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abril 2000

SAÍDAS CONTRA A OMC

Por uma agricultura multifuncional


O líder dos agricultores franceses relata como surgiu, a que se opõe e o que
defende o movimento que desmontou lojas do McDonald’s e ajudou a enterrar a
Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio

Jose Bové

Tinha eu apenas 20 anos quando, em 1973, diante de cerca de 80 mil pessoas


reunidas para a luta do Larzac, [1] no Rajal del Gorp, Bernard Lambert, líder dos
camponeses-trabalhadores, proclamou: "Nunca mais os camponeses atuarão como
’versalheses’. [2] Por isso estamos aqui para festejar o casamento de Lip [3] e do
Larzac." Esta primeira grande manifestação de apoio aos 103 camponeses que se
opunham à extensão de um campo militar. Havia sido convocada pelo pequeno e
novo Movimento dos Camponeses-Trabalhadores, construído como oposição à
Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), sindicato "único"
diretamente saído da Corporação Camponesa do regime de Vichy, [4] bem como de
sua ala jovem, o Centro Nacional dos Jovens Agricultores (CNJA).

Sob o signo de Maio de 68

Nascida das contradições engendradas pela modernização da agricultura dos anos


60 e das reivindicações do Maio de 68, esta oposição proclamou logo de início sua
ambição de recolocar as questões agrícolas e rurais no contexto mais amplo das
lutas sociais do conjunto da sociedade. A modernização acelerada da agricultura
francesa, encorajada pelo poder público e pela criação do Mercado Comum
Europeu, no início dos anos 60, faria surgir graves problemas. Excetuando-se os
setores bem protegidos pela Política Agrícola Comum (PAC) européia — como a
cultura de cereais e da beterraba para açúcar e os que se beneficiavam de
mercados bem definidos — como os vinhos e licores de qualidade —, a maior parte
do campesinato passou a sofrer repetidamente crises de superprodução. A isso
acrescentavam-se tensões internas muito fortes, devido à forma de repartição dos
meios de produção, tanto entre camponeses, quanto entre regiões (concentração
em alguns lugares, desertificação em outros). E ainda havia, em toda parte, uma
aceleração do êxodo rural. Em nome da "unidade camponesa", a FNSEA e o CNJA
administravam esta política em conjunto com o Ministério da Agricultura, dentro de

1
um espírito naturalmente corporativista: "As questões agrícolas são questões dos
agricultores e de suas organizações".

Foi contra este procedimento, contra a industrialização da agricultura e contra o


retrocesso do campesinato que se constituiu, aos poucos, a Confederação
Camponesa, oficialmente fundada em 1987. [5] Desde o início ela esteve engajada
numa reflexão que se alimenta de um enfrentamento diversificado, porém
permanente com a lógica do mercado: defesa dos camponeses absorvidos pela
empresas de alimentos derivados de gado, nos anos 70; apoio aos agricultores
superendividados junto aos bancos (dentre os quais, o mais importante, o Crédit
Agricole), a partir dos anos 80; ações múltiplas visando uma repartição mais justa
da terra; reivindicação de preços garantidos, mas apenas para volumes de
produção definidos até o teto pelo tipo de exploração, particularmente por ocasião
das crises de superprodução (leite, carne, viticultura, etc.).

Crítica ao produtivismo

No início dos anos 80, no Departamento de Loire-Atlantique, os produtores de uma


cooperativa denunciaram práticas ilegais às quais estavam obrigados: a utilização
de hormônios — substâncias proibidas — a fim de melhorar artificialmente o
desempenho de sua criação e de tentar assim manter sua renda. Foi a primeira vez,
que se saiba, que, através da crítica de um modo de produzir, um sindicato
profissional colocou publicamente a questão da finalidade social do trabalho
daqueles que ele pretendia defender e representar. E isso com o risco que não ser
compreendido pela maioria dos camponeses!
Esta crítica ao produtivismo na agricultura abrangeria não apenas a qualidade dos
produtos e a segurança sanitária dos consumidores, mas também o impacto social
— número de camponeses, condições de trabalho — da ocupação do território e a
degradação dos recursos naturais: água, solo, biodiversidade. E isso tanto nas
regiões de exploração intensiva quanto nas ameaçadas pela desertificação, por
exemplo, risco de incêndios ou avalanches neve nas montanhas, etc.
Progressivamente, durante os anos 80, a Confederação Camponesa passou da
crítica à elaboração de um projeto alternativo: o de uma agricultura camponesa.
Trata-se da reapropriação, pelos agricultores, de práticas mais autônomas e mais
econômicas em relação às empresas capitalistas. E constitui também uma
referência na luta sindical contra o produtivismo, apesar de este ser
freqüentemente apresentado como "indispensável" para satisfazer as necessidades
alimentares européias e mundiais — justificando portanto a famosa "capacidade
exportadora" da agricultura francesa — reafirmada na lei de orientação agrícola de
1980.

Contra a agricultura dual

O conceito de agricultura camponesa opõe-se totalmente à imposição de uma


agricultura dual. Dual porque pretende-se, de um lado, uma produção em massa,
industrializada, supostamente a preço baixo, assegurada pelos camponeses ditos
"ricos" e destinada a consumidores com fraco poder econômico; de outro, os nichos
de produção de qualidade, portanto "necessariamente" mais cara, realizada por
camponeses mais ou menos miseráveis — ou seja, não competitivos — para
consumidores abastados.

2
Este clichê é falso: a dualidade desenhada não separa camponeses ricos de pobres.
Além disso uma mesma agricultura, espalhada sobre o conjunto do território, pode
perfeitamente satisfazer as necessidades dos consumidores em quantidades
razoáveis e em qualidade diversificada, respeitando o meio-ambiente e mantendo o
emprego. É o que chamamos de multifuncionalidade da agricultura.
Em 1992, a Política Agrícola Comum européia foi reformada. Depois, vieram os
acordos da Rodada Uruguai do GATT sobre as tarifas alfandegárias e o comércio,
adotados em 1993 e assinados em 1994, em Marrakesh. Nessas condições a
Comissão Européia constatava que PAC estava num impasse. Formulava críticas
que compartilhamos sob vários aspectos: custo orçamentário, prejuízos sociais e
ambientais, perturbações nas trocas mundiais devido às subvenções às exportações
dos excedentes europeus, etc. Entrava em pauta uma profunda reforma.
Mas, fiel a seus dogmas ultraliberais, a Comissão Européia adotava soluções
diametralmente opostas ao teor das constatações. Propunha a desregulamentação
e o desmantelamento parcial do mercado comum agrícola, em uma primeira etapa,
pela baixa de preços. Para amortecer o choque, aos setores nobres (cereais e
criação de gado) que se beneficiavam de preços garantidos, eram oferecidos
auxílios diretos compensadores de renda. Portanto, nada absolutamente que
colocasse em causa o produtivismo! Esta orientação radical levantava duas
questões fundamentais e não específicas da agricultura: a do papel das políticas
públicas diante de um mercado que agora se pretendia mundial; e a da legitimidade
dos subsídios públicos.

Um movimento camponês internacional

Tendo consciência dos limites de uma ação estritamente camponesa e francesa, a


Confederação Camponesa lança então duas iniciativas. De um lado, junto com a
Coordenação Camponesa Européia (CPE), propõe a construção de um movimento
camponês internacional, a Via Campesina, que reúne hoje mais de 69 organizações
de 37 países dos quatro continentes. De outro, defende a criação de uma aliança
produtores-ecologistas-consumidores cuja ambição é constituir, na França, um
lugar de troca de idéias e de iniciativas sobre as questões da agricultura, da vida no
meio rural e da alimentação.
A nova PAC apenas confirmou o que era perfeitamente previsível: agravamento das
disparidades entre camponeses e crises de superprodução, mais agudas nos setores
debilmente protegidos (porcos, aves, frutas e legumes, etc.). Além disso a PAC
deve agora enfrentar uma crise de confiança dos consumidores em relação à
agricultura industrial, que continua sendo sustentada por Paris e Bruxelas: o caso
da carne de boi com hormônios em 1995 e 1999; o da "vaca louca" em 1996; e
mais recentemente, o caso da dioxina e o da lama nos locais de depuração dos
alimentos para gado, sem esquecer da poluição das águas por nitratos e pesticidas
na região da Bretanha e nos rios da bacia parisiense. [6] Nesse novo contexto
começa na França a adoção de uma nova lei para orientação agrícola e, em escala
européia, uma nova etapa da reforma da PAC.
A Confederação Camponesa, cuja representatividade junto ao poder público
aumentou — a partir de 1997, com Governo de Lionel Jospin, poderá se fazer ouvir
sobre as novas orientações que preconiza, particularmente sobre a
multifuncionalidade da agricultura e — contra a FNSEA (Federação Nacional dos
Sindicatos de Agricultores) e os cerealistas — sobre as primeiras medidas de
diminuição dos auxílios condicionados ao tamanho das explorações. A Comissão
Européia, por seu lado, mantém seu objetivo ultraliberal.
3
A população contra o consumismo

Em janeiro de 1998, em Nérac (no Departamento de Lot-et-Garonne), a destruição


simbólica de sementes de milho transgênico da Novartis contribuiu para uma
mobilização francesa e internacional contra as multinacionais da biotecnologia que
pretendem impor seus organismos geneticamente modificados (OGM) e confiscar a
vida através das patentes. [7] Nestes últimos anos, a sociedade reencontrou o
gosto pela luta e pela resistência ativa contra o horror ultraliberal: em 1995, por
ocasião da greve dos ferroviários, e em 1997, quando da greve dos caminhoneiros.
Depois, por volta de setembro de 1999, uma larga camada da população,
ultrapassando o prazer mesquinhamente consumista, frente aos escândalos
alimentares, aprovou a batalha contra a "comida ruim" (mal-bouffe) e a recusa de
um modelo de agricultura e de alimentação correspondendo apenas aos interesses
das multinacionais. Um debate público enfim tomou forma, podendo desembocar
na instituição de um controle cidadão em escala planetária.
É por isso que, junto com outros sindicatos, a Confederação Camponesa esteve
presente em Seattle, em dezembro de 1999, para se opor aos projetos de
liberalização a todo custo programados para a Rodada do Milênio da OMC
(Organização Mundial do Comércio). Expressou aí sua visão da agricultura e da
alimentação, ao lado dos que defendem o respeito ao direito ao trabalho, ao meio-
ambiente, os serviços públicos de educação, saúde e proteção social e o respeito às
identidades culturais. Diante dos atuais desafios para a sociedade é preciso ir do
local ao internacional, é impossível vencer sozinho.

Traduzido por Angela Mendes de Almeida.

[1] Luta memorável de camponeses contra a extensão de um campo de provas militares. (Nota da Tradução)

[2] Referência à adesão dos camponeses ao governo do Imperador Luís Bonaparte, instalado em Versalhes
durante os dois meses em meio do poder operário da Comuna de Paris, finalmente massacrada em 27 de maio
de 1871. (Nota da Tradução)

[3] Desde a primavera de 1973 os operários, em luta contra o fechamento da empresa relojoeira Lip, não
somente ocupavam a fábrica, mas tinha recolocado em marcha a produção e a venda de relógios através de
redes de solidariedade.

[4] Referência ao governo francês formado durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, que só
existiu por sua colaboração com Hitler. (Nota da Tradução)

[5] Surgiu da fusão dos sindicatos de camponeses-trabalhadores (CNSTP) e da Federação Nacional dos
Sindicatos Camponeses (FNSP). Ver Témoignage Chrétien, 23/09/1999.

[6] François Dufour, "Os cientistas loucos da agroindústria", Le Monde Diplomatique, edição brasileira,
dez.1999.

[7] Jean-Pierre Berlan et Richard C. Lewontin, "La menace du complexe génético-industriel", Le Monde
Diplomatique, dez. 1998.