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Montes Altos és meu povo

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Ficha Técnica

Título: Montes Altos és meu povo Agosto de 2008 Edição: Centro Social dos Montes Altos Capa: Blé Francisco natural de Montes Altos, o primeiro utente do Centro Social, junto às ruínas do antigo Monte Giraldo (Fotomontagem) Contra-capa: Grupo de utentes do Centro Social Revisão: Carlos Nascimento e Jaime Salvadinho Composição gráfica: Rui Serra Gráfica Mineira – Aljustrel Tiragem: 1000 exemplares

Centro Social dos Montes Altos Caixa Postal 1401 7750-408 Montes Altos Santana de Cambas Tel: 286 647 499 Fax: 286 647 613

http://www.csma.pt

csma.geral@gmail.com

Montes Altos és meu povo

CAP. I

NOTA INTRODUTÓRIA

Por Diogo Sotero

Nasceu no dia 31 de Agosto de 1993, chama-se Centro Social dos Montes Altos e

faz 15 anos dia 31 de Agosto de 2008.

Amamos o que fazemos e fazemos o que amamos.

Na qualidade de pai e padrinho deste projecto,

compete-me fazer o discurso de aniversário desta

instituição, tentando chamar a atenção para os momentos mais importantes ao

longo destes quinze anos, seleccionando as fotos e complementando os textos do

livro que decidimos lançar, sob o título “Montes Altos és meu Povo”.

Desde logo, a escolha da capa, onde estão o símbolo do Centro, feito pelo meu

amigo e amigo do Centro Social, Fernando Rodrigues, a paisagem do antigo

Monte Giraldo, de onde procedem os naturais de Montes Altos, o tio Blê

Francisco, que foi o nosso primeiro utente, e por fim o título do livro”Montes Altos

és meu povo”, uma expressão que levou o nosso nome a todos os lados.

O livro em si faz-nos viajar por fotos e textos que ao longo destes quinze anos

vivemos, amámos e sofremos, por um projecto ímpar e único, que foi a

construção do lar de idosos do Centro Social dos Montes Altos, quase e só com o

apoio popular, onde muitos deram o pouco que tinham e outros não deram nada

do muito que tinham. Do governo, apenas a indiferença, nem sequer o apoio

moral.

Estar à frente do tempo foi a minha preocupação, ao provocar os meus

conterrâneos para a construção deste equipamento. Por aqui passaram já idosos

de todo o Alentejo; e de Montes Altos já passaram mais de uma vintena, para não

falar daqueles que aqui recebem apoio nas vertentes de convívio, centro dia e

domicílio.

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Nestes quinze anos tudo fizemos. Apoio social a

famílias carenciadas, programas com jovens,

obras sociais, construção do lar, apoio a alcoólicos e toxicodependentes; fizemos

cursos de formação profissional e não ficámos por aí, pois fizemos profissionais.

Estar à frente do tempo foi a minha preocupação.

Esperamos que daqui a quinze anos aqueles que comandem os destinos desta casa consigam dar o mesmo aos seus utentes que nós damos actualmente.

Damos trabalho a 45 pessoas, lar e outras

valências de apoio para as freguesias de

Santana de Cambas e Corte do Pinto.

Contribuímos de todas as formas na rede

social para a criação de outros equipamentos. Somos a terceira organização do

concelho de Mértola em termos de empregabilidade. Somos prestigiados e

respeitados porque amamos o que fazemos e fazemos o que amamos. Por isso

obtivemos vários prémios nacionais, fomos honrados com a visita do Senhor

Presidente da República. Por tudo isso e por aquilo que as palavras dificilmente

conseguem condensar.

Na falta de imagens, há palavras que as substituem. Mas também há imagens

que falam por si, dispensando as palavras, condensando e evocando memórias e

vivências que fazem a história de uma instituição e de um lugar. Para completar

esta nota introdutória, seguem-

se algumas imagens que falam

por si. Não são representativas

de todo o nosso percurso, não

aspiram a constituir uma

fotobiografia, mas dizem-nos

algo acerca de onde vimos, onde

estamos, quem somos e para

onde vamos.

de onde vimos, onde estamos, quem somos e para onde vamos. Pedra da nossa infância. ~

Pedra da nossa infância.

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Montes Altos és meu povo De pé da esquerda para a direita, Manuel Pedro (Guarda-Fiscal), Manoé

De pé da esquerda para a direita, Manuel Pedro (Guarda-Fiscal), Manoé e uma professora da época. Ao meio a Catalina com a filha Joana ao colo. Em baixo: Vitória Marques, Teresa Rodrigues, Lela, Antonica Afonso, Maria Esperança, Rosélia, Josefina Marta e outros não identificados. Foto do ano de 1955.

Marta e outros não identificados. Foto do ano de 1955. Da esquerda para a direita: José

Da esquerda para a direita: José Rosa, João Rata, António Parreira.

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Montes Altos és meu povo Uma rua em Montes Altos Naturais de Montes Altos internados no

Uma rua em Montes Altos

Montes Altos és meu povo Uma rua em Montes Altos Naturais de Montes Altos internados no

Naturais de Montes Altos internados no Lar. Amélia Conceição, Ana Salvador, Teresa Luísa e o Marido António dos Santos. Tio Blé Carapeto, Bárbara Luciana, Tia Guanita e Maria Josefa. 2003.

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Montes Altos és meu povo Maria da Luz e Orinda na cozinha Vítor Inácio beija Mari

Maria da Luz e Orinda na cozinha

Montes Altos és meu povo Maria da Luz e Orinda na cozinha Vítor Inácio beija Mari

Vítor Inácio beija Mari Jefa.

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Montes Altos és meu povo Horta biológica do Centro Social Visita de Sua Excelência, o Presidente

Horta biológica do Centro Social

Montes Altos és meu povo Horta biológica do Centro Social Visita de Sua Excelência, o Presidente

Visita de Sua Excelência, o Presidente da República a Montes Altos.

Montes Altos és meu povo

Montes Altos és meu povo Visita de Sua Excelência, o Presidente da República a Montes Altos.

Visita de Sua Excelência, o Presidente da República a Montes Altos.

Sua Excelência, o Presidente da República a Montes Altos. Paula Mulher Activa (2007). Martins, vencedora do

Paula

Mulher Activa (2007).

Martins,

vencedora

do

prémio

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Montes Altos és meu povo Vítor Inácio (utente do lar) e Beatriz Sotero ~ 1 2

Vítor Inácio (utente do lar) e Beatriz Sotero

Montes Altos és meu povo

CAP. II 15 anos, 15 momentos mágicos

Por Jaime Salvadinho

“No princípio era o Monte. Igual aos demais cerros e cabeços em redor. Só um pormenor o distinguia: a existência, no cimo, de uma pequena ermida que lhe deu o nome de São Domingos. Estávamos em 1820. Aqueles lugares ermos, semeados de sobreiros, azinheiras, chaparros e estevas, longe de tudo e de todos, não prenunciavam o futuro que o seu subsolo lhe iria traçar. Na verdade, todo aquele cenário escondia um dos mais ricos chapéus de ferro da faixa piritosa ibérica e da Europa.”

Rafael Rodrigues, Grande Reportagem, Abril de 1992

Rafael Rodrigues, Grande Reportagem, Abril de 1992 Centro Social dos Montes Altos - 1994 Passados cerca

Centro Social dos Montes Altos - 1994

Passados cerca de 150 anos, depois de uma sucessão vertiginosa de transformações sociais, económicas e paisagísticas, a imagem deste território voltava a colar-se à solidão, se é que alguma se dissociou desse extremo. É assim

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que Rafael Rodrigues a descreve, em tempo real, na Grande Reportagem, em Abril de 1992: O cenário é tétrico. Os ossos descarnados das antigas estruturas oferecem a dimensão apocalíptica de um vale após um bombardeamento atómico. O silêncio é desesperante e arrepia.” Estamos a falar da zonas das antigas minas de São Domingos, no concelho de Mértola, distrito de Beja.

A laboração mineira arrancou em São Domingos nos anos 50 do século XIX, seguindo-se um processo de saqueamento de recursos que se prolongou até à cessação do estabelecimento industrial, ocorrida nos anos 60 do séc. XX. Pelo meio ficaram mais de cem anos de história de laboração mineira. Grandes concentrações de gente ao longo de muito tempo, a par da permanência da paisagem mineira ancestral, permitem normalmente o desenvolvimento de uma identidade e memória colectiva próprias, com traços de cultura locais, geradores de uma identidade específica de cada lugar. Mas até esta identidade estava ameaçada na zona das minas de São Domingos nas últimas três décadas do século XX. O abandono subsequente ao encerramento das minas, provocado pela partida das pessoas e ausência de intervenção, levou à descaracterização do território e consequente esvaziamento de significado.

Após o encerramento das minas de São Domingos seguiu-se um vertiginoso despovoamento. As minas foram objecto de abandono e vandalização, sendo destruído um património de indiscutível interesse do ponto de vista da arqueologia industrial. Efectivamente, depois da terra ter sido esventrada durante mais de um século, ficou um cenário de destruição e abandono, fazendo lembrar uma hecatombe nuclear: uma paisagem desértica, de terras vermelhas cobertas por toneladas de escórias e de cinza.

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Hoje em dia proliferam neste território vários fenómenos na linha da exclusão social e territorial, situação que tem originado um progressivo desenraizamento social, cultural e económico. As minas de São Domingos, pese a circunstância de constituírem uma referência importante no quadro do património industrial português, acham-se praticamente esvaziadas desse significado, dada a forma como têm sido efectuadas as intervenções supostamente conducentes à melhoria das condições de vida dos habitantes destas aldeias, transformando os povoados num resíduo social e patrimonial. A ausência de intervenção por parte dos organismos com responsabilidades, apontada em diversos relatórios da autarquia ao longo de três décadas (anos 70, 80 e 90) e claramente perceptível do ponto de vista empírico, tem condicionado significativamente as perspectivas de desenvolvimento social e económico.

Porém, em Montes Altos, povoação que já existia antes da laboração mineira, depois do acentuado declínio verificado nas décadas de 70 e 80, acontecia, no início dos anos 90, algo absolutamente imprevisível, uma reviravolta no destino de uma aldeia, que entretanto se estendeu ao território circundante. A imagem de solidão acima descrita começava a ser abalada. Em 1993, quando foi fundado o Centro Social de Montes Altos (CSMA) deu-se uma revolução, em toda a latitude do termo, uma revolução à qual não faltou um sentido e protagonismo heróicos.

A sensivelmente três quilómetros da Mina de São Domingos, que é o maior

aglomerado populacional deste território, uma pequena povoação – Montes Altos

– resistiu e iniciou, em 1993, na sequência da constituição do CSMA, um processo

de revitalização sócio-comuntária. No início dos anos 90 este monte estava quase

a morrer. Contava somente com 11 habitantes e corria seriamente o risco de

desaparecer do mapa, à semelhança de outras povoações vizinhas, como a Moitinha, a Achada do Gamo ou o Telheiro, na sequência do encerramento do

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estabelecimento industrial mineiro e da partida das suas gentes para fora. Num curto espaço de tempo, a população deste território sofreu uma redução drástica no seu quantitativo. No entanto, o novo projecto para Montes Altos transformou completamente as perspectivas deste pequeno povoado e da sua envolvente territorial. Volvidos cerca de 10 anos desde o início do processo, colado à viragem do século, Montes Altos era já considerado, à escala local, regional e nacional, um caso de sucesso. Propomos-lhe agora uma viagem através dos principais momentos de vida da instituição, por convenção tantos quantos os anos de existência do CSMA.

convenção tantos quantos os anos de existência do CSMA. Em pé, da esquerda para a direita:

Em pé, da esquerda para a direita: Virgínia Emídio, Ilda Sotero, Diogo Sotero, Tio Blé, Placetina Costa, Toia, Ti Mari Jefa. Em baixo: Dália e Manuel Afonso. Foto de 1990.

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Momento 1 – A electricidade chega a Montes Altos (1987)

Momento 1 – A electricidade chega a Montes Altos (1987) laboração mineira. No séc. XIX a

laboração mineira.

No séc. XIX a electricidade aparecia em São Domingos antes de surgir na própria sede distrital, em Beja. Era, na altura, uma conquista localizada, pois em muitas povoações satélites das minas de São Domingos, como Montes Altos, a electricidade nunca chegou a existir no período de

Nos anos 60 terminou a exploração mineira e as pessoas partiram para longe das suas terras. O território tornou-se residual e os lugares desapareceram, em silêncio. Falta de estradas, falta de água, falta de electricidade, falta de pessoas, a civilização não morava aqui. Regressar a estas paragens era uma miragem, uma aventura de um dia inteiro de viagem, para entrar noutro mundo, noutro tempo. O Sol punha-se em Montes Altos, seguia-se o silêncio, uma escuridão absoluta em que céu e terra se fundiam, como se fossem uma só coisa, furtando-se ao que os olhos alcançavam.

Mas em 1987 fez-se

electricidade chegava a Montes Altos. Os seus poucos habitantes e a imensa vontade estiveram na base desta conquista. O fim parecia estar menos perto. Depois do recuo avassalador de todas as condições,

luz! A

perto. Depois do recuo avassalador de todas as condições, luz! A 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

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emergia um novo sinal, um voto de confiança. Era cada vez mais possível regressar a Montes Altos e aí passar umas férias ou um fim-de-semana. Por isso mesmo, este facto foi objecto de comemoração. A inauguração da luz eléctrica, em Junho de 87, valeu uma excursão ao povoado, com partida em Alcântara, onde ocorreram uma variedade de eventos, como bailes, jogos tradicionais, debates e piqueniques. E finalmente o regresso, de uma terra que ainda prometia. Não faltaram a este evento, sublinhando a sua importância, o presidente da Câmara Municipal de Mértola e os presidentes das Juntas de freguesia de Santana de Cambas e de Corte do Pinto.

Ninguém sonhava ainda a importância estratégica deste momento, ninguém imaginava o que as décadas seguintes reservavam a este lugar, apenas tornado possível pela chegada da electricidade a Montes Altos.

Este é um momento que antecedeu a constituição do Centro Social de Montes Altos. Sem ele nada teria sido possível. Em Montes Altos, cada avanço preparou e possibilitou o avanço seguinte, passo a passo, até ao objectivo último – o Lar de Idosos.

a passo, até ao objectivo último – o Lar de Idosos. Excursão a Montes Altos, para

Excursão a Montes Altos, para a inauguração da electricidade - 1987.

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Momento 2 – Fundação do CSMA no dia 31 de Agosto de 1993

Verão de 1993. O calor sufocava ligando todo o Alentejo, do Atlântico a Espanha, de norte a sul, de este a oeste, numa atmosfera de ininterrupta densidade e ancestralidade. Montes Altos: no poial da Loja, “(…) o banco corrido de cimento da nossa infância (…)”, como Diogo Sotero se lhe referiu, Rogério Bravo desafiava Diogo Sotero para reabrir a escola primária, constituir um centro social e criar um (primeiro) posto de trabalho. Estava em causa o regresso à terra e a viabilização da vida por estas paragens. O pessoal reuniu e decidiu auto- organizar-se. Foi criado o CSMA no dia 31 de Agosto de 1993, o primeiro dia. Era dado corpo a um projecto que há muito se anunciava.

Este projecto terá começado a desenhar os primeiros contornos muito antes do início formal do processo, em Agosto de 1993. Um ex-elemento da direcção, José Manuel Martins, recorda as conversas em Lisboa, na Casa do Alentejo, nos anos 80: “Falávamos de tantas coisas da nossa terra e nas nossas cabeças pululavam sonhos e projectos, de modo que o projecto Montes Altos era certamente um daqueles que já ganhava contornos na cabeça do Tói. Todo o caminho começa pelo primeiro passo.”

na cabeça do Tói. Todo o caminho começa pelo primeiro passo.” 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

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Mas as conversas da década de 80 não eram só em Lisboa, onde residia e trabalhava António Sotero. Aconteciam também no lugar de Montes Altos. Os naturais não residentes viajavam até à terra com alguma regularidade. Uma das naturais de Montes Altos, interpreta, a posteriori, as conversas no monte e realça o tom provocador daquele que seria o futuro presidente do CSMA: “Já antes ele era activo, havia as noites da má-língua, em que os visados estavam presentes, mas era tudo em função de sermos críticos em relação às coisas, no fundo já a pensar nisto”. Independentemente de se tratar de uma interpretação, com toda a subjectividade que encerra, indicia a premeditação, a planificação, o envolvimento das pessoas, uma visão e um comando. A liderança começava assim a afirmar-se, através de um processo que exercia influência sobre as pessoas e que operava ao nível da identidade, crenças e valores. Começava também a evidenciar-se a compreensão, crucial neste projecto, de que aquilo que determina o comportamento e a qualidade do desempenho são as crenças que as pessoas têm na organização e o grau de convicção de que a sua contribuição é valorizada.

de convicção de que a sua contribuição é valorizada. Entrada do Lar ~ 2 0 ~

Entrada do Lar

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Momento 3 – As I Jornadas Culturais de Montes Altos (1994)

Era importante envolver muita gente neste projecto, num processo que se estenderia inevitavelmente para fora dos limites da comunidade de residentes de Montes Altos. Para motivar esta gente e trazer as pessoas para um projecto inesperado e inédito, era preciso refazer a imagem da comunidade, um trabalho que em certa medida implicava a reconciliação com a memória.

Tratava-se de reconstituir a imagem de uma aldeia, que era uma “imagem de miséria, da fome, da violência doméstica, das tabernas cheias de bêbados, de mulheres grávidas à força, dos piolhos, dos guardas republicanos como homens maus, que multavam as nossas mães por as galinhas andarem na rua”, como nos refere um dos dirigentes. As Jornadas Culturais de Montes Altos, bem como as outras actividades culturais e recreativas realizados nos primórdios da instituição, atraíram centenas de pessoas à povoação, tendo desempenhado um papel de crucial importância no processo de refazer a imagem da comunidade, paradoxalmente quando o fim parecia eminente. Quando olharam para o passado, as pessoas descobriram que tinham um património em comum e começaram a procurar o futuro, a experimentar o desejo de um futuro comum.

A partida para longe dos lugares de onde somos naturais normalmente não é fácil. Ficam aqui registadas as palavras de José Parreira, que saiu do monte com a idade de onze anos, rumo a Lisboa, como muitos dos seus conterrâneos: “Saí daqui aos 11 anos, com muita tristeza, tanta, tanta tristeza, tanto choro. Fui logo para trabalhar. O quadro era desolador, a miséria completa e a depressão colectiva. Todos partimos, todos chorámos e voltávamos todos os anos e cantávamos, embebedávamo-nos e chorávamos.” Depois de todos estes processos de desagregação e das fracturas emocionais associadas, era necessário

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(re)aproximar as pessoas, estabelecer pontos de contacto, fazendo desse factor uma importante alavanca para o processo de revitalização da povoação. Já Diogo Sotero fazia notar, em 1995, num artigo publicado no Diário do Alentejo, que “O trabalho que agora começámos, embora modesto, de início, é um modo de aproximar as pessoas, dar-lhes pretexto para se encontrarem, repartirem as alegrias e tristezas.”

As Primeiras Jornadas Culturais de Montes Altos, realizadas em 1994, trouxeram à povoação quase moribunda cerca de um milhar de pessoas. Nesta festa do reencontro, como alguém lhes chamou, as emoções foram intensas. Aliete Graça diz-nos (Testemunhos, 2000) que “descobri que era cá que eu queria estar, recordei os momentos da minha infância com muitas saudades, voltei a ver os meus primos e amigos que já não via há 40 anos.” Aliete, natural do Monte, depois de partir para o Algarve, esteve muitas décadas sem regressar à sua terra.

Quando voltaram a encontrar-se, as pessoas reconheceram uma raiz comum, em suma, reencontraram-se também um pouco consigo próprias. Como escreveu Zé Mira no número 1 do Notícias de Montes Altos: “(…) a natureza marcou-me de diversas maneiras, como ir à lenha, acender o forno da Ti Maria Marques, cozinhar os bons petiscos, ir à pesca, ir à túbera, a confraternização, o cantar à alentejana, enfim, um sem número de coisas que pouco a pouco forma criando em mim raízes de fixação a este povo.” Essas marcas, uma espécie de segunda natureza, permaneceram, visceralmente, como um segundo bilhete de identidade. As Jornadas Culturais de Montes Altos traziam de volta esta identidade.

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Momento 4 – A Monografia de Montes Altos (1995)

meu povo Momento 4 – A Monografia de Montes Altos (1995) Operar ao nível da identidade,

Operar ao nível da identidade, da auto-estima e das crenças implicava trabalhar a memória e reacender a ligação com a terra. Talvez por isso, em 1995, Diogo Sotero, presidente da direcção do CSMA, escreveu uma monografia de Montes Altos. Era um trabalho de reconciliação com a memória: mergulhar nas raízes de um povoado e na massa de um povo que começava a (re)aproximar-se. Era também um acto político, dar voz a uma terra e às gentes que queriam lutar contra um destino que ameaçava excluí-los. Nesse sentido, escrever e editar a monografia de Montes Altos foi um acto de resistência, carregado de emoção e de redescoberta. Etnologia, Etnografia, Património, actualidades, aspectos económicos, política, organização administrativa, tempos livres, associações e colectividades e festas e festejos davam nome e conteúdo a capítulos que sondavam o passado, mas também o futuro desta povoação raiana.

o passado, mas também o futuro desta povoação raiana. Montes Altos 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos

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Momento 5 – Estrada alcatroada (1995)

Foi uma das primeiras reivindicações do CSMA. A ideia era aproximar Montes Altos do resto do mundo. Já Joana Gomes escrevia no Diário do Alentejo, em Maio de 1995,: “Mas, além de quebrar o isolamento de cada um na sua própria casa, o novo projecto quebra também a distância que separa aquele lugar da Mina de São Domingos, percorrida a pé até então, e de Mértola”.

As primeiras aquisições e reivindicações (mais tarde traduzidas em conquistas) do projecto Montes Altos - uma carrinha, estrada alcatroada entre Montes Altos e a Mina de São Domingos, água canalizada ou a edição do boletim do CSMA - aparentemente elementos e factores muito distintos entre si, apresentam contudo um denominador comum: são formas de aproximar Montes Altos do mundo, de unir pessoas e lugares, de lutar contra o isolamento e esquecimento. A carrinha transportava as pessoas do monte isolado para outros pontos do

concelho ou do distrito, constituindo um inestimável contributo para assegurar as deslocações relacionadas com os cuidados de saúde ou resolução de assuntos de natureza burocrática. A televisão comunitária trazia o mundo a Montes Altos, contribuindo para operar uma reconciliação julgada difícil, no mínimo. A estrada alcatroada melhorava substancialmente o acesso entre Montes Altos e a Mina de São Domingos, o caminho por onde se saía e chegava a Montes Altos, aproximando assim Montes Altos do resto do mundo e os naturais não residentes dos seus familiares e da sua terra.

e os naturais não residentes dos seus familiares e da sua terra. ~ 2 4 ~

Montes Altos és meu povo

Para motivar as pessoas foi essencial eleger as necessidades não satisfeitas como ponto de partida para a acção. Nos anos 80 e no início dos anos 90 as carências relacionadas com a electricidade, água canalizada, estrada alcatroada, transporte, convívio, cuidados de saúde, alimentação ou serviços domésticos (para os idosos com menos autonomia) eram exemplos de problemas com que as pessoas da comunidade se debatiam. O convívio era também uma necessidade de quem estava só ou de quem, mesmo vivendo fora de Montes Altos, sentia que a sua terra se perdia, dia após dia, e que as pessoas se afastavam. A estrada alcatroada entre o monte e o Bairro Alto constitui um exemplo de resposta às necessidades das pessoas e da comunidade. A actuação começou por aí e nunca se desviou dessa premissa. É importante um projecto ir de encontro às necessidades que as pessoas experimentam no dia a dia. Só assim se consegue uma mobilização colectiva. A acção dirigida para a resolução dos problemas concretos produz efeitos observáveis e ao verem resultados as pessoas motivam-se para participar no projecto e confiam nos dirigentes. Esta relação de confiança é fundamental e joga-se muito precocemente, logo no início dos projectos. Um depoimento do presidente da direcção alinha-se com o princípio ‘antecipar o desenvolvimento em vez de falar nele no dia seguinte’: “O tipo de vida na povoação melhorou consideravelmente. (…) mas a fixação de residentes não teria sido possível sem um trabalho prévio de preparação: (…) alcatroada a estrada, recuperadas algumas casas (…) e foi o Centro Social que deu as condições não só para a continuidade da população como para a fixação de emigrados regressados e até novos residentes, resultando afinal no seu crescimento.” Montes Altos abria-se ao mundo. O forasteiro quebra a monotonia, desvia a atenção de dentro para fora, confirma que existe alguém que se lembra daquele sítio. Até porque Montes Altos não é local de passagem. Não se passa por Montes Altos, vai-se a Montes Altos. Fim de estrada.

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Momento 6 – Inauguração do Centro de Dia (1997)

Em Montes Altos, regra geral, antes de um acto se tornar oficial, já a correspondente acção se desenvolveu. Assim aconteceu com o Centro de Dia. O CSMA não ficou à espera de uma licença concedida por um papel ou por um subsídio. Assim, antes de 1997, ano em que a valência de Centro de Dia foi oficialmente inaugurada, já os residentes no monte, e não só, eram apoiados pelo CSMA. Montes Altos oferecia novas condições para quem queria permanecer na povoação. O Centro era já uma espécie de segunda casa para muita gente. Em Dezembro de 1997 saía o número 4 do Notícias de Montes Altos, edição que incluía três depoimentos de três mulheres estrangeiras. Inka, Sabine e Gilda residiam nas imediações de Montes Altos e consideravam esta povoação e o seu Centro Social um oásis: “O silêncio tocou-me, quando aqui cheguei, há 5 anos, para descobrir o lugar onde vivo hoje. O amor dos velhotes deu-me força, outra vez, quando vim para cá, ainda sozinha” ; “O lugar de Montes Altos, onde eu vivo, acolheu-me, testemunhando simpatia e uma simplicidade que ignora palavras como o racismo, diferença ou preconceitos”. ; “Descobri no Centro Social de Montes Altos valores sãos, muitas vezes esquecidos ou usurpados em França, como a sinceridade, a amizade, a generosidade, mas sobretudo o amor e a ternura”; “Pessoas de todas as idades que se tornaram a minha segunda família”; ou “O Centro Social representa para mim uma família unida e solidária, animada de intensa vida.” Era este o Centro de Dia do CSMA.

Em 1997 Montes Altos era já um exemplo de solidariedade. Miguel Bento, então vereador, escreveu no número 3 do Notícias de Montes Altos: “(…) O caso do Centro Social de Montes Altos atesta essa realidade, em que para além dos serviços concretos que presta a toda a comunidade, dignifica um lugar que aos poucos se vai libertando da agonia desertificadora que sofreu nas últimas décadas

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e, sobretudo, permite que aquela gente se junte em torno de algo de concreto, mais que não seja, dois dedos de conversa (…)”. As pessoas juntavam-se, acompanhavam-se e faziam com a sua presença e voluntarismo o Centro de Dia, inaugurado no Verão de 1997.

voluntarismo o Centro de Dia, inaugurado no Verão de 1997. Dirigentes, residentes e funcionários - 1998.

Dirigentes, residentes e funcionários - 1998.

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Momento 7 – Peça de teatro e outras actividades culturais (1998)

7 – Peça de teatro e outras actividades culturais (1998) Dália Sotero e João Ricardo Em

Dália Sotero e João Ricardo

Em Outubro de 1998, num lugar remoto, em tempos habitado por mineiros e contrabandistas, na zona das antigas minas de São Domingos, um grupo de resistentes organizava uma exposição. O tema era a memória. A exposição incluía fotos de outros tempos, peças antigas de artesanato, mas também trabalhos recentes. Realizava-se numa antiga escola, entretanto desactivada, na altura já a sede do Centro Social de Montes. A maior parte das pessoas que colaboraram na organização do evento eram mulheres e tinham entre sessenta e oitenta anos. Faziam parte do referido grupo de resistentes. As fotos expostas eram dos seus pais e avós, bem como as peças apresentadas. Os trabalhos recentes eram da sua autoria: colchas, bordados, entre outros. Mas nem tudo se resumia a memória, pois o passado e o presente conviviam naquele espaço, conjugando-se com novas ideias para um futuro que começava a antecipar os seus contornos. O título da exposição – Faz mais quem quer do que quem pode! – não era desprovido de propósito e deixava bem clara a intenção de fazer alguma coisa

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naquele canto do Alentejo. Mas, mais do que isso, anunciava que algo já estava a nascer naquele lugar, uma povoação com pouco mais de uma dúzia de habitantes

e cujo retrato condizia bem com esta descrição de José Agualusa 1 : “Uma idêntica dolência melancólica, um torpor de fim-de-mundo, ou melhor, de fim-de-tempo”. Mas o título da exposição sugeria também, num tom provocador, um braço-de-

ferro entre ‘quem quer fazer’ e ‘quem pode fazer’, reivindicando e prognosticando

o primado do primeiro.

Estes e muitos outros eventos transpiravam em Montes Altos, transportando arrebatamento, contagiando e passando a mensagem de uma terra que lutava, contra o destino, por se afirmar. Nesta linha, um dos grandes eventos foi a peça de teatro encenada no dia 27 de Março de 1998, perante mais de uma centena de espectadores que encheram o salão de festas do CSMA. A festa e o trabalho casavam numa unidade singular de força.

festa e o trabalho casavam numa unidade singular de força. A peça, da autoria de Diogo

A peça, da autoria de Diogo Sotero, intitulava-se “Um dia na vida de uma família mineira!”. Falava de repressão, de condições de vida difíceis, mas também de esperança e liberdade, que atravessara gerações inteiras de famílias de mineiros e contrabandistas. A peça acabou de forma empolgante, ao som de “Grândola, vila morena”, entre aplausos e a raiva de vencer naquele canto do mundo. Surpreendia, nesta peça, a participação

de idosos, como a Sr. Clementina ou a Sra. Ana Parreira, que se excederam em dedicação, roubando à pacatez do lar doméstico sessões de ensaio, arrancadas da noite alentejana, dobrando o cansaço regado

D. Clementina

1 José Eduardo Agualusa, As mulheres de meu pai, Dom Quixote, 2007

Montes Altos és meu povo

com licor de bolota e muitas gargalhadas. O voluntarismo era surpreendente. Entre refeições, tarefas domésticas, burocracias de última hora, inventava-se ainda tempo e disposição para fazer rolar o projecto de teatro, numa cumplicidade absoluta, deixando adivinhar, uma vez mais, que Montes Altos era um projecto para vencer.

Os serões musicais eram também uma constante em Montes Altos. Músicos e música inventavam um ritmo que iludia a solidão, ligava os corpos e ecoava através de um altifalante ao qual todo o mundo parecia estar ligado, como se fosse um princípio do qual tudo emanava. “Montes Altos és meu povo”, uma espécie de mantra que se desprendia de todas as gargantas, repetindo sem cessar um sentimento de pertença, de um povo, mas também um destino colectivo, pintado de atrevimento poético, rasgando a longa treva pós-mineira. Ano após ano, cada noite de fados ou de cante alentejano e cada festa reproduziam os dias de azáfama, bem descritos nas palavras de um dirigente associativo: “As festas, no início, precisávamos de carne, um dos fins-de-semana fui duas vezes a Espanha, fiz com muito amor e carinho, estávamos metidos nisto. Numa das festas vendemos 20 barris de cerveja, o baile acabou às sete da manhã, foi algo maravilhoso, queria dançar, mas não podia, quando íamos a contar o dinheiro, juntávamo-nos todos a contar o dinheiro e era um espectáculo, a gente trabalhou, mas teve o nosso lucro.”; ou ainda: “Todos colaboraram com o Tói Diogo, havia bailes e a nossa alegria era tanta que não nos importávamos de passar a noite toda a trabalhar, sempre na quermesse, a dançar, não ficávamos com os prémios, quando saíam dávamos logo para o Centro, passávamos a noite

no fim da festa perguntávamos: Tói, correu bem? Se

ele dizia que sim, ficámos todos contentes e com ânimo para prosseguir com mais

festas, se fosse necessário era já no dia seguinte.”

toda a vender bebidas, (

)

Montes Altos és meu povo

Momento 8 – Projecto “…entre o Chança e o Guadiana…” (2000)

– Projecto “…entre o Chança e o Guadiana…” (2000) No início do ano 2000 nada podia

No início do ano 2000 nada podia ser mais animador do que a aprovação do projecto “…entre o Chanca e o Guadiana…”. 70 mil contos desciam dos céus e o céu era o Programa Iniciativa Piloto de Promoção Local de Emprego no Alentejo. Elaborada em tempo record, de sol a sol, seguido de lua a lua, e outra vez de sol a sol antes da noite trazer uma nova aurora (duas “directas”), a candidatura a este projecto era reconhecida e aprovada. Despertou numa manhã fria de Janeiro, por entre a geada e com a cumplicidade da estrela da manhã, esta candidatura que vinha da terra vermelha, anunciando a aurora de um novo dia para o CSMA: uma nova página de um projecto que enchia de entusiasmo e de meios a pequena equipa que procurava levar Montes Altos para a frente. Um curso de costura, um curso de artes decorativas, páginas de Internet, levantamentos culturais, apoio psicossocial, uma carrinha, computadores, construção de uma recepção, entre outros, materializaram-se num curto espaço de tempo em que se investiram verbas para o projecto social do CSMA e para o grande objectivo da instituição: o lar de terceira idade. Contra todas as probabilidades, fomos atingidos por um deslumbramento ímpar, quando fomos informados da surpreendente aprovação, e demos razão a quem apostou em nós. Numa altura em que o constrangimento financeiro espreitava a cada instante, este pequeno desafogo deu asas a

Montes Altos.

desafogo deu asas a M o n t e s A l t o s .

Curso de Costura, Corte do Pinto - 2000.

Montes Altos és meu povo

Momento 9 – Empresa de Inserção Solidários e Construtores Construção civil (2000)

Solidários e Construtores Construção civil (2000) Construção da Lavandaria - 2001. De todas as empresas

Construção da Lavandaria - 2001.

De todas as empresas criadas pelo CSMA (foram três), esta foi a mais importante, em torno da qual se estruturou grande parte da intervenção do Centro. Várias razões concorreram para esta circunstância:

Foi a primeira empresa a ser aprovada;

É a que emprega mais pessoas (11 colaboradores);

Permitiu a construção do lar de terceira idade, reduzindo consideravelmente os custos associados a este ambicioso empreendimento;

É uma autêntica bolsa de emprego, até pela rotatividade a que obriga, contribuindo para a inserção social e profissional de indivíduos em situação de desfavorecimento social e económico, ou seja, aqueles de quem o CSMA esteve sempre ao lado e que são, também, a razão da sua criação.

Montes Altos és meu povo

Por outro lado, as obras de construção civil constituíram uma actividade rentável, tornando possível equilibrar as finanças do CSMA nos períodos mais difíceis.

as finanças do CSMA nos períodos mais difíceis. Obras sociais nos Picoitos - 2008. Através desta

Obras sociais nos Picoitos - 2008.

Através desta empresa, juntamente com o voluntariado organizado, foi possível realizar várias obras de adaptação e de ampliação, e até obras de raiz, em casas de particulares, nomeadamente indivíduos e famílias carenciadas. A empresa possibilitou igualmente antecipar a conclusão das obras do Lar.

igualmente antecipar a conclusão das obras do Lar. Jorge Domingues 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008) ~

Jorge Domingues

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

~ 33 ~

Montes Altos és meu povo

Momento 10 – Inauguração do Lar de Terceira Idade (2000)

Este é necessariamente o grande momento da vida desta instituição. Cumpriu-se no seu sétimo ano de vida. No dia 22 de Abril de 2000 era inaugurado o primeiro bloco do Lar de Terceira Idade. Não era ainda a inauguração final, mas era a certeza de que esse momento se concretizaria e estava próximo. Já em Agosto de 1999, o editorial do Notícias de Montes Altos arriscava: “O Lar é já uma realidade!”. De facto, a antecipação do sucesso foi uma arte constante em Montes Altos, repetida incessantemente, ao ponto de já ninguém acreditar que o oposto seria verosímel. A comemoração do dia 22 de Abril constituía uma antecipação do que era absolutamente imparável, e que viria a ser concluído definitivamente uns meses mais tarde, já depois dos primeiros utentes utilizarem este equipamento.

depois dos primeiros utentes utilizarem este equipamento. Amélia Sotero, Diogo Sotero e Ti Mari Jefa. Na

Amélia Sotero, Diogo Sotero e Ti Mari Jefa.

Na véspera da inauguração do lar o ritmo era alucinante. Nos escritórios o trabalho administrativo não parava, no salão de festas os músicos davam espectáculo para várias dezenas de pessoas, que ignoravam o reboliço, que mesmo ao lado, não parava, entre paredes de cimento, acabamentos de última

Montes Altos és meu povo

hora e superfícies por pintar: o primeiro bloco estava a ser concluído para ser inaugurado no dia seguinte. As obras entravam pela noite dentro, freneticamente. Trabalhadores da empresa de inserção, voluntários, colaboradores acidentais, como que hipnotizados, lançavam-se ao trabalho, desordenadamente, num contra-relógio alucinante. Entre o stress, o cansaço e a confusão, um trabalhador cantava de forma hilariante, como se estivesse noutro sítio, mais se assemelhando a uma aparição, emprestando um descontraimento que só parecia possível a quem não estivesse presente naquele lugar; outros arrastavam-se, vencidos pelo cansaço - alguns trabalhadores tinham problemas com drogas – mesmo assim esforçando-se para que nada falhasse no grande dia. A noite, por fim, estava cansada, prolongou-se pela manhã adentro, madrugou no seu declínio, colando-se a um novo dia, sem esperar, até à recepção dos primeiros convidados, para um momento que alguns ainda não acreditavam.

O

de

Solidariedade,

Comovido, Diogo Sotero, que nos últimos

meses

dinheiro ao Centro, tendo ido viver para uma espécie de arrecadação, vendia energia e

calor.

lágrimas, o discurso era interrompido, tudo

aquilo

demais, tinha sido

derramavam-se

e

daquele,

lar

era

inaugurado.

entrega

de

música,

a

Discursos

“comes

deste

Diplomas

e

bebes”.

vendera

sua casa

e

emprestara

Dos

tinha

seus

sido

olhos

impossível.

sua casa e emprestara Dos tinha seus sido olhos impossível. T i L o u r

Ti Lourença

Montes Altos és meu povo

Momento 11 – Prémio Nunes Corrêa Verdades de Faria (2002)

11 – Prémio Nunes Corrêa Verdades de Faria (2002) Depois de várias gerações votadas ao esquecimento,

Depois de várias gerações votadas ao esquecimento, qualquer distinção, ainda por cima ao mais alto nível, este prémio parecia ter sido roubado aos sonhos. O Prémio Nunes Corrêa Verdades de Faria foi atribuído em 2002 a Diogo Sotero, presidente da direcção do CSMA, pelo seu trabalho solidário, nomeadamente o que realizou junto dos idosos desfavorecidos, enquanto dirigente do Centro.

Doa ao Centro os 800 contos que recebeu do prémio. Prestígio e confiança no futuro, foi a herança deste prémio. Parece-nos oportuno apresentar um perfil deste homem. Quem é Diogo Sotero, o líder do projecto Montes Altos? É um homem que não se limitou a adoptar medidas convencionais, um homem capaz de estabelecer uma íntima relação com o sofrimento e com os problemas das pessoas, particularmente as gentes da sua terra.

É um homem que aplica os princípios que defende, fazendo a ponte entre a teoria

e a prática, alguém movido pela ideia do bem comum, apologista da perspectiva segundo a qual as instituições existem para servir as pessoas, estabelecendo assim o primado do homem - um elemento central do projecto Montes Altos - sobre os seus subprodutos, entre os quais se incluem as organizações por ele criadas ou o dinheiro.

Montes Altos és meu povo

Sotero parte de meia dúzia de ideias relativamente simples, mas relevantes. Depois, é capaz de perseguir intransigentemente os seus objectivos e de operacionalizar essas ideias, denotando uma robustez física e psicológica notáveis. Desagrada-lhe profundamente a ideia de ver homens e mulheres a fazerem coisas em vão, coisas inúteis, o que, segundo ele, acontece frequentemente. A sua ligação às necessidades e ao sofrimento das pessoas associa-se a uma percepção das deficiências da estrutura social construída pelos homens, que ele aponta como estando na origem de muitos problemas sociais. Ao longo da sua vida procurou estar onde estavam os problemas, junto dos pobres, dos desamparados, dos desempregados, dos que não vislumbram soluções para os seus problemas. Sotero abdicou de parte da sua vida pessoal a favor de outra vida, ao serviço da comunidade, junto de quem necessita de ajuda. Não se coibiu de agir em situações diversas e adversas, desafiando os limites e as leis. Entre recursos disponíveis e necessidades emergentes procurou sempre um acordo entre ambos, demonstrando com magia e simplicidade invulgares que o encontro destes é mais fácil do que nos querem fazer parecer. Estimula a acção nos lugares por onde passa, impulsionando a adesão às causas sociais. Há um ‘chamamento’, como o próprio procura explicar a forma como é tocado por várias causas: desemprego, carências económicas, precariedade das condições de habitação, alcoolismo, toxicodependência, deficiência, etc… Estas são as pessoas e as situações que reclamam a sua presença e acção. Acredita na comunidade de todas as coisas, revelando uma predisposição ímpar para lidar com o imaginário e o (ainda) não existente, na tentativa de resolver os problemas reais das pessoas.

Montes Altos és meu povo

Corte do Pinto, Maio de 1997, uma reunião do projecto piloto do Programa do Rendimento Mínimo Garantido. Nesse dia, sentavam-se, formando um pequeno círculo, vários actores locais - agentes sociais de desenvolvimento - prenunciando o trabalho que se seguiria na área social nas freguesias da margem esquerda do rio Guadiana no concelho de Mértola. De facto, a partir desse dia e das dinâmicas emergentes, o trabalho social nessas freguesias cresceu. Nada voltou a ser como era. Mas nesse dia, nesse círculo, os actores locais eram também actores institucionais. Ao lado de actores como a Câmara de Mértola, as juntas de freguesia, o Centro de Emprego, a Segurança Social, a Rota do Guadiana ou a Associação de Defesa do Património de Mértola, estava o Centro Social dos Montes Altos, o parceiro mais surpreendente e desconcertante. Velhos e novos actores formavam uma roda. Velhos eram aqueles que já trabalhavam no concelho e nas freguesias em referência, novos eram outros, como Diogo Sotero, acabados de chegar (neste caso, de voltar). Aquela reunião era também uma forma das pessoas se conhecerem. Sotero apresentou-se do seguinte modo:

“Podemos dizer que sou uma espécie de guerrilheiro missionário, entre uma Madre Teresa de Calcutá e um Che Guevara: numa mão levo uma cruz, na outra, uma metralhadora!”. Estava definido um perfil, mas também um aviso, sério por sinal.

definido um perfil, mas também um aviso, sério por sinal. Prémio Nunes Corrêa, discurso de Diogo

Prémio Nunes Corrêa, discurso de Diogo Sotero.

Montes Altos és meu povo

Momento 12 – Obras sociais (a partir de 2002)

O CSMA é uma mini sociedade-providência. “(

ajudam-me!.”, diz um funcionário, fazendo parecer que a solidariedade é uma acto banal. Em Montes Altos é, de facto, um acto corrente. Um ex-dirigente desta instituição exprime esta filosofia de intervenção: “O CSMA tem procurado sempre estar ao lado daqueles que mais necessitam, indo ao encontro das pessoas sem

É uma forma dinâmica de estar no terreno, sem

estar à espera delas ( quaisquer preconceitos (

)

Quando preciso estão lá,

)

Vários funcionários, como aquele a quem se refere a transcrição do parágrafo anterior, e muita gente em situação de desfavorecimento social e/ou económico beneficiaram da ajuda do CSMA para realizar obras nas suas casas: obras de adaptação, de ampliação e também de raiz. Preços muito reduzidos, facilidades de pagamento e apoio nas diligências burocráticas, normalmente abreviadas, ofereceram aos jovens (e não só) deste território mais condições para aqui se fixarem. Ao arrepio de todas as dificuldades que a legislação e o

disfuncionamento do mercado acrescentam, vinha de Monte Altos um sinal contrário, uma esperança, que permitia às pessoas, os jovens em particular,

escolherem se queriam ficar ou partir para fora desta região.

se queriam ficar ou partir para fora desta região. Uma casa, uma família, Filipa Brito e

Uma casa, uma família, Filipa Brito e filhos.

Montes Altos és meu povo

Os trabalhadores da empresa de inserção, dirigentes, voluntários do CSMA e até elementos da comunidade entregam-se com entusiasmo ao esforço das obras, mesmo depois do horário de trabalho, numa onda de solidariedade que arrasta toda a gente, ergue casas, coloca telhados e caia paredes. Nos últimos anos este foi o dia a dia do CSMA: a sede de solidariedade, de construir o futuro para as gentes destas freguesias. É um lado não mediático, não tem um momento privilegiado, como os prémios que o CSMA e as personalidades a ele ligadas receberam, não tem o reconhecimento oficial de instituições nem de elites, mas para cada indivíduo e família beneficiados este é um verdadeiro prémio, uma alegria, uma base para toda a vida: “Deu mais vida a estas aldeias, deu apoio a várias famílias e criou postos de trabalho.” É uma prova de que é possível e desejável um desenvolvimento centrado nas pessoas e não no dinheiro. Depois das obras, um jantar de confraternização, normalmente oferecido pelo CSMA, colando o trabalho ao lazer, a responsabilidade à descontracção, recordando que nenhum deles faz sentido sem o outro. Há 10 anos, depois de passar uma noite em Montes Altos, quando saía da aldeia, de manhã muito cedo, já dentro do carro, vi um grupo de homens, entre os quais se encontravam vários voluntários, a trabalhar na construção civil, nas obras do lar. Fiquei impressionado pela intensidade, pela dedicação e surpresa, pois não esperava deparar-me com aquele cenário. Era o lar de idosos a arrancar. Era impressionante: todos os esforços eram poucos tendo em conta os objectivos visados. A determinação daqueles braços inclinava à admiração, como se estivéssemos diante de um acto solene. Uns bons anos depois, chego aos Picoitos, já a tarde vai avançada, fazendo uma tangente ao crepúsculo. Uma massa de gente do CSMA trabalha nas obras da casa de um funcionário. Muitos anos depois, já não é o lar, mas bebemos a mesma dedicação, a mesma intensidade, a mesma emoção e ambição de construir o bem-estar e o futuro desta região.

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Momento 13 – Prémio CaixaNet (2005)

No final de 2005 o CSMA ganhou outro prémio nacional, o prémio CaixaNet, atribuído pela Caixa Geral de Depósitos. Segue-se um artigo da autoria de Diogo Sotero, publicado no nº 13 do Notícias de Montes Altos.

*

*

publicado no nº 13 do Notícias de Montes Altos. * * * Andávamos nós na azáfama

*

Andávamos nós na azáfama da construção civil e lá toca o telemóvel.

- Tou, é o Toi Diogo?

- Sim, diga. – Respondi secamente, a pensar naqueles chatos que levam tempos a perguntar, “adivinha quem sou eu?”. Mas enganei-me.

- Daqui fala o teu primo, o Zé António.

- Qual Zé, o filho do meu primo Domingos? Hã, então o que aconteceu com a tua avó?

- Nada, tenho uma boa notícia. Aqui na Caixa (CGD), todos os anos damos um

prémio a uma IPSS e eu lembrei-me de propor o Centro Social dos Montes Altos.

- Bela notícia, primo Zé.

- Mas não te alegres muito, pois ainda não acabou a votação de todos os funcionários, mas estou esperançado que vamos ganhar. E ganhámos. Um prémio de 3.200,00 € em dinheiro, umas roupas e é claro o almocinho (pago pelo primo Zé Sotero) na sede da CGD, num refeitório grande e bonito, como dizia o Luisinho, olhando por baixo dos óculos para algumas

Montes Altos és meu povo

funcionárias da Caixa mais atraentes (que fazem sempre falta a uma casa como a nossa). Para recebermos o prémio fomos dois dirigentes (eu e o Rodrigo), o terceiro estava lá (ali trabalha), o Zé Manel Martins; a Dália juntou-se a nós e connosco foram ainda o Mário e o Luisinho, em alegre viagem. A Direcção do Centro Social dos Montes Altos agradece a todos os trabalhadores que votaram para recebermos o prémio, igualmente à Administração da CaixaNET, e obviamente ao primo Zé António Sotero, que não se esqueceu da sua terra, do Centro Social dos Montes Altos e o reconhecimento pelo trabalho do primo Toi Diogo Sotero.

e o reconhecimento pelo trabalho do primo Toi Diogo Sotero. João Ricardo e Mané ~ 4

João Ricardo e Mané

Montes Altos és meu povo

Momento 14- Roteiro para a Inclusão (2006) e Compromisso Cívico para a Inclusão (2007)

(2006) e Compromisso Cívico para a Inclusão (2007) “Mais além do que sonhámos”: esta frase aparece

“Mais além do que sonhámos”: esta frase aparece escrita na capa do boletim nº 13 do Notícias de Montes Altos. De facto, nunca imaginámos, sobretudo quando lutámos sem o apoio do poder regional, acusados de irracionalidade e irrealismo, que alguma vez o poder, representado ao seu mais alto nível, iria reconhecer o nosso trabalho e visitar a povoação e as instalações. Assim aconteceu no dia 29 de Maio de 2006, quando o Presidente da República, o Prof. Cavaco Silva, visitou Montes Altos, no âmbito do Roteiro da Inclusão.

Acreditando, como testemunham as suas palavras, que “não estamos condenados ao empobrecimento e ao isolamento”, o Presidente da República perguntou a Diogo Sotero, qual a receita do sucesso, ao que este respondeu: “uma boa estrada, um centro social e viaturas para prestar apoio às populações!” Parece simples? É porém uma base fundamental, como atestam os vários momentos destes 15 anos de história do CSMA.

A visita do Presidente da República a Montes Altos foi um dos pontos culminantes da luta contra o esquecimento nesta terra de contrastes. Basta desviar o nosso olhar para um pouco mais longe, para a vizinha Moitinha, em ruínas, para nos

Montes Altos és meu povo

lembrar aquilo em que este monte estava prestes a tornar-se: esquecimento. Grande parte do percurso de Montes Altos consistiu em ser lembrado. Na sequência desta visita, cerca de um ano depois, em Abril de 2007, o CSMA participou na Conferência Compromisso Cívico para a Inclusão, organizada pela Presidência da República, em Santarém.

organizada pela Presidência da República, em Santarém. Conferência - Compromisso Cívico para a Inclusão -

Conferência - Compromisso Cívico para a Inclusão - Santarém 2007.

Seguem-se alguns extractos do artigo de Rui Constantino publicado no nº 14 do Notícias de Montes Altos.

Compromisso Cívico para a Inclusão (…)

O Centro Social dos Montes Altos fora convidado pelo Senhor Presidente da Republica, o Professor Cavaco Silva, para estar representado no “Compromisso

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Cívico para a Inclusão”, a grande conferência que concluiu os Roteiros para a Inclusão, no âmbito dos quais o Presidente da República já tinha visitado Montes Altos, em 29 de Maio de 2006.

O CSMA foi uma das cerca de 12 instituições convidadas a estarem representadas

com um stand institucional, a par de instituições tão reconhecidas como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a ARCIL, da Lousã, ou o Alto Comissariado para a Integração das Minorias Étnicas (ACIME). Esta honra revela bem a importância dada ao trabalho que o Centro tem vindo a desenvolver ao longo dos últimos 14 anos, nas suas várias vertentes, com destaque para o apoio aos idosos, em especial através da valência de Lar, e para a reanimação da comunidade local, através da criação de cerca de 50 postos de trabalho.

O stand do CSMA destacava-se pela sua simplicidade: a Filipa e o João Ricardo

asseguraram a representação permanente no stand, onde tínhamos uma apresentação multimédia sobre o CSMA, bem como a venda de alguns produtos

tradicionais (mel e queijo) de produtores locais.

Coube-me a tarefa de receber institucionalmente o Professor Cavaco Silva, durante a visita que realizou ao nosso stand, e foi simultaneamente com grande orgulho e humildade que ouvi as suas simpáticas referências à nossa instituição, bem como as muitas questões que colocou sobre a continuação do trabalho realizado, para terminar dizendo que ia fazer uma referência explícita ao CSMA durante o discurso de encerramento da conferência. Tudo isto entre um imenso batalhão de jornalistas que cercavam o Professor Cavaco Silva e que apontaram câmaras e microfones na direcção de mim, da Filipa, do João Ricardo e do Jaime.

O Tói Diogo estava nesse momento em visita a outros stands.

Montes Altos és meu povo

E, na intervenção de encerramento do “Compromisso Cívico”, efectivamente o Centro Social dos Montes Altos foi apontado como um exemplo, pelo Senhor Presidente da República, que disse:

“Encontrei experiências, como as do Centro Social de Montes Altos ou a Sociedade Filarmónica de Fratel, onde a iniciativa dos cidadãos conseguiu contrariar o destino que há muito parecia estar traçado. Foi simples o segredo do sucesso: não se resignaram! E, com o apoio das suas autarquias e do governo, conseguiram transformar cada problema numa nova oportunidade. Empreenderam, criaram riqueza, multiplicaram os postos de trabalho e devolveram a esperança e a confiança às suas comunidades.” (…)

Montes Altos: Um Símbolo de Resistência

(…) Montes Altos: Um Símbolo de Resistência Grupo de naturais de Montes Altos no Lar. Da

Grupo de naturais de Montes Altos no Lar. Da esquerda para a direita: José Godinho, Isabel Palma, Célia Sotero, Eugénia Godinho, Maria Teresa Parreira, Ti Mari Jefa, Ana Salvador, Tio Pedro, Epaminondas, Maria Bárbara, Bárbara Luciana, Mané e Diogo Sotero.

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Momento 15 – Paula Martins ganha o Prémio Mulher Activa (2007)

15 – Paula Martins ganha o Prémio Mulher Activa (2007) Dr.ª Maria Cavaco Silva, Paula Martins

Dr.ª Maria Cavaco Silva, Paula Martins e Dr. Francisco Balsemão

“Montes Altos ressuscitou-me”, é o título que Paula Martins deu a um artigo da sua autoria publicado no nº 13 do Notícias de Montes Altos. O mesmo artigo tem uma espécie de subtítulo, em que a Paula escreve: “Há 10 anos atrás estava perdida, sozinha e num buraco sem fundo, muito escuro…” Mal sonhava a Paula, nessa altura, que menos de um ano depois, a sua humildade, perseverança e sentido de responsabilidade a iriam conduzir ao Ritz, numa finalíssima entre cerca de 700 concorrentes ao Prémio Mulher Activa 2007. Mas a grande surpresa, envolta num espesso manto de nevoeiro, como num sonho remoto, estava ainda para vir: Paula seria a vencedora do Prémio, arrecadando para si os merecidíssimos 35000 euros e um prestígio inabalável. Uma vitória da Paula, mas também do CSMA, como a própria faz questão de frisar. A emoção e a magia dessa noite são difíceis de descrever e de condensar. Não era fácil acreditar no que estava acontecer! Recordo os olhos dela, fixos nos meus, procurando a cumplicidade e a confirmação de que não estávamos num sonho acordado. Os nossos olhos estavam alagados em humidade, reluzindo na noite dourada do Ritz

Montes Altos és meu povo

e de Lisboa. Aquela vitória era também um grito de raiva, por todos os que

lutaram nesta vida e nesta mina e não conheceram a menor consagração. Seguem-se extractos do artigo de Dália Sotero publicado no nº 14 do Notícias de Montes Altos (E o Ritz foi o limite!)

*

*

*

Dia 14 de Maio, oito da noite. Aos convidados da 7ª Edição do Prémio Mulher Activa 2006 eram dadas as boas vindas para aquela que iria revelar-se a grande noite da solidariedade, uma noite dedicada às mulheres.

(…) No meio das luzes e flashes fotográficos, várias personalidades e figuras públicas, como Maria Cavaco Silva, Maria José Ritta e Mercedes e Francisco Pinto Balsemão, encontravam-se os representantes do Centro Social dos Montes Altos:

Jaime Salvadinho, eu própria e Paula Cristina Dias Martins, acompanhada pelo irmão Fernando Martins. (…)

A sala majestosa do Salão Nobre do Ritz, projectada pelo Arquitecto Pardal

Monteiro, foi o palco do jantar. Estava repleta de mesas luxuosamente decoradas, tendo a cada uma delas sido atribuído um nome de uma Mulher que se tivesse distinguido na sociedade, à semelhança de uma homenagem que iria ser prestada

às dez candidatas e já merecedoras do epíteto “magnificas”.

Todos os adornos e pormenores decorativos certificaram que o Ritz mantém ainda nos dias de hoje o glamour e o charme dos tempos passados, glamour este que a organização da festa e a Pantene Pró-V (patrocinadora do evento) aproveitou para demonstrar e presentear convidados e candidatas nesta noite de gala. E o efeito que causou foi soberbo! (…)

Montes Altos és meu povo

Ao jantar de nouvelle cuisine seguiu-se a entrega dos prémios. Criteriosamente avaliadas pela Comissão de Notáveis, nome atribuído ao júri composto por nove elementos: o padre António Vaz Pinto, a apresentadora Bárbara Guimarães, o médico Gentil Martins, a professora universitária Maria Glória Garcia, a jornalista Maria João Seixas, Maria José Ritta, a presidente de SIC Esperança Mercedes Balsemão, a presidente do Instituto de Apoio à Criança Manuela Eanes e a directora da revista Activa, Rosaria Barreto. Foram decididos três grupos de premiadas. Não foram anunciadas ao estilo americano, pelo nome e chamadas ao palco, mas antes de uma forma muito peculiar: a sua apresentação foi feita primeiramente em vídeo, de modo a que todos os convidados conhecessem o percurso e o perfil de cada uma das candidatas (…). À medida que os vídeos passavam a ansiedade aumentava, pois o último vídeo a ser revelado seria o vídeo de apresentação da candidata vencedora do prémio da 7.ª Edição Mulher Activa 2006. Nós já tínhamos passado a fase do nervosismo, pois o facto de a Paula ter sido reconhecida e homenageada, para todos nós, era bastante. Mas o espanto e a ansiedade teimavam em tomar conta do nosso sistema nervoso, já que a Paula aproximava-se cada vez mais do derradeiro prémio. E a vencedora do prémio Mulher Activa 2006 era mesmo a Paula Martins! Nenhum de nós conseguiu esconder a emoção de ver a nossa candidata ser homenageada e distinguida entre mulheres com um percurso de vida totalmente distinto do percurso da Paula. (…) Mas os espelhos e as luzes do Ritz foram, sem dúvida, o local ideal para reconhecer o trabalho e o percurso de vida de uma mulher que se revelou uma extraordinária lutadora e apaixonada pela vida.

Montes Altos és meu povo

As infinitas possibilidades do ser ficaram consagradas ali naquela noite, em que se demonstrou que a esperança é a dádiva da vida. E Montes Altos saiu igualmente vencedor, mostrando a essência e o propósito da sua existência. O que começou como sendo a ideia de um louco, por muitos assim definida, voltou, uma vez mais, a ter consagração… e desta vez o Ritz foi o limite!

Segue-se um breve testemunho da Paula, publicado no nº 14 do Notícias de Montes Altos.

*

*

*

Impossível será descrever a emoção que senti naquela noite de 14 de Maio de 2007, a jantar num belíssimo hotel em Lisboa – Ritz – rodeada de pessoas que me são queridas e por figuras públicas. Quando chegou o momento de anunciar a grande vencedora, as minhas pernas tremiam, o meu coração batia aceleradamente, foi uma sensação inexplicável, uma emoção forte. Hoje, depois de algum tempo passado, já consigo reflectir um pouco mais e vejo que este prémio foi importante para mim, pois valoriza-me e é também importante para o Centro Social de Montes Altos, esta casa que me abriu os braços e me acarinhou quando mais precisei.

que me abriu os braços e me acarinhou quando mais precisei. Jantar de comemoração do prémio

Jantar de comemoração do prémio ganho pela Paula, em Santana de Cambas.

Montes Altos és meu povo

CAP. III MONTES ALTOS EM NOTÍCIAS

Em 1996, Montes Altos continuava a surpreender: saía o número 1 do Notícias de Montes Altos, o órgão de informação da povoação que não queria ficar esquecida.

Este pequeno jornal

de

concelho

Beja,

do

Nos

local

programas comunitários. O Altos deu então Chança e o “Renascer”, que simultaneamente

as designações dos projectos que enquadravam esta iniciativa, voltando depois a

aparecer.

de

fazia chegar a voz outros pontos do

depois a aparecer. de fazia chegar a voz outros pontos do Montes Altos a e também

Montes

Altos

a

e também

contribuindo

do distrito

para a afirmação Social. 2001, 2002, 2004

foi

local e do Centro

anos

2000,

e 2005, o boletim

financiado

por

nacionais

e

Notícias de Montes

lugar ao “…entre o

Guadiana…”

e

eram

Ao longo de 12 anos de publicações, estes jornais contam a história da povoação

e do CSMA, relatada na primeira pessoa, por dirigentes, associados, funcionários, utentes, agentes de desenvolvimento, autarcas e representantes de outras

instituições. Vamos fazer uma retrospectiva destes anos, apresentando alguns editoriais destes jornais, bem como a transcrição de alguns artigos que sintetizam as actividades desenvolvidas e anunciam novos projectos e ideias para este lugar e para as freguesias de Santana de Cambas e Corte do Pinto.

Montes Altos és meu povo

Número 8 – Agosto 1999

Montes Altos és meu povo Número 8 – Agosto 1999 Centro Social dos Montes Altos O

Centro Social dos Montes

Altos O Lar é já uma realidade Tijolo a tijolo, saca a saca de cimento, o Lar do Centro Social dos Montes Altos vai ganhando forma. Onde ainda há um ano um imenso vazio pontuava, toda uma estrutura que irá albergar quase 30 idosos em 11 quartos ganhou

forma.

O

ritmo das obras é intenso.

Com o trabalho de 3 formandos de um curso especial de formação profissional e de seis

elementos com problemas de exclusão social (alcoolismo e toxicodependência), sob a batuta do senhor José Pisco, as paredes já estão erigidas, e o projecto de Michel Coupier vai ganhando forma. É um projecto que tem também tido a colaboração do Arq. João Aparício e do Eng. Moura Fontes, da Segurança Social de Lisboa, além de um número ilimitado de amigos. Mas o Lar é, tal como o foram as novas instalações do Centro de Dia, um trabalho colectivo, que envolve toda a população, residente e ausente. Enquanto se aguarda pelo tão necessário co-financiamento da Segurança Social, são uma vez

~ 52 ~

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos és meu povo

mais os naturais e amigos de Montes Altos quem auxilia, quer com o seu donativo, quer com o seu trabalho. Frequentemente, há jornadas de trabalho

com o seu trabalho. Frequentemente, há jornadas de trabalho voluntário, para que a obra avance mais

voluntário, para que a obra avance mais rapidamente.

O apoio das autarquias locais tem sido igualmente importante: Câmara Municipal de Mértola e Juntas de Freguesia de Santana de Cambas e Corte do Pinto. Um agradecimento especial ao Sr. José Rodrigues, presidente da Junta de Santana, que tem sido incansável e cujo apoio nos deixa sem palavras para agradecer. Com o seu, nosso, vosso apoio, na Páscoa de 2000 já teremos um primeiro bloco pronto a funcionar.

Rui Constantino

5 Anos do “Diploma de Honra”

O CSMA vem atribuindo desde 1995 o Diploma de Honra às pessoas ou entidades que tenham contribuído de forma significativa para o desenvolvimento de Montes Altos e do seu Centro Social.

Montes Altos és meu povo

Número 10 – Março 2000

Montes Altos és meu povo Número 10 – Março 2000 Com o cansaço de seis anos

Com o cansaço de seis anos

sem

de

férias

nem

fins

semana,

com

a

alegria

e

emoção

incontida de

quem,

com a ajuda de dezenas de

amigos

de

pessoas,

em

o

conseguiu

transformar

e

centenas

sonho

realidade,

numa

experiência

ímpar,

que

evitou

o

pequena

povoação de Montes Altos e a

para

cantos do Mundo, através da imprensa e televisão, com o seu projecto do Centro Social

dos

os

catapultou

despovoamento

da

todos

Montes

Altos,

eis-me

chegado ao fim do projecto com que me comprometi com o Povo de Montes Altos.

Deste meu povo de que sou parte nas qualidades e defeitos, que esmagadoramente nunca me regateou apoio. Daqueles que por laços de casamento ou outros ficaram ligados a Montes Altos e que igualmente me apoiaram sem reservas. Dos meus companheiros dos corpos sociais, cujo empenho e apoio me permitiu liderar o processo de obras, que culminará com a inauguração do Lar no dia 22 de Abril de 2000.

Montes Altos és meu povo

São 11 quartos que permitirão alojar 28 idosos de Montes Altos, da Freguesia de

Santana de Cambas prioritariamente, e da Freguesia da Corte do Pinto e Concelho de Mértola, dentro das capacidades que teremos.

É a segurança de quem é idoso e tem mísera reforma e que sabe que nesta casa

os critérios de entrada serão rigorosamente técnicos e teremos em conta os mais carenciados. Este foi e é um projecto de paixão que, por ser sério e transparente, teve o carinho e apoio de muita gente, e que, através deste artigo, a todos agradeço, com um obrigado especial a todos os que passaram por este Centro desde a sua abertura em 1993. Depois de cumprida a tarefa que a mim mesmo me impus, entrego nas mãos de

todos os associados, presentes e futuros, este Lar de Idosos, pedindo apenas que sejam respeitados os princípios que o fizeram erguer, ou seja, servir os cidadãos e as cidadãs de Montes Altos e pessoas a Montes Altos ligados por laços de família

e ternura, todos os carenciados das Freguesias de Santana de Cambas e Corte do Pinto.

António Diogo Sotero

Paulo Neto, Presidente da Câmara Municipal de Mértola: Ganhar o Futuro

Conheço desde o início a experiência de Montes Altos. Há dez anos, quase ninguém ali ia e o desaparecimento de mais um lugar do Concelho, enquanto espaço habitado, aproximava-se a passos largos. Mas, felizmente, há processos que se invertem, relativamente a podermos dizer que o Monte ganhou o futuro. É que, para além da experiência social que a instituição de solidariedade vem desenvolvendo, um dos aspectos que ao Poder Local mais satisfaz é verificar que uma povoação do nosso Concelho, há bem pouco tempo moribunda, não morreu, tendendo mesmo a fortalecer e a prolongar a sua existência. (…) Por outro lado, o seu regular funcionamento poderá afirmar a continuidade do Monte enquanto lugar, uma vez que o conjunto de idosos, utentes, funcionários e residentes formarão uma dinâmica local que dará novo ânimo a este espaço. (…) Aos outros (ao Governo) pede-se que cumpram apenas a sua parte.

Montes Altos és meu povo

Boletim n.º 1 – Dezembro 2000 entre o Chança e o Guadiana

n.º 1 – Dezembro 2000 entre o Chança e o Guadiana Sete anos. O ser humano

Sete anos. O ser humano tem a mania de tudo medir, de ver de quantos em quantos anos se repetem eventos, qual a duração de cada ciclo

Sete anos. Estes são os anos que decorrem desde a criação do Centro Social dos Montes Altos.

desde que um grupo

de sonhadores decidiu lutar

contra a desertificação, o esquecimento, o abandono, a morte.

Sete anos

Sete anos. Termina um ciclo. A

construção do Lar é o culminar do sonho iniciado há sete anos. Nestes sete anos uma povoação fez mais pelo seu futuro, pelo nosso futuro, que muitos fazem numa vida inteira.

Sete anos. Sete é um número com alguma simbologia. Segundo a Bíblia, Deus criou o mundo em seis dias e ao sétimo descansou. Não criámos o mundo, mas seguramente construímos muitas coisas. Embora não seja ainda o ano do

Montes Altos és meu povo

descanso, o Centro Social dos Montes Altos já pode encarar o futuro de forma mais aliviada.

Nesses sete anos, podem enumerar-se os seguintes grandes objectivos (já que muitas mais foram as realizações):

© Assistência e transporte à população;

© Melhoria da qualidade de vida das populações, com acessibilidades reforçadas, água canalizada, arruamentos arranjados;

© Centro de Dia, com Apoio Domiciliário;

© Empresa de Inserção Social;

© Programas de Formação;

© Programas de Desenvolvimento Local;

© Lar

Sete anos, sete objectivos concretizados. A antiga escola de Montes Altos revelou- se uma escola na verdadeira acepção da palavra. O Centro Social dos Montes Altos ensinou ao mundo que a solidariedade e a conjugação de esforços, ainda é a melhor forma de construirmos um mundo melhor, e que o egoísmo que caracteriza a sociedade moderna se traduz num acentuar das desigualdades e na degradação da sociedade como um todo.

Montes Altos és meu povo

Sete anos. Inicia-se um novo ciclo. De quantos ninguém sabe! De quantos objectivos? Também não se sabe. Sabe-se apenas que no final deste novo ciclo estaremos todos mais ricos. Não materialmente, mas interiormente. Porque no final teremos novamente dado uma nova lição de como podemos melhorar o mundo.

Rui Constantino

lição de como podemos melhorar o mundo. Rui Constantino Hugo Parreira e Luís Pinheiro ~ 5

Hugo Parreira e Luís Pinheiro

Montes Altos és meu povo

Boletim n.º 2 – Abril 2001 entre o Chança e o Guadiana

Boletim n.º 2 – Abril 2001 entre o Chança e o Guadiana caracterizam cada um de

caracterizam cada um de nós.

Todos sabemos que a vida é feita

de alegrias e tristezas, mesmo

que tudo corresse no melhor dos mundos.

Mesmo

governassem muito bem com politicas de prevenção e resolução dos problemas das

pessoas e do País, continuariam

a existir pessoas felizes e

infelizes. Afinal somos humanos

e estamos sujeitos à nossa

condição e à condição de vivermos no Mundo e espaço geográfico que nos calhou por acaso e a outras diferenças que

governos

que

os

Porém, embora não tenhamos eventualmente poder para combater o que é natural ou genético, devíamos ter a ousadia, inteligência, vontade e solidariedade para dar um jeito a este mundo tão cheio de problemas, problemas que se quisermos podemos ajudar a resolver. Em Montes Altos temos tentado aliviar a nossa consciência, fazendo o impossível, muitas vezes, e o impossível tem sido quase tudo.

Montes Altos és meu povo

Ora pela descrença, pessimismo, tentativas de bloqueio e mesmo perseguição, de tudo temos tido e a tudo temos resistido.

Resistimos, acreditámos que poderíamos não deixar morrer Montes Altos. E vencemos essa luta. Luta contra a ignorância, inveja estúpida, incompetência, onde as mentalidades mais urbanas (com mais ritmo e tolerância) se confrontam com hábitos seculares do deixa andar da região alentejana, onde os carimbos partidários e de outras “quintas afins” nos pretendem obrigar a “dançar” ao som de uma música que não gostamos, porque não serve o desenvolvimento do Alentejo (nem de região alguma).

Resistimos e acreditámos que mesmo sem meios financeiros poderíamos reerguer a antiga escola, acrescentá-la e quase só com as nossas forças construir e implementar os serviços de Centro de Dia e Apoio Domiciliário.

Resistimos e acreditámos que iríamos construir o Lar de Idosos que hoje tem 22 utentes, mesmo quando até o simples apoio moral e incentivo nos foi negado pelo Poder Central, mesmo quando alguns amigos ouviam gargalhadas de escárnio de pessoas com responsabilidades sociais – “coitado, agora diz que vai fazer um Lar!”. Ironizavam com cinismo próprio de quem nunca teve iniciativa para fazer nada.

Mesmo quando o apoio técnico falhou, a tudo se resistiu e tudo se venceu.

Depois foi a Empresa de Inserção Social na área da construção civil que constituímos com 11 pessoas, na sua maioria com problemas de exclusão social. Também aqui o prognóstico era a falência. Enganaram-se mais uma vez.

Montes Altos és meu povo

No limite de um combate e quase esgotamento fizemos e ganhámos uma candidatura ao Programa Iniciativa Piloto – Promoção Local de Emprego do Alentejo, onde conseguimos implementar em prazo record as acções a que nos propusemos, com sucesso e empregabilidade. Cumprimos os objectivos, ombreando com Instituições maiores também mais protegidas política e financeiramente. Agora é tempo de tratar dos nossos idosos, velhos mineiros, velhas contrabandistas, cumprir o sonho em Montes Altos.

Somos Chiapas, Tibete, Exkaudi, Palestina. Afinal qual seria o retrato social do Alentejo sem 25 Abril e fundos comunitários, que não o de uma qualquer região acima citada?

Seremos assim Marcos pela dignidade dos indígenas, Lama pela liberdade do Tibete, missionários ao lado dos sem terra do Brasil.

Diogo Sotero

Encontro sobre Violência Doméstica

O CSMA promoveu, em Santana de Cambas, a 5 de Março de 2001, no âmbito do Projecto “…entre o Chança e o Guadiana…” um encontro subordinado a esta temática, que reuniu mais de 40 pessoas, e contou com a presença da Dr.ª Helena Pinto (Presidente da UMAR) e da Dr.ª Filomena Machado (Rota do Guadiana).

(Presidente da UMAR) e da Dr.ª Filomena Machado (Rota do Guadiana). 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)
(Presidente da UMAR) e da Dr.ª Filomena Machado (Rota do Guadiana). 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos és meu povo

Boletim n.º 3 – Agosto 2001 entre o Chança e o Guadiana

Boletim n.º 3 – Agosto 2001 entre o Chança e o Guadiana Verão. Finalmente o Verão,

Verão. Finalmente o Verão, adiando uma vez mais o regresso de outro Inverno. O calor desprende-se do intenso e luminoso azul do céu e derrete o gelo dos nossos corações. A alegria escorre dos gestos e dos movimentos das pessoas. Descobrem-se os corpos, perdem-se olhares entre nuances cutâneas do moreno das peles que, sem pedirem licença, inflamam os nossos sentidos.

As cores do Verão despertam um surto inexplicável de conquista, abraçando o arrebatamento e

pintam de alegria todas as coisas. Os rostos oferecem-se em sorrisos, a virilidade é anunciada nos pormenores mais ínfimos, a sedução latente torna-se acção.

Crianças, férias, banhos de água, banhos de sol, reencontro de familiares, reencontro com aquela rapariga com quem se curtiu o ano passado na Festa dos Salgueiros. Será que ela ainda está a fim?

Montes Altos és meu povo

Passeiam-se os corpos e a alma sob um céu estrelado, profundo e misterioso, enquanto se escuta o sussurro da brisa suave que corta caminho entre rios, regatos e árvores.

A Mina enche-se de filhos, netos e bisnetos dos antigos mineiros, regressados

como é hábito em período estival. A Praia Fluvial é uma nova atracção, antes que

se torne desilusão. Também as outras aldeias e lugares se compõem, empolgando sobre o calor de uma nova moldura humana. Vêm as Festas, mais um passo de dança, mais um tipo engraçado que se conhece, mais uma miúda bonita que despimos mentalmente e que usamos na imaginação até à exaustão. Mais uma bebedeira, e outra e ainda outra; logo vem a ressaca, que depressa passa.

Descapotável em Alentejo profundo, que o tempo é de conquista, que esta idade não volta e há sempre quem gosta.

Uns olhos de azeitona brilham ao luar, dissimulando o convite esperado, já antes insinuado. É hora de fazer, é hora de acabar, para pensar em recomeçar.

Obrigado Verão, queria que o tempo passasse devagar para sorver profundamente o teu elixir, para ser capaz de te reinventar mesmo depois de partires, para não ter que suportar o abandono dessa bruma suave que acaricia a minha pele nos fins da tarde à beira da Tapada.

E lá longe, ou não assim tão longe, onde o tempo estava quase esquecido de

confirmar o seu avanço, estão uns velhinhos com 70, 80, 90 ou mais Verões agarrados às vísceras. Guardam a aridez do calor que entorpece os músculos e o

pensamento e a memória das dificuldades que o passar dos anos não sufocou.

Montes Altos és meu povo

Tiveram Verões mais contidos, sempre proibidos no que mais tinham de apetecível. Contemplam com um misto de nostalgia e curiosidade este novo Verão, bebendo-o no sorriso e no olhar inocente e despreocupado dos netos. Vêem agora um Verão melhor, por comparação a outros tempos, um Verão que no fundo eles prepararam para as gerações vindouras. Recordam o marido (que depois de se deixar de meter nos copos passou a ser um homem bom!) que faleceu, ou os filhos que a morte injustamente levou para longe de quem lhes deu a vida e de quem por eles a vida dava.

Para eles, para esses velhos, o Verão já se foi. Nem sequer pode ser reinventado, já não volta. Ficaram as chagas da idade, as rugas, as marcas crivadas nas peles engelhadas, a recordação de uma virilidade perdida.

Ficaram também uns olhos, que não raro se humedecem, uns olhos cansados, pesados, mas que nem por isso deixam de ser belos, nem por isso deixam de ser de azeitona. Uns olhos muito bonitos, dia após dia mais ternos do que nunca, que comovedoramente se fecham, ao som da música das estrelas que desce da abóbada celeste, para cumprir mais uma noite de sonhos.

Jaime Salvadinho

para cumprir mais uma noite de sonhos. Jaime Salvadinho Festas da Cruz de Maio Recuperou-se a

Festas da Cruz de Maio

Recuperou-se a tradição e, ao fim de 40 anos, voltaram a realizar-se as Festas da Cruz de Maio. As mulheres de Montes Altos, decoraram um espaço onde montaram um altar e instalaram a Cruz de Maio.

Montes Altos és meu povo

Número 11 – Julho 2002

Montes Altos és meu povo Número 11 – Julho 2002 ”, Foi no já longínquo mês

”,

Foi no já longínquo mês de Dezembro de 1996 que nasceu o “Noticias de Montes Altos”, qual prenda de Natal, procurando transmitir o que mais importante se passava em Montes Altos, mas também fazer com que cada um partilhasse as suas memórias. Pouco a pouco, o “Noticias” foi crescendo e impondo-se, tornando-se uma companhia indispensável.

Entre 2000 e 2001 fizemos um interregno, cedendo o lugar ao

o

que funcionou também como o boletim do projecto com o mesmo

entre

o

Chança

e

Guadiana

nome, que o Centro Social dos Montes Altos desenvolveu nesse período. Nesses dois anos, muita coisa aconteceu.

O euro, essa coisa de que andei a falar durante tanto tempo, está ai nos nossos bolsos, parece que sem confusões de maior (excepto as subidas dos preços). O Monte ficou mais pobre do ponto de vista humano com as mortes que

aconteceram

é o preço a pagar pelo tique-taque do relógio.

Montes Altos és meu povo

De entre as coisas agradáveis, formaram-se funcionárias do Lar, o Lar foi inaugurado, criou-se uma empresa de lavandaria, construiu-se uma sala nova, entre tantas outras coisas. O trabalho feito foi reconhecido, tendo o António Diogo Sotero recebido um merecido prémio da Santa Casa da Misericórdia (e de que damos conta nesta edição).

Na Mina, foi inaugurada uma praia fluvial, com uma óptima esplanada (não, não recebi comissão para fazer publicidades!). Em Mértola, abriram os Museus de Arte Sacra e Islâmico. Ainda em Mértola, está uma nova equipa à frente da Câmara Municipal.

O Centro está, como sempre esteve, disponível para trabalhar em prol do desenvolvimento, do Monte, da Freguesia, do Concelho, com todos, na certeza, pelo trabalho realizado, de que não só o impossível é possível como também que a força para o conseguirmos resulta da união de esforços. Em 2002, o “Noticias” está de volta, na continuidade de um projecto que continua a ser inovador no Concelho. Vimos de cara lavada, com novas roupagens, com um aspecto mais atractivo, mas esperamos sempre, com a simplicidade de sempre. Procuramos, de novo, captar a sua atenção, e sobretudo fazer com que seja a sua colaboração a preencher estas páginas. Foi assim no passado, será assim no presente. Por isso, já sabe o que deve fazer. Pegue numa folha de papel, escreva as suas memórias de um episódio, alegre ou triste, que marcou a história de Montes Altos, e entregue á atenção do Centro Social. Não seja tímido, contribua para a preservação da memória da terra.

Até ao próximo “Noticias”

Rui Constantino

Montes Altos és meu povo

Número 12 – Abril 2003

Montes Altos és meu povo Número 12 – Abril 2003 Olhar o passado, dar vida ao

Olhar o passado, dar vida ao

presente e delinear o futuro é

o tema que proponho

enquadrado no tema de capa deste número (a eira da pedra por onde passava a antiga estrada romana e três fotos de alguns dos nossos funcionários do Centro e das empresas de inserção social).

Quem passava pelos lados de Montes Altos e atravessa a estrada velha que liga até Santana de Cambas e Pomarão, não lhe passará

pela cabeça que o que é hoje

uma paisagem deserta (linda todavia) foi pelo menos desde a ocupação romana uma zona habitada e seguramente com um desenvolvimento económico, cultural e religioso superior à maior parte do Concelho.

Com efeito, a exploração mineira feita a céu aberto na então Serra de S. Domingos, pelos romanos, tinha o seu escoamento por uma estrada que construíram entre S. Domingos, Bairro Alto, Montes Altos, passando perto dos antigos povoados do Monte Giraldo e Enjeitados ou Azeitados, seguindo perto da capela de S. Bento, atravessando o riacho a que agora chamamos Chumbeiro

Montes Altos és meu povo

(cuja passagem é feita por ponte romana), mais à frente a povoação do Telheiro, e depois a sede de freguesia: Santana de Cambas. Penso que poderemos concluir que a subsistência das famílias destes povoados passava pelo seu trabalho na mina, nomeadamente como transportadores do minério, sendo lógico que tenham escolhido a residência junto à estrada que diariamente utilizavam com muares que transportavam o minério entre S. Domingos e Pomarão. Este ensaio empírico da história não pretende mais do que transportar-nos para o presente, saltando o período de exploração da La Sabina: 1854-1968.

O presente é a desgraçada herança que recebemos do período de exploração da empresa La Sabina (com este ou outro nome, ingleses ou alemães eles enriqueceram, sugaram até haver minério e sangue e deixaram uma terra abandonada, doente e poluída á espera de dias melhores).

Nós aqui em Montes Altos soubemos aprender com o passado e cientes que “O FUTURO MORAVA AQUI E FAZ MAIS QUEM QUER DO QUE QUEM PODE” metemos mãos à obra e estamos hoje felizes e orgulhosos da Obra e obras que realizámos. Na terra que tinha 11 habitantes em 93 temos hoje quase 60 pessoas, apoiámos uma centena e demos trabalho a quase 40 pessoas.

Pode ver-se na capa alguns dos nossos funcionários da cozinha e das empresas de inserção social. Os rapazes da construção civil, sempre apoiados e acarinhados de forma especial pela equipa de técnicos e dirigentes do Centro Social Montes Altos, por se tratarem de homens e jovens com diversas problemáticas sociais e psicológicas, ali estão entre o trabalho e a brincadeira, as mulheres da cozinha com uma disposição igual à qualidade da comida que com amor diariamente

Montes Altos és meu povo

confeccionam para toda esta grande família que são os nossos utentes em Lar, Centro de Dia, voluntariado, funcionários e comunidade de Montes Altos. Gostaríamos de contribuir para ajudar a desenhar o futuro e esse futuro pode passar pelas estradas romanas do passado.

Assim, tendo como pano de fundo o trabalho que o arqueólogo Miguel Rego realizou para a Câmara de Mértola, parece-me perfeitamente realizável a implementação de um plano de acção para esta zona que passaria pela asfaltação da estrada da Mina – via Montes Altos – Santana de Cambas, ligando em rede social as freguesias de Santana de Cambas e Corte do Pinto, aproveitando e integrando os equipamentos sociais existentes nestas duas freguesias e acrescentando o que está previsto para as povoações de Vale do Poço, Corte do Pinto, Mina de São Domingos, Santana de Cambas e Moreanes.

Toda esta zona tem igualmente potencialidades turísticas que podem fazer emergir pequenas empresas, criando um conjunto de postos de trabalho que assegurarão o futuro desta zona.

Novos Equipamentos para o CSMA Graças à aprovação da nossa candidatura “Interiores” ao Programa LEADER
Novos Equipamentos para o CSMA
Graças à aprovação da nossa candidatura “Interiores” ao
Programa LEADER +, foi possível apetrechar as instalações
do Centro com equipamento de ar condicionado e novo
mobiliário, num investimento que rondou os 10.000 €.

Montes Altos és meu povo

Renascer – (N.º 1) – Abril 2004

Altos és meu povo Renascer – (N.º 1) – Abril 2004 “Mudam-se os tempos, mudam-se as

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades ”

Assim começa um conhecido soneto de Luís de Camões. Agora que nos aproximamos do décimo primeiro ano de vida do Centro Social dos Montes Altos, não se mudam as vontades, que vontade de trabalhar mais e melhor há sempre, mas ampliam- se os projectos em curso. Neste espaço de tempo fomos solidários e construímos uma instituição com as valências de Lar, Centro de Dia, Centro de convívio, damos o apoio

domiciliário àqueles que ainda podem estar nas suas casas, (re)construímos casas (e porque não, vidas?), separámos as águas neste espaço entre o Guadiana e o Chança, temos o mundo todo à distância de um clique do rato Porque mudam os tempos mudamos os projectos, com um fim único, evitar o fim de Montes Altos, ajudar a fazer Renascer a Margem Esquerda, aqui esquecida no Alentejo profundo Renascer é, pois, o novo nome da publicação, agora abrangida pelo projecto Renascer, e do qual damos conta nesta edição. Durante mais dois anos, e no âmbito do Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social

Montes Altos és meu povo

(POEFDS), e com o seu apoio, procuramos ajudar as populações a encontrar e criar as condições para um desenvolvimento local auto-sustentado, em parceria com as autoridades públicas. Semeámos também um futuro melhor, através de um curso de jardinagem, que decorre actualmente no Centro, num programa do Centro de Emprego. A componente prática, esperamos, terá o apoio da iniciativa Leader+, da Comissão Europeia, através do financiamento do arranjo dos espaços exteriores. Num mundo onde a tecnologia é, cada vez mais, essencial, e no âmbito do Programa Clique Solidário, o Centro vai dar formação básica na utilização do computador e na navegação pela Internet – procure o que quiser, do site do Centro Social, ao blogue do Pacheco Pereira, passando por sites mais “lúdicos”. Assim é em Montes @ltos Gorada a possibilidade de financiamento quase integral para a construção de um Centro de Noite em Santana de Cambas, continuamos a lutar para que esta iniciativa em conjunto com a Casa do Povo de Santana de Cambas e com o apoio da Câmara Municipal de Mértola, vá adiante. Num concelho envelhecido, mais uma infra-estrutura destas faz sempre falta Assim se continua a trabalhar em Montes Altos, consigo e para si E, para terminar, aproveite o fim-de-semana da Páscoa para visitar o Museu Mineiro, na Mina de São Domingos.

Rui Constantino

Programa Juventude – Acção 5 No âmbito deste programa o CSMA participou num encontro Internacional
Programa Juventude – Acção 5
No
âmbito
deste
programa
o
CSMA
participou
num
encontro
Internacional
da Juventude, que se realizou na Eslováquia, patrocinando a
deslocação de jovens da região.

Montes Altos és meu povo

Renascer – (N.º 2) – Verão 2004

Altos és meu povo Renascer – (N.º 2) – Verão 2004 Um Concelho mais rico do

Um Concelho mais rico do ponto de vista social

Um concelho mais rico do ponto de vista social: este é o grande desafio que resulta das deliberações da reunião da Rede Social do Concelho de Mértola que teve lugar no dia 17 de Junho. Com efeito, a reunião, que agrupou todos os parceiros sociais do Concelho, foi bastante participada, com animada discussão pelos participantes, e deliberou os tipos de equipamentos a implementar no

Concelho, bem como as respectivas localizações.

O debate, assim como o subsequente processo de escolha, desenrolou-se atendendo à conjugação de vários factores, nomeadamente as necessidades das populações e a disponibilidade de recursos. Com efeito, a maior parte dos equipamentos decididos resultaram da própria vontade das populações, a agora tão falada “sociedade civil”, que uniram esforços e fizeram sentir as suas necessidades. Por outro lado, a racionalidade dos meios e uma distribuição

Montes Altos és meu povo

territorial mais equilibrada dos equipamentos esteve igualmente subjacente às decisões tomadas. (…) Na Margem Esquerda, onde se situa também o Centro Social dos Montes Altos, estão igualmente previstos vários equipamentos. Nos Bens, deverá ser construído um Centro de Acolhimento, um espaço com disponibilidade para acolher pessoas com necessidades pontuais de assistência.

Em Moreanes, o Centro de Apoio a Idosos já está a avançar com a construção de um Centro de Noite. Este tipo de equipamentos visa igualmente apoiar pessoas com necessidades especiais pontuais – por exemplo, um idoso cujo cônjuge esteja hospitalizado temporariamente - mas com uma estrutura de apoio mais formal. Difere de um Lar porque não recebe os idosos permanentemente nem tem outras valências, como por exemplo o Centro de Dia.

O mesmo tipo de equipamento está previsto para Santana de Cambas, no espaço da Casa do Povo, que é a entidade responsável por este projecto. Depois de alguns percalços, que impediram a candidatura a financiamento comunitário, o projecto revela pernas para andar e deverá começar a avançar rapidamente.

Ainda na freguesia de Santana de Cambas, mas com um âmbito de intervenção mais amplo, está prevista a construção de um Centro Comunitário em Vale do Poço. Este equipamento corresponde a um forte anseio da população de toda a Serra de Serpa, numa extensão que abrange os concelhos de Mértola e Serpa, que tem revelado uma imensa vontade e disponibilidade para que este projecto avance o mais rapidamente possível. (…) Na freguesia de Corte do Pinto estão igualmente previstos vários equipamentos, complementares entre si. Na sede da freguesia, a Câmara Municipal disponibilizou

Montes Altos és meu povo

o espaço do antigo Posto da Guarda-Fiscal, que adquiriu recentemente, para a adaptação a Centro Comunitário, conforme anunciado em reunião de Câmara, realizada naquela localidade. Na Mina de São Domingos serão implantados três equipamentos, de diferente índole, mas complementares entre si. O parque escolar será renovado, dando lugar ao Centro Educativo da Mina. A segunda maior povoação do Concelho terá também um Lar de Idosos, um equipamento muito ansiado por uma população que muito deu, sobretudo os que trabalharam na “contra-mina”, e que se desejam um final de vida com mais conforto e solidariedade.

Em suma, e como mencionámos inicialmente, o concelho fica mais rico do ponto de vista social, com este amplo conjunto de equipamentos. No entanto, estes mesmos equipamentos desempenham um importante papel na sustentabilidade do desenvolvimento económico e demográfico do concelho.

Por um lado, a implementação dos equipamentos observa uma lógica de proximidade com as populações locais a servir, permitindo uma melhor satisfação das suas necessidades e com um contributo substancial para a fixação das mesmas, reduzindo a necessidade de deslocações frequentes a Mértola.

Por outro lado, a criação destes novos equipamentos, cria um conjunto significativo de empregos, algo tanto mais importante quanto a ausência de emprego é o principal factor a condicionar o êxodo populacional, seja para a vila, seja para outros destinos. Deste modo, reduz-se o risco (que contudo ainda é elevado) de desertificação. Por último, a criação de emprego tem um efeito multiplicador sobre a actividade económica da região, reforçando a coesão económica e social do concelho.

Rui Constantino

Montes Altos és meu povo

Renascer – (N.º 3) – Dezembro 2004

Altos és meu povo Renascer – (N.º 3) – Dezembro 2004 Numa altura em que o

Numa altura em que o país atravessa mais uma crise (para alguns), onde as palavras “solidariedade social” tanto se pronuncia e os apoios sociais são mais escassos, o fosso entre os mais ricos e pobres se acentua e a classe média (sobretudo os que trabalham por conta de outrem) é cada vez mais sacrificada.

Num País em que o governo pede contenção e justiça social, existem assessores de Ministros a ganhar salários superiores ao do Presidente da República, e ainda as já tão faladas reformas

douradas de Administradores, perguntamos nós, nas Instituições de Solidariedade Social, que nos debatemos mensalmente com o apertar do cinto, se as coisas não podiam ser de outra forma, ou seja, existir mais algum franciscanismo de quem se esperava e espera essa obrigação.

Nós por cá continuamos a resistir e a fazer a nossa obrigação, junto dos idosos, dos cidadãos e cidadãs com deficiência, apoiando jovens e desempregados de longa duração, de todas as formas ao nosso alcance e muitas vezes fora do nosso alcance.

Montes Altos és meu povo

Durante estes onze anos em que, nunca é de mais recordar, encontrámos uma povoação despovoada e caída com 11 residentes, sem quaisquer infra-estruturais, temos hoje Montes Altos recuperado patrimonialmente e os onze habitantes iniciais (1993) deram lugar a 60 residentes fixos. Isto para além dos 45 funcionários do Centro Social e um número de naturais que todos os fins-de- semana nos visitam.

As infra-estruturas realizadas pela Câmara de Mértola, a electricidade, água canalizada, alcatroamento da estrada, arranjo das ruas, e agora o saneamento básico e construção de casa mortuária fecham o ciclo do processo de uma povoação com morte anunciada e que renasce, ajudando a renascer outros montes e aldeias vizinhas.

Diogo Sotero

a renascer outros montes e aldeias vizinhas. Diogo Sotero Grupo Coral da Casa do Povo de

Grupo Coral da Casa do Povo de Santana de Cambas

Montes Altos és meu povo

Renascer – (N.º 5) – Junho 2005

Altos és meu povo Renascer – (N.º 5) – Junho 2005 Na sequência do que tem

Na sequência do que tem acontecido nos últimos anos, com os programas OTL, Jovens Voluntários para a Solidariedade, Serviço Voluntário Europeu, Juventude (acções 3 e 5) e Férias em Movimento, todos através Instituto Português da Juventude, o CSMA continua a apoiar e a promover a interacção dos jovens das nossa freguesias, com particular ênfase nos mais desfavorecidos, com seus congéneres europeus.

E este

ano

cá vamos, uma vez

mais, desta feita à conquista de

Berlim. O projecto, co-financiado pela União Europeia, tem como objectivo final proporcionar o intercâmbio de experiências entre os jovens da União Europeia, de forma a mitigar sentimentos xenófobos e racistas. A generalidade dos jovens deste concelho, particularmente dos “montes” (em contraposição à vila de Mértola) têm pouco conhecimento e interesse por outras culturas, povos e seus costumes. O CSMA tem procurado contribuir para inverter este cenário, incentivando os jovens a expandirem os seus horizontes, via experimentação de novas realidades. Este ano o projecto “As cores da Europa” envolve uma viagem de 12 dias a Berlim, com início agendado para 4 de Julho. Para além do convívio,

Montes Altos és meu povo

visitas turísticas e gastronomia, existe um trabalho de parceria entre todos os países participantes (Portugal, Inglaterra, Alemanha e Hungria). Está prevista a realização de um espectáculo de dança, música, teatro, versando sobre as nossas tradições. Seremos assim uma espécie de embaixadores de Portugal, com a responsabilidade de representar o nosso país. Haverá, mesmo do ponto de vista formal, um dia expressamente destinado à apresentação da nossa cultura e costumes. Não deixa de ser preocupante constatar que a grande maioria dos jovens que procuramos aliciar com estas visitas se mostre quase invariavelmente relutante em aderir a estes projectos, o que é tanto mais surpreendente se atendermos a que a totalidade das despesas são suportadas pelo programa europeu e pelo CSMA (que a tal não é obrigado). No entanto, como se pode verificar a partir das experiências realizadas em anos anteriores, os jovens acabam por gostar e viver muito intensamente estes Encontros. E depois da primeira vez, só pensam em repetir. Para quem nunca saiu daqui, esta é uma experiência realmente muito diferente e aquelas duas semanas que se passam “lá fora”, parecem dois meses, pela quantidade de coisas que acontecem e pelo volume de informação nova que recebem. Estamos convictos de que quem faz estas viagens não vem igual ao que era e não será de todo surpreendente que estes Encontros possam mudar a vida de alguma gente. Por isso mesmo, é que chegamos a insistir com alguns jovens, mesmo sabendo que à partida a adesão deve ser espontânea. Mas como não tem sido, e como não queremos este concelho mais pobre do ponto de vista do conhecimento de outras realidades sócio-culturais e do desenvolvimento pessoal, empenhamo-nos em incentivar estes jovens a contrariar os seus hábitos, normalmente muito enquistados. E os resultados, ou seja, a satisfação que eles depois experimentam, dá-nos razão para assim continuar a proceder.

Hugo Sotero

Montes Altos és meu povo

Número 13 – Agosto 2006

Montes Altos és meu povo Número 13 – Agosto 2006 No passado dia 29 de Maio

No passado dia 29 de Maio

Montes Altos viveu um momento alto da sua História, enquanto povoação, comunidade e projecto, com

o

reconhecimento

materializado

na visita de Sua

Excelência, o Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva.

A visita esteve enquadrada no âmbito do “Roteiro para a

o

Presidente da República quis salientar os casos de sucesso no combate á exclusão, em vários concelhos do Alentejo e

Algarve. Não posso deixar de mencionar a emoção que ainda sinto quando penso na recepção. Mais do que a visita Institucional, tratou-se de um momento muito humano: a espontaneidade, a ausência de protocolos, a moldura humana verdadeiramente fantástica e o interesse demonstrado pelo Professor Cavaco Silva no trabalho realizado fizeram daquela tarde um momento inesquecível. A título de exemplo, estivemos na véspera a discutir se se cantaria “Montes Altos é meu povo” quando o Presidente entrasse nas instalações, tendo-se concluído

Inclusão”,

no

qual

Montes Altos és meu povo

pela negativa. No entanto, chegada a hora, aconteceu de forma espontânea, de tal modo que fez a abertura do “Jornal da Noite”, da SIC (infelizmente sem som). Esse momento acaba por reflectir bem a forma de agir, em que há entrega das pessoas ao que fazem: e nesse aspecto, a visita do Presidente da Republica é uma homenagem a todos, em particular aos funcionários, aos voluntários, aos amigos, que sentem o Centro Social dos Montes Altos como algo de seu, porque deram algo de si para que o projecto fosse uma realidade. E penso que a visita a todos encheu de orgulho. Não queria concluir sem três referências. Em primeiro lugar, quem está na primeira linha: o Tói Diogo, o Sotero, que idealizou e soube motivar todo um grupo para do nada fazer o CSMA, e a que ainda hoje se dedica como se fosse o primeiro dia. Depois, todos os elementos dos Corpos Sociais, que não vou enumerar (desculpem mas não cabiam todos no texto), com particular ênfase aqueles que nos idos de 1993 também ousaram combater o destino. Por último, e já deles falei: as pessoas, que “enchem” o CSMA de vida: os funcionários, os voluntários, os amigos, os utentes. Todos foram, e são, um exemplo, que muitos procurarão seguir, agora que conhecem a nossa história, e que outros, em menor número, invejarão.

PS: Queria deixar o agradecimento a toda a imprensa que se deslocou a Montes Altos,
PS: Queria
deixar
o
agradecimento
a
toda
a
imprensa que se deslocou
a
Montes Altos, que com simpatia
quis
conhecer
e
relatar
o
“sucesso” do CSMA.
Rui Constantino

~ 80 ~

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos és meu povo

Número 14 – Agosto 2007

Montes Altos és meu povo Número 14 – Agosto 2007 Esta edição do “Noticias de Montes

Esta edição do “Noticias de Montes Altos” retrata vários momentos da instituição em que há o reconhecimento do trabalho realizado ao longo dos últimos 14 anos, e de que damos conta em vários artigos nas páginas seguintes.

Em Abril, a convite do Senhor Presidente da Republica, o Centro Social dos Montes Altos esteve representado no “Compromisso Cívico para a Inclusão”, uma conferência que reuniu em Santarém os mais elevados representantes das

principais instituições a trabalhar na área social.

O CSMA, além de ter tido a honra de ter um stand de representação, foi inclusive citado pelo Professor Cavaco Silva no discurso de encerramento do evento.

Em Maio, a Paula Martins foi distinguida com o importante prémio “Mulher Activa”, em reconhecimento da sua luta contra a toxicodependência e dos sucessos pessoais e profissionais alcançados: hoje a Paula trabalha no CSMA, onde é encarregada-geral, é casada e tem um filho pequenino, o Tiago. Em

Montes Altos és meu povo

Junho, a Paula ofereceu um jantar aos colegas e amigos do CSMA, em agradecimento pelo apoio prestado, realizado nas instalações da Casa do Povo de Santana de Cambas. E fica também um cumprimento especial à Dona Adélia, a mãe da Paula, que comovida agradeceu o acompanhamento dado à filha numa ocasião tão difícil.

Ainda em Maio, o Jaime Salvadinho defendeu a sua dissertação de mestrado dedicada ao projecto Montes Altos, e da qual publicamos um pequeno excerto.

um projecto feito com afectos e revelações. Não é uma

fórmula, não há uma fórmula, mas a indicação, segura, e que muitas vezes esquecemos, de que é possível inflectir o destino previsível e que a força de vontade é capaz de mover montanhas, neste caso, montes”.

Diz o Jaime que é “(

)

Em suma, são as várias faces de um projecto que é feito por muita gente:

aqueles que deram os primeiros passos, os que ajudaram a dar outros passos, os

que ajudámos a dar novos passos

a todos eles são dirigidos os prémios e o

reconhecimento que o CSMA tem recebido.

Rui Constantino

prémios e o reconhecimento que o CSMA tem recebido. Rui Constantino ~ 8 2 ~ 15

Montes Altos és meu povo

CAP. IV À conversa com Diogo Sotero

Começamos a conhecer um processo quando nos ocorrem perguntas acerca do mesmo. Podemos porventura conhecê-lo ainda melhor se obtivermos reposta para essas perguntas, sobretudo se o respondente for alguém que se confunde com o próprio processo. Por isso

mesmo, volvidos 15 anos, eis a entrevista inevitável, ao presidente da direcção do Centro Social dos Montes Altos: António Diogo Sotero.

do Centro Social dos Montes Altos: António Diogo Sotero. Jaime Salvadinho (JS) : Conheces esta terra

Jaime Salvadinho (JS): Conheces esta terra há quase 60 anos. Quando conhecemos uma pessoa, ainda que mal, somos normalmente capazes de a caracterizar, dizer que ela é isto ou aquilo…Não há uma pessoa igual a outra. Do mesmo modo, não há uma terra igual a outra. Como é que caracterizas Montes Altos?

Diogo Sotero (DS): Caracterizar Montes Altos não será fácil, sobretudo quando a pergunta é feita a alguém que não tem estudos académicos. Deste modo, limitar-me-ei a responder empiricamente à pergunta em causa. Montes Altos identifica-se como uma povoação onde os laços familiares são muito fortes, em que os laços de vizinhança cruzam-se com os de família, a propriedade habitacional urbana é de famílias nascidas em Montes Altos, constituindo-se assim

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uma malha social com uma força de “matilha”, com os seus redutos, como o antigo Centro Republicano, as ”lojas”, antigas tabernas, que serviam de centros de convívio para os homens, e a mesma loja (na parte de mercearia) que servia de centro de convívio para as mulheres. Os bailes no Centro Republicano, no Largo da Loja, noutros largos do Monte e nos últimos 15 anos no CSMA, ferviam a vida desta comunidade, que se caracterizou sempre, e até aos dias de hoje, por uma solidariedade ímpar, que justifica o grande feito que foi a construção do Centro Social dos Montes Altos.

JS: Quando olhamos, hoje, para um miúdo de 11 ou 12 anos, olhamos para um ser indefeso, dependente, incompetente para a vida, inapto para abraçar as responsabilidades dos adultos. Tu e muitos dos teus conterrâneos abandonaram Montes Altos nas décadas de 50 e 60, mais ou menos com essa idade, rumo a outros ponto do país, e logo para trabalhar. Penso que para vocês a fronteira entre a infância e a vida adulta se situava aí, nesse ponto, nesse limite, nessa iniciação, nessa transição brusca sem adolescência. Como é que explicarias a uma geração que não conheceu isso, o que é deixar a sua terra tão cedo, deixar os seus pais, e ir sozinho para uma grande urbe, logo para trabalhar, onde tudo é desconhecido e divorciado das nossas referências? De que maneira isso marca uma pessoa?

DS: Penso que o ser humano tem capacidades escondidas, que saem quando o sentido de sobrevivência exige lutar e resistir. Esta é parte da razão que faz a diferença entre um miúdo de 10 anos hoje e um miúdo de 10 anos no meu tempo (anos sessenta). Embora miúdos, já sentíamos a falta de alimentos em casa, a falta de trabalho, a escravatura e a violência doméstica nas mulheres, o regime repressivo local e nacional: ele era a Guarda Fiscal a apanhar os contrabandistas (nossos pais e

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avós) ele era a GNR, a reprimir por haver uma galinha à solta, ou por acender um isqueiro sem licença, ele eram os nossos pais revoltados, operários entregues ao álcool em tabernas “aporcalhadas”, cantando muitas vezes para não chorar. E nós nascíamos como coelhos: “Ah magana, que já estás outra vez grávida!” Era a preocupação dos mais velhos com o menino ou a menina que aí vinha. Isto fazia-nos pensar e ganhar responsabilidade, ajudando os pais, fazendo a quarta classe, guardando gado e indo para fora, a maioria para Lisboa, como “marçanos” ou criadas de servir, ganhando 100 escudos por mês (cama e mesa e roupa lavada) e mandando 50 para a mãe, para ajudar a criar os manos ou sobrinhos. Deixar a nossa terra, mas sobretudo deixar a nossa mãe, é um acto de violência humana quase inenarrável. As lágrimas bebiam-se, os sonhos de criança… e acordava-se com um estranho adulto ao lado. O nosso patrão (galego de Braga) tinha passado pelo mesmo que nós, e tratava-nos à bruta…e escrevia-se à mãe a pedir para voltar, sem sucesso. Os primeiros anos são de sofrimento, depois adaptamo-nos, ganhamos raízes na cidade ao ponto de amá-la. Ficamos marcados com a revolta de quem não teve tempo de crescer e ser homem no tempo certo, com a exploração do trabalho e do racismo, porque éramos alentejanos, logo mandriões, indolentes, moles

JS: O que é que mais te marcou na infância em Montes Altos. Quais são as tuas imagens mais remotas?

DS: A miséria, a violência doméstica, a falta de sapatos e roupa adequada, a sujidade, as estrumeiras (locais em frente às casas onde se depositavam os lixos todos), as bebedeiras, os ricos, os guardas, e a injustiça e repressão que exerciam. Há imagens que não quero descrever.

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JS: Vivestes em Lisboa mais de trinta anos. Ao longo de todo esse período, estabeleceste uma relação com a tua terra e com o Alentejo, uma relação em perspectiva, pois passaste a ver as tuas origens a partir de fora. Do que é que um alentejano se apercebe quando está fora, o que ele vê e que provavelmente não veria caso tivesse permanecido? DS: Um alentejano viu sempre a sua província como uma coutada de meia dúzia de ricaços que faziam o que queriam com a protecção do Governo e das forças da repressão. Resistir é a palavra que mais me ocorre. Estando fora ou no Alentejo, cada um luta e resiste conforme as convicções e a tenacidade. Resistir a cantar, lutando pela reforma agrária em 75, por Alqueva, pela construção da barragem, tentando ajudar os conterrâneos menos capazes em tudo o que for preciso.

JS: Nos anos 70 e 80 Montes Altos estava em declínio, caminhando para a morte certa. Qual era o teu sentimento e o dos teus conterrâneos, residentes ou não no monte.

DS: O sentimento era a morte e o fim da terra, isto para a grande maioria. Alguns, poucos, nos quais me incluo, sempre acreditaram que o destino de Montes Altos era decidido por nós e não pelo poder local ou nacional. Para que a terra não morresse juntámo-nos, fizemos uma comissão e nunca deixámos o poder dormir. De exigência em exigência, fomos reivindicando um estatuto de parceiros, o que obrigatoriamente veio a acontecer, e o renascer começa com a electricidade, a água, a estrada alcatroada, etc.

JS: Como se pode explicar o sentimento associado à perspectiva de poder não voltar a regressar, depois da reforma, ao monte onde se nasceu, onde morreram os nossos pais e avós, onde se esqueceram (ou não) os primeiros amores?

Montes Altos és meu povo

DS: Cada qual voltou à terra por razões diferentes. Na maioria dos casos, as pessoas voltaram porque passaram a ter uma instituição social que os apoia, desde o centro de convívio ao lar. No meu caso, sinto que fui o timoneiro dum regressar sem ser velho, fazendo o caminho para os outros se instalarem.

JS: No início dos anos 90 foi criado o Centro Social dos Montes Altos, iniciando-se um movimento que contou com uma extensa participação da comunidade. Nenhuma coisa nasce do nada. Aqui havia uma força de vontade tremenda. Chegar a Montes Altos era respirar essa energia, essa motivação, eu próprio me lembro desses primeiros momentos. Era uma experiência emocional. Parece-me que o que se fez aqui, em parte, foi preservar e revitalizar um vasto património, um património emocional. Não sei se concordas. Em caso afirmativo, em que é que consistia esse património emocional?

DS: Mais que revitalizar um património emocional, quis dar Lar, conforto e segurança, não só a quem nasceu nos Montes Altos, mas também àqueles que foram vítimas da exploração mineira. Em suma, pretendi dar uma qualidade de vida a todos os que aqui viveram e sofreram, proporcionando-lhes condições de vida condignas.

JS: Desde o primeiro momento esta instituição tinha um objectivo muito bem definido? Porquê um lar de terceira idade?

DS: Um Lar de Terceira Idade era e é quase o fim do nosso processo de vida. Antes do Lar, existem as outras valências de apoio que foram igualmente pensadas e que permitem aos naturais viverem nas suas casas, com a segurança de que quando estiverem incapacitados terão o Lar que os acolhe até ao último

Montes Altos és meu povo

suspiro. Conclusão: o Lar está sempre na pirâmide de qualquer projecto de desenvolvimento social em qualquer povoação.

JS: Como é liderar um grupo de pessoas pouco habituadas à iniciativa e ao atrevimento, através de um processo que exigiu precisamente o inverso?

DS: Acredito que se nasce um pouco líder. Existem os líderes demagógicos, que não resistem ao tempo, e os que têm alma e convicção (nos quais me incluo) que lutam por convicções e crenças, transmitem uma verdade que levam a comunidade a oferecer-lhes um capital de confiança, para o líder projectar o que propõe. Isto foi um pouco o que aconteceu comigo, tudo dei, tudo pedi. Liderar foi ir sempre à frente, no pior e no melhor. Foi ser o pai de tudo e de todos. Foi ter a coragem e a ousadia de me opor a todas as armadilhas e egoísmos pessoais de utilização dos poderes. Liderar foi amar todos os que me seguiram, embora criticando-me. Foi ter que saber dizer não a todos os que quiseram aproveitar-se do projecto de Montes Altos em proveito próprio ou político ou partidário. Liderar é fazer obra para a comunidade, sem demagogias e aproveitamento pessoal ou outro. É um acto de fé.

JS: Qual era a sensação de enfrentar um poder regional que chegou a ridicularizar as aspirações deste monte?

DS: Era perceber que esse poder regional era autista (nunca foram capazes de me entender até lhes apresentar obra feita, o que revela não serem pessoas muito inteligentes, o que aliás jogava a nosso favor). Logo, as tentativas para ridicularizar o projecto de Montes Altos foram um tempo que aproveitei para os distrair enquanto o trabalho de todos nós aparecia diariamente.

Montes Altos és meu povo

JS: Este Centro, além de lar de idosos e de todos os serviços prestados a esta população, é um centro de solidariedade, de ajuda ao outro, sem discriminações. Fala-nos desse apelo, dessa quase compulsão de dar e de ajudar e de como isso revolucionou a vida de muita gente nestas paragens…

DS: Há coisas que não se explicam, nem carecem de grande explicação. Assim, para que serve uma instituição de solidariedade social se não pratica actos de solidariedade? Claro que uma coisa são as instituições e outra aqueles que as dirigem. No meu caso, e tentando responder…qual o apelo e a compulsão, para dar o melhor todos os dias àqueles que são pobres e precisam do meu apoio e da instituição que dirijo? Entendo que todos têm direito às coisas básicas da vida. Por isso, tenho tentado minorar o sofrimento de cada um e chegar ao máximo que as minhas forças permitem, dando trabalho, habitação, alimentação, apoio a famílias carenciadas, apoio a crianças, acolhendo idosos nas diversas valências, enfim, sinto-me bem comigo ao ajudar os outros. É o prazer de servir sem nada pedir.

JS: Quais foram os momentos mais felizes do Centro, mesmo aqueles vividos na intimidade?

DS: Foi a inauguração do Lar, os acordos com a Segurança Social e outros organismos, foram as noites de fados e cantigas, foram os momentos de amizade e amor, foram as loucuras das noites loucas

JS: Quais foram os momentos mais difíceis? O que é que pensaste quando passaste por eles?

Montes Altos és meu povo

DS: A falta de dinheiro para pagar aos fornecedores e funcionários, a indiferença do poder central e regional e a falta de apoio para a construção deste equipamento. As idas e vindas a Lisboa todos os fins-de-semana, à boleia com um e outro ou na rodoviária. As fugas de Lisboa. As cumplicidades dos meus colegas de secção que tanto me salvaram Nunca pensei desistir, porque não gosto sequer da palavra, passei esses momentos numa solidão enraivecida, que me dava sempre forças para prosseguir. Se calhar era Deus…

JS: Como defines envelhecer? Onde e como se começa a atravessar essa fronteira? DS: Os velhos não têm idade! A fronteira da velhice está no espírito de cada um. Há gente velha com 40 anos e há gente nova com 90. Para além das nossas peles que enrugam e as forças que vão faltando, não existem fronteiras para saber quem é velho e novo.

JS: Ainda há poucos anos este lugar era sinónimo de fim do mundo. Entretanto, tu ganhaste um prémio nacional (ligado também à actividade do Centro), o Centro ganhou também um prémio nacional, a actual encarregada-geral ganhou outro prémio nacional (ligado inevitavelmente à instituição), o Presidente da República visitou esta terra e o seu Centro no âmbito do Roteiro para a Inclusão, tendo convocado o Centro para estar presente na Conferência Compromisso Cívico para a Inclusão, uma honra que poucos conheceram. Como líder e rosto deste projecto, como é que te sentes com isto tudo e depois de toda esta vertigem?

ser

reconhecido. Como qualquer ser humano sinto-mo orgulhoso, mas não me

DS:

Responsabilidade.

Obrigação

de

fazer

mais

e

melhor.

Feliz

por

Montes Altos és meu povo

alimento desses sucessos, mas sim do que lamentavelmente falta fazer e sou obrigado a remar contra a maré, para que outros equipamentos se construam no concelho de Mértola.

JS: Neste território predomina um tipo de mentalidade pouco afoita, que pesa mais os constrangimentos do que as oportunidades, que repete mais do que inova, que critica mais o outro do que constrói para si mesmo, que vive mais a vida alheia do que a vida própria, que lamenta mais o que perdeu do que o que não ganhou. Faz sentido para ti esta observação?

DS: Obviamente que faz. Trata-se de uma postura humana que é carregada pelas minhas gentes e para a qual não descortino grandes explicações. Ouso pensar que terá a ver com a subordinação do nosso povo aos senhores da terra (vulgo latifundiários) que nunca os ajudaram na sua auto-estima e fomentaram sempre a desgraça para melhor os domesticar.

JS: Um líder é normalmente um visionário, alguém que é capaz de antecipar cenários, de convocar o presente e provocar o futuro. Muitas vezes, ao ver-te agir, tive a sensação de que programavas as coisas a muito longa distância, que eras capaz de prever as mudanças estruturais na nossa sociedade e nas nossas políticas, que eras capaz de prever as reacções das pessoas, os comportamentos que respondiam às tuas manobras, os frutos que nasciam das sementes que lançavas. Acho que essa é uma das características mais importantes de um líder. Queres falar-nos disso?

DS: Conhecer o comportamento humano é fundamental para qualquer líder. Não sendo especialista, fui sempre bem sucedido na visão que tinha das pessoas e dos

Montes Altos és meu povo

anseios destas. Saber o que cada um quer, e colocar cada um no lugar que melhor desempenha, foi outra questão que sempre resolvi bem. Separar o que é bom do que é menos bom e demonstrar de forma humilde que estamos atentos aos golpes oportunistas, abortando-os na casca, ou colocando a casca de banana para eliminar quem não merece partilhar a caminhada.

JS: O Alentejo suscita uma reacção ambígua de amor-indignação. De algum modo, senti isso em ti, mas também noutras pessoas, em que a afectividade e a crítica se aliam numa relação muito visceral. O que pensas sobre isso?

DS: O Alentejo é a nossa cocaína. É uma luz que nos nasce na alma. É uma paixão eterna. É uma terra santa. A minha relação com o Alentejo é a mesma que tenho comigo mesmo, visceral. Porque o Alentejo sou eu…às vezes os alentejanos é que me incomodam. Cada azinheira é diferente e o mesmo são os “chaparros”.

JS: Há bocado falámos em envelhecer

– que disse que envelhecemos quando deixamos de nos surpreender, quando conhecemos as sequências e reconhecemos os ciclos e as repetições das coisas. Alguma coisa te pode surpreender, ainda, em Montes Altos, ou é tudo “déjà vu”? DS: Em Montes Altos, genericamente, as coisas podem evoluir como noutro lugar qualquer, pois se em 15 anos a população aumentou de 11 para 72 pessoas, o património urbano passou a contar com 75 habitações com contratos de luz e água, quem é que pode adivinhar o que mais virá? Nada é “déjà vu”, imaginemos

que alguém se decide a investir nesta povoação! Mais do que isso, penso que o desenvolvimento económico e social passa pela reabilitação das terras próximas de Montes Altos, como a Mina de S. Domingos. Quem nos diz que daqui a vinte anos Montes Altos e Mina não estão colados?

Há um escritor húngaro – Sandor Marai

Montes Altos és meu povo

JS: Há 8 anos escreveste no Notícias de Montes Altos que “eis-me chegado ao fim de um projecto em que me comprometi com o povo de Montes Altos”. Estávamos em 2000. Nos anos que se seguiram, e passou quase uma década, Montes Altos continuou a surpreender, novos projectos e novos objectivos continuaram a aparecer. O que é que tens para continuar a dar a este monte e a este Alentejo?

DS: Tudo o que as minhas forças físicas e psicológicas permitam. A este Monte quero dar o conforto, a segurança, o trabalho, o apoio a todos, o farol da margem esquerda. Ao Alentejo, e ao meu concelho, quero ver instalado um equipamento para deficientes (freguesia de Alcaria Ruiva?), lares em Santana de Cambas, Moreanes, Mina de S. Domingos, Centro de Dia nos Picoitos, Centro Comunitário em Vale do Poço, Centro de Dia na Corte do Pinto, Lar na Margem direita do concelho (S. Sebastião dos Carros), quero estar presente nestes e noutros projectos que façam do Alentejo uma terra onde os alentejanos continuem a nascer.

façam do Alentejo uma terra onde os alentejanos continuem a nascer. 15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos és meu povo

CAP. V MONTES ALTOS NA PRIMEIRA PESSOA

Montes Altos na primeira pessoa: relatado por quem atravessou este processo, sob diversos ângulos. A maior parte das transcrições corresponde a testemunhos orais registados no âmbito de estudos e outros trabalhos. Algumas frases são extraídas do Relatório e Contas da Direcção, Balanço de Actividades, Plano de Actividades e artigos de jornais. Nada do que segue foi produzido a pensar neste livro. Limitamo-nos a recolher algumas “imagens verbais”, que valem pela sua força e subjectividade, uma vez que decorrem da vivência das pessoas que

fizeram este projecto. As frases não estão assinadas, embora haja uma referência

à respectiva proveniência. Não há um “eu” individual, mas sim um “nós” colectivo.

Relação com a memória

A vida era má porque os pais ganhavam pouco, muitos filhos, 5 filhos, com os meus pais, e mais a minha avó. Comíamos a semana inteira com 100 escudos. Calcei os primeiros sapatos com 12 anos. Diziam que havia muitas bruxas. As pessoas andavam no contrabando. O pai nunca trabalhou debaixo do chão, trabalhava na Achada. Na altura das cearas, do trigo, tomavam aquelas

empreitadas, tratar do trigo aos lavradores, levantavam-se às três da manhã. Veja

lá o que eles penavam, ainda por cima mal comidos.

Utente em lar

Nasci no Monte das Figueiras. Em criança andava por aí aos tombos. Comecei

a trabalhar muito novo, andava a regar as hortas, ceifava também, guardava

bestas, porcos, cabras, vendia peixe de monte em monte numa bicicleta a pedal,

Montes Altos és meu povo

depois tive uma a motor, já não pedalava tanto, andava a colher mato… trabalhos do campo.

Utente em lar

Os primeiros sons que ouvi, as primeiras imagens que vi e os primeiros cheiros que senti foram em Montes Altos.

Residente

O convívio com as amigas da minha idade, os bailes, os cantares, as idas aos

Na altura festejava-se o São João, a Páscoa e o

poços buscar água, as festas

Natal. Eram alturas em que comíamos carne! Agora come-se carne todos os dias,

mas na altura só se comia carne nas festas, pois quase toda a gente tinha

galinhas. Eram tempos difíceis, em todo o lado as pessoas passavam dificuldades,

e por isso comia-se sobretudo pão e feijão.

Residente

Comecei desde pequeno a trabalhar, para aí com 10 anos, a tratar de vacas. Depois de deixar os bichos, era descarregador de fruta no mercado. Apanhava cenoura também. Tive sempre uma vida difícil.

Utente do Apoio domiciliário

À tarde vinha muita gente buscar água à nora, pois era uma boa água.

Associado

Após a grande pescaria que nos carregou a todos, abalámos aos trambolhões pelos caminhos fora. Já era alta a madrugada quando alcançámos os tão desejados Montes Altos, para descansarmos um pouco, indo assim incomodar o Manué, que a custo se levantou da cama e veio aviar uns copos de branco.

Associado

Montes Altos és meu povo

Dantes não tínhamos classes, havia grande amizade entre as pessoas.

Residente no monte, voluntário no CSMA

Lembrei-me então da minha avó e das histórias que ela me costumava contar quando era mais pequeno. Não só as histórias habituais, da carochinha e afins, mas também histórias de gente de verdade que deu o duro, nas terras secas que rodeiam o monte e de onde, à força de muitos braços, era retirado o minério que alimentava as fábricas de Inglaterra. As histórias daqueles que perderam a vida em troca de uma vida melhor para os seus, ao atravessar a ribeira com uma carga de café.

Descendente de natural / dirigente

Nasci nos Picoitos. Trabalhei no campo, guardei gado, cabras, ovelhas. Andava com o meu pai. Eram tempos difíceis. De 5 molhos de trigo e cevada eles (os patrões) ficavam com 4 e só levávamos um. Havia umas faltas, havia anos em que não se colhia, até o pão faltava. Estávamos dependentes do campo. Havia muitos filhos na altura. O nosso trabalho era para eles (os patrões). Os tempos eram outros, a vida era outra.

Utente em Lar

Andava na vida, no contrabando, levar açúcar brasileiro. Era só de noite, de dia tínhamos de estar escondidos no barranco.

Utente em lar

Noutros tempos, o meu pai morreu em minha casa, o campo acabou, toda a gente semeava, os filhos logo desde pequenos começavam a trabalhar.

Utente em lar

Montes Altos és meu povo

Nasci em 47 em Montes Altos. O meu pai era mineiro, a mãe estava em casa e tínhamos campo. O meu pai ia para a mina, a mãe para a ceifa e eu, com 4 anos, ficava só, no monte. Fiz a 4ª classe, com 11 anos, e depois fui trabalhar para o campo, lavrar, debulhar e ceifar. Até aos 14. Depois segui para Lisboa, levei dentro do saco umas calças de dezuarte, uma camisa, umas cuecas.

Residente

A imagem da miséria, da fome, da violência doméstica, das tabernas cheias de bêbados, de mulheres grávidas “à força”, dos piolhos, dos guardas republicanos como homens maus que multavam as nossas mães por as galinhas andarem na rua, da revolta contra os poderosos (agrários, guardas e outros que tais).

Residente / dirigente

Aqui no monte era uma vida muito difícil, os maridos trabalhavam na mina, eles morriam e elas não tinham uma pensão, era diferente de agora, que todos têm uma pensão.

Residente

Isto era muito grande, estava tudo muito longe, parece que para ir à taberna do Júlio demorava-se uma hora, havia miséria, o meu pai vinha cansado da mina, tinha ainda que ir para a horta e eu ajudava-o, tinha que ir com um balde, montados num burrito, tínhamos que ir à cooperativa à Mina ajudar, brincava-se ao arco, jogava-se à bola, passava-se o tempo nessas coisas.

Natural não residente

Dantes

acabava.

Natural não residente

tínhamos de

ir

ao

poço até às

seis da

manhã, se não a água

Montes Altos és meu povo

Nasci em Montes Altos. Brincava, ia regar as hortas, uma vez fomos às hortas dos mudos, eles tinham uma grande ceara, regaram a ceara, enchemos aquilo de grão, depois descobriram, andavam atrás da gente, fugimos. Todas as tardes ia a regar às hortas.

Residente

O meu pai trabalhou na mina, na fábrica de enxofre na Achada, não havia condições para que eles trabalhassem, havia muitas mortes por acidente. Quando foi transferido para o Algarve, foi por intermédio das minas. Tivemos uns pais maravilhosos.

Natural não residente

Fui então com os porcos, atrás dos porcos do Romana: foi a minha vida. Depois fui trabalhar para a Mina. Trabalhei a céu aberto, na terra encarnada. Era um operário da empresa, para onde nos mandavam era para onde a gente ia. Trabalhei lá vinte anos.

Residente

Fim das minas de São Domingos

Os homens ficaram desempregados da mina, as mulheres eram todas domésticas, eles foram reformados antecipadamente (os que puderam, outros partiram para o Algarve, Lisboa e estrangeiro e deixaram as mulheres e filhos, levando-os logo que encontraram estabilidade mínima). O quadro era desolador, a miséria completa e a depressão colectiva. Todos partimos, todos chorámos e voltávamos todos os anos e cantávamos… embebedávamo-nos e chorávamos.

Natural não residente

Montes Altos és meu povo

Isto fechou tudo, foi obrigado, as pessoas morriam (o tio Chico morreu, esta casa fechou, o tio Manel morreu, esta casa fechou, o tio António morreu, esta

casa fechou

vida não dava. Até o Engº Murta foi-se embora.

as casas foram fechando. Tive que me vir embora, pois a

),

Utente do apoio domiciliário

Fim da Mina. Foi péssimo, pois era o ganha-pão das freguesias de Santana e de Corte do Pinto. Uma grande parte do pessoal foi para Lisboa, outros para a Bélgica, Holanda, outros foram para o Algarve, uns para Faro, outros para Lagos.

Residente

O pessoal foi daqui para fora, aqui não havia vida, tinham que se jogar ao que havia, uns foram para Lisboa, outros para o Algarve, outros para outros sítios.

Utente em lar

Perderam muitas pessoas o pão.

Utente em lar

Partida para fora de Montes Altos

Saí daqui aos 11 anos, com muita tristeza, tanta, tanta tristeza, tanto choro. Foi logo para trabalhar.

Natural não residente

Aos 10 anos saí. Os meus pais saíram, foram para Lisboa. Aos 12 anos comecei a trabalhar num pronto-a-vestir, depois os meus pais foram para a Amadora, fomos a morar para um quarto, trabalhei nos candeeiros, polidores de metais e bate-chapas.

Natural não residente

Montes Altos és meu povo

Quando saí daqui não gostava de ir para Lisboa, mas depois fui-me habituando àquele ritmo, acabei por me adaptar àquele sistema.

Natural não residente

Na altura do encerramento da mina havia os suplentes, eu era um deles. Pagavam-me semana sim, semana não. Eu fui ter como engenheiro e disse-lhe que isto não podia continuar assim. Fui para o Algarve com a minha mulher:

para Loulé.

Utente do Apoio domiciliário

Por infelicidade a mina acabou e tive que deixar a minha querida terrinha.

Residente

Relação com a terra

deixar a minha querida terrinha . Residente Relação com a terra ~ 1 0 0 ~

Montes Altos és meu povo

O meu marido é do norte, eu quero vir para a minha terra, se for para a terra do meu marido e morrer lá, quero ser enterrada aqui, penso que o amor é tanto que continuamos a viver.

Natural não residente

Vinha à terra de férias e não tinha dinheiro (a passagem era 80 escudos, quem me emprestava era o Tói Diogo, depois pagava eu ao Zé Diogo). A juventude foi feita de fato-macaco, a escorregar pelas escadas de Santo Amaro (eu, o Zé Diogo, o Zé Garrocho). E o fato-macaco estava cheio de sebo da sopa.

Residente

Havia ainda um certo número de naturais a residir no povoado, mantendo um tipo de vida mais próximo da antiga ruralidade, não tanto por resistência, mas por escassez de meios (a água vinha do poço, no burro, ao ombro ou na anca, o jantar de grão cozinhado na lenha).

Dirigente

Em Montes Altos havia muita gente, mas vivia-se com muita dificuldade.

Associado

Estive muitos anos sem cá vir. Cheguei a estar 15 anos sem cá aparecer.

Utente em apoio domiciliário

Enquanto trabalham, os alentejanos que partiram sentem saudades do futuro.

Residente / dirigente

Nessa altura não era fácil vir cá. Mandava o ordenadinho para a minha mãe, rebuçados e caramelos dentro das cartas para os meus irmãos. Eram três irmãos. Normalmente vinha cá de ano a ano.

Natural não residente

Montes Altos és meu povo

Não encontro palavras para exprimir tudo quanto vai no meu coração (…) São tantas as emoções que ainda sinto quando penso nos Montes Altos e nos amigos que deixei, que hoje fazem parte de mim como se meus familiares se tratassem.

Ex-funcionário / residente

Não há palavras para descrever o sentimento quando vinha cá, sempre com um grande amor e espírito de rever a família e os amigos e com carinho. Era sempre com um carinho honesto, amor puro que nem sempre hoje existe, e foi com esse amor puro que se fez o que se fez.

Natural não residente

O meu trabalho, a minha luta tem sido p’ra voltar o mais depressa possível para Montes Altos.

Natural não residente

Vinha-se de ano a ano e era os que vinham. Era um dia para cada lado, de camioneta. A primeira vez que parti, fiquei dois anos e meio sem cá vir, tinha de me despedir do emprego para vir, pois não havia férias. Quando voltava era fácil voltar a arranjar trabalho no meu ramo.

Residente / voluntário do CSMA

Desde sempre tive uma relação afectiva com Montes Altos, que se mantém ainda. Além disso, é um local calmo, que permite recarregar baterias após o stress da vida em Lisboa.

Descendente de naturais / dirigente

Montes Altos és meu povo

Penso que a distância permite analisar determinadas situações de forma mais fria e menos interessada, o que às vezes é importante em temas mais quentes.

Descendente de naturais / dirigente

Antigamente era duro, candeeiro a petróleo, poço com a bilha, estrada em terra batida, mas mesmo assim as pessoas gostavam de cá estar e voltar todos os anos. Juntávamo-nos 7 ou 8, íamos a penates, hoje toda a gente tem carro, mas dantes não, chegámos a ir à Corte do Pinto (6 km), p’rá aí às 11 da noite a pé, moços e moças, não importava.

Residente / voluntário do CSMA

Montes Altos no início dos anos 90

Em 1990, Montes Altos estava morto, como a Achada e a Moitinha (

Utente em lar

)

dantes Montes Altos era a morte lenta, casas caídas, na eminência de vir a ser a Moitinha ou a Achada, fazia-se o cálculo de vida às pessoas que estavam e estimava-se o número de anos que faltavam para isto acabar. Antes do Centro já contávamos os velhos que havia, a ti Lourença não se importava que os velhos morressem e dizia: “eu vou p’ra Mina!”.

(

)

Residente / voluntário do CSMA

Um monte quase em ruínas, com umas vinte casas habitáveis minimamente, sem água canalizada, com 11 residentes, quase todos idosos, perfeitamente entregues ao destino que era o abandono.

Residente / dirigente

O monte teve uma altura que eu pensei que ia morrer, que ia ter o fim da Achada e da Moitinha, mas houve uma mudança a dada altura, que é terem

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

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Montes Altos és meu povo

começado a recuperar as casas. O meu pai foi das primeiras pessoas a arranjar as casas, depois surgiu a ideia maravilhosa do Tói, tentou convocar as pessoas todas na Casa do Alentejo, aquele almoço que ele organizou, uma ideia maravilhosa, que criou postos de trabalho e ajudou os velhotes, que é a base principal.

Natural não residente

Agosto de 1993. O Monte está morto, o pessimismo apodera-se da nossa gente, o “monte vai morrer”, afirma-se e sente-se nos silêncios do “pial” da loja.

Residente / dirigente

Há dez anos, quase ninguém ia ali e o desaparecimento de mais um lugar no concelho aproximava-se a passos largos.

Presidente da Câmara de Mértola em 1997

O ambiente de resignação era evidente. Adivinhava-se o fim da comunidade criada por mineiros e contrabandistas. Teria o mesmo fim de outras povoações do interior alentejano que hoje são localidades fantasma.

Jornalista

Montes Altos és meu povo

O Centro Social – a revitalização da comunidade

meu povo O Centro Social – a revitalização da comunidade Montes Altos pouco a pouco começa

Montes Altos pouco a pouco começa a ver de novo os seus, depois de uma visita seguem-se outras, depois as férias, e mais umas visitas durante o ano. Montes Altos não podia acabar, está no coração e dá-se o reviver, a electrificação, a água canalizada, a estrada alcatroada, e o Centro Social, obra de grande impacto no apoio a pessoas idosas, centro de convívio de todos os naturais.

Cônjuge de natural não residente

Deus quis que uma pequena povoação, quase esquecida do mundo, mas não dos seus habitantes, lutasse contra um destino cruel que, a pouco e pouco, se vai abatendo sobre as pequenas localidades do interior português.

Descendente de natural não residente

A ideia de constituir o Centro Social dos Montes Altos foi um estado de alma que sempre me perseguiu, de forma a responder socialmente aos pobres de Montes Altos, em particular, e a todos os mineiros e suas famílias das terras em

Montes Altos és meu povo

volta da mina, mais concretamente das Freguesias de Santana de Cambas e Corte do Pinto. Ao mesmo tempo, responder a uma luta contra o despovoamento que se iniciou com o encerramento da Mina de S. Domingos.

Residente / dirigente

As primeiras jornadas culturais em 1994: no meio do deserto alentejano, uma terra de 10 habitantes acolhe mais de um milhar de pessoas em 3 dias de festa, procurando arrecadar receitas para o CSMA. Três noites mal dormidas, com algumas horas de serviço à caixa, vendendo bebidas e a tentar não me enganar nos trocos.

Descendente de natural / dirigente

Nesse mesmo “pial”, o banco corrido de cimento da nossa infância, juntam- se dois homens, que depois de demorada e pensada decisão, propõem aos naturais da terra a reabertura da antiga escola, e a criação do Centro Social dos Montes Altos.

Residente / dirigente

Mas um dia chegou o diabo, olhou em volta e ficou desolado, viu casas a cair, muros em baixo, o ar desértico desta terra e disse: (…)

Residente

O que eu nunca pensei foi que ao fim de 50 anos visse a minha terra renascer do nada, por carolice de meia dúzia de moços mais novos do que eu.

Natural não residente

Foi então que um grupo de naturais mais destemidos pensou em criar na escola abandonada um Centro Social, para que se chamassem os mais ausentes às origens.

Presidente da Junta de freguesia de Santana de Cambas (1997)

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15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

Montes Altos és meu povo

Força de vontade / espírito de intervenção

Às vezes o meu marido diz-me que eu deliro com o monte, e a verdade é que não queria que aquilo morresse. Todos colaboraram com o Tói Diogo, havia bailes e a nossa alegria era tanta que não nos importávamos de passar a noite toda a trabalhar, sempre na quermesse, a dançar. Não ficávamos com os prémios, quando saíam dávamos logo para o Centro, passávamos a noite toda a vender bebidas, as pessoas rendiam-se nas caixas. O rally-paper, uma grande cauboiada, toda a gente a participar e hoje estamos contentes pois o objectivo era este. No fim da festa perguntávamos: Tói, correu bem (relativamente aos lucros)? Se ele dizia que sim, ficava-mos todos contentes e com ânimo para prosseguir com mais festas; se fosse necessário era já no dia seguinte.

Natural não residente

Embora, devo admitir, não partilhasse do optimismo e entusiasmo desses familiares

Natural não residente

Houve um chamamento, sentindo que a fé, aliada à força, à coragem e ao crer, funcionava como uma alavanca para uma onda de entusiasmo que impregnava os corações de todos sem discriminação.

Associado

As festas, no início…precisávamos de carne. Um dos fins-de-semana fui duas vezes a Espanha, fiz com muito amor e carinho, estávamos metidos nisto. Numa das festas vendemos 20 barris de cerveja, o baile acabou às sete da manhã, foi algo maravilhoso, queria dançar, mas não podia, juntávamo-nos todos a contar o dinheiro e era um espectáculo, a gente trabalhou, mas teve o nosso lucro.

Natural não residente

Montes Altos és meu povo

O Centro é ainda hoje toda aquela energia do Diogo e a alegria terna da Mané.

Técnica de Desenvolvimento Local

A pobreza aguça-nos o instinto de sobrevivência, e neste Monte esse instinto levou-nos não ao individualismo, mas sim ao cultivo da solidariedade (

Natural não residente

Vale a pena lutar por ideias e objectivos justos, mesmo que estes se apresentem muitas vezes como que intransponíveis.

Balanço de actividades do CSMA (1997)

Depois do esforço, que nunca é demais lembrar – sobre-humano – concluímos as obras do Centro de Dia, inaugurado em Agosto de 1997 Eis-nos preparados para iniciarmos a última fase do nosso projecto, que consiste na construção de quartos para 26 pessoas.

Plano de Actividades para 1999

Montes Altos, uma paixão de verdade

Associado

Regresso aos Montes Altos

A gente veio para cá porque o meu genro tinha cá a casa, disseram-nos que aqui tínhamos outras comodidades, o meu marido tem também problemas de saúde e o médico aconselhou que estes ares seriam melhor para ele, mas temos casa no Algarve.

Residente

Montes Altos és meu povo

O pouco que eu juntei foi para investir aqui nas casitas. A vida lá também não foi fácil, a mulher nunca trabalhou, fui sempre eu a trabalhar. Depois tive uma crise, deu-me um enfarte, já não podia trabalhar, deram-me a reforma. Com a reforma já não ganhava para a renda de casa, tive de vir para o monte, tive de me socorrer aqui e acabou-se a conversa.

Residente

Conheci o monte com muita gente, mas chegou ao ponto de apenas aqui viverem 10 pessoas. Nessa altura ficámos como que em escuridão, sentimos muita tristeza. Os anos foram passando… e o monte começou a ter vida, porque os que partiram voltaram à sua terra.

Residente

Luta contra o esquecimento

Depois de anos e anos abandonados ao seu destino, os residentes no concelho de Mértola podem hoje ter alguma esperança num futuro menos dramático.

Residente / dirigente

Chamar a atenção das autoridades competentes para a nossa existência como povoação do concelho de Mértola, conseguindo alguns benefícios em função do trabalho desenvolvido pelo Centro.

Balanço de actividade (1994)

Resistimos e acreditamos que poderíamos não deixar morrer Montes Altos. E vencemos essa luta.

Residente / dirigente

numa

horta à volta de Montes Altos ( nasceu uma linda menina alentejana a quem foi

Naquele lugar não nascia uma criança há mais de 25 anos. (

)

)

15 Anos (31.08.1993 – 31.08.2008)

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Montes Altos és meu povo

dado o nome de Sandra. (

contributo real contra o despovoamento.

Residente / dirigente

)

registar a menina na freguesia, afinal o seu

Aquilo que anteriormente era uma escola abandonada, é hoje um espaço adaptado.

Residente / dirigente

O trabalho que agora começámos, embora modesto, de início, é um modo de aproximar as pessoas, dar-lhes pretexto para se encontrarem, repartirem as alegrias e tristezas.

Residente / dirigente

Mas, além de quebrar o isolamento de cada um na sua própria casa, o novo projecto quebra também a distância que separa aquele lugar da Mina de São Domingos.

Jornalista

A provocação e a reivindicação

Por decência e educação não vou falar daqueles (pessoas e instituições) que tudo fizeram para prejudicar o Centro Social dos Montes Altos. O tempo se encarregará de julgar todos e cada um de nós!

Residente / dirigente

Uma sociedade cada vez mais egoísta e um poder continuamente demagógico, eleitoralista e incompetente.

Residente / dirigente

Montes Altos és meu povo

Diogo Sotero mostra-se desapontado pelo comportamento do organismo de que é funcionário (Segurança Social), dizendo que não se poupará a esforços para que este organismo tenha uma coerência entre o que diz ao povo através da imprensa e o que faz quando se lhe apresentam projectos concretos.

Jornalista

Mas, em jeito de remate, ficamos a saber que os dirigentes do Centro vão para a frente com ou sem Segurança Social.

Dirigente / residente

Participação da comunidade Nós temos o hábito de estar juntos. Mesmo sem falar, comunicamos. É a solidão acompanhada.

Residente / dirigente

Um pequeno grupo de pessoas transformou Montes Altos, uma aldeia à beira da extinção, numa comunidade estruturada na solidariedade.

Jornalista

Isso só se consegue se as pessoas derem as mãos naquilo que é fundamental e não fizerem oposição só por fazer.

Vereador da Câmara de Mértola (1996)

Os amigos de sempre precisam de ser os amigos para sempre, pois só unidos como até aqui poderão continuar a ser o exemplo de que a perseverança, o sacrifício, a solidariedade e o humanismo podem mudar o mundo (

Natural não residente

Um apoio popular surpreendente (traduzido em quase 4500 contos de donativos) de gente de todas as cores e credos.

Relatório e Contas (1999)

Montes Altos és meu povo

Impacto na comunidade

Montes Altos és meu povo Impacto na comunidade Confiança no futuro , a certeza de que

Confiança no futuro, a certeza de que valeu a pena o esforço para que o futuro pudesse morar de novo aqui.

Dirigente

O CSMA é um oásis no meio do deserto, em tudo, traz dinheiro, segurança, traz esperança.

Descendente de natural

Para mim foi a melhor ajuda, em termos de vida pessoal, este Centro ajudou- me a ver a vida de outra maneira.

Funcionária

Estou tão feliz, pois se chegar a velhinha tenho neste monte um lar tão belo onde possa estar.

Residente

Montes Altos és meu povo

Ninguém pensava que a gente tivesse o que tem agora no nosso monte.

Utente em lar, natural de Montes Altos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e hoje a realidade é outra. Montes Altos renasce das cinzas, é a estrada, é a água, a luz, o nosso Centro Social, é o regresso de muita gente, são as nossas festas com o nosso povo e o outro, também todos unidos, elevando bem alto o nome de Montes Altos.

Cônjuge de natural não residente

O Centro tem sido uma grande ajuda para a sociedade, em termos de apoio domiciliário e de ajudas com produtos alimentares. Para a vida das pessoas tem sido, para alguns casos, a saída de um poço muito fundo.

Funcionária

O projecto Montes Altos tem sido, ao longo da sua existência, o grande dinamizador da prática de solidariedade no terreno, nas freguesias de Santana de Cambas e da Corte do Pinto.

Associado

O CSMA funciona como uma forma de ancoramento, um porto seguro para os ausentes, mesmo que o seu projecto de vida não seja o regresso à origem.

Associado

Os idosos, coitados, alguns não teriam para onde ir, e nós quando chegarmos à idade deles teremos talvez uma casa para onde ir. Dá alegria ao monte, pois muitas casas estão fechadas grande parte do ano, só abrem no Verão.

Residente

Montes Altos és meu povo

Deu mais vida a estas aldeias, deu apoio a várias famílias e criou postos de trabalho. Proporcionou ocupação aos idosos (Centro de Dia) e a outras pessoas (Voluntariado).

Funcionário

É um alívio poder deixar a minha mãe aqui (internada), porque derivado da situação de trabalhar não podemos estar sempre ao pé.

Natural não residente

Isto foi uma coisa muito boa. Mudou tudo para melhor, graças a Deus. Tão bom que foi que nem sei explicar o que é que foi. A gente ter esta porta aberta é uma boa coisa.

Residente

O Centro tem-me ajudado, ajudou na carta, ajudou a comprar o carro, quando preciso estão lá, ajudam-me. Fizeram-me também algumas obras de graça na minha casa. Acho que ajuda muita gente, facilita, tem ajudado muitos.

Funcionário

Funcionou como a força suficiente para que fosse instalada água canalizada e alcatroada a estrada até à Mina. Às pessoas, deu um motivo para unirem esforços e trabalharem em conjunto, criando um novo espírito comunitário.

Descendente de natural / dirigente

Estou melhor aqui do que na minha casa sozinha. Não gostava de estar sozinha, tinha que fazer as minhas coisas, limpar as casas, limpar as casas dos outros, tratar daquela turgia toda. Tinha de limpar a casa do Chaveca.

Utente em lar

Montes Altos és meu povo

É positivo, dá trabalho a muita gente, muitos só poderiam mesmo trabalhar aqui, o emprego aqui é muito difícil, fazemos muito por muitas pessoas, facilitamos transportes.

Residente / voluntário

Solidariedade

Cada um ajudou naquilo que pôde;

Natural não residente

Trata-se de uma relação de afecto e solidariedade, em que sempre nos ajudamos uns aos outros.

Residente / dirigente

O CSMA tem procurado sempre estar ao lado daqueles que mais

necessitam, indo de encontro às pessoas sem estar à espera delas,

porque aqueles que sofrem no silêncio são os que mais precisam de um afecto,

de uma palavra amiga.

Associado

A solidariedade é uma forma de arte para quem a pratica.

Natural não residente

É uma forma dinâmica de actuar no terreno, sem quaisquer preconceitos,

com uma aceitação tão natural como a visita de um amigo, que afinal também o é

(a propósito de se acompanhar as pessoas no próprio domicílio).

Associado

Montes Altos és meu povo

Um estado de alma que se reflecte numa grande alegria e gratidão por receber o carinho, amor e a ternura daquela gente, que sendo materialmente pobre, é tão rica interiormente, deixando-nos com a sensação de receber tanto, dando-nos apenas com um sorriso, um toque de afecto, uma palavra de conforto. É de facto uma experiência ímpar.

Associado

Sustenta-se numa singular e humana maneira de estar na vida: o despojamento (…)

Residente / dirigente

Também aqui somos a diferença, pois não nos sentimos conotados com qualquer tipo de poder, partidos ou religiões, somos um todo que se respeita na diferença, com o máximo divisor comum que é servir o próximo na solidariedade e no amor.

Residente / dirigente

O CSMA devolveu os valores da solidariedade, amizade e compaixão, em suma, a dignidade, que eram a matriz da vivência comunitária e social nestes lugares.

Associado

Modelo de Intervenção

Ajudar as pessoas a gostar da vida é responder à necessidade de se sentirem valorizadas, reconhecidas, úteis e autónomas. Ir ao encontro dos que vivem situações em que isto não lhes é oferecido é o objectivo desta instituição.

Associado

Montes Altos és meu povo

O Centro é uma referência, é um exemplo de coragem: como a partir de tão pouco, do ponto de vista material, é possível fazer tanto.

Associado

Primeiro, agir junto dos casos urgentes, sem a burocracia instituída nos serviços públicos, mas em articulação com estes.

Descendente de natural / dirigente

Claro que aqui marcamos pela diferença. Não temos a burocracia das reuniões tediosas para se decidir onde se vai pregar o prego, e somos pessoas de acção, decidimos fazer e fazemos, não andamos aqui às voltas. Somos simples, organizados, metódicos e trabalhadores.

Funcionário

Actuação imediata no terreno. Independência dos poderes. Vontade – e disponibilidade – de fazer.

Descendente de natural / dirigente

(Eis a fórmula do sucesso):Uma boa estrada, um centro social e uma viatura para prestar apoio às populações.

Residente / dirigente

O que o CSMA trouxe para a vida das pessoas

A certeza de que não vim ao mundo por acaso. O cumprir de uma missão, de um sonho de uma boa utopia.

Residente / dirigente

Trouxe-me tudo, trouxe-me um futuro mais garantido.

Funcionário

Montes Altos és meu povo

O Centro trouxe para a minha vida alegria, pois ajudou-me a ter um cantinho para mim e para os meus filhos, deu-me também estabilidade, aprendi a ser mais responsável, conheci novos países através do Centro, enfim trouxe-me muita coisa boa.

Funcionário

Trouxe muitas coisas boas, responsabilidade, dinheiro, amigos e ensinou-me a ser alguém na vida

Funcionário

O que as pessoas deram ao CSMA

Alma, vida, coração

Residente / dirigente

O meu ser, com a minha atitude, a minha postura, a minha fé, a minha vontade de estar com aqueles que são solidários, fazendo coisas desinteressadamente, sem procurar protagonismos de qualquer cariz.

Residente / dirigente

Todo o meu desempenho e a vontade de ajudar o próximo.

Funcionário