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Conceitos e aplicações práticas fundamentais para a saúde do casco Renata Souza Dias Médica veterinária
Conceitos e aplicações práticas fundamentais para a saúde do casco Renata Souza Dias Médica veterinária
Conceitos e aplicações práticas fundamentais para a saúde do casco Renata Souza Dias Médica veterinária

Conceitos e aplicações práticas fundamentais para a saúde do casco

Renata Souza Dias Médica veterinária

Índice Índice

ÍndiceÍndice

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05

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08

09

09

12

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Introdução

Importância econômica

Cálculo dos prejuízos

Levantamento de dados

Conforto animal

O casco

Classificação das lesões

Lesões na sola do casco

Lesões no talão, região periférica do casco e tecido interdigital

Tratamento

Conclusão

P

Conceitos e aplicações

práticas fundamentais

para a saúde do casco

P Conceitos e aplicações práticas fundamentais para a saúde do casco 04

04

M

Introdução

Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, as afecções de casco não são problemas esporádicos que dispensam tratamento e sejam de recuperação simples. Na realidade, as afecções podais constituem uma síndrome com diferentes tipos de lesões e diferentes fatores predisponentes, demandando portanto diferentes métodos de controle e tratamento.

Este fascículo tem o objetivo de informar o produtor e o técnico sobre as perdas econômicas causadas pelas afecções podais, enfatizar as perdas diretas

e indiretas, divulgar métodos que auxiliam o levantamento da incidência e

prevalência, destacar as principais características anatômicas do casco, classificar as lesões podais, esclarecer os fatores predisponentes e ainda difundir os principais métodos de tratamento e controle.

I Importância econômica

Nos últimos anos, as afecções de casco tornaram-se um grande problema nas fazendas de leite e de corte em todo o mundo. Os animais acometidos apresentam uma redução na ingestão de alimentos, com conseqüente perda de peso e diminuição da produção de leite. Além disso, vários especialistas vêm correlacionando sua interferência sobre o desempenho reprodutivo dos rebanhos. Pesquisas foram realizadas com o intuito de esclarecer esse assunto e os resultados apontam que a claudicação está associada com o atraso do primeiro serviço, da concepção e com o aumento do intervalo entre partos.

Já está comprovado que os rebanhos com alta incidência de afecções podais tendem a apresentar altos custos de produção, uma vez que há a somatória

dos custos diretos dos problemas de casco (tratamento, perda de peso e produção)

e dos custos indiretos decorrentes dos problemas reprodutivos ocasionados

pelas afecções de casco, como por exemplo descarte involuntário decorrente da infertilidade, aumento do custo dos dias em aberto, aumento do número de doses de sêmen/concepção, entre outros.

Em 1997 foi realizado um grande levantamento dos custos das principais doenças que acometem os rebanhos leiteiros na Inglaterra, quando concluiu- se que em relação às doenças do casco, as principais razões que levam à perda econômica são o aumento do descarte, a diminuição da produção de leite e a redução dos índices reprodutivos.

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No congresso da Associação Americana de Veterinários Especialistas em Bovinos (AAVEB) em 2000, foi apresentado um estudo realizado com 5.000 vacas leiteiras. Os resultados apontaram que 13,9% dos animais apresentaram lesões associadas a laminite, com 44% destes animais sendo descartados. As vacas acometidas apresentaram uma taxa de descarte 1,77 vezes maior que as vacas não acometidas por lesões de casco associadas à laminite. Observou-se ainda que dentre as vacas descartadas devido a problemas reprodutivos, 20,4% estavam também acometidas por lesões na sola, associadas a laminite, evidenciando a associação entre esses dois problemas.

Os dados apresentados acima são importantes para destacar a relevância dos problemas de casco em pesquisas realizadas em todo o mundo. Porém, cada rebanho tem uma realidade própria e deve implementar seu esquema de controle e prevenção de acordo com seus maiores problemas, que limitam a produtividade e a lucratividade. Por isso, cada produtor rural deve ser capaz de avaliar o custo acarretado pelas afecções de casco em sua propriedade e com base nestes dados avaliar as estratégias de ação para controlar o problema.

C Cálculo dos prejuízos

O primeiro passo para o cálculo do custo das lesões podais é levantar os níveis de ocorrência da doença. Observe o exemplo de um estudo realizado na Universidade de Cornell, nos EUA, que calculou índices em relação às afecções de casco (Tabela 1) e com base nestes índices computou os prejuízos advindos da doença (Tabela 2).

Tabela 1. Índices das afecções de casco

X
X

Incidência Mortes Descarte Perda na produção de leite Aumento do período de serviço

30% (30 casos/ano em rebanho de 100 vacas)

2%

20%

5%

28 dias

na produção de leite Aumento do período de serviço 30% (30 casos/ano em rebanho de 100

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Tabela 2. Calculando os custos das afecções de casco em um rebanho de 100 vacas/ano, tendo como base os índices citados na Tabela 1

Índice

Preço (R$)

0,6 mortes

1500,00/vaca

6 descartes

1000,00/vaca

340 litros/vaca X 30 vacas

0,36 litro/leite

28 dias em aberto X 30 vacas

4,00/dia em aberto

Tratamento veterinário/medicamentos X 30 vacas

25,00

Mão-de-obra para tratamentos X 30 vacas

9,00

TOTAL

X
X

Custo (R$)

900,00

6.000,00

3.672,00

3.360,00

750,00

270,00

14.952,00

900,00 6.000,00 3.672,00 3.360,00 750,00 270,00 14.952,00 R$ 498,40/animal acometido ou R$ 149,52/vaca do rebanho
900,00 6.000,00 3.672,00 3.360,00 750,00 270,00 14.952,00 R$ 498,40/animal acometido ou R$ 149,52/vaca do rebanho

R$ 498,40/animal acometido ou R$ 149,52/vaca do rebanho

Quando os custos acima são considerados em percentagem (%) é possível montar um gráfico que evidencie o peso de cada perda associada com a lesão podal (Gráfico 1). De acordo com os dados acima, e considerando o valor de seus animais, o preço do litro de leite recebido em sua região, seus custos de tratamento e mão-de-obra, é possível montar a Tabela 2 e o Gráfico 1, com a realidade de seu rebanho. Desta forma, obtem-se uma visão clara de onde estão alocadas as maiores perdas e por onde deve ser iniciado um programa de redução de custos.

X Tratamento veterinário/medicamentos Mão-de-obra Mortes - 7% Descartes - 39% Perda na produção - 25%
X
Tratamento veterinário/medicamentos
Mão-de-obra
Mortes - 7%
Descartes - 39%
Perda na produção - 25%
Atraso na concepção - 22%
Gráfico 1: Perdas advindas das afecções de casco. Fonte: Guard apud Shirley (1997)

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L Levantamento de dados

Com base nas informações citadas acima, pode-se concluir que o passo mais importante a ser dado numa fazenda leiteira que queira controlar as afecções de casco é o levantamento da incidência, ou seja, o monitoramento dos dados de ocorrência do problema. A incidência relata a ocorrência de novos casos da afecção durante um certo período de tempo, caracterizando uma medida do risco do aparecimento da doença. Os dados para levantamento da incidência podem ser anotados em uma agenda ou em fichas de manejo.

Comumente confundida com a incidência, a prevalência relata o número de casos existentes em um dado momento, como por exemplo a coleta de dados durante um determinado dia. Neste caso, são incluídos casos novos e velhos e não é possível medir a taxa de risco da ocorrência. A prevalência desejada de afecções de casco em um rebanho leiteiro é de 2,5%.

Outra maneira de levantar a ocorrência de claudicação em um rebanho é por intermédio do escore de locomoção. Atualmente, há uma tendência na utilização do escore para avaliar os índices de um rebanho. O escore é uma avaliação empírica, não apresenta custos, é rápido e pode ser aprendido com facilidade. Veterinários extensionistas dos EUA e da Inglaterra utilizam o escore para avaliar vários aspectos do manejo, da saúde animal e da instalação. Dentre eles, pode-se destacar: escore para o conforto animal numa instalação; escore do estado das camas no “free stall”; escore para a qualidade do piso da instalação (corredores, ordenha); escore do aspecto das fezes, escore da condição corporal (o mais divulgado) e o escore da locomoção dos animais.

A metodologia consiste em observar os animais em locomoção sobre um corredor de concreto, de preferência após a saída da ordenha ou em um local onde os animais caminhem com tranqüilidade e por vontade própria. Os escores devem ser atribuídos segundo a seguinte tabela:

Tabela 3. Escore de locomoção utilizado para classificação dos problemas de claudicação

Escore

1 Mínima abdução/adução (locomoção normal)

2 Presença de abdução/adução (locomoção com leve desconforto)

3 Moderada claudicação

4 Claudicação

5 Severa claudicação

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Seja qual for o método utilizado, o importante é que o levantamento de dados seja feito corretamente. Apenas com o monitoramento será possível quantificar o efeito dos problemas de casco na lucratividade dos rebanhos. A

análise atenta destes resultados nos dará a real dimensão dos problemas de casco dentro do rebanho, facilitando a comparação com os índices reprodutivos

e com as taxas/motivos de descarte.

C Conforto animal

Além do aspecto econômico, o efeito negativo sobre o conforto animal deve ser considerado. O conforto animal é extremamente afetado pelos problemas de casco, ocasionando um comportamento diferenciado que visa proteger as áreas lesadas e sensíveis do casco.

Um animal que está acometido com lesão no casco apresenta dificuldades em executar atividades normais, tais como deitar, levantar, andar, alimentar-

se, beber água e demonstrar o estro. A ocorrência de lesões nos cascos altera

o comportamento das vacas de várias formas. Por exemplo, vacas com problemas

podais manejadas a pasto alimentam-se por períodos mais curtos que as demais, permanecendo mais tempo deitadas. Observa-se ainda que as vacas com claudicação tentam apreender mais capim a cada “bocada” que as vacas sadias.

Vacas acometidas por afecções de casco são as últimas a entrarem na ordenha e apresentam um comportamento irrequieto durante esta operação, fato que compromete o momento mais importante de toda a atividade, merecendo até uma pesquisa que associe esse comportamento com o aumento dos índices de mastite. Já as vacas com manqueira confinadas em “free stall” permanecem por mais tempo ocupando a cama; não só porque ficam mais tempo deitadas, mas também porque ficam mais tempo em estação sobre a cama. Os pesquisadores sugerem que este comportamento é uma maneira de evitar confrontos sociais

e utilizar a contenção da cama como uma proteção.

O O casco

Cerca de 93% dos problemas locomotores ocorrem nos cascos. Destes, 92% ocorrem nos cascos dos membros posteriores, dos quais 68% ocorrem nas unhas laterais, 12% nas unhas mediais e 20% no espaço interdigital e região periférica ao casco (Gráfico 2A e 2B).

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8%

92%

Cascos dos membros posteriores8% 92% Cascos dos membros anteriores Gráfico 2A: Distribuições dos problemas de casco. 12% 68% 20%

Cascos dos membros anteriores8% 92% Cascos dos membros posteriores Gráfico 2A: Distribuições dos problemas de casco. 12% 68% 20%

Gráfico 2A: Distribuições dos problemas de casco.

12% 68% 20%
12%
68%
20%

Unha lateral2A: Distribuições dos problemas de casco. 12% 68% 20% Unha medial Espaço interdigital e região periférica

Unha medialdos problemas de casco. 12% 68% 20% Unha lateral Espaço interdigital e região periférica ao casco

Espaço interdigital e região periférica ao cascoproblemas de casco. 12% 68% 20% Unha lateral Unha medial G r á f i c

Gráfico 2B: Ocorrência das lesões nas diferentes partes do casco do membro posterior.

Para entender melhor quando um problema de manejo desencadeia uma lesão podal, é necessário lembrar a anatomia do casco. O casco é um estojo córneo que tem como função proteger as estruturas internas de injúrias mecânicas, variações de temperatura do solo, bem como suportar o peso dos animais. O tecido córium está localizado internamente à estrutura córnea e é a parte vulnerável do casco, podendo ser danificado pela incorreta distribuição do peso do animal sobre a superfície do casco.

O peso do animal é transferido para a falange distal através do centro

de rotação da articulação interfalangeana da falange medial, gerando pressão que será distribuída sob a sola do casco. Devido à lei da ação e reação, essa força (pressão) exercida sobre o solo retorna em direção à sola do animal. Desta forma, o tecido córium, situado entre a falange distal e a sola do casco, é pressionado por ambas as partes, como um “sanduíche”.

O estojo córneo é formado pela muralha, sola e linha branca, com tais

estruturas apresentando diferenças anatômicas e diferentes funções. A muralha

é a estrutura mais rígida; dificilmente um corpo estranho penetra na muralha,

a menos que ela esteja danificada. A sola é uma estrutura semelhante a uma

folha que se encaixa na região distal da muralha. A sola é mais rígida próximo

à pinça do casco e mais flexível próximo ao talão. A linha branca é a estrutura responsável pela adesão da muralha à sola. O tecido córneo da linha branca é

o mais macio de todo o casco e pode se romper ou se desintegrar facilmente,

permitindo assim que um processo infeccioso se instale na cápsula da unha

(doença da linha branca).

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Assim como a cutícula presente no homem, o casco possui a banda coronária que é uma faixa de tecido macio, abaixo da coroa do casco de aproximadamente 1 cm de largura e se funde à muralha e ao talão do casco.

É possível correlacionar o período no qual ocorreu um distúrbio na produção de tecido córneo com alguns sinais apresentados pelo casco. O tecido córneo da muralha é produzido pelo tecido queratogênico na banda coronária, e sua taxa de crescimento é de cerca de 5 mm (1/2 cm) ao mês. Considerando que o comprimento médio do casco de uma vaca holandesa adulta é de 7,5 cm, pode-se concluir que o tecido gerado na banda coronária leva cerca de 12 a 15 meses para alcançar a extremidade distal do casco. Por exemplo, quando a muralha apresenta uma ruga horizontal 3 cm abaixo da banda coronária, trata- se de um indicativo de que a injúria ocorreu há aproximadamente seis meses. Já o tecido córneo produzido na sola e no talão alcança a extremidade distal do casco dois a três meses após ter sido produzido. Com base nesta informação, pode-se considerar que um hematoma de sola é indício de que um problema de manejo ocorreu cerca de um a dois meses antes.

problema de manejo ocorreu cerca de um a dois meses antes. Figura 1. Estojo córneo Figura

Figura 1. Estojo córneo

cerca de um a dois meses antes. Figura 1. Estojo córneo Figura 2. Marcas utilizadas para

Figura 2. Marcas utilizadas para mensurar o crescimento da muralha do casco

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C Classificação das lesões

O casco é um excelente indicativo do manejo utilizado no rebanho. O

casco “conta” para o casqueador qual é o problema de manejo e quando ele

ocorreu (como já foi comentado). Por isso, para controlar as afecções podais,

é necessário saber diagnosticar as lesões. Existem várias lesões de casco, com

diferentes fatores predisponentes e, desta forma, com diferentes métodos de controle. Um dos fatores primordiais para um bom entendimento entre as pessoas associadas aos cuidados com o casco é a “globalização” da nomenclatura. Atualmente, pode-se encontrar várias denominações para a mesma lesão do casco, fato que dificulta a comunicação entre as pessoas e o correto diagnóstico das lesões. Por esse motivo, seguindo padrões de nomenclatura internacional, optou-se pela utilização de apenas um nome para cada lesão, difundindo assim uma terminologia mais prática e acessível.

L Lesões na sola do casco

Geralmente, as lesões que acometem a sola do casco estão associadas com a laminite subclínica. Dados de pesquisa apontam que cerca de 62% das lesões de casco estão associadas à laminite.

Laminite é uma condição na qual as vênulas e arteríolas que irrigam

o tecido queratogênico (tecido córneo) estão comprometidas. Após uma laminite,

o tecido que dá origem ao casco apresenta-se macio e predisposto a um dano físico ou até mesmo à uma desintegração. A laminite pode ser aguda, crônica ou subclínica, sendo esta última a manifestação mais comum da enfermidade.

A laminite subclínica varia em severidade de acordo com a influência

dos fatores de "risco", dentre os quais o mais importante é a nutrição. Os demais fatores de "risco", associados com o manejo, o conforto e o ambiente, exacerbam

os efeitos de uma nutrição incorreta. Esta é uma síndrome associada a produtividades altas e manejos intensificados. A grande maioria das fazendas de alta produtividade convive com os prejuízos advindos da laminite.

Os sinais clínicos são conseqüência de aumento do fluxo sangüíneo no tecido córium, que gera um edema com posterior rompimento de vasos e necrose das lâminas.

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Hematoma de sola

O hematoma de sola é um sinal do derrame sangüíneo ocorrido no

tecido córium logo acima da sola do casco. O hematoma de sola é um sinal clínico popular, comumente utilizado para avaliar a severidade das afecções podais/metabólicas em um rebanho. Para isso, é importante examinar a sola dos cascos de um número representativo de animais dos seguintes grupos de risco:

Novilhas três a quatro meses antes do parto;representativo de animais dos seguintes grupos de risco: Vacas logo após o parto; Vacas 50 a

Vacas logo após o parto;de risco: Novilhas três a quatro meses antes do parto; Vacas 50 a 70 dias após

Vacas 50 a 70 dias após o parto;a quatro meses antes do parto; Vacas logo após o parto; Vacas no período seco. Úlcera

Vacas no período seco.Vacas logo após o parto; Vacas 50 a 70 dias após o parto; Úlcera de sola

Úlcera de sola

Também conhecida na literatura como pododermatite circunscrita, esta afecção é a mais comum e a mais importante economicamente entre os problemas associados com a laminite. Um casqueador pode aliviar a pressão na área afetada utilizando um bloco de madeira ou borracha na unha não acometida do casco.

Doença da linha branca

Esta lesão consiste na distensão da região da linha branca, predispondo à ocorrência de uma pequena rachadura onde penetram fragmentos e sujidades (Figura 3).

rachadura onde penetram fragmentos e sujidades (Figura 3). Figura 3. Doença da linha branca Abscesso da
rachadura onde penetram fragmentos e sujidades (Figura 3). Figura 3. Doença da linha branca Abscesso da

Figura 3. Doença da linha branca

Abscesso da sola

O abscesso de sola é uma conseqüência da entrada de sujidades e

corpos estranhos pela linha branca, desencadeando uma reação inflamatória e culminando com a formação de um abscesso subsolear.

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Figura 4. Abscesso da sola que não foi diagnosticado a tempo para ser drenado ,

Figura 4. Abscesso da sola que não foi diagnosticado a tempo para ser drenado , conseqüentemente alcançou o talão e a coroa do casco, comprometendo a saúde de toda a unha

L Lesões no talão, região periférica

do casco e tecido interdigital

Erosão do talão

Lesão associada com ambientes sujos e úmidos que favorecem o desenvolvimento da bactéria Dichelobacter nodosus (Bacteroides nodosus), agente envolvido na sua etiologia.

( Bacteroides nodosus ), agente envolvido na sua etiologia. Figura 5. Aspecto da lesão que se

Figura 5. Aspecto da lesão que se caracteriza pelo desgaste na região do talão

Verruga de casco

Doença contagiosa que causa extremo desconforto aos animais acometidos. Caracteriza-se por uma ferida comumente observada na região do talão, na região periférica ao casco e nas sobreunhas. Segundo o Sistema de Monitoramento da Saúde Animal dos EUA, a verruga de casco acomete 45% do rebanho norte-americano.

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Gabarro

Lesão associada com ambientes sujos e úmidos. Pode estar relacionada

à herança genética, desde que o touro ou a vaca transmita uma conformação defeituosa de casco, com unhas abertas.

uma conformação defeituosa de casco, com unhas abertas. Figura 6. Aspecto do gabarro Podridão do casco

Figura 6. Aspecto do gabarro

Podridão do casco

A podridão do casco é uma doença ocasionada por agentes infecciosos

e causa extremo desconforto aos animais acometidos. As bactérias envolvidas na sua etiologia são o Fusobacterium necrophorum e o Bacteroides melaninogenicus.

O animal acometido apresenta manqueira intensa e repentina.

melaninogenicus . O animal acometido apresenta manqueira intensa e repentina. Figura 7. Aspecto do membro afetado

Figura 7. Aspecto do membro afetado

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T

Tratamento

Quanto mais precoce for o diagnóstico da afecção, menos tecido do casco é afetado pela lesão e menor será o comprometimento do animal, minimizando assim todos os prejuízos descritos anteriormente. Conscientizar

a mão-de-obra para estar sempre alerta aos primeiros sinais de manqueira é um

fator essencial para o diagnóstico, o controle e o tratamento das afecções. Cuidar do animal apenas quando ele apresenta uma manqueira intensa

é incorreto. Vacas que demonstram desconforto ao se locomover ou ao se

levantar devem ser examinadas o mais rapidamente possível. Quanto mais adiado for o tratamento, mais a lesão se alastra, comprometendo a recuperação do animal e aumentando os prejuízos com a redução da produção de leite. Um animal acometido produz cada vez menos, podendo levar semanas sem ser identificado como animal doente e ser tratado.

Pontos de destaque para diagnosticar as afecções de casco

1. Atenção especial para os animais nos primeiros 60 dias de

lactação.

2. Atenção especial para as novilhas no período pré e pós-parto.

3. Observar atentamente as vacas durante o deslocamento para

a sala de ordenha.

4. Examinar os animais que estiverem lentos durante a

locomoção.

5. Examinar os animais que apresentarem anormalidades na

curva da lactação (baixa inesperada da produção, ausência de pico, etc.).

Para um tratamento eficiente é necessário que a mão-de-obra esteja preparada para a execução de tarefas básicas, tais como:

1. Limpeza da sola do casco para o exame das possíveis afecções

2. Diferenciação das diferentes lesões, principalmente a úlcera de sola, o

abscesso de sola e a verruga de casco

3. Fixação do taco de madeira (nos casos necessários)

4. Anotação da data, nome ou número do animal acometido, tipo de lesão e

tratamento realizado

A utilização de tacos de madeira é uma boa medida para auxiliar o tratamento das lesões na sola. Perante o difícil manejo das faixas, o taco de madeira surge como uma opção que facilita o manejo dos animais em tratamento, além de melhorar o conforto animal. Este procedimento tem como objetivo

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elevar a unha lesada do nível do solo, fixando-se um taco de madeira na unha

não acometida do casco (Figura 8). Esta prática apresenta as seguintes vantagens:

1. Alivia a dor e o desconforto do animal, pois eleva a unha lesada, evitando

assim que o animal se apóie sobre ela. Com isso, o animal pode se movimentar com maior facilidade, alimentar-se melhor e recuperar-se mais rapidamente;

2. Possibilita maior duração da faixa e/ou do medicamento utilizado na unha;

3. Impede o desgaste da unha lesada no piso, favorecendo assim o crescimento

do tecido e aumentando a rapidez da cicatrização.

do tecido e aumentando a rapidez da cicatrização. Figura 8. Taco de madeira Em relação aos

Figura 8. Taco de madeira

Em relação aos tratamentos parenterais, vale ressaltar a importância de ministrar as drogas nas doses corretas para o peso do animal em questão; e atentar para a freqüência e o período em que será realizado o tratamento.

Prevenção

Um plano econômico preventivo para os problemas de casco em um rebanho deve considerar e avaliar os principais fatores predisponentes:

1. Dieta e o manejo alimentar que predispõem à ocorrência de acidose

ruminal;

2. Instalações com pouco conforto para o animal, que limitam ou

desestimulam o período de descanso;

3. Vacas confinadas em instalações que apresentam pisos úmidos e

abrasivos;

4. Instalações com pisos sem ranhuras, lisos e que predispõem a

acidentes e quedas;

5. Instalações com excesso de esterco e sem higiene;

6. Instalações com excesso de lama;

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7.

Erros no esquema de casqueamento dos animais (falta ou excesso);

8. Uso impróprio da técnica de casqueamento;

9. Falha no diagnóstico e reconhecimento da doença, ocasionando um

tratamento tardio das novas lesões de casco; 10. Mão-de-obra agressiva no momento do deslocamento dos animais, predispondo a injúrias do casco.

Com base na avaliação dos fatores mencionados acima e com a “pista” oferecida com o diagnóstico das lesões, o veterinário pode determinar as principais medidas preventivas a serem executadas em cada rebanho. Desta forma, serão definidas as estratégias de ação, sejam elas mediante alterações no manejo nutricional, na limpeza do ambiente, na melhoria do conforto animal ou no treinamento da mão-de-obra.

Controle

Atuar sobre os fatores predisponentes irá auxiliar a minimizar as lesões, mas é necessário, ainda, instituir um manejo de controle que irá garantir a manutenção da saúde do casco. O pedilúvio e casqueamento preventivo são boas alternativas de controle das doenças do casco. Estas duas medidas devem ser incluídas na rotina da fazenda, de modo que todas as vacas em idade adulta participem do programa de controle das afecções podais.

As medidas de controle ajudam a manter a saúde do casco, garantindo

a correta conformação das unhas, evitando a disseminação de lesões de origem infecciosa, reduzindo a umidade excessiva do tecido córneo e auxiliando na correta divisão do peso do animal entre os cascos.

O pedilúvio é uma solução que contém um produto químico (na maioria

das vezes, formol ou sulfato de cobre) que visa fortalecer o tecido córneo, combater os agentes infecciosos e evitar a disseminação de lesões contagiosas.

No caso da verruga de casco, por exemplo, a utilização de uma solução de formol a 5% no pedilúvio é uma medida eficaz no controle da sua disseminação. Nas propriedades, cujos animais registrem este tipo de lesão, deve-se utilizar

o pedilúvio de rotina após a ordenha e devem avaliar a possibilidade de passar pelo pedilúvio os lotes de animais solteiros infectados.

Sempre vale a pena ressaltar que a limpeza do pedilúvio é extremamente importante, caso contrário o pedilúvio sujo ou mal lavado pode ser uma fonte de contaminação para os animais sadios.

O casqueamento preventivo é um procedimento realizado no início do

período da secagem essencial para melhorar o aprumo dos animais e,

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principalmente, para se obter vacas com cascos íntegros no pós-parto. Basicamente, os objetivos dessa técnica são:

1. correção do casco com crescimento anormal (pinças longas, talões baixos);

2. restituir o “balanceamento” entre as unhas, ou seja, a correta distribuição

do peso entre as unhas dos cascos;

3. identificar resíduos de lesões ou rachaduras ocorridas durante a lactação e

recuperar a integridade da sola.

O casqueamento preventivo é constituído de quatro cortes descritos

resumidamente a seguir. Basicamente, os cortes são simples e exigem apenas uma dose de bom senso do casqueador:

1. aparar as pinças das unhas maiores que 7,5 cm de comprimento;

2. rebaixar a pinça para que o animal se apóie mais na sola do que no talão;

3. abrir o espaço interdigital, para facilitar a saída de sujidades;

4. alinhar os talões para que tenham a mesma altura.

O custo de executar um casqueamento preventivo anual é muito pequeno

quando comparado aos prejuízos diretos e indiretos da enfermidade.

C Conclusão

Em última análise, pode-se concluir que as afecções de casco ocasionam perdas significativas na produtividade da vaca leiteira e sobretudo na lucratividade do rebanho acometido. As lesões podem acometer a sola, o talão, regiões periféricas do casco e o tecido interdigital. As causas da doença são multifatoriais, podendo-se estabelecer dentre os principais fatores predisponentes: nutrição, ambiente, conforto e o fator infeccioso. Em relação ao controle da doença, destacam-se o pedilúvio e o casqueamento preventivo.

No passado, todas as doenças de casco tinham uma denominação genérica (broca, frieira) e um tratamento muito semelhante. No presente, entretanto, já existem dados suficientes para que cada afecção possa ser corretamente identificada, recebendo tratamento específico, refletindo em menores perdas econômicas e maior saúde para os animais do rebanho.

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