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ABORDAGEM SOBRE OS NOVOS ASPECTOS JURÍDICOS E SOCIAIS

Após a legalização da união conjugal entre casais do mesmo sexo

Davi Pedreira dos Santos 1 Sérgio Ramos Cardoso 2

RESUMO: Este artigo analisa os novos aspectos jurídicos e sociais após a legalização

do casamento na particular situação da união entre indivíduos do mesmo sexo, sob a

ótica dos dispositivos legais pátrios e posições de segmentos da sociedade brasileira, a

fim de resolver a possível divergência entre o artigo 226, §3º da lei maior e os direitos

fundamentais, em caráter particular, o princípio da dignidade da pessoa humana.

Apontando ainda, apesar da legalização, a necessidade da normatização de forma

definitiva em nossa Constituição e, conseqüentemente, dentro do ordenamento jurídico.

Toda via essa normatização não ocorreu, pois o tema não passou por um processo

legislativo, o que de fato deveria ser feito.

Palavras-chave:

Casamento.

Entidade

familiar.

Sociedade.

Homossexualidade.

Legalização.

1 Graduando do 10º período noturno da Faculdade Dom Pedro II 2 Professor Orientador da Faculdade Dom Pedro II

ABSTRACT: This article examines the new legal and social aspects after the legalization of marriage in a particular state of union between persons of the same sex, from the perspective of legal provisions and patriotic positions of segments of Brazilian society, in order to resolve the possible conflict between Article 226 § 3 of the higher law and fundamental rights, in private, the principle of human dignity. Pointing still, in spite of legalization, the need for standardization permanently in our Constitution and, therefore, within the legal framework. All via this normalization did not occur because the subject has not gone through a legislative process, what actually should be done.

Keywords: Marriage. Family entity. Society. Homosexuality. Legalization.

1 – INTRODUÇÃO – DISPOSITIVOS LEGAIS

Anteriormente, pela norma do art. 1.514 do Código Civil o casamento só tornava-se real, no instante em que o homem e a mulher revelavam para a autoridade judicial o seu ânimo de estabelecer um matrimônio, e a autoridade judicial os declara devidamente casados.

A partir deste entendimento anterior, se duas pessoas do mesmo

sexo resolvessem completar as formalidades do casamento, o mesmo não se realizaria, pois a lei fazia referência à união tão somente de um homem e uma mulher. Para reforçar este pensamento, a Constituição Federal, no artigo 226, ao exigir um homem e uma mulher como pré-requisito para a celebração do casamento e da união estável como entidades familiares, externava na visão de alguns, a função do Estado de defensor da família tradicional e da sociedade. O art. 226, § 3º, equipara a união estável ao nível de entidade familiar, ao citar a diversidade de sexos

dos companheiros para a sua configuração. Por outro lado, nunca houve um dispositivo legal no ordenamento jurídico pátrio que tivesse expressado de forma direta a necessidade de diversidade de sexos para a celebração do casamento, e este fato foi um dos motivos principais para que o cenário atual fosse modificado. Corroborando com os entendimentos anteriores, o Juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros da Cidade de São Paulo, vinha negando, antes do reconhecimento por parte do Supremo Tribunal Federal, solicitações de conversão de união estável homossexual em casamento, sob a justificativa de que “o casamento é um ato solene regrado no Código Civil”. Ainda de acordo com o magistrado, havia a necessidade de o Congresso Nacional criar uma lei que estabelecesse critérios para que fosse regularizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil.

O Direito Brasileiro prevê, explicitamente, somente três espécies

de entidades familiares: o casamento, a união estável e a família mono parental. Não autorizando assim, de fato, a união entre homossexuais, exigindo diversidade de sexos para a constituição de uma entidade familiar. Porém, a partir do voto e entendimento do relator do processo, o Ministro Ayres Britto, os casais homossexuais podem solicitar em cartório o casamento civil, entretanto como não existe lei aplicável ao caso, toda via os juízes são obrigados a

aceitar o entendimento do STF, por seu efeito ser vinculante, contrariando as decisões do Juiz de Direito Luiz Henrique Oliveira Marques da 1ª Vara de Registros Públicos da Comarca da Cidade do Rio de Janeiro, que vinha negando o casamento entre pessoas do mesmo sexo em sua Comarca. Como já visto, de acordo com o artigo 1.514 do Código Civil o casamento somente poderia ser realizado a partir do momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados. Somente por este dispositivo observamos que ficou ilegalmente constituída a união entre pessoas do mesmo sexo, de forma que a lei determina a manifestação da vontade de um homem e de uma mulher. Ainda de acordo com o artigo 1.517 do Código Civil só possuem capacidade para casar o homem e a mulher a partir dos dezesseis anos, exigindo-se autorização dos pais, ou de seus representantes legais, enquanto não atingida a maioridade civil. Baseando-se nos referidos artigos do Código Civil, combinados com o § 3° do artigo 226 da Constituição Federal e a lei 9.278/1996 o Juiz Luiz Henrique Oliveira Marques, defendeu na oportunidade, a integridade da entidade familiar e a função do Estado de proteger a família e a sociedade quando ratificou através de suas decisões contrárias ao entendimento do STF, que a lei brasileira não acolhe o casamento entre indivíduos do mesmo sexo.

2 – NOVOS ASPECTOS SOCIAIS

Entretanto o Juiz Luiz Henrique Oliveira Marques foi uma exceção, pois as decisões ratificando o entendimento da Suprema Corte foram cada vez mais comuns refletindo as pressões políticas e sociais, de um grupo pequeno de indivíduos sedentos no atendimento de interesses pessoais. Todavia, os Senhores ministros, membros da mais alta corte do nosso país, o “guardião” da constituição, deveriam preservar e defender a família tradicional constituída através desse instituto. O Juiz Luiz Henrique Oliveira Marques, no seu papel de representante do Estado, nada mais fez do que desempenhar sua função de proteção da família como base da sociedade, defendendo a entidade familiar tradicional como entidade protetora da sociedade baseada em valores e princípios.

A constituição federal brasileira determina em seu artigo 5º inciso I o princípio da igualdade, afirmando que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações bem como em seu artigo 2° inciso IV aponta a promoção do bem de todos sem preconceitos de sexo. Observa-se que em nenhum momento a constituição, no que concernem os princípios e garantias fundamentais, cita a discriminação pela orientação sexual e sim os preconceitos sobre o sexo do individuo, nesse caso gêneros masculinos e femininos.

Os princípios da liberdade e igualdade nunca deveriam ser usados como argumento para a celebração de união civil entre pessoas do mesmo sexo, pois o casamento é ato solene, necessita de requisitos necessários para a sua celebração. Antes do reconhecimento do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a justiça já tinha concedido, por exemplo, o direito a adoção de crianças, à união estável, à herança deixada por motivo de morte, de inclusão de parceiros como beneficiários da Seguridade social bem como a declaração como dependente no imposto de renda, além de conceder vistos de permanência no país para aqueles de nacionalidade estrangeira que escolham residir no Brasil com seu parceiro. Sobre a adoção por parceiros do mesmo sexo, já se tornou realidade, ao passo que no período entre Janeiro de 2011 a Agosto de 2012, foram concedidos no Brasil cinco decisões favoráveis a, sobretudo nos Estados do Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, decisões estas embasadas no principio da melhor condição para a criança ou o adolescente. Em recente decisão, o Superior Tribunal de Justiça entendeu que, parceiro de funcionário público fosse considerado apto a receber pensão previdenciária após o falecimento de seu companheiro. Decisões no mesmo sentido estão sendo proferidas pela Justiça Federal dos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no TRF da 5ª Região. Em 2008 o Ministério da Justiça, através de seu órgão responsável pela classificação indicativa de programas, liberou em qualquer horário cena de namoros, beijos e relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Apesar disso, as grandes emissoras do país temem a rejeição de seus expectadores, e por este motivo relutam em atender a esse direito.

3 – NOVOS ASPECTOS JURÍDICOS

Uma dos argumentos usados pelos doutrinadores favoráveis ao casamento homossexual foi que os regramentos jurídicos, não deveriam ter a sua interpretação unicamente analisada pelo aspecto formal, adequando-se de acordo com as mudanças contemporâneas e os anseios da nova sociedade. Tal afirmação contraria princípios constitucionais e ofendem diretamente a função constitucional de proteção da família.

Diretamente falando, segundo eles, as normas encontradas no código civil que disciplinam o casamento, devem ser interpretadas em conjunto com os princípios fundamentais constitucionais, como por exemplo, o principio da igualdade. Desta forma, seria possível o discurso sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para as religiões baseadas na doutrina Judaico-Cristã principalmente, a aprovação da união civil entre casais homossexuais coloca em risco próprio futuro da humanidade. Podemos citar também, as Forças Armadas Brasileira que até hoje são contra a união entre pessoas do mesmo sexo, e dificultando até a sua entrada nessas instituições. A decisão da Suprema corte de reconhecer o casamento civil também para casais homossexuais coloca esses indivíduos em uma das categorias possíveis de organização familiar, como o casamento civil e a família mono parental, com um dos pais, o homem ou a mulher e os filhos.

Evidencia-se, portanto que o STF julgou tanto a união estável homossexual como o casamento nesta modalidade. Usurpando desta forma uma função que era de competência do Congresso Nacional para a promulgação de uma lei sobre o tema.

Os senhores Deputados e os senadores inevitavelmente debateram sobre a possível concessão ou não de direitos aos casais do mesmo sexo, sobretudo após a decisão do STF. Na verdade, existia uma proposta de emenda a constituição requisitando o direito da celebração do casamento civil de pessoas do mesmo sexo em solo brasileiro. Desta forma, após a decisão do Supremo, o Congresso Nacional “recebeu” o convite para legislar sobre a questão, e não deixar apenas que o guardião da constituição se pronuncie em ações provocadas.

Se bem verdade é que o Congresso Nacional discute desde meados dos anos 90 a questão da união estável entre homossexuais através do projeto de Lei nº 1.151/95, de autoria da então Deputada Marta Suplicy, que trata da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Projeto este que, busca a autorização de um contrato escrito, registrado no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais. Segundo a justificativa da então Deputada Marta Suplicy para o seu projeto, sua função não era igualar as uniões homossexuais, a um status igual ao do casamento, e sim na verdade, buscando o acolhimento aos indivíduos solicitantes, gerando para eles deveres, impedimentos e obrigações. Toda via com a decisão do Supremo isto já acontece, tutelando desta forma o direito de propriedade e garante os direitos civis de sucessão, de usufruto, benefícios previdenciários (como dependentes), direitos de curatela, impenhorabilidade do seu imóvel, direito de nacionalidade em caso de estrangeiros que decidirem pela residência em solo brasileiro, possibilidade de declaração no imposto de renda do companheiro como dependente e composição da renda para aquisição ou aluguel de uma propriedade.

4 – CONCLUSÃO

Sem dúvidas, hoje há uma proteção das relações entre pessoas do mesmo sexo, criando um vínculo jurídico entre ambos, entretanto, necessário se faz indicar os reflexos e as posições contrárias a este fato, de grupos da sociedade onde se destaca a Igreja, em razão da sua regra de fé. De acordo com os grupos mais conservadores de nossa sociedade, sobretudo os líderes religiosos da doutrina Judaico-Cristã, a união entre um homem, e uma mulher e a sua conseqüente geração de seus descendentes, é a pedra fundamental de uma sociedade equilibrada baseada em princípios e valores. Nesta sociedade a sexualidade é saudável e a intimidade natural, pois tem base na diferença e na complementaridade.

Afirmam categoricamente que quando essa união é desvalorizada e deixada de lado, toda a sociedade paga um preço alto, conseqüências disso são os males do atual século que são a violência doméstica, uso de drogas e entorpecentes, suicídios, crimes praticados por menores de idade, insucesso escolar, abuso sexual de menores, criminalidade, enfim, todo tipo de degradação do gênero humano.

Verdade é que na atual sociedade encontramos um sexo fácil a nossa disposição e esta prática sem dúvidas ameaça a base social destruindo o casamento como entidade familiar. A ambição, a inveja, a dissolução dos valores éticos, prostituição, promiscuidade, o desamor estão no auge desta era dita moderna. O casamento entre o homem e a mulher gerando filhos é o alicerce de uma sociedade moralmente equilibrada. Neste modelo de união tradicional a sexualidade dos indivíduos é plenamente natural é saudável, contribuindo para uma sociedade livre, igual e libertária. Porém, quando mudamos e distorcemos o sentido dessa união toda a sociedade sofrerá conseqüências danosas como a violência doméstica, sentimento de suicídios, depressão, rebeldia, criminalidade, e outros, tudo isso em decorrência da real desvalorização social da união tradicional familiar que é sem dúvidas o passo capital para a falência do Estado como protetor da família. Nos últimos tempos observamos o Estado, que é o responsável pela a educação das crianças e dos jovens, atentar contra tudo aquilo que é moral e natural quando distribuem nas escolas de sua competência “kits” onde ensinam as crianças a se comportarem como homossexuais, com a desculpa de fazerem as mesmas respeitar os direitos destes indivíduos, preparando desde a sua infância, a errônea definição que a homossexualidade resulta de uma possível conseqüência social e resultado de vontades coletivas e individuais.

5 - REFERENCIAS

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DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil brasileiro: Direito de Família. 23. ed. São Paulo. Saraiva 2008.

FERVENÇA, Manoel. Direito de Família. Rio de Janeiro Atlas 2003.

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