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TECIDOS LINFORRETICULARES (THOMSON, VETERINARY PATHOLOGY)

Distúrbios do Timo

O timo é um órgão linfoepitelial localizado no mediastino de animais jovens. É essencial

para o desenvolvimento e a função do sistema imunológico. As porções epiteliais são derivadas das bolsas branquiais, enquanto que os linfócitos se originam na medula

óssea. Os corpúsculos tímicos são agregações morfologicamente bem definidas de células epiteliais medulares cuja função não é conhecida.

O timo é essencial para o desenvolvimento de linfócitos T que normalmente constituem

70 a 80% dos linfócitos do sangue periférico. Linfócitos ou pró-timócitos precursores derivados da medula óssea migram para o timo, onde se diferenciam em linfócitos-T maduros. A glândula consiste de zonas subcapsular, cortical e medular, e os pró- timócitos migram da zona subcapsular para a medular antes de saírem pelos vasos

sangüíneos aferentes e linfáticos. Durante essa migração intratímica, algumas células proliferam antes de entrar no córtex tímico, e muitas células morrem. A morte assegura que apenas células MHC* -restritas e células T autotolerantes deixem o timo. A restrição ao MHC assegura que as células T irão interagir apenas com células que

apresentarem

antígeno associado a moléculas de MHC nas suas superfícies. As células epiteliais, os macrófagos derivados da medula óssea e as células reticulares do timo fornecem um micro ambiente único e essencial para o desenvolvimento dos linfócitos- T. As moléculas de MHC são expressadas por muitas células não-linfóides e podem ser necessárias para a seleção de células, dentre o conjunto de células T maduras. Além disso, os hormônios do timo são produzidos por células epiteliais e são postulados como promotores da maturação de células T. Durante os estágios finais do desenvolvimento das células T, vários subconjuntos podem ser delineados. Esses incluem as células T CD4 (células T auxiliares) e células

T

CD8 (células T cito tóxicas). As glicoproteínas trans membrânicas CD4 e CD8 medeiam a aderência celular e podem estar envolvidas na transdução de sinais. Após a liberação do timo, essas células são distribuídas nas bainhas linfáticas periarteriolares do baço e nas áreas corticais, ao redor dos centros germinativos, nos linfonódos. Esse equilíbrio crítico de produção e distribuição de linfócitos-T é extremamente importante para a homeostase imunológica. Tanto é assim, que imunodeficiência e auto-imunidade podem resultar de uma atividade inadequada ou demasiadamente zelosa de um determinado subconjunto. O timo é grande antes do nascimento e involui após a maturidade sexual. Os componentes linfóides e epiteliais são gradualmente substituídos por tecido conjuntivo frouxo e gordura. Esse órgão, portanto, não é mais necessário após a estocagem, nos órgãos linfóides periféricos, de uma população responsiva de linfócitos- T que provavelmente permanece por toda a vida do animal. Essas células circulam continuamente através das zonas de células T do baço e dos linfonódos. A expansão de células T antígeno-específicas ocorre após a apresentação antigênica.

Distúrbios do Desenvolvimento do Timo Aparecem incluídos nessa discussão os distúrbios congênitos que resultam em função inadequada de linfócitos-T, linfócitos-B e plasmócitos. Muitos têm sido descritos em seres humanos e, na verdade, têm sido valiosos no maior aprendizado sobre os mecanismos de imunidade e de regulação imunológica. As contrapartidas em animais

das imunodeficiências servem como modelos importantes na pesquisa em imunologia comparada. Distúrbios de imunodeficiência combinada (IDC) são os que afetam tanto linfócitos- B como linfócitos- T. *N de T.: MHC = major histocompatibility antigen Antígeno de histocompatibilidade

IDC em eqüinos é um distúrbio genético que ocorre em potros Árabes ou parte Árabes. É hereditário, sendo transmitido de uma maneira autossômica recessiva, significando que tanto o garanhão quanto a égua são portadores do gene defeituoso. Já foi determinado que a IDC ocorre em aproximadamente 2% dos potros Árabes e que aproximadamente 25% dos eqüinos Árabes são portadores do gene. Há falha na produção de linfócitos-B e linfócitos-T funcionais. Dessa maneira, os potros são marcadamente suscetíveis a vários agentes microbianos e, usualmente, morrem antes de 5 meses de idade. Adenovírus, para os quais potros sadios são tipicamente resistentes, são causas importantes de morte em potros com IDC. Muitas vezes, a infecção vírica é complicada por várias infecções bacterianas e por protozoários que tipicamente resultam em pneumonia. A base bioquímica subjacente para a falha na diferenciação dos linfócitos B e T deve ocorrer num estágio inicial do desenvolvimento dos linfócitos. Em algumas crianças, é o resultado de deficiência de adenosina desaminase que pode prejudicar a síntese de DNA em linfócitos. Essa enzima não é deficiente em potros afetados; o mecanismo exato do defeito na célula linfocitária precursora é desconhecido. Em grande número de casos, potros afetados apresentam corrimento nasal abundante, cobertura de pêlos em más condições, emagrecimento, pneumonia e, ocasionalmente, diarréia. O diagnóstico confirmatório da IDC nesses potros requer evidências do que se segue: linfopenia persistente, ausência de imunoglobulina sérica ou tecido linfóide hipoplásico. Vários graus de neutrofilia com desvio degenerativo para a esquerda e anemia leve ocorrem, provavelmente, como resultado de inflamação crônica. A linfopenia é acentuada e persistente e, em geral, menor que 0,8 a 1,0 X 109/L (0,8 a 1,0 X 1O3/1mn3). A IgM sérica, que ocorre normalmente em potros recém- nascidos, não é detectável. A IgG de origem materna declina até concentrações muito baixas por volta dos 3 meses de idade. Os achados de necropsia são broncopneumonia acentuada e baço e linfonódos pequenos. O timo pode ser difícil de identificar ou consistir de alguns poucos lóbulos isolados em meio à gordura do mediastino. Há marcada redução na polpa branca do baço, como resultado da ausência dos centros germinativos e da bainha periarteriolar. Os linfonódos são, de maneira semelhante, desfalcados de linfócitos. O timo usualmente consiste de umas poucas ilhas de células semelhantes a linfócitos e de corpúsculos tímicos.

lmunodeficiência combinada grave (IDCG) ligada ao sexo tem sido descrita em Basset hounds. Os filhotes machos afetados não têm células T maduras funcionantes. Os animais apresentam níveis séricos normais de IgM, mas graus baixos ou não- detectáveis de IgG e IgA. O timo desses cães é pequeno e freqüentemente obliterado por gordura mediastínica. As tonsilas, os linfonódos e as placas de Peyer usualmente não podem ser identificados à necropsia. Microscopicamente, o tecido tímico consiste de pequenos lóbulos displásicos com número variável de corpúsculos de Hassall.

Distúrbios Inflamatórios e Degenerativos do Timo Lesões do timo, que resultam em graus variáveis de imunodeficiência, podem ser causadas por agentes infecciosos, toxinas, neoplasias ou má nutrição. Os vírus da leucemia e da imunodeficiência dos gatos são exemplos de agentes que infectam os linfócitos- T, resultando em infecções crônicas dos sistemas respiratório e digestivo. Vírus com potencial semelhante são os da cinomose, da diarréia viral dos bovinos e da rinopneumonite dos eqüinos (herpes vírus eqüino-l). Referência prévia foi feita à importância das glicoproteínas de superfície dos linfócitos-T. Uma dessas (CD4) é o receptor para a ligação do vírus da imunodeficiência adquirida (AIDS) dos seres humanos. Em gatos afetados pelo vírus da imunodeficiência felina, o número de linfócitos CD4 está reduzido e há reversão no quociente de linfócitos-T CD4/ CD8. Como seria de se esperar, atrofia do timo e dos linfonódos é observada à necropsia de animais com essas infecções virais. Toxinas ambientais como bifenilas policlorinadas, chumbo e mercúrio têm um efeito supressivo sobre o sistema imunológico. A função tímica é prejudicada em deficiências graves de proteína em animais jovens, resultando em deficiência de síntese de imunoglobulina.

Neoplasias do Timo Uma vez que o timo possui elementos linfóides e epiteliais, é possível que qualquer um desses elementos, ou ambos, sirvam como células de origem para neoplasias. O linfossarcoma tímico é uma neoplasia de animais jovens, principalmente gatos e bovinos. A incidência é muito mais baixa em cães. Os sinais clínicos refletem a presença de grandes massas na cavidade torácica. Os aspirados torácicos contêm numerosos linfócitos, médios e grandes, com citoplasma vacuolizado, um aspecto Único de linfócitos neoplásicos em líquido. Podem ocorrer células em mitose, o que é um aspecto indicativo de neoplasia.

O linfossarcoma tímico dos bovinos ocorre mais freqüentemente em bovinos de corte

de 6 a 24 meses de idade e é caracterizado por um grande aumento de volume do timo.

A etiologia é desconhecida, e a ocorrência de leucemia concomitante não é usual. O

timo é um importante local para ocorrência de linfossarcoma em gatos. As neoplasias são massas grandes, brancas ou acinzentadas no mediastino e resultam em deslocamento de estruturas adjacentes e acumulação de fluidos. Em gatos, o líquido torácico é freqüentemente quiloso devido à acumulação de lipídios. Microscopicamente, esses linfossarcomas difusos são dominados por linfócitos homogêneos no tamanho, na forma, na morfologia nuclear e no quociente núcleo/ citoplasma. Timomas linfoepiteliais são menos comuns e distinguidos apenas microscopicamente pela presença de células neoplásicas epiteliais, associadas aos linfócitos neoplásicos.