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AMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIA CIÊNCIA & DESENVOLVIMENTO ISSN 1809-4058 Amazônia: Ci. & Desenv.,

AMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIAAMAZÔNIA

CIÊNCIA & DESENVOLVIMENTO

ISSN 1809-4058

Amazônia: Ci. & Desenv., Belém, v. 3, n. 5, jul./dez. 2007

REPRODUÇÃO E RESPONSABILIDADE Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. Os artigos publicados na revista “Amazônia: Ciência e Desenvolvimento” são de inteira responsabilidade de seus autores.

COMISSÃO DE PUBLICAÇÃO Coordenador: Oduval Lobato Neto Editores Técnicos: Marcos Antônio Souza dos Santos e Oderle Milhomem Araújo Supervisor: Maria de Fátima Costa Leão

CONSELHO EDITORIAL Ahmad Saeed Khan (UFC/DEA), Alfredo Kingo Oyama Homma (Embrapa Amazônia Oriental), Ana Laura dos Santos Sena (IESAM), Antônio Carvalho Campos (UFV/DER), Antônio Cordeiro de Santana (UFRA/ISARH), David Ferreira Carvalho (UFPA/NAEA), Erly Cardoso Teixeira (UFV/DER), Fernando Antônio Teixeira Mendes (CEPLAC), Francisco de Assis Costa (UFPA/NAEA), Iran Pereira Veiga Júnior (UFPA/NEAF), João Eustáquio de Lima (UFV/DER), Joaquim José Martins Guilhoto (USP/FEA), José Jorge Valdez Pizarro (IESAM), Lauro Satoru Itó (UFRA/ISARH), Mutsuo Asano Filho (UFRA/ISARH), Raimundo Aderson Lobão de Souza (UFRA/ISARH), Roberto Ribeiro Corrêa (UFPA/DSE), Samuel Soares de Almeida (MPEG).

EQUIPE TÉCNICA Arte da 1ª capa: Ruma Foto da 1ª capa: Geraldo Ramos Texto da 4ª capa: Equipe de Marketing Editoração eletrônica: Manoel de Deus Pereira do Nascimento Revisão de texto em língua inglesa: José Rubens Quintino de Paiva e Reginaldo Antônio Lima Pereira Normalização: Oderle Milhomem Araújo – CRB2 / 745 Apoio: Milton de Souza Fernandes (Estagiário)

Endereço eletrônico: http://www.bancoamazonia.com.br E-mail: revistacientifica@bancoamazonia.com.br Endereço para correspondências:

Biblioteca do Banco da Amazônia Av. Presidente Vargas, 800 – 16º andar – Belém-PA. CEP 66.017-000 Impresso na Gráfica do Banco da Amazônia

Amazônia: Ciência & Desenvolvimento / Banco da Amazônia. –

v. 3, n. 5 (jul./dez. 2007) –

2005 –

.

Semestral.

ISSN 1809-4058.

. – Belém: Banco da Amazônia,

1. DESENVOLVIMENTO REGIONAL – Amazônia – Periódico. I. Banco da Amazônia. II. Título.

CDD: 338 CDU: 33(811) (05)

SUMÁRIO

EDITORIAL

ARTIGOS

APROPRIAÇÃO ILÍCITA DE TERRAS PÚBLICAS NA AMAZÔNIA: O CASO DA GLEBA ITUNA NO ESTADO DO PARÁ ILLEGAL POSSESSION OF PUBLIC LAND IN AMAZON: THE ITUNA LAND LOTE CASE, IN THE STATE OF PARÁ Andréia Macedo Barreto

7

A CADEIA AGROINDUSTRIAL DO ARROZ INFLUENCIANDO O DESENVOLVIMENTO REGIONAL: UMA COMPARAÇÃO ENTRE O RIO GRANDE DO SUL E RORAIMA RICE AGRINDUSTRIAL CHAIN ACTING ON REGIONAL DEVELOPMENT:A PARALLEL BETWEEN RIO GRANDE DO SUL AND RORAIMA STATES Luciana Dal Forno Gianluppi; Gustavo Dal Forno Gianluppi

27

CARACTERIZAÇÃO DA DEMANDA POR ALIMENTOS ARTESANAIS: UMA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE AVALIAÇÃO CONTINGENTE NA VALORAÇÃO DO SELO DE ORIGEM DE PALMAS - TO CARACTERIZATION OF THE DEMAND FOR CRAFTSMANSHIP FOOD: APPLICATION OF THE CONTINGENT VALUATION METHOD TO THE EVALUATION OF THE PALMAS-TO STAMP Adriano Firmino Valdevino de Araújo; Adriano Nascimento da Paixão; Fernando Dias Bartolomeu Abadio Finco; Franciele Ramos

45

CRESCIMENTO DIAMÉTRICO DE MAÇARANDUBA (MANILKARA HUBERI CHEVALIER) APÓS A COLHEITA DA MADEIRA DIAMETRIC GROWTH OF MAÇARANDUBA (MANILKARA HUBERI CHEVALIER) AFTER HÁRVEST OF WOOD Dulce Helena Martins Costa; João Olegário Pereira de Carvalho; Eduardo Van Dem Berg

65

EDUCAÇÃO NO CAMPO E PODER LOCAL NA AMAZÔNIA EDUCATION OF THE FIELD AND LOCAL POWER IN THE AMAZON

Émina Márcia Nery dos Santos; Orlando Nobre Bezerra de Souza; Ney Cristina Monteiro de Oliveira

77

EVOLUÇÃO E SELEÇÃO CULTURAL NA AMAZÔNIA NEOTROPICAL EVOLUTION AND CULTURAL SELECTION IN AMAZON NEOTROPICAL Marcos Pereira Magalhães

93

INFLUÊNCIA DE DOSES DE BORO NA PRODUÇÃO DE MASSA SECA DE PLANTAS DE URUCUZEIRO (BIXA ORELLANA L.): CULTIVARES EMBRAPA 36 E EMBRAPA 37 INFLUENCE OF DOSES OF BORON IN THE PRODUCTION OF DRY MASS OF PLANTS OF URUCUZEIRO (BIXA ORELLANA L.): CULTIVATE EMBRAPA 36 AND EMBRAPA 37 Edson Carlos Sodré Lopes; Ismael de Jesus Matos Viégas; Janice Guedes de Carvalho; Dílson Augusto Capucho Frazão; Heráclito Eugênio Oliveira da Conceição; João Elias Lopes Fernandes Rodrigues

113

MANEJO SUSTENTÁVEL DE FLORESTAS SECUNDÁRIAS: ESPÉCIES POTENCIAIS NO NORDESTE DO PARÁ, BRASIL SUSTAINABLE MANAGEMENT OF SECONDARY FORESTS: POTENTIAL SPECIES IN NORTHEAST OF PARÁ, BRAZIL Gustavo Schwartz

125

MANIFESTAÇÕES DO BIOCLIMA DO ACRE SOBRE A SAÚDE HUMANA NO CONTEXTO SOCIOECONÔMICO DA AMAZÔNIA BIOCLIMATIC INFLUENCES OF THE ACRE ON THE HEALTH HUMAN IN THE SOCIOECONOMIC CONTEXT OF THE AMAZON Alejandro Fonseca Duarte; Márcio Denis Medeiros Mascarenhas

149

PERFORMANCE DE CULTIVARES DE SOJA EM DIFERENTES EPÓCAS DE SEMEADURA NA REGIÃO SUL DO ESTADO DO TOCANTINS, SAFRA 2006/07 PERFORMANCE OF SOYBEAN CULTIVARS AT DIFFERENT SOWING SEASON, IN TOCANTINS STATE SOUTHERN Rodrigo Ribeiro Fidelis; Joseanny Cardoso da Silva; Joênes Mucci Peluzio; Daniel Cappellari; Hélio Bandeira Barros; Glauber Lacerda

163

UM POTE DE OURO NO FIM DO ARCO-ÍRIS? O VALOR DA BIODIVERSIDADE E DO

CONHECIMENTO TRADICIONAL ASSOCIADO, E AS MAZELAS DA LEI DE ACESSO: UMA VISÃO E PROPOSTA A PARTIR DA AMAZÔNIA

A

POT OF GOLD AT THE END OF THE RAINBOW? THE VALUE OF BIODIVERSITY AND

ASSOCIATED TRADITIONAL KNOWLEDGE, AND THE DEFICIENCIES OF THE ACCES LAW:

 

A VIEWPOINT AND A PROPOSAL FROM AMAZON Charles Roland Clement

177

A

TIRAÇÃO DE CARANGUEJOS NOS FINS DE SEMANA E O COMPROMETIMENTO DA

BIODIVERSIDADE

 

LOCAL ARTISANAL CAPTURE OF CRABS ON WEEKENDS AND THE COMMITMENT OF

BIODIVERSITY

Maria Regina Ribeiro Reis

199

AS VANTAGENS COMPARATIVAS DOS PRODUTOS AGRÍCOLAS REGIONAIS VERSUS IMPORTADOS NO MERCADO DE BELÉM, PARÁ: O MODELO DO CONSUMIDOR APLICADO NAS CIÊNCIAS AGRÁRIAS THE COMPARATIVE ADVANTAGES OF REGIONAL AGRICULTURAL PRODUCTS VERSUS IMPORTED AT THE MARKET OF BELÉM, PARÁ: THE COMSUMER’S MODEL APPLIED IN THE AGRARIAN SCIENCES Karl Henkel; Josina da Mata Amado Jacinto; Jimnah de Almeida; Ana Laura Corradi

225

RELATÓRIOS DE PESQUISAS

263

NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS

273

EDITORIAL

Os periódicos científicos são instrumentos fundamentais na difusão e evolução do conhecimento. Cumprem o importante papel de divulgar resultados de pesquisas e registrar, para

as gerações atuais e futuras, os avanços da ciência e da tecnologia.A sua contribuição para a sociedade

é algo singular e sua significância aumenta à medida que se eleva o estoque de textos, ensaios, artigos e notas técnicas registrados em suas páginas, ano após ano, a cada edição.

A revista Amazônia Ciência & Desenvolvimento chega à quinta edição, marco do seu segundo

aniversário. Nesse período 115 artigos foram submetidos e avaliados pelo nosso Conselho Editorial. Desse total, 61 foram aprovados e publicados. Soma-se, ainda, a publicação de 9 notas técnicas e 32 resumos de projetos de pesquisa financiados pelo Banco. Sem dúvida, já é um estoque significativo de conhecimento e, o mais importante, com forte identidade regional. São números que deixam

evidente a sua relevância como periódico e, mais ainda, reforçam o compromisso do Banco da Amazônia na valorização e difusão de conhecimentos sobre a realidade regional.

Nesta edição constam 13 artigos e mais seis resumos de projetos de pesquisa. A diversidade temática, traço característico da revista, transita por múltiplas áreas cotejando análises da agricultura, da biodiversidade, do manejo de recursos naturais, do bioclima amazônico, da economia e das relações sociais históricas e contemporâneas. São mais de 280 páginas de saberes que se somam as quatro edições anteriores, ampliando e fortalecendo o estoque de conhecimentos já disponível na revista.

Assim, reconhecendo a relevância de consolidar esta revista como uma publicação de referência

no tratamento das interfaces entre economia, sociedade, meio-ambiente e desenvolvimento regional, não poderíamos deixar de prestar nossas homenagens e reconhecimento, nesta edição comemorativa,

a todos que fazem a Revista Amazônia: Ciência & Desenvolvimento - autores de artigos, membros

do conselho editorial, colaboradores do Banco e seus leitores, ao mesmo tempo, desejamos profícuas

e duradouras parcerias em nome do progresso da Amazônia.

A todos uma boa leitura!

Abidias José de Sousa Júnior

Presidente do Banco da Amazônia

APROPRIAÇÃO ILÍCITA DE TERRAS PÚBLICAS NA AMAZÔNIA: O CASO GLEBA ITUNA, NO ESTADO DO PARÁ

RESUMO

Andréia Macedo Barreto *

A grilagem de terras públicas constitui uma prática ilícita que ainda se faz presente na Amazônia brasileira, e que geralmente está relacionada a outras, como a “pistolagem” e a fraude documental. Por isso, é importante analisar o papel do Judiciário como um dos poderes do Estado, no momento em que se depara com essa prática, nas demandas judiciais. Nesse contexto, destaca-se a situação da gleba Ituna, terra de domínio público federal, localizada no oeste do Estado do Pará, já que reúne várias situações que desafiam a atuação do Judiciário, como é o caso da utilização de titulo de propriedade falso pelo próprio Poder Público.

Palavras-chave: Grilagem – Amazônia. Terra pública - Gleba Ituna – Estado do Pará.

ABSTRACT ILLEGAL POSSESSION OF PUBLIC LAND IN AMAZON: THE ITUNA LAND LOT CASE, IN THE STATE OF PARÁ

The illegal occupancy of public domain (land) is one illicit practical which still remains in Brazilian Amazon and it is usually related to other forms of occupancy, as using fire guns or documental frauds. Therefore, it is important to analyze the role of Judiciary as one of the powers of the State, at the moment when it meets this practical, in lawsuits. In this context, the situation of Ituna land lot is distinguished, as a land of federal public domain located in the west of the State of Pará, because it congregates many situations that defy the Judiciary performance, as it is the case of using false document by the Power Public.

Keywords: Illegal occupancy – Amazon. Public land - Ituna Land Lot – Stat of Pará.

* Advogada; Doutoranda em Direito pelo Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará (UFPA). Belém-PA. E-mail: andreiambarreto@yahoo.com.br

1 INTRODUÇÃO

O termo grilagem tem suas origens na prática de fechar um título de terra, ou outro documento de caráter fundiário falsificado, com um grilo, a fim de que esse inseto, em contato com o papel, propiciasse um aspecto amarelado, dando a impressão de documento velho e autêntico.

Porém, não apenas o título de propriedade falso caracteriza a grilagem. Na verdade, essa prática pode ser entendida como a apropriação privada de terras públicas, por meios coercitivos

e violentos, ou não, podendo ser utilizado

documento fraudulento com o fim de assegurar

o domínio sobre esse bem público. Ou ainda

como:

A legalização do domínio da terra através de documento falso (aspecto ficto). Também é compreendida como a apropriação ilícita de terras por meio da expulsão de posseiros (ocupantes de terras públicas) ou índios (aspecto factual) ou ambas as formas. Portanto, trata-se de uma série de mecanismos de falsificação de documentos de propriedade de terras, negociações fraudulentas, chantagens e corrupções que tem envolvido o poder público e os entes privados (BENATTI; SANTOS; GAMA; 2006, p. 18).

Não constitui um fenômeno recente, nem restrito à Amazônia, pois faz parte da realidade brasileira, desde a formação histórica da propriedade no País. Contudo, ganha dimensões na Região Amazônica, sobretudo, em razão de sua extensão territorial e da não destinação econômica ou ambiental, pelo Estado, de grande parte dessas terras.

Juntamente com a grilagem se desenvolvem outras práticas ilícitas, como a luta pela posse da terra, a pistolagem, a fraude

processual, a falsidade documental, o esbulho possessório, bem como os homicídios e as ações contra a integridade física de trabalhadores rurais, ribeirinhos, indígenas e líderes de movimentos sociais.

É em face dessa realidade que surge a necessidade de ação positiva do Estado, no sentido de realizar políticas públicas voltadas para dirimir os problemas relacionados à essa apropriação ilícita de terras. Contudo, nem sempre tais políticas se mostram eficientes. Na verdade, em grande parte, a situação se agrava justamente pela inércia do Estado (Executivo), em resolver o problema.

Por isso, muitos conflitos que deveriam ser tratados pelo Poder Executivo acabaram se dirigindo ao Judiciário para que, através da função jurisdicional, atue no sentido de solucionar as demandas individuais ou coletivas, em face das omissões do Poder Público (Executivo).

Nesse contexto, insere-se o caso da gleba Ituna, que tem importância singular para a análise, pois diz respeito a uma grande extensão de terra pública, que foi apropriada ilicitamente por um madeireiro, que há anos explorou os recursos florestais, especialmente o mogno; ademais, por ter sido foco de diversas práticas ilícitas, dentre elas a produção fraudulenta de títulos de propriedade, a pistolagem e o desmatamento.

O presente estudo partiu, como fonte primária, da pesquisa de campo realizada in loco na gleba, onde foram feitas entrevistas semi- estruturadas com alguns personagens envolvidos no conflito, como agricultores, posseiros e lideranças locais. Também, contou com entrevistas de autoridades locais de órgãos fundiários e ambientais, tais como o Instituto Nacional de

Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), de representante do Ministério Público Federal (MPF), juiz da Vara Agrária e integrantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs), todos de Altamira.Tornou-se imprescindível uma pesquisa no cartório de registro de imóvel, de modo que, também, realizou-se levantamento nos cartórios de Altamira e Senador José Porfírio.

Como fonte secundária, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental, junto aos órgãos públicos ambientais e fundiários de Belém

2 O CASO GLEBA ITUNA

2.1 DENOMINAÇÃO, LOCALIZAÇÃO E DIMENSÕES

A gleba de domínio federal denominada Ituna localiza-se na Amazônia brasileira, no oeste do estado do Pará, com parte de suas dimensões no município de Altamira e parte no município de Senador José Porfírio.

A área total da gleba, antes da arrecadação pela União Federal, correspondia a cerca de 292.760 hectares. Suas confrontações eram: ao Norte, com a linha do polígono desapropriatório de Altamira, conforme dispõe o Decreto nº 68.443/1971; ao Sul, com a reserva indígena Koatinemo; a Leste com o rio Xingu e terras da União; e a Oeste, com o rio Xingu 1 .

Nos limites e perímetros da gleba foram tomadas como referência as Cartas Perimétricas elaboradas pelo Projeto RADAM. Na verdade, em todas as discriminatórias realizadas na Amazônia Legal pelo INCRA as áreas arrecadadas foram, apenas, estimadas na cartografia do Projeto, cujas Cartas já estavam em circulação desde 1972, mas as terras arrecadadas não foram demarcadas (ÉLERES, 2002). Também, estudou-se a decisão judicial proferida na ação ordinária de imissão de posse proposta pelo INCRA para rever as terras

e Altamira, ONGs e MPF. Também, estudou-se

decisão judicial proferida na ação ordinária de imissão de posse proposta pelo INCRA em face do grileiro, e de algumas decisões do juiz da Vara Agrária de Altamira, para auxiliar na análise de caso.

Com subsídio na pesquisa de campo, e nas

demais fontes mencionadas, fez-se a reconstituição da ocupação da área que corresponde à gleba Ituna,

e de toda a problemática envolvida. A partir daí

buscou-se delinear uma análise jurídica do caso, enfocando a atuação do judiciário em relação à prática da grilagem.

griladas, bem como algumas decisões da Vara Agrária de Altamira, para auxiliar na análise do caso.

Atualmente, a área correspondente à gleba Ituna compreende 118.210 hectares (parcela discriminada, arrecadada e matriculada em nome da União Federal). Nessa área foram criados Projetos de Assentamentos (PA) do INCRA, como

é o caso do PA Morro dos Araras, PA Ressaca e PA

Itapuama 2 . E a parte não arrecadada do imóvel (também chamada pelo INCRA de gleba Ituna) foi apropriada ilicitamente através da prática da grilagem. Trata-se da denominada “Área Naufal”

ou “do Naufal”, que será abordada mais adiante.

Quanto à denominação “gleba Ituna”, é imperioso destacar que nos arquivos do INCRA, também, consta essa denominação para a parcela não arrecadada (que atualmente compreende o Plano de Desenvolvimento Sustentável - PDS Itatá), o que gera confusão no momento de identificação da gleba.

Por isso, para uma melhor compreensão, ao longo do presente trabalho, é preciso ter em vista que a denominação “gleba Ituna” após o processo

discriminatório 3 , é utilizada pelo INCRA tanto para designar a parcela da gleba discriminada e arrecadada pela União Federal, quanto para se

2.2 OS EFEITOS DO DECRETO-LEI 1.164/1971

Na década de 1970, no período do governo militar brasileiro, a União passou a ampliar seu domínio sobre as terras dos estados federados, incorporando-as e, assim, reduzindo o domínio dos estados integrantes da Amazônia Legal – Pará, Maranhão, parte norte de Goiás (atual Tocantins), parte norte dos estados do Mato Grosso,Amapá, Roraima,Amazonas e Rondônia 4 .

Nessa ampliação, tem-se como diploma legal o Decreto-Lei nº 1.164 de 1º de abril de 1971 (BRASIL, 1971), através do qual foram declaradas indispensáveis à segurança nacional, na região da Amazônia Legal, as terras devolutas situadas na faixa de cem quilômetros de largura, em cada lado do eixo das rodovias federais. Dentre essas rodovias destaca-se a Transamazônica (BR 230), próxima dos municípios de Altamira e Senador José Porfírio.

Na verdade, tratava-se de uma estratégia para viabilizar a integração nacional, em que a federalização das terras estaduais consistiu em um instrumento importante para o Governo Federal controlar o processo de ocupação na Amazônia (TRECCANI, 2001, p. 170), privilegiando, porém, as elites rurais.

Retratando a intervenção federal sobre as terras do estado do Pará, Monteiro (1980, p. 119) afirma:

Qualquer que seja a justificativa dos motivos que levaram o Poder Central a considerar a urgência desse interesse de Segurança Nacional para incorporar essa imensa área ao patrimônio da União, o certo é que, a partir do Decreto nº

referir à parcela excluída da arrecadação (Área do Naufal ou ainda denominada imóvel rural boca do rio Iriri e Passay).

1.164, o processo fundiário do Estado do Pará não pôde ser mais conduzido e orientado autonomamente pelas autoridades estaduais. Pois o INCRA como órgão planejador, coordenador e executor das medidas destinadas a corrigir a estrutura agrária do País, passou a deter através desse decreto a quase totalidade das terras devolutas disponíveis que pertenciam ao patrimônio do nosso Estado.

Essa intervenção durou 16 anos. Em um primeiro momento, as disposições do Decreto- Lei nº 1.164 foram modificadas pela Lei nº 5.917/ 1971 (BRASIL, 1973), até que em 1987 foi revogado pelo Decreto-Lei nº 2.375, de 24 de novembro de 1987 (BRASIL, 1987).

Por meio do Decreto-Lei nº 2.375/1987, a União deixou de considerar indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacionais as

atuais terras públicas devolutas situadas na faixa de fronteiras, de cem quilômetros de largura, em cada lado do eixo das rodovias já construídas, em construção ou projetadas. Com isso, parte das

terras devolutas retornou aos estados federados.

Sobre o retorno dessas terras, no caso do Pará, Éleres (2002) considera que as áreas não foram devolvidas ao estado, porque não constituíam terras públicas da União. Na verdade, o que foi convencionado como “reintegrado ao Pará”, nada mais era do que terras públicas que, apesar de estarem na faixa de cem quilômetros do Decreto-Lei nº 1.164/1971, não foram arrecadadas pelo INCRA e/ou Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT), e por isso não foram inscritas em nome da União, pela Secretaria do

Patrimônio da União (SPU), e nem nos cartórios de registro de imóveis das Comarcas correspondentes.

Mesmo porque, nesse período, tanto o INCRA quanto o GETAT arrecadaram terras sob

a égide do Decreto-Lei nº 9.760/1946 (que trata

dos bens pertencentes à União) e Lei nº 6.383/ 1976 (que se refere ao processo discriminatório). Por isso, teriam de obedecer às normas processuais para ter legitimidade sobre as terras, tais como: 1) publicação do Edital; 2) compilação, análise e julgamento das documentações dominiais apresentadas (escrituras, registros, plantas etc.); 3) demarcação da poligonal, com exclusão das áreas de domínio privado e; 4) arrecadação e inscrição, no registro de imóveis, em nome da União Federal, das terras devolutas encontradas (ÉLERES, 2002).

Por outro lado, o Decreto-Lei nº 2.375/1987 ressalvou como indispensáveis à segurança nacional e sob o domínio da União, dentre as terras públicas devolutas situadas na faixa de cem quilômetros, as contidas nos municípios de Humaitá (AM), São Gabriel da Cachoeira (AM), Caracaraí (RR), Porto Velho (RO), Ji-Paraná (RO), Vilhena (RO),Altamira (PA), Itaituba (PA), Marabá (PA) e Imperatriz (MA) (BRASIL, 1987, art. 1º, parágrafo único).

Com efeito, mesmo revogado o Decreto nº

1.164/1971, a União Federal, ainda assim, passou

a controlar grande parte das terras do estado do

Pará (mais de dois terços do território paraense),

2.3 TERRA PÚBLICA DISCRIMINADA

Mesmo abrangida pelo Decreto-Lei nº 1.164/1971, a gleba Ituna constituía terra pública devoluta. Por isso, em 1982, para separar as terras públicas das particulares, foi instaurado processo administrativo de discriminação, regulado pela Lei nº 6.383/1976, cuja Comissão Especial foi

pois, conforme destacado, o Decreto nº 2.375/1987 ressalvou que as situações juridicamente constituídas continuavam sob a jurisdição do INCRA (TRECCANI, 2001).Apenas para se ter uma idéia da dimensão da intervenção federal sobre as terras do estado do Pará, estima-se que a área total corresponda a 8 vezes o tamanho do Acre ou 30 vezes o tamanho da Holanda (ÉLERES, 2002).

Diante dessa intervenção do Poder Central, surgiram também as seguintes conseqüências:

ocorreu o agravamento da situação fundiária nos estados, em especial no Pará, pois foram criados impasses com a paralisação de milhares de processos de compra e venda de terras devolutas, juntamente com os de simples ocupação e legitimação, nessa faixa incorporada ao patrimônio da União (MONTEIRO, 1980); bem como, houve considerável redução das terras de domínio dos estados federados.

Os efeitos do Decreto-Lei nº 1.164, e dos que o sucederam, tiveram uma abrangência em grande parte das terras devolutas da Amazônia Legal, mudando o mapa fundiário do estado do Pará, quanto a dominialidade.

Foi o que ocorreu no caso da gleba Ituna, ou seja, através desse diploma legal a União Federal passou ao seu domínio a área até então pertencentes ao Estado do Pará, com o fundamento de que estava situada no eixo dos cem quilômetros da rodovia federal Transamazônica (BR 230).

criada pelo INCRA através da Portaria/DF nº 176, de 28 de julho de 1982 (INCRA, 1982).

Seguindo o procedimento do processo discriminatório, a Comissão Especial instruiu o processo com o memorial descritivo da área, que

correspondia a aproximadamente 292.760 hectares. Como no imóvel havia diversas ocupações, foi publicado o edital de convocação dos interessados para apresentarem no prazo de

60 dias seus títulos, documentos, informações de interesses, testemunhas ou qualquer prova em direito admitido. Dentre os convocados constava

o nome de Eduardo Pessoa Naufal 5 .

Ao aprovar os trabalhos relativos ao procedimento discriminatório, a Comissão resolveu incorporar somente 118.210 hectares 6 . Não fez qualquer referência às ocupações legitimáveis ou às propriedades reconhecidas no imóvel, apenas mencionou essa incorporação.

Mas ao descrever as confrontações, situou a gleba na divisa com a área supostamente pertencente

a Eduardo Pessoa Naufal.

No encerramento desse procedimento, através da Portaria/DF nº 329, de 3 de dezembro de 1982, o INCRA determinou que o imóvel fosse matriculado e registrado em nome da União no cartório de registro de imóveis de Altamira, de modo que sob a matrícula 4.167, livro 2-N, folhas 260, a gleba Ituna foi registrada em nome da União com uma área de 118.210 hectares, constando a citada Portaria nº 329 como título aquisitivo (INCRA, 1982).

Contudo, mesmo diante desse registro procedido pelo INCRA, a gleba também aparece matriculada em sua totalidade (292.760

hectares), em nome da União Federal, no cartório de registro de imóveis de Senador José Porfírio 7 , sendo que no registro consta como título aquisitivo da terra a Portaria/DF nº 176, de 28 de julho de 1982, ou seja, a mesma que instituiu a Comissão Especial para a discriminação 8 .

Na verdade, a incorporação de área inferior à totalidade da gleba, bem como o registro no cartório de Altamira e depois no de Senador José Porfírio, fazem parte da fraude, pois na época da discriminação o grileiro já ocupava parte do imóvel e o órgão fundiário não resolveu a situação: mesmo sem legitimar posse, nem reconhecer propriedades, o INCRA arrecadou área inferior ao total da gleba, que foi registrada no cartório de Altamira. Posteriormente, em 15 de dezembro de 1993, solicitou a abertura de nova matrícula para o imóvel no cartório de Senador José Porfírio, correspondente à área 292.760 hectares, sob a justificativa de criação de outros municípios.

Com isso, pode-se dizer que a grilagem de parcela da gleba foi facilitada pelo órgão fundiário, já que ao realizar o processo discriminatório, a área não foi retomada e incorporada ao patrimônio público federal. Como conseqüências, surgiram duas situações jurídicas distintas na gleba, pois uma parte do imóvel passou a constituir terra pública não devoluta (discriminada e arrecadada pela União), e outra parcela continuou como terra pública devoluta.

2.4 A ÁREA NÃO ARRECADADA PERTENCE AO ESTADO DO PARÁ?

Com a não incorporação de totalidade da gleba Ituna, nem o reconhecimento de propriedade particular sobre parcela do imóvel, surge a questão de saber se a área não arrecadada deveria retornar ao domínio do estado do Pará, por força da revogação do Decreto-Lei nº 1.164/1971.

Primeiramente, é preciso destacar sobre a constitucionalidade do Decreto 1.164. Há posição de que embora fundado no artigo 1º da Constituição Federal de 1967, que dizia ser o Brasil uma República Federativa, esse Decreto feria a autonomia e, principalmente, o direito dos Estados-membros sobre seus territórios. Por isso,

mesmo aparentemente amparado na Constituição, constituía ato ilegítimo do Poder Central, razão pela qual o referido Decreto seria considerado inconstitucional. Nesse sentido, posiciona-se Éleres (2002).

Destaca-se, porém, que o pleno do Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, na Ação Civil Ordinária nº 477-2, proposta pelo INCRA em face do estado do Tocantins e outros, julgada em 27.06.2002, D.J 01.08.2003, reconheceu a constitucionalidade do Decreto-Lei 1.164/71. Nesse sentido, o Ministro Relator Moreira Alves posicionou-se em seu voto:

Improcede a alegada inconstitucionalidade do Decreto-Lei 1164/1971 que declarou indispensável à segurança e ao desenvolvimento nacional terras devolutas situadas na faixa de cem quilômetros de largara em cada lado do eixo de rodovias na Amazônia Legal, porquanto o decreto-lei, pelo artigo 55, I, da Emenda Constitucional nº 1/69, podia ser editado em matéria de segurança nacional, e, no caso, o foi para declarar porção de terras devolutas indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacional em regulamentação necessária à efetivação do disposto no art. 4º, I, desta mesma Emenda Constitucional.

Com efeito, sem adentrar na discussão sobre a constitucionalidade do Decreto, que já foi reconhecida pelo STF, analisa-se a situação

jurídica da gleba Ituna a partir da Lei nº 6.383/ 1976 (que trata do processo discriminatório de terras devolutas da União) e do Decreto-Lei nº 2.375/1987, que revogou o Decreto-Lei nº 1.164/

1971.

De acordo com as formalidades da Lei nº 6.383/1976 a gleba não foi arrecadada e matriculada em sua totalidade 9 , embora conste

outro registro correspondente à área total do imóvel no cartório de Senador José Porfírio. Desse modo, a União Federal não incorporou ao seu patrimônio parcela das terras devolutas, até então pertencentes ao estado do Pará. E como o Decreto-Lei nº 2.375/1987 deixou de considerar indispensáveis à segurança e ao desenvolvimento nacional as atuais terras

públicas devolutas situadas na faixa de cem quilômetros de largura a que se refere o

Decreto-Lei nº 1.164/1971, poder-se-ia cogitar na devolução de parcela da gleba Ituna ao estado do Pará.

Ocorre que o art. 1º, parágrafo único, inciso

II, do Decreto-Lei nº 2.375/1987 ressalvou que persistiam indispensáveis à segurança nacional

e sob o domínio da União, dentre as terras

públicas devolutas situadas na faixa de cem quilômetros, as contidas em dez municípios da Amazônia Legal, dentre os quais está o município de Altamira. Portanto, de acordo com essas disposições, as terras públicas devolutas localizadas ao longo das rodovias federais, no município de Altamira, persistiam sob o domínio da União Federal.

Partindo dessa análise, pode-se inferir que

a área não arrecadada, situada no Município de

Altamira, continuou sob domínio federal por força do Decreto-Lei nº 2.375/1987, por isso, não retornaria ao estado do Pará.

Todavia, o mesmo não se pode dizer da área compreendida no município de Senador José Porfírio, pois o Decreto-Lei nº 2.375/1987 não ressalvou como indispensável à segurança nacional e ao patrimônio da União as terras devolutas situadas nesse município. Desse modo, por força da revogação do Decreto 1.164, entende-se que a área situada em Senador José Porfírio deveria retornar ao estado do Pará.

2.5

OS DIFERENTES TÍTULOS DE PROPRIEDADE E A “ÁREA DO NAUFAL”

Com a apropriação ilícita de parte da gleba Ituna, surgiram também os títulos de propriedade falsos. Nesses títulos, alguns registrados no cartório de registro de imóveis de Senador José Porfírio e outros no de Altamira, o imóvel apresenta-se com áreas diversas (292.760,00; 118.210,00; 34.688,00; 17.193,2010; e de 133.621,15 hectares), bem como com números de matrículas diferentes. Em algumas certidões, consta o mesmo número de matrícula, no mesmo cartório, mas com áreas diferentes 10 .

Dentre esses títulos destaca-se o correspondente à “Área do Naufal”, em que a gleba Ituna apresenta-se sob outra denominação, ou seja, como “imóvel rural boca do rio Iriri e Passay”. De acordo com esse registro, o INCRA teria adquirido de Eduardo Pessoa Naufal, através de processo expropriatório, uma área de 133.621,15 hectares localizada no Município de Senador José Porfírio, termo judiciário da Comarca de Altamira 11 .

Porém, é imperioso mencionar que não existe registro nos sistemas da Justiça Federal, Seção Judiciária do Estado do Pará, processo judicial com a numeração fornecida na certidão

de registro de imóvel, nem qualquer processo judicial de desapropriação em nome de Eduardo Pessoa Naufal. Ademais, no próprio título de propriedade há uma série de irregularidades que colocam em dúvida a veracidade das informações e, conseqüentemente, a validade do título 12 .

Na realidade, o documento refere-se à área apropriada ilicitamente e excluída da arrecadação pelo órgão fundiário (no processo administrativo de discriminação). De acordo com esse título fraudulento, a “Área Naufal” (como ficou conhecida) ou “imóvel rural boca do rio Iriri e Passay”, nada mais é do que parte da gleba Ituna e uma parcela da reserva indígena Koatinemo.

Ressalta-se que até o ano de 2006, neste documento, o INCRA constava como expropriado de suas terras por Eduardo Pessoa Naufal. Somente após determinação da Corregedoria do Tribunal de Justiça do Estado do Pará 13 o registro foi retificado, passando a constar o INCRA como proprietário do imóvel. Mas, mesmo com a retificação, as terras se encontravam sob o controle do particular, que há anos explorava a madeira, especialmente o mogno 14 .

2.6 A AMPLIAÇÃO DO PROJETO DE ASSENTAMENTO ITAPUAMA EM ÁREA GRILADA

Diante das extensas dimensões da gleba e do fato de o INCRA não retomar e destinar parte da terra grilada, inúmeras famílias, a partir do final da década de 1990, 15 também passaram a ocupar a área, reduzindo assim o poder exercido pelo grileiro desde a década de 1980.

Essa redução ocorreu em razão de um processo desordenado de ocupação por famílias provenientes de várias regiões do país 16 que, através da derrubada e queimada da floresta,

foram demarcando seus lotes (alguns maiores outros menores) e se estabelecendo na região.

Somente após a ocupação por essas famílias, e de suas exigências, foi que o INCRA realizou, formalmente, a ampliação do Projeto de Assentamento Itapuama 17 . Formalmente, porque a situação dos agricultores permaneceu inalterada, ou seja, sem demarcação dos lotes ou qualquer procedimento que garantisse acesso aos recursos financeiros decorrentes do programa de reforma agrária do governo federal.

O fato é que com as novas ocupações

parte da área grilada (32.869,4336 hectares) passou a integrar a ampliação do PA Itapuama, e o restante do imóvel continuou sob o controle do grileiro e seus prepostos. Além do que, mesmo após a ampliação do Projeto de Assentamento, as ocupações não cessaram, pois muitas famílias, algumas já beneficiadas pelo programa de reforma agrária, avançavam nas ocupações sobre a área controlada pelo

2.7 O CONFLITO NA ESFERA JUDICIAL

Em razão dos conflitos na (e pela) área, passou-se a exigir medidas do órgão fundiário federal a fim de resolver o problema instaurado. Isto porque, embora se tratasse de terra pública federal, não tinha o INCRA qualquer controle sobre essas terras, já que este controle era exercido pelo particular que delas se apropriou ilicitamente e de seus prepostos. Por diversas vezes, os próprios funcionários do INCRA foram impedidos de entrar no imóvel para procedimentos administrativo de vistoria, identificação e avaliação de seu estado, por ação de pessoas que se diziam trabalhar para esse particular.

Diante dessa situação, o INCRA, por sua procuradoria jurídica, passou a requerer a posse

grileiro, o que ocasionou, no ano de 2006, conflito entre os pistoleiros e essas famílias.

Com isso, e em face da inércia do órgão fundiário federal em resolver o conflito, o resultado foi a expulsão desses novos ocupantes pelos homens armados, que delimitaram um marco para a passagem dos agricultores, entre a área controlada pelo grileiro e a ampliação do PA Itapuama.

das terras, através da ação ordinária de imissão de posse. No processo judicial, alega que adquiriu o imóvel de Eduardo Pessoa Naufal através de processo expropriatório. Comprova a propriedade através do título de propriedade em que a gleba Ituna apresenta-se como “imóvel rural boca do rio Iriri e Passay”, ou seja, o INCRA faz uso de documento falso, surgido em decorrência da prática da grilagem.

Com fundamento nesse título de propriedade, foi deferida a tutela antecipada para imissão de posse. Através da medida, os homens armados contratados pelo grileiro foram retirados da área e as terras retornaram ao patrimônio público federal.

2.8 A CRIAÇÃO DO PLANO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (PDS ITATÁ)

Com a retomada de parcela do imóvel, o INCRA criou na área um Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS) denominado Itatá, com prioridades para assentamento de famílias indígenas, de acordo com Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre INCRA, Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e o MPF.

O PDS, ao garantir a sustentabilidade

ambiental, concilia a produção das famílias

com a utilização da floresta. É uma modalidade de assentamento de interesse social, econômico e ambiental que se destina às populações que baseiam sua subsistência no extrativismo, na agricultura familiar e em outras atividades de baixo impacto ambiental 18 . Pode ser que essas populações já desenvolvam atividade de baixo impacto ambiental ou futuramente se disponham desenvolvê-las.

Nessa modalidade de assentamento, os assentados obterão as terras através do instituto da concessão do direito real de uso, as quais ficarão sob a responsabilidade das Organizações Rurais de Moradores, com anuência do órgão ambiental, do INCRA e dos parceiros.

As áreas preferenciais são: 1) as que possuem potencial produtivo e que viabilize a conservação, a recuperação ou ampliação dos recursos naturais, em suas bases primárias; 2) áreas ocupadas por demanda de entidades governamentais públicas, de entidades não- governamentais e de comunidades residentes ou não, que tenham potencial produtivo (BRASIL,

2000).

O PDS constitui uma nova forma de trabalhar a terra e de relação com a floresta. Por isso, a legislação ambiental deve ser cumprida em todos os seus aspectos, sendo proibido comercializar, prender e matar animais silvestres; desmatar margens de curso d’água, rios igarapés

ou lagos; pescar na época da piracema; derrubar seringueiras e castanheiras; explorar a madeira sem plano de manejo florestal aprovado pelo órgão competente; ou desmatar sem autorização do órgão ambiental (BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2000).

Assim, com subsídio nessas premissas, o INCRA criou o PDS Itatá, cuja área está localizada e matriculada no município de Senador José Porfírio, bem como registrada em nome da União Federal, sob a matrícula o nº 4.167, do livro 2-N, com uma extensão de 106.734,3292 hectares 19 .

Na verdade, o número de matrícula que a Portaria faz referência diz respeito ao registrado no cartório de Altamira e não no de Senador José Porfírio. Ademais, a Portaria menciona que o PDS foi criado em parte da gleba Ituna, o que reflete contradição do INCRA em denominar essa área, já que na ação de imissão de posse diz que o imóvel denomina-se “boca do rio Iriri e Passay”.

3 O PAPEL DO JUDICIÁRIO DIANTE DA GRILAGEM E DE OUTRAS PRÁTICAS ILICITAS: O TÍTULO DE PROPRIEDADE FALSO

Dentro desse cenário de apropriação ilícita de terras públicas, em que a situação da gleba Ituna constitui um caso dentre tantos na Amazônia, é importante analisar a atuação do Judiciário. Isto porque a Constituição Federal, além das leis infraconstitucionais, consagra em seu texto a proteção dos direitos humanos e a função social da propriedade. A consagração desses direitos no plano formal e a efetivação de políticas públicas constituem exigências sociais feitas ao Legislativo e ao Executivo. Mas cabe ao Judiciário, como último guardião, essa proteção. Por isso, a preocupação atual não se centra apenas na garantia formal, mas na efetividade desses direitos no plano material. É diante dessa exigência que se questiona o papel do Judiciário.

Pode-se argumentar, porém, que a questão da grilagem não constitua um problema que diga respeito ao Judiciário e sim ao Executivo. Com efeito, assenta-se que nos dias atuais o Judiciário se projeta e passa a ter a mesma visibilidade do Executivo e do Legislativo, por constituir um poder político, pois passa a intervir também na esfera da economia e da política, inserindo-se na realidade social e participando das transformações sociais (CHEMERIS, 2003).

Questão interessante, no caso da grilagem, diz respeito à utilização de título falso de propriedade nas ações judiciais em que se discute a dominialidade da terra, como é o caso das ações petitórias. Nessas ações discute-se a propriedade,

ao contrário das ações possessórias em que se discute a posse. São exemplos de ações petitórias as de imissão de posse e a divisória.

A ação reivindicatória tem caráter essencialmente dominial e por isso só pode ser utilizada pelo proprietário ou por quem exerça direito sobre a coisa. Nessa ação o autor deve provar seu domínio oferecendo prova da propriedade, com a respectiva transcrição, e descrevendo o imóvel em suas confrontações, além de demonstrar que a coisa reivindicada se encontra em poder do réu.

Assim, resumidamente, apontam-se três requisitos essenciais para propositura dessa ação:

a titularidade do domínio, a individualização da coisa e a posse injusta. Trata-se da ação do proprietário que tem o título de propriedade, mas não tem a posse; ao contrário das possessórias em que se tem a posse, mas não o título.

Contudo, na ocupação do espaço amazônico, com a apropriação ilícita de terras públicas, surgem os títulos falsos de propriedade. Isto porque, a grilagem de terras públicas constitui uma prática ilícita que vem acompanhada de outras, como é o caso da falsificação de documentos. E ganha nos cartórios de registros de imóveis um grande aliado, já que em muitos casos estão envolvidos na fraude, possibilitando que um imóvel tenha inúmeros títulos de propriedade, como ocorreu com a gleba Ituna.

São documentos falsos levados ao Judiciário para legitimar o poder sobre terras públicas. Dessa situação, destacam-se duas hipóteses, quanto aos sujeitos que utilizam esse título de propriedade: 1) quando utilizado pelo particular que se apropriou ilicitamente de terras públicas; 2) quando o próprio Poder Público utiliza esse título para reaver terras que lhe pertencem.

Nas duas hipóteses converge-se para um mesmo ponto: para a invalidade desse documento. No sistema de invalidades encontra- se a nulidade. A nulidade pode ser absoluta (nulidade) ou relativa (anulabilidade). Enquanto na anulabilidade o vício pode ser sanado se as partes assim convalescerem, na nulidade jamais se cura, sendo vedado ao juiz supri-la, ainda que por requerimento das partes, pois representa um agravo à ordem pública 20 .

No âmbito do Poder Judiciário, o controle da legalidade quanto à invalidade do título de propriedade falso, com conseqüente cancelamento do registro, pode ser feito pelas vias administrativas ou judiciais. Nas vias administrativas, o Judiciário atua com atribuições para apurar irregularidades ou ilegalidades e sanar aquelas porventura detectadas.

Como órgão administrativo, sua atuação fundamenta-se, dentre outros dispositivos, no art. 236, § 1º, da CF, que atribui a este poder estatal a fiscalização dos atos notários e registradores; na Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973 (Lei dos Registros Públicos), que em seu art. 214 prescreve que as nulidades de pleno direito, uma vez preservadas, invalidam o registro de propriedade, independentemente de ação direita; bem como na Lei nº 6.739, de 05 de dezembro de 1979 (que dispõe sobre a matrícula e o registro de imóveis rurais), com alterações introduzidas pela Lei nº 10.267, de 28 de agosto de 2001.

Porém, o entendimento quanto ao cancelamento do título pelas vias administrativas não é pacífico. Há a interpretação de que o art. 1º da Lei nº 6.739/ 1979 não foi recepcionado pela ordem constitucional vigente, por colidir com os princípios do contraditório e da ampla defesa.

Veja-se o que prescreve o art. 1º da Lei nº 6.739/1979, a fim de se compreender melhor a discussão:

A requerimento de pessoa jurídica de direito

público ao corregedor-geral da justiça, são declarados inexistentes e cancelados a

matricula e o registro de imóvel rural vinculado

a título nulo de pleno direito, ou feitos em

desacordo com os artigos 221 e segs. da Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973, alterada pela Lei nº 6.216, de 30 de junho de 1975.

Para essa posição, as nulidades que admitem o cancelamento independentemente de ação direta são aquelas inerentes ao processo de registro, e não do título que lhe deu causa. Ademais, argumenta-se que com o advento do Código Civil de 2002, enquanto não se promover por meio de ação própria a decretação de invalidade de registro e o respectivo cancelamento, o adquirente continua como dono do imóvel (BRASIL, 2002, Art. 1245, § 2º) 21 .

Em sentido contrário, surge a posição de

que a expressão independentemente de ação

direita disposta no referido art. 1º expressa a desnecessidade de uma demanda deduzida a juízo para o cancelamento, porquanto deve ser obtido pelas vias administrativa ou correcional. Neste caso, o cancelamento constitui ato jurídico em sentido estrito, de natureza administrativa, cuja legalidade deve sofrer o controle do Judiciário 22 .

Nessa hipótese, caso a parte interessada fique inconformada com o provimento, poderá ingressar com ação anulatória, perante o juiz competente, contra a pessoa jurídica de direito público que requereu o cancelamento (Art. 3º da Lei nº 6.739/1979).Após a decisão proferida cabe apelação e, quando contrária ao requerente do cancelamento, ficará sujeita a

duplo grau de jurisdição, conforme o parágrafo único do Art. 3º da Lei nº 6.739/1979.

Nessa esteira, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em sua 238ª Sessão Ordinária, realizada no dia 15 de agosto de 2006, acolheu parcialmente o pedido da Procuradoria Federal Especializada junto ao INCRA do estado do Amazonas, da Procuradoria Geral Federal e da Advocacia Geral da União (AGU), para anular a decisão administrativa do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas, restabelecendo integralmente a Resolução 04/2001 da Corregedoria-Geral de Justiça, que determinou o cancelamento de 48 milhões de hectares de terras públicas griladas no Amazonas. E o fez com amparo no art. 1º e seguintes da Lei nº 6.739/1979, bem como subsidiado na Lei de Registros Públicos, alterada pela Lei nº 6.216/1975.

Assim, considerar o cancelamento nas vias administrativas pode representar um caminho jurídico para a efetiva reincorporação ao patrimônio público de terras públicas griladas, de forma mais célere que nas demandas judiciais ordinárias.

Não foi o que ocorreu com a gleba Ituna. No caso do título de propriedade em que essa gleba aparece como “imóvel rural boca do rio Iriri e Passay”, embora falso, foi apenas retificado por determinação da Corregedoria de Justiça das Comarcas do Interior (CJCI), do Tribunal de Justiça do estado do Pará a requerimento do MPF 23 , de modo que o título não deixou de produzir efeitos na esfera jurídica. Apenas foi retificada a titularidade: ao invés de Eduardo Pessoa Naufal, passou constar o INCRA como titular do domínio.

Já na atuação do Judiciário nas vias judiciais, não há dificuldades quando se diz respeito à utilização de título falso por particular,

que se apropriou ilicitamente de terras públicas. Trata-se de uma prática que atenta contra o patrimônio público, bem como contra o ordenamento jurídico, e por isso não pode ser legitimado. Porém, a situação requer cuidados no momento de identificar a validade do documento comprobatório da propriedade, seja na esfera judicial, ou mesmo na administrativa ou correcional.

Mas, e se esse título foi levado a juízo pelo Poder Público para se imitir na posse de suas terras, apropriada ilicitamente através da prática da grilagem? E se nesse mesmo imóvel também estão assentados agricultores que já foram envolvidos em conflito com os homens armados, contratados pelo grileiro? O que na verdade prevalece: a invalidade do título de propriedade ou bens jurídicos como a vida, o patrimônio público e o meio ambiente?

Certamente, como se trata de terras públicas requeridas pelo próprio Estado, a situação dos trabalhadores rurais abrangidos pelo programa de reforma agrária, a retomada da terra ao patrimônio público e a proteção do meio ambiente são bens que prevalecem. Mas não se pode deixar de questionar até que ponto um título falso de propriedade pode ser sustentado em juízo, acobertando uma cadeia de envolvidos na fraude. Mesmo porque, trata- se de documento sem validade jurídica, cuja nulidade pode ser pronunciada em juízo 24 , de modo a obstar a retomada dessas terras pelo Estado.

Essa foi a situação que se instaurou na gleba Ituna. Conforme já mencionado, esse imóvel conhecido como “Área do Naufal”, desde a década de 1980 esteve sob o controle do grileiro que se beneficiou da madeira

existente nessas terras. Em parte da área grilada, o INCRA assentou famílias na ampliação do PA Itapuama. Porém, surgiram os conflitos: entre os prepostos do grileiro e essas famílias; e entre os agricultores e o INCRA, que não resolvia o impasse. Após exigências e pressões, o INCRA propôs a ação ordinária de imissão de posse 25 para reaver suas terras. Contudo, utilizou-se de título de propriedade falso, pois pelas extensões da gleba (mais de 133 mil hectares), a área abrange parte da reserva indígena Koatinemo.

Neste caso, a decisão judicial deferiu o pedido de imissão de posse do “imóvel rural boca do rio Iriri e Passay” (denominação dada à gleba Ituna após a fraude) em favor do órgão fundiário federal. O magistrado considerou a instabilidade social instaurada no imóvel diante da situação dos trabalhadores rurais, e da presença dos homens armados contratados pelo grileiro; a impossibilidade de implantação do PDS, pois a negação da medida engessaria sua implantação e o beneficiamento de famílias já cadastradas para serem assentadas; o meio ambiente, que estaria preservado com a medida, uma vez que a madeira continuava sendo explorada pelo grileiro; e o desrespeito às instituições, por estarem os prepostos do grileiro utilizando-se da força para garantir o controle da área, o que representava uma afronta às instituições públicas.

Desse modo, mesmo baseado em título fraudulento, por medida de tutela antecipada, a posse do imóvel retornou ao INCRA, permanecendo, porém, o desafio ao Judiciário nas ações que envolvem a grilagem de terras públicas na Amazônia e a utilização do título falso de propriedade, seja perpetuando, ou rompendo práticas dessa natureza.

4 CONCLUSÃO

Em face da ineficiência do (Poder) Executivo em resolver o problema da grilagem de terras

públicas na Amazônia brasileira, o conflito alcança

a esfera do Judiciário, que passa a exercer papel

fundamental no sentido de não permitir que tais práticas se perpetuem, em afronta às instituições públicas e à ordem jurídica. Nessa atuação, não se pode desprezar que na Região buscar-se a tutela jurisdicional omitindo-se do Judiciário a apropriação sobre terras públicas e a utilização de título de propriedade falso.

Por isso, em razão do papel que desempenha o Judiciário no rompimento da prática da grilagem, especialmente na Amazônia, pode-se dizer que a grilagem, por ser uma prática contrária ao ordenamento jurídico, assim como

todas as práticas ilícitas dela decorrente (como é

o caso da falsificação de título de propriedade), constitui um problema que deve ser enfrentado pelo Judiciário.

Desse modo, o magistrado deve utilizar-se de todos os meio disponíveis em direito para identificar a titularidade ou posse da terra, a fim de não perpetuar uma estrutura que se montou ao longo da ocupação do espaço amazônico e da própria formação da propriedade no País. O parâmetro para a análise mais detida, no caso concreto, pode ser a extensão da terra.

Constatando tratar-se de grilagem de terras públicas, devem-se distinguir aquelas que

permitem a validação pelo Poder Público, daquelas que não permitem. Diz-se permissível quando se trata de pequena propriedade, onde o agricultor com o seu trabalhou ou se sua família cumpre a função social da propriedade.

No caso das que não admite convalidação, ou seja, daquela extensa área de terra apropriada ilicitamente, onde se desenvolvem outras práticas ilícitas, como a pistolagem e o desmatamento, considera-se incabível a continuidade da ocupação, bem como o uso de qualquer ação judicial para se manter na terra, como é o caso das ações possessórias, já que a ocupação de terra pública não gera posse e, conseqüentemente, os efeitos dessa posse, como é o caso do uso dos interditos possessórios.

Na verdade, essa ocupação constitui mera detenção de terra pública. Assim, uma vez requerida a terra pelo Estado, que é o titular do domínio, deve a mesma retornar ao patrimônio público. A discussão, porém, incidirá sobre as benfeitorias e isso se o ocupante estiver de boa- fé por vários anos por tolerância ou omissão de fiscalização do Poder Público.

Desta forma, e com uma visão sistêmica do direito e um comprometimento com tais questões, é possível que o Judiciário constitua uma instância valiosa no rompimento da grilagem na Amazônia brasileira, especialmente no Estado do Pará.

NOTAS

1

Informações constantes no memorial descritivo da gleba.

2

PA Morro dos Araras criado através da Portaria INCRA/ SR(01) nº 66, 3 set. 1999, publicada no BS nº 38, ano 24, 20 set. 1999, correspondeste a área de 20.820,3357 hectares. PA Ressaca criado pela Portaria INCRA/SR(01) nº 67, de 3 set. 1999, publicada no DOU nº 177, 15 jul. 1999, Seção 1, p. 16, com área de 30.265,6330 hectares. PA Itapuama, criado através da Portaria INCRA/SR-01/ Nº 68, 6 de set. 1999, publicada no BS nº 38, ano 24, 20 set. 1999, com área inicial de 19.470,0831 hectares, mas ampliado para 52.339,5167 hectares.

3

O processo discriminatório consiste em procedimento administrativo ou judicial disciplinado na Lei nº 6.383 de 7 de dezembro de 1976, que em linhas gerais separa as terras públicas das de domínio particular.

4

A

Amazônia brasileira abrange os seguintes Estados: Acre,

Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão (parte oeste), Pará, Rondônia, Roraima,Tocantins, o que equivale cerca de 61% do território nacional.

5

Edital de convocação, com prazo de 60 dias, publicado no DOE, 12 ago. 1982, pág.: 20.

6

Portaria/DF/329, 3 dez. 1982, publicada no DOU, Seção 1, 9 dez. 1982.

7

Matrícula 421, livro 2-B, folhas 228.

8

Deveria constar ato que tratasse da incorporação da gleba

e

não o de constituição da Comissão Especial.

9

É questionável, porém, a própria validade do procedimento de discriminação e arrecadação da gleba, pois, além da fraude em arrecadar área menor, sem qualquer justificativa, a indicação da área arrecadada não corresponde às dimensões descritas.

10 No cartório de registro de imóveis de Senador José

Porfírio, a gleba está matriculada sob o nº 421, livro 2-

B, folhas 228, com área de 292.760ha. No de Altamira

constam certidões com as seguintes matrículas: a)

4.167, livro 2-N, folhas 260 uma com área de 292.760ha

e outra com o mesmo nº de matrícula com área de

118.210ha, sendo que em busca realizada no indigitado

livro de registro, consta registrada esta última; b) 23.073, livro 2- AAT, folhas 224, com área de 34.688 ha e com o mesmo nº de matrícula com área de 17.193,2010 ha; c) 3.619, livro 2-L, folhas 068, com área de 133.621,15ha, sendo que nesta última não consta o nome de gleba Ituna, mas de imóvel rural denominado “boca do rio Iriri e Passay”.

11 Consta na certidão de registro do imóvel, Livro 2-L, fls. 068, matrícula 3.619/1982, termo Judiciário da Comarca de Altamira: “Nos termos da homologação, por sentença de 05.04.82, proferida pelo MM Juiz Federal de Primeira Instância 1ª Região, Estado do Pará, Dr. Anselmo Figueiredo Santiago, transação firmada entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Eduardo Pessoa Naufal, às fls. 91/ 1993 dos autos expropriatórios nº 4.490-B e deferimento do pedido de fls. 128/129 e constante do mandado intimatório expedido nos citados autos, o imóvel constante da presente matrícula passa a pertencer ao senhor Eduardo Pessoa Naufal, brasileiro,

solteiro, estudante [

]”.

12 Inexiste a cadeia dominial, de modo que não se sabe como Eduardo Pessoa adquiriu grandes extensões de terras no Estado do Pará; o número dos documentos do suposto expropriado está incompleto, com ausência de alguns dígitos, o processo judicial indicado não tem numeração corresponde aos dos processos da Justiça Federal, consta o expropriado como estudante, etc.

13 Em razão de inúmeras fraudes, a Corregedoria de Justiça do Estado do Pará determinou, em meados de 2006, o bloqueio de todas as matrículas de imóveis rurais de áreas superiores a 10 mil hectares, registradas em cartório de registro de imóveis do Estado do Pará entre 16 de junho de 1934 e 8 de novembro de 1964, independente da data que conste no respectivo título. A medida também atinge terras acima de 3 mil hectares registradas entre 09 de novembro de 1964 e 04 de outubro de 1988, além de áreas superiores a 2,5 mil hectares cujos registros foram feitos a partir de 05 de outubro de 1988.

14 Na Certidão consta o nome de Eduardo Pessoa Naufal, mas quem estava na posse do imóvel, através de prepostos, era o madeireiro David Rezende, em face do qual o INCRA move ação judicial que tramita na Justiça Federal, Seção Judiciária do Estado do Pará, Subseção de Altamira.Acredita-se que Eduardo Pessoa Naufal constitua um personagem criado em razão da prática da grilagem.

15 Segundo entrevistas realizadas com os moradores da ampliação do PA Itapuama, as primeiras ocupações ocorreram por volta de 1999, no mesmo ano em que o INCRA criou os projetos de assentamentos em parte da gleba.

16 Baianos, paulistas, maranhenses, cearenses, além de paraenses. São pessoas advindas dos mais diversos ramos de atividades (pintores, vidraceiros, militares, etc.), mas na maioria profissionais marginalizados nos centros urbanos.

17 Em 1º de dezembro de 2005, foi publicada a retificação da Portaria INCRA/SR-01/Nº 68/1999, de 6 set. 1999, ampliando o PA ITAPUAMA de 230 unidades para 930, ou seja, criando mais 700 unidades.

18 INCRA. Portaria nº 477, de 4 abr. 1999. Art. 1º.

19 Portaria nº 37, de 08 de novembro de 2006, publicada no DOU de 09.11.2006, Seção 1, pagina 61.

20 Essa distinção entre nulidade e anulabilidade integra o sistema das invalidades do Código Civil. Para Nelson Nery Júnior o Código de Processo Civil tem um sistema próprio que não coincide com o do Código Civil. Para ver mais sobre o assunto consultar NERY JÚNIOR, Nelson; ANDRADE, Rosa Maria de. Código de Processo Civil comentado, 9. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

21 PARÁ.Tribunal de Justiça. Provimento Nº 001/2006 da CJCI.

22 PARÁ.Tribunal de Justiça. Provimento Nº 001/2004 da CJCI.

23 PARÁ. Tribunal de Justiça. Pedido de Providências nº 062/2006 da CJCI.

24 De acordo com o disposto no Art. 390 do CPC “o incidente de falsidade tem lugar em qualquer tempo e grau de jurisdição, incumbindo à parte contra quem foi produzido o documento, suscitá-la na contestação ou no prazo de 10 (dez) dias, contados da intimação da sua juntada nos autos”. Mas, tratando-se de nulidade, o juiz pode pronunciá-la de oficio.

25 A ação de imissão de posse é ação real cujo fundamento de pedir é a propriedade e o direito de seqüela que lhe é inerente. É ação do proprietário que nunca teve a posse da coisa. Difere-se da reivindicatória porque nesta o proprietário tinha a posse da coisa, mas a perdeu.

REFERÊNCIAS

BENATTI, José Heder Benatti; SANTOS, Roberto Araújo; GAMA, Antônia Socorro Pena da. A grilagem de terras públicas na Amazônia brasileira. Brasília, DF: IPAM; MMA, 2006. (Série Estudos, 8).

BRASIL. Decreto nº 68.443, de 29 de março de 1971. Declara de interesse social, para fins de desapropriação, imóveis rurais de propriedade particular, situados em polígono compreendido na zona prioritária, fixada para fins de reforma agrária, no Decreto nº 67.557, de 12 de novembro de 1970, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 30 mar. 1971. Seção 1, p. 2475. Disponível em:

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A CADEIA AGROINDUSTRIAL DO ARROZ INFLUENCIANDO O DESENVOLVIMENTO REGIONAL: UMA COMPARAÇÃO ENTRE O RIO GRANDE DO SUL E RORAIMA

Luciana Dal Forno Gianluppi * Gustavo Dal Forno Gianluppi **

RESUMO

As cadeias produtivas agroindustriais podem influenciar o desenvolvimento regional à medida que geram empregos, renda e produto para a localidade e, conseqüentemente, melhores condições de vida para a população. Este trabalho tem como objetivo comparar as cadeias agroindustriais do arroz em Roraima e no Rio Grande do Sul, buscando identificar a existências e ausências de elementos que as compõem e as implicações para o desenvolvimento regional. Foram utilizadas informações obtidas nas bases de dados de instituições regionais – como o Instituto Riograndense do Arroz (IRGA) e Associação dos Arrozeiros do Estado de Roraima – e nacionais – como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Os resultados mostram que a cadeia produtiva do arroz é significativamente mais desenvolvida no Rio Grande do Sul comparativamente a Roraima, implicando em melhores indicadores de desenvolvimento socioeconômico. Assim, é possível concluir que a cadeia agroindustrial do arroz gera maior desenvolvimento regional onde é mais organizada e com melhor desempenho, tendo em vista a indução ao estabelecimento de setores auxiliares e atividades terciárias.

Palavras-Chave: Desenvolvimento regional. Cadeia agroindustrial. Arroz - Estado de Roraima.

* Economista; Mestre em Agronegócios; Bolsista da CAPES e Membro do Núcleo de Estudos em Economia Agrária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: lugianluppi@terra.com.br ** Engenheiro Agrônomo pela Faculdade de Agronomia da UFRGS; MBA em Gestão do Agronegócio pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). E-mail: gdfppi@terra,com.br

RICE AGRINDUSTRIAL CHAIN ACTING ON REGIONAL DEVELOPMENT:A PARALLEL BETWEEN RIO GRANDE DO SUL AND RORAIMA STATES

ABSTRACT

Agrindustrials chains can act on regional development when they generate jobs, gains and product to the region and, consequently, better life conditions to inhabitants. This paper objective to compare Roraima and Rio Grande do Sul States rice agindustrial chains, trying to identify elements existences and absenses in those states and their implications on regional development. The data used on this article was gotten from regional institutions data base – as Institute Riograndense of Rice (IRGA) and Association of the Rice dealers of the State of Roraima – and national ones – as Brazilian institute of Geography and Statistics (IBGE) and Institute of Applied Economic Research (IPEA). It was observed that Rio Grande do Sul shows better social-economic development indexes than Roraima, concluding that rice agrindustrial chain creates regional development where it’s more organized and with better performance, having in view the need of auxiliary sectors and activities that are linked to this main chain.

Keywords: Regional development. Agroindustrial chain. Rice - State of Roraima.

1

INTRODUÇÃO

Uma cadeia agroindustrial organizada e com próspero funcionamento induz o desenvolvimento socioeconômico de uma região. Isso ocorre à medida que os investimentos realizados nos diferentes elos criam demandas e estas, por sua vez, incentivam o surgimento de novos investimentos que geram renda, empregos e bem-estar populacional na região. Em outras palavras, as necessidades dos elementos da cadeia geram atividades que visam o seu suprimento, assim os empregos, renda e produto gerados são multiplicados no aparecimento de atividades terciárias e setores auxiliares à cadeia principal.

Este trabalho efetua uma análise comparativa entre as cadeias agroindustriais do arroz no Rio Grande do Sul e Roraima, procurando identificar os elementos componentes e observar as possíveis implicações nos indicadores socioeconômicos dos dois estados. Sendo assim, esta pesquisa se justifica por observar o desenvolvimento regional instigado pela cadeia agroindustrial do arroz e, então, sugerir políticas para a sua consolidação e bom desempenho, visando a melhoria de condições de vida da população local.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Esta seção é constituída de uma revisão de literatura acerca do desenvolvimento, focando o adjetivo regional dado a este termo, do conceito de cadeias produtivas, visando observar os elementos que delas participam, e uma rápida referência à relação existente entre desenvolvimento regional e cadeias produtivas agroindustriais.

2.1 O DESENVOLVIMENTO REGIONAL

É inevitável, quando se está tratando de desenvolvimento, diferenciá-lo de crescimento

É pressuposto, neste trabalho, que a cadeia agroindustrial do arroz no Rio Grande do Sul é bem desenvolvida, tendo em vista a tradição na rizicultura, a participação na economia estadual e a grande quantidade de atividades terciárias e setores auxiliares a ela ligada, conforme Fochezatto (1994).

Roraima possui, por sua vez, forte potencial para o desenvolvimento desta cadeia. As condições agronômicas são adequadas, havendo duas safras anuais. Conforme informações da Associação dos Arrozeiros, o principal mercado consumidor do grão beneficiado é o estado do Amazonas (aproximadamente 75% da produção), em especial a cidade de Manaus, o restante é consumido em Roraima.

Este trabalho encontra-se estruturado da seguinte forma: após esta introdução, está o referencial teórico que embasa a pesquisa e, em seguida, a seção que apresenta os métodos utilizados. A quarta seção mostra os resultados encontrados e, a seguir apresentam-se as considerações finais.

econômico. Essa distinção se faz necessária tendo em vista que este último tem relação estreita com o valor do produto de um país ou região, enquanto o desenvolvimento é um conceito amplo, que agrega diversas dimensões.

No entanto, a distinção entre esses dois conceitos é mais profunda. A noção de que crescimento e desenvolvimento são semelhantes provém da concepção de que o crescimento distribui renda para os proprietários dos fatores de produção e, com isso, traz melhorias de condições de vida à população. Essa percepção

não leva em conta que alguns fatores podem estar ocorrendo – por exemplo, a transferência do excedente de renda para outros países ou concentração do excedente em poucas parcelas da população – de forma a impedir a ocorrência das melhorias (SOUZA, 1999).

Para Furtado (1980, p.41), “a idéia do

desenvolvimento articula-se, numa direção, com

o conceito de eficiência, e noutra com o de riqueza. As formas mais racionais de comportamento corresponde uma satisfação mais plena das necessidades humanas” (FURTADO, 1980, p.41).

Milone (1984) afirma que para haver um processo de desenvolvimento é necessária a observação, ao longo do tempo, de existência de

crescimento do bem-estar econômico (como, por exemplo, aumento do PIB per capita), diminuição da pobreza, do desemprego e da desigualdade e

a elevação das condições de saúde, nutrição, educação e moradia.

Chenery (apud Souza, 1999) afirma que desenvolvimento envolve um conjunto de

transformações na economia que são necessárias

à continuidade de seu crescimento. Essas

mudanças são de ordem da composição da demanda, da produção e do emprego e, quando consideradas em conjunto, caracterizam a passagem de um sistema econômico tradicional para um moderno.

Clark (1940) considera que o desenvolvimento requer um processo que se inicie no setor primário, passe pelo setor secundário e chegue ao setor terciário.

Conforme Souza (1999, p.22), o desenvolvimento caracteriza-se “pela existência de crescimento econômico contínuo, em ritmo superior ao crescimento demográfico, envolvendo mudanças das estruturas e melhorias de

indicadores econômicos e sociais. Compreende um fenômeno de longo prazo, implicando o fortalecimento da economia nacional, a ampliação da economia de mercado e a elevação geral da produtividade”.

Furtado (1980, p.16) afirma que “a rigor, a idéia de desenvolvimento possui pelo menos três dimensões: a do incremento da eficácia do sistema social de produção; a da satisfação de necessidades elementares da população e a consecução de objetivos a que almejam grupos dominantes de uma sociedade e que competem na utilização de recursos escassos”.

Sachs (2004) vai mais além ao afirmar que desenvolvimento requer mais do que melhoras econômicas e sociais. Para esse autor, desenvolvimento exige um equilíbrio entre cinco dimensões: a social, a ambiental, a territorial, a econômica e a política. Este autor é taxativo ao afirmar que apenas processos que incluam as dimensões econômica, social e ambiental podem ser considerados desenvolvimento:“estritamente falando, apenas as soluções que consideram estes três elementos, isto é, que promovam o crescimento econômico com impactos positivos em termos sociais e ambientais, merecem a denominação de desenvolvimento” (SACHS, 2004, p.36).

A complexificação da compreensão do desenvolvimento tem feito surgir adjetivos – socioeconômico, sustentável, regional, local, territorial – a esse conceito (SACHS, 2004, ALMEIDA, 1998).

Colpo (2005, p.193) também concorda com essa afirmativa:

Na tentativa de delimitar mais a questão do desenvolvimento, passaram a vê-lo sob o foco das possibilidades locais e regionais, mas que da mesma forma de um desenvolvimento global

é um processo multifacetado, ou seja, que há diferentes aspectos que precisam ser considerados concomitantemente. Desta forma, os desenvolvimentos regionais se diferenciam entre si exatamente porque abordam aspectos específicos, envolvendo diferentes atores e agentes em múltiplos contextos e tempos e em relações e interesses diversos.

Observando o conceito de desenvolvimento regional, Vázquez Barquero (2002, p.19) afirma que o desenvolvimento ocorre em decorrência da “utilização do potencial e do excedente gerado localmente e, eventualmente, da utilização de recursos externos, assim como pela incorporação das economias externas ocultas nos processos produtivos”.

Para Boisier (1996), existem motivos de ordem macro e micro para que os países tenham interesse no desenvolvimento regional. Na perspectiva macro, está a “inconciliabilidade” entre o objetivo de ser competitivo e a manutenção de estruturas decisórias centralizadas. Na perspectiva micro, está a decisão de migrar do indivíduo, devido ao fato de a realização de um projeto de vida estar ligado ao entorno em que ele vive.

Segundo Becker (2003), a diferença de desenvolvimento entre as regiões é devida à capacidade de algumas conseguirem desenvolver seu próprio modelo de desenvolvimento e outras não. Esses modelos são resultados da integração dos interesses locais (sociais e ambientais) na dinâmica global do desenvolvimento. No caso do não envolvimento dos agentes regionais para a construção da sua própria dinâmica de desenvolvimento, é o mercado capitalista que decide os rumos que a região irá seguir.

Esta integração, na sua forma de (re)ação ativa, somente será possível se os agentes regionais, enquanto protagonistas diretos do

desenvolvimento regional, conceberem e fizerem nascer, naturalmente, um processo de uma organização social pró-desenvolvimento regional através de uma crescente participação política (BECKER, 2003, p. 49).

Para Amaral Filho (1996), o desenvolvimento regional endógeno é um dos pontos mais importantes para melhoria na qualidade de vida de uma população. Esse desenvolvimento é centrado nos atores locais e não mais no planejamento centralizado, conduzido pelo Estado nacional.

O conceito de desenvolvimento endógeno pode ser entendido como um processo interno de ampliação contínua da capacidade de agregação de valor sobre a produção, bem como da capacidade de absorção da região, cujo desdobramento é a retenção do excedente econômico gerado na economia local e/ou a atração de excedentes provenientes de outras regiões. Esse processo tem como resultado a ampliação do emprego, do produto e da renda local ou da região (AMARAL FILHO, 1996, p.37).

Conforme Vázquez Barquero (2002) existem quatro determinantes do desenvolvimento endógeno: a difusão das inovações e do conhecimento, o que cria economias externas à indústria, das quais todas as empresas se beneficiam; a organização flexível da produção, que permite que as empresas usufruam de economias internas e externas; o desenvolvimento urbano do território, pois é nas cidades que se desenvolvem os novos espaços industriais e de serviços, devido às potencialidades de desenvolvimento e à capacidade de gerar externalidades; e a flexibilidade e complexidade institucional, tendo em vista que são as instituições que condicionam os processos de acumulação de capital.

Amaral Filho (1996) afirma que o desenvolvimento regional endógeno não deve ser entendido com um processo de autocentrismo e auto-suficiência, mas como um processo de transformação, fortalecimento e qualificação das estruturas internas. Com isso, a forma e a composição do desenvolvimento endógeno devem variar conforme as estruturas socioeconômicas, culturais, institucionais e político-decisórias de cada espaço.

2.2 CADEIAS PRODUTIVAS AGROINDUSTRIAIS

Conforme Bueno (1996), cadeia significa corrente, série de qualquer coisa. Nesse sentido, é que se pretende tratar esse conceito neste trabalho: uma cadeia produtiva agroindustrial enquanto fenômeno, não entrando no mérito das abordagens teóricas acerca deste conceito.

O objetivo principal da seção é observar os elementos que compõem uma cadeia produtiva agroindustrial, isto é, enfocar o número possível de relações entre agentes que podem participar do desenvolvimento de uma cadeia, seja apenas da cadeia principal (vertical) ou desta com os setores auxiliares.

Morvan (1991) afirma que a noção de cadeia (filère) é, atualmente, imprecisa, sendo mais sensato apresentar os elementos que sempre estarão presentes. Uma cadeia é uma sucessão de operações; é um conjunto de relações comerciais e financeiras; é um conjunto de relações econômicas. Assim, uma cadeia é um sistema, composto de subsistemas lógicos, com regras e contratos envolvidos.

Conforme Pedrozo, Estivalete e Begnis (2004), as interações existentes entre os elementos que compõem uma cadeia estabelecem relações de complementaridades e de interdependência entre os atores envolvidos,

Portanto, o desenvolvimento endógeno

é um processo diferenciado e diferenciador à

medida que é potencializado pelas especificidades sociais e culturais da região (BECKER, 2003).Assim, requer força dos atores locais para que sejam alcançados benefícios em todas as dimensões que esse conceito engloba.

de forma que esses podem se modificar e serem substituídos ao longo do tempo.

Para Batalha e Silva (1997), uma cadeia de produção agroindustrial pode ser segmentada em três macrossegmentos, sendo que essa divisão pode não ser facilmente identificada na prática.

As três classificações são: a comercialização, que representa as empresas que estão em contato com

o consumidor final (como supermercados e

restaurantes), podendo também serem incluídas

as empresas responsáveis somente pela logística

e distribuição; a industrialização, que engloba os responsáveis pela transformação das matérias- primas em produtos finais; e a produção de matérias-primas, que inclui as firmas fornecedoras de matérias-primas para o processo de produção final, ou seja, neste macrossegmento se encontram a agricultura, a pecuária, a pesca, etc.

A produção de insumos para a produção de matérias-primas não está nesta classificação, contudo Batalha e Silva (1997) ressaltam que ela tem grande importância na cadeia.

Estes autores, ainda, afirmam que “dentro de uma cadeia de produção agroindustrial podem ser visualizados quatro mercados com diferentes características: mercado entre os produtores de insumo e os produtores rurais; mercado entre

produtores rurais e agroindústria; mercado entre agroindústria e distribuidores e, finalmente, mercado entre distribuidores e consumidores finais” (BATALHA; SILVA, 1997, p.29).

Morvan (1991) afirma que, devido à amplitude do conceito de cadeia (filière), ela pode ser empregada em diferentes situações: como instrumento de análise técnico-econômica das estruturas de produção; na segmentação do sistema produtivo, quando se deseja conhecer as relações de interdependência; como método de análise da estratégia das firmas; e, como definição de políticas públicas.

Dentro deste último emprego da noção de cadeia (intervenção governamental), está a possibilidade da expansão ordenada e eficiente do sistema produtivo e a proteção contra a concorrência internacional (MORVAN, 1991).

Zylbersztajn (2000) utiliza o conceito de sistema agroalimentar por afirmar que este é mais amplo que o conceito de cadeia vertical de produção, ressaltando, além do ambiente institucional, que é contemplado pela noção de cadeia, a importância das organizações de suporte ao funcionamento do sistema.

2.2.1 A cadeia produtiva do arroz

A seguir é apresentada a estrutura da

cadeia produtiva do arroz no Rio Grande do Sul, conforme Fochezatto (1994) a qual será tomada como referência neste estudo.

O Quadro 1 mostra os três grandes

segmentos da cadeia: no centro está a cadeia

Na visão do sistema agroalimentar, as relações entre os agentes se modificam com o tempo, variando entre cooperação e conflito. Por isso, “essa complexa rede de relações não pode ser entendida como linear” (ZYLBERSZTAJN, 2000, p.15). Para o autor os sistemas agroalimentares se parecem muito com uma rede de relações, onde cada agente desenvolve e aperfeiçoa relações com os demais, tornando o sistema agroalimentar mais ou menos eficiente.

A partir do exposto apreende-se que uma cadeia de produção agroindustrial é composta por diferentes segmentos da economia, o que leva a participação de vários agentes, sejam eles empresas ou indivíduos. O maior desenvolvimento de uma cadeia tende a agregar maior número de participantes, que podem ser alocados na cadeia principal ou nos setores auxiliares, como no setor financeiro ou no de publicidade.

Assim, o desenvolvimento de uma cadeia produtiva numa determinada região leva ao crescimento do produto, do emprego e melhoria nas condições de vida da população local.

principal, à esquerda estão as atividades terciárias relacionadas ao funcionamento de tal cadeia, como transportes e armazenamento; e à direita, os setores auxiliares, por exemplo, implementos agrícolas e embalagens.

Quadro 1 - Cadeia Agroindustrial do Arroz no Rio Grande do Sul. Fonte: Fochezatto (1994).

Quadro 1 - Cadeia Agroindustrial do Arroz no Rio Grande do Sul.

Fonte: Fochezatto (1994).

Conforme Fochezatto (1994), “as colunas laterais, atividades terciárias e cadeias auxiliares, fornecem insumos, maquinaria e serviços à cadeia principal. A cadeia principal vai transformando matéria-prima e produtos intermediários até atingir as características desejadas pelo mercado consumidor” (FOCHEZATTO, 1994, p.62).

Cabe ressaltar que a cadeia principal gera encadeamentos de forma a criar diversos investimentos em outros ramos da economia, como o de maquinaria e o bancário, gerando empregos e renda para a região.

2.3 CADEIAS PRODUTIVAS AGROINDUSTRIAIS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL

A relação entre cadeias produtivas e desenvolvimento regional é muito próxima: o bom desempenho de um leva ao sucesso do outro.

Quando uma cadeia produtiva agroindustrial tem todos os seus elos, ou pelo menos grande parte deles, numa região, há o crescimento do produto e da renda per capita, aumento no número de empregos, introdução de novas tecnologias etc; o que tende a modificar as condições de vida da população local, ou seja, inicia-se o processo de desenvolvimento.

Rippel e Lima (1999), por exemplo, afirmam que o desenvolvimento do município de Toledo- PR durante a década de 1980 se deu, inicialmente, em função da produção de suínos altamente organizada, o que levou à instalação de um frigorífico de abate e processamento destes animais.Após o surgimento do frigorífico, ocorreu uma série de encadeamentos, enriquecendo o parque industrial do município com empresas que vão desde o curtume e fabricação de calçados até a cutelaria e embalagens, o que gerou grande valor agregado aos produtos, gerando empregos e renda para a população. Afirmam, ainda, que o

surto desenvolvimentista foi tão forte que gerou a formação de um pólo têxtil-fabril na região.

Diniz et al. (2006) afirma, ao estudar os efeitos do setor pesqueiro na Amazônia, que os encadeamentos para trás e para frente da pesca seriam de grande valia para o desenvolvimento regional. No entanto, há a necessidade de políticas públicas para impulsionar a cadeia, introduzindo novas tecnologias e qualificando a mão-de-obra local e ainda melhorando a infra- estrutura de beneficiamento, armazenamento e comercialização.

Conforme Barreto Junior et al. (2003), que analisa a cadeia da fruticultura irrigada em Sergipe, os elos fracos existentes, isto é, a inexistência de alguns componentes da cadeia – por exemplo, a indústria de processamento –, não permitiram a sustentabilidade da produção e a

3 METODOLOGIA

Para alcançar os objetivos propostos, foram utilizados dados obtidos nas bases de informações do Instituto Riograndense do Arroz (IRGA), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Associação dos Arrozeiros do Estado de Roraima e Secretaria de Coordenação e Planejamento do Rio Grande do Sul, além de outras informações provenientes da literatura consultada.As variáveis de cada estado com seus valores, anos de referência e fontes estão no anexo deste trabalho.

A comparação entre elementos das cadeias dos dois estados foi realizada a partir da observação da cadeia agroindustrial do arroz gaúcha de Fochezatto (1994), apresentada na revisão de literatura deste artigo, e a posterior constatação de existência ou ausência do elemento na economia de Roraima.

formação de um cluster regional. Os efeitos desta imperfeição da cadeia podem ser visto nos efeitos multiplicadores reduzidos na economia local.

Para estes autores, a expansão das atividades produtivas depende de fatores como investimentos públicos e privados em infra- estrutura e, também, de um ambiente sócio- institucional refinado (BARRETO JUNIOR et al.,

2003).

A partir do exposto, é possível concluir que

o desenvolvimento regional depende, entre

outros fatores, da construção de cadeias produtivas sólidas e bem organizadas, tendo em vista que os investimentos gerados para atender demandas destas cadeias trazem grandes contribuições para o desenvolvimento socioeconômico da região e, conseqüentemente, do país.

Os dados quantitativos referentes à produção e emprego nas atividades da cadeia também foram comparados a fim de demonstrar

a expressividade da cadeia produtiva do arroz

nos dois estados. As variáveis utilizadas são:

produtividade do estado, custo da produção por hectare, valor da produção de arroz em casca, participação da orizicultura no PIB estadual, área média das lavouras, número de orizicultores, trabalhador por hectare de lavoura, empregos gerados na lavoura e gerados em toda a cadeia.

Por fim, foram comparadas informações socioeconômicas em dois municípios de cada estado para se observar se a cadeia analisada está, juntamente com suas atividades terciárias e setores auxiliares, trazendo melhores condições de vida à população, ou seja, se está havendo desenvolvimento regional.

O uso de informações para municípios no

lugar de dados para o estado, como vinha sendo feito até então, se deu em função de que nos indicadores estaduais há a influência expressiva de outras atividades não relacionadas com a cadeia agroindustrial do arroz, no caso de Roraima, a administração pública e, no Rio Grande do Sul, a indústria de transformação.

A escolha dos dois municípios de cada

estado foi efetuada usando como critério o maior percentual de área municipal plantada com arroz, segundo dados do IBGE, no ano de 2000,

buscando a maior influência possível da cadeia do arroz no desenvolvimento regional.A escolha deste ano está relacionada com este ser o ano mais recente de cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), disponível na base de informações do IPEA.

Os indicadores utilizados nesta fase foram:

taxa de participação da população economicamente ativa em relação à população total; analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais; o IDH municipal e seus desdobramentos nas dimensões renda, saúde e educação.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A seguir estão apresentados os resultados.

Inicialmente, efetua-se uma análise comparativa entre as cadeias dos dois estados, visando observar a existência ou ausência dos diferentes elementos (elos) componentes. Num segundo momento, as

comparações entre dados da cadeia no Rio Grande do Sul e Roraima. E, por fim, mostra-se a comparação entre os indicadores socioeconômicos dos municípios mais representativos na produção de arroz dos dois estados.

4.1 COMPARAÇÃO ENTRE ELEMENTOS DAS CADEIAS

Observando a desenho da cadeia agroindustrial do arroz no Rio Grande do Sul proposta por Fochezatto (1994), é possível afirmar que a maior deficiência existente na cadeia do arroz em Roraima se encontra nos setores auxiliares e nas atividades terciárias.

A cadeia principal é a mesma nos dois

estados, ou seja, os elos existem tanto no Rio Grande do Sul quanto em Roraima. Cabe ressaltar algumas especificidades de Roraima: enquanto no estado do Sul a produção da matéria-prima e o seu beneficiamento são feitos por agentes diferentes, em Roraima, os grandes produtores do grão são, também, os proprietários dos engenhos de beneficiamento, sendo que eles ainda compram a produção dos produtores em menor escala para atendimento da demanda pelo

produto beneficiado. Outro ponto a ser destacado refere-se à distribuição dos produtos, em especial do arroz beneficiado: o canal de distribuição é indireto e curto, ou seja, não existe um intermediário atacadista entre a industrialização do grão e o comércio varejista. As próprias empresas distribuem seus produtos nos pontos de venda, seja em Roraima ou em outros estados, como Amazonas e Pará.

Dentre as atividades terciárias listadas, a publicidade é a mais carente. Existe no estado de Roraima empresas deste ramo, no entanto, por terem tecnologias menos avançadas para a produção de materiais publicitários, os empresários de maior poder aquisitivo preferem contratar serviços de outras localidades, em geral de Manaus, no Amazonas. A atividade de

consultoria técnica-agronômica é feita por funcionários contratados, ou pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) que possui um Centro de Pesquisa no estado. Contudo, já existem empresas privadas de consultoria, que prestam, além de serviços técnico-agronômicos, assistência mercadológica. O armazenamento é feito, essencialmente, pelos empresários nas dependências dos engenhos de beneficiamento.

Os setores auxiliares são quase que inexistentes em Roraima. Esta observação aponta para o fato de que os investimentos na cadeia produtiva do arroz não estão levando a encadeamentos que resultem na implantação de outros setores associados. Com relação às

atividades terciárias, é possível afirmar que a maioria das citadas não está ligada diretamente à cadeia produtiva do arroz, isto é, existem apenas pelo fato de haver uma população expressiva na região.

Apesar de não terem sido abarcadas pela cadeia agroindustrial do arroz utilizada neste estudo, as instituições de pesquisa têm grande participação no desempenho da cultura, tendo em vista que introduzem tecnologias adequadas às condições ambientais locais. Essas tecnologias muitas vezes acabam influenciando o desempenho de cadeias de outras regiões. No caso de Roraima, entre os três cultivares mais difundidos estão, conforme Carneiro e Medeiros (2005), duas desenvolvidas pelo IRGA.

4.2 COMPARAÇÃO ENTRE INDICADORES QUANTITATIVOS

Analisando dados de produtividade dos dois estados para a safra de 2003, observa-se que a produtividade em Roraima (5.450kg/ha) foi maior que a do Rio Grande do Sul (4.883kg/ ha). No entanto, os custos de produção de Roraima foram expressivamente maiores que os do estado do Sul: em Roraima, o custo de produção foi de aproximadamente R$2.500,00/ ha enquanto que, no Rio Grande do Sul, foi de R$1.800,00/ha, valor também aproximado.

Na safra de 2003, o valor da produção de arroz em casca foi, no Rio Grande do Sul e em Roraima, respectivamente, de R$ 3 bilhões e R$ 59 milhões. Esses valores representaram cerca de 2% e 10% no PIB do Rio Grande do Sul e Roraima, respectivamente. Por meio destes dados

e da análise da cadeia agroindustrial, do Quadro1,

é possível inferir que a produção do grão assume maior importância em Roraima, pois este não possui setores auxiliares, que agregam maior valor aos seus produtos capazes de produzir maior peso no PIB estadual.

Enquanto a área média das lavouras em Roraima é de 600ha, no Rio Grande do Sul esse valor é de 80ha. Neste estado, o número de produtores era, no ano de 2005, de 11.960. Em Roraima, a informação obtida para o mesmo ano diz respeito ao número de produtores de arroz irrigado, que é de 25, no entanto, o número total de rizicultores – de arroz irrigado e de sequeiro – não chega próximo do valor existente no Rio Grande do Sul. Cabe destacar que o arroz de sequeiro tem participação muito pequena no PIB de Roraima, tendo em vista que o cultivo deste é destinado à subsistência familiar.

As lavouras de arroz em Roraima geram um total de 600 empregos e, no Rio Grande do Sul, 37.387 empregos. Quando estes valores são observados em relação à área total plantada, é possível perceber que a rizicultura no Rio Grande do Sul é pouco mais intensiva em mão-de-obra que em Roraima: neste estado há um trabalhador por 30,84ha de lavoura, enquanto que no estado do Sul há um trabalhador para cada 27,8ha.

Conforme Secretaria de Coordenação e Planejamento do Rio Grande do Sul apud Ludwig (2004), no Rio Grande do Sul, a cadeia principal

envolve 250.000 pessoas, já em Roraima, a cadeia absorve 1.000 empregos diretos, de acordo com a Associação de Arrozeiros.

4.3 COMPARAÇÃO ENTRE INDICADORES SOCIOECONÔMICOS

Para observar a influência da cadeia agroindustrial do arroz nos indicadores socioeconômicos, foram selecionados os dois

municípios de cada estado que, no ano de 2000, possuíam os maiores percentuais da sua área plantada com a cultura do arroz. No Rio Grande

do Sul, foram selecionados Capivari do Sul e

Uruguaiana que, em 2000, apresentavam 99,2% e 99,02% de suas áreas totais plantadas, respectivamente, com o arroz. Em Roraima, os municípios de Normandia (com 88,07% de sua área plantada ocupada pela rizicultura) e Pacaraima (com 71,94%) foram os selecionados.

A taxa de participação da população economicamente ativa em relação à população

total para os municípios gaúchos foi de 0,61 para Capivari do Sul e 0,58 para Uruguaiana.

O mesmo indicador para o município

Normandia foi de 0,30 e para Pacaraima, 0,63.

É importante destacar que o primeiro município

citado de Roraima é essencialmente agrícola e

o segundo possui, por estar situado em zona

de fronteira com a Venezuela, um comércio

muito intenso. Essa informação corrobora o observado no item anterior com relação a menor intensidade de mão-de-obra na produção de arroz em Roraima. Quanto aos

municípios do Rio Grande do Sul, Capivari do

Sul tem sua economia voltada para atividades

primárias, como a produção de arroz e extração

de madeira, já Uruguaiana tem indústria

arrozeira bem desenvolvida, além de grande expressão na produção primária.

O percentual de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever é expressivamente maior nos municípios roraimenses – no ano de 2000, em Normandia 20,3% desta população era analfabeta e, em Pacaraima, 14,3%. Nos municípios do Rio Grande do Sul os valores eram de 9% e 6,1% para Capivari do Sul e Uruguaiana, respectivamente.

Para observar o desenvolvimento socioeconômico dos municípios foi utilizado um índice composto, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), que leva em consideração três dimensões – renda, educação e saúde. Os valores do Índice para os municípios do Rio Grande do Sul são ambos maiores que aqueles para os municípios de Roraima. O IDH-M de Capivari do Sul é 0,807 e o de Uruguaiana é 0,788, sendo que os melhores desempenhos destes estão na dimensão de educação e o pior desempenho na renda, no entanto, todos os valores das dimensões situam-se acima de 0,700 – o que pode ser entendido como desenvolvimento de médio a alto.

No caso dos municípios de Roraima, Normandia tem IDH-M de 0,600 e o valor para Pacaraima é 0,718. Pacaraima tem o seu bom desempenho alçado pelo índice da dimensão educação, que é próximo aos dos municípios gaúchos, já Normandia tem o seu IDH-M reduzido, tendo em vista que possui os valores mais baixos nas três dimensões entre os quatro municípios analisados. Contudo, chama atenção o valor da dimensão renda que é de 0,472 – o menor valor das três dimensões entre os observados.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O referencial teórico apresentado enfatiza

que o desenvolvimento regional é influenciado pela organização e o desempenho de cadeias produtivas. Essa afirmação foi corroborada pelos resultados alcançados neste trabalho.

Os indicadores socioeconômicos observados apontam que os melhores resultados estão localizados onde a cadeia agroindustrial do arroz é mais desenvolvida, o que gera a presença de inúmeras atividades terciárias e setores auxiliares, ou seja, os indicadores analisados têm melhor desempenho no Rio Grande do Sul que em Roraima.

A estrutura das lavouras arrozeiras em

Roraima, também, é um fator de menor geração de emprego: as grandes extensões das plantações não privilegiam a maior contratação de mão-de- obra. No entanto, é a falta de atividades terciárias e, principalmente, de setores auxiliares que não permitem maior expressão da cadeia agroindustrial do arroz no desenvolvimento do estado.

Desta constatação é possível depreender que os investimentos na cadeia do arroz ainda não atingiram magnitude suficiente para estimular o crescimento e surgimento destas atividades e setores e Roraima. É possível que, com a ampliação desta cadeia e a introdução de

outras novas, como a da soja e do milho, ascenda

o interesse de empresários locais, nacionais e até

internacionais na implantação de indústria de máquinas, fertilizantes, embalagens, artefatos de papel, etc., o que traria maior nível de emprego, maior renda para a população e produto para o estado e, assim, ampliação dos investimentos públicos em melhorias na saúde, educação, cultura e lazer, elevando o nível de bem-estar populacional.

Contudo, para a consolidação da cadeia agroindustrial do arroz, com seus setores

auxiliares e atividades terciárias, e a implantação de outras cadeias produtivas, são necessárias a ação dos governos estadual e nacional de forma

a solucionar problemas que vêm impedindo o

desenvolvimento de Roraima através do agronegócio tais como a indefinição fundiária; a infra-estrutura precária, havendo necessidade de interiorização da energia elétrica e melhorias em estrada, pontes e balsas; aperfeiçoamento das políticas de incentivo as atividades produtivas e maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias.

Roraima possui condições potenciais de atingir níveis significativos de desenvolvimento na cadeia produtiva do arroz, porém faz-se necessária a sensibilização governamental aos problemas enfrentados.

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ANEXO 1

ANEXO 1 Quadro 2 - Variáveis Utilizadas na Análise para o Rio Grande do Sul. Nota:

Quadro 2 - Variáveis Utilizadas na Análise para o Rio Grande do Sul.

Nota: (*) Secretaria de Coordenação e Planejamento do Rio Grande do Sul apud Ludwig (2004).

ANEXO 2

ANEXO 2 Quadro 3 - Variáveis Utilizadas na Análise para Roraima. Nota: (*) Associação dos Arrozeiros

Quadro 3 - Variáveis Utilizadas na Análise para Roraima.

Nota: (*) Associação dos Arrozeiros do Estado de Roraima.

CARACTERIZAÇÃO DA DEMANDA POR ALIMENTOS ARTESANAIS: UMA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE AVALIAÇÃO CONTINGENTE NA VALORAÇÃO DO SELO DE ORIGEM DE PALMAS-TO

Adriano Firmino Valdevino de Araújo * Adriano Nascimento da Paixão ** Fernanda Dias Bartolomeu Abadio Finco *** Franciele Ramos ****

RESUMO

O aumento da demanda por produtos saudáveis tem contribuído para a necessidade de uma oferta mais diversificada de alimentos. Muitos consumidores têm escolhido alimentos mais próximos daqueles in natura ou produzidos por processos tradicionais ou artesanais. Assim, a valorização dos produtos alimentares típicos vem se tornando uma das alternativas adotadas para promover o desenvolvimento local, em especial no meio rural. Com o intuito de valorizar o produto artesanal local, o Município de Palmas, estado do Tocantins, adotou uma estratégia de identificação para estes produtos, a partir da adoção do selo de origem de Palmas-TO. No entanto, tornam-se necessários estudos para verificar o impacto destas ações na promoção do desenvolvimento sustentável. Em especial aqueles da criação do selo de origem sobre o comportamento do consumidor. O objetivo deste trabalho foi verificar a percepção dos consumidores em relação ao selo de origem para alimentos artesanais. Para tanto, adotou-se o método de avaliação contingente para captar a disposição a pagar dos consumidores por produtos com o selo de origem. A adoção deste procedimento permitiu a caracterização da demanda por produtos artesanais, bem como a determinação do valor deste selo.

Palavras-chave: Selo de origem.Alimentos artesanais - Demanda. Método de avaliação contingente.

*

Doutor e Mestre em Economia pelo PIMES-UFPE; Professor Adjunto I do Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Palmas/TO. E-mail: afva77@uft.edu.br Doutorando em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (DER-UFV); Mestre em Economia pela Universidade Federal da Paraíba (PPGE-UFPB); Professor Assistente III do Curso de Ciências Econômicas da UFT. Palmas/TO. E-mail: anpaixao@uft.edu.br *** Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Professora Assistente III do Curso de Engenharia de Alimentos da UFT. Palmas/TO. E-mail: fernanda@uft.edu.br **** Acadêmica do Curso de Engenharia de Alimentos da UFT. Palmas/TO. E-mail: frandy1910@yahoo.com.br

**

CHARACTERIZATION OF THE DEMAND FOR CRAFTSMANSHIP FOOD: APPLICATION OF THE CONTINGENT VALUATION METHOD TO THE EVALUATION OF THE PALMAS–TO ORIGIN STAMP

ABSTRACT

The increasing demand for healthy products contributes to a more differentiated food assortment. Many consumers are choosing foods closer to those in natura or made by traditional or artisan processings.Thus, the valuation of the typical food products becomes an important action to contributes to rural development. Intentioning to value the local artisan foods, Palmas-TO city, Brazil, adopted a strategy to identify these products, based on a seal of origin. However, researches are still necessary to verify the impact of this action in the promotion of the sustainable development specially, evaluate the impact of a origin stamp on consumer’s behavior.The objective of this work is to verify the perception of the consumers about the origin seal for artisan foods. The contingent evaluation method was carried out to catch consumer’s willingness to pay for artisan food with the origin stamp.The adoption of this method allowed to characterizate the demand for artisan foods, as well as the determination of the value of the origin stamp.

Keywords: Origin Stamp. Healthy Products - Demanda. Valuation contingent method.

1

INTRODUÇÃO

Com o intuito de promover o desenvolvimento sustentável no meio rural, tem- se observado a implantação de políticas que promovem a agricultura familiar e, consequentemente, a geração de renda. Uma

tendência observada, a partir de tais políticas, é

a crescente valorização de produtos artesanais,

caracterizados pela pequena escala e produção local. Do lado da demanda, essa tendência é reforçada pelo aumento da demanda por

produtos saudáveis e nutritivos, contribuindo para uma oferta mais diversificada de alimentos. Muitos consumidores têm escolhido alimentos mais próximos daqueles in natura ou produzidos por processos tradicionais ou artesanais. Assim,

a valorização dos produtos alimentares típicos

vem se tornando uma das alternativas adotadas para promover o desenvolvimento local, em especial o meio rural.

Seguindo esta tendência, o município de Palmas-TO vem regulamentando a comercialização de produtos artesanais, sendo uma das principais ações a criação de um selo de origem para estes produtos. No entanto, tornam-se necessários estudos para verificar o impacto de ações de valorização de produtos

nacionais na promoção do desenvolvimento sustentável. Em especial, o impacto da criação e aplicação de selo de origem a alimentos artesanais, sobre o comportamento do consumidor.

Neste sentido, o objetivo deste trabalho é verificar a disposição a pagar dos consumidores em relação ao selo de origem utilizado no município de Palmas, Tocantins. Para tanto, foi adotado o método de avaliação contingente. Este procedimento permitiu a caracterização da demanda por produtos artesanais, bem como a determinação do valor deste selo. Neste estudo foram considerados, apenas, os alimentos artesanais.

O presente artigo está dividido em seis partes, incluindo esta introdução. Na parte dois são feitas considerações a respeito do produto artesanal, relacionando-o com a promoção do desenvolvimento sustentável no meio rural. Na parte três apresenta-se o modelo de avaliação contingente. Os aspectos metodológicos são apresentados na parte quatro. A análise e discussão dos resultados constam na parte cinco e as conclusões na parte seis.

2 CONSIDERAÇÕES SOBRE PRODUTOS ARTESANAIS

 

A abertura econômica, observada durante

rural, principalmente em países da União

início dos anos 1990, trouxe consigo uma oferta massiva e estandardizada de alimentos para as

o

Européia e, também, nos Estados Unidos.

classes de renda mais favorecidas. No entanto, a procura por alimentos que fogem a estas características tem sido uma tendência observada em países desenvolvidos. Esta última tendência

Bonano et al. (apud CAMPANHOLA; SILVA, 2000) afirmam que nos países em desenvolvimento, a globalização acelera o processo de exclusão social dos pequenos

é

confirmada pelo fato de que o processamento

produtores, dos trabalhadores e dos

e

comercialização de produtos artesanais vêm

consumidores mais pobres. É neste contexto que

se constituindo em uma alternativa promissora para um desenvolvimento sustentável na zona

os produtos artesanais surgem como uma importante alternativa para promover o

desenvolvimento local de pequenos produtores, proporcionando, assim, a elevação da renda, gerando postos de emprego, inserindo-se então no conceito de desenvolvimento local.

Se os produtos artesanais típicos podem se tornar uma forte alternativa para o aumento de renda das propriedades rurais, através da agregação de valor à produção agrícola destas propriedades, convém questionar a posição do mercado consumidor frente a estes produtos. Torna-se importante, portanto, verificar se há tendência de aumento no consumo de produtos artesanais, de modo a permitir uma análise de suas potencialidades como um fator a mais de promoção do desenvolvimento.

Segundo Maluf (1999), a proliferação da produção de alimentos artesanais, produzidos em pequena escala, seria desejável para a promoção de equidade social, bem como para a aproximação entre produção e consumo e na consolidação de

hábitos alimentares culturalmente estabelecidos. Todas estas vantagens podem ser canalizadas para

o meio rural através de uma adequada política de

valorização dos produtos artesanais, de modo a contribuir com o desenvolvimento sustentável na zona rural.

Assim, em atenção à conjunção dos fatores citados como motivadores do consumo dos produtos artesanais, várias políticas governamentais, merecem destaque. Nos últimos tempos, muitas políticas em nível municipal, estadual e nacional têm sido implantadas e

poderão, futuramente, beneficiar e incrementar

o processamento dos Produtos Artesanais. Uma

experiência a ser comentada aplica-se ao estado de Minas Gerais, no qual o Serviço de Vigilância Sanitária vem empreendendo um esforço conjunto para normatizar a produção de alimentos artesanais, de modo a permitir sua legalização e ampliar as garantias quanto à segurança, preservar sua identidade cultural, e

ao mesmo tempo trazer para o mercado formal uma parcela significativa da população que tem no alimento artesanal sua fonte de renda (UNIVERSIABRASIL, 2004).

Seguindo tal tendência, o município de Palmas-TO, por meio da Lei nº 1228, de 23 de outubro de 2003, sancionou normas de segurança alimentar para produtos alimentícios artesanais de origem animal e vegetal e regulamento técnico para os mesmos. Uma das ações desta lei é a identificação dos produtos artesanais a partir da criação de um selo de origem. Acredita-se que este selo cause algum impacto na expectativa do consumidor e ainda que pode proporcionar a segmentação do mercado com produtos cuja qualidade é identificada, garantida, respondendo aos anseios do mercado (PALMAS, 2004).

A produção de alimentos com garantia de qualidade e origem pode assegurar melhores preços para os produtores, abrindo mercado para diversos produtos tipicamente regionais e criando condições de competitividade para os pequenos produtores familiares e conseqüentemente, refletindo em aumento da renda (ICEPA, 2000).

No entanto, é preciso obter dados sobre o

real impacto da adoção do selo de origem sobre

o comportamento do consumidor. Em Palmas,

este selo foi lançado não só para alimentos, mas inclui todos os outros produtos artesanais, com objetivo de valorizar a produção perante o mercado local, fortalecer a economia regional, incentivar o desenvolvimento competitivo, o aumento na participação no mercado dos produtos locais e a ampliação, em médio prazo, dos postos de trabalho. O intuito é mostrar para

a população o que é produzido no local, para

que o consumidor possa identificar e dar preferência ao produto local em relação a similares de outros centros, mantendo padrões

de qualidade e faixas de preço compatíveis com

a concorrência (PALMAS, 2004).

3 O MÉTODO DE AVALIAÇÃO CONTINGENTE

O método de avaliação contingente 1 procura evidenciar o valor de um ativo caracterizado como bem público através da quantificação do bem estar promovido por este. A base teórica para a fundamentação deste método reside na Teoria Microeconômica, mais especificamente, na Teoria do Consumidor. São considerados os conceitos de variações equivalentes (VE) e compensatórias (VC).

A variação compensatória corresponde ao adicional de renda, positivo ou negativo, capaz de fazer com que o consumidor permaneça no mesmo nível de utilidade diante de uma mudança no cenário econômico. A variação equivalente mede o impacto, em termos de renda, de uma

mudança no cenário econômico. Em outras

palavras, mede a variação de renda que faz com que o consumidor permaneça no mesmo nível

de utilidade anterior caso houvesse essa variação.

Portanto, o método de avaliação contingente procura medir as variações

compensatórias e equivalentes dos indivíduos em relação a alterações na disponibilidade dos recursos ambientais. Os conceitos de disposição

a pagar (DAP) e a receber (DAR) estão

estreitamente relacionados com a teoria econômica através dos conceitos de VC e VE. As relações entre DAP e DAR com os conceitos de variação compensatória e variação equivalente podem ser vistos a partir do Quadro 1.

equivalente podem ser vistos a partir do Quadro 1. Quadro 1 - Relações entre os conceitos

Quadro 1 - Relações entre os conceitos de DAR e DAP e os conceitos de VE e VC.

Fonte: Araújo (2002).

Na prática, as disposições a pagar e a receber dos indivíduos podem ser captadas através de alguns métodos específicos, sendo os principais:

i. Método de lances livres (ou forma

aberta): consiste em perguntar aos indivíduos, de forma direta, o quanto estariam dispostos a pagar ou receber. Desse modo, é criada uma variável contínua de “lances”, sendo o valor esperado da DAP ou DAR estimado a partir da média;

ii. Mecanismo de cartões de pagamento:

vários valores são apresentados para o indivíduo por meio de cartões; este escolhe o cartão correspondente ao valor que melhor represente sua DAR ou DAP;

iii. Mecanismo de jogos de leilão: esse

método utiliza um valor inicial como referência. No caso de estimação da DAP, este valor é diminuído quando a pessoa entrevistada não aceita o valor de referência e aumentado quando este aceita. Esses procedimentos são repetidos

até que se chegue ao valor referente à DAP do entrevistado. Os procedimentos para a DAR são similares. A única diferença é que os valores são aumentados quando há a recusa e diminuídos quando aceitados;

iv. Método referendo (ou método de escolha

dicotômica): o indivíduo se vê diante de um determinado valor, tendo que escolher se aceita ou não pagá-lo ou recebê-lo. Essa quantia deve ser diferenciada de indivíduo para indivíduo entrevistado, de modo a garantir uma análise da freqüência das respostas diante de vários níveis de lances; e

v. Método referendo com acompanhamento:

este método consiste, basicamente, em um mecanismo de jogos de leilão reduzido, em que são computados os aceites ou recusas por meio de uma variável dicotômica.

As principais vantagens e desvantagens desses métodos podem ser observadas a partir do Quadro 2 Em geral, o método referendo é preferido pelas vantagens em relação aos demais. Esse método, além de minimizar comportamentos estratégicos, aproxima-se da verdadeira experiência de um mercado real, onde os consumidores decidem ou não comprar dado um preço. No mais, métodos ou mecanismos que utilizam um valor inicial podem induzir o comportamento do entrevistado.

inicial podem induzir o comportamento do entrevistado. Quadro 2 - Vantagens e desvantagens dos métodos de

Quadro 2 - Vantagens e desvantagens dos métodos de captação.

Fonte: PETHIG apud PESSÔA (1996). (1) método de lances livres; (2) mecanismo de cartões de pagamento; (3) mecanismos dos jogos de leilão e (4) método referendo. *P = pesquisa pessoal; T = pesquisa por telefone e C = pesquisa por correspondência. **No entanto, existem problemas em relação às respostas nulas ou de protesto.

4 NOTAS METODOLÓGICAS

4.1 DESENHO DA PESQUISA

As informações e dados utilizados neste trabalho foram coletados a partir da aplicação de questionário. Realizou-se um pré-teste com quarenta consumidores na Universidade Federal do Tocantins (UFT) para avaliar o nível de compreensão das perguntas do questionário.

Foram consideradas questões demográficas (idade, sexo etc.), socioeconômicas (renda pessoal, renda familiar etc.) e questões acerca da percepção dos indivíduos em relação a produtos e alimentos artesanais, bem como em relação ao selo de origem de Palmas-TO. A

pesquisa parte do conceito de disposição máxima a pagar (DAP), indicando o quanto a pessoa está disposta a pagar a mais por um alimento que contenha o selo de origem de Palmas-TO em relação ao mesmo alimento que não contenha este selo. O intuito foi estimar a probabilidade do indivíduo em aceitar pagar um determinado valor.

Foram realizadas 100 entrevistas, no período de julho a novembro de 2004, das quais 94 foram validadas 2 . Na determinação da amostra adotou-se um critério não probabilístico, dada algumas características do universo da pesquisa. Observe que, apesar de a população do município de Palmas-TO ser conhecida, a parcela dessa população que compra alimentos artesanais não é conhecida. Diante disso, não foi possível aplicar um critério probabilístico para determinação da amostra 3 .

De modo a garantir uma maior representatividade, as entrevistas foram distribuídas nos principais supermercados e feiras livres do município de Palmas-TO. Todos os indivíduos abordados que consentiram em responder o questionário foram entrevistados.

A captação da DAP foi efetuada pelo método referendo com acompanhamento. Segundo Araújo (2002), neste método são apresentados diversos valores para o entrevistado, sendo computados os aceites ou recusas para cada valor apresentado através

de uma variável dummy. Foram apresentados cinco valores não nulos para cada entrevistado, estipulados a partir da pesquisa piloto, o que permitiu quintuplicar o tamanho da amostra. Os valores apresentados foram: R$2,00, R$1,50, R$1,00, R$0,50, R$0,10. Cada entrevistado deveria responder se aceitava ou não pagar cada um destes valores a mais por um produto com o selo de origem de Palmas-TO em relação ao mesmo produto sem este selo. Acessoriamente, foi adotado o método aberto de captação da DAP, que consiste em perguntar diretamente ao entrevistado o quanto ele estaria disposto a pagar a mais (ARAÚJO, 2002; PAIXÃO, 2002).

A disposição máxima a pagar foi a alternativa escolhida por ser recomendada, devido ao seu caráter conservador, por muitos estudiosos da área (MOTTA, 1998). De qualquer forma, esta parece ser a escolha mais difundida em trabalhos que envolvem a aplicação do método de valoração contingente (ARAÚJO, 2002). Em geral, o método referendo (com ou sem acompanhamento) é preferido por apresentar vantagens em relação aos demais. Esse método, além de minimizar comportamentos estratégicos, aproxima-se da verdadeira experiência de um mercado real, onde os consumidores decidem ou não comprar dado um preço. No mais, métodos ou mecanismos que utilizam um valor inicial podem induzir o comportamento do entrevistado (BELLUZZO JUNIOR, 1999).

4.2 ESTIMAÇÃO DA DAP: O MODELO LOGIT

A estimação do valor representativo para a DAP segue a abordagem sugerida por Hanemann 4 .

Para tanto, será utilizado o modelo logit para esta estimação.

O modelo logit é definido como:

para esta estimação. O modelo logit é definido como: (1) onde y i representa a variável

(1)

onde y i representa a variável dummy, X i o vetor de variáveis explicativas e β o vetor de parâmetros. Da mesma forma, pode-se definir:

o vetor de parâmetros. Da mesma forma, pode-se definir: (2) A esperança condicionada de y i

(2)

A esperança condicionada de y i é dada, portanto, por:

A esperança condicionada de y i é dada, portanto, por: (3) Conforme a equação (3), a

(3)

Conforme a equação (3), a função F( β ’X i ) pode ser vista como a probabilidade condicional de y i assumir o valor 1, dado um certo valor de β ’X i , respeitando o intervalo (0,1), Através da equação (1), tem-se que:

o intervalo (0,1), Através da equação (1), tem-se que: (4) A estimação do modelo logit é
o intervalo (0,1), Através da equação (1), tem-se que: (4) A estimação do modelo logit é

(4)

A estimação do modelo logit é geralmente feita a partir do Método de Máxima Verossimilhança.

Segundo Maddala (1983), a função de Verossimilhança é definida como:

(1983), a função de Verossimilhança é definida como: (5) a estimativa do vetor β deve maximizar
(1983), a função de Verossimilhança é definida como: (5) a estimativa do vetor β deve maximizar

(5)

a estimativa do vetor β deve maximizar essa função 5 .

O efeito da variação de uma das variáveis explicativas no valor esperado de y i é obtido derivando

a equação (3). Utilizando a equação (1), o resultado dessa derivada pode ser escrito como:

(1), o resultado dessa derivada pode ser escrito como: (6) a equação (6) mostra o efeito

(6)

a equação (6) mostra o efeito marginal de X ki em y i .

De modo a facilitar a estimação da probabilidade condicional, são efetuados alguns

, as equações (1) e (2) podem ser escritas

procedimentos matemáticos. Admitindo que como:
procedimentos matemáticos. Admitindo que
como:

(7)

procedimentos matemáticos. Admitindo que como: (7) (8) Dividindo a equação (7) pela equação (8), obtém-se:

(8)

Dividindo a equação (7) pela equação (8), obtém-se:

(8) Dividindo a equação (7) pela equação (8), obtém-se: (9) Segundo Ramanathan (1998), a equação (4.9)

(9)

Segundo Ramanathan (1998), a equação (4.9) é conhecida como razão de probabilidade em favor da dummy assumir o valor 1.Tomando o logaritmo natural dessa equação e denotando o resultado como L i , tem-se:

equação e denotando o resultado como L i , tem-se: (10) Para fins de estimação se

(10)

Para fins de estimação se considera um componente aleatório de perturbação na equação (10), de forma que:

de perturbação na equação (10), de forma que: (11) onde ε i é o termo de

(11)

onde ε i é o termo de perturbação estocástica.A equação (11) representa o modelo logit propriamente dito (RAMANATHAN, 1998). Uma vez estimado o vetor β , a estimativa da probabilidade condicionada pode ser obtida resolvendo a equação (11) para F( β ’X i ).

Hanemann (1984 e 1989) apresenta duas bases para a estimação de uma DAP representativa, d*.

A primeira base consiste em calcular a média de d e considerá-la como d*. Esse valor corresponde a:

de d e considerá-la como d*. Esse valor corresponde a: (12) onde t = d. A
de d e considerá-la como d*. Esse valor corresponde a: (12) onde t = d. A

(12)

onde t = d. A segunda base consiste em tomar d* como a mediana de d. Esse valor faz com que a probabilidade de aceitação seja igual à probabilidade de rejeição, ou seja:

seja igual à probabilidade de rejeição, ou seja: (13) Para que a equação (13) seja satisfeita,
seja igual à probabilidade de rejeição, ou seja: (13) Para que a equação (13) seja satisfeita,

(13)

Para que a equação (13) seja satisfeita, é necessário que

que a equação (13) seja satisfeita, é necessário que . Portanto, (14) A escolha de qual
que a equação (13) seja satisfeita, é necessário que . Portanto, (14) A escolha de qual

. Portanto,

(14)

A escolha de qual das medidas utilizar para

a estimação da DAP representativa não é uma

questão trivial.A mediana apresenta a vantagem de ser bem menos sensível a presença de outliers do que a média. Entretanto, segundo Johanson et al. (apud BELLUZZO, JR., 1999), em termos de agregação, a média é a medida de tendência

central. No mais, mesmo quando não há pretensão de se agregar as disposições a pagar, a mediana não corresponde a uma alocação ótima de Pareto. No entanto, parece que os argumentos em favor da mediana são mais fortes, sendo essa a alternativa mais freqüente nas aplicações do método de avaliação contingente.

4.3 DESCRIÇÃO DAS VARIÁVEIS

As variáveis consideradas no modelo são:

aceitação, por parte do entrevistado, em pagar a mais pelo produto com selo de origem; tempo de residência do entrevistado em Palmas-TO; valores declarados e apresentados da DAP; renda pessoal; número de membros da família; idade; freqüência a qual o entrevistado costuma ler o rótulo de produtos e avaliação que o entrevistado faz em relação ao alimento artesanal.

Para a freqüência de leitura de rótulo, foi adotada uma escala de zero a três, distribuída da seguinte maneira: (0) sempre, (1) freqüentemente, (2) às vezes e (3) raramente. Outra escala, de zero a quatro, foi considerada para indicar a avaliação do indivíduo em relação ao alimento artesanal.A atribuição foi: (0) muito bom, (1) bom, (2) regular, (3) ruim e (4) péssimo. Como proxy da renda adotou-se o logaritmo da

razão entre renda familiar e número de membros da família, isto é, o logaritmo da renda per capita da família. O tempo de residência foi computado em meses. O valor declarado da DAP é o resultado da aplicação do método aberto e o valor apresentado o resultado da aplicação do método referendo com acompanhamento.

A aceitação do entrevistado em pagar o

valor a mais pelo produto com selo de origem foi computada como a variável dependente a partir de uma dummy (1 para aceitação e 0 para rejeição). A partir desta construção foi possível estimar a probabilidade que um indivíduo aceite pagar a mais por um alimento que contenha o

5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.1 CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA

A maioria dos entrevistados foi do sexo

feminino, correspondendo a 88% da amostra. A faixa etária predominante situou-se entre 18 e 35 anos (57%). Apenas 6% dos entrevistados possuem idade igual ou superior a 56 anos. A freqüência da amostra quanto à escolaridade pode ser vista na Tabela 1.

Tabela 1 - Distribuição da amostra quanto escolaridade.

selo de origem de Palmas-TO em relação ao alimento similar que não contenha este selo.

Os dados obtidos na pesquisa foram utilizados tanto para a caracterização da demanda por alimentos artesanais, quanto para o cálculo do valor do selo de origem de Palmas- TO. Para tanto, realizou-se duas análises. No primeiro momento, estimou-se um modelo logit com todas as variáveis que se mostraram significativas estatisticamente. Com base neste modelo efetuaram-se predições a respeito da demanda por alimentos artesanais. No segundo momento foi calculado um valor médio para o selo de origem de Palmas-TO.

A renda média do chefe de família foi de R$ 2.355,00*. Este valor passa a ser R$ 3.153,00* quando é considerada a renda familiar. O número médio de membros da família foi de 3,7*. Por fim, a renda média por membro da família foi de R$ 703,00*. O tempo médio de residência em Palmas-TO foi de 75 meses* (o asterisco indica valores aproximados).

foi de 75 meses* (o asterisco indica valores aproximados). Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,
foi de 75 meses* (o asterisco indica valores aproximados). Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,
foi de 75 meses* (o asterisco indica valores aproximados). Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,

Fonte: Elaboração própria.

A maior parte dos entrevistados associa alimentos artesanais a idéia de “caseiro” (60%), seguido de “alimento que não contém aditivos químicos” (39%). Estes resultados vão de encontro à atual tendência em se consumir alimentos mais saudáveis (SANJUAN, 2003). Em adição, 98% afirmaram consumir alimentos artesanais em virtude destes se aproximarem daqueles in natura.

No que diz respeito ao local de aquisição destes alimentos, as feiras livres, com76%, sobressaíram-se aos supermercados (43%) e outros locais. O fato das feiras livres serem locais de preferência dos consumidores para a aquisição destes produtos, pode estar relacionado ao fato de que a feira é uma forma de organização que elimina intermediários, o que torna os preços dos produtos mais acessíveis, além de garantir maior lucro ao produtor. Em adição, as feiras livres no município de Palmas-TO são organizadas, possuem dias e locais próprios, configurando-se como uma opção importante de local para compras de alimentos.

A maioria dos consumidores afirmou

escolher produtos artesanais com base no sabor (26%), pela denominação de “natural” (15%), e “saudável” (15%) o que pode indicar uma preocupação com aspectos de saúde.Admitindo- se que haja uma crença de que todo produto considerado natural seja saudável 6 , tem-se que 30% dos entrevistados consideram o alimento

artesanal saudável. Portanto, pode-se inferir que esta associação é relativamente difundida entre

os indivíduos.

Em relação à avaliação global dos produtos artesanais, os resultados foram positivos visto que a maioria dos consumidores considerou os alimentos artesanais produzidos em Palmas-TO como bom (74%) e muito bom (13%). Quanto à rotulagem, apenas 46% dos entrevistados afirmaram realizar “sempre” a leitura dos rótulos dos alimentos, 20% “freqüentemente”, 20% “às vezes” e 14% “raramente” fazem a leitura.

5.2 CARACTERÍSTICAS DA DEMANDA POR ALIMENTOS ARTESANAIS: ESTIMAÇÃO DO MODELO LOGIT

Com base nos dados obtidos, estimou-se uma regressão que permite verificar os determinantes da disposição a pagar dos indivíduos em relação ao selo de origem de Palmas-TO. Para a estimação do modelo logit utilizou-se o pacote econométrico EViews 6.0 da

Quantitative Micro Software. O método de

estimação foi o de Máxima Verrosimilhança, corrigindo problemas de heterocedasticidade através da matriz de covariância 7 . Os resultados da regressão são apresentados na Tabela 2, representando a equação 10.

Os valores da estatística H-L e da estatística de Andrews revelam que o modelo apresenta um bom ajuste de predição, rejeitando a hipótese de que o modelo tenha um ajuste insuficiente para os dados. O valor do pseudo R 2 corrobora esta

afirmação. A partir do valor da Razão de Verossimilhança observou-se que as variáveis apresentam relevância estatística, quando tratadas em conjunto. A partir dos valores dos testes “z” foi possível verificar a significância

estatística individual das variáveis. Segundo estes valores, todas as variáveis são estatisticamente significantes a um nível de 11%. Apenas idade e idade ao quadrado não o são a um nível de 5%.

O logaritmo da renda per capita familiar não é

significativo estatisticamente a um nível de 1%.

A direção do impacto de cada variável

sobre a probabilidade de aceitação pode ser vista a partir dos sinais das estimativas. Portanto, constata-se que o maior tempo de residência em Palmas-TO contribui para o aumento da probabilidade de aceitação em

pagar um determinado valor apresentado. Da mesma forma, uma maior freqüência de leitura dos rótulos e uma melhor avaliação

Tabela 2 - Estimativas do modelo logit generalizado.

por parte dos entrevistados em relação aos alimentos artesanais aumentam essa probabilidade 8 .

aos alimentos artesanais aumentam essa probabilidade 8 . Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos
aos alimentos artesanais aumentam essa probabilidade 8 . Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos

Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos pelo EViews 6.0. * Valor referente à estatística LR (Razão de Verossimilhança). ** Para ÷ 2 (8). *** Para ÷ 2 (10).

Tanto a renda per capita familiar, quanto o valor apresentado da DAP, influencia negativamente a probabilidade de aceitação. Note que o valor apresentado da DAP é uma proxy do preço do selo de origem e que a probabilidade de aceitação reflete a intenção de compra, podendo ser tomada como uma proxy da demanda. Com base nas estimativas apresentadas na Tabela 2, constata-se que o selo de origem de Palmas-TO é um bem comum e inferior 9 . Isso está de acordo com os produtos referidos, pois são de amplo consumo por aspectos culturais e de subsistência, portanto, quando a renda aumenta, as pessoas reduzem o consumo desses produtos e compram outros substitutos de maior valor agregado.

É possível que as características apontadas para a demanda do selo de origem de Palmas-TO

sejam observadas para os próprios produtos que levam esse selo. Esta afirmação decorre da possibilidade de que, ao avaliar o selo, o entrevistado, na realidade, esteja avaliando, em grande parte, o próprio produto que leva o selo. Se isso for verdade, o próprio alimento artesanal pode ser caracterizado como um bem comum e inferior.

Os sinais das estimativas dos coeficientes de idade e idade ao quadrado traduzem um comportamento refletido por uma parábola côncava para baixo. Ou seja, o aumento da idade afeta negativamente a probabilidade de aceitação até certo ponto, passando a afetar positivamente a partir deste locus. Este comportamento pode ser explicado, em parte, pelo próprio ciclo econômico de vida dos indivíduos. Conforme visto anteriormente, o selo de origem de Palmas-TO (e,

conseqüentemente, o alimento artesanal) pode ser caracterizado como um bem inferior. Portanto, sua demanda deverá ser maior na fase de vida de menor renda dos indivíduos, sendo provável que esta fase ocorra na sua velhice 10 .

Outra explicação para este comportamento pode residir na percepção dos indivíduos em relação ao alimento artesanal. Conforme já mencionado, há uma difusão da idéia de que os alimentos artesanais sejam saudáveis. Adicionalmente, é possível que a preocupação em relação à saúde seja mais forte nos indivíduos mais velhos 11 . Isto explicaria uma maior probabilidade de aceitar (maior demanda) para estes indivíduos.

O sinal referente ao valor declarado da DAP (positivo) é esperado, pois reflete a disposição a pagar do indivíduo. Dessa forma, quanto maior esse valor, maior é a propensão de o indivíduo aceitar pagar um dado valor apresentado.

A partir do modelo estimado, é possível predizer a probabilidade de aceitação em pagar um valor adicional pelo alimento artesanal com selo de origem de Palmas-TO em relação ao mesmo alimento sem tal selo. Neste sentido, foram realizadas algumas estimações para

determinar esta probabilidade, dado algumas características captadas pelas variáveis do modelo. Os resultados desta simulação podem ser observados a partir da Tabela 3.

Foram consideradas três situações distintas. Na simulação I, computaram-se as médias das variáveis quantitativas. As medianas

e as modas foram contabilizadas nas simulações

II e III, respectivamente. Para as variáveis: valor apresentado da DAP, avaliação do entrevistado em relação ao alimento artesanal e freqüência de leitura dos rótulos foram computados os mesmo valores para as três simulações. Para a primeira computou-se a mediana dos valores apresentados e para as duas últimas a opção de maior freqüência entre os entrevistados.

A simulação I, por exemplo, caracteriza um indivíduo de 36,7 anos, que reside em Palmas- TO há 75,2 meses, cuja renda familiar per capita seja de R$ 703,31, lê rótulos sempre e avalia o alimento artesanal como sendo bom. Segundo o modelo estimado, este indivíduo estaria disposto a pagar R$ 1,00 a mais por um alimento com selo de origem de Palmas-TO em relação ao mesmo produto sem o selo com uma probabilidade de 38,31%.

Tabela 3 - Estimativas da probabilidade condicionada de aceitação.

- Estimativas da probabilidade condicionada de aceitação. Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,
- Estimativas da probabilidade condicionada de aceitação. Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,
- Estimativas da probabilidade condicionada de aceitação. Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,
- Estimativas da probabilidade condicionada de aceitação. Fonte: Elaboração própria. Amazônia: Ci. & Desenv.,

Fonte: Elaboração própria.

5.3 ESTIMAÇÃO DA DAP: O VALOR DO SELO DE ORIGEM DE PALMAS-TO

A partir da aplicação do método de avaliação contingente é possível calcular o valor do selo de origem de Palmas-TO, sendo este valor representado pelas estimativas de média ou mediana da DAP. Estas estimativas foram calculadas a partir das equações (12) e (14), sendo utilizados os dados apresentados na Tabela 2. Para efetuar os cálculos, é necessário atribuir valores para as variáveis explicativas, com

exceção da variável que computa a DAP apresentada. Os valores adotados correspondem à média de cada variável explicativa. Com relação às variáveis que indicam freqüência de leitura do rótulo e avaliação que o entrevistado faz em relação aos alimentos artesanais, foram computadas as modas estatísticas, por se tratar de uma escala 12 . Os valores adotados são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4 - Valores atribuídos às variáveis explicativas para o cálculo da DAP representativa.

explicativas para o cálculo da DAP representativa. Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos
explicativas para o cálculo da DAP representativa. Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos
explicativas para o cálculo da DAP representativa. Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos

Fonte: Elaboração própria a partir dos resultados obtidos pelo EViews 6.0. * Valor referente à estatística LR (Razão de Verossimilhança). ** Para ÷ 2 (8). *** Para ÷ 2 (10).

A Tabela 5 apresenta as estimativas de média e mediana para a DAP obtidas a partir do método aberto e do método referendo com

Tabela 5 - Estimativas da média e mediana da DAP.

acompanhamento. Segundo o método de Hanemann, esses valores representam a estimativa de valor para o selo de origem de Palmas-TO.

a estimativa de valor para o selo de origem de Palmas-TO. Fonte: Elaboração própria. Portanto, um

Fonte: Elaboração própria.

Portanto, um alimento artesanal que contenha o selo de origem de Palmas-TO é valorizado pelos consumidores em um

montante de R$ 0,96, tomando a menor estimativa, ou de R$ 1,05, considerando a maior estimativa.

6 CONCLUSÕES

A adoção de política de valorização de

produtos artesanais, caracterizados por baixa escala e produção local, vem sendo uma das estratégias adotadas para a promoção do desenvolvimento sustentável no meio rural. O foco desta estratégia é a agricultura familiar.

A partir do estudo da avaliação do

consumidor em relação ao selo de origem de Palmas-TO foram constatadas duas evidências importantes. A primeira é caracterização do alimento artesanal como um bem comum e inferior. Sendo assim, os indivíduos tendem a substituir os alimentos artesanais por produtos similares, à medida que se tornam mais ricos ou que esses bens se tornem mais caros. Tal característica pode ser constatada a partir dos sinais dos coeficientes estimados para a DAP apresentada (bem comum) e para o logaritmo da renda familiar per capita (bem inferior).

NOTAS

1 Este método foi apresentado de forma resumida. Outras informações podem ser encontradas em Araújo (2002), Belluzzo Jr. (1999), Motta (1998) e Paixão (2002).

2 Os questionários foram invalidados por não conter informações relevantes ao estudo, tais como: renda familiar, se aceita pagar o valor apresentado, entre outras.

3 Para métodos de determinação da amostra, ver Cozby

(2003).

4 Ver Hanemann (1984, 1989 e 1991). Ver também Araújo (2002) e Paixão (2002).

5 Para maiores detalhes a respeito da estimação pelo Método de Máxima Verossimilhança, ver Maddala (1983) e Greene (1993).

A partir do cálculo da DAP foi verificado que o selo de origem de Palmas-TO possui um valor médio de R$1,05 e mediano de R$1,04, considerando as estimativas obtidas a partir do método referendo com acompanhamento. Este resultado indica que há realmente uma valorização do produto artesanal com a adoção deste selo.

Pode-se, portanto, concluir que o selo de origem de Palmas-TO promove uma valorização do alimento artesanal. Tal valorização pode ser ampliada a partir da adoção de algumas estratégias, tais como: campanhas educativas direcionadas ao estímulo para leitura de rótulos e o aumento da qualidade dos alimentos artesanais. Espera-se que a valorização desses produtos acarrete em crescimento e desenvolvimento do setor, permitindo geração emprego e renda, e ampliação da atividade com sustentabilidade.

6 Mesmo que isso não seja, necessariamente, verdadeiro.

7 O problema de heterocedasticidade é inerente aos modelos binários, tal como o modelo logit (GREENE, 1993; MADDALA, 1983; RAMANATHAN, 1998).

8 Cabe lembrar que a escala adotada para medir a freqüência de leitura de rótulos aumenta na medida em que essa freqüência se reduz. No que se refere à avaliação por parte dos entrevistados, quanto melhor avaliado, menor é o valor que a escala assume.

9 Um bem comum é aquele cuja quantidade demandada diminui quando o preço aumenta e vice-versa. No caso de um bem inferior, sua demanda diminui quando a renda aumenta (MAS-COLELL; WHINSTON; GREEN, 1995; VARIAN, 1992).

10 É suposto que a renda do indivíduo tenha o comportamento previsto pela Teoria do Ciclo de Vida. Uma versão simplificada desta teoria pode ser vista em Sachs e Larrain (2000) e em Lopes e Vasconcellos

(2000).

11 A preocupação com aspectos relacionados com a saúde pode ser vista como uma questão de necessidade durante a velhice, haja vista o próprio desgaste do organismo humano, ocorrido durante os anos de vida do indivíduo.

12 Uma alternativa seria estimar o modelo logit sem as variáveis que captam a freqüência de leitura de rótulos e a avaliação do entrevistado em relação aos alimentos artesanais. No entanto, o modelo resultante não apresenta um bom ajuste. No mais, algumas variáveis relevantes, tal como renda, perde significância estatística.

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CRESCIMENTO DIAMÉTRICO DE MAÇARANDUBA (MANILKARA HUBERI CHEVALIER) APÓS A COLHEITA DA MADEIRA

Dulce Helena Martins Costa * João Olegário Pereira de Carvalho ** Eduardo Van Den Berg ***

RESUMO

Conhecer o crescimento das espécies de um povoamento florestal, principalmente daquelas de interesse econômico, é de fundamental importância para o manejo florestal. Nesse sentido, avaliou- se o processo dinâmico do crescimento diamétrico da população de maçaranduba (Manilkara huberi Chevalier), no período de 1981-1997, em uma área de 64 hectares localizada na Floresta Nacional do Tapajós, área experimental sob responsabilidade da Embrapa Amazônia Oriental. Os dados foram coletados em 36 parcelas permanentes de 0,25ha (50mx50m), divididas em 25 subparcelas de 10mx10m, onde foram medidas e identificadas todas as árvores com DAP (diâmetro a 1,30 do solo) e” 5cm. A espécie teve, no período de 1981-1997, crescimento médio em diâmetro de 0,39cm/ano. As árvores cujas copas receberam iluminação total cresceram 0,67cm/ano, superior àquelas que receberam iluminação parcial (0,58cm/ano) e às que estavam totalmente sombreadas (0,26cm/ano). Portanto, as árvores necessitam de iluminação para acelerar seu crescimento. As árvores sem cipós na copa cresceram em média 0,60cm/ano, enquanto que aquelas com cipós cresceram 0,45cm/ano, indicando que a infestação de cipós nas árvores afeta o seu crescimento.

Palavras-chave: Maçaranduba. Manilkara huberi. Crescimento diamétrico - Manejo Florestal.

* Engenheira Florestal; Mestre em Ciências Florestais; Técnica Científica da Gerência de Desenvolvimento Regional do Banco da Amazônia. Belém/PA. E-mail: dhmcosta@hotmail.com ** Engenheiro Florestal; Doutor em Silvicultura Tropical; Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Belém/PA. E-mail: olegario@cpatu.embrapa.br *** Engenheiro Agrônomo; Doutor em Biologia Vegetal; Professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Lavras/MG. E-mail: evandenb@ufla.br

DIAMETRIC GROWTH OF MAÇARANDUBA (MANILKARA HUBERI CHEVALIER) AFTER HARVEST OF WOOD

ABSTRACT

Knowing the growth of the species of an afforestation, especially those of economic interest, it´s fundamental importance for forest management. In this sense, evaluated the dynamic process of diameter growth of the population of maçaranduba (Manilkara huberi Chevalier), in the period of 1981-1997, in an area of 64 ha located in the Tapajos National Forest, experimental area under the responsibility of the Eastern Amazon Embrapa . Data were collected at 36 permanent plots of 0.25ha (50mx50m), divided by 25 subplots of 10mx10m, where all trees have been identified and measureded with DAP (diameter 1.30 to the ground) e 5cm. The species had, in the period of 1981-1997, average growth in diameter of 0.39cm/year. The trees whose canopy received total enlightenment grew 0.67 cm/year, higher than those who received partial lighting (0.58cm/year) and that completely shaded (0.26cm/year). Therefore, the trees need lighting to accelerate their growth. The trees in the canopy without vines grew on average 0.60cm/year, while those with vines grew 0.45cm/year, indicating that the infestation of vines in the trees affects their growth.

Keywords: Maçaranduba. Manilkara huberi. Growth diameter - Forest Management.

1

INTRODUÇÃO

A floresta amazônica, em função da expressiva quantidade de espécie arbórea de valor econômico, atraiu indústrias madeireiras para a região, que vem ao longo do tempo, extraindo matéria-prima para o seu abastecimento. Por essa razão, estudos que subsidiem a elaboração de planos de manejo florestal sustentável são de suma importância, visto ser a forma legal de extração dos recursos madeireiros.

Com o manejo florestal, a exploração é realizada de forma planejada, buscando minimizar os impactos ambientais e possibilitando a conservação do ecossistema, mantendo a produção sob regime de rendimento sustentável. De acordo com Condit et al. (1993), para que uma exploração de madeira seja desenvolvida com sustentabilidade e viabilidade econômica, há necessidade de informações detalhadas sobre a dinâmica de cada espécie.

Segundo Rocha et al. (2003) a dinâmica corresponde a compreensão do comportamento das taxas de crescimento, recrutamento mortalidade de um povoamento florestal. Silva et al. (2001), comenta que a análise do crescimento periódico anual das espécies é considerada um fator primordial para o planejamento da produção de madeira, visto que possibilita a determinação do ciclo de corte.

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 DESCRIÇÃO GERAL DA ESPÉCIE

Manilkara huberi Chevalier é uma espécie arbórea, vulgarmente conhecida como “maçaranduba”, pertencente à família Sapotaceae. A espécie possui árvores de grande porte, fuste longo e retilíneo, com altura geralmente variando de 30m a 40m, podendo, algumas vezes, atingir 50m (LOUREIRO, 1979; SUDAM, 1979).

No entanto, os estudos sobre a dinâmica de crescimento de espécies florestais na Amazônia se intensificaram apenas, a partir de 1981, após o estabelecimento dos experimentos siviculturais realizados pela Embrapa Amazônia Oriental (SILVA et al., 2001; SILVA et al., 2005). Após essa iniciativa, outras instituições passaram a monitorar a dinâmica de crescimento da floresta, entre elas estão o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e o Instituto Floresta Tropical (IFT).

Por essa razão, conhecer o crescimento das espécies de um povoamento florestal, principalmente daquelas de interesse econômico, é fundamental para o manejo florestal. Nesse sentido, o artigo avalia o processo dinâmico do crescimento diamétrico da população da maçaranduba (Manilkara huberi Chevalier), após a exploração florestal em uma área de 64 hectares localizada na Floresta Nacional do Tapajós, visando contribuir com informações para o seu manejo e conservação.

Possui ampla distribuição, ocorrendo nos estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão, Roraima, Rondônia e Amapá, chegando ao Suriname, sendo mais freqüente em mata de terra firme, podendo, também, ser encontrada em várzeas pouco inundáveis (SUDAM, 1979).