Você está na página 1de 7

COLETÂNEA DE TEXTOS E POEMAS DE BERTOLT BRECHT

Ao Camarada Dimitrov, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig *

Camarada Dimitrov! Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista a voz do comunismo, cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SA através do ruído dos chicotes e cassetetes, fala bem alto e nítido no centro da Alemanha. Voz que pode ser ouvida em todas as nações da Europa, que através das fronteiras ouvem o que vem do escuro, elas mesmas no escuro, mas também pode ser ouvida por todos os explorados e espancados e incorrigíveis lutadores na Alemanha. Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada minuto que te é dado, e o pequeno lugar que ainda é público, utiliza-o para todos nós. Mal dominando a língua que não é a tua sempre advertido aos gritos, várias vezes arrastado para fora, enfraquecido com as algemas, fazes repetidamente as perguntas temidas. Incriminas os criminosos e leva-os a gritar e te arrastar e assim confessar que não têm razão, apenas força. Embora não tão visíveis milhares de combatentes, mesmo os ensangüentados em suas celas que podem ser abatidos mas nunca vencidos. Assim como tu, suspeitos de combater a fome, acusados de revolta contra os exploradores, incriminados por lutar contra a opressão, convictos da causa mais justa.

* George Dimitrov, revolucionário búlgaro e dirigente da Internacional Comunista, foi acusado pelos nazistas de incendiar o parlamento alemão (Reichstag) em janeiro de 1933. Assumindo a própria defesa, Dimitrov desmascarou, no julgamento do processo, a farsa montada pelos nazistas para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Usando uma lógica precisa e implacável, Dimitrov derrubou um a um os argumentos da acusação, provando a todos sua inocência. Esta é considerada a 1º derrota significativa dos nazistas, prenuncio de sua queda final que viria em 1945.

Camarada Wlassowa

Esta é a nossa camarada Wlassowa, boa lutadora, dedicada, astuta e firme. Firme na luta, astuta contra nossos inimigos e dedicada na agitação. Seu trabalho é miúdo, tenaz e imprescindível.

Onde quer que lute não está só. Como ela lutam tenazes, firmes e astutas em Twer, Glasgow, Lyon e Chicago, Changai e Calcutá. Todas as Wlassowas, de todo o mundo, boas formigas, soldados invisíveis da revolução. Imprescindíveis.

Canção do Remendo e do Casaco

Sempre que o nosso casaco se rasga vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser; isso vai acabar, custe o que custar! Cheios de fé vão aos senhores enquanto nós, cheios de frio, aguardamos. E ao voltar, sempre triunfantes, nos mostram o que por nós conquistam:

Um pequeno remendo.

Ótimo, eis o remendo. Mas onde está

o nosso casaco?

Sempre que nós gritamos de fome vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar, é preciso ajudá-los, custe o que custar!

E cheios de ardor vão aos senhores enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos. E ao voltar, sempre triunfantes, exibem a grande conquista:

um pedacinho de pão. Que bom, este é o pedaço de pão, mas onde está o pão? Não precisamos só do remendo, precisamos o casaco inteiro. Não precisamos de pedaços de pão, precisamos de pão verdadeiro. Não precisamos só do emprego, toda a fábrica precisamos.

E

mais o carvão.

E

mais as minas.

O

povo no poder.

É disso que precisamos.

Que tem vocês a nos dar?

Canção

Eles tem códigos e decretos. Eles tem prisões e fortalezas. (sem contar seus reformatórios!) Eles tem carcereiros e juizes que fazem o que mandam por trinta dinheiros. Sim, e para que? Será que e;es pensam que nós, como eles, seremos destruídos? Seu fim será breve e eles hão de notar que nada poderá ajudá-los.

Eles tem jornais e impressoras para nos combater e amordaçar. (sem contar seus estadistas!) Eles tem professores e sacerdotes que fazem o que mandam por trinta dinheiros. Sim, e para que? Será que precisam a verdade temer? Seu fim será breve e eles hão de notar que nada poderá ajudá-los.

Eles tem tanques e canhões, granadas e metralhadoras (sem contar seus cassetetes!) Eles tem policia e soldados, que por pouco dinheiro estão prontos a tudo. Sim, e para que? Terão inimigos tão fortes? Eles pensam que podem parar, a sua queda, na queda, impedir. Um dia, e será para breve verão que anda poderá ajudá-los. E de novo bem alto gritarão: Parem! Pois nem dinheiro nem canhões poderão mais salvá-los.

Algumas perguntas a um "homem bom"

Bom, mas para que? Sim, não és venal, mas o ralo que sobre a casa sai também Não é venal. Nunca renegas o que disseste. Mas, o que disseste? És de boa fé, dás a tua opinião. Que opinião?

Toma coragem

contra quem?

És cheio de sabedoria Pra quem? Não olhas aos teus interesses. Aos de quem olhas? És um bom amigo. Sê-lo-ás do bom povo?

Escuta pois: nós sabemos que és nosso inimigo. Por isso vamos Encostar-te a paredão. Mas em consideração dos teus méritos e das tuas boas qualidades Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com Uma boa pá debaixo de terra boa.

O Comboio De Serviço

1

Por ordem Expressa do Führer,

o comboio de luxo expressamente feito para o congresso do Partido em Nuremberg recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO. Os que o tomam prestam com isso um serviço ao povo alemão.

2

O comboio de serviço

é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros tem apartamentos privativos. Pelas largas janelas vêem os camponeses alemães mourejar os campos. Se por acaso transpirassem nesse momento poderiam tomar banho Em cabines cobertas de ladrilhos. Um sutil sistema de luzes permite-lhes Ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais Com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime

Os vários apartamentos Comunicam entre si por linhas telefônicas

Tal como as mesas dos grandes dancing's cujos clientes Podem pedir às mulheres das mesas vizinhas

O preço que cobram.

Sem sair da cama os passageiros também podem Ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens Sobre os erros do regime. Jantam, Se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as respectivas necessidades

Em privadas revestidas de mármore. Cagam na Alemanha.

Unicamente Por Causa Da Desordem Crescente

Unicamente por causa da desordem crescente Nas nossas cidades com suas lutas de classes Alguns de nós nestes anos decidimos Não mais falar nos grandes portos, da neve nos telhados, das muralhas, Do perfume das maçãs maduras na despensa, nas impressões da carne,

De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas Falar só da desordem

E portanto ser parciais, secos, enfronhados nos negócios

Da política, e no rádio e "indigno" vocabulário De economia dialética, Para que esta terrível pesada promiscuidade Das quedas na neve (elas não são só frias, nos bem o sabemos),

Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes, Não nos leve a aceitação deste mundo tão diverso Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta. Vocês entendem.

Monólogo De Uma Atriz Enquanto Se Maquila

Vou fazer o papel de uma bêbada que vende os filhos em Paris, nos tempos da Comuna. Tenho apenas cinco réplicas.

E preciso de me deslocar, de subir a rua. Caminharei como gente livre, gente que só o álcool quis libertar e voltar-me-ei para o público. Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica com a melhor acusação contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não refletisse, maquilar-me-ia simplesmente como uma velha beberrona doente e decadente. Mas vou entrar em cena como uma bela mulher que guarda a marca da distribuição na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas outrora atraente e agora repelida pra que ao vê-la cada um se interrogue: quem fez isto?

Quem é teu inimigo?

O que tem fome e te rouba

o último pedaço de pão chama-o teu inimigo. Mas não saltas ao pescoço de teu ladrão que nunca teve fome.

Elogio Da Dialética

A injustiça avança hoje a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas

continuarão a ser como são. Nenhuma voz além da dos que mandam. E em todos os mercados proclama a exploração:

Isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. O que é seguro não é seguro. As coisas não continuarão a ser como são. Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados. Quem pois ousa dizer: nunca? De quem depende que a opressão prossiga? De nós. De quem depende que ela acabe? De nós. O que é esmagado, que se levante! O que está perdido, lute!

O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha? Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

Elogio da terceira coisa

Sempre se ouve quão depressa as mães perdem os filhos, mas eu preservei o meu. Como o preservei? Através da terceira coisa. Eu e ele éramos dois, mas a terceira coisa comum, a causa comum, foi ela que nos uniu. Eu mesma ouvi, às vezes, conversas entre filhos e pais. Mas como eram melhores as nossas conversas sobre a terceira coisa, que nos era comum, grande e comum para tantos homens! Que perto nos encontrávamos, perto dessa coisa: Que bom era para nós essa boa coisa perto!

Elogio do Comunismo

Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.

Você, por certo, não é nenhum explorador. Você pode entendê-lo. Ele é bom para você. Informe-se sobre ele. Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco. Ele é contra a sujeira e contra a estupidez. Os exploradores dizem-no um crime, mas nós sabemos que ele é o fim dos crimes; ele não é a loucura e sim

o fim da loucura.

Não é o caos e sim

uma nova ordem. Ele é a simplicidade.

O difícil de fazer.

Elogio do Trabalho Clandestino

É bonito usar da palavra na luta de classes. Clamar alto e bom som pela luta das massas. Pisar os opressores, libertar os oprimidos. Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia que secreta e tenaz tece a rede do Partido sob os fuzis apontados dos capitalistas. Falar, mas escondendo o orador. Vencer, mas escondendo o vencedor. Morrer, mas dissimulando a morte. Pela glória quem não faria grandes coisas? Mas quem as faz pelo olvido?

E a glória busca em vão

os autores do grande feito.

Sai da sombra por um momento rostos anônimos, dissimulados, e aceitai;

o nosso agradecimento.

Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente:

não aceiteis o que é de hábito como coisa natural. Pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar.

Nossos inimigos dizem

Nossos inimigos dizem: a luta terminou. Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: a verdade está liquidada. Mas nós sabemos: nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: mesmo que ainda se conheça a verdade ela não pode mais ser divulgada. Mas nós a divulgaremos.

É a véspera da batalha.

É a preparação de nossos quadros. É o estudo do plano de luta. É o dia antes da queda de nossos inimigos.

O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político

é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos:

O político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Os tecelões de Kujan-Bulak homenageiam Lênin

1

Com freqüência, e generosamente homenageou-se o camarada Lênin. Existem bustos e estátuas. Cidades receberam seu nome, e também crianças. Fazem-se conferências em muitas línguas há reuniões e demonstrações de Xangai a Chicago, em homenagem a Lênin. Mas assim o homenagearam os tecelões de Kujan-Bulak, pequena localidade no sul do Turquistão:

Lá, vinte tecelões deixam à noite,

tremendo de febre, seu tear miserável.

A febre está em toda a parte: a estação

é tomada pelo zumbido dos mosquitos, nuvem espessa

que se levanta do pântano atrás do velho cemitério de camelos. Mas a locomotiva, que a cada duas semanas traz água e fumaça, traz um dia também a notícia:

Que está próximo o dia de reverenciar o camarada Lênin.

E a gente de Kujan-Bulak,

gente pobre, tecelões, decide que também na sua localidade será erguido um busto de gesso para o camarada Lênin. Mas quando o dinheiro é coletado para o busto encontram-se todos frementes de febre, a contar seus copeques duramente ganhos com mãos sôfregas. E o guarda vermelho Stepa Gamalew, que conta com cuidado e observa com rigor, vê a disposição de homenagear Lênin e se alegra, mas também vê mãos inseguras. E faz de repente a proposta de com o dinheiro para o busto comprar petróleo e derramá-lo no pântano trás do cemitério de camelos de onde vêm os mosquitos que produzem a febre. De modo assim a combater a febre em Kujan-Bulak, e isto em honra do falecido mas não esquecido camarada Lênin.

Assim decidiram. No dia da homenagem conduziram seus baldes amassados, cheios do petróleo negro um atrás do outro

e regaram aquilo o pântano com aquilo.

Eles se ajudaram, ao homenagear Lênin

e o homenagearam, ao se ajudar, e o haviam, portanto, compreendido.

2

Ouvimos como a gente de Kujan-Bulak homenageou Lênin. E quando, à noite o petróleo havia sido comprado e derramado no pântano, ergueu-se um homem na reunião, e solicitou que fosse colocada uma placa na estação com a narrativa do acontecimento, descrevendo precisamente a mudança do plano e a troca do busto de Lênin pelo tonel de petróleo destruidor da febre.

E tudo em homenagem a Lênin. E também isto fizeram, e colocaram a placa.

Perguntas De Um Trabalhador Que Lê

Quem construiu a Tebas de sete portas? Nos livros estão nomes de reis. Arrastaram eles os blocos de pedras?

E a Babilônia várias vezes destruída -

quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas da Lima dourada moravam os construtores? Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio

tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida, os que se afogavam gritavam por seus escravos na noite em que o mar a tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho? César bateu os gauleses. Não levava sequer um cozinheiro? Filipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou. Ninguém mais chorou? Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.

Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória. Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande homem. Quem pagava a conta? Tantas histórias. Tantas questões.