal
praticados, enchiam este vazio. Pois de há muito corria
límpida a fama maior da santificada: trazer beneficências
às pessoas pobres e justas que têm vida trabalhosa e
honrada, sem qualquer lucro futuro.

As famílias numerosas cujas barrigas inchadas nada


de bom demonstram, se tal possa parecer. Vida áspera
como a dos pescadores primitivos. 86

Velho Avelino, pescador de sustento próprio, cujas


qualidades comerciais o mar tragara. Solitário visitador do
mar, pois a maioria dos companheiros de vivência já tinha
morrido. Voltava seu Avelino da pescaria teimosamente
mantida sempre com minguados bagres ou sardinhas
minúsculas apanhadas em última instância retornando
através do igarapé onde até crianças iscavam. Poderia isto
parecer vergonha diante dos jovens pescadores, mas dava
pra matar a fome em sua extrema resistência, e Avelino
não possuía dentro de si outras ambições.

Eis que chegado de uma das solitárias noitadas,


dessas que todo mundo recusa ir ao mar, tão ruim andava,
atraca o velho Avelino na praia o batel cheio até o tampo!
Não se agüentava mais de tanto peixe: pescados, serras,
bonitos, além de um gorduroso cação que – informa o
relato – arrastou o bote por mais de quilômetros, levando
três e poucas horas para se abatido a pauladas de remo.
A madrugada já se escondia por dentro da noite e o
dia começava a se entranhar de claridade quando o velho
chegou à roda de conversa. Aos colegas pescadores e
conversadores em geral deu cumprimento matinal e pediu
ajuda (aos amigos) para o descarregamento do barco. 87

Relutantes foram ouvindo durante o trajeto a estranha


história a respeito da bruta e logo afamada pescaria. O
arrepio do sobrenatural percorreu o corpo de todos e quem
levou a culpa foi o frio vento da matina.

Lógico estava (na cara) que foi ocorrência de milagre


da iluminada santíssima. Custará a morrer, pois não
falavam outro assunto. Na verdade tinham-na visto passar
em seu habitual horário, mas não fizeram muitas menções
e alardes. Tornara-se comum o respeito em sua usual
aparição. E hoje em dia o pessoal espera apenas conhecer
as boas ou más conseqüências de seus atos transitórios,
para os comentários definitivos. Também pelo costume de
saber se de fato haveria – coisas danosas e bondosas. E
houve.

Emocionado, contava o velho: - Ao passar justo sobre


o local da espera a estrela tomou posse de luz
excessivamente brilhante e forma de desejo. Clareou de
tanta proporção o mar, imitando a lua cheia. As águas
então bravias ameaçando tempestade se tornaram
planície, o céu virou campo aberto a todos os corpos e
espíritos, os peixes (excetuando o cação – figuração
marinha do demônio) um povo feliz e servil na auto-entrega
para alimentação. Se o início pensou o velho se tratar de 88

visagem, fartou de pescar após fitar a iluminação e sentir


um raio cortar o corpo com renovado vigor. E lamentou não
ter bem junto de si todos os companheiros ou uma
moderna frota de pesqueiros sob sua direção.

Quem tivesse coragem de duvidar das coisas


contadas pondo em risco a integridade junto à santa Luz,
visse ali mesmo o resultado, naquele instante, à vista de
todos quantos acorreram para ajudar o velho. É claro que
ninguém colocou, porém na conversa, nem tinha peito pra
isso.

Os enrugados olhos foram incapazes de conter a


felicidade luminosamente demonstrada; de reter as
lágrimas que a camisa remendada absorveu. A humildade
supera os momentos e torna os acontecimentos comuns
verdadeiros êxtases miraculosos.
Prometeu o velho Avelino – na hora e em testemunho
de todos – não mais pescar a partir daquele dia de
festividade na alma. Sua carreira de pesca teve desfecho
divino, ora em diante poderia dar vez aos novos e ensinar
os perigosos e eternos segredos do mar. Exigiria respeito a
todos e haveriam de se curvar à sua passagem. Muita 89

personalidade imporia respeito ao fato divino. Nada de


galhofas...

No dia seguinte a cabana pobre do velho sustentava


um cartaz em mal traçadas letras:

ENSINO PESCAR GRÁTIS COM


ASSENTIMENTO DA SANTA ESTRELA

E correram muitos jovens ansiosos para adquirir


conhecimentos sobre tudo relacionado com o mar e a
pesca. A princípio somente os da cercania, logo depois
também qualquer granfino da Capital que tomou
conhecimento do fato. Palavras coam.

Os pescadores da vila, vitalizados pelo conhecido


acontecimento, lançaram os barcos com vigorosa fome e
sede ao mar, abandonando a ida ociosa do barracão, da
caninha remediadora, do dominó e outros joguinhos diários
e das falações da vida alheia. Também de pecar com
mulheres dos outros durante o lava-roupa, tradicional e
condenável ação.

Foi fartura de pescaria e a abundância de alimentos


minorou o faminto sofrimento das gentes de Vila felicidade, 90

desde então. Um pequeno fato tirou muita barriga da


miséria. Palavras voam...

TRÊS

Los hombres son las estrellas de las estrellas.


Hay una estrella brillante para cada uno de nosotros.
J.J. Tharats – Ob. Cit.

Milhares de outras justiças foram cometidas


aumentando consideravelmente a fama da estrela e a
notoriedade da Vila Felicidade. O volume de informações
criadas em torno da divindade alterou total e porcamente a
vida típica do local – enquanto existiu – e mesmo de outras
vilas orbitais, lugarejos subsistentes.

A cidade grande trouxe modas e vícios, pouca


bondade. Trapaceiros e marginais, raros santos. Tudo
gente esperta querendo enganar a todos, se enganando
entre si, sem nenhum pelo. Mulheres de vida ingênua em
busca do Eldorado; velhas matronas exploradoras
aproveitando as ocasiões prometidas e oferecidas pelo
novo mercado.
91

Tal era a vida pujante da vila pós estelar.

O Dr. Colombo, um dos pais da legislação do lugar


(divide a honraria com os coronéis e o padre), nada mais é
que um técnico em contabilidade – diploma emoldurado e
pendurado na maior parede da sala – que casou com a
filha do Coletor estadual. No escritório, local de escritas
comerciais recém-adaptado em gabinete de advocacia, foi
assaltado por indagações dos milhares de moradores
enviados pelo sócio padre.

Temerosos do fim-de-mundo e mil outras desgraças


menores por ação da divina Luz, segundo sua crença.
Foram desviados da igreja por se tratar de assunto afeto à
legislação terrestre... A estrela já pagava por ocorrências
minúsculas: filhas furtadas por amor, castigos e maldades
corriqueiras, vacas paridas e, ora veja, até um palhaço que
caiu do trapézio, a estrela derrubou, não a maldita corda
puída.
Assim entendida a corrida ao escritório, o dito doutor
Colombo soube muito bem aproveitar a situação em seu
benefício, sugando a condição calamitosa da pobre gente
ignorante. De princípio o jurista amador se atira de
conhecedor em astrologia, astronáutica e outros astros, 92

cobrando gananciosamente todas as consultas.

Mas tantas eram as questões e tantos eram os


devedores do pago depois (e não iam pagar, de qualquer
maneira), fazendo o Dr. Colombo desistir dessas ações vis.
Passou a cobrar somente casos irremediáveis e delicados
– penetrando na área profissional e exigindo honorários
bem remunerados.

Para facilitar a vida que levava, embora se


expressasse tão mal, como se viu, afixou em letra de forma
vermelha um aviso explicando – causas e conseqüências
previsíveis a respeito das obras da estrela, satisfazendo os
muito de conhecimento supérfluo.

AVISO

EM RESPEITO DAS EFETUAÇÕES DA SANTA ESTRELA


TENHO A DIZER O SEGUINTE:
1 – A MENCIONADA É SANTA SEGUNDO TESTEMUNHO
DO PADRE, ADQUIRIDO NA CAPITAL;
2 – NÃO HAVERÁ FIM-DO-MUNDO, POIS ASSIM
DECIDIU O PADRE;
3 – ACEITO CONFISSÃO E PERDÔO OS QUE DESEJAM
ESCAPULIR DA IMPLACÁVEL JUSTIÇA DIVINA; 93

4 – FACILITO O PAGAMENTO EM FRUTAS PESCADOS


COLHEITA E PEQUENOS ANIMAIS;
5 – ATENDO FIADO.

Talvez ninguém se admirasse quando a vida da Vila


tornou a ser apenas dias de nascer e pôr-do-sol; a estrela
desaparecida em definitivo. E seu sumimento foi notado da
maneira semelhante do nascimento: alguém, um dia
qualquer, simplesmente notou que a diviníssima Luz havia
se aposentado. Nunca mais surgiu no horizonte.

A Vila, as casas, o ar poeirento, o povo todo sentiu um


vazio ousar agourento sobre a cidade. Muitos rincões então
puderam ouvir suspiros de alívio, silêncios de morte
tranqüila... Quantos iriam morrer sossegados em
maravilhoso pecado mortal! Quantos retornariam às
atividades traiçoeiras confiantes na ausência da justiceira,
abusando da bondade dos puros de coração e intenção.
Como de súbito veio aos justos o temor da provação a
que costumam ser submetido pela sociedade do dinheiro,
pela terra dura e tempo áspero, peã subsistência vital, pela
morte; por Vila Felicidade, sua terra, chão e cemitério.
Outros que tinham recolhido medrosos as garras
aguardavam apenas o primeiro passo do mais audacioso 94

para fazer voltar torrencialmente métodos antigos de


exploração aos seres despovoados do mal.

A não ser pela sempiterna dúvida: voltará a estrela?


Jamais dela se teve notícia.

Até no dia em que apareceu Zé Divinal, estranho


personagem metade gente metade malandro, o derradeiro
a ter contato com a maga luminosidade, segundo os seus
relatos. Também o único autorizado a representar a estrela
e dar justificativas perante o unificado povo por sua divina
justiça e Luz.

- Atenção. Cuidado com os falsos profetas! Alertava o


Zé. Todos os heróis são estrelas e nascem dos astros!
Surgidos céus, apesar de estar muito tempo na terra... A
iluminação caiu sobre mim, propagava religiosamente
fazendo o povo sentir um tremor e breve pavor.
Bem trajado. O terno cintilando de tanta alvura, Zé
Divinal passou a ser notado e bem recebido em todos os
lugares de reunião popular se tornando de pronto
conhecido por todos.
95

Primeiramente na feira, chegou, o imaculado paletó


reluzindo ao sol (apesar das ameaças de puimento nas
extremidades) e o bigode fino emoldurando a alva
dentadura, espalhando no rústico e improvisado balcão
portátil – tábua, caixão e a mala de lado, vários vidros
pequenos contendo um líquido branco. Translúcido, como
dizia o Zé. Anunciou serem lágrimas da estrela. E bastou a
palavra mágica para conquistar a simpatia, a atenção de
todos quantos passassem.

O parco e mal ganho dinheiro também. Boa conversa,


se dizendo filho de família quinquemilionária (frisando esta
esquisita palavra), abandonou tudo de mais caro e luxuoso
pra atender às solicitações extraterrenas e vender o
precioso líquido. Trazedor de saúde, felicidade e fortuna a
seus raros e felizardos possuidores. Sabia Zé de cor as
completas aventuras da estrela, fato largamente
comentado, bem como a de seu Abibe – de cabo a rabo –
triste memória.
Em sendo noivo de uma filha de coronel cujas
riquezas eram incomensuráveis (esse Zé!) estava em noite
de fazer amor com a bem querida. Data maior comemorava
a comunicação do noivado à sociedade e marcação do dia
do casório. Uma retumbante festa sem dúvida, falada por 96

toda a redondeza.

Súbito, sentindo incontida atração vinda dos céus –


um clamor divino, viu estrela em prateado brilhante (a luz,
coincidência ou não, era idêntica à do caso narrado pelo
velho Avelino). Iluminou tudo até o horizonte onde a vista
alcançava e lágrimas verteram celestialmente: garoa
bendita caída dos olhos miraculosos da fada estrela. Daí o
tremendo poder que possui.

Durante o relato desse trecho de sua vida Zé Divinal


destaca a declaração da estrela e a convocação feita, em
estilo cantador. (Os versos acompanham gratuitamente
cada vidro de lágrima).

A ILUMINAÇÃO DE ZÉ DIVINAL

Estando em noite de amor


Com a sua bem amada
Sentiu Zé Divinal
Dos céus uma chamada
Sendo logo atraído
Pela luz iluminada.

Pela luz iluminada 97

Foi a festa interrompida,


Foi embora a mulherada,
A orquestra dissolvida
E também Zé Divinal
Deu os passos da partida.

Deu os passos da partida,


Pra nunca mais retornar,
Após haver prometido
À divindade estelar
Vender água milagrosa
Outra mulher não amar.

Outra mulher não amar


- prometimento profundo;
Vender o líquido vertido
A quem precise no mundo;
Cantar o que for cantado,
Limpar o que for imundo.
Limpar o que for imundo
(o trabalho principal)
Eis porque está aqui
O famoso Zé Divinal:
Aproveite minha gente! 98

Compre o bem contra o mal.

Compre o bem contra o mal


- Felicidade incontida!
Nas cidades e nos campos
Enfrente a mote com vida,
Compre a água milagrosa,
Zé Divinal tá de partida.

E assim foi que a luz subjugou o Zé fazendo curvado,


joelhos ao chão, sair de seus lábios pecaminosos até
então, a promessa: jamais casar ou amar outra mulher (não
quer dizer porém que durante as vendas e demonstrações
domiciliares não desse suas trepadas...).

Ficou obrigado a passar o resto da vida distribuindo


entre pessoas de boa alma lágrimas derramadas naquela
noite, por amor e dedicação à estrela amada. Nem era
besta desobedecer a ordens da santa, sabiam todos.
Felicidade, saúde, amor e dinheiro prometidos a quem
tivesse alguns trocados para a posse de um frasco apenas
da água etérea. Bem aventurança ambulante cobrada a
preço reduzidíssimo só para ocorrer às despesas
ocasionadas pela constante locomoção necessária.
99

Quem quisesse aproveitasse à hora, pois estavam


sendo distribuídas as últimas unidades. Aquela seria a
remessa final, de vez que a santíssima claridade estava
fechada em seu ninho, feliz o demasiado para chorar outra
vez.

E quando todas as prateleiras e cozinhas e armários e


guarda-roupas de Vila Felicidade ocultavam em seus
estômagos o transparente vidro contendo um líquido alvo
(translúcido) Zé Divinal deu partida. Em outras
cidadezinhas seriam cantadas aventuras da estrela
aumentando a boa fama.

Os moradores esperançados ficariam serenos e


adormecidos pelas promessas cheias de fé e amor, saúde
e felicidade (sem esquecer o dinheiro material) e paz, paz
trazida por um falador possuído da iluminação sagrada
estelar – herói monstro – e pelo frasco miraculoso recheado
de lágrimas duma estrela ambulante e justiceira.
JORGINHO

Estava me lembrando do Jorginho, faz tempo que não


o via, e soube eu morreu. A última vez que o vi, recordo
ainda, lá por 1976, Jorginho chegou desesperado. Eu o
conhecia muito bem, esse oi, como vai? Era apenas um 100

reflexo mecânico. Quando ele me procurava já sei que


estava em choque, em crise, na beira da ponte. O Jorginho,
eu explico, era casado e pai de um filho com vontade de ter
outros. Mas não tava dando, diz ele, a vida fica cada vez
mais difícil. Ele é daqueles tipos que costumam lembrar o
passado recente.

A gente podia convidar os amigos para um almoço no


sábado, ou domingo. E em casa nunca me faltou um
guaraná pras crianças e uma cervejinha pra mim e a
patroa. E a cada ano que passa Jorginho tornava-se cada
vez mais frio com relação ao seu futuro, ao futuro do Brasil,
conforma anunciavam as propagandas políticas no rádio e
na TV. Ele dizia O Brasil eu sei que vai ficar grande, mas e
o povo brasileiro de que tamanho vai ficar?

De política ele só entendia isso, de economia: - não


adianta a gente exportar o melhor do mundo e comer o pior
do mundo, pagando o mais caro do mundo. Depois do oi
como vai, ele me disse de chofre como é costume: você vê
como fica cada vez mais difícil entender o sistema político
brasileiro?

Estão comemorando não sei quantos anos de


revolução, mas deputados da oposição foram cassados por 101

dez anos, a gente vai ter de pagar INPS, de fora


denunciam que ainda tem muita gente presa sem
julgamento, preso político, etc, o presidente diz isso e
fazem aquilo, ainda por cima vai dar uma volta na
Inglaterra. Do mesmo modo os crimes, assaltos, violências,
do noticiário social e político chocam a gente, pra falara a
verdade me derrubaram hoje. Sabe que eu não fui
trabalhar? Tou por aí dando uns passeios pra ver se
desanuvia.

A gente anda um pouco e entre num bar. Aconselho a


tomar uma cervejinha, eu pago, claro, que logo tudo volta
ao seu normal – ou ao seu anormal. Eu também já não
estou entendendo bem. Jorginho volta à carga, vê cara, a
insegurança, a incerteza que cerca você e a família.

A cada notícia que os jornais dão a gente pensa que


os homens estão realmente interessados em equilibrar o
difícil jogo economia-povo, sabendo-se que o atual
panorama econômico visa somente dar ao estado uma
posição favorável (ou negociável) perante o mundo, mesmo
ao custo de aproximar a maioria da população à quase-
miséria com salários cada vez mais carcomidos pelo
escorchante desgaste provocado pelos tubarões, aluguel-
alimentação-educação, tripé da sobrevivência de qualquer 102

cidadão da classe quase-média para baixo, sem falar nas


taxações abusivas que também sufocam o ganho
minguado.

E tudo contrariando as palavras, não digo dos


Ministros ligados à tecnologia – verdadeiras máquinas cujo
único sinal de humanidade é um arroto, um peido ou uma
vontade de cagar... Mas dizia, contrariando a palavra d
presidente, que pensa realmente em diminuir a pressão em
cima da gente.

Não sei se por causa das eleições que vêm por aí...

Procuro desconversar com como vai o pessoal, a


mulher e o garoto, todos vão bem? Falo um pouco de
futebol, hem, o Vasco, quem diria, levar aquele banho do
Flamengo, Jorginho ri, desconversa também toma um gole
da cerveja, brinca com o rótulo na garrafa e dá um quique
no meu ombro, ta tudo bem, daqui a pouco ele já está
pronto para outra, para enfrentar o mesmo escritório onde
trabalha há mais de 15 anos e continua ganhando o salário
de ajudante-de-escritório.

Ele ri, consegue rir, conversa um pouco sobre o


menino, ele está com dois anos e o moleque é danado por 103

uma bola, mas também já quer jogar xadrez, veja só, põe a
mão no queixo como quem ta pensando e me diz xeque! E
fica esperando a minha vez de jogar. Às vezes pede o
relógio, só quer jogar de relógio, é vivo, inteligente, mas só
penso que mundo virá para ele, que tipo de coisas poderei
contar para ele, como poderei mostrar a minha geração
para ele, veja você, nós que nascemos em 1942.

É assim, conversa vai, conversa vem e volta o velho


tema. Ele fica um bocado de tempo sem falar, pensando ou
falando um pouco sobre o vazio. Anda bastante saturado
das notícias de jornais, rádio e TV, eu sinto. Mas o que
fazer se cada um de nós é por natureza, sedento de
notícias, de saber? Tomar conhecimento das coisas do
mundo, elas afinal acontecem em volta de nós, de um
modo ou de outro somos atingidos pelos fatos, a Terra, o
Universo, é um corpo só e sofre todas as conseqüências
dos atos e fatos produzidos pelo homem. Um só corpo
espírito.
O que ocorreu no Chile nos abalou, as coisas que
acontecem e vão acontecer na Argentina também nos
afetam, Uruguai, América, África, Ásia, Vietnam, Europa,
Portugal e Espanha, tudo faz parte dessa festa de notícias
que lemos penduradas nas bancas de jornal, ao sol de 104

abril. Os governos não sentem isso, portanto mantêm-se


invisíveis e fazem o mal que quiserem de todos os homens,
Jorginho diz é, como se estivesse lendo pensamentos.

E assume logo a direção da idéia apontando o dedo


acusadoramente: você sabe quem realmente dirige o país?
Qualquer país? Ou pensa que os governos invisíveis não
existem? Ou pensa que alguém ainda pode governar um
povo, ou escravizá-lo que dá no mesmo, sozinho?Não
pode. O corpo de colaboradores também não está só. Os
ministros têm seus fantasmas e cada membro do governo
perde a identidade quando assume – é assumir e morrer!

O engraçado - continua Jorginho - é que eu sinto tudo


isso com se fosse o pai, a mãe e o filho da minha terra. E
sinto cada país que sofre como se fosse meu próprio país.
Mas como se sentiria um jovem entre 20/25 anos da
geração atual? Pelo pouco que conseguem se expressar
acho que estão um pouco confusos também. Anseiam uma
liberdade que dizem existir, mas que a gente não sente. E
se não sente fatalmente não existe. Essa fuga no canto, no
teatro, nas ruas é uma reação não-violenta, mas uma firma
e proposital reação.

Quando muda a feição política de um país com base 105

violenta sinto-me chocado, meio desfalecido pelo


sofrimento, querendo chorar sem poder, aquele solução
preso, a lágrima que não desce nunca, do mesmo modo
que o assalto e a violência me choca. Quero dizer que a
perplexidade é a mesma e não outra mais fantasiosa. E só
espero que o jovem ao tenha essa mesma desdita de sentir
o mesmo e, se sentir, saiba utilizar a força da juventude
que possui e reagir, sacudir a poeira, dar a volta por cima.

Não ficar como eu, apocalíptico, cabisbaixo, deprimido


e derrotado de ver que tudo de ruim se repete e que não
vai terminar nunca. Aquele negócio dos pobres cada vez
mais pobres, dos ricos cada vez mais ricos, é verdadeiro.
Conhecer gentes que gastaram os anos da juventude
dedicados ao trabalho honesto, trabalho que não rendeu
nada, nem mesmo uma dívida eterna do BNH!

Às vezes penso que de repente Jorginho vai abaixar a


cabeça na mesa e chorar. Logo interrompo com outro
papo, conversa fiada, charleando bobeira pra ele consertar.
Ele para, suspira, toma um grande gole de cerveja, bem
geladinha, nova que saiu do congelador agora e sacode a
cabeça como quem diz, seu sei que você está querendo
me ajudar, mas deixa disso.
106

O fato é que não vou acreditar nunca nas coisas que


dizem, de desejos e aspirações dos homens com relação
ao povinho, pois a palavra é uma e o fato é outro
completamente diferente. Quando a pessoa fica assim
como eu, descrente de tudo e de tudo ateu, acho que não
tem mais remédio. A visão muda completamente, o mal se
torna mais visível ao passo que o vem, esse precisa de um
tato especial, de um olfato de cão de caça, de gato vadio,
para ser encontrado.

E, no entanto, maravilhosa criatura é o homem – ainda


existe gente boa, gente que tenta fazer o bem sem
milhares de intenções e interesses. Mas é difícil, muito
difícil mesmo, nessa idade alguém transmitir algum
otimismo, vivendo a vida que tive nordestina, trabalhadora
(aos 14 anos já carregava saco de 30 kg de arroz ou
açúcar no lombo), legar alguma palavra mais amena que
procure melhorar hoje a imagem do mundo.
É como num replay seco e cru que minha mente vai
transmitir ao meu filho e vida nua, violenta, cheia de
surpresas que conheci... Afinal, não vou fabricar anjos para
depois largar nesse mundo pobre, nesse miserável e podre
mundo.
107
MARIINHA

Numa prosa de trem, entre sacolejos e empurrões,


ouvi esta história vinda de um interior não tão longínquo...

Mariinha chegou esfalfada trazendo no rabo da saia 108

os quatro moleques restante. Entre lágrima e suor – tinha


andado mais de légua – foi se ajoelhando na areia quente
mesmo, as mãos postas implorando:

Coroné perdoe o Menino. Ele é moço num sabe o que


faz. Só qué ajudar, as crianças assim com fome, num
sabe...

O Coronel olhou de esguelha, de cima pra baixo. Deu


uma puxada no charuto, cuspiu grosso.

Poupe prosa siá Mariinha. Tem mais jeito não, num


sabe. O Menino já está enterradinho. Puxado ao pai, o
Menino, tal pai tal filho.

Deu raiva e Mariinha gritou bufando sangue e ódio. As


mãos crispadas querendo matar.
Coroné! Tenho mais quatro fios pra ajustar contas,
num sabe. Se aguarde, coronezim de merda!

Virou as costas e saiu batendo poeira.

Mariinha falou já em soluços! 109

O coroné num vai gostar Menino, eu sei, eu sei


Menino, o coroné num vai gostar não.

E desandou em lágrimas.

Os garotos em volta da carcaça ajudavam curiosos.


Menino olhou com pena.

Sincomode não mãe. A senhora não podia era ficar


com fome, viúva com meus irmãos todos aí dependendo
das sobras do Coronel. Manhãzinha vou pra cidade,
trabalhar e logo estarei de volta ajudando, com dinheiro,
tirar a senhora dessa miséria. Levo a senhora daqui.
Sincomode não, repetiu mais uma vez.

Ao longe os urubus devoravam furiosos os restos da


res descarnada.
O menino chegou à estação de diploma na não três
anos depois que saíra, voltou formado técnico. A mãe veio
receber, não encontrou mais o pai e quis logo saber como
morreu. Mariinha economizou desgosto, desconversou e
contou uma historinha besta, triste.
110

Fio, você sabe como era o Felisberto. Home valente e


cuidadoso no trato com os meninos, só queria o nosso bem
e ver você assim, bonito, diplomado, feito na vida. È essa a
pena que me dá ele não ver você chegar.

O menino consolou a velha, as mãos no ombro, cara a


cara. Deu uma bisca em cada garoto:

Sincomode não mãe. Eu cuido da senhora e das


crianças.

Sincomode não...

A Mariinha não guentou as lágrimas e soluçando


pousou no regaço do Menino. Recordou as palavras do
Coronel, o ódio nascendo no peito, morrendo na garganta
amarrada:

Tem jeito não siá Mariinha, poupe prosa!


– Felisberto já está enterradinho que nem um anjo.

E cuspiu na areia quente o cuspo grosso da masca de


fumo.
111

Ou será que essa história estava contada numa carta


velha encontrada por aí?
MORRENDO

Acho que não vai doer nada. São quinze andares e


este prédio e dos antigos de forma que seus quinze
andares são mais altos que os andares desses edifícios
novos nos quais a gente anda querendo bater com a 112

cabeça no teto. Provavelmente estarei morto ou desmaiado


antes de chegar ao chão. Hum. Tem um carro lá embaixo
nesta mesma direção. Talvez devesse pular mais para o
lado. Não. A janela não deixa mais espaço. Acho que vou
ter mesmo que amassar o capô e sujar de sangue a pintura
do carro. É uma pena, pois parece novo.

Talvez nesta hora devesse dizer ela não deveria ter


feito isso ou coisa parecida. Mas na minha idade já não
conta essa coisa. Oitenta anos são oitenta anos de vida
bem vivida. De qualquer forma já avisei: telefona pra minha
cada e diz que vou me suicidar. Parecia brincadeira e
assim acho que ninguém vai telefonar mesmo. E creio que
fica meio chato eu mesmo telefonar e dizer: vou me
suicidar. Ora. Se vou me suicidar mesmo, cedo ou tarde
todos acabarão sabendo.

Os meus amigos. Que pensarão? Alguns vão pensar


que dei algum desfalque em algum lugar. Outros sabem
que sou rico demais e não tenho preocupações. Por que
então? É a pergunta. Por quê? Pensam que dinheiro é
tudo. Que ter vivido oitenta anos é tudo. Afinal que
adiantam oitenta anos vividos se no final acontece... Ora
acontece... Deixe que pensem todos o que bem quiserem.
113

E este dinheiro todo que tenho nas mãos? Não sei por
que saquei do banco. Vou deixá-lo bem guardado na
gaveta e ninguém roubará. Talvez seja melhor guardá-lo no
cofre ou depositar no banco de novo. Não. Depositar de
novo não. Não há tempo par ir lá embaixo de novo. Entrar
na fila e enfrentar a delicadeza das meninas de novo. Não
vale a pena voltar a falar com conhecidos do dia-a-dia. Não
há tempo.

Não sei por que vou fazer isso. Afinal uma vida vale
muito. Vale muito e vale pouco. O que realmente vale uma
vida? Vale pouco ou vale muito. Vale quase nada. Neste
momento lá embaixo as pessoas andam apressadas para
lugar nenhum ou para muito lugar. Pensam na vida mais
que na morte. Aliás, nem pensam na morte. Estão
distraídas demais para isso.

Todo um conjunto de pensamento está diretamente


dirigido para a vida. Como levar a vida. Como salvar a vida.
Como enganar a vida. Como passar a vida distraindo a
morte. Como viver enganando os outros e sendo enganado
todo dia. Ora. Aí está. Passam o dia pensando como
passar a vida. Ninguém vê o fim do túnel ou as curvas da
estrada. Todos estão cientes do significado comum de
viver. Não sabem que estão é aprisionados do tempo que a 114

todos ilude com suas fantasias cinematográficas.

Pois vendo daqui do décimo quinto andar parecem


todos os bonecos de cinema andando de um lado para
outro segundo o roteiro e falando segundo o script. E
poucos sabem que são atores de ninguém. Atores de si
mesmos. Espelhos do espelho.

Agora vejo que já uma brecha entre os dois


automóveis estacionados lá embaixo. Talvez com um
pouco de sorte possa cair bem no meio deles e causar
pouco prejuízo. Não me parece aceitável morrer e dar logo
um prejuízo a desconhecidos. Quanto menos incomodar os
outros melhor.

Creio que está na hora. Daqui a pouco o pessoal


começa a chegar. Depois são clientes e já estou farto de
clientes... Que se danem os clientes. São culpados do
desperdício a que sujeitei aminha vida dedicando-a dia a
dia a este negócio. É como disse. Afinal quanto vale uma
vida? E daqui um pouco mais o telefone vai começar a
tocar. Serei obrigado a atender ao telefone? Na verdade é
um drama ter de escutar o telefone tocar insistentemente e
não atender.
115

Quem estará do outro lado? Alguém precisará da


nossa ajuda? Precisará de fato? Ou será apenas uma voz:
desculpe engano. OU será alguém pedindo apenas uma
informação técnica? Como se faz isto? Como se faz
aquilo? Como é aquiloutro? Talvez seja também algum
cobrador. Sempre existem dívidas a pagar.

Acho que não resisto perguntar: por que ainda assim


ela fez isso? Por quê? Creio que depois de hoje não vou
descobrir jamais. E não vale a pena ficar aturando a vida
aos oitenta anos para descobrir. O que se encontra oculto
após oitenta anos de vida dificilmente será descoberto.

Permanecerá como um segredo eterno. E até mesmo


ela incorporará a verdade ao mito e tudo passará a ser um
sonho. Sonho e não pesadelo. Sonho e não a realidade
nua. Sonho e jamais a verdade crua. Estou divagando em
busca do que não encontrarei. Ora. Afinal não são horas
disso.
Creio que farei uma roda de curiosos na rua. Vai
atrapalhar o trânsito das pessoas e de veículo. Todos
pararão para ver. Ver o que? Um monte de carne
estraçalhada e disforme? Ver? Ver um fu... Ver um velho
que fraquejou. E agora esta palavra me parece bem fútil. 116

Na verdade eu fraquejo? Ou tenho coragem? Acho que já li


algo num tratado sobre suicidas.

Uns acham que é um ato de bravura. Outros chamam


os suicidas de covardes que não souberam enfrentar a
vida. E o que sabem eles de enfrentar a morte? O que eles
vão encontrar são um monte de ossos quebrados e outro
monte de conjeturas sobre o que aconteceu.

Como ficarei? Muito feio? Vai ser engraçado. Como


um quebra-cabeça. Atiro-me lá embaixo e me espatifo todo.
Depois vêem meus parentes e me ajuntam parte a parte
como se fosse um jogo. E o jogo dos porquês vai continuar
até que todos me esqueçam. Somente ela saberá. Saberá?
Ora. Há de saber. Não se faz com um homem de oitenta
anos o mesmo que com um rapaz de vinte e tantos anos.
Tudo se transforma num jogo. Num quebra-cabeça.
Tudo vai primeiro se espatifar no chão ou sobre um
automóvel para depois se reconstituir. Se refizer pelas
mãos que ajudaram a destruir. Usar uma nova máscara.
Uma nova e definitiva máscara. E as dúvidas: por medo?
Por amor? O medo e o amor são no fim a mesma coisa. É
o jogo. É o quebra-cabeças. É o espaço. O espaço. O 117

vácuo. Flutuando. Sem sentidos. Até o pára-lama.


NOTAS DO DIÁRIO DE ZEUS

27 DE MAIO - O dia amanheceu como outro dia


qualquer no Rio de Janeiro. Estamos em maio, isto é,
quase inverno, mas o frio se mantém distante. Os trens da
Central continuam em permanente atraso, a ponto 118

(pasmem!) de acumular em um só mês o tempo


equivalente a 36 dias de atraso. Os jornais pendurados na
bancas trazem noticiário diverso, cada um com sua
manchete particular, seu assunto distinto. Isso mostra que
a vida aqui não anda bem, pois, para que haja alguma
regularidade política e social num lugar, as manchetes dos
diários devem versar quase sempre sobre o mesmo tema
relevante. Assim fica-se sabendo que os interesses locais
convergem a um mesmo ponto. Mas o que dá é que a
seleção brasileira de futebol perdeu a Copa do Mundo e
ninguém ligou; outras notícias dão como certo novo
aumento no preço do feijão e o ressurgimento enfim!

29 DE MAIO - Nos supermercados dessa rara e


triunfante leguminosa. Num canto escondido do jornal, uma
notícia isolada não assustou a nenhum leitor, embora
deixasse um lastro de preocupação a outro tanto de
pessoas, estas mais inclinadas a perder tempo com
informações ditas sem importância, nas quais o destaque
principal era dado à violação, em várias partes, dos Direitos
Humanos, ou aos ataques destruidores à fauna e à flora, à
ecologia, enfim. Essas coisas consideradas de loucos e
marginais. Estava dizendo que uma notícia um cantinho
desgarrado do jornal falava a respeito de uma estranha
explosão atômica ocorrida num arsenal na base nuclear de 119

Muroroa, quando uma série de cinco artefatos explodiu,


quase simultaneamente, fazendo crer, a princípio, que
fosse experiência. A França desmentiu as explosões,
depois confirmou que não se tratava de experiências e por
fim andou acusando elementos estranhos como
causadores da tragédia nuclear. Como deixaram poucas
vítimas e muitos danos à natureza e à ecologia local, a
França tratou de promover o silêncio ao caso e a fabricar
novas bombas substitutas.

19 DE JUNHO - Mal foi dissolvida a Comissão Técnica


que dirigiu a seleção na frustrada opa, surgiu outra notícia
semelhante àquela: desta vez com tipos um pouco maiores
que o tradicional IBM Oito das notícias sem importância.
Algum destaque a mais uma misteriosa explosão atômica,
desta vez subterrânea e em nevada, conhecido arsenal e
campo de provas dos EUA Novamente os leitores foram
levados a acreditar em mais um teste, mas a explosão foi
espontânea e tão violenta que provocou rachaduras em
edifícios de lãs Vegas e vilarejos próximos, inclinando
prédios, quebrando vidros. Dano maior dói o princípio de
maremoto que atingiu a costa leste. Até o feijão branco,
importado do México, chegou pra substituir o preto, mas o
consumidor anda mais enfeitiçado pela cor e sabor deste
último que nem pensa em abandoná-lo. 120

30 DE JUNHO - Quando o feijão preto aparece, as


maiores filas jamais vistas se formam diante dos
supermercados, havendo disputas por cada quilo, brigas e
até mortes, já tendo a polícia que intervir em diversos
casos. A Central do Brasil importou um trem japonês que,
fabricado por esses fantásticos seres orientais, têm vários
defeitos, os mais graves sendo: estreitos, baixos,
excessivamente iluminados (isto porque os japoneses são
pequenos, magros, e míopes, justificando essa estranha
configuração dos veículos). Já aqui no Brasil os trens
andam sempre muito cheios, passageiros curvados,
imprensados, sem poder gozar a boa iluminação sequer
para ler jornais. Os estudantes fazem greves e movimentos
em todo o país. Parece que existe uma lei da greve que
não prevê tais movimentos e fala mais em greve
trabalhista, ou de outras categorias, ditas essenciais; mas
outra lei proíbe manifestações públicas, reuniões em praça
ou logradouros e, mesmo se não tivesse lei que proibisse
tais greves, estas só durariam o tempo necessário para
fazer a lei e publicá-la. Isolando esse faro em si, os
estudantes continuariam a fazer greve, porque consideram
a lei pedaço de papel. Manifestações são dissolvidas à bala
(verdadeira e de festim), à água, à areia, cassetete, gás
lacrimogêneo, porrada, etc. Em outras palavras, os 121

estudantes e grevistas em geral têm o direito de fazer as


reuniões proibidas e a polícia repressora tem o direito de
baixar o pau à vontade (todo mundo com seus respectivos
direitos). Fui matricular meu primogênito no Jardim de
Infância e a Diretora me explicou que tenho de pagar
imediatamente os meses em que o aluno estará de férias,
mesmo que são utilize as dependências escolares, como é
sabido pra que servem as férias...

05 DE JULHO - Comecei a guardar os recortes de


explosões e fatos estranhos que acontecem após as
mesmas. Notícias paralelas, por exemplo, dão conta do
aparecimento de várias esquadrilhas de OVNIS e alguns
cronistas já se sentem atraídos a ligar esses dois faros.
Não penso dessa maneira, mas não tenho meios de
comunicar minha divergência, a não ser através de uma
carta dirigida diretamente ao jornal, a qual provavelmente
não sairá publicada, já que sofrerá a censura oficial e a
censura existente no próprio jornal. Certamente alguém
verá indícios de incitação do povo, ou coisa parecida. Afinal
para que servem os jornais? Na minha modesta opinião,
algo na natureza está afetando os artefatos atômicos e
provocando explosões espontâneas. Já que não se sabe a
intensidade desse processo desconhecido, é mais difícil
ainda prever-se o que ocorrerá a seguir. O melhor mesmo 122

seria prevenir, desativando-se todos os arsenais atômicos


existente, mas os governantes têm medo de, per si, tomar
tal providência, pois julgam que o outro é capaz de atacar o
adversário e dominar o mundo! Nesses entrementes dois
submarinos russos e outro soviético explodiram em pleno
ártico. A Rússia separou-se definitivamente da URSS e
agora são duas potências comunistas distintas a enfrentar
o mundo. A China aliou-se aos EUA e o chamado cone sul
e sudoeste (Argentina-Brasil-Paraguay-Chile-Bolívia y
Uruguay) uniram-se e instituíram a RAL – República
América Latina – O Peru aceitou permanecer como
observador.

19 DE JULHO - A RAL é agora a 168ª Potência


Atômica e foi admitida no bloco de nações que compõe
esse mortífero clube. Em passant: receitei à mulher mais
mate no lugar de café e mistura de cevada com café, que
anda escasso e cobrado ao absurdo preço de RAL$ 300
por quilograma. O Brasil já foi, como é sabido, o maior
produtor de café do mundo, porém agricultores destruíram
várias plantações para o país perder essa hegemonia e
valorizar, assim, o preço da rubiácea. Cada RAL$ custa
cerca de US$ 16,589000 e cada US$ está custando Cr$
1.000. Comparando-se com a gasolina e demais
combustíveis que mantém um aumento constante e sofre 123

um complexo processo de transformação e a produção de


café em pó, é difícil chegar-se a uma conclusão sobre os
custos mais baratos e necessidade mais premente, mas
nosso produto deve levar alguma vantagem. E pensar que
a própria água mineral, cuja produção limita-se a extração
da fonte e engarrafamento, já foi mais cara que a
gasolina...

28 DE JULHO - O Presidente não renunciou, pelo


contrário, aceitou, constrangido (disse), a prorrogação
antecipada do mandato por outro período de 20 anos, já
que os primeiros 20 anos de mandato passou todo ele
arrumando a casa... Como já se encontra com a avançada
idade de 83 anos, é de supor que a História do Brasil vai
ser tri-campeão (como também no futebol mundial) em
presidentes centenários. A censura proibiu definitivamente
as divulgações de notícias sobre explosões atômicas (para
não alarmar a população!), mas elas nos chegam através
da imprensa estrangeira: uma bomba atômica de cerca de
20 megatons explodiu no Ceará arrasando completamente
o Município de Tauá. O Brasil fazia testes secretos naquela
área e ninguém sabia disso. Houve poucos sobreviventes à
tragédia, todas as casas foram arrasadas, os campos
devastados, rios e lagos contaminados. O Governo isolou o
município, mas mesmo assim, várias levas de romeiros se 124

dirigem para lá rezando pela proteção do Padim Pade Ciço.


Alguns jornais se esforçam em rebatizar a cidade de Nova
Hiroxima e alguns milagres já se fazem presentes, cura de
cegos, paralíticos, apesar da descrença teológica dos
padres e bispos. Todo o Mundo se comove e se une nas
condolências e na ajuda aos flagelados. O quadro é
apocalíptico. Um parêntese nessa desgraça toda para falar
da censura na imprensa. Para sugerir um pouco de
liberdade de informação, permite-se publicar tudo, ou
quase tudo. Que vem do estrangeiro e os jornais
estrangeiros também podem falar à vontade. Isso também
é feito para diminuir a tensão que ocorre quando se nota
muita falta de notícias, como se nada ocorresse no mundo.
Anúncios de lançamentos imobiliários, edifícios prives,
como sauna, piscinas, playgrounds, praia na porta,
mulheres sensacionais, incrível! Incrível!

02 DE AGOSTO - Apesar das bombas que continuam


a explodir em todas as partes, implacavelmente. O mais
claro é que alguns países da RAL insistem em manter a
mesma linha ideológica, como a Argentina, por exemplo,
que também engana, censura, ilude, mas não pode impedir
de chegar até nós a notícia da fantástica destruição da
cidade de Corpen – não sobrou vivalma para contar a
ocorrência. O cogumelo mortal foi visto à distância de 100 125

km, o que deixou nosso país apreensivo, não só pelo fato


da bomba destruir tudo, mas, principalmente, porque
demonstra-nos as quantas anda a proliferação atômica
naquele país irmão. É fácil deduzir que, se Tauá deixou
sobreviventes, e o mesmo não ocorreu em Corpan, a
Argentina está vários passos à frente do Brasil na corrida
nuclear, apesar de todos os acordos assinados pelos
membros da RAL. É possível, até, que o embaixador
brasileiro seja portador de uma nota de advertência nesse
sentido, acompanhada, naturalmente, dos devidos
pêsames por tão lamentável desígnio (eles se perguntarão
como soubemos do fato?).

10 DE AGOSTO - Os EUA já isolam todo o seu


arsenal e desarmam os submarinos e aviões que compõem
a tradicional frota de retaliação, depois que quatro aviões e
dois submarinos explodiram causando danos irreparáveis e
protestos formais nos países onde circulavam por ocasião
do desastre. O Paraguai protestou energicamente pela
manutenção da base brasileira de El Chaco, mas as
autoridades do nosso país asseguram que inexiste
armamento nuclear naquele local. A Junta Militar chilena
enviou todos os presos políticos (que oficialmente não
existem) para as bases atômicas que mantém no sul do
país, o que gerou intermináveis protestos das instituições e 126

defensores dos Direitos Humanos, já que duas bombas de


pequeno calibre detonaram naquela região eliminando 50%
dos operários e moradores. Segundo informa o governo
chileno, os presos políticos (usou outro aforismo do qual
não me recordo), aprenderão a cuidar e a conservar o
arsenal atômico naquela parte – uma temeridade sob todos
os aspectos, pois eles poderão usá-lo a seu favor.
Presume-se, porém, que os mesmo só aprenderão parte da
coisa.

15 DE AGOSTO - Notícias da URSS dão conta que


mais três bombas explodiram, todas elas de grande
potência (dizem: uma de nêutrons), causando o
aparecimento de um deserto, destruindo a cidade de
Prokopievski e regiões adjacentes. O sismo conseqüente
abalou até o grande centro nuclear de Novisibirsk. A notícia
veio sem maiores detalhes porque a agência noticiosa
soviética prima pela concisão excessiva. Da China, através
da Agência Nova China soube-se que a cidade de Anhsi,
próxima do Deserto de Shamo (Gobi), ao norte de Hsining,
foi completamente destruída. Nenhum sobrevivente, entre
homens, ovinos e caprinos, que formam um imenso
rebanho naquela região. A Agência Nova China prometeu
dar maiores detalhes, que são também de interesse do
aliado EUA (para evitar maiores danos quando ocorrer lá), 127

mas nunca se sabe quando os chinos vão informar algo.


Confirmando uma previsão pessoal não há nenhuma
conexão entre as explosões nucleares e o aparecimento
dos inúmeros OVNI em toda a Terra. Os cientistas
acreditavam primeiro na invasão de elementos alienígenas,
mas agora estão convencidos que se trata de elementos
altamente radioativos que, penetrando através das
camadas atmosféricas, provocam a fissão de matérias
nucleares e a conseqüente explosão de artefatos. Todos os
elementos constituídos de tal matéria, dizem, estão sujeitos
è explosão e à destruição total.

20 DE SETEMBRO - Nasceu o primeiro dentinho da


Marcela, uma de minhas filhas gêmeas. A outra, Ludmilla,
já tem os mesmos sintomas, febre, coceira e irritação nas
gengivas, mas o médico diz que não crê que o
aparecimento dos primeiros dentes provoque febre e tais
reações. Um total de 1.879 bombas A, H e N já detonaram
sobre a Terá neste curto espaço de tempo; a atmosfera se
mostra irrespirável e tremendamente poluída em diversos
locais; o jogador traz a bola até a marca do pênalti e faz o
gooooollllll; afetando as reações pessoais em todos os
humanos; segundo informações secretas (vazadas), existe
já em alguns aglomerados de seres monstruosos resultante
das explosões;... São reminiscentes; resistentes; o que 128

sobrou da catástrofe; a população da Terra diminui


sensivelmente; envenenamentos são comuns; os
científicos relatórios já apontam os filhos das bombas;
monstros.

30 DE SETEMBRO - Consegui a muito custo um


pedaço de carne para comer, apesar de não saber sua
origem; as meninas estão bem; manchas na pele são
tratadas com violeta genciana; contusões internas são
curadas com maravilha prodígio; sinto-me fraco; a
maravilha prodígio é miraculosa e isenta de influências
atômicas; cura tudo; coceira; contusões; feridas; irritações
na garganta; as folhas continuam caindo das plantas e as
ruas desertas dão idéia de filme, mas é realidade crua; as
famílias procuram desesperadamente se unir para
sobreviver; os estudantes sentem-se livres para protestar; o
Congresso entrou em recesso permanente (os tecnocratas
dizem que é econômico para a Nação e pedem a
compreensão do povo); racionamento de combustível;
diminuir os gastos; aumentar as reservas monetárias;
devemos comer pouco feijão e tomar pouco café; consumir
pouco óleo de soja; combater a inflação...

... DE OUTUBRO – Esqueci de anotar no dia 23 de


Junho, Festa de São João; balões; fogueiras; festa com 129

cheiro de pólvora; rojão; as bandeirolas abandonadas;


recordo um tempo alegre; não balas nem bombas
atômicas; um distante tempo; sem sacrifício de gentes e
animais sem remédio (para evitar monstros); a junta
médico-veterinário sugere a exterminação; homens
vestindo macacões impermeáveis e isolantes catam nas
ruas cadáveres; exterminam os sobreviventes que gemem;
evitar a todo custo 1) proliferação de pestes; 2) fedentina
que se espalha pelo ar e também mata; 3) sobrecarga nos
hospitais e clínicas dos filhos da bomba; apesar de tudo a
Ludmilla ainda não mostrou o primeiro dentinho, mas está
bem; alegres e dispostas as crianças resistem; a mulher e
eu ressentimos o excesso de trabalho para superar todo o
infortúnio; parentes mortos; famílias dizimadas; 4) manter
os locais limpos e isolados; 5) pulverizar e eliminar os
animais espalhados pelo chão, usando mesmo o lança-
chamas; os jornais que conseguem ser editados só
aumentam o número já incontável de cadáveres; as
potências livram-se (tarde, muito tarde) de seus arsenais
nucleares, inclusive enviando-os ao espaço sideral; alguns
militares ainda resistem à idéia, pois julgam que os OVNI
estão preparando a invasão da Terra e vão encontrá-la
desarmada; alguém traz um pouco de feijão preto, soja,
arroz, o que dá para agüentar um pouco; outros dias
melhores virão (digo de mim pra mim); contínuos 130

pagamentos de aluguéis, taxas de lixo, sindical,


condomínio, ar, fazem-se permanecer vivo, apesar de não
ter recebido aumento de salário; meu locador consegue vir
todo fim de mês receber o aluguel, apesar de ter perdido
um perna e de não te sequer onde gastar o dinheiro que
recebe.

23 DE novembro??? - Aliás, não sei, hoje é qual dia?


Talvez seja dia de parar... Tanto tempo a contar dos dias
que eles acabam se perdendo...

28 DE ... - Alface, água... Carne, cor... Basta! Basta!


Não maltratem as crianças, as criancinhas não...

1º ................... Cinza, tudo cinza, água e cimento,


névoa cinza, negra...
...............................................................................................
...............................................................................................
OS OLHOS OBLÍQUOS DO ORIENTE
ou
NIHON NI ITEMO SHO GA NAI

Não há jeito de ficar no Japão 131

(Imigrante de Tomé-Açu, PA).

Kimigayo
Teu seja um reinado feliz
de dez mil anos.
Siga reinando, ó Soberano,
até que o cascalho de hoje
se aglomere, no decorrer do tempo,
em sólidos rochedos
cujas faces veneráveis
o musgo virá forrar.
(Hino Nacional do Japão)

Junho de 1908. 41º ano da Era Meiji. Numa manhã


nebulosa o Kasado Maru atraca no Porto de Santos
trazendo a primeira leva de imigrantes japoneses. Não foi
uma viagem fácil, mas causou admiração aos bárbaros a
limpeza e higiene mantida no navio, mesmo nas classes
inferiores. Soube-se logo que não chegava faminto ou
maltrapilho (ninguém tinha idéia da migração organizada),
diferentes, sim, algo esquisitos, mas não inferiores. A
maioria trazia o sonho de riqueza unido ao ideal de retorno
à pátria-mãe. Eram apenas zairyumin, residentes
temporários, numa terra distante e desconhecida.
Acompanhava-os, porém a determinação de vencer, muito 132

embora essa determinação inicial se transformasse, com o


tempo, em mera utopia.

Ao chegar numa terra estranha, mesmo cheio de


esperança e coragem, o imigrante sente saudade, aos
poucos a imagem do país natal e das suas coisas se
desfazendo, se transformando em fantasmas, mesmo que
algum parente tivesse ficado tomando conta das
plantações, dos animais, das casas Aos poucos a distância
se transformava numa realidade palpável e a dificuldade de
retornar numa barreira intransponível. No entanto, o Japão
ficou pequeno demais para eles. Não herdaram terras, não
herdaram plantações. Na nova terra, porém, havia
esperança de ganhar muito dinheiro, quem sabe adquirir
propriedades, vencer na vida. Chegar aqui sem qualquer
recurso, hadaka ikkan, sem o privilégio do herdeiro de uma
propriedade ancestral e conseguir tudo o que jamais teve,
voltar para a home (casa) com muito dinheiro, nishiki o
kazaru, na felicidade, na glória!
Longe dos seus e do culto do amor a seus
antepassados, uma promessa de vitória dada com o yô i
don, sinal de partida, no distante litoral paulista, manhã de
junho, 1908...
Ressoa na distância um emotivo naniwa-bushi, receitado 133

ao som das cordas plangentes do shamissen.

Pai:... Vou voltar para o Japão...


e junto com Noboru vou viver feliz
no outro mundo... Ah, o sol ta nascendo...
Tô vendo o Japão!... Aí
tá a aurora do Japão. É o Japão...
Noboru, já vou. Papai também vai
aonde você foi. Ah! To vendo o Japão...
tô vendo o Japão... To vendo o Japão
bonito... (morre)

(Fuyuhiko Yamaji – Monólogo do Velho Imigrante)

Abril de 1956. Yukawa chega a Belo Horizonte


chefiando a missão destinada a estudar o apoio de
empreendimentos siderúrgicos em terras mineiras.
Destaca-se um ambicioso plano siderúrgico nascido de
uma reunião de 31 de março na sede da Sociedade Mineira
de Engenheiros. Na pia batismal, a USIMINAS. Não
enfrentaram os japoneses percalços tais ocorridos naquela
histórica viagem do Kasado Maru há 48 anos. Os confortos
da moderna aviação, a rapidez dos jatos, transformam
viagens intercontinentais em poucas horas de lazer.
134

A imigração japonesa continuou célere, com uma


breve recessão durante os conflitos da II Guerra Mundial. O
yamato desmashii também mudou muito. Não mais aquele
espírito japonês radical dos velhos imigrantes que
morreram sonhando em voltar para a terra-mãe, que
morrendo enviando seus espíritos para o oriente e lá se
juntarem a seus antepassados. Valeu o sacrifício dos
pioneiros. Trocar o tatame pelo desconforto de uma cama
ou uma rede. Esquecer a tigela, tchawan, o hashi, pelo
prato e colher. Ser ensinado a comer feijão preto em lugar
da soja e, às vezes, a pinga no lugar do sakê.

Todo esse sacrifício valeu, valeu também o


esquecimento momentâneo das coisas da terra distante,
esquecimento forçado pelas reais circunstâncias. Hoje as
casas foram reconstruídas em moldes oriundos, já que o
pensamento de fazer dinheiro e voltar à terra foi sendo
esquecido aos poucos. Não mais um yoshi, filho adorado
pelo Brasil, e sim um yokoku (Brasil = terra adotiva), não
mais regressar ao Japão e sim bokaku homon, visitar a
pátria-mãe. O retorno também ao missô e ao shoyu,
condimentos à base de soja, ao sabor acre do tsukemono,
picles feito em barris especiais. Não mais casar os filhos
com nisseis e finalmente ter em casa o tokonoma onde
fazer orações, beber chá e vez por outra vestir o quimono, 135

vindo do Japão para ocasiões especiais, celebração do


Shihohai ou cumprir rituais diante do butsudan.

...quando aqui cheguei, era apenas um dos 500 mil


japoneses radicados no Brasil, sem nenhum amigo. Senti-
me solitário. Com o passar do tempo foi aumentando o
número de amigos e acostumei-me tanto com este país
que hoje lastimo ter de deixar esta terra.
(Yukichi Sugihara – Discurso, 1966).

O intercâmbio Brasil/Japão evoluiu a passos de


gigante. Marcante exemplo é a própria USIMINAS, que
mantém um intenso e constante fluxo de pessoa,
provocando tal troca-troca de conhecimento valiosíssimo
para ambos, evidenciando fantástica evolução na amizade
dos dois países. Novos inventos são diariamente
patenteados mostrando a absorção da técnica importada. A
cultura dos povos também foi sumamente enriquecida: em
qualquer lugar, nos terrenos baldios da paulicéia e algures,
quiçá mesmo em Ipatinga, crianças com rústicos tacos de
beisebol lançam as bolas e correm para as bases em
desabalada carreira. Os restaurantes típicos vivem
abarrotados de brasileiros saboreando bolos de arroz,
peixe cru, origuiri, makisushi. Nas festas promovidas pelas
colônias o pessoal da terra não resistiu à alegria 136

contagiante do bon odori, dança bem ritmada, típica do


Japão. Até mesmo as raças se fundiram harmoniosamente,
resistindo pouco aos tradicionais casamentos das isseis
vindas especialmente para cassar com o imigrante Os que
aqui chegavam sozinhos não tinhas as dificuldades
limitadas à alimentação e à falta. Com uma empregada à
disposição, sem intérprete, forçava um contato cotidiano
mais íntimo, do qual muitas vezes floriu o amor e
conseqüentes frutos...

Os imigrantes são religiosos e místicos. Católicos ou


cristãos, fiéis às religiões antiqüíssimas, o xintoísmo,
budistas, ou adeptos das novas religiões: o Seicho-no-ie.
Muitos brasileiros aderiram fielmente às religiões orientais,
principalmente ao budismo e reverenciam diariamente o
seu gohozon. Festeiros, aderiram também animadamente
às festividades e rituais, o Shihohai, o Kegen Setsu ou
meditando em profundo silêncio ante o butsudan. Alguns
poucos vão mais longe: buscam o ensino mais puro do
bushido, originário das antigas raças samurais, do issei ao
sansei, enfim, muita coisa ocorreu: com os que aqui
chegaram em 1908 veio uma nova raça. Os descendentes
são japoneses só no gentílico, pois na realidade são bons
brasileiros, esta é sua terra, a terra de seus filhos e netos, a
terra onde o yamato damashi repousa em paz. 137

Como a folha
Que flutua com leveza
E no chão pousa.
RESUMO DOS CAPÍTULOS ANTERIORES

De repente, como numa alucinação geral, os povos do


planeta Terra entraram em violenta guerra total. Nesse
conflito armado não existiam nações aliadas, todas eram
uma contra outras, formando uma interminável cadeia de 138

ódio e destruição jamais imaginada. Resultou de anos e


anos de pequenas guerras e conflitos urbanos que se
julgava sem importância. A explosão total foi inevitável e se
propagou. Todos se desentenderam e começaram a jogar
bombas uns nos outros ainda experimentais, se achava no
direito de utilizá-las, ou seja, de atirá-las nas outras nações,
dando como cumprida a sua perene missão, pois não é
próprio das bombas destruírem tudo?

E até que o estoque delas acabasse – e que morram


todos os responsáveis e herdeiros de sua confecção, muito
fogo se fez, muita destruição irrecuperável, vidas e almas,
olhos.

Quem olhasse a Lua, por exemplo, acharia um lindo


espetáculo de pirotecnia – lá de cima ver a Terra envolta
em falsos fogos de artifício, porém letais. Mas aqui
embaixo, ninguém dos que vivem na superfície e nem
mesmo Dante jamais conseguiria descrever o inferno mais
cru, melhor ou pior.

Quem pôde se entocou e quem não pôde vagou a


ermo pelo terreno destruído catando e comendo alimentos
envenenados, restos mortais prestes a se desintegrar e 139

também a quem o engolisse.

Os entocados mantiveram-se em vida subterrânea


eternamente retidos nas profundezas da terra pelo medo
genético da destruição da superfície. Apesar de estar em
formação uma nova geração entre eles, é um povo frágil e
morrem a qualquer queimadura solar, não têm defesa
contra qualquer bactéria ou vírus e muito menos contra as
tribos selvagens da superfície, dos quais pretendem
superar pela inteligência.

Os desentocados ou da superfície estão ainda por aí


vagando sem eira nem beira tal como lhes foi transmitido
pelas gerações anteriores. Curvados quase até o chão,
nus, a pele coberta de pêlos protegendo o corpo das
intempéries. Vivem em pequenos grupos, nômades,
esgravatando o chão e comendo larvas, dormindo e
fornicando, tudo instintivamente como se soubessem que
depende de comer, descansar e fazer amor, a formação de
descendentes mais fortes e sabidos.

Nenhuma geração ainda se fez, pois muitos morrem


cedo largados ao tempo. O instinto de proteção do
semelhante é mínimo, a terra é um poço de fogo e lama 140

venenosa, os inimigos são os mais ferozes e selvagens


animais, o ácido deformador e corrosivo, o vapor letal que
emana de gêiseres atômicos e devem ser evitados a todo
custo. Lentamente um povo começa a conhecer o outro: os
subterrâneos começam a explorar e pensam em conquistar
a superfície; os da superfície – que são selvagens, mas
pacíficos – querem só sobreviver e para tal resistem a
qualquer ser estranho. Então...
(ÚLTIMO CAPÍTULO)

Kriller tentou se aprumar com jeito para ver quem se


aproxima. Ao longe, metido entre a poeira constante, um
vulto chegava lentamente. O corpo de Kriller não alcançou
totalmente a posição vertical e seus olhos enxergavam 141

muito mal à distância, mesmo assim deu para confirmar o


que já suspeitava.

- É o Conquistador! Avisou em gritos e pulos.

Seus companheiros apenas fungaram e continuaram


na azáfama de colher raízes de capim e comer os bichos
verdes que se acamavam não caules. Outros se limitavam
a mastigar as partes mais tenras das folhas do capim
sorvendo-lhe o sumo e jogando fora o bagaço. Pouco
ligava seriamente para a advertência de Kriller, já
acostumados com o visitante.

- Vem a cavalo! Vem a cavalo! Gritos e pulos.

Muitos poucos mesmo (somente os mais velhos) se


lembravam do gosto acre da carne animal e apenas esses
abandonaram um pouco a curvatura para dar uma saudosa
mirada no animal peludo e logo tornaram ao descuidado
labor.

O cavaleiro guardou uma distância preventiva apesar


de saber por informes que os seres curvados eram
mansos. 142

Mas nunca se sabe quando os mansos se revoltam.


Daí então desfolhou um papel comprido e começou a
leitura do texto entremeada de olhares furtivos e medrosos,
pouco se importando se alguém ligava ou entendia alguma
coisa do que falava. Apenas cumpria com seu dever –
temerosamente – e o resto que se danasse. Quanto mais
rápido saísse daquele local tanto melhor para sua delicada
epiderme e para os eczemas letais causadas pelo ar
exterior que já começavam a se irritar perigosamente.

Somente Kriller chegou a perceber sinais do medo


que se apossava a cada instante do cavaleiro. E pensou
mais uma vez se valeria então tentar algo. O covarde
subterrâneo certamente sairia correndo como pudesse para
salvar a pele. E o lucro obtido seria apenas aquele cavalo
peludo, que se mantinha firme num porte clássico
agradando a Kriller. E também o perigo de perseguições
futuras por vingança do ato revoltoso.
Que fazer como o cavalo? Sem arma para matar, sem
faca para cortar, com dentes podres e sem organismo para
aturar a carne crua, pouco proveito tiraria do animal. Só
serviria para comandar seus companheiros do alto –
desagradável posição, mas cômoda. Pensava, porém no 143

trabalho que daria para descer toda vez que quisesse


comer algum capim ou verme, ou mesmo beber água, ou
defecar, ou ter relações com uma ou outra fêmea, ou
urinar... Ia ser uma trabalheira, sem dúvida, que a sua
liderança sobre aqueles desligados companheiros não
compensava.

Ademais por certo outros conquistadores seriam


enviados para estudar a situação e as escaramuças seriam
inevitáveis, com mortos e feridos. A tribo ou o que fosse
esse aglomerado de gente seria desmantelado mais uma
vez e por certo o trabalho de reuni-los e tornar a cultivá-los
se tornariam muito demorado e trabalhoso.

Por outro lado o cavalo, sua posse física, levaria Kriller


a outros lugares mais distantes e então inatingíveis,
podendo assim reunir mais gente que viva dispersa (essa
sua preocupação maior) e capturar outros cavalos errantes
e abandonados. Talvez pudesse melhor aproveitar aquelas
pedras cortantes e pontudas se achasse alguns pedaços
de pau forte para sustentá-las.

Algum instrumento que melhorasse a vida de todos e


que pudesse ser utilizado conjuntamente com o animal.
Kriller estava pensando seriamente numa arma: enquanto 144

isso era obrigado a aturar seguidamente as intermináveis


dissertações de gente que seus antepassados jamais viram
e somente nas épocas de violentas sucessões desses
grupos tomavam conhecimento deles.

Em particular no presente caso ou nas constantes


instigações de guerra, material e de conquista, a outros
povos subterrâneos, vizinhos alienistas. Dentro em pouco,
acabada a preleção do Conquistador, o representante do
grupo rival chegaria com a mesma lengalenga.

Como os demais, o discurso versaria sobre o incontido


progresso da nação se industrializando, comercializando
com os outros povos mais ricos, as vantagens de participar
de tudo isso pagando impostos com trabalho, pensando no
futuro, guardando-o para seus filhos fazendo seguros e
mais seguros.
(A vida não é brincadeira! dizia nesse exato momento
o inusitado cavaleiro), sobre o progresso econômico, das
elogiosas reservas monetárias, das máquinas e aparelhos
supernovos aptos a produzir tudo, sobre a química, a
petroquímica, a física, a atômica (somente nessa hora
alguns curvados arribaram perceptivelmente as orelhas: 145

onde e quando ouviram essa mesma palavra?

O resto era tudo coisa de não perturbar a tranqüilidade


do cotidiano. Por isso mesmo os conquistadores teimavam
em insistir com a doutrinação – uma doutrinação do vazio –
numa esperança de que um dia, num futuro que não
imaginavam, atraíssem Kriller e seus companheiros e
depois outras tribos dispersas que povoavam as terras
perigosas semidesérticas, os áridos montes, as planícies
devastadas.

Isto porque, tendo os conquistadores saídos


recentemente do subsolo, não podem resistir à vida externa
sem graves perdas físicas. A sua pela era desastrosamente
alva e de fina tessitura. O organismo não resistiria ao
menor calor, desidratando-se em poucos segundos. Os
órgãos internos não reagiam ao menor sinal de vermes e o
pulmão ao primeiro espirro parava de funcionar.
Unindo a excelente inteligência (única coisa que
puderam cultivar no silêncio eternal em que viviam) ao
vigor físico dos externos, poderiam avançar cada vez mais
sobre as terras inconquistadas – tal era a sua idéia –
progredir, empurrar e expulsar os outros, fazer-se
reconhecido por todos como potência. Porém, tais 146

pretensões sempre esbarravam na infinita e indestrutível


paciência dos homens curvos.

Eles realmente só queriam comer larvas, sorver algum


líquido que acaso aflorasse na terra e nas noites escuras
fazer amor e olhar as estrelas que surgiam entre os rolos
de fumos envenenados, cintilando no infinito. Somente um
ou outro como Kriller pensava em mudar tudo isso, mesmo
sem conhecer o caminho a ser percorrido.

E, olhando para seus filhos que rolavam o dia todo


nas areias e na vegetação rasteira, nutria secretas e
violentas intenções para com os conquistadores,
prejulgadas e condenadas como os causadores de uma
situação dramática que, por certo, ocorreria sem meios de
se evitar. Aquilo lhe era transmitido em sonhos e em
visões.
Então, um dia, um ataque de ira coletivo tiraria seus
companheiros do marasmo que vivia e tudo seria como
imaginava. Tudo correria bem. E na próxima população,
talvez seus netos já pudessem incluir alguns pedaços de
carne em sua refeição. Um ou outro território se juntaria à
sua vila provisória, escorraçada e morrida, aumentando a 147

população e ficando mais algum tempo. Com essas


confusas idéias Kriller se aproximou do Conquistador que
continuava a falar, falar, como se fosse um gravador,
relatando o texto palavra por palavra e sem qualquer
entonação emotiva.

- É de ferro! Mandaram um cavalo de ferro!

Kriller não sabe se gritou, se pensou algo demais ou


se transformou sua admiração em berro e pulos. Era a
primeira vez que via um animal de ferro, apesar de já ter
ouvido boatos de que estão substituindo-os pelos de ferro e
que existem somente uns poucos animais de pêlo vivos. Os
raros espécimes ainda vivos eram preservados para
reprodução, mas a espécie estava mesmo condenada à
extinção. E nada nem nenhuma ciência os fariam
multiplicar. Os poucos que restavam eram vendidos e
comidos por gente ambiciosa – subterrâneos, naturalmente
que não sabia viver sem carne.
Kriller se aproximou mais um pouco e viu os parafusos
nas juntas e no casco de metal ferroso. O óleo escorria
pela boca e pelas pernas sujando o pelo falso. Os olhos de
vidro nada viam e a postura inevitável era a mesma de uma
estátua. 148

Sem assustar o Conquistador, Kriller se aproximou


mais do que pôde e soltou um lancinante grito, que
assustou não só o Conquistador como também seus
próprios companheiros, que se abaixaram ainda mais,
como que buscando enterrar o corpo na areia. De medo,
medo puro.

O cavaleiro, que nem teve tempo de movimentar o


animal, conforme Kriller calculou, saiu numa desabalada
carreira a pé.

Minutos depois alguns mais corajosos conseguiram


levantar a cabeça. Todos então viram Kriller enlevado
acariciando o peludo cavalo: as pernas, a cabeça, a cauda
alongada que quase ia ao chão, aos olhos de vidro
brilhante, para logo depois criar disposição e, não sem
sacrifício – que não era costume, montar o animal.
Ninguém pensou logo em voltar a comer vermes ou
sugar o sumo do capim. Todos se admiravam e soltavam
murmúrios e gritos de alegria pelo feito. Olhavam Kriller
agora como a um deus, o que aumentou o respeito nutrido
por ele.
149

Postando no alto da cavalgadura Kriller esforçava-se


por manter o corpo ereto. Pôs o animal em movimento e
assim, reto como o cavaleiro que veio como o animal,
passeou entre os colegas recebendo o carinho de todos, a
aprovação pela audácia, a adesão para novas conquistas.
E assim ereto, a fronte erguida de orgulho, soltou um novo
grito, no que foi desta vez acompanhado com berros e
pulos de todos os membros da comunidade.

E na próxima geração, se tudo corresse como


planejado, já poderiam incluir carne em sua refeição.
O AUTOR

Salomão Rovedo (1942) teve formação cultural em São Luis (MA), desde 1963 mora no
Rio de Janeiro e participou dos movimentos culturais e políticos nos anos 60/70/80.
Tem textos publicados em Abertura Poética (Ant.), Walmir Ayala e César de Araújo,
1975; Tributo (Poesia), 1980; 12 Poetas Alternativos (Ant.), Leila Míccolis e Tanussi
Cardoso, 1981; Chuva Fina (Ant.), Leila Míccolis e Tanussi Cardoso, 1982; Folguedos
(Poesia/Folclore), c/Xilos de Marcelo Soares,1983; Erótica (Poesia), c/Xilos de Marcelo
Soares, 1984; Livro das Sete Canções (Poesia), 1987. Publicou os seguintes e-books:
Porca elegia (Poesia), 7 canções (Poesia), Ilha (Romance), A apaixonada de Beethoven
(Contos), Sentimental (Poesia), Amaricanto (Poesia), Arte de criar periquitos (Contos),
bluesia (Poesia), Mel (Poesia), Meu caderno de Sylvia Plath (e-recortes), O sonhador 150
(Contos), Sonja Sonrisal (Contos), Cervantes, Dom Quixote (Artigos), Gardênia
(Romance), Espelho de Venus (Poesia), 4 Quartetos para a amada cidade de São Luis
(Poesia), 6 Rocks Matutos (Poesia), Amor a São Luis e ódio (Poesia), Stefan Zweig
Pensamentos & Perfis (c/Silvia Koestler), (Antologia), Viagem em torno de Dom
Quixote (Notas de leitura), Três vezes Gullar (Ficção), Sonetos de Abgar Renault
(Antologia), Suite Picasso (Poesia), Literatura de Cordel (Ensaio), Macunaíma em
cordel, A estrela ambulante (Contos). Publicou folhetos de cordel com o nome Sá de
João Pessoa. Editou a folha de poesia Poe/r/ta. Colaborou esparsamente em: Poema
Convidado (USA), La Bicicleta (Chile), A Toca do (Meu) Poeta (PB), Jornal de
Debates (RJ), Opinião (RJ), O Galo (RN), Jornal do País (RJ), DO Leitura (SP), Diário
de Corumbá (MS)... e outras ovelhas desgarradas.
e-books grátis em: www.dominiopublico.gov.br e outros sites.
Foto: Priscila Rovedo

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