O PORTAL DE ANAYA Livro 1 – A Origem

Cristiane Lira

Rio de Janeiro 2013

O PORTAL DE ANAYA Livro 1 – A origem
1. Uma visitante inesperada 2. O projetor multidimensional 3. O resgate 4. A yoctocabine 5. O Energizador 6. A Pher 7. A Revelação 8. Grandes amigos 9. Susto na viagem 10. A primeira voluntária 11. A caminho da Colônia Provisória 12. A pher e a fada 13. O segundo voluntário 14. Na sala do Diretor 15. A outra voluntária 16. Na aldeia das fadas 17. Uma aluna aplicada 18. A convocação de Zogham 19. A sala negra 20. Na aldeia dos dragões 21. A reunião do Conselho 22. A evolução de Valente 23. O Ergonius 24. A origem

Capítulo 1 Uma visitante inesperada
Ela sentou no banco da praça e olhou as folhas mortas caídas no chão. O dourado outonal resplandecia e as folhas tornavam-se avermelhadas confundindo-se com o poente. Soprava um vento leve e fresco, quase frio. Havia muitas pessoas na rua, mas ninguém percebia sua presença. Nem mesmo um morador de rua, que passara muito próximo a ela, sequer dirigiu-lhe um olhar insinuando o desejo de receber alguns trocados. Provavelmente, ele tinha o pensamento distante dali, pois seu semblante trazia uma expressão de languidez que não deixava claro se era preguiça, tristeza ou melancolia. Ela o acompanhou com os olhos enquanto ele caminhava vacilante pela praça. – Talvez estivesse alcoolizado – o que ela não estranharia, pois muitos moradores de rua recorriam ao vício para suportar o abandono no qual viviam, enquanto outros eram levados à mendicância justamente pelo vício, que os fazia perder tudo: o emprego, os bens, a família, os amigos, a dignidade e, finalmente, a esperança. Ele trazia um enorme saco pendurado às costas, tão sujo quanto suas roupas e ele próprio. Os pés descalços estavam imundos, assim como seu cabelo que, pela falta de asseio, havia se tornado um grande emaranhado de fios negros e acizentados embolados entre si. – Dificilmente seria possível pentear novamente aquele cabelo – ela pensou – mesmo que fosse lavado com muito xampu e massageado com um tubo inteiro de creme de pentear! – Em seguida, ela reparou que a pegada do pé esquerdo dele deixava uma pequena mancha de sangue e que ele mancava com esse pé. – Então, esse deveria ser o real motivo pelo qual ele andava cambaleante. Era provável que tivesse pisado em algum objeto cortante e que, talvez, ainda estivesse com ele ou parte dele enfiada no pé – concluiu. – Ela continuou a observá-lo e à medida que o homem se distanciava, tentava imaginar os motivos que o teriam levado a viver nas ruas. – Teria ele nascido assim, embaixo de uma marquise? Será que nunca tivera um lar de verdade? Uma cama quentinha? – Questões como essas começavam a incomodá-la. Seus pais eram dedicados às causas sociais e durante toda a sua infância e adolescência ela se rebelara pela ausência deles, considerava-os omissos, achando que não se importavam com ela e que amavam muito mais aos estranhos do que à própria filha. Olhando, agora, aquele homem, que já se encontrava do outro lado da praça e que mais parecia um cachorro sarnento abandonado do que um ser humano propriamente, sentiu-se ingrata e imatura. Durante muitos anos comportara-se mal e magoara muito

seus pais que, apesar de tudo, nunca lhe dirigiram palavras que não fossem amorosas. Sentindo os olhos marejados e o coração apertado pelo remorso, tentou desviar o pensamento. Ela estava agora reparando na revoada de pássaros que ruidosamente buscavam os galhos das árvores a sua volta, sinalizando que o final da tarde chegara e que, logo, logo, seria noite. Tentou se concentrar, mas a própria paisagem se misturava ao turbilhão de sentimentos que disputavam a prioridade de seus pensamentos e dificultavam qualquer decisão. Não podia definir o que sentia, assim como não podia saber o que fazer. Olhou as folhas movendo-se numa coreografia ensaiada desde o início dos tempos. Cada folha seca sabia o seu passo, a sua hora de mover-se e com qual ou quais outras folhas deveria contracenar. Desejou ser uma delas, continuar sua vida sem ter que tomar decisão alguma, apenas entregar-se à natureza que se encarregaria de conduzi-la em seu papel. Não sabia há quanto tempo estava sentada ali, nem mesmo como chegara até ali, mas sabia que precisava procurar um lugar aonde ir. Que não fosse a sua casa, nem a casa de nenhuma pessoa conhecida. Abriu a bolsa, pegou a carteira e contou mais uma vez quanto dinheiro tinha. Aquele era todo o dinheiro que possuía. Havia acabado de sair do banco, de onde retirara até o último centavo. Mesmo assim, não havia o suficiente para sustentar-se por um mês ou, pelo menos, para manter o mesmo padrão de vida por um mês. Lembrou-se, então, que estava em uma movimentada metrópole, em um bairro com altos índices de violência e que já havia sido assaltada três vezes naquelas redondezas. Olhou em volta, tensa, procurando pistas de alguém que pudesse estar lhe observando. Ao mesmo tempo, guardou apressada a carteira dentro da bolsa e a colocou no colo, abraçando-a como se ali estivesse a única saída para a decisão que não conseguia tomar. – Iria conseguir começar uma vida nova? Teria força de vontade para se manter fiel às promessas que fizera a si mesma? E seus pais...? Sentiriam sua falta ou ficariam aliviados por ela ter ido embora? – Esses pensamentos surgiam simultaneamente, sem que conseguisse ordená-los. No mesmo lado da praça, entre o mato que crescia desordenadamente e a sujeira deixada pelos animais domésticos ou das ruas, algumas crianças se divertiam em uns poucos brinquedos abandonados. Havia três balanços, sendo que um estava com a corrente quebrada; duas gangorras de madeira gasta; e um escorrega, em cuja escada faltava um degrau. Lembrou-se que um dia havia sido criança também e que seu brinquedo favorito era o balanço. – Há quantos anos não se balançava? Provavelmente há uns 15 anos – recordou com nostalgia. – As luzes da cidade já estavam acesas havia algum tempo, o céu

escurecera rapidamente. Tentou olhar através das copas das árvores com a esperança de ver algumas estrelas e reparou que os pássaros não cantavam mais, o que significava que já haviam se recolhido. Apertou os olhos insistindo em ver o que não era possível. Com a claridade excessiva das luzes artificiais que iluminavam a praça, sua visão cegava ao olhar para cima, marcando sua córnea com pontos luminosos quando piscava. Permaneceu um tempo distraída com esse efeito ótico, até que se dissipasse totalmente. Tentou se concentrar mais uma vez, mas continuava sem saber aonde ir. Uma criança que devia ter uns cinco anos, aproximou-se para pegar uma bola que havia rolado até próximo de seus pés. Ela tentou pegar o brinquedo para devolvêlo, mas a criança foi mais rápida. Pegou a bola, olhou para ela e a examinou com curiosidade. Por uns instantes, ambos se encararam e ela teve a impressão de que aquela criança tinha o olhar de um adulto. Era um menino de pele parda e cabelos castanhos encaracolados. Vestia uma bermuda jeans e uma camiseta branca. Seus pequenos pés calçavam tênis que piscavam luzes coloridas a cada pisada, o que ela reparou quando ele correu para apanhar a bola. Após o transe momentâneo, ela viu o olhar da criança se abrandar e parecer infantil, como o de qualquer outra criança. O menino sorriu e foi embora correndo, com a bola na mão e os tênis piscando luzes que oscilavam entre o vermelho e o azul. Ficou incomodada com a sensação do olhar maduro com que fora analisada, mas não quis se levar a sério, julgando que estava vendo coisas onde não existiam e atribuiu seus devaneios ao cansaço físico e mental ao qual vinha se submetendo pela utilização de fortes tranquilizantes tomados em excesso sob a alegação de estresse, insônia, depressão e qualquer outro mal psicológico característico da sociedade atual. – Será que não consegueria se concentrar no que tinha que fazer? – pensou irritada. – Nesse momento, ela reparou que em um dos lados da praça, havia um grupo de pessoas reunidas na rua e uma ambulância. – Era possível que tivesse ocorrido um atropelamento ou um assalto com vítimas – considerou. – Se fosse isso mesmo, esperava que a pessoa estivesse bem e que não fosse uma criança. Naquele bairro, ocorrências desse tipo eram comuns e as crianças sempre eram as principais vítimas, pois raramente elas tomavam cuidado quando corriam atrás de uma bola ou de uma pipa sem dono – lamentou. Finalmente, levantou-se devagar e, em passos incertos, caminhou em direção ao ponto de táxi. Estava a menos de três metros quando lembrou que deveria usar seu dinheiro com moderação agora, e ele não duraria muito se ficasse a andar de táxi. Mudou o rumo e seguiu para o ponto de ônibus, tinha que chegar à Rodoviária, pois com certeza, lá, decidiria aonde ir. Talvez descobrisse alguma cidade do interior ou

mesmo um país vizinho no qual pudesse se retirar por um tempo. Com o dinheiro que tinha, poderia se hospedar por um mês em uma pousada simples, sem luxo. Se optasse por um estilo de vida menos consumista, daria para se alimentar bem e ainda sobraria uma boa reserva. Nesse tempo, tentaria montar um plano para sua vida, considerando a possibilidade de ajudar os pais no serviço voluntário que dedicavam aos menos favorecidos, suspender os remédios e deixar de sentir pena de si mesma, pois isso era algo do qual sentia vergonha. Esperou um pouco até que avistou um ônibus em cujo visor estava escrito “Rodoviária”. Fez sinal para que ele parasse e percebeu que outras pessoas também haviam feito a mesma coisa. Quando ele encostou e a porta de entrada se abriu, várias pessoas subiram junto com ela. Não imaginara que tanta gente estivesse indo para o mesmo lugar, no entanto, sendo uma sexta-feira, sabia que o fluxo para fora da cidade era maior. Entrou no tumulto e sentou-se, sem saber ao certo se tinha pago a passagem ou não. – Provavelmente sim, caso contrário, o motorista teria reclamado – pensou. – Sentara no corredor e, agora, observava criteriosamente o homem que estava ao seu lado, na janela. Era magro demais e tinha a barba por fazer. Uma cicatriz mais escura que sua pele e em alto relevo marcava seu braço direito. Aparentemente, o homem percebeu que ela o dissecava com os olhos, pois se virou em sua direção, porém, ele não esboçou nenhuma reação, dando a impressão de olhar através dela. Resolveu, então, analisar os outros passageiros a bordo, na tentativa de identificar algum suspeito, pois não podia imaginar a possibilidade de ser assaltada. De qualquer forma, achou melhor mudar de lugar, procurando ficar mais para o meio do ônibus. Levantou-se, encarando um por um dos passageiros, mas ninguém parecia se incomodar com isso, estavam quase todos dormindo após um longo dia de trabalho. Desta vez, escolheu um banco do lado oposto ao anterior, onde havia uma senhora muito gorda que estava cochilando com a cabeça jogada para trás, encostada na janela e com a boca aberta, emitindo um som que era quase um ronco. Tentou sentar com leveza para não despertá-la, e foi bem sucedida, pois a senhora sequer se mexeu. Imaginou que tipo de vida aquela mulher levava e o motivo pelo qual teria ficado com proporções tão avantajadas. – Provavelmente, aquela senhora descontava suas frustrações na comida, assim como ela própria fazia com os calmantes e tranquilizantes – concluiu. – A mulher estava cheia de bolsas no colo e, em uma das curvas que o ônibus fez em alta velocidade, elas escorregaram, sendo que uma delas chegou a cair por entre as pernas roliças da senhora, que usava um vestido florido, o qual não a ajudava em nada a disfarçar os quilos extras que carregava. Ela tentou ajudar, mas a mulher a ignorou, pegando a bolsa que caíra e todas as outras e colocando-as ao lado. – Que situação mais constrangedora – pensou. – Mesmo sendo uma senhora, isso não lhe

dava o direito de colocar aquela tralha toda no seu colo! – Sentindo-se indignada, ela levantou-se rapidamente e não foi capaz de compreender como conseguira fazer isso sem derrubar nenhuma das bolsas. Ficou em pé olhando as sacolas que permaneceram sobre o banco e a mulher que voltara a encostar a cabeça na janela para continuar seu cochilo interrompido, sendo que, agora, ela mantinha o braço esquerdo sobre as bolsas, de forma a evitar que escorregassem novamente. Chocada com a falta de educação que vinha assolando a humanidade, decidiu não se sentar mais. Olhou por uma janela para ver se estava chegando, mas não conseguiu se localizar. – Já que o ponto final do ônibus era na Rodoviária, o jeito era esperar – conformou-se. – Voltou a pensar no que estava fazendo e teve vontade de chorar, mas não o fez. Não havia ninguém que pudesse ajudá-la, somente ela poderia mudar o rumo de sua vida. De repente, o ônibus parou e todos começaram a descer, então, ela percebeu que haviam chegado ao ponto final. O trajeto não demorara tanto, apesar de achar que estava longe da Rodoviária. Agora, tinha mais um problema, precisava decidir para onde ir. Como o dinheiro era pouco, não poderia vacilar, tinha que escolher o lugar certo, pois seria nesse lugar que buscaria um novo sentido para sua vida ou, pelo menos, se reestruturaria para voltar e começar tudo de novo. Foi andando a esmo sem perceber nada a sua volta, quase instintivamente. Deu um suspiro longo e profundo, misto de alívio, esperança e angústia, ainda tinha medo do que estava fazendo, mas era preciso. Notou que entrara em um saguão, no entanto, chegara ali sem se dar conta do caminho que percorrera desde que descera do ônibus. Virou-se para procurar alguma placa de localização e se deparou com uma pequena loja. Primeiro, achou que fosse uma dessas lojas de lembrancinhas, depois, viu que também vendia livros e revistas: “Letras e Acessórios Astrais”. – Era provável que vendesse guias de turismo, com roteiros ou algo parecido que sugerissem um lugar: o lugar ideal – imaginou. Da porta de entrada não viu ninguém atrás do balcão de atendimento, aliás, não viu ninguém no interior da loja. O espaço era amplo, com cores alegres e uma suave música no ar. Possuía vários corredores de estantes, mas como eram baixas, pensou que seria possível ver alguém, se houvesse alguém ali. Andou entre as estantes olhando, ora para os livros e revistas nas prateleiras, ora para o balcão ou para a porta, na esperança de que aparecesse alguém. Começou a se sentir angustiada, aflita. Tentou se concentrar na busca pela seção de viagens e reparou que não havia nenhum título que conhecesse, nem mesmo um autor. Em um dos corredores, um cartaz sinalizava “Lançamentos” com destaque para um livro chamado “A Fuga” e, ao lado dele, uma revista sobre seres que tentam fugir dos ciclos obrigatórios. Correu os olhos, curiosa, buscando encontrar alguma literatura

conhecida, mas não teve sucesso, nem mesmo os nomes dos autores lhe eram familiares. Sentiu-se uma ignorante e se perguntou há quanto tempo deixara de acompanhar as novidades do mercado literário, pois se havia algo que ela sempre amara fazer, era ler. Deparou-se com mais um título desconhecido, “Transição”, que explicava o nascimento de um Sublime. Não tinha ideia do que era um “Sublime”, mas pela foto da capa parecia algo similar a um profeta ou um feiticeiro, pois trazia a imagem de alguém vestindo uma túnica branca com capuz, cujo rosto não era possível identificar porque estava envolto em uma luz cintilante. Resolveu pegar uma revista para folhear, atraída pela sua capa que trazia a manchete “Conheça o novo ranking das universidades após a formação de três novas galáxias” quando, de repente, sentiu um choque. Soltou-a incrédula. – Uma revista não dá choque! – De qualquer forma, não arriscou pegá-la do chão. Apesar de não ser uma loja esotérica, que vendesse mandalas, velas, anjinhos e duendes, havia um misticismo no ar. Alguns objetos à venda, por exemplo, ela não tinha noção do que eram. Um aparelho pequeno, parecido com um smartphone, estava em destaque no balcão principal, colado a um display que dizia: “Saiu da reclusão? Sua história ainda não foi revelada? Mas já sabe sua senha? Com o novo Reexcaptare 2.1 você pode ter acesso ao seu prontuário sem ter que esperar que o efeito do Inhibere passe.” Em cima de uma estante próxima à entrada, garrafinhas transparentes, contendo fumaça colorida que, na verdade, parecia uma névoa densa, tinham um rótulo no qual estava escrito “Para colorir seu espírito”. – Que ciclos eram aqueles? Inhibere era um remédio? Mas, e quanto ao acesso ao prontuário? E aquela névoa engarrafada? – estava contornando um corredor, meio confusa, com os olhos na entrada quando, de súbito, precisou ampararse em uma prateleira para não cair, soltou um grito apavorado, havia tropeçado em algo grande. – Havia tropeçado em uma pessoa! Ali, num cantinho, agachado ao fim de um corredor, no fundo da loja, arrumando a última prateleira, estava um rapaz que, aparentemente, era um empregado, pois usava uma roupa que se parecia muito com um uniforme, além de um crachá. − D-d-d-esculpe-me. Ah, por favor, eu sinto muito! Não o vi e ne-nem pensei que tivesse alguém aqui, o local me pareceu vazio e... e-e-eu nem sei o que dizer... – ela estava completamente ofegante. Foi só então que percebeu como estava tensa com aquele lugar. – Você trabalha aqui? – sua pergunta soou desesperada. O rapaz sorriu e se levantou. Era ruivo e de baixa estatura, parecia um adolescente. Magro, de olhos cor de mel e com sardas salpicadas pelo rosto e pelos

braços, seu sorriso era leve, meigo e muito gentil. Por um momento, ela teve a sensação de que todo o ambiente havia ficado mais iluminado. Ela não conhecia ninguém com um sorriso daqueles. − Não foi nada, não se preocupe, eu estava apenas arrumando estes guias que acabaram de chegar. Sabe como é, não? As férias estão chegando e, daqui a pouco, todo mundo vai querer guias para saber aonde ir. – ele se levantou, ajeitando o uniforme. – E eu é que peço desculpas por não ter percebido que a senhorita havia entrado. Eu trabalho aqui, sim. Meu nome é Akólouthos. Em que posso ser útil? Apesar de pequeno, o rapazinho possuía uma mão enorme. Uma mão que ele estendeu-lhe para que fosse apertada. – Que nome mais incomum! – Ela apertou os olhos tentando ler o crachá em seu peito: Akó... − Akó o quê? Como é seu nome? – era um nome difícil de entender na primeira vez. Sem nenhum constrangimento o rapazinho recolheu a mão e enfiou-a no bolso da bermuda. Alargou o sorriso como quem está acostumadíssimo a ouvir sempre a mesma pergunta. Naquele instante, a luz do salão pareceu brilhar com um pouco mais de intensidade do que antes. − Akólouthos. Akólouthos Acolyte. A senhorita está precisando de alguma ajuda? – ele abaixou-se e pegou uma pilha de livros que estava no chão, depositando-a em cima da prateleira mais alta. Ela leu o título do livro que estava por cima “Para não se perder em Sabença: roteiro completo”. Havia a foto de uma árvore muito grande onde, no lugar de frutos, muitos livros estavam pendurados. Imaginou que, se aquilo fosse um lugar, poderia ser uma escolha interessante. Antes de voltar os olhos para o rapaz, ela começou a falar. − Você. Pode me chamar de você. – estava encarando-o agora, e em seu olhar havia um ponto de interrogação. – Que tipo de loja é esta? O que são aquelas garrafinhas com fumaça colorida? E o que é um Sublime? – suas perguntas saíram quase todas de uma vez, pois ela atropelava as palavras, mergulhada em um mar de questionamentos que lhe invadiam a mente. − Ah... isto aqui não é uma loja comum. É uma loja alternativa, para acompanhar a tendência, sabe? Tem uma banca de jornais no andar de cima e uma livraria tradicional do outro lado do saguão. Aqui, nós vendemos apenas os livros e revistas independentes, mas tenho certeza que alguma coisa vai lhe agradar ou ser útil. – ele se virou procurando algo nas prateleiras, mas não concluiu sua busca, ao invés disso, voltou-se para ela novamente. – Exatamente o quê, a senhorita (– Perdão!),

você está procurando? – ela sentiu um alívio profundo, parecia que estava acordando de repente. Por um momento, chegou a sentir medo daquele lugar estranho. Apesar das cores alegres e da música agradável, era cheio de símbolos indecifráveis colados no teto, com um cheiro forte de rosas e muitas coisas estranhas à venda. Agora, tudo fazia sentido. – Era um espaço alternativo, e põe alternativo nisso! – ela pensou. − Não, eu acho que aqui não tem nada do meu interesse. Quer dizer, você falou que isso aí são guias? Guias de quê? De viagem? – ela fez um gesto com a cabeça, indicando a pilha que ele colocara em cima da prateleira – Existe um lugar chamado Sabença? − Ah, sim, existe! E todos estes guias são de viagem, mas como somos uma loja alternativa, só temos guias para lugares alternativos. Você não estaria interessada em conhecer um lugar assim, diferente, único, mágico? – Akólouthos pegou a pilha de volta e ela ficou na dúvida se ele fizera isso porque queria escolher um guia para ela ou, simplesmente, para que ela não mexesse neles. − Pode ser... – ela disse reticente – você tem alguma sugestão? Procuro um lugar próximo para me isolar, viver com pouco dinheiro por um mês mais ou menos e ter muito contato com a natureza. Se possível, quer dizer, se ainda existir um lugar assim, que não tenha internet, nem telefone, nem eletricidade, apenas calor humano. – ela riu timidamente, como se tivesse feito uma piada, já que achava impossível, nos dias de hoje, existir um lugar assim, por perto. No entanto, os olhos do rapaz brilharam e seu sorriso resplandeceu. Para ela, foi como se tivessem acendido mais algumas lâmpadas na loja. Do meio dos livros que estavam em suas mãos, ele puxou um, pondo os demais empilhados novamente sobre a última prateleira da estante. − Claro que conheço! – ele respondeu exultante – Na verdade, conheço quase todos os lugares que estão nos guias daqui, quer dizer, eu gosto muito de lugares alternativos. Acho que o lugar que você procura chama-se Miríade de Luzes. – ele estendeu-lhe um exemplar com encadernação de luxo, capa branca e umas aplicações que refletiam fortemente as luzes do ambiente. Dependendo da posição que ficava a capa, chegava a incomodar a vista. Ela olhou muito incrédula para o guia na mão dele, movendo a cabeça na tentativa de desviar-se dos pontos de brilho refletidos pela capa. Pegou-o meio insegura. − Miríade de Luzes? Eu nunca ouvi falar desse lugar! Onde fica? – ela folheou o exemplar tentando lê-lo, mas as páginas envernizadas com letras muito claras, refletiam tanta luz que era impossível ler qualquer coisa que fosse. – Mas este guia

não dá para ler, que tipo de impressão é esta? – ela já estava dando sinais de aborrecimento e impaciência. Akólouthos pegou o guia de volta da mão dela. − Fica muito longe daqui. – disse ele, dando por descartada essa opção – É uma cidade para peregrinos, com muitas histórias de curas milagrosas, recuperação senil, resgate do equilíbrio emocional e outras coisas do gênero. Quanto à impressão, esqueça. Vou escrever à editora reclamando, mas não se preocupe, no guichê de passagens tem um atendimento aos estrangeiros, você poderá perguntar o que quiser. − Bem, eu não sou estrangeira. – ela achou o comentário dele sem sentido, afinal, falavam a mesma língua e ela não tinha sotaque de alguém que viera do exterior. – De qualquer forma, parece interessante, mas você teria outro lugar para me sugerir? – sua voz soou triste – Vou ser sincera, este guia que você me mostrou é muito grosso, tem encadernação de luxo, deve ser caro e eu estou com pouco dinheiro. − Dinheiro? – ele ficou pensativo – Ah, sim, pouco dinheiro... Tudo bem, isso não é problema. Vejamos... – o rapaz pegou mais dois livros, bem fininhos dessa vez, ficou indeciso entre um e outro, até que seu sorriso iluminou-se novamente. Ela preferiu ignorar o efeito que ele causava à iluminação ambiente cada vez que sorria, tentando crer que era apenas uma coincidência. – Este! – ele disse – Tenho certeza que gostará deste aqui. Ela pegou o guia da mão dele, estava escrito “Meu Recanto”, mas quando começou a folheá-lo, as páginas estavam todas em branco. − Mas não tem nada impresso aqui! Este guia veio com defeito também. – ela estendeu a mão para devolver-lhe o livro, mas Akólouthos apenas pousou um dedo sobre ele e disse naturalmente: − Não, não, foi apenas impressão sua, abra-o de novo. Mas desta vez, pense em um local antes, não precisa ser um local específico, mas pense em imagens de um local que você gostaria que existisse, assim como me disse ainda há pouco. Calor humano, lembra? Ela começou a se perguntar se o tal Akólouthos batia bem da cabeça e achou que seria melhor não questionar, apenas fechou os olhos e imaginou. Então, abriu o guia em uma página qualquer. Para sua surpresa, ela viu fotos de uma pequena cidade, uma praça, onde as pessoas estavam sentadas em bancos conversando, ou na grama fazendo piquenique. Ela tornou a olhar o rapaz como se perguntasse como aquilo era possível. – O livro estava em branco antes! – começou a folheá-lo

novamente e, agora, ele estava todo impresso, com fotos lindas, lagos, cachoeiras, pessoas simples, de rostos felizes. − O que você fez? – ela perguntou olhando-o diretamente nos olhos. − Eu não fiz nada. – Akólouthos respondeu docemente. − Mas eu tenho certeza de que este livro estava em branco antes de você tocá-lo! – então, ela fez rápidos movimentos abrindo e fechando o livro alternadamente, mas sempre se deparava com as páginas impressas. − Bem, eu acredito que se você está procurando um lugar para se isolar por um mês, é porque deve estar muito cansada ou mesmo estafada, não é verdade? – ele disse de uma forma simples e gentil, observando-a no movimento, quase obsessivo agora, de abrir e fechar o livro. − Sim... mas... – ela fechou o guia, não sabia o que responder. − Quando estamos muito estressados nossa mente nos prega peças inimagináveis. – Akólouthos permaneceu inabalável, sorrindo amigavelmente. − Pode ser... – ela folheou o livro mais uma vez e finalmente decidiu. – Está certo, vou levar este. Quanto é? – disse enquanto procurava a carteira na bolsa. − Quanto dinheiro você pode pagar? – ele perguntou como se fosse a coisa mais natural do mundo os clientes definirem o valor da mercadoria desejada. − Como assim? Este guia não tem um preço? – e dizendo isso, ela revirou o livro procurando por alguma etiqueta que indicasse o seu valor, mas não encontrou nada. − Na verdade, não. Você diz quanto quer pagar por ele e eu digo se vendo ou não, mas você não poderá fazer uma nova proposta. Quer dizer, você terá que ser justa e dizer quanto vale conhecer “Seu recanto”. – Akólouthos ergueu as sobrancelhas expressando o desejo de saber se ela havia entendido a explicação. − “Meu Recanto”. – ela disse mostrando-lhe o título na capa do guia. − Isso, isso mesmo. – ele confirmou. − Você está brincando comigo? É alguma pegadinha? – ela apertou os olhos como se quisesse olhar dentro de sua mente para entender suas verdadeiras intenções. − De forma alguma, eu nunca brinco com os clientes, mas essa é a proposta do guia. – Akólouthos fez um gesto para que ela lhe entregasse o livro e, em seguida, mostrou-lhe um cupom promocional encartado na última página. Ele leu em voz alta, entonando cada palavra, como se fosse um apresentador de TV:

“Quanto vale descobrir o lugar dos seus sonhos? Será que você é capaz de adivinhar? Faça uma oferta justa e leve este guia exatamente pelo valor proposto. Mas, lembre-se, você só tem uma chance de acertar! Se errar, não poderá levá-lo, não esta edição. Portanto, pense bem antes de fazer sua oferta!” Ela olhou-o boquiaberta. – Isto não está acontecendo. Este garoto é doido! – ela pensou tentando disfarçar o que estava achando daquilo tudo. E, então, resolveu perguntar: − Como assim? Se eu disser o valor errado não poderei comprar este livro? – a situação estava ficando cada vez mais surreal. − Isso mesmo! Você entendeu direitinho. – ele disse empolgado. − Nunca mais? – ela insistiu na pergunta. − Não esta edição. – ele lamentou – Terá que esperar pela próxima. Mas garanto a você que irá esperar muito. Não acreditaria se eu lhe dissesse quando foi que saiu a edição anterior a esta. – ele balançou a cabeça negativamente apertando os lábios. − E se eu for em outro lugar comprá-lo? – essa opção parecia tão óbvia. − Não irá conseguir, pois somente nós vendemos as publicações dessa editora. Somos representantes exclusivos. Lentamente, ela estendeu a mão solicitando o guia de volta. Leu e releu o cupom algumas vezes, mas, como não sabia exatamente o que estava procurando, muito menos o que gostaria de encontrar, fechou o livro e falou quase para si mesma. − Está bem, meu dia já está sendo estranho mesmo, não fará diferença entrar no jogo. Deixe-me pensar... – ela virou de costas e voltou a procurar a carteira na bolsa. Assim que achou, abriu-a, deu uma olhada no dinheiro que tinha, fitou o rapaz por cima do ombro, mas ele havia se agachado de novo para continuar arrumando uma prateleira... Pensou na sua bondade e paciência em atendê-la e decidiu – Tome, uma nota de vinte, serve? – e estendeu a mão vacilante, achando que não passaria no teste. Ainda agachado, ele abriu aquele sorriso resplandecente, ao qual ela já estava ficando acostumada, e nem se incomodou com as lâmpadas aumentando de intensidade. O rapaz se levantou e pegou a nota de sua mão, olhando-a de um lado e do outro, como se nunca a tivesse visto antes. Seu olhar era de admiração, mas ela não sabia se sua reação de surpresa era porque ela tinha dado o valor certo ou se ele estava chocado pela sua cara de pau de ter oferecido apenas uma nota de vinte. – Eu devia ter oferecido mais. – ela pensou enquanto retorcia os dedos uns nos outros e

esticava o pescoço, apertando os olhos e movendo os lábios como se quisesse falar por Akólouthos, que parecia estar em transe segurando a nota de vinte com as duas mãos, até que, subitamente, ele ergueu os olhos da nota e respondeu: − Muito bem, muito bem, o guia é seu! – ele falou, mais uma vez, com voz de apresentador de programa de auditório. − Ótimo! – ela gritou em êxtase, como se tivesse acabado de ganhar na loteria. − Você quer que eu embrulhe ou coloque em uma sacola? – Akólouthos perguntou. − Não, não precisa nem uma coisa nem outra. Eu vou sentar em algum banco lá fora e lê-lo agora mesmo. É tão fininho. Depois, acho que vou ao guichê comprar uma passagem só de ida para “Meu Recanto”. – disse ansiosa. − Então, boa viagem! E, dizendo isso, o rapaz estendeu-lhe a mão novamente, e ela resolveu apertar dessa vez, já que ele havia sido tão gentil. − Obrigada, você parece ser uma pessoa muito especial. Continue gentil assim e logo, logo, será promovido. – no mesmo instante em que apertou a mão de Akólouthos sentiu-se leve, feliz, viva, como se suas energias tivessem sido renovadas. − Pode ser, mas não sei se quero ser promovido agora, gosto do que faço e ainda quero explorar minha posição mais um pouco. Aquele comentário pareceu um tanto estranho, mas ela estava se sentindo tão bem que nada mais importava. Despediram-se no olhar e com um pequeno aceno de cabeça. Em seguida, ela saiu da loja com um discreto sorriso no rosto. Nesse momento, Akólouthos correu para trás do balcão, pegou um pequeno aparelho e inseriu nele a nota de vinte que havia recebido. Imediatamente a máquina começou a projetar holograficamente partes do Universo e ia passando de galáxia em galáxia: Cartwheel, Sombrero, Andrômeda, Grande Nuvem de Magalhães; até que se fixou na Via Láctea, no Sistema Solar. Dali, foi passando por estrelas e planetas até que parou na Terra. Automaticamente começou a correr pelo mapa do planeta e quando achou o local de origem do dinheiro, uma luz vermelha começou a piscar e o valor de 0,2 be ficou registrado no alto da tela à direita. Simultaneamente, uma voz suave soou da pequena máquina: “Não é possível identificar o proprietário deste papel de troca. Foram detectados mais de 500 registros diferentes no mapeamento energético de superfície, indicando que se trata de um papel de circulação, transferível, portanto, não personalizado.”

− Caramba! Como pode? Este é um planeta Nível 2. Como foi que ela chegou ao Portal de Anaya? Akólouthos estava excitadíssimo. Havia muito tempo que vinha estudando sobre os diversos seres do Universo. Gostava, especialmente, dos níveis menores de consciência, pois como raramente tinha contato com eles, achava intrigante a forma como viviam sem conhecimento de suas origens e, principalmente, do longo caminho que ainda teriam que trilhar. É verdade que já havia sido um deles também, mas isso tinha sido há tantos ciclos atrás, que era impossível se lembrar sem ter que consultar o próprio prontuário. Imediatamente, acionou o seu transmissor e aguardou. Logo, surgiu o rosto de uma jovem loura de expressão felina. Tinha as pestanas longas, o nariz bem pequeno e os olhos amendoados eram quase amarelos. − Central de Emergência do Portal de Anaya. Eu me chamo Ariel Löwin, em que posso ajudá-lo? − Olá, meu nome é Akólouthos. Eu trabalho na Letras e Acessórios Astrais e acabo de atender uma habitante de um planeta Nível 2. Por uma pequena fração de tempo nada aconteceu, a jovem do outro lado emudeceu. − Oi, você me ouviu? – Akólouthos tornou a falar. – Eu disse que uma habitante de um planeta Nível 2 entrou na loja onde eu trabalho. − Eu ouvi. – Ariel respondeu lentamente. – Poderia me dar seu número de matrícula, por favor? − É LAA00015. − Tudo bem. Achei seu cadastro: Akólouthos Acolyte. Você tem certeza de que se trata de um Nível 2? – a voz de Ariel soou vacilante. − Sim, tenho certeza. – ele disse enfático – Ela entrou na loja, pediu para ver um guia de viagem e pagou com papel de troca. Uma nota de vinte. Eu o coloquei num identificador universal e ele apontou para a Terra, um planeta Nível 2 do Sistema Solar, na Via Láctea. O silêncio de Ariel demorou um pouco mais dessa vez, mas Akólouthos aguardou. − Espere um instante, vou consultar qual é a espécie evolutiva desse planeta. Mas antes que ela pudesse executar qualquer ação, Akólouthos interrompeu. − Ela é uma primata bípede, da espécie Homo sapiens.

− Desculpe, mas como você sabe disso? – Ariel perguntou curiosa. – Muitas outras espécies se parecem com essa, não dá para afirmar só pela aparência. − É que eu tenho especialização em planetas Níveis 1 e 2 e já fui à Terra há muito tempo atrás, durante a passagem do seu Governador. – Akólouthos disse um pouco envergonhado. Ele não gostava de parecer metido. − Aguarde um instante, por favor. Ariel confirmou a informação no registro de Akólouthos. − Ok. Nesse caso, muito obrigada pela informação. Isso significa que se trata de uma forma humana. Ela sabe onde está? – Ariel parecia menos tensa. − Não. – ele respondeu enfático. – Tenho certeza de que ela não tem a menor ideia de onde está. Também não vi nenhum Orientador por perto. – Akólouthos pensava em todos os detalhes que poderia fornecer para ajudar. − Ela já saiu de sua loja? − Sim. Acho que foi ler o guia turístico que eu vendi a ela. − Você não deveria ter vendido nada a um Nível 2. – A voz de Ariel voltou a ficar tensa e ansiosa – Qual foi o guia? − “Meu Recanto”. – Akólouthos respondeu constrangido. Novamente, Ariel fez uma pausa, talvez tentando associar o nome à publicação de fato. − Ok, entendo. Poderia descrevê-la? – ela pediu. − “Meu Recanto” é uma publicação da Editora... − Não, não. A publicação, não. Eu quero saber como é a humana. – Ariel interrompeu antes de Akólouthos concluir sua explicação sobre a obra. − Ah, sim, claro. – ele pigarreou sem jeito – Ela é humana (– mas isso você já sabe), tem uma aparência jovem e está com um vestido azul. Tem cabelo castanho, longo e cacheado, e olhos também castanhos. – Akólouthos tentou lembrar de mais alguma coisa que pudesse ser útil, mas Ariel não lhe deu tempo para isso. − Muito bem. Vou providenciar para que seja resgatada. Caso ela entre em sua loja novamente, mantenha-a aí e tente nos avisar, certo? − Certo! – mas antes de se despedir, Akólouthos se lembrou de algo que precisava saber – Só mais uma pergunta! O identificador acusou 0,2 bônus de energia no dinheiro que ela me deu.

− O procedimento é o padrão. É só levar a um posto de papéis e metais de troca, entregar o dinheiro e solicitar o bônus em seu cartão. − Eu poderia ficar com ele? – o rapaz tinha quase certeza da resposta. − Sim, mas, – Ariel fez uma ínfima pausa – provavelmente, ele irá se dissipar em pouco tempo, a matéria dele é muito sutil e instável. Depende dela para existir. − É, eu havia imaginado isso. – Akólouthos disse desolado. – Mas não vão estranhar a origem? O que devo dizer? − Diga que já informou à Central de Emergência e que as providências para o resgate já foram tomadas. − Ok, então. Muito obrigado. − A Central de Emergência é que agradece. Akólouthos desligou o transmissor. Nesse momento, foi rodeado por outros rapazes e moças que usavam uniforme igual ao seu. Clientes também se aproximaram. A loja estava cheia. − O que aconteceu? Desculpe, mas nós ouvimos a conversa. – um rapaz de estatura um pouco maior que a de Akólouthos, de boné, cabelo e olhos pretos, o olhava com ar perplexo. − É isso que vocês ouviram. Aquela cliente era Nível 2. – sua voz estava bastante excitada. − Nível 2? – A pergunta veio em coro. Todos se perguntavam como aquilo era possível. − Logo vi. Eu devia ter adivinhado. Ela passou por mim e nem me enxergou. Perguntei várias vezes se poderia ajudá-la e ela não me respondeu. – uma mocinha de cabelo louro e ralo, muito pequena e trajando uniforme da loja, fez o comentário. − Mas, Akólouthos, se ela passou por todos nós sem nos perceber, como foi que ela viu você? – dessa vez foi um cliente que perguntou. − Eu estudo os Níveis 1 e 2 há muito tempo. Na verdade, sou um especialista – falou timidamente. – O que me coloca em sintonia com eles. − Mas, como você sabia que ela estava procurando guias de viagem? Afinal, você parou de me atender, pediu licença, tirou todos os livros da prateleira e se agachou com eles atrás da estante. Fiquei sem entender absolutamente nada! – e ao mesmo tempo em que falava para Akólouthos, olhava os outros a sua volta como se eles também compartilhassem sua dúvida.

− É que no último curso que fiz, minha turma foi em excursão a um planeta Nível 2. Não foi um passeio, foi um laboratório, uma prova prática. Eu fui visto por todos os habitantes de lá e até conversei com muitos deles. Aprendi a interpretar suas ondas de pensamento, e como eles desconhecem que isso é possível, não as bloqueiam. − Mas o padrão de ondas de seres Nível 2 é muito confuso. Eu já tentei estudar isso e desisti, parece que a mensagem vem toda criptografada. – dessa vez, foi a amiga de uniforme de Akólouthos quem se manifestou. − Não é não. É muito mais simples do que parece, já que eles não criam nenhuma barreira, nenhum tipo de dificuldade. E elas parecem criptografadas justamente porque eles pensam em muitas coisas ao mesmo tempo, não têm foco e a mente está sempre pensando. É verdade que é preciso muito treino para diferenciar cada pensamento, entender o que é prioritário, separar a necessidade do momento de algo que apenas está sendo lembrado naquele instante. No final, foi isso que garantiu minha aprovação com louvor, eu conseguia perceber essas diferenças. – então, ele olhou para o chão como se estivesse procurando algo, apenas para desviar dos olhares direcionados a ele. − Será que vão achá-la logo? – peguntou o rapaz de boné. – Vai ser estranho ter uma Nível 2 vagando por aí, pois poucas pessoas conseguirão falar com ela, afinal, nem todos são especialistas como o Akólouthos. – o rapaz olhou em volta buscando a confirmação dos demais. “Isso mesmo, isso mesmo. Você tem razão.” – foi o coro geral. − Calma pessoal. Tenho certeza de que logo a encontrarão. A segurança do Portal é muito eficiente e ela não deve ter se afastado muito da loja. – uma senhora que estava comprando algumas garrafinhas de fumaça colorida tentava diminuir a excitação de todos. − Se fosse tão eficiente assim, ela nem teria chegado aqui. Puxa, se não fosse você, Akólouthos, ela poderia ficar no Portal por muito tempo até que alguém identificasse o caso. – o rapaz de boné fez o comentário olhando para todos em volta, como quem diz “Ele é meu amigo”. Dali em diante, não se falava em outra coisa. Rapidamente a notícia se espalhou. Todos queriam saber tudo sobre a habitante do planeta Nível 2 que estava perdida no Portal de Anaya.

Capítulo 2 O projetor multidimensional
Ariel desligou o transmissor, acionando-o novamente logo em seguida. Ela precisava informar o que estava acontecendo a um dos monitores que cobria o setor onde se localizava a Letras e Acessórios Astrais. A tecnologia era ultrapassada, mas uma das poucas permitidas no Portal de Anaya. Do outro lado, surgiu um homem de óculos escuros com cabelos pretos e uma mecha alaranjada na lateral. − Gregório falando. − Oi, Gregório, sou eu. Ele percebeu que Ariel estava angustiada. − Algum problema Ariel? − Dos grandes! – os olhos dela se arregalaram. − Do que se trata? – Gregório perguntou preocupado. − Temos uma habitante do Nível 2 perdida no Portal de Anaya. – ela respondeu atropelando as palavras. − Nossa! Como isso aconteceu? – Gregório estava realmente surpreso. Não se lembrava de já ter ouvido falar que fosse possível um habitante de um planeta Nível 2 ter acesso ao Portal de Anaya. − Ainda não sei. Fui informada de sua presença no Portal por um funcionário da Letras e Acessórios Astrais. Mas o importante agora é resgatá-la e levá-la a uma sala de recuperação. Teremos que mantê-la lá até localizarmos seu Orientador. Você pode fazer isso? – Ariel falava emendando uma frase na outra. − Calma Ariel. É claro que posso. Você disse “uma” habitante, é uma forma feminina? − Sim. E não tenho o registro dela, afinal, seres do Nível 2 não frequentam o Portal. – ela comentou frustrada. − Tem razão, eu não havia pensado nesse detalhe. Mas você sabe ao menos como ela é? De que espécie evolutiva? Que vestuário ela está usando? Se é que ela usa algum. – ele tentava organizar as ideias em sua mente. − Da espécie mais comum, ou seja, uma humana. – Ariel afirmou com segurança. – Tem aparência jovem, cabelo castanho, longo e cacheado. Seus olhos também são castanhos e está usando um vestido azul.

− Ok, é uma boa descrição. Alguma sugestão de onde ela possa estar? – a ansiedade de Ariel já contagiara Gregório. − Sem registro no Portal, eu não tenho recursos para monitorá-la, mas ela fez uma compra na Letras e Acessórios Astrais, que fica no seu setor. − Ela fez uma compra? – isso o surpreendeu ainda mais – E o funcionário vendeu alguma coisa para ela? − Ele vendeu um guia turístico chamado “Meu Recanto”. Trata-se de uma publicação... − ... interativa. – Gregório completou a frase de Ariel. – Sim, eu sei, tenho um exemplar. Será que ela vai perceber que esse livro é diferente dos que ela conhece? − Espero que não, por isso, você deve agir logo e tentar localizá-la o mais rápido possível. – a voz de Ariel soou aflita. − Se ela ainda estiver em meu setor, eu a localizarei! – ele falou com determinação. − Deve estar. Ela desconhece as yoctocabines e, mesmo que se depare com uma, não saberá para que serve e nem como usá-la. − Sem falar que seria extremamente perigoso para alguém tão despreparada. – ele disse franzindo a testa. – Tudo bem, vou procurá-la. Antes, porém, terei que alterar minha frequência para que ela possa me ver. De qualquer forma, se souber de mais alguma coisa me mantenha informado. − Farei isso, e você deve fazer o mesmo. Qualquer novidade, avise-me imediatamente. – mas antes de desligar, Ariel lembrou de algo importante. – Ah, e não deixe que ela perceba que você é diferente dela. − Pode deixar, basta eu não tirar os óculos. – Gregório ia se despedir, mas lhe ocorreu uma pergunta – Mestre Carama já sabe disso? − Ainda não, mas terei que avisá-lo. – Ariel respondeu tão baixo que Gregório quase não pôde ouvi-la. − Ele não vai ficar nada feliz. – o monitor comentou sem a intenção de preocupá-la ainda mais. − Tenho certeza que não. – ela respondeu balançando a cabeça negativamente. – Boa sorte, Gregório. – disse encerrando a conversa. − A ocorrência é muito grave. Boa sorte para nós, Ariel. Ariel desligou, mais uma vez, o transmissor. Precisava informar ao Governador do Portal o que estava acontecendo.

A sala na qual trabalhava tinha dois ambientes distintos. Em um deles ficava sua mesa e, sobre ela, o transmissor, nada mais. Ao lado da mesa havia um grande vaso vermelho com rosas amarelas que ocupava o resto do espaço disponível. A sala só possuía uma porta, mas havia cortinas em uma das paredes e, por trás delas, uma imagem plasmada simulava uma grande janela. Ariel estava sempre mudando o cenário externo, fazendo com que, ora a janela estivesse aberta com vista para uma linda paisagem, ora fechada, para não se distrair e perder a concentração no que estivesse fazendo. No momento, via-se um céu azul e algumas crianças que brincavam do lado de fora. Ela se levantou e saiu de trás da mesa. Parou diante da janela e pensou que seu humor já não estava tão leve quanto as brincadeiras infantis que estavam acontecendo ali. Então, puxou um dos lados da cortina e afastou-o um pouco, deixando aparecer um pequeno painel. Após examiná-lo cuidadosamente, fez uma combinação entre as opções disponíveis. – Seria tão mais fácil se eu pudesse apenas sincronizar esta janela com a minha vibração. – ela desejou, ciente de que no Portal de Anaya isso não era permitido, exceto em algumas poucas zonas restritas. − Creio que um dia de chuva tenha mais a ver com os últimos acontecimentos. – Ela gesticulou sobre o painel e instantaneamente a imagem na janela foi substituída por um céu cinzento, carregado de nuvens das quais caíam enormes gotas no solo. Raios brilhantes rasgavam o céu transformando a noite em dia. Um forte trovão ecoou na sala e fez Ariel estremecer. – Acho que não preciso de tanto. – ela fez alguns ajustes e, então, somente o barulho monótono da chuva passou a preencher o ambiente – Assim está melhor, mas eu, realmente, gostaria de poder projetar uma imagem mental. Em seguida, caminhou até o outro ambiente da sala. Nele havia um grande equipamento com uma cadeira diante dele. A máquina era conhecida como Projetor Multidimensional e estava acoplada a um transmissor. Também tinha uma versão portátil, para transmissores individuais. Os projetores eram acionados de várias formas: por meio de botões, movimento das mãos, ondas de pensamento ou voz. Tudo dependia do modelo, da programação feita pelo usuário ou da função que se queria usar. As versões mais antigas eram de tamanho avantajado e a utilização multifuncional era limitada. A que Ariel usava, tinham capacidade quase ilimitada para funções simultâneas, podendo processar milhares de sistemas ao mesmo tempo. Mesmo assim, tratava-se de uma tecnologia obsoleta, pois a manipulação de energia no Portal era praticamente proibida, então, quase todos os recursos tecnológicos disponíveis eram ultrapassados, porém, ainda funcionais. Ariel se sentou e disse pausadamente:

− Mestre Carama. Ela aguardou um pouco até que surgiu a imagem de um homem negro, de rosto largo, com cabelo e cavanhaque grisalhos. Tinha um manto branco sobre os ombros e uma pequena argola dourada na orelha direita. Sua voz era ao mesmo tempo grave e suave. − Olá, Ariel. Você já conseguiu aquele relatório sobre os setores de maior utilização do Portal, que eu pedi? – Mestre Carama estava sentado em uma cadeira de balanço. − Olá, Mestre Carama. Na verdade, não. Mas não é por causa do relatório que eu o chamei. Aconteceu um incidente no Portal de Anaya. Precisamos da sua ajuda. Ariel imaginou que o ocorrido faria Mestre Carama esquecer o relatório temporariamente. − Um incidente? Que tipo de incidente? – sua voz permaneceu calma, mas Ariel achou que seu semblante ficou levemente alterado. − Fomos informados por um funcionário da Letras e Acessórios Astrais que há um ser Nível 2 entre nós. Ainda não sabemos como isso aconteceu. – ela soltou um breve suspiro. – chamei Gregório pelo transmissor e pedi-lhe que tentasse resgatá-la. − E o Orientador? – ele perguntou calmamente, sem demonstrar preocupação aparente. − Não sabemos quem é. Ela está perdida e, provavelmente, não sabe de sua atual condição. – Ariel se esforçava para parecer calma também. Dessa vez, foi Mestre Carama quem suspirou. − Bem, Ariel, isso é muito grave. Vejamos, você a chamou de “ela”, trata-se de uma forma feminina e que não deve ter registro no Portal. − Isso mesmo, e ela é uma primata bípede, da espécie Homo sapiens, ou seja... − ...uma humana. – ele completou gentilmente. – Menos mal, já que as formas humanas são as mais comuns por aqui. Então, a primeira providência é, sem dúvida, resgatá-la. Você fez muito bem em ter falado com o Gregório. – Ele se balançava vagarosamente em sua cadeira e Ariel ficou admirando a forma como se mantinha tão calmo diante da informação que acabara de receber. Se ele não tivesse dito com as próprias palavras que a ocorrência era grave, ela acharia que Mestre Carama não havia entendido a mensagem. − Obrigada. – Ariel se sentiu feliz com o elogio, pois fez com que sua tensão diminuisse.

− Em seguida, ela deve ser levada a uma sala de recuperação. – ele complementou. − Foi exatamente isso que pedi a Gregório que fizesse. Sabemos que ela é da Terra, um planeta do Sistema Solar. − Acho que não é o caso de incomodarmos nenhum dos Guardiões desse Sistema, pelo menos por enquanto, muito menos um de seus Sublimes, mas seria bom localizarmos um Energizador de lá. – Mestre Carama havia parado de se balançar na cadeira e olhava para o lado. − Farei isso imediatamente. – Ariel sentiu-se tola, não havia pensado nisso. − Quando conseguir fazer contato com algum, explique a situação e peça-lhe que faça um escaneamento completo dela, só assim teremos uma chance de não perdê-la. – ele falou, agora, olhando para Ariel novamente. – Com o escaneamento poderemos identificar seu Orientador, a que Laboratório de Criação pertence e obter seu registro. − Sim, Senhor. Mais alguma coisa? – Ariel notou que, apesar de estar conversando com ela, Mestre Carama estava distraído com alguma coisa em sua sala, mas que não dava para ser vista pelo projetor multidimensional, a menos que ampliasse o campo de visão. − Eu também quero falar com o Orientador dela pessoalmente e não pelo transmissor, portanto, que ele venha ao meu encontro tão logo consigam localizálo. – ele disse enquanto balançava os dedos no ar e Ariel pôde ver uma pequena borboleta azul e coral pousar na mão de Mestre Carama. − Sim, Senhor. – Ariel uniu as duas palmas das mãos e preparava-se para fazer uma reverência, quando Mestre Carama lhe interrompeu. − Ainda tem mais uma coisa. – ele sacudiu a mão suavemente e a borboleta voou para fora do campo de visão de Ariel. − Sim? – ela respondeu vacilante, sabia o que ele ia dizer. − Assim que essa situação for resolvida, eu quero o relatório que pedi, tudo bem? O semblante de Ariel murchou. − Sim, Senhor. – Ela fez a reverência então. Mestre Carama retribuiu e sua imagem foi se tornando translúcida até que desapareceu. Ariel desconectou o transmissor, mas se manteve diante do projetor multidimensional e, onde antes estava a sala de Mestre Carama, apareceu o slogan GnosIS. Em seguida, surgiu uma mulher vestindo uma roupa prateada colante e botas de cano e salto altos e bico fino. As feições lembravam remotamente uma coruja.

Usava pequenos óculos e seus cabelos estavam presos em um coque no alto da cabeça: − Bem-vinda ao Sistema de Informação Gnos. Meu nome é Sophia e serei sua consultora. O que procura? − Oi, Sophia, eu sou Ariel e gostaria de encontrar um Energizador especialista em Nível 2. − Essa pesquisa é muito genérica. Mas vejamos o que eu consigo para você. Sophia sacou uma varinha e girou-a no ar. Ao seu lado surgiu um grande livro de páginas amarelas que ficou flutuando. Ela folheou suas páginas, levou a outra mão à boca, sacudiu a cabeça negativamente e pigarreou: − Como eu disse, o termo de busca é muito amplo, temos mais de 45 bilhões de resultados. Teremos que melhorar isso. O que mais pode me dizer? Não gostaria de limitar a galáxia ou o planeta? Dessa vez, Ariel soltou um suspiro profundo. − Está certo, pode acrescentar “Sistema Solar” e “Terra”. − Hum... com essas características temos, agora, pouco mais de dez milhões de especialistas. Teremos que nos esforçar mais. − Ok... Acho que vou mudar minha pesquisa para férias em Andrômeda. – Ariel falou com um riso no canto da boca. Sophia desviou os olhos do livro e a encarou com uma expressão de surpresa por sobre os óculos. − Não, Sophia, eu estou brincando, vamos continuar... Você não teria um outro banco de dados mais restrito? Sophia deixou as páginas amarelas de lado e abaixou a varinha. − Para a localização de especialistas, as páginas amarelas são as mais adequadas. Nós teremos que refinar sua pesquisa. Existe mais alguma característica que seja importante? Você não gostaria de limitar também onde ele se encontra no momento? − Está certo. Preciso pensar o que pode ser relevante... – Ariel ficou em silêncio por uns instantes – Ah, você pode descartar todos que estiverem em missão no momento. Sophia acrescentou a nova informação à pesquisa. − E então? Melhorou o resultado? Eu estou muito ansiosa, preciso encontrar alguém e logo. – Ariel se desculpou.

− Não tem problema. – a consultora respondeu educadamente. – Reduzimos o total para seis milhões de especialistas. − Ainda é muito. – Ariel falou desanimada. Sophia voltou-se novamente para as páginas amarelas. − Podemos nos limitar a profissionais que estejam no Portal, o que acha? – a consultora perguntou. − Excelente! Ajudaria bastante. – Ariel se mostrou esperançosa. − Temos um milhão de resultados. − Continua sendo muito não acha? − Acho. – disse Sophia. – Algum setor do Portal em especial? − Sim – respondeu Ariel – procure por alguém que esteja próximo à loja Letras e Acessórios Astrais. − Ok. Deixe-me ver... – Sophia movimentou sua varinha sobre o livro amarelo – ...pronto! Temos 238 nomes. Não exatamente perto da loja, mas no mesmo setor do Portal. − Já está bom assim. – concluiu Ariel. − Como você quer o resultado? – perguntou a consultora, de varinha em punho. − Eu gostaria de receber por transmissão direta consciente, mas... − ...essa forma de transmissão não é permitida no Portal de Anaya. – completou Sophia. − Sim, eu sei – respondeu Ariel desolada. – Nesse caso, pode descarregar no meu sistema externo. Sophia tocou a varinha sobre a página aberta e, ao levantá-la, um ponto brilhante estava preso a ela. Em seguida, fez um gesto arremessando-o em direção a Ariel, mas ele se desintegrou no ar. − O arquivo já foi transferido. Posso ajudar em mais alguma coisa? Deseja uma nova pesquisa? − Não, obrigada. – agradeceu Ariel. Sophia utilizou novamente a varinha, dessa vez, sobre si mesma. – Até logo. O GnosIS enviará uma pesquisa de satisfação. – e foi desaparecendo do projetor multidimensional.

Capítulo 3 O resgate
Depois que saiu da Letras e Acessórios Astrais, ela foi procurar um lugar para sentar. Trazia em mãos o exemplar de “Meu Recanto” e estava ansiosa para ler mais sobre esse paraíso que parecia ser a resposta para os seus problemas. Olhou em volta e reparou que havia algo de diferente na Rodoviária. – Há anos eu não vinha aqui – disse consigo mesma – parece que muita coisa mudou... para dizer a verdade, é como se eu estivesse vendo este lugar pela primeira vez... – Ela observou as lojas e os corredores e viu coisas realmente estranhas. Em uma parede próxima havia uma espécie de calendário ou, pelo menos, algo que se parecia com um. Analisando mais atentamente, viu que ao invés de 12 meses, a imitação de calendário possuia 14 e, além disso, dava para notar que havia muito mais do que 30 dias em cada mês. – Isto não pode ser um calendário... – ela pensou. – Também os nomes listados não eram os dos meses. – Bali, Mali, Tala, Geli, Nila, Tula, Sila, Gala, Rela, Pala, Vula, Zela, Xali e Fuli. – Mas que porcaria é esta? – A pergunta foi feita em voz alta, mas não havia ninguém para respondê-la. Acima do quadro estava escrito 10 de Sila de 4,74b. Ficou curiosa, precisava encontrar alguém que lhe explicasse o que era aquilo. Olhou à direita e percebeu que estava completamente sozinha. A sensação de leveza e felicidade proveniente do aperto de mão dado em Akólouthos começou a se dissipar. Sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha, um medo inexplicável estava invadindo seu coração. Lentamente foi se virando para o outro lado quando... − Aaaahhhhhh!!!!! Que susto você me deu! – ela gritou aterrorizada. Imediatamente soltou o guia, levou uma mão à boca e outra ao coração. Sentiu as pernas bambearem e, por um momento, achou que fosse desmaiar. Diante dela estava um homem estranho de óculos escuros, vestindo um terno preto e segurando algo que parecia um rádio ou telefone celular. Era moreno, tinha os cabelos pretos com uma estranha mecha alaranjada na lateral. Na verdade, seu cabelo mais parecia um pelo felpudo. Calculou que ele tivesse uns 30 anos. Apesar do grito que ela havia dado, ele não se abalou. − Sinto muito, não era minha intenção assustá-la. Está tudo bem? – ele perguntou constrangido pela situação. − Sim, está! – em sua percepção, sua respiração ainda estava alterada, mas os batimentos cardíacos começavam a voltar ao normal.

− Peço que me desculpe, é que eu a vi de longe e me pareceu que estava perdida. Meu nome é Gregório Akil e eu trabalho aqui, posso ajudá-la? – Gregório lhe estendeu a mão. Ele estava usando um crachá, mas estava virado ao contrário. Isso era algo que a deixava muito irritada, afinal, de que adiantava um crachá no qual não se podia ler nenhuma informação? Esse pensamento lhe ocorreu enquanto Gregório se mantinha de mão estendida. Ela achava estranho que, pela segunda vez, um empregado da Rodoviária fizesse esse gesto para cumprimentá-la. Não lembrava de ter passado por situação similar em nenhum outro lugar. E ficou imaginando a caixa do supermercado virando-se para ela de mão estendida e se apresentando

formalmente... Mas logo em seguida seu pensamento retornou e ela se perguntou o que o teria levado a crer que ela havia se perdido, pois estava simplesmente sentada em um banco, lendo o livro que acabara de comprar – Que ideia! − Está tudo bem? – Gregório perguntou novamente buscando os olhos dela que estavam fixos em sua mão estendida. − Oi, Gregório, tudo bem! Eu sou... – Mas no exato momento em que sua mão tocou a dele, ela caiu inconsciente. Ele a amparou e com a cabeça fez sinal para um casal que olhava à distância. O casal se aproximou e, rapidamente, surgiu uma espécie de maca, acionada a partir de um pequeno bastão que estava no bolso do rapaz. Ambos tinham uma aparência juvenil, mas no Portal de Anaya todos têm a aparência que desejam, desde que esteja devidamente registrada e autorizada. Quanto à idade, esta não é contada. Um ser passa a existir desde quando é apenas um ponto de energia. Cria-se um prontuário para cada indivíduo, onde ficam registrados os ciclos pelos quais já passou, até que se alcance um nível evolutivo considerado superior a esse tipo de controle. No entanto, somente os registros dos níveis 4 e 5 estão integrados aos sistemas de segurança e controle do Portal. Os níveis 1, 2 e 3 ficam registrados nos laboratórios de criação para onde foram conduzidos pela primeira vez depois de coletados da Fonte Original. Com muito cuidado e com a ajuda do casal, Gregório deitou-a na maca. Havia um pequeno ajuntamento em torno deles. Aparentemente, a história de um ser Nível 2 vagando pelo Portal de Anaya já estava se espalhando. − Por favor, é melhor vocês se afastarem. – falou a jovem que ajudava com a maca dirigindo-se aos curiosos. − O que aconteceu com ela?

Gregório ouviu a pergunta, mas não encontrou quem a fez. − E então, o que aconteceu com ela? – a voz anônima perguntou novamente. No meio da aglomeração, que já estava bem maior, Gregório viu um menino louro mascando chiclete. Ele usava um macacão, com uma das alças caída, e sorria com ar debochado. Imediatamente Gregório percebeu que era dele a pergunta insistente. − Ela precisa ir para uma sala de recuperação. – Gregório disse sem demonstrar nenhuma emoção. O casal permanecia segurando a maca. − Por quê? Nós queremos saber o motivo. – o menino olhou em volta e incitou os demais – Não queremos? − Sim, queremos! – foi o que todos responderam desordenadamente. − É isso aí, o que foi que aconteceu com ela? – o menino perguntou pela terceira vez. Um a um, os presentes foram se motivando a perguntar, exigindo uma explicação. − Calma gente, calma. – novamente o menino mostrou sua influência sobre os ânimos a sua volta – Eu acho que ela é a habitante do planeta Nível 2 que se perdeu aqui no Portal. – e voltando-se para Gregório – Não é? Como foi que isso aconteceu? Dizem que o Portal de Anaya é tão seguro. Mas se vocês não conseguem evitar a entrada de um ser tão inferior, como podem garantir nossa segurança e nos proteger das mentes “malignas” de inteligência superior? – e o menino estourou uma bola de seu chiclete, rindo prazerosamente com o olhar. − Quem é você? – Gregório perguntou, começando a se sentir desconfortável com aquela situação e com o menino em particular. – Poderia me dar sua matrícula? − Ei, pessoal, ele está me ameaçando! Vocês ouviram? Ele quer a minha matrícula. Por quê? O que foi que eu fiz? – e a voz do garoto soou como um miado, dando a impressão de que ele começaria a chorar. No mesmo instante uma explosão de vozes se fez ouvir. − Ora, deixe o menino em paz! – falou um. − Isso mesmo, apenas nos dê uma resposta! – disse outro. − Sim, diga se ela é a habitante do Nível 2 e como veio parar aqui. – pediu um terceiro. − Será que o Portal não é mais um lugar seguro? – finalizou o garoto de macacão.

Gregório pressentiu que algo ruim estava para acontecer, caso não agisse rápido. − Pessoal, por favor, atenção. Prestem atenção! As vozes foram diminuindo. − Não temos certeza de que há uma habitante do Nível 2 perdida no Portal. Pode ser que tudo não passe de um mal entendido. Esta jovem está sendo levada para uma sala de recuperação, onde faremos a verificação de origem e nível. Não há motivo para esta confusão. – e disse isso olhando diretamente nos olhos do menino, que continuava mascando seu chiclete calmamente – Agora, se puderem se afastar um pouco, nós precisamos passar. Com dificuldade, o jovem casal tentava seguir adiante. No entanto, mal deram os primeiros passos, escutaram uma voz que se dirigia a eles. − Esperem, esperem! Vocês não podem ir ainda! Gregório se virou para olhar. – O que seria agora?! – O casal permaneceu parado segurando a maca onde a Nível 2 se encontrava inconsciente. Todos que estavam em volta foram se afastando lentamente. O garoto havia desaparecido. No clarão que se abriu Gregório pôde ver de quem era aquela voz aflita que pedia que esperassem. Um rapaz moreno, de cabelo curto, com olhos que iam do verde ao azul conforme o reflexo da luz, aproximou-se, examinou a jovem na maca e seu olhar era brando, transmitindo ternura e tristeza. − Para onde vocês a estão levando? Para uma sala de recuperação? – ele perguntou enquanto lhe afagava os cabelos. − Sim, – respondeu Gregório – estamos. Mas por que não podemos ir ainda? Você a conhece? − Porque eu preciso ir junto. – ele respondeu à primeira pergunta. − Não entendi. – Gregório observou o rapaz com sincera curiosidade, seria um Energizador enviado por Ariel? – Poderia me explicar melhor? − Tudo bem, eu explico, claro. Desculpem minha falta de educação. Meu nome é Zogham Quercus e eu sou o Orientador dela.

§
Ariel estava bastante concentrada procurando um Energizador na relação que Sophia havia lhe dado quando Gregório a chamou pelo transmissor. − Ariel, tudo bem por aí? Tenho boas e más notícias.

− Prefiro que me diga as más notícias primeiro. – ela respondeu desanimada. − Já estão espalhando que há um ser Nível 2 perdido no Portal. – Gregório disse quase sussurrando. − Sério? Tão rápido assim? – ela se surpreendeu. − Infelizmente. Mas eu também identifiquei um arruaceiro incentivando a desordem. É melhor tomar providências. – ele continuou com o tom de voz baixo. − Sabe quem é? Conseguiu a matrícula dele? − Não. Mas ele se esconde atrás da aparência de uma criança. – sua voz soou um pouco mais alta. − Só essa informação não é suficiente. Temos uma infinidade de crianças registradas no Portal. − Sinto muito Ariel, só tenho isso. Você sabe que não podemos fazer nenhum registro de imagem no Portal, mas posso descrevê-lo fisicamente. – Gregório esperava que com isso ela pudesse conseguir algo. − Tudo bem, posso tentar, mas acho pouco provável. E qual é a boa notícia? Você conseguiu encontrá-la? − Sim, é isso mesmo, já estamos com ela. Mas na verdade, tenho duas boas notícias. − Duas??? Qual é a segunda? – Ariel perguntou entusiasmada. − O Orientador dela está conosco. – Gregório respondeu animado. − Isso é mais do que uma boa notícia, é uma ótima notícia! Como você o encontrou? − Na verdade foi ele quem nos encontrou. O nome dele é Zogham... – Gregório olhou para Zogham esperando que ele repetisse seu sobrenome. − ...Quercus. – Zogham informou.

− Zogham Quercus. – Gregório completou a informação para Ariel. – Ele irá nos acompanhar até a sala de recuperação para onde a estamos levando. − Muito bem, mas Mestre Carama pediu que ele o procurasse, imediatamente, em sua sala. Estou tentando encontrar um Energizador para ajudá-los. A propósito, pergunte a ele se tem alguma sugestão. Estou com uma lista de 238 nomes. − Ah, sim. Sobre este assunto ele gostaria de falar com você. – Gregório passou o transmissor a Zogham que ouvia a conversa atentamente, porém, sem tirar os olhos de sua orientada que permanecia inconsciente na maca. − Olá, Ariel. – disse o Orientador.

− Oi, Zogham. É esse o seu nome, certo? Você pode me passar sua matrícula no Portal de Anaya? – Ariel se preparava para colocar a informação no sistema. − É NA5O10470. − Zogham Quercus, Orientador Nível 5... – ela disse lendo a ficha dele que continha algumas centenas de páginas e várias fotos de constituições genéticas anteriores. – ...arturiano... − Isso mesmo, Ariel. – Zogham concordou um pouco aflito. – Desculpe interrompê-la, mas precisamos levar minha orientada a uma sala de recuperação imediatamente. Eu apenas gostaria que você não chamasse nenhum Energizador ainda. Vou à sala de Mestre Carama justificar o ocorrido e pedir uma autorização especial. − Se você prefere assim, para mim será melhor também. Estou com muita dificuldade em escolher um profissional entre tantos lotados no Portal. – disse Ariel aliviada de se livrar dessa incumbência. − Eu prefiro, obrigado. – Zogham devolveu o transmissor a Gregório. − Então é isso, Ariel. Qualquer coisa eu volto a fazer contato. – despediu-se Gregório. − Certo. Boa sorte para vocês. – e ambos se desconectaram. Imediatamente Ariel chamou Mestre Carama. − Olá Ariel. O que tem para mim? – Mestre Carama perguntou com a voz grave e gentil de sempre. − Gregório acabou de fazer contato. Ele encontrou a Nível 2 e a está levando a uma sala de recuperação. – Ariel esperava que ele não perguntasse pelo relatório. − Excelente notícia! – e seu entusiasmo melhorou o ânimo dela. − Melhor do que isso, o Orientador que estava desaparecido os localizou e está com eles. – Ariel não conseguia conter a excitação da boa notícia e achou melhor não falar neste momento sobre o arruaceiro mencionado por Gregório. − Bem, Ariel, você realmente me deu ótimas notícias. Agora, para eu ficar mais feliz ainda, só mesmo meu relatório ficando pronto. – Mestre Carama concluiu com o semblante sereno. Ariel sentiu como se a tivessem lançado em um lago congelado. E seu ânimo se dissipou. − Sim, Senhor, eu estou providenciando. − Que bom Ariel. Tenho certeza de que não irá me decepcionar. – ele falou com sinceridade.

Mais uma vez se despediram com uma reverência e o projetor multidimensional foi desligado.

§
A sala de recuperação era um cômodo amplo e muito claro. Não possuía janelas, apenas uma porta branca, assim como as paredes também eram e a cama que ficava no centro dela. Acima da cama havia uma espécie de tela suspensa feita de uma película muito fina, como se fosse uma cortina transparente, ao lado da porta um painel de controle, e isso era tudo. Essa era apenas uma das várias salas de recuperação espalhadas pelo Portal. Inicialmente foram construídas com o objetivo de dar assistência aos visitantes afetados pela diferença vibracional e energética do Portal em relação aos seus mundos de origem. No entanto, atualmente, com o aumento da circulação no Portal, passaram a atender também aos trabalhadores locais que se sobrecarregam de atividades em busca de mais bônus de energia, estudiosos que tentam internalizar mais informação do que são capazes de absorver, entre outros casos onde seja necessário o atendimento em um ambiente de total isolamento. Porém, as salas visam apenas situações emergenciais. Os casos mais complexos são encaminhados às colônias satélites, providas de maiores recursos e profissionais especializados. Com a ajuda de Gregório, Zogham removeu sua orientada da maca e a colocou na cama. Apesar de permanecer inconsciente, ela começava a agitar-se, como se estivesse tendo sonhos ruins dos quais tentava acordar sem sucesso. − Quanto tempo eu tenho até ela voltar a si? – Zogham perguntou a Gregório. − Um dia do Portal. – ele respondeu. − 49 horas... Isso não é muito tempo, preciso agir rápido. – Zogham segurou sua mão, debruçou-se e falou baixinho em seu ouvido: “Eu não vou te perder. Sinto muito que esteja passando por isso, a culpa é minha, mas tenha certeza, eu não vou te perder.” – em seguida levantou-se, estava profundamente emocionado – Gregório, sua ajuda foi inestimável. Será que eu poderia te pedir mais um favor? − Se eu puder ajudar... – Gregório respondeu solicitamente. − Eu preciso ir ver Mestre Carama e também preciso fazer contato com o Energizador que poderá nos ajudar. Você poderia ficar aqui e fazer-lhe companhia até eu voltar? – a testa de Zogham estava franzida e seu ar era de total preocupação.

− Mas se é só isso, não se preocupe. Vá e faça o que tem que ser feito. Ficarei aqui até que retorne. – Gregório aproximou-se e olhou para ela – Está bastante agitada, você sabe por quê? − Provavelmente está tentando evitar a lembrança do momento em que seu fio vital foi rompido. Deve pensar que é um pesadelo, mas não consegue acordar, então, desvia o pensamento para outra coisa, mas todos os caminhos a levam ao mesmo lugar. Por isso, quero logo reverter esta situação. Não posso permitir que ela continue neste sofrimento. − Como foi que ela teve o fio vital rompido? – Gregório perguntou. − Ela foi atropelada e seu corpo terrestre perdeu a condição de mantê-la. – Zogham falou com enorme pesar. − Compreendo... Nesse momento, ambos olharam para ela com profunda compaixão e no silêncio que se fez, a sala se tornou ainda mais clara e uma suave luz envolveu aquela frágil figura deitada sobre a cama, que parou de se debater. Zogham e Gregório trocaram olhares e o primeiro fez um pequeno gesto de agradecimento com a cabeça. Zogham sabia que a sinergia de vibração entre ambos havia gerado uma carga energética que envolveu sua orientada sedando momentaneamente sua estrutura mental. − Obrigado mais uma vez, Gregório. Agora eu vou, até logo. E Zogham saiu pela única porta da sala, mas não sem antes dar uma última olhada para a jovem inconsciente que desconhecia totalmente sua atual condição.

Capítulo 4 A yoctocabine
Zogham nunca havia estado diante do atual Governador do Portal de Anaya, mas sabia que se tratava de um ser justo, altamente evoluído e com conhecimentos que ele nem imaginava quando, e se um dia, também os teria. Mas esses eram requisitos fundamentais, caso contrário, não poderia ocupar esse posto. No entanto, estava profundamente preocupado com as consequências de seu deslize. Tornou-se Orientador Aprendiz quando ainda era Nível 4 e esta era a sua segunda orientada. Acompanhava-a há muitos ciclos e, neste momento, fez uma pequena pausa para relembrar o início, quando ele esteve ao seu lado em seu último ciclo em um planeta Nível 1. Amava-a como se fizesse parte de seu próprio ser e comemorava cada conquista dela, no entanto, sabia que havia exigido mais do que deveria. Sentiu-se em desarmonia e as emoções que abandonara há tanto tempo atrás o estavam abalando. Preocupação e, principalmente, remorso, não o ajudariam, pelo contrário,

atrapalhariam na hora de resgatá-la. Se não conseguisse se controlar, poderia perdêla, e ele não queria lhe causar mais dor e sofrimento. Não sabia mais como ser imparcial, apesar dessa ser uma exigência na relação entre Orientador e orientado. Ao sair da sala de recuperação, Zogham se dirigiu a uma yoctocabine. Gostaria de poder flugitar até a sala do Governador, o que significava se deslocar pelo pensamento, pois o corpo segue para onde a mente quer levar. Flugitando, ele poderia chegar a quase qualquer lugar praticamente na mesma velocidade de seu pensamento, mas, por questões de segurança, a flugitação não era permitida no Portal de Anaya. Por isso, não lhe restava outra opção, a não ser usar uma cabine de transferência, mesmo sendo um recurso um pouco mais lento. O Portal de Anaya possuía muitas delas e ele precisou apenas seguir por um corredor próximo para localizar uma. As yoctocabines, ou cabines de transferência, eram pequenos cubículos que identificavam a composição de quem entrava nelas, decompondo suas partículas para recompô-las em uma outra cabine, porém, só o pensamento era transferido, a forma física era refeita com o mesmo material, pois tudo era energia e tudo era possível de ser refeito, exceto o pensamento, que era o próprio indivíduo. Elas foram desenvolvidas pelos cientistas do Portal como um meio de transporte universal e por serem mais precisas do que a flugitação, principalmente para longas distâncias. Serviam de ajuda para aqueles que possuíam limitada capacidade de concentração.

Ainda hoje é comum na flugitação desejar ir a um lugar e aportar em outro completamente diferente quando não se é treinado o suficiente. No início, as yoctocabines estavam distribuídas em todos os mundos, havendo um número incontável delas. Mas a utilização inadequada do sistema, levou ao recolhimento de todas as cabines existentes fora do Portal, de modo que, agora, só era possível utilizálas para locomoção dentro dele. Zogham apenas parou diante da cabine. Em seguida, a porta se desmaterializou e ele entrou. Por dentro, era bem pequena, acomodando apenas um indivíduo de cada vez. Ao se posicionar no centro dela, a porta tornou a se materializar. Diante dele surgiu um rosto andrógeno. − Olá, você está em uma yoctocabine localizada no setor 2 de cura,

restabelecimento, resgate, atendimento, reenergização e recuperação do Portal de Anaya, para onde deseja se transferir? − Oi, eu gostaria de ir à sala de Mestre Carama. − Matrícula, por favor. − NA5O10470. − Zogham Quercus, qual o motivo da transferência? − Mestre Carama solicitou minha presença. A figura meio masculina, meio feminina, abaixou ligeiramente os olhos e começou a gesticular como se estivesse consultando algum sistema de informação. Zogham começou a perceber uma leve ansiedade em suas emoções e sentiu-se ainda mais desestabilizado. Tentou esvaziar a mente e, de repente, pela primeira vez em um tempo que poderia definir quase como a eternidade, não conseguiu parar de pensar. Felizmente, ele ouviu a estranha voz dirigir-se a ele novamente: − Vou transferi-lo para uma cabine em frente à sala de Mestre Carama. Agora, peço que não cancele as instruções de segurança e ouça atentamente as orientações. Tenha uma boa viagem. Zogham suspirou profundamente, estava realmente ansioso. – Que sensação desconfortável! – Nunca se sentira impaciente em uma cabine, mesmo que já tivesse ouvido as instruções milhares de vezes. Era parte do procedimento e isso nunca o incomodou. Mas, agora, teve que se esforçar para controlar a própria impulsividade que lhe induzia a cancelar todo aquele discurso que já sabia de frente para trás e de trás para frente. Fechou os olhos e esforçou-se para manter o equilíbrio.

Assim, onde antes estava o rosto andrógeno, agora aparecia o interior de uma yoctocabine e uma voz automatizada iniciou uma narração que era ilustrada conforme o que ia sendo dito: − Bem-vindo ao sistema de transferência do Portal de Anaya. Você será transferido de uma cabine a outra e precisará respeitar algumas normas de segurança. Durante a transferência, você será escaneado para que possa ser totalmente particulado. Nesse processo, sua forma será decomposta, sua consciência será desenergizada e sua mente será transferida por yoctocanais, por isso, é aconselhável evitar qualquer pensamento a partir de agora. Ao chegar à cabine de destino, você será recomposto e sua mente restabelecida. Mantenha-se em estado de relaxamento e não antecipe a abertura da cabine, pois quando o processo de recomposição estiver completo, a porta se desmaterializará automaticamente. É fundamental respeitar o tempo da reconstituição pois a saída da cabine antes do término do procedimento poderá acarretar em perdas de registros mentais que só poderão ser repostos com a ajuda de um Energizador que tenha acesso ao seu prontuário. O Portal de Anaya lhe deseja uma boa viagem. Em seguida, a tela foi recolhida e Zogham começou a sentir uma agradável sensação vibratória iniciando em sua cabeça e que ia, lentamente, descendo por todo o seu corpo. Aos poucos, foi sentindo-se leve e sonolento. Tudo foi se tornando um grande vazio e uma claridade intensa começou a envolvê-lo. Quanto mais claro e vibrante ficava, mais sonolento se sentia. Apesar do conselho que recebera durante a exposição do procedimento de segurança, ainda tentou ter um último pensamento sobre tudo o que estava acontecendo, mas foi em vão, antes que pudesse pensar em sua orientada mais uma vez, um clarão o cegou e ele simplesmente "apagou". Dentro da cabine, Zogham havia sido envolvido por uma forte luz e, do alto de sua cabeça, um pequeno raio, de coloração refratária, se deslocava até o teto, onde era absorvido por uma abertura imperceptível. Por ali, seguia cada pensamento, descoberta, erro, conquista ou fracasso ocorridos em sua existência. Cada registro impresso em sua memória genética desde que era apenas um “ponto de energia” desprendido da Fonte Original, recolhido pelos Luminares e conduzido aos Geneticistas Elementares. Aos poucos, sua forma visual, criada por ele mesmo, se dissolvia suavemente. Quase que no mesmo instante, na cabine em frente à sala de Mestre Carama, um raio de luz descia do teto, formando uma minúscula bola brilhante suspensa no ar. À medida que a bola aumentava de diâmetro, a cabine se inundava da mesma claridade anterior e, em meio a ela, a forma de Zogham ia se tornando mais definida.

Onde antes estava a bola de luz, agora estava sua cabeça. Seu corpo havia sido totalmente reconstituído. Ele abriu os olhos e, ainda sentindo a mesma agradável sensação de calor, entendeu que já havia chegado ao destino. Por impulso, quis acionar a abertura da cabine, mas se conteve, ciente de que já havia feito bobagem demais, considerando, principalmente, que era um Orientador Nível 5. O tempo que ficou aguardando o término do processo pareceu muito maior do que aquele no qual teve que ouvir as instruções de segurança. Enquanto tentava pensar no que iria dizer a Mestre Carama, o rosto da figura andrógena reapareceu: − O processo de transferência foi concluído, alguma sensação desagradável a relatar? − Não, tudo correu normalmente. – Zogham estava sendo sincero, mas se perguntou se, diante da urgência que o afligia, teria relatado alguma ocorrência, caso tivesse acontecido uma. − Tenha um bom dia! A tela foi recolhida novamente e Zogham percebeu que a porta começava a desaparecer diante dele até que sumiu completamente. A cabine ficava no meio de um salão oval, inundado por uma luz azul. Apesar de bem amplo, não possuía nenhum mobiliário ou outro apetrecho qualquer, somente a yoctocabine e uma porta muito grande, de cor escura, diante dela. Zogham caminhou em direção a ela e percebeu que não possuía qualquer tipo de maçaneta. Levantou o braço e de punho fechado avançou para bater nela apenas uma vez, pois no instante em que sua mão se aproximou da porta, foi repelido para trás por uma violenta descarga de energia. Ao cair sentado diante dela, sentiu um descontrole em sua mente, levantou-se rapidamente e avançou de novo para a porta, mas ela se abriu antes que pudesse tentar socá-la mais uma vez. Assim que entrou, Zogham viu-se em um ambiente de paisagem inigualável. Ele estava sobre uma ponte de pedra, suspensa sobre um lago de água transparente, onde centenas de pequenos seres nadavam e circulavam por ele. Alguns subiam por pedras apenas para pularem na água novamente. As formas eram tão variadas quanto coloridas. Zogham diminuiu o ritmo dos passos e parou ao sentir que alguém o seguia. Virou-se devagar mas só foi possível ver quem estava atrás dele quando abaixou os olhos. Um pouco maior que o palmo de sua mão, segurando um cajado, estava um tritium. Suas pernas eram brilhosas, sem pelos, e seus pés tinham dedos que se uniam por uma pele fina. Ao final da coluna vertebral descia uma cauda escamosa que poderia ter várias cores, a deste era laranja. Seus braços e tórax eram brilhosos como suas pernas, e musculosos também. Sua cabeça era revestida de escamas iguais as

da cauda e seu rosto tinha uma expressão suave e curiosa, com olhos amarelados e apenas dois orifícios no lugar do nariz. Zogham preparava-se para cumprimentá-lo quando algo pairou no ar diante dele. Imediatamente, ele esqueceu o tritium e observou uma delicada borboleta preta e amarela que seguiu voando até um jardim que contornava o lago. Foi então que Zogham percebeu que estava rodeado de criaturas aladas, tão coloridas e variadas quanto as que estavam no lago. Ali, naquele ambiente, estavam várias linhas evolutivas distintas. Seres aquáticos e alados que evoluiriam para espécies inteligentes e conscientes da própria existência. Algumas extintas em seus mundos de origem, mas continuadas em outros mundos que ainda davam seus primeiros passos. Zogham olhava tudo a sua volta, admirado com a beleza e a integração do ambiente. Recomeçou a caminhar sobre a ponte e, do outro lado dela, viu Mestre Carama, sentado em uma grande cadeira esculpida em rocha e coberta com hera. Neste momento, ele se lembrou do motivo pelo qual estava ali e tentou correr, no entanto, a cada passo que dava, parecia que Mestre Carama ficava mais longe. De repente, a ponte começou a derreter e o chão se transformou em uma gosma pegajosa. Do lago exalava um cheiro fétido e tudo virou um grande lamaçal. Não havia mais paisagem, nem seres coloridos, apenas um grande borrão, como se tudo houvesse derretido e todas as cores tivessem se misturado. Em meio a este caos, apenas a figura de Mestre Carama se mantinha nítida. Zogham ajoelhou-se e começou a repetir: − Minha mente constrói e minha mente destrói. Somente o autocontrole e o autoconhecimento são capazes de me tornar livre para decidir quem eu quero ser e onde quero estar. Minha mente constrói e minha mente destrói. Somente o autocontrole e o autoconhecimento são capazes de me tornar livre para decidir quem eu quero ser e onde quero estar. Minha mente constrói e minha mente destrói... – Zogham repetiu a frase várias vezes, mantendo-se ajoelhado, de olhos semiabertos e com as pontas dos dedos tocando as têmporas. Aos poucos, o cenário a sua volta foi se modificando. Surgiram paredes em tom de palha, com teto branco e chão de madeira. Mestre Carama estava sentado em uma cadeira de balanço, ao lado dela havia uma pequena mesa com um transmissor em cima e um projetor multidimensional a sua esquerda. No meio da sala havia um imenso tapete vermelho e laranja. Também havia muitas plantas, tanto em vasos no chão quanto em vasos suspensos. A sala era iluminada por uma luz suave que dava ao local uma sensação de aconchego e paz. Zogham estava transpirando quando abriu os olhos e observou o novo ambiente. Levantou-se lentamente e focou Mestre

Carama, que tinha o olhar sereno e inalterado, como se este tivesse sido o cenário da sala todo o tempo. Com um sorriso disse: − Se você fosse Nível 4, eu o estaria parabenizando pelo esforço em manter o autocontrole, no entanto... − ...eu sou Nível 5 e não deveria ter interferido na sua tela de projeção mental. – Zogham estava sentindo-se exausto e confuso, suas emoções estavam realmente fora de controle. − Zogham, meu filho, em primeiro lugar, seja bem-vindo. – Mestre Carama disse isso com uma das mãos estendidas como se desejasse derramar fluidos de energia sobre Zogham. – Você não poderá ajudar sua orientada se não reencontrar seu ponto de equilíbrio. Por isso fiz questão que viesse à minha sala, para que eu pudesse decidir se devo substituí-lo ou não. E pelo que vi, acho que terei que designar outra pessoa para ampará-la. A propósito, como ela se chama? − Julianna Young. – Zogham respondeu ainda confuso – Mas antes de decidir pela minha substituição, gostaria que me ouvisse. − Claro. Então, eu quero que se sente e me conte tudo, desde o início ou, se preferir, desde o momento que culminou na chegada de Julianna ao Portal. Zogham ia comentar que não havia outra cadeira, mas antes que isso acontecesse, ele percebeu, pelo sorriso de Mestre Carama, que já havia uma atrás dele. Virou-se e viu uma cadeira de balanço idêntica a que Mestre Carama estava sentado. Acomodou-se e iniciou a falar rapidamente, mas antes que concluísse a primeira frase, foi interrompido: − Desculpe-me, não tenho a intenção de interferir novamente, portanto quero que fale sem pressa, pois, se não estou enganado, devemos ter um dia do Portal para salvar Julianna de si mesma e você deve saber que sentimentos de ansiedade e remorso não irão ajudá-lo a resgatá-la e tirá-la de seu estado atual. Constrangido e envergonhado, Zogham sabia que era impossível esconder suas emoções do Governador. Para ocupar esse cargo, era preciso ser um conhecedor absoluto de Heredologia, da organização dos mundos, da Astro e Psicobiologia e, principalmente, das vibrações e ondas do pensamento, responsáveis pela individualidade de cada ser em qualquer forma que se encontrasse. Governadores estavam acima dos níveis que categorizavam os seres em evolução. Mesmo ele, que na tabela de grau do Portal de Anaya ocupava o nível mais alto em conhecimento, ainda precisaria estudar, trabalhar e viver muitas experiências para poder exercer um cargo de administrador aprendiz, que serviria de estágio antes de

ser indicado como Governador de um planeta Nível 1 e ainda precisaria governar, pelo menos, um planeta Nível 2, para ser indicado à Administração do Portal. Poucos seguiam esse caminho, pois exigia envolvimento e sacrifício extremos em alguns momentos, o que levava muitos a declinarem do convite, mesmo depois de terem dedicado sua existência a isso. − Sinto muito Mestre Carama. Vou tentar me controlar, é que estou lidando com emoções que já não me afligiam mais e acho que esqueci como lidar com elas. − Eu sei, eu sinto isso. Além do mais, sua vibração desregulada, como você mesmo percebeu, interferiu na minha tela de projeção mental, causando um ruído bem desagradável. Por isso mesmo, preciso afastá-lo da posição de Orientador até que se reabilite. Imagino que não tenha feito nenhuma energização recentemente. Mas creio que tudo se explicará e se resolverá após esta conversa, portanto... – Mestre Carama gesticulou com a mão para que Zogham começasse a contar sua história e, apesar de falar de forma objetiva e sem floreios, sua voz era sempre calma e seu olhar, o de um amigo. − Bem, tudo começou quando eu ainda era Nível 4, quer dizer, eu só descobri meu nível depois, quando cheguei ao Portal de Anaya pela primeira vez. – Zogham estava nervoso, mas o olhar gentil do Governador o incentivava a continuar – Meu planeta era muito avançado social e tecnologicamente. Éramos uma grande família, não havia mais divisas, nosso idioma era um só, assim como nossa nacionalidade. Todos nós nos considerávamos arturianos, simplesmente habitantes de Arturia. Um único Conselho, eleito por toda a população mundial, administrava a ordem do planeta. As culturas se uniram e se completaram, não havia intolerância nem arrogância, o alimento era para todos. Como já havíamos compreendido a existência do espírito e sabíamos que a morte era apenas uma transformação, passamos a nos comunicar regularmente com aqueles que já haviam deixado Arturia, em sua forma física, e eles nos colocaram em contato com seres mais instruídos, que começaram a orientar nossos cientistas, e as descobertas se tornaram cada vez mais reveladoras. Com isso, conquistamos o direito de termos algumas escolas de aprimoramento, que logo se tornaram Universidades espalhadas por todo o planeta. No entanto, o maior avanço de todos foi descobrir como manipular a energia de forma consciente e responsável. Com ajuda desses seres superiores, pouco a pouco, nossa constituição genética foi sendo alterada e nossa matéria foi ficando menos densa. – Zogham pensou que seria interessante ter um copo d’água a mão, pois mesmo sem sentir sede, a água era um revitalizante.

− Coloque suas mãos na tigela. – Mestre Carama apontou para o lado de Zogham que, ao se virar, percebeu uma pequena mesinha, com uma tigela contendo água. − Eu não deveria me surpreender... Obrigado. Zogham colocou suas mãos na água e sentiu uma forte corrente de energia percorrer seu corpo. Mestre Carama fez um gesto para que continuasse. − Assim que nossa matéria se tornou etérea, a morte deixou de existir em Arturia, pois não precisávamos mais de um corpo físico. O planeta foi considerado Nível 4 e fomos registrados no Portal de Anaya. Passamos a frequentar os centros de estudos das mais diversas linhas existentes no Portal. Interessei-me pelo serviço de orientação e dediquei-me a isso. Em pouco tempo me tornei Orientador Aprendiz, até que recebi graduação Nível 5 e fui designado para um planeta Nível 1. Minha primeira orientação foi em par e, junto com meu companheiro, auxiliamos duas irmãs. Quando uma delas completou o ciclo, ele a seguiu até uma colônia de recuperação e eu permaneci com a outra até que esta completasse seu ciclo também. Zogham fez uma pausa e olhou para a tigela de água. Mestre Carama concordou com a cabeça e ele molhou suas mãos novamente, permanecendo com elas na água um pouco mais de tempo. − Durante nossa estadia na colônia, estávamos preparando as duas irmãs para retornarem ao planeta Nível 1 quando recebi a informação de que eu seria designado a acompanhar outra pessoa. A princípio não entendi o motivo pelo qual eu estava sendo realocado, mas meu superior me explicou que aquelas irmãs ainda teriam alguns ciclos naquele planeta e eu deveria orientar sozinho alguém que precisaria evoluir para um planeta Nível 2. Confesso que fique feliz, pois a densidade daquele ambiente me obrigava a procurar um Energizador com frequência. Então, após treinamento adequado, fui levado a uma enfermaria e conheci a Julianna que, na época, tinha outro nome e outra aparência. E, ao contrário das duas irmãs, que permaneciam inconscientes e assim ficariam até o novo ciclo, Julianna estava acordada e aguardava a minha visita. Nesse momento, Mestre Carama interrompeu Zogham. − Eu sei que prometi não interrompê-lo, mas estou sendo chamado por uma frequência de emergência. Um pedido de Ariel chegou até a mim e preciso atendêla. – o Governador se desculpou. De repente, a figura de Ariel surgiu no projetor multidimencional. Ela estava bastante agitada e andava de um lado para o outro.

− Mestre Carama, me perdoe por chamá-lo nessa frequência, sei que o senhor está ocupado, mas eu preciso de sua ajuda. − Acho que sei do que se trata, mas diga, o que houve? − O funcionário da Letras e Acessórios Astrais, por orientação minha, levou o dinheiro que recebeu da Nível 2 para trocar por bônus de energia e, pelo visto, a história se espalhou rapidamente no Portal de Anaya. Não estou dando conta de atender a tanta gente pedindo informações. Já houve 2.356 casos de indivíduos que foram colocados em estado de inconsciência por outros que acreditavam serem eles o Nível 2. O senhor acredita que desacordaram uma pher? Como alguém pode achar que uma pher é Nível 2? – Ariel não escondia a indignação. − Acalme-se, Ariel, você não poderá coordenar essa crise se não mantiver o controle. Eu já imaginava que isso iria acontecer. Sei que ocorreu um caso similar a esse muito antes de eu assumir o Portal, e os registros mostram que houve um comportamento idêntico. – o Governador continuava calmo e confiante. − Eu sei Mestre Carama, e estou tentando, mas não entendo isso. Ninguém que frequente o Portal tem Nível inferior a 4, então, como podem agir assim? – a voz de Ariel era quase um choro. − Você não está levando em consideração o nível moral de cada um, apenas o de conhecimento. É verdade que somente níveis 4 e 5 têm acesso ao Portal, mas isso não significa que possuem ética. Esses seres tiveram acesso ao conhecimento porque seus orbes evoluíram coletivamente, no entanto, se mantiveram fiéis a valores distorcidos. Continuam circulando em meio aos níveis mais baixos e usam do conhecimento que possuem para manipular, gerar discórdia e incentivar o caos. − Sim, o senhor tem razão. Apesar de todo treinamento que recebi e de todas as simulações das quais participei, nunca imaginei que fosse presenciar uma crise de verdade. – Ariel já falava mais tranquilamente. − Querida, devemos estar sempre preparados para uma crise. O importante agora é mantermos o nosso equilíbrio. Convoque voluntários para ajudá-la no atendimento do seu setor e informe a todos os coordenadores do Portal o que está acontecendo. Com a quantidade de yoctocabines, transmissores e projetores multidimensionais que temos, a notícia se espalhará por todos os setores em pouco tempo. Crises geram desequilíbrios e os desequilíbrios mexem com a harmonia do Portal de Anaya, e você sabe que isso pode abalar os orbes em evolução, não sabe? − Sim, eu sei. Mas o que eu faço com as falsas denúncias? Já tenho 2.356 salas de recuperação ocupadas com seres inconscientes. Para cada um, preciso de um

Energizador. Sem falar que eu nem sabia que uma pher poderia ser colocada em estado de inconsciência aqui no Portal! – mais uma vez, Ariel voltava a se exaltar. − As falsas denúncias devem ser tratadas conforme as regras que regem o Portal. Seus autores deverão ser advertidos e encaminhados para uma reciclagem comportamental. Suas matrículas ficarão bloqueadas para acesso ao Portal de Anaya até que cumpram a exigência. − Muito obrigada Mestre Carama, tomarei as providências necessárias e o manterei informado. E me perdoe, mais uma vez, por tê-lo interrompido. – Ariel uniu as mãos para se despedir, mas Mestre Carama a chamou antes que continuasse. − Tenho mais uma coisa a lhe dizer, Ariel. − Sim...? – ela falou incerta. − Esqueça aquele relatório por enquanto, mas entenda que são eles que nos auxiliam a tomar decisões quando ocorrem as crises e, mais importante, nos ajudam a criar procedimentos que as evitam. Devemos ser proativos e não apagadores de incêndio. Um tanto envergonhada, Ariel se despediu de Mestre Carama. Pela primeira vez, ela entendeu a real utilidade de todos os dados inseridos no sistema gestor do Portal de Anaya. Zogham, que acompanhara toda a conversa, estava se sentindo muito constrangido. – De um momento para outro, havia um ser Nível 2 no Portal de Anaya e era sua orientada! Aliás, ela poderia sofrer sérios danos pela forma como a situação estava transcorrendo, precisar ser transferida para uma colônia de recuperação próxima à Terra e perder alguns ciclos essenciais à sua evolução. Sem falar na eminente crise que se instalava no Portal. − Você esqueceu de completar seu raciocínio com o fato de que, certamente, deixará de ser o Orientador da Julianna e terá que retornar a um ciclo de existência em algum planeta, como missionário. Zogham tinha apenas pensado, mas Mestre Carama podia ler cada linha de seu pensamento. Os bloqueios mentais não funcionavam com o Governador do Portal em sua sala. − Mestre Carama, não sei o que dizer. – Zogham desviou o olhar sentindo-se cada vez mais envergonhado. − Então, apenas continue sua história. Você dizia que Julianna estava consciente na enfermaria...

− Sim. – Zogham fez um esforço mental para retomar sua narrativa de onde havia parado – Quando cheguei à enfermaria, Julianna estava deitada em uma cama, ainda muito frágil. Seu último ciclo havia sido de extremo sofrimento. Escravidão, torturas, fome e todo tipo de humilhação. Em um único ciclo, ela havia resgatado todas as suas ações de ciclos anteriores. Como o senhor sabe, os níveis 1 costumam ser encaminhados a seus ciclos por indução superior. No entanto, Julianna não respondia às sugestões feitas pelos orientadores ao seu inconsciente e demandava muito esforço de todo o corpo consultivo. Decidiram então, que ela deveria passar por um ciclo de resgate e receber esclarecimentos ao chegar à colônia. Não foi uma tarefa fácil, seu padrão mental atraía os seres mais baixos que fizeram de tudo para mantê-la cativa depois que terminou seu ciclo. Mas uma equipe multidisciplinar, em uma ação meticulosamente planejada, recuperou-a e ela foi tratada por um Energizador altamente graduado. − E você se sentiu encantado por ser designado como seu Orientador. − Afirmo Mestre Carama, que não foi a vaidade, mas o desafio que me motivou e me alimentou o espírito durante todo o processo. Eu estudei seu prontuário, fiz vários treinamentos e me preparei para aquele primeiro encontro. Eu estava tranquilo e confiante. Quando me aproximei dela, não foi difícil perceber que apesar da aparente fragilidade, sua mente trabalhava sem parar. Ela queria explicações. Passamos um longo tempo juntos na colônia e ela recebeu as informações básicas que envolvem a nossa existência, absorvendo tudo com muita avidez. Nos preparamos para seu último ciclo como Nível 1 e sua determinação foi tanta, que se manteve fiel a seus instintos em todos os momentos, deixando seu nome registrado na história daquele planeta. Quando retornamos à colônia, obviamente, ela não sabia quem eu era, ainda estava sob efeito do Inhibere, mas confiava em mim. Ela conquistou o Nível 2 e eu me tornei, definitivamente, seu Orientador. − Por quantos ciclos ela já passou? – Mestre Carama perguntou como se desconhecesse de fato a resposta. − Oito, em um giro do Portal. – Zogham respondeu sabendo qual seria a pergunta seguinte. − Por que tão poucos? − Ela gosta de trabalhar e ajudar nas colônias, tornou-se resistente aos ciclos e ao estudo, por isso está tão atrasada. Passou por muito sofrimento em tão poucas existências, claro que isso foi devido a não estudar e... – Zogham finalmente havia chegado ao ponto que culminara no desfecho de sua chegada ao Portal.

− E...? − ... e eu quis dar um “empurrãozinho”. Julianna sempre preferiu as formas femininas. Acostumou-se a elas e, com muita relutância, retornou apenas duas vezes em um corpo masculino. Em ambas, seguiu a carreira religiosa, mais para fugir de suas tendências homossexuais, proporcionadas pelo seu próprio padrão mental. Como a homossexualidade ainda é mal compreendida na Terra, e era ainda muito mais nos períodos em que ela cumpriu esses ciclos, a religiosidade lhe serviu de refúgio. Porém, os ensinamentos que recebeu eram um retrocesso ao verdadeiro conhecimento, o que dificultava seu aprendizado quando retornava à colônia, uma vez que sua mente havia sido submetida ao que eu chamaria de lavagem cerebral. – Zogham percebeu que procurava uma justificativa para seu equívoco, mas mesmo ele não acreditava que existisse uma. − E de que forma foi esse “empurrãozinho”? – Mestre Carama mantinha o semblante sereno, prestando muita atenção em Zogham, sem dar qualquer sinal de recriminação. − Em seu último ciclo, já como Julianna, eu pedi autorização para que ela retornasse como filha de um Energizador. É claro que fui alertado dos possíveis danos que poderiam ocorrer da convivência de alguém com tão pouco conhecimento com uma mente tão evoluída. Os conflitos foram enormes, pois ela ainda trazia os conceitos de suas vidas religiosas anteriores e considerava o pai, um louco. Foi um desastre, pois o Energizador não podia comprometer sua missão com a humanidade daquele planeta por conta de um único ser. É claro que ele a amava, porém, estava ali para algo muito maior e que lhe demandava total dedicação, mas Julianna não tinha esse conhecimento e se tornou uma adolescente problemática, carente do afeto paterno, e sua mãe, que era uma assistente Nível 4, se mantinha fiel à sua missão também, fazendo Julianna se sentir órfã de pai e mãe vivos. – Somente agora, narrando os fatos para Mestre Carama, Zogham se dava conta do tamanho do erro que havia cometido. − Mas você poderia ter corrigido seu equívoco trazendo-a de volta e lhe proporcionando uma nova existência. Por que não fez isso? – o comentário do Governador era tão simples e tão óbvio, que Zogham se perguntou como deixara a situação chegar a esse ponto. − Julianna tem o equivalente a 24 anos terrestres. Durante a adolescência, usou algumas drogas que prejudicaram sua capacidade de compreensão e percepção. Sob o efeito delas, eu não conseguia influenciá-la e qualquer tentativa de levá-la de volta à colônia nesse estado, a colocaria em uma cama de enfermaria novamente.

Por dez anos, tentei livrá-la do vício e há seis meses consegui que ela buscasse tratamento adequado. O Energizador deixou-a sob minha responsabilidade, já que não tinha nenhuma influência sobre ela. Há uma semana, e eu estou contando pela forma como o tempo corre na Terra, eu consegui a autorização para romper seu ciclo, mas buscava uma forma natural de fazê-lo. Não queria que fosse nada agressivo, para não prejudicar sua recuperação. − E encontrou uma solução? − Sim. A princípio, eu pedi ajuda a um Geneticista Intermediário para que me auxiliasse, alterando sua estrutura de forma a causar alguma anomalia que a conduzisse ao rompimento do ciclo. Mas isso seria demorado, já que seu código genético não tinha sido programado para isso. No entanto, ele me deu uma simples sugestão: uma parada cardíaca. Bastava que eu fizesse seu coração parar de bater! − E por que não fez isso? – Mestre Carama perguntou novamente, porém, continuava sereno e acolhedor. − Esse foi o problema. Julianna sofreu o acidente no mesmo momento em que eu recebia a sugestão. Eu cometi um deslize ingênuo. Todo esse equívoco começou a me abalar emocionalmente e voltei a ter sensações de ansiedade que já não me afligiam desde quando ainda habitava Arturia. Julianna estava dormindo e eu a conduzi inconsciente a uma colônia próxima da Terra, para que eu pudesse vir ao Portal me encontrar com o geneticista, em uma última tentativa de achar uma solução para romper seu ciclo sem maiores danos. Quando a deixei lá, o enfermeiro me disse que faria tudo para mantê-la inconsciente, mas eu teria que ser rápido, pois seu corpo poderia despertar e ela seria reconduzida a ele imediatamente, sem que nada pudesse ser feito. − Por que não pediu um Orientador Substituto? – a pergunta de Mestre Carama mais uma vez foi tão óbvia que Zogham se sentiu muito imaturo, e isso porque estava sendo muito generoso consigo mesmo. − Por que eu não pensei nessa possibilidade. Eu nunca havia solicitado um, então, essa hipótese nunca me passou pela mente. Eu simplesmente me dirigi ao Portal e estava tão eufórico com a solução encontrada, que o enfermeiro não conseguiu se comunicar comigo informando que ela havia acordado. Depois que eu me encontrei com o geneticista e ele me sugeriu a parada cardíaca, eu só pensava em ir buscála. Porém, mal havia me despedido, senti uma vibração na cabeça. Minha pineal começou a pulsar e imediatamente eu soube que estava para acontecer alguma coisa com Julianna. Fui até a colônia, mas já era tarde. Tentei localizá-la, mas os

sinais estavam confusos e os pensamentos dela me fizeram crer que estava em outro lugar. Quando cheguei à Terra, os sinais se tornaram apenas um ruído e, de repente, eles sumiram. Vi a cena de seu atropelamento em minha mente e a imagem começou a se repetir. Eu compreendi que seu ciclo vital havia sido rompido. – Zogham pensou que se tivesse lágrimas, ele estaria chorando neste momento. − E o que fez? – o Governador quis saber. − Retornei no mesmo instante ao Portal, totalmente desnorteado, mas assim que cheguei aqui, voltei a captar os sinais de Julianna. Com nossas pineais conectadas e eu pensando nela insistentemente, acredito que Julianna foi trazida para cá, mesmo sem perceber. Ela deve ter flugitado sem sentir até uma das entradas do Portal e, provavelmente, conseguiu acessá-lo porque meu código está nela. Tentei me concentrar e, então, os sinais ficaram tão fortes, que ela só poderia mesmo estar aqui. Foi quando a vi sendo colocada na maca por Gregório e um casal. Acho que o senhor sabe o resto da história. Zogham sentia-se muito exausto e, sem ao menos olhar para Mestre Carama, mergulhou as mãos na água e fechou os olhos. − Essa é uma história e tanto. – concluiu o Governador – Agora, vamos ver como consertaremos isso. Em primeiro lugar, creio que o mais importante é não perdermos Julianna. Acha que pode fazer isso ou prefere que eu já indique alguém? – Mestre Carama havia se levantado e, aos poucos, Zogham percebeu que o ambiente começava a se modificar, retomando a forma que tinha quando ele chegou. − Sim, senhor, eu posso mantê-la conosco melhor do que qualquer outro. Por favor, me deixe consertar o meu erro. – Zogham implorou. − Tenho certeza que sim e o deixarei agir, então. O fato de Julianna ter tido acesso ao Portal por causa da conexão que há entre vocês, mostra que essa ligação criou vínculos profundos. Permita-me dizer que vejo saindo de sua pineal, fios que indicam terminações complexas, que só poderão ser desligadas por um Ergonius. − Então, o senhor vai permitir que eu continue sendo o Orientador dela? – Zogham perguntou esperançoso. − Não exatamente, mas é preciso que algo seja feito. – Mestre Carama concluiu. − Como assim, senhor? – Zogham não compreendeu. − Como eu disse, primeiro precisamos nos concentrar em não perdê-la. E, não que você seja o mais indicado para isso, mas, sem dúvida, é o mais capacitado no

momento, por conhecê-la tão intimamente. Se conseguir, ela será conduzida a uma colônia satélite aqui do Portal para sua plena recuperação, até que possa ser transferida a uma instituição adequada. − E depois? – o Orientador estava apreensivo. − Conversaremos novamente. Por ora, vá e comece a agir. – Mestre Carama ordenou, ainda que sua voz continuasse gentil. Zogham já havia se levantado da cadeira quando lembrou da autorização que precisava obter de Mestre Carama. − Senhor, só mais uma coisa. – ele falou vacilante. − Sim? – o Governador já estava novamente em sua cadeira. Mas Zogham permaneceu em silêncio, imaginando que Mestre Carama já havia lido em sua mente o que ele iria pedir. − Pode falar. – o Governador o incentivou. – Eu não passo o tempo inteiro lendo mentes, caso contrário, você nem precisaria ter me contado sua história. − Ah, me desculpe. – Zogham falou sem graça. – Eu gostaria de solicitar a ajuda de um Energizador. − Claro. Fale com Ariel que ela irá ajudá-lo. − Bem, é que... é que não é um Energizador qualquer. − Não? E quem seria ele? – Mestre Carama o olhou dentro dos olhos e Zogham teve a certeza de que, desta vez, ele já havia lido seus pensamentos. − O pai de Julianna na Terra. – ele falou desviando o olhar. − O pai... mas ele ainda está lá, não? – o Governador perguntou divagando. − Sim, está. Por isso preciso de sua autorização. Tenho certeza que ao perceber a presença dele, mesmo inconsciente, Julianna sentirá todo o amor e carinho do pai, como sempre desejou e isso irá contribuir muito para que se mantenha conosco. – Zogham não tinha certeza se o Governador concordaria com um pedido tão fora dos padrões. − Hum... o que você me pede é incomum, afinal, teremos que retirá-lo do convívio com as pessoas da Terra por algumas horas. Ao mesmo tempo, concordo que seria uma excelente escolha... – Mestre Carama inclinou a cabeça para trás e pensou por alguns instantes. Enquanto o Governador considerava seu pedido, Zogham tentou, sem sucesso, esvaziar a mente de qualquer pensamento. Sabia que esse era o primeiro exercício para buscar o equilíbrio. Ficou assustado em perceber que sua mente havia

deixado de ser uma ferramenta útil para se transformar em um carrasco implacável, bombardeando-o com acusações e incentivando-o à culpa. − Tudo bem. Volte para a sala de recuperação que logo ele estará lá com vocês. Mas trate de controlar suas emoções. E não pense que digo isso porque estou lendo sua mente, pois não é preciso. Basta, apenas, que eu leia os seus olhos, pois você está com o semblante desfigurado pela angústia. − Eu farei isso Mestre Carama. E Zogham fez a reverência para se despedir do Governador. Ao se virar, percebeu que toda a sala estava recomposta, exatamente como quando chegou. Pensando na recomendação que acabara de receber, caminhou calmamente por sobre a ponte e notou que estava sendo acompanhado pelo tritium, que o olhava curioso. Alcançou à porta de saída que se abriu assim que ele se aproximou dela. Do lado de fora, ele olhou para a cabine diante dele e pensou como seria mais rápido flugitar até Julianna. – Bem, o jeito é recorrer a uma yoctocabine novamente. – e a porta da sala de Mestre Carama se fechou atrás dele.

Capítulo 5 O Energizador
Gregório estava de pé ao lado da cama onde Julianna permanecia inconsciente. Apesar de menos agitada, a expressão de seu rosto ainda era de sofrimento. − Ela realmente precisa de um Energizador... – ele disse para si mesmo. Os energizadores eram capazes de mapear todos os pulsos elétricos de um ser. Cada pensamento era um pulso e a mentalização que cada um fazia para compor suas ideias e, até mesmo, sua própria forma no universo, era um conjunto deles. Assim, ao longo de uma existência, um indíviduo poderia embaralhar tudo em sua mente, causando um verdadeiro curto-circuito, confundindo as lembranças,

fortalecendo as fobias, enfraquecendo a memória. Por isso, era necessário procurar um Energizador regularmente, para colocar ordem nos pensamentos e evitar o desequilíbrio e a confusão mental. No entanto, não era aconselhável ir a qualquer um, mas ter um Energizador de confiança, pois um tratamento mal feito poderia causar muitos danos, tornando a situação do indivíduo pior do que antes, algumas vezes com sequelas irreversíveis, o que significava a eliminação definitiva de uma determinada lembrança ou a fixação equivocada de uma ilusão plantada por meio de manipulação de energia. Gregório estava muito preocupado com Julianna. Ele sabia que ela devia estar presa ao momento de seu atropelamento e, provavelmente, buscava ilusões para fugir da dor e daquilo que se recusava a aceitar como verdade: que seu corpo terrestre não existia mais. Se ela não fosse tratada, era certo que sua mente se refugiaria em suas próprias fantasias e passaria a viver alienada à realidade de sua existência. Mesmo que pudesse permanecer desacordada por um dia do Portal, sua mente continuaria em atividade nesse tempo. − Por que Zogham está demorando tanto? – mal acabara de dizer isso em voz alta, Gregório viu a porta se abrindo. – Ainda bem que voltou! Zogham entrou na sala e se aproximou de Julianna, segurando sua mão. No mesmo instante, ela estremeceu suavemente. − Oi, Gregório. Como ela ficou durante minha ausência? – ele perguntou sem tirar os olhos dela. − Exatamente como está agora. E a conversa com Mestre Carama? – Gregório quis saber se estava tudo bem.

− Melhor do que eu imaginava. – Zogham respondeu aliviado. − Isso é bom. E por alguns instantes se mantiveram em silêncio. Gregório observava Zogham que levara a mão de Julianna até os lábios. O Orientador mantinha os olhos fechados e Gregório estranhou que ele transparecesse tanta dor e sofrimento. Não deveria ser assim, ele pensou. − A propósito, Mestre Carama autorizou o Energizador que solicitei. Logo, logo resolveremos isto. – Zogham se voltou para Gregório, mas continuava a segurar uma das mãos de Julianna. − Mas por que esse Energizador precisou de autorização? – Gregório perguntou curioso. − Por que ele ainda vive na Terra, era o pai de Julianna. − Ah, isso explica a permissão especial. − Gregório, eu agradeço muito por ter ficado aqui com ela, mas sei que iniciei uma crise no Portal por conta do meu erro. Se precisar ir, sinta-se à vontade. – Zogham estava realmente grato a Gregório, mas sabia que o Monitor devia estar fazendo falta no apoio a Ariel. − Tudo bem, Zogham, eu falei com Ariel ainda há pouco e ela conseguiu contornar a situação depois de falar com Mestre Carama. Posso ficar com vocês. Quem sabe não serei útil ainda? – o Monitor respondeu solidário. − Meu amigo, suas palavras me confortam. Apesar de tudo, estou extremamente confiante. Acho que dará tudo certo e terei Julianna de volta sem danos. Nesse momento, a porta da sala de recuperação se abriu e um senhor de cabelos brancos curtos e olhos cinza, trajando um manto azul celeste com uma faixa amarela na cintura, entrou. Do alto de sua cabeça, saía um pequeno fluido prateado, denso, em forma de fio, que se dissolvia no ar. Esse fluido era o que o mantinha preso ao corpo físico. A cor variava de acordo com o nível evolutivo e a missão de cada um. O fato de ser prateado, sinalizava a Zogham e a Gregório de que se tratava de um ser em missão e nível elevados. A sala, que era toda branca, refletiu uma intensa luminosidade e o ambiente ficou mais leve. Ele caminhou até Julianna, tocando o ombro de Zogham para que se afastasse. Curvou-se sobre ela e proferiu um sussurro em seu ouvido: – Minha menina, papai está aqui. Vai ficar tudo bem. Papai te ama muito e mamãe também. Ela não pôde vir, mas seu coração está em você. – O semblante de Julianna se suavizou e seus lábios pareceram sorrir. O senhor se ergueu e ficou a alguns passos do leito. Dirigindo-se a Zogham e Gregório, disse:

− Meus irmãos, eu sou Clarêncio Baruque, o pai terrestre de Julianna. Neste momento, já é noite de onde venho e meu corpo descansa, sentido pela perda de minha menina. Não sabíamos que ela estava sendo mantida desacordada. − Muito obrigado por ter vindo. – Zogham estava realmente feliz. Com a ajuda de Clarêncio, as chances de Julianna seriam muito maiores. − Considerando que o próprio Governador do Portal solicitou minha presença aqui, imagino que sua aparição no Portal de Anaya tenha causado algum contratempo. – concluiu Clarêncio. Zogham uniu as palmas das mãos e reverenciou o Energizador. − Clarêncio, eu me chamo Zogham e sou o Orientador de Julianna. − Eu conheço você. – disse o Energizador. − Sim. Nos conhecemos em uma colônia terrestre, quando esteve lá para dar uma palestra. Isso foi antes de se tornar o pai de Julianna, depois nos vimos quando ela começou a ter problemas com as drogas e o senhor me pediu que resolvesse essa situação. Este é Gregório, é o Monitor que a resgatou no Portal e a trouxe para cá. Ela está presa ao seu último momento na Terra e toda vez que se depara com o instante do atropelamento, rejeita a imagem e desvia o pensamento, mas acaba se deparando com ele novamente. − Zogham Quercus, se bem me lembro. – disse Clarêncio puxando pela memória. − Exatamente. – confirmou o Orientador. − Sei que é inútil dizer que discutimos a improbabilidade do sucesso dessa missão na qual se empenhou. Como Energizador, responsável por amparar parte da humanidade terrestre, fui um pai omisso e ausente. Eu o havia prevenido que isso poderia acontecer. – e apesar das palavras duras, a entonação na voz de Clarêncio era mansa e suave. − Eu sei, e sinto-me culpado pelo que causei a ela. Quis forçá-la a uma evolução para a qual não estava preparada. Julianna sempre foi muito mais de trabalhar do que de estudar. Pensei que a convivência com um ser tão evoluído a entusiasmaria. – e Zogham começou a pensar que havia sido um Orientador totalmente incompetente para Julianna. − Eu entendo. – Clarêncio procurava as palavras adequadas para se dirigir a Zogham, pois não tinha a intenção de julgá-lo ou recriminá-lo. – Mas é preciso compreender que quando estamos presos a um corpo físico é muito fácil esquecermos os compromissos assumidos antes do nascimento. Mesmo para aqueles que, como eu, vão em missão e carregam algumas centenas de ciclos em

diferentes orbes. As tentações do mundo material são inúmeras e difíceis de resistir. Zogham abaixou a cabeça. Quanta imaturidade ao pensar que Julianna estaria pronta para dar um passo tão grande. Clarêncio continuou: − Ela precisava de muita atenção e amor, coisa que nunca teve em ciclos anteriores. Não podemos dar aquilo que não temos, e ela nunca se sentiu verdadeiramente amada a ponto de ceder o pai e a mãe para o mundo. Ela nos queria somente para si. − Foi minha culpa... – Zogham sentenciou. − Não foi sua culpa, mas era sua responsabilidade. – ele disse enfático – Mas deixemos isso de lado, o importante agora é trazê-la de volta e tirá-la deste tormento. Vamos acionar o campo magnético da sala. – e dirigindo-se a Gregório – Desligue seu transmissor para que não cause interferência. − Sim, senhor, já está desligado. – em seguida Gregório se dirigiu ao painel próximo da porta e ativou o campo magnético. − Prestem atenção agora. – Clarêncio olhou para Gregório e depois para Zogham, onde deteve o olhar. – Eu vou escanear todas as lembranças dela e anular temporariamente todas as experiências ruins que teve, exceto o momento do seu desenlace. Em seguida, vou entrar em sua mente e conduzi-la até a cena do atropelamento. Para que não haja traumas futuros, ela terá que se lembrar de cada detalhe, inclusive o medo que sentiu e a dor proporcionada pelo choque do veículo em seu corpo. − Será que ela vai aguentar? – Zogham estava preocupado. − Eu manterei esse fragmento de sua mente cercado por um cordão de energia muito forte, mas se ela não puder suportar a sensação, sua mente irá buscar algum refúgio e nós a perderemos. O campo magnético da sala de recuperação não permitirá que ela saia daqui, mas também não despertará, o que significa que terá que ser internada em uma colônia para recuperação mental e seu tratamento será extremamente difícil e demorado. − E como é esse tratamento? – Gregório se interessou em saber. − Com as lembranças embaralhadas, e refugiada em algum momento de sua existência, terão que apagar muitas delas, prejudicando vários ciclos que precisarão ser refeitos. – Zogham respondeu voltando a se aproximar de Julianna. Ele tocou seus cabelos e deu um beijo em sua testa.

− Sim, e como ela passou por poucos ciclos, talvez precisem apagar todos. – completou Clarêncio. De repente, Zogham teve uma ideia. − Clarêncio, minha pineal está conectada a dela, então, eu vou desbloquear meus sensores para poder dividir sua dor. Você acha que isso pode ajudar? Antes de responder, o Energizador se aproximou de Zogham e Julianna, ficando entre ambos. Ele alternava o olhar de um para outro, até que deu dois passos para trás e considerou: − Meu filho, normalmente, o fio de luz que sai da pineal de um Orientador, se encontra com o mesmo fio de luz que sai da pineal de quem está sendo tutelado e ambos se tocam, sendo conectados apenas pelas extremidades... – Clarêncio não concluiu sua frase. − O senhor pode ver nossas pineais? – Zogham achava mesmo que ele podia. − Eu não seria um Energizador se não pudesse. No entanto, o que vejo saindo de suas cabeças, são dois fios entrelaçados, conectados em diversos pontos diferentes. Para desfazer essa conexão, somente um Ergonius. Se você desbloquear seus sensores, sentirá tudo que ela sentir e poderá amenizar sua dor, aumentando a probabilidade dela conseguir ir até o fim. Você quer fazer isso? – Clarêncio enfatizou a pergunta. − Eu quero muito! – foi a resposta convicta de Zogham. − Então, vamos começar. – olhou para Gregório – Melhor você ficar naquele canto, a descarga de energia pode atingi-lo e você terá fortes náuseas se isso acontecer. Tente pensar em coisas boas e liberar cristais de água, eles manterão o ambiente mais harmonioso. E, o mais importante, não olhem para a tela de forma alguma. As cenas que irão passar nela são capazes de abalar até aqueles que já se libertaram das emoções mais primitivas, como raiva, revolta e desejo de vingança. Não se arrisquem, mantenham seus olhos bem fechados e seus pensamentos

concentrados no que devem fazer. Gregório caminhou até um dos cantos da sala, fechou os olhos e evocou os melhores pensamentos dos quais conseguiu se lembrar. Clarêncio colocou as duas mãos sobre a testa de Julianna e na tela acima da cama começaram a surgir imagens desfocadas. Primeiro eram borrões, alguns pareciam espectros, mas, aos poucos eles foram tomando forma. Logo, surgiu uma criança suja e desgrenhada, presa a uma árvore por um cordão de couro. A criança chorava muito e um homem se aproximou com uma vara. Dali em diante, começaram a ser projetadas cenas de muita violência.

Em um momento era uma criança, em outro era uma mulher. Um homem se auto flagelando até a perda da consciência. Imagens de tortura, estupro, mutilação e todo tipo de agressão física e moral passava desordenadamente. Julianna se debatia cada vez mais. Zogham segurava sua mão firmemente. Essas lembranças estavam sendo bloqueadas em sua mente e não retornariam por muito tempo. Aos poucos, os sofrimentos e aflições foram se tornando menos agressivos e mais materialistas. Associados a distorção de valores, eram problemas financeiros, paixões

descontroladas, orgulho ferido e outras situações similares. Quando terminou, Clarêncio parecia exausto. − Pronto. A primeira etapa está concluída. Todas as lembranças ruins estão bloqueadas temporariamente e não poderão nos atrapalhar. Pode desbloquear seus sensores agora, Zogham. Vou entrar na mente dela. Zogham se concentrou por alguns instantes enquanto Clarêncio, no canto oposto da sala onde estava Gregório, sacudia as mãos para o chão e delas saíam faíscas cor de sangue que eram dissolvidas tão logo tocavam em alguma parte da sala. − Não se deixem atingir por nenhuma faísca. Isso pode ser extremamente doloroso. – alertou o Energizador. Clarêncio se reaproximou de Julianna e segurou em sua outra mão. A tela, então, voltou a projetar novas imagens. Um Clarêncio mais jovem estava sentado com uma menina no colo, abraçado a ela. Seus cabelos não eram tão brancos, apenas grisalhos. Em seguida, ele se levantou e conduziu a criança pela mão até um jardim. Depois de abraçá-la bem apertado, deu-lhe um ramo de jasmim. A menina fechou os olhos e encostou o ramo bem próximo do nariz, aspirando-o profundamente. Quando abriu os olhos, já era a própria Julianna. Seu olhar mostrava que tentava compreender o que estava acontecendo. O cenário a sua volta começou a se modificar e ela se viu em pé, à beira de uma calçada, em uma avenida muito movimentada. Trajava a mesma roupa com a qual chegou ao Portal de Anaya. Julianna se precipitou a atravessar a rua e quando estava no meio dela, um veículo de porte médio buzinou freneticamente. Ela se virou, mas não teve tempo para nada, a pancada foi direto em seu ventre. Na cama, Julianna, ainda inconsciente, soltou um grito gutural. No exato momento da pancada, a tela pareceu sofrer uma interferência. Subitamente, surgiu a imagem da mesma menina de antes, só que agora, em posição fetal, deitada em uma cama num quarto de criança. − Ela está tentando fugir. – foi Clarêncio quem disse. – Vou levá-la de volta.

Na tela, o Clarêncio mais jovem entrou no quarto, pegou a menina nos braços e a conduziu ao mesmo jardim. A sequência foi a mesma. O ramo de jasmim, Julianna, a calçada. − Se ela fugir de novo, não poderei trazê-la de volta, pois não confiará mais em mim e sairá correndo quando eu tentar me aproximar. – Clarêncio alertou Zogham sobre a possibilidade real de não conseguirem resgatar Julianna de si mesma. No entanto, dessa vez, quando surgiu o som da buzina, Zogham apareceu na tela correndo em direção à Julianna. − Eu estou aqui Ju, eu estou aqui! – ele repetia sem parar. Quando o veículo os pegou, ela soltou o mesmo grito lancinante e Zogham se abraçou a ela com todas as forças. Ela se agarrou a ele, chorando e gritando. Ambos foram projetados no ar pelo forte impacto causado pelo veículo. − Está doendo, está doendo, eu não quero morrer! – ela gritava de olhos fechados. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. − Vai ficar tudo bem, eu prometo, se agarre em mim. Eu amo você Julianna. Sua dor será minha dor. Eu amo você! – Zogham a envolveu mais forte em seus braços para que ela não tentasse fugir da cena. Na tela, Julianna fechou os olhos e se agarrou ainda mais a Zogham. Na cama, seu corpo estava banhado em suor. Ela se debatia, chorava e gritava. – Eu não quero morrer agora, eu não quero! Quadro a quadro, a tela projetou o momento em que ambos, Julianna e Zogham, abraçados um ao outro, caíram em cima de um carro menor que vinha logo atrás para, em seguida, serem arremessados no meio da avenida. Os gritos dela se tornaram súplicas de total desespero. Com os braços em volta de Julianna, Zogham pôde sentir toda a dor do contato de seus corpos com o asfalto e o peso de um veículo ainda maior, que passou por cima deles em seguida. Sentiu o som dos ossos de sua cabeça rachando, e uma forte explosão de seu crânio. Na própria boca, estava o gosto de seu sangue, misturado a pedaços de algo esponjoso, que imaginou ser seu cérebro. Não lembrava que era possível sentir tanta dor assim. Essa era a dor de Julianna que ele dividia. Lentamente, percebeu seu corpo sendo reconstituído e o de Julianna também. Seu choro havia se transformado em pequenos gemidos. Ainda deitados no asfalto e abraçados um ao outro, Zogham puxou o cabelo de Julianna para o lado, descobrindo seu rosto. A avenida estava vazia. Ele a soltou e se agachou ao lado dela. – Está tudo bem agora, pode abrir os olhos.

A tela foi escurecendo até que se apagou e Julianna começou a despertar. Ao se perceber acordada, ela se sentou de súbito, vendo Clarêncio em pé a sua frente, dirigiu-lhe um olhar inquisidor. − Pai? − Sim, minha querida. Eu estou aqui. – O Energizador deu um passo a frente. Então, Julianna começou a observar o ambiente lentamente, até que notou a presença de Zogham e Gregório. − Que lugar é este? Quem são estas pessoas? – Ela olhava de um para outro buscando respostas. Parou o olhar em Zogham e o sustentou por alguns instantes. De repente, lembrou-se da cena do atropelamento. – Eu morri?

Capítulo 6 A Pher
− Acho que ela está acordando... – disse a Monitora. − E o que devemos fazer? – perguntou o rapazinho que estava com ela. − Esperar... apenas esperar... Mila Duncan era Monitora de Área, assim como Gregório. Em geral, ficava em outro setor do Portal de Anaya, mas Ariel havia solicitado seu apoio, uma vez que a presença de Julianna, ali, causara alguns transtornos e toda ajuda era bem-vinda. A Monitora era esguia, tinha a pele negra e usava os cabelos presos no alto da cabeça. Seus olhos também negros eram ligeiramente puxados. Tinha um interesse especial pela Genética, dividindo seu tempo entre o trabalho e os estudos em um Laboratório de Criação. Sua forma física era a expressão matemática da beleza, resultado de muita dedicação na construção de um modelo simetricamente perfeito. No momento, estava em uma sala de recuperação acompanhada de um voluntário, e aguardava que uma das vítimas, colocada em estado de inconsciência por ter sido confundida com a habitante do planeta Nível 2, acordasse. O voluntário era Earl Witz que, apesar da aparência pré-adolescente de uma criança que acabara de entrar na puberdade, carregava em sua existência mais giros do Portal do que a própria Mila. − Veja, ela abriu os olhos! – Earl gritou apontando para a vítima deitada sobre o leito. − Shhh... – Mila sabia que estava diante de um ser especial e que deveria não apenas ter respeito, mas reverência pela sua magnitude. − O que aconteceu? Onde eu estou? – e a vibração causada pelo som dessas palavras encheu o ambiente de partículas brilhantes. Uma leve sensação de bemestar envolveu Mila e Earl. − Senhora, eu sou Mila Duncan, uma Monitora de Área do Portal de Anaya e este é Earl Witz, um amigo que está me ajudando. Nós estamos em uma sala de recuperação. − Eu não compreendo. Vim solicitar uma audiência com Mestre Carama... – e dirigindo-se a eles – ... por favor, sinto-me fraca, podem me ajudar a sentar? − Claro! – Earl e Mila prontamente a rodearam e cada um lhe deu apoio em uma das mãos para que pudesse levantar-se.

Ao se sentar, seus cabelos caíram sobre seus ombros em cachos que desciam muito além de sua cintura. Eram dourados com mechas vermelhas luminosas. E se Mila achava que tinha encontrado a forma perfeita para si mesma, também tinha a consciência do quanto estava distante de modelar um ser como aquele. Seus conhecimentos sobre genética limitavam-se basicamente à evolução humana. Não tinha ideia de como seria o mapa genético de uma pher, mas tinha certeza de que o grau de complexidade ia além de sua capacidade de compreensão. − Eu tinha acabado de chegar ao Portal e esperava conseguir falar com Mestre Carama, então, eu senti um toque em meu ombro e tudo escureceu. Lembro apenas de ter sentido minha energia se dissipar. – a pher falava pausadamente, tentando se lembrar exatamente do que havia acontecido. − A senhora foi colocada em estado de inconsciência, assim como outros também foram. Infelizmente, tivemos uma ocorrência de uma habitante de um planeta Nível 2 perdida aqui no Portal e, apesar dela já ter sido resgatada, houve um certo alvoroço. Alguns se aproveitaram disso para tentar criar uma desordem em nossa estrutura. – Mila esperava que a pher não tivesse prestado muito a atenção na explicação dada. − Uma Nível 2? Você está dizendo que eu fui confundida com uma Nível 2? – mesmo que sua voz não demonstrasse qualquer traço de arrogância ao fazer tal questionamento, estava claro que a pher ficara surpresa com o que acabara de ouvir. − Não senhora. – Mila respondeu educadamente. – Estou dizendo que alguém se aproveitou da situação para colocá-la em estado de inconsciência e, sendo a senhora uma pher, quem fez isso tinha outros interesses. − Sim, agora compreendo. – ela abaixou a cabeça e seus cabelos cobriram seu rosto, uniu as palmas das mãos, mantendo-se concentrada por alguns instantes. Em seguida colocou-as sobre os joelhos, viradas para cima. Lentamente foi surgindo um brilho em volta de todo o seu corpo e de trás de suas costas surgiu um enorme par de asas cintilantes que variavam do dourado ao bronze. Mila e Earl deram alguns passos para trás pois as asas da pher ocuparam quase toda a largura da sala. Ela levantou a cabeça, balançou as asas e desceu da cama. Nesse momento, Mila e Earl tiveram a impressão de que ela era duas vezes maior do que a frágil imagem que instantes atrás estava desacordada e deitada sobre a cama. – Preciso ver Mestre Carama imediatamente!

− Sim senhora isso não será difícil. O Governador já havia nos alertado para que a levássemos até ele tão logo retomasse a consciência. – a Monitora se apressou em dizer. Mila e Earl acompanharam a pher até uma yoctocabine e tão logo a porta se fechou, Mila acionou seu transmissor. − Ariel na escuta? – a Monitora aguardou a resposta. − Oi Mila, mais algum problema? A pher já acordou? – sua voz demonstrava cansaço. − Já, e nós acabamos de colocá-la em uma cabine de transferência. Creio que ela deve estar chegando na sala de Mestre Carama neste exato momento. − Tudo bem, ele a está esperando. – disse Ariel. − Você ainda vai precisar de nós? – Mila perguntou. − Não Mila, obrigada. A ajuda de vocês foi inestimável. Já está tudo sob controle, vocês podem ir agora. – apesar de cansada, Ariel estava bem mais animada, pois o incidente estava praticamente controlado. − Sendo assim, vou liberar o Earl e retornar ao meu setor. – disse Mila. − Agradeça a ele por mim também. – Ariel pediu. − Tudo bem, ele está aqui do meu lado te ouvindo. Mila olhou para Earl que gesticulava e sussurava indicando que ela deveria descrevê-lo a Ariel. − Bem, pela careta que ele está fazendo, acho que está pedindo para eu te enviar um beijo. – Mila comentou sorrindo. Earl balançou a cabeça positivamente. − Hum... acho que ele precisa de mais alguns estágios evolutivos. – as duas riram e se despediram em seguida. − Tchau, Mila, e obrigada mais uma vez. – despediu-se Ariel. − Tchau Ariel, foi um prazer. – e Mila desligou o transmissor. Earl olhou para a Monitora esperando um comentário. − Você ouviu o que ela disse, não preciso repetir, certo? – ela respondeu ao olhar inquiridor de Earl. − Eu passarei por quantos estágios evolutivos forem necessários para continuar a sentir os prazeres que um corpo de matéria densa pode proporcionar. – então, Earl

olhou bem nos olhos de Mila. – Não entendo como vocês não sentem falta da troca de fluidos que um beijo na boca ou uma boa noite de sexo pode nos dar. − E eu não entendo como você se nega a passar dessa etapa e se permitir outras formas de êxtase tão mais prazerosas do que as paixões carnais. – Mila provocou. − Não imagino como poderiam ser. – ele deu de ombros. − Claro que não, você não se desconecta desses mundos inferiores, mas um dia você vai cansar. – a Monitora afirmou categórica, mas Earl apenas sorriu e concluiu: − Um dia Mila, um dia... mas tenha certeza que ainda terão muitos giros do Portal até lá.

§
Ao sair da yoctocabine a pher se dirigiu à porta da sala de Mestre Carama, que se abriu diante de sua presença. No interior da sala se vislumbrava o mesmo ambiente com o qual Zogham havia se deparado antes, mas ao contrário do que acontecera com ele, não houve qualquer tipo de alteração e Mestre Carama estava sentado em sua cadeira de pedra coberta de hera com o semblante sereno enquanto aguardava a pher atravessar a ponte que os separava. − Mestre Carama, como vai? – a pher abriu suas asas e fez uma ligeira reverência. − Muito bem Aminah, mas acho que não posso dizer o mesmo de você. – ele disse solidário. − Minha missão tem sido muito árdua e sinto que talvez não consiga ser bem sucedida. Tenho encontrado muitos obstáculos causados por aqueles que não querem a evolução do mundo ao qual fui designada como Guardiã para preparar a chegada do seu novo Governador. – Aminah caminhou pela sala – Minha força diminui a cada dia e, agora mesmo, mal havia chegado ao Portal com a intenção de pedir seu aconselhamento, fui posta em estado de inconsciência por alguém que desconheço sob a alegação de ter sido confundida com uma habitante de um planeta Nível 2. Isso mostra o quanto minha imunidade está baixa. Aminah Zerlinda, apesar de possuir uma magnitude natural, se mostrava extremamente humilde diante de Mestre Carama. − Aminah, eu sei o peso de sua missão e sou solidário aos seus receios, mas peço que não desanime. Você tem razão quando diz que muitos não querem a evolução de Wicnion, pois esse orbe vem servindo de colônia corretiva durante muitos giros do Portal, além disso, muitas formas evolutivas de diferentes genéticas foram

misturadas ali, o que hoje sabemos não ser eficaz. Wicnion é a única exceção, em todo o Universo, de um planeta que coloca lado a lado seres que ultrapassam, até mesmo, o Nível 5, que possuem muito conhecimento, e seres Nível 1, que nada sabem sobre as leis básicas da vida. Sua frequência energética é muito baixa e a matéria extremamente densa. São poucos os espíritos que conseguimos resgatar após o rompimento do fio vital, e aqueles que não conseguimos são mantidos presos à órbita do planeta para servirem como escravos ou se tornam colaboradores de seus dirigentes. − Mas Mestre... – no entanto, Mestre Carama levantou a mão pedindo que ela esperasse a conclusão do que tinha a dizer. − Wicnion foi uma experiência mal-sucedida de um de nossos mais antigos laboratórios de organização genética, liderado por aquele que hoje é o seu Governador. Naquela época, acreditava-se que seres muito avançados em conhecimento, mas sem nenhuma moral constituída poderiam se regenerar auxiliando orbes em formação, onde as primeiras manifestações de inteligência começavam a despertar. O conceito ainda é válido e utilizado, porém, essa combinação passou a demandar um estudo muito mais profundo e analítico, evitando, por exemplo, que a forma evolutiva de uma pher seja colocada junto com a de um humano. − Sim, eu sei. Somente uma espécie em cada planeta desenvolve inteligência. – Aminah completou o raciocínio de Mestre Carama. − Isso mesmo. Sem falar que pelas leis naturais que regem o Universo, suas fontes de energia já deveriam ter se esgotado, eliminando qualquer tipo de vida em Wicnion. Mas existem dois motivos para que isso não tenha ocorrido ainda, você sabe quais são? − Creio que o primeiro é que, se isso acontecer antes de resgatarmos todos os espíritos que lá se encontram, seja na matéria densa das criaturas que lá habitam, seja na forma etérea de sua natureza, porém presos ao magnetismo do orbe, estaremos desrespeitando a maior de todas as leis naturais, o direito à vida e à evolução. Esses seres estarão entregues à própria sorte e muitos poderão simplesmente retornar à Fonte Original como lixos cósmicos, como se nunca tivessem existido. − Correto. E isso, como você também deve saber, é a única coisa a qual podemos, verdadeiramente, chamar de morte. Por isso, ajudamos a proteger o planeta, mantendo vivas as estrelas nas quais Wicnion orbita. – completou Mestre Carama.

− E o segundo motivo? – a pher quis saber. − O segundo motivo é que o conhecimento alcançado pelo seu Governador e por alguns de seus dirigentes tem protegido Wicnion de todos os fenômenos naturais que poderiam provocar seu fim, como a escassez de alimentos e água ou a colisão com asteróides e outros fragmentos. – ele explicou. − Existem muitas espécies evoluídas e inteligentes em Wicnion. – Aminah apenas comentou. − Sim, mas eles usam esse dom em proveito próprio. O conceito de inferno que existe em vários mundos foi disseminado por espíritos resgatados de Thartarius que foram conduzidos a planetas compatíveis com suas organizações genéticas. O mesmo podemos dizer das fadas, dragões, tritiuns e humanos. Cada mundo elaborou suas lendas criando seres fantásticos, pois desconheciam suas origens. Tudo isso estimulados por fragmentos de memória de vidas anteriores, daqueles que um dia conviveram com todas as espécies em Wicnion. – o Governador do Portal assumiu uma entonação didática. − Desculpe-me por interrompê-lo Mestre Carama, não quero parecer grosseira, mas eu conheço a história de Wicnion e não compreendo o que realmente quer me dizer. – a pher estava dividida entre o dever e o esgotamento energético. − Então você deve saber também que estamos há quase dois giros do Portal preparando um novo Governador para enviá-lo a Wicnion e que precisamos de todos os aliados disponíveis. Haverá uma reunião do Conselho Universal para que autorizem a tomada definitiva desse orbe. Não haverá exílio para seus dirigentes, eles serão colocados em estado de inconsciência e encapsulados. – a voz de Mestre Carama se mantinha impassível. − Mas como...? – Aminah pareceu não acreditar. − Finalmente, o Laboratório de Energia e Magnetismo concluiu o projeto de desenvolvimento de um escudo protetor de frequências que permitirá nossa falange entrar no orbe sem ser detectada. Serão milhares de voluntários que nascerão em Wicnion. Seres de luz que tomarão o lugar dos espíritos que hoje vagam como prisioneiros, se arrastando como vermes à órbita do planeta, condenados ao ciclo de nascimento e morte imposto por seus dirigentes, de acordo com seus próprios interesses, sem esperança de evolução. – Mestre Carama explicou. Aminah Zelinda andou em círculos e demonstrando cada vez mais cansaço, desabafou:

− Mas se já há um plano em vias de execução, por que não posso me retirar? – perguntou esperançosa. − Durante esse tempo, você e os outros três guardiões, Dracon, Melissa e Nicola, e todos os colaboradores, têm levado mensagens de salvação aos wicnianos. Os dirigentes os desprezam por acharem que são inofensivos e todas as tentativas de espionagem que eles tentaram, falharam, pois capturamos os enviados e os isolamos em colônias sem possibilidade de comunicação. Como nada fizemos além disso, sentem-se seguros de que não temos voluntários suficientes para combatêlos. Se algo for alterado nessa rotina, é possível que desconfiem de algum plano eminente e possam vir a montar guarda em Slaggelann. – ele sabia que a convenceria. − Está bem, vou retornar a Wicnion, mas gostaria de saber exatamente quando e como será iniciada essa ação. De que forma esses espíritos de luz tomarão o lugar dos wicnianos? – Aminah encarou o Governador. Mestre Carama sorriu ternamente, segurou as mãos da pher e com um olhar determinado disse: − Você será informada sobre a decisão do Conselho Universal. Os detalhes só serão dados a partir daí, mas estou certo de que Wicnion está prestes a escrever suas últimas linhas na história do Universo.

Capítulo 7 A revelação
− E então pai, me responde, onde estamos? O que aconteceu comigo? Eu morri? – Julianna não conseguia elaborar suas perguntas na mesma velocidade de seus pensamentos. O que o senhor faz aqui? Não me diga...? − Shhhhh... – Clarêncio levou uma das mãos até os lábios de Julianna em sinal de que ela não deveria continuar o que ia dizer. – Acalme-se, você está entre amigos. Na verdade, você se desprendeu de seu corpo físico sim, e não poderá mais retornar a ele. Mas como pode ver, a morte não significa deixar de existir. − Mas se eu morri, como pode o senhor estar aqui comigo a menos que tenha morrido também? – Julianna perguntou surpresa. – E que coisa é esta saindo da sua cabeça? − Querida, seria muito extensa a minha explicação e muito reduzida a sua capacidade de compreensão no momento. Por enquanto, basta saber que o meu corpo físico está dormindo e que, uma vez que você está bem, terei que retornar a ele. Esta “coisa” na minha cabeça, como você diz, é exatamente o que me mantém conectado ao meu corpo. – Clarêncio recostou a cabeça de Julianna em seu peito e lhe afagou os cabelos. − Mas o senhor não pode me deixar aqui sozinha sem que eu saiba o que está acontecendo! – Julianna exaltou-se, afastou-se do pai e de um pulo ficou em pé ao lado da cama. − Ah, minha filha amada. Em primeiro lugar você não vai ficar sozinha. Estas pessoas estão aqui para cuidar de você. – ele apontou para Gregório e Zogham. – E em segundo lugar, as explicações lhe serão dadas no momento certo. Não tenha medo, se for possível eu virei visitá-la e sua mãe também. − Mas papai... – ela choramingou. − Julianna, tudo pode parecer nebuloso e incompreensível agora, mas confie em mim. – ele se virou e fez sinal para que Zogham se aproximasse – Este aqui é Zogham Quercus. Daqui por diante, ele cuidará de você melhor do que eu fui capaz. – Clarêncio posicionou Zogham bem próximo à Julianna. – Agora, eu preciso ir. − O senhor não pode ir assim, fique mais um pouco, por favor. – ela suplicou.

− Infelizmente não posso. – ele a abraçou longamente – Vai ficar tudo bem. Clarêncio beijou a face de Julianna e apesar de seus protestos, virou-se e saiu pela porta. Ela se sentou na cama e começou a chorar. − Por quê? Por que ele me abandonou? – ela soluçava inconformada. Zogham se aproximou dela, segurando suas mãos, molhadas pelas lágrimas que corriam incessantes pelo seu rosto. − Julianna, eu farei tudo para que você fique bem. Não te desapontarei, prometo. Ela soltou suas mãos das dele, enxugou as lágrimas e observou o local onde estava. Olhou para Gregório, depois para Zogham e perguntou: − Vocês são anjos? Zogham encarou Gregório que retribuiu com um ligeiro sorriso. Depois, voltando-se para ela: − Não Julianna, nós não somos anjos. Como seu pai disse, meu nome é Zogham Quercus. Eu sou um Orientador. – e apontando para o amigo. – E ele é Gregório Akil, um Monitor de Área. − Eu conheço ele. Foi ele quem me “apagou” quando eu estava sentada em um banco da Rodoviária... quer dizer, agora eu penso que não estava na Rodoviária. – ela concluiu. Gregório sorriu gentilmente: − Sinto muito, mas foi preciso. E antes que Julianna pudesse contestar, Zogham interrompeu: − É verdade, não podemos dizer que o Portal de Anaya é exatamente uma Rodoviária, apesar de servir também como uma estação de transporte. − Portal de Anaya? – Julianna não conseguia compreender muita coisa daquela situação. Estava morta, mas sentia-se mais viva do que nunca, sem falar que conversava com dois estranhos sobre coisas mais estranhas ainda. – Você se chama Zogham Quercus? E é um Orientador? O que isso significa? Você é Orientador de quê? − Bem, o Portal de Anaya, é uma espécie de estação espacial que conecta todos os mundos existentes no nosso Universo, tanto aqueles que chamamos de materiais, quanto os mundos etéreos. E, em breve, você entenderá o que eu faço, prometo. − Desculpe-me Zogham, mas seu nome, assim como tudo isso que está acontecendo, é muito estranho, parece que estou num filme de ficção científica. Eu não compreendo nada do que me diz. Para começar, não compreendo por que

apesar de morta, nós estamos aqui, conversando naturalmente, como se nada tivesse acontecido comigo. – Julianna estendeu os braços e se aplicou pequenos beliscões. – Esse tal Portal de Anaya é uma espécie de Céu? O paraíso prometido? − Não, de forma alguma, mas entendo que seja difícil para você compreender tudo de uma só vez, por isso, proponho o seguinte, guarde suas perguntas por enquanto. Vou levá-la a um lugar mais agradável que esta sala fria e impessoal. Lá, poderemos conversar e todas, ou quase todas, as suas perguntas poderão ser respondidas. Quanto ao meu nome, encare-me como se eu fosse estrangeiro, o que não deixa de ser verdade. – Zogham sorriu com o próprio comentário. Julianna não retribuiu o sorriso. Ela apenas ficou pensativa por uns instantes, até que considerou: − Tudo bem, me parece que eu não tenho muita escolha. Meu pai me disse para confiar em vocês, mesmo que eu não esteja muito certa de que era meu pai de verdade. – e ela arregalou os olhos como se tivesse feito uma descoberta estarrecedora. – Aquilo era um truque? Vocês podem fazer isso não podem? Quero dizer, vocês podem mudar de forma ou provocar alucinações e coisas do tipo? − Não, aquilo não era um truque. Foi realmente seu pai quem esteve aqui. – Zogham tentou tranquilizá-la. – Sim, podemos mudar de forma, mas isso é muito mais complexo do que possa imaginar, pelo menos, aqui no Portal de Anaya, pois existem regras. E, não, não provocamos alucinações, fazemos projeções mentais, o que é totalmente diferente. E agora, mocinha, chega de perguntas. Precisamos ir. Zogham não conseguia esconder sua felicidade em ter Julianna ali, a salvo e conversando com eles, com toda aquela curiosidade que ele já conhecia e a impaciência de esperar para dar um passo de cada vez. Foi nesse momento que ele compreendeu que já havia perdido o controle de suas emoções há muito tempo e que o amor que sentia por aquele ser ia muito além do amor fraternal de um Orientador por sua tutelada. De repente, tudo ficou claro. Não poderia permitir que a paixão que deixara brotar dentro de si, o tornasse incapaz de resistir aos caprichos de Julianna novamente. Desta vez, ele seria rígido e cumpriria seu papel de Orientador. Desfez o sorriso e repetiu: − Precisamos ir agora. Na hora certa você terá suas respostas. Julianna estranhou a mudança repentina de Zogham, que parou de sorrir e falou em tom de ordem, sem possibilidades de protesto. Ela se levantou lentamente e, meio desconfiada, dirigiu-se até a porta onde ficou parada, esperando por ele. Gregório passou por Zogham e sussurrou em seu ouvido.

− Meu amigo, eu acho que você está precisando de uma reciclagem. Orientadores não deveriam se apaixonar. Zogham ia protestar, mas achou melhor não dizer nada. Gregório se dirigiu à Julianna: − Desculpe-me mais uma vez pelo mau jeito, mas você entenderá tudo em breve. Vou deixá-los agora, pois preciso reassumir o meu posto. Foi um prazer conhecêla. Ele estendeu a mão para cumprimentá-la, mas Julianna se limitou a olhá-lo sem corresponder ao gesto de Gregório. − Você vai me fazer desmaiar novamente? Gregório não pôde deixar de sorrir com a pergunta. − Não, desta vez não, dou-lhe minha palavra. Julianna apertou sua mão, sentindo imediatamente um enorme bem estar e pensou que precisaria se lembrar de perguntar por que apertar mãos naquele local, fazia com que se sentisse tão bem. Gregório acenou a cabeça ligeiramente, despedindo-se de Zogham também. Abriu a porta da sala de recuperação e saiu. − Bem, agora somos só nós dois Julianna, venha comigo. Julianna saiu da porta e voltou a se sentar na cama. Seu rosto estava com uma expressão de enjoo. − O que foi, está sentindo alguma coisa? – Zogham perguntou preocupado. − Na verdade, estou. Minha cabeça está zonza e minhas pernas estão bambas. − É natural, você acabou de passar por uma emoção muito forte e, apesar de não ter mais um corpo material, ainda continuará tendo as mesmas reações de quando tinha. – ele se encaminhou até ela e parou ao lado da cama. − O que exatamente aconteceu comigo? Eu fui atropelada, não fui? – ela perguntou com uma careta. − Sim. E é melhor que saiba de uma vez que a culpa foi minha. – Zogham respondeu sem rodeios. − Sua culpa? Como assim? Julianna olhou para Zogham tentando imaginar de que forma ele a teria feito atravessar na frente daquele carro. − Você me empurrou ou coisa parecida? – ela indagou desconfiada.

− Não é isso. Não sei se entenderia. – ele procurava as palavras certas. − Então me diga, só saberemos se você me contar. – Julianna o incentivou com os olhos. Zogham foi até a porta e fechou-a novamente retornando para junto da cama. − Sei que corro um grande risco de você não me querer mais por perto, mas espero que entenda que o que fiz foi para tentar te ajudar. − Se continuar falando assim, vou começar a achar que você mesmo estava dirigindo o carro que me atropelou. – Julianna tentou sorrir, mas não conseguiu e sua expressão ficou mais parecida com a de alguém que está prestes a vomitar. Zogham sorriu desconcertado também e sentou-se na cama ao lado dela. − Eu vou tentar resumir a história, está bem? Algumas coisas não vão ficar muito claras para você, mas não se preocupe com isso agora. Tente compreender de um modo geral, pois não poderei entrar em detalhes. − Tudo bem. – ela concordou. Julianna se ajeitou, enrolou os cabelos com as mãos e os soltou atrás das costas e ficou olhando para Zogham atentamente. − Eu sou o seu Orientador ou, se achar melhor, o seu “Anjo da guarda”. – ele disse timidamente. − “Anjo da guarda”? Mas você disse que não era um anjo! − E não sou. Pelo menos, não aquele anjo de asas e auréola como você idealiza. Mas era eu quem ouvia suas preces, quem te sugeria ir por um caminho e não por outro, quem zelava pelo seu sono, essas coisas. Por um momento, Julianna ficou ruborizada, lembrando alguns pensamentos que jamais deveria ter tido. No entando, fez cara de pouco caso. − E como você fazia isso? − Estando ao seu lado todo o tempo. Falando ao seu ouvido na esperança de que seu coração me escutasse. Julianna ficou chocada. Ela olhou para o chão e pensou em várias situações nas quais se sentiu muito constrangida em saber que alguém a observava. − Quer dizer que eu não tinha nenhuma privacidade? Minha intimidade não era preservada? − Mais ou menos. Não era o seu corpo físico que eu via, se é isso que a preocupa, mas os seus pensamentos. – Zogham respondeu acreditando que ela se sentiria melhor.

− Todos eles? – o que ele disse não era menos aterrorizante e ela sentiu um arrepio ao pensar nisso. − Todos. – ele confirmou. − E por que não disse para eu não me drogar? – ela o desafiou. Zogham tomou um susto. Não esperava essa pergunta assim, tão direta. − Eu disse. Várias vezes, o tempo todo! Mas as drogas são substâncias muito poderosas. Se você soubesse que tipo de criaturas eram atraídas para perto de você quando pensava em se drogar... − Quer dizer que não era só você que me vigiava? – Julianna estava realmente chocada com tudo aquilo. − Não. Existem muitos seres que depois da morte se recusam a aceitar essa nova condição e buscam continuar vivendo a mesma vida como se nada tivesse acontecido. Eu era apenas um tentando te proteger, contra vários tentando te levar para o buraco. – ele falou desanimado. − Mas por quê? O que eu fiz a eles? – ela achou aquilo um absurdo. − Alguns queriam apenas sentir o prazer da droga através de você. Outros estavam atrás de vingança por algo de ruim que você possa ter feito em uma vida anterior. Outros ainda, estavam atrás de diversão, nada mais. Por aqui, nós os chamamos de vampiros, só que ao invés de sugarem seu sangue, sugam suas energias. − Em uma vida anterior? Como assim em uma vida anterior? Você tem que me explicar isso! – ela esbravejou. − Julianna, todos nós passamos por muitas vidas e acumulamos bônus e dívidas. – ele tentou explicar de forma simples. – Mas não há como eu te dar uma aula sobre isso agora, e... − Eu vivia rodeada por eles? – ela o interrompeu. − Eles...? – Zogham perguntou confuso. − Sim, eles, os “vampiros”. – ela disse impaciente. − Sim. Quando estava drogada, principalmente. Julianna começou a chorar. Ela cobriu o rosto com as mãos, envergonhada. – Como havia sido imatura! − Eu não fazia ideia... – os soluços abafavam sua voz. Zogham a puxou para si e a abraçou ternamente, beijando sua cabeça. − Eu sinto muito. – ela soluçava cada vez mais.

− Ei, calma, isso não é o fim do mundo. Além do mais, você estava há seis meses sem usar drogas e isso a manteve afastada dos vampiros. – ele tentou consolá-la. Ela levantou o rosto e enxugou as lágrimas. − E foi você quem me fez parar? − Eu tive uma pequena participação se é o que quer saber. Mas a decisão de parar foi sua. – Zogham queria que ela sentisse orgulho de si mesma. − E mesmo assim você diz que eu fui atropelada por sua causa? – ela perguntou sem conseguir compreender. − Ah, mas isso é outra história, que começa muito antes de sua vida como Julianna. − Você também disse que alguns desses “vampiros” estavam atrás de vingança por algo de ruim que eu possa ter feito em uma vida anterior. Quer dizer que eu já fui outra pessoa? – Julianna estava surpresa com essa revelação. − Já. E eu a acompanho há bastante tempo. – Zogham observou sua expressão, sem, no entanto, conseguir decifrá-la. − Sei que você disse que não dá para me explicar tudo agora, mas apenas me diga, nós já nos conhecíamos? – Julianna tentava juntar as peças e entender melhor toda a situação. − Sim. E já conversamos outras vezes. − Mas eu não me lembro de nada! – ela estava pasma. − Isso é porque você está sob o efeito de uma substância que nós chamamos de Inhibere. Ele é aplicado pouco antes de começar o processo de nascimento. Mas o efeito dele vai passar e, aos poucos, suas lembranças voltarão, ou boa parte delas. − Inhibere... – Julianna ficou com o ar pensativo – Ei, eu vi alguma coisa sobre isso na loja onde eu entrei quando cheguei aqui. − Imagino que sim. – ele disse naturalmente. − Mas eu ainda não entendi a parte do atropelamento. Tudo que lembro é que acordei de um sono muito pesado. Eu estava disposta a ir embora de casa. Meus pais estavam sempre ausentes, preocupados em salvar o mundo, mas eu queria era que eles me salvassem! Fui ao banco sacar todo o dinheiro que tinha e, de repente, eu estava sentada em um banco de praça pensando na vida. Então, peguei um ônibus... – Julianna parou de falar e ficou com o olhar fixo na parede. − O que foi? – Zogham perguntou.

− A ambulância que eu vi parada na rua, rodeada de pessoas. Lembro de ter pensado que poderia ser um atropelamento e desejei que não tivesse sido uma criança a vítima. E não era! Era eu! – ela concluiu com a voz levemente exaltada. − Sim, acho que era você. Eu não estava lá. – Zogham se sentia muito mal por estar longe nesse momento. − É por isso que se sente culpado? – ela tentou adivinhar. − Também. – ele não sabia como explicar. − Hum... Quando eu estava sentada no banco da praça, ou seja, quando eu já estava morta, aconteceu uma coisa estranha. − Estranha como? – Zogham ficou curioso. − Uma criança deixou uma bola rolar até perto de mim e quando veio pegá-la, tenho certeza de que essa criança me viu. Sem falar que eu peguei um ônibus e... – ela não terminou a frase. − E...? – ele a incentivou a continuar. − ... e eu não paguei a passagem! Eu achava que não tinha pago, e parece que eu não paguei mesmo. Na verdade, ninguém dentro daquele ônibus deve ter me visto! A mulher que estava sentada ao meu lado, ela estava roncando e não percebeu quando eu cheguei. – Julianna dizia isso, como se estivesse explicando para si mesma as coisas que ela não tinha compreendido antes – Como eu vim parar aqui? − Devagar, uma coisa de cada vez, eu posso te assegurar que a criança deve tê-la visto com certeza. As crianças na Terra, até uns sete anos, aproximadamente, mantêm um canal de comunicação em aberto. Elas veem, sentem e percebem o outro mundo, este mundo, mas não diferenciam espíritos de pessoas de carne e osso. Agora, te explicar como você veio parar aqui, já é um pouco mais complexo. – Zogham achava que Julianna ainda não estava preparada para compreender todos os fatos. − Eu não sou burra! – ela se exaltou. − Eu sei disso, mas é ignorante. – ele falou sem floreios. Naquele momento, Julianna teve muita raiva de Zogham. − Como assim ignorante? – ela disse alterando a voz. − Desculpe, eu quis dizer ignorante no sentido de desconhecimento. – ele se corrigiu. – Como seu Orientador e estando há tanto tempo com você, nós dois temos uma ligação muito forte. Quando você desceu do ônibus, sua mente, inconscientemente, veio atrás de mim. Na entrada do Portal, você passou porque minha matrícula está

registrada em você, como um código de barras, um identificador, só que de átomos. – ele fez uma pausa para ver se ela ia comentar alguma coisa. − Eu acho que não estou entendendo nada. Vai ser assim tão difícil compreender a morte? – ela parecia decepcionada. − É apenas questão de tempo e estudo, e você terá ambos aqui. – Zogham falou tentando animá-la. − Então está bem. Apenas tente me explicar como eu saí de dentro de um ônibus na Terra e vim parar na entrada desse tal Portal de Anaya? – isso não fazia o menor sentido para ela. − Você flugitou. – Zogham respondeu com a maior naturalidade. − Eu o quê? – quando ela achava que estava começando a entender alguma coisa, ele lhe apresentava um novo conceito. − Flugitou. Isso quer dizer que você se locomoveu pelo pensamento, ou seja, o seu pensamento voou até aqui. – ele não tinha como ser mais claro. − Eu posso fazer isso? – ela estava surpresa com esse novo dom. − Qualquer um que não tenha um corpo de matéria densa, pode. Mas é preciso técnica e treinamento para flugitar conscientemente. Você fez isso sem sentir. E veio parar aqui porque, como eu já disse, nós estamos conectados. − Mas, então, porque eu não fui direto onde você estava? – ela perguntou curiosa. − Porque o Portal tem um sistema de segurança que proíbe a flugitação dentro dele. Nem todos que circulam por aqui podem acessar todas as áreas, por isso, a locomoção aqui dentro deve ser feita de outras formas. – ele fez uma pausa, – Eu acho que é informação demais, você não acha? Que tal irmos agora? Julianna ignorou o comentário de Zogham. − Como você pode ter sido culpado pelo meu atropelamento? – ela insistiu na pergunta. − Como eu disse, eu vou apenas te dar uma ideia geral. Eu te coloquei numa situação para a qual você ainda não estava preparada. Foi como se eu tivesse feito você cursar o Ensino Médio antes de terminar o Ensino Fundamental. – ele achou que com essa analogia, ela entenderia melhor. − E por que fez isso? − Por que eu queria que você evoluísse mais rápido. Só que eu acabei embaralhando a sua mente e te causei muita confusão. – ele suspirou. – No final das contas, você seria trazida de volta naquele mesmo dia.

− Quer dizer que eu ia morrer de qualquer jeito? – Ela perguntou boquiaberta. Nunca havia pensado na morte como destino, sempre achou que o acaso determinasse o momento de cada um partir para o “outro lado”, ou melhor, para “este lado”. − Sim, só que de parada cardíaca e não atropelada. Por um momento, ela não disse nada, apenas ficou refletindo sobre o fato. – era estranho saber que sua vida era manipulada por outros desse jeito. − Quer dizer que todo mundo tem um dia certo para morrer? – ela perguntou frustrada. − Não necessariamente. Mudamos o nosso destino a todo momento. Em cada escolha, em cada ação que tomamos. No entanto, para cada ação existe uma reação que determina o que acontecerá conosco. – ele sabia que o destino de ambos estava sendo mudado naquele instante, mas não conseguia prever de que forma exatamente. − E eu te decepcionei, não foi? Julianna encheu os olhos de lágrimas novamente e Zogham percebeu que ela ia começar a chorar de novo. − Não, não, de forma alguma, eu é que agi errado. Fui alertado pelo meu superior e pelo seu pai também, mas mesmo assim, eu insisti. – ele queria assumir toda a culpa e poupá-la do remorso. − Porque acreditava em mim... – ela estava convencida de que era um fracasso. − Mas eu continuo acreditando. – e ele disse isso de forma convincente. − Sério? – ela perguntou um pouco mais animada. − Sério. – ele respondeu com sinceridade e a abraçou. Ambos ficaram ali, abraçados em silêncio por alguns instantes. Julianna tentava processar aquelas informações e algumas coisas ainda eram

incompreensíveis, mas estava cansada demais para perguntar. Sentia-se confortada com Zogham ao seu lado e não o achava mais culpado do que ela mesma se sentia. Naquele momento, seguindo um impulso, deu um beijo em seu rosto. − Você é o melhor Orientador do mundo! – e dizendo isso, ela deitou a cabeça em seu ombro. O comentário foi inesperado para Zogham, já que ele estava evitando ler os pensamentos de Julianna. Mas o beijo foi muito acolhedor. Estava tão receoso de que ela o rejeitasse depois que soubesse que ele falhara, mas havia dado tudo certo até o momento, mesmo que ele não soubesse o que aconteceria depois. No entanto, tinha

certeza de uma coisa, Mestre Carama não iria permitir que ele continuasse como seu Orientador. Estava claro, para ele, que seus sentimentos por Julianna aumentavam a cada momento, além do mais, ele não conseguia mais disfarçá-los. Gregório havia percebido que ele não só a amava, mas que estava apaixonado por ela! Se pudesse, congelaria aquele momento e ficaria ali, sentindo o cheiro de Julianna e sua energia por toda a eternidade. Ainda sentados na cama, um ao lado do outro e abraçados, ela se aconchegou um pouco mais, procurando proteção. − Zogham... – Julianna disse com a voz mais suave que ele já a ouvira falar. − Sim? – Se tivesse um coração biológico batendo no peito, Zogham teria a certeza de que ela seria capaz de ouvi-lo pulsando alto. − Meu pai é um ser especial? Quero dizer, ele é assim como você? Um Orientador? − Na verdade, seu pai é um ser muito especial, Julianna, mas ele não é um Orientador e, sim, o que chamamos de Energizador. – ele sabia qual seria a reação dela. − Um o quê? – Ela perguntou com uma careta exatamente como ele havia imaginado. − Um Energizador. Mas, no momento, ele está em uma missão na Terra. − O que é um Energizador? – Julianna convivera mais de vinte anos com o pai sem imaginar que ele era um ser tão diferente dela. − Os energizadores são capazes de reequilibrar a energia de qualquer ser pensante. Todo pensamento gera um pulso elétrico que passa a fazer parte do ser. Com o passar do tempo, os pensamentos que não são aceitos ou que tentamos bloquear vão se acumulando como verdadeiras “bombas” dentro de nós. Quando uma ou mais dessas “bombas” estouram, muitas consequências negativas ocorrem, como doenças ou alteração do padrão vibratório, nos tornando alienados ou dementes. Para evitar que isso ocorra, chamamos um Energizador para mapear nossos pensamentos e colocá-los em ordem, diminuido o efeito nocivo que eles nos causam. – Zogham sabia que essa era uma explicação bem simplória, mas ainda não dava para ser mais detalhado. − Mas e se não der tempo? E se elas, quero dizer, as “bombas”, estourarem antes? − Bem, nesse caso, além de mais trabalhoso, é mais perigoso. − Perigoso? – ela perguntou assustada. − Sim, porque o Energizador terá um emaranhado de pulsos elétricos em curto circuito para arrumar. – ele tentou tornar o raciocínio dela mais fácil – Pense em

vários carretéis de linha que, dia após dia, você puxa um pouquinho de cada um. Quando você faz isso de forma desorganizada e misturada, as linhas tendem a embolar. Agora, pense no trabalho que dará separar as linhas e enrolar os carretéis de novo. Dependendo de como a situação está, será necessário sacrificar alguns pedaços de linha. Julianna interrompeu Zogham. − No caso, as linhas seriam os pensamentos? − Isso mesmo! – Zogham estava orgulhoso dela – As linhas, ou pensamentos, precisarão ser descartadas para não se perder todo o retrós. − E o que acontece então? – a curiosidade de Julianna aumentava a cada explicação. − Isso significa que algumas experiências foram perdidas e será necessário repô-las passando por elas de novo. É um retrocesso. Julianna estava bem mais animada. A curiosidade a deixara alerta e disposta. − Hum... acho que entendi. E de que form... − Agora chega de perguntas, temos que ir! – Zogham ficou sério novamente. − Mas... – ela tentou argumentar. − Hã, hã, nada de perguntas por enquanto. – ele foi taxativo. Quando Zogham desceu da cama e passou por ela, Julianna torceu o nariz, limitando-se a responder secamente: − Sim, senhor.

Capítulo 8 Grandes amigos
Aminah Zerlinda saiu da yoctocabine que ficava próxima à estação de embarque que transportava passageiros até a Colônia Wicniana, em Luvelann. Diferentemente de outras estações, que possuíam apenas um ou dois monitores de área, nessa, havia mais de 15 monitores, além de cinco energizadores que faziam a verificação de cada tripulante antes que esse embarcasse. Até o momento, nenhuma ocorrência de tentativa de invasão à Colônia Wicniana havia sido registrada mas, mesmo assim, antes de embarcar, o passageiro era submetido a uma avaliação de frequência energética. Aminah sabia da necessidade de passar por esse procedimento, pois, apesar das alterações de forma serem coibidas no Portal de Anaya, Wicnion possuía muitos cientistas que buscavam insistentemente uma maneira de burlar o sistema de segurança do Portal. Para a maioria dos orbes, não era necessário usar meios de transporte, bastava se dirigir a uma plataforma externa ao Portal e flugitar para onde se desejava ir. No entanto, a flugitação para a Colônia Wicniana não era segura. Ficava-se exposto a um acoplamento indevido no meio do caminho. Bastava uma brecha no pensamento para que um oportunista seguisse o distraído e aportasse junto com ele, onde quer que fosse, copiando suas ondas mentais, por isso, só era possível flugitar até a entrada da colônia, enquanto que usando o transporte do Portal, o desembarque ocorria do lado de dentro, onde a segurança era tão rígida quanto à do próprio Portal. Aminah se aproximou de um Monitor, em seu crachá estava escrito “Esdras Ezra – Monitor de Área – Setor Especial W”: − Olá, Esdras. Preciso retornar à Colônia Wicniana. – ela disse em voz baixa. − Perfeitamente, queira me seguir. – o Monitor respondeu gentilmente. Esdras Ezra a conduziu a uma cabine. − Por favor, entre. – ele pediu. Aminah tinha consciência que, apesar de ser uma deusa adorada pelas fadas de Wicnion, ali, ela era apenas mais uma trabalhadora. Com mais responsabilidade, certamente, mas, ainda assim, uma trabalhadora que deveria se submeter aos mesmos procedimentos de segurança como qualquer outro. Ela entrou na cabine e mal conseguia se mexer dentro dela por causa de suas asas que, mesmo recolhidas,

faziam um grande volume em suas costas. O Monitor fechou a porta e se dirigiu a um Energizador que estava próximo. − Adler, você poderia mapear a pher que está no escaneador? Acho que é Aminah Zerlinda, uma das guardiãs de Wicnion. − Claro Esdras. Adler se dirigiu ao escaneador e colocou as mãos em suas laterais, mas as retirou em seguida, voltando-se a Esdras. − Nem preciso continuar. Apesar de alguns poucos pensamentos precisarem de organização, a energia dela é maravilhosamente bela. Pode liberá-la. Esdras se aproximou do escaneador e abriu a porta. − Desculpe o transtorno, mas temos que seguir o procedimento de segurança. Aminah respondeu antes de sair do cubículo. − Eu não cumpriria meu papel corretamente se não o deixasse executar seu trabalho. Esdras estendeu a mão a Aminah ajudando-a a sair. − Por favor, venha comigo. – ele indicou o caminho. Aminah o seguiu por um corredor estreito até que chegaram a uma pequena plataforma de embarque. − Terei que lhe pedir um pouco mais de paciência. – Esdras falou. A pher o fitou sem compreender do que se tratava. − Estamos aguardando mais um passageiro para Wicnion. – ele disse percebendo sua dúvida. − É mesmo? E quem seria? – Aminah perguntou curiosa, uma vez que não era comum haver passageiros para a Colônia Wicniana. − Dracon Severiano. – ele respondeu sem rodeios. − Ah! Meu amigo Dracon está aqui no Portal também? Eu não sabia. Esperarei com prazer. – ela ficou radiante e suas asas brilharam levemente. − Se não se incomodar, vou retornar à entrada da estação de embarque. – Esdras falou timidamente. − De forma alguma. Antes de sair, Esdras conduziu-a a um veículo esférico parado próximo à plataforma. Tinha a forma homogênea, sem nenhuma entrada aparente, mas logo que chegaram mais perto, surgiu nele um redemoinho gerando uma abertura de onde se estendeu uma pequena rampa até o chão da plataforma.

− Pode aguardar lá dentro. – o Monitor lhe estendeu a mão. − Obrigada. Esdras, mais uma vez, conduziu Aminah, que, amparada nele, subiu a rampa e entrou na esfera se acomodando em uma das duas cadeiras que havia dentro dela. − Tenha uma boa viagem. – ele disse polidamente. − Obrigada de novo. Enquanto Esdras caminhava em direção ao corredor que o levaria de volta à estação, Aminah fechou os olhos e se concentrou para meditar, evitando pensamentos perturbadores ou qualquer outra interferência em sua frequência energética. Sem perceber o tempo que havia transcorrido, sentiu uma presença ao seu lado. Abriu os olhos e viu um largo sorriso dirigido a ela. − Eu poderia passar a eternidade olhando você meditar. Quando medita, sua aura fica deslumbrantemente linda. − Dracon! Os dois se abraçaram e assim permaneceram por algum tempo. Dracon tinha a pele morena, grossa como uma couraça, e os olhos variando do verde ao âmbar ligeiramente amendoados. Seu cabelo era liso e castanho, ia até os ombros e tinha duas mechas douradas laterais na parte da frente. Era bem maior que Aminah, tanto em altura quanto em largura, com músculos que desenhavam seu corpo. Sua aparência era a de um guerreiro, trajando uma armadura leve, de tom acobreado. − O que faz aqui? – Aminah estava radiante. Desde que chegara ao Portal de Anaya, sentia-se angustiada e a presença de Dracon lhe trazia paz e alegria. − Vim acompanhar uma missão de regeneração. Trouxemos 85 wicnianos que estavam na colônia. Após um longo período de recuperação, eles estão preparados e livres para continuarem a evoluir em outros orbes. − Que notícia maravilhosa! − Apenas uma gota no oceano... – lamentou Dracon. − Mesmo assim, uma gota a menos naquele mar de lama. – considerou Aminah. – E a equipe? Onde está? − Eles permanecerão com os wicnianos até que sejam encaminhados a outras colônias onde iniciarão o processo de renascimento conforme o orbe que lhes for designado. – e alterando a entonação da voz, Dracon perguntou animadamente. – Mas, e você? O que veio fazer no Portal? Aminah baixou os olhos e sua face entristeceu.

− O que foi? Alguma coisa errada? Dracon colocou um dedo sob o queixo de Aminah e forçou-a gentilmente a olhar para ele. − Assim você me deixa preocupado. − Sinto-me envergonhada de minha fraqueza. – Aminah olhou dentro dos olhos de Dracon. − Você não é fraca Aminah, muito pelo contrário, é um dos seres mais fortes que já conheci. O que está acontecendo que eu não sei? − Eu vim pedir a Mestre Carama que me liberasse da missão de Guardiã de Wicnion. – ela disse em tom de desabafo. − Como assim? Você vai me abandonar? Como pode fazer isso sem falar comigo? – Dracon falou sorrindo, tentando animá-la. − Eu sabia que você não iria concordar. − E Mestre Carama concordou? − Não. Ele me convenceu a permanecer em Wicnion. – ela respondeu frustrada. − Ainda bem... Mas por que você quer desistir de tudo, logo agora? Estamos muito perto de conquistar Wicnion. – ele tentava motivá-la. − Será? Eu sinto que minha energia se esvai pouco a pouco. Para ter uma ideia, havia uma habitante de um planeta Nível 2 perdida por aqui, o que eu soube algum tempo depois. − É mesmo? Eu não sabia. Para dizer a verdade, nunca pensei que isso fosse possível E então? O que isso tem a ver com você? – Dracon não entendeu. − Eu estava me dirigindo à sala de Mestre Carama quando fui colocada em estado de inconsciência. – Aminah falou desolada. − Como?! Alguém fez isso? E por quê? – Dracon não era ingênuo, mas sabia que poucos se arriscavam a atacar uma pher. − Quem fez isso eu não sei, mas com certeza foi alguém que atende aos propósitos escusos dos dirigentes de Wicnion. Mas o motivo alegado foi o de terem me confundido com a tal habitante Nível 2. − Mas que coragem! Ou seria melhor dizer, que tolice?! Aminah continuou:

− Eu acordei em uma sala de recuperação do Portal e, em seguida, fui conversar com Mestre Carama. É claro que ele conseguiu me convencer a continuar em Wicnion e, agora, estou aqui, pronta para retornar à colônia e seguir com minha missão. Nesse momento, a porta do veículo esférico se fechou e dentro da cabine soou uma voz: − Sr. Dracon Severiano e Sra. Aminah Zerlinda, aqui é Esdras Ezra, vocês estão me ouvindo? − Sim, Esdras, aqui é Dracon falando. Estamos ouvindo você perfeitamente. − Ótimo. Vamos iniciar o lançamento da nave. Tudo bem? − Tudo bem. Estamos prontos. – Dracon olhou para Aminah que concordou com um aceno. − Então, peço que verifiquem o sistema de segurança, pois a nave não partirá se ele não estiver acionado. – Esdras explicou. Dracon e Aminah verificaram o painel e acionaram o sistema de segurança da nave e individual. − Estamos prontos. – Dracon respondeu. − Ok. Vocês desejam uma tela de projeção durante a viagem? Temos vários simuladores de imagem. − Não Esdras, não será necessário, nós iremos conversando. – dessa vez foi Aminah quem olhou para Dracon que concordou com um aceno de cabeça. − Então, boa viagem e que a energia da Fonte Original esteja com vocês. A nave emitiu um zumbido fino e contínuo e começou a se movimentar rapidamente, até que foi projetada no espaço. Por algum tempo, Dracon e Aminah nada disseram, apenas olharam para o interior metálico da cabine que reluzia suavemente azulada. Foi ele quem quebrou o silêncio. − Você sabe que Mestre Carama está programando uma reunião com o Conselho Universal? − Sim, Dracon, eu sei. E esse foi um dos argumentos que ele utilizou para me convencer a permanecer em Wicnion. − Tenha confiança. Você vai conseguir! – ele falou com entusiasmo. − Assim espero, Dracon, assim espero. – ela tinha dúvidas. Ele a olhou com ternura. Eram amigos há muito tempo e lhe doía ver sua amiga assim, tão desanimada.

− Venha cá. – Dracon a abraçou e começou a cantarolar uma canção. Um dia eu fui pequeno e também desengonçado De um sonho inspirado, criaram o meu rabo Passaram as estações e meu corpo cresceu Ganhei presas e escamas, não sei o que aconteceu Depois me deram asas e no céu eu fui voar Tinha fogo nas narinas, e podia incendiar Deixei de ser matéria e então evolui Virei uma energia e me transcendi Mas não importa a minha forma e sim meu coração Eu ainda sou guerreiro, eu ainda sou dragão. Aminah estava encantada com esse dom que ela desconhecia em Dracon. − Eu não sabia que você conhecia canções de ninar. Que bonita essa que você cantou. − Ela conta a história da minha espécie, depois que deixamos de ser dragões. Agora, descanse um pouco aqui comigo. – ele a puxou para mais perto dele e a aconchegou em seu corpo. Sentido-se confortável nos braços de Dracon, Aminah mal havia fechado os olhos, e adormeceu imediatamente.

§
− Aminah, acorde, estamos chegando. Aminah abriu os olhos lentamente e viu o sorriso iluminado de Dracon. − Gostaria de acordar todos os dias com este sorriso. – ao dizer isso, Aminah deu um pulo e ajeitou-se no assento da nave – Dracon, eu estava dormindo?! Como pode? Eu já não necessito dormir há tanto tempo e, agora, durmo fácil assim, conversando com você? − Calma Aminah, isso não é o fim do universo. Você deve estar muito desgastada pelo ataque que sofreu. Além do mais, – Dracon lançou-lhe um olhar triste – Eu já desconfiava de que era um chato... – e abanando a cabeça em sinal de negação – derrubei uma pher só com meu papo furado. − Ah, não seja tolo. Nunca conheci ninguém mais interessante. Eu devo estar precisando de uma reenergização urgente. – e pegou as mãos de Dracon levando-

as até os lábios sem, no entanto, beijá-las, apenas encostou-as neles, acariciandoas. Mesmo estando enfraquecida, ele pôde sentir a força de sua energia passando pelos seus dedos. − Fique um tempo na colônia antes de retornar a Wicnion. Descanse e logo, logo, sua disposição voltará. – ele aconselhou. Aminah soltou-lhe as mãos e suspirou olhando o amigo com um ar cansado. − Você tem razão. Farei isso. – e apontando para o painel da nave – Veja, o transmissor foi acionado! − Deve ser alguém da colônia. – Dracon aceitou o contato e uma voz soou forte. − Olá. Poderia nos passar sua identificação? − Sim. Vou acionar o sistema de criptografia da nave para que possamos utilizar o código de segurança e, então, conversaremos. Dracon sabia que eles estavam em uma região perigosa. As legiões de criminosos de Wicnion buscavam de todas as formas se infiltrar no Portal de Anaya ou obter informações sobre qualquer ação que julgassem relevante. Quase todos os canais de comunicação da colônia funcionavam em frequências incompatíveis com o nível vibracional dos wicnianos. Mas eles não podiam esquecer que Wicnion possuía muitos cientistas, por isso, não era aconselhável conversarem sem que o sistema de criptografia estivesse acionado. − Pronto. – Dracon falou. − Ok. Um momento. – a voz do outro lado respondeu. Sobre o painel havia uma miniatura de projetor multidimensional, não demorou muito para que começasse a surgir gradativamente uma figura de aparência humana. − Olá, tudo bem? Ahhhh, é o Sr. Dracon Severiano e a Sra. Aminah Zerlinda, que bom que estão retornando a Wicnion! − Tudo bem Vigílio? Como andam as coisas por aí? – Aminah perguntou. − Na verdade, andam bem calmas. Acho que estão nos dando uma trégua. − Não se engane meu amigo. Quanto mais calmo, mais atentos devemos ficar. – Dracon alertou. − É, eu sei disso e fico me perguntando o que devem estar aprontando. – Vigílio ficou em silêncio por um breve momento, a testa franzida e o olhar preocupado, em seguida, sacudiu a cabeça e os ombros, como se estivesse expulsando de si os pensamentos ruins. – Bem, assim que atravessarem a camada mais alta de

Wicnion, não esqueçam de apertar o botão dourado localizado ao lado deste portal para desativar o campo magnético da porta principal e permitir a entrada da nave. Estou me dirigindo agora mesmo para lá. Vigílio Casey era o responsável pela segurança da Colônia Wicniana, que se localizava na camada mais alta, das cinco que existiam entre o solo wicniano e o espaço propriamente dito. Elas possuíam diferentes composições e cada uma tinha sua função no equilíbrio do planeta. Para os chamados seres viventes de Wicnion, só era possível a existência na primeira camada, pois como em qualquer orbe evolutivo primário, os espíritos viviam aprisionados a uma forma física, constituída de matéria muito densa. As demais camadas eram frequentadas por aqueles que se desligavam do corpo por morte ou por desdobramento, o que poderia ocorrer durante o sono ou meditação. Na segunda camada estavam os espíritos escravizados pelos dirigentes de Wicnion. Um local de odor insuportável, onde a tortura era fonte de prazer para quem a praticava e o sofrimento não tinha fim. Nela, também estavam os laboratórios, reunindo todos os cientistas que trabalhavam inspirando os seus pares vivos com novas invenções, por isso mesmo, era também a sede do Governador. Era chamada de Thartarius e, por falta de voluntários preparados, ninguém podia ser resgatado dela. Na terceira camada, chamada Slaggelann, havia uma enorme comunidade frequentada por trapaceiros, traidores, mercenários, viciados e todo o tipo de criminosos. Diziam-se livres, mas a verdade é que a maioria tinha medo de fugir ou buscar ajuda. Qualquer um que fosse pego nessa condição pelos dirigentes ou seus capangas, seria enviado a Thartarius para lá permanecer pela eternidade ou renascer em Wicnion sob condições cruéis. Na quarta camada, ou Quartarius, ficava o posto avançado dos voluntários, monitores, socorristas, orientadores, ergonius e

energizadores da Colônia Wicniana, responsáveis pelo resgate e renascimento dos espíritos oriundos das aldeias rebeladas, das espécies selvagens e de outros raros que, porventura, conseguissem pedir ajuda. Finalmente, na quinta e última camada, conhecida por Luvelann, estava situada a Colônia Wicniana, um centro de recuperação para os espíritos resgatados e para a equipe de trabalho que precisava com frequência de reenergização. Vigílio chegou à porta principal acompanhado de seis operários da colônia e, apesar do posto avançado ser alvo frequente de ataques do exército de flagelados de Wicnion, a colônia continuava imune às tentativas de invasão. Seu campo vibracional inviabilizava o sucesso dessas missões, de qualquer forma, era certo que os dirigentes wicnianos vinham tramando algo impensável para os defensores da colônia, o que

explicaria a trégua incomum que preocupava não só a Vigílio, mas a todos os envolvidos no resgate do planeta. Os sete trabalhadores chegaram no exato momento em que a nave atravessava o portão principal da colônia atingindo a plataforma, idêntica a que havia no Portal de Anaya. Em seguida, surgiu nela o mesmo redemoinho que gerou a abertura e a rampa por onde saíram Aminah e Dracon. Vigílio estava feliz com o retorno deles, pois eram grandes líderes que influenciavam de forma positiva as mentes wicnianas. Trajando calça e túnica brancas, além de sandálias também brancas, Vigílio tinha uma longa barba negra, sobrancelhas muito grossas que se encontravam e nenhum fio de cabelo na cabeça. Não era baixo, mas ao lado de Dracon e Aminah sua estatura era bem inferior. − Que bom, que bom que voltaram! As esperanças sempre se renovam quando estão por aqui. Além disso, o Sr. Nicola e a Sra. Melissa estão ansiosos pelo retorno de vocês. − Eu imagino que sim e não os culpo. Um planeta do tamanho de Wicnion com apenas quatro guardiões... eles devem estar sobrecarregados. – Aminah estendeu a mão para que Dracon a ajudasse a descer e assim que pôs os pés no chão, abriu suas asas para alongá-las. Vigílio e seus companheiros fizeram uma ligeira reverência. − Por favor, isto não é necessário. − Ah, Sra. Aminah, perdoe-nos por isso, mas somos de origens distintas e de onde nós viemos, não existem phers. Vê-la assim, tão de perto, é sempre motivo de muita admiração e não é possível controlar a emoção diante de tanta magnitude e beleza. – os olhos de Vigílio ficaram marejados e ele os baixou envergonhado. − Ora, ora, isso não é motivo para ficar encabulado Vigílio. Eu convivo com Aminah há tanto tempo que nem posso mais contá-lo e, mesmo assim, ainda fico deslumbrado com o quanto é linda. – e Dracon também fez uma ligeira reverência a ela. − Mas o que é isso? Acabei de chegar aqui e já sinto minhas energias se renovando. Vocês são muito gentis, mas vamos, temos muito a fazer. – Aminah recolheu as asas e sorriu gentilmente a todos. − A sra. Aminah está certíssima. Acabamos de enviar um grupo de 85 espíritos wicnianos, todos regenerados, que haviam sido resgatados durante um incêndio, em uma ação muito bem sucedida, os quais seguiram em companhia de muitos voluntários, e também do Sr. Dracon, para o Portal de Anaya. – disse Vigílio – E

mesmo estando muito feliz com isso, não posso negar que esses colaboradores nos fazem muita falta. – e voltando-se para Dracon – A propósito sr. Dracon, correu tudo bem? − Com isso você não precisa se preocupar Vigílio. Estão todos na Colônia Provisória de onde seguirão seus caminhos sem maiores complicações. − Que boa notícia! Esse grupo deu muito trabalho aos energizadores. Alguns já se encontravam em estado de demência há longo tempo, mas não ficou nenhuma sequela e começarão uma nova vida. – Vigílio estava muiro entusiasmado. − Os energizadores são sempre muito competentes. – disse Aminah – E por falar neles, eu gostaria de conversar com um. − Claro, claro. – Vigílio disse prontamente – Vamos, eu os levarei até seus aposentos e depois nós iremos a uma sala de reenergização. Dracon, Aminah, Vigílio e os outros seis operários da colônia seguiram em direção à sede da Colônia Wicniana.

Capítulo 9 Susto na viagem
− Posso perguntar ao menos para onde você está me levando? Julianna seguia Zogham pelo Portal de Anaya e a cada passo que dava uma nova pergunta se formulava em sua mente. − Para uma colônia que fica em um anexo do Portal. – Zogham respondeu sem lhe dar muita atenção. − Uma colônia? Que espécie de colônia? É uma clínica psiquiátrica? – ela perguntou indignada. − Não. Não temos isso aqui. – ele respondeu sem olhar para ela – Chama-se Colônia Provisória. − Ué? Por que provisória? Ela vai se mudar para outro lugar? Mais uma vez Zogham teve vontade de rir da forma como Julianna elaborava as perguntas, tal qual uma criança que começa a descobrir o mundo no qual nasceu. No entanto, ele se conteve e limitou-se a responder friamente. − Quando a criaram era para servir apenas de modelo para as colônias de estudo, mas tornou-se tão útil ao Portal de Anaya que não a desativaram. – ele explicou didaticamente – E, então, o nome permaneceu por não ser relevante alterá-lo. − Mas por que... − Chega de perguntas! A voz de Zogham estava tão seca que Julianna não se animou a continuar sua pergunta. Apenas olhou em volta reparando como tudo era tão deserto. Raramente via alguém, apesar da estrutura do lugar ser enorme, com corredores largos e lojas de diversos tipos. Aparentemente, não havia ninguém nas lojas também, apesar de estarem com as portas abertas. Algumas vendiam trajes exóticos, diferentes de tudo que já tinha visto na Terra; outras eram similares àquela a qual havia entrado e comprado o guia de viagem, mas havia lojas de aparência simples, vendendo objetos que a faziam lembrar dos shopping centers que costumava frequentar quando estava “viva”. Esse pensamento a fez divagar por uns instantes, até que ela se lembrou de algo. − Ei, eu tinha comprado um guia de viagem em uma loja. Onde está? – ela falou repentinamente.

− Você não precisará mais dele. – Zogham respondeu sem olhar para ela. − Mas eu paguei por ele! – ela protestou. – Aliás, onde está minha bolsa e todo o meu dinheiro? − Também não precisará de dinheiro por um bom tempo. – ele continuava fingindo não lhe dar muita atenção. – Sua bolsa está guardada, não se preocupe com isso agora. − Menos mal, pois eu tinha pouco dinheiro mesmo. – Julianna falou pensativa. Zogham sorriu disfarçadamente. − Engraçado, sempre me disseram que da vida nós só levaríamos as nossas experiências, que depois da morte, tudo o que fosse material ficaria para trás. − E lhe disseram a verdade. – Zogham respondeu com a voz mais gentil. − Mas, então, como foi que eu trouxe dinheiro? – Julianna achou que ele não conseguiria lhe explicar isso. − Você não trouxe. Você o materializou. – ele disse como se fosse o óbvio. − Como é que é? – Julianna achou que não tinha escutado direito – Eu fiz o dinheiro aparecer? É isso mesmo? − Exatamente. – Zogham sentiu-se culpado por estar se divertindo com a situação. − Você está querendo me dizer que eu posso “fabricar” dinheiro? – os olhos de Julianna brilharam ao imaginar essa possibilidade. − Sim. Mas somente o da Terra e somente porque você passou para “o outro lado”, ou melhor dizendo, porque você passou para “o lado de cá”. – ele se arrependeu de ter provocado a conversa, pois não queria ter que explicar nada disso agora. − E imagino que não vai me explicar como eu faço isso. – ela concluiu amuada. − Imaginou certo. – Zogham disse em tom de encerrar a conversa. Julianna pensou por que ele tinha que ser tão chato!? − Por que é tudo tão deserto? – ela resolveu mudar de assunto. − Não é deserto. O Portal está mais cheio do que o habitual. – Zogham sabia qual seria a reação dela a essa declaração. − Como assim “mais cheio do que o habitual”? Eu não vejo ninguém! – ela olhou em volta e tudo continuava vazio, inclusive as lojas! − O fato de você não ver ninguém não quer dizer que não tenha ninguém. – novamente ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. − Você está brincando comigo? – ela perguntou irritada.

− Não. Estou dizendo a você que existem centenas, ou melhor, milhares de seres circulando por aqui. Mas que, simplesmente, você não consegue vê-los. − Como??? – por mais que tentasse, ela não conseguia compreender como aquilo poderia ser possível. − Eu disse que suas perguntas seriam respondidas depois. – ele apressou o passo tentando desconversar. − Ah, sim. Você me diz que tem um monte de gente passando por mim, que eu não posso vê-los, mas que devo ficar calada até que você me diga que eu posso falar. É isso? – Julianna estava quase correndo ao lado de Zogham para poder acompanhá-lo. − É. – ele respondeu sem floreios. Julianna teve vontade de dar um chute em Zogham, mas se conteve. De alguma forma, ela sabia que só ele poderia tornar claro o que, no momento, parecia inexplicável. Além disso, começava a gostar dele e ele a fazia sentir-se segura. Andaram por mais algum tempo até que pararam diante de um guichê que parecia vazio. Mesmo assim, Zogham fez uma pergunta. Ou ele era doido ou realmente havia alguém dentro da cabine que ela não podia ver. − Eu preciso de duas passagens para a Colônia Provisória. – ele pediu. − Com quem você está falando? – ela esticou o pescoço tentando enxergar alguém dentro da cabine. Zogham nem ao menos olhou para ela e continuou falando. − Pode debitar em minha conta: NA5O10470. Julianna estava cada vez mais irritada. − Agora chega! Você me ignora, não me deixa fazer perguntas, fala com uma cabine vazia e quer que eu aceite isso tudo? Ora, eu acabei de morrer, você poderia ser mais sensível! Zogham pegou os bilhetes e se virou para Julianna. − Se já terminou com seu discurso, nós precisamos ir. Nosso transporte sairá em breve. Não temos tempo para isso. Julianna ficou furiosa. Zogham tentou deixá-la menos ansiosa. − Sei que está com raiva de mim, mas, como eu disse, todas as suas perguntas serão respondidas. Você só precisa vir comigo. – ele falou com gentileza. − E eu tenho escolha? – ela perguntou sem esconder sua irritação.

Os dois seguiram em silêncio até uma plataforma. Em seguida, um veículo similar a um trem parou diante deles. Para Julianna estava vazio, mas, para Zogham, dezenas de criaturas entraram e se acomodaram nos poucos acentos que possuía. − Vamos ficar em pé. − Por quê? Não tem ninguém além de nós dois. – e em seguida ela se dirigiu a um banco lateral do vagão. Mas quando estava prestes a sentar, sentiu uma pontada no traseiro. − Ai! Eu senti um beliscão! – ela gritou. − Desculpe senhor. Ela não pode vê-lo. – Zogham olhava para o assento, mas Julianna não via ninguém nele. − Com quem você está falando? – ela observou Zogham atentamente, especulando se ele estava realmente falando com alguém ou apenas tirando onda com a cara dela. − Com um senhor muito educado que carrega um pacote no colo onde você acabou de tentar sentar em cima. – ele disse baixinho. − Ah, agora entendi. Você quer me fazer parecer louca, não é isso? Não tem ninguém sentado ali e, mesmo assim, eu senti uma pontada no traseiro. Quer saber? O doido é você! – ela virou a cara. Olhando em direção ao banco, Zogham limitou-se a sorrir. Um senhor de camisa florida olhou-o incrédulo. − Ela não pode me ver? Por quê? Um menino louro mascando chiclete, trajando um macacão jeans com uma das alças caída, que estava sentado ao seu lado, respondeu antes que Zogham pudesse dizer qualquer coisa. − Porque ela deve ser a tal habitante do planeta Nível 2 que estava perdida no Portal. − Eu ouvi falar disso! É ela? Como veio parar aqui? – o senhor perguntou. Zogham percebeu o que estava prestes a acontecer e puxou Julianna para junto dele. − Ei, por que você está me puxando? Que intimidade nós temos para isso? – Julianna tentou se desvencilhar de Zogham, mas ele a manteve firmemente perto dele. Ele aproximou os lábios de seu ouvido e disse num sussurro: − Por favor, agora não é hora para rebeldia, você terá que confiar em mim. – e voltando-se para o senhor e o garoto – Entendam, ela está sendo levada à Colônia Provisória, sejam discretos ou o vagão inteiro vai querer vê-la de perto.

O garoto se levantou do banco e se aproximou deles. Muitos passageiros já estavam atentos à conversa e olhavam curiosos. Com um sorriso malicioso o garoto começou a falar bem alto. − Olhem todos, aqui está a Nível 2 que causou a confusão no Portal hoje e atrasou todos os trens. É por causa dela que ficamos retidos todo esse tempo. Zogham olhou para o garoto com desconfiança. − Você já não é criança há muito tempo, não é mesmo? Quem é você? − Só alguém que quer se divertir um pouco. – o garoto respondeu debochadamente, mas apenas Zogham o ouviu. Dentro do vagão se iniciou um falatório e uma aglomeração começou a se formar em volta de Zogham e Julianna. Alienada ao que estava acontecendo, ela percebeu que o semblante dele estava alterado e seu rosto estava tenso. Ele a apertou um pouco mais. Sem ver nada a sua volta, Julianna era incapaz de compreender o seu temor. − O que está acontecendo? Por que esta cara assustada? Eu estou ficando com medo de você! − Não há nada com que se preocupar. – e voltando-se para os passageiros do vagão – Por favor, voltem aos seus lugares, não há nada para ser visto. − Ai, o que foi isso? Puxaram meu cabelo. – Julianna começou a se apavorar. Zogham observou o sorriso malévolo do garoto, que retornara ao seu assento para assistir a confusão que tinha causado, e fez o que tinha que ser feito, envolveu Julianna com os braços e a empurrou para fora do vagão, acionando o botão de emergência quando passou pela porta de saída. Uma sirene estrondosa começou a soar continuamente e, logo, apareceram três monitores de área. Por fora, o vagão se destacava dos demais, brilhando e piscando em cor laranja. − O que está havendo aqui? Por que o botão de emergência foi acionado? – era uma Monitora de Área que viera saber o que estava acontecendo. − Sou Zogham Quercus, Orientador, e estou temendo pela segurança de minha tutelada. Ela é a Nível 2 que estava perdida no Portal. − Ah! – exclamou surpresa a Monitora. Dessa vez, Julianna viu a pessoa com quem Zogham estava conversando. Uma mulher que aparentava ter uns 50 anos, com cabelos grisalhos, parou na porta do vagão e abriu os braços.

− Muito bem, todos aos seus lugares, o trem já vai partir. Entrem, entrem, não há motivo para esta bagunça que estão fazendo. Se continuarem, vou solicitar uma anotação em suas matrículas no desembarque. Dizendo isso, ela deu um passo atrás e a porta do vagão se fechou. O que Julianna não via era que, enquanto ela falava, os outros dois monitores que a acompanhavam, utilizavam um pequeno aparelho que dava choques em cada passageiro que tentava desembarcar e que, também à base de choque, eles haviam colocado de volta no vagão aqueles que, sob protesto, já tinham saído dele. Depois que todos haviam entrado novamente, a sirene parou de soar e a luz laranja estroboscópica do vagão se apagou. Lentamente ele começou a se locomover, deixando a estação. Muda e atônita, Julianna não sabia o que pensar, nem o que dizer. Se Zogham era louco por falar sozinho, aquela mulher também seria. E falando quase que para si mesma: − Quer dizer que realmente existem pessoas aqui e que eu não as vejo? − Sim querida, creio que sim. – a mulher se aproximou de Julianna e a olhou com carinho – Mas agora está tudo bem. – e voltando-se para Zogham – Para onde você a está levando? − Para a Colônia Provisória, mas me parece que essa não é uma forma segura. − Creio que você esteja certo. Venha comigo. – e dizendo isso, a mulher deu as costas a eles e seguiu andando em direção à cabine. Julianna olhou para Zogham e vendo a intenção dele em seguir a mulher, segurou sua mão com força. Ela podia não entender o que estava acontecendo, mas sabia que estava em perigo. No entanto, não poderia deixar de pensar que já estava morta, então, o que de pior poderia acontecer? − Sair do confinamento evolutivo, ou morrer, se preferir, foi a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido, não a pior. No entanto, lá, os perigos são ilusórios, aqui, eles são reais. – Zogham falou, antes que Julianna dissesse o que estava pensando. − Você está lendo os meus pensamentos? Não é a primeira vez que você adivinha o que passa pela minha mente. – ela falou desconfiada. − Desculpe, não vou mais fazer isso. – Uma mentira! Ele estava mentindo descaradamente para ela. Mas não era o momento de pensar nisso.

− Venham, não temos muito tempo. Uma comitiva de voluntários vai sair da Estação Leste para a Colônia Provisória e pretendo colocá-los com eles. – A Monitora de Área disse ansiosa. − Da Estação Leste? Mas isso é do outro lado do Portal! Como chegaremos lá? – Zogham perguntou preocupado. − Usando uma yoctocabine, é claro! – a Monitora respondeu. − Mas ela não pode usar uma yoctocabine, é uma Nível 2! – Zogham falou demonstrando frustração. A Monitora parou repentinamente e percebeu a ingenuidade de sua ação. − É verdade, eu nem pensei nisso. Sinto muito pela minha falha. – ela disse desolada. − O que significa ser uma Nível 2? – Julianna achou que a estavam discriminando. − Significa, querida, que você não deveria estar aqui, mas já que está, teremos que encontrar uma solução para esse problema. – a Monitora disse muito gentilmente. − Quando sairá outro trem desta estação? – Zogham não escondia sua aflição. − Logo depois que sair o da Estação Leste. – a mulher respondeu. Voltando-se para Julianna, Zogham segurou em suas duas mãos e olhou dentro de seus olhos. − Preste atenção, nós vamos entrar no próximo trem. Ele estará tão cheio quanto o que acabou de sair e, provavelmente, você o enxergará vazio de novo. O motivo pelo qual você não vê ninguém é que todos nós somos configurados em frequências e a sua é diferente. − Eu sou um ser inferior? – sua voz estava levemente chorosa. Zogham sentiu uma enorme compaixão por Julianna, tão frágil e totalmente dependente dele. − Não, de forma alguma! Você se lembra do exemplo que dei antes? Pois então, imagine que você cursa o ensino básico e todos aqui já estão na Faculdade. Isso significa que sabem algumas coisas a mais, no entanto, como você viu, saber mais coisas não significa que se comportam melhor. Além do mais, se você não parar de estudar, um dia, saberá o mesmo que eles, ou até mais. Agora, nós vamos entrar no vagão e, se você sentir alguma coisa encostar em você, basta apenas pedir desculpas, como se tivesse esbarrado em alguém. Tudo bem? − Eu estou com medo. – ela falou com os olhos lacrimosos.

Ele a abraçou e beijou o alto de sua cabeça, sentindo o perfume de seus cabelos que a acompanhou mesmo depois de se desprender de seu corpo físico. − Vou esperar que entrem no vagão para ver se tudo correrá bem. – a Monitora estava preocupada. − Obrigado. − Obrigada. – Julianna e Zogham responderam juntos. A Monitora se aproximou de Zogham e lhe falou baixinho para que Julianna não ouvisse. − Melhor você pedir uma substituição. Sua aura demonstra que você está apaixonado por ela. Mas ele não teve tempo de responder, pois, falando isso, a Monitora se afastou e ficou aguardando o trem chegar, o que aconteceu logo em seguida. − Venham, vamos para o vagão central. Geralmente, as extremidades ficam mais cheias. Sem soltar a mão de Zogham, Julianna parecia uma criança perdida sendo guiada por um adulto. Absolutamente calada e de cabeça baixa, ela entrou no vagão e ficou em pé junto dele. Do lado de fora, a Monitora os olhava com um sorriso. Tudo estava indo bem. − Está muito cheio? – Julianna falou bem baixinho, para ter certeza de que ninguém mais a ouviria além de Zogham. − Não muito. – ele estava mentindo pela segunda vez. Uma pequena luz vermelha se acendeu na porta, indicando que ela iria fechar. O trem começou a sair do lugar. − Demora muito? – ela perguntou angustiada. − Não. – ele respondeu esperando que ela se acalmasse. − Quanto tempo? Zogham tentou calcular pela medida de tempo à qual Julianna estava acostumada, mas era difícil fazer a correspondência, já que o padrão de hora da Terra era diferente do usado no Portal, então, mentiu pela terceira vez: − Uns 30 minutos. − Ok. – ela achou que era um tempo razoável. Julianna tentava definir a prioridade das perguntas que iria fazer a Zogham tão logo chegasse à tal colônia, mas era muito difícil. Havia muitas perguntas e todas

importantes. Estava totalmente concentrada em seus pensamentos quando o trem parou e a porta do vagão se abriu. − Chegamos? – ela fez menção de descer. − Não. Ainda faltam algumas estações. Mas já podemos sentar. Ele se dirigiu a um banco próximo e Julianna o acompanhou, sentando ao seu lado. Não era possível ver nada do lado de fora quando o trem se locomovia, apenas quando parava em alguma estação. Perdida no tempo e no espaço, literalmente, ela calculou que havia passado muito mais do que 30 minutos quando, finalmente, chegaram à estação de destino. − Venha, vamos descer aqui. – Zogham se levantou e a puxou pela mão. − Acho que demorou mais do que trinta minutos. Por que tantas estações? Parecem tão próximas umas das outras. − Não se iluda com o tempo e as distâncias aqui. Você não imagina, mas acabamos de percorrer uma distância suficiente para irmos quase de uma ponta a outra da Via Láctea. − Você está brincando... – ela achou que era muita coisa para uma simples viagem de trem. − De forma alguma. – ele afirmou. Ao saírem do vagão, um Monitor coletou seus passes, mas Julianna apenas percebeu Zogham esticando o braço e os passes que estavam em sua mão sumiram no ar. Como estava muito cansada, achou melhor ignorar e aguardar o momento em que ele prometera responder a todas as suas perguntas. Essa estação era muito mais iluminada do que aquela onde embarcaram, além disso, ela via pessoas circulando. − Posso ver várias pessoas aqui. Por quê? − Porque são trabalhadores da colônia e estão mais preparados para serem vistos por várias frequências diferentes. Vamos, temos que pegar outro transporte. − Outro? – ela estava muito cansada. − Sim. A Colônia Provisória é anexa ao Portal de Anaya. Isso quer dizer que ela fica fora dele e o trem só circula aqui dentro. − No meio do Espaço? – ela achou aquilo muito futurista. − Isso mesmo. No meio do Espaço. – ele sabia o que ela estava pensando. Eles caminharam até uma porta metálica, similar a de um elevador. Ao lado dela, havia um pequeno painel com uma seta para cima, uma para baixo, uma para a esquerda e outra para a direita, além de quatro setas diagonais. Julianna ficou

intrigada, mas permaneceu calada. Zogham passou a mão sobre o botão da direita e esperou a porta se abrir. Quando entraram, Julianna viu um outro painel, bem maior, que ia quase que do chão ao teto, com dezenas de símbolos e imagens. Dessa vez, ele passou a mão sobre o que tinha uma porta desenhada. − O que significa? – ela perguntou curiosa. − Recepção. − Ah... Mas o que é isso? Estamos nos movendo de lado? – ela se segurou nele. − Sim. – ele riu. − Eu pensei que isso fosse um elevador! − Tem a mesma função de locomoção, só que pode ser horizontal, vertical ou, até mesmo, diagonal. Chamamos de condutor multidirecional. – ele explicou. − Diferente, mas nada digno de um portal no Espaço. – Julianna ficou imaginando se ia ser muito difícil se adaptar. – Tem muita coisa comum também, como o trem, por exemplo. − Sim, o Portal restringe várias tecnologias, principalmente as de manipulação de energia ou de expressão mental, que permitem alteração da matéria e locomoção imediata. Somos bastante atrasados em relação a alguns mundos. Você ainda verá aqui muita coisa similar ao que existe na Terra. − Este lugar é muito estranho. – ela concluiu. Zogham virou o rosto para o outro lado e sorriu. − Você ainda não viu nada...

Capítulo 10 A primeira voluntária
Ariel estava sentada diante do projetor multidimensional onde se via Haydée, sua assistente virtual, uma linda menina de cabelos cacheados, vestido rosa e sapatinhos envernizados. O cenário lembrava um arquivo antigo e desorganizado, com vários gaveteiros de madeira, fichas espalhadas pelo chão e por cima dos móveis, mas também havia muitas bonecas e bichos de pelúcia por todo o canto. − Muito bem Haydée, acho que terminamos, não? Vejamos, são mais de 67 novedecilhões de dados e aproximadamente 43 quindecilhões de imagens contendo toda a movimentação do Portal de Anaya desde que Mestre Carama assumiu como Governador. – ao dizer isso, os olhos de Ariel brilharam de felicidade. Ela chegou a pensar que nunca conseguiria organizar tudo e finalizar o relatório solicitado mas, agora, tinha um banco de dados que poderia gerar uma quantidade inimaginável de informação classificada, pronta para uso. – O que mais poderíamos acrescentar? Haydée estava na ponta dos pés tentando retirar umas pastas de cima de um grande gaveteiro. Quando puxou a de baixo, todas caíram em cima dela. − Aaai! – ela tentou se proteger com os braços. − Você está bem? Que pastas são essas? − Lixo. – Haydée se abaixou e começou a recolher as pastas, empurrando as que já estavam no chão com o pé, tentando evitar que se misturassem – Se me permite uma sugestão, Ariel, eu percebi que alguns dados não se cruzam e nem possuem imagens associadas, apesar de compartilharem a mesma origem. Por exemplo, temos dados sobre as entradas e saídas de cada área do Portal de Anaya, e também temos matrícula, nível, motivo do acesso, origem do viajante, próximo destino, meio de transporte e tempo de permanência no Portal. No entanto, ainda podemos relacionar esses dados às alterações de aparência, evolução genética, grau de aperfeiçoamento, áreas acessadas internamente, utilização das

yoctocabines, além de despesas e recargas com bônus de energia. − Brilhante Haydée! Faça isso! – Ariel estava excitadíssima. − E eu também pensei em outra coisa... – a voz dela soou abafada, pois estava escondida por uma pilha de pastas que tentava carregar até a lixeira – Pronto. Ufa!

– Haydée jogou todas as pastas que carregava em um cesto de lixo que, apesar de bem pequeno, absorveu todo o material sem deixar vestígios do lado de fora. − Nossa! Coube tudo aí dentro desta cestinha? − Na verdade, não. Mas quando o volume de lixo é muito grande, ele é desintegrado ao tocar na lixeira, ou seja, se precisarmos recuperar alguma daquelas pastas, já era. − Haydée! – Ariel deu um pulo da cadeira. − Calma Ariel, eram cópias de cópias, e pastas que já foram atualizadas, não precisaremos mais delas. – Haydée falou tentando tranquilizar Ariel. − Tudo bem. – Ariel sentou-se novamente – Mas o que mais podemos extrair do banco de dados? – Ariel não conseguia pensar em mais nada, mas sabia que Haydée esgotaria todas as possibilidades antes de dar o produto por finalizado. − As matrículas que foram alteradas por mudança de nível estão agrupadas por indivíduo. Não podemos esquecer que muitos desses indivíduos passaram por ciclos evolutivos em planetas diferentes. Isso fará com que um mesmo ser apareça duplicado, mas, nesse caso, você poderá solicitar a exclusão das duplicidades sempre que gerar um relatório. – Haydée agora estava escovando seu vestido. – Atchim! − Saúde! – Ariel falou prontamente. − Obrigada! − Você é... alérgica? – Ariel achou estranho. − Sim. – e a menina fez uma cara chocha – Quando me criaram acharam bonitinho uma menina de cachinhos e nariz vermelho. Isso faz sentido? – ela tirou um lencinho cor de rosa do bolso do vestido e assou o nariz. − Não, não faz. Vou chamar um técnico e pedir que corrija isso na sua programação. − Ah, Ariel, obrigada. Todos para quem trabalhei se limitaram a achar “engraçadinho”. Mas como eu ia dizendo... A-a-atchim! também podemos aproveitar e cruzar com as advertências e reciclagens comportamentais e, aí, teremos um mapa dos indisciplinados. Atchim! – o nariz de Haidée já estava ficando vermelho de tanto espirrar. − Garota, você é ótima! E saúde de novo. Acho que vou aproveitar a correção na sua programação e pedir para te transformarem numa anciã, você está esperta demais para ter esta aparência de menina. – Ariel soltou uma longa risada.

− Não faça isso, gosto de como eu sou! – Haydée, que estava sentada em uma cadeirinha de balanço com uma boneca no colo, arregalou os olhos para Ariel duvidando se ela estaria falando sério. − Eu estou brincando. Podemos finalizar então? – ela estava ansiosa para entregar o produto a Mestre Carama. − Sim, podemos. Vou apenas rodar o verificador de inconsistência e erro antes de gerar a versão final. – Haydée parou de se balançar – Ariel, posso te pedir uma coisa? − Claro, o que é? – Ariel perguntou intrigada. − Quando o técnico vier corrigir minha programação, poderia solicitar também alguns cenários, vestidos e brinquedos novos? – Haydée pediu timidamente. − Claro! vou pedir a ele. − Legal! – Haydée beijou sua boneca. − Bom, depois de concluído, o banco de dados só deverá ser acessado por Mestre Carama, que poderá definir o cenário, suas características espaço ambientais e até criar um assessor se desejar. Ele será o seu único administrador e definirá as demais permissões de acesso. Até mesmo nós duas deveremos ser excluídas, certo? − Certo. Então, farei uma cópia de segurança que ficará lacrada e a esconderei em alguma parte do sistema. Mestre Carama deverá designar um responsável que guardará o mapa de localização dessa cópia. Somente ele poderá romper o lacre caso necessário. Acho que... espera... – Haydée parou de falar subitamente. − O que foi? Você encontrou algum erro? – Ariel perguntou preocupada. − Não, não é isso, nós continuamos depois, Mestre Carama está solicitando acesso pelo transmissor. − Ah, sim, eu te chamo novamente quando terminar de falar com ele. Enquanto isso, revise tudo. Haydée foi desaparecendo do projetor multidimensional assim como o cenário a sua volta. Em seu lugar, surgiu Mestre Carama sentado em sua cadeira de pedra coberta de hera. − Ariel, eu preciso que venha à minha sala. − À sua sala? Agora? – sua voz vacilou, afinal, nunca entrara na sala do Governador do Portal.

− Sim, por quê? Está muito ocupada? Outro incidente? – Mestre Carama perguntou, certo de que não se tratava disso. − Sim, quero dizer, um pouco, não!! – ela respondeu incerta. − Minha querida, você está me deixando confuso. Poderia me dizer para qual pergunta devo direcionar cada uma de suas respostas? – ele falou tranquilamente. − Desculpe Mestre Carama, não tem nada de anormal acontecendo no momento. A situação no Portal já está normalizada. É que a ideia de ir a sua sala me deixou abalada. Se é sobre o relatório... – sua voz estava excitada. − De forma alguma Ariel, não tem nada a ver com o relatório. Venha quando puder. Apenas tente ser breve, o assunto que tenho a tratar é muito importante, mas prefiro conversar pessoalmente. − Estou indo agora mesmo Mestre Carama. A propósito, posso falar do relatório? − Claro, fale. – ele sorriu. − Eu fiquei muito envergonhada pela minha falta de empenho anterior, então, o produto que vou lhe entregar lhe permitirá gerar uma quantidade infinitesimal de relatórios instantâneos sobre qualquer informação relacionada ao Portal desde que assumiu como Governador! − Que bom! Parabéns! E quando terei acesso a essa maravilha? – ele bateu palmas para mostrar sua satisfação. − Haydée, minha assistente virtual, está rodando um verificador de inconsistência e erro. Creio que quando eu retornar à minha sala, ele já estará pronto. – ela respondeu orgulhosa. − Obrigado. Fico muito feliz com essa notícia. Estou te aguardando. Ariel fez a reverência habitual que foi retribuída por Mestre Carama e ambos se desconectaram. − O que será que ele quer de mim que só pode ser discutido na sala dele? – ela fez a pergunta a si mesma, mas não tinha ideia da resposta.

§
Após sair da yoctocabine, Ariel se viu diante da enorme porta de madeira escura, sem maçaneta, que dava acesso à sala de Mestre Carama. Parou diante dela e aguardou que algo acontecesse. Vagarosamente a porta se abriu e Ariel se deparou com o mesmo cenário já vislumbrado por Zogham e Aminah. Atravessou a ponte

prestando atenção em cada detalhe. Agachou-se encantada com o tritium que a encarava. − Ele ainda vai estar aí quando terminarmos nossa conversa. Ariel levantou-se e viu Mestre Carama sentado, esperando-a. − Sinto muito Mestre... − Não precisa se desculpar, eu sei que tudo é muito diferente para você. Nunca tinha visto um tritium? – ele perguntou. − De pertinho assim, não. – ela respondeu olhando vidrada para o pequenino ser. − Mas este não é real. – Mestre Carama esclareceu. − Não? Mas parece que posso tocá-lo. – Ariel esticou a mão, mas o tritium recuou sem que ela pudesse encostar nele. − E pode, mas ele, como todo o resto do ambiente, faz parte da minha tela de projeção mental. Eu imagino e tudo se transforma. Por isso, é bom sermos criativos e termos a mente aberta. Os cenários são ilimitados. − Puxa, eu gostaria de poder fazer isto em minha sala. – ela disse sonhadora. − Imagino que sim, no entanto, sua sala está fora da área de acesso restrito, sinto muito. – o Governador lamentou sinceramente. – Mas sente-se. – e apontou uma cadeira em frente a sua – Agora, preste atenção, tudo o que conversarmos aqui é de extremo sigilo, tudo bem? – ele disse olhando nos olhos dela. Ariel sentou e se ajeitou na cadeira, falando bem baixinho. − Sim, claro, como o senhor quiser, estou à sua disposição, pode confiar em mim. − Eu sei que posso. – e Mestre Carama se inclinou para sussurrar – Mas não precisa falar assim, esta sala é absolutamente segura, por isso quis conversar aqui. – e voltando ao tom normal de voz – Agora, me diga, o que sabe sobre Wicnion? – Mestre Carama foi direto ao ponto. − Acho que sei o que todo mundo sabe. – Ariel não estava certa sobre o que responder. Mestre Carama riu. Ele tinha uma vaga ideia sobre o quê que todo mundo sabia. − Então, abra bem a sua mente e ouça com bastante atenção. Vou te contar um pouco sobre Wicnion. – E, ao dizer isso, o ambiente da sala se transformou. À medida que ia falando, o cenário ia ilustrando sua explanação. Primeiro, foi como se eles estivessem flutuando no espaço para, em seguida, pisarem em solo wicniano. – Para começar, Wicnion é um planeta de grandes dimensões. Faz parte

de um sistema estelar binário, ou seja, possui duas estrelas como fonte de energia, sendo uma vermelha e outra amarela, e dois satélites naturais. Sua órbita desenha um oito no espaço. Há momentos em que Wicnion fica exatamente entre as duas estrelas, fazendo com que a estrela amarela, Flav, ilumine o norte do planeta enquanto a estrela vermelha, Rugx, ilumine o sul. Quando isso acontece, não há noite e seus satélites Blu e Arg, surgem no céu do leste e do oeste respectivamente. Na verdade, são várias as combinações, que causam fenômenos visuais indescritíveis. Ariel olhava em volta, maravilhada com o que via. Estar em uma Wicnion fictícia, sem se expor aos perigos e à violência daquele lugar e, mesmo assim, sentir como se ela fosse real era uma agradável sensação, pois o planeta era realmente muito bonito. − Em outras ocasiões, as duas estrelas se alinham e somente uma ilumina o céu de Wicnion. Quando Flav ilumina um dos pólos de Wicnion e esconde Rugx, o céu fica azul pálido, mas quando o contrário acontece, o céu assume um tom lavanda, o que seria poético, se não fosse o sofrimento e a dor que vibram na aura do orbe. Em ambos os casos, o pólo inverso é tomado pela noite, tendo um dos satélites a se destacar no céu. As noites embluadas são escuras e ficam envolvidas por um tom violeta, enquanto o argear derrama uma luz prateada que clareia as sombras e ilumina os caminhos. – ele fez uma pausa para ter certeza de que Ariel o estava acompanhando – Tudo certo até aqui? − Sim, sim, tudo certo. Eu não sabia desses detalhes. Wicnion é um lugar lindo. – Ariel estava adorando a explicação, mesmo que não tivesse a menor ideia do por quê daquela conversa. Mestre Carama continuou a explanação falando das cinco camadas existentes em Wicnion e como estavam ocupadas. Ariel levantou a mão e ele a encorajou a falar. − Sim. O que você deseja saber? − A Colônia Wicniana ocupa toda a Luvelann? − Não. A Colônia Wicniana fica no extremo norte de Luvelann, em um dos pólos do planeta, e tem a aparência de uma fortaleza. Veja você mesma. Ariel se virou e se deparou com um muro extremamente alto. Ela estava ao lado da colônia. − E não existe nada fora dela? − Sim, existe. Os trabalhadores da colônia moram em Luvelann e, para isso, é preciso toda uma estrutura de cidade, com meios de transporte, Universidades,

lazer etc. Mas como são poucos habitantes para tanto espaço, as vilas se parecem mais com ilhas isoladas. Em cada uma dessas vilas, temos projetos diferentes sendo desenvolvidos. – ele fez mais uma pausa, esperando para ver se ela faria alguma outra pergunta. − Meios de transporte? É proibido flugitar em Luvelann? – Ariel estava achando tudo muito interessante. Sabia que Wicnion era o “calo no sapato” do Universo, mas não tinha ideia de sua organização. − Não, mas os cientistas de Luvelann acham que a flugitação acomoda a mente, interferindo no desenvolvimento de novas tecnologias que melhorem a qualidade do transporte em Wicnion. Tudo o que existe no mundo físico é uma cópia grosseira do que existe no mundo real. Se eles param de desenvolver, os cientistas de Wicnion também param. − Mas não seria bom se Wicnion não tivesse acesso a essas informações? – ela perguntou achando que isso seria uma boa solução. − De forma alguma. – Mestre Carama respondeu sem demonstrar indignação – O conhecimento deve ser sempre compartilhado. A responsabilidade sobre como ele é aplicado, cabe a quem o recebe e não a quem o disponibiliza. − Ah, entendi. E os espíritos que trabalham para o Governador e seus dirigentes não tentam invadir Luvelann? Ou a colônia? – Ariel não tinha certeza se as informações que conhecia sobre o Governador de Wicnion e sua falange eram verdadeiras ou apenas boatos. − Sim e não. Sim, porque já chegaram até ela várias vezes e, não, porque a frequência energética deles é muito diferente da que compõe Luvelann, ou seja, eles não encontram nada, nem as vilas, nem a colônia, então, não podem atacar o que não vêem. − E o que acontece quando aparece um desajustado em Luvelann? − Como nossa equipe pode vê-los, mas não pode ser vista por eles, rapidamente nossos trabalhadores formam um cordão fluídico em volta de cada um dos espíritos vagantes. Esse anel que os envolve, desenvolvido por nossos energizadores, exala o remédio certo para cada um. Em geral, o que ele faz é colocá-los em contato com alguma lembrança feliz, fazendo-os desejar o resgate, pois só podemos levá-los para a colônia se eles desejarem isso. − Ah, mas então é uma coisa boa, pois isso quer dizer que sempre que os espíritos wicnianos tentarem invadir Luvelann, além de perderem soldados, espíritos são salvos!

− Mais ou menos. Infelizmente não tem sido assim ultimamente. – Mestre Carama pareceu ligeiramente triste. − Mas por quê? – Ariel se levantou e andou em círculos, foi então que percebeu que estava de volta ao cenário anterior da sala, com o tritium sentado a um canto encarando-a. – Eles preferem continuar como escravos? − Não exatamente. Acontece que os dirigentes de Wicnion, de alguma forma, descobriram de que maneira estávamos resgatando seus soldados e desenvolveram uma técnica para apagar qualquer lembrança de felicidade deles antes de serem enviados à Luvelann. É o mesmo princípio utilizado pelos energizadores, só que ao contrário. Eles apagam, inclusive, pequenas coisas, como a brisa soprando no rosto, um abraço, um sorriso, um beijo, enfim, basta não ser uma lembrança que envolva dor e sofrimento para que seja excluída. Além disso, eles intensificaram as torturas também, dessa forma, torna-se inviável qualquer tentativa de resgate... Ariel interrompeu a frase de Mestre Carama. − ...porque eles não têm nenhum pensamento feliz... Dessa vez, foi Mestre Carama quem a interrompeu. − ...e porque o temor que sentem por serem recapturados mesmo depois de resgatados é tão grande, que suas mentes começam a gerar pensamentos de tortura e dor como se fossem reais. Isso impede que os membros da equipe de resgate continuem, pois a dor excessiva, como esses espíritos a exprimem, os contamina e enfraquece. − Isso tudo é muito triste... – ela falou penalizada. − Sim, Ariel, e é por isso que eu a chamei aqui. Ariel se mostrou sinceramente surpresa. − Mas em que eu posso ajudar? Não tenho treinamento de campo, sempre trabalhei nos serviços administrativos. O senhor tem certeza? – ela perguntou preocupada. − Absoluta. Mas, obviamente, a decisão de ajudar ou não, será sua. − Então me diga Mestre Carama, o que posso fazer? − Estamos organizando uma força tarefa para o resgate coletivo de Wicnion e, para isso, pretendemos colocar um novo Governador no lugar do atual. No entanto, para que nossa missão seja bem sucedida, precisamos de voluntários que o ajudem enquanto estiver habitando em Wicnion. Ariel pareceu em dúvida.

− O senhor quis dizer em Luvelann? − Não, eu quis dizer exatamente o que eu disse: Wicnion. − Mas, então, o novo Governador irá precisar de um corpo físico? Como isso é possível?! – Ariel perguntou estupefata. Mestre Carama achou melhor não entrar em detalhes antes que Ariel desse sua resposta. Apesar de que, pela vibração que ela emanava, ele podia sentir que a resposta seria positiva. Por uma questão de privacidade, ele não quis ler seu pensamento. − Por ora, basta que você saiba que isso acontecerá. O que estou lhe propondo é que faça parte da força tarefa que o ajudará. − Mas de que forma eu faria isso? – ela não conseguia imaginar. − Nascendo em Wicnion. – ele disse simplesmente. Ariel ficou muda. Por alguns momentos sentiu uma imensa ansiedade. Sua mente foi invadida por diversos pensamentos que colocavam em conflito o desafio que lhe estava sendo proposto, com a vida tranquila e equilibrada que levava no Portal de Anaya. Afinal, por mais que tivesse que enfrentar pequenos transtornos no dia-a-dia, nada se compararia a uma vida de provações, presa a um corpo físico, em Wicnion. − Você não precisa me responder imediatamente... – ele sabia que era uma decisão difícil. − Eu aceito! – Ariel falou alto, com voz decidida. − Mas você pode pensar mais um pouco. − Não quero pensar. Quero ajudar! Só não sei o que fazer. − Quanto a isso, não se preocupe. Você receberá um longo treinamento. Assim que eu obtiver a permissão do Conselho Universal, acertarei os detalhes da sua missão, junto com os outros voluntários. – Mestre Carama pressentira desde o início que ela aceitaria. − Muito bem. Ficarei aguardando o senhor me dar novas orientações. – e falando isso, Ariel se preparou para deixar a sala de Mestre Carama. − Obrigado. Eu farei contato em breve e não se esqueça do sigilo. − Eu não esquecerei! E saindo da sala com a mente em turbulência, Ariel nem percebeu que o tritium a havia acompanhado até a porta.

Capítulo 11 A caminho da Colônia Provisória
− Estamos chegando? – Julianna estava impaciente. − Mais um pouquinho. – Zogham não queria mentir novamente, já extrapolara sua cota de deslizes. − Quanto tempo? – e analisando os símbolos e as imagens do painel, ela apontou para um que tinha a imagem de uma flor – Para que serve este aqui? − Não toque em nada! – Zogham segurou a mão de Julianna. − Ei! – ela puxou a mão com força e fez uma careta – Eu não ia tocar, só estava apontando para ele! – Julianna insistiu na pergunta – E você ainda não me disse quanto tempo. − Esta flor conduz ao jardim suspenso. E pare de perguntar quanto tempo. Não dá para fazer relação entre o tempo da Terra e o tempo daqui! – ele falou em tom de bronca, como um pai falando com um filho. − Por que não? – ela continuou a insistir como uma criança teimosa. − Sem perguntas. – ele respondeu firme. Julianna fez outra careta e repetiu a frase de Zogham tentando imitá-lo. − Sem perguntas. Que saco! − Você não deveria falar assim. – ele disse mantendo o tom de repreensão. − Por quê? Se eu me comportar mal vou para o Inferno? – ela falou com deboche. − Você está se comportando como criança. – ele não sabia mais o que fazer para diminuir a ansiedade dela. − E você vai fazer o quê? Vai me... − Chegamos! – Zogham deu um suspiro aliviado, ele não estava gostando do rumo que aquela conversa estava tomando. − Finalmente! – ela comemorou. A cabine multidirecional se abriu e diante deles surgiu um corredor tubular, onde uma esteira de luz foi acionada. Zogham segurou a mão de Julianna e ambos se deixaram conduzir pela esteira. Ela olhava em volta curiosa, mas nada tinha para ser visto. O corredor era metálico, frio e impessoal, mas ficou admirada com a luz sob seus pés, parecia que estava flutuando. Já estavam se aproximando do final dele

quando uma porta começou a se abrir lentamente. Do outro lado, havia uma sala ampla, com pé-direito alto e decoração austera. Grandes quadros com molduras douradas ocupavam toda a parede da esquerda, cada um tinha a imagem de alguém. No entanto, ao olhar mais atentamente, Julianna percebeu que nem todos pareciam humanos. Ela parou por um instante tentando compreender um dos rostos que, a seu ver, poderia ser comparado ao de um lobisomem, quando Zogham comentou: − São todos ex-diretores da Colônia Provisória. Menos aquele ali. – E apontou para o primeiro quadro, que ficava no centro da parede ao alto, acima de todos os outros. Era uma face muito clara, que parecia feita de pura luz, olhos pequenos e pretos, sem nariz e com lábios muito finos. – Ele foi o fundador da colônia, um Sublime. − Um o quê? – de novo uma palavra que ela não compreendia – Vocês têm funções muito estranhas por aqui. Meu pai é um Energizador, e agora isso, um Sublime! Zogham explicou pacientemente. − Um Sublime é a fusão de dois seres unidos pelo mais puro e sincero amor. Duas almas que se complementam e se unem para sempre. Julianna ficou pensativa, admirando o quadro e processando a explicação. − Ah, para ser sincera, eu me lembro desse termo, também tinha um livro sobre isso na loja onde eu comprei o guia de viagem. – Julianna se lembrara do livro com o “profeta” na capa. Mas a atenção dela logo foi desviada para o teto, de onde pendia um enorme candelabro com centenas de lâmpadas. Zogham a puxou pela mão e, à medida que caminhavam, ela viu que se aproximavam de uma mulher jovem, que estava atrás de uma mesa de madeira com muitos detalhes entalhados, assim como a cadeira na qual estava sentada. Ela aparentava a mesma idade de Julianna e era bem exótica, com um nariz muito fino e orelhas extremamente pequenas. Tinha um perfume suave, agradável, que exalava por todo o ambiente. Ela se levantou e ao colocar as mãos sobre a mesa, Julianna percebeu que seus dedos eram mais longos do que deveriam, assim como seu pescoço, do qual pendia uma corrente prateada com um crachá. Nele estava escrito “Adália Kuanna – Recepcionista”. Com um sorriso brando, que deixou à mostra dentes ligeiramente brilhantes e simetricamente retos, sem caninos, ela se dirigiu a eles: − Olá, em que posso ajudá-los? − Oi, eu sou Zogham Quercus, Orientador Nível 5 e trouxe minha orientada para passar um período de recuperação aqui.

− Certo. Qual é o motivo? – Adália se sentou novamente e abriu uma gaveta da mesa. − Viemos com autorização do Governador do Portal de Anaya. A jovem levantou a cabeça e olhou diretamente para Julianna, que se sentiu muito incomodada. De repente, como se tudo fizesse sentido, fechou a gaveta e disse: − Ah, sim, sei do que se trata. Ela é a Nível 2, certo? Julianna sentiu-se ofendida. Era a segunda vez que a chamavam de Nível 2. Imediatamente tomou antipatia pela jovem. − Por que vocês ficam repetindo que eu sou uma Nível 2? Que mal tem isso? Adália olhou para Zogham esperando que ele respondesse. − Não teria nada de mais, se o Portal não fosse frequentado exclusivamente por quem já atingiu, no mínimo, o Nível 4. – ele falou isso olhando nos olhos dela. − Humpf... – Julianna se limitou a resmungar. − O Diretor da Colônia está aguardando por vocês. – Adália disse tentando ser o mais simpática possível, para diminuir o desconforto de Julianna. − Ótimo! Ele está na sala triangular? Eu sei onde é. – Zogham respondeu. − Sim, mas... – a Recepcionista ficou reticente. Zogham não entendeu. − Mas... o quê? − Ela precisa colocar uma pulseira. – Adália imaginou que Julianna iria se irritar novamente. − Ah, claro. – Zogham achou natural. Julianna protestou: − Como assim? Por que eu devo colocar uma pulseira e ele não? – agora ela tinha certeza de que aquela recepcionista estava de implicância com ela. Adália olhou para Zogham esperando que, mais uma vez, ele explicasse. − Porque enquanto você estiver aqui, será monitorada. – ele disse displicentemente, para parecer algo bem normal. − Você está querendo me dizer que eu serei uma prisioneira? – ela começou a se exaltar. − Não é bem assim. Acontece que, para começar, você nem deveria estar aqui, o que significa que eu tive que conseguir uma autorização especial para isso, então, para sua própria segurança, essa medida é totalmente necessária.

Julianna baixou a voz e encheu os olhos de água. − E depois vocês querem me convencer de que não me tratam como um ser inferior. Isso é discriminação! Zogham não estava certo do que deveria dizer, mas arriscou: − Não fique assim. Não chore. O que você faria se viesse a se perder? Saberia o que fazer? Aonde ir? A quem pedir ajuda? Ela soluçou, pensou um pouco e se conformou. − Está bem. Meu pai disse para eu confiar em você. – e dizendo isso, estendeu o braço esquerdo para a recepcionista que, prontamente, colocou em seu pulso uma pulseira vermelha. Zogham agradeceu e os dois seguiram por um corredor à direita. Em silêncio, ele podia perceber a tristeza de Julianna, que sentia-se humilhada, mas sabia que logo esse sentimento se dissiparia. Ao final do corredor havia uma porta, mas antes de abri-la, ele parou e disse: − Ju. – ele falou vacilante. – Posso te chamar assim? Ela deu de ombros. − Eu sei que tudo parece nebuloso e sem sentido agora, mas quando atravessar esta porta, você estará dando o passo mais importante de toda a sua existência. Aqui, você aprenderá muito sobre os mistérios da vida, da sua vida! Mas é fundamental que se empenhe. Basicamente, tirar esta pulseira vermelha do pulso, só dependerá de você. − Mas todo mundo que olhar para mim vai saber que eu sou um ser inferior, principalmente quando perceberem que eu não os vejo. – sua voz estava desolada. − Não será dessa forma. Nesta colônia tem muitos seres em aperfeiçoamento. Você verá a maioria deles. − Verei? – ela perguntou mais animada? − Com certeza! – e ele não estava mentindo. − Algum Nível 2? – ela perguntou secamente. Zogham arregalou os olhos e respondeu em voz baixa: − Não. − Alguém de pulseira vermelha? – ela insistiu. Ele tentou não responder, mas ela sustentou o olhar encarando-o. − E então? Alguém de pulseira vermelha? – ela perguntou novamente.

− Provavelmente, não. – ele perdera o rumo do que ia dizer. − Foi como eu pensei. Pode abrir a porta. Mas Zogham não abriu. Ao invés disso, se colocou de costas para ela e totalmente de frente para Julianna. Segurou-lhe pelos dois braços e a olhou no mais profundo dos olhos. − Olha aqui mocinha, durante ciclos e ciclos, a senhorita tem sido teimosa, rebelde e cabeça dura. Neste exato momento, estou prestes a deixar de ser seu Orientador por ter cedido aos seus caprichos. Já fui informado que terei que ser submetido a uma reciclagem. – ele continuou sem deixá-la dizer uma só palavra – Portanto, muito em breve, você se verá livre de mim e espero, sinceramente, que seu novo Orientador seja mais duro do que eu fui, para o seu próprio bem, pois, caso contrário, você será uma Nível 2 para sempre! – ele sentiu uma pontada de arrependimento nessa última frase, mas não tinha mais volta, o que estava dito, estava dito. Julianna estava com os olhos arregalados e lacrimosos. Ela pensou em dizer algo, mas Zogham não lhe deu espaço, continuando seu discurso. − Mas eu sei que a culpa por você ser tão mimada e geniosa é só minha. Você não queria nascer de novo, eu dava um jeito de burlar o sistema. Você começava a ter uma vida sofrida e me pedia durante o sono para que o seu sofrimento acabasse, eu a tirava dele. Você nascia homem, contrariada, e eu tinha que ficar escutando suas lamentações décadas antes de você nascer, sem falar que nunca concluía o treinamento para alteração sexual, nascendo cheia de problemas psicológicos. Agora, estou colhendo os frutos que eu plantei e não posso reclamar com ninguém, somente comigo mesmo. Só espero ter aprendido a lição e nunca mais me deixar ser enrolado dessa forma. Zogham terminou de falar e arfava como se tivesse pulmões. Suas emoções estavam descontroladas e ele sentia frustração, remorso e vergonha por seu comportamento. Jamais imaginou que cobraria de Julianna o que fizera por ela, pois imaginava que a amava incondicionalmente. Não tinha percebido que havia criado tantas expectativas, estava desconcertado. Virou-se de costas para Julianna e estava prestes a abrir a porta, quando ela colocou a mão em seu ombro. − Espera. – ela fez uma pausa – Não abra esta porta ainda. – e o abraçou por trás, colando a lateral de seu rosto nas costas de Zogham – Me perdoa. Eu não lembro de nada disso que você falou, mas se eu tenho sido tão horrível assim com você, quero que me perdoe, de verdade. Sei que está fazendo o melhor, sinto isso. Você

é gentil, paciente e amigo. Não merece esse meu comportamento infantil. – ela deixou as lágrimas rolarem, mas elas desapareciam antes de molharem a camisa dele. Zogham foi se virando, sem se desvencilhar do abraço de Julianna, até que ficaram frente a frente. Ele a apertou contra seu corpo que, mesmo não tendo os hormônios e as terminações nervosas de um corpo físico, tremia e sentia toda a troca de energia, que era muito forte entre eles. Apoiou seu queixo sobre a cabeça dela e disse quase sussurrando: − Não, você não tem que se desculpar. Sou eu que tenho, eu sou o Orientador. Eu deveria saber como agir e não tenho feito nada certo ultimamente. − Não diga isso. – Julianna se aconchegou ainda mais nele. – Continuo a dizer que você é o melhor Orientador do mundo. Eu prometo que vou me comportar. Não me abandone. − Eu não vou te abandonar, mas não depende mais de mim. Os dois ficaram ali por algum tempo. Abraçados e sentindo a enorme ligação que havia entre eles. Nenhum dos dois disse uma palavra sequer. De repente, como se tivesse saído de um transe, Zogham soltou os braços de Julianna, que envolviam seu corpo, se virou e abriu a porta. Do outro lado da porta Julianna se deparou com um cenário que a deixou boquiaberta. Eles estavam em uma área que se parecia exatamente com um campus universitário. Um enorme gramado, com árvores, prédios baixos e antigos, e faixas espalhadas divulgando encontros e seminários. Tinha um grupo que caminhava, enquanto outros estudavam sob as sombras das árvores. Mas assim como na sala da qual acabara de sair, ela pôde notar que nem todos tinham a aparência de humanos, na verdade, alguns eram bem estranhos. O céu estava extremamente azul, sem nuvens, apenas pássaros voando e cantando. Jardins floridos e dezenas de caminhos com placas indicando onde cada um iria dar. Imediatamente ela olhou para trás e tomou um susto. − O que é isto? − Isto é a Colônia Provisória. − Não, não é disso que eu estou falando, mas disto! E apontou para a porta. Uma vez que haviam saído, a porta estava fixada no gramado sem estar presa a nada. Ela parecia plantada ali. Não havia nada atrás dela, além de mais grama e mais caminhos a seguir.

− Nós acabamos de sair por esta porta e não há nada aqui, nenhum prédio, nenhum corredor, qual é o truque? − Não há truque. Na verdade, não é uma porta, mas um portal. Tudo que nós vimos antes era real, quer dizer, real para nós que frequentamos o Portal de Anaya. Aqui, tudo não passa de projeção, como um jogo de realidade virtual. Lá, manipulamos energia para dar forma às coisas. Aqui, manipulamos a mente para obter o mesmo resultado. Se você se aplicar aos estudos, acabará entendo a diferença entre um e outro. − Bem, eu nunca gostei de videogames, mas acho que isto – e apontando para o campus – é muito mais do que um jogo de realidade virtual. − Sim. Primeiro porque não é um jogo e, segundo, porque não se trata de uma programação ou de um software, mas, como eu disse, de uma projeção mental, de várias mentes em sintonia. − Projeção mental? – quanto mais ela tentava entender, mais difícil ficava, mas ao contrário do que acontecera das outras vezes, ela não resmungou e nem fez nenhum comentário. − Falta pouco para as nuvens se dissiparem e tudo ficar claro. – ele percebeu o esforço que ela estava fazendo para entender aquela nova situação – Agora, vamos falar com o Diretor. Julianna viu uma placa e apontou para ela. − Na sala triangular? − Isso, na sala triangular. Vamos pegar exatamente este caminho. Enquanto caminhavam, ele percebeu que ela estava com os olhos arregalados. − Se não quer ser discriminada, pare de ficar encarando os outros. − Mas tem muita gente estranha aqui. Quer dizer, nem sei se isso é gente. − Se você considera que apenas os humanos são gente, então, muitos não são. − Então o que são? − São seres inteligentes iguais a você, mas que simplesmente não têm um primata em sua árvore genealógica. Evoluíram a partir de outras espécies, como ursos, lobos, borboletas, lagartos, serpentes, pássaros, e outros que você nem imagina que existam. As possibilidades são inúmeras! − Que interessante! Então eu vou tentar adivinhar de que espécie cada um se originou.

Zogham levantou os olhos para o céu, e não pode deixar de achar graça no comportamento de Julianna. − Olha lá aquele ali! – Julianna falou baixo mas cutucou Zogham para que ele olhasse também. − Quem, Ju? – ele olhou discretamente. − Aquele ali de calça marrom e túnica roxa. – ela fez a indicação com a cabeça, para não chamar muito a atenção. − Sim, o que tem ele? − Eu acho que ele evoluiu de um guaxinim. – e em seguida soltou um risinho. − De um guaxinim? – ele perguntou surpreso com a imaginação de Julianna. − É, por que o espanto? Você acabou de me dizer que as possibilidades são inúmeras. Disse que houve evolução até de borboletas, por que não pode haver evolução de um guaxinim? Eles são mais tapados do que uma borboleta? − Ju, você é impossível! – Zogham estava se divertindo com a situação. − Pois eu acho que ele tem cara de guaxinim. – ela disse se convencendo de que não havia dúvidas sobre isso. − Tudo bem. Pode ser. – ele percebeu que o homem-guaxinim de Julianna estava olhando para eles. Zogham deu um sorriso amarelo e acenou. – Ande, deixe disso, nós chegamos. A sala triangular fica neste prédio. − Não me admira ter esse nome! – só então Julianna se deu conta que o caminho os conduzira por uma suave colina e que logo atrás dela havia uma pequena pirâmide. − Agora, comporte-se, sua permanência na Colônia Provisória ainda depende da aprovação do Diretor. – Zogham respirou fundo. Julianna engoliu em seco. – E se ele não a aprovasse? O que fariam com ela? − Sei o que está pensando, mas relaxe, vai dar tudo certo. − Você quer parar de ler meus pensamentos? Eu posso te processar por isso! – ela falou com a voz séria. − Ah, é? E quem vai ser o seu advogado? O homem-guaxinim? Os dois se olharam em silêncio e ambos desataram a rir. Uma pedra da pirâmide começou a se mover lateralmente, abrindo uma entrada diante deles. Lá de dentro uma voz muito grave se fez ouvir. − Sejam bem-vindos. Entrem. Zogham e Julianna suspenderam o riso e entraram lentamente.

O interior da pirâmide possuía apenas um cômodo. Era iluminada pela luz natural e todos os objetos que a decoravam reluziam como ouro. As paredes eram gravadas com símbolos que Julianna não compreendia. Havia muita hera cobrindo parte das paredes e do chão. No centro dela, sentado em uma cadeira, estava um homem de pele acinzentada aparentando uns sessenta anos, que, por sua fisionomia, Julianna poderia jurar que havia evoluído de uma águia. − Finalmente vocês chegaram! Sejam bem-vindos à Colônia Provisória! – o homemáguia falou efusivamente, e a parede móvel se fechou atrás deles.

Capítulo 12 A pher e a fada
Dracon estava sentado em uma pedra admirando o movimento da água do rio que passava atrás do prédio principal da Colônia Wicniana. A água era absolutamente verde com leve reflexo prateado. − Um anel de prata pelos seus pensamentos. Quando se virou, viu Aminah caminhando em sua direção. Estava mais bela do que nunca e tinha um brilho que lhe envolvia da cabeça aos pés. Sua asas estavam ligeiramente abertas e seus cabelos brilhavam com a claridade do dia. − Ora, ora, vejam só! Você está excelente! – Dracon sorriu esfuziante. − Na verdade, é exatamente assim que eu me sinto. Os energizadores da colônia são fabulosos. Com apenas três sessões conseguiram me deixar em forma novamente. – ela rodopiou feliz. – Sinto-me envergonhada por ter deixado minha energia ficar tão fraca. Nem acredito que fui procurar Mestre Carama para pedir-lhe que me afastasse da nossa missão. Aminah se sentou em uma pedra menor, ao lado de Dracon. − Você não deve se preocupar com isso agora. Todos nós estamos sujeitos a nos sentirmos incapazes de completar essa missão. O importante é estarmos unidos – ele tocou os cabelos de Aminah. − Eu não poderia ter ninguém melhor ao meu lado. Só você consegue me paparicar assim, sem que eu me sinta uma tola. – Aminah repousou sua mão sobre a de Dracon, que ainda estava em seu cabelo, e apoiou ambas em seu ombro, prendendo-as levemente com a cabeça ao recliná-la. Por alguns instantes eles ficaram olhando um para o outro, apenas sorrindo. Foi Dracon quem falou primeiro. − E então? Quais são os seus planos? – Dracon se abaixou para pegar uns seixos que estavam próximos aos seus pés. − Voltar para o meu povo. Devem estar sentindo a minha falta, achando que a “deusa” deles os abandonou. E os seus, quais são? – ela também pegou alguns seixos. − Os mesmos que os seus. Sei que o meu pessoal é valente, mas eles ainda precisam do meu amparo. Há tempos não me ausento por um período tão longo. – ele atirou uma das pedrinhas no rio.

− Nem eu. – ela atirou uma pedrinha rosada que foi mais longe do que a de Dracon. − Então é bom nos apressarmos. – ele atirou outro seixo que foi além do de Aminah. − Está certo, vamos nos preparar. Quanto mais rápido voltarmos, melhor. Aminah arremessou um seixo, mas quando ele começava a cair no rio, surgiram pequeninas asas nele, fazendo-o seguir adiante até parar bem distante de onde estavam. Ele ficou flutuando sobre o rio, porém sem tocar na água. − Ei, isso é trapaça! Você manipulou seu seixo! – Dracon protestou sorrindo. − Não diga uma coisa dessas. Uma pher nunca trapaceia, ela apenas busca resultados mais eficazes. Os dois começaram a rir e Dracon arremessou outro seixo mas, agora, o dele, além de asas, também tinha uma pequena cauda que balançava impulsionando-o com mais velocidade. Quando ambos se encontraram, ficaram rodando no ar, correndo um atrás do outro como em uma brincadeira de pega-pega. − Aha, veja, eu sou mais veloz! – a pedrinha de Dracon estava prestes a tocar a de Aminah. − Mas eu sou mais esperta! – e, então, o seixo de Aminah deu um rasante na água mas antes de tocá-la, manobrou radicalmente, voltando a subir, fazendo com que o de Dracon mergulhasse de uma só vez sem ter tempo de mudar de direção. − Nossa! Fui enganado! Dracon passou um dos braços por cima do ombro de Aminah e ela retribuiu abraçando-o na cintura. Ficaram em silêncio por uns instantes até que ouviram um pigarro. − Hum hum... tudo bem? Aminah e Dracon se viraram e viram Vigílio em pé, um pouco atrás deles. − Olá Vigílio, estamos ótimos! Na verdade, nos preparávamos para procurá-lo. Vamos voltar a Wicnion neste momento. – Dracon respondeu tirando o braço do ombro de Aminah. − Já? Pensei que fossem ficar um pouco mais de tempo. – Vigílio comentou um pouco desapontado. − Bem que gostaríamos, Vigílio, mas precisamos retornar. Nosso povo precisa de nós e nada podemos fazer daqui. A aldeia das fadas está cercada pelo exército dos lobos, que tenta descobrir sua exata localização. Elas começam a perder a fé em manterem a resistência. – Aminah explicou e sua voz estava apreensiva. − Sim, eu compreendo. – Vigílio respondeu pensativo.

Dracon se levantou e jogou o resto dos seixos, que ainda tinha nas mãos, no rio. − A situação no Norte não é muito diferente do que acontece no Sul. A aldeia dos dragões vem sofrendo ataques do exército dos gigantes. Muitos já se bandearam para o lado inimigo, meu povo está dividido. – Dracon explicou enquanto ajeitava as vestes. − Sendo assim, vou acompanhá-los agora mesmo até os portões da colônia. Venham. Aminah e Dracon seguiram Vigílio. Atravessaram a ponte sobre o rio e chegaram a um extenso gramado que estava ocupado por muitas criaturas. Seres de todas as espécies. Uns caminhavam, outros estavam deitados sobre lençóis, todos acompanhados de enfermeiros. Nenhum deles comentou, mas possuiam um pensamento comum. Todos imaginavam se algum dia seria possível ver aquelas cenas harmoniosas ocorrerem em Wicnion. O primeiro orbe do Universo a servir de colônia corretiva e evolutiva, e com um dos mais antigos laboratórios para o desenvolvimento da vida em matéria orgânica. Quando descobriu-se uma forma de acoplar uma energia pensante a um corpo físico, mantendo-a presa a ele até que fosse considerada apta a ser livre novamente, as leis da Física foram reescritas, trazendo harmonia onde, antes, só havia o caos. Reunindo em sua natureza, a maior quantidade de elementos existentes no Universo, Wicnion já acolheu e ainda acolhe as mais variadas experiências genéticas e evolutivas. Grupos de trabalho se formaram em todas as galáxias e apresentaram propostas tanto criativas quanto ousadas. Algumas, verdadeiramente fantásticas e harmoniosas, como a que deu origem aos primatas. Outras, ineficazes e já extintas, como os parisukats, que tinham o estranho formato de uma caixa vazia. Possuiam seis garras que serviam tanto de braços quanto de pernas e se reproduziam a partir da combinação de elementos encontrados na natureza. Pelo mesmo orifício, introduziam seu alimento e expeliam suas toxinas. E era também de dentro desse grande buraco, que retiravam suas crias, mais parecidas com saquinhos de papel. Na corrida para o desenvolvimento de técnicas de manipulação de energia para criar novas espécies em Wicnion, alguns grupos se romperam por não chegarem a um acordo na forma do trabalho desenvolvido. Via-se refletida nos pobres seres recém-criados, a vaidade daqueles que não aceitavam começar por baixo. Tentavam criar espécies complexas antes de terem criado espécies rudimentares e o resultado era a origem de verdadeiras aberrações. Aos poucos, foram dividindo o planeta em

nichos e surgiu uma competição em busca da criatura perfeita. Wicnion começou a abrigar não só as criaturas, como seus criadores, que foram expulsos das instituições nas quais iniciaram suas pesquisas, pois já não eram mais cientistas responsáveis e comprometidos com a evolução das espécies, mas líderes de uma disputa sem ética para tentarem se igualar à Fonte Original. No entanto, o que eles nunca entenderam, é que sempre estiveram limitados a criarem o corpo físico que nasceria em Wicnion, mas, jamais, a energia que daria vida a esse corpo. Agora, na Colônia Wicniana, podia-se ver o reflexo dessa disputa na variedade de espécies espalhadas pelo jardim. − A colônia está cheia, não? – Aminah comentou olhando a sua volta. − Nem tanto. Só estamos com uma pequena parte dela em funcionamento. Nossa capacidade é muito maior do que a ocupação atual, mas não temos voluntários suficientes e os resgates estão cada vez mais escassos. – Vigílio suspirou. – Além disso, acabamos de liberar um grande grupo que estava em recuperação. Foi o sr. Dracon quem os acompanhou até o Portal de Anaya. – ele completou. − Sim, eu sei, ele me disse. Aminah parou por um momento e se deteve com uma paciente em particular. Era uma pequenina criatura com asas rosadas. Ela estava sentada no gramado e havia dois enfermeiros com ela. Um deles estava ajoelhado diante dela, segurando suas mãos, enquanto o outro massageava suas asas. − Uma fada! – Aminah exclamou. − Sim, ela se chama Kathiah e foi resgatada há algum tempo. Ingenuamente saiu para colher flores e acabou indo muito além da aldeia. Sozinha e desprotegida, foi alvo fácil para os lobos, que a levaram para o quartel do General Signatus. De lá, ela foi conduzida ao castelo do Rei Rufus, onde foi mantida prisioneira. Primeiro, serviu de divertimento nos jantares e festas do castelo e era exibida como um troféu. Uma noite, a Rainha Zerda, convidada especial do rei que tencionava pedi-la em casamento aumentando a extensão de seu reino, se encantou com ela e quis levá-la como presente nupcial. O Rei Rufus, então, exigiu que a pequena fada permanecesse voando durante todo o jantar, uma vez que isso agradava a Rainha Zerda. Cansada e exausta, ela não resistiu e caiu sobre a mesa do jantar, quebrando uma de suas asas e derramando uma jarra de vinho sobre o vestido da rainha. Irritada, a Rainha Zerda exigiu que a fada fosse punida e, ali mesmo, o Rei Rufus puxou a espada e decepou suas duas asas. Ela sangrou até morrer.

Aminah sentiu um arrepio percorrer-lhe as asas. – Como alguém pode ser tão cruel?! − Desculpe-me, a história é muito forte. Eu não deveria ter entrado em detalhes. – Vigílio lamentou. − Não, por favor, continue. – ela insistiu. − Bem, assim que lhe fugiu o último sopro de vida, o espírito de Kathiah se arrastou para fora do corpo e, imediatamente, ela entendeu o que tinha acontecido. Percebeu que estava cercada de Coletores, os recolhedores de almas de Slaggelann e Thartarius mas, ao invés de se desesperar, Kathiah elevou seus pensamentos a Luvelann e começou a pedir ajuda. A equipe que estava de plantão no momento, detectou a mensagem e agiu rapidamente. Eles desceram até o castelo e, sem serem vistos por causa da diferença do nível vibracional, a resgataram. Kathiah desapareceu na frente dos Coletores, que nada puderam fazer. No entanto, ela chegou aqui com a mesma aparência do momento de sua morte. Estava um farrapo, a pobrezinha. Tivemos que ajudá-la a se recompor e, somente agora, suas asas estão inteiras novamente. Os dois enfermeiros têm sido incansáveis. Um ajuda com as boas lembranças, livrando-a dos pensamentos que a levam de volta aos dias de sofrimento no castelo e o outro recompõe sua forma. Em breve ela estará voando de novo e pronta para ser transferida para alguma colônia que a reintegrará em um planeta evolutivo de phers. − Nossa, que história! Tudo por causa de algumas flores, hein? – Dracon olhava a pequena fada com um misto de compaixão e admiração. − Será que eu poderia falar com ela? – Aminah já caminhava em sua direção. − Claro! Ela ficará muito feliz em vê-la, com certeza. – Vigílio a seguiu. Aminah atravessou o gramado até onde estava Kathiah e os dois enfermeiros. Parou diante da pequena fada que ao levantar a cabeça compreendeu imediatamente de quem se tratava. Ela arregalou os olhos e, boquiaberta, se ajoelhou diante da pher. Suas asas se abriram ao máximo para se recolherem logo em seguida. − Eu não posso crer que fui abençoada com tamanha graça. O que fiz para merecer este momento de glória e estar diante da deusa Aminah? – ela mantinha a cabeça baixa enquanto falava. Aminah se abaixou e, segurando as mãos de Kathiah, forçou-a delicadamente a se levantar. − Querida, fique de pé, você é tão digna de mim quanto eu sou de você. Somos da mesma espécie evolutiva e pertencemos ao mesmo Universo. Um dia, não fui nem

um pouco diferente de você, portanto, quero que converse comigo de igual para igual. – sua voz soava melodiosa. Kathiah levantou a cabeça e olhou Aminah que era muito maior do que ela. − Mas a senhora é uma pher, e a deusa de meu povo! − Não minha pequenina, eu sou apenas uma luz, entre tantas que existem, que tenta iluminar o caminho daqueles que desejam progredir. Em breve, você evoluirá. Não falta muito para que se torne uma pher como eu. – Aminah se agachou e tocou suavemente o rosto da fada. − Minha mãe e minha avó sempre me contavam histórias suas e de como era linda. A senhora é realmente muito linda! – Kathiah não conseguia esconder sua admiração. − Você também é. Linda por fora e em sua essência. Mas me chame apenas de Aminah. − Eu não posso... – a fada abaixou a cabeça. − É claro que pode e é assim que eu quero que me chame, está bem? – Aminah esperou por sua reação. Kathiah ficou rosada como suas asas. Ela levantou ligeiramente os olhos. − Eu... eu sinto muito, mas realmente não posso... – e ficou ainda mais rosada. − Está bem, querida, não tem problema. – Aminah sabia o quanto devia ser constrangedor para Katiah dirigir-se à ela como se fossem iguais, pois crescera em um povoado que a adorava como sua única deusa. – Eu soube que você vai para uma colônia evolutiva. – Aminah comentou. − Sim. Me deram a opção de retornar, mas tenho medo de renascer em Wicnion. – ela fez uma pausa – Eu me sinto culpada em abandonar aqueles que amo. – a pequena fada completou com a voz chorosa. − Pois não se sinta assim. Em breve todos serão livres e vocês se reencontrarão. Estou indo para o templo da aldeia agora e vou ajudar nosso povo. – Aminah disse esperando que ela se animasse um pouco. − A senhora... quer dizer que... vai falar com a Sacerdotisa? – Kathiah perguntou curiosa. − Sim, sei que ela me espera com ansiedade. Preciso ajudar a renovar a esperança na aldeia das fadas. – a pher percebeu um brilho nos olhos de Kathiah. − Minha mãe é uma das auxiliares. Eu soube que ela anda muito triste desde que foi informada da minha morte. A colônia fez contato com a Sacerdotisa e avisou que eu estou aqui. Na verdade, não estou bem certa se quero ir para outra colônia. Às

vezes penso que seria melhor voltar para a aldeia, voltar para minha mãe e ajudála. – a voz de Kathiah estava chorosa novamente. − Essa resposta, querida, só você pode encontrar. Quem é sua mãe? – Aminah quis saber. − É Erminea, primeira auxiliar da Sacerdotisa. – ela respondeu. − Sim, eu sei quem é ela. Se desejar voltar, eu posso avisá-la em sonho que você estará retornando em breve. – a pher encorajou-a. − A senhora faria isso? – Kathiah perguntou excitada. − Seria uma imensa satisfação para mim. – Aminah confirmou. − E de que forma eu ficaria perto de minha mãe? Ela não é mais fértil... e... − Você tem uma irmã mais velha, não tem? − Sim, eu tenho... a senhora está sugerindo que... − ... você seja reintegrada à sua família através de sua irmã. – Aminah completou a frase. − Isso seria maravilhoso! Então eu vou voltar! Farei o que for preciso aqui na colônia para me preparar e voltarei. – a pequena fada vibrou. − Eu estarei lá no dia em que você nascer de novo. Será um dia de grande alegria! Nós reconstruiremos Wicnion, com amor, lealdade e fé. Ainda há de ser o melhor lugar do Universo para se viver. – Aminah se ergueu motivada pelo próprio discurso. Kathiah a abraçou e sua cabeça não ia além do joelho da pher. − Obrigada, muito obrigada mesmo! – a fada tinha os olhos marejados. − Não, você não precisa me agradecer. Sua essência é que te faz merecedora disso. Agora eu tenho que ir, está bem? Kathiah soltou Aminah, deu um passo atrás e fez uma discreta reverência. − A senhora será sempre a minha deusa. Aminah beijou o alto da cabeça de Kathiah. Ambas se despediram e cada uma seguiu em uma direção. Kathiah, junto com os dois enfermeiros, caminhou rumo ao prédio principal. Já Aminah, se dirigiu aos portões da colônia, acompanhada de Dracon e Vigílio. Ninguém dizia nada, reinava o silêncio, aquela pequena fada os havia enchido do mais puro amor. E esse era um sentimento que os fazia se sentirem muito bem.

Capítulo 13 O segundo voluntário
Akólouthos Acolyte estava perplexo e radiante. Estudara arduamente para se especializar no desenvolvimento psíquico dos seres níveis 1 e 2 e, agora, parecia que estava sendo reconhecido por todo o seu empenho. Tinha em mãos um convite para participar de um treinamento especial, cujo programa não estava detalhado, mas que visava a sua participação em um projeto coordenado diretamente por Mestre Carama, o Governador do Portal de Anaya. Trazia apenas a informação de quando e onde aconteceria o encontro e a observação de que deveria ser discreto e não comentar com ninguém sobre o convite. “Portal de Anaya, 24 de Sila de 4,74b. Prezado Akólouthos Akolyte, É com grande satisfação que a direção do Portal de Anaya o convida a participar do Curso de aprimoramento dos conhecimentos psíquicos de seres em evolução, níveis 1 e 2. O convite é feito com a certeza de que não haverá recusa e de que seu envolvimento nesse projeto será muito produtivo. Por isso, solicitamos que compareça ao auditório 4 do Setor de Cursos Especiais N1-2 ao 4411 do próximo dia 38. O curso em questão será coordenado por Mestre Carama que dará a aula inaugural para esclarecimentos e detalhes do programa. ATENÇÃO: é essencial a discrição em relação a este convite e ao treinamento. Recomendamos a desintegração imediata desta carta após a leitura. Certos de sua colaboração, Comitê Educacional Complementar de Estudos Psicobiogenéticos N1-2.” Akólouthos puxou uma cadeira e sentou-se sem conseguir parar de ler e reler o convite que tinha em mãos. Já participara de muitos treinamentos, mas nenhum de caráter sigiloso e, muito menos, ministrado por um Governador. Não podia imaginar do que se tratava, mas pressentia que, em breve, teria tarefa árdua a desempenhar. Não que isso o preocupasse, pois não recusava trabalho, apenas queria ter certeza de que daria conta do recado. Por outro lado, Mestre Carama não o convidaria se não tivesse a certeza de sua capacidade. Leu a carta novamente “...seu envolvimento nesse projeto será muito produtivo.”

− Você ouviu isso Valente? Eu fui convidado a participar de um curso muito importante! “Curso de aprimoramento dos conhecimentos psíquicos de seres em evolução, níveis 1 e 2.” Valente era um cachorrinho que Akólouthos havia acolhido há algum tempo e que o acompanhava a quase todos os lugares, exceto ao trabalho. De olhos grandes e atentos, ele se aproximou de Akólouthos apoiando-se nas patas traseiras e colocando as duas patas dianteiras sobre as pernas do rapaz. Cheirou o papel e deu uma lambida na mão de Akólouthos esfregando o focinho pedindo um afago. − Ah, você quer um carinho, não é? No momento, Akólouthos estava em sua casa, uma modesta habitação de apenas dois cômodos e um andar, mas muito ampla e arejada, com varanda, gramado e jardim. O cômodo maior servia como quarto e sala, com um divã bem largo e confortável e duas pequenas poltronas, onde costumava receber amigos para estudar, conversar ou cantar músicas que eles mesmos criavam. A decoração era simples, mas aconchegante. Um tapete, uma luminária de pé, cortinas e algumas plantas e almofadas completavam o ambiente. O outro cômodo, um pouco menor, era separado por uma cortina de pequenos cristais. Nele, havia um projetor compacto e algumas estantes repletas de livros. Uma luminária pendia do teto e uma pequena mesa oval, com duas cadeiras que se encaixavam nela, ficava em um dos cantos, encostada à parede. Ele, assim como pouco mais da metade dos trabalhadores fixos do Portal, vivia em um de seus anexos onde ficavam os condomínios residenciais. Ali, era possível encontrar uma boa moradia, mas não sem usar muitos bônus de energia. Para trabalhar e morar no Portal de Anaya, somente com muito esforço. Por isso, Akólouthos, além de trabalhar na Letras e Acessórios Astrais, também era assistente em um consultório de Psicobiologia Combinada, onde era encarregado de manter os prontuários dos pacientes organizados e atualizados. − “O curso em questão será coordenado por Mestre Carama que fará a reunião introdutória para esclarecimentos e detalhes do programa.” – ele releu em voz alta – Isso significa, Valente, que estarei frente a frente com o Governador do Portal! – Akólouthos se levantou com a carta na mão e foi até a varanda, Valente o acompanhou. O céu estava azul e soprava uma brisa fresca. Esse era sempre o clima no Anexo dos Condomínios. Em seu jardim, que cercava todo o gramado, havia mais de uma dezena de variedades de plantas. Por alguns instantes ele ficou ali parado, olhando as flores e pensando em como deveria se apresentar à Mestre Carama. Ensaiou algumas reverências, balbuciou algumas palavras desconexas

até que, de repente, lhe pareceu que seu nome estava sendo pronunciado por alguém. Valente começou a latir. − Akólouthos, ô Akólouthos, você está me ouvindo? Está tudo bem? Akólouthos levantou a cabeça e olhou para a rua. Lui Mandrós, seu vizinho, estava em pé do outro lado do jardim observando-o com um olhar curioso. Tinha o ar cansado e os cabelos escorridos, colados à cabeça. Sua roupa estava desalinhada e um dos botões da camisa estava aberto, deixando à mostra uma parte de sua protuberante barriga. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos da calça jeans suja, que cobria parte de seus pés, ficando de fora apenas os dedos de unhas compridas. − Está tudo bem? Recebeu alguma notícia importante? Você me parece tão agitado. De repente, Akólouthos se deu conta de que ainda estava com o convite na mão e, pior, havia ido para fora de casa com ele. – Que burrice! Como pude fazer uma idiotice dessas? – ele pensou e, imediatamente, dobrou a carta e a colocou no bolso traseiro de sua bermuda. − Que nada, eu estou vendo a lista de livros para repôr algumas seções da Letras e Acessórios Astrais e pensando em como fazer uma nova arrumação. É para ficar mais atrativa, sabe? Os clientes gostam de novidades. – Akólouthos não tinha o hábito de mentir, e sentiu-se envergonhado. − E Valente o estava ajudando? – Lui o olhou desconfiado. − Ah, sim. Ele é muito inteligente. Não só entende tudo o que eu digo, como me inspira ideias excelentes! – e virando-se para o cão – Não é mesmo Valente? O cachorro deu dois latidos como se estivesse confirmando o que ele havia dito. − Sei... – disse o vizinho esticando o pescoço e tentando olhar para dentro da casa de Akólouthos como se ele estivesse escondendo alguém. Akólouthos não tinha certeza, mas achava que Lui não havia ficado muito convencido. Resolveu, então, mudar o rumo da conversa. − Mas, e você? O que faz em casa tão cedo? − Eu? Bem, acabei de me demitir, não aguento mais trabalhar no serviço de entregas, é muito desgastante. – o homem bufou. − Mas como você vai fazer? Não estava com dificuldades para conseguir bônus de energia suficientes para se manter no condomínio? − É verdade, mas eu tenho uma audiência amanhã. Vou tentar um crédito. − Você não conseguiu um recentemente?

− Sim, mas o que posso fazer se não encontro um serviço que me agrade? É tudo muito difícil para mim. Você que é feliz, sei que tem garantia de crédito por quase meio giro do Portal. – Lui Mandrós deixou escapar uma pontada de inveja na voz. − Bem, eu me esforço muito para conseguir os bônus extras. – o rapaz tratou de esclarecer que seus créditos eram por mérito e percebeu que Lui retorcera o nariz. Akólouthos sentiu que não deveria ter dito isso. Não era sua intenção julgar seu vizinho e os motivos pelos quais não conseguia se fixar em nenhum serviço. Mas o fato de ter a casa garantida por tanto tempo, se devia única e exclusivamente à sua dedicação. Mesmo assim, sentiu-se constrangido com o comentário que fez. Tentou amenizar a situação. − De qualquer forma, vou torcer para que tudo dê certo dessa vez. Você há de conseguir um serviço adequado e um adiantamento de crédito, afinal, já somos vizinhos há tanto tempo. − Obrigado Akólouthos. Você é sempre muito gentil. Mas agora preciso ir andando. Estou me sentindo muito cansado com o dia de hoje. Preciso repousar. E dizendo isso, Lui atravessou a rua e entrou na casa em frente a de Akólouthos. A fachada tinha uma aparência suja e destoava das demais casas da rua. As paredes estavam descascadas e o jardim tinha mais erva daninha do que plantas ornamentais. A calçada estava coberta de folhas secas e faltava um pedaço do portão de entrada. Akólouthos se lembrou da antiga moradora da casa e da dedicação com que cuidava do jardim. Aquela habitação já havia tido uma boa aparência no passado, aliás, fora considerada uma das mais bonitas da região. No entanto, desde que Lui Mandrós se mudara para lá, a construção vinha se deteriorando. Por duas vezes ele fora multado por desleixo com o imóvel, mas apenas se limitara a lamentar por não ter ninguém que o ajudasse com a manutenção da casa, alegando falta de tempo para cuidar dela. O que ele não entendia era que tanto sua aparência quanto a da casa, apenas refletiam seu estado de espírito, sempre negativo. Como a manipulação de energia era permitida nos anexos dos condomínios residenciais, só dependia dele mesmo reproduzir o ambiente a sua volta, principalmente, no que dizia respeito à casa. Akólouthos o ajudara a pagar a segunda multa, pois Lui lhe garantiu que estava sendo vítima de perseguição, afinal, “a casa nem estava tão feia assim como diziam, bastava uma pintura nova e podar o jardim”. Era possível que, em breve, ele viesse a receber a terceira multa e, com certeza, bateria à porta de Akólouthos para pedir que o ajudasse novamente. − Venha Valente, vamos entrar, já fui negligente demais por hoje.

Valente o seguiu para dentro da casa e se acomodou em uma das poltronas. Akólouthos tirou o convite do bolso de trás da bermuda. − Puxa, essa foi por pouco! Será que ele ouviu alguma coisa do que eu disse? Acho que não. De qualquer forma, o melhor que eu tenho a fazer agora, é desintegrar esta carta. Em seguida, ele se dirigiu a uma das paredes da casa onde havia uma pequena porta com a inscrição “Conversor de energia” e um medidor ao lado. Akólouthos puxou a maçaneta e jogou o papel lá dentro. O marcador acendeu, mas o ponteiro não saiu do lugar. − É, tudo bem, não daria para acender nem uma lanterna, mas pelo menos ninguém vai ler seu conteúdo. Akólouthos deu meia volta e foi até a estante de livros. Pegou um exemplar de capa azul e letras vermelhas, intitulado “Evolução em quatro etapas”, que estava deitado sobre uma das prateleiras. Folheou o exemplar até encontrar um marcador de páginas em formato de flor. Acomodou-se no divã e começou a ler em voz alta: “A terceira etapa da evolução está subdividida em três partes: 1. animal inconsciente; 2. animal pré-consciente; 3. animal semiconsciente.” Akólouthos avançou algumas páginas até encontrar a explicação que procurava. “O animal pré-consciente, em geral, age por instinto, sendo capaz de assimilar o padrão de comportamento coletivo de sua espécie sem nenhuma dificuldade. De acordo com o grau de desenvolvimento do organismo físico, o animal tem lampejos de inteligência sem, no entanto, ter consciência dela. Em um grupo, os que mais se destacam são aqueles que lideram os outros indivíduos com determinação e, dessa forma, garantem a sobrevivência da espécie.” − Valente, precisamos resolver sua situação. Você não pode viver clandestinamente comigo para sempre. Além disso, não é correto mantê-lo aqui. Temos que cadastrálo em um programa evolutivo para que você progrida! – o cãozinho, que havia passado da poltrona para o divã, estava deitado aos pés do rapaz e apenas limitouse a levantar a cabeça quando ouviu seu nome. – Escuta só isso: “A migração da essência de um animal pré-consciente para um animal semiconsciente é realizada por especialistas e ocorre em laboratório genético para garantir a total adaptação do espírito a um corpo mais desenvolvido e com maior potencial de aprendizagem. Nessa etapa, a inteligência é uma qualidade facilitada pela

estrutura do veículo físico. O animal semiconsciente vive na coletividade e o grupo possui um ou mais orientadores para apoiar o processo evolutivo e identificar os indivíduos aptos a progredirem rumo à quarta etapa, que são as formas inteligentes. No entanto, logo quando ocorre a evolução da forma pré-consciente para a forma semiconsciente torna-se necessário um orientador exclusivo para acompanhar o processo. Devido ao baixo grau de complexidade exigido, recomenda-se que o acompanhamento direto seja feito por um Orientador que tenha graduação Nível 4, e que a supervisão fique sob a responsabilidade de um Orientador Nível 5. Quando o corpo físico está aquém da inteligência desenvolvida pela criatura, pode ocorrer uma estagnação no processo evolutivo pela limitação da matéria. Nesse caso, sugere-se uma interferência discreta no veículo físico por meio de mutação. Caso essa opção não seja viável, pode ser necessário a interrupção do ciclo do indivíduo colocando em análise a sua evolução para uma forma inteligente.” − Em pensar que as energias liberadas pela Fonte Original vagaram tanto tempo pelo Universo até desenvolverem consciência e que, tão logo criaram a forma em matéria densa, descobriram que a evolução se dava muito mais rápida dessa maneira. – e virando-se para o cãozinho – Eu gostaria de ter sido um dos Espíritos Primários, Valente. Eles deram forma ao nosso Universo e criaram o Portal de Anaya, você sabia disso? Akólouthos pôs o livro de lado e foi até a estante novamente. Valente pulou do divã e o seguiu. Dessa vez, ele passou o olhar por algumas prateleiras, procurando por um título que não conseguia encontrar. − Vamos lá, vamos lá, cadê você? Eu sei que está por aqui em algum lugar. – e ainda resmungando para si mesmo. – Por que eu não uso os livros quadrimensionais como todo mundo? – mas nem bem fizera o questionamento, ele encontrou o que procurava. – Aqui! Achei você! Espremido entre um grande livro de capa verde com quatro dedos de lombada e um outro de capa laranja estava um livreto de um palmo de altura, sem lombada, parecendo uma cartilha. − “Pequeno manual para captação de sinais de inteligência em formas préconscientes”. Era exatamente isto que eu estava procurando! Akólouthos retornou ao divã seguido por Valente e passou o dedo pelo sumário, encontrando a informação desejada. Em seguida, folheou o pequeno exemplar, abrindo-o na página 23. “Capítulo 3 – Respostas diretas a perguntas específicas

Ao dirigir uma pergunta a uma criatura pré-consciente é possível que a resposta seja compreendida sem que, no entanto, você perceba que houve uma resposta. Para saber se está lidando com um espírito pronto a evoluir para uma forma semi-consciente, veja abaixo o que significa cada reação, independente da espécie utilizada como veículo físico: Avançar: revolta Bater as asas freneticamente sem voar: medo Bater com a cabeça contra algo: medo Bicar com força: revolta Bicar suavemente: aprovação Cobrir os olhos com a pata ou com a asa: inconformidade Coçar atrás da orelha: dúvida Correr atrás do rabo: ironia Emitir dois ou três sons iguais e sequenciais: aprovação Emitir som compulsivamente: discordância Emitir um único som: negação Esfregar o focinho: aprovação Gemer ou emitir som similar: dor ou medo Lambida: aprovação Nenhuma reação: o animal ainda não possui capacidade de compreensão Pular repetidamente: reprovação Pular uma vez: aprovação Sacudir o corpo ou parte dele (como o rabo, por exemplo): felicidade Tremer o corpo ou parte dele (como o rabo, por exemplo): medo Voar ou correr em círculos: felicidade Veja a lista com todas as reações possíveis no ‘Manual completo para captação de sinais de inteligência em formas pré-conscientes.’ Ao perceber que uma criatura pré-consciente demonstra sinais de inteligência, providencie que ela receba a assistência necessária à sua evolução." Akólouthos fechou o livro, tendo o cuidado de marcar a página que estava lendo. Apoiou o volume sobre o divã e pegou Valente no colo, segurando-o de forma que pudessem se encarar. Olhou nos olhos do pequeno animal e com a voz muito séria proferiu: − Preste bastante atenção, Valente, nós teremos que nos separar em breve, mas eu farei o possível para que sua próxima forma seja mais evoluída do que essa. Você é muito inteligente, tenho certeza disso. Irá se adaptar rapidamente!

Fez-se um silêncio entre ambos e, por um instante, Akólouthos teve a impressão de que o olhar de Valente dizia que ele havia compreendido cada palavra. − Valente, você está me entendendo? Será mesmo que você pode me compreender de verdade? Valente deu uma grande lambida no nariz de Akólouthos. − Eu sabia, você pode me compreender! – Akólouthos reabriu o livro e correu os olhos pela lista que acabara de ler. – “Lambida: aprovação”. Isso quer dizer que você me entendeu. O rapaz deu um pulo do divã e Valente soltou três latidos sequenciais. Para Akólouthos estava claro que o cãozinho compreendia tudo o que estava sendo dito. Ele correu para o projetor e o acionou: − Mila!? Mila, você está me ouvindo? Cadê você? − Estou atrás de você. Akólouthos deu um pulo e Valente começou a latir e balançar o rabo atravessando a imagem de Mila várias vezes. − Caramba, Mila, você deveria ter respondido antes de se projetar. Onde você está? − Estou em casa, por quê? Você parece agitado. Aconteceu alguma coisa? − Mais ou menos. – ele achou melhor não falar pelo transmissor. − Como assim, “mais ou menos”? Ou aconteceu ou não aconteceu. Explique-se! − Você pode vir aqui em casa? – Akólouthos havia tido uma ideia e precisava da ajuda de Mila. − Agora? – ela acabara de chegar e pensara em fazer uma reposição energética, pois o dia havia sido bem cansativo. − Mila Duncan, eu preciso de você agora, por favor! – ele suplicou. − Está bem, está bem. Estou indo, mas espero que seja realmente importante. Assim que a imagem de Mila desapareceu do meio do cômodo da casa de Akólouthos, ele se virou para Valente e decretou: − Bem, é isso, seus dias como cachorro estão contados! Em breve você se tornará um chenevolu. Valente correu em direção à parede e bateu a cabeça contra ela. Depois se deitou e cobriu os olhos com a pata. − Que é isso Valente? Não precisa ter medo, vai dar tudo certo. – Mas ao passar a mão sobre o pelo de Valente, Akólouthos percebeu que o animal se tremia por

inteiro. Então, ele sentou-se no chão ao lado do cãozinho e ficou acariciando sua cabeça. Estava pensando em desistir da ideia sobre a evolução de Valente, mas ouviu alguém chamar pelo seu nome à porta. – Estão me chamando. Deve ser a Mila, fique aqui que eu já volto. Akólouthos se dirigiu à varanda e viu Mila na calçada do outro lado do portão. Ela ainda usava o uniforme de Monitora de Área do Portal de Anaya e estava com a expressão não muito animada. − Akólouthos, você tem que ter realmente um bom motivo para me chamar com tanta urgência e me fazer flugitar até aqui! Você sabe que eu sempre fico meio zonza quando me transporto assim! – ela se tateou para ter certeza que havia se recomposto da mesma forma. Mal ele abrira o portão, Mila passou direto para dentro da casa. Ao entrar na sala, viu Valente deitado no chão, de focinho para a parede e com os olhos cobertos pelas próprias patas. − Ué? O que aconteceu com o Valente que ele não veio me receber e ainda por cima está todo amuado ali no cantinho? Akólouthos que entrara logo atrás de Mila, jogou-se em uma das poltronas e disse com absoluta certeza: − Medo. − Medo? – Mila perguntou em dúvida. – Como você sabe? E medo de quê? − De se tornar um chenevolu. – Akólouthos disse de forma óbvia. − Um chenevolu? – ela duvidou novamente do que ouvira. − Mila, você vai ficar repetindo tudo que eu digo? – Akólouthos estava sorrindo e acabara de fazer sinal para que Valente subisse em seu colo. − Akólouthos, eu não estou entendendo nada. Como é que você sabe que o Valente vai virar um chenevolu se nem ao menos ele está internado em um centro de progressão evolutiva? Seria necessário uma análise feita a partir de alguns testes para se ter certeza da capacidade dele de migrar de cão para chenevolu. − Eu fiz os testes e ele passou em todos. – Akólouthos reabriu o livro “Pequeno manual para captação de sinais de inteligência em formas pré-conscientes”. – Olha aqui, leia a lista. Eu perguntei ao Valente se ele podia me compreender e ele deu uma lambida no meu nariz. Depois, eu perguntei de novo e ele latiu três vezes em sequência. Por último, eu disse a ele que iria virar um chenevolu e sabe o que ele fez? – ele encarou Mila nos olhos esperando que ela dissesse algo.

− Ele bateu com a cabeça na parede? – ela respondeu debochadamente com uma pergunta. − Isso mesmo! E também cobriu os olhos com as patas! Por isso, eu sei que ele está com medo de evoluir. Mila ficou parada no meio da saleta olhando incrédula para Akólouthos. − Eu não posso acreditar que você fez um teste extraído de uma literatura sem credibilidade como esta e se convenceu de que o Valente vai nascer em algum ponto do Universo como um chenevolu. − E por que não? Em algum momento isso terá que acontecer, não? Por que não pode ser agora? – o rapaz não se dava por vencido. Mila foi até ele e pegou Valente que estava deitado sobre as pernas de Akólouthos, colocando-o no colo. − Porque o Valente está em situação irregular na sua casa, só por isso. − Mas amanhã mesmo eu vou registrá-lo. − Você vai ser multado. − Eu sei... – Akólouthos respondeu triste. – Mas eu não tive a intenção de atrapalhar sua evolução. Você sabe que eu o encontrei abandonado e todo machucado dentro de uma caixa na porta da Letras e Acessórios Astrais. Pensei que fosse uma entrega de livros. – ele se justificou. − Eu entendo Akólouthos, mas quando você viu que era um cãozinho deveria tê-lo entregue no setor de recolhimento de formas pré-conscientes. – Mila o repreendeu gentilmente. – Lembre-se que de boas intenções, Tartharius está cheio. − Eu ia fazer isso, Mila, ia mesmo. Eu só quis melhorar a aparência dele antes. Fazêlo sentir-se melhor. Ele estava tão assustado. Deve ter sofrido muito. Queria que ele se recuperasse primeiro. – Akólouthos jogou um beijo para Valente que latiu duas vezes. − Tudo bem, tudo bem, vamos pensar com calma. – ela abraçou Valente e lhe fez um carinho atrás da orelha. – Supondo que ele esteja pronto para evoluir. Você sabe que isso não funciona dessa maneira. Primeiro, ele precisaria ser indicado por um Orientador, o que não é o caso. Segundo, depois que passasse no teste de inteligência, seria preciso entrar na fila para que um geneticista mudasse o seu mapa genético, adaptando-o para que pudesse nascer na forma física de um chenevolu. Isso tudo é demorado e não depende de você. Ainda não entendo sua agitação.

− É muito simples. Quando eu levá-lo ao centro de progressão evolutiva, amanhã, além da multa que terei que pagar por ele estar aqui há tanto tempo sem notificação, irão me dar um formulário para responder. Nesse formulário tem duas perguntas que farão toda a diferença. – ele disse como se fosse um trunfo, uma carta guardada na manga. − E quais são? Posso saber? − Claro! Irão me perguntar se eu considero o animal apto à evolução e, obviamente, direi que sim e colocarei a justificativa para minha resposta. − E a outra pergunta? – Mila estava curiosa. − Perguntarão qual a forma evolutiva sugerida para a espécie e se eu conheço algum geneticista para indicar a migração. − E você conhece? − Óbvio que sim, Mila. Eu conheço você! − Eeeeuuu!!?? – Mila soltou Valente que pulou do chão para o colo de Akólouthos. − Mila, você é a melhor que eu conheço. Olha só a sua forma. Você é perfeita! Fez isto sozinha, sem ajuda de ninguém! − Akólouthos, cai na real, eu sou uma aluna apenas, ainda não me formei. Além disso, minha experiência não inclui a evolução dos chenevolu, eu estudo a genética humana! – ela sentou na poltrona ao lado da de Akólouthos. − Acho que você é muito capaz. Tenho certeza que consegue. – ele estava esperançoso que a resposta final dela fosse positiva. – E quando há um Geneticista disponível, não é necessário que a indicação seja feita por um Orientador. − Agradeço sua confiança em mim, mas não vamos nos precipitar. Preciso pensar nisso com calma. Melhor você não levar o Valente amanhã, espere mais um pouco. Já o escondeu até agora mesmo, não fará diferença acrescentar mais um período à sua multa. − É que talvez eu não tenha muito tempo para resolver o destino do Valente... – ele deixou a frase no ar. − Não entendi. Por que você está dizendo isso, vai a algum lugar? Vai se ausentar por um tempo? − Talvez... − Nossa Akólouthos, que mistério! Diz logo o que está acontecendo! – Mila alterou a voz, estava bem ansiosa.

− Eu não posso falar... não mesmo. É que eu recebi uma carta... – ele não continuou a frase. − Uma carta? – a voz de Mila soou grave. – Que tipo de carta? Uma carta convite? Akólouthos levantou as sobrancelhas e encarou Mila. − Sim... − Tinha o nome do Mestre Carama nela? – ela perguntou bem baixinho. − Sim... mas como você sabe disso? – ele ficou preocupado achando que Lui Mandrós tivesse descoberto e a notícia já houvesse se espalhado. Mila se levantou, foi até a porta, abriu-a, olhou a frente da casa, mas não viu ninguém por perto. Fechou a porta, encostando-se nela, apoiando o corpo sobre as mãos. Olhou Akólouthos com um olhar de cumplicidade e disse: − É que eu também recebi.

Capítulo 14 Na sala do Diretor
− Por favor, sentem-se. – o Diretor falou dirigindo-se a Zogham e Julianna. − Sentar on...? – mas antes que Julianna terminasse a frase, ela percebeu duas cadeiras atrás deles. – Estas cadeiras não estavam aqui, estavam? Zogham ia responder, mas o Diretor não lhe deu tempo. − Não, Julianna, eu acabei de materializá-las. Julianna olhou cética e desconfiada para o Diretor. Contornou uma das cadeiras, passando as mãos em seu encosto e assento e parou atrás dela. − Bem, se o senhor me permite, eu gostaria de fazer um comentário e uma pergunta. – ela disse timidamente. Zogham ia interrompê-la, mas o Diretor não permitiu, fazendo um gesto com a mão para que ela continuasse. − Mas é claro, pode falar. − Primeiro, o senhor sabe o meu nome, mas eu ainda não sei o seu e, segundo, em que momento eu vou começar a entender como as coisas funcionam aqui? Zogham sentou-se na outra cadeira sem dizer nada. Sabia que o Diretor não se incomodaria com a petulância de Julianna, mas imaginou se isso não ressaltaria a inviabilidade de deixá-la permanecer na Colônia Provisória, devido ao seu total despreparo. − Minha querida, seu comentário é muitíssimo pertinente, e mostra como o excesso de afazeres está me tornando mal educado. Meu nome é Ras Yerodin e, como já deve saber, sou o responsável por esta colônia. – o Diretor falou com um singelo sorriso. − A propósito, senhor Diretor, muito obrigada por me aceitar, pois sei que eu não deveria estar aqui. Mas será que é possível ter resposta para a minha segunda pergunta? – Julianna sentou-se devagar, como se tivesse receio de que a cadeira fosse desaparecer a qualquer momento. − Isso só dependerá de você. – o Diretor disse carinhosamente. − De mim? – ela protestou – Mas como? Eu pergunto e ninguém me responde! – ela olhou diretamente para Zogham.

− Sim, eu imagino. No entanto, não é simples assim. Isto aqui é uma colônia de estudos. Temos vários treinamentos, mas todos em nível avançado e você é Nível 2. – ele fez uma pausa e completou – Sabe o que isso significa? − Não tenho certeza... – Julianna vacilou. − Pois eu vou tentar lhe explicar de uma forma bem geral. – Ras se levantou e caminhou um pouco pela sala, como se estivesse escolhendo as palavras que iria usar. Em seguida, começou sua explanação – Há muito, muito tempo, os Espíritos Primários que criaram o Portal de Anaya desenvolveram um controle único para tudo que existe em nosso Universo, ao qual também deram forma. Categorizaram e classificaram toda a ordem e também a desordem que existe a nossa volta, desde a matéria mais densa desenvolvida por eles mesmos, até a energia mais sutil, em qualquer onda, vibração ou frequência existente ou que se tenha conhecimento. A partir daí, foram estabelecidos cinco níveis para os seres aos quais chamamos inteligentes, ou seja, as espécies que são capazes de elaborar um pensamento, constituir um raciocínio e agir logicamente. – o Diretor fez uma pausa e olhou para Julianna. − Eu nem consigo imaginar o tamanho desse arquivo. – ela comentou admirada. − Sim, é um grande arquivo, mas ele não cresce, apenas se atualiza, pois nosso Universo é uma caixa e nada entra ou sai dele, porém, tudo nele se renova o tempo todo. − Uma caixa??? Mas eu pensei que o Universo fosse infinito! Se ele é uma caixa, o que existe do lado de fora? – Julianna estava pasma. − Bem, no momento, eu só posso lhe afirmar que ele é finito e que conhecemos todas as suas fronteiras. Tudo bem? Podemos continuar? – ele perguntou. − Mais ou menos, isso é muito diferente do que aprendi, mas continue por favor. − Certo. Vou tentar usar analogias que facilitem sua compreensão. Como eu disse, foram estabelecidos cinco níveis para os seres aos quais chamamos de inteligentes. Essa escala diferencia o conhecimento adquirido por cada um, sendo que o Nível 1 é para os que têm pouquíssimo ou nenhum conhecimento e o Nível 5 é para os que já concluíram todo o treinamento. Se fosse na Terra, seu planeta de origem, eu diria que é como ir da infância à velhice. O Diretor fez uma pausa. Julianna olhou para Zogham. − Qual é o seu nível? Zogham não esperava essa pergunta e respondeu constrangido:

− Eu sou Nível 5. − Nossa! Você deve ter estudado muito! − Sim, ele estudou. – o Diretor respondeu por Zogham – Por isso ele é o seu Orientador. − Somente quem chega ao Nível 5 pode ser um Orientador? – Julianna perguntou. − A partir do Nível 4 inicia-se um estágio com acompanhamento, tornando-se um Orientador Aprendiz, mas somente ao alcançar o Nível 5 é que o Orientador pode trabalhar sozinho. Além disso, é necessário ter vocação também. Julianna olhou para Zogham novamente. − Então, você é um Orientador Nível 5? − Já não tenho certeza. – Zogham respondeu com tristeza. − Como não tem certeza? – ela não entendeu. − O que Zogham quer dizer é que talvez ele precise voltar a ser um aprendiz. – o Diretor explicou. − Mas por que ele voltaria a ser um aprendiz? – Julianna sentiu uma pontada de culpa. − O que caracteriza um Orientador não é apenas ele ser Nível 5, é também a imparcialidade, a capacidade de analisar os fatos sem paixão. Não existe vaidade, orgulho, arrogância, ciúme, raiva, tristeza, remorso etc. Não se toma partido por nenhum lado. − Mas isso parece tão autômato. Quer dizer, não existe nenhum sentimento! – ela comentou decepcionada. − É claro que existe. Na verdade, existe o único sentimento verdadeiro, aquele que não julga, que nos ajuda a tomar decisões sem vacilar. O mais nobre de todos os sentimentos, que favorece ao coletivo e que torna nossas ações dignas e imparciais. – Ras olhou Julianna nos olhos, esperando que ela concluísse sozinha. − O senhor está falando do... amor? – ela perguntou incerta. − Exatamente. O amor é o único sentimento capaz de tornar nossos pensamentos e atos imparciais e, portanto, justos. – o Diretor falou com uma voz suave e profunda. − Mas eu tenho certeza que Zogham tem muito amor no coração. – Julianna queria ajudar Zogham da mesma forma como ele a vinha ajudando. − Minha querida, neste exato momento, você está sendo parcial. Está defendendo Zogham porque gosta dele, mas não está levando em consideração o que é

realmente bom para ele. E é exatamente por isso que Zogham voltará a ser um aprendiz, porque ele vem lhe protegendo há muito tempo, sem levar em consideração o que é melhor para você. Paixão é diferente de amor – Ras olhou com ternura para os dois. − Mas isso não é verdade, ele só fez isso porque eu pedia a ele que fizesse. – ela estava realmente com remorso, e preferiu ignorar a menção que o Diretor fez sobre Zoghan estar apaixonado por ela. − E como Orientador ele deveria ter sido imparcial dizendo “não”. Obrigando-a a cumprir todas as provas necessárias à sua evolução. – o Diretor disse isso olhando para Zogham. − Ele está certo Julianna. Acho que não devemos tratar disso agora. – Zogham esperava que Julianna não tivesse prestado atenção ao comentário sobre paixão e amor. – Tenho certeza que ao iniciar os seus estudos, você entenderá o que o Diretor está dizendo. Eu agradeço sua defesa, mas eu sabia quais eram as minhas obrigações como Orientador e fui relapso. – a voz de Zogham soou triste. − Mas... – Julianna queria dizer alguma coisa que pudesse ajudar, porém não conseguia pensar em nada. − Por favor... – Zogham insistiu, e voltando-se para Ras. – Continue senhor Diretor. − Tudo bem. Como eu estava dizendo, é necessário ter vocação também. O conhecimento apenas, não basta. Julianna ficou pensativa por uns instantes e, aos poucos, seus olhos foram ficando distantes até que, de repente, algo lhe ocorreu. − Senhor Diretor, todos aqui falam a minha língua? Quero dizer, vocês falam todos os idiomas que existem na Terra? − Para ser sincero, eu não sei qual é o idioma que você fala. Não precisamos disso aqui. – Ras disse naturalmente. Novamente Zogham sabia qual seria a reação de Julianna a essa declaração. − O senhor está me dizendo que não estamos falando a mesma língua? Como...? – ela parou repentinamente de falar e soltou o corpo relaxadamente na cadeira. – Está certo, poderia me explicar? Zogham ficou surpreso com a tranquilidade dela. Finalmente, Julianna parecia estar diminuindo sua resistência. − Claro! – o Diretor disse enfático. – A fala é apenas uma expressão do pensamento. Dessa forma, nos comunicamos pelas vibrações que emitimos intencionalmente.

Não temos um aparelho auditivo que funcione da mesma forma como você estava acostumada. − E ouvimos o que é “dito” na nossa própria língua? – ela arriscou o comentário. − Sim. Na verdade, você não ouve, interpreta as ondas que são emitidas. – Zogham respondeu pelo Diretor. − Não vou tentar entender isso cientificamente agora. Para mim, está bom poder compreendê-los, mesmo sendo uma “Nível 2”. – e torceu a boca ao dizer seu nível. − Muito bem, então, a primeira coisa que deverá aprender é consultar o calendário e ver as horas no Portal. – o Diretor falou mudando o rumo da conversa. – Mas é bom que saiba que será difícil por um tempo, até que se acostume. Ras Yerodin se dirigiu ao projetor multidimensional que estava em um dos cantos da sala. Em seguida, um homem peludo, que lembrava muito um gorila, surgiu como se estivesse presente na sala. Ele usava óculos e vestia apenas uma espécie de saia, na verdade, mais parecia um pano enrolado na cintura, com sandálias de amarrar. Ele estava rodeado de estantes de madeira escura repletas de livros e sobre elas haviam vários vasos de plantas. O chão, também em madeira, estava parcialmente coberto por um tapete de barbante. − Olá a todos. Em que posso ajudá-lo Ras? Ras contornou o homem peludo e se colocou de pé entre as cadeiras de Zogham e Julianna. − Olá, Bandar. Gostaria de apresentá-lo a dois amigos. Estes são Zogham e Julianna. − Muito prazer em conhecê-los. Eu sou Bandar Andras, o assistente virtual do Ras. Espero ser útil a vocês. – Bandar fez uma reverência a eles. − Tenho certeza que será, Bandar. Poderia nos mostrar um calendário do Portal? – o Diretor puxou sua cadeira e a colocou ao lado de Julianna. − Perfeitamente. – Bandar se dirigiu a uma das estantes onde havia um gaveteiro acoplado. Ele puxou uma das gavetas e imediatamente retirou uma pasta. Ao abrila, acenou positivamente com a cabeça e extraiu uma folha. – Vou exibi-la para vocês. – em seguida, Bandar recolocou a pasta na gaveta e segurou a folha com as duas mãos. Ele a jogou no ar e a folha foi ampliada até ocupar todo o espaço de projeção, fazendo com que Bandar e o resto do cenário onde ele estava desaparecessem atrás dela.

− Agora Julianna, quero que preste bastante atenção nesta tabela. – Ras colocou uma mão sobre o ombro dela – Veja como distribuímos o tempo por aqui. E o que ela viu foi o seguinte:

Julianna ficou admirando o calendário por alguns instantes, observada por Ras e Zogham, que permaneceram em silêncio. Em seguida, limitou-se a dizer: − Eu vi um destes quando estava no Portal. Achei mesmo que parecia um calendário. – e voltando-se para o Diretor. Quanto tempo leva para sair do Nível 1 e chegar ao Nível 5? – ela perguntou pensando em sua própria trajetória. − Não existe uma regra Julianna e não há como interferirmos. Nós podemos ajudar, aconselhar, orientar, enfim, darmos todo o suporte necessário, mas é o esforço de cada um que torna esse trajeto mais rápido ou demorado, mais fácil ou mais árduo. – o Diretor sabia qual seria a próxima pergunta que ela faria. − Quanto tempo eu levei para ir do Nível 1 ao 2? Zogham olhou para o Diretor que assentiu com a cabeça para que ele lhe respondesse. − Quatro mil anos terrestres, aproximadamente. Julianna ficou pensativa, abaixou a cabeça, cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. − Eu sabia, eu sabia que eu era um ser inferior. Estou quase no último degrau da escala evolutiva há quatro mil anos! Sou quase um Neandertal. Eu queria morrer,

de tanta vergonha que estou sentindo. – ela balbuciava as palavras entre lágrimas, sentindo uma profunda angústia no peito. Ras segurou suas mãos e soprou o seu rosto, secando suas lágrimas. − Não fique chateada com o que eu vou lhe dizer minha querida, mas você não pode morrer, pois isso já aconteceu, é por isso que você está aqui. Ela levantou a cabeça e olhou nos olhos do Diretor, em seguida, dasatou a gargalhar como se ele tivesse contado a piada mais engraçada do Universo, contagiando a todos no ambiente, inclusive Bandar, que já havia recolhido o calendário e estava sentado em um banquinho acompanhando a conversa. − O senhor pode fingir que eu não fiz esse comentário? Isso pode ser prejudicial para a minha permanência na colônia. – ela falou ainda entre risos que tentava controlar. − Não se preocupe, sua permanência na Colônia Provisória será avaliada periodicamente a partir do início dos seus estudos. – o Diretor explicou. − Dos meus estudos? Quer dizer que eu vou poder realmente estudar aqui? Mas como irei entender o que me for dito se a colônia é para níveis bem mais avançados do que o meu? − Antes de vocês chegarem aqui, Mestre Carama, o Governador do Portal de Anaya, entrou em contato comigo e me sugeriu um desafio relacionado à sua evolução. Então, localizei seu registro e percebi que você ainda é Nível 2 porque seu Orientador cedeu às suas chantagens e lhe permitiu ficar estagnada. – Ras olhou para Zogham que abaixou a cabeça. − Ah, por favor, não culpe o Zogham, eu já disse que a culpa foi minha. – ela implorou. − Infelizmente, isso não será possível, pois sua evolução era responsabilidade dele. De qualquer forma, você se mostrou uma pessoa muito determinada em todas as vidas pelas quais passou, mesmo que sua determinação fosse a de não cumprir o acordado. Dessa vez, foi Julianna quem abaixou a cabeça envergonhada. − Sinto muito... − Não precisa se desculpar Julianna, afinal, você, assim como todos os seres que habitam o nosso Universo, estão em evolução, inclusive eu. – Ras se dirigiu a Zogham. – Agora, eu terei que pedir que você se retire, porque o que tenho a tratar com a Julianna não será mais de seu interesse.

Zogham levantou-se da cadeira abruptamente, não imaginava que seria afastado da função de Orientador tão rápido. Julianna também se levantou e derrubou a cadeira estabanadamente, correndo para abraçá-lo. Tinha medo do que fosse acontecer a ele, e por mais que Ras Yerodin lhe dissesse que não era sua culpa, ela não podia deixar de sentir remorso pelo afastamento dele da função de Orientador. Além do mais, temia seu próprio destino, em um mundo desconhecido, onde tudo era estranho e diferente. − O senhor não pode fazer isso. – Julianna protestou. − Posso e devo fazer, para o bem de ambos. – o Diretor falou brandamente, sem demonstrar nenhuma comoção à reação dos dois. − Senhor, eu sei que devo repassar minha função de Orientador, mas permita que ao menos eu possa conversar com aquele que irá me substituir. Tenho certeza que ela se sentirá mais segura se eu puder fazer isso. − Mas você já está falando. – Ras disse com naturalidade. − Já? – Zogham duvidou. – O senhor quer dizer que... − ... que eu serei o Orientador de Julianna. − O senhor?? – Zogham e Julianna perguntaram juntos. Os dois resolveram se sentar e, antes que Julianna pensasse em levantar sua cadeira, ela já estava no lugar como se nunca tivesse caído. Zogham ficou olhando para Ras Yerodin sem entender a situação. Tentou imaginar o que Mestre Carama teria dito para o Diretor, que o fizera assumir essa função. Isso, de forma alguma, fazia parte de suas atribuições, sendo ele o Diretor da Colônia Provisória. − Eu não entendo... Por que o senhor? Julianna permanecia calada. Não ousava discutir o que estava longe de sua compreensão. − Zogham, eu gostaria de poder lhe explicar com detalhes o que está para acontecer, mas não posso. No momento certo você será comunicado. Julianna tem um potencial a ser explorado e se ela colaborar, após a conversa que teremos reservadamente, isto é, sem a sua presença, ela poderá permanecer na colônia e avançar alguns níveis. Mas claro, ela deverá concordar com a proposta que farei a ela, no entanto, isso não será mais da sua conta. − Mas... – Zogham tentou argumentar. − Mas, o que lhe peço agora, é que confie em mim.

− Você entende agora como eu me sinto aqui? O tempo todo ouvindo que saberei das coisas na hora certa? – Julianna não resistiu ao comentário. Zogham olhou para ela com os olhos tristes e magoados. De repente, toda sua razão de existir estava lhe sendo retirada sem possibilidade de negociação. Não havia como questionar uma decisão tomada pelo Diretor da Colônia Provisória, principalmente, quando estava respaldada pelo Governador do Portal de Anaya. − E o que eu faço agora? – Zogham perguntou ao Diretor. − No momento, você deverá fazer uma reciclagem mas, antes, faça uma desenergização. Depois, procuraremos um Ergonius. Julianna achou melhor não perguntar o que era um Ergonius. − Está bem, senhor, se foi decidido assim, não farei objeção. Mas terei a oportunidade de ver Julianna novamente? Quero dizer, depois do Ergonius? – Zogham esticou a mão e Julianna a segurou. − Quem sabe? O destino muda a todo o instante. É possível que haja um caminho no qual vocês se encontrem, mas isso só acontecerá se ambos tomarem a mesma direção. − E como saberemos se estamos nesse caminho? – Julianna perguntou. − Em algum momento, vocês saberão. Mas só depois de terem trilhado a maior parte dele. Zogham e Julianna permaneceram de mãos dadas, em silêncio, sem se olharem. − Bem, eu vou ajudar Bandar com algumas coisas enquanto vocês se despedem. Bandar se levantou do banquinho e Ras atravessou da sala triangular para o cenário de estantes e livros como se os dois lados estivessem em uma mesma realidade. Zogham e Julianna observaram o Diretor e seu assistente virtual irem para o fundo do ambiente, ficando de costas para eles. Os dois se olharam e em seguida se abraçaram, ainda sentados. Zogham sabia que Julianna estava chorando e teve vontade de fazer o mesmo, mas não sabia mais como materializar lágrimas. − Desculpe-me Julianna, eu estraguei tudo. − Não. – ela protestou. – Tenho certeza que você fez o que achou melhor. Não importa o que me digam, eu confio em você. − Ju, me promete uma coisa? − O que você quiser. – ela se afastou um pouco dele para poder ver seu rosto.

− Faça tudo o que te orientarem. Dedique-se ao máximo. Acho que ainda poderemos ficar juntos novamente. − Eu prometo Zogham. Eu vou ser a aluna mais aplicada desta colônia. Mas você tem que me prometer que fará o possível para ser meu Orientador outra vez. – ela voltou a deitar a cabeça no ombro dele. − Não descansarei até que isso aconteça. – ele afirmou decidido. − O que você acha que acontecerá comigo? − Eu gostaria de ter essa resposta Ju, mas confesso que não faço a menor ideia. Nunca ouvi falar de um Diretor exercendo a função de Orientador. Não imagino o motivo pelo qual ele assumirá esse papel ao invés de simplesmente delegá-lo. – Zogham estava sendo sincero com ela. Não queria mais dizer nenhuma mentira. − Eu estou com um pouco de medo. – Julianna se encolheu nos braços de Zogham. − E eu não posso mais dizer que estarei ao seu lado cuidando de você. Mas não precisa ter medo. Não há motivo para isso aqui. − Não estou com medo daqui apenas. Estou com medo de não te ver mais, nunca mais. Zogham procurou o rosto de Julianna com as mãos e envolvendo-o assim, encostou sua testa na dela. − Nunca é muito tempo e isso é algo que não existe na eternidade. − Por que estamos tão distantes um do outro? Por que eu não pude te conhecer como homem, na Terra? Eles fecharam os olhos e seus lábios quase se tocaram. As lágrimas de Julianna molhavam o rosto de Zogham fazendo-o relembrar sensações adormecidas em sua mente. − Eu gosto de sentir o seu cheiro. – e seus lábios esbarraram nos de Julianna quando ele falou. – Eu gosto de sentir seus cabelos nas minhas mãos. – ele escorregou os dedos do rosto dela para a nuca. – Muitas vezes, enquanto você dormia, eu sentava à beira da sua cama e acariciava seus cabelos, induzindo sonhos para que você se sentisse amada e protegida. − Então, você era o homem dos meus sonhos? – ela deixou escapar um sorriso molhado que umedeceu os lábios de Zogham. – Você me ama..., quero dizer, não esse amor do qual o Diretor falou, mas aquele amor que existe entre um homem e uma mulher lá na Terra. Eu sinto isso. – ela beijou o canto de sua boca.

− Eu não posso Ju, eu sou o seu Orientador. – ele virou o rosto tentando fazer com que o beijo dela repousasse no dele, mas ela desviou ligeiramente o rosto. − Não, você não é mais... o Diretor é. – ela sussurrou no seu ouvido. − Mas eu não posso sentir o que estou sentindo. – Zogham apertou-a mais forte, quase imobilizando seu rosto contra o dele. − Acho que agora isso não faz mais diferença. – ela escorregou a face, trazendo novamente a boca para perto da dele. − Nesse caso, então, acho que eu te amo. − Nesse caso, então, acho que você corre o risco de se tornar humano, como eu, porque também te amo. Na verdade, eu sempre te amei, desde que você passou a fazer parte dos meus sonhos. E sentindo que lágrimas, finalmente, corriam de seus olhos também, Zogham beijou Julianna. Beijou-a como nunca havia beijado ninguém antes. E toda sua existência surgia em flashes desconexos. Seu corpo ardia, sentindo os pulsos elétricos, como choques que o aqueciam e lembrou-se de quando era apenas um homem comum, um simples arturiano que desconhecia que o Universo classificava os seres em níveis.

Capítulo 15 A outra voluntária
Akólouthos andava de um lado para o outro esperando Mila entrar pela porta da Letras e Acessórios Astrais. Já havia arrumado e desarrumado a prateleira de lançamentos, pelo menos, umas oito vezes. Dois clientes habituais da loja, estranhando o comportamento desatento de Akólouthos, que indicara o romance “A luz de Nívea L.” para um Energizador que estava procurando uma obra técnica sobre a iluminação de seres Nível 1, preferiram ser atendidos por outro vendedor. Um terceiro cliente retornou à loja depois de perceber que Akólouthos não havia lhe cobrado os bônus de energia referentes ao valor da publicação que adquirira. − Akólouthos Akolyte! O que está acontecendo com você hoje? Está com a cabeça fora do Portal? – reclamou Homa Gelisah sua colega de loja depois de perceber que Akólouthos se preparava para arrumar a prateleira dos lançamentos pela nona vez. − Quem? Eu? Não, claro que não! Mas Akólouthos respondeu no mesmo instante em que Mila entrou na loja e, ignorando os protestos de sua colega por ter retirado todos os livros da prateleira e têlos espalhado pelo chão, ele correu ao encontro de Mila segurando-a pela mão e saindo com ela da Letras e Acessórios Astrais antes que ela pudesse cumprimentar qualquer um pelo caminho. − Ei! – Mila protestou. – O que houve? Por que está me arrastando dessa forma? Aonde estamos indo? − Como assim “aonde estamos indo”? A uma sala de recuperação, óbvio! Consegui um passe para utilizar uma alegando que teria uma sessão com um Energizador. – Akólouthos respondeu sem parar de arrastar Mila pela mão, que expressava espanto pelo comportamento inexplicável do amigo. − Você? Contando uma mentira? Tem alguma coisa muito errada aqui! E por que eu deveria saber que estamos indo a uma sala de recuperação? Mas Akólouthos não respondeu. Ele apenas tentava não pensar em nada, mesmo assim, achou melhor reforçar o bloqueio mental. Dedicara um tempo enorme a exercícios mais eficazes que garantissem que ninguém leria seus pensamentos.

− Não pense em nada Mila, não pense em nada! – ele repetia sem parar. – Eu sei que você deve estar com a mente a mil, por tudo que deve ter ouvido hoje, mas se esforce para não pensar em nada. Mila ia responder mas achou melhor esperar para ver no que ia dar aquilo tudo. Por mais que se esforçasse, não havia sentido em nada do que Akólouthos dizia. E enquanto ela procurava compreender o que poderia ter feito seu amigo surtar, Akólouthos andava em ritmo acelerado. Abaixara a aba do boné, tampando os olhos, ao passar por um brilhante grupo de neonianos e se escondera atrás de uma yoctocabine, obrigando Mila a se comprimir contra ele, ao ver um lemuriano segurando um objeto que ele afirmava ser um sugador. − Akólouthos, sugadores são proibidos no Portal de Anaya. Ninguém, aqui, pode extrair pensamentos dos outros dessa forma! Como ele poderia estar segurando um à vista de todos? – Mila esbravejou. – Você está começando a me assustar! Por que não usamos a yoctocabine para chegarmos a essa tal sala de recuperação que você reservou? − Por que teríamos que nos separar, e não podemos fazer isso enquanto não traçarmos um plano. – ele falou saindo disfarçadamente de trás da cabine de transferência, ainda segurando Mila pela mão. − Plano? Mas que plano? Para quê? Akólouthos parou repentinamente e olhou indignado para Mila. − Como assim para quê? Será que você não se dá conta da magnitude do que está acontecendo? – e olhando em volta, ele viu uma porta branca. – Pronto, chegamos! Akólouthos soltou pela primeira vez a mão de Mila e se aproximou da porta, tocando-a com as duas mãos. Imediatamente, seu corpo começou a ser escaneado vertical, horizontal e diagonalmente, até que a porta se abriu. Ele a manteve aberta e gesticulou para que Mila entrasse. Caminhando vagarosamente ao passar pelo amigo, ela o observou com ar de desconfiança, perguntando-se se ele não estaria precisando de uma desenergização com urgência. Quando ambos estavam dentro da sala, Akólouthos fechou a porta e ativou todos os sistemas de segurança disponíveis no ambiente. Depois, tentou acionar o comunicador e vendo que estava sem nenhum sinal, desligou-o. Em seguida, obrigou Mila a fazer o mesmo que, sob muita reclamação, entregou seu aparelho a Akólouthos. − Muito bem. Finalmente chegamos! E então? Como foi o treinamento? Eu quero saber de tudo nos mínimos detalhes.

Akólouthos sentou-se na cama que havia no meio da sala e olhava para Mila com ansiedade, balançando as pernas penduradas no ar e sorrindo com as sobrancelhas erguidas. Mila retribuiu o olhar com estupefação, pois não tinha a menor ideia do que ele estava falando. Achando que o amigo estava sofrendo de algum problema energético, ela se aproximou dele segurando suas mãos e olhando bem dentro de seus olhos. − O que será que te deixou assim? Eu vou te ajudar, mas você precisará colaborar. Acho que um período de férias te faria bem. – ela soltou as mãos dele e andou um poucou pela sala. – Já sei! Que tal ir para Olympius? Com todas aquelas montanhas e rios e aquela bebida energética maravilhosa que existe por lá... − Mila! – Akólouthos pulara da cama e olhava interrogativamente para a amiga. – Não precisa desconversar. Não importa o que tenham dito a você no treinamento, eu também fui convocado, lembra? E nenhuma informação é capaz de vazar desta sala. Por que não me diz logo como foi? Você conheceu Mestre Carama pessoalmente? Ele deu o curso completo ou só uma parte? Mas Mila não conseguia responder a nenhuma das perguntas de Akólouthos. Continuava a olhá-lo com perplexidade. − Eu não faço a menor ideia do que você está dizendo Akólouthos. Curso? Mestre Carama? Pela grandeza da Fonte Original, o que é que deu em você? − Como assim, Mila? Como assim, “o que é que deu em mim”? Eu é que... E então Akólouthos parou de falar repentinamente. Caminhou em volta da amiga observando-a detalhadamente. Fixou o olhar no dela e, só então, se deu conta do que estava acontecendo ali. − O que foi agora? – ela perguntou. – Por que está me olhando desta forma? − Quando foi a última vez que nos vimos? – Akólouthos perguntou em tom de interrogatório. − Quando foi a última vez que nos vimos? – Mila repetiu a pergunta de Akólouthos. − Sim, quando foi? – ele insistiu. − Ah, sei lá. Deixa eu pensar... – ela se concentrou. – Já sei! No dia em que eu fui à sua casa e conversamos sobre o Valente e a necessidade dele evoluir e... − ... e o que mais? – ele incentivou-a. − Não lembro de mais nada. Acho que foi só isso. – ela concluiu. − Interessante...

Akólouthos coçou a cabeça intrigado. Pensou se deveria fazer o que estava prestes a fazer. Perguntou-se se não era melhor deixar as coisas como estavam, pois poderia colocar em risco algo do qual não tinha a noção do tamanho. Além de comprometer sua própria participação. Mila continuava a olhá-lo sem entender absolutamente nada. Percebia que o amigo estava mais calmo, mas ainda achava seu comportamento estranho e sem sentido. − Akólouthos... – Mila queria uma explicação. − O que você fez o dia inteiro? – ele a interrompeu. − Trabalhei. – ela respondeu sem pensar. − E por que foi me procurar na Letras e Acessórios Astrais? − Porque combinamos de nos encontrar, ora. − Para quê? – ele a encarou e viu que a resposta já não estava tão clara para ela. − Para... ora, nós marcamos este encontro para... Mila olhava para Akólouthos esperando que ele a ajudasse a se lembrar, mas o amigo apenas sorria como se soubesse o motivo pelo qual ela esquecera o objetivo do encontro. Ela caminhou pela sala em silêncio e após alguns instantes olhou para ele estarrecida. − Eu não sei. Não consigo me lembrar. Apenas saí do trabalho e fui direto à loja porque sabia que tínhamos um encontro. Nem ao menos consigo me lembrar quando foi que marcamos isso. − Mila, você não foi trabalhar hoje. – Akólouthos precisava convencê-la da verdade. − É claro que fui! − Não, você não foi. – ele insistiu. – Acho que estamos envolvidos em algo muito importante. Akólouthos resolveu explicar à Mila tudo desde o início. A mensagem que recebera com a recomendação de que fosse eliminada em seguida. A chegada dela à sua casa e a confissão de que também recebera a mesma mensagem. Esclareceu que os dois haviam combinado aquele encontro pois o treinamento de Mila aconteceria primeiro que o dele e que, então, ela poderia dizer-lhe como havia sido. E como eles sabiam que o treinamento era sigiloso, a própria Mila sugerira que a conversa acontecesse em uma sala de recuperação, para garantir a segurança de tudo que falassem. A princípio Mila achou que o amigo realmente estava fora de si, mas à medida que tentava se lembrar de como havia sido seu dia, percebia que sua

lembrança estava nebulosa, tudo era vago e incerto, parecendo que aquele dia acontecera há muito tempo. − Mas, então, você está me dizendo que apagaram minha lembrança? – ela perguntou incrédula. − De forma alguma. Para que iriam te dar um treinamento para apagá-lo em seguida? Ele está aí, só que foi camuflado. Deve haver algo que irá despertá-lo em você, no momento certo, lógico. – Akólouthos concluiu com sabedoria. − Mas se isso for verdade, e estou considerando que seja, pois é uma justificativa plausível para o seu comportamento, acontecerá o mesmo com você, correto? − Creio que sim. – ele considerou. – Hoje são 34 de Sila, o que significa que meu treinamento é daqui a quatro dias. − E o que iremos fazer? − Esperar... Mila e Akólouthos aproveitaram a reserva da sala de recuperação e continuaram a conversar sobre qual seria o conteúdo do treinamento. Fizeram várias tentativas de adivinhação, mas nenhuma teoria parecia sólida o suficiente. No entanto, concordaram que Mila não faria absolutamente nada para tentar trazer à tona sua lembrança, pois ela poderia expor informações sigilosas e eles seriam os responsáveis por isso. Ao saírem da sala, ambos estavam exaustos de tanto pensar. Combinaram que, dessa vez, Mila faria a reserva da sala para o dia 38, após o treinamento de Akólouthos, que escreveu um bilhete de próprio punho pedindo a si mesmo para acreditar em tudo que Mila dissesse. Akólouthos resolveu passar na Letras e Acessórios Astrais para se desculpar com os colegas antes de ir para casa, mas não pensava em dar nenhuma justificativa para o seu comportamento, pois não podia dizer a verdade e sua cota de mentiras já havia se esgotado ao fazer a reserva da sala de recuperação. Ao entrar na loja, sua colega de trabalho Homa Gelisah correu para a prateleira dos lançamentos e se posicionou de forma a impedir que Akólouthos se aproximasse dela. Mas ele se limitou a cumprimentá-la pedindo-lhe desculpas pelo estranho comportamento que teve durante o dia. − É só isso? – perguntou Homa. − Só. – Akólouthos respondeu com um sorriso amarelo. − Você não vai me dizer o porquê do seu comportamento esquisito?

− Desculpe Homa, mas não posso. O que importa é que já passou e que não acontecerá novamente. − Está bem, então. Assim eu espero. – e Homa se despediu de Akólouthos sem sair de perto da prateleira dos lançamentos. – Até amanhã. − Até amanhã, Homa. Akólouthos e Mila seguiram em direção à Estação Oeste, onde pegariam o transporte para o Anexo dos Condomínios Residenciais. Para evitar pensarem no assunto do treinamento, resolveram ir conversando sobre coisas triviais. Akólouthos falou dos últimos lançamentos que estavam em exposição na Letras e Acessórios Astrais e da nova versão do Lecterus que agora permitia que o leitor participasse da história como um dos personagens. − Legal! – comemorou Mila, adepta do aplicativo. – E você já testou? − Para ser sincero, não. Eu ainda prefiro o bom e velho livro. – Akólouthos respondeu sem nenhum constrangimento. − Ah..., mas você sabe como funciona a nova versão? E se acontecer do personagem sair no meio da história? − Nesse caso, você será apenas um observador dentro da história, como era na versão anterior. − Fabuloso! Teve alteração também para as publicações de ensinamento? − Sim. As publicações de ensinamento estão muito legais. Pelo que sei, a nova versão tem mais opções para o ambiente de aprendizagem. − Eu sempre escolhia os jardins da Colônia Provisória. São tão bonitos. E que mais? − Tem instrutores diferentes também. − Só isso? – Mila achou pouca inovação nesse sentido. − Não. A nova versão ampliou a distância para os trabalhos em grupo. Entramos no mesmo ambiente mesmo que estejamos em planetas diferentes. O alcance é incrível!. Além disso, – Akólouthos emendou sem dar chance à Mila de comentar. – se você não tiver com quem estudar em parceria, você pode escolher um dos alunos do programa. − Não vejo a hora de migrar para a nova versão! Mila e Akólouthos estenderam a conversa por toda a viagem. Falavam animadamente sobre diversos assuntos e esqueceram momentaneamente o mistério do treinamento e o envolvimento de Mestre Carama nele. Quando chegaram ao Anexo dos Condomínios, Akólouthos convidou Mila para conversarem um pouco mais sobre

a evolução de Valente e ela concordou mas, antes, passaria em casa para buscar algumas publicações sobre o tema. Akólouthos chegou ao portão de casa e Mila seguiu caminho, pois morava duas ruas depois, mas antes que pudesse abrir a porta, escutou a voz de Lui Mandrós chamando pelo seu nome. − Oi, Akólouthos, chegou tarde hoje, hein? Foi passear com a sua amiga? Akólouthos se virou sorridente, não se incomodava com a bisbilhotice de Lui. Na verdade, sentia-se sensibilizado por ele, pois sabia que era questão de tempo Lui perder a casa e ser despejado do Anexo. − E aí, Lui, tudo bem? Como foi sua audiência para conseguir crédito? − Ah, foi um desastre! Nunca fui tão humilhado. − É mesmo Lui? Eu sinto muito por você. Se eu puder ajudá-lo de alguma forma – mas algo dizia a Akólouthos que já não havia mais chance de Lui ser ajudado por ninguém. − Eu bem que tentei contar com a sua ajuda Akólouthos. Quando eles me negaram o crédito, eu me ofereci para quitar minha dívida com outros recursos, mas esse bando de abutres do Setor de Crédito e Débito de Bônus de Energia simplesmente não me deu ouvidos! − Você ia quitar sua dívida? – Akólouthos perguntou surpreso. − Claro! Sabendo que eu podia contar com a sua ajuda, eu ia pedir que me emprestasse os bônus necessários para efetuar o pagamento. − Ah... − Mas você acha que os abutres me ouviram? Claro que não! Disseram que eu já havia pego bônus emprestado com você e que meu crédito estava estourado, então, arrasaram comigo... – Lui começou a chorar sacodindo a barriga parcialmente a mostra. − Eu sinto muito por você Lui. – Akólouthos não sabia o que dizer. − É, eu sei que sente, você é um bom rapaz e sei que me ajudaria de bom grado. – Lui secou as lágrimas e seu olhar voltou a ser de raiva. – Agora, eu terei que me apresentar ao Setor de Aprimoramento e Evolução! − Uau! Você vai ter que... − ... nascer de novo! Você acredita nisso? – Lui bufava e cuspia enquanto falava. − Puxa Lui, nem sei o que dizer mesmo. − Não precisa dizer nada agora. Eu vou tentar uma apelação e, se conseguir, precisarei de testemunhas que digam que eu não preciso disso. Se eles querem me

tirar do Anexo dos Condomínios, ótimo! Mas daí a quererem que eu vá para algum planetinha sofrer mais do que já sofro aqui, isso já é muita desconsideração! Em seguida, para alívio de Akólouthos, Lui Mandrós lhe deu as costas e caminhou a passos firmes em direção à própria casa. – Ufa! Ainda bem que ele não quis saber qual a minha opinião sobre ele precisar ou não nascer de novo. Se eu disser mais uma mentira, eu mesmo terei que passar por esse processo. – Akólouthos disse a si mesmo, finalmente, entrando em casa e sendo recebido pelas latidas eufóricas de Valente. − E, então, meu amiguinho? Pronto para ser um chenevolu? Mas Valente, ao ouvir isso, correu para se esconder sob uma das poltronas. − Ok. Eu não preciso consultar nenhum manual para saber que isso quer dizer “não”. Mila entrou sem bater e vendo Akólouthos de quatro no meio da sala procurando por Valente, se sentiu na obrigação de comentar. − Pensei que nós íamos tratar da evolução de Valente e não da sua regressão. Ambos começaram a rir e Akólouthos explicou porquê Valente se refugiara embaixo da poltrona. − Bem, se você está dizendo que ele entende o que é um chenevolu, antes de se tornar um, quem sou eu para te contrariar. – Mila se jogou no divã e Akólouthos desistiu de pegar Valente sob a poltrona, sentando-se na própria. − Veja, eu trouxe meu Lecterus. É a versão antiga, mas é melhor do que nada. Mila entregou a Akólouthos uma faixa bem fina e de material maleável que ele colocou em torno da cabeça. − Você tem que escolher o que quer antes de colocá-lo. – Mila esclareceu. − E o que você tem aqui? – ele perguntou. − Muita coisa. Toma. – ela estendeu a mão para lhe entregar um pequeno controle. – Com isso você pode ver a relação de todos os arquivos e pesquisar neles. Tem um assistente virtual. − Acho que você vai gostar de saber que na nova versão o assistente virtual vem integrado ao Lecterus. Não é necessário controle, nem escolher antes. Ah, e já ia esquecendo de mencionar que não tem mais a faixa. – ele disse displicente já imaginando a reação da amiga. − Não tem controle e não tem faixa? E como funciona, então? – Mila perguntou surpresa porque a tecnologia no Portal de Anaya era muito conservadora em relação a outros pontos evoluídos do universo.

− Agora, é apenas um adesivo que você cola atrás da orelha. – Akólouthos comentou enquanto tirava a faixa da cabeça e a devolvia junto com o controle à Mila. − Caramba, só um adesivo?! – e reparando no gesto de Akólouthos – Ué, você não vai usá-lo? − Agora não. Faremos isso daqui a pouco. Primeiro, vamos conversar sobre o que você acha. − O que “eu” acho? – Mila não entendeu. − Sim, claro! Preciso saber se você vai mesmo ajudar na alteração genética do Valente. Quando eu for preencher o formulário, poderei indicar o seu nome? − Mas não é por isso que eu estou aqui? – Mila jogou a cabeça para trás. – Eu só espero que ele não nasça com nenhuma deficiência. − Não vai nascer. Você é muito inteligente e esforçada. Confio em você. – Akólouthos disse com sinceridade. – Tenho certeza que ele será o chenevolu mais bonito da tribo. − Um chenevolu bonito??? Ah, então, eu acho que eu vou ter errado a espécie. Novamente Mila e Akólouthos caíram na risada. Decidiram, primeiro, pesquisar todos os planetas que possuíam tribos de chenevolus. Consideraram o ambiente, a distância do Portal, as dificuldades, os predadores, a subsistência da espécie. Valente havia saído de debaixo da poltrona e os observava quieto, como se realmente entendesse que eles estavam ali decidindo o seu futuro. Não latiu uma só vez, preferindo ficar aconchegado no colo de Mila, quase adivinhando que seria ela a responsável por lhe dar uma nova forma, com a qual ele pudesse falar e expressar seus pensamentos e ideias. Os chenevolus andavam quase eretos e viviam em bandos. Eram selvagens e agressivos quando se tratava de defender seu território, mas meigos e afetuosos entre os indivíduos do grupo. Akólouthos e Mila perderam a noção do tempo e ficaram horas elaborando um programa evolutivo para Valente, que esperavam que fosse aprovado. Quando concluíram o trabalho, Mila pegou seu Lecterus e já se preparava para ir embora quando lançou ao amigo um olhar inquiridor. − Por que você está me olhando assim? – Akólouthos perguntou desconfiado. − Por causa daquele outro assunto. – ela respondeu constrangida. − Hum... está tudo certo. Vamos fazer conforme combinamos. – ele comentou displicentemente. − Dia 38?

− Isso mesmo. Depois de se despedirem, Akólouthos juntou os livros espalhados pela sala e recolocou-os na estante. Teve que admitir que, apesar de ser prazeroso ler um livro folheando-o página por página, não teriam conseguido, tão rápido, montar uma proposta para a evolução de Valente sem a ajuda do Lecterus. Mas, o mais importante é que iria fazer a coisa certa, mesmo que isso lhe custasse separar-se de Valente. Nos três dias que se seguiram, ele e Mila acharam melhor não se encontrarem, deixando para depois do dia 38, a ida ao Setor Evolutivo. Ela estava em pé ao lado da porta da Letras e Acessórios Astrais quando Akólouthos chegou de uniforme. − Oi, Mila! Você por aqui? – ele perguntou surpreso. − Sim. – ela sorriu. – Você não esperava me encontrar? Akólouthos ia responder “não”, mas surpreendeu-se ao perceber que esperava pela vinda de Mila. − Na verdade, acabei de me lembrar que eu te esperava sim. Só não consigo me recordar do motivo pelo qual nós marcamos este encontro. Tem a ver com o Valente? – ele perguntou intrigado. − Não. Tem a ver com este bilhete. Mila estendeu a mão com um pequeno pedaço de papel dobrado que Akólouthos pegou desconfiado. Alternando o olhar entre Mila e o bilhete, o rapaz desdobrou-o cuidadosamente e, para sua completa estupefação, viu escrito com sua própria caligrafia a seguinte mensagem: “Preste atenção, pois foi você mesmo quem escreveu este bilhete. Neste momento, você deve estar diante da Mila. Vá com ela e acredite em tudo o que ela disser, mas não pergunte nada enquanto não chegarem ao destino.” − Você escreveu isto há quatro dias. – Mila explicou diante da expressão atônita de Akólouthos. − Eu sei. Eu estou me lembrando de quando o escrevi. − Está se lembrando? – Mila perguntou boquiaberta. − Sim, porém... − Porém, o quê? Akólouthos olhou para Mila intrigado, esperando que ela pudesse esclarecer o que estava acontecendo. − Eu não tenho a menor ideia do porquê escrevi isto...

Capítulo 16 Na aldeia das fadas
A Rainha Zerda estava sentada à cômoda, alisando suas longas orelhas diante do espelho, enquanto sua criada terminava de arrumar seus cabelos cor de areia em um penteado montado sobre sua cabeça. As mãos da criada tremiam e percebia-se o suor em sua testa. Só naquele ano, ela era a quinta criada da rainha. Todas as outras haviam sido mortas de forma cruel por terem-na desagradado em algum momento. A última, uma jovem órfã, foi decapitada em praça pública depois que uma mecha do cabelo da rainha desprendeu-se do penteado enquanto ela fazia compras em um dos mercados mais badalados de Wicnion. Além da criada, havia mais três escravos no quarto para cuidar dos enormes baús que a Rainha Zerda trouxera com seus pertences pessoais. Era a segunda vez que o Rei Rufus a convidava para uma temporada em seu castelo. Na primeira vez, o episódio com a fada, que despencara sobre a mesa durante o jantar, deixara-a profundamente irritada, mais do que o normal, levando-a a cortar a língua de uma escrava que a ajudara a se desvencilhar do vestido sujo de vinho, somente porque a infeliz criatura declarou que seria muito difícil remover a mancha escura do tecido claro. Percebendo que uma gota do suor da criada caíra sobre o dorso de sua mão, a Rainha Zerda preparava-se para determinar o castigo de sua serviçal, quando, para alívio da aterrorizada criada, a porta do quarto se abriu abruptamente surgindo a figura ruiva e de olhos amarelados do Rei Rufus. A Rainha Zerda levantou-se derrubando a criada no chão, passando por cima dela e pisando-a como se fosse um tapete, sem se importar que o salto fino de seu sapato a furasse dolorosamente. − Rei Rufus, como ousa entrar em meu quarto sem se anunciar antes? É assim que trata suas visitas, negando-lhes o direito à privacidade? E se, por um acaso, eu estive em trajes inapropriados para uma rainha ser vista em público? Considero sua postura uma ofensa e uma invasão, como se eu estivesse em meu próprio castelo! – A rainha se virou para aumentar a distância entre ela e o rei e percebeu sua criada no chão. Dirigiu-se, então, a ela, descarregando toda sua indignação com o comportamento inadequado do Rei Rufus, chutando-lhe o rosto com a ponteira de metal do seu sapato. – Levante sua inútil! O que acha que está fazendo aí no chão criatura estúpida?

A criada se arrastou sentindo o sangue quente correr-lhe do nariz e esforçando-se para sugá-lo com a própria boca, pois sabia que se a rainha visse gotas de sangue no chão, isso a deixaria ainda mais propensa a surrar-lhe. O rei, ignorando a cena, mas tentando acalmá-la para o bem dele mesmo, reverenciou-a e, de cabeça baixa, dirigiu-lhe a palavra com a voz mansa e gentil: − Rainha Zerda, peço perdão pela invasão aos seus aposentos. Reconheço minha falta de educação ao roubar-lhe a privacidade. De modo algum, eu quero que pense que este é o tratamento que dou aos meus convidados, especialmente a uma nobre e elegante dama. No entanto, é do seu conhecimento que lhe direciono os mais profundos sentimentos e que tencionava pedir-lhe em casamento durante nosso último jantar. Por esse motivo, assumo a culpa do constrangimento que lhe causei por conta daquela criatura inferior que lhe colocou em uma situação tão desagradável e lhe imploro que me dê uma chance para que eu possa me redimir. − Uma chance para se redimir? De que forma? – A rainha caminhou até a cômoda e sentou-se novamente diante dela. − No dia seguinte àquele jantar, – disse o rei erguendo-se – ao perceber sua ausência durante a refeição matinal, imaginei o tamanho de sua decepção e que, possivelmente, teria regressado ao seu reino sem me dar sequer um adeus. − Foi exatamente o que eu fiz. – ela disse com desprezo. − Por isso, convidei-a novamente, para que pudéssemos ter uma nova chance. Aceite os presentes que escolhi, pessoalmente, para lhe agradar. Veja! O rei deu um passo para o lado e inclinou-se para fora do quarto, dando passagem a alguns guardas que traziam dez escravos seminus, acorrentados, entre si, pelos pés e pelas mãos. A Rainha Zerda não se deu ao trabalho de examiná-los e limitou-se a dizer: − Escravos? Eu já os tenho aos montes, não preciso de mais. – e gesticulou com a mão para os guardas, ordenando-lhes que retirassem as criaturas flageladas do quarto. O chefe da guarda que liderava o grupo olhou para o Rei Rufus que, com um aceno de cabeça, concordou que eles se retirassem. Porém, a expressão no rosto do rei não era de desânimo. Aparentemente, ele já esperava que a rainha fosse desdenhar dos escravos e fez com que um criado entrasse no recinto. O criado entrou carregando uma pequena caixa brilhante sobre uma almofada cintilante.

− Uma jóia rara! Com pedras de aurita negra, extraídas das minas mais profundas. – disse o rei orgulhoso pelo presente tão incomum que mandara confeccionar exclusivamente para a ocasião. O criado ajoelhou-se diante da rainha e ofereceu-lhe a prenda. A rainha pegou a caixinha reluzente e, de dentro dela, retirou um objeto aparentemente delicado. Reparou que ele se mexia, contorcendo-se na palma de sua mão. − O que acha? – o rei perguntou percebendo o olhar de desejo da rainha. – É uma borboleta dourada, raríssima. Apesar de pequena, ela é muito mais resistente do que as outras espécies. Seu corpo é bem roliço e suas asas são indestrutíveis. − Mas... ela foi bordada viva! – os olhos da rainha faiscaram de prazer. − Sim. Cada pedra foi cravada nela usando lava derretida como liga. E tem um prendedor costurado em seu ventre para que possa usá-la como broche. − Fantástico! – a rainha não podia deixar de se extasiar ao imaginar a dor sentida pela pequenina criatura ao ser costurada e tocada pela lava. − Espero, com isso, que fique em meu castelo... como minha rainha. A Rainha Zerda prendeu o broche vivo em seu vestido e debruçou-se em direção ao espelho para apreciar o delicado mimo. Alisava as asas da borboleta com suas unhas de garra pintadas de carmim e sorria com o contorcionismo sôfrego da criaturinha. Depois de alguns instantes, ela se levantou e caminhou em direção ao rei. Alisou seu rosto com o dorso da mão e falou bem próxima a ele. − Eu devo reconhecer que o senhor foi bastante original em seu presente. Não quero parecer ingrata diante de tamanha demonstração de comprometimento para me agradar, mas... – ela fez um olhar triste e um biquinho com os lábios. − ... mas? – o rei perguntou ansioso. − ... tenho certeza de que o senhor poderá preparar um novo jantar e presentear-me com outra daquelas criaturinhas voadoras. Isso seria a realização de um sonho infantil. E eu não seria capaz de negar nada àquele que me concedesse algo tão significativo. A rainha virou-se de costas para o rei deixando que ele sentisse o perfume de sua nuca. − Se é assim, considere-se minha rainha, pois tenho um exército de lobos cercando a aldeia das fadas. O rei tentou abraçar-lhe a cintura, mas a rainha foi mais rápida e rodopiou para fora dos braços musculosos e peludos do Rei Rufus. Seus olhos negros e redondos

reluziram, ressaltando os traços genéticos da raposa que trazia em sua árvore genealógica. − E quando capturá-la eu poderei fazer o que quiser com ela? – a rainha foi invadida por uma indescritível onda de prazer. − É claro! Na verdade, você poderá fazer o que quiser com elas, pois colocarei várias aos seus pés. Considere-as seu presente pré-nupcial. A rainha deixou escapar um pequeno grito de euforia. Estava em êxtase. Poderia se vingar da humilhação que sofrera, torturando uma a uma cada fada asquerosa. − Sendo assim, marque a data do jantar, mas somente depois de capturá-las. O rei fez uma reverência com uma das mãos e se retirou dos aposentos da Rainha Zerda, seguido pelo criado que entregara o presente. A rainha caminhou até a porta e vendo os guardas com os escravos no meio do corredor, não hesitou em escorraçá-los: − O que estão esperando bando de dementes? Levem estes trastes daqui! Sumam com eles da minha frente! Andem! Metam todos numa jaula e deixem que fiquem lá até que morram de fome ou sede. Ah, e coloquem a jaula ao relento. Agora! Vão, vão! Os guardas saíram em retirada, arrastando os escravos pelas correntes que gemiam e imploravam para que fossem poupados do tortuoso fim que lhes aguardava. Mas a rainha limitou-se a gargalhar e a fechar a porta com toda força. E percebendo que seus outros três escravos estavam parados ao lado dos baús, ela não disperdiçou a oportunidade. − Seus imbecis, por que ainda não retiraram minhas coisas dos baús? Não ouviram que o rei me oferecerá outro jantar? Façam isso agora, antes que eu os coloque na mesma jaula dos animais que acabaram de sair daqui! Aterrorizados, os escravos iniciaram o esvaziamento dos baús da rainha, retirando peça por peça e acomodando-as nos diversos móveis que havia no quarto. Ver o desespero nos olhos dos escravos era mais do que um deleite para a Rainha Zerda, era um passatempo. No entanto, havia algo que a deixava ainda mais feliz: torturar criadas. A rainha olhou para o canto do quarto e lá estava sua criada, em pé, todavia encolhida. Sua perna esquerda e seu braço direito estavam com uma ferida causada pelo salto do sapato da rainha. Seu nariz, inchado, parecia quebrado e havia sangue em volta da sua boca. A Rainha Zerda apertou os olhos e sorriu macabramente, falando com a voz baixa e suave.

− Querida, você está aí? Acho que nós temos umas contas para acertar, não? – a rainha foi se aproximando da criada bem devagar. – Você deixou cair uma gota do seu suor imundo na minha mão. E nós duas sabemos que você terá que ser castigada por isso... A rainha parou diante da criada que estava prestes a desmaiar e deu mais uma gargalhada jogando a cabeça para trás. Nesse momento, o penteado da rainha desarmou cobrindo-lhe o rosto.

§
Erminea chegara cedo ao templo para iniciar os preparativos que celebrariam a primeira noite embluada do ano. O satélite surgiria sozinho no céu do leste de Wicnion, derramando seu véu violeta sobre tudo abaixo dele. A fada terminara de limpar todo o local e colocara água limpa nos vasos. Quando retirou um dos ramalhetes de flores de dentro do cesto encostado à imagem da deusa Aminah, não pode deixar de recordar sua doce Kathiah. Erminea fechou os olhos e pensou na filha amada que fora capturada enquanto colhia flores. Suas asas se eriçaram e seus olhos encheram-se d’água ao imaginar o destino trágico de sua caçula. − Você deve afastar estes pensamentos da sua mente. Eles irão contaminá-la e farão Kathiah sofrer. Erminea se virou e percebeu o contorno da Sacerdotisa que saíra de trás do altar. Sua imagem contra a claridade das chamas das velas era apenas uma sombra. Ela se ajoelhou e abaixou a cabeça. A Sacerdotisa caminhou até ela e pousou uma das mãos sobre seu ombro. − Levante-se querida. Venha comigo. Prie era a Sacerdotisa da Aldeia das Fadas e Erminea era sua primeira auxiliar. Ela tinha uma grande responsabilidade, que era manter o ânimo da aldeia diante de tanta desgraça que vinha acontecendo em Wicnion. Em especial, depois que souberam da morte de Kathiah. − Sente-se aqui. – a Sacerdotisa apontou para um degrau na subida do altar, já se acomodando nele. Erminea, ainda segurando o ramalhete, sentou-se ao lado de Prie. Tinha o coração pesado. − Desculpe-me Sacerdotisa, mas estas flores me lembraram o motivo pelo qual perdi minha filhinha.

Prie retirou delicadamente as flores das mãos de Erminea e pousou-as no degrau, ao lado delas. − Tenha a certeza de que entendo a sua dor. Mas não foram as flores que levaram Kathiah. Foi a falta de amor no coração dos seres de Wicnion que fez isso. Não se esqueça de que a própria deusa Aminah veio lhe dizer em sonho que Kathiah está bem. Erminea secou as lágrimas e assentiu com a cabeça. − A senhora tem razão. Preciso fortalecer minha alma. Esta noite, após o surgimento de Blu no céu, eu permanecerei em vigília no templo. Precisamos orar pelas que estão aqui. Aquela que for capturada não terá a menor chance de sobreviver, sem falar das atrocidades às quais será submetida. − Isso mesmo Erminea, a única coisa que nos resta é a oração e o recolhimento. Precisamos acreditar que a ajuda virá. A Sacerdotisa e sua auxiliar abraçaram-se sentadas no degrau do altar. Lentamente a iluminação do templo foi se acentuando, mesmo que ainda não tivessem acendido os tocheiros. Erminea foi a primeira a se levantar. Com os olhos arregalados, atirou-se ao chão sem acreditar no que via. Prie, acostumada a receber as mensagens da deusa em sonhos, ajoelhara-se diante da imagem translúcida de Aminah, que flutuava a pequena altura do chão do templo. − Queridas irmãs, levantem-se. Não me vejam como sua deusa, mas como uma amiga que as ama e que estará sempre tentando ajudá-las neste mundo cheio de dor e de tristeza. Vacilantes, Prie e Erminea se ergueram, mas ainda mantinham as cabeças baixas. − Minhas adoradas, é preciso encher o coração de bons sentimentos. Aprender a rir apesar da dor. Amar, apesar da maldade. Deixar que a alegria preencha todas as lacunas do coração, pois são dois os remédios da alma: o amor e a esperança. E esses serão os bálsamos necessários para que enfrentem o que está por vir. Sei que a coragem e a fé não lhes faltam ao espírito. Fiquem alertas, pois o mal ronda a aldeia e vocês vivenciarão uma grande provação, mas não percam o ânimo. Em breve, Wicnion passará por uma profunda modificação e se renovará como todo o resto do Universo. − Mas como podemos amar a quem nos faz tanto mal? – Erminea perguntou sentindo-se fraca diante da dor da perda.

− O amor é treino e torna-se sincero quando acreditamos nele. – Aminah respondeu bondosamente. − Deusa Aminah... – a voz da Sacerdotisa soou como um sussurro. − Prie... – Aminah deu um abraço de luz na Sacerdotisa, pois não podia tocá-la fisicamente. – Você tem a responsabilidade de incentivar as boas ações na aldeia. – e virando-se para Erminea, Aminah dirigiu-lhe um sorriso amoroso. – Veja quem veio lhe visitar. Incrédula, Erminea viu se formar a imagem de sua pequena Kathiah ao lado da deusa. Sem se conter, ela deu um grito de felicidade e avançou para lhe apertar em seus braços, mas foi detida pela Sacerdotisa. − Não Erminea, você não pode tocá-la! Ciente de que a imagem que via era formada de pura luz, sabia que ela se esvairia ao seu toque, e não desejava ver sua filha desaparecer diante de seus olhos sem antes lhe falar. − Kathiah, meu amor! Minha querida e adorada filhinha. Que nossa deusa seja louvada! – e se prostrou novamente diante de Aminah. − Mamãe, levante-se. – Kathia pediu docemente. – Eu fui abençoada pelo amor da Fonte Original. E assim, fui de encontro a Aminah, aquela a quem sempre aprendi a adorar como deusa e que hoje amo como a uma amiga. − Mas ela é uma pher... – Erminea falou aturdida sem olhar para Aminah, que se mantinha ao lado da pequena fada. − E nós um dia também seremos. – Kathia respondeu com um sorriso, segurando a mão de Aminah. − Eu não entendo. – Erminea estava confusa. − O que ela quer dizer é que nossa espécie caminha para a evolução e não há outro futuro para as fadas que não seja o de se tornar uma pher, mas, antes, tenho certeza que muitas provações se farão necessárias. – Prie amparou sua auxiliar, que agora olhava para a filha como se esta também fosse uma deusa. − Você está certa Prie. – disse Aminah, dirigindo-se à Sacerdotisa. – Um dia, seus espíritos habitarão a mesma forma que a minha, quando a evolução de sua espécie der mais um passo em direção à Fonte Original. Nesse momento, um vento soprou forte dentro do templo, apagando parte das chamas das velas que iluminavam o altar. Como se fosse um aviso, as fadas arrepiaram-se e sentiram uma angústia inexplicada.

− O que foi isso? – Erminea perguntou assustada. − Isso foi um aviso do mundo invisível. É preciso que nos apressemos. Gostaríamos que nossa visita fosse apenas para a troca de afeto, como fazem os bons amigos, mas não é este o caso. – o semblante de Aminah ficou ligeiramente contraído e Kathiah não estava mais sorrindo. – Vocês correm grande perigo e precisam abandonar a aldeia imediatamente. − Abandonar a aldeia? – a Sacerdotisa perguntou preocupada. – Mas para onde iremos? − E se formos capturadas? – Erminea olhou para a imagem etérea de sua filha. − Mamãe, não há como evitar. Toda a aldeia já está cercada. – Kathiah disse com tristeza. – Enquanto conversamos, o exército dos lobos caminha em nossa direção. Não há tempo para considerações, apenas para ação. Vocês precisam reunir todas as fadas na Praça do Poço. Voem juntas e, a exemplo das aves quando migram, formem grupos em V para que possam ir o mais longe possível. A Sacerdotisa tentava organizar as informações que recebia para que sua ação minimizasse o quanto fosse possível a tragédia que estava para ocorrer com seu povo. − Há tempos não damos longos voos, pois deixaram de ser seguros em Wicnion. Não sei quantas fadas serão capazes de resistir a uma longa distância. – Prie considerou. – As mais velhas, com certeza, sucumbirão. − A ajuda virá da aldeia dos dragões e é para lá que devem ir. Mas vocês não terão tempo de esperar por eles. – Aminah declarou enfaticamente. − Dos dragões? – Prie e Erminea perguntaram desconfiadas. – Por que eles nos ajudariam? − Logo vocês entenderão. Vão agora! Não olhem para trás e não tentem levar nada que possa lhes atrasar a viagem. Estaremos orando por vocês. As imagens da pher e de Kathiah começaram a se esvair diante das fadas, que expressavam medo nos semblantes. Prie, mais resignada, abaixou os olhos e orou à Fonte Original em agradecimento pela mensagem enviada através de Aminah, que ainda considerava sua deusa, e pela pequena fada, morta pela crueldade advinda da ignorância. Foi por puro instinto que Erminea gritou o nome da filha e avançou para o lugar onde antes estava seu espírito flutuante, mas seus braços encontraram apenas o vazio. Ambas haviam desaparecido da mesma forma como surgiram. A fada caiu de joelhos no chão do templo e cobrindo o rosto com as mãos, chorava mais pela partida

de sua caçula do que pelos fatos que estavam prestes a acontecer. – Havia tanta coisa a ser dita... se ao menos tivéssemos mais tempo. Prie, sensível a dor de sua auxiliar, mas ciente de seu dever como Sacerdotisa da Aldeia das Fadas, colocou a mão sobre os cabelos de Erminea, tentando transmitirlhe amor e coragem. − Erminea, precisamos ir, agora! A fada secou os olhos com as pontas das asas e concordou com um aceno de cabeça. Já refeita emocionalmente, levantou-se e caminhou apressadamente ao lado de Prie rumo à saída do templo. Seguiram por trajetos distintos em direção à Praça do Poço, convocando todas as fadas com as quais cruzavam pelo caminho, pedindo-lhes que repassassem a informação. Pouco antes de Blu surgir no céu, todas as fadas estavam reunidas em torno do poço que era a fonte principal de água da aldeia. Trocavam olhares curiosos e desconfiados entre si, tentando imaginar o que era tão importante para interromper o ritual sagrado em comemoração ao surgimento do satélite. Percebendo a impaciência e o nervosismo das fadas, Prie ergueu-se do solo batendo suavemente suas asas, tentando manter-se no alto somente o suficiente para que todas a vissem. − Queridas, sei que estão se perguntando o motivo pelo qual foram convocadas a reunirem-se aqui, justamente hoje, um dia tão esperado e, normalmente, feliz para nossa aldeia. Mas, acreditem, o que tenho a lhes dizer é muito grave e precisaremos abrir mão de coisas que julgamos valiosas para nós. – a Sacerdotisa fez uma pausa e as fadas entreolharam-se. – Há pouco, eu estava no templo com Erminea, quando fomos abençoadas por uma, ou melhor, duas visitas incomuns e inesperadas. A própria deusa Aminah veio ao templo nos falar. E sem que Prie pudesse continuar, as fadas explodiram em burburinhos. Algumas prostraram-se em terra, outras expressaram ceticismo e houve quem achasse que a Sacerdotisa estava delirando. Imediatamente, Erminea bateu suas asas e colocou-se ao lado de Prie. − Esperem, esperem. Ouçam o que nossa Sacerdotisa tem a dizer. Eu estava lá. Eu a vi. E minha querida Kathiah estava ao seu lado. Ao ouvirem a declaração da primeira auxiliar da Sacerdotisa, as fadas que estavam prostradas ao chão ergueram-se desconfiadas. O silêncio desceu sobre a praça e todas esperavam para saber o que significava aquilo tudo.

− Fadas, a nossa deusa veio até nós, e como prova de seu amor absoluto, trouxe consigo a doce Kathiah. No entanto, sua presença no templo foi para nos fazer um apelo. Precisamos deixar imediatamente a Aldeia das Fadas! Com o discurso de Prie, o silêncio foi rompido por protestos e

questionamentos. As outras auxiliares queriam saber porque a deusa não havia aparecido para elas também. Prie e Erminea tentavam explicar a mensagem que haviam recebido, mas a balbúrdia aumentava entre as fadas. Havia choro, revolta, orações e lamúrias, mas poucas se dirigiam às suas moradias, a maioria em troncos ocos de árvores, para providenciar o necessário para a viagem. E em meio ao caos na aldeia, Blu foi surgindo lentamente no céu, derramando uma tonalidade violeta sobre suas asas e rostos. Diante do caos, o satélite havia sido esquecido, até que uma fada, de compridos cabelos negros e asas maiores que as de Prie e Erminea, ergueu-se do solo gritando com toda a força: − Calem-se! Calem-se! – ela voava sobre as outras com voos rasteiros, exigindo que cumprissem sua ordem. – Andem, fiquem quietas e ouçam. Logo, uma a uma, as fadas foram silenciando e, à medida que calavam, tornava-se mais claro o som que se aproximava confirmando a declaração da Sacerdotisa e de sua primeira auxiliar. O uivo dos lobos cortava a noite e, só então, perceberam Blu radiante em um céu salpicado de estrelas. Do meio das árvores, surgiram lobos gigantes exibindo dentes afiados e garras prontas para o ataque. Sem tempo para reagirem, algumas fadas foram abatidas antes que pudessem abrir as asas. Aquelas que conseguiam erguer-se do solo eram atacadas pelo alto, pois alguns lobos haviam subido às copas das grandes árvores e lançavam-se sobre as fadas, derrubando-as no chão e arrancando suas asas a dentadas. Sem nada poder fazer, Aminah, sozinha, assistia ao horrendo espetáculo, enviando mensagem mental a seu querido amigo Dracon para que chegasse logo, ou nenhuma fada sobreviveria ao ataque. Por cautela, havia obrigado Kathiah a partir, pois sabia que ela não manteria sua fé se precenciasse àquelas cenas de horror. Sob o comando do General Signatus, o exército dos lobos atacava vorazmente. As fadas, pegas desprevenidas, buscavam se defender com pedras e galhos. Poucas tiveram a chance de buscar suas lanças e dardos umedecidos com ervas letais. − Capturem algumas vivas e intactas, matem todas as outras! – o general gritava para seu exército, deliciando-se com o espetáculo enquanto, ele mesmo, cortava com sua espada as asas de uma fada que passara voando sobre sua cabeça, para transpassar-lhe o peito tão logo tocara o chão.

Em meio à chacina, algumas fadas escondiam-se em suas tocas que, nem sempre, eram identificadas pelos lobos. Outras, queriam fugir, mas não poderiam fazêlo sem tentar ajudar as que ficavam para trás, e acabavam sendo mortas. Um terço da aldeia já havia sido dizimado quando o General Signatus ordenou que aprisionassem cinco fadas vivas e sem ferimentos dentro de uma jaula colocada ao lado do poço. Quatro lobos transportavam a gaiola gigante com dificuldade quando uma língua de fogo cortou o céu embluado, fazendo com que os lobos chamuscados largassem a jaula flamejante e corressem em disparada. A essa língua de fogo, seguiram-se outras labaredas no céu que só atingiam aos soldados do exército dos lobos. − Vejam, os dragões! – gritou Prie, com o rosto e as asas sujos de sangue, ostentando um cajado de ponta afiada, com o qual conseguiu abater alguns lobos atravessando-lhes a garganta. – Eles vieram nos ajudar, como disse a deusa Aminah! A luta seguiu entre lobos e dragões. Dentes e garras contra fogo e lanças. Blu já estava próximo de desaparecer do céu quando o General Signatus deu ordem ao seu exército de bater em retirada. Fadas e dragões comemoraram, mas a dor da violência sofrida e das perdas não permitiu que vibrassem o quanto gostariam. Não teriam tempo para enterrar seus mortos, pois era preciso buscarem abrigo antes que o exército dos lobos se recuperasse ou recebesse reforços. Um bando maltrapilho de fadas com asas decepadas e dragões com línguas mutiladas, seguia em silêncio, embrenhado em meio à floresta densa. Não havia disposição para voarem. Não teriam como carregar todos os feridos. Além disso, a aldeia dos dragões estava muito distante e precisariam pernoitar por cinco ou seis noites noites. Do alto, não conseguiriam identificar abrigo seguro. À frente do grupo, Prie caminhava em silêncio ao lado de Moghes, o líder dos dragões. − Achei que essa noite não fosse mais acabar. – Aminah comentou invisível aos olhos do grupo. – Não sei o que teria sido delas se o seu povo não tivesse vindo em auxílio. − Lamento não termos chegado antes, mas foi difícil convencê-los de que a aliança era necessária. – Dracon segurou a mão de Aminah e caminhava ao seu lado tentando, com o gesto, dividir a dor que ela sentia. – Isso está perto do fim. − Será?

§

− Seus incompetentes!! – o Rei Rufus revirava os olhos rajados de vermelho e espumava pelos cantos da boca. – Não conseguiram capturar uma única fada! Serão todos chibatados e jogados aos wormits para que comam suas entranhas ainda vivos! − Meu senhor, se me permite... – o General Signatus se dirigia ao rei com cautela, temendo pela própria vida. − General Signatus, espero que compreenda que se encontra em uma situação delicada. – o olhar do rei penetrou-lhe a alma fazendo-o arrepiar-se. – Só não o coloco com os demais, porque de nada me adianta que morra agora, ainda preciso dos seus serviços. Mas não irei tolerar outro fracasso. − Compreendo senhor, mas nunca imaginamos que os dragões fossem interferir a favor das fadas. – o general buscou justificar a derrota inesperada. − É certo, também não compreendo o que pretendem com esse auxílio. Estão se metendo em assunto que não lhes diz respeito e não deixarei isso passar impune. O general ouvia o rei falar em voz alta, como se conversasse consigo mesmo e não se atrevia a mais nenhum comentário, esperando não ser, ele mesmo, chibatado e jogado aos wormits, os pequenos vermes que entravam pelos orifícios do indivíduo e iam lhe comendo as entranhas vagarosamente. De repente, como se despertasse de um transe, o rei bradou ao general. − Quero dez de seus soldados para serem punidos durante o jantar com a Rainha Zerda. Quero que ela mesma conduza o castigo ao qual deverão ser submetidos e cuide-se para não ser o próximo! Não sei se ela os jogará aos wormits, mas a crueldade de minha amada parecerá um suave carinho diante do que farei, caso ela recuse meu pedido de casamento por não oferecer-lhe o presente prometido. E com sangue nos olhos, o Rei Rufus deu as costas ao General Signatus, deixando-lhe com a inglória tarefa de escolher dez de seus soldados para serem sacrificados durante o jantar. – Não se castiga soldados apenas por prazer, isso pode ser perigoso demais. – pensou bastante preocupado o general.

Capítulo 17 Uma aluna aplicada
Julianna abriu os olhos assustada. Seu corpo todo tremia e o suor encharcava sua nuca escorrendo pelas costas. O coração disparado e a respiração ofegante lhe impediam de emitir qualquer som além de gemidos. Com muito esforço conseguiu erguer-se da cama e sentar-se, fechando os olhos novamente. Aos poucos foi se acalmando e retomando o controle sobre si mesma. Esticou o braço e tateou a parede, no entanto, ao tocá-la, lembrou-se de onde estava e apenas verbalizou suavemente: – Luz. – e o ambiente tornou-se claro, como se o Sol entrasse pelas janelas inexistentes de seu minúsculo quarto. − Não entendo... estou morta, mas sinto-me mais viva do que nunca. Meu coração bate e meus pulmões parecem funcionar normalmente. Tenho fome, sede e sono. Sem falar destes pesadelos que me assombram diariamente. – ela olhou para o teto e perguntou sem saber exatamente para quem – Onde está o descanso eterno? Então, chutou para fora da cama o lençol que estava aos seus pés e olhou em volta. Desde que se separara de Zogham fora levada para um pequeno dormitório individual. Não podia precisar há quanto tempo estava ali, pois ainda não estava familiarizada com o calendário usado na Colônia Provisória, o mesmo do Portal de Anaya, que tinha duração bem diferente do da Terra, apesar de ser dividido em dias, semanas, meses e anos também. Sua mesinha de cabeceira estava repleta de livros, assim como toda a extensão da parede contrária à cama. Sua co-Orientadora, Myrthila Granjem, ocupava o quarto ao lado. A mulher aparentava ter uns 100 anos, mas tinha os olhos acesos e uma energia de dar inveja. Era ela quem lhe trazia comida, água e roupas limpas. Falava com voz mansa, mas era implacável com os estudos. Se passava uma lição, exigia a comprovação de que aquele conhecimento havia sido internalizado, caso contrário, aplicava punições disfarçadas. − Minha fofinha, você não sabe que dia é hoje? Mas já está com este calendário há uma semana! Ah, que pena! Eu esperava que você pudesse fazer o passeio turístico pela colônia no próximo dia 49, mas só depois de aprender a ver as horas e contar os dias. − Não é que eu não saiba que dia é hoje, eu apenas não consigo fazer a conversão.

Mas Myrthila Granjem sempre dava às costas depois de fazer uma cobrança. Saía balançando a cabeça negativamente, deixando Julianna sentir-se a mais burra das criaturas. − Mas se ela pensa que eu vou desistir, está muito enganada! Julianna ajoelhou-se na cama e pegou o calendário que estava pendurado na parede ao lado dela. Segurou-o com os braços estendidos e recitou o nome dos meses em voz alta: − Bali, Mali, Tala, Geli, Nila, Tula, Sila, Gala, Rela, Pala, Vula, Zela, Xali e Fuli. Muito bem, são 14 meses e eu sei que estamos em Sila. Todos os meses têm 55 dias e cada mês tem, aproximadamente, oito semanas. A semana é igual à da Terra, com sete dias. Os dias da semana são Lumo, Ĉielo, Tero, Akvo, Vivo, Esti e Paco. Já as horas... Ela pendurou o calendário de volta e pegou um objeto sobre uma das várias pilhas de livros espalhadas pelo quarto. Examinou-o detalhadamente, soltando um longo suspiro. – Este é o relógio mais estranho que eu já vi em minha vida. Eu nunca vou aprender a ver as horas neste lugar! – E jogou-o em cima da cama. Com o impacto, o objeto quicou em direção ao chão. Julianna soltou um grito abafado, atirando-se em direção a ele, amparando-o antes que batesse no solo. − Ufa! Foi por pouco. Era só o que faltava, ter que admitir que quebrei o relógio em um momento de raiva. Raiva da minha incompetência! Ela se acomodou no chão, encostada à cama e verificou se ele ainda estava funcionando. Percebendo que ainda fazia o tradicional barulhinho de tic-tac, continuou a analisá-lo. A peça era composta por várias partes, sobrepostas e encaixadas entre si. O centro possuía um cilindro verde, no topo do qual podia-se ler 4,74b, indicando o ano em que estavam no Portal de Anaya. Lembrou-se que ficou estupefata ao descobrir que isso equivalia há dez bilhões de anos terrestres. − Como algo pode existir há tanto tempo? – foi seu questionamento à sra. Granjem certo dia, mas ela não respondeu, apenas sorriu e foi embora, como sempre fazia. Logo abaixo havia outra sinalização, 3,38MGP, que era o total de giros do Portal de Anaya até o momento. − O Portal já girou mais de três milhões de vezes e são necessários 1.400 anos daqui, para que o Portal complete um giro. – ela tentava repetir o que já havia lido mais cedo. Enquanto Julianna buscava compreender de que forma estava estruturada a sequência de horas e minutos, os números gravados no relógio iam alterando de cor

de forma cadenciada. O cilindro estava encaixado no centro de uma peça azul em forma de heptágono que, por sua vez, estava encaixada em outro heptágono, sendo que esse era branco e nele constava o mês e o dia “Sila-42”. Em cada ponta do heptágono azul havia um ponteiro que marcava os segundos. Os sete ponteiros moviam-se ritmicamente, um após o outro, e sempre que um completava o seu percurso, o anterior retornava rapidamente ao seu ponto de origem. De cada lateral do heptágono branco saía um retângulo amarelo. Os retângulos contavam as horas, por isso, na extremidade deles havia uma numeração distribuída verticalmente, lado a lado. Eram sete retângulos ao todo, sendo que o primeiro era numerado de 11 a 17, o segundo de 21 a 27 e assim sucessivamente até o sétimo, que era numerado de 71 a 77. No momento, o 11 estava aceso, indicando a hora do dia. Intercalados aos retângulos, havia sete triângulos numerados e distribuídos da mesma forma. Eles serviam para marcar os minutos e Julianna verificou que também o 11 estava aceso. − Acho que isso quer dizer que são 11 e 11. – ela fez uma contagem rápida – Seria, então, 01h01, ahhhh, mas eles não convertem a hora! Tenho que dizer apenas que são 1111. – ela deu um grito entre os dentes. – Que forma ridícula de ver as horas! − Não é ridícula, é apenas diferente. Julianna tomou um susto. Olhou em direção à porta e viu o Diretor Ras Yerodin em pé, sorrindo para ela. − Diretor! Há quanto tempo está aí? Desculpe-me se... − Não se aflija Julianna, eu é que peço desculpas por ter aberto a porta sem bater antes. – e dando um passo para dentro do quarto. – Incomodo? − De forma alguma, por favor, entre! – ela fez menção de levantar-se. − Não se levante, não quero atrapalhar. – e fechou a porta atrás de si. – Diga-me, como andam os estudos? − Mal! Eu sequer aprendi a ver as horas! O Diretor sorriu e sentou-se na beira da cama. − Posso? – ele perguntou estendendo a mão para que Julianna lhe entregasse o relógio. − Claro. Ras Yerodin examinou o objeto com ambas as mãos. − Este é um belo relógio. Um modelo simples, mas toda a informação que você precisa está sinalizada aqui: mês, dia, ano, dia da semana, horas, minutos e

segundos. – e devolvendo-o à Julianna, perguntou-lhe com voz paternal. – Qual é exatamente a sua dúvida? Julianna tomou o relógio nas mãos e examinou-o pela milionésima vez. Percebeu todas as áreas iluminadas, inclusive o dia da semana, indicado por sete estrelas, cada uma acoplada a uma extremidade de um retângulo. A estrela contendo a letra L estava acesa. − Hojé é Lumo e são 1117 do dia 42 de sila de 4,74b. – ela respondeu pausadamente. − Perfeito! – O Diretor comemorou! – Então, por que acha que não sabe ver as horas? − Porque eu não sei o que isso significa, se é dia ou noite, se estamos no início ou no fim do ano, se é verão ou inverno... – Julianna baixou a cabeça, sentia-se derrotada antes mesmo de começar os estudos. – Se eu não entendo como funciona o tempo aqui, como entenderei o resto? Ras levantou delicadamente o rosto de Julianna e secou-lhe a lágrima que começara a escorrer pelo canto de um olho. − O tempo é relativo, não aprendeu isso na Terra? − Sim. Tem a ver com a Teoria da Relatividade, de Einstein, não é? – ela deu um meio sorriso. Ras levantou-se e deu uma enorme gargalhada. − Sim, sim, isso mesmo! Sem entender a reação do Diretor, Julianna perguntou desconfiada. − Eu disse alguma besteira? − Não, de jeito nenhum! – Ras fez questão de se explicar. – É que você me fez lembrar do meu querido amigo, como era mesmo que vocês o chamavam na Terra? Einstein? Ah, que ser incrível! − O senhor conhece Einstein? Ou melhor, Einstein conhece o senhor? – Julianna levantou-se do chão e sentou-se na cama, de pernas cruzadas, encostada à parede. − Se o conheço? Todos aqui o conhecem! O chamamos de Candal. Um grande colaborador do Portal de Anaya! – Ras disse entusiasmado. − E-ele vive aqui? – Julianna perguntou incrédula. − No momento não. Candal mudou-se para uma base próxima a uma das fronteiras do nosso Universo. Ele está tentando contato com nossos vizinhos.

− Vizinhos? Como assim? – era muita informação para ela. – Ouvi dizer por aqui que nosso Universo é finito, ao contrário do que eu aprendi na Terra. − Ah, querida, você está parcialmente certa. – Ras caminhou pelo minúsculo quarto. – Nosso Universo é finito, mas o espaço que o contém, não. Ele é infinito e abriga muitos universos organizados de formas diferentes e outros ainda vivendo no caos. Candal vem tentando contato com um desses, mas estamos esbarrando na comunicação. Há barreiras invisíveis que ainda não temos tecnologia para transpor, pois desconhecemos a lógica usada em sua organização e... Ras reparou na expressão de angústia no semblante de Julianna. − ... acho que ainda é muito cedo para você tentar entender sobre outros universos, não é mesmo? Por que não voltamos ao relógio? − Senhor Diretor, seja sincero. – ela o encarou diretamente nos olhos. – Acha mesmo que eu conseguirei? Quero dizer, eu gostaria muito de continuar aqui e saber tudo que a maioria sabe, mas... – ela soltou um suspiro – ... sinto-me tão ignorante. Ras sentou-se ao lado dela na cama, encostando-se na parede também. − Só depende de você. Querer é poder! Nunca se esqueça disso. – e segurando o relógio de novo. – Você interpretou o relógio corretamente. Saber o que é dia ou noite é irrelevante agora. A vivência completará as informações que você precisa. No início, parecerá artificial, mas logo, logo, você verá que será automático. O conhecimento se revelará de forma natural. − Se o senhor diz... − Confie em mim. E, acima de tudo, confie em você! Somos seres em evolução, nos adaptamos rapidamente quando somos receptivos às mudanças. Ras Yerodin colocou o relógio sobre a cama, beijou a cabeça de Julianna e levantou-se. − Não quero mais atrapalhar os seus estudos. − O senhor não me atrapalhou, pelo contrário, me ajudou muito! – Julianna disse sinceramente agradecida. − Está certo, mas eu preciso ir. – ele olhou para as pilhas de livros no quarto. – Você está com muita disposição, pelo que vejo. Continue assim. Antes que o Diretor deixasse o quarto, Julianna deu um pulo da cama e pediu. − Senhor, espere! − Sim? – ele olhou-a curioso. − Poderia me dizer por que tenho tantos pesadelos desde que cheguei aqui?

− Não são pesadelos. – ele afirmou com naturalidade. − Como assim? – Julianna perguntou indignada. – Basta eu dormir para eles virem me assombrar. − Não são pesadelos, Julianna. São lembranças. O Diretor saiu do quarto deixando uma Julianna confusa, porém, esperançosa. − Lembranças? – ela disse a si mesma. – Então... - Julianna voltou a sentar-se no chão e começou a remexer as pilhas de livros. – Onde está, onde está? Eu sei que o peguei na biblioteca... aqui! “Inhibere: entenda como funciona”. Totalmente acomodada novamente, Julianna segurou o livro entre as mãos e examinou-o detalhadamente. Havia pego muitos livros na biblioteca, mas não tinha lido nenhum ainda. Todo o seu tempo vinha sendo dedicado a entender o calendário e o relógio do Portal. O Diretor Ras Yerodin, seu atual Orientador, havia tornado tudo mais simples. – Bem que ele poderia dispensar minha co-Orientadora. – O pensamento lhe ocorreu, mas ela sabia que isso não aconteceria, devido às suas atribuições na Colônia Provisória.

§
Nos dias que se seguiram, Julianna dedicou-se aos estudos com avidez. E mesmo acertando a quase todas as perguntas feitas por Myrthila Granjem, ela recusou delicadamente os passeios oferecidos pela co-Orientadora. Pediu-lhe que lhe conseguisse cadernos, canetas de cores diferentes e um gravador de voz. Para sua surpresa, a mulher entregou-lhe uma caixa repleta de itens de papelaria, exatamente iguais aos que ela usava na Terra. − Puxa, parece que minha mochila da escola foi despejada dentro desta caixa! – Julianna comentou com um sorriso infantil enquanto retirava cada um dos objetos da caixa, espalhando-os sobre a cama. − A ideia é essa! – Myrthila Granjem disse retribuindo o sorriso e deixando-a sozinha no quarto novamente. Julianna passava dias sem sair de seu dormitório e, sem perceber, tinha cada vez menos necessidade de dormir ou alimentar-se, apesar da sra. Granjem obrigar-lhe a submergir em uma tina com água diariamente, ressaltando sempre a importância do líquido para a reposição de suas energias. A comida trazida por sua co-Orientadora retornava intacta, mas a sra. Granjem nada dizia, apenas trocava-a com um sorriso no semblante. Em pouco tempo, as duzentas páginas do caderno que ganhara estavam completamente preenchidas. Ela marcava no calendário da parede os dias corridos e

passou a sair do quarto duas vezes ao dia em horários diferentes, apenas para registrar a cor do céu. No entanto, logo percebeu que era difícil identificar um padrão, pois ele se alterava em curto espaço de tempo, por isso, decidiu caminhar pelo campus e observar o que os outros faziam em cada hora do dia. Então, encontrou o padrão que buscava. Os dias eram divididos em estudos ou trabalho, descanso, passeios e confraternizações, sendo que, sem dúvida nenhuma, a maior parte era dedicada aos estudos, fossem ao ar livre ou em salas de aula, individuais ou em grupo. Na primeira vez que pediu para sair do quarto sem ser para ir à biblioteca, a sra. Granjem a acompanhou, sem interrogar-lhe o propósito. Ia ao seu lado em silêncio e à medida que Julianna intensificava os estudos, a co-Orientadora se tornava mais flexível e agradável. Um dia, percebendo o constrangimento de Julianna com a pulseira que carregava no pulso, passou a trazer-lhe blusas de manga comprida, que a cobriam completamente. Nada havia sido dito, mas ambas trocaram um olhar carinhoso entre si. Ao ler sobre as espécies inteligentes que habitavam o Universo, pensou em quanta arrogância ainda havia na Terra e o quanto seu planeta estava atrasado. Não demorou muito para que Zogham surgisse em seu pensamento. Jamais estaria ali se ele não tivesse acreditado nela. Estivesse ele onde estivesse, não poderia decepcioná-lo. Julianna passou a aceitar seus pesadelos e os usou a seu favor. Iniciou um registro detalhado de tudo que lhe vinha a mente nos raros períodos de sono e, assim, fez um esboço do que poderia ter sido suas vidas passadas. Apesar das imagens fortes, ela não se deteve e assistia à própria vida como se fosse um filme. Porém, não pôde deixar de notar a presença constante de Zogham em quase todas as situações. Era sempre ele o seu salvador e não demorou a perceber que estava completamente apaixonada por aquele ser tão dedicado e amigo. − Sim, era tudo o que eu precisava agora. Foco, Julianna Young, foco! Ele não está ao seu alcance. Concentre-se ou jamais irá se livrar desta pulseira horrenda! – ela repetia a si mesma quando percebia-se devaneando, imaginando-se nos braços de Zogham, em beijos e carícias sem fim. – Está na hora de começar a praticar um pouco todo esse estudo.

§
Myrthila Granjem voltava de uma reunião com o Diretor Ras Yerodin, onde foi apresentar os avanços de Julianna e percebeu-a parada diante de seu alojamento.

− Oi minha querida, aconteceu alguma coisa? Você está precisando de algo? − Sim, sra. Granjem. Eu preciso que a senhora presencie uma coisa que aprendi a fazer e me diga o que acha. − Ok. – a co-Orientadora sorriu-lhe e abriu a porta do quarto sinalizando para que Julianna entrasse primeiro. – O que é? – a sra. Granjem perguntou tão logo fechou a porta atrás de si. Não era a primeira vez que Julianna entrava no quarto de Myrthila Granjem, mas era a primeira vez que ela entendia o porquê deste quarto ser quatro vezes maior do que o dela, apesar de terem a mesma aparência por fora. Um corredor com uma sequência de portas idênticas simetricamente distribuídas dos dois lados, mas que eram capazes de esconder cubículos ou palacetes por trás de cada uma delas. A qualidade da projeção mental ou realidade projetada dependia da capacidade e interesse de quem o ocupava. − Por favor, sente-se. – Julianna puxou uma cadeira de uma mesa lateral e indicou-a à sra. Granjem. − Está bem. – a idosa caminhou ligeiramente e acomodou-se, deixando transparecer um sorriso curioso no semblante. − Certo. – Julianna pigarreou e tornou a voz um pouco mais grave. – Antes de mais nada, quero que saiba que eu tenho conhecimento que a prática que irei lhe apresentar é proibida no Portal de Anaya, mas permitida aqui na colônia, desde que para fins de estudo. – ela esperou que a sra. Granjem sinalizasse que havia compreendido e não ignorou o ar surpreso da co-Orientadora. – Agora, preste a atenção ao meu suéter. Poderia me dizer qual é a cor dele? − Verde. – a mulher disse instantaneamente. − Isso mesmo. Então, vamos lá! De pé no centro da sala, Julianna fechou os olhos e sacudiu um pouco o corpo, alongando as extremidades e o pescoço. Em seguida, apenas permaneceu parada, com os braços estendidos lateralmente e a expressão facial de profunda concentração. Após um curto espaço de tempo nesse estado de introspecção, ela foi abrindo os olhos vagarosamente e não foi difícil perceber que havia conseguido executar a mutação de cor de seu suéter, apenas observando o largo sorriso no rosto da sra. Granjem. − E então? – ela perguntou ansiosa. − Está amarelo! – Myrthila Granjem disse radiante. – Nem sei o que dizer, você realmente me surpreendeu. – a mulher levantou-se de um pulo, como se fosse uma

criança de oito anos de idade e abraçou Julianna com a força de um homem jovem. – Como? − Alterei o ângulo da refração mas, por enquanto, só consigo ir do verde ao amarelo. – Julianna disse um pouco envergonhada, afastando-se da sra. Granjem que voltou a sentar-se na mesma cadeira. − Só?! Não seja boba, menina! Confesso que eu não esperava por isso. Alterou o ângulo da refração? Parece gente grande falando! O riso de ambas ecoou pelo quarto. − Preciso buscar meu caderno, quero lhe mostrar outras coisas. Quer dizer, não são visuais como isso que eu fiz, mas quero compartilhar algumas coisas com a senhora e tirar algumas dúvidas. Pode ser? – Julianna perguntou ainda excitada com a pequena mas produtiva conquista. − Claro, claro, vá lá buscar. Eu espero aqui mesmo, sentadinha em minha cadeira. Minutos depois Julianna retornou com seu caderno abarrotado de anotações. − Preciso de um novo caderno. – ela sentenciou. − Isso não é problema. Trarei hoje mesmo um novo para você. Durante horas, as duas mulheres conversaram como velhas amigas. Julianna mostrando-se muito mais consciente de sua situação, apresentou o esboço que fez de sua própria trajetória. Falou da criação do Portal, da formação de seu planeta natal e de um orbe fantástico, misterioso e problemático: Wicnion. − Wicnion... – Myrthila Granjem ficou pensativa e, momentaneamente, pareceu ausentar-se dali. – O que leu sobre Wicnion? – a velha perguntou com o olhar triste. − Muitas coisas. Aliás, segundo o sr. Pustak, o bibliotecário, eu já li todos os livros existentes na biblioteca sobre Wicnion. − É mesmo? – a sra. Granjem perguntou curiosa. – e por que esse interesse tão profundo nesse planeta? − Não sei exatamente, mas a ideia de ter tantas espécies inteligentes de diferentes árvores genealógicas me deixou curiosa. Além disso, o lugar é lindo! Duas estrelas e dois satélites naturais, nossa, nem consigo imaginar como deve ser uma noite embluada. − Wicnion é uma terra de dor e sofrimento. – a sra. Granjem disse pesarosa. – Infelizmente, por enquanto, não há nada mais do que isso naquele lugar. − Eu gostaria de conhecer.

− Não, não gostaria! – a sra. Granjem afirmou-lhe. – Apesar de acreditar que uma vida naquele planeta seria suficiente para resgatar qualquer dívida pendente. − Como a senhora pode ter tanta certeza de que eu não gostaria? – Julianna desafiou-a. − Porque eu já estive lá. Vaguei por Slaggelann século após século ate que, um dia, cansada de tudo aquilo, tentei pedir ajuda aos voluntários que habitam Quartarius. − E conseguiu? − Nem cheguei perto disso. Caí numa emboscada e fui levada como escrava para o Castelo de Chabon, sede do Governador. Tive sorte de não ter sido arrastada para o calabouço, caso contrário, estaria lá até hoje! – o olhar da sra. Granjem ficou levemente cinzento. − Em Thartarius? – Julianna perguntou horrorizada. − Sim. – a velha disse simplesmente. − E quanto tempo ficou lá? − Mais da metade da minha existência desde que desprendi-me da Fonte Original. Um silêncio não reclamado, mas incrivelmente desejado, apossou-se das duas mulheres naquele momento. Depois de tudo que havia lido sobre Thartarius, Julianna não podia mais olhar para sua co-Orientadora da mesma forma. Pensou em perguntar como ela havia saído de lá, mas achou melhor encerrar o assunto por enquanto. Instintivamente, ajoelhou-se diante de Myrthila Granjem, que permanecia sentada, e abraçou-a calorosamente e, sem que se desse conta do motivo, desatou a chorar. A sra. Granjem afastou-se, olhando-a carinhosamente. Enxugou-lhe as lágrimas com as mãos e sorrindo novamente, levantou-se, ajudando Julianna a levantar-se também. − Não há motivo para choro! Suas conquistas são motivo de comemoração e eu tenho um presente para você. Encabulada com o que julgou ser um comportamento inexplicavelmente patético, Julianna secou mais ainda o rosto e interrogou a velha senhora com ansiedade. − Um presente? Para mim? E o que seria? Mirthyla Granjem tirou do bolso de seu casaquinho roxo, um pequeno adesivo. − Um Lecterus! Em sua versão mais recente. – ela disse entusiasmada. Julianna pegou o adesivo, que parecia um desses curativos para proteger pequenos ferimentos, e ficou sem entender. − Um Le-c-terus? Mas, para que serve?

− Para aprimorar seus estudos e, inclusive, viajar a Wicnion sem sair do seu quarto. Venha! Vamos à biblioteca carregá-lo imediatamente! E cuidado para não perdê-lo no caminho. Peguei-o emprestado com o Diretor Ras Yerodin. Pertence à Colônia, segure-o direito! Achando que sua co-Orientadora estava sob forte efeito traumático de lembranças indesejadas, Julianna seguiu os passos apressados da mulher, segurando fortemente um adesivo cor de pele menor do que o seu dedo mindinho.

Capítulo 18 A convocação de Zogham
Zogham caminhava pelo Setor de Cursos Especiais N1-2 procurando o auditório 4, mas parecia que ele não existia. Havia recebido uma convocação para um treinamento a ser ministrado por Mestre Carama, porém, o setor encontrava-se absolutamente deserto e somente encontrara três salas. Vendo aproximar-se a hora do evento e sem ter a quem pedir orientação, Zogham subiu a rampa de acesso aos auditórios mais uma vez e pensou que talvez pudesse ter ocorrido um erro na mensagem. Olhou o corredor e testou a porta à sua esquerda colocando a mão sobre ela, mas nada aconteceu. Em seguida, repetiu o gesto com a porta à sua direita, mas o resultado foi igualmente frustrante. Finalmente, caminhou em direção à porta do auditório 3, localizada ao fundo do corredor, para testá-la também, mas nada aconteceu de novo. − Será que me enganei? – disse a si mesmo. – Tenho certeza que memorizei o dia, a hora e o local corretamente. O que faço agora? No centro do corredor havia um relógio preso ao teto. Zogham voltou alguns passos e olhou para cima. Em menos de um minuto deveria começar o treinamento e ele simplesmente ali, parado feito um idiota, sem saber o que fazer. Seus olhos acompanhavam os ponteiros dos segundos, enquanto mentalizava uma contagem regressiva. Até que o relógio marcou 4411 e algo começou a acontecer. − Mas, o quê...? Zogham olhou para frente e visualizou uma porta no meio do corredor com uma placa onde se lia Auditório 4. Ele caminhou em sua direção e percebeu tratar-se de um portal, pois não estava presa à nada e atrás dela só havia a continuação do corredor. Colocou sua mão sobre ela e sentiu que estava sendo escaneado para identificação. Em seguida, a porta se abriu e ele entrou, caindo na mais profunda escuridão. − Ei! O que está acontecendo? Zogham tentou gritar, mas notou que sua voz não saiu. − Calma. – disse a si mesmo – Preciso ficar calmo. Estou me comportando como um novato. Começou a analisar a situação e percebeu-se estranho. Não conseguia moverse. Nem mesmo era capaz de sentir a própria forma. Tentou tocar-se, mas não sentia

as mãos. Tentou piscar e era como se não tivesse olhos. Tudo o que podia fazer era pensar. − Alô!? Tem alguém aqui? − Olá Zogham, por que está tão agitado? − Mestre Carama? É o senhor? Que lugar é este? – conscientemente, ele sentiu-se mais seguro. − Sim, sou eu, Zogham. Nós estamos no Auditório 4. Você não viu a placa na porta? − Senhor, não quero lhe faltar com o respeito mas, isto aqui não se parece em nada com um auditório e eu gostaria de saber o que aconteceu comigo. − Você é assim. Nós somos assim. – a voz de Mestre Carama era parte do próprio pensamento de Zogham. − Assim como? – ele estava cada vez mais confuso. − Não temos forma Zogham. A única coisa real em nós é o pensamento. − Mas como é possível minha forma se desintegrar assim? Para onde foi a energia que a mantém? – ele se questionava se Mestre Carama estaria ali também ou somente sua voz lhe era transmitida. − Sua energia está compactada em você mesmo. E eu também estou aqui. − O senhor está lendo meus pensamentos? − Estou lendo você. – Mestre Carama disse naturalmente. − Por favor, explique-me o que está acontecendo. A mensagem dizia se tratar de um treinamento. − Zogham, você está sendo convidado a participar de uma grande missão, a mais importante de sua existência. No entanto, recusando-a ou aceitando-a, não podemos correr o risco do vazamento desta informação. Tudo o que for dito aqui será bloqueado em sua mente até que chegue o momento da revelação, no caso de você aceitá-la. − E se eu recusá-la. – Zogham quis saber. − Então, nesse caso, ela será simplesmente apagada. − Eu sei que o senhor disse que aqui é o Auditório 4, mas... − Aqui é o nada. – Mestre Carama entendeu o que Zogham queria saber. − O nada? Mas como algo pode existir no nada? – sua confusão mental só aumentava.

− Zogham, não há espaços vazios no Universo. O nada é apenas algo que ainda não é conhecido, que você não pode explicar. − Está certo. – ele conformou-se. – Fale-me da missão. O que seria? − Eu o escolhi para ser o protetor do novo Governador de Wicnion. Se aceitar, nascerá alguns anos antes dele e deverá acompanhá-lo desde a mais tenra infância, zelando por sua vida. Zogham sabia que Mestre Carama estava lendo sua mente pois, no momento, era tudo o que ele possuía: seus pensamentos; e não tinha como escondê-los. A ideia de renascer em Wicnion era um desafio, ainda mais porque Zogham não se lembrava como era viver em um mundo físico. − Eu preciso responder agora? – a pergunta era retórica, pois já sabia a resposta. − Sim, Zogham, você precisa responder agora. – Mestre Carama disse sem julgar sua intenção. Zogham silenciou. Por um momento ignorou a presença do Governador do Portal e entregou-se às próprias lembranças. As imagens de sua existência corriam em sua mente feito um filme. Não demorou muito para que ele pensasse em Julianna. Ele sabia que não voltaria a ser o seu Orientador e não estava preparado para permanecer nessa função auxiliando outra pessoa. Era tarde demais para reverter o que sentia. − Será uma oportunidade para dar outro rumo a essa história, você não acha? A voz de Mestre Carama o trouxe de volta ao presente. − E de que forma eu protegeria o novo Governador? – Zogham perguntou ignorando o comentário. – Eu seria seu tutor? − Também, mas não apenas isso. Você está destinado a ser um guerreiro, o líder da Aldeia dos Humanos. Os guardiões das quatro tribos da primeira linhagem irão profetizar o nascimento dessa criança. Isso será necessário para que a esperança seja plantada nos corações dos habitantes de Wicnion, que não acreditam mais em sua própria salvação. No entanto, a profecia alertará também seus líderes corruptos e sedentos de se manterem no poder. A criança nascerá em sua aldeia e caberá a você garantir que ela chegue à idade adulta e seja conduzida ao trono dos reis, que hoje é ocupado pelo Rei Rufus. − Eu? Um guerreiro? – Zogham jamais havia passado por tal experiência e, no momento, não se sentia apto a vivenciá-la. – Tenho certeza que em todo o Universo há milhares de seres mais capazes do que eu. Por que me escolheu?

− E por que não? – Mestre Carama mantinha-se impassível. Na escuridão profunda do nada, Zogham refletiu sobre todas as consequências que sofreria caso aceitasse a missão. Imaginava um dia renascer em algum orbe para contribuir com o seu conhecimento, mas o que Mestre Carama lhe oferecia era superior a qualquer desafio que pudesse ter vislumbrado. − Eu aceito! – ele disse com firmeza. – Seja qual for o sacrifício a ser feito para que a profecia se realize, eu cumprirei o acordado. − Sabe que não é tão simples assim. – o Governador sentenciou. – Uma vez que esteja preso novamente a um corpo físico, de nada se lembrará. O mundo invisível estará presente tentando induzi-lo às decisões adequadas, mas tudo é muito sutil e nem todo mundo é sensível à intuição. − Eu conseguirei! Só me diga o que preciso fazer agora. – Zogham não se importava mais com os obstáculos que, provavelmente, ele mesmo colocaria em seu caminho depois que estivesse em Wicnion. Estava decidido. − Agora, começa o seu treinamento. − Como? − Esvazie sua mente, pois compartilharei com você o conhecimento necessário para que seu espírito torne-se um guerreiro e você vivenciará minhas lembranças como se fossem suas...

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Zogham abriu os olhos e vislumbrou o estonteante azul do céu. Sentado sob uma frondosa árvore, sentiu-se forte sem saber o motivo. Adormecera ali sem perceber, o que era raro de acontecer. Espreguiçou-se e riu do próprio gesto, tão instintivo e inesperado. Olhou em volta e se surpreendeu com o que viu. Do outro lado do jardim, Julianna conversava com o Diretor Ras Yerodin. Parecia feliz. Ambos estavam sentados em um banco de pedra e ela ria jogando a cabeça para trás. O diretor também ria com ela. Àquela distância, ele não poderia ouvir o que conversavam e pensou que, talvez, ele pudesse... − Nem pense nisso! Zogham virou-se e viu de pé ao seu lado uma mulher de aparência muito idosa, sorrindo para ele. − Desculpe-me, o que disse? – ele perguntou analisando detalhadamente aquela figura.

− Eu disse para você não tentar ler os pensamento de Julianna. − Mas eu... – Zogham ia dizer que não tinha essa intenção, mas dada a firmeza com que a mulher lhe falou, achou melhor não mentir. − Eu sei que você a ama. Também sei que ela ama você. Mas aqui não é o lugar para viverem esse tipo de amor. A paixão de vocês deve ser vivida numa experiência em um mundo físico. − Será que um dia teremos essa oportunidade? – ele divagou admirando de longe a beleza de Julianna. – Desculpe-me, mas nós já nos conhecemos? – ele perguntou voltando-se novamente à mulher. − Creio que não. Eu pretendia me apresentar antes de iniciarmos nosso diálogo, mas não tive muita escolha. Você ia fazer uma bobagem. – ela o repreendeu sem remover o sorriso do rosto. – Meu nome é Myrthila Granjem e eu sou a coOrientadora de Julianna. – A mulher estendeu a mão para cumprimentá-lo. Zogham levantou-se rapidamente, não tencionava deixá-la de mão estendida por muito tempo. − Muito prazer. Acho que você já sabe quem eu sou. Você disse co-Orientadora? – ele perguntou enquanto apertava-lhe a mão. − Sim, eu sei quem você é Zogham Quercus. – ela afirmou sem nenhuma entonação. – O Diretor Ras Yerodin me designou para ajudá-lo na tarefa de orientação de Julianna. Eu a tenho acompanhado diariamente e vim justamente lhe dizer que não tardará muito a vocês se encontrarem novamente. Zogham sentiu uma corrente elétrica percorrer-lhe o corpo. − Nossa, que boa notícia! – ele comemorou. − Não quero ser desmancha prazeres mas, esse encontro é apenas uma formalidade. − Como assim uma formalidade? – e enquanto dialogavam, Zogham espreitava Julianna e o Diretor. − Pelo que soube será necessário um Ergonius para desfazer a conexão entre você e Julianna, então, vim dizer-lhe que não se ausente do Portal até receber a convocação para a sessão de separação de vocês. – Myrthila agora olhava na mesma direção que Zogham e viu que Julianna e o Diretor caminhavam em direção aos alojamentos da Área Baixa. − A senhora está certa. Já me disseram isso algumas vezes. – e um sentimento de tristeza tocou Zogham profundamente. – Acho melhor eu voltar para o meu alojamento, vou meditar um pouco.

− Sim, faça isso. Ambos se despediram com um aceno de cabeça e Myrthila Granjem observou Zogham caminhar em direção aos alojamentos da Área Suspensa. Quando ele desapareceu ao subir os jardins, ela pensou no convite que havia recebido mais cedo. − Será que esse curso de aprimoramento em níveis 1 e 2 tem a ver com Julianna? – sem saber a resposta, Myrthila deu de ombros e distraiu-se vendo o céu que mudava de cor naquele exato momento.

§
Para qualquer lado que ele olhasse havia sangue derramado. Os corpos estavam empilhados como barricadas e continuariam assim, pois a luta ainda não havia cessado. Sob um céu alaranjado, guerreiros gritavam impropérios uns aos outros. O som das espadas era incessante e abafava o estalar dos ossos sendo quebrados. Perdera a conta de quantas vidas abatera. Esforçava-se por não pensar nisso, pois cada vez que se humanizava, enfraquecia e logo tornava-se vunerável a um golpe fatal. Naquele momento, sentia-se mais animal do que homem. Uma fera agindo por instinto a defender seu território. Seu corpo estava repleto de cortes sangrentos, mas nada que se comparasse às dezenas ou talvez centenas de golpes mortais que desferira desde aquela manhã. Somente quando a escuridão desceu absoluta e imponente, houve uma trégua. Ele viu aqueles que defendiam o brasão azul e dourado recuarem. Alguém ordenava que buscassem abrigo na floresta atrás deles. Os que ficaram, inclusive ele, já não podiam distinguir o vermelho de seu brasão, do sangue que lhes escorria pelos corpos feridos e até mutilados. Não tinham forças para continuar e viram o exército rival rastejar como sombras de seres deformados em direção à Floresta de Lodo. Tudo eram vultos e contornos, nada mais. Resolveram, então, ir para as cavernas, cientes do risco que corriam de serem emboscados ao clarear do dia. No entanto, ele não acreditava que a luta continuasse ao amanhecer. Era provável que a trégua durasse alguns dias, até que se recuperassem do massacre recíproco do primeiro combate. Ele e seus guerreiros subiram pela encosta e se esquivaram pelos buracos escondidos por rochas cobertas de musgo. Tateavam cautelosamente, procurando onde segurar e onde pisar. O limo e a água que minava das paredes dificultavam o acesso às entradas. Dois ou três gritos que se perderam na escuridão foram ouvidos antes que todos estivessem acomodados nas cavernas. Ele ficou sozinho, na mais alta delas. Não havia muita luz vindo do céu, mas depois que a vista se acostumava à escuridão, era possível enxergar com a luminosidade fraca dos pontos brilhantes e

dos grandes olhos dos deuses. Ele seguiu o som da água e encontrou a fonte dentro da própria caverna. Um pequeno córrego se formava a partir de filetes que escorriam de diversas rachaduras nas paredes. Caminhou seguindo o curso da água até que uma fresta de luz no teto da caverna o fez visualizar um pequeno lago negro. Sem se preocupar com mais nada, tirou a vestimenta de guerreiro ou os trapos que restaram dela e entrou no lago vagarosamente, sentindo cada passo para ter certeza de que pisava em chão firme. Aos poucos, deixou-se submergir, limpando todo o sangue agarrado à sua pele. Quando seu corpo estava completamente adormecido pela baixa temperatura da água, ele saiu do lago. Sem ter nenhuma pele de animal para se aquecer, buscou o aconchego entre duas rochas secas que, possivelmente, absorveram calor durante o dia pela fresta no alto da caverna. Ali estava ele, um grande líder guerreiro, despido, machucado, encolhido, apenas buscando se proteger do frio. Enquanto tentava dormir um pouco, sua mente projetava as imagens da luta que travara durante o dia e em meio à turbulência dos pensamentos, seus olhos se fecharam, mas antes que sua consciência se ausentasse, sentiu um cheiro doce penetrar-lhe as narinas. Abriu os olhos e teve a certeza de que estava tendo uma alucinação, um espírito o visitava. Ela apenas sorriu-lhe e retirou dos ombros a pele felpuda, deixando à mostra o corpo nu, parcialmente oculto pelas sombras do ambiente. Ele permaneceu imóvel, com os olhos assustados e curiosos de um menino. Ela abaixou-se e delicadamente o tirou da posição fetal, deitando-se por cima dele, puxando a pele para cobri-los, aquecendo-o imediatamente. E quando seus rostos ficaram bem próximos, ele viu algo de familiar em sua face. − Quem é você? Como chegou aqui? Ela sorriu. Colocou o dedo indicador sobre sua boca sinalizando que ficasse em silêncio e caminhou com os lábios até um de seus ouvidos. − Não está me reconhecendo? E olhando profundamente em seus olhos, desceu a mão até o meio de suas pernas. Ele sentiu no mesmo instante que estava pronto para aquela luta. Ela então montou-o lentamente, deixando que ele escorregasse para dentro dela. Colaram as testas mantendo os olhares conectados. A respiração foi se tornando intensa e curta, a pele que os cobria já não era mais necessária, seus corpos transpiravam. Esquecendo-se totalmente da dor causada pelos diversos ferimentos em seu corpo, ele sentou-se sem desencaixar dela e abraçou-a. Ela movimentava o quadril em um ritmo lento e constante. Ele encostou os lábios em seu ouvido e disse-lhe instintivamente com a voz sôfrega:

− Eu te amo. Ela agarrou-lhe os cabelos puxando seu rosto para frente do dela e beijou-lhe a boca enquanto o ritmo de seus movimentos tornava-se mais intenso. E entre abraços, beijos, saliva e suor, eles se amaram repetidas vezes. Ele esquecera seu propósito de estar ali e em nada lembrava o guerreiro de antes. Extasiado e tomado pelo cansaço, ele deitou-se sobre a pele felpuda e puxou a mulher para que repousasse a cabeça sobre seu peito. − De onde você veio? – ele perguntou enquanto acariciava os cabelos dela. – Você não parece confusa, pelo contrário. − Por que eu estaria? Foi minha escolha estar aqui com você. – ela disse enquanto buscava aproximar ainda mais seu corpo do dele. − Eu não sei como você chegou até aqui. – então, ele silenciou por uns instantes e olhou-a novamente. – Na verdade, não sei quem é você. Quando vi seu rosto, eu tive a certeza de que a conhecia e quando senti seu cheiro, eu tive a certeza de que a amava. Como isso é possível? Subitamente, como se a resposta tivesse vindo à sua mente, ele a empurrou, afastando-a de si. Levantou-se rapidamente e buscou a espada no chão, perto de seu traje de guerreiro. − Você é uma feiticeira? – ele perguntou com um berro. – Vamos, responda! Você é uma feiticeira? Sua mente estava nebulosa. Momentos atrás sentia-se humano, com o coração repleto de amor, como se fosse outra pessoa. Agora, o instinto animal apossava-se de seu espírito novamente e ele sentiu vontade de derramar sangue mais uma vez. Ela permaneceu sentada, procurando se manter calma e amável. − Por favor, largue essa espada. Eu não sou uma feiticeira. Além do mais, você não pode me ferir com ela. − Como não posso feri-la? Matei muitos homens hoje – ele disse com a voz alterada. – por que acha que eu não a mataria também, bruxa? Você sabe quem eu sou? Ela se levantou, puxando a pele junto consigo, colocando-a de novo sobre os ombros, cobrindo o corpo, até então, despido. − Sim, eu sei quem você é. É o homem que eu amo.

Ele a observava assustado, sua mente estava confusa. Por mais medo que estivesse sentindo daquela mulher naquele momento, julgando-a uma bruxa poderosa, ele só podia amá-la, jamais feri-la. − O que fez comigo? Por que me enfeitiçou? – ele jogou a espada no chão e caiu de joelhos. – Quem é você? O que quer de mim? – por um instante, não compreendeu mais quem era e nem o que fazia ali. Ela percebeu a situação complexa que havia criado. Estudara cada passo até chegar ali. Ficou em êxtase quando se viu diante dele. Não compreendeu de imediato onde estava, mas isso não importava, ele era tudo o que desejava. Fizeram amor da forma como havia idealizado e ele até declarou seu amor por ela. No entanto, agora, ele parecia ter outra identidade. − Desculpe-me! – ela disse ajoelhando-se diante dele. – Eu não sou uma bruxa! Você não se lembra mesmo de mim? – ela abraçou-lhe as pernas e olhou para cima, para encará-lo. − Eu sinto como se a conhecesse, mas como eu poderia? Você não pertence ao meu povo, então, como posso ter essa ligação com você a menos que seja uma feiticeira? – ele fechou os olhos, agarrou-lhe as mãos e cheirou-as. – Você tem perfume, como as flores. Você não cheira como as outras. − Olhe para mim, por favor. – ela pediu amorosamente. – Olhe nos meus olhos. Eu não sei quem você pensa que é agora e nem que lugar é este, mas nós nos conhecemos em outro mundo. − Outro mundo? – ele perguntou incerto. − Sim. Você se chama Zogham Quercus e eu me chamo Julianna Young. Eu acho que eu fiz uma coisa muito errada. – ela respirou profundamente antes de continuar. – Você está dormindo Zogham e eu entrei no seu sonho.

Capítulo 19 A sala negra
Ao tomar conhecimento de que o exército dos lobos não havia conseguido capturar uma única fada, a Rainha Zerda decidiu que retornaria ao seu reino, rejeitando definitivamente o pedido de casamento do Rei Rufus. Gritava pelos corredores do castelo alardeando a incompetência do General Signatus. Surrava os escravos exigindo que seus pertences fossem acomodados de volta nos baús e o transporte preparado para seu imediato retorno. O rei, incomodado com o comportamento histérico da rainha, tentava acalmá-la, no entanto, tudo o que conseguia era deixá-la ainda mais furiosa. − Minha amada, controle-se, vamos conversar. – o rei disse na tentativa de convencê-la a ficar. − Eu não vou me controlar e não fique repetindo isso atrás de mim! Sinto-me traída pela segunda vez. – ela esbravejou. − Isso não é verdade! – ele tentou justificar-se – Na primeira vez, a pobre infeliz caiu de exaustão e eu só lhe decepei as asas porque... – mas o rei não continuou a frase, arrependendo-se do que havia dito. − O senhor está insinuando que a culpa da mediocridade daquele ser é minha? – a rainha lançou ao rei um olhar de fuzilamento. – Eu vim aqui para ser ofendida? − Não foi isso que eu quis dizer minha querida. – o rei tentou se desculpar. − Mas foi exatamente o que disse! − Deve haver alguma maneira para eu me redimir, provisoriamente, até que possamos investir novo ataque contra as fadas. Já lhe disse que não esperávamos uma aliança entre fadas e dragões. – o rei disse isso quase que para si mesmo, parando e refletindo sobre o assunto. A Rainha sentou-se e manteve-se em silêncio por alguns instantes, admirando a própria imagem diante do espelho. − O senhor tem razão. Infelizmente terei que concordar com o que disse. Uma aliança entre dragões e fadas é algo totalmente inexplicável. Os dragões sempre foram reservados, alguns até saem do bando, mas tornam-se mercenários solitários, não fazem alianças. – a Rainha Zerda arranhou a ponta da unha em forma de garra no espelho, gerando um som estridente e incômodo. O rei se encolheu ligeiramente por causa do som, mas logo se recompôs.

− Eu lhe ofereci dez soldados para que possa fazer com eles o que quiser. − Eu não quero soldados para torturar ou matar, eu quero fadas! – a rainha fez um bico de pirraça e olhou para o rei através do seu reflexo no espelho. – O senhor me prometeu como presente nupcial! − Minha amada, eu hei de cumprir a promessa que fiz, só lhe peço um pouco mais de tempo. Agora, teremos que montar outra estratégia! – ele se aproximou da rainha por trás e colocou suas mãos sobre os ombros dela. Ambos olharam-se pelo reflexo no espelho. – Aceite os soldados por enquanto. − Não! Prefiro aguardar que cumpra sua promessa. – e com os olhos cerrados enquanto o encarava, a rainha retirou as mãos do rei de seus ombros. – E como pensa em fazer isso, agora que as fadas se refugiaram com os dragões? Ninguém consegue entrar na aldeia deles! − Os gigantes são nossos aliados e temos alguns dragões que se bandearam para o nosso lado! − Ah, gigantes? O que lhes sobra em tamanho lhes falta em cérebro! – a rainha bufou – e dragões traidores perdem o acesso à aldeia. − Há também nossos cientistas que estão trabalhando nisso. Nenhum povo é mais avançado tecnologicamente em Wicnion do que os lobos! – o rei disse vaidoso. − Besteira! Nem toda a tecnologia é capaz de superar o conhecimento dos dragões em manipular energia! O rei preparava-se para contra argumentar quando um de seus conselheiros entrou no quarto com o olhar aflito, fazendo-lhe uma rápida reverência. − Rei Rufus, perdoe-me por interrompê-lo, mas preciso lhe falar imediatamente! A rainha levantou-se indignada. − O que significa isso senhor? É assim que seus vassalos lhe dirigem a palavra? Acho que não os têm disciplinado adequadamente. Mas, dessa vez, o rei não cedeu aos ataques histéricos da rainha. Limitou-se a levantar a mão exigindo-lhe silêncio. A rainha olhou horrorizada para o gesto do rei e ia responder, mas ele não lhe deu tempo para isso. − Conselheiro Berad Këshi. Entendo que deva ter uma mensagem muito importante para mim, pois não invadiria este quarto por algo leviano. Do que se trata? − Rei Rufus, obrigado por sua compreensão. – e o conselheiro olhou de soslaio para a rainha, que retribuiu o olhar com fúria. – O senhor está sendo requisitado na Sala Negra, por aquele para quem a sala foi construída.

Ao ouvir a mensagem, o rei sentiu um leve tremor nas pernas, que não foi percebido pelos outros. Seus olhos se abriram um pouco mais e ele repetiu a informação como se pudesse haver a chance de tê-la escutado errado. − Na Sala Negra? Por ele?! Você tem certeza que essa mensagem está correta? – o rei insistiu. – Quem a recebeu? Você? − Não senhor! – o conselheiro deixou claro o seu alívio ao dizer isso. – A mensagem veio pelos meios normais, foi um dos misturados que a recebeu. Mas aconteceu algo estranho. − Estranho como? – o rei quis saber. − O infeliz transfigurou-se, falou a mensagem e seu corpo incendiou-se sozinho logo em seguida. Ardeu até morrer. A rainha soltou um pequeno gemido de prazer. − Muito bem. Irei agora! Mas quando o rei ia se despedir da rainha, o conselheiro acrescentou mais uma informação. − Meu senhor, a mensagem convocava a Rainha Zerda também. Sem entender, a rainha indagou o Rei Rufus. − Do que se trata? O que é a sala negra? De que mensagem estão falando? Eu não irei a nenhum lugar que não seja o meu castelo! – ela disse com desprezo. − Rainha, temo que terá que me acompanhar, para o seu próprio bem. A voz do rei estava tão gelada ao dizer isso que a rainha apenas lhe interrogou com o olhar. − Fomos convocados pelo Governador de Wicnion! – e o rei sentiu o próprio medo na voz ao dizer isso. A Rainha Zerda e o Rei Rufus seguiram calados em direção à sala negra. O conselheiro ia à frente, temeroso pela própria vida. A sala havia sido criada para esse fim, a comunicação com os habitantes de Tartharius e o Castelo de Chabon, sede do Governador, mas nunca o próprio havia enviado uma mensagem, muito menos pessoalmente. O rei estava apreensivo e a rainha, pela primeira vez, não fazia comentários arrogantes ou irônicos. Ambos sabiam que a maldade que praticavam não era digna de ser comparada aos atos do Governador. Lutavam para conquistar ainda em vida, o privilégio de que seus espíritos habitassem a área nobre do castelo quando chegasse a hora da morte.

Agora, o Governador queria lhes falar, e eles não imaginavam o que poderia ser. Temiam tê-lo desagradado e que o castigo lhes fosse dado ali mesmo, na sala negra. Finalmente, chegaram diante da porta, guardada por dois soldados, onde estava esculpida a imagem do Castelo de Chabon. Ao verem o rei, os soldados fizeram uma reverência e abriram a porta para que ele, a rainha e o conselheiro entrassem. Dentro dela, o cheiro era ardido. Havia tochas espalhadas pelas pilastras e em cada uma das delas, havia dois ou três seres em farrapos, presos a correntes. Eram os misturados. Essas criaturas foram originadas da panmixia, onde todas as espécies podiam cruzar entre si e gerar uma nova vida. A relação sexual entre espécies diferentes não era proibida em nenhum dos reinos de Wicnion, no entanto, qualquer vida gerada a partir de um cruzamento entre espécies deveria ser exterminada logo após seu nascimento, pela própria mãe. Por isso, muitas mães se escondiam na floresta antes do parto e lá abandonavam suas crias com vida. Qualquer fêmea que fosse pega fazendo isso, era obrigada a ver seu filhote sendo esquartejado vivo em praça pública e, em seguida, sofria o mesmo destino. Mesmo assim, havia muitos misturados sobreviventes. Tornavam-se criaturas nômades que andavam em bando e viviam com medo, sempre fugindo dos soldados, porém, nunca deixavam de recolher os bebês abandonados que encontravam ainda com vida. Quando uma tribo era atacada por soldados, apenas os espécimes machos e adultos eram mantidos com vida, pois tinham o poder de comunicação com o mundo de Tartharius, mas somente quando perdiam a visão, por isso, todos tinham os olhos queimados por ferro em brasa. No centro da sala negra havia uma espécie de oásis, onde os conselheiros se banhavam em águas quentes aguardando as mensagens que vinham através dessas criaturas. Havia também várias fêmeas, de espécies diferentes, servindo tanto aos conselheiros, quanto aos misturados, pois a maioria deles entrava no cio, como se a nova raça quisesse se fixar no mundo, multiplicando-se para garantir sua existência. No início, os conselheiros tentaram controlar o cio das criaturas com chicotadas e tortura, mas eles eram capazes de morrer sem cessar o gemido de agonia clamando pelo acasalamento. Assim, depois de matarem muitos misturados, os conselheiros decidiram que seria melhor deixarem os desgraçados praticarem o coito quando estivessem nesse estado. Por isso, as fêmeas desprezadas pelos conselheiros eram entregues nas mãos das criaturas para que se saciassem e depois elas eram deixadas em cárceres aguardando o próximo cio. Algumas desistiam da vida, outras, preferiam continuar ali, a correr o risco de terem seus espíritos levados para Tartharius antes da hora. Elas também eram responsáveis por alimentá-los e recolher seus dejetos.

O rei e a rainha se aproximaram dos demais conselheiros que já haviam saído do banho termal e estavam de joelhos reverenciando-os. − Mostre-me o que restou do miserável que transmitiu o recado do Governador. – Rei Rufus ordenou a Berad Këshi. − Sim, senhor! O conselheiro conduziu o rei e a rainha até a pilastra que ficava mais ao fundo, na extremidade esquerda da sala. Era a parte mais sombria do ambiente e somente quando estavam bem próximos dela foi que o rei percebeu que havia dois misturados deitados no chão. Ambos usavam uma coleira de ferro da qual saía uma pesada corrente presa à pilastra. As mãos estavam atadas às costas e os pés, presos um ao outro por grilhões. Bem perto deles, um pote sujo coberto de insetos voadores continha a ração diária de algo que não se podia chamar exatamente de alimento. Ao lado, outro pote abrigava um líquido esverdeado com o qual eles deveriam saciar a sede. No entanto, havia uma terceira coleira. Nela, estava presa uma bola negra desforme com grilhões vazios jogados no chão. O rei observou com desprezo aqueles seres, originados, provavelmente, de fêmeas violentadas ou vendidas como escravas e afastou-se retornando ao centro da sala. − Quero que todos vocês se retirem. – o rei falou secamente. − Meu senhor, se assim deseja o faremos imediatamente. – um dos conselheiros disse sem conseguir esconder a satisfação em sair dali. − Não tenho dúvida disso seus covardes! – ele fuzilou-os com o olhar enquanto saíam. Logo, restaram na sala apenas os misturados acorrentados às pilastras, o rei e a rainha. − Será que ele irá usar novamente uma destas criaturas horrendas para se comunicar? – a rainha comentou com nojo. − Melhor guardar seus comentários para si. – Rei Rufus disse asperamente. – o Governador se manifestará da forma que quiser e não ficará satisfeito com suas observações. A rainha entendeu o recado e permaneceu quieta. O rei olhou em volta. As criaturas estavam calmas, sem gemidos ou movimentos. − Está ficando mais quente aqui. – a rainha observou. − Sim, está. – o rei concordou. – Olhe! – ele apontou para o centro da sala, no local onde, momentos antes, os conselheiros estavam se banhando.

− A água está borbulhando! – a Rainha Zerda deu um passo para trás. − O quê...?! – o rei também recuou. De dentro da água surgiu um ser de lava. Não possuia pele, couraça ou qualquer proteção para seu corpo, que borbulhava como a água da qual emergia. Sua cabeça enorme estava presa a um corpo deformado, com braços saindo de todas as partes do dorso, alguns com mãos, outros com garras e outros que pareciam mais com caudas do que com braços. Duas mãos apoiaram-se no solo e ele puxou o resto do corpo para fora da água. Andava sobre três enormes patas dianteiras que arrastavam duas patas inertes presas a sua traseira. O cheiro era uma mistura de carne podre e pólvora queimada. O rei e a rainha ajoelharam-se e não ousaram levantar a cabeça. A voz do monstro soou grave. − Eu sou Gabhar, o Governador de Wicnion! Vocês me reconhecem como seu deus absoluto? − Sim, meu senhor! – ambos responderam vigorosamente. – Estamos aqui para servi-lo! – o Rei Rufus completou. − Vocês têm sido fiéis colaboradores e já contam com uma área especial em meu palácio. − Obrigada senhor Governador. – a rainha disse humilde e sinceramente. − Você me orgulha muito Rainha Zerda. Aproxime-se! A rainha se levantou sem receio e se aproximou do Governador, enquanto o Rei Rufus permaneceu de joelhos. − Espero que não tenha nojo de mim. – o Governador disse enquanto alguns de seus braços puxavam a rainha para mais perto. − Senhor, confesso-lhe que não estou acostumada a ser tocada por lava viva, mesmo que a sua não me queime, o aspecto não me é agradável aos sentidos. – ela disse olhando direto nos olhos do Governador. – no entanto, a admiração que lhe tenho é tanta e o meu desejo de habitar seu palácio após a minha morte é tão grande, que o nojo dissipa-se e transforma-se em excitação. O Governador deixou escapar uma gargalhada feroz, soltando a rainha. − Rufus, eu espero que honre esta mulher e cuide dela em vida, pois será minha rainha e sentará ao meu lado no trono quando o dia de sua morte chegar. Reinará comigo e comandará Wicnion ao meu lado pela eternidade. − Farei isso senhor. – o rei concordou com a cabeça, observando o olhar de vaidade e arrogância da rainha.

− Mas vim aqui dizer-lhes que há uma conspiração sendo tramada. A união de vocês é mais do que necessária. Casem-se e espalhem o domínio sobre as terras de Wicnion. Plantem o terror em todas as aldeias de todas as espécies, principalmente, naquelas que se julgam privilegiadas e que adoram outros deuses. − O senhor está falando... – mas antes que o rei completasse a frase, o Governador bradou. − Dos humanos, dragões, gwenos e fadas! − Devemos dominá-los ou destrui-los? – o Rei Rufus perguntou. − Domine-os! Quero que seus deuses sofram com o sofrimento deles. − Faremos isso! - a Rainha brilhava o olhar. Em seguida, o Governador retornou à água e foi submergindo, até desaparecer. Quando sumiu totalmente e a água parou de borbulhar, a rainha olhou para o Rei Rufus e sentenciou. − Casarei com você, independente das fadas, mas não passarei por idiota diante de meus súditos. Eles esperam que eu puna severamente alguém, pois sabem que meu desejo não foi atendido. − Você não quis os dez soldados. O que deseja então? − Eu quero que o General Signatus receba vinte chibatadas durante o jantar de hoje à noite! Que ele aprenda a nunca mais falhar em uma missão!

§
Não agradava ao rei ter que punir o seu melhor guerreiro e estrategista, humilhando-o publicamente, porém, o próprio General Signatus colocara-se nessa posição ao falhar na missão de capturar as fadas. Então, assim que retornou à sala do trono, o Rei Rufus mandou chamá-lo e, sem rodeios, informou-lhe sobre o castigo. Ele não permitiu que a Rainha Zerda estivesse presente durante a conversa, pois sabia que ela tornaria a situação ainda mais difícil de ser conduzida. − General, eu espero que entenda que seu fracasso colocou-o em uma situação de total exposição. – o rei desabafou constrangido. − Senhor meu rei, não concorde com isso! Surrar-me publicamente durante o jantar, onde alguns de meus homens estarão de guarda, é humilhar-me diante de meus subordinados. – o general disse tentando manter a compostura. – Eles me temem pelo poder que eu tenho, mas se eu for tratado como um qualquer, minha autoridade poderá ser questionada!

− Entendo o que me diz general, mas eu não tenho escolha. Nossas minas estão se esgotando e, sem energia, não temos como sobreviver. Precisamos com urgência da aurita que ainda existe em fartura nas terras da Rainha Zerda. Então, se ela diz que quer vê-lo surrado na frente de todos, não há o que eu possa fazer, não posso contrariá-la. – o rei preferiu manter em segredo que além da aurita, também havia a recomendação do Governador de Wicnion para que ele satisfizesse todas as vontades da rainha, temia que por isso o general o considerasse uma marionete dela. O General Signatus olhou para o rei com ódio resignado. Em silêncio, jurou vingar-se de ambos, sabendo que seu destino seria Tartharius de qualquer forma. Rei Rufus, desconfortável com a situação, percebeu o olhar do oficial e soube, naquele momento, que havia cultivado um inimigo para toda a eternidade. Sem mais palavras a serem ditas, o general recolheu-se ao seu alojamento, na área externa do castelo, e aguardou até que chegasse o momento do castigo. Nas horas seguintes, remoeu a decisão do rei e alimentou o coração com o mais puro veneno da ira, imaginando todas as formas possíveis de dor às quais gostaria de submeter o rei e a rainha. Com o orgulho ferido, ele não permitiu que nenhum dos soldados o conduzisse até à sala de jantar, caminhando sozinho e de cabeça erguida. Por se tratar do anúncio de noivado e da união dos dois reinos, havia muitos convidados presentes. A mesa principal, onde os reis sentavam-se às cabeceiras, comportava quarenta pessoas, mas o salão possuía mais vinte mesas, cada uma para vinte convidados. O general olhou em volta do salão e contou aproximadamente cinquenta soldados. Caminhou altivamente em direção ao Rei Rufus e fez-lhe a reverência devida. − Aqui estou, senhor meu rei, para o cumprimento da pena que me foi imposta. – o general disse em tom de ironia. – Onde devo posicionar-me para que o espetáculo possa ser assistido por todos os presentes? Ao perceber o tom sarcástico do general, a rainha arremessou uma taça de vinho nele e gritou enfurecida. − Como ousa usar de deboche ao falar com o rei? Percebendo que estava perdendo o controle da situação, Rei Rufus deu um soco na mesa. − Sente-se mulher! – ele disse sem se incomodar com o olhar injetado de sangue que a rainha lhe direcionou. – Este homem serve-me com devoção há mais tempo do que possa imaginar e eu o estou oferecendo de bandeja para lhe satisfazer um

capricho! Acho que não precisamos piorar esta situação! – e dirigindo-se ao oficial apontando-lhe o fundo do salão. – General Signatus, vá para aquela coluna. O general olhou na direção indicada e percebeu o carrasco pronto, de chicote na mão e os grilhões presos à pilastra. Neste momento, ele teve dúvida com relação ao seu destino. Sabia que o carrasco só era designado em situações de morte, chibatada era atribuição dos soldados. Então, qual seria a intenção do rei? Matar-lhe ou poupar-lhe do constrangimento de ser surrado por um de seus homens? Sem saber a resposta, entregou-se e deixou que suas mãos fossem acorrentadas. Sentiu sua roupa sendo rasgada nas costas pela ponta da espada do carrasco e esperou o primeiro golpe. Seriam vinte chibatadas... Uma... ele estava caçando insetos no meio da floresta. Duas... ele viu os olhos de sua mãe. Três... Quatro... não tinha mais nenhuma lembrança feliz? Cinco... Seis... o céu embluado é muito bonito. Sete... Oito... invadiram sua aldeia. Nove... atearam fogo em tudo. Dez... a cabeça de sua mãe foi decepada diante dos seus olhos! O general sentiu o sangue subir-lhe e engoliu o grito da dor que lhe invadiu a alma tão profundamente a ponto de fazer-lhe esquecer a dor física. Onze... ele atacou o soldado que matou sua mãe, arrancando-lhe o nariz com uma mordida. Doze... ele foi jogado numa cela com o corpo da mãe sem cabeça. Treze... Quatorze... mamãe, desculpe-me, meu estômago dói, preciso comer. Quinze... eu não queria ter feito o que eu fiz, perdoe-me! Dezesseis... Dezessete... o Mestre de Armas achou que ele seria um bom guerreiro. Dezoito... ah, como era bom treinar com a espada! Dezenove... Vinte... seria melhor que o matassem, para o bem deles. Ao terminar o castigo, o silêncio no salão era sepulcral. O carrasco puxou a espada e mirou com precisão, partindo com um só golpe os grilhões que mantinham o general preso à coluna. Seu corpo tombou no chão e alguns de seus soldados correram a acodi-lo, mas ele apenas levantou uma das mãos ordenando-lhes que parassem. Os soldados recuaram, tinham os olhos assustados e confusos. O General Signatus levantou-se com nítida dificuldade, cambaleando levemente e amparando-se como pôde. Esticou a mão pedindo a espada de um dos soldados, que a cedeu prontamente. Apoiou-se na arma, fazendo-a de bengala, virou-se para o rei e o reverenciou com a cabeça, mantendo seus olhos fixos nos dele. Em seguida, fez o mesmo com a rainha, que sentiu um leve arrepiar na nunca ao ser encarada pelo general. Depois, ele se retirou da sala sem olhar para trás. Podia-se sentir a respiração suspensa dos presentes, mas assim que a figura dilacerada do General Signatus deixou o salão, a rainha levantou-se com uma taça de vinho erguida na mão. − Muito bem, agora que a diversão acabou, vamos beber e comer!

Capítulo 20 Na aldeia dos dragões
Durante dois dias e duas noites, fadas e dragões caminharam praticamente em silêncio. As poucas paradas que faziam era para beberem um pouco de água e comerem algum fruto silvestre, no caso das fadas, ou capturar alguma presa, no caso dos dragões. Nunca, em Wicnion, se ouvira falar de um dragão e uma fada ocupando o mesmo espaço. O silêncio apenas tornava claro o constrangimento de ambas as espécies com aquela situação. As fadas haviam sido socorridas pelos dragões, que não entendiam direito o porquê de as terem ajudado. − Eu não posso mais continuar... – uma das fadas disse caindo por terra. E mal se escutou o baque do seu corpo contra o chão, suas companheiras a cercaram, tentando ajudá-la a se levantar. − Desculpem-me, sigam sem mim. Não quero atrasá-los, nem colocá-los em risco. − Vocês a ouviram! – disse um dos dragões. – Vamos em frente! Quanto mais rápido chegarmos à aldeia, maior será nossa chance de evitarmos uma emboscada. Os dragões continuaram andando, mas as fadas não saíram do lugar. Moghes, o líder dos dragões, voou por sobre os demais e aterrissou a frente do grupo, fechando-lhes a passagem. − Esperem! Deixem-me conversar com a Sacerdotisa antes de seguirmos. Houve um burburinho e algumas cabeças foram sacudidas negativamente soltando baforadas quentes. − Por que temos que ajudá-las? Elas são seres insignificantes! – um dos dragões bradou. – O que ganhamos ajudando-as? − Sim, ele está certo! Ajudá-las nos expõe ao rei! Agora, seremos perseguidos, pois ele sabe que interfirimos! – disse irritado outro dragão. Moghes soltou um forte brado. − Calem-se! Já lhes disse que foi um pedido do deus Dracon! Ele assumiu sua forma de dragão e disse que era importante que as ajudássemos! Além do mais, quem vocês acham que enviou os gigantes para nos cercarem? – e antes de se retirar, Moghes deu uma última ordem. – Agora, esperem aqui! Conversarei com a Sacerdotisa das fadas e logo seguiremos caminho.

Moghes olhou para Prie que acenou-lhe com a cabeça. Ambos se afastaram do grupo de forma que pudessem conversar sem serem ouvidos. Fadas de um lado, dragões do outro. Feridos dos dois lados. − O que quer conversar comigo? – a Sacerdotisa perguntou. − Não sei exatamente. – Moghes respondeu com sinceridade. – Talvez eu queira apenas ganhar tempo. A diferença de tamanho entre as duas criaturas era enorme. Por isso, o cansaço das fadas era maior. Os dragões seguiam andando, enquanto as fadas seguiam voando rente a eles, esforçando-se para acompanhá-los. − Diga-me, o que aconteceu exatamente para que os dragões viessem nos ajudar? – Prie colocou-se sobre uma pedra grande para poder olhar Moghes nos olhos. − Há seis dias eu acordei com a imagem do deus Dracon diante de mim. Levantei-me rapidamente para reverenciá-lo, mas ele interrompeu-me dizendo que não havia tempo para isso. Prie sentou-se para ouvi-lo, também sentia-se cansada fisicamente. − E o que ele disse? − Ele pediu que eu o observasse bem e, então, reparei que sua forma de guerreiro estava se transformando em dragão. Em seguida, ele falou: “Veja, sou dragão igual a vocês”. Na hora, não entendi bem o porquê dele ter feito isso. − Você já o tinha visto assim? – Prie perguntou atenciosa. − Não. Nunca o tinha visto como dragão. − E ele explicou? − Sim. Ele disse: “Quero que entenda que o que vou lhe pedir, peço-lhe como dragão e não como seu deus”. – Moghes interrompeu a narrativa como se procurasse lembrar exatamente o diálogo, palavra a palavra. – E foi aí que ele falou que os dragões deveriam ajudar a aldeia das fadas. Não acreditei naquilo. – Moghes desculpou-se logo em seguida, percebendo sua indelicadeza. – Não me leve a mal. − Não se incomode. Nem eu acreditei quando a deusa Aminah apareceu em nosso templo dizendo que a ajuda viria da aldeia dos dragões. – Prie deu de ombros. – Pensamos a mesma coisa “Por que nos ajudariam?” Ambos Ficaram em silêncio. Do lado invisível, Aminah e Dracon estavam de mãos dadas olhando para os líderes de seus povos. − Vamos Prie, peça a aliança! – Aminah sussurrava aos ouvidos da Sacerdotisa, que sentiu um leve arrepiar nas asas.

− Não seja cabeça dura Moghes, lembre-se o que eu lhe disse, ninguém estará livre dos tormentos e da dor enquanto o Governador de Wicnion não for derrubado! – Dracon cochichava ao ouvido de Moghes, que sacudiu a cabeça como se um mosquito zumbisse em seu ouvido. − Moghes – Prie falou. – e se fizéssemos uma aliança? − Uma aliança? – ele repetiu para ter certeza de que havia escutado corretamente. − Sim, uma aliança. – Prie ergueu-se da pedra onde estava e ficou rodando sobre ela, dando voltas sem sair do lugar, pensando se seria correto revelar o segredo mais bem guardado de sua espécie. − O que foi? – Moghes perguntou. – O que a está incomodando? − O que sabe sobre nós, Moghes? – a Sacerdotisa perguntou sem rodeios. − Na verdade, não muito. Nem sei como se reproduzem, já que não há exemplares machos entre vocês. – ele disse com indiferença. − Algumas de nós nascem especiais e carregam a semente que dá continuidade a nossa espécie. Elas são maiores e mais robustas. Moghes continuou. − Há boatos que dizem que vocês são capazes de curar qualquer ferimento, mesmo um ferimento letal, desde que a criatura ainda não tenha morrido. – e dando uma risada, continuou. – Mas é óbvio que isso não passa de lenda, não é mesmo? Nunca ninguém as viu fazendo isso, nem mesmo sob tortura. Moghes olhou para Prie e ela estava com o semblante sério. − E se eu lhe disser que é verdade? Que as fadas têm esse poder? Prie percebeu o olhar de incredulidade de Moghes. Então, ela voou até ele e examinou todo o seu corpo. Havia muitos ferimentos em sua couraça, mas a maioria deles era superficial. No entanto, ela notou que a orelha esquerda do dragão havia sido profundamente atingida e que mantinha-se presa por um minúsculo pedaço de carne. Com certeza ele a perderia logo e a solução seria decepá-la de uma vez para que não lhe causasse uma infecção a se espalhar por todo o organismo. − Você já viu o que aconteceu à sua orelha esquerda? − Sim. Ela lateja de dor e eu a sinto balançar. Quando paramos para saciar a sede, eu pude ver o meu reflexo na água, provavelmente, terá que ser amputada. – Moghes respondeu conformado . Mas a Sacerdotisa das fadas não respondeu e nem fez mais nenhum comentário, apenas se manteve voando sobre a orelha dilacerada. Moghes não podia

vê-la, mas ouvia o bater de suas asas como um ruído abafado. Sua audição estava comprometida. Em seguida, o som tornou-se acelerado. Prie batia suas asas tão velozmente que, caso alguém a estivesse olhando, não seria capaz de enxergá-las. Logo, um brilho se desprendeu dela, mais especificamente de suas asas. Uma poeira furtacor que era pulverizada sobre a orelha de Moghes, cicatrizando-a e dando-lhe novo aspecto. Não demorou muito para que estivesse totalmente recuperada e a fada caísse desfalecida sobre as folhas secas espalhadas pelo chão. Moghes tentou suspendê-la para colocá-la sobre a pedra na qual estivera sentada anteriormente, mas não conseguiu segurá-la com suas garras. Sua excitação era tão grande, que essa preocupação ficou em segundo plano e foi em busca de um lugar onde pudesse ver o próprio reflexo. Deixou para trás a fada inconsciente e entrou um pouco mais na floresta. Não precisou de muitos passos para encontrar uma poça com água suficiente ao seu propósito. Quando se olhou, não acreditou no que viu. Sua orelha não balançava mais, pois estava miraculosamente saudável. O dragão sacudiu a cabeça para cima e para baixo, para os lados, para frente e para trás, mas sua orelha estava definitivamente presa a ela novamente. Foi então que Moghes se lembrou que Prie estava desacordada e voltou rapidamente ao local onde a deixara. A fada continuava inconsciente. Sem saber se ela estava viva ou morta, o dragão retornou ao grupo. Todos estavam em silêncio, tombados pelos cantos. A aparência deles não poderia ser pior. Quando o perceberam se aproximar, alguns dragões ergueram a cabeça, enquanto fadas bateram suas asas agitadamente. − Onde está a nossa Sacerdotisa? – peguntou Erminea. − Ela está repousando. – Moghes respondeu, já emendando uma pergunta, para não dar espaço a mais indagações. Ele se mantinha de lado, para que não vissem sua orelha curada. – Qual de vocês é a mais próxima dela? − Sou eu mesma. – Erminea disse apreensiva, temendo pela segurança de Prie e de todas as fadas. − Venha comigo! – o dragão ordenou. Erminea voou até Moghes sentindo-se temerosa. Não imaginava o que poderia ter acontecido, mas estava com medo que o líder dos dragões tivesse decidido exterminar com o que sobrara da aldeia das fadas. Moghes parou repentinamente e apontou com a cabeça para o chão, totalmente coberto por folhas secas. A princípio, Erminea não identificou para o quê o dragão estava apontando até que viu o corpo desfalecido de Prie e voou até ele. Ela ajoelhou-se ao lado da Sacerdotisa, tomando-a nos braços, mas algo lhe chamou a atenção. Erminea percebeu que as asas de Prie estavam flácidas e sem brilho, o que só acontecia quando elas usavam “o poder”.

Duvidando de que a Sacerdotisa pudesse tê-las exposto dessa forma, Erminea olhou para Moghes e, percebendo o que tinha acontecido, soltou um grito. − Não é possível! Sua orelha! Ainda há pouco ela estava pendurada. − Eu sei. – o dragão respondeu respeitosamente. – Ela a curou. – e apontou para Prie. − Não pode ser. Por que ela faria isso? Por que correria o risco de nos exterminar de vez mostrando a você nosso dom? – a primeira auxiliar da Sacerdotisa estava atônita. − Antes que eu comece a explicar, poderia me dizer se ela está viva ou morta? − Ela está viva. Esse efeito dura apenas algumas horas. Logo ela acordará e suas asas voltarão a brilhar. – e retomando a questão principal. – Explique-me então o que a levou a ajudá-lo. − Ela propôs uma aliança entre dragões e fadas, mas eu a questionei sobre quais seriam as vantagens disso para os dragões. − E aí ela falou de nossos poderes... – Erminea não concluiu a frase, perdida nos próprios pensamentos. – Será? Sentindo-se completamente perdida diante daquele acontecimento inusitado, a fada contou a Moghes a história de sua filha, a jovem Kathiah. Perguntara-se inúmeras vezes se o Rei Rufus a capturara em busca de comprovar a existência desse poder, mas se essa havia sido sua intenção, ele não foi bem sucedido. Provavelmente a teria torturado se a Rainha Zerda não tivesse se interessado por ela, mas a pobrezinha acabou morrendo de qualquer forma. As fadas tinham um pacto de silêncio e jamais se permitiam ser vistas usando “o poder”, que nunca era aplicado em outra espécie que não fosse a delas mesmas. Eram capazes de deixar uma companheira morrer para não expor toda a aldeia, pois no dia que comprovassem que elas realmente podiam curar ferimentos profundos, as fadas perderiam sua liberdade para sempre. No entanto, Erminea entendia que se a Sacerdotisa expunha “o poder” para Moghes, é porque confiava nele. − No momento, não sou capaz de entender a atitude dela, mas confio em suas decisões. Se ela optou por revelar-se a você, não irei julgá-la. – Erminea disse resignada. − Entendo a grande responsabilidade que me foi dada com relação a guardar este segredo. Porém, preocupa-me a índole de alguns dragões. Não sei se é hora e lugar para fazermos isso. – Moghes ponderou. − Mas, e sua orelha? Todos viram como estava antes.

− Você está certa. Será que podemos fazer algo para camuflá-la? – o dragão olhou em volta buscando inspiração. − Sim. Podemos enfaixá-la com folhas de bai-bai. – a fada voou até uma árvore de galhos grossos e folhas largas e compridas, que se arrastavam até o chão. − Deixe que eu pego para você. – o dragão apenas ergueu a cabeça e soprou uma pequena língua de fogo no caule da folha, chamuscando-a até que se desprendesse da árvore e caísse no chão. Erminea pegou a folha com dificuldade, pois era muito maior do que ela, e enrolou-a em volta da orelha esquerda de Moghes, prendendo-a em si mesma. − Pronto! Está um curativo perfeito! Ninguém vai desconfiar que sua orelha está sarada sob a folha de bai-bai. − E quanto a ela? – Moghes apontou para Prie, que permanecia desacordada. – O que diremos para justificar sua inconsciência? – o dragão não havia esquecido esse detalhe. − Não sei. – Erminea falou desanimada. – Qualquer coisa que seja dita não enganará as fadas. Elas reconhecerão os sintomas. – ela estava um pouco aflita. – Não podemos esperar que ela acorde, perderíamos tempo demais. A menos que... – ela interrompeu a frase, insegura. − A menos quê...? Diga, o que pensou? – Moghes pediu ansioso. Erminea sorriu-lhe. − É, pode ser que dê certo! – a fada comemorou consigo mesma. Curioso, Moghes ouviu atentamente o plano de Erminea. Ele iria até seu grupo, enquanto ela ficaria tomando conta de Prie, e designaria um líder para conduzir os demais membros do bando rumo à aldeia dos dragões. Ela, como primeira auxiliar, iria a frente das fadas, liderando-as. Mesmo que algumas ficassem insatisfeitas, essa era a hierarquia. Ele deveria alegar que a decisão havia sido tomada na intenção deles terem a certeza de que não havia perigo à espreita e que era seguro continuarem nesse caminho. Dessa forma, Moghes voaria levando Prie consigo. Em algumas horas a Sacerdotisa recobraria a consciência e eles, então, poderiam retornar, juntando-se novamente aos demais. Moghes fez exatamente o combinado e, como Erminea previu, algumas fadas ficaram agitadas, achando que algo havia acontecido de ruim à Sacerdotisa e sua primeira auxiliar, visto que o dragão viera sozinho anunciar a decisão tomada. Ao ouvir o alvoroço, Erminea deixou momentaneamente o corpo inerte de Prie sobre a pedra e apareceu diante de todos, o que acalmou um pouco o ânimo das fadas.

− Erminea, o que está acontecendo? Onde está Prie? – a pergunta veio de uma fada roliça com bochechas rosadas. − Calma Zuleica, nossa Sacerdotisa já segue adiante, uma vez que para um dragão será fácil alcançá-la. Erminea acenou discretamente com a cabeça para Moghes, dando-lhe a deixa para que pegasse Prie e voasse para longe dali, antes que algum deles, fossem dragões ou fadas, a visse naquele estado. Imediatamente o dragão se retirou, deixando para trás o bando ainda agitado. Ao se aproximar de Prie, Moghes tentou ser o mais gentil possível ao pegá-la, mas suas garras eram brutas e ele teve dificuldade em fazê-lo, pois não queria feri-la. − Ahhhh, como você pode ser tão delicada?! – ele bradou após algumas tentativas frustradas de segurá-la entre as pontas das garras. Ele olhou em volta buscando alguma coisa que servisse para ajudá-lo e viu um galho de árvore caído no chão a pouca distância. O galho era grosso mas sua ponta estava lascada, o que serviu com perfeição para encaixá-lo sob o corpo da fada e suspendê-la. Ele então deixou-a escorregar para dentro da bolsa em seu ventre. Ele sabia que ali seria o lugar perfeito para abrigá-la, não havia escamas e era muito bem protegido, pois ali eram transportados os ovos quando necessário. Moghes percebeu que o grupo havia silenciado. Alçou voo e entendeu porque não os ouvia mais. Eles já haviam partido e de onde estava não era possível mais escutar nenhum som. O dragão olhou o bando caminhando lentamente, devido aos feridos que os atrasavam, e pensou no que Prie fez por sua orelha. − Agora eu entendo porque as fadas nunca deixaram que ninguém as visse usando o dom da cura. – Moghes disse a si mesmo. – Qualquer exército que tiver esse trunfo na manga, ganhará uma guerra Em seguida, o dragão bateu as pesadas asas e seguiu em direção à sua aldeia. A luz irradiada por Flav, a estrela amarela, supria-lhe da energia necessária para voar longas distâncias sem precisar parar. Não sentia-se seguro em estar sozinho, pois ainda estavam a meio caminho do destino, por isso, ansiava que a fada despertasse para que pudessem retornar ao grupo. Como líder dos dragões, raramente se ausentava da aldeia e quando o fazia não se afastava muito dela. Há tempos não voava livre no céu, renovando seu calor interno e sentindo o vento sendo quebrado em sua cara. Aproveitou a solidão momentânea para reviver momentos que não lhe pertenciam mais. Subiu o mais alto que pôde, apenas para mergulhar velozmente em direção ao solo, testando sua habilidade em voos rasantes. Chocou-se

propositalmente contra um lago, perseguiu chenevolus que lhe atiraram lanças inofensivas contra sua couraça, desenhou na face de uma gigantesca rocha com seu jato de fogo e subiu até o topo da montanha mais alta que avistou. Lá de cima, sentiuse confiante e admirou o horizonte de Wicnion. − Nossa! Não me lembrava o quanto é bom voar livremente! Admirou Blu despontando no céu e sabia que, logo, sua aldeia estaria completamente coberta pela manta violeta do satélite. E permanecendo no topo da montanha, Moghes abriu as asas, cerrou os olhos e sentiu os últimos raios de Flav a aquecer-lhe, fazendo força para manter-se nessa posição, devido à pressão que o vento exercia sobre ele. Deu um último mergulho no abismo e aterrissou à beira de um córrego. Observou seu reflexo e admirou-se mais uma vez ao pensar em sua orelha intacta sob a folha de bai-bai, como se nunca tivesse sido atingida. − Onde estamos? Por que me colocou aqui? Moghes ouviu a voz de Prie e percebeu que a fada estava tentando sair da bolsa em seu ventre, mas não tinha força suficiente para abri-la, ficando apenas com a cabeça e os braços para fora. − Seja bem-vinda de volta, Sacerdotisa! – o dragão disse com alegria, abrindo a bolsa com a ponta da garra para que Prie pudesse sair dela. A fada o olhou com desconfiança. Algo estava diferente em Moghes. − Você está sorrindo? – ela perguntou-lhe. – O que aconteceu? Por que esta folha de bai-bai na sua orelha? Eu não a curei? − Sinto-me vivo, pequenina! E minha orelha está novíssima, muito obrigado mesmo! Isso foi apenas para mantermos o “poder” em segredo por enquanto. – Moghes respondeu dando-lhe uma piscadela de olho. – Agora, vamos! Precisamos retornar e nos juntarmos ao grupo novamente. No caminho lhe explicarei tudo que precisa saber. − Você me chamou de pequenina? – Prie perguntou ainda sem entender o que havia causado a mudança de humor do dragão. − Sim, mas não se ofenda! Entenda isso como um apelido carinhoso e... relaxe! – Moghes disse soltando uma gostosa gargalhada. − Relaxe?! – a fada repetiu para si mesma, achando que ele, provavelmente, havia inalado alguma das muitas ervas alucinógenas existentes em Wicnion. Moghes se abaixou e Prie sentou no topo de sua cabeça, apesar de não se sentir muito segura devido ao seu comportamento estranho, mas o dragão foi bastante cuidadoso e manteve-se voando baixo e lentamente para que pudessem conversar.

Depois, quando tudo já estava esclarecido, eles acharam melhor que a fada retornasse à bolsa no ventre de Moghes pois, assim, ele poderia voar mais alto e mais rápido. Não demorou muito para que encontrassem o grupo acampado em uma clareira. Foram mais três dias de caminhada até chegarem à entrada do Vale Rochoso e todos perceberam a mudança em Moghes. O temperamento de um líder influencia diretamente no ânimo daqueles que o seguem. O grupo ficou mais unido. Os dragões tornaram-se mais agradáveis com as fadas e mesmo que ainda não soubessem sobre o dom de cura delas, eles já não achavam perda de tempo ajudá-las. Moghes e Prie passavam o dia conversando e compartilhando os conhecimentos de cada aldeia. As fadas ensinavam a preparação de unguentos poderosos com folhas extraídas da floresta. Dracon e Aminah assistiam a tudo otimistas e acompanhavam o grupo animadamente. Eles sabiam que, temporariamente, não precisariam temer os gigantes. Quando o grupo de dragões saiu em direção à Aldeia das Fadas, eles os seguiram, mas eram muito lentos, com certeza ainda estariam no caminho. Passaram a noite contando piadas de gigantes e divertindo-se com a falta de inteligência da espécie. - Por que gigantes não têm asas? – perguntou um dragão. - Porque se vissem uma borboleta achariam que eram irmãos! – uma fada respondeu e todos destaram a rir. O dia amanhecia quando se depararam com o vale cheio de escarpas. As fadas olharam com angústia para as rochas pontudas que subiam rasgando o céu. O local era árido e não havia como seguirem em frente, a menos que voassem por sobre as rochas, o que para elas parecia inviável, pois não suportariam a pressão naquela altura. Por outro lado, os dragões mostravam-se excitados e felizes. − Não podemos segui-los aqui! – Prie disse a Moghes. – É muito alto, não conseguiremos voar sobre as rochas. − Daqui não há volta! – Moghes declarou sem hesitação. – E se nós dermos uma ajudinha? – ele abriu a bolsa em seu ventre sinalizando para que a fada entrasse nela. Em seguida, todos os dragões fizeram o mesmo e as fadas, a princípio inseguras, logo se entusiasmaram com a ideia assim que viram Prie tomar a iniciativa. Moghes, a frente do grupo, voou rente à rocha mais alta, subindo em um ângulo de 90° e, quando todo o grupo se reuniu novamente, os dragões caminharam pelas pedras entulhadas umas sobre as outras até que surgiu uma fenda. Moghes se

espremeu por ela com bastante dificuldade, descendo agarrado às pedras, e à medida que descia, a fenda ia se alargando. Em pouco tempo avistaram uma abertura lateral na rocha, por onde ele entrou. Era um túnel longo e escuro e, mesmo sem nenhuma visibilidade, ele voou com toda a segurança de quem já fizera esse caminho inúmeras vezes. Os dragões o seguiam em fila até que, finalmente, a escuridão foi dando lugar a uma suave claridade que se intensificou rapidamente, deixando aparente a saída do túnel. Os dragões atiraram-se à luz com piruetas e urros que cortavam o silêncio do vale. As fadas, com muito esforço, colocaram suas cabeças para fora e não foram capazes de acreditar nos próprios olhos. Nunca em suas vidas, jamais imaginaram que pudesse existir a quantidade de cores vislumbradas naquele lugar. A aurita, que era tida como um minério disponível apenas na profundidade da terra, brotava sobre aquele solo na mesma proporção das flores, tornando a paisagem cintilante. Para todo lado havia cascatas e córregos, e os tons de verde eram tantos, que não era possível contá-los. − Pela deusa Aminah! Nunca vi tanta beleza! – Prie exclamou agarrada a Moghes. − Tenho que concordar com você, pequenina! – Moghes falou vibrando de alegria. – Seja bem-vinda à Aldeia dos Dragões!

Capítulo 21 O Conselho Universal
Na parede de pedra da sala de Mestre Carama, o relógio marcava 1711 de 21 de xali. Em poucas horas começaria a reunião do Conselho Universal e era necessário verificar a segurança do Portal mais uma vez. O teor da reunião era absolutamente sigiloso, pois trataria do nascimento do novo Governador de Wicnion. Todos os voluntários já haviam sido convocados e estavam, atualmente, recebendo as orientações e o treinamento adequado durante o sono. A maioria deles não se recordava do fato de que renasceria em Wicnion e, por isso, não poderia participar da construção genética do corpo físico que habitaria, cabendo exclusivamente aos laboratórios do Portal de Anaya essa tarefa. No entanto, havia um grupo de voluntários que desempenharia papel relevante na retomada de Wicnion e que, portanto, atuaria ativamente em cada etapa do processo a partir da reunião do Conselho. Todos os convocados haviam sido consultados sobre o interesse em participar da missão e somente os que concordaram com ela é que foram designados como voluntários. Por questão de segurança, a conversa com Mestre Carama foi bloqueada em suas mentes, para evitar vazamento de informação. Era muito importante que Gabhar, o atual Governador de Wicnion, não desconfiasse de nada. Os voluntários nasceriam nas diversas aldeias do planeta e deveriam alimentar os corações de esperança anunciando a chegada daquele que iniciaria a transformação de Wicnion espalhando paz e harmonia por onde passassem. Devido à diferença vibracional, os espíritos que habitavam Slaggelann e Thartarius não eram capazes de ver os visitantes da Colônia Wicniana que andavam por essas camadas estudando seus hábitos e costumes. Porém, os que vinham da colônia não podiam permanecer nesses locais por muito tempo sem que isso os afetasse energeticamente. Excursões a essas camadas sempre terminavam em longos tratamentos com um Energizador. Mestre Carama sabia que os cientistas do Castelo de Chabon estavam desenvolvendo um aparato que os permitisse enxergar em qualquer frequência e que assim que essa tecnologia estivesse disponível, eles inspirariam os cientistas de Wicnion a desenvolvê-la no mundo físico também. Esse era um motivo mais do que relevante para que o renascimento dos voluntários ocorresse o mais breve possível. Os habitantes de Slaggelann não buscavam o renascimento. Consideravam-se privilegiados por não habitarem Thartarius e por não terem que se submeter a um

corpo físico. A maioria vivia de pequenos serviços prestados, quase sempre envolvendo vingança contra algum indivíduo de Wicnion. Eram invocados pelos carnudos, forma como chamavam os que ainda estavam vivos, mas essas ações representavam riscos para ambos os lados. Aqueles que dominavam a manipulação de energia eram capazes de manter sob seu domínio os espíritos chamados a executar algum trabalho, transformando-os em espectros sem vontade própria. Por outro lado, os que invocavam sem dominar a prática, se sujeitavam aos caprichos dos malfeitores de Slaggelann e, dificilmente, conseguiam se libertar do contrato firmado. Em ambos os casos, o jugo continuava mesmo depois que o opressor ou oprimido, dependendo do caso, atravessava a fronteira da morte. Wicnion possuía mais de vinte bilhões de habitantes distribuídos em milhares de aldeias, pequenos reinos e dois impérios maiores, os únicos que possuíam cidades estruturadas. No início, cada aldeia adorava ao seu próprio deus mas, à medida que a linhagem dos lobos e dos fenecos foi se espalhando e dominando outras espécies, eles impuseram a adoração a Gabhar, Rei de Thartarius e Governador de Wicnion. Qualquer aldeia que fosse pega adorando outros deuses ou à Fonte Original era dizimada e seus habitantes levados como escravos para as minas de aurita. Mesmo assim, quatro aldeias mantinham a resistência, negando-se a abrir mão de sua cultura, continuando a adorar seus deuses e renegando Gabhar. Eram os humanos, os gwenos, as fadas e os dragões. Esses povos estabeleceram-se em áreas de difícil acesso e recorriam à natureza para ajudá-los a manter suas aldeias camufladas, tornando-as esconderijos seguros para seus descendentes. Havia ainda outros dois grupos de rebelados que viviam como nômades, pois devido às diferentes características de seus indivíduos, não conseguiam se manter muito tempo em um mesmo habitat. O grupo maior era dos misturados, frutos das relações sexuais de espécies distintas. Eles não adoravam a nenhum deus e não acreditavam na existência da Fonte Original, mas eram extremamente solidários uns com os outros e recolhiam os recém-nascidos abandonados pelas mães. O outro grupo era formado por desertores das demais aldeias, que não acreditavam em Gabhar como seu deus. Eles não permitiam o cruzamento das espécies e, caso acontecesse, os pais eram expulsos da tribo junto com o recém-nascido e abandonados à própria sorte. As espécies selvagens, como os Chenevolus, não costumavam ser incomodadas, a menos que estivessem ocupando alguma área desejada pela água, pelo minério ou pela caça. Às vezes eram perseguidos apenas por diversão. O Rei Rufus era o líder da linhagem dos lobos e também ocupava o trono dos reis, o que

significava que sua palavra era decisiva e deveria ser acatada pelos reinos menores e também pela líder dos fenecos, a Rainha Zerda. Nascer em Wicnion não era tarefa fácil. O medo de ser levado para Thartarius era tão grande que os espíritos daqueles que morriam costumavam permanecer junto aos vivos, acompanhando-os. Somente eram levados para o posto avançado de Quartarius quando pediam ajuda mas, nem sempre concordavam em renascer em suas aldeias, desejando ir para outros orbes, por isso, o número de resistentes era cada vez menor, tornando urgente a força-tarefa para o nascimento de quinhentos mil novos wicnianos que tinham como missão, fortalecer a fé e arrebanhar novos seguidores para receberem o futuro Governador. Fora das aldeias rebeladas, o destino raramente era outro que não Slaggelann ou Thartarius. Os Coletores eram recolhedores de almas que circulavam livremente pelas duas camadas levando espectros vagantes capturados em Wicnion. O ciclo de nascimento e morte era vicioso, pois nenhum espírito se arriscava a pedir ajuda à Quartarius, com medo de ser descoberto e sofrer o castigo imposto por Gabhar aos desertores, o fogo ardente e eterno do calabouço do Castelo de Chabon, de onde jamais alguém conseguiu fugir ou ser resgatado. Recentemente, com a ajuda de alguns voluntários, 85 wicnianos haviam sido levados à colônia, onde se recuperaram o suficiente para serem encaminhados a outros orbes. Oitenta pertenciam às aldeias rebeladas, os outros cinco eram duas mães com seus filhos misturados, que se recusaram a tirar-lhes à vida e, por isso, foram mortas junto com eles implorando clemência aos deuses. Eles foram trancados em uma construção abandonada, onde os soldados do Rei Rufus atearam fogo. As súplicas chegaram a Quartarius e, imediatamente, três voluntários socorreram os pobres espíritos antes que os Coletores entendessem o que havia acontecido. Em geral, os apelos eram feitos a Gabhar, que se alimentava dessa dor, tornando-se mais forte e poderoso, divertindo-se com o sofrimento das criaturas e condenando-lhes a tratamentos muito mais cruéis quando era invocado. Para nascer era preciso que o espírito fosse destituído de sua aparência física e moldado na forma do óvulo, carregando junto consigo o seu mapa genético, criado por ele mesmo a partir das características de combinação disponíveis do pai e da mãe. Em Wicnion, devido ao alto índice de mortalidade, os nascimentos mais pareciam uma linha de produção, com características genéticas pré-determinadas. A única exceção eram os misturados, onde não havia interferência na constituição genética, cabendo ao organismo físico formar a nova criatura. Enquanto Luvelann e Quartarius auxiliavam no ciclo de vida e morte das aldeias rebeladas, das espécies

selvagens e daqueles que, porventura, conseguissem pedir ajuda, Slaggelann e Thartarius faziam o mesmo com todas as demais aldeias e reinos de Wicnion. Já os misturados, que não pediam ajuda e nem recebiam a visita dos Coletores, cuidavam de si mesmos e faziam tudo de forma muito precária. A colocação do óvulo era feita no exato momento da fecundação e, se de um lado, os voluntários de Quartarius faziam isso com respeito e amor, por outro lado, os degenerados de Slaggelann transformavam a tarefa em um circo erótico, fazendo dos estupros diversão e tratando a nova vida com deboche e descaso, sabendo que tanto fazia de que lado o espírito estava pois, tanto no mundo invisível quanto vivendo entre os carnudos, o sofrimento era a única certeza na sua existência. Mestre Carama estava perdido em seus pensamentos, ciente de que teria a árdua tarefa de enfrentar o Conselho Universal mais uma vez pois, apesar de tudo, ainda dependia do consentimento dele para que o plano de retomada de Wicnion seguisse adiante. Ele se levantou de sua cadeira de pedra e dirigiu-se ao projetor multidimensional, acionando-o. Aguardou alguns instantes até que tudo ficou branco. Mestre Carama colocou uma proteção nos olhos e atravessou da sua sala para o branco infinito. Ele parecia flutuar no ambiente, mas não estava. Tudo era tão claro que não era possível distinguir qualquer divisão entre chão, paredes e teto. − Senhores, muito obrigado por esta reunião. Que a energia da Fonte Original esteja com vocês! – Mestre Carama disse humildemente, fazendo uma reverência com a cabeça. − Seja bem-vindo Carama! Que a energia da Fonte Original esteja com você também! Mestre Carama estava na sala do Conselho Universal, as energias criadoras do Portal que não se manifestavam em formas visuais e que eram apenas luz. − Que assim seja! – Mestre Carama disse retribuindo a saudação. – A missão para a regeneração de Wicnion está pronta, aguardamos apenas a permissão dos senhores. − Carama, você realmente acredita na conversão desse orbe? – uma voz grave perguntou. − Sim, eu acredito e tenho quinhentos mil voluntários que irão nos ajudar! Além daquele que se ofereceu em missão para ser o novo Governador de Wicnion, sabendo de tudo que terá que sofrer até ocupar esse posto. – Mestre Carama disse com convicção.

− A missão é nobre, mas Gabhar não abrirá mão de Wicnion e corremos o risco de perdermos muitos desses espíritos para ele. – outra voz, dessa vez menos grave, falou. − Gabhar é orgulhoso! Nunca admitiu que seu projeto não foi bem sucedido e recusase a entregar Wicnion. Distanciou-se da luz e buscou as trevas. É corrupto, vaidoso, violento e desprovido de qualquer emoção positiva. – disse a voz grave novamente. − Estamos cientes disso, mas precisamos tentar. Se acreditamos no amor como solução, como podemos abandonar esses espíritos em meio a tanto sofrimento sem nada fazermos? – o Governador do Portal disse sem afetação. − Ele está certo senhores. – disse uma voz suave e gentil. – Devemos abençoar esta missão. − Esta é a vontade da Fonte Original. – desta vez foi uma voz infantil que se manifestou. Durante algumas horas, os membros do Conselho Universal discutiram a situação entre si, ponderando os prós e os contras da missão. O maior temor era que Gabhar se apoderasse do espírito do novo Governador, pois ele era o único que podia vencer a barreira vibracional e realizar este feito. No entanto, eles sabiam que a todos deveria ser dada a chance da conversão pelo amor. Mestre Carama aguardou com paciência sem opinar ou interromper a discussão. − Está bem, Carama. Abençoaremos esta missão e acompanharemos a tudo sem interferência, como é a lei. No entanto, esteja ciente que se ela for mal sucedida, Wicnion será destruída definitivamente. A maioria de seus espíritos se tornará lixo cósmico, retornando à Fonte Original como se nunca tivesse existido e isso inclui os voluntários. – a voz grave declarou enfaticamente. − Entendo o que dizem, mas eles foram informados dos riscos quando aceitaram a missão. – Mestre Carama respondeu consciente da responsabilidade que lhe caía sobre os ombros. − Então, que a Fonte Original esteja conosco e que tudo corra conforme o planejado. – disse a voz suave e gentil. Mestre Carama uniu as palmas das mãos e se despediu com uma reverência, retornando à sua sala pela passagem aberta no projetor multidimensional. Imediatamente, contatou Ariel e passou-lhe uma pequena lista de voluntários que deveriam comparecer à sua sala junto com ela: Adália Kuanna, Akólouthos Acolyte,

Earl Witz, Esdras Ezra, Gregório Akil, Grant Pustak, Homa Gelisah, Kathiah, Lui Mandrós, Mila Duncan e Zogham Quercus.

§
Havia um silêncio desconfortável na sala de Mestre Carama. Exceto por Ariel, Akólouthos e Mila, nenhum dos presentes sabia o porquê de ter sido convocado pelo Governador do Portal. − Sei que devem estar curiosos do motivo pelo qual estão aqui mas, em poucos instantes, tudo será explicado. Estamos apenas aguardando um convidado. – Mestre Carama disse gentilmente. Akólouthos estava surpreso com a presença de sua colega de trabalho, Homa Gelisah, mas não disse nada. Ele e Mila sentiram um leve incômodo pois, teoricamente, deveriam estar na mesma situação dos demais, desconhecedores do teor daquela reunião. Olharam sorrateiramente um para o outro, deixando transparecer o receio de serem descobertos. − Agora não fará mais diferença. – Mestre Carama falou alternando o olhar entre os dois amigos. – Toda a informação será revelada neste momento. Nenhum dos presentes entendeu o comentário feito pelo Governador do Portal, mas Akólouthos teve vontade de desaparecer dali e Mila, se pudesse, teria se transformado em um dos tritiuns que caminhavam pela ponte sobre o lago e que faziam parte do ambiente. Os demais olharam para eles esperando uma resposta. − S-s-senhor, nós... – Mila tentou encontrar as palavras para justificar o fato dela e Akólouthos terem burlado o procedimento, mas nada lhe ocorria. − Como eu disse, Mila, agora não fará diferença. – Mestre Carama falou sem demonstrar recriminação em seu tom de voz. – Mas espero que entendam que a confiança é a base de um acordo e não irei tolerar mais nenhuma atitude que coloque em risco esta missão. O silêncio e o constrangimento na sala tornaram-se ainda maiores. Mila e Akólouthos desejaram, no mesmo instante, serem pulverizados e devolvidos à Fonte Original naquele momento! Lui Mandrós olhou para Akólouthos com um sorriso debochado. Sem saber exatamente o que o vizinho tinha feito, mas internamente satisfeito por vê-lo cometer um deslize. Felizmente, o projetor multidimensional acendeu sozinho, dando passagem a uma forte luz branca que inundou o ambiente. Vidrados no projetor, os presentes viram atravessar por ele o que, a princípio, pensaram ser um Sublime, mas logo a luz perdeu sua intensidade deixando visível um

homem de altura mediana, pele parda e um belo sorriso em sua fisionomia comum. Trajava uma túnica verde clara e estava descalço. Seja bem-vindo Tedros, estávamos lhe esperando. – Mestre Carama saudou o homem de sorriso cativante. − Eu me atrasei? – o homem perguntou sem jeito. − De forma alguma! – Mestre Carama antecipou em responder. – Achei melhor nos reunirmos antes para recebê-lo. Tão logo ele se acomodou na única cadeira vazia, o Governador do Portal dirigiu-se aos presentes. − Amigos, agradeço a presença de todos. Sei que estão ansiosos por saber o teor da convocação mas, antes de mais nada, é preciso que saibam que essa informação já está em vocês, apenas não se lembram dela. Mestre Carama aguardou a troca de olhares interrogativos e os burburinhos cessarem para continuar a falar. − Anteriormente, todos vocês estiveram comigo individualmente, onde foram indagados sobre a disponibilidade e interesse em participar de uma ambiciosa missão. – e, mais uma vez, ele esperou que os olhares de surpresa se acalmassem para continuar a falar. – O fato de estarem aqui hoje, significa que todos responderam sim a essa convocação prévia. Adália Kuanna levantou o dedo timidamente. − Sim, pode falar Adália. – Mestre Carama incentivou-a. − Por que então não lembramos de nada? Quero dizer, não posso falar pelos outros, mas eu não faço ideia de que missão o senhor está falando. À exceção de Tedros, Ariel, Akólouthos e Mila, todos os demais concordaram com a mocinha de pescoço longo e dentes brancos sem caninos. − Porque nossa conversa foi bloqueada em sua mente, para evitar vazamento de informação. Por isso, preciso que fechem os olhos e relaxem, pois irei remover o código de segurança para que se lembrem de tudo agora. Mila e Akólouthos entreolharam-se sem saber o que fazer. − Vocês também. – Mestre Carama informou. – Apesar de terem negligenciado as recomendações e conversado entre si sobre a convocação, há muito mais a ser revelado em suas mentes. Os únicos que estão dispensados do exercício são Tedros, Kathiah e Ariel.

Imediatamente todos seguiram as instruções de Mestre Carama que conduziu o relaxamento com os passos necessários ao desbloqueio de suas mentes. À medida que se recordavam da primeira conversa com ele, seus semblantes iam se transformando. Adália e Homa arregalaram os olhos surpresas. Mila e Akólouthos sorriram assustados e felizes ao mesmo tempo. Earl, apesar de sua aparência juvenil, tinha malícia e luxúria no olhar. Gregório, Esdras e Grant estavam sérios e compenetrados. Zogham olhou para Tedros e fez uma sutil reverência, mas foi Lui Mandrós o primeiro a falar. − Nascer em Wicnion? Eu não posso ter concordado com isto! Só um louco aceitaria essa missão voluntariamente! − Você aceitou em troca da quitação de todas as suas dívidas e de uma ampla casa no Anexo dos Condomínios Residenciais. – Mestre Carama explicou serenamente. Lui Mandrós pensou um pouco e achou que uma vida curta em Wicnion valeria à pena as regalias futuras. − Bem, neste caso, acho que posso ser um dos voluntários. Mestre Carama apenas sorriu. Depois, ele explicou a estrutura das cinco aldeias rebeladas, excluindo a dos misturados, e antes de pedir que cada um se apresentasse e falasse um pouco de sua missão, ele informou que ela também contava com a participação ativa de dois dragões voluntários e uma amiga do diretor da Colônia Provisória. − Dragões não utilizam yoctocabines porque não cabem nelas, e não se sentem à vontade circulando pelo Portal, por isso, quase não se ausentam de seu anexo. – ele não falou da amiga do diretor e ninguém se sentiu à vontade para perguntar. O fato era que eles haviam aceitado o voluntariado e já estavam cientes da parte que lhes caberia. Assim que concluiu o que tinha a dizer, Mestre Carama pediu a Adália e Homa que falassem. − Olá. Eu me chamo Adália Kuanna e irei nascer na aldeia rebelada dos nômades. Minha missão será convencer o líder de então, a aceitar os misturados e a unir forças com as quatro aldeias resistentes. − E eu sou Homa Gelisah. Pelo que entendi, serei irmã de Adália e ajudarei na mesma missão. Mestre Carama confirmou a informação e pediu a Earl, que estava à esquerda de Adália, que fizesse o mesmo. − Olá! Eu sou Earl Witz e estou muito satisfeito com esta missão. Gosto das experiências que somente um corpo físico é capaz de proporcionar, então, é com

prazer que nascerei na Aldeia dos Humanos – e olhando para Mila – uma vez que o costume local permite a um homem ter várias esposas, espero contribuir para a evolução de muitas delas. Mila olhou para o colega sem acreditar na declaração feita por ele diante de Mestre Carama que, mais uma vez, limitou-se a sorrir e passou a palavra a Esdras. − Olá a todos! Que a Fonte Original esteja conosco! Eu sou Esdras Ezra e nascerei na Aldeia dos Gwenos com uma missão similar a da srta. Kuanna. Devo influenciar o líder da aldeia a estabelecer uma aliança com os demais resistentes. Em seguida, Gregório Akil se apresentou como futuro irmão caçula de Esdras. Kathiah contou um pouco de sua história e da conversa com a guardiã Aminah Zerlinda e todos ficaram bastante comovidos. Akólouthos, que nasceria na Aldeia dos Humanos, falou de Valente e de como o cãozinho, com a ajuda de Mila e a permissão de Mestre Carama, viria a nascer um chenevolu em Wicnion. − Quer dizer que todo esse tempo você mantinha o Valente irregular em sua casa? – Lui Mandrós comentou malicioso. – Caramba, pelo que estou descobrindo hoje, no final das contas, você não é tão certinho como parece, não é mesmo? Akólouthos sorriu sem jeito, bastante constrangido, mas Mestre Carama ignorou o comentário e pediu que Lui falasse de sua missão. − Acho que todos entenderam que eu só aceitei essa sandice porque a vida não tem sido muito generosa comigo e tenho algumas dívidas a saldar com o Portal de Anaya, que está me ameaçando de despejo. – e olhando indiferente para os demais. – e pela minha aparência fica óbvio que sou humano. Mestre Carama agradeceu a participação de Lui Mandrós e passou a palavra a Grant Pustak, que saudou a todos com a energia da Fonte Original e, com o semblante bastante sério, informou que seria o responsável por registrar a trajetória do novo Governador de Wicnion, desde seu nascimento até sua passagem de volta para o mundo astral, onde aconteceria o real combate para tomada de Tartharius, pois Wicnion só seria livre depois que Gabhar fosse derrotado. Ainda faltavam algumas apresentações, mas essas foram feitas pelo próprio Mestre Carama. Mila Duncan permaneceria no Portal para dar suporte aos humanos na construção de seus mapas genéticos, ajudar Valente a evoluir para um chenevolu e, o mais importante de tudo, fazer parte do grupo responsável pela alteração no DNA das espécies que extinguiria a panmixia de Wicnion. Ariel, assim como Adália, nasceria na aldeia dos rebelados e deveria desposar o líder da aldeia.

− Isso significa que Mila não irá nascer em Wicnion como nós? Por quê? – Lui perguntou com uma certa pontada de despeito. − Exatamente. – Mestre Carama respondeu sem considerar a intenção de Lui. – Porque seus conhecimentos de Genética serão mais relevantes nos laboratórios. – e voltando-se para Zogham – Agora, deixe-me apresentar Zogham Quercus, para quem ainda não o conhece. Ele será o líder da Aldeia dos Humanos e tutor do novo Governador de Wicnion. Deverá zelar para que ele ocupe o trono dos reis e cumpra a promessa de salvação do planeta. A declaração de Mestre Carama tornou inevitável que todos o olhassem com admiração e respeito, até mesmo Lui Mandrós reconheceu o peso da missão de Zogham, que manteve-se sereno, apenas retribuindo os comentários enaltecedores com um modesto sorriso. E somente quando todos se aquietaram é que Mestre Carama apresentou o último convocado. − Então, é chegada a hora de vocês conhecerem Tedros. – ele disse, levantando-se – Por favor, saúdam o novo Governador de Wicnion!

Capítulo 22 A evolução de Valente
− Nem acredito que o Valente vai se tornar um chenevolu! Akólouthos andava de um lado para o outro na sala de espera do Centro de Progressão Evolutiva da Colônia Provisória, onde o cãozinho havia sido internado. − Melhor você se sentar. Está me deixando zonza! – Mila repreendeu o amigo. − Você já conheceu o Orientador dele? – o rapaz perguntou enquanto se acomodava no assento ao lado da amiga. − Ainda não, mas acho que iremos conhecê-lo hoje. – ela respondeu sem tirar os olhos da revista que estava folheando. − Eu só não esperava que o Valente fosse para Wicnion! – Akólouthos falou bastante preocupado. Durante uma hora os dois amigos aguardaram na sala de espera. Mila tentava a qualquer custo acalmar Akólouthos, mas o rapaz não se aquietava. Repetiu várias vezes a história de quando encontrou o cachorrinho dentro de uma caixa na porta da Letras e Acessórios Astrais e de como estava machucado. Lembrava-se dos momentos alegres ao lado de Valente e de como estava feliz em participar da evolução dele. O Centro de Progressão Evolutiva da colônia possuía um laboratório genético mas, antes, Valente passaria por vários testes de inteligência para garantir sua total adaptação a um corpo mais desenvolvido e com maior potencial de aprendizagem. Um homem de pele brilhante veio até à sala chamá-los. − Por gentileza, Sr. Acolyte? − Sim, sou eu! – Akólouthos respondeu prontamente, já se levantando. − Poderia vir comigo? – o homem disse num sorriso. – Vamos ver o Valente agora. No mesmo instante, Akólouthos puxou Mila pelo braço, que nem protestou porque sabia que não adiantaria de nada reclamar, e saiu atrás do neoniano que os chamara. Eles caminharam por um longo corredor e, pelas poucas portas entreabertas, eles puderam ver vários animais pré-conscientes rodeados por grupos vestidos de branco. Não foi diferente quando entraram na sala onde Valente se encontrava. O cãozinho estava deitado em uma cama hospitalar rodeado por quatro indivíduos trajando roupas brancas. Mila reconheceu, pelo uniforme, que eram dois

geneticistas e dois auxiliares. Ao se aproximarem, Akólouthos percebeu que Valente estava acordado pois, assim que o viu, o cachorrinho começou a latir

compulsivamente. O rapaz pediu licença e se aproximou do amigo, acariciando-lhe a cabeça. − Oi, Valente! Eu entendo que você discorde disso agora mas, não se preocupe, dará tudo certo! – Akólouthos estava com o coração partido, mas sabia que era o melhor a fazer. − Ele está muito agitado, mas passou em todos os testes de inteligência. – disse um dos homens de branco. – Vamos aplicar-lhe algo para que relaxe um pouco, tudo bem? − Haveria a possibilidade de eu ficar a sós com ele por uns instantes? – Akólouthos pediu emocionando-se. – Prometo que não irei demorar. − Ok. – o homem concordou. – Estaremos no corredor, nos chame quando terminar. Os quatro homens de vestimenta branca e Mila afastaram-se de Akólouthos e Valente indo em direção à porta. − Mila, você não! – o rapaz pediu com a voz trêmula. – Fica com a gente. A amiga concordou com a cabeça e voltou, posicionando-se do outro lado da cama. Quando só estavam os três na sala, Akólouthos abraçou Valente com bastante força e o cãozinho começou a gemer. − Não tenha medo Valente, não tenha! Olha, eu vou confessar uma coisa para você. – Akólouthos levou a boca até o ouvido de Valente e disse bem baixinho. – Eu irei em missão a Wicnion e nascerei lá também! Prometo que farei de tudo para te encontrar! Ao ouvir as palavras de Akólouthos, Valente imediatamente começou a lambêlo em todo o rosto. Mila estava emocionada, afinal de contas, o cãozinho parecia realmente compreender o que lhe era dito. Ela se aproximou e os dois se abraçaram, abraçando Valente também, e assim ficaram por algum tempo, até que Mila se desvencilhou dos dois. − Acho que devemos chamá-los agora, não? Akólouthos se afastou de Valente e acenou positivamente com a cabeça. O cachorrinho estava mais calmo. Aparentemente, ele compreendera o que o amigo dissera e isso o deixara mais confiante. Mila, que havia ido ao corredor chamar a equipe de volta, retornou acompanhada dos quatro homens e uma mulher. Pelos seus traços, dava para perceber que ela era uma madra, a espécie evolutiva dos chenevolus. Bastante sorridente, ela se aproximou e estendeu a mão para Akólouthos.

− Muito prazer, eu sou Kennin, a Orientadora Aprendiz que acompanhará o Valente!

§
Havia lixo por toda a parte e o cheiro seria insuportável para quem chegasse ali pela primeira vez, mas ele já estava acostumado. Habitava aquele beco, em Slaggelann, há tanto tempo que nem se lembrava de já ter vivido em outro lugar. O sujeito tinha orelhas compridas, caídas sobre os ombros, e o olhar triste. Vestia-se bem, apesar do aspecto sujo e dos pés descalços. Na entrada do beco, passou por um grupo de prostitutas que lhe cumprimentaram com entusiasmo, mas ele as ignorou, indo direto à porta vermelho escarlate na qual deu três batidas secas. Segundos depois, uma portinhola se abriu, deixando à mostra um rosto totalmente disforme. − Ah, é você? O chefe estava te procurando! – o cara disse abrindo a porta. − Eu sei! Escutei seus gritos dentro da minha cabeça! – ele respondeu entrando apressadamente. O ambiente era escuro, com música frenética e vultos espalhados pelo salão que dançavam sem sair do lugar, repetindo os mesmos movimentos como se fossem brinquedos enguiçados. O sujeitinho de orelhas caídas atravessou o espaço sem se preocupar em desviar de ninguém mas, apesar dos esbarrões, parecia que ninguém notava sua presença. Estavam todos em transe, fosse pela música ou pelas substâncias que inalavam, talvez por ambos. Do outro lado do salão, um homem de olhos amarelos estava sentado em um sofá de veludo um pouco rasgado. Olhava-o fixamente com um sorriso de deboche. − E então Salac? Descobriu alguma coisa? − Sim, chefe, descobri! – a resposta foi imediata. − Venha! Vamos até a minha sala. O chefe levantou-se e Salac o seguiu por um corredor um pouco mais iluminado do que o salão, mas ainda assim, escuro. Um gigante cuidava da segurança daquela parte do recinto e abriu passagem rapidamente quando viu o chefe se aproximar. Os dois entraram numa sala bem decorada, de cores fortes, mas que tinha as paredes descascadas. A sala estava esfumaçada e exalava um cheiro de plástico queimado, no entanto, ao fecharem a porta, a música não era mais ouvida. Sem se dar conta, Salac sentiu um alívio momentâneo na ausência do barulho.

− O silêncio não é para criaturas como nós. – o chefe comentou sabendo o que ele estava pensando. – Há muito perigo no silêncio, pois ele te permite pensar e isso não é bom! Não é mesmo! − Sim, senhor, eu sei disso! – Salac respondeu temeroso pelos próprios pensamentos. − O que você tem para mim? – O chefe se sentou em uma cadeira de rodinhas, por trás de uma mesa preta. − Alguém do Portal de Anaya vai nascer em Wicnion! − Como é que é? – o chefe disse surpreso, apontando uma cadeira em frente para que Salac se sentasse também. – Como assim alguém do Portal vai nascer em Wicnion? − Não tenho muitos detalhes, pois a criatura da qual eu captei esse pensamento está passando por um processo de evolução. – ele falou com receio do chefe se frustrar com a informação incompleta e querer puni-lo por isso. − Desenrola essa história direito que eu estou ficando impaciente. − Esse pensamento veio de um cachorro que está sendo preparado para se tornar um chenevolu em Wicnion. – Salac falou rapidamente antes de ser interrompido. − Um cachorro?! – o chefe deu um soco na mesa. – Sua grande notícia é que um cachorro vai nascer em Wicnion como um chenevolu?! − Não senhor, não é só isso! – ele correu em explicar – Havia uma imagem no pensamento do cachorro. Um rapaz lhe dizendo que nasceria em missão em Wicnion! Com essa informação, o chefe silenciou. Levantou-se empurrando a cadeira abruptamente para trás e andou pela sala. Essa era uma informação que precisava ser estudada. Fazer o Governador saber que o Portal de Anaya preparava um missionário para nascer em Wicnion era algo pelo qual poderia ser recompensado. Por outro lado, não ter informação suficiente para responder as possíveis perguntas de Gabhar, era algo pelo qual poderia ser duramente castigado. − O que eu faço com essa informação? – o chefe perguntava a si mesmo, enquanto caminhava pela sala. Até que pareceu decidir-se. − Como você teve contato com esse animal? − Eu estava em Wicnion, zoando com uns chenevolus. O senhor sabe como eles são supersticiosos e ficam nervosos quando veem um espectro. – ele riu, mas o chefe não pareceu achar engraçado, então, ele se apressou em continuar. – De repente,

eu vi o tal cachorro correndo e latindo no meio da aldeia e percebi que ele era um espectro também. Daí, eu fiquei observando de longe e tentando imaginar o que ele estava fazendo ali. Foi quando captei seu pensamento, além dele, um humano nasceria lá também. O chefe analisou a história e tentou transformá-la em algo lógico, que fizesse sentido. − Provavelmente, ele devia estar acompanhado daquela raça arrogante de geneticistas. – ele se sentou novamente. – Foi uma excursão de reconhecimento. – concluiu. – Mas por que o humano vai em missão? Que missão? − Eu até tentei descobrir chefe, mas o cachorro me viu e começou a latir para mim, então, acho que seus acompanhantes me viram. Isso é injusto! – ele reclamou. – Eles nos veem, mas não podemos vê-los! − Por pouco tempo, meu camarada! Logo teremos recursos para nos igualarmos a essa laia. – o chefe respondeu com um sorriso malicioso na cara. − Mesmo que isso seja verdade, não teremos acesso. – Salac sabia que só os Coletores seriam contemplados com a nova tecnologia. − Talvez eu tenha! – o chefe disse com o olhar distante, e despertando de suas ideias completou. – Agora saia, é hora de agir! Decidido a levar a informação, que julgava privilegiada, ao Governador de Wicnion, o chefe esperou que Salac se retirasse. Em seguida, foi até um canto escuro da sala e acendeu uma vela que era quase da sua altura. A fraca luz foi suficiente para revelar um altar de adoração a Gabhar. O chefe se ajoelhou e começou a recitar repetidamente: − Oh, mestre supremo de Wicnion, rei de Thartarius e senhor absoluto de Slaggelann, suplico-lhe uma audiência! Após muitas e muitas repetições, o altar começou a incendiar-se, assim como o chão sob seus joelhos. Ele intensificou a súplica e seu rosto contorceu-se, sentindo o fogo em suas entranhas, pois não era capaz de desvencilhar-se das sensações físicas, fossem de prazer ou dor. Gradualmente ele foi se encolhendo e já não conseguia repetir a invocação, apenas urrava pelo fogo que lhe consumia. Seu corpo foi desaparecendo e em segundos já não estava mais em sua sala. Ainda ardia em meio às chamas que começavam a abrandar-se e, pouco a pouco, ele começou a sentir seu corpo se revitalizando. O cheiro forte de carne podre foi suavizando e somente o odor de pólvora queimada permanecia no ambiente. Ele tossiu e

movimentou a face, tocando-a para saber se ainda era a mesma. Voltou a ficar de joelhos e manteve a cabeça baixa. Sabia exatamente onde estava. − Levante-se infeliz! O que é tão importante para se sujeitar ao risco de ser condenado ao calabouço de Chabon por toda a eternidade? O chefe sentiu as pernas tremerem e chegou a pensar que não conseguiria ficar de pé diante de Gabhar. − Senhor supremo e poderoso, m-muito obrigado por me receber. – ele disse com a voz trêmula. – Eu soube que nascerá um missionário em Wicnion. Mas o rei de Thartarius nada disse. Manteve-se em silêncio observando o chefe. Vasculhou sua mente e, logo, conhecia todas as suas forças e fraquezas, suas dores e prazeres. Mesmo assim, fez questão de ouvir a história. − Fale-me sobre isso em detalhes. O chefe repetiu a história que Salac havia lhe contado e começou a se questionar se não teria se precipitado ao pedir aquela audiência com tão pouca informação. Por outro lado, Gabhar, que ouvira a narrativa sem interrompê-lo, estendeu um de seus braços, que mais parecia uma cauda, e envolveu o chefe nele, suspendendo-o do chão e trazendo-o para bem perto de seu rosto de lava borbulhante. − O que pretende ganhar com essa informação? – Gabhar encarava o chefe com um sorriso sádico. – Não minta para mim, eu sei que você quer ser recompensado por isso! E eu sei ser generoso com quem se arrisca, superando o medo. − Senhor, eu quero um dos equipamentos que permitirão criaturas como eu, enxergar aquela laia arrogante de Quartarius e Luvelann. – o chefe disse com coragem. Gabhar o atirou no chão, soltando-o e deixando escapar uma gargalhada que o fez tremer. Caminhou pelo salão pensativo, digerindo a informação. − Está bem! Assim que o aparelho ficar pronto, eu mandarei lhe entregar um. Mas assegure-se de que o que me disse é verdade. Não admito erros! Mas o chefe não teve tempo de agradecer. Gabhar o segurou novamente e o lançou com força contra uma imensa lareira acesa no outro lado do salão. Pego de surpresa, o chefe soltou um grito e sentiu o baque da sua cabeça contra a parede ao fundo. Seu corpo escorregou para o fogo e ele entendeu o que estava acontecendo. − Agora volte para o lugar de onde veio! E busque mais detalhes sobre o que acabou de me dizer!

Foi a última coisa que o chefe ouviu Gabhar dizer antes de abrir os olhos e perceber que estava em sua sala novamente.

Capítulo 23 O Ergonius
Depois de ter se projetado em sonho para Zogham e feito amor com ele, Julianna estava sendo duramente repreendida pelo Diretor Ras Yerodin. Apesar de toda suavidade em sua voz, era possível perceber que ele não ficara nada satisfeito com o que ela fizera. Ele também repreendeu sua co-Orientadora Myrthila Granjem por deixá-la tão à vontade nos estudos, sem lhe direcionar o foco do aprendizado. Julianna sentia-se extremamente frustrada e decepcionada consigo mesma. Era como se tudo que aprendera, até então, não tivesse mais significado, uma vez que se comportara como uma adolescente impulsiva e estava sendo chamada a atenção como uma criança tola. Enquanto ouvia o Diretor falar, ela não era capaz de olhar para a sra. Granjem, pois sentia-se muito envergonhada por ter traído sua confiança, colocando-a naquela situação tão vexatória. Mesmo assim, para sua surpresa, após o longo sermão, o Diretor concluiu que Julianna havia avançado muito em conhecimento e que lhe faltava apenas maturidade para lidar com toda aquela informação absorvida em tão pouco tempo. Parabenizou Myrthila Granjem pelo excelente trabalho de orientação, apesar de tudo, e Julianna, pelo empenho e progresso no aprendizado. Por isso, determinou que ambas fossem em excursão com um grupo de estudos a um planeta nível 4, de densidade similar à da Colônia Provisória e que ficassem seis meses por lá. Ao ouvir isso, Julianna olhou para a sra. Granjem que estava sorrindo para ela e ambas se abraçaram animadas com a notícia. Na Colônia, ela aprendeu que a coroação de qualquer estudo é o trabalho de campo. Isso significava ter a oportunidade de vivenciar algumas experiências sem estar presa a um corpo físico. Julianna agradeceu repetidamente à sra. Granjem, quando o Diretor pigarreou alto. − Eu ainda não concluí a minha fala. No mesmo instante, Julianna recuperou a compostura e desculpou-se com o Diretor, pedindo-lhe que continuasse. − Acho que você não precisará mais disso. – e estendeu uma das mãos em direção à Julianna. Sem acreditar no que via, a pulseira vermelha começou a desaparecer diante de seus olhos. Atônita, ela se dirigiu ao Diretor contendo a emoção. − O senhor ainda vai falar alguma coisa?

− Sim. – o Diretor disse serenamente. – Depois do trabalho de campo, vamos reavaliar o seu aprendizado e direcioná-la a algum orbe condizente com a sua capacidade para que você passe por nova experiência física. Ela não ficou muito entusiasmada com a notícia, mas sabia que mais cedo ou mais tarde isso teria que acontecer. − Tão cedo assim? − Você ainda está presa às sensações físicas Julianna, por isso, precisa vivenciá-las de verdade. Sem ter como argumentar no momento, ela não questionou a decisão do Diretor. − Está bem. – respondeu resignadamente e olhando para o punho liberto da pulseira, perguntou com um sorriso. – O senhor tem mais alguma recomendação? − Não Julianna, eu já disse tudo o que precisava ser dito. Espero que tenha compreendido. – ele concluiu sem julgar a ansiedade dela. Então, ela não conseguiu mais conter sua felicidade em ter se livrado daquela pulseira que considerava horrorosa. Pela primeira vez desde que chegara ao Portal, sentia-se parte dele e, esquecendo qualquer protocolo que por acaso existisse, atirouse nos braços do Diretor Ras Yerodin, beijando seu rosto continuamente e depois suas mãos e rodopiando pela sala, dançando como se tivesse feito um gol em uma partida final de futebol. − Eu não quero atrapalhar este momento de comemoração, mas ainda temos um assunto a tratar. – Myrthila Granjem estava com sua fisionomia séria de volta. A velhinha parecia mais enrugada do que o normal. Julianna parou de dançar e ficou congelada como uma estátua, imaginando se o que a sra. Granjem tinha a dizer poderia levar o Diretor a lhe recolocar a pulseira. − É chegada a hora de chamarmos o Ergonius. A essa altura, ela já sabia o que era um Ergonius e também sabia o motivo de precisarem chamar um. Se não fosse por sua forte conexão com Zogham, jamais teria chegado, muito menos entrado, no Portal de Anaya. Também foi graças a esse vínculo energético entre os dois que ela entrou tão facilmente em seu sonho. Apesar de não ter compreendido o porquê dele não tê-la reconhecido e de ter ficado tão confuso. Tentou perguntar à sra. Granjem, mas não teve abertura para isso. Desfazer essa conexão significava romper definitivamente o contato com Zogham e isso a entristecia muito.

− Quando faremos isso? – ela perguntou saindo da posição estática na qual ainda estava. − Hoje. – Myrthila respondeu. − E onde será? – ela perguntou sem que a resposta fosse realmente importante. − No Laboratório de Energia e Magnetismo. − Ok. – ela respondeu conformada. Julianna despediu-se do Diretor com um longo abraço, agradecendo-o mais uma vez pela sua bondade e por livrá-la da pulseira. Passou por sua co-Orientadora e segurou-lhe a mão, indo com ela em direção à saída da sala. Lá fora, o céu estava lindo, como sempre era na Colônia. Elas caminharam de mãos dadas, sem falar nada, por um longo tempo, até que Julianna quebrou o silêncio. − Desculpe-me tê-la decepcionado. – ela fez uma pausa e em seguida concluiu. – Eu o amo muito. − Tudo bem, eu sei. – a sra. Granjem limitou-se a dizer. Ela achou melhor passar o tempo na biblioteca, esperando o momento quando seria chamada ao laboratório. Surpreendeu-se ao saber que o sr. Pustak havia deixado o serviço e que, agora, havia uma outra pessoa em seu lugar. – As coisas sempre mudam. – pensou consigo mesma. – Fosse na Terra ou no Portal de Anaya, as situações nunca eram para sempre.

§
Zogham estava sozinho, aguardando em uma sala de espera, quando Julianna chegou acompanhada de Myrthila Granjem. Naquele momento, ela sentiu-se mais viva do que nunca, pois todos os sintomas naturais da paixão se manifestaram nela. O coração disparou, a boca secou e suas pernas tremeram. – Isso é psicológico, Julianna. – ela pensou. – Você não tem mais um corpo biológico, acalme-se! – ela quase gritava para si mesma em sua mente. Mas o olhar amoroso dele foi mais do que ela poderia suportar e ignorando a presença da sra. Granjem, ela correu a abraçá-lo. Ele a envolveu fortemente nos braços e afundou o rosto em seu pescoço, embaraçando-se em seus cabelos. Ela ainda exalava o mesmo perfume e, repentinamente, ele começou a ter visões com ela, amando-a em uma caverna fria. Afastou-a de si e a olhou interrogativamente, mas ela não entendeu o que ele queria saber. Zogham se dirigiu à Myrthila. − Você sabe o que está acontecendo?

− Sei e Julianna também sabe, afinal, foi ela quem criou essa situação. – a velha deu um meio sorriso, solidária ao amor daquelas duas criaturas. – Vou ver se o Ergonius já está lá dentro. Aproveitem para conversar, não terão outra oportunidade por um longo e indefinido tempo. Assim que Myrthila Granjem se retirou, Zogham e Julianna abraçaram-se novamente e sem nenhum pudor ou receio, beijaram-se e tocaram-se carinhosamente. Mas ele continuava tendo as visões. − Por que eu nos vejo em uma caverna como se fôssemos quase animais? − Você não se lembra? De nada? – e diante da negativa dele, ela deu um profundo suspiro. – Então, vamos sentar, temos muita coisa para conversar. Enquanto Myrthila Granjem não retornava para buscá-los, eles conversaram sobre tudo o que acontecera desde quando se separaram. Julianna contou sobre os estudos e tudo o que já sabia fazer com a manipulação de energia. Falou de seu relacionamento com a co-Orientadora, que agora considerava como uma pessoa muito querida e amada. Por sua vez, Zogham disse-lhe que a tinha visto há um tempo atrás, acompanhada do Diretor Ras Yerodin e que ficou de longe, admirando-a, pois não poderia se aproximar dela. Finalmente, Julianna falou do sonho. Contou como fez para entrar, o que aconteceu e o que fizeram. Ela não estava envergonhada e nem constrangida. Contava-lhe tudo detalhadamente, encarando-o com um sorriso que estava congelado em seu rosto. − Eu não acredito que tudo o que me restou foram essas lembranças pulverizadas que só estão surgindo porque seu perfume está servindo de estímulo. – ele disse inconformado. − Eu sinto muito que não se lembre, mas eu tenho cada momento guardado para sempre dentro de mim e espero que nenhum inhibere jamais o apague! Zogham riu de como ela falava naturalmente de coisas que há meses atrás lhe eram totalmente desconhecidas e que lhe deixavam irritada por não compreender. − Do que você está rindo? – ela perguntou desconfiada. − De felicidade! De vê-la tão avançada em conhecimento! Eles não perceberam a hora passar. Conversaram, beijaram-se, riram, abraçaram-se e trocaram juras de amor eterno. − Eu vou me ausentar por um tempo. – ele falou com um pouco de tristeza. − Eu também, mas talvez possamos nos ver na volta. − Para onde você vai? – ele perguntou surpreso.

− Vou para uma excursão de campo por seis meses. – ela respondeu orgulhosa. – Olha, eu nem te mostrei que estou sem a pulseira! – ela levantou a manga da blusa, pois havia se habituado a usar modelos de manga comprida para escondêla. − Uau! – ele vibrou. – Você realmente é uma vencedora! Estou feliz demais por você! Julianna não parava de sorrir. Abraçaram-se novamente e mais beijos foram trocados. Ficou imaginando o que pensariam na Colônia se os vissem assim, pois nunca observara esse tipo de comportamento em nenhum dos frequentadores. − E você? Vai orientar alguém? − Não. – ele disse desfazendo o sorriso. – Meu caso é um pouco mais complexo. Estou em uma área de isolamento e só saí porque é necessário desfazer nossa conexão. – ele baixou a voz. – Eu vou renascer. − Renascer! – ela disse levando as duas mãos à boca. – Mas como? Por quê? − Sinto muito Julianna, não posso revelar nada. É uma situação complicada em um local mais complicado ainda. – ele disse já receoso em ter falado demais. Ela ficou calada, pensativa e em seguida perguntou: − Quando vai ser isso? − Não sei ao certo, mas acho que daqui a seis ou oito meses, aproximadamente. Os dois ficaram se olhando por um tempo. − O Diretor disse que quando eu voltar da excursão, terei que renascer também. – ela mordeu os lábios e uma ideia surgiu em sua mente. – E se renascermos juntos? − Não! – Zogham respondeu assustado. – Você não pode ir para onde eu vou, lá não é o seu lugar! − Caramba! Parece que você está indo para o pior lugar do Universo! – ela reagiu à resposta dele. – A menos que esteja indo para Wicnion, o que poderia ser tão ruim? Diante do comentário de Julianna, Zogham ficou mudo. Não sabia o que dizer e, ao mesmo tempo, surpreendeu-se por ela conhecer Wicnion. Pensava em como respondê-la mas, subitamente, Julianna arregalou os olhos como se tivesse entendido que ele realmente nasceria nesse planeta. − Julianna! Zogham! Venham comigo, o Ergonius está aguardando vocês. Myrthila chegara antes que pudessem concluir a conversa. Caminharam calados e tristes por todo o corredor até chegar à sala onde seriam submetidos ao procedimento. Uma mulher bem miúda, de olhinhos pretos sem pálpebras e cabeça ligeiramente desproporcional ao corpo os aguardava. Ela usava um jaleco branco e

Julianna pôde ver dedos longos e finos, com extremidades acesas como pequenos leds, projetarem-se ao final da manga. A mulherzinha sorriu e indicou que se deitassem nos dois colchões que estavam dispostos lado a lado no chão. − Sejam bem-vindos. Meu nome é Anuar. – ela disse com uma voz muito fina e estridente. – Já posso ver o motivo pelo qual os encaminharam a mim. Vamos, deitem-se, deitem-se meus queridos! Anuar aguardou enquanto eles se acomodavam e pediu que Myrthila se retirasse da sala. − Poderá haver disparos de luz e perda de energia. – a mulherzinha disse conduzindo a sra. Granjem até a porta. – Melhor esperar lá fora. Zogham e Julianna acomodaram-se nos colchões e deram-se as mãos. Anuar encaminhou-se a eles e se ajoelhou atrás de suas cabeças. Ela via todos os feixes de luz que saíam da pineal de cada um dos dois e enroscavam-se como um emaranhado de fios. − Que bagunça está isso aqui, hein? – ela disse com sua vozinha estridente. Em seguida, com o dedo mais comprido de cada mão, ela penetrou simultaneamente o emaranhado da cabeça de cada um e tocou-lhes a pineal. Imediatamente, ambos adormeceram e os feixes de luz que antes estavam mais tensos e vibrantes, tornaram-se mais relaxados e esmaecidos. − Agora, queridos, vamos desembaraçar isso e cortar o que tiver que ser cortado. – e enquanto falava consigo mesma, Anuar ia tentando desfazer uma conexão, entre as dezenas existentes. – O feixe azul não! Mestre Carama disse que esse é o único que deve ser mantido, para vocês poderem se encontrar depois.

Capítulo 24 A origem
No início Ele era um só e toda a existência estava contida Nele e nada havia fora Dele. Ele não vagava no espaço porque o espaço ainda não existia. Ele não sabia o que era e nem porque era. Sua existência era tudo o que sabia porque sempre existiu. Não havia o antes e, por isso, não imaginava que pudesse haver o depois. Pensava e não pensava. Vivia e não vivia. Não se mexia, porque estava preso em si mesmo. Não havia palavras, porque elas não eram necessárias. Ele apenas sentia, sem dar nome ao que sentia. E assim Ele era desde sempre. Não havia passado, nem presente, nem futuro, pois o tempo não existia, nem mesmo relativamente. Em meio ao tudo que era, surgiu um incômodo. Já não bastava viver em si mesmo. Os sentimentos entraram em conflito e Ele descobriu que, apesar de ser único, Ele também era muitos e os muitos que o habitavam começaram a sentir diferente entre si. Logo, veio a desarmonia. E quando não pôde mais conter os pensamentos que buscavam o que havia fora de si, Ele os expeliu, uma parte Dele se desprendeu. E nunca houve nada similar e jamais haverá outra vez. Ele entrou em equilíbrio novamente. E os pensamentos fora Dele perderam parte do conhecimento que tinham. Juntos, eles eram Ele e sabiam tudo. Separados, o que sabiam não era suficiente. Mesmo assim, não queriam voltar, não agora. Ele também não os queria de volta, não agora. Os pensamentos não sabiam onde estavam, mas sabiam que podiam existir fora Dele, embora conectados a Ele. Por seu intermédio, os pensamentos se encontraram, mas como não sentiam as mesmas coisas, não se harmonizavam. No entanto, havia um único sentimento que lhes era comum, queriam criar algo fora Dele, acreditando que poderiam voltar a Ele se não desse certo. Dividiram-se em grupos e demarcaram o infinito. Porém, exceto pelos limites que os separavam, nada mais havia, mas quando cada grupo de pensamentos se posicionou, a criação realmente começou! Os universos surgiram, cada um com uma estrutura diferente. Em um deles, os pensamentos concentraram toda a energia não pensante que havia se desprendido Dele e em torno dela idealizaram uma forma. Quando chegaram a um consenso, houve uma grande explosão. Os pensamentos olharam em volta e gostaram do que viram, mas ainda não estavam satisfeitos. A explosão dispersou parte da energia e eles não sabiam o que fazer com ela. Decidiram criar um lugar onde pudessem

estudar várias formas de usar esta energia, nasceu o Portal de Anaya, pois Ele está conosco. E Ele os inspirava, pois ainda havia muitos dentro Dele. E de tudo que já haviam criado, nada era mais belo do que Wicnion. E Ele lhes disse “Vocês já não podem voltar para dentro de mim, pois o que saiu de mim foi por Amor e isso agora lhes falta. Há muita energia pensante vagando ainda pelo Universo que criaram. Recolham o máximo que puderem e as coloquem em Wicnion. Deixem que vivam a aventura que anseiam viver e quando reaprenderem a amar, tragam-nas de volta. Elas são parte de vocês e vocês são parte de mim, mas vocês não são maiores do que elas e nem Eu sou menor sem vocês. O que voltar para mim e não for bom, eu irei expelir de volta e assim será o movimento de fluxo e refluxo até que não haja mais nenhuma energia fora de mim novamente.” Era Nele que buscavam a inspiração para dar forma ao que era amorfo. Os pensamentos se autodenominaram Espíritos Primários. À energia que se desprendeu Dele depois, e às quais deram forma e o sopro da vida, chamaram criaturas. Os Espíritos Primários o chamaram Fonte Original, mas algumas criaturas, o chamam Deus.

O relógio do Portal de Anaya

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