TEXTOS SOBRE A ARTE CAVALHEIRESCA DA “FURUSIYYA”

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INTRODUÇÃO:
Em Nome Deus, o Altíssimo, no qual buscamos refúgio. As Graças de Deus sobre Muhammad (SAWS), o Último dos Profetas, seus Companheiros, Familiares e seguidores. As questões sobre esporte ou “artes marciais” realizadas pelos muçulmanos devem ser respondidas a partir de um enfoque islâmico. Na Religião de Deus, na vida do Profeta de Deus (SAWS), na Sunna, na prática dos seus Companheiros, dos Califas Virtuosos, e na história expansão islâmica existem inúmeros exemplos de atividades e formas de praticá-las, de acordo com a nossa perspectiva. O esporte no ocidente é uma atividade comercial, competitiva, que infla o ego e propõe uma ascensão social materialista. Até mesmo o desenvolvimento físico, inerente da prática esportiva, está comprometido pelo uso de suplementos químicos e hormonais. A prática da “furusiyya” (n.1), na tradição islâmica, prioriza a honra, a colaboração, o companheirismo, a generosidade. Trabalha com artes voltadas para o desenvolvimento interno e a participação da comunidade. Além disso, as atividades recomendadas desenvolvem a intuição, a percepção (“fitra” n.2), qualidades humanas necessárias ao aperfeiçoamento da Adoração ao Criador. Um exemplo evidente se encontra na arquearia. No Ocidente o arco é um mecanismo altamente aperfeiçoado, e o objetivo da arte é acertar no alvo derrotando os outros competidores. Na Tradição do Profeta de Deus (SAWS), nos remete a uma arquearia intuitiva, e não competitiva. “Eu amo aqueles que caminham entre o local de tiro e o alvo com arcos Árabes e não com arcos Persas.” Relatado por al-Bayhaqi, ouvido de ibn-Jabir, Companheiro do Profeta (SAWS). “Qualquer um que atirar uma flecha no caminho de Deus, tanto se ela atingir o alvo ou não, mereceu a mesma recompensa...” Relatado por at-Tabarani, ouvido por Anas ibn Malik. Nota 1- O termo “furusiyya”
tem dois significados complementares. No primeiro essencialmente abrange a Sunna do Profeta de Deus (SAWS) em relação as habilidades guerreiras em equitação, esgrima, arquearia, corrida a pé, natação e luta sem armas. No segundo significado, considerado em um sentido abrangente, o desenvolvimento de qualidades como a honra, a percepção (“fitra”), a generosidade, o valor, o altruísmo, o companheirismo, qualidades inatas no Profeta de Deus (SAWS), em seus Companheiros e seus seguidores nos tempos do início da expansão islâmica. Estas qualidades foram, num período posterior, institucionalizadas em dois códigos: “futuwwah” - código de conduta cavalheiresca; e “khushdashiyya” código de lealdade.

Nota 2- “Fitra” palavra árabe de difícil tradução, significa intuição, percepção, inspiração,
senso comum. Virtude inata da natureza humana, concedida por Deus, o Benevolente, que quando não obscurecida pelos pecados do homem, lhe permite, com a Ajuda de Deus, ler o Livro da Natureza, e chegar à adoração do Criador pela observação de Seus Sinais na criação. É evidente na tradição do Profeta Abraão.(AWS).

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HILF AL-FUDUL – PACTO DOS VIRTUOSOS.

UM PACTO DE CAVALARIA, EM: MUHAMMAD, SUA VIDA BASEADA NAS FONTES MAIS ANTIGAS POR MARTIN LINGS Um mercador do porto Iemenita de Zabid havia vendido alguns artigos de valor a um membro importante do clan de Sahm. Uma vez que os gêneros estavam em seu poder, o sahamí se negou a pagar o preço combinado. O mercador prejudicado, como seu ofensor bem sabia, era um estranho em Macca e em toda a cidade não tinha um confederado ou alguém que pudesse procurar em busca de ajuda. Mesmo assim não estava disposto a se impressionar com a insolente confiança em si mesmo do outro homem, e tomando posição na ladeira de Abu Qubays, apelou a todos os Quaraysh com eloqüência ruidosa e veemente para que fizessem justiça... Um dos chefes do grupo dos Perfumados e um dos homens mais ricos de Macca, naquela época, era o chefe do clan Taym, Abdallah ibn Ayudan, que ofereceu sua grande casa como ponto de reunião para todos os amantes da justiça. Dos Perfumados só estiveram ausentes os clans de Abdu Shams e Nawfal. Os Hashim, Zuhra, Asad e Taym estavam todos bem representados, e a eles se uniu Adi que havia sido do grupo dos Confederados. Decidiram, depois de uma discussão veemente, que era imperioso fundar uma ordem de cavalaria para o fomento da justiça e proteção dos débeis. Se foram todos juntos à Kaabah, onde derramaram água sobre a Pedra Negra, deixando que caísse em um recipiente. Depois todos os homens beberam a água assim santificada e, com a mão direita levantada acima das cabeças, juraram que de ali em diante que em todo o ato de opressão que se cometesse em Macca, ficariam juntos, como um só homem, a favor do oprimido e contra o opressor até que se fizesse justiça, sendo o oprimido um homem do Quaraysh ou vindo de fora. Os Sahamis foram obrigados a pagar sua dívida, e ninguém lhes ofereceu ajuda. Zubayr de Hashim, junto com o chefe dos Taym, foi um dos fundadores desta ordem e levou consigo seu sobrinho Muhammad, o qual tomou parte no juramento e disse, anos mais tarde: “Estive presente na casa de Abdallah ibn Yudan por motivo de um pacto tão excelente que não haveria trocado minha parte nele por um rebanho de camelos vermelhos. E se agora no Islam, fosse convidado a tomar parte nele faria isto com satisfação”.

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HADITHS DE MUHAMMAD (SAWS) O PROFETA DE DEUS

O Profeta (SAWS) estava passando pelos Bani Eslem, que estavam atirando com arco e flechas. Ele (SAWS) disse: “Atirem, filhos de Ismail, como seus antepassados. Eu estou com esta tribo...” Relatado por Anas ibn Malik, compilado por at-Tabarani. “Ensinem a vossos filhos a arquearia” Relatado por Jabir, companheiro do Profeta (SAWS), compilado por Iman Daylami. “Aprendam arquearia e o Alcorão Sagrado” Relatado por Abu Sa'is alKhudri, compilado por Musnad al Daylami. “Aquele que mantém um cavalo pela Causa de Allah, motivado pela fé em Allah e acreditando em Suas Promessas, será recompensado, no Dia da Ressurreição por aquilo que o cavalo tiver comido e bebido...” Narrado por Abu Huraira. “O bem permanecerá nas frontes dos cavalos até o Dia da Ressurreição.” Narrado por Abdullah bin Umar. “Tudo, fora a recordação de Allah, é insensatez e conversa vã, exceto quatro coisas: andar na direção do alvo (na prática da arquearia); adestrar um cavalo; manter contato com sua esposa e ensinar outro a nadar.” Narrado por atTabarani e al-Baghawi. Na Batalha de Uhud, o Profeta de Deus (SAWS) ao ver seu primo Ali ibn Abi Talib vencer um dos mais ferozes adversários exclamou: “Não pode haver herói como Ali, e não pode haver espada como Dhu al Fiqar”. Narrado por Ali al Qari.

Pg. 03. O CAMINHO DA CAVALARIA SUFI – Ibn al-Husayn al Sulami Em Nome de Deus, o Compassivo e Misericordioso, do Qual nós dependemos. Toda a adoração é devida à Deus que nos abriu o caminho da “Futuwwah” (n.t. 1), o qual nos leva as mais belas formas de realização de nossos deveres com Ele, que iluminou e limpou este caminho dos erros e maldades e elevou seu nível ao mais alto. Os Profetas que Ele mandou e os servos que estão perto Dele estão neste Caminho. Todos para os quais este Caminho foi aberto, e dos quais os nomes foram inscritos, como puros, no Livro da Retidão, aprenderam a seguir este Caminho e tingiram os nobres níveis daqueles que incorporaram a “Futuwwah”. O primeiro a seguir o chamado da “Futuwwah”, para honra, generosidade e boa conduta, foi Adão – de quem o nome foi inscrito pela Vontade de Deus entre aqueles que habitam a Casa da Majestade, são apoiados pela Sagrada Luz e Pureza, e foram coroados pela Coroa da Munificência e entraram no Domínio da Salvação. Quando seu filho Caim renunciou “Futuwwah”, seu outro filho, Abel, a levou adiante. O Profeta Seth deu à “Futuwwah” seu tributo e foi protegido de tudo e qualquer coisa imprópria. O Profeta Enoch foi levado à sua alta posição por ela e foi por ela salvo das armadilhas de Satan. Noé sofreu por sua devoção à “Futuwwah”, e desta maneira se tornou iluminado por ela. Ad foi protegido do orgulho pela “Futuwwah”. Hud mostrou a beleza da lealdade para seu povo através da “Futuwwah”, e Saleh salvou a si mesmo do demônio com sua ajuda. Abraão, o amigo de Deus, que era um verdadeiro cavaleiro, quebrou estátuas e ídolos. Através da “Futuwwah”, Ismael estava pronto para ser sacrificado ao seu Mais Alto Senhor, e Lot alcançou o mais alto paraíso, do qual não há descida. Com “Futuwwah” Isaac reza até o Dia do Julgamento. Jacó segurou com rapidez os ideais da “Futuwwah”. Na “Futuwwah” Jó encontrou conforto para suas doenças. Na “Futuwwah” José trilhou o mais belo dos caminhos e teve sucesso a cada degrau. Dhul-Kifl, permanecendo nas mais altas fileiras da “Futuwwah”, fez suas belas escritas. Shu'ayb, tomando os lauréis da corrida, venceu no primeiro lugar – com a “Futuwwah” ele ficou livre da dúvida e do erro. Moisés foi honrado por ter sido investido pelo manto da “Futuwwah”. Aarão se refugiou nela e falou corretamente. Os Companheiros da Caverna foram honrados, salvos e entraram no reino das Dádivas de Deus. O coração de Davi foi revivido por ela e por causa dela ele encontrou a doçura da reverência e da prostração. Salomão recebeu a “Futuwwah” de Davi; ambos os homens e os gênios ficaram sobre seu comando e na sua estima. Jonas viu a Realidade nas regras da “Futuwwah”, e seguiu por elas. Zacarias entrou no domínio da paz e da alegria com ela. João, com sua lealdade por ela, nos momentos difíceis foi salvo da agonia do sofrimento. Jesus brilhou com a pureza da luz através dela, e foi chamado o Verbo e o Messias através dela. Completa vitória foi dada a Muhammad, a paz e as bençãos sobre ele, e seus irmãos Abu Bakr, Omar e Ali se tornaram os guardiões da “Futuwwah”.
NOTA DO TRADUTOR 1. Futuwwah – Código de conduta, preconizado aos muçulmanos, baseado nas Tradições do Profeta de Deus (SAWS), e nos ensinamentos dos Profetas, Santos e Sábios.

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O CAMINHO DA CAVALARIA SUFI – Ibn al-Husayn al-Sulami
INTRODUÇÃO – Michel Chodkiewicz – páginas 16 à 22. Sulami nos traz exemplos admiráveis de virtude. Algo estes homens de Deus tinham para nos dizer? De fato eles tinham, se nós tivermos a habilidade de perceber a sutileza de suas palavras. Não obstante, isto é tarefa para Mestres, que viriam depois, quando as condições permitiram, elucidar o significado escondido destas palavras obscuras e dar à “Futuwwah” uma forma institucionalizada.... Como podemos ver, o que aparece como máscaras mutantes tem uma coerência inata. De fato tudo que pertence a “Futuwwah”, na tradição islâmica, esta conectado com o Conhecimento Supremo. No tempo que o Califa al-Nasir al-Din Allah subiu ao trono em 1180 D.C., os muçulmanos estavam enfraquecidos por divisões internas, ameaçados em suas fronteiras e na borda de distúrbios formidáveis. Genghis Khan estava então com trinta anos, mas em 1206 D.C. ele seria reconhecido como o “monarca universal” pelos Mongóis. Nas próximas décadas uma gradual, mas irreversível, onda iria submergir o império Abássida, e em 1258 D.C., trinta e três anos após a morte do Califa al-Nasir, os Mongóis iriam saquear Bagdad, sua capital. A ameaça Mongol era ainda remota em 1180 D.C., mas outro perigo, vindo do Oeste, vinha crescendo a um século. A primeira Cruzada iniciou em 1095 D.C., e Jerusalém havia caído em 1099 D.C.. Saladino iria reconquistar a terceira cidade sagrada para o Islam em 1187 D.C., mas outras Cruzadas iriam seguir até o fim do século treze. Enquanto a tempestade estava se aproximando de suas fronteiras, o califado estava morrendo. Os Turcos Seljúcidas, ao contestar o poder do califa, haviam minado a força da instituição. Dinastias independentes haviam sido criadas na Asia Menor, Síria e Iraque. No Egito, o Califado Fatimita havia desaparecido, mas os “Ayyubids” permaneciam como um poder autônomo. Esta desintegração da “ummah” (comunidade dos fiéis) não só levou a ruína o poder terrestre dos Califas, mas também comprometeu a “amanah”, a confiança sagrada da qual o Islam é o guardião.... Finalmente, esta foi também a época na qual a “Futuwwah” foi, por inciativa de al-Nasir, oficialmente institucionalizada.... em Bagdad, quando al-Nasir institucionalizou a “Futuwwah”, além do treinamento militar, ele chamou o grande Sufi, Shihab al Din al-Suharawardi (falecido em 1234 D.C.), o fundador da ordem (tarika) que leva seu nome, para elaborar seu código e ritual de iniciação.... Daí o nascimento, sobre o patrocínio de al-Nasir, de uma ordem organizada e iniciática que tomava emprestado doutrinas e métodos Sufistas, e ligava sua corrente iniciática “silsila” ao Mestre Sufi, porém possuindo seu caráter distinto, como a prática ritualizada da caça e de artes guerreiras. Muitas fontes documentam uma

Pg. 05. hierarquia de categorias; assim como os rituais que davam acesso a cada categoria (uma beberagem simbólica, uma taça de água, assim como a investidura do noviço com um cinturão com função comparável ao “khirqah” o manto ou capa dos Sufis) Com um código de ética que dava ênfase a honra, generosidade e bravura, além do significado esotérico desta “aristocrática” ou “polida” Futuwwah. A morte de al-Nasir e uma sucessão de governantes medíocres, e finalmente a queda do Califado Abassidico impediram qualquer esperança de restaurar a ordem tradicional Islâmica... Esta “Futuwwah” e alguns de seus ramos sobreviveu por algum tempo na Anatólia ou no Egito, onde um Sultão Mameluco recebeu um membro da família Abassidica (al-Muntasir) que havia sido poupado da carnificina Mongol, e concedeu a ele um califado nominal. Este Sultão Mameluco, Baybars, é então investido com o “manto da Futwwah”, cerimonia que continua entre seus sucessores por mais de um século.... Entretanto, a verdadeira “Futuwwah” é nada mais mas nada menos que a realização da radical indigência ontológica do homem, com a destruição do ego ilusório, desvelando, o que é e sempre será, a Realidade Única. Junto com o caminho que leva a este fim, o cavaleiro precisa primeiro aprender a não amar seu ego, e por isto durante seu noviciado, o sheik ensinará ele a amar os outros acima de seu amor próprio, e Deus acima de tudo. Mas assim que o objetivo é alcançado, ele descobre que o segredo do aprendizado é que ele não tem ego, e que se estava apegando a um sonho. O ídolo é reduzido a uma insignificância, tanto o “eu” como os “outros” cessam de existir. Para ele, os desafios do combate espiritual se tornam agora , como a fornalha para Abraão (AWS) descanso e paz.

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O CAVALO NA CULTURA ÁRABE MANOEL RAMON PERZA ROMERO
O gosto e o respeito por todos os elementos que a natureza oferece ao homem, talvez seja um dos traços mais peculiares das culturas orientais, entre elas a árabeislâmica. Para seus integrantes tudo que a natureza oferece é um Dom de Deus. Então, para quem o homem dirige esta reverência e amor? Para os seres animados que desde a origem da humanidade, tem ajudado o homem de forma direta ou indireta, e nos quais tem visto refletidas muitas das qualidades desejadas pelo ser humano, tais como a nobreza, a obediência, o valor, a coragem, a inteligência e a memória, a força e a resistência, e a beleza. Sem dúvida podemos encontrar estas virtudes na figura do cavalo.... Para começar, devemos dizer que o animal que vamos estudar nesta literatura é conhecido pelos árabes por faras, e se refere ao cavalo de puro sangue árabe, o qual pertence a espécie dos equinos, conhecida com o nome de jayl. Sem dúvida, nos países do Magrebe a terminologia muda, já que por exemplo em Tunis, o cavalo se conhece pelo nome de hisan, e no Marrocos e Argélia é mais freqüente a palavra awd. Igualmente, dependendo das características de valor, sexo e idade, existe uma ampla terminologia árabe... Fisicamente, se trata de um cavalo de altura, entre o casco da mão e a cruz, entre 1,45 e 1,55 metros, de extensão longitudinal média, largura do pescoço suficiente para manter o equilíbrio, cabeça esculpida com orifícios nasais bem definidos e lisos, fronte aberta, pelagem fino e crinas que parecem de seda ao toque, e uma cola que levanta na parte inicial junto a garupa de forma horizontal e logo se abaixa. Sua cor de pelagem mais freqüente é o tordilho, o baio e o alazão, pelagens que podem variar de claro a escuro... São muito freqüentes as manchas, na sua maioria brancas... A LITERATURA ÁRABE DA FURUSIYYA O termo furusiyya significa equitação, apesar de no decorrer dos anos ter adquirido o sentido de conhecimentos práticos e teóricos sobre disciplinas científicas e técnicas. Estas disciplinas se referem aos cuidados, manutenção e adestramento dos cavalos, como esportes e práticas derivados disto. Que são fundamentalmente: a equitação; a doma; o treinamento; a hipologia (estudos gerais sobre o cavalo); a veterinária; a arte militar; a arquearia; a arte do manejo da lança e espada; a fabricação de armas e sua manutenção; e a formação do cavaleiro ou ginete. Além disto inclui esportes como o pólo, e outros não relacionados com o cavalo, mas que se incluem nas obras literárias, como o hokey, o box, a luta livre e a natação, pois são considerados formadores das aptidões de um cavaleiro e guerreiro. O conjunto total das disciplinas citadas formam o que na língua árabe se chama ulum al furusiyya ou funum al furusiyya, enquanto a literatura se chama adab al furusiyya....

Pág. 7. Segundo Sihab al Sarrf, esta literatura não tem sido objeto de um estudo sério e metódico (que bem merece, já que nos permite conhecer e compreender melhor a história e a civilização islâmica) devido a um complexo processo de mudanças próprio dela, e de idéias equivocadas sobre sua origem. O autor considera que os primeiros manuscritos que existem sobre as disciplinas citadas não eram de origem mameluco, nem foram tomados por estes dos Ayyub, com se tem entendido, mas estes manuscritos eram de origem Abássida, e foram tomados pelos mamelucos como referência para a guerra principalmente. Portanto, além de haver muitas confusões sobre a origem desta literatura, existe um grande desconhecimento científico sobre suas fontes bibliográficas, pois é muito difícil distinguir quais manuscritos são de origem mameluco e quais de origem abássida. Durante a época abássida o termo furusiyya não foi muito usado, nem sequer no sentido de equitação. No sentido mais vasto e complexo da palavra, se integram as virtudes cavalheirescas, junto com as artes e as técnicas antes citadas, de maneira que foram feitas classificações no significado da palavra para distinguir algumas disciplinas de outras. Assim se distingue entre alta furusiyya e baixa furusiyya. A alta furusiyya se refere a o conjunto de atividades realizadas a cavalo, enquanto a baixa furusiyya abarca atividades como o manejo de armas, o tiro ao alvo, o hokey, o box e a luta. Segundo G. Douillet, o elemento mais importante da furusiyya é a equitação, seja como disciplina militar ou como arte de treinamento.... Da mesma forma, as carreiras de cavalos eram a atividade lúdica mais difundida na Arábia pré-islâmica, as quais consistiam em longas corridas de grupos de dez cavalos que pertenciam a diferentes tribos.... Apesar das contínuas lutas tribais provocadas pelas carreiras pelas rivalidades entre as tribos, o Profeta do Islam, Muhammad, não chegou a proibi-las...Este mesmo autor considerou que a equitação a que corresponde o termo furusiyya, depende de dois fatores: o tipo de raça de cavalo utilizada e o uso de novas armas.... Ainda assim, cabe lugar a outra classificação dependendo do uso a que esta destinada, para Sihab al Sarraf existem dois conceitos diferentes: são al Furusiyya al nabila (nobre) e al furusiyya al harbiyya (militar). As diferenças entre elas se encontram nos tipos de atividades que realizam dependendo sobre tudo de sua origem. Por um lado a furusiyya al nabila era praticada por jovens da corte abássida que se ocupavam com atividades próprias dos usos e costumes da cultura persa. As atividades deste grupo eram o pólo, a caça, o manejo de armas e o tiro de arco a pé e a cavalo... Em geral, se trata de uma fusão das tradições persas e árabes durante o Califado Abássida, cuja originalidade reside em seu conteúdo ético e moral baseado na noção árabe de faris, que se refere, no Islam, a virtudes de coragem, valentia, magnanimidade, generosidade, que impregnaram a furusiyya al nabila. A criação literária desta estaria muito relacionada com a chamada literatura de futuwwa.... Por outro lado, a furusiyya al harbiyya é militar, com origens no exército abássida a partir dos famosos corpos militares de Jurassan. Com a chegada do Califado de al Mammun, este reforça seu exército com arqueiros turcos procedentes de populações

Pág. 8. sedentárias da Transoxania e de nômades da Asia Central, além de receber influências das tradições eqüestres gregas. Nos meados do século IX aparece a instrução militar da yilman, que logo passou a se chamar yilman al hujariyya, a qual era base de um sistema militar sofisticado, elaborado por mestres da furusiyya abássida desde os meados do século VIII. Este constituía em uma síntese das tradições militares árabe, persa, bizantina e da Asia Central, cuja ambição era a formação de arqueiros montados, com destreza no tiro de arco, manejo da lança e outras armas de combate.... Com a chegada dos Mongóis em Bagdade no ano de 1258 e a queda do Califado Abássida, os mamelucos que evitaram esta invasão passaram a potência sócio-política e cultural. Eles iniciaram um trabalho de recompilação, comentário e distribuição das obras anteriores deste gênero, enriquecendo estas com elementos relativos a formação militar que antes referimos, a qual foi a base do sistema político mameluco.... Posteriormente, entre os anos 1320 e 1340 o gênero literário teve seu maior explendor graças ao trabalho do Califa al Nasir. Nesta época Sbban al Asraf se interessou muito pelas artes da furusiyya e se encarregou de doar ao sultão muitos escritos entre eles os relativos a arte de guerra segundo Ibn Mangli, e o famoso tratado de Taybugha sobre arquearia.

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OS CAVALEIROS DO ISLAM – James Waterson – páginas 114 a 121.
A vida de um Mameluco era preparada para pouco além da guerra. Após ser comprado dos traficantes, o noviço era mandado para a “tibaq” o quartel escola na cidadela do Cairo. Cada escola comportava mil discípulos . Existiam doze, nos arredores do Cairo, no século XIV. O noviço não podia se afastar do quartel durante o período de treinamento, qualquer transgressão das regras era severamente punida.... – eram postos, em primeiro lugar, sobre a tutela de mestres religiosos, memorizavam o Al Corão Sagrado, como rezar, a “Sharia” (Lei Islâmica), e ler e escrever em árabe.... Após os quatorze anos de idade começava a treinar de acordo com os preceitos da “Furusiyya”. ... O estudo das habilidades militares era formalmente dividido em exercícios de equitação, uso da lança, arquearia e esgrima. A palavra árabe “Furusiyya” é composta de três partes: a “ulum” (ciência); “funum” (arte); e “adab” (literatura) tudo ligado a habilidades da cavalaria – e neste momento histórico que recém aparece o cavaleiro como uma classe social distinta na sociedade islâmica.... A “Furusiyya” é de fato um conceito muito mais antigo que o Sultanato Mameluco.... A preocupação dos Mamelucos com a “Furusiyya” e com habilidades guerreiras, além de um fim em si próprio, era também um veículo que deu a esta casta militar um caráter peculiar. Uniu os ideais de “jihad” (esforço pela Causa de Deus), com os da “khushdashiyya” (código de lealdade).... Este código de casta englobava virtudes como coragem, valor, magnanimidade e generosidade... A prova de que os tratados eram o centro do treinamento militar fica clara com a leitura da poesia do mestre arqueiro TAYBUGHA AL-BAKLAMISHI ALYUNANI, falecido em 1394. O texto propõe que se treine arquearia como se estivesse em uma mesquita. O discípulo era instruído para adotar uma postura reverente, idêntica a da oração, e usar o tempo também para relaxar e focar a mente antes de preparar o arco e as flechas.... O noviço Mameluco era introduzido na arquearia usando arcos flexíveis, de baixa potência. Todo treinamento era cuidadosamente dividido em estágios, partindo de requerimentos baixos, para altos que exigiam maior preparação física... O Mameluco era um soldado de cavalaria e devia usar seu arco da sela. Por isto devia, em primeiro lugar, aprender equitação.... O treinamento era baseado no princípio: dois passos a frente, um passo atrás – com constante recapitulação e reiteração do básico... O aprendiz praticava salto e habilidades eqüestres, até atingir proficiência e rapidez...

Pg. 10. Os tratados de “Furusiyya” são muito esplícitos de como se deve segurar as rédeas, e como se deve usar cada parte do equipamento em combate. A idéia é que o ginete possa usar cada arma sem perder o equilíbrio na sela, e sem transmitir nenhuma ajuda involuntária à montaria.... Os manuscritos afirmavam que o guerreiro nunca deveria deixar de portar o “khanjar”, uma longa adaga, tanto em guerra como na paz. Esta arma podia ser usada como espada ou adaga e também arremessada. Era ideal para acompanhar a lança, pois podia ser usada quando o combate ficasse muito próximo para o uso da lança ou espada... O mais elevado objetivo do treinamento da “Furusiyya” era alcançado quando o aprendiz adquiria equilíbrio, balanço, compostura e graça de movimentos em todos os exercícios guerreiros que os mestres ensinavam.

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SOBRE TAYBUGHA E A ÉPOCA QUE ESCREVEU “O ESSENCIAL DA ARQUEARIA NA TRADIÇÃO ISLÂMICA”
Saudamos o Último dos Profetas (SAWS), seus familiares, companheiros, e seguidores. Sem dúvida é o melhor guia: Quem segue o Profeta (SAWS) segue a Deus, o Conhecedor. Para compreender a obra do Mestre Taybugha, que vai muito além deste manual, é necessário conhecer a época em que viveu, ensinou e escreveu. Durante o Império Abássida, na segunda metade dos anos quinhentos da Hégira, os muçulmanos enfrentavam duros desafios. Os Cruzados invadiram em 473 A.H. /1095 D.C., tomaram Jerusalém quatro anos depois, e só foram derrotados por Saladino, em Hattin,em 565 A.H./1187 D.C., mas continuaram dominando o litoral e usando esta base para novos ataques, por mais de cem anos. Um perigo, ainda maior, se avizinhava. No ano de 584 A.H./1206 D.C., os Mongóis proclamaram Gengis Khan como monarca universal e iniciaram uma jornada para saquear o mundo conhecido e transformar a terra em pastagens para seus cavalos e ovelhas. Estas duas ameaças se baseavam em inovações na forma de guerra. A cavalaria blindada, de choque, dos europeus era apoiada por uma infantaria armada de bestas e arcos longos. Contava ainda com uma retaguarda de fortalezas quase inexpugnáveis e de uma marinha cada vez mais eficiente. Os arqueiros montados Mongóis atacavam em ondas se reagrupando e trocando montarias numa tática de desgaste, até então, imbatível. No campo moral, os cristãos empreendiam um “jihadismo” que tem sua máxima expressão nas Ordens dos Templários e Hospitalários. Os Mongóis acreditavam-se o exército dos deuses na terra, com o destino manifesto de governarem o mundo. Em Bagdá, sede do Califado Abássida, o Califa al-Nasir al-Din Allah institucionalizava a prática da “Furusiyya”, Cavalaria Espiritual, fundamentada nas Tradições do Profeta de Deus (SAWS). Esta palavra árabe é composta de três radicais, “funum”(arte), “ulum”(ciência) e “adab”(literatura). Junta um código de lealdade, com um ideal de Esforço pela Causa de Deus; com a prática ritualizada de caça, equitação, esgrima de espada, adaga e lança, e de tiro de arco a cavalo. Para o desenvolvimento da doutrina, dos rituais e métodos, convidou o Sheik Shihab al-Din al-Suharawardi, Mestre Sufi, fundador da ordem que leva seu nome. Na proposta do Califa al-Nasir a “Furusiyya” tinha um caráter inédito: Não mais uma prática para toda a comunidade islâmica, mas de uma elite de cavaleiros. Também, não tinha mais como objetivo principal o desenvolvimento da “fitra”1, mas

Pág. 12. a construção de uma elite guerreira para a luta pelo poder. Trinta e três anos após a morte de al-Nasir, 636 A.H./1258 D.C., os Mongóis tomaram Bagdá derrotando os Abássidas, mas dois anos depois sofreram a primeira derrota em uma batalha campal, em Ayn Jalut, por um exército Mameluco. Os Mamelucos, jovens cativos na adolescência, eram levados a “tibaq”, quartéis escola nos arredores do Cairo, mantidos sobre a tutela de mestres religiosos, aprendiam seus deveres de muçulmanos, a “Sharia” (Lei Islâmica), se alfabetizavam e memorizavam o Alcorão Sagrado. Depois dos quatorze anos eram treinados nas artes guerreiras de acordo com os preceitos da “Furusiyya”. O primeiro exercito Mameluco foi organizado pelo Califa al-Mutasim em 211 A.H./833 D.C. Os Mamelucos participaram na derrota do exército Bizantino em 449 A.H./1071 D.C., na reconquista de Jerusalém em 565 A.H./1187D.C. Derrotaram os Cruzados em 622 A.H./1244 D.C.e em 628 A.H./1250 D.C. nos arredores do Cairo, quando começou o Sultanato Mameluco no Egito. Após a vitória sobre os Mongóis, na batalha de Ayn Jalut, os Mamelucos conquistaram Bagdá, e no ano de 639 A.H./1261 D.C. o Califa al-Muntasir, descendente dos Abássidas, foi instalado no Cairo pelo Sultão Mameluco Baybars, este Califa investiu Baybars com o manto da “Furusiyya”, cerimonia que continuou entre seus sucessores por mais de um século. Os Mamelucos venceram novamente os Mongóis em Homs em 639 A.H./1261 D.C. e em 659 A.H./1281 D.C. Em 669 A.H./1291 D.C. os reinos Cruzados foram extintos, Acre retomada e as Ordens dos Templários e Hospitalários finalmente expulsas. Em 681 A.H./1303 D.C. os Mongóis são definitivamente derrotados na batalha de Marj al-Suffar. Cerca de sessenta anos após estes acontecimentos o Mestre Taybugha alBaklamishi al-Yunani escreve sua obra. Ele pertence a esta elite guerreira que em 1176 A.H./1798 D.C. enfrentou Napoleão Bonaparte na Batalha das Pirâmides, e no cerco de Acre. Os Mamelucos constituíram uma força militar organizada por cerca de mil anos. Neste período, seus mestres elaboraram abundante literatura: códigos de conduta que exaltavam as virtudes de valor, coragem, lealdade, magnanimidade e generosidade e manuais sobre a prática das artes guerreiras, como um fim em si, e como parte do caminho para o aperfeiçoamento da “Fitra”¹. Os Mamelucos, com a ajuda de Deus, o Onipotente, defenderam os muçulmanos contra duas tremendas ameaças externas, tiveram um papel importante na institucionalização da “Furusiyya”. Quanto a suas contradições, só Deus, o Juiz, Sabe.
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Nota 1: “Fitra” palavra árabe de difícil tradução, significa intuição, percepção, inspiração, senso comum. Virtude inata da natureza humana, concedida por Deus, o Benevolente, que quando não obscurecida pelos pecados do homem, lhe permite, com a Ajuda de Deus, ler o Livro da Natureza e chegar à adoração do Criador pela observação de Seus Sinais na criação. É evidente na tradição do Profeta Abraão (AS).

Pág. 13. EVENTOS HISTÓRICOS DA ÉPOCA DE TAYBUGHA

211 A.H. (833 D.C.) – O Califa Al-Mutasim organiza o primeiro exército de Mamelucos. 449 A.H. (1071 D.C.) – Batalha de Manzikert: O exército Bizantino é destruído por cavaleiros Mamelucos e Turcomanos. 473 A.H. (1095 D.C.) – Início das Cruzadas. 477 A.H. (1099 D.C.) – Os Cruzados tomam Jerusalém. 565 A.H. (1187 D.C.) – Batalha de Hattin. Saladino reconquista Jerusalém. Os Mamelucos formam a base de seu exército. 558 – 603 A.H. (1180 – 1225 D.C.) – Califa al-Nasir al-Din Allah institucionaliza a “Furusiyya” (cavalaria espiritual). O Sheik Shihab al-Din al Suhrawardi estabelece um ritual que inclui investir o noviço com um manto. Promove a prática ritualizada de caça, e de artes guerreiras, de acordo com as doutrinas e métodos Sufis. 622 A.H.(1244 D.C.) – Batalha de La Forbie. Um exército Mameluco derrota os Cruzados. 628 A.H. (1250 D.C.) – Batalha do Cairo. Rei Luis IX é derrotado pelos Mamelucos. Começa o sultanato Mameluco no Egito. 636 A.H. (1258 D.C.) – Bagdá é tomada pelos Mongóis. O Califa é assassinado. 638 A.H. (1260 D.C.) – Batalha de Ayn Jalut. Os Mongóis são vencidos pelos Mamelucos. Primeira derrota de um exército mongol numa batalha campal. 639 A.H. (1261 D.C.) – O Califa al-Muntasir é instalado no Cairo por Baybars, e investe este Sultão Mameluco com o manto da Furusiyya. 639 A.H. (1261 D.C.) – Batalha de Homs. Os mongóis são vencidos pelos Mamelucos. 659 A.H. (1281 D.C.) – Segunda Batalha de Homs. Os Mongóis são novamente derrotados pelos Mamelucos. 669 A.H. (1291 D.C.) – Com a queda de Acre os reinos Cruzados são finalmente extintos. Os cavaleiros das Ordens Templária e Hospitalária são definitivamente expulsos. 681 A.H. (1303 D.C.) – Batalha de Marj al-Suffar. Os Mongóis são derrotados e expulsos. 746 A.H .(1368 D.C.) – Taybugha al-Baklamishi al-Yunani escreve seu tratado de arquearia.

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A PROPÓSITO DA ARQUEARIA NO MAGREBE O CONHECIMENTO ORIENTAL JOHN DEREK LATHAN UNIVERSIDADE DE MANCHESTER
Cerca de 1368 D.C. um certo Taybugha Ashrafi al Baklamishi al Yunani compôs para o sultão mameluco al Malik al Ashraf Shaban (1362 a 1376 D.C.) um poema didático de arquearia. Depois completou este poema com um comentário em prosa, nos oferecendo um trabalho em duas partes com o título de Ghunyat al tullabfi ma rifat ar ramy bv-n-nushshab que pode ser traduzido por Essencial da Arquearia para Iniciantes. Para dar idéia da importância do trabalho de Taybugha basta o fato de existem ao menos dezessete tratados manuscritos que são versões modificadas ou expandidas do Ghunyat. Durante um período de vários anos eu fiz um extensivo e detalhado estudo de dois destes manuscritos, e tive a boa fortuna de contar com um colaborador especialista em arquearia e com conhecimento de arcos orientais... O resultado de nossas pesquisas originou um trabalho agora na prensa: “J.D. Lathan & W.F. Paterson, Sarracen Archery: an English version and Exposition of a Mameluke work on Archery, Holand Press, London”. Este trabalho contém um amplo glossário e numerosos diagramas e ilustrações. Ao mesmo tempo, seria não realista negar que certos pontos da tradução e das anotações deixam espaço para melhoramento... Escrito no tempo em que o arco, em oposição às armas de fogo, era ainda uma arma de guerra, o Ghunyat, se interpretado com cuidado e propriedade, nos permite ter uma idéia do treinamento e performance esperada dos arqueiros do Século XIV na Síria. Mas a mais valiosa contribuição para nosso conhecimento, é de longe, o das técnicas de arquearia montada. Um pouco menos importante, são as especificações que o autor fornece sobre o melhor arco de guerra da época nesta região, expressas em medições. O valor destas relativamente completas especificações provamos em uma experiência prática. Pelo fato das dimensões encontradas não concordarem com as de qualquer outro arco composto, do nosso conhecimento, o arco descrito aguçou nossa curiosidade. A partir dos dados conseguidos, podemos convencer um artesão, especialista na matéria, a tentar a reconstrução. Mesmo com a falta de alguns detalhes técnicos, o experimento foi conduzido com sucesso, e construído o arco ele foi colocado em uso prático. Apesar de seu curto siyas, o arco provou ter um desenho eficiente tanto para a caça como para o combate montado. Em uma “prova de campo” estabelecemos sua potência em cerca de 50 lbs. (22,68 kg.), em completa distensão, podendo atirar uma seta, adequadamente equilibrada, de 30' (76,2 cm.) a uma distância de 285 jardas (260,60 m.). O que é uma performance muito satisfatória para quaisquer normas. Comparar este “Arco Sírio”, chamado fahla, com qualquer arco composto conhecido não é uma matéria fácil. Poderíamos sugerir que se assemelhava a um arco Sino-Tártaro.

Pág. 15. Em relação a performance, o Ghunyat contém suficientes informações para permitir conhecer o grau de habilidade alcançada pelos arqueiros da época. Taybugha é prático em evitar abordar o assunto com estórias de tiros de arco fantásticos. Relata , entretanto, o grau de habilidade requerido para qualquer arqueiro em serviço na época. Era exigido um agrupamento, das flechas, em um alvo de 3 pés (0,91 m.) de diâmetro, a uma distância de 75 jardas (68,6 m.). Esta precisão, usando um arco de composto, sem nenhum acessório que auxilie a mirada, exige um alto grau de treinamento e uma habilidade atingida, ainda hoje, somente por arqueiros de primeiro nível. Era também exigida, dos arqueiros, a habilidade de disparar três flechas em aproximadamente dez segundos. O que era exigido de um arqueiro mameluco comum, hoje só é alcançado por alguns praticantes... Sem dúvida a precisão diminuía com o aumento da velocidade. Experimentos de campo sugerem o limite de se conseguir atirar no máximo oito flechas, perfeitamente miradas no alvo, em um período de um minuto. Entretanto, nós temos razões para acreditar que os arqueiros muçulmanos podiam atirar com rapidez e atingir o alvo com todos os tiros.

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O TREINAMENTO DE UM CAVALEIRO MAMELUCO.
Hassanein Rabie O propósito deste trabalho é dirigir alguma luz sobre o treinamento militar dos cavaleiros mamelucos nas “tibaq” (sing. tabaqa), nome dado aos quartéis situados na Cidadela do Cairo que albergavam uma escola militar. De acordo com al-Maqrizi, a primeira ação do Sultão, quando trazia os jovens mamelucos do exterior, era remetêlos para uma ou outra “tabaqa”, de acordo com a sua raça ou local de origem. Como o Professor Ayalon afirma, as “tibaq” eram reservadas exclusivamente para o treinamento dos “Mamelucos Reais” que constituíam o núcleo do Exército Mameluco. É provável que a construção de “tibaq” pelos Sultões Mamelucos remonta aos seus primeiros anos de sultanato no Egito. Existe uma referência em Ibn Taghri Birdi de que o Sultão Baybars construiu mais dois quartéis para seus mamelucos; e alMaqrizi afirma que o Sultão Qalawun costumava visitar as “tibaq” pessoalmente par investigar a moral e as condições de vida dos mamelucos. Quando, em 715 A.H./1315 D.C., al-Burj al-Mansuri e a “tabaqa” anexa foi em parte destruída por um incêndio, o Sultão al-Nasir construiu outras.... As fontes confiáveis falham em apontar dados sobre o número de “tibaq” existentes durante cada sultanato. Somente Khalil ibn Shahin aporta informações corretas sobre seu número no século quinze. De acordo com ele, haviam 12 “tibaq” cada uma às margens de uma estrada e cada uma capaz de acomodar 1 000 mamelucos. Al-Maqrizi é o único historiador conhecido a fornecer informações sobre a vida dos mamelucos nas “tibaq”. Em cada “tabaqa” havia um mestre religioso, por grupo de mamelucos, para ensinar o Sagrado Alcorão, escrita árabe, a Sharia (lei religiosa), e as obrigações de um muçulmano. Al-Maqrizi ressalta que a educação dos mamelucos era muito estrita neste período. Durante o sultanato de Qalawun não era permitido a nenhum mameluco passar a noite fora das “tibaq”. Al-Nasir permitia que eles freqüentassem os banhos públicos, na cidade, em companhia de seus atendentes, devendo retornar no fim do dia. Isto acontecia uma vez por semana. A punição por transgressões as regras de disciplina, ou conduta religiosa eram severas.... No período posterior, tudo mudou. O Sultão trouxe mamelucos adultos que tivessem certas habilidade. A eles foi permitido viver na cidade e casar com mulheres do país. O treinamento militar começava quando o mameluco atingia a sua maioridade (aos quatorze anos). Havia um professor (mestre em furusiyyah, instrutor ou especialista) para transmitir treinamento militar para cada grupo de mamelucos. Os exercícios de furusiyyah compreendiam equitação, arquearia e esgrima de lança e espada....

Pg. 17. A instrução em equitação iniciava com o mameluco executando os exercícios em um cavalo de pau... O professor ensinava ao mameluco como saltar na montaria corretamente. Após era colocada a sela e o aluno praticava, saltando a cavalo, completamente armado e equipado. Quando este treinamento estava completo, só então, começava a prática em um cavalo. O cavalo era, de início, coberto com uma manta feita de lã ou seda. O mameluco ficava em pé a esquerda do cavalo, as rédeas e o chicote na mão esquerda, colocava então sua mão direita no pescoço do cavalo no início do lombo (nas cruzes). Quando montava, ele espalmava o cavalo no lado direito do pescoço. Este exercício era praticado com o cavalo parado, a passo, trote e galope. Em um cavalo encilhado o mameluco aprendia, sobre a supervisão de seu professor, como segurar as rédeas corretamente, como se sentar na sela, usar os estribos, como movimentar o cavalo a passo e executar mudanças de direção. Alguns tratados técnicos sobre furusiyya trazem importantes informações dos diferentes métodos de saltar a cavalo, comandar o cavalo, montar e desmontar portando o armamento e usar os estribos, conhecimentos obrigatórios a todo o cavaleiro. Estes tratados também mencionavam que cada cavaleio deveria tratar seu cavalo em caso de doença ou ferimento... Igualmente importante era a habilidade em esgrima com a lança, que representava o ponto alto da furusiyyah. Tratados contém os conselhos dos mestres sobre os exercícios com lança. Somente cavalos em perfeito adestramento eram considerados aceitáveis para estes exercícios. O mameluco encilhava, ele mesmo, o cavalo sem ajuda de outros. Era treinado a montar e desmontar com a lança na mão, como golpear no ataque ou defesa e, especialmente, como usar a lança enquanto segurava as rédeas. O Mestre ensinava ao cavaleiro como modificar seu comportamento, conforme as circunstâncias quando encontrava o inimigo: como se esquivar de um golpe; como se desembaraçar de um entrevero; como se desenredar das dificuldades; como entrar e sair da batalha e finalmente, como atirar uma estocada. A “birjas” era importante no treinamento do mamelucos. Era um alvo de madeira constituído de sete segmentos, colocados um sobre o outro com o sétimo alcançando a altura do cavalo, encimados por um anel de metal preso a uma peça de madeira. O cavaleiro mameluco se dirigia ao alvo de forma a lançar o anel de metal com a ponta da lança. Se ele conseguia, a peça de madeira fixada no anel de metal se soltava, se ele falhava sua lança caia no solo. A “birjas” não era o único alvo usado no treinamento com lança. Najm al-Din menciona cones que seriam atingidos desde o solo com a ponta da lança. O mesmo autor se refere a doze anéis de metal, fixados em uma peça de ferro, os quais deveriam ser colhidos todos de uma vez, e outros alvos mais. Instruções escritas para o uso da lança eram compiladas por alguns mestres. Eram chamadas de “bunnd”. Baktut diz que estes exercícios davam vigor ao torso e as coxas e ensinavam ao cavaleiro como estribar e como empunhar armas de qualquer espécie. Este autor afirma que os exercícios davam flexibilidade aos membros dos cavaleiros, permitindo a eles rapidamente atacar, dar volta e escapar. Alguns Mestres

Pg. 18. da furusiyyah remetiam alguns destes exercícios à primeira época islâmica, atribuindo alguns deles a Ali ibn Abi Talib, Khalid ibn al Walid, e outros, de quem levavam os nomes. Diziam que eram 150 exercícios nos tempos antigos. Foram reduzidos a 72 e posteriormente a 50. Cada um deles explanava, em detalhes, como a lança deveria ser empunhada e mantida apontada para o alvo. Tardiamente estes exercícios foram reduzidos para sete.... O aprendiz, tendo completado o estudo da equitação e de esgrima de lança, era mandado treinar no hipódromo. Este treinamento era feito em conjunto. Eram exercícios de grupo, aprendendo a entrar, sair do combate, volver a direita, esquerda, avançar e retirar junto com seus companheiros. Assim como conhecer sua posição e a dos outros. Lajin al-Husami compilou um tratado de furusiyyah sobre este assunto que serviu de base para os posteriores. Entrando no hipódromo, cada mameluco devia segurar sua lança pelo meio, com sua mão direita, enquanto cavalgava atrás de seu companheiro. Havia diversas formas de segurar a lança, mas esta devia ser uniforme para todos os ginetes cavalgando em uma mesma formação.... Os mamelucos entravam na pista em uma linha quebrada, cada dois grupos encabeçados pelo chefe da tibaq (muqaddam). Quatro grupos, com dois “muqaddam” evoluíam ao mesmo tempo. Os mamelucos cavalgavam em diferentes formações: de início duas linhas retas e paralelas; em seguida formavam dois círculos, concêntricos ou separados; até formarem duas linhas opostas o que permitia o treinamento de combate singular. Terminado o exercício, eles retornavam em zig-zag formando, de novo, a linha quebrada. Após o treinamento em conjunto executavam outros, em pequenos grupos.... Além do esgrima de lança, os mamelucos deviam serem aptos em arquearia. Taybugha al-Baklamishi al-Yunani (morto em 797/1394) convidava o aprendiz de arquearia a entrar na pista de treino como se entrasse em uma mesquita. Para que o clima de recolhimento estivesse completo Taybugha exortava o aluno a se concentrar, executar duas rakas e então preparar seu arco e as flechas. Quando seu turno chegava o aluno devia arregaçar as mangas, atar as pontas de sua vestimenta, então começar o treino sobre a supervisão de seu mestre. Para ensinar os iniciantes, o mestre arqueiro, tomava dois arcos flexíveis, um em suas mãos e o outro nas do mameluco. Começava ensinando com fazer uma pegada firme. Isto tomava um longo tempo. Depois ensinava o bloqueio da corda do arco, sem usar a flecha, por alguns dias. Este exercício era seguido por tiros, em um tonel, usando flechas sem penas. O arco era substituído por outros, em sucessão cada qual mais forte. Só o quinto arco tinha potência suficiente para uso em combate. O treinamento final era feito em campo aberto, depois do arqueiro atingir um certo grau de habilidade atirando no alvo (al-buttiyya). At-Tabari (morto em 694/1295) descreveu “al-buttiyya”, um alvo fixo suportado por quatro pernas. Tinha a forma de um tonel e ficava na altura do peito do arqueiro. Era construído de couro preenchido de lã. O arqueiro devia atirar de uma distância de cerca de 70 centímetros. Para facilitar a tarefa do atirador, Taybugha escreveu um poema com mais de duzentos versos, contendo instruções de arquearia. Os alunos deviam decorar este poema e seguir seus ensinamentos durante os treinos. O poema ensinava a postura a

Pg. 19. ser adquirida, a pegada, como bloquear a flecha, como distender o arco, como mirar e como liberar a flecha. Os tratados de furusiyya aportavam inumeráveis dados sobre o que era do interesse de um arqueiro. Eles informavam sobre as diferentes espécies de arco e flechas, e a função de cada peça do equipamento. Informavam ao arqueiro como evitar os perigos que o ameaçavam, como o tremor da mão ou os golpes da corda no polegar, no antebraço, no queixo ou na orelha. Também ensinavam como evitar, ou lidar, com as bolhas e ferimentos causados pela prática da arquearia. O uso do arco e flechas a cavalo ocupava muito espaço nos exercícios. A prática consistia em atirar num alvo colocado a nível do solo ou em outro mais alto, na ponta de um mastro. Para isto, o mestre arqueiro mostrava ao mameluco como segurar as rédeas, entre o médio e o anular da mão direita, como empunhar firme o arco, como buscar a firmeza na sela, enquanto se inclinava para frente na montaria e executava o tiro de arco. O alvo elevado era erguido em um terreno plano. Consistia em um círculo de madeira, com um buraco no centro, tendo outro alvo atrás. Al-Tabari preconizava que o cavaleiro se aproximasse pelo lado direito do alvo, inclinando-se ligeiramente para a esquerda, cuidando para não bater com o joelho no mastro. Ele afirmava que a altura do mastro, com o círculo de madeira no topo, podia ser mais de seis metros.... Mais informações sobre este tipo de alvo são dadas por Taybugha al-Yunani, que orientava o cavaleiro a atirar de uma curta distância após passar pelo mastro, e olhar para cima seguindo a flecha com seus olhos até ela cruzar pelo círculo de madeira. Ele advertia aos cavaleiros manter distância entre si, se por acaso um caísse da montaria, e não coletar as flechas antes do exercício estar concluído. A esgrima com espadas também era ensinada nas “tibaq”. Em primeiro lugar o mestre trazia quatro diferente tipos de espada com diversos pesos cada tipo, variando de cerca de um quilograma até dois quilos e meio. Os exercício começavam com uma espada leve e evoluíam para o uso da mais pesada. Traziam argila que era molhada e amassada até a consistência de uma pomada, e deixada maturar por três dias. Era então colocada sobre uma mesa, com uma espessura de um palmo, devendo o aluno, sobre a supervisão do mestre, golpear a argila com a espada.... O mameluco iniciava golpeando a argila 25 vezes com a mão direita e depois o mesmo com a esquerda. No final de seu treinamento chegava a desferir 1000 golpes em um só dia. O seguinte estágio da prática era colocar a argila em camadas separadas por feltro o que permitia o aluno a treinar golpes de diferentes espessuras. De início a argila era separada em cinco camadas até mais de cem no final do treinamento... O couro era utilizado como alternativa ao feltro. Para que o mameluco tivesse controle da profundidade do golpe, para ferir ou matar o inimigo, o mestre de esgrima colocava folhas de papel com camadas de algodão entre si, em número de vinte. O golpe devia cortar o número de camadas pedido.... O treinamento de esgrima a cavalo era feito de forma diferente. De início uma taquara verde, da altura do cavaleiro era cravada no solo. O cavaleiro se aproximava pela direita, a galope estendido, e cortava um palmo da cana. O exercício era repetido

Pg. 20. até a cana ficar com um palmo de altura. O próximo exercício consistia em fixar cinco canas no solo a distância de sete metros uma da outra. O cavaleiro devia se aproximar pela direita cortando sucessivamente cada cana. O último exercício era formado por duas fileiras de cana, devendo o cavaleiro cortar à direita e à esquerda sucessivamente. Depois de aprendidas estas habilidade básicas, o mestre iniciava o ensino de esgrima em entrevero, no ataque e na retirada, usando espada, espada e escudo, espada e adaga ou duas espadas manejadas ao mesmo tempo.... Estas eram as habilidade a serem adquiridas pelos mamelucos durante seu treinamento. Quando provavam sua eficiência com um soldado totalmente qualificado, recebiam sua alforria cavalos e equipamentos. Mas suas ligações com as suas barracas não terminava neste momento. Seus pagamentos eram feitos de acordo com as tibaq que pertenciam....

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