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A cor do gato
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9 de novembro de 2012

Autor: Demétrio Magnoli

9 de novembro de 2012 Autor: Demétrio Magnoli “Não importa se o gato é preto ou
9 de novembro de 2012 Autor: Demétrio Magnoli “Não importa se o gato é preto ou

“Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos”. A linha célebre, pronunciada em 1961

por Deng Xiao-ping, produziu um gato furta-cor, que exerce efeitos ideológicos hipnóticos sobre a direita

ultraliberal e a esquerda pós-soviética. Milton Friedman enxergou na China (e no Chile de Pinochet) um

laboratório de ensaios para a doutrina da liberdade econômica absoluta, não limitada pela teia de direitos

sociais e prerrogativas sindicais tecida no Ocidente. A esquerda irreformável, por sua vez, enxerga na China uma nova alternativa ao capitalismo, um contraponto

aos Estados Unidos e um modelo ideal de concentração de poder nas mãos do Estado. Hoje, o gato chinês

encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: para continuar a caçar os ratos, ele precisa reinventar-se,

frustrando seus admiradores nos dois pólos do espectro político.

A economia é o desafio número um. A fórmula do capitalismo de Estado propiciou um salto impressionante do PIB

per capita, de cerca de US$ 1.000 em 1992 para quase US$ 8.400 em 2011, inscrevendo a China entre os países de média renda e resgatando milhões de camponeses da esfera da miséria. Contudo, o “milagre” realizou-se a

partir de um patamar inicial muito baixo e na moldura favorável da expansão global financiada à base de crédito e endividamento. O ciclo da “acumulação primitiva” está se fechando no compasso do aumento dos custos do

trabalho. Fábricas começam a se transferir das províncias litorâneas para o interior, em busca de mão-de-obra mais barata. As economias americana e europeia não são capazes de continuar a absorver o excedente chinês de poupança produtiva. Na China, encerrou-se a era do crescimento anual de dois dígitos e, para evitar uma trágica

retração, a liderança que assume o poder tem a missão arriscada de buscar um novo equilíbrio por meio do estímulo à demanda interna.

A demografia é o segundo desafio. Sob a “política do filho único”, a China desviou-se da curva normal de transição

demográfica. Nas últimas quatro décadas, a política antinatalista reduziu o incremento populacional em 300 milhões de pessoas. Em termos absolutos, a população chinesa começará a declinar antes de 2030. A idade média dos chineses aproxima-se de 35 anos. A proporção de idosos, com mais de 60 anos, saltará de 12,5% em 2010

para 20% em 2020. Na ausência de um sistema abrangente de seguridade social, o fenômeno gera poupança familiar compulsória, improdutiva e de longo prazo, comprimindo o consumo potencial. Jamais, na história, um

país envelheceu antes de enriquecer. A redução da população ativa já se iniciou e experimentará aceleração. Verifica-se oferta insuficiente de mão-de-obra em algumas regiões e, de modo geral, a tendência ao

envelhecimento contribui para o aumento dos custos do trabalho.

O terceiro desafio é ambiental – ou, precisamente, socioambiental. A

matriz energética chinesa baseia-se no carvão mineral, responsável por 66% do consumo total. A queima de carvão em termelétricas tradicionais

provoca elevadas emissões de gases de estufa e contamina o ar das cidades e regiões industriais. Nas periferias urbanas e nas áreas de

extração mineral, a contaminação dos cursos fluviais e dos solos atinge níveis alarmantes. A construção de hidrelétricas, rodovias e ferrovias

causa remoções em massa de populações e acende fogueiras de desespero. A imagem lendária de coesão social e disciplina confuciana nunca correspondeu à realidade chinesa. Atualmente, porém, o país

conhece extensiva turbulência fragmentária, que se manifesta na forma

de milhares de motins locais.

A China só evitará uma prolongada estagnação se engendrar um ciclo de expansão baseado no consumo interno, no investimento privado doméstico, na concorrência e na inovação

privado doméstico, na concorrência e na inovação A questão da liberdade é o fio subterrâneo que

A questão da liberdade é o fio subterrâneo que interliga os desafios da

economia, da demografia e da ecologia. Em 1989, a Primavera de

Pequim, na Praça da Paz Celestial, foi suprimida a bala. Em seguida, com

o relançamento das reformas econômicas, Deng Xiao-ping conseguiu

firmar um contrato social temporário por meio do qual os chineses trocaram a demanda de liberdade pela expectativa de aumento sustentado dos níveis de renda e consumo. Hoje,

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é a sua opinião sobre a criação de sucessivas emendas? O excesso de emendas evidencia a

O excesso de emendas evidencia a

urgência de uma reforma constitucional

emendas evidencia a urgência de uma reforma constitucional A reforma constitucional não é necessária, as PECs

A reforma constitucional não é

necessária, as PECs são a melhor forma

de atualizar as leis

as PECs são a melhor forma de atualizar as leis Na verdade, as PECs não visam
as PECs são a melhor forma de atualizar as leis Na verdade, as PECs não visam

Na verdade, as PECs não visam à atualização do texto constitucional. Tratam-se de medidas populistas

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quase um quarto de século depois, o intercâmbio tornou-se inviável, 2005 pois - 2013 a Instituto liberdade Millenium converteu-se em condição tanto para a estabilidade quanto para a prosperidade.

Greves operárias riscam, ano após ano, o cenário da China. Mais recentes são os protestos da nova classe média, que é o atual alicerce social do Partido Comunista. Na cidade portuária de Ningbo, jornadas de revolta provocaram

o congelamento de um projeto de expansão de um complexo químico. Antes, em julho, manifestações de massa

bloquearam a construção de uma refinaria de cobre em Shifang e de um duto de esgoto em Qidong. Na era das

mídias sociais, os microblogs perfuram a muralha da censura estatal e descerram o véu que recobre a corrupção desenfreada no círculo interno do poder. Há três meses, sites oficiais republicaram um relatório destinado a altos dirigentes do Partido que alerta para a hipótese de “tumultos sociais generalizados ou revolução violenta”.

A expressão “armadilha da renda média” circula nos textos analíticos dos acadêmicos ligados à elite dirigente.

Superada a etapa da “acumulação primitiva”, a China só evitará uma prolongada estagnação se engendrar um ciclo de expansão baseado no consumo interno, no investimento privado doméstico, na concorrência e na

inovação. Tudo isso depende de segurança jurídica, direitos de propriedade, redes de proteção social, mecanismos de fiscalização do governo e vigência das liberdades públicas básicas. No fundo, o Partido está diante do supremo desafio de sabotar o sistema totalitário que assegura sua hegemonia.

sabotar o sistema totalitário que assegura sua hegemonia. O ex-primeiro-ministro Zhu Rongji, um visionário, pediu a

O ex-primeiro-ministro Zhu Rongji, um visionário, pediu a realização de eleições competitivas para a direção do

Partido. Ele sabe que já é hora de subverter a lição de Deng: a cor do gato tem importância crucial.

Fonte: O Globo, 08/11/2012

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TAGS - China, Concorrência, Consumo Interno, Demétrio Magnoli, Economia, Inovação, Investimento Privado Doméstico, Liberdade

Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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