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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas

É AINDA POSSÍVEL PENSAR-SE POLÍTICA FORA DA


BIOPOLÍTICA?

Texto a ser apresentado para a obtenção de créditos na disciplina Biopolítica –


Profs. Selvino Assmann e Alexandre Fernandez Vaz – Doutorado
Interdisciplinar em Ciências Humanas

Aluno: Cláudio Luis da Cunha Gastal

Florianópolis
Janeiro de 2009

1
A pluralidade humana,condição básica da ação e do discurso, tem o
duplo aspecto da igualdade e da diferença. Se não fossem iguais, os
homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus
ancestrais, ou de fazer planos para o futuro e entender as gerações
vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse
de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não
precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender.

Hannah Arendt

1- INTRODUÇÃO:
Este trabalho tem como origem uma das preocupações centrais de meu projeto de tese de
doutorado. Creio que para se possa compreender sua finalidade e o desenvolvimento que a ele dou
seja necessário que esta preocupação seja brevemente situada. Parte ela de uma constatação,
inicialmente totalmente empírica, que data já de vários anos, derivada de minha experiência de
psiquiatra inserido na proposta de Reforma Psiquiátrica. Constatação esta que é a de que, apesar de
todas as transformações, sejam práticas ou teóricas na atenção – que deixou de ser estritamente
psiquiátrica, mas ampliada a um outro nível, o da saúde mental – os serviços criados tendem com
demasiada freqüência a reproduzir, embora que com roupagens e sutilezas novas práticas que em
essência são muito semelhantes àquelas que tentariam superar. Práticas que seriam
fundamentalmente biopolíticas, no sentido “negativo” da palavra, pois são práticas basicamente de
normalização ou de controle (muito embora que me pareça que preponderem dispositivos de
normalização). Isto é um acidente, um descaminho evitável do processo de reforma psiquiátrica,
um retrocesso a ser sanado através do investimento na formação de profissionais que, em
decorrência disto, venham a pensar de forma afinada com a reforma psiquiátrica? Ou antes, será
que um fenômeno mais profundo encontra-se subjacente a esta reprodução de mecanismos de
dominação?
Tal dúvida encontra um reforço no fato de ser impossível dissociar a o processo de reforma
psiquiátrica da Reforma Sanitária, a qual teve também origem em movimentos sociais, os quais,
seja através do processo de redemocratização do Brasil, seja diretamente através da Constituição de
1988, passam a fazer parte da estrutura do Estado, seja pela inserção de seus componentes, seja
como propostas a serem implementadas. Dessa forma temos movimentos sociais que passam
integrar a estrutura do estado, sendo proponentes de Políticas Públicas. Tais políticas públicas na
área da saúde tem como um dos elementos centrais a idéia de democracia participativa, através de
mecanismos de participação popular e controle social em relação ao Sistema Único de saúde (SUS).
Tais mecanismos constituem-se basicamente em Conselhos de Saúde em vários níveis, aos quais

2
caberia um poder decisório e de fiscalização em relação ao Estado, embora inseridos dentro deste
Estado. E, mesmo que tais conselhos estejam em ação, incontáveis são os trabalhos e pesquisas que
mostram como tais conselhos tendem a não cumprir esse papel participativo, constituinte, sendo
meros referendadores das decisões do poder constituído. De novo, pois, cabe aqui a mesma
interrogação feita em relação às dificuldades de efetivação da reforma psiquiátrica. Tais problemas
são decorrentes de erros circunstanciais, são sanáveis com cursos de formação de conselheiros, são
frutos de manipulações políticas imediatas, ou antes, mostrariam também a presença de uma
questão mais profunda e, por isso, talvez, não evidente?
Tais questões inevitavelmente lembram Giorgio Agamben1, quando este diz que os Estados
totalitários de século XX não são meros retrocessos históricos, exceções à regra, mas sim
conseqüências lógicas e inevitáveis de determinadas tendências da modernidade, cujo fulcro é o
estado de exceção permanente, a produção da vida nua e os mecanismos de domínio biopolítico.
Viso aqui tentar analisar a possibilidade de que a denominada biopolítica positiva - que vê
uma força irrefreável da vida capaz de subverter a biopolítica enquanto dominação, principalmente
na forma expressa por Antonio Negri2 - a qual está associada intimamente às propostas de
democracia participativa com base nos movimentos sociais – poderia estar na base desse eventual
fenômeno oculto, que traria dificuldades às tentativas transformadoras, na medida em que tal
biopolítica poderia estar emaranhada de tal forma com seu oposto, a biopolítica “negativa”, que não
conseguiria transcender a primazia da vida sobre a política, continuando esta prisioneira daquela.
É, pois, dentro deste contexto, que pretendo trazer aqui Hannah Arendt 3 como um parâmetro
reflexivo em relação à biopolítica, na medida em que esta assinala uma vitória do labor sobre a
ação, com o consequente declínio da esfera política . Portanto, à luz de Hannah Arendt gostaria de
analisar algumas propostas, principalmente de Agamben e Negri, mas também de Espósito.
Analisar criticamente a questão da democracia participativa e dos movimentos sociais quase
certamente implica no risco de suscitar reações ácidas, muito embora tal crítica seja realizada no
intuito da emancipação e não contra ela, já que pretende analisar a possibilidade de uma subjacente
possibilidade não emancipatório de uma biopolítica positiva.
Conveniente seria, para um melhor entendimento da questão, embora não caiba aqui,
aprofundar uma análise sobre a Reforma Psiquiátrica e a Reforma Sanitária. Contudo, creio que isto
não prejudicará a inteligibilidade do texto.

1
Agamben, Giorgio. Homo Sacer – O Poder Soberano e a Vida Nua I. Belo Horizonte. Editora da UFMG. 2007. p.
126-128
2
NEGRI, Antonio. Fin de Siglo. Barcelona. Ediciones Paidós. 1992. p.93. Disponível em:
http://d.scribd.com/docs/2nij6xmzv6qzbfqdw56d.pdf . Acesso em 18.01.2009.
3
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 10 ed. Rio de Janeiro. Forense Universitária. 2007.

3
2- HANNA ARENDT COMO UMA POSSIBILIDADE CRÍTICA DA BIOPOLÍTICA

Tendo em vista a centralidade hoje da biopolítica na filosofia política, começo por Hannah
Arendt e não pela biopolítica, pois creio importante procurar-se primeiramente um referencial
externo à biopolítica. Começar pela biopolítica seria, de certa forma, aceitar tacitamente o espaço
fechado que me parece ela circunscrever, ou seja, permanecer no cerne da questão a ser analisada e
não numa posição externa a ela.
Hannah Arendt, em a Condição Humana, ao empregar a expressão vita activa, pretende com
ela designar três atividades humanas fundamentais. O labor, o trabalho e a ação. Define ela o labor
como “... a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano”4, tendo a ver com
as necessidades vitais do processo da vida, e encontrando correspondência na condição humana da
própria vida. O trabalho corresponderia ao artificialismo da existência humana enquanto algo não
preso ao ciclo vital da espécie humana. Teria como condição humana correspondente a de
mundanidade. A ação seria a única atividade que se exerceria diretamente entre os homens, sem
mediações materiais e a ela corresponderia a condição humana da pluralidade. Com pluralidade
Hannah Arendt refere-se ao fato de que existem homens e não o Homem. Seria a ação, pois, a esfera
da política. Deste modo, principalmente quando confrontada com o labor, a possibilidade humana
da ação e do discurso seria algo que se contrapõe à mera existência corpórea, pois depende da uma
iniciativa. Iniciativa esta da qual, segundo Arendt, é impossível um ser humano abster-se sem que
deixe de ser humano.
Nada caracterizaria mais o ser humano enquanto tal que esta faceta da vita activa. Do labor e
do trabalho os homens podem prescindir sem que isso lhes seja essencial. Já uma vida vivida fora
da ação seria algo que isolaria o homem dos homens; da qual, caso venha a abster-se, deixaria de
ser humano. Mas, mais do que isso, Arendt coloca a ação como a possibilidade de um segundo
nascimento, situando este dentro, mas num nível acima, da condição humana da natalidade, como
uma condição especificamente humana, além da mera sobrevivência biológica. A capacidade de
iniciativa, de tomar a ação em suas mãos, talvez seja tão especificamente humana pois podemos vê-
la como um ato criador e não unicamente reprodutor da capacidade vital.
E, aqui, embora Hannah Arendt nunca tenha se referido à biopolítica, talvez coloque um
marco essencial para o pensamento sobre biopolítica. Talvez uma possibilidade de discernirmos
uma diferença de política como tal e biopolítica. Em Arendt, a vida e seu processo de reprodução, a
possibilidade de reprodução, de natalidade, só adquire um sentido humano na medida em que
transcenda o labor, mera possibilidade de reprodutibilidade, seja do individuo, seja da espécie; na
medida em que esta capacidade de natalidade possa ascender a uma outra dimensão: a da

4
ARENDT, Hanna. Op. Citada. p. 15

4
capacidade humana de agir, de criar. Isto porque aqui se coloca um fator que foge aos mecanismos
inexoráveis da vida como tal. Ou seja, a capacidade de tomar a iniciativa. Essa seria a dimensão em
si política do homem. Todo o pensamento de Arendt parece fluir neste sentido, no de especificar
uma dimensão humana diversa, embora imbricada, com a dimensão da vida em si.
Poderíamos dizer, em contraposição, que essa dimensão humana somente é possível
enquanto se assegure a possibilidade de manutenção e reprodutibilidade da vida enquanto tal,
despojada de quaisquer outras conotações. Contudo, mesmo que viéssemos a aceitar a validade de
tal contraposição não poderíamos deixar de assinalar que nela subjaz uma primazia da vida em
relação ao humano. E, frente a isso, poderíamos nos perguntar qual o interesse para a humanidade
dessa primazia. E, talvez, uma das respostas possíveis poderia ser a da possibilidade de não ser um
interesse da humanidade, mas sim uma questão de poder no sentido da biopolítica em seu aspecto
negativo.
Benjamin aborda a mesma questão, sob outro ângulo, ao colocar “Será que necesario en
cambio tomar en consideración la sorprendente posibilidad de que el interés del derecho por
monopolizar la violencia respecto a la persona aislada no tenga como explicación la intención de
salvaguardar fines jurídicos, sino más bien la de salvaguardar al derecho mismo.”5
A conexão que aqui tentamos fazer se dá através da questão da monopolização pelo estado
soberano do poder constituinte, característica do estado de exceção, privando os homens da ação
política, ou seja, de um poder constituinte fora da estrutura de estado. Essa privação de um
poder constituinte impossibilita a ação e coloca o homem em um estado de vida nua, numa primazia
da mera vida biológica, e, neste ponto voltamos a Hannah Arendt.
Parece que a solução que Negri encontra, segundo a análise da Agamben6, seja a de ver na
potencia da vida um poder constituinte fora da estrutura do estado soberano. Mas esta revelar-se-ia
insuficiente para restituir ao homem a possibilidade constituinte da ação, na medida em que, além
de outros fatores, preserva esse poder no âmbito de uma potencia da vida em si, e não na
possibilidade humana de iniciativa, de ação.
Continuamos aqui, talvez, embora sob roupagem diversa, dentro da visão de progresso
7
histórico criticada por Benjamin em sua nona tese sobre o conceito de história , já que parece
caber à multidão (movida por força quase que ontológica da vida) o papel de um novo sujeito
histórico coletivo, assumindo o papel perdido do proletariado como motor intrínseco e automático
da transformação social. Por outro lado, Agamben também critica Negri pela questão especifica de
este ver a possibilidade presente de um poder constituinte desintricado de laços com o estado
5
BENJAMIN, Walter. Para Una Crítica de la Violência. p.4. Disponível em:
http://www.philosophia.cl/biblioteca/benjamin.htm . Acessado em 18.01.2009
6
AGAMBEN, Giorgio. Potência e Direito. Op. Citada. p. 47-56.
7
BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. Disponível em:
http://www.scribd.com/doc/4061764/Sobre-o-conceito-da-Historia-Walter-Benjamin. Acessado em 12.01.2009.

5
soberano. Parece a Agamben que o estado soberano seja detentor de uma mescla de poder
constituinte e poder constituído e, em função disto, acabe por impedir um poder constituinte
autônomo que dele consiga libertar-se. .Caso aqui nos referíssemos à Esposito8, 9, poderíamos
colocar a questão em termos da relação ente immunitas e comunitas, vendo a primazia da vida no
polo da immunitas e a primazia do humano no polo da comunitas. Mas deixemos isso para mais
tarde e, por enquanto, sigamos com Hannah Arendt.
Em “A Condição Humana” claramente ela percebe que hoje prevalece o labor sobre a ação.
Prevalece a mera sobrevivência, a procura pela segurança, a subsistência, a busca da ausência de
riscos, um certo reproduzir-se e manter-se que não muito diferenciaria o ser humano das formas não
humanas de vida. Uma clara prevalência dos mecanismos básicos defensores da vida em seu sentido
também mais básico.
Permitindo um retorno, embora que prematuro, de Esposito, poderíamos dizer que seria uma
prevalência dos mecanismos imunitários, de defesa, em relação ao que Arendt coloca como
inevitáveis características da ação: a irreversibilidade dos atos e a imprevisibilidade de suas
conseqüências10.
Na ação histórica, uma defesa suprema da vida, um predomínio mortífero da immunitas,
significaria não assumir o risco real ou simbólico de sua própria morte. Seria, paradoxalmente,
morrer em vida, ou viver uma vida morta. Significa substituir a ação humana de perdoar e prometer,
soluções possíveis para os imponderáveis da ação segundo Hannah Arendt, pela asséptica atitude de
prevenir, enclausurando a própria vida dentro de muros, que mais impedem a vida da vida do que a
entrada da morte.
Fica evidente, pois, no pensamento de Hannah Arendt a postulação de uma dimensão
humana, intrinsecamente política, que transcende a vida enquanto mera vida. Caso tal suposição
seja sustentável abriria ela margem para uma oposição entre política e biopolítica. Indicaria um
espaço mais abrangente, passível de circunscrever biopolítica negativa e biopolítica positiva dentro
de um mesmo circulo, o qual teria o olhar critico de uma instância externa: a política. A política
como a dimensão do homem que transforma a sobrevivência, expressa na natalidade biológica, no
seu segundo nascimento, já não no mundo biológico, mas no mundo humano, deixando, pois de ser
mera sobrevivência biológica.
Creio então poder aqui perceber-se que Hannah Arendt, ao enfatizar a condição da ação

8
ESPOSITO, Roberto. Biopolítica, Immnunità, Comunità. Capitulo de livro de nome não citado no site acessado.
Disponível em: http://abdn.ac.uk/modernthought/archive/publications/esposito1.pdf . Acessado em 12.01.2009.
9
Embora Espósito defenda sua argumentação em termos muito mais hobbesianos do que da antiguidade grega, no
sentido de que a defesa da vida em si sempre esteve no âmago da política, e que, por isso, a política sempre foi
biopolítica
10
ARENDT, Hannah. Ação. In op. Citada. p. 188-259.

6
como fundamental na constituição de uma dimensão especificamente humana, nos fala, pois do
reverso do conceito de vida nua, de Agamben. Tal reverso seria essa vida politicamente qualificada.
Esse espaço humano expropriado pelo poder biopolítico, que reduz o homem a uma biologicidade
da vida, mera zoé, e não bios. O espaço da ação é o espaço da bios. Num mundo biopoliticamente
dominado, qual a possibilidade de um espaço da bios? Qual a possibilidade da política?
Creio que neste ponto possamos começar a falar sobre biopolítica.

3-A BIOPOLITICA
Biopolítica. O que tal expressão significa hoje em dia?
Foucault foi provavelmente quem primeiro utilizou a palavra “biopolítica”, querendo com
ela dizer “... que o velho direito [soberano] de causar a morte ou deixar viver foi substituído por
um poder de causar a vida ou devolver a morte [biopoder/biopolítica]”11 . No mesmo livro, logo
adiante, Foucault assinala também que “...deveríamos falar de ‘bio-política’ para designar o que
faz com que a vida e seus mecanismos entrem no domínio dos cálculos explícitos”12 (p.155). Tal
biopoder, ou biopolítica, se exerce, segundo Foucault, por dispositivos disciplinares sobre o corpo
ou dispositivos de controle sobre a população.
Já Agamben vê a permanência da presença de um poder soberano, consolidado num estado
de exceção, o qual tem como paradigma os estados totalitários do século XX, e no qual o biopoder
se exerce não pelo deixar viver, mas pelo fazer sobreviver, produzindo a vida nua13.
Contudo, o termo biopolítica, segundo Farhi Neto14 acabou por adquirir uma amplidão de
uso que o dilui em termos semânticos.
Espósito15 também nos chama a atenção para o fato de que o relevo que a biopolitica
conquistou nem sempre corresponde a uma adequada clareza categorial. Assinala, principalmente,
duas tonalidades praticamente opostas, sendo possível discernirmos duas direções básicas de
biopolitica. Uma que dá relevo ao poder sobre a vida e outra que dá relevo à força da vida sobre o
poder. A primeira denominada por Espósito de negativa, de subjugação da vida, e que se expressaria
principalmente em Agamben e outra denominada de positiva, afirmativa de um poder da vida, como
a advogada por Toni Negri16
Espósito vê no próprio termo, biopolítica, uma divisão opositiva, contrapondo, mas não
deixando de unir, bios e política. Tendo sido tal expressão cunhada por Foucault, Espósito vê no

11
FOUCAULT, Michel. História as Sexualidade. I- A Vontade de Saber. 18. ed. São Paulo. Graal. 2007. p. 150.
12
FOUCAULT, Michel. Op. citada. p. 150.
13
ARAN, Márcia e PEIXOTO JÚNIOR, Carlos Alberto. Vulnerabilidade e Vida Nua: Bioética e Biopolítica na
atualidade. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v.8, p. 849-57. 2007.
14
FARHI NETO, Leon. Biololítica Como Tecnologia do Poder. Revista Interdisciplinar INTERthesis, Florianópolis,
v.5, p. 45-67, jan/jul. 2008 p. 48
15
ESPOSITO, Roberto. Op. Citada.
16
Em relação a qual Espósito mantém uma distância crítica, ao qualificá-la de “eufórica”.

7
próprio Foucault a origem desta ambivalência da expressão, na medida em que Foucault hesitaria
entre estas duas concepções, não conseguindo abandonar nenhuma. O trabalho de Espósito,
principalmente em seu esforço pela construção do par comunidade e imunidade, parece ser uma
tentativa de chegar a uma síntese, ou melhor, a uma possibilidade dialógica, interativa, entre estas
duas concepções distintas.
A biopolitica positiva é chamada por alguns, como Stany Grelet e Mathieu Potte-
Bonneville17 em entrevista realizada com Agamben, de biopolítica menor, onde a redução do
homem a homo sacer, reduzindo-o a uma mera zoé, o leva a reivindicar aquilo que o poder soberano
nega, enfrentando-o na forma de movimentos sociais que reivindicam aquilo de que são privados.
Exemplos seriam os movimentos dos ilegais, dos doentes de AIDS, dos sem-teto, dos usuários de
drogas. O argumento dos entrevistadores é o de que estes grupos estariam situados na situação de
vida nua, de despojamento da bios, e que se organizariam a partir de uma condição biopolitica de
privação, que abriria margem para a manifestação de um poder da vida, de uma condição
constituinte, independente e em oposição ao estado soberano. A critica que fazem a Agamben é a de
que este nunca se deteve no potencial transformador destes movimentos, permanecendo em um
nível de crítica abstrata, tratando sempre estes sujeitos não enquanto sujeitos de uma prática, mas
sim como objetos de uma reflexão Agamben responde dizendo que a questão fundamental que
fragiliza tais movimentos é a não percepção de que a biopolitica tem em seu fulcro um permanente
movimento de dessubjetivação e subjetivação, e que essa subjetivação é aquela dada e permitida
pelas instâncias de poder, isto é, assujeitamento e não uma possibilidade emancipadora. Tais atores
sociais, digamos assim, participes dos movimentos sociais, acabariam por organizar-se a partir de
um processo de subjetivação proveniente do estado soberano. Ou seja, o enfrentamento possível
para os movimentos sociais não deixa de se exercer no próprio âmbito da soberania, apresentando,
pois, em si, uma dubiedade que permite a continuidade de seu enredamento nas redes de poder.
Diferente é a concepção de que o homem em vida nua é um homem dessubjetivado, sem
uma identidade fundamental. Uma zoé aberta a significações que podem se dar fora das
significações pré-definidas pelos mecanismos de poder.
A esse resguardo, a essa possibilidade de ser fora das estruturas de estado, Agamben o
aproxima do conceito de potência, mas uma potência completamente desvinculada do tornar-se ato,
distante mesmo da potência de não, que seria ainda uma característica do poder soberano. Ou seja,
Agamben delimita uma diferenciação entre potencia e ato.
Aqui sua reflexão é bastante profunda, pois refere-se às relações entre o poder constituinte e
poder constituído. Tal questão tem diretamente a ver com a questão do Estado na modernidade, pois
é diferente vermos um poder constituinte potencial fora das estruturas do poder soberano e vermos,
17
AGAMBEN, Giorgio. Une Biopolitique Mineure. Entrevista concedida a Stany Grelet e Mathieu Potte-Bonneville.
Disponível em: http://www.lepeuplequimanque.org/une-biopolitique-mineure.html. Acessada em 19.01.2009.

8
como Negri, uma relação inevitável potência-praxis, um devir inevitável da potência da vida
transformando-se numa ação política da multidão; quase que uma imanência ontológica do poder da
vida18. Ou seja, voltando à Benjamin, no que coloca em sua oitava tese sobre o conceito da
história19 , qual a possibilidade, dentro de um estado de exceção permanente, de instalar-se um real
estado de exceção? A resposta de Agamben parece ser bem diversa da de Negri. Se o paradigma da
modernidade, como coloca Agamben, é o Campo, o qual é a representação concreta de um estado
de exceção permanente que lhe subjaz e lhe permite, e se esse estado de exceção é a realidade não
só dos regimes totalitários, mas também das democracias representativas, como conseqüência de
uma biopolítica que continuamente transforma bios em zoe, é difícil pensarmos em estruturas de
estado, sejam concretas ou possíveis, que, seguindo dentro dos parâmetros definidores da
modernidade, incorporem esse suposto inevitável poder constituinte da força da vida sem que se
torne um poder constituído que vá utilizar-se dos mesmos mecanismos biopolíticos aos quais
inicialmente se opôs (a história é, nesse sentido, prenhe de exemplos). E aqui talvez nos
aproximemos na questão prática assinalada na introdução Um dos grandes méritos de Agamben é o
de mostrar que esses exemplos históricos não são meros descaminhos, erros, mas antes a própria
essência da modernidade.
Até que ponto as concepções de Negri não levam à possibilidade de roupagens mais sutis e
progressistas para o estado de exceção? Até que ponto a proposta de retomada da luta social nos
termos por ele definidos, tendo por base a multidão animada por uma inexorável força da vida pode
constituir-se numa poderosa e perigosa ilusão?
Se a questão fundamental parece estar no poder constituído e no uso continuo que faz do
poder constituinte dentro de parâmetros pré-determinados e não ameaçadores às próprias estruturas
constituídas, o poder soberano obviamente não nega esse poder constituinte da vida, e nisto está
justamente sua fonte de poder. Dissociarmos esses poderes e ao mesmo tempo continuarmos a
colocá-los em relação, como faz Negri, implica numa potência em continua dissipação, em continuo
devir rumo a um futuro, não em uma potência negativa, acumulativa

4- INTRODUZINDO BENJAMIN E A QUESTÃO DO TEMPO HISTÓRICO


Quando Benjamin20 nos fala do tempo histórico descontinuo contraposto a um tempo linear,
18
SILVA, Edivaldo Vieira da. Antônio Negri e Michel Hardt: Biopoder e Modo de produção da Multidão. In: O
Corpo na Transversal do Tempo: da Sociedade Disciplinar à Sociedade de Controle.2006. 368 p. Tese ( Doutourado
em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2006. Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=31940 . Acessado em
12.01.2009.
19
BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. Disponível em:
http://www.scribd.com/doc/4061764/Sobre-o-conceito-da-Historia-Walter-Benjamin. Acessado em 12.01.2009
20
BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. Disponível em:
http://www.scribd.com/doc/4061764/Sobre-o-conceito-da-Historia-Walter-Benjamin. Acessado em 12.01.2009.

9
tempo esse que, em suas palavras, implica em um caminhar para o futuro em meio a uma continua
produção de escombros, creio que, em parte, alerta sobre a perda da potência como tal, neste seu
constante desvanecer-se em ato. A questão do passado assume importância fundamental na obra de
Benjamim. Gostaria de destacar sua noção, exposta na sexta tese, de atualização imediata das
experiências passadas no presente, em vínculos que se abrem como janelas fugidias, mas pelas
quais passam fachos de uma luz que iluminam o presente anulando a distância temporal. Benjamim
trata dessa questão em relação às experiências dos oprimidos. Como conectar a questão do tempo
histórico, e por conseguinte do passado, com uma reflexão sobre biopolítica? Talvez possamos
tentar pensar sobre essa questão partindo de Esposito.
Uma das criticas que Espósito21 faz a Agamben é a de que este vê a possibilidade negativa
da biolítica como algo ontológico, ao mesmo tempo em que critica Negri por este ter um
entusiasmo descabido pela possibilidade positiva da biopolitica. Espósito pretende que sua
concepção da dualidade imunidade/comunidade consiga abrir a possibilidade a um eventual
otimismo quanto às forças da vida, sem recair num otimismo fácil, como no caso de Negri.
Contudo, apesar de toda a instigância das concepções de Esposito22, parece ele permanecer
preso ao âmbito da biopolítica enquanto universo único possível. Arrisco-me a dizer que tal se dá
porque seu olhar acaba sendo dirigido ao futuro, pouco, ou nada, nele se introduzindo a dimensão
do passado. Contudo seu pensamento abre margem ao passado: a concessão imunitária do
organismo materno que possibilita o desenvolvimento dentro de si do diverso (matriz do vinculo
entre immunitas e comunitas), é, na verdade, uma concessão ao passado. Esse novo que se
desenvolve dentro da mãe, é um novo pré-figurado pelo passado genético dos progenitores. A
concessão só é possível pela diferença, e essa diferença só é possível dado o passado. Em outras
palavras, a aceitação do passado dentro do presente é a grande concessão imunitária que possibilita
o realmente novo.
O futuro é como um vórtice, como um Maelströn de Poe, que nos suga, fazendo-nos antever
apenas o desconhecido, objeto predileto das defesas imunitárias contemporâneas que mancomunam
unicamente com esse futuro.
Reporto-me aqui, fundamentalmente, tendo Esposito como centro, à noção temporal linear,
de passado, presente e futuro. Noção que, talvez, a não ser em Benjamin, encontramos um
contraponto. Espósito tem o grande mérito de, embora não a desenvolvendo, abrir margem para ao
dimensão do passado. Talvez, somente tendo-se o passado como possibilidade genética do futuro, é
que poderiamos verdadeiramente compreender sua noção de natalidade como uma possibilidade

21
ESPOSITO, Roberto. Op. Citada.
22
Por questão de espaço não vejo possível como aqui detalhar o pensamento de Esposito. Por ser um trabalho para
uma disciplina, descanso-me no fato de saber que sua obra é conhecida pelos leitores imediatos deste texto.

10
interativa entre communitas e immunitas. O futuro como luz do presente nos conduz apenas à
visões prefiguradas deste futuro como desenvolvimento inevitável de um passado, seja ele
representado pelo proletariado, seja, na falta deste, por uma força, quem sabe mítica, da vida.
Dentro desta linha de raciocínio, biopolitica seria justamente a aniquilação da virtualidade
da verdadeira Política, cuja possibilidade é, não uma força vital que inevitavelmente se dirige ao
futuro, nem tampouco uma inevitabilidade histórica de superação do capitalismo, mas antes uma
recuperação da capacidade humana de criar . Não somos deuses. A nós não é dada uma faculdade
divina de criar a partir do nada, Somente podemos criar recombinando o passado com presente.
Agamben, contudo, nos remete à vida nua como o poder de uma potência distante do ato,
como uma conseqüência da dominação biopolítica que acaba por constituir-se numa fissura interna
da própria biopolitica. No final de sua entrevista a Grelet e Bonneville Agamben nos diz :
“Et on pourrait appeler désubjectivation cette expérience qu’on fait tous les jours de côtoyer une
puissance impersonnelle, quelque chose qui en même temps nous dépasse et nous fait vivre. Voilà, il me
semble que la question de l’art de vivre, ce serait : comment être en rapport avec cette puissance
impersonnelle ? Comment le sujet saura être en rapport avec sa puissance, qui ne lui appartient pas, qui le
dépasse ? C’est un problème poétique, pour ainsi dire. Les Romains appelaient cela le génie, principe
impersonnel fécond, qui permet d’engendrer une vie. Là aussi, c’est un modèle possible. Le sujet ne serait
ni le sujet conscient, ni la puissance impersonnelle, mais ce qui se tient entre les deux. La
désubjectivation n’a pas seulement un aspect sombre, obscur. Elle n’est pas simplement la destruction de
toute subjectivité. Il y aussi cet autre pôle, plus fécond et poétique, où le sujet n’est que le sujet de sa
propre désubjectivation. Permettez-moi, donc, de refuser votre accusation : je suis sûr que vous êtes plus
pessimistes que moi...”23

De alguma forma Agamben, creio eu, nos trás a experiência trágica como essência da vida
nua. E aqui pergunto-me se não seria esse homem trágico , o mesmo homem oprimido que é
portador da esperança messiânica de que nos fala Benjamin, aquele capaz de “nietzschenianamente”
criar o espaço próprio do homem? O espaço da criação que o tornaria apto a criar, também, aqueles
atos que dariam historicidade ao tempo, quebrando o tempo linear e permitindo a ressonância
transversal de um certo sentimento - talvez revivificador, talvez portador de uma emocionalidade
muito específica de comunhão - de que portamos um poder constituinte, aqui sim, desemaranhado
do poder soberano.

23
AGAMBEN, Giorgio. Une Biopolitique Mineure. Entrevista concedida a Stany Grelet e Mathieu Potte-Bonneville.
Disponível em: http://www.lepeuplequimanque.org/une-biopolitique-mineure.html. Acessada em 19.01.2009.

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