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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ – UESC

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – UFBA

EDWALDO SÉRGIO DOS ANJOS JÚNIOR

UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A RELAÇÃO CULTURA - TURISMO EM

PORTO SEGURO – BA: REFLEXÕES SOBRE A BAIANIDADE

ILHÉUS – BA

2008

i

EDWALDO SÉRGIO DOS ANJOS JÚNIOR

UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A RELAÇÃO CULTURA - TURISMO EM

PORTO SEGURO – BA: REFLEXÕES SOBRE A BAIANIDADE

Dissertação apresentada ao Mestrado em Cultura & Turismo, da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC e Universidade Federal da Bahia – UFBA, como requisito para a obtenção do título de Mestre.

Orientadora: profª. Dra. Ana Claudia Cruz da Silva

ILHÉUS – BA

2008

ii

EDWALDO SÉRGIO DOS ANJOS JÚNIOR

UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A RELAÇÃO CULTURA - TURISMO EM

PORTO SEGURO – BA: REFLEXÕES SOBRE A BAIANIDADE

Ilhéus – BA, 25/03/2008.

Ana Claudia Cruz da Silva – Dr. UESC/ DFCH

Wladimir da Silva Blos – Dr. UESC/DFCH

Euler David de Siqueira – Dr. UFJF/ICHL

iii

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho à minha família, especialmente à minha mãe, cujo apoio incondicional foi essencial para a consolidação deste projeto.

minha família, especialmente à minha mãe, cujo apoio incondicional foi essencial para a consolidação deste projeto.

iv

AGRADECIMENTOS

iv AGRADECIMENTOS Ao Mestre, pela oportunidade de crescimento. À Carolinne, pela paciência e compreensão. Ao Abel,

Ao Mestre, pela oportunidade de crescimento.

À Carolinne, pela paciência e compreensão.

Ao Abel, sem o qual tudo isso não seria possível.

À minha orientadora, não só pela sua amizade, mas por apresentar alternativas até então desconhecidas por mim.

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão da bolsa de mestrado.

À Coordenação do Mestrado, pela colaboração e pelo profissionalismo.

A todos os amigos, pelo incentivo.

v

UM OLHAR ANTROPOLÓGICO SOBRE A RELAÇÃO CULTURA - TURISMO EM

PORTO SEGURO – BA: REFLEXÕES SOBRE A BAIANIDADE

RESUMO

A pesquisa que deu origem a este trabalho teve o objetivo de captar quais elementos culturais são privilegiados e apresentados aos turistas pelo trade turístico de Porto Seguro, segundo destino turístico do Estado da Bahia. Para tanto, partiu-se da hipótese de que há certos elementos da cultura privilegiados pelo setor turístico porto-segurense que são, em geral, definidos a partir do conceito de baianidade. Este significa a existência de uma “cultura típica da Bahia” largamente acionada pelo setor de turismo estadual, e que é empregada como uma espécie de síntese não só da cultura no Estado, mas da experiência turística realizada em cidades baianas, inclusive em Porto Seguro. Além da pesquisa bibliográfica, este trabalho também se utilizou do método etnográfico, com observação participante junto a turistas na cidade de Porto Seguro. A investigação demonstrou que o recurso a categorias como “baianidade” ou “identidade baiana” não é útil para explicar as relações estabelecidas a partir do turismo na cidade, seja com relação aos turistas, seja com relação aos moradores. Por mais que os turistas possam ser agrupados em categorias e tipologias, e ainda que apresentem certos padrões de comportamento, eles não constituem uma massa homogênea, pois apresentam formas singulares de interpretar o quê experimentam na atividade turística, inclusive do que significa “ser baiano”.

Palavras-chave: Porto Seguro – BA, baianidade, cultura, turismo, etnografia.

vi

A ANTHROPOLOGICAL LOOK ON THE RELATION CULTURE - TOURISM IN PORTO SEGURO – BA: REFLECTIONS ON THE BAIANIDADE

ABSTRACT

The research that gave origin to this work had the objective to define which cultural elements are privileged and presented to the tourists by the tourism trade in Porto Seguro, second tourist destination in the Bahia State. For such, we implemented the hypothesis that there are certain cultural elements that are privileged, in general, defined from the baianidade concept. This implies the existence of a "typical culture of Bahia" vastly promoted by the Tourism state sector, and that it is used as a type of definition not only of the culture in the State, but the tourist experience in Bahian cities, including Porto Seguro - BA. Beyond the bibliographical research, this work also used of ethnographic method, with the participating observation of tourists in the city of Porto Seguro - BA. The investigation demonstrated that the use of categories such as baianidade or bahian identity are not useful to explain the relation established in the tourism in the city in relation to the tourists, or its inhabitants. Even considering that the tourists can be grouped in categories and tipologies, and still considering that they present certain behavioral standards, these do not constitute a homogeneous group, since they present unique ways to interpret what they see and feel in the tourist activity, including the meaning of “to be a bahian”.

Keywords: Porto Seguro – BA, baianidade, culture, tourism, ethnography.

vii

LISTA DE FIGURAS

1 Estado da Bahia – localização de Porto Seguro

60

2 Matéria jornalística sobre Porto Seguro

69

3 Programação detalhada do Carnaporto 2007

112

viii

LISTA DE TABELAS

1 Fluxo global de turistas em Porto Seguro entre 1993 e 1999

81

ix

SUMÁRIO

 

Resumo

 

v

Abstract

vi

Lista de Figuras

vii

Lista de Tabelas

viii

INTRODUÇÃO

1

1

BAIANIDADE: A CULTURA QUE SE TORNOU ATRATIVO

 

TURÍSTICO

 

16

1.1

A cultura como recurso econômico na prática do turismo

 

19

1.2

Nas trilhas da baianidade

 

24

1.2.1

Salvador: uma metonímia da Bahia?

 

24

1.2.2

As primeiras representações da “típica” cultura baiana: o surgimento dos suportes estéticos da baianidade

27

1.2.3

As políticas públicas de valorização do patrimônio nacional, o mito da democracia racial e a política externa pós-50

35

1.3

A baianidade como construção do trade turístico

 

43

1.3.1

Reafricanização do carnaval de Salvador

 

44

1.3.2

A negritude e a política

 

48

1.3.3

Ascensão do turismo

51

1.3.4

A costura de todo o legado estético/artístico

 

54

2

PORTO

SEGURO:

HISTÓRIA,

POLÍTICAS

PÚBLICAS

E

TURISMO

58

2.1

Aspectos geográficos de Porto Seguro

 

60

2.2

Porto Seguro: esquecimento e estagnação econômica (1534-1960)

 

61

2.3

Porto Seguro: dos hippies ao turismo de massa (1960 aos dias atuais)

67

2.3.1

Década de 80: princípio dos problemas

 

72

2.3.2

Década de 90: consolidação do destino e o Prodetur-NE

 

73

2.3.3

Conseqüências do Prodetur-NE e a eclosão de novos problemas em Porto Seguro

79

x

2.3.5

A

grande dependência do turismo e o descontentamento dos moradores

85

3

NOTAS ETNOGRÁFICAS SOBRE O TURISMO EM PORTO SEGURO

92

3.1

O

turista “de massa” e a idéia de manipulação

93

3.2

Os mediadores da viagem

102

3.3

Viagens ao campo

107

3.3.1

Primeiras impressões

107

3.3.2

O

mês de fevereiro, o carnaval e as descobertas

109

O

Carnaporto

110

Carnaporto 2007 Indoor

113

Os

blocos tradicionais

114

3.3.3

Os

trajetos dos turistas no carnaval de Porto Seguro

117

Passarela do Álcool

117

Cidade Alta

120

A cultura afro-brasileira na Cidade Alta: as apresentações de capoeira

121

A relação dos turistas com o patrimônio histórico-cultural de Porto

 

Seguro

123

 

Sobre os guias de Porto Seguro

125

3.4

Os

pacotes turísticos

128

Embarque, dia 29/07

129

Segunda-feira, dia 30/07

131

As

cabanas e as praias

132

Terça-feira, dia 31/07

135

Quarta-feira, dia 01/08

137

Quinta-feira, dia 02/08

138

Sexta-feira, dia 03/08

140

Sábado, dia 04/08

141

Domingo, dia 05/08: o retorno para casa

142

CONSIDERAÇÕES FINAIS

143

REFERÊNCIAS

153

ANEXO

160

1 INTRODUÇÃO

O caráter turístico dos lugares não está dado de antemão. Há de se ter consciência desse fato para que se descortine aos nossos olhos o processo que leva um dado local a se tornar, às vezes um tanto quanto subitamente, um destino turístico. Um ponto capital desse processo, designado por Castro (2002) como uma “construção cultural” (p. 81), é concernente à seleção de narrativas, imagens e lugares específicos daquela realidade. Assim, há a construção de todo um “sistema integrado de significados por meio dos quais a realidade turística de um lugar é estabelecida, mantida e negociada” (idem). No fundo, o quê se pode depreender desse processo de construção cultural de lugares turísticos diz respeito à existência de diferentes visões sobre a cultura dos grupamentos a que se visita passíveis de se tornarem “turísticas”. Algumas delas, ou mesmo uma única visão sobre essa cultura, acabam por serem privilegiadas para os turistas dentre outras leituras existentes no próprio tecido social. Santos (2005) demonstra como isso acontece ao pensar a respeito da cultura no caso da Bahia: existe uma dada imagem do Estado, dos habitantes e da cultura dos mesmos, potencializadas para o mercado turístico. Trata-se de uma “leitura cultural”, entre outras possíveis (p. 88). A partir da consideração acima, percebe-se que a construção de uma imagem turística de um local, baseada em seleções, necessariamente passa por uma concepção naturalizada da cultura. Ou seja, aqueles traços, valores e paisagens privilegiados pelo turismo tornam-se algo “inerente” ao modo de vida de todas as pessoas de dada localidade turística. Essa idéia, comum na área do Turismo, contraria o caráter de diversidade existente em um mesmo grupo. Para que essa concepção homogênea de cultura seja efetivada, é preciso que se realize a supressão das diferenças internas ao próprio grupamento, ainda que essas não deixem de existir. Articulando as duas concepções – pluralidade das comunidades e existência de leituras privilegiadas da cultura para o turismo – eis que podemos lançar luz sobre uma questão importante: a exposição das “identidades”. Algo feito não só em relação aos lugares turísticos, mas em relação às próprias pessoas que ali habitam,

2

movimento que parece definir naturalmente a “alma” de um lugar e as características dos anfitriões. No caso da Bahia, há a conformação de uma forma de “auto-representação dos baianos” (PINHO, 1998, p. 1), em que “vende-se uma certa cultura baiana’” (PINTO, 2003, p. 3) ou um “viver baiano” (SANTOS, 2005, p. 89), representações acionadas pelo turismo, entendido como um setor estratégico para o governo estadual a partir dos anos de 1970. Essa “cultura baiana” apresentada pelo turismo

é baseada em uma “imagem idealizada de uma Bahia típica” (PINTO, 2003, p. 5)

que, conseqüentemente, desencadeia uma representação calcada em um dado modelo da cultura, o qual resulta de um conjunto de ações efetivadas pelo trade turístico estadual, com destaque para a administração pública baiana, capaz de seccionar algumas manifestações culturais do contexto soteropolitano e, após várias ações, vinculá-las a um paradigma do que seja a Bahia. Embora não tenha sido uma ação destinada unicamente a incrementar o turismo no Estado, foi, contudo, fortemente influenciada por esse fim. Esta representação da cultura na Bahia, bem como de “padrões culturais vindos do povo [baiano]” (SANTOS, 2005, p. 88) e, conseqüentemente, seu modo de vida “típico”, é comumente designada de baianidade. A estruturação da idéia de baianidade, a partir de autores como Pinho (1998), Moura (2001), Pinto (2001, 2002, 2003), Barbalho (2004), Santos (2005) e Bomfin (2006), pode ser apontada, em termos gerais, nos seguintes termos: ações constituintes de um projeto político-ideológico de parte das elites baianas iniciado no final da década de 1960 e início dos anos de 1970 e que, ao visarem obter dividendos políticos e econômicos, buscaram (e ainda buscam) constituir uma síntese de uma “cultura baiana típica” baseada em um seccionamento e posterior rearranjo de manifestações culturais pontuais – carnaval, capoeira e candomblé; “traços culturais” relacionados à população negra – sensualidade, malemolência – e suportes artísticos específicos – literatura e música de massa – reunidos na paisagem soteropolitana. Este projeto político-ideológico sempre esteve intimamente ligado ao turismo, pois um dos desencadeadores desse conjunto de ações foi justamente a busca de um “diferencial turístico” imbuído de uma “herança africana” (SANTOS, 2005, p. 88) da Bahia, mais especialmente de Salvador. Entende-se, portanto, que estamos diante de uma “leitura cultural” específica

e que privilegia alguns componentes presentes no tecido social agenciando-os e, ao

3

potencializá-los como a “cultura baiana típica”, acabam por encopassar toda uma diversidade sociocultural presente na Bahia.

O que se deseja chamar a atenção aqui é o fato pelo qual esses processos de

construção cultural de lugares turísticos são levados a efeito. Que motivações escondem? E quem realiza esse processo de selecionar dadas partes do patrimônio de um lugar em detrimento de outros componentes da cultura? E com que legitimidade aponta-se quais dados “padrões culturais’ (SANTOS, 2005, p. 88) são “baianos” e outros não? E o quê é “ser baiano”? Quais manifestações culturais permanecem à sombra de representações “oficiais”? O presente trabalho tem essas preocupações como pano de fundo, em especial quando voltadas para o contexto do

turismo no Estado da Bahia. Não obstante, há no termo baianidade e em seu vínculo histórico ao turismo soteropolitano uma contradição semântica contida no próprio vocábulo, pois, embora a categoria faça menção a uma noção de Estado, isto é, à Bahia, a categoria foi, contudo, historicamente vinculada a Salvador pelo setor turístico do Estado. Tanto é que, dentre as várias análises existentes sobre a questão da baianidade, a maior parte delas tem como lócus de estudo a realidade soteropolitana, até porque, até os anos de 1950, Salvador ocupou uma posição de ampla hegemonia econômica no Estado, sendo, muitas vezes, tida como uma espécie de síntese do que seja a Bahia (FREITAS, 2000). Ainda que a realidade socioeconômica seja hoje diversa daquela que existiu ao longo da primeira metade do século XX, na medida em que houve o florescimento econômico e aumento da importância geopolítica de outras regiões, há poucas análises sobre a relação entre cultura e turismo, tendo como um dos eixos a baianidade, em outra cidade turística do Estado.

O objetivo deste trabalho foi, então, apreender quais elementos culturais são

privilegiados pelo trade turístico de Porto Seguro e, conseqüentemente, apresentados aos turistas, partindo-se da hipótese de que a “leitura cultural” empreendida salienta certas manifestações culturais e omite outras. Como objetivos específicos da pesquisa que resultou neste trabalho, tínhamos: i) debater as relações entre cultura, turismo e esferas de poder na Bahia a partir da década de 1970, momento em que o turismo passa a ser entendido como um setor estratégico pelo governo estadual; ii) traçar um histórico da noção de baianidade, bem como os suportes e ações que dão sustentação a essa concepção naturalizada da cultura na Bahia; iii) apresentar um histórico do turismo em Porto

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Seguro; iv) apreender quais manifestações culturais são privilegiadas pelo trade turístico de Porto Seguro; v) apresentar quais são as opiniões, expectativas e julgamentos dos turistas sobre a relação turismo-cultura em Porto Seguro. Portanto, a preocupação central deste estudo foi compreender como a cultura é entendida e trabalhada pelo setor turístico de Porto Seguro, o segundo destino turístico do estado. E essa discussão, necessariamente, passa pelo conceito de baianidade, pois é impossível estudar a relação entre cultura e turismo na Bahia sem considerar as referências que vários pesquisadores fazem à baianidade, seja para compreendê-la, seja para relativizar sua validade 1 . A despeito de singularidades presentes nos diferentes estudos, as reflexões são unânimes em reconhecer a força que essa idéia possui, na medida em que “se tornaria o maior ativo da economia do turismo” (PINTO, 2003, p. 3) na Bahia. Algo que corrobora ainda a tese de que uma “cultura baiana” seria utilizada como diferencial de mercado é encontrada no estudo de Pinho (1998, p. 7) ao considerar que:

A consciência de que o “exotismo” se vende com uma mercadoria, na forma de pacotes de turismo ou de bens de cultura, é pacificamente reconhecida por vários dos principais agentes interessados em promover a Idéia de Bahia.

Mais do que isso, o trabalho de Grunewald (2001) em que há a afirmação de

que o conceito de baianidade pode ser aplicado a Porto Seguro, que “[

marketing cultural patrocinado por agentes externos na região é o da baianidade” (p. 48), foi o que nos levou a desejar refletir como e em que medida isso realmente acontece e a buscar vislumbrar pontos de contato entre as diversas representações da baianidade existentes. Seu trabalho nos coloca diante de um novo dado para a reflexão: a utilização do termo em outra região do Estado da Bahia, que, ao longo da história, sempre manteve estreitas relações com outras áreas de fronteira, tais como Minas Gerais e Espírito Santo, e que só recentemente, isto é, após a década de 1970, se inseriria pungentemente na dinâmica econômica estadual. Ainda de acordo com Grunewald (2001), a idéia de baianidade em Porto Seguro seria “hegemônica” dada a sua força e recorrência. Para ele, a experiência turística do município localizado no Extremo-Sul baiano estaria calcada em quatro pilares básicos capazes de sintetizar as práticas turísticas ali existentes, sendo, ao

o único

]

1 Ver, entre outros, Pinho (1998); Moura (2001); Pinto (2001, 2002, 2003); Barbalho (2004); Santos (2005); Bomfin (2006).

5

mesmo tempo, elementos-síntese da baianidade, isto é, teriam uma conotação emblemática ao demarcar como legitimamente baianas algumas poucas manifestações culturais. Esses elementos-síntese da cultura local seriam aqueles privilegiados pelo setor do turismo – inclusive a administração pública – local: “a morenidade; a história e suas diversas atrações, a mulher e o Sol” (p. 48). Assim,

estaria caracterizado aquilo que, segundo o autor, seria a “baianidade hegemônica”.

O paradigma proposto pelo autor não será adotado neste trabalho, justamente

porque nosso objetivo foi descobrir quais elementos culturais seriam privilegiados pelo trade turístico local. A obra de Grunewald (2001) nos serve como base para comparações e, sobretudo, como ponto de partida para a reflexão empreendida.

A investigação que deu origem a este trabalho desejava vislumbrar também

até que ponto questões relativas à baianidade poderiam ser discutidas em outro contexto turístico relevante do Estado. A escolha de Porto Seguro, o segundo destino turístico da Bahia e uma das cidades mais identificadas com o turismo no litoral brasileiro, não foi à toa. O município, segundo expectativa da Bahiatursa – Empresa de Turismo da Bahia S/A. – e da Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia

– SCT –, atingiu a marca de quase um milhão e meio de visitantes no ano de 2007. Isto significa que há aí investimentos do próprio governo estadual, além de empresas de turismo de porte nacional que poderiam, segundo a nossa hipótese, homogeneizar suas ações em Porto Seguro, tomando Salvador como modelo em função da concepção de baianidade. A novidade do trabalho que ora apresentamos é a perspectiva por ele adotada, diferente dos demais trabalhos existentes sobre turismo em Porto Seguro ou sobre a baianidade em Salvador. Trata-se do ponto de vista dos turistas. Ora, se entendermos que a construção dessas leituras culturais foi realizada também para a

atividade turística, faz todo sentido considerar uma análise sobre a forma pela qual o turismo se faz valer da cultura de dado lugar. Além disso, ao se ter em conta que tudo é organizado para os turistas, é importante levar em consideração a forma pela qual esses indivíduos se articulam em face desse movimento de privilegiar dadas manifestações culturais. Associada a isso, a construção de um relato etnográfico de um pacote turístico em Porto Seguro, momento de contato com os visitantes, evidencia a conotação inédita desta pesquisa.

A perspectiva antropológica será adota neste estudo como viés analítico de

toda a investigação. Entende-se que a Antropologia é a melhor escolha para tratar

6

do tema face ao seu enfoque relativizador; sua preocupação em compreender o homem em sua totalidade, além do trabalho de campo que põe o pesquisador em contato direto com aqueles sobre quem estuda. Estes pressupostos irão nortear a presente análise. Sendo assim, é importante compreender de que forma tanto a cultura quanto o turismo são vistos pelo pensamento antropológico. Utilizar o conceito de cultura sob a ótica da Antropologia é particularmente relevante devido a três fatores: em primeiro lugar porque o turismo é uma prática social calcada no contato intercultural, o que demanda que se conheça o que é cultura; em segundo lugar porque, em muitos momentos, os estudiosos do próprio

turismo utilizam essa categoria de maneira parcial, limitada, por último, o próprio fato dos estudos turísticos ainda não se constituírem em uma disciplina (PANOSSO NETTO, 2005, p. 41), o que acarreta ao campo ainda não possuir seus próprios conceitos. Isto, por si só, reforça o movimento realizado pelos pesquisadores do turismo em buscar aportes teóricos de outras áreas do conhecimento. De nossa parte, optamos pelo uso do arcabouço teórico – categorias, conceitos e metodologias – oriundos da Antropologia. No que tange à cultura, é inegável que este conceito é polissêmico. Aliás, esta não é uma constatação nova, visto não ser de hoje que muitos teóricos vêm debruçando-se sobre esse vocábulo com o intuito de forjar uma definição capaz de contemplar tudo o quê essa categoria abarcaria. Geertz (1989, p. 56), ao propor uma idéia de cultura essencialmente

como [constituída por] complexos padrões

semiótica, crítica o conceito “[

concretos de comportamento – costumes, usos, tradições, feixes de hábitos”, embora o próprio autor reconheça que tal visão ainda se faça presente nas Ciências

Sociais. Um entendimento de cultura mais coerente daria-se ao levar em

um conjunto de mecanismos de controle –

consideração que esta seria antes “[

planos, receitas, regras, instruções – para governar o comportamento”. O conteúdo dessa citação está intimamente associado à outra idéia defendida por Geertz: a de que o homem é um animal que precisa de tais mecanismos de estruturação e controle que estariam fora dele, isto é, seriam extragenéticos. Portanto, a cultura seria aquele interstício entre um homem dotado somente de capacidades inatas e o conjunto de suas realizações reais (p. 57-58). A concepção de cultura proposta por

Geertz, de natureza essencialmente hermenêutica, concebe que o homem é

]

]

7

resultado de teias de significado que ele próprio teceu e em função das quais ele vive. Uma passagem de outro estudioso vai ao encontro dessa proposição:

Assim, não caracteriza o comportamento humano uma articulação automática entre necessidade e resposta, já que estará sempre presente uma mediação simbólica. É esta mediação que pode ser considerada como a instância da cultura. Não é, portanto, um espaço, eventualmente superior, situado além das necessidades básicas do ser humano, mas uma forma de proceder no interior profundo de todas as necessidades (MENESES, 1996, p. 91).

É a cultura que organiza a experiência do homem e ordena, mediante

símbolos, o próprio comportamento dos sujeitos. Além disso, outra perspectiva

teórica cara a esse estudo diz respeito à tese que refuta o entendimento da cultura como um mero demarcador da diferença, algo questionado por Sahlins (1997).

A discussão travada na presente pesquisa sobre a relação entre cultura e

turismo terá, assim, quatro eixos fundamentais, a saber: Porto Seguro, baianidade, cultura e turismo. Após a apresentação dos três primeiros eixos – Porto Seguro, baianidade e cultura –, resta-nos situar o leitor quanto ao conceito de turismo que utilizamos neste trabalho. A despeito da consideração de ser uma prática econômica das mais relevantes para a economia mundial (GOELDNER; RITCHIE; MCINTOSH, 2002, p. 63), o presente estudo evidencia outras facetas da atividade turística: a sua complexidade e a sua característica de rompimento com o cotidiano, na medida em que aquilo que é buscado pelos turistas é algo de cunho singular, extraordinário. Quanto à complexidade do turismo, ressalta-se o vínculo com a abordagem fenomenológica de Moesch (2002), para quem o turismo não pode ser reduzido somente à sua dimensão econômica, ambiental ou mesmo histórica. Pelo contrário, a autora compreende a prática turística de forma plena, o quê acarreta conceber toda a diversidade de elementos que lhe constituem. Assim, o Turismo pode ser resumido como

Uma combinação complexa de inter-relacionamento entre produção e serviços, em cuja composição integram-se uma prática social com base cultural, com herança histórica, a um meio ambiente diverso, cartografia natural, relações sociais de hospitalidade, troca de informações interculturais. O somatório desta dinâmica sociocultural gera um fenômeno, recheado de objetividade/subjetividade, consumido por milhares de pessoas

como síntese [

]

(p. 9). (grifo meu).

8

O mesmo movimento de compreensão holística do fenômeno é realizado por

Santana (1997):

O Turismo se insere dentro das necessidades de expansão econômica, social, cultural, política e psicológica das sociedades ocidentais de concentração e de formação dos excedentes necessários, potencializando o desenvolvimento das comunicações e dos deslocamentos humanos coletivos, não forçados, como válvula de escape ao seu próprio stress (p.

19).

Um ponto particularmente caro ao debate proposto nesta dissertação é enfocado por ambos os autores citados: o viés “cultural” das definições. Esse recorte se faz necessário, visto que a análise sobre todas as dimensões – psicológica, política, ambiental, econômica etc. – do fenômeno turístico em Porto Seguro é algo que transcende os objetivos deste trabalho.

O esforço epistemológico por reconhecer que o Turismo, ao se aportar nos

sujeitos e suas respectivas culturas, não meramente uma “indústria sem chaminés”, mas antes uma prática social (MOESCH, 2002, p. 31) calcada em sujeitos diferentes – o autóctone e o turista –, é o quê norteará este trabalho. Sempre que necessário e possível, ressaltaremos a dimensão econômica do Turismo em Porto Seguro, cientes, no entanto, que esse não é o nosso principal foco. O objetivo é menos economicista e mais humanista, ao levar-se em conta que o “epicentro do fenômeno

turístico é de caráter humano” (p. 13). Ainda ligado ao conceito de turismo, é importante situar o leitor em relação à definição de trade turístico, expressão que perpassará toda a análise e que é entendida, em muitas ocasiões, apenas como o conjunto de agentes privados que atuam na área de serviços turísticos, ou seja, uma espécie de sinônimo para o setor empresarial do turismo. Contudo, no presente estudo, ressalta-se que compreendemos como trade turístico as “organizações privadas e governamentais atuantes no setor”, de acordo com a definição do glossário da Embratur contido no site Ministério do Turismo 2 . Assim, expande-se o entendimento geral acerca desse conceito, ao trazer à baila a administração pública vinculada ao turismo. De maneira mais objetiva, o estudo considera que, dentre o trade turístico de Porto Seguro, alguns atores são fundamentais, a saber: A Bahiatursa, autarquia estadual de turismo; a SCT – Secretaria de Cultura e Turismo; a Prefeitura de Porto Seguro; a Secretaria Municipal de Turismo; empresas aéreas como TAM e Gol;

2 Disponível em: <http://www.turismo.gov.br> . Acesso em: 10 dez. de 2006.

9

operadoras e agências turísticas, com destaque para a CVC; sites e revistas de turismo relacionados a Porto Seguro. Enfim, embora seja possível identificar muito mais atores vinculados ao trade turístico em questão, dada a sua amplitude, não foi feito inicialmente um recorte para concentrar as atenções nas ações desse conjunto, e que, de maneira lógica, pode-se considerar que não sejam uniformes. Todavia, ao longo dos três capítulos, o leitor poderá identificar, de forma natural, as empresas e órgãos públicos mais caros ao debate, bem como as representações da cidade, dos porto-segurenses e da cultura local mais acionadas por eles. Ao pensarmos aqui em trade turístico da Bahia, ou de Salvador, ou até mesmo de Porto Seguro, evidencia-se que não nos atemos, neste caso, à divisão geopolítica do Estado ou das cidades. Consideramos que, diante dos crescentes avanços tecnológicos atualmente em voga, dentre os quais os setores de transportes e de comunicação, o trade turístico vinculado à Bahia é composto também por firmas de escala nacional e até mesmo internacional, e que sequer estão sediadas em Salvador. A operadora CVC, as companhias aéreas TAM e Gol – cujas sedes estão em São Paulo – e até mesmo cadeias de hotéis internacionais presentes não só em Salvador, mas em todo o Estado, são exemplos disso. Desde já, entende-se aqui ser o trade turístico, ou melhor, parte dele o responsável pelo agenciamento, rearranjo e potencialização de uma dada imagem turística, que, segundo Solha (1999), seria “o resultado dos julgamentos e valores que os indivíduos atribuem aos seus elementos” (p. 11). Essa responsabilidade pode ser atribuída pela própria amplitude do trade, que contempla desde órgãos públicos até o setor de publicidade turística. O desafio posto está em especificar quais atores são esses que, no caso de Porto Seguro, privilegiam uma dada imagem da cidade e, concomitantemente, da cultura dos anfitriões. Resta-nos, agora, apresentar qual foi a proposta metodológica adotada na execução desta pesquisa. Como todo estudo acadêmico, foi realizada uma revisão bibliográfica capaz de contemplar os eixos temáticos mais relevantes para a pesquisa: turismo, em que pese um olhar sobre o turismo de massa, Porto Seguro e baianidade. Nota-se, nesses trabalhos, uma ausência do olhar do turista sobre sua prática. Esta dissertação visa a complementar essa lacuna ao discutir os três eixos temáticos acima mencionados partindo de um trabalho de campo inspirado menos na idéia de pesquisar a cidade, enquanto unidade de análise, e mais voltado às diferentes

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práticas realizadas na cidade (MAGNANI, 2002, p. 25). Neste caso, a prática que nos interessa em Porto Seguro é o turismo. Além de lançar mão da pesquisa bibliográfica e da técnica da observação participante (MAGNANI, 2002) ou pesquisa participante (DENCKER, 1998, p. 128; BOWEN, 2002, p.10) com turistas, esta pesquisa se fez valer do manejo de dados secundários contidos em documentos, além do uso de jornais e publicações da cidade. Assim, as pesquisas existentes da Secretaria de Turismo de Porto Seguro e da Bahiatursa não foram descartadas. O uso de dados quantitativos dos mesmos teve um papel bem circunscrito neste estudo: antes de atestarem um dado estado de coisas, eles foram utilizados para ilustrar as percepções/constatações ou para negar hipóteses. Embora em um primeiro momento as estatísticas e os dados históricos possam parecer elementos periféricos frente aos objetivos desta pesquisa, em especial ao buscarmos identificar, a partir da perspectiva dos turistas, que elementos culturais são privilegiados pelo trade turístico da região, ressalta-se que sua utilização é necessária menos em termos de apresentarmos um cenário onde as ações se passam e mais no sentido de reconhecer que tudo isso ajuda a entender relações existentes entre moradores e área pesquisada, versões da história já contadas, de hierarquias sociais existentes. Conhecer esses elementos propicia um melhor entendimento das relações sociais estabelecidas entre os diferentes grupos (SILVA, 2004, p. 66), na medida em que se trazem para o centro das atenções perspectivas outras além daquelas ditas “oficiais” dos fatos apresentados. Há aí um alargamento do olhar sobre Porto Seguro ao contemplar também a forma como os “outros” buscam compreender o quê lá se passa. Com isso, mesmo que o foco da presente análise esteja centrado no olhar do turista, não se descarta aqui a inserção de visões de mundo dos moradores, empresários e políticos de Porto Seguro. É preciso salientar que esta pesquisa não se trata de um estudo da cidade, mas um estudo na cidade, parafraseando a máxima no qual “os antropólogos não estudam as aldeias (tribos, cidades, vizinhanças), eles estudam nas aldeias” (GEERTZ, 1989, p. 32). Ou seja, o lócus do estudo, portanto, não é necessariamente o objeto do estudo. Os objetivos a serem alcançados no presente estudo só poderão dar-se a partir do trabalho de campo ao reconhecer efetivamente quem são aqueles que (re) produzem os discursos, leituras e interpretações culturais, dentre os quais, está

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presente o da baianidade. Seriam apenas as empresas e órgãos estatais componentes do trade turístico? Instâncias antes do que pessoas? E como o constroem? Os discursos e imagens, lugares e manifestações culturais são apreendidos pelos turistas?

O trabalho de campo em Porto Seguro foi subdivido inicialmente ao longo de

três meses do ano de 2007: fevereiro, contemplando assim o carnaval; julho e, conseqüentemente, a alta estação; e outubro, mês de baixa temporada em que se desejava observar a dinâmica turística da cidade. Ressalta-se que havia o desejo de realização de um pacote turístico ao longo do ano para estar mais próximo dos turistas, algo que foi confirmado após 22 dias em campo durante o mês de fevereiro.

Constatado isso, foi incorporado ao trabalho, como um dos objetivos específicos, a realização de um relato etnográfico dessa viagem. Apesar de não se considerar esse ritmo descontínuo o ideal, o planejamento foi mantido dessa forma devido ao curto

tempo para a realização da pesquisa, a falta de apoio financeiro para o trabalho de campo e à própria dinâmica turística da cidade.

O trabalho de campo concentrou-se em alguns espaços considerados mais

turísticos da cidade: a Passarela do Álcool 3 e a Cidade Alta e, em menor escala, três

do Álcool 3 e a Cidade Alta e, em menor escala, três cabanas de praia –

cabanas de praia – Barramares, Axé Moi e Tôa-Tôa. O foco sobre estses pontos

deu-se, sobretudo, ao longo do mês de fevereiro, pois o restante do trabalho de campo seguiu outra lógica, o quê não significa a exclusão desses lugares. Assim, apesar de estruturar o trabalho de campo previamente, ao chegar a campo, diante das dificuldades, houve a necessidade de ajustes metodológicos para a obtenção de dados. O primeiro desafio enfrentado, em termos pragmáticos, na pesquisa de campo, é referente ao fato de a “população” aqui em questão, no caso os turistas, serem indivíduos marcados por enorme fluidez e mobilidade, a exemplo do trabalho de Almeida & Tracy (2003) ao analisar a dinâmica relação dos jovens cariocas da night no Rio de Janeiro. As autoras, ao se depararem com um problema metodológico semelhante, relativo à grande mobilidade desses jovens, entendidos como um “objeto fluido que

3 A Passarela do Álcool se parece com um corredor comercial, localizado no centro de Porto Seguro. É uma faixa territorial que tem aproximadamente 2 km e concentra uma gama de barracas, lojas e opções de entretenimento. É o ponto mais procurado pelos turistas à noite, seja para adquirirem lembranças, seja para se divertirem. Ver Anexo A.

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se expande como uma nebulosa”, tiveram de tornar-se um “pouco nômades também” (p. 18). Assim, a fim de acompanhar os turistas, optamos por nos tornar cada vez mais um pouco “turistas” sem, contudo, adotar a postura de estar “de passagem” (MAGNANI, 2002, p. 18), isto é, percorrer a cidade observando seus diferentes espaços, equipamentos e personagens. No intuito de compreender os padrões comportamentais dos turistas, mas sobretudo estar com eles para apreender a que discursos e imagens os mesmos são expostos, e como as articulam, foi preciso fazer um acompanhamento mais intenso dos sujeitos do que dos espaços. No começo da pesquisa, imaginava-se que o contato com os excursionistas, assim como as observações, deveriam ser realizados

em espaços considerados “mais turísticos” da cidade, como a Cidade Histórica e a Passarela do Álcool. Porém, logo foi possível perceber que esta forma de abordagem não teria um resultado satisfatório, uma vez que limitava a observação a momentos fugazes, pois os turistas, quando não estavam em grupos, tinham como interesse capital a visita aos atrativos turísticos aí contidos. No primeiro momento da pesquisa de campo, isto é, ao longo de 22 dias no mês de fevereiro – entre dia 6 e dia 28 –, quando o contato com os mesmos era mínimo, havia uma grande dificuldade em compartilhar experiências, ouvir aquilo que os visitantes tinham a dizer e até apreender quais manifestações culturais eram apresentadas a esses turistas. Em face disso é que optamos, em dado momento da pesquisa, por privilegiar um contato um pouco mais próximo com grupos específicos de visitantes. Isto se fez com o acompanhamento de grupos de turistas ao longo do tempo restante em que estivemos em campo. Optou-se, então, pela realização de mais dois pacotes turísticos.

O primeiro pacote turístico, realizado entre os dias 29 de julho e 05 de agosto

de 2007, deu-se via aérea por meio de uma operadora de turismo paulista e que

domina o mercado em Porto Seguro. A escolha desta empresa deveu-se ao fato da representatividade que a mesma possui no mercado turístico de Porto Seguro, sendo a responsável, segundo nossas estimativas, por receber aproximadamente

15% de todo o fluxo turístico que se desloca para este destino, o quê corresponde a aproximadamente 170 mil turistas/ano.

A segunda viagem deu-se por transporte rodoviário. A escolha da empresa

deveu-se a critérios de representatividade no mercado de pacotes turísticos

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rodoviários de Belo Horizonte. A firma escolhida para a realização do segundo pacote é reconhecida entre os praticantes desse tipo de viagem como prestadora de bons serviços a preços competitivos, tendo ainda a característica de contemplar um público de poder aquisitivo menor em relação ao perfil daqueles que, normalmente, empreendem uma viagem aérea. Esta segunda viagem deu-se entre os dias 14 e 21 de outubro de 2007 com um grupo de 55 turistas. A realização de um segundo pacote turístico objetivou a coleta adicional de material para, posteriormente, contrapor os mesmos àqueles obtidos no primeiro pacote turístico. Além disso, o retorno a Porto Seguro propiciaria descartar fatos ocorridos excepcionalmente dentro do primeiro pacote, podendo, assim, centrar foco naquelas evidências recorrentes na prática desse tipo de turismo em Porto Seguro. Ao realizar uma breve etnografia de um pacote de viagem padrão de uma semana em Porto Seguro, esperava-se conseguir apreender o olhar do outro, meta da Antropologia, algo possível, no nosso caso, mediante um tempo de interação razoavelmente consistente com os turistas. Para isto, seria necessário ser afetado pelas mesmas forças que afetam os turistas, segundo defende Goldman (2003). “Não se trata, portanto, da apreensão emocional ou cognitiva dos afetos dos outros, mas de ser afetado por algo que os afeta e assim poder estabelecer com eles certa modalidade de relação” (p. 17). Se há imagens e discursos, manifestações culturais e espaços privilegiados em Porto Seguro, inevitavelmente, o pesquisador precisa vivenciar aquelas situações vividas pelos turistas, sendo também afetado por estes movimentos, para, aí sim, tecer suas conclusões. Em resumo, o quê se enfatizou foi a maneira pela qual os visitantes se apropriam do espaço e como apreendem as manifestações culturais lá contidas, ou seja, desejamos, antes de mais nada, perceber o ponto de vista dos turistas. O primeiro passo nessa direção foi o de colocar em suspensão os papéis atribuídos pelo trade turístico aos espaços e às manifestações culturais existentes na cidade. Se o foco estava antes nos visitantes que nos espaços, fazia sentido nos esforçarmos por participar das atividades empreendidas pelos turistas, enfim, ir para onde gostariam de ir. Isto foi particularmente interessante, pois, ao invés de privilegiarmos o contato em espaços dados de antemão, pudemos constatar que cada uma daquelas áreas turísticas de Porto Seguro era entendida de forma bastante peculiar pelos visitantes. E mais: por detrás de imensos fluxos de turistas, que, em geral, são considerados como grandes massas amorfas, encontramos, na

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verdade, uma lógica bastante interessante de ser observada. Diante da gama de atrativos turísticos de Porto Seguro, os turistas movimentam-se embasados em desejos e motivações muito singulares, constituindo trajetos dotados de lógica e coerência. Um revés particularmente interessante para os rumos dessa pesquisa se deveu a impossibilidade de realizar entrevistas com os responsáveis pela Secretaria de Turismo de Porto Seguro, assim como a gerência regional da maior operadora de turismo. Apesar do desejo em se fazer valer das entrevistas de forma mais constante, os três únicos momentos em que isso foi possível, durante todo o trabalho de campo, podem ser resumidos assim: entrevista feita com uma guia, outra com um músico de um bloco de carnaval e uma terceira entrevista realizada com o responsável por um bloco carnavalesco. No mais, boa parte do material recolhido em campo foi resultado de informações contidas em jornais, em dados extraídos da observação direta e de material institucional de empresas. Quanto a minha identificação em campo, os turistas constantemente me indagavam se eu era pesquisador, algo que sempre afirmava positivamente. Jamais

necessitei omitir meus objetivos ali e, apesar de responder que estava na cidade para realizar uma pesquisa sobre a relação entre turismo e cultura em Porto Seguro, em nenhuma ocasião tive de dar maiores explicações, pois os viajantes pareciam contentar-se com essa elucidação. Quanto aos turistas, os nomes citados neste estudo são fictícios.

A

dissertação encontra-se estruturada da seguinte forma:

O

primeiro capítulo tem como fim traçar um histórico acerca do surgimento da

idéia de baianidade, bem como delinear os vários suportes – estéticos, políticos, comunicacionais – em que essa representação dos baianos e da “cultura baiana” se fundamenta. A discussão travada se subdividirá em três momentos: uma seção contemplará um breve debate acerca do uso, na contemporaneidade, da cultura como um recurso econômico; o segundo tópico do capítulo tem o intuito de traçar não somente a gênese da idéia de baianidade, mas apontar ao leitor as matrizes estéticas, políticas e econômicas que propiciaram a costura desse legado pelo trade turístico da Bahia, assunto retomado na última seção do capítulo. Além disso, durante esta parte, evocar-se-á em vários momentos interpretações e enfoques de vários teóricos que se debruçaram para compreender a baianidade.

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O segundo capítulo do presente trabalho é voltado não só a apresentar a

história de Porto Seguro, mas também refletir sobre a maneira pela qual se dá a prática turística nesse destino. Um dos objetivos deste capítulo é compreender o surgimento, as peculiaridades, problemas e potencialidades de Porto Seguro no que

tange o turismo. E este capítulo também visa, além de apresentar os aspectos

históricos da cidade, expor elementos geográficos relativos ao segundo destino turístico da Bahia.

A história do município de Porto Seguro será dividida em dois momentos. O

intuito dessa subdivisão é facilitar a compreensão dos períodos que, sob a nossa ótica, podem ser delimitados em momentos “estanques” por guardarem

características internas específicas. O primeiro momento da história de Porto Seguro, cujo início deu-se na fundação da Capitania em 1534 e se estendeu até 1960, tem como característica um constante marasmo econômico que vigorou naquela região; já o segundo período de nossa divisão temporal iniciou-se ao final dos anos de 1960, década em que se dão as primeiras iniciativas referentes ao turismo em Porto Seguro, prática esta que chegaria aos dias de hoje como a mais relevante para a economia da cidade.

O terceiro capítulo visa apresentar uma descrição etnográfica de um pacote

de viagem a Porto Seguro, em que pese a atenção dada aos discursos e representações, imagens e manifestações culturais que seriam privilegiadas, por parte do trade turístico municipal, não só para divulgar a cidade, mas que, de alguma forma, seriam emblemáticas para a construção de uma “autêntica cultura” vigente no segundo destino turístico do Estado da Bahia. Far-se-á ainda no capítulo uma breve análise sobre como o turista é entendido nos estudos do Turismo. Isso é necessário, pois, como veremos adiante, o turista, em muitos casos, costuma ser estigmatizado sob tipologias que, se têm o mérito de reconhecer diferentes motivações e atitudes dos visitantes, acabam por circunscrevê-los em modelos fechados. Além disso, o capítulo intitulado “Notas etnográficas sobre o turismo em Porto Seguro” busca chamar a atenção para as causas que contribuíram para que o turismo de massa, formato de turismo comumente identificado com Porto Seguro, seja alvo de críticas e ressalvas por parte de alguns turistas, de parcela da academia e de profissionais do turismo.

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1 BAIANIDADE: A CULTURA QUE SE TORNOU ATRATIVO TURÍSTICO

O objetivo deste capítulo é traçar um histórico acerca do surgimento da idéia de baianidade 4 , seus vários suportes – estéticos, políticos, comunicacionais – que, ao longo do século XX, permitiram a construção de uma imagem da Bahia fortemente impregnada pela cultura negra e “que hoje parece definir naturalmente a identidade do estado” (SANTOS, 2005, p. 22). Como conseqüência desse “processo político de construção de imagens” (idem), surge uma concepção naturalizada do que é ser baiano. A compreensão do que é percebido como ser baiano parte, assim, de um enfoque que privilegia a mistura, isto é, a mescla entre a cultura “branca”, “indígena” e “negra” – em que pese o privilégio desta última – e o sincretismo religioso. Para o trade turístico da Bahia 5 , em especial o de Salvador, os baianos seriam indivíduos dotados de uma religiosidade misteriosa, fruto de um passado negro mítico, além de viverem, por natureza, em permanente estado de felicidade, tida como inerente aos habitantes do Estado da Bahia. Ressalto aqui que a perspectiva que nos interessa neste trabalho, ao tratarmos da baianidade, é menos referente a suas implicações políticas e mais ao seu vínculo com o turismo, até porque a construção de uma dada imagem naturalizante da cultura baiana deu-se, em grande medida, justamente objetivando atrair dividendos oriundos da atividade turística, algo que o trade turístico baiano e, em especial, o soteropolitano, soube aproveitar ao reforçar essa imagem específica da Bahia.

4 Ao conceber aqui uma “idéia de baianidade”, pensa-se, na verdade, em uma dada representação endossada e fomentada por parte do trade turístico baiano, que, embora não seja a única noção de uma “identidade cultural baiana”, nos parece, contudo, ser a mais recorrente. Essa concepção tem a ver, ainda, com a “Idéia de Bahia”, expressão concebida por Pinho (2005, p. 3), e que designaria uma “concepção disseminada por diversos agentes sociais e onipresentes nas afirmações do senso

comum em Salvador, que se apresenta como uma rede de sentido [

determinada forma a auto-representação dos baianos”.

Ao pensarmos aqui em trade turístico da Bahia, ou de Salvador, ou até mesmo de Porto Seguro evidencia-se que não nos atemos, neste caso, à divisão geopolítica do Estado, ou das cidades.

Consideramos que, diante dos crescentes avanços tecnológicos em voga atualmente, dentre os quais o setor de transportes e de comunicação, o trade turístico vinculado à Bahia é composto também por firmas de escala nacional e até mesmo internacional, e que sequer estão sediadas em Salvador, ou outra cidade que seja dentro do Estado. Exemplos dessa observação podem ser vistos desde a operadora CVC – cuja sede está em São Paulo –, até mesmo cadeias de hotéis internacionais que controlam boa parte do parque hoteleiro soteropolitano. Ou seja, faz sentido não só conceber a

existência de escalas transversais de poder resultantes de “[

organizacionais e inter-institucionais” (FISCHER, 2002, p. 11), mas também de uma “pluralidade do

poder espacialmente localizado” (idem).

relações entre atores inter-

capaz de constituir de

]

5

]

17

E, embora nosso foco seja na relação entre cultura e Turismo, não há como

negar a dimensão política no manejo de elementos culturais para a conformação de

uma “cultura tipicamente baiana”. Constatação feita também por outros autores, que

já haviam chamado a atenção para a existência desse viés político na composição

da baianidade. Dentre os autores que tratam do tema, Moura (2001) é o que menos contesta

o discurso da baianidade, o quê não significa que não adote um viés crítico,

sobretudo ao levar em conta as associações entre a esfera política, o setor econômico e a arena cultural para a conformação do carnaval soteropolitano, núcleo de sua análise. É a partir da festividade soteropolitana que o autor evoca algumas estratégias, bem como os “traços constituintes” presentes no entendimento de parte do trade turístico soteropolitano e da mídia local do que é a “identidade cultural baiana”, mas reconhecendo que a própria dinâmica carnavalesca de Salvador representa a “identidade” do “ser baiano” (MOURA, 2001, p. 10). Pinho (1998) vê nessa lógica de conformação da imagem de um baiano típico, que vivenciaria os princípios da baianidade, a construção de um “outro”, tal

qual na época colonial. De acordo com o autor, esta ação é decorrente de um projeto associado à edificação da idéia de brasilidade, além de visar à representação e à invenção de um povo, ou seja, do baiano.

A abordagem de Pinto (2003) privilegia um enfoque que afirma que a

representação de uma Bahia ancestralizante e lúdica, em que pese a matriz negra, é um poderoso capital simbólico acionado, sobretudo, pelo Estado, em um contexto nacional mais abrangente como forma de diferenciar a própria Bahia dentre uma gama de representações regionais – mineiro, paulista, gaúcho etc. Para o autor, esta representação da cultura baiana pode ser tida como constrativa, pois que é a partir da contraposição para com outras representações regionais que a imagem da Bahia “negra” ganharia força. Assim, a “cultura baiana”, tal como entendida por algumas forças políticas, seria um constituinte privilegiado da “gramática representacional da brasilidade” (PINTO, 2006, p. 1), cabendo à Bahia o posto de lócus especializado no lúdico.

Em resumo, a “identidade cultural baiana” estaria calcada na idéia de uma Bahia cujos habitantes seriam partícipes de uma cultura fortemente impregnada pelo misticismo e pela malemolência (predisposição à festa e à felicidade) por fortes raízes nas tradições africanas encarnadas no culto ao candomblé, pela culinária e

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pela prática da capoeira. Assim, estariam dados os expoentes da baianidade que representariam, para parte do trade turístico, setores políticos e midiáticos, uma “singularidade cultural” capaz de diferenciar o baiano – no singular – do “mineiro”, do “paulista”, ou do “carioca”, noções identitárias também concebidas a partir dessa mesma perspectiva. Se entendermos que um destino como a Bahia, por exemplo, é alçado ao status de lugar turístico a partir de um processo de “construção cultural” (CASTRO, 2002, p. 81), é de se esperar que esse processo envolva o agenciamento e o privilégio de algumas imagens pontuais da cultura, ou mesmo do patrimônio 6 de dado lugar. Todavia, no caso baiano, em especial na divulgação de imagens turísticas do Estado, onde nada parece ser mais emblemático do que os discursos e imagens em torno da “idéia de baianidade”, a questão que se apresenta é relativa aos objetivos visados por esse processo de “construção identitária”. Entendida como um “bem turístico” 7 (BENI, 2004, p. 37), a idéia de baianidade representa um uso econômico do patrimônio, mas, não apenas isto, uma vez que também se pode vislumbrar um uso político e com fins de identificação coletiva, como assinala Peralta (2003, p. 85). Parece-nos que nenhuma idéia parte do nada e que a eleição de determinados traços culturais concebidos como “baianos” para exposição na arena do turismo, mormente após a década de 1970, filtrou dadas práticas do universo cultural soteropolitano, em especial da cultura afro-brasileira. Este filtro acabou por privilegiar manifestações culturais como o candomblé, a capoeira, o carnaval e, posteriormente, o axé music, entendidos, a partir de então, por parte do setor de turismo da Bahia, como elementos-síntese da cultura baiana. O presente capítulo será dividido em três momentos. A seção seguinte contempla um breve debate acerca do uso da cultura como um recurso econômico, pois, tal como entendemos, a “identidade cultural baiana” constitui-se como um atrativo turístico a partir da seleção e mercantilização de dadas manifestações culturais emblemáticas concebidas como a “típica cultura baiana”. O segundo tópico

6 O conceito de patrimônio que ora utilizamos aporta-se na concepção de Llorenc Prats (1997), e que é retomada por Peralta (2003, p. 2). Para esta última autora, o patrimônio seria uma construção social baseada no resgate de dados elementos culturais e que, após serem submetidos a um processo de “engenharia social”, adquirem assim valor e significados capazes de propiciar uma identificação coletiva de um dado povo.

7 Segundo Beni (2004), um bem turístico pode ser entendido como “todos os elementos subjetivos e objetivos ao nosso dispor, dotados de apropriabilidade, passíveis de receber um valor econômico.” (p. 37) (grifo nosso).

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do capítulo tem o intuito de traçar não somente a gênese da idéia de baianidade, mas as matrizes estéticas, políticas e econômicas que, ao serem costuradas pelo trade turístico da Bahia, geraram a idéia de baianidade, algo que será retomado na última seção deste capítulo.

1.1 A cultura como recurso econômico na prática do turismo

O presente tópico visa a intensificar o diálogo entre a Antropologia e o Turismo, com vistas a alargar a compreensão do fenômeno turístico, negando assim

o reducionismo epistemológico que acomete os estudos sobre a atividade, na

medida em que há em voga uma tendência essencialmente economicista de análise

do Turismo. Se concordarmos com Harkin (1995, p. 650), ao considerarmos que o “turismo, além de ser um grande negócio, é uma estratégia para estruturar e interpretar a diferença cultural” 8 , poderemos compreender que o Turismo, ao se apoiar na diferença cultural, acabaria por imantá-la de certo valor econômico, na medida em que o é também uma atividade econômica. E a ênfase na dimensão dessa atividade se dá, em parte, pelo advento, na contemporaneidade, de uma tendência em privilegiar que as culturas possam ser vistas também como uma fonte

de divisas, isto é, entender a “cultura como recurso” (YUDICE, 2004, p. 25). A despeito de algumas ressalvas existentes na obra de Barreto (2006), uma

abordagem da relação entre turismo e cultura parece resumir bem o atual contexto

da área, no qual:

A busca dos elementos característicos e diferenciais de cada cultura aparece como uma necessidade de mercado, a cultura autóctone é a matéria-prima para a criação de um produto turístico comercializável e competitivo internacionalmente (BARRETO, 2006, p. 48).

Barreto dá, assim, a exata dimensão de como a diferença cultural tornou-se a matriz para uma pungente atividade econômica. A busca por diferenciais de mercado, para usar uma terminologia cara ao métier turístico, acaba por colocar em muitos momentos o ser humano em segundo plano. Estratégias, planos de marketing e aparatos comunicacionais, ao exaltarem a cultura, fazendo dela matéria- prima para o turismo, favorecem uma espécie de naturalização da cultura

8 No original, consta: “tourism, in addition to being big business, is a strategy for framing and interpreting cultural difference” (tradução nossa). Em outra passagem, o autor traça um paralelo entre a Antropologia e o Turismo, ao considerar que “tourism is one of several modes (anthropology is another) of discourse on the exotic.” (p. 656).

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particularmente cara aos indivíduos componentes da sociedade que se visita, sobretudo por contribuir para a redução dos mesmos, mediante estereótipos que classificam o “outro”. Para se dar um exemplo, basta recorrer à crença propagada por alguns indivíduos – e também por parte do setor turístico – quanto à existência do “baiano”, do “carioca”, ou do “mineiro”. Para se ater a discussão à Bahia, recorremos a uma consideração de Cláudio Taboada 9 (2004, p. 2-3):

O publicitário Duda Mendonça costuma dizer que a Bahia tem 13 milhões de publicitários, cada um deles falando bem de nosso estado. Cada baiano vende nossas belezas, nossa cultura, a idéia de que a Bahia é realmente a terra da felicidade 10 .

O quê parece mais prejudicial em relação a essa linha de raciocínio é o simplismo presente nessa declaração, na medida em que contribui para limitar demasiadamente o tratamento epistemológico dado tanto à cultura quanto ao turismo. E é importante que se diga aqui que, apesar de reconhecermos a forte relação existente entre economia e cultura, nosso ensejo no presente trabalho é relativizar a dimensão mercadológica da cultura e do próprio saber turístico calcado nesse viés. Ao empregarmos o verbo relativizar, não se espera recusar, excluir ou minimizar a dimensão econômica da cultura para o turismo. Busca-se, sim, reconhecer que a dimensão econômica imbricada em ambas as categorias – turismo e cultura – nada mais é do que uma das tantas dimensões possíveis de análise. Enquanto prática social, o turismo contempla ainda outros enfoques calcados, por exemplo, em abordagens oriundas da Psicologia, Geografia, História etc. Entretanto, ressalta-se que a perspectiva a ser privilegiada na presente análise é oriunda da Antropologia. Outra consideração acerca da relação cultura - turismo já feita carece de ser retomada aqui: a necessidade em se reconhecer que a cultura, da forma como às vezes é apresentada aos turistas, é fruto também de uma ótica decorrente de projetos políticos e econômicos permeados pela intencionalidade, a exemplo do que acontece em Santa Catarina, como bem demonstrou Savoldi (1999). No exemplo

9 Cláudio Taboada, um dos nomes mais expressivos do setor público de turismo na Bahia, começou a trabalhar como estagiário na Bahiatursa em 1995 e foi subindo de cargo em cargo até se tornar o presidente da empresa, em 2003. No final de 2006, perdeu o posto em conseqüência da vitória de Jacques Wagner, candidato oposicionista, para as eleições do governo estadual.

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JORNAL ESTADO DE MINAS. Caderno Viagem e Aventura, 7 de dezembro de 2004, p. 2.

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citado, o poder público colaborou para o resgate de uma italianidade com vistas a servir como principal atrativo turístico da região Sul do Estado de Santa Catarina. Pode-se depreender, a partir de práticas dessa natureza, que um impacto possível de tais articulações político-econômicas é a edificação de uma noção de cultura como matéria-prima passível de ser utilizada exclusivamente para o turismo, além de servir como meio para a obtenção de benefícios políticos e econômicos de dados atores sociais 11 . Obviamente que imagens como a italianidade em Santa Catarina, ou a baianidade em Salvador, não seriam destituídas de certa lógica. Elas, apesar de construtos, são decorrentes de matrizes – discursivas, estéticas, políticas – existentes no tecido social. Castro (2002), ao refletir acerca da inexistência de destinos naturalmente turísticos, na medida em que o lugar turístico é também construído culturalmente, lembra que o status de local turístico parte da criação de “um sistema integrado de significados através dos quais a realidade turística de um lugar é estabelecida, mantida e negociada” (p. 81). Há menos invenção de manifestações culturais e símbolos do que o agenciamento e maior privilégio de alguns elementos de dada cultura. Antes de adentrarmos nos suportes que deram e ainda hoje dão sustentação à idéia de baianidade, é necessário tecer breves comentários sobre a construção de (auto)-imagens culturais, às vezes concebidas como “identidades”, embora se esteja ciente que essas mesmas “identidades” possam também ser atribuídas a determinados grupos por agentes externos ao próprio grupamento. E isso é duplamente verdade para o turismo que “vende” representações, muitas vezes estereotípicas de dadas comunidades, populações ou sociedades. A construção e a manutenção de imagens, discursos e representações, seja em termos individuais ou em termos coletivos, diferenciando os homens uns dos outros mediante a afirmação de suas respectivas culturas, faz parte da própria essência humana. Essas diferenças entre as culturas, quando se tem em conta que

11 Neste sentido, segundo Ouriques & Caon (2005), exemplo similar de agenciamento de dados elementos culturais por grupos políticos com vistas a obter dividendos políticos e econômicos, em que pese o papel do turismo, ocorreu em Florianópolis, Santa Catarina, nas eleições municipais em 1992 e 2004. Em ambas as ocasiões, de acordo com os autores, houve a transformação de algo até então entendido como ofensivo, ou seja, o “mané”, tido como sinônimo de ser “atrasado”, “bronco” em algo valorizado. Além de objetivos políticos, os pesquisadores ressaltam que a valorização do “manezismo” objetivou também incrementar uma “identidade açoriana”, do qual o “mané” seria um componente intrínseco, vendida como atrativo turístico.

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a cultura é também um processo de aprendizado, não são somente herdadas. Elas –

as diferenças culturais – são também construídas, pois “a manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite inovações e as invenções” (LARAIA, 2003, p. 45). Essas inovações e/ou invenções são o resultado de alterações relativas ao

próprio grupo ao longo do tempo, resultado, dentre outros fatores, de contatos interculturais, aspecto que o turismo, pela sua própria natureza, fomenta. É revelador o fato de que os indivíduos, ao se apropriarem do patrimônio cultural que lhes é legado, manejem-no de forma a construírem também auto- imagens de si, sobretudo mediante o contato com os “outros”. Ou seja, o processo de auto-elaboração é constante, na medida em que somos afetados em todos os momentos por desejos e fluxos, idéias e imagens que não se circunscrevem somente ao individuo, cujos desejos também são perpassados por valores e tendências, práticas e representações vigentes no tecido social. Moura (2001), ao pensar a elaboração dessas auto-imagens no contexto da Bahia, considera que:

Todos elaboramos textos identitários, portanto. Porém, se é universal o trabalho de produzir textos identitários, certamente não é a mesma a freqüência, intensidade e repercussão com que acontece em diferentes sociedades. A quem percorre o Brasil, salta aos olhos a desproporção com

que baianos e piauienses, por exemplo, recitam o texto sobre si próprios,

(p. 8)

em termos de investimento de tempo, de energia, de expectativas (grifo do autor).

A partir da constatação de que o ser humano realiza a apreensão, bem como

o aprendizado de um conjunto de narrativas e recordações, signos e representações

dos grupos com os quais ele está envolvido e com o qual ele se identifica 12 , pode-se

perceber que essa “construção identitária” varia de um grupamento para o outro. Recursos disponíveis, atores sociais específicos de cada comunidade ou sociedade, associados às particularidades geográficas e históricas, estão diretamente implicados nesse processo de construção. Ressalta-se, portanto, que esse processo de construção de “identidades” envolve não só fatores de ordem relacional inerente ao próprio homem. Mas importa

12 O pensamento de Morin (apud MOESCH, 2002) vai ao encontro da tese de que o sujeito sistematiza o mundo diante do aprendizado da cultura no qual ele está imerso e da necessidade de relação com o “outro”. Segundo o filósofo: “o sujeito é o autor de seu processo organizador, por meio da singularidade. Sujeito é o ‘eu’ que se coloca no centro do mundo, ocupando o próprio espaço. Sua concepção é complexa, pois o ‘eu’ precisa de uma relação com o ‘tu’ e ambos pertencem ao mundo.” (p. 40).

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ressaltar a existência de usos possíveis da cultura, muitas vezes permeados por objetivos econômicos e político-ideológicos, que transcendem a ação do próprio grupo em questão, ou mesmo dão-se à revelia de parte desse grupamento. E o turismo pode ser inserido nessa tendência, pois, ao se aportar na alteridade, contribui para a construção e manutenção dessas diferenças calcadas em estereótipos, não permitindo assim que o turista vislumbre outras formas de articulação das pessoas, dos grupos, ou mesmo das sociedades visitadas. A não ser, é claro, aquelas leituras culturais 13 canonizadas, ou mesmo legitimadas pelo trade turístico. Feitas essas considerações, o próximo tópico será dedicado à trajetória da noção de baianidade enquanto somatória de discursos, representações e símbolos bem definidos, decorrente de um projeto ideológico 14 empreendido, sobretudo pela elite política do Estado a partir de meados do século XX. Os objetivos de tal empreendimento não se circunscrevem apenas à obtenção de uma suposta unidade – ainda que calcada na diferença, na miscigenação, no sincretismo – cultural existente na Bahia, o que é simbolizado pela idéia de baianidade. Parafraseando Santos (2005, p. 34), a cultura baiana passa a ser tratada como um “bem simbólico”, ou, de acordo com outro teórico, se tornaria, na década de 1990, “o maior ativo da economia do turismo e do entretenimento local” (PINTO, 2006, p. 3), algo de grande valia para os interesses da elite política e do trade turístico estadual.

13 Ressalto aqui a expressão “leituras culturais” utilizada por Santos (2005). Essa expressão ilustra bem o movimento constatado por Castro (2002) de escolha, agenciamento e ênfase em dados elementos do destino turístico. Desta forma, por “leituras culturais” compreendo certa interpretação e, conseqüente, exposição de manifestações culturais pontuais de Porto Seguro que, segundo discursos desses mediadores turísticos, seria capaz de sintetizar e legitimar uma experiência turística na Bahia.

14 Ao pensar aqui no termo ideologia, ressalto a filiação analítica com os trabalhos de Pinho (1998) e Santos (2005). O primeiro, ao se aportar nas considerações de Geertz (1978), assinala que a ideologia, enquanto “modelos interpretativos que dão sentido político às contradições socioculturais”, teria a função de apaziguar uma realidade social problemática, criando assim uma consciência coletiva (PINHO, 1998, p. 3). Um enfoque parecido é apresentando por Santos (2005, p. 16) ao considerar ideologia como uma “falsa consciência”. Enfim, o quê se busca explicitar ao utilizarmos o conceito de ideologia é o da busca por se constituir uma espécie de consenso na sociedade baiana no que tange à representação (naturalizada) que se tem da própria sociedade, que é elaborada de forma intencional e com fundo político, em um contexto social permeado por diferenças e contradições.

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1.2 Nas Trilhas da Baianidade

Ao se falar em baianidade, uma questão logo salta à vista. Por que essa categoria é sempre vinculada a Salvador? Por que nas campanhas publicitárias da Bahiatursa, ou mesmo nos estudos que se debruçaram para investigar tal questão, Salvador aparece como uma espécie de metonímia da Bahia? Assim, é preciso primeiramente tentar compreender as causas que teriam levado, historicamente, Salvador a alcançar uma espécie de representatividade metonímica tão expressiva do que seja a Bahia. Isto é, por que na maior parte das vezes em que se menciona algo sobre a Bahia, emerge, tanto na mente dos próprios baianos, quanto de boa parte dos turistas, a cidade de Salvador? Esta questão parece fundamental para compreendermos a idéia de baianidade justamente pelo fato de que praticamente todas as abordagens realizadas pelo trade turístico, bem com as análises acadêmicas que versam sobre a relação entre o turismo e a cidade de Salvador circunscrevem o termo à capital baiana, embora a categoria, sob o ponto de vista semântico, tenha uma conotação mais ampla, ou seja, capaz de abranger todo o Estado, não uma região apenas. Problematizar esse ponto é o primeiro passo para o delineamento do escopo da baianidade, suas matrizes, seus impactos, bem como as singularidades desse “texto identitário” (MOURA, 2001).

1.2.1 Salvador: uma metonímia da Bahia?

Freitas (2000) levanta três aspectos diretamente relacionados à existência dessa noção de Salvador como síntese da Bahia: i) a percepção dos interioranos que não se vêem, em sua plenitude, como baianos, visto que se identificariam com outros estados; ii) dificuldade em integrar o território mediante uma malha de transportes; iii) a alusão, resquício dos tempos coloniais, à Capitania da Bahia. Tais componentes, portanto, fizeram com que o habitante do interior do Estado historicamente se enxergasse como baiano por meio de um reflexo do que seria Salvador. E as pessoas de outras regiões do país sempre tiveram Salvador como ícone máximo da Bahia, até porque, ao longo do século XIX e começo do século XX, não havia no Estado a não ser a florescente região cacaueira, uma região com tamanha expressividade quando comparada a Salvador.

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Salvador, mesmo após o advento de uma política de integração estadual, desencadeada na segunda metade do século XIX com a construção de estradas de ferro e, posteriormente, hidrovias, continuaria a manter a sua posição de ponto nodal de toda a malha de transportes (FREITAS, 2000, p. 34). Além disso, a adoção do nome Salvador, em substituição à “Capitania da Bahia”, não modificou o quadro daqueles que, saindo de regiões limítrofes do estado – normalmente marcadas pela seca e pela pobreza –, se destinassem à capital, deslocamento curiosamente sintetizado na expressão “Eu vou para a Bahia” (FREITAS, 2000, p. 36).

A tendência em vislumbrar Salvador como uma cidade distante, ao longo do

século XX, contribuiu para a permanência deste “centralismo representacional” da capital, o que desencadearia uma baixa identificação dos baianos com o próprio Estado, na medida em que Salvador traduziria quase que completamente a Bahia. A representatividade metonímica do Estado conquistada pela capital soteropolitana nesse período é decorrente ainda do fato de a região gozar de certa autonomia em relação às demais regiões, conquanto seja uma área até certo ponto autônoma, ou, nos dizeres de Araújo (apud MOURA, 2001), uma região “individualizada, consistente e articulada” (p. 12).

A imagem de Salvador, enquanto núcleo máximo – e por que não único? – da

Bahia era motivada ainda pelo intercâmbio das zonas de fronteira baianas com Minas Gerais, Espírito Santo, Sergipe e Goiás, o que significou para essas regiões um crescimento, até certo ponto, alheio a Salvador. E com o surgimento da TV e do rádio, a identificação dos habitantes do interior passou a ter como eixo o Sudeste, sede desses aparatos comunicacionais, propiciando a que “os moradores de quase todas as áreas, de todos os sertões, passassem a não se sentir na Bahia, e dela não participar” (FREITAS, 2000, p. 35). Entretanto, a partir da metade do século passado, a Bahia passaria por mudanças que traçariam um novo mapa geopolítico estadual, na medida em que a abertura de rodovias e a diversificação econômica contribuiriam para um ganho de representatividade por parte de outras regiões do Estado, amenizando assim a imagem-síntese da Bahia representada por Salvador. Percebeu-se que se poderia, ao menos, pensar em “Bahias”, isto é, reconhecer a diversidade existente no oeste baiano, no sertão, na Chapada Diamantina, no Extremo-Sul, ou mesmo na região cacaueira.

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Esse movimento de ascensão de outras áreas dentro do Estado é particularmente visível em Porto Seguro que, a partir da década de 1970 e ao longo dos anos de 1980 e de 1990, se tornaria, gradativamente, o segundo destino turístico da Bahia e um dos mais expressivos do Nordeste. Aliada a esta questão, teríamos pela primeira vez em um estudo acadêmico desenvolvido por Grunewald (2001) a constatação quanto à operação de uma baianidade em uma região outra que não Salvador. Essas questões serão retomadas adiante. Antes, o quê nos interessa por agora é delinear as raízes desse modus vivendi concebido como “tipicamente baiano”, ou seja, a baianidade. Ao longo de todo o século XX, é importante frisar como o Estado, tanto o nacional, quanto o Estado da Bahia, se vêem diante de um novo desafio, sobretudo após a década de 1960 e, em especial, no contexto da ditadura militar: como incorporar o legado cultural dos negros, historicamente marginalizados, mas necessários naquele momento para compor o nosso patrimônio nacional, nossa brasilidade? Como veremos, essa apropriação da cultura negra, entendida como pano de fundo que perpassa a construção da idéia de baianidade, foi feita sob diferentes formas e permeada por conflitos, embora visando algo bem claro:

enquadrar os símbolos culturais dos afro-descendentes dentro da proposta de construção de uma “identidade nacional”. É possível estabelecer dois momentos em relação à construção da noção de baianidade. O primeiro momento ou fase, em que pese a formação dos suportes, ou seja, as bases estéticas, não teria um caráter propriamente intencional na construção de um projeto político-ideológico baseado na conformação de uma “identidade cultural”, seja ela nacional ou regional. Esse período pode, grosso modo, ser delineado do final do século XIX até a década de 1960. O segundo momento pode ser caracterizado como tendo sido permeado de toda uma intencionalidade, visto que se deu a construção de uma amálgama “identitária” calcada no sincretismo e que agenciou certos traços da cultura negra vigente na Bahia transmutando-os em manifestações culturais baianas. Nesse período, que viria à tona a partir do final da década de 1960, acontecimentos de grande relevância para a valorização da cultura negra se deram, como, por exemplo, o processo de reafricanização 15 do carnaval de Salvador, cuja reflexão se dará em momento oportuno. Eventos dessa natureza, ao

15 Termo utilizado por Risério (1981).

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privilegiar a cultura negra, favoreceram, a posteriori, que manifestações culturais afro-descendentes fossem vinculas à idéia de uma Bahia sincrética, híbrida. Essa seria, assim, para dados atores econômicos e políticos, a singularidade do Estado.

1.2.2 As primeiras representações da “típica” cultura baiana: o surgimento dos suportes estéticos da baianidade

Esta seção busca reconstituir os caminhos relativos à gênese das matrizes estéticas que assentariam os alicerces dessa extensa e complexa “identidade cultural” efetivada ao longo do século XX, a baianidade. No que diz respeito à organização desta parte do trabalho, optou-se por estabelecer, ao longo da exposição, diálogos entre representações do baiano no passado e no presente, sobretudo para referendar o quanto a visão naturalizada da cultura na Bahia ainda está em voga. Haverá assim, em alguns momentos, “saltos” no tempo, não respeitando de maneira rígida a subdivisão previamente estabelecida da seção, cujo marco temporal é a década de 1960, momento em que a atividade turística começa a influenciar decisoriamente a conformação da lógica da baianidade. Ressalta-se aqui que o percurso da noção de baianidade não pode ser facilmente identificado de forma linear sob o paradigma de causa – efeito. Antes disso, espera-se reconhecer e apontar que uma gama de fluxos e movimentos, acontecimentos e indivíduos se influenciavam concomitantemente 16 , o quê resultou em vasta produção artística que foi posteriormente reapropriada por segmentos políticos – com destaque para os seguidores do carlismo – e econômicos – em que a ênfase recai sobre o trade turístico – para, a partir da reafirmação de uma “identidade cultural baiana”, obter dados benefícios, e que serão alvo de uma análise mais pormenorizada na próxima seção. Fiquemos por ora com o debate sobre as representações que se tinha da “cultura baiana” em diversos segmentos artísticos no final do século XIX e início do século XX.

16 Procurou-se, neste tópico, tomar cuidado para não isolar as obras de grandes artistas representativos da idéia de uma “cultura tipicamente baiana” do imaginário social. Ao evocarmos Dorival Caymmi ou Jorge Amado, Pierre Verger ou Carybé, verdadeiros emblemas da noção de baianidade, é importante, senão indispensável, contextualizar o momento vivido por estes artistas e que elementos os mesmos captaram do imaginário social, reforçando-os em suas obras, tanto para pensar a Bahia quanto para pensar os baianos.

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se originado do

contraste entre os padrões civilizatórios que se tornaram emblemáticos do Rio de Janeiro e da Bahia, já no século XIX” (p. 136), o autor chama a atenção para algo representativo na construção da idéia de baianidade: o contraste 17 . Tal questão, recorrente em muitas análises, em especial na abordagem de Pinto (2003), parece emblemática para o fato de a Bahia ter buscado, sobretudo após a década de 1970, com o crescimento do turismo, uma constante afirmação de si mesma mediante o reforço – levado a cabo pela elite política e setores econômicos ligados ao turismo – de diferenciação em relação às demais regiões do Brasil. Coube ao Estado ser entendido como uma terra fortemente impregnada por valores da África, o que, aliás, já se dava desde o final da década de 1930 ao levarmos em conta que a imagem de uma Bahia mística, da cordialidade e do candomblé (ALBERGARIA, 2005, [s.p.]) foi reforçada por artistas e pelo rádio em oposição aos ideais de progresso e civilização vigentes no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em suma, na construção da “brasilidade”, projeto já existente naquele momento, coube à Bahia ser a antítese do Sudeste, em prol de uma imagem da “cultura brasileira” edificada naquele momento. No percurso em busca da gênese de substratos, mais tarde acionados como componentes da baianidade, o marco temporal mais antigo atribuído a um aspecto dessa idéia de Bahia – como uma cultura típica – seria, segundo Moura (2001, p. 129), a obra Memórias de um Sargento de Milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida. Em sua análise, Moura entende que o realce dado às baianas durante um cortejo ocorrido ao longo da narrativa poderia ser percebido como a mais antiga ou a primeira manifestação da idéia de uma Bahia típica com alguma relevância no campo artístico nacional. Este fato, visto sob uma dimensão mais global, isto é, de que a narrativa não está contida somente em si mesma, e que, antes, ela incorpora elementos vigentes no imaginário da sociedade, faz com que, na verdade, já esteja implícita naquela obra a visão permeada de exotismo pela qual parte da sociedade brasileira, especialmente do Sudeste, conceberia a Bahia, entendida naquele momento como uma terra festiva e da negritude. Ou seja, a obra de Manuel Antônio de Almeida apresentaria, já no século XIX, uma imagem da Bahia permeada de

Quando Moura (2001) afirma ter o “texto da baianidade [

]

17 A existência de contraste é condição para a elaboração de uma concepção de identidade, como é o caso da noção de baianidade. Para Barth (1998), a definição de grupo étnico – e o mesmo vale para outras formas de organização baseadas na noção de pertencimento – necessariamente passa pela relação de fronteira e diferenciação entre “nós” e “eles”.

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ancestralidade e tradicionalismo, situando-a como o pólo afro-brasileiro da nação (MOURA, 2001, p. 130). De certo modo, a visão da Bahia “ancestral” e “exótica” que se tinha em meados do século XIX, tal como descrita no romance de Manuel Antônio de Almeida, parece ser uma constante nas décadas seguintes. Posteriormente a essa imagem, somar-se-iam outros elementos que seriam entendidos como “tipicamente” baianos. Um deles seria uma suposta característica “imanente” do baiano: a malemolência. E esse aspecto, caro ainda hoje aos habitantes da Bahia, pois muitas vezes eles são tidos como “preguiçosos”, teve, se é que podemos dizer assim, Dorival Caymmi como um “expoente” de destaque no início do século XX. Ao evocarmos de modo mais direto a figura de Caymmi, é necessário evidenciar que a obra do compositor está situada na esteira de uma plêiade de músicos do Rio de Janeiro que, desde o início do século XX, embevecidos de dadas imagens e valores referentes à Bahia, colaborariam para expressar traços da “baianidade” em seus repertórios. A Bahia era proferida, pelos sambas cariocas, como o local, por excelência, da ancestralidade (MOURA, 2001, p. 143). Para conceber a imagem da Bahia até então em voga no país, teríamos de, necessariamente, perpassar por uma análise de como o então nascente samba carioca projetava aquela região. A presença da Cidade da Bahia e o seu povo eram de tais proporções existentes no acervo de músicas desse período que “separar a Bahia do Rio de Janeiro na história do samba carioca seria mutilar o Rio de Janeiro de um órgão vital, como tirar do Recôncavo seu palco principal” (MOURA, 2001, p. 142). Essa participação da Bahia na cena musical carioca pode ser atribuída à grande quantidade de baianos que então viviam no Rio de Janeiro naquela época 18 . Além de ter tido contato com uma produção musical relativamente grande, na qual a Bahia já vinha sendo cantada como um paraíso místico, a produção de Caymmi tem de ser imersa também no contexto de produção do projeto ideológico

18 A forte presença da Bahia na música popular brasileira não se restringe às primeiras décadas do século XX, momento de ascensão do samba. Em A presença da Bahia na música popular brasileira, obra citada por Moura (2001), há a identificação de ícones recorrentes acerca da Bahia na música. A pesquisa que contemplou repertórios das seis primeiras décadas do século XX constata que os elementos mais recorrentes nos repertórios da MPB seriam: i) a culinária, com destaque para a tríade dendê – acarajé – vatapá; ii) a sensualidade, entedendo-se aí a mulher; iii) a religiosidade, com ênfase ao Senhor do Bonfim; iv) a arquitetura, cujos emblemas, entre outros, seriam o Farol de Itapuã e a Praça da Sé. Enfim, a noção de Bahia permeada de misticismo, terra da culinária exótica e da sensualidade já vinha sendo apresentada desde o inicio do século, seja por músicos cariocas ou baianos, famosos ou não, ou mesmo de outros estados como o mineiro Ari Barroso e suas famosas canções No Tabuleiro da Baiana e Quando Eu Penso na Bahia.

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vinculado à brasilidade. Havia, naquele momento – década de 1930 –, como já dito, um desejo do governo brasileiro de delinear uma “cultura própria do Brasil”. A imagem de Carmem Miranda, vestida de baiana, parece encarnar bem qual concepção identitária o Brasil procurava apresentar ao mundo naquele período: a da mulher sensual, festiva e mágica, ao passo que o “ethos carioca” complementaria essa noção de brasilidade com seu jeito malandro de ser, o gosto pelo samba e pelo futebol imersos em um contexto – o Brasil e mais especificamente o Rio – em pleno progresso 19 . Essa matriz da noção de baianidade – a música da primeira metade do século

XX – pode ser assim engendrada no processo de edificação da idéia de brasilidade,

como já dito anteriormente. Nesse momento, as imagens e representações, apesar

de contrastivas, tanto do carioca quanto do baiano, seriam largamente empregadas

contribuindo para edificar a noção de um “ethos brasileiro”. Destaque para as manifestações culturais afro-brasileiras, usualmente vinculadas aos cariocas ou aos baianos e que seriam rapidamente agenciadas como ícones possíveis da brasilidade. Para ilustrar esta consideração, basta nos lembrarmos da notoriedade

nacional primeiramente do samba (carioca) nas décadas de 1920 e 1930 e, posteriormente, do candomblé (baiano) nos anos de 1960 e de 1970. A Bahia que encarnaria o Brasil, pois poderia ser pensada como uma parte

capaz de representar o todo, teve, ao longo do século XX, uma grande soma de artistas e intelectuais que, através de suas obras, reafirmariam uma peculiaridade cultural do baiano. Se as análises de Pinto (2003) e Barbalho (2004) mencionam Caymmi como um daqueles que ajudou a construir as matrizes estéticas para a idéia

de baianidade, a análise de Moura (2001) é ainda mais enfática, ao assinalar que o

músico baiano, que chegou ao Rio de Janeiro em 1938, ilustra elementos da baianidade, em especial a preguiça, não somente por meio de suas canções, mas, sobretudo, por sua própria atitude de assumir-se integralmente como baiano, a partir da formação de uma imagem de si do que seria ‘ser baiano’. O músico “não cantou

19 A noção de complementaridade presente na obra de Moura (2001) entre os traços culturais dos cariocas e dos baianos para uma costura da idéia de brasilidade vai de encontro ao tratamento dado por Santos (2005). Para este último, a evocação e a elevação de símbolos cariocas no cenário nacional deu-se em um momento diferente ao período em que o mesmo processo deu-se na Bahia. Ainda de acordo com este autor, se o Rio de Janeiro tem seu ápice, em termos de exposição simbólica, na década de 1920-1930, o processo equivalente na Bahia se delineou a partir da década de 1960.

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apenas a Bahia, como se sabe; é, contudo, o baiano cantando a Bahia no rádio” (MOURA, 2001, p. 146). Para se ter uma idéia de como o estereótipo da preguiça ainda hoje é presente nas representações e discursos sobre a Bahia, Bomfin (2006) demonstra que a preguiça é um elemento utilizado pela Bahiatursa para ilustrar as particularidades do destino turístico “Bahia”. A relevância dessa matriz para a “idéia de baianidade” atualmente em voga é percebida em sua análise de uma recente peça publicitária da autarquia de turismo estadual, cuja conclusão é que a alusão ao ócio e à preguiça, bem como ao carnaval e às demais festas, são substratos de vulto para a construção do “ser baiano” (BOMFIN, 2006, p. 61). As balizas para a construção de uma idéia de cultura baiana não estariam circunscritas somente ao papel efetivado pela música, especialmente na década de 1930. Avançando um pouco no tempo, encontraríamos, a partir das décadas de 1940 e 1950, substratos da noção de baianidade também no campo das artes plásticas e da fotografia. Pinto (2006, p. 19-20) considera que tanto Carybé por meio de seus quadros, quanto Verger com suas fotografias, apresentam iconografias “clássicas” da baianidade, embora não sejam os únicos, pois Calasans Neto, Hansen Bahia e Mário Cravo Jr. também seriam bons representantes. Entretanto, o que mais chama a atenção em Carybé e em Verger é como esse olhar estrangeiro corroborou, principalmente a posteriori, com o projeto de uma “cultura típica da Bahia”. Esse olhar do outro acaba por reafirmar uma gama de narrativas que já vinham sendo produzidas por brasileiros, como, por exemplo, Jorge Amado, que abordaremos logo em seguida. Os dois artistas estrangeiros, responsáveis por discursos iconográficos, ao focarem, de maneiras distintas, o cotidiano dos habitantes de Salvador, seja enfatizando por meio de tomadas próximas o traço fenótipico do povo como Verger, seja com a rotina dos habitantes da capital soteropolitana apresentada por Carybé, teriam um papel complementar nesse processo de ratificação da lógica da baianidade: além de legitimar discursos, tais como o de Jorge Amado, os artistas trouxeram para o cotidiano essa vivência um tanto quanto essencialista da cultura, isto é, naturalizaram as imagens daquela Bahia negra, religiosamente híbrida e mística; ancestral. A representação não tinha somente nomes fictícios presentes nos romances amadianos, mas “atores” reais, de carne e osso. A negritude não estaria mais no campo do imaginário. Estava lá, posta em imagens, com grande vivacidade.

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Sabe-se que as obras de Verger e Carybé partem de enfoques pessoais de ambos os artistas, algo legítimo, na medida em que se tem uma interpretação e registro do cotidiano soteropolitano tão válido quanto os demais existentes, embora sejam menos evidenciados. Que a contribuição na seara iconográfica de Verger e Carybé tenha sido representativa para o texto da baianidade, bem como a de Caymmi no âmbito musical, não parece haver dúvidas. Entretanto, o papel de Jorge Amado, no que tange ao fornecimento de matrizes para a “cultura típica da Bahia”, parece ser mais expressivo, não somente por sua produção, sobretudo decorrente da primeira fase de sua carreira, mas também pelo fato de este autor ser entendido como uma espécie de eixo que capitaneou outras representações complementares da própria lógica da baianidade 20 . Em termos cronológicos, a obra de Jorge Amado deu-se concomitantemente às obras de Caymmi, Verger e Carybé. A produção amadiana, embora imersa no mesmo contexto dos demais artistas “baianos”, pode ser tida como mais representativa para uma exposição arquetípica da Bahia e de seus habitantes, tal como atesta Pinho (1998) 21 . Isso porque, embora o livro Bahia de todos os santos, datado de 1945, possa parecer o mais emblemático para a construção de uma idéia do baiano com traços singulares, esta obra é representativa da prosa regionalista da década de 1930, cujos expoentes nacionais de destaque são, além do próprio Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. Esse segundo momento do Modernismo nacional, do qual a obra amadiana faz parte, tem como característica a valorização da cultura regional de outros estados do país, além do eixo Rio - São Paulo. Portanto, imbuído dessa concepção literária, é que Jorge Amado tem como matéria-prima e pano de fundo para os seus primeiros romances o cotidiano dos baianos, estejam eles em Salvador ou na região cacaueira. Deste modo, as referências ao candomblé, à culinária, às festas, à pobreza e aos monumentos arquitetônicos soteropolitanos seriam elementos recorrentes nesse período de sua produção literária.

20 Goldstein (2002, p.113) referenda a idéia da cumplicidade entre os artistas baianos desse período, especialmente tendo Jorge Amado como núcleo, na medida em que muitos desses artistas iriam ilustrar os seus livros: “Existe na Bahia um círculo de intelectuais e artistas auto-referentes e produtores de uma certa representação de ‘baianidade’, no qual Jorge Amado toma parte, juntamente com artistas como Mestre Didi, Carybé, Floriano Teixeira, Calasans Neto, Mário Cravo e outros”.

21 Ainda segundo Pinho (1998, p.10), a obra de Jorge Amado pode ser considerada “como síntese exemplar do processo ideológico-discursivo de formação de uma representação universalista e, portanto, arbitrária, da ‘cultura baiana’”.

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Não podemos compreender, em sua plenitude, o aporte que a obra de Jorge Amado deu à noção de baianidade, sem termos em vista que a década de 1930 foi um momento de grande reflexão do país acerca de si mesmo por parte de alguns intelectuais de renome. Nessa época, paralelamente à gênese dos romances do escritor baiano, vêm à tona obras de considerável valor reflexivo sobre o processo de formação da nacionalidade brasileira como Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda e Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre. De certo modo, Jorge Amado, ao se apropriar de tais contribuições, iria dialogar sobretudo com Freyre e apresentar sua visão otimista do processo de miscigenação, que acabaria por subsidiar o mito da “democracia racial”, ao qual será dada atenção especial adiante. Além do surgimento de obras que buscavam identificar as matrizes para a conformação de um Brasil enquanto nação, sobretudo sob a perspectiva étnico- racial, outros fluxos/acontecimentos se influenciavam mutuamente naquele momento do país com implicações para a elaboração da idéia tanto de baianidade quanto de brasilidade. Como nos lembra Goldstein (2002), em sua análise antropológica da obra de Jorge Amado, a expansão dos cultos de candomblé, a legalização da capoeira em 1937 e a massificação do futebol, embora essa última manifestação não tenha um vínculo com a questão racial propriamente dita, colaborariam para o delineamento do que seria eminentemente nossa “cultura nacional”. Aliás, na questão aparentemente binária, pois que se aproxima mais da complementaridade entre Bahia e Brasil, na conformação de suas identidades, Goldstein (2002) irá defender o postulado de que a literatura amadiana teria, ao mesmo tempo, a capacidade de representar os traços típicos – e tradicionais – não só dos baianos, mas também dos próprios brasileiros. Para a pesquisadora, a brasilidade e a baianidade, na obra de Jorge Amado, andariam novamente de mãos dadas. A capoeira, o malandro, o candomblé e a culinária, elementos apontados pelo escritor como expressivos da cultura baiana, estariam conformados em uma só imagem: a do baiano como uma espécie de metonímia do brasileiro. À esteira disso, surgiria o reconhecimento e, conseqüentemente, a valorização de uma cultura regional – entenda-se baiana –, nitidamente expressa pelo escritor itabunense:

Existe uma cultura baiana com características próprias, originais? Creio que sim. Aqui em toda cultura nasce do povo, poderoso na Bahia é o povo, dele

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problemas é marca fundamental da cultura baiana que influencia toda cultura brasileira da qual é célula mater (AMADO apud PINHO, 1998, p. 5). (grifo nosso)

Interessante notar como, para Jorge Amado, as características constituintes da baianidade estariam presentes também na noção de brasilidade. A relação entre Bahia e Brasil em sua obra, a partir da contribuição de Goldstein (2002), poderia ser tida da seguinte maneira:

A

região da Bahia – em todas as suas facetas, como a paisagem marítima,

o

cotidiano, a pobreza, as festas, a comida, a capoeira e os cultos afro-

brasileiros – fornece a moldura para a sua criação. Grosso modo, na representação que Jorge Amado constrói do Brasil habita a crença de que, entre nossas virtudes estão: a grande mestiçagem cultural e biológica entre índios, africanos e europeus; a exaltação dos cinco sentidos e dos prazeres sensuais; o amor à festa e a alegria de viver; a tolerância racial, a solidariedade; e, finalmente, a excepcional riqueza da cultura popular brasileira, na música, no artesanato, na culinária, nas trovas populares (p.

109-110).

Pode-se constatar, após esse breve percurso analítico sobre parte da obra de Jorge Amado, que a esfera da literatura, tida por Pinto (2003, p. 4) como uma das seis arenas da baianidade – a literatura; as artes visuais; a música de massa; o carnaval; a mass media; o turismo –, seria um suporte estético privilegiado na construção de uma “identidade cultural”. Entretanto, seria ingênuo afirmar que a literatura de Jorge Amado teria sido a causa de um processo de sedimentação da idéia de baianidade. Preferimos pensar que todos os percursos – música, literatura, artes plásticas, a sociologia de Gilberto Freyre, ações estatais outras – se retroalimentavam, até porque Jorge Amado também sofreu influências dos romancistas de 30, de artistas como Verger e Carybé e vice-versa, visto que suas obras foram permeadas por certa noção de baianidade herdada de diálogos estéticos, políticos e científicos. Se o empreendimento brasileiro de formação do Estado-Nação, processo iniciado na Independência e que se estende para muito além da República, deveu- se sobremedida à literatura, com destaque para a prosa romântica, não há como negar também o vínculo entre a edificação de uma idéia de Bahia como uma “comunidade imaginada” (PINHO, 1998, p. 1) e a literatura. Embora sob outros termos, afinal de contas a literatura amadiana tinha um peso bem menor que o Romantismo – movimento que viu no índio, não no negro, o “outro” exótico por natureza –, a literatura dos romancistas de 30, em que pese a participação de Jorge

35

Amado, contribuiu, como discurso artístico, não só para inventar o Nordeste (BARBALHO, 2004), mas também para reforçar uma “identidade cultural baiana”. Após uma rápida passagem sobre alguns alicerces estéticos da baianidade da primeira metade do século XX e que ainda hoje encontram ecos em setores da sociedade 22 , a exemplo da preguiça e da visão metonímica da Bahia representando o Brasil, pôde-se constatar que o campo das artes foi influenciado por idéias oriundas da academia, como a Sociologia de Freyre, e da política, como o projeto de forjar uma brasilidade. Todas estas ações são entendidas aqui como fluxos que se afetavam mutuamente e que, portanto, não podem ser entendidos de forma isolada. Feito isso, continuemos a nossa análise, mas agora sob a perspectiva governamental, tomando as políticas públicas relacionadas à cultura após os anos de 1950. Colocar esse tema como um item à parte se deve mais à busca de uma exposição mais didática do que propriamente a um seccionamento dessas esferas – política, estética, acadêmica, econômica etc. – que, como já ressaltamos, se retroalimentam e que são interdependentes.

1.2.3 As políticas públicas de valorização do patrimônio nacional, o mito da democracia racial e a política externa pós-50

Há alguns parágrafos acima, onde analisamos a plataforma estética composta pela literatura, música e artes visuais, e que evidenciaram um “jeito de ser baiano”, mencionamos que um dos fluxos ou movimentos responsáveis pela idéia de baianidade, além das produções artísticas, se resumia em ações estatais. Foi dito, de forma breve, que estava em voga, sobretudo a partir dos anos de 1930 e nas décadas subseqüentes, um projeto de produção de uma “cultura brasileira”, decorrente da tentativa de se formatar a “identidade nacional”.

22 Aliás, parece ser histórica, além de atual, a vinculação entre uma idéia de Bahia, cuja “cultura típica” estaria fortemente impregnada da alegria, da sensualidade, do exotismo e do sincretismo

religioso, e de Brasil. Tanto é que Neto (2007, p. 8), ao analisar peças publicitárias recentes da Bahia, em especial a campanha “A Bahia é o Brasil” referenda essa associação de longa data. Depoimentos de turistas, ao longo das propagandas, endossam a tese de que há uma busca ainda vigente em associar fortemente a Bahia à história do Brasil e aos brasileiros mediante o uso de analogias e metonímias. As sentenças a seguir, citadas pelo autor ao analisar algumas peças publicitárias do Estado, são emblemáticas para ilustrar uma vinculação ainda maior entre uma suposta “cultura do

baiano” com uma “cultura do brasileiro”. “A Bahia está muito dentro da gente [

brasileiro tem sempre um pedacinho da Bahia”; “O Brasil começa na Bahia”; “A Bahia é o coração do

“Brasileiro que é

];

36

Eis que adentramos em mais um capítulo dessa iniciativa: a institucionalização do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o SPHAN, em 1937. De início, sabe-se que um dos objetivos da criação do órgão era “a identificação de um patrimônio cultural brasileiro, reconhecido como distinto das sociedades norte-americana e européias” (SANTOS, 2005, p. 77). Da década de 1930 até a década de 1970, temos uma contínua intervenção do Estado na esfera da cultura, sobretudo por meio do incentivo à criatividade, à difusão das criações culturais e da preocupação com a preservação do patrimônio nacional. Preservação essa que, se no início tinha uma visão restrita do patrimônio, ao focar primordialmente as construções físicas, em um segundo momento, passou a incorporar manifestações imateriais do patrimônio, dissociando-se gradativamente de um paradigma patrimonial calcado em pedra e cal. Valores tradicionais de várias regiões do Brasil passaram a ser alvo de ações governamentais visando assegurar a sua continuidade, especialmente a partir de 1966/67, quando a linha de ação do tombamento oficial passou a contemplar valores tradicionais (SANTOS, 2005, p. 79). Parece claro que ações oficiais referentes ao patrimônio cultural tiveram peso ao colaborar para uma construção arquetípica da Bahia, em que pese a ressignificação do Pelourinho no final da década de 1960, na medida em que a intervenção nessa área seria resultado dessa política valorativa de elementos culturais relevantes para a “nação brasileira”. Assim, o Pelourinho, ao pensarmos no caso da Bahia, se tornaria o lócus patrimonial privilegiado em âmbito estadual, mormente ao levar-se em conta sua íntima associação com o turismo. A relação do Pelourinho com o turismo pode ser mais bem compreendida ao se ter em conta que um dos objetivos da intervenção urbana no Pelourinho com vistas a revitalizá-lo pode ser atribuído aos benefícios econômicos que tal intervenção poderia suscitar, como bem nos lembra Santos (2005, p. 80) 23 . Entretanto, qual era a situação econômica na Bahia por volta de meados do século passado? Qual era a situação do Estado naquele momento em que, subjacente ao projeto de preservação de áreas relevantes para o patrimônio histórico-cultural brasileiro, havia um projeto de reanimação econômica?

23 Segundo o autor, a iniciativa de preservar áreas significativas do patrimônio cultural “implicava, através do turismo e valorização cultural, em reativar a economia de determinadas áreas que apresentassem ‘aspectos dos mais ricos em história e arte, em belezas naturais e em verdadeiros mananciais de costumes e tradições dos mais caros à nossa etnografia’” (SANTOS, 2005, p. 80).

37

A Bahia viveu uma grande estagnação econômica desde a metade do século

XIX até a década de 1950, situação somente contornada a partir de 1953 com a

instalação da Petrobrás no Recôncavo Baiano e, posteriormente, do Pólo Petroquímico de Camaçari juntamente com o aporte da indústria siderúrgica e alimentícia na região (MOURA, 2001, p. 120-121). Esse período, conhecido no

Estado por “enigma baiano”, (RISÉRIO, 1981; MOURA, 2001, p. 121) deu lugar a

uma tentativa de superar esse marasmo econômico por meio de um amplo processo

de “planejamento integrando áreas diversas como a saúde, educação, habitação, o turismo e a cultura” (SANTOS, 2005, p. 55). Assim, esta ação governamental, associada à política de valorização do Pelourinho, colaborou para que regiões de

grande excepcionalidade do ponto de vista patrimonial, como é o caso de Salvador, pudessem ter suas economias reativadas mediante atividades como o turismo.

A relação entre o aspecto econômico e a questão cultural na Bahia parece ter

ainda outros desdobramentos, em especial ao considerar que essa lacuna de aproximadamente 80 anos entre o final do século XIX e meados do século XX possa ter impactado a própria idéia do que seria uma cultura baiana ou baianidade. É o

que defende Antônio Risério ao afirmar que o isolamento cultural e econômico da

Bahia nesse período colaborou para a formação de uma “cultura baiana”. Segundo o

foi em meio ao mormaço econômico e ao crescente desprestígio

político que práticas culturais se articularam no sentido da individuação da Bahia no conjunto brasileiro de civilização.” (RISÉRIO apud MOURA, 2001, p. 122). Na contramão de Risério, Pinho (1998) e Moura (2001) vêem esse espaço temporal em que a economia da Bahia se encontrou estagnada com um olhar mais crítico, não atribuindo diretamente a ele a causa para a conformação de uma lógica cultural única capaz de “sintetizar” aquilo que seriam os baianos. Ainda no que tange à idéia de “enigma”, Moura (2001, p. 123) vê aí, na própria adoção desse termo, a operacionalização de uma lógica que visa esconder as reais causas para o marasmo econômico da Bahia. O uso do termo “enigma” pelas elites baianas é um demonstrativo da busca por esconder que os motivos dessa estagnação econômica são, na verdade, decorrentes da falta de um projeto político consistente que equiparasse o Estado aos avanços do sistema capitalista mundial e ao desenvolvimento tecnológico da própria economia brasileira. Deste modo, a atividade turística, como nos lembra Silva (2004), que já vinha sendo acalentada como alternativa econômica para o Estado desde o início dos

ensaísta, “[

]

38

anos de 1950, momento pelo qual o Estado passa por um surto de industrialização, passaria a ter um papel de destaque ao impulsionar economicamente regiões como Salvador. Nota-se mais uma vez como a esfera econômica está diretamente imbricada com a dimensão cultural, sobretudo no que tange às políticas públicas para turismo e cultura. Essa política cultural de preservação do patrimônio oriunda do Governo Federal na década de 1960, associada ao desenvolvimento econômico de certas regiões, tinha como um dos objetivos forjar uma “personalidade brasileira”, discurso adotado já antes pelo presidente Juscelino Kubitschek ainda nos anos de 1950. Novamente, nos deparamos com essa permanente busca por delimitar uma “cultura nacional“, um “patrimônio nacional”. A busca por uma “identidade nacional” teve, como já vimos, fortes repercussões para a valorização dos regionalismos culturais, na medida em que essa cultura nacional seria também resultado de uma maior evidência de traços culturais “típicos” de nosso povo 24 ·. Vejamos como isso impulsionou, agora de forma mais detalhada, a ascensão de um modus vivendi tipicamente baiano entre as décadas de 1950 a 1970. Ressalta-se mais uma vez que essa contextualização se fará agora sob a ótica das ações governamentais, visto que os suportes estéticos e acadêmicos já foram alvos de análise, e, apesar de a gênese desses processos estéticos remontarem à década de 1930, os mesmos ainda repercutiam em vários setores da sociedade após a segunda metade do século passado. Com o intuito de objetivar a análise das ações governamentais referentes à questão da cultura concernentes ao período acima delineado, buscar-se-á mostrar como ações desencadeadas pelo Governo Federal, em associação com alguns intelectuais brasileiros, fomentaram a emergência de mais um elemento passível de ser acionado pela lógica da baianidade: o mito da democracia racial. O mito da democracia racial já havia sido, de certo modo, preconizado por Gilberto Freyre na década de 1930, na medida em que o intelectual via com ares positivos o encontro das três “raças” no Brasil, chegando mesmo a considerar o nosso país como um “paraíso racial”. Entretanto, Freyre não estava sozinho, visto

24 Um documento emblemático para ilustrar essa tendência em conceber a cultura nacional em espaços regionais é o Compromisso de Brasília, resultado de um encontro que congregou governadores, secretários de educação, prefeitos e representantes de entidades culturais de todo país. Desencadeado pelo Ministério da Educação, em 1970, esse acontecimento foi de suma importância para estimular a exposição, em espaços regionais, de elementos culturais capazes de cunhar uma “consciência nacional” (SANTOS, 2005, p. 83).

39

que uma gama de intelectuais, nas décadas seguintes, corroboraria a existência dessa idéia, dentre os quais figuram Josué de Castro e Thales de Azevedo. Este último é especialmente importante em função de sua tese sobre a hierarquia social baiana subdividida em três estratos, a qual ajudou a camuflar, como nos lembra Santos (2005, p. 13), a discriminação racial. Mas, como o mito da democracia racial se vincula efetivamente com a lógica da baianidade? Em primeiro lugar, expliquemos o que significa este mito. O Brasil, diferentemente dos EUA em que subsiste ainda hoje uma lógica racial binária – negros x brancos –, ao ter na miscinegação uma característica da própria empreitada colonial, passaria a ter, dentro desse processo de construção da “cultura nacional”, a figura do mestiço como ícone, por natureza, do brasileiro legítimo. Associada à questão da mestiçagem, que é um fato, a utilização dessa característica singular no processo de formação social do Brasil, por parte dos governantes, culminou em uma idéia disseminada em grande parte do tecido social: de que no Brasil não há preconceito de cor, já que aqui todos seriam descendentes de negros, índios e europeus. Em segundo lugar, lembremos que ainda na década de 1950, na esteira das contribuições de Freyre e Jorge Amado 25 , dentre tantos outros, continuava em voga no Brasil o projeto de consolidação de nossa “identidade nacional”. Para tanto, era preciso trazer à tona a herança negra na formação cultural de nosso povo, na medida em que a inserção do elemento afro era fundamental para atestar a coexistência harmônica das três raças dentro do processo de formação cultural do Brasil. Esta valorização gradativa da população negra será a matriz para que, ao mesmo tempo em que se reafirma o mito da democracia racial, se edifique também uma suposta cultura típica baiana fortemente calcada no substrato oriundo da cultura afro. Ao analisar a associação entre a Bahia e o Brasil, em termos institucionais, Silva (2004, p. 30) alerta que ambos buscavam nesse período configurar

25 Apesar de Jorge Amado ter sido alvo de nossa análise na seção anterior, é importante reforçar que a sua contribuição para a consolidação de uma cultura tipicamente baiana não se circunscreveu às décadas de 30 e 40. Pelo contrário, pois, como afirma Pinho (1998) ao dividir a obra de Jorge Amado em dois momentos – 1934-1958 e 1958 até atualmente –, a produção amadiana, em sua segunda fase, é voltada para “festiva polifonia de estereótipos baianos”, com ênfase para a obra Gabriela Cravo e Canela (1958) (idem, p. 9).

40

representações da cultura oficial tendo como matriz comum a questão da cultura negra. Nas palavras da autora:

Trata-se da própria postura do governo brasileiro, assim como do governo baiano, que desde os anos de 1950, e ainda mais explicitamente nos anos de 1960 e de 1970, investem em esforços na produção de uma “cultura afro- brasileira” que, desde que abrigada no domínio do folclore, é importante na produção de uma “cultura nacional”, de uma “cultura brasileira”, que reflita a nação “misturada” e sem “preconceitos raciais”.

Alguns acontecimentos relevantes ainda na década de 1950 reforçam a tese dessa associação entre Estado e intelectuais em prol da “cultura nacional”. Em 1959, se deu a fundação, por parte de Agostinho Silva, do Centro de Estudos Afro- Orientais (CEAO) da UFBA. Além disso, o anseio do governo federal por uma afirmação brasileira referente às relações internacionais levou o mesmo a valorizar e a reforçar os traços culturais negros vigentes em nossa sociedade com o intuito de referendar o mito da democracia racial, visando assim a uma maior articulação econômica com países africanos. Interessante notar que, apesar dessa busca por uma unidade representacional do brasileiro composta pelas três raças ter sido um projeto de longa data, há, a partir da década de 1950, um maior investimento do Estado nesse projeto, por intermédio de

políticas públicas, cujo leitimotiv é a convivialidade racial como matéria- prima na implementação dessas políticas, tanto em termos políticos e econômicos quanto culturais stricto sensu (SANTOS, 2005, p. 20-21).

[

]

Ainda na década de 1960, e retornando à figura de Agostinho Silva, o mesmo pode ser visto como um articulador dessa guinada na política externa do Brasil em direção ao continente africano, na medida em que ele teve papel de destaque na reestruturação das relações diplomáticas brasileiras com países da África no governo Jânio Quadros. Este herdou de seu antecessor, Juscelino Kubitschek, a concepção de que o Brasil poderia e deveria, em função de seus vínculos ancestrais com a África, desempenhar um papel de destaque no intercâmbio entre os continentes africano e sul-americano. Assim, visando dividendos econômicos – superávit na balança comercial – e políticos – reafirmar o seu papel de liderança entre os países subdesenvolvidos no que tange à política externa – o Brasil se lança, na década de 1960, em direção à África, embora desde o governo de Juscelino (1956-1960) existisse uma pró- atividade maior do país concernente aos assuntos daquele continente, no sentido de

41

apoiar a independência daquelas nações coloniais, além, é claro, de reconhecer o legado cultural advindo da África para o processo de formação da “identidade nacional brasileira”. Foi o próprio Juscelino que afirmou que:

Orgulhamo-nos de agora proclamar isto, do muito que devemos aos que

vieram um dia da África para participar do engrandecimento deste país. Reconhecemos a contribuição do sangue negro para a formação do povo

brasileiro, como dele nos orgulhamos. [

região africana, e cujos descendentes são nossos irmãos patrícios iguais

aos de qualquer outra cor ou de origem, durará enquanto durar o povo brasileiro (apud SANTOS, 2005, p. 33).

Nossa dívida com os oriundos da

]

Assim, a política externa brasileira passou, a partir daquele momento, a se calcar fortemente no ideal, reforçado por teóricos como Ignácio M. Rangel e Josué de Castro, que há um vínculo por demais forte entre o Brasil e a África. A questão racial, como ordem do dia nas relações externas brasileiras, impulsionou o estreitamento das relações políticas e econômicas com a África, sobretudo ao se ter em mente que seríamos o país mais africanizado fora do próprio continente africano. Deste modo, essa valorização do fenótipo negro implicou automaticamente em uma mudança de postura referente às políticas culturais então em voga no Brasil. É razoável conceber, desta maneira, que o papel da Bahia dentro desse processo de valorização da cultura negra no país seria fundamental. Além de uma política externa cada vez mais “preocupada” com a África, havia concomitantemente no Brasil uma política cultural fortemente imbuída pelo ideal da preservação do patrimônio cultural do país, mas, agora, de uma maneira mais holística, na medida em que o foco não estava somente nos monumentos propriamente ditos. As manifestações culturais do “povo”, em especial aquelas de origem afro-descendente, seriam, a partir daquele momento, levadas em conta sob a ótica dessas ações governamentais. O turismo começava então a despontar como alternativa não só econômica, mas até mesmo como meio para assegurar a preservação de sítios históricos de natureza única. Importante ressaltar que a atividade turística na Bahia, quando vinculada às manifestações culturais negras, teve seu início ainda na década de 1950, época em que o candomblé já tinha assegurado um novo status: “de prática de origem africana perseguida pela polícia para símbolo da Bahia” (SILVA, 2004, p. 45). O candomblé tornava-se, assim, o ícone, por excelência, da “cultura baiana”, ou mesmo da “cultura brasileira”. E o turismo, ao se aportar em manifestações culturais

42

de matriz negra, incentivava a valorização das mesmas, desde que essas fossem percebidas como algo da Bahia e, no fundo, do próprio povo brasileiro. Necessário se faz frisar que a valorização da cultura negra, feita por parte do Estado, não foi algo isolado. Uma parte da população negra de Salvador, desde a década de 1960, já vinha se organizando para demarcar sua diferença. Isso pode ser visto com a criação dos blocos de índios, que alguns autores consideram como os precursores dos blocos afro, instituídos nas décadas de 1960 e 1970, período em que se deu o processo de reafricanização do carnaval de Salvador. Evocamos esse dado aqui para ilustrar que esse processo de emergência da cultura negra no cenário nacional, e também baiano, deve ser percebido muito mais como uma mistura de fluxos ou movimentos, do que tido sob a ótica de uma linearidade – que implica o paradigma de causa e efeito. Voltaremos logo adiante a essas questões, em especial, o movimento de reafricanização do carnaval soteropolitano. O fato mais marcante na década de 1960, momento em que se visualiza uma maior valorização da cultura negra, e que é intensificada visando diferentes fins pelos diversos atores envolvidos – movimento negro, Estado, artistas –, é a natureza do próprio processo de valorização, na medida em que as diversas ações partem tanto dos afro-descendentes mais pobres de Salvador quanto do Estado Nacional. Tanto as políticas públicas quanto as subjetividades dos indivíduos estão inseridas em um contexto mais abrangente de valorização do afro, momento em que o movimento rastafari e o reggae, bem como a soul music americana e o movimento de independência de países africanos alcançam grande notoriedade e, sobretudo, repercussão no Brasil, influenciando aqui a subjetividade da população negra ao longo do processo de valorização da negritude do país, em especial em Salvador e no Rio de Janeiro. Todos esses fluxos agenciavam-se uns aos outros no Brasil em uma espécie de rede e repercutiram contundentemente no processo de reafricanização do carnaval soteropolitano (SILVA, 2004, p. 21-22), assunto que irá nos deter na próxima seção. Na próxima seção, este trabalho irá mostrar como esses movimentos – estéticos, políticos e econômicos – afetaram a subjetividade da população negra, bem como foram afetados por ela, favorecendo assim não só um crescente orgulho de ser negro, mas favoreceram acontecimentos como o próprio movimento de reafricanização do carnaval de Salvador. Este debate é particularmente caro à questão da baianidade, pois, como já foi constatado, a valorização de manifestações

43

culturais afro-descendentes, em que pese o papel do carnaval soteropolitano, propiciou que essas mesmas manifestações, primeiramente de essência eminentemente “negras”, alcançassem um estatuto “oficial”, isto é, passassem a usufruir da insígnia de manifestações “baianas”, ou mesmo “brasileiras”.

1.3 A Baianidade enquanto construção do trade turístico

A construção da idéia de baianidade continuaria, a partir dos anos de 1970,

mediante outros termos. É importante frisar que essa divisão temporal que tem a década de 1970 como referência não exclui a produção posterior a essa data de outros suportes estéticos – música, literatura, artes plásticas – que contribuíram para forjar a idéia de uma cultura tipicamente baiana. Entretanto, há, naquele momento, algumas particularidades para o delineamento de uma idéia de “cultura baiana” que não podiam ser observadas anteriormente, como: i) reafricanização do carnaval soteropolitano; ii) associações entre os afoxés e os blocos afro com a elite política da Bahia, capitaneada por Antonio Carlos Magalhães, que, se favoreceu uma maior visibilidade das manifestações afro-brasileiras, acabou por circunscrevê-las em um aparato governamental que colaborou para a conversão do patrimônio cultural negro em patrimônio cultural – e oficial – baiano; iii) ascensão do turismo como vetor econômico relevante para Salvador e fortemente calcado nos atrativos culturais de matriz negra; iv) a costura de todo o legado estético/artístico oriundo da música, literatura e artes visuais pelo trade turístico soteropolitano. Esses acontecimentos, e é importante destacar até pelo fato de ocorrerem concomitantemente, devem ser entendidos como fluxos que se entrecruzavam, um colaborando para a conformação do outro. Novamente a divisão visa a favorecer uma exposição mais clara, antes de analisar cada aspecto de maneira compartimentada. Obviamente que muitas matrizes da baianidade remontam a um passado mais longínquo, entretanto, a década de 1970 é pródiga em acontecimentos – como

a ascensão do turismo em Salvador e a substancial quantidade de políticas públicas

no setor do turismo e da cultura – que viriam a colaborar para a sedimentação dessa “lógica identitária”. Sedimentação no sentido de que a lógica da baianidade passaria,

pelo menos por parte do poder público, a ser assumida com grande recorrência com

o intuito de ser usada para sintetizar o que seria a Bahia.

44

Uma pequena amostra dessa consideração pode ser extraída da revista soteropolitana Turismo, realidade baiana e nacional, publicada nos anos de 1970. Segundo uma matéria do periódico, o “jeito de ser baiano” se resumiria no

povo e seus cantares. O ritmo lento que invade corações agitados e

acalma. A doçura que ocupa os espaços vagos da conturbação geral. A

sensualidade livre não inteiramente atingida pela cultura do ocidente.

Herança, entre outras, do negro viver africano. [

discreta, como a capoeira que não agride. Mas resolve. “Capoeira, meu filho, é ginga, é malícia, é tudo que a boca come” (Pastinha, mestre de vida e capoeira). E a comida, feita com o ouro líquido do dendê. Dividida delicadamente em pequenos pedaços de civilização: acarajé, abará e doces sem dendê, mas com muito coco e açúcar (apud SANTOS, 2005, p. 88).

A malandragem sábia e

] [

]

E a valorização da cultura negra poderia ser concebida como um estágio intermediário para a constituição de uma cultura baiana, tal como apresentado na mesma revista:

O contágio é tanto que não há aquele que não retorna na primeira oportunidade. Aí, então, é que reside o grande mérito e sucesso da Bahia como centro de atração turística, pois raramente o turista é induzido a revisitar um mesmo local. Na Bahia o turista se vê envolvido por encantos que o entrelaçam ao povo baiano. O enfeitiçamento é grande e maior ainda a sensação de ter encontrado algo de si, alguma coisa de sua vida íntima. O fenômeno é inexplicável. Sabe-se apenas que na Bahia todos se comunicam e se identificam mutuamente, de maneira bem simples e com bastante afetividade (apud SANTOS, 2005, p. 89).

Passemos agora para a análise de processos e movimentos ocorridos a partir da década de 1970 e que, posteriormente, acabaram por favorecer que a cultura afro fosse aos poucos, segundo a ótica do trade turístico, sendo menos negra e mais baiana.

1.3.1 Reafricanização do carnaval de Salvador

Um fator que contribui para a consolidação de uma suposta “cultura baiana” com fortes alicerces na negritude foi o processo intitulado reafricanização do carnaval de Salvador. Não é nosso objetivo detalhar esse processo, nem mesmo pormenorizar as variantes internas e externas que possibilitaram esse movimento que atingiu seu auge no carnaval soteropolitano na década de 1970. Deseja-se aqui elencar alguns pontos relevantes para ilustrar como a reafricanização do carnaval de Salvador participa da constituição da idéia de baianidade.

45

Primeiramente, o processo de reafricanização 26 não deve ser entendido como algo circunscrito somente ao carnaval soteropolitano. Antes disso, o seu lastro de alcance é considerável, na medida em que esse processo “tomou conta da cidade de Salvador nos anos de 1970 e de 1980. Nesse período, ou mesmo anteriormente a ele, surgiram inúmeros grupos de teatro, de dança ou grupos folclóricos cuja temática era o candomblé” (SILVA, 2004, p. 45). Esse processo chamado de reafricanização deve ser visto dentro de uma lógica mais ampla: a de que a partir da década de 1970, vários movimentos sociais que não tinham seus anseios atendidos pelo Estado organizaram-se demandando seus direitos. É o caso dos afrodescendentes – fossem eles institucionalizados ou não – que, a partir das influências recebidas dos movimentos de independência africanos, dos movimentos negros norte-americanos Black Power e soul music, do reggae e do rastafarianismo e movimentos da contracultura – hippie, rock etc. –, juntamente com fatores internos – ascensão do candomblé, criação de afoxés, vigência dos blocos de índio, impulso econômico da região de Salvador pós-1950, crescente organização do movimento negro –, afirmariam de vez o orgulho de ser negro. E consolidariam isso ao se assumirem no carnaval soteropolitano por intermédio dos blocos afro (SILVA, 2004). Todos os movimentos acima citados, em especial aqueles de alcance nacional fazem parte da proposta de diferenciação da população negra no interior da sociedade brasileira. Naquele momento, como ainda hoje, “ser negro trazia problemas específicos e, portanto, exigia também direitos específicos” (p. 27). Assim, a busca por distinção por meio da assunção de uma especificidade – a herança africana – trouxe à baila não só um crescente interesse pelo continente africano nos anos de 1970 e de 1980, mas reforçou a implementação de um conjunto de práticas, tais como a criação de afoxés, a formação dos blocos afro e a criação de organizações que buscavam defender os interesses dos negros. Mas, ironicamente, esse movimento – a reafricanização do carnaval de Salvador – que consolidaria um conjunto de práticas e agenciamentos – estéticos, políticos, econômicos e religiosos – que buscava a diferenciação do negro foi, logo em seguida, utilizado justamente para inserir a cultura negra dentro de algo mais

26 O termo reafricanização é utilizado por Risério porque “a presença maciça dos afoxés e dos blocos afro nas ruas de Salvador no carnaval o fez lembrar uma antiga afirmação de Nina Rodrigues, de que ‘a festa brasileira é ocasião de verdadeiras práticas africanas’” (RISÉRIO apud SILVA, 2004, p. 32), referindo-se aos carnavais do início do século XX.

46

“abrangente”: a cultura baiana. E, no que diz respeito ao carnaval, como veremos a seguir, esse movimento é nítido. Milton Moura (2001) vislumbra no carnaval soteropolitano reafricanizado a síntese das categorias constituintes do texto identitário da baianidade, a saber: a unanimidade – evento de todos, independente da classe social ou origem –, a familiaridade – temáticas carnavalescas de diversas origens e gradações – e a religiosidade – culto aos artistas e entidades partícipes da trama carnavalesca. Além disso, uma quarta categoria da baianidade, a sensualidade, estaria vinculada à negritude, como um elemento fundamental do padrão de beleza do “autêntico” baiano. Moura deixa clara a importância do carnaval para a noção de baianidade:

Ora, quem passa aí como a grande atração do Carnaval não é esta ou aquela entidade; tampouco é este ou aquele modelo organizativo. É o próprio arranjo civilizatório que o texto da baianidade procura organizar espetacularmente como razoável e amável. Inicialmente, esse texto se apresenta como dramático e fortemente marcado pelo elogio da unanimidade: o Carnaval é a festa de todos os baianos e de todos os

Além disso, o texto do Carnaval apresenta os baianos aos

turistas [

baianos como pessoas felizes, familiares, alegres, sensuais, de bem com Deus e com os outros. Tudo pode se reconfigurar no espaço do Carnaval, de modo que os diferentes vetores podem atuar no mesmo campo que é a festa. O afro logrou legitimar um determinado padrão de beleza negra, mediante um acordo tácito com as oligarquias que detêm o controle dos aparelhos político-institucionais (p. 244-245).

]

Em suma, o que se quer evidenciar aqui é que o processo de reafricanização do carnaval, ao afirmar o peso dos afro-descendentes para a conformação desse grande evento, colaborou para que a própria festividade se tornasse um substrato privilegiado na lógica da baianidade. Se, em um primeiro momento, o carnaval era visto como uma manifestação cultural vinculada à negritude, o evento soteropolitano, passaria, cada vez mais a ser uma espécie de flâmula dos baianos. Aqui, a lógica de domesticação do patrimônio cultural negro ao ser transformado em patrimônio cultural baiano – o que implica a mestiçagem – é recorrente. Embora Risério afirme que “foram exatamente os pretos que deram as características originalmente básicas ao carnaval baiano” (1981, p. 48), é preciso nos indagar acerca de que signos ou símbolos estão majoritariamente presentes no carnaval soteropolitano na contemporaneidade. Seriam os afoxés ou os blocos afro? Até pode ser, mas, parece pouco razoável negar que o carnaval soteropolitano hoje não tenha como imagens- força privilegiadas os trios elétricos, o axé e o pagode baiano, mesmo que compareça aí o elemento negro, normalmente associado à questão da

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sensualidade. O que importa é que o carnaval contemporâneo de Salvador, ainda que privilegie hoje menos a matriz negra e mais a mistura quando em comparação com a década de 1970, por exemplo, pode ser tido, juntamente com o produto “Verão”, como o maior captador do montante financeiro deixado por turistas no Estado, como assinala Castro (2005).

O que se afirma aqui não é novo, diga-se de passagem. Risério (1981), já na

década de 1980, alertava para o enquadramento e neutralização das entidades negras frente à estrutura carnavalesca proposta pela Bahiatursa naquela época. A domesticação do fenômeno negro se deu a partir da regulamentação dos desfiles dos blocos afro, isto é, houve a inserção dos mesmos em todo o aparato

carnavalesco oficial. É o que comenta o próprio autor:

Esta inserção dos blocos afro-brasileiros na estrutura oficial do carnaval, a Bahiatursa conseguiu não só disciplinar o fenômeno, adquirindo uma certa ascendência e um certo controle sobre ele, como, além disso, logrou estabelecer um vínculo, ou, mais precisamente, forçou os blocos afro a estabelecerem um vínculo com ela (p. 121).

De certo modo, já adiantamos aqui o tema do próximo tópico do presente trabalho, que visa pormenorizar algumas implicações do domínio da política sobre o domínio da cultura na Bahia, colaborando, assim, para que a cultura afro, ao se associar a instituições e políticos baianos, acabasse por favorecer que a “cultura baiana” sobrecodificasse a cultura negra.

A partir dos anos de 1970, os órgãos governamentais de turismo passariam a

se legitimar e, de certo modo, a centralizar as imagens de várias agremiações da cultura negra apresentadas aos turistas. Ou seja, as imagens dos blocos e dos terreiros de candomblé para o turismo teriam de, necessariamente, passar por uma “filtragem” da Bahiatursa. Mais do que nunca, estariam dados os termos para o abrandamento da cultura negra, ao consubstanciá-la como baiana por meio da ação pública, mormente pela atuação da autarquia estadual de turismo. Neste sentido, Santos (2005) assinala que, nessa época, a Bahiatursa deu farta notoriedade ao candomblé, algo que pôde ser observado tanto na “elaboração de cartazes que mostravam filhas-de-santo incorporadas pelos orixás, quanto na divulgação do calendário litúrgico dos terreiros” (p. 87). São imagens dessa natureza que ajudariam a consolidar a idéia de um “jeito tipicamente baiano de ser”.

48

1.3.2 A negritude e a política

A influência da política na arena da cultura na Bahia é de longa data e presente em praticamente todo o movimento de valorização da cultura negra. Não

somente as agremiações carnavalescas negras foram afetadas por essa repercussão do domínio da política, mas também o candomblé e a capoeira. Lembremos que ainda no final da década de 1970 estava presente a própria idéia de democracia racial que antes abafou do que extinguiu o preconceito racial no Brasil, cujas conseqüências podem ser vistas ainda hoje com a permanência da concepção de que não há preconceito de cor, e sim de classes. Bahia, no domínio da cultura, desde o final da década de 1960, uma proeminência do papel do estado, em especial representado pela Bahiatursa após 1972. E esta se tornou ainda mais significativa a partir de 1995, quando o governo estadual instituiu uma secretaria conjunta para turismo e cultura - SCT -, o que denota a importância estratégica que

a cultura possui para o Estado (BARBALHO, 2004), não só como um recurso econômico, mas também como um recurso simbólico de grande valia.

Santos (2005) apresenta sucessivos eventos vinculados ao candomblé em que se pode perceber o quanto certas manifestações afro-brasileiras passaram a receber a atenção de políticos estaduais. Destaque para o aniversário de cinqüenta anos de liderança de Mãe Menininha no Terreiro do Gantois, em fevereiro de 1972,

e que contou com a participação de várias personalidades políticas, como Antônio

Carlos Magalhães. Ainda segundo Santos, as relações entre políticos e o candomblé se notabilizaram pelo fato de que o culto religioso afro deixava de ser alvo da perseguição estatal e passava a ser veiculado, de forma positiva, pelas autoridades políticas do Estado, sobretudo como ícone da cultura negra, visando, assim,

reafirmar o diferencial turístico da Bahia. Ora, para vislumbrar esse vínculo entre políticos e candomblé, basta nos lembrarmos de como o ex-senador Antônio Carlos Magalhães se notabilizou por relacionar a sua imagem aos terreiros e aos blocos afro. Foi ele que, ao criar a Bahiatursa em 1972, colaborou para que a autarquia de turismo estadual tivesse

como uma de suas incumbências a busca por zelar pelo patrimônio cultural advindo dos negros na Bahia, com destaque para o candomblé. Nos anos de 1970, portanto,

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ser uma ‘imagem força’, sintetizando todo o ‘ser baiano, as raízes profundas da cultura e do povo da Bahia” (SANTOS, 2005, p. 132). Outro exemplo dessa conversão de manifestações culturais afro- descendentes em “imagens força” da cultura baiana é a capoeira. Tida como ícone da brasilidade e elevada como esporte nacional em 1973 pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), órgão vinculado ao Ministério da Educação e Cultura, a capoeira seria adotada pela polícia militar da Bahia ainda na década de 1970 (SANTOS, 2005, p. 119). Entretanto, o que chama a atenção é a diferenciação feita entre a capoeira angola e a capoeira regional, sendo essa última a privilegiada nos quartéis. Essa institucionalização de uma capoeira que primava pela mestiçagem, além de contribuir para a idéia de brasilidade, colaborou para o abrandamento do legado cultural negro, pois a manifestação cultural, no caso a capoeira, seria designada como algo “brasileiro” (p. 118), “baiano” ou “mestiço”, e não essencialmente negro. E não só isso. O estímulo dado pelo governo estadual ao incentivar a capoeira como manifestação folclórica, visando agregar valor turístico ao Estado, é mais uma mostra da interferência estatal na seara da cultura. Contudo, o vínculo entre cultura e política se dá de forma dialógica, isto é, há certa pró-atividade também das entidades negras em relação ao domínio da política instituída. Exemplo disso é o fato de que o próprio Ilê Aiyê, segundo Moura (2001, p. 230), manteria boas relações com a burocracia governamental. A imbricação, ao se estudar a baianidade, entre política e cultura é de tal ordem relevante que, em todas as análises, em especial a de Pinho (1998), se percebe que o domínio político comparece como esfera proeminente para a conformação de uma “lógica identitária baiana”. Segundo o próprio autor,

Esta ideologia é tanto a base para a construção de um consenso político com vistas à dominação, como a base para a reprodução de uma multiplicidade de bens simbólicos, negociados no mercado internacional da cultura (p. 4).

Dito isso, pode-se depreender que a existência de uma “cultura baiana” se inscreve em toda uma lógica política singular que, tal como defendem Melo e Procópio (2005, p. 4), estaria associada ao carlismo e a todo o aparato

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comunicacional 27 vinculado à figura do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. A idéia de uma Bahia como Land of Hapiness 28 , ou do baiano como um sujeito “festivo, alegre e cantante”, largamente divulgada pelos meios de comunicação 29 , é interessante para essas instituições políticas, já que essas imagens minimizam a percepção da pobreza, da violência e da desigualdade social vigentes em boa parte, não só em Salvador, mas do próprio Estado. Além disso, a forte presença do poder público na seara da cultura, em especial a negra, contribui para a formação de uma imagem de políticos preocupados com as demandas do povo. A criação de um Centro Folclórico vinculado à Prefeitura Municipal de Salvador e que buscava incrementar o fluxo turístico no final dos anos de 1960 é mais um exemplo desse esquadrinhamento das manifestações culturais negras realizado pelo Estado, as quais eram entendidas, naquele momento, como folclóricas. O quê se quer destacar aqui é a grande ingerência do poder público sobre a cultura negra em Salvador, que acabou por favorecer a que esse patrimônio cultural negro fosse transmutado em baiano. Pergunta-se, então: quais são os interesses do Estado, ao legitimar uma gama de imagens-força, antes dos negros, agora dos baianos, ao referendá-las como ícones da baianidade? Ao tomarmos as indagações de Santos (2005) acerca das motivações pelas quais se deram as ações oficiais que envolviam o candomblé, por exemplo, notamos, em uma dimensão mais abrangente, que

são mais os dividendos políticos que econômicos o que está em jogo. A

tradição, nesse sentido, relaciona-se ao discurso do poder, na medida em que as instâncias oficiais, ao defenderem a pureza dos candomblés, simbolicamente, criam um lugar de reconhecimento daqueles que, aos seus olhos, também são imbuídos de poder. Nesse sentido, eu diria que em nível oficial se estabeleceu um lugar para aqueles que detêm um poder cultural.

(p. 154-155).

] [

27 Nesse contexto, Pinto (2003, p.5) considera que a partir da década de 1970, além do setor turístico e fonográfico, o setor midiático passa a compor uma tríade responsável por potencializar a questão da baianidade.

28 Mote adotado pela Bahiatursa, ao longo da década de 1980, para publicizar a Bahia no mercado internacional.

29 Um aparato comunicacional privilegiado da indústria cultural baiana, a Rede Bahia, e que controla as afiliadas da Rede Globo no Estado é pertencente ao grupo outrora capitaneado pelo ex-senador Antonio Carlos Magalhães.

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E, para referendar a tese de Santos, evocamos mais uma contribuição para estabelecer a relação entre política e cultura em Salvador, porém sob a ótica do carnaval:

Em contrapartida, esse grupo político [oligarquia política baiana coordenada por Antônio Carlos Magalhães] logrou consolidar, também pela via do Carnaval, uma hegemonia singular, mantendo-se no poder quase ininterruptamente. A força dos arranjos familiares, dos ambientes simples e domésticos às esferas de grande magnitude, se faz sentir na partilha das

vantagens institucionais. Convites e oportunidades, financiamentos e apoios logísticos, homenagens – reiteradas homenagens! –, tudo contribui para reforçar a velha teia do patriarcado baiano, marcadamente personalista.[ ] A colegialidade desse perfil costura a coesão e solidez dessa teia patriarcal de cima para baixo e de baixo para cima. Não vejo o que poderia ser mais

identificável com o texto da baianidade

(MOURA, 2001, p. 246).

Deste modo, podemos retomar uma colocação de Pinho (1998) já mencionada neste trabalho quando o autor considera que a lógica da baianidade tem um objetivo político claramente definido. Ou seja, é simplista afirmar que essa visão naturalizada da cultura baiana seja eminentemente mercadológica. Até porque, como vimos, os principais atores sociais que formataram essa concepção identitária são agentes públicos. E o turismo, o que ganhou? Bem, não sabemos exatamente até que ponto a representação de uma “cultura tipicamente baiana” contribuiu para uma renda turística alcançada em 2004 da ordem de US$ 2,37 bilhões 30 , em que pese o papel de Salvador, mas que foi um fator considerável para isso, parece não haver dúvidas. Analisemos agora como a ascensão dessa prática econômica favoreceu bem como foi beneficiada pela idéia de baianidade.

1.3.3 Ascensão do turismo

Como já vimos, no final da década de 1960 e início da década de 1970, ocorria um amplo debate acerca da necessidade de preservação do patrimônio histórico-artístico do Brasil, que na Bahia teve como ponto primordial a restauração e preservação do Pelourinho. Essa concepção preservacionista foi estendida para o domínio imaterial da cultura baiana, ou seja, a preservação do “modo de vida tipicamente baiano”: a baianidade. A lógica estatal se resumia em

30 Dados da Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia. Disponível no site:

< http://www.sct.ba.gov.br/estatisticas/analise_desempenho.asp>. Acessado em: 15 de jun. 2007.

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provar que o turismo, ao invés de ameaçar a cultura pode se constituir

num fator de preservação e estímulo às artes, ao artesanato, ao lazer e mesmo à vivencia baiana. Para isso era necessário uma ‘tomada de consciência’ do cotidiano baiano (SANTOS, 2005, p. 90-91).

] [

A afirmação de uma “concepção identitária” na Bahia surge intimamente ligada à preservação do patrimônio, à busca de símbolos culturais, como o

Pelourinho, capazes de unir o projeto político-ideológico de nação e o turismo. Aliás,

é na década de 1970 que ocorre em Salvador a profissionalização da indústria

turística associada ao florescimento dos meios de comunicação de massa e à ascensão do carnaval (PINHO, 1998, p. 4). As políticas públicas para o turismo implementadas pelo governo estadual passam a vincular o destino Bahia a um tipo específico de leitura da cultura: a baianidade. As ações estatais passariam a se fazer valer de algumas manifestações culturais vigentes em Salvador como forma de afirmar a existência de uma vivência diária da cultura baiana, algo tido como um importante atrativo turístico. Essa concepção de uma “cultura natural da Bahia” é muito explícita nos discursos do trade turístico da época. Não poderíamos nos furtar

a expor, apesar de longas, as considerações de Gaudenzi, uma figura política emblemática para a formatação da idéia de baianidade:

Na Bahia e, especialmente em Salvador, as manifestações culturais, os elementos históricos e a paisagem associam-se para criar um encanto e um potencial turístico de alta qualidade. Convém ressaltar que a sua força de atração manifesta-se inseparadamente do seu povo, na sua tradição e nos seus bens culturais e paisagísticos.

O seu povo e os que a visitam vivem e consomem essas tradições

populares, paisagens e monumentos. Assim, desde que essa característica

se apresenta, também, como uma potencialidade turística, é necessário

preservá-la, aperfeiçoá-la e promovê-la para que se fortaleçam, como conseqüência, a curiosidade e o interesse dos visitantes.

Diante da possibilidade de certas atitudes provocadas pelo cosmopolitismo e outras manifestações, tomadas em nome do turismo, possam vir a desvirtuar as manifestações culturais, especialmente populares, e comprometer o acervo de monumentos e o paisagístico, cabe a todos os baianos e, em particular, ao poder público, ações de proteção desses valores. A Bahia será acolhedora e bela, enquanto o seu povo viver, coexistindo com seus dotes culturais e naturais (GAUDENZI, 1977 apud PINTO, 2006, p. 21).

Enriquecedor notar que a baianidade, mesmo que entendida sob diferentes formas e fins, continua a ser acionada hoje pelo turismo como uma síntese da cultura baiana, sobretudo em Salvador e na região do Recôncavo, como mostram as análises de Pinto (2001, 2002, 2003), Pinho (1998), Barbalho (2004) e Moura (2001).

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A própria figura de Gaudenzi, ao ocupar até recentemente um cargo de relevância no âmbito turístico estadual, nos dá uma mostra de que determinada concepção política ainda esteve presente até recentemente nas políticas de cultura e turismo na Bahia 31 . Se a idéia de baianidade surge no bojo de ascensão do turismo na Bahia, nunca mais os dois vetores se dissociariam. Não se pode compreender as políticas públicas desencadeadas pela Bahiatursa sem levar em conta a propagação de uma “ecologia da baianidade” (PINTO, 2006, p. 10) que associa o carnaval, a música, a literatura, as artes visuais, o turismo de massa e a comunicação de massa, na medida em que desde a década de 1970, como lembra Santos (2005, p. 94), há um “viés político sobre a cultura afro-brasileira”. Algo relevante para o qual chamamos a atenção é referente ao fato de que, se a prática turística realizada atualmente no Estado, sobretudo em Salvador, aciona elementos da baianidade, pode-se depreender também que o próprio turismo passou a ser um dos elementos constituintes dessa noção, pois essa lógica representacional da cultura visa justamente atingir turistas em potencial e sua retroalimentação depende, em grande parte, do êxito do setor turístico. Mais do que discursos e representações dos próprios baianos para si mesmos, a noção de baianidade é algo que está intimamente ligada aos outros, os turistas. É preciso trazer à tona, no entanto, que esse processo de turistificação de manifestações culturais afro-descendentes em Salvador não foi um processo isento de conflitos. Por um lado, na medida em que as políticas públicas de turismo, sobretudo da década de 1970, visavam a aumentar sua ingerência sobre o candomblé e a capoeira, e que uma parte das pessoas vinculadas a esses setores apoiou o incremento turístico propiciado por essas manifestações culturais, por outro lado, temos notícia de um importante movimento de oposição dentro desse mesmo contexto. Isso é particularmente visível no terreno do candomblé, visto que o estímulo dado pelo Estado, por intermédio da Bahiatursa, para uma maior notoriedade das religiões de matriz africana como atrativo turístico baiano, desencadeou reações entre lideranças intelectuais e religiosas, causando cisão entre os próprios terreiros,

31 A ruptura com sucessivas administrações de partidários do ex-governador Antônio Carlos Magalhães se deu no início de 2007 com a vitória do candidato de oposição ao governo do Estado, o petista Jacques Wagner.

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que se autodenominavam e se acusavam mutuamente como “sérios” e os candomblés “para turista ver” (SANTOS, 2005, p. 135). Edson Nunes, vice- presidente do Centro de Estudos Etnográficos e do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, chegou a dizer que a abertura de candomblés para o turismo seria um desvirtuamento desses terreiros, já que muitos deles estavam movimentando-se fora de época, somente para os turistas apreciarem (apud SANTOS, 2005). O que se vê nesses conflitos e negociações no âmbito da Bahia é, sem dúvida, um desafio para os demais contextos turísticos que, assim como qualquer região, além de possuírem forças políticas e econômicas conflitantes, se vêem diante de uma nova realidade – o turismo – que, ao mesmo tempo em que adota um discurso preservacionista, potencializa certas imagens da cultura local, ao mesmo tempo em que ressalta a importância das manifestações das minorias, é levado a cabo por grandes corporações empresariais, e, se evidencia a importância da participação popular nos processos de tomada de decisão, se faz valer, muitas vezes, de planos de marketing e estratégias publicitárias alheias aos próprios produtores da “cultura” propagada. Posto isto, passemos agora para uma exposição mais minuciosa de toda a costura desses vários elementos – comunicacionais, estéticos, políticos e econômicos – que, ao longo do século XX, foram produzidos e, posteriormente, agenciados para a conformação da baianidade, tal qual chega ao turista hoje.

1.3.4 A costura de todo o legado estético/artístico

Um dos pontos nodais dessa intricada rede da qual a baianidade resulta é referente à produção artística da primeira metade do século passado. Na construção de seu projeto de baianidade, o trade turístico de Salvador privilegiou certos elementos e representações, discursos e imagens específicas presentes nas letras de Caymmi e na literatura amadiana, dentre outros elementos para moldar o “texto unificador” (MOURA, 2001, p. 165) da baianidade.

A baianidade pode ser compreendida como uma interface cujos componentes têm seus contornos adaptados no sentido de serem compatibilizados pelos agentes da própria interação. Não são os elementos simplesmente combinados para produzir uma mistura, síntese ou simbiose. Nem são os elementos inteiros que vêm constituir o universo do resultado. O admirador de um músico, pintor ou escritor pode considerar de menor importância aquele aspecto de seu ídolo priorizado na operacionalização da

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Por que, então, uma obra amada teria que ser compatibilizada

pelas beiradas? Ora, assim é que se viabiliza, muitas vezes, a interface: a conexão acontece pela superfície, pelas bordas (MOURA, 2001, p. 165).

interface

Assim, podemos notar como a operação da baianidade, sobretudo por parte do trade turístico soteropolitano, irá remontar ao passado, seccionar dados discursos em voga em um contexto próprio, como, por exemplo, a prosa regionalista de 30, e, ao descontextualizá-los, reafirmar a existência de uma “cultura tipicamente baiana”. Essas narrativas, para fazer uma analogia com o Estado-Nação, seriam documentos fundadores de outra nação, a Bahia. Em que pese o papel dos políticos na solidificação dessa imagem de Bahia, o que parece cada vez mais visível é que na trama da baianidade, após a década de 1970, discursos amadianos, ícones de Verger e Carybé, além da música, não só de Caymmi, mas oriunda dos Novos Baianos, Caetano Veloso, Carlinhos Brown e Gilberto Gil, dentre outros, passariam a ser acionados por parte do trade turístico para reforçar uma vivência típica dos baianos. Essa vivência parte essencialmente de uma compreensão naturalizada de cultura, pois, tinha-se em mente que todo baiano primaria pela malemolência, comungaria com candomblé e com a culinária de origem africana, praticaria a capoeira e seria constituinte de um cenário soteropolitano bem definido, bem verdade que circunscrito ao Farol da Barra, ao Farol de Itapuã, ao Elevador Lacerda, ao Mercado Modelo e ao Pelourinho. Isto é claramente perceptível nos trabalhos de Bomfin (2006) e Neto (2007). Ambos os trabalhos afirmam que a imagem turística da Bahia se assenta nesses ícones canonizados, apresentando uma imagem cristalizada e parcial do que seja a cultura na Bahia. Essa visão do que seria o “típico” baiano objetivava alcançar um diferencial turístico com vistas a maximizar os benefícios políticos e econômicos mediante a utilização da cultura como um poderoso recurso simbólico. Não por acaso, partes do Pelourinho após a reforma da década de 1990, mais especificamente entre 1992 e 1997, seriam batizadas com nomes de personagens amadianos, como os Largos Tereza Batista e Pedro Archanjo. Além de acionar fragmentos das narrativas de inúmeros artistas, o trade turístico baiano se associaria fortemente a eles com o intuito de que a imagem turística da Bahia estivesse impregnada dessas narrativas e dos elementos nela contidos para conformar, assim, a idéia de uma “vivência tipicamente baiana”.

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Contudo, dentro dessa suposta entidade denominada trade turístico, há dois indivíduos que podem ser considerados como os grandes mentores da idéia de baianidade: Paulo Gaudenzi e Antônio Carlos Magalhães. O primeiro, ex-secretário de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, pode ser tido como um grande articulador dessa noção de baianidade, já há 30 anos. Gaudenzi já exerceu a função de presidente da Bahiatursa em três mandatos, além de ter respondido, até o final de 2006, pela Secretaria Estadual de Cultura e Turismo da Bahia. Já a figura de ACM está intimamente associada, como já relatado ao longo deste capítulo, a todo o percurso dessa idéia de baianidade após a década de 1970, tanto por intensificar os discursos e representações dessa proposta, quanto por se beneficiar, em termos políticos, de sua ligação com entidades afro-descendentes. Outro elemento importante se refere ao fato de que a junção pelas “beiradas” (MOURA, 2001) de todo o legado estético capaz de endossar a idéia de baianidade não quer dizer, automaticamente e por exclusão, que não há a incorporação de novos elementos culturais a essa lógica nas décadas de 1980 e 1990. O axé music e os trios elétricos vêm à tona nos anos de 1980 mudando a imagem de uma Bahia lenta e malemolente para uma conformação quase que frenética em termos musicais.

Axé music e pagode baiano integram hoje o texto da baianidade tanto quanto um tabuleiro de acarajé, a praia de Itapuã ou a figura de Caetano Veloso. Na dinâmica da interface, os elementos são conectados pelo agenciamento de nuclearidades, às vezes de beiradas; não estão descolados das referências anteriores. Antes, esta dinâmica conecta o velho e o novo; o afro-descedente e o euro-descendente; o Brasil moderno e progressista de São Paulo e Santa Catarina e o Brasil antigo e negro da Bahia. Tanto quanto assimilam seletivamente ícones já consagrados da tradição (na acepção convencional), contribuem para atualizar e manter a enunciação dessa mesma tradição no texto emitido agora (MOURA, 2001, p. 237).

A inserção de novos elementos estéticos na lógica da baianidade nada mais é do que um movimento característico da cultura: a dinâmica, a mudança. A inserção do axé music e do trio elétrico, por exemplo, nos revelam duas questões: a primeira se refere à plasticidade da idéia de baianidade, na medida em que ela incorpora tantos elementos quanto sejam necessários para se manter; outra concepção se reporta a como esses símbolos contemporâneos da baianidade já não têm mais o substrato negro como ícone máximo. Como já mencionado aqui, e agora mais do que nunca, o negro se tornou baiano.

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E, por fim, importa destacar que nem só de novas matrizes estéticas se deu a consolidação dessa idéia de uma “cultura tipicamente baiana”. Como Albergaria (2005, [s.p.]) bem nos lembra, há também uma gama de novos mecanismos de projeção dessas imagens surgindo atualmente. A propagação dessa idéia reducionista da cultura baiana não se faz valer só da TV ou do rádio. Sites, revistas e suplementos turísticos são também mecanismos utilizados atualmente pelo trade turístico e que favorecem a potencialização dessas imagens da “cultura baiana”. E, quanto ao turismo, tido muitas vezes como uma importante prática capaz de incrementar a economia e de valorizar as manifestações culturais de diferentes povos, coube o papel não só de se apropriar dessa leitura cultural específica do que seja a Bahia e dos baianos, mas de colaborar para a sua propagação. Se contribuiu para o aumento dos benefícios econômicos em Salvador, endossou também todo um projeto, com forte cunho político-ideológico, de fazer da diferença – em especial dos negros – uma similaridade, onde, a partir de então, todos, supostamente, seriam baianos e “felizes”.

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2. PORTO SEGURO: HISTÓRIA, POLÍTICAS PÚBLICAS E TURISMO

O capítulo anterior apresentou como o projeto de construção de uma idéia de baianidade foi gestado e reelaborado ao longo de décadas. Se, em um primeiro momento do século XX, mais especificamente até os anos de 1960, tem-se a formação das matrizes estéticas – música, literatura, artes plásticas e fotografia – da idéia da baianidade, realizada, sobretudo, por artistas e intelectuais, em um segundo momento – a partir da década de 1960 –, há a conformação de um projeto ideológico assumido pelo governo estadual que visava, ao se apropriar de dados elementos da cultura negra, formatar uma “identidade cultural baiana” a partir

mesmo daquelas matrizes artísticas previamente estabelecidas. Essa “identidade cultural” passaria a ser, a partir de então, o principal elemento de definição e representação da Bahia na seara do turismo, e logo tornar-se-ia também um de seus principais atrativos turísticos, senão do Estado, pelo menos de Salvador, visto ser grande a recorrência de referências, por parte da mídia e do trade turístico da capital baiana, à essa “identidade”. Como vimos, Salvador é um lócus privilegiado por vários fatores para a veiculação da idéia de que o baiano possui uma “identidade” típica e que essa mesma “identidade cultural” seria algo positivo, passível de estreita vinculação com a divulgação turística da cidade – e também da Bahia – realizada pelo trade turístico local. Posto isto, o segundo capítulo do presente trabalho é voltado não só a apresentar a história de Porto Seguro, mas também refletir sobre a maneira pela qual se dá a prática turística nesse destino. Um dos objetivos deste capítulo é compreender algumas das peculiaridades, problemas, contradições e potencialidades de Porto Seguro no que tange ao turismo. E, para isso, necessário se faz trazer à tona, em diferentes momentos deste capítulo, recursos distintos para ilustrar como a prática turística se estrutura na segunda destinação turística do Estado da Bahia. Assim, o uso de estatísticas oriundas de órgãos estatais, tais como

a Secretaria de Cultura e Turismo e a Bahiatursa, bem como aquelas citadas por

outros pesquisadores, entrevistas veiculadas em trabalhos investigativos e dados oriundos do trabalho de campo realizado pelo próprio pesquisador serão evocados.

A opção em trazer material resultante do trabalho de campo para esta parte do texto

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visa a estabelecer um diálogo mais rico entre os dados e conclusões de pesquisas pretéritas e o material obtido em campo ao longo de 2007. Este capítulo também visa, além de expor elementos geográficos relativos a Porto Seguro, apresentar aspectos históricos da cidade. Não obstante, tomamos, a exemplo de Silva (2004, p. 66) ao pesquisar a cidade de Ilhéus, a opção por não conceber o município em análise como “uma totalidade social ou cultural fechada”. O recorte será feito tomando como base os limites geográficos de Porto Seguro, o mesmo que orienta as ações públicas, bem como parte das práticas de dados atores sociais, como os habitantes da cidade, ou mesmo os turistas. É necessário realizar outra consideração acerca da estrutura desta seção que versa sobre a história de Porto Seguro. Optamos aqui por pormenorizar um pouco mais a história da região pelo fato de encontrarmos uma série de informações relevantes esparsas em várias obras, tais como Bueno (1999), Paraíso e Guerreiro (2001), Ramos (2002), Bianchi (2005), Araújo (2005), Sá (2006) e Gertze (2006), o que referenda a importância de agregar essas contribuições no presente trabalho. Os aspectos históricos não podem ser dissociados de práticas econômicas específicas. Esta consideração é duplamente verdadeira para os casos de Ilhéus e Salvador, em que o cacau para a primeira e o comércio de escravos para a segunda foram práticas econômicas determinantes para a conformação dessas cidades tal como as entendemos hoje, dada a relevância que esses produtos tiveram em suas respectivas economias. Entretanto, o caso de Porto Seguro parece se diferenciar um pouco dessa tendência, pois, ao que tudo indica, não houve ali nenhum grande momento de florescimento econômico até o final do século XX. Somente a partir do final da década de 1960, e em especial após os anos de 1990, é que se tem um período relativamente mais próspero que o anterior, momento em que se dá a consolidação de uma prática econômica – o turismo – capaz de exercer grande influência na conformação social e espacial do município. A história do município de Porto Seguro será dividida em dois momentos nesta seção. O intuito dessa subdivisão é facilitar a compreensão dos períodos que, sob a nossa ótica, podem ser delimitados dessa forma por guardarem características internas específicas. O primeiro momento da história de Porto Seguro, cujo início se deu na fundação da Capitania em 1534 e se estende até 1960, tem como característica um constante marasmo econômico que vigorou na região; já o segundo período se iniciou no final dos anos de 1960, década em que se dão as

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primeiras iniciativas referentes ao turismo em Porto Seguro, prática esta que chegaria aos dias de hoje como a mais relevante para a economia da cidade.

2.1 Aspectos geográficos de Porto Seguro

Porto Seguro possui uma área de 2408,41 km² e conta com aproximadamente 90 km de faixa litorânea (RAMOS, 2002, p. 63). A cidade está localizada no Extremo Sul da Bahia (ver figura 1), a 15º26’ Latitude Sul e 39º05’ Longitude Oeste, e possui cinco distritos, a saber: Porto Seguro (sede municipal), Arraial D’Ajuda, Caraíva, Trancoso e Vale Verde (ARAÚJO, 2005, p. 323).

Caraíva, Trancoso e Vale Verde (ARAÚJO, 2005, p. 323). Figura 1 – Estado da Bahia –

Figura 1 – Estado da Bahia – Localização de Porto Seguro

Fonte: SEI/SEPLANTEC (in RAMOS, 2002)

A sede municipal é ligada à capital, Salvador – distante 707 km –, e à região Sul do país pela BR-101, cujo acesso até Eunápolis dá-se via BR-367. Porto Seguro faz limites ao Norte, além de Eunápolis – município que se emancipou de Porto Seguro em 1988 –, com Santa Cruz de Cabrália; ao Sul com Itamarajú e Prado; a Leste com o Oceano Atlântico e a Oeste com o município de Itabela. Segundo dados do IBGE de 2007 32 , a população estimada é de 114.334 habitantes.

32 Portal IBGE Cidades. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php. Acesso em 15 set. 2007.

61

O município de Porto Seguro se encontra inserido na zona turística intitulada

Costa do Descobrimento 33 , composta ainda pelos municípios de Santa Cruz de

Cabrália e Belmonte.

2.2 Porto Seguro: esquecimento e estagnação econômica (1534-1960)

Embora os portugueses tenham desembarcado na região de Porto Seguro em 1500, somente no ano de 1534, com a divisão da América Portuguesa via regime de Capitanias Hereditárias, é que temos oficialmente o advento da Capitania de Porto

Seguro. O lote de terra referente à capitania foi concedido pela Coroa Portuguesa ao donatário Pero do Campo Tourinho (GERTZE, 2006, p. 48-49), e, desta forma, Porto Seguro foi a segunda vila fundada no Brasil, sendo a primeira a Vila de São Vicente, localizada em São Paulo (RAMOS, 2002, p. 71) 34 .

O donatário Pero do Campo Tourinho foi o responsável, juntamente com

outros seiscentos colonos, por fundar a Vila de Nossa Senhora da Pena, além das

vilas de Santo Amaro e Santa Cruz, estando a primeira localizada na margem esquerda do rio Buranhém, ao sul, e a segunda ao norte de Porto Seguro (GERTZE, 2006, p. 49). Bueno (1999) nos dá uma interessante descrição não só do mandatário Pero Tourinho, mas também da própria disposição da Vila de Porto Seguro em seu primeiro momento:

Homem “prudente e atilado”, Tourinho decidiu instalar-se numa colina próxima à praia, junto à foz do Rio Bunharém, no exato local onde hoje se ergue o centro histórico de Porto Seguro. Ele cercou a vila com uma paliçada de taipa, ergueu uma capela, uma forja e uma ferraria, fez um estaleiro e construiu, para si, uma casa com amplo avarandado, do que desfrutava ampla vista da baía (p. 233).

33 A Costa do Descobrimento é uma das sete zonas prioritárias relativas ao turismo no Estado da Bahia definidas pelo Prodetur-NE (Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste) juntamente com o Prodetur-BA no início dos anos de 1990. Este programa estabeleceu zonas turísticas prioritárias no estado para a concentração dos investimentos mediante a criação de pólos regionais. No âmbito da Bahia, além da Costa do Descobrimento, foram definidas outras seis zonas:

Costa do Dendê, Costa do Cacau, Costa dos Coqueiros, Costa das Baleias, Chapada Diamantina e Baía de Todos os Santos (incluindo Salvador). De posse dessa polarização de municípios por afinidades, o Prodetur-BA definiu as zonas que deveriam receber maior aporte de recursos do Prodetur-NE.

34 Embora a ocupação tenha tido início, em termos formais, em 1534, isso não impediu que ainda na primeira década do século XVI, padres franciscanos aportassem na região, dando início ao projeto de catequização dos Tupiniquins. Um resquício dessa ocupação são as ruínas do Outeiro do Glória, então a primeira igreja do país dedicada a São Francisco de Assis (BUENO, 1999).

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Araújo (2005, p. 323) assinala que, nesse primeiro momento, a Capitania de Porto Seguro teve na extração do pau-brasil a sua principal fonte de renda, sendo essa atividade rapidamente substituída pelo ciclo da cana-de-açúcar. Mas, Bueno (1999, p. 234) atesta que, além do pau-brasil, outras duas práticas econômicas podem ser apontadas como importantes para a então nascente capitania: a pesca da garoupa, abundante nos baixios de Abrolhos 35 e a comercialização de búzios, tipo de concha encontrada no Rio Caravelas, que, na época, era utilizada como dinheiro em Angola, o que favoreceu o comércio de escravos, na medida em que os portugueses se fizeram valer desse produto para obter parte da mão-de-obra negra oriunda do continente africano. O mesmo autor, aliás, chama a atenção para o estágio de pobreza que já acometia aquela Capitania no começo de sua implantação, em função, dentre outros fatores, de sua localização geográfica:

Devido aos afiados recifes de Abrolhos (aglutinação de “abra os olhos”), as naus da chamada Carreira da Índia – que faziam tráfego entre Portugal e o Oriente – passavam ao largo da capitania de Torinho, sem fazer escala nela. Como os navios que seguiam para a costa do ouro e da prata também não paravam ali, Pero do Campo Tourinho tinha dificuldades em exportar seu peixe-seco, seus búzios e seu pau-brasil (BUENO, 1999, p. 234).

Não bastasse a situação econômica precária daquela capitania na primeira metade do século XVI 36 , a implantação da cultura da cana-de-açúcar, que poderia resolver parte dos problemas econômicos de Pero do Campo Tourinho, não obteve êxito. A Capitania de Porto Seguro, a exemplo da Capitania São Jorge dos Ilhéus (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001), encontrou grande dificuldade em consolidar essa prática econômica em função dos constantes ataques de grupos indígenas, é o que costuma argumentar uma espécie de “senso comum” histórico sobre toda essa região.

Na verdade, a própria alteração da dinâmica econômica da Capitania teria contribuído para suscitar essa série de conflitos entre indígenas e europeus que viriam a marcar a história da região. Até porque Bueno (1999) ressalta que entre

35 A Capitania de Porto Seguro não se circunscreveu somente à região onde hoje se encontra a sede do município. Segundo Bueno (1999, p. 232), “o lote referente à capitania tinha 50 léguas de largura, cujo início se dava na foz do rio Coxim, 20 km ao sul da ilha de Comandatuba e se prolongava por cerca de 300 km para o sul, até a foz do rio Mucuri, na fronteira entre os atuais estados da Bahia e do Espírito Santo”.

36 Pero do Campo Tourinho, em carta destinada ao rei de Portugal por volta de 1540, desabafa quanto à situação vivida por sua Capitania: “Ainda agora, ao presente, somos tão pobres que não podemos fazer nada sem ter favor e ajuda de Vossa Alteza” (BUENO, 1999, p. 235).

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1536 e 1546 a vida na Capitania de Porto Seguro transcorria sem grandes oscilações e problemas, situação em grande parte favorecida pela convivência pacífica entre os colonos e os Tupiniquins, que, aliás, colaboravam para suprir parte das necessidades alimentícias dos europeus, sobretudo devido à produção de farinha de mandioca e à extração de frutas, além da obtenção de caça e pesca (BUENO, 1999, p. 233). De acordo com Gertze (2006), o empreendimento extrativista do pau-brasil não teve grandes dificuldades na obtenção de mão-de- obra, na medida em que a prática era realizada por uma quantidade pequena de índios em troca de pequenos artefatos. Contudo, a instalação da monocultura açucareira na região desencadeou um aumento pela demanda de mão-de-obra indígena para trabalhar na lavoura e nos engenhos de açúcar. Deste modo, os colonizadores passaram a escravizar uma crescente quantidade de ameríndios, o que implicou uma série de fugas em massa (GERTZE, 2006, p. 49), além de inúmeros confrontos resultantes da violação dos acordos entre os indígenas e os colonos. A situação cada vez mais tensa entre os autóctones e os europeus contribuiu para a instalação de uma crise política na Capitania de Porto Seguro decorrente do descontentamento de parte da população em relação a seu donatário que, segundo Sá (2006, p. 14), cairia em desgraça devido ao insucesso de seu empreendimento. Para completar a delicada situação vivida pela Capitania, Tourinho seria acusado de heresia pelo Tribunal do Santo Ofício em 1543 (BUENO, 1999, p. 235). Não bastassem os problemas já enfrentados pelo donatário da Capitania de Porto Seguro, inúmeros conflitos posteriores viriam a reforçar a dificuldade de ascensão econômica da Capitania. Destaque para a revolta indígena do Espírito Santo e Porto Seguro em 1546 (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001, p. 15), fato que desencadeou uma severa intervenção da Coroa portuguesa por meio do estabelecimento de um Governo Geral na Colônia, o que contribuiu ainda mais para o quadro de crise em que a Capitania se viu, sendo a mesma vendida por uma herdeira de Tourinho em 1559 (BUENO, 1999, p. 236). Os constantes atritos com os indígenas acabaram por comprometer de vez o avanço do projeto açucareiro na região. Outro fato marcante dessa relação conflituosa ao longo de boa parte do século XVI foi deflagrado em 1595, ocasião em que é declarada oficialmente a primeira Guerra Justa aos índios das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, tal como atestam Guerreiro e Paraíso (2001, p. 23).

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Os problemas da Capitania de Porto Seguro não se devem somente à má administração de seu donatário, nem mesmo aos constantes ataques de grupos indígenas, mas também à própria administração da América Portuguesa. A determinação da Coroa de restringir, em 1605, a venda de madeira extraída das Capitanias de Ilhéus, Espírito Santo e Porto Seguro, por exemplo, trouxe grandes prejuízos. O monopólio da Coroa sobre esse bem pôs por terra qualquer possibilidade de inserção dessas capitanias no circuito comercial atlântico (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001, p. 24). Apesar da escassez de registros históricos sobre o século XVII, Ramos (2002, p. 72) considera que Porto Seguro ainda se encontrava imersa em um processo de estagnação nesse período. A falência das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro foi, inclusive, tema de argumentação do então Governador Conde de Castelo-Melhor que, em 04 de março de 1669, ao defender a tese de que os índios seriam os culpados pelo insucesso de ambas, declarando, em seguida, nova Guerra Justa contra os povos indígenas da região (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001, p. 26). Essa mesma constatação quanto ao marasmo econômico da Capitania de Porto Seguro é reforçada por Araújo (2005). A autora assinala que esse quadro se estenderia até 1759, ano em que a Capitania passaria a ser constituinte dos bens da Coroa. A partir deste momento, a região passaria a integrar a Província da Bahia, servindo como fornecedora de gêneros alimentícios, algodão e madeira para esta e passando a usufruir da condição de Comarca 37 (p. 324). Ao longo do século XVIII, a estagnação econômica de Porto Seguro teria continuidade, mas agora isso se daria a partir de dois duros golpes oriundos de determinações reais. A primeira iniciativa da Coroa, e que comprometeu o avanço econômico da região, tem relação com a descoberta, nesse período, de ouro em Minas Gerais e Goiás, o quê contribuiu para um grande afluxo de pessoas para essas regiões, além de favorecer a formação de várias vilas e povoados nas adjacências dos locais em que se extraía esse metal. Em decorrência desse crescente fluxo de pessoas entre a faixa costeira e o sertão – e vice-versa –, a

37 Sá (2006, p. 15), baseado no estudo de Alencastro (2000), afirma ainda que a Capitania de Porto Seguro teve um papel de relativo destaque na produção de cachaça, artigo bastante apreciado como moeda de troca no comércio de escravos entre a América Portuguesa e a África ao longo dos séculos XVII e XVIII. Apesar de alguma relevância na produção desse bem, isso não foi suficiente para inserir efetivamente a Capitania de Porto Seguro no circuito comercial.

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Coroa se defrontou com um novo problema capaz de afetar diretamente, em termos econômicos, o desenvolvimento da região de Porto Seguro: o contrabando de ouro. Assim, com vistas a minimizar o comércio ilegal desse metal, que se dava na época a partir do Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, uma extensa área de mata “correspondente às capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, foi interditada para o transporte e exploração econômica” (SÁ, 2006, p. 16). Deste modo, há um proposital isolamento de toda essa faixa territorial até as primeiras décadas do século XIX. Um segundo fator que contribuiu para comprometer o tênue avanço econômico da região foi a promulgação da Carta Régia de 13 de março de 1797 que passou a regulamentar severamente a extração de madeira para a construção na região, atividade econômica mais relevante até então, não só na Comarca de Ilhéus, mas também em Canavieiras e Porto Seguro (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001, p. 33- 34). Essa interferência viria a prejudicar de vez o quadro econômico de Porto Seguro e região. Um dos poucos relatos existentes sobre a situação econômica de Porto Seguro no início do século XIX dá conta que

Com suas roças de mandioca, algodões e canas, que reduzem a aguardente, mel e pouca quantidade de açúcar, planta esta de que é próprio todo o terreno de Porto Seguro, em que hoje há algumas engenhocas. O gênero em que hoje maior negociação é a pescaria de garoupas, e meros de que ali se pesca prodigiosa quantidade. O haver excelentes pastagens para os gados concorre muito para a propriedade que o terreno tem para a lavoura de canas (VILHENA apud SÁ, 2006, p. 14).

Ainda de acordo com relato, o contexto geral dos moradores que habitavam a região de Porto Seguro poderia ser resumido na proposição de que “há muitos poucos moradores ricos nesta vila, o comum é serem pobres” (VILHENA apud SÁ, 2006, p. 14). No século XIX temos mais um importante capítulo referente à história da região: a inserção do cacau no Sul da Bahia. A expansão da lavoura cacaueira no sul-baiano deu-se a partir da década de 1920, nas bacias dos rios Almada e Cachoeira (GUERREIRO; PARAÍSO, 2001, p. 29). Interessante notar que, apesar do cacau ter dinamizado toda a economia sul-baiana, em especial de Ilhéus, Canavieiras e Camamu, os benefícios do cultivo dessa lavoura não se estenderam até Porto Seguro, pois, para isso, “contribuiu principalmente a baixa fertilidade das terras cultiváveis desse espaço” (SÁ, 2006, p. 18). Mais uma vez, a prosperidade

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econômica, outrora concentrada na cidade de Salvador, entreposto comercial de grande relevância para América Portuguesa até o início do século XIX 38 , não se estenderia à cidade de Porto Seguro.

O quadro de pobreza vigente na região é retomado pela descrição da vila

realizada por Durval Vieira de Aguiar, visitante que esteve na região em 1888:

Dois compridos amuados quase em seguida, pela margem do rio, e de um terceiro, onde se acha a velha Matriz e o estragado, porém bem construído e assobradado edifício da Câmara, no alto da montanha, que é circulada em baixo pela povoação; de forma que substituindo-se pela parte do mar, pode- se descer pelo lado oposto, e subir-se na rua de Pacatá, onde está o melhor comércio. A morada do alto é excelente pela beleza da vista e dos bons ares; porém na parte baixa, onde aliaz reside a maioria da população, é humilde e às vezes doentia (apud COSTA, 2005, p. 106).

O trecho acima ratifica a tese de que não houve sequer um grande momento

de prosperidade econômica na região onde hoje se encontra o município de Porto Seguro 39 até o final do século XIX, época do relato citado. No que diz respeito ao século XX, duas atividades primárias seriam privilegiadas em Porto Seguro a partir de 1950 40 como alternativas ao plantio do

cacau na região de Ilhéus, mesmo que não tenham resultado em grandes avanços econômicos: a extração de madeira e a pecuária extensiva. Como conseqüência

imediata dessas ações, tem-se que “estas duas atividades econômicas foram as principais ações antrópicas modificadoras do ambiente natural do município – e da região de modo geral –, dando ao mesmo o aspecto que pode ser observado nos dias de hoje” (GERTZE, 2006, p. 50). Deste modo, pode-se depreender que a região de Porto Seguro, devido a diferentes fatores endógenos e exógenos, desde o século XVI até aproximadamente

o último quarto do século XX, jamais conseguiu ascender economicamente.

Estagnação econômica, pobreza e isolamento parecem ter sido elementos recorrentes na história dessa cidade, algo que, no entanto, tenderia a mudar a partir

da década de 1960 do século passado.

38 A transferência da capital do reino português para o Rio de Janeiro, em 1808, dá início ao processo de crise econômica de Salvador.

39 Até 1891, de acordo com Araújo (2005, p. 324), Porto Seguro ainda gozava do status de distrito, fato que só viria a mudar em 30 de junho de 1891, quando o então distrito de Porto Seguro é elevado à categoria de cidade.

40 Gertze (2006, p. 50) assegura que o ciclo relacionado à extração madeireira se estendeu até a década de 80, época em que se dá um declínio do interesse em relação à cobertura vegetal da região.

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2.3. PORTO SEGURO: DOS HIPPIES AO TURISMO DE MASSA (1960 AOS DIAS ATUAIS)

Se em Porto Seguro existe festa todas as noites do ano, no Carnaval e no verão a cidade simplesmente vai à loucura. 41

].

Porto Seguro se vende sozinho, sem esforço 42 .

Porto Seguro não precisa de promoção [

As duas epígrafes retratam uma cidade que, no final dos anos de 1990 e início do século XXI, parece ter alcançado seu auge enquanto destino turístico. Contudo, um retorno a um passado nem tão distante assim é revelador acerca de como era a cidade de Porto Seguro antes da institucionalização da prática turística. Para se ter uma tênue idéia acerca do modo de vida de boa parte dos porto- segurenses antes da chegada do turismo, as pesquisas de Araújo (2005) e Bianchi (2005) dão conta de que os moradores da cidade, no início da década de 1970, “vivia[m] basicamente isolado[s], sobrevivendo da pesca, do corte de madeira e da agricultura de subsistência” (ARAÚJO, 2005, p. 325). Costuma-se considerar os anos de 1970 como o marco histórico a partir do qual a cidade de Porto Seguro deixaria de ser um simples povoado de pescadores e pequenos agricultores e passaria a assumir sua vocação turística. É verdade que esse pode ser apontado como um momento em que a cidade passou por transformações socioeconômicas significativas decorrentes da crescente, porém

ainda incipiente, atividade turística. Isso se deu, em especial, devido a dois fatores: i)

a inauguração do trecho baiano da BR-101, em que pese o ramal BR-367, que liga

Eunápolis a Porto Seguro e que conecta Porto Seguro a Santa Cruz de Cabrália; ii)

a elevação do município, por parte do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico-

Artístico Nacional –, à categoria de monumento nacional, em 1973, por decreto presidencial (BIANCHI, 2005, p. 1). Embora esses acontecimentos tenham contribuído para um maior interesse por Porto Seguro enquanto destino turístico, na medida em que propiciaram, respectivamente, uma melhor acessibilidade e realçaram o interesse turístico pelo lugar, é preciso retomar alguns fatos ocorridos no final da década de 1960 que

41 Disponível em: <http://www.terra.com.br/turismo/roteiros/2001/10/22/000.htm>. Acesso em: 21 jun. de 2007.

42 Depoimento de um funcionário vinculado a um meio de hospedagem dado à Solha (1999, p. 111).

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podem ser considerados os antecedentes para o delineamento da cidade turística que hoje conhecemos. A própria inauguração do trecho baiano da BR-101 não deve ser compreendida como uma ação isolada do Governo e que acabou por beneficiar Porto Seguro. A iniciativa em questão deve ser contextualizada na prática do governo militar que buscava a integração do território nacional mediante a ampliação e melhoria das rodovias. O regime militar, preocupado então com a integração do Nordeste ao restante do território, encarava esse projeto como uma “questão nacional” (CRUZ, 2000, p. 39). Além disso, segundo Bianchi, as primeiras tentativas de fazer de Porto Seguro um pólo turístico remontam ao ano de 1967, quando tiveram início excursões para a divulgação da cidade. Entre esse ano e o ano de 1973, tem-se na região a prática de um turismo de cunho prospectivo ou exploratório 43 . O perfil desses visitantes é destacado pela historiadora:

A maioria dos visitantes eram jovens que buscavam paraísos ecológicos para passarem férias ou ainda indivíduos que procuraram fixar residência e levar uma ‘vida alternativa’ em lugares isolados. Muitos deles, no entanto, acabaram tornando-se posteriormente pequenos empresários ao adquirirem terrenos e moradias que foram, já em fins da década de 1970, transformados em pousadas, restaurantes e demais construções voltadas para o turismo (BIANCHI, 2005, p. 6).

Além do turismo exploratório que se deu ao final da década de 1960 e início dos anos de 1970, entendido por Mesquita Filho (2006, p. 113) como uma prática restrita a “grupos hippies e de uns poucos ricos”, temos ainda outra importante ação para a turistificação do destino. Em 1968, o IPHAN decidiu tombar uma parte da cidade, sendo esse ato o precursor de uma gama de ações referentes ao patrimônio de Porto Seguro, município entendido como “lugar de origem da nação brasileira” (BIANCHI, 2005, p. 6) 44 . Desse modo, pode-se considerar que ações estratégicas precursoras de turismo em Porto Seguro tiveram início nos anos de 1960, fossem

43 Cruz (2000, p.21) assinala que “inúmeros destinos turísticos da atualidade foram ‘inaugurados’ por turistas que, em muitos casos, não seriam capazes de preconizar o uso turístico ulterior de lugares que pioneiramente visitaram”. Dentre os muitos exemplos em que houve a presença pioneira de turistas, ainda que não houvesse a devida infra-estrutura turística, encontram-se, de acordo com a autora, os casos de Porto Seguro, na Bahia, e de Canoa Quebrada e Jericoaquara, no Ceará.

44 Essa ação, ainda segundo Bianchi (2005), carece de ser contextualizada no período da década de 60. Naquele momento havia uma tendência em se praticar o turismo cultural em áreas tombadas pelo IPHAN. Destarte, o patrimônio seria entendido não só como uma mercadoria de consumo para a indústria do turismo, onde visitá-lo permitiria gozar de certo status, mas, também se tornariam representantes únicos de episódios significativos da história nacional.

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elas motivadas por ações que transcendiam os limites do município, tal como a decisão do governo militar de integrar cidades do Nordeste ao contexto econômico nacional, fossem elas em decorrência de ações circunscritas à própria cidade, como a criação de instalações de apoio ao turista, iniciativa levada a cabo pelos primeiros visitantes que, posteriormente, fixar-se-iam em Porto Seguro. Já no começo da década de 1970, principalmente a partir da inauguração da BR-101, são recorrentes as matérias publicadas em jornais que anunciavam a “vocação turística” de Porto Seguro. Um exemplo desta tendência pode ser observado por meio da Figura 2.

desta tendência pode ser observado por meio da Figura 2. FIGURA 2 – Matéria jornalística sobre

FIGURA 2 – Matéria jornalística sobre Porto Seguro.

Fonte: Jornal da Bahia, de 29 de março de 1974 (in ARAÚJO, 2005, p. 325).

Rapidamente, tal como se pode perceber na matéria acima, a imprensa passaria a ter um papel de destaque na divulgação turística de Porto Seguro. Curioso é o fato de que a veiculação da cidade por parte da mídia nesse período esteve atrelada a um discurso de certo modo grandiloqüente, isto é, Porto Seguro tornar-se-ia um grande pólo turístico do Brasil. Seria como se, a partir de uma associação entre as belezas naturais da cidade e sua importância histórica para o Brasil, Porto Seguro tivesse de assumir naturalmente sua vocação de destaque no turismo brasileiro. Como veremos adiante, essa crença de que a cidade seria uma referência turística não se restringiu ao passado, mas ainda encontra ecos no presente, sobretudo na concepção de muitos moradores e empresários. Havia a crença – e ainda há – de que a cidade seria um grande espaço de oportunidades para, a partir do turismo, se alcançar a prosperidade econômica. Porto Seguro foi

70

tida assim, em muitos momentos, como uma espécie de “Eldorado”. Adiante retomaremos essa questão. Outro exemplo de matéria jornalística que exalta o potencial turístico de Porto Seguro pode ser visto na edição de 21 de setembro de 1973 do jornal Estado de Minas:

Antes Porto Seguro era apenas o berço do Brasil, cidade esquecida pelos turistas, de acesso difícil. Hoje, com a estrada litorânea, a BR-101, é um dos locais de natureza mais bonita do Brasil, e uma aula viva de História, de respeito pela sua conservação, da criança que Cabral descobriu, e que nunca mais parou de crescer (apud BIANCHI, 2005, p. 7).

Importa frisar que após a década de 1970 45 , a história de Porto Seguro se confunde intimamente com a história do turismo no município, visto que sucessivas intervenções na cidade podem ser atribuídas a ações ligadas ao setor turístico, como, por exemplo, a já citada inauguração da BR-101. Também a concepção do Plano Diretor da Orla Marítima de Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália, em 1974, pode ser apontado, de acordo com Araújo, como a “primeira tentativa de se regular o uso do solo urbano, apontando-se para a necessidade de demarcação das zonas de interesse histórico [e] a localização de equipamentos turísticos” (BIANCHI, 2005, p.

325).

As diferentes ações governamentais em Porto Seguro na década de 1970 podem ser mais bem compreendidas ao inseri-las na mentalidade turística adotada pelo Governo do Estado naquele momento. Nesse período, o Governo da Bahia passaria a conceber o turismo como uma prioridade estratégica. Como já vimos no capítulo anterior, surgiria em 1972, por iniciativa de Antônio Carlos Magalhães, na época governador do estado da Bahia, a Bahiatursa 46 , um órgão estadual, mas que limitou sua ação, sobretudo em um primeiro momento, a Salvador 47 . Havia no Estado, portanto, o desejo de apostar no turismo como uma atividade capaz de

45 Em 1974, Porto Seguro já contava com uma pousada, três hotéis e quatro pensões, contabilizando aproximadamente 344 leitos e registrando a visita de 30.131 visitantes (ARAÚJO, 2005, p. 325).

] a

faixa lucrativa da cultura, aquelas manifestações de cultura (dos folguedos tradicionais ao artesanato)

que podem gerar dividendos”. (p. 46).

Interessante destacar que a autarquia estadual de turismo baiana nasceu com a incumbência de

47

46

Segundo Risério (apud SILVA, 2004), cabia à Bahiatursa, quando em sua criação, promover “[

divulgar “[

demonstra como as atenções do órgão se voltavam para Salvador, na medida em que Porto Seguro

ainda se encontrava em um estágio incipiente de desenvolvimento do turismo.

a singular herança folclórica africana na Bahia” (SANTOS, 2005, p.132), o que

]

71

colaborar para o desenvolvimento econômico da Bahia, apesar dos investimentos se limitarem ao contexto soteropolitano. Assim, se ações oriundas do governo estadual ao longo da década podem ser tidas como pouco representativas em termos de planejamento da atividade turística, na medida em que não conseguiram conter, dentre outros problemas, a ocupação desordenada do município, as incipientes intervenções da administração municipal também não favoreceram a mudança desse quadro. Ainda sim, pode-se concluir que a década de 1970 foi marcada por várias ações privadas tentando adequar os serviços e produtos turísticos de Porto Seguro e região à crescente demanda. O trecho abaixo é bem ilustrativo dessas iniciativas esparsas:

Mas o esconderijo de Arraial se transformou em mais uma atração da

região. Já ganhou um camping de “alto padrão”.

e agora se prepara para receber turistas

vai construir alguns bangalôs para hospedar turistas de muito dinheiro (PRADO, 1978 apud SOLHA, 1999, p. 62).

[

]

Se o turismo em Porto Seguro, ao longo da década de 1970, começava a ganhar contornos mais consistentes por meio de ações pontuais, ora da iniciativa privada, ora do setor público, é na década de 1980, no entanto, que medidas mais intensas passam a ser tomadas visando melhorar a qualidade do destino. Solha (1999) atesta que:

Paralelamente ao desenvolvimento turístico de Porto Seguro, que se acentua a partir da década de 1980, começaram a se multiplicar as opções de entretenimento. Bares, barracas com bebidas típicas, como o “capeta”, shows musicais, manifestações folclóricas, como a capoeira e danças, como a lambada e suas variações, contribuem para entreter os turistas durante sua permanência em Porto Seguro (p. 67).

O aumento da demanda ao longo da década de 1980 desencadeou, dessa forma, a “ampliação dos equipamentos e serviços turísticos” (SOLHA, 1999, p. 62). Além disso, nesse período é que se tem a inserção de agências e operadoras turísticas na localidade 48 .

48 Embora a CVC, principal operadora turística do país e responsável por significativo fluxo de turistas para Porto Seguro, tenha iniciado suas atividades no país em 1972 (REJOWSKI, 2005), foi em 1980 que surgiram as condições, sobretudo em termos de infra-estrutura, para a operação dessas companhias em Porto Seguro. E hoje, a CVC é a principal operadora turística da cidade, na medida em que é a responsável pela entrada de aproximadamente 170 mil turistas por ano, de acordo com informações obtidas junto ao gerente da filial da empresa em Porto Seguro.

72

Contudo, à esteira desse florescimento turístico do município, ou de parte dele, surgia em Porto Seguro um conjunto de problemas daí oriundos que, embora não possam ser atribuídos somente à prática turística, acabaram por ser intensificados por ela, tal como veremos a seguir.

2.3.1 Década de 1980: princípio dos problemas

Um primeiro problema digno de menção é relativo ao crescimento urbano desordenado de Porto Seguro, em grande parte decorrente da ausência de planejamento urbano (GERTZE, 2005, p. 50) e da significativa migração de

trabalhadores da lavoura de cacau do sul-baiano, que entrara em crise devido a uma praga chamada vassoura-de-bruxa no final da década 49 . Estes dois fatores contribuíram para o advento de efeitos negativos sobre a região, tais como:

modificação do aspecto arquitetônico da Cidade Baixa no município (BIANCHI, 2005,

p. 7); contaminação, assoreamento e/ou desaparecimento dos cursos d’água devido

ao lançamento de esgotos; desmatamento e destruição de falésias (GERTZE, 2005,

p. 50).

Há recorrentes relatos acerca dos diferentes problemas que acometeram a cidade de Porto Seguro nos anos de 1980, os quais demonstram que a qualidade do destino começava a se comprometer naquele momento. O relato de um jornalista é muito apropriado para ilustrar a situação do município no final dos anos de 1980 e no começo dos anos de 1990:

Enquanto a cidade histórica dorme em cima do morro tombada (um pouco esquecida, pois há casas caindo) pelo patrimônio, na Cidade Baixa se

Apesar do turismo em Porto

Seguro estar crescendo ano a ano

cidade tem a oferecer ainda não podem ser comparados a outros lugares da

moda como Salvador ou Parati por exemplo 1999, p. 63).

(MODERNELL apud SOLHA,

a infra-estrutura e os serviços que a

cantam e dançam músicas de verão. [

]

49 Segundo Silva e Fernandes (2005), “com a crise da Vassoura de Bruxa, cerca de 200.000 empregos na lavoura cacaueira foram perdidos desde o começo da crise. Sem opções de para onde ir, grande parte desses lavradores e suas famílias migrou para as grandes cidades da região, amontoando-se nas periferias. Em Porto Seguro, já havia um grande déficit habitacional que se acumulara ao longo dos anos e a cidade não estava preparada para abrigar a nova onda migratória. Assim, os novos habitantes da cidade abrigaram-se em casebres feitos da noite para o dia em qualquer local que estivesse desabitado, sobre mangues e encostas de morros nas periferias da zona urbana, sem [um] mínimo de planejamento”. (p. 1).

73

Além dos problemas acima citados, outro relato ilustra bem a gênese de um conflito iniciado na década de 1980 entre empresários e administração municipal e que viria a se tornar uma constante nos anos seguintes. Os empreendedores da cidade ressaltavam que “se fosse depender de água da cidade, não dava nem para começar a funcionar” e que “até hoje o empresariado de Porto Seguro se organizava e a prefeitura era omissa” (NOGUEIRA apud SOLHA, 1999, p. 63).

A situação delicada do destino parece ter alcançado seu auge no final dos

anos de 1980 com o acirramento das disputas entre o empresariado local e a prefeitura, tida como desorganizada e alheia às demandas dos empreendedores. Aliás, a administração pública municipal, ao longo da década, apesar da lei

municipal nº. 80, de 27 de outubro de 1988, que delimitou o perímetro urbano e a área de expansão urbana, pode, ainda sim, ter a sua atuação questionada. Ramos (2002, p. 76) vê nessa lei uma ação que buscou valorizar o solo urbano, o que de fato aconteceu, na medida em que um conjunto de empreendimentos ligados ao turismo – restaurantes, hotéis e pousadas – foram construídos na faixa litorânea da cidade após a sua promulgação.

A situação crítica vivenciada por Porto Seguro ao final dos anos de 1980 pode

ser atribuída aos conflitos entre empresários e administração pública; ao crescimento urbano desordenado 50 decorrente do fluxo migratório; à ausência de políticas públicas e à crescente degradação ambiental do destino. Este quadro desalentador parece ter sido pouco amenizado a partir das iniciativas vigentes na época, cujo objetivo era a busca por atenuar, direta ou indiretamente, os impactos decorrentes do turismo. Mesmo diante da mobilização de moradores por meio de associações, de movimentos em defesa do meio ambiente e de um processo movido em janeiro de 1987 pela Procuradoria da Justiça contra o então prefeito de Porto Seguro – acusado de autorizar diversas obras lesivas ao patrimônio da cidade – pedindo, inclusive, o seu impeachment (BIANCHI, 2005, p. 10), a situação geral da cidade parecia piorar. Desta maneira, Porto Seguro chegaria à década de 1990 imersa em graves problemas ambientais, situação socioeconômica pouco favorável e com recorrentes

50 Ramos considera que o crescimento desordenado de Porto Seguro, nos anos 80, propiciou o surgimento de uma área de favela em meio ao manguezal no Rio Bunharém. Além da insalubridade e da total falta de infra-estrutura, o autor assinala que estaria aí uma das “primeiras formas do espaço urbano segregado” (2002, p. 80).

74

contestações à administração pública. Tudo isso colocava em xeque a posição de destaque da cidade em comparação com outros destinos turísticos do Nordeste.

2.3.2 Década de 1990: consolidação do destino e o Prodetur-NE

No início da década de 1990, a despeito dos graves problemas, sobretudo de ordem ambiental e social, Porto Seguro se consolidou como um importante destino turístico, não somente em escala estadual, mas também regional, visto que se tornaria o segundo destino turístico mais visitado do Nordeste 51 . A partir da metade da década, tem início um conjunto de intervenções decorrentes de políticas públicas que visavam a minimizar os efeitos negativos decorrentes do turismo que acometiam a cidade, embora os mesmos não tenham sido causados somente pela inserção da atividade turística na dinâmica local. Deste modo, pode-se perceber, sobretudo ao final da década de 1980 e início dos anos de 1990, que Porto Seguro apresentava realidades controversas: a atividade turística se tornava cada vez mais relevante para a cidade, trazendo consigo dividendos econômicos, ao mesmo tempo em que surgiam grandes bolsões de pobreza, dia após dia, em áreas periféricas do município, e a degradação ambiental se intensificava. Tofani (apud BIANCHI, 2003, p. 7) aponta seis fatores responsáveis pela maior notoriedade do destino nesse período, a saber: i) desenvolvimento de serviços ao longo da BR-101; ii) estabelecimento de linhas regulares de ônibus e vôos diretos ligando o sul da Bahia às grandes capitais; iii) saturação do turismo em algumas cidades litorâneas do sudeste; iv) as freqüentes e elogiosas reportagens publicadas pelos meios de comunicação; v) desenvolvimento de infra-estrutura turística na cidade; vi) crescente número de pacotes de viagens que começaram a ser oferecidos pelas agências de turismo. As repercussões, em especial as negativas, da ascensão turística de Porto Seguro a partir de 1990 são inúmeras. A primeira delas é o excessivo crescimento populacional, com a triplicação do número de habitantes em relação a 1970 (Araújo, 2005, p. 325). Segundo Ramos (2002, p. 92), a taxa de crescimento médio anual da população urbana de Porto Seguro nos anos de 1990 foi de 14,61%, ao passo que a média estadual foi de 2,51% e o percentual nacional alcançou 2,41%. Um dos

51 ROTEIROS TURÍSTICOS FIAT BRASIL. São Paulo: Folha da Manhã, 1995.

75

fatores mais importantes para esse acréscimo foi o grande e contínuo fluxo migratório de trabalhadores da região cacaueira em busca de novas oportunidades de trabalho em função da crise da lavoura cacaueira. Outro problema decorrente da prática do turismo em Porto Seguro é apresentado por Bianchi (2005, p. 8). A autora afirma que a valorização de áreas próximas aos sítios históricos colaborou para que ocorresse uma grande especulação imobiliária na região. Os moradores dessas áreas, pescadores em sua maioria, venderam seus imóveis, o quê suscitou uma modificação na função dessas construções, as quais passaram a receber pontos comerciais. A especulação imobiliária, além disso, ocasionou a mudança forçada dos antigos proprietários para áreas periféricas da cidade 52 . Ainda sobre a questão de moradia, Ramos revela que na década de 1990 se acentuou a segregação espacial em Porto Seguro devido ao aumento da ocupação do “Baianão”, área composta por um conjunto de loteamentos localizados na periferia do município, praticamente invisíveis aos olhos dos turistas 53 , já que essas residências estão localizadas do lado oposto da “cidade turística”, seccionada pela BR-367. Além de fins eleitorais, o surgimento dessa área teve o intuito de absorver “a população espacialmente segregada e que serve de suporte para a mão-de-obra ao turismo” (RAMOS, 2002, p. 100). Para se ter uma dimensão do que o Baianão representa hoje, Araújo (2005, p. 327) informa que a população atual do Baianão ultrapassa os 40.000 habitantes. Solha (1999), ao refletir sobre as mudanças ocorridas ao longo dos anos de 1990, destaca ainda que houve um “colapso na infra-estrutura de apoio” (p. 64) da cidade frente ao aumento excessivo do fluxo de turistas. Segundo Araújo (2005, p.

52 Há, na literatura recente de turismo, vários exemplos relativos a especulação imobiliária em áreas de importância histórica e que passaram por um processo de maior visibilidade a partir da prática do turismo. Os trabalhos de Resende (2005) e Silva (2006) descrevem situações semelhantes referentes à intensa especulação imobiliária causada pelo crescimento do turismo, respectivamente, na cidade de Canavieiras e no distrito de Trancoso, este último pertencente a Porto Seguro. Meneses (2004), ao estudar o caso de Tiradentes, cidade colonial de Minas Gerais, também constata que houve, em seu centro histórico, um processo de aquisição em massa dos imóveis tombados pelo IPHAN por empresários oriundos de grandes centros, tais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

53 Ao longo de todo trabalho de campo realizado em 2007, poucos foram os turistas que manifestaram alguma reação, ou mesmo apresentaram curiosidade quanto à existência do Baianão. Porém, um fato marcante se deu ao longo de um diálogo com Wanda, uma turista mineira, que, além de indagar ao guia quanto ao “lugar que o povo da cidade vive”, asseverou: “aqui a agente não vê o

e que dizem que é uma

Vai pra Trancoso e não vê

ninguém. Passa pelo aeroporto e não dá para ver nada. Aqui só vê turista. Lá em Trancoso você vê comércio, umas casas”.

povo dessa cidade. Diz que é no tal de Baianão que esse povo vive [ favela. E deve ter muita gente lá. Você vai pro Arraial e não vê ninguém

],

76

327), tomando como base dados da Bahiatursa, em 1993, foi registrada a entrada de cerca de 570 mil turistas em Porto Seguro, o que corresponde a aproximadamente seis vezes a população local no final dos anos de 1990 54 . Laércio Gomes Silva, atual presidente do Conselho Regional de Turismo da Costa do Descobrimento, resume com clareza toda a situação vivida por Porto Seguro a partir da década de 1990:

Com a fama de que Porto Seguro era um Eldorado, as pessoas começaram a vir para cá, principalmente pessoas de baixa renda. Com a administração criminosa de ex-prefeitos de quatro em quatro anos, nasce uma sub-cidade em Porto Seguro. Nós temos um crescimento médio maior de 10% ao ano, um dos maiores do Brasil. Veja que nós não temos emprego para isso [ (apud COSTA, 2005, p.110).

A consideração acima não só retoma a idéia sobre a concepção presente no imaginário de muitas pessoas a respeito do potencial quase infindável de Porto

Seguro, mas revela a difícil situação vivida pelo município a partir daquele momento.

Assim, quando o “caos, em termos de organização do espaço [

configurar-se como um possível fator limitante à manutenção dos fluxos conquistados e, principalmente, à sua expansão” (CRUZ, 2000, p. 86), o município passaria a ser uma das principais prioridades do governo do Estado, por meio do Prodetur-BA 55 e do governo federal, via o Prodetur-NE. O Programa de Desenvolvimento Turístico do Nordeste – Prodetur-NE – foi implementado em 1991 pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene – e pela então Embratur, que, naquela época, se chamava Empresa Brasileira de Turismo 56 , visando consolidar as diretrizes da Política Nacional de Turismo, instituída pelo governo federal em 1991, embora sua implementação só tenha tido início em 1996. As macroestratégias desta política de turismo, na qual o Prodetur-NE está inserido, seriam: i) a implantação de infra-estrutura básica e turística; ii) a capacitação de recursos humanos para o setor; iii) modernização da

começou a

]

54 Segundo Araújo (2005, p. 327), utilizando estimativas da Bahiatursa, a demanda turística de Porto Seguro, no ano 2000, atingiu a marca de 1.037.045 turistas, ao passo que Salvador, no mesmo período, recebeu 1.886.027 turistas.

O Programa de Desenvolvimento do Turismo da Bahia – Prodetur-BA – foi instituído em termos

55

programa multi-setorial de

formais no ano de 1991. O Prodetur-BA pode ser concebido como um “[

implantação de infra-estrutura básica destinada ao desenvolvimento do turismo, compreendendo ações em: obras públicas, marketing e educação para o turismo” (MENDONÇA JUNIOR; GARRIDO; VASCONCELOS, 2000, p. 17).

56 A EMBRATUR ou Empresa Brasileira de Turismo foi criada em 1966. Atualmente, a sigla designa o Instituto Brasileiro de Turismo, autarquia de turismo nacional vinculado ao Ministério do Turismo

desde 2003, ano da criação desse mesmo ministério. Sua principal atribuição atualmente é referente a promoção internacional do Brasil.

]

77

legislação; iv) a descentralização da gestão do turismo; v) a promoção do turismo no Brasil e no exterior (DIAS, 2003, p. 136). Araújo (2005, p. 326) ressalta que o Prodetur-NE contou com financiamentos do Banco do Nordeste e com recursos repassados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID. Entretanto, houve a necessidade de contrapartidas estaduais e da União da ordem de 40% do valor total do investimento, que, segundo dados do site oficial do Programa 57 , seriam da ordem de 670 milhões de dólares em sua primeira fase. Além disso, coube aos estados contemplados instituir não só políticas regionais para o programa, bem como delinear quais seriam os pólos prioritários passíveis de receber os recursos disponibilizados pela primeira fase dessa ação governamental 58 . Aliás, com isso foi desencadeada uma série de mudanças nos projetos referentes aos pólos prioritários estaduais, visto que os Estados encontraram dificuldades em responder pelas contrapartidas locais exigidas pelo programa (CRUZ, 2000). Embora não faça parte dos objetivos deste trabalho pormenorizar os aspectos estruturais do Programa de Desenvolvimento Turístico do Nordeste, faz-se necessário indagar: qual a importância que o Prodetur-NE teve e ainda tem para Porto Seguro? De início, podemos assinalar que os maciços investimentos oriundos desse programa causaram profundas transformações, primeiramente espaciais, na estrutura da cidade de Porto Seguro. Houve, assim, uma reestruturação da atividade turística nesse município e, conseqüentemente, toda uma reogarnização socioeconômica ao intensificar sua dependência em relação à atividade turística. Ainda buscando responder a questão acima proposta, faz-se necessário trazer à tona a consideração de que o Governo da Bahia, por meio do Prodetur-BA, enquanto correspondente estadual do programa federal, elegeu a Costa do Descobrimento, zona turística composta por Santa Cruz de Cabrália, Belmonte e Porto Seguro, como prioridade para recebimento de investimentos do programa. Essa escolha, em particular de Porto Seguro como zona prioritária, revela o quanto o

57 Disponível em:

< http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/PRODETUR/Apresentacao/gerados/apresentacao.asp >.

Acesso em 17 set. 2006. 58 Segundo Cruz (2000, p. 113), “o Prodetur-NE foi subdividido em três etapas, cujo limite de

vencimento das operações se dará em 12 de dezembro de 2007”. Sabe-se que houve atrasos na primeira fase do programa, visto que em 2005-2006 ainda havia obras em execução.

78

Governo Estadual entendia ser esta região uma área vital para o aumento do fluxo de turistas no Estado. Dentre os motivos que levaram o Governo da Bahia a priorizar a Costa do Descobrimento, podemos assinalar três: i) o aumento expressivo da demanda, conforme já apontado nesta seção; ii) deterioração do produto turístico passível de comprometer a imagem turística de Porto Seguro; iii) a importância estratégica da região diante da proximidade pela comemoração dos 500 anos do Brasil. Esta última

justificativa é corroborada por uma publicação patrocinada pela Secretária da Cultura

e Turismo da Bahia. O documento atesta que uma das causas para a escolha da Costa do Descobrimento como prioridade estadual se deveu:

] [

oportunidade única para sua inserção na mídia nacional e internacional, além de fomentar a motivação histórico-cultural com a necessidade de preparar aquela região para receber o contingente de pessoas atraídas pelos eventos comemorativos (MENDONÇA JUNIOR; GARRIDO; VASCONCELOS, 2000, p. 17). (grifos meus).

às comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, uma

A opção por eleger Porto Seguro como uma das áreas que receberiam grande aporte de recursos foi, portanto, estratégica. Em termos gerais, o município concentrou um conjunto significativo de intervenções públicas relacionadas ao Prodetur-NE voltadas para o turismo, ao compararmos com outros pólos turísticos do Estado. Aliás, Ramos (2002) já havia alertado para a crescente importância de Porto Seguro no cenário turístico estadual, visto que ele e Salvador, segundo dados

obtidos pelo autor “[

concentraram mais de 50% de toda a receita destinada ao

desenvolvimento turístico no período entre o fim dos anos de 1980 e início dos anos

de 1990” (p. 82). Podemos destacar abaixo, segundo informações contidas no site da Secretária de Cultura e Turismo, as intervenções relacionadas ao programa para

a cidade de Porto Seguro em sua primeira fase 59 :

]

Aeroporto Internacional de Porto Seguro 60 ;

59 Importa ressaltar que o município foi amplamente privilegiado no que tange ao aporte de recursos recebidos pelo programa quando comparado com as demais cidades do Extremo-Sul da Bahia. O trabalho de Anjos, Castro e Brumatti (2007) demonstra que essa disparidade gerou conflitos e protestos de outras cidades do Extremo-Sul baiano, em especial com os municípios de Alcobaça, Prado e Caravelas, cidades constituintes da Costa das Baleias, que é uma das sete zonas turísticas prioritárias definidas pelo Prodetur-NE para o Estado da Bahia.

60 O aeroporto de Porto Seguro foi inaugurado no ano de 1982. Seu terminal de passageiros, inicialmente simples e pequeno, hoje ocupa o antigo prédio do Corpo de Bombeiros da cidade. Em 1997, em decorrência dos investimentos do Prodetur-NE, o aeroporto foi reinaugurado, tendo

79

Sistema de abastecimento de água de Porto Seguro – Orla e Frei Calixto;

Receptivo turístico – Centro histórico de Porto Seguro;

Atracadouro Porto Seguro/Apaga Fogo;

Sistema de abastecimento de água e esgoto sanitário de Porto Seguro – setor A;

Drenagem Porto Seguro/Acesso Apaga Fogo/Arraial D’Ajuda;

Rodovia Porto Seguro/Trancoso;

Plantio de gramas e hidrossemeadura Porto Seguro/Trancoso;

Recuperação de matas ciliares de Porto Seguro;

Recuperação do patrimônio histórico de Porto Seguro/Trancoso.

Essas intervenções urbanas promovidas pelo Prodetur-NE, embora capazes de dotar o município de melhores condições infra-estruturais para receber os turistas, não impediram a continuidade e o surgimento dos problemas de Porto Seguro, como veremos a seguir.

2.3.3 Conseqüências do Prodetur-NE e a eclosão de novos problemas em Porto Seguro

O conjunto de intervenções implementadas pelo Prodetur-NE para a cidade

de Porto Seguro ao final da década de 1990 e início da primeira década do presente

século contribuíram para a ascensão de Porto Seguro ao status de uma cidade turística e de um centro turístico consolidado, gerando o incremento da demanda turística.

A denominação de cidade turística foi atribuída em virtude da classificação

dos municípios brasileiros em Municípios Turísticos (MT) e Municípios com Potencial Turístico (MPT) realizada em 1999 pela EMBRATUR. O objetivo desta ação era

classificar os municípios a partir de sua potencialidade turística com vistas a maximizar os investimentos públicos em áreas de relevante interesse turístico do Brasil. A cidade de Porto Seguro foi inserida nessa classificação, pois seria um

80

município turisticamente consolidado, já que detentor de um turismo efetivo e capaz de gerar fluxos permanentes de visitantes. Além dessas características, o município pode ser designado como uma cidade turística por ter o turismo como base da economia local, sendo mesmo a principal fonte de renda para a população (SILVA, 2005, p. 88-89). Segundo Rodrigues e Xavier (2004), a cidade de Porto Seguro, ao ser entendida a partir do Prodetur-NE como parte de um processo de regionalização dos espaços turísticos, também denominado de zonas turísticas 61 , foi inserida, bem como boa parte do litoral nordestino, no cenário turístico internacional. Essa posição de destaque do município baiano desencadeou as condições necessárias para que Porto Seguro assumisse as funções de um centro turístico consolidado, isto é, “[ ], aglomerado urbano que detém em seu próprio território e raio de influência atrativos de qualquer tipo de hierarquia capazes de motivar viagens turísticas” (p. 10). Outra característica dessa categoria oriunda da Teoria dos Espaços Turísticos 62 , e que pode ser percebida em Porto Seguro, ao longo dos anos de 1990, seria sua crescente capacidade de exercer influência regional, pois todas as destinações turísticas da Costa do Descobrimento acabaram por se submeter ao poder centralizador exercido pelo município. Essa dependência se dá não só pela importância econômica que Porto Seguro desempenha regionalmente, mas por ser um centro turístico que agrega inúmeras funções (RODRIGUES; XAVIER, 2004), tais como: centro de distribuição, ou seja, uma localidade que detém a maioria dos serviços e equipamentos turísticos utilizados pelos turistas; centro de estadia, ao possibilitar que os visitantes possam restringir sua visita à própria localidade devido à grande variedade de atrativos; e a função de centro de escala, isto é, servir como ponto intermediário para os turistas que desejam chegar às demais destinações da Costa do Descobrimento.

61 De acordo com Mendonça Júnior; Garrido e Vasconcelos (2000, p.58) as zonas turísticas da Bahia foram subdividas não somente por afinidades geográficas ou socioeconômicas, mas também tomando como referência os seguintes critérios: i) constatação da qualidade dos atrativos turísticos; ii) existência de um produto turístico já conhecido e colocado à venda; iii) existência de recursos naturais preservados com áreas disponíveis para implantação de complexos turísticos; iv) capacidade de implantação de infra-estrutura receptiva sem prejuízos aos recursos naturais e ao meio ambiente.

62 A Teoria dos Espaços Turísticos, de Boullón, e citada por Rodrigues e Xavier (2004), surgiu com o intuito de atender aos propósitos do planejamento turístico estabelecendo um conjunto de categorias, cujos critérios criam condições de classificar os espaços turísticos a partir de suas funções, estruturas, dimensões e inter-relações.

81

Quanto ao aumento da demanda turística para Porto Seguro, não podemos

atribuir tal situação ao fato de que as instâncias públicas dotaram a cidade, por

intermédio do Prodetur-NE, de uma ampla infra-estrutura básica e de apoio ao

turista. Aliás, Cruz considera que a infra-estrutura urbana implementada via

Prodetur-NE não é capaz de ampliar o fluxo de turistas, ou aumentar a sua

permanência, muito menos gerar mais empregos, pois, para a autora, o programa

funcionaria enquanto política de urbanização para o turismo, isto é, seria “uma

política de turismo que faria as vezes de uma política urbana” (CRUZ, 2000, p. 112).

Entretanto, parece lógico afirmar que a incorporação de novos equipamentos e

serviços aos atrativos naturais e culturais já existentes fez com que o município, ao

menos em termos cênicos, se tornasse mais atraente. Tal fato pode justificar uma

motivação adicional por parte dos turistas para visitar a cidade.

Apesar das ressalvas, assim como faz Araújo (2005, p. 327) quanto ao fato do

Prodetur-NE ter concentrado os seus projetos nas áreas turísticas da cidade, não

contemplando assim o município como um todo, parece pouco fundamentado negar

a repercussão que o programa desencadeou para a melhoria da imagem da cidade

nos pólos emissores, em especial após as festividades que marcaram os 500 anos

do Brasil. O gradativo aumento da demanda para a cidade ao longo dos anos de

1990 corrobora esta assertiva, tal como exposto na tabela abaixo: 1200 1000 800 Fluxo de
1990 corrobora esta assertiva, tal como exposto na tabela abaixo:
1200
1000
800
Fluxo
de
600
turistas
(em mil)
400
200
0
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999

TABELA 1 – Fluxo global de turistas em Porto Seguro entre 1993 e 1999 (em 1.000 turistas).

Fonte: Bahiatursa.

82

Embora o fluxo turístico de Porto Seguro tenha crescido vertiginosamente ao longo da década de 1990, saltando de aproximadamente 570 mil turistas em 1993 para mais de um milhão de visitantes em 1999, o que representa um acréscimo de quase 100%, faz-se necessário, antes de finalizarmos esse percurso ao longo da história de Porto Seguro, pormenorizar uma última repercussão da atividade turística na cidade. Referimo-nos à grande desigualdade socioeconômica vigente no município, mesmo levando-se em consideração que não só a quantidade global de turistas cresceu com o passar dos anos, mas também a entrada de divisas. Se, tal como já foi apontado aqui, o crescimento urbano desordenado da década de 1980, aliado ao grande fluxo migratório que se deslocou para Porto Seguro nesse período e à ausência de políticas públicas colaboraram para a formação de bolsões de pobreza – por exemplo, o Baianão –, nos anos posteriores, a situação parece não ter sido atenuada. Assim, a pobreza – um aspecto recorrente da história de Porto Seguro – estaria presente no contexto de vida da maioria da população em pleno século XXI. Há de se dar ênfase para a tese de que não foi somente o turismo, seja pela sua má gestão, seja pela natureza da própria atividade, que desencadeou uma série de impactos negativos sobre a cidade, como, por exemplo, a segregação ou os conflitos sociais. A atividade turística deve ser vista enquanto prática econômica imersa em um contexto mais abrangente, seja ele econômico – o capitalismo –, seja vinculado à estrutura política do país, marcada pela má gestão e pela corrupção. Esses fatores, aliados a outros já tratados nesta seção, podem justificar o delicado quadro socioeconômico vigente no segundo destino turístico da Bahia. Posto isto, tentar-se-á, nos próximos tópicos, apresentar alguns desses impactos negativos do turismo em Porto Seguro de forma mais clara, em especial ao evocarmos dados coletados durante o trabalho de campo realizado por este pesquisador.

2.3.4 O processo de segregação em Porto Seguro

Ao tecer considerações sobre a questão do espaço urbano em Porto Seguro, em especial sobre as áreas marginalizadas da cidade, como os loteamentos à margem da BR-367, Ramos (2002) alerta que:

Em Porto Seguro, o antagonismo nas condições de urbanização se inicia na divisão entre a cidade baixa e a alta, com a primeira sendo o centro

83

privilegiado do turismo e sobre a qual recaem todos os benefícios urbanos, onde vive a parcela que se não é beneficiada pelo implemento do turismo, ao menos não é tão discriminada ou segregada quanto aquela que vive na “outra cidade”, aquela que mais parece ser uma cidade paralela, tanto na percepção de seus moradores, quanto em termos fisiográficos quanto sócio- espaciais (p. 129-130).

A questão da segregação espacial em Porto Seguro se deve em parte ao fato de que as intervenções urbanas realizadas, especialmente aquelas relacionadas ao turismo privilegiaram, em grande medida, o centro da cidade e a Passarela do Álcool 63 em detrimento de áreas periféricas como, por exemplo, a região do Baianão. Aliás, Cruz (2000, p. 25) também defende que a dimensão urbana e os serviços complementares ofertados pelas cidades turísticas têm papel de destaque na escolha das destinações pelos visitantes, conclusão parecida com a existente na obra de Santana (1997, p. 39). Ou seja, os espaços turísticos, a exemplo de Porto Seguro, funcionariam ao mesmo tempo como atrativo e suporte para a prática do turismo. Se como atrativo os aspectos físico-naturais do destino são privilegiados pela mídia turística (SOLHA, 1999), o suporte, isto é, o conjunto de serviços oferecidos pela infra-estrutura urbana e turística é essencial para a satisfação do turista, visto que “a grande maioria das pessoas que fazem turismo ser originária de centros urbanos e de buscar, como turista, o atendimento de necessidades urbanas trazidas de seus lugares de origem” (CRUZ, 2000, p. 25) 64 . Podemos depreender, assim, que o privilégio por alocar recursos públicos na faixa litorânea de Porto Seguro, área de maior trânsito dos turistas, visava também a maximizar o índice de satisfação dos próprios visitantes. Embora esse movimento de urbanização da Passarela do Álcool e do centro de Porto Seguro tenha suscitado benefícios para a própria população local, o que é inegável, esse modelo de turismo parece, entretanto, estar inserido no paradigma que favorece a apreensão metonímica do que seria a cidade e sua dinâmica, além de dificultar uma compreensão mínima de como os habitantes locais se articulam, na

63 A Passarela do Álcool, uma das áreas turísticas de Porto Seguro, foi amplamente beneficiada por ações decorrentes do Prodetur-NE ao receber equipamentos e serviços turísticos. Ainda hoje aquela área é recorrentemente alvo de investimentos do poder público. Um exemplo disso pode ser encontrado na edição do jornal Topa Tudo, de 29 de julho de 2007, ao informar que há um projeto da Prefeitura Municipal orçado em mais de oito milhões de reais que propõe uma reurbanização da Passarela do Álcool com vistas a criar um Shopping a Céu Aberto.

64 Ainda de acordo com a autora, o fato da maior parcela do turismo brasileiro se concentrar na faixa litorânea é um indicativo do quanto as cidades, por si só, se tornaram também elas um objeto de atratividade para o turista. Não só por agregar uma boa infra-estrutura de acesso, hospedagem e de apoio às atividades de lazer, mas por concentrar grande soma de equipamentos turísticos (CRUZ, 2000, p. 33).

84

medida em que o turista que vai a Porto Seguro fica concentrado na Cidade Baixa, que corresponde ao centro da cidade. É lá que ele se hospeda, se alimenta, adquire as suas lembranças, vai ao banco, parte para os passeios em alto mar, dentre outros serviços. Essa “limitação espacial”, como se verá de forma mais pormenorizada no próximo capítulo, não chega a se constituir em um modelo “bolha” (URRY, 1996), ou em “enclaves turísticos” (PEARCE, 1990; LOZATO-GIOTART, 1993 apud CRUZ, 2000), isto é, que distancie ou descole o turista do entorno dos empreendimentos turísticos, mas colabora para minimizar uma apreensão mais holística do que seria Porto Seguro. Isso não impede, contudo, de que haja “rotas de fuga” de turistas dessas limitações, pois há instâncias de interação que aparentemente subvertem essa circunscrição dos visitantes, tal qual veremos no capítulo seguinte ao centrar a atenção na relação dos turistas com os símbolos, discursos e imagens privilegiados pelo trade turístico de Porto Seguro – prefeitura, operadoras e agências de turismo, companhias aéreas, setor de serviços e a Bahiatursa. Além da segregação espacial vivenciada pelos moradores do Baianão, os mesmos também são estigmatizados por parte de alguns agentes turísticos. Um caso ilustrativo aconteceu durante minha pesquisa de campo quando, por intermédio de uma agência de turismo local e juntamente com um grupo de turistas, ia para a Praia do Espelho. O guia da excursão, ao passar pelo Baianão, fez sucessivas piadas e alusões quanto ao perigo de se adentrar naquela área, bem como à pobreza dos habitantes daquela região. E ainda fez questão de mostrar a delegacia de polícia instalada em frente ao bairro, que, para ele, seria um local que os moradores do Baianão sempre “visitariam”. A situação do Baianão é emblemática para ilustrar que em Porto Seguro, sobretudo após a década de 1990, houve um agravamento da disparidade socioeconômica, questão ainda mais delicada ao levar-se em conta que o fluxo de turistas, embora crescente, não permitiu uma melhor redistribuição de renda para a população. Para se ter uma tênue idéia dessa desigualdade vigente na cidade, Porto Seguro ocupava em 2000, de acordo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, a 17ª colocação no Índice de Desenvolvimento

85

Econômico – IDE –, ao passo que no Índice de Desenvolvimento Social – IDS – o município ocupava o 48º posto 65 . Essa disparidade econômica suscita não só um movimento de segregação vigente na cidade, mas desencadeia ainda outro problema recorrente na dinâmica turística de Porto Seguro, como veremos em seguida: um grande número de queixas dos moradores quanto ao turismo da cidade.

2.3.5 A grande dependência do turismo e o descontentamento dos moradores

A dependência econômica de Porto Seguro em relação à prática do turismo gera uma grande quantidade de reclamações de seus moradores. Essas queixas são facilmente apreendidas face à recorrência nos discursos, sobretudo de guias e nativos. Pode-se constatar que há na cidade, no que diz respeito às pessoas vinculadas à atividade turística, que são moradoras do município, certas ressalvas quanto à estruturação da atividade turística em Porto Seguro. Em termos gerais, podemos resumir essas ressalvas dos moradores, algo bastante presente nos discursos de guias, vendedores ambulantes, funcionários de agências e operadoras na seguinte dicotomia: empresários e empreendedores que prosperaram versus nativos que se encontram em uma posição econômica periférica. A constatação de que há certa tensão entre moradores e empresários, mormente os ligados ao setor turístico, já havia sido alvo de comentários de Mesquita Filho (2006). Após realizar várias entrevistas em campo com moradores, o autor chega às seguintes conclusões:

Alguns moradores culpam o grande número de estrangeiros estabelecidos na cidade, sem compromisso com o desenvolvimento local. A população foi praticamente expulsa do centro da cidade, por empresários “de fora”, do ramo da hotelaria e pousadas. [E] que esses empresários, geralmente, não participam da política local ou apenas dela se beneficiam por meio de negociatas (p. 114).

Exageros à parte quanto ao fato de considerar que vários empresários vindos de fora de Porto Seguro estariam envolvidos com práticas ilegais, a conclusão do pesquisador é reveladora para ilustrar o quanto a vinda em massa de

65 Sistema de dados estatísticos - SIDE - da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Disponível em: <http://www.sei.ba.gov.br/side/frame_tabela.wsp?tmp.tabela=T164&tmp.volta>. Acesso em: 12 out. de 2007.

86

empreendedores de outras partes do país e estrangeiros colaborou para um sentimento de injustiça por parte dos porto-segurenses. Um guia da CVC,

comentando sobre a necessidade de novos produtos turísticos para dinamizar a

economia da cidade, afirmou, em dado momento do diálogo: “[

são de fora e o dinheiro acaba indo para essas cidades, sobrando pouco para nós.”

O que se observa é que os habitantes de Porto Seguro, sobretudo aqueles

oriundos da região cacaueira, se restringiram, em sua maioria, à venda de sua mão-

de-obra para empreendimentos turísticos, os quais têm como proprietários empresários advindos de outros Estados. E embora em pólos distintos – moradores baianos versus empreendedores “de fora” –, algo os une: a grande dependência do turismo.

A ausência de oportunidades de ascensão social e o quadro de desigualdade

socioeconômica em Porto Seguro são admitidos até mesmo em termos institucionais. A Superintendência de Investimentos em Pólos Turísticos, a Superintendência do Banco do Nordeste e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID – elaboraram em 2002 o Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável da Costa do Descobrimento – PIDTS. Esse documento, que é indispensável para a inserção do município na segunda fase do Prodetur-NE, e que é citado no trabalho de Gertze (2006, p. 54), chega à seguinte conclusão:

os donos de hotel

]”

Socialmente, poucos são os nativos que se beneficiam do turismo. O custo de vida em geral (alimentação, aluguel, etc.) ficou muito alto. A maioria tem emprego de baixa qualificação e salário pequeno, além de sazonal, vivendo em subúrbios ou favelas. Essa marginalização, a prostituição e o tráfico de drogas, também estimulados pelo turismo “festivo” ali promovido, geram um contexto social de pobreza, criminalidade e violência muito parecido ao que ocorre a periferia de Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

As conseqüências desse contexto social vivido por Porto Seguro não são limitadas aos próprios moradores da cidade. Há desdobramentos também percebidos pelos turistas, como a questão da segurança. Pôde-se constatar, uma grande preocupação, tanto dos turistas, quanto dos intermediários turísticos – agentes de viagem, guias e demais profissionais envolvidos com a oferta de

87

produtos para os turistas – acerca dos altos índices de violência, assunto recorrente nos jornais 66 e em conversas com moradores da região.

A fala de um guia da CVC durante o segundo dia do pacote turístico que

realizei entre julho e agosto ilustra bem essa preocupação. Durante o trajeto que levava os turistas da CVC para uma Barraca na praia chamada Tôa-Tôa, após o city- tour na Cidade Histórica, o guia se fez valer de algumas brincadeiras e eufemismos para avisar aos turistas quanto aos riscos de se andar na praia, sobretudo carregando pertences de valor:

Iremos passar pela Praia do Mundaí, que, na língua indígena quer dizer ladrões. E tenham atenção porque lá há muitos “mundaízinhos”, ou seja, “ladrõezinhos”. Não andem sozinhos para partes da praia mais afastadas.

O aumento da insegurança e do desemprego, a ausência de outras atividades

econômicas e a falta de novas perspectivas para a população são questões presentes na declaração de Laércio Gomes Silva (apud COSTA, 2005, p. 110) ao descrever a situação da maior parte dos habitantes de Porto Seguro:

Veja que nós não temos emprego para isso, devido a sazonalidade de

nossa economia. Nós não apostamos na indústria. [

Não é como aqui que só é turismo, turismo, turismo. A padaria, o mercado, a lavanderia, tudo esperando pelo setor. Então inchou a cidade, mas houve benefícios para a população? Todo esse inchaço causa um grave problema para o setor turístico e para a população nativa. Essa especulação em torno do turismo não melhora em nada a vida do pequeno empresário.

]

]

Como Ilhéus fez. [

Para piorar o quadro de dependência econômica 67 com relação ao turismo, o município não consegue atualmente manter um fluxo de turistas equilibrado ao longo do ano, capaz de ocupar permanentemente os mais de 40 mil leitos instalados na cidade (MESQUITA FILHO, 2006, p. 113). Uma das principais causas para essa concentração do fluxo turístico na alta temporada se refere a Porto Seguro ter optado por priorizar a modalidade de turismo de lazer (GERTZE, 2006, p. 52), que, como se sabe, é realizado, em grande medida, nos meses de férias e nos feriados

66 No mês de julho de 2007, foi grande o destaque dado pelos jornais locais ao “Manifesto contra a violência” realizado em Arraial D’Ajuda. O jornal Topa Tudo, de 22 de julho, reporta que naquela ocasião, além da paralisação da principal estrada que liga o povoado de Arraial D´Ajuda a Porto Seguro, 1200 assinaturas foram coletadas com o intuito de pressionar as autoridades a tomar providências. Já um jornal de Eunápolis, o Correio do Sul, de 17 de julho, destaca uma reunião entre o prefeito de Porto Seguro e seus secretários com o então Secretário de Segurança do Estado, Paulo Bezerra, em Salvador. Na ocasião foram reivindicadas ações do Estado para atenuar a grave situação referente à segurança pública no município.

67 Segundo Mendonça Júnior; Garrido e Vasconcelos (2000) “mais de 2/3 da população da Costa do Descobrimento [zona turística do qual Porto Seguro faz parte] dependem direta ou indiretamente do turismo” (p. 82).

88

prolongados, além dessa modalidade turística não contemplar uma segmentação mais clara 68 . Essa dependência do turismo de lazer enquanto um inibidor da diversificação econômica da Costa do Descobrimento já havia sido, inclusive, motivo de preocupação por parte de um documento patrocinado pela Secretaria de Cultura

e Turismo da Bahia em 2000 69 .

O contexto atual de dependência e de grande oscilação da demanda colabora

para a existência de duas questões recorrentes em Porto Seguro: i) a presença, no

imaginário de muitos porto-segurenses, de uma espécie de volta aos “tempos áureos” do turismo em Porto Seguro; ii) a criação de novos produtos turísticos objetivando minimizar os efeitos da baixa estação.

A questão de uma volta aos “tempos áureos” se resume à esperança que

muitos moradores e empreendedores do município acalentam de que a cidade voltará a ser o que era antes, isto é, um pólo de grande atratividade para o turismo capaz de gerar muitos lucros para esses indivíduos. A questão aqui se refere menos a um suposto decréscimo da demanda turística de Porto Seguro, que de fato não aconteceu, e mais a uma opção estratégica equivocada do planejamento turístico de

Porto Seguro que priorizou o turismo de lazer. Lembro-me bem da insatisfação de um empresário de São Paulo, dono de um restaurante, ao reclamar da cidade “vazia” em pleno período pré-carnaval. Ele assegurou que “nos outros anos, essa

rua aqui não tinha nem como estacionar. Estava tudo tomado de carro e de ônibus. Já nessa época [véspera do carnaval] isso aqui já estava lotado”. Quando a prática turística atual não é lembrada em face de um passado pródigo, a reflexão é projetada para um futuro, sobretudo ao se ter em mente as dificuldades acarretadas pelos períodos de baixa estação. Uma guia constatou que “devia ter um calendário aqui até mesmo na baixa estação”. Uma empresária ratifica as considerações acima ao reforçar a necessidade de paciência para enfrentar a baixa temporada: “Agora é descansar e esperar a Semana Santa, as férias de julho

e por aí vai” 70 .

68 Um documento oficial da Prefeitura é emblemático para ilustrar como há a ausência de uma segmentação de mercado, isto é, não existe um foco específico quanto ao público-alvo, o que acaba por favorecer o deslocamento de um grande fluxo de pessoas. “Em Porto Seguro, visitantes de todas as idades – jovens desacompanhados ou em grupos de amigos, famílias com filhos, casais em lua- de-mel, turistas da terceira idade, executivos viajando a negócios – todos têm diversão e segurança garantidos” (PORTO SEGURO. Nasci aqui, meu nome é Brasil. Porto Seguro: um grande destino desde 1500, [s.d.].). 69 Mendonça Júnior; Garrido; Vasconcelos (2000).

70

Declaração extraída do jornal Tribuna da Costa, n. 52, 25 fev. de 2007.

89

Apesar de a baixa temporada ser de grande incômodo para os porto- segurenses envolvidos com a dinâmica turística, sucessivas iniciativas do trade turístico visaram minimizar os efeitos nocivos do decréscimo de turistas fora da alta estação. A principal medida adotada por esses stakeholders foi a diversificação dos produtos turísticos ofertados pelo destino, cujos destaques são o rearranjo do Carnaporto, o carnaval prolongado da cidade, a criação do Festival Gastronômico da Costa do Descobrimento e a “Semana do Saco Cheio”. A partir do ano de 1997, o carnaval de Porto Seguro passou gradativamente a assumir uma nova estrutura e, concomitantemente a isso, se consolidou como o segundo maior carnaval da Bahia, ficando atrás somente de Salvador. Uma pungente alteração da festa, que tinha como objetivo atrair mais foliões para a cidade, refere-se à mudança de sua duração, a qual passou a ser de oito dias, transcendendo o calendário normal dos demais carnavais, e que ocorrem normalmente até a terça-feira predecessora da Quarta-Feira de Cinzas. Essa alteração, posteriormente incorporada à “identidade” da festa, possibilita o deslocamento de turistas das demais cidades baianas, inclusive de Salvador, para Porto Seguro, visto que as festividades já estariam encerradas nas demais localidades. Além disso, a prefeitura de Porto Seguro firmou recentemente uma parceria que concede à empresa Axé Moi Complexo de Lazer a formatação da festa. Em 2007, por exemplo, essa parceria rendeu dois carnavais: o de rua e o indoor. Se

o primeiro foi tido por muitos moradores como sendo “mais fraco” do que nos outros

anos, pois as principais atrações foram deslocadas para a versão indoor do Carnaporto, a festa realizada em ambiente privado contou com cerca de quinze mil pessoas por dia, de acordo com matéria do jornal Tribuna da costa, de 25 de fevereiro de 2007, página 9. De acordo com a mesma fonte, a esse número soma-se

a média de 50 mil pessoas por dia na versão de rua no carnaval. O Festival Gastronômico da Costa do Descobrimento, iniciativa do SEBRAE, se encontra em sua terceira edição e ocorreu, em 2007, entre os dias 20 de julho e 5 de agosto. O festival, inspirado no Festival Gastronômico de Tiradentes, não só busca apresentar às pessoas a grande diversidade cultural da região, mas também incrementar o fluxo turístico dos municípios envolvidos 71 , especialmente de Porto Seguro.

71 Belmonte, Santa Cruz de Cabrália e Porto Seguro.

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A “Semana do Saco Cheio” foi, durante muito tempo, uma alusão à semana

do mês de outubro que contempla não só o feriado de 12 de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, mas também o feriado do dia 15 de outubro – Dia do Professor. Diante desta “janela” no calendário letivo, o trade turístico de Porto Seguro formata, há anos, uma série de shows e eventos visando atrair um fluxo maior de turistas, em especial grupos de jovens. Destaque para a grande quantidade de adolescentes que se encontram no último ano do ensino médio e que se deslocam para Porto Seguro para se despedirem do ensino médio e da turma. Contudo, há alguns anos, a prefeitura de Porto Seguro, em associação com empresários locais, detectando esse novo nicho de mercado – jovens de classe média em viagens de formatura – estendeu a programação da “Semana do Saco Cheio” para todo o mês de outubro 72 . Desta maneira, ao longo de 30 dias, há shows diários com grandes nomes da música brasileira, sobretudo do axé music. Ressalta- se que todos os shows são realizados em espaços privados – cabanas de praia e arenas – e custam entre 50 e 100 reais, e a variação do preço do abadá depende do nível da atração. Os ingressos mais caros permitem ao turista desfrutar uma apresentação de uma atração de fama nacional, ao passo que os ingressos mais baratos são, em geral, referentes a bandas conhecidas, no máximo, dentro do próprio Estado da Bahia.

Contrapondo-se às arrojadas metas de turismo propostas pelos agentes públicos e às constatações a que chegaram vários autores evocados ao longo desse capítulo, resta concluir a existência de várias situações vivenciadas pelo município, expressas na constatação de que mesmo o substancial crescimento do fluxo de turistas que se deslocam para Porto Seguro, gerando assim mais dividendos para a cidade, não foi capaz de atenuar o profundo quadro de desigualdade socioeconômica vigente. E que, embora programas governamentais, com destaque para o Prodetur-NE, tenham aportado milhões de reais sobre a infra-estrutura da cidade, há ainda um quadro de segregação espacial e social em Porto Seguro.

E resta ainda menos consolo para os porto-segurenses o fato de que uma

cidade detentora de um aeroporto internacional e próxima à BR-101, rota estratégica

72 Durante uma entrevista com uma guia de turismo, a mesma confirmou que a extensão da semana do Saco Cheio se deu nos últimos 4, 5 anos com a chegada da Forma Turismo, empresa de turismo de São Paulo especializada em viagens de formatura. Segundo a guia, essa empresa, especializada em viagens de formatura, é responsável pelo aumento do fluxo maior de turistas jovens entre o final de junho até dezembro.

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para ligar o Sudeste ao Nordeste do país, não tenha conseguido diversificar a sua economia, sendo dependente do turismo. A cidade de Porto Seguro, 500 anos após a chegada de Pero Tourinho, ainda seria marcada pela pobreza, embora a prosperidade seja, sempre, uma possibilidade bem próxima, mas dificilmente alcançada. Realizada esta análise sobre a história do município, em que pese o papel do turismo após os anos de 1970, buscar-se-á no próximo capítulo lançar um pouco de luz sobre a relação entre cultura e turismo em Porto Seguro, mas, desta vez, sob a ótica dos próprios turistas. O acompanhamento do cotidiano dos mesmos, bem como a forma pela qual estruturam sua visita, permitirá apreender que representações e discursos, imagens e símbolos são privilegiados pelo trade turístico daquela localidade.

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3. NOTAS ETNOGRÁFICAS SOBRE O TURISMO EM PORTO SEGURO

Quem são esses sujeitos, produtores e consumidores do turismo? (MOESCH, 2002, p. 37)

Na primeira parte deste trabalho, foi realizado um percurso acerca da idéia de baianidade ao longo do século XX. Vimos que os discursos e representações relacionados a essa “identidade cultural baiana” sempre foram vinculados à imagem turística de Salvador, visando o incremento do turismo. Ao segundo capítulo, coube apresentar versões da história de Porto Seguro, buscando ainda pormenorizar como deu-se a ascensão da atividade turística nessa cidade do Extremo Sul da Bahia. Visando enriquecer as observações feitas ao longo de todo esse capítulo, optou-se por trazer à tona discursos provenientes de atores sociais – pequenos comerciantes, guias e moradores – que usualmente são relegados a uma posição secundária pela administração pública. Posto isso, passemos ao terceiro capítulo que visa apresentar uma descrição etnográfica de um pacote de viagem a Porto Seguro, em que pese a atenção dada aos discursos e representações, imagens e manifestações culturais que seriam privilegiados, por parte do trade turístico municipal, não só para divulgar a cidade, mas que, de alguma forma, seriam emblemáticas para a construção de uma “autêntica cultura” vigente no segundo destino turístico do Estado da Bahia. Importa ressaltar que a apreensão desses ícones culturais que seriam privilegiados por atores sociais vinculados ao turismo de Porto Seguro, e que, segundo Grunewald (2001, p. 48), seriam matrizes para a idéia de “baianidade hegemônica”, se deu a partir de um estreito contato com os turistas, indivíduos para os quais, de maneira óbvia, essas manifestações são destinadas. E a busca por compreender o que pensam os turistas fez com que se optasse, no presente estudo, pela adoção do viés antropológico, na medida em que a própria empreitada antropológica pressupõe sua ligação a um modo de conhecimento baseado na observação direta, mediante impregnação lenta e contínua de grupos sociais com os quais mantemos uma relação pessoal (LAPLANTINE, 1993, p. 21). Entretanto, antes de adentrarmos no cerne deste capítulo, faremos uma breve análise sobre como o turista é entendido nos estudos do turismo, com destaque para análises da Sociologia e Antropologia do Turismo, ou mesmo em obras que dialoguem com esses campos. Isso é necessário, pois, como veremos adiante, o

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turista, em muitos casos, costuma ser estigmatizado sob tipologias que, se têm o mérito de reconhecer diferentes motivações e atitudes dos visitantes, acabam por circunscrevê-los em modelos fechados. A opção pela abordagem antropológica busca evitar ainda que a análise seja, a priori, norteada por um desses modelos. A apresentação de um panorama sobre o conceito de turista pretende tanto marcar distância da análise aqui empreendida em relação a alguns modelos, quanto expor aquelas interpretações sobre o turista que mais se aproximam de nossa proposta analítica.

3.1 O turista “de massa” e a idéia de manipulação

No fim do caminho o cansaço, do sobe e desce do ônibus, do entra e sai dos lugares desconhecidos que, parece, continuaram desconhecidos, o olhar e os passos medidos religiosamente em tempo, um tempo produtivo que aqui se impõe sem que disso as pessoas se dêem conta. Nesse sentido a viagem cronometrada torna- se travessia, toda ela é percurso, é preciso pôr-se em movimento para não perder nada. Flâneire passos lentos, olhares perdidos não

cabem. Tudo é diferente e ao mesmo tempo sempre igual. [

O

tempo do relógio se impõe, aqui ele é até mais importante que no trabalho pois indica uma rigorosa repartição programada do tempo. O contemplar uma fachada ou uma criança brincando pode levar o turista a perder o ônibus. (CARLOS, 1999, p. 31-32).

]

O turismo de massa, segundo Urry (1996, p. 40), teve sua gênese nas estações de água do interior da Inglaterra do século XVII. Estas estações, no século XVIII, e mais ainda no século XIX, deixaram gradativamente de ser visitadas para fins medicinais e passaram a servir como lugares para prática do lazer. Além da própria mudança de mentalidade quanto ao litoral, na medida em que o mar passa a ser visto também como um ambiente para desfrute e prazer (CORBIN, 1989), outros fatores propiciaram a ascensão de um turismo das massas populares. Urry (1996) elenca alguns aspectos que contribuíram ainda para a emergência do turismo de massa: a racionalização do trabalho; a crescente importância das férias e da recreação 73 ; o aumento da renda da população industrial e a melhoria dos meios de transporte, sendo esse último aspecto claramente identificado com a nova realidade turística de Porto Seguro, visto que a inauguração da BR-101 e a ampliação do

73 Neste sentido, Castro (2005, p. 80) considera que o aumento da importância da noção de lazer, em oposição ao stress e as cobranças relativas ao trabalho, é um importante elemento que dá sustentação a concepção do turista.

94

aeroporto internacional da cidade, fato ocorrido em 1997, foram decisivos para o aumento do fluxo turístico para o município. Porto Seguro reúne todas as características, em especial aquelas mencionadas por Urry (1996), para a efetivação plena do turismo de massa 74 . Além disso, ao analisar a questão dessa modalidade de turismo no caso do Brasil, Cruz (2000) relembra que a maior fatia da atividade turística se concentra na faixa costeira do país, até porque as cidades do litoral brasileiro concentram os equipamentos turísticos 75 necessários para a efetivação do “chamado turismo de massa” (p. 33-34). O turismo, mais especialmente o turismo de massa, se encontra atualmente diante de um desafio: como assegurar o caráter individual de cada visitante e, ao mesmo tempo, garantir a efetividade de um aparato cada vez maior de “tecnologias da viagem” (NERY, 1998, p. 185) que provocam, a cada dia, mais rigidez na organização das visitas? Como assegurar a satisfação do visitante face ao conjunto de procedimentos organizacionais que acabam por homogeneizar o trato em relação aos próprios turistas 76 ? Este desafio tem merecido destaque nos debates acerca da necessidade de novas formas de conceber e estruturar a própria atividade turística, preocupação também de Carlos (2000). Nesta direção, constata-se o surgimento de novas teorias para conceber o fenômeno turístico. Conceitos como “pós-turismo” (MOLINA apud PANOSSO NETTO, 2005, p. 80), com ênfase para o caráter tecnicista e primazia das novas tecnologias da atividade turística, e “pós-turista (de massa)” (URRY, 1996, p. 139) vêm à tona como carros-chefe de uma nova forma de estruturar, ou mesmo compreender, o turismo. No que tange aos “pós-turistas”,

74 Ao contrapormos a tese de Cruz (2000, p. 25), quanto ao fato das cidades turísticas terem de, necessariamente, ofertar boa infra-estrutura para os visitantes, com os relatos de turistas contidos no trabalho de Costa (2005, p. 98-99), pode-se constatar o quanto a questão da infra-estrutura é importante para os turistas que se deslocam para Porto Seguro, na medida em que é um tópico recorrentemente citado pelos visitantes.

Segundo o Glossário de Turismo, localizado no portal do Ministério do Turismo, pode-se entender como equipamentos turísticos o “conjunto de edificações, de instalações e de serviços indispensáveis ao desenvolvimento da atividade turística. Compreendem [ainda] os meios de hospedagem, os serviços de alimentação, o entretenimento e diversão, o agenciamento, os transportes, a locação de veículos, os eventos, os guias, a informação e outros serviços turísticos”. Disponível no site:

http://www.braziltour.com/site/br/dados_fatos/conteudo/lista_alfabeto.php?pagina=3&in_secao=387&b

usca=E. Acesso em: 10 fev. de 2008.

75

76 Durante os pacotes turísticos que participei, é fácil notar certa impessoalidade no trato, pois há uma ênfase no uso, por parte dos guias e motoristas, em códigos e números para identificar as pessoas. “Hóspede do quarto 5”; “o pessoal do quarto 30”. Talvez o fato dos guias e motoristas usarem expressões como a “Família CVC” e expressões análogas seja uma maneira de amenizar essa impessoalidade.

95

ainda segundo Urry (1996), haveria, nesse novo paradigma turístico 77 , uma maior consciência por parte dos visitantes de seu papel durante a sua estada no destino turístico. Aliás, reflexões sobre o turismo de massa não faltam. É bem verdade que essa modalidade de turismo, ao se basear, dentre outros fatores, “em técnicas de grande volume de produção, para explorar economias de grande escala, em marketing, hospedagem e transporte” (GOELDNER; RITCHIE; MCINTOSH, 2002, p. 204), além de não favorecer que o turista tenha um tempo de contato mais extenso com o local visitado 78 , acaba por fomentar uma visão reduzida dos destinos turísticos (FERRARA, 1999), além de incentivar o consumo (CARLOS, 1999, p. 25). Mas, o que se propõe inicialmente é que o turismo de massa não seria só isso. Cohen (2001, p. 231), ao término de sua reflexão acerca do “turismo institucionalizado”, expressão cunhada pelo próprio autor para designar aqueles tipos de turistas que são tratados de maneira rotineira pela “organização” turística 79 , relembra a ironia no qual o turismo institucionalizado moderno se encontra imerso:

Quanto mais o fluxo do turismo de massas crescer, mais institucionalizado e padronizado o turismo será e, conseqüentemente, mais fortes serão as barreiras entre turista e a vida do país anfitrião. O que eram barreiras formais anteriores entre países diferentes se tornam barreiras informais dentro dos países (COHEN, 2003, p. 231). (grifos do autor).

A despeito da citação acima, que aponta para os limites da atividade turística de massa, este trabalho busca reconhecer que há outras dimensões importantes no turismo de cunho massivo que são muitas vezes relegadas pela academia. O próprio Cohen (apud URRY, 1996, p. 24), asseguraria, em outro momento de sua análise que essa modalidade de visita tem, ao menos, o mérito de propiciar que pessoas conheçam outros lugares que, de outra forma, não visitariam. Algo que vai ao encontro desta consideração é a contribuição de Moesch (2002) ao questionar o paradigma que taxa o turismo de massa como um “movimento de alienação e consumismo cultural”. Segundo a autora, essa linha de análise não é capaz de fazer compreender a complexidade de um fenômeno responsável pelo deslocamento de

77 Para uma crítica a esse modelo de “pós-turismo”, ver Filho (2005).

78 Uma abordagem que vai ao encontro dessa concepção é a abordagem de Cruz (2000, p.22), pois a autora considera que a efemeridade do turista com o território que visita é ainda mais aguda na modalidade tida como turismo de hotelaria.

79 Por “organização turística”, o autor entende o complexo de agências de turismo, empresas de viagem, redes hoteleiras, dentre outras empresas que alimentam o setor turístico (COHEN, 2001, p.

230).

96

quase 700 milhões de turistas na contemporaneidade, sobretudo ao reduzi-los a uma “massa alienada de consumidores” (p. 40). É importante atentar que, à esteira de análises generalistas acerca do turismo de massa, visões não menos abrangentes sobre o turista se constituíram. E já que este capítulo se propõe a realizar uma descrição etnográfica do turismo em Porto Seguro, nada faz mais sentido do que realizar uma breve reflexão sobre o turista, buscando, nesta pesquisa, sair de um lugar-comum que aponta o turismo de massa como uma atividade alienante, capaz de fomentar exclusivamente o consumo e que tem como premissa a passividade dos turistas nela imersos. A literatura sobre o turismo, em especial aquela relacionada às disciplinas

Sociologia, Psicologia e Antropologia do Turismo, é pródiga em forjar tipologias de turistas. Moesch (2002) exemplifica essa tendência generalista e reducionista ao assegurar que o sujeito do turismo tende a ser reduzido a um “homo economicus, como participante ativo do fenômeno ou consumidor potencial a ser despertado por uma publicidade eficiente” (p. 41). Em primeiro lugar, não se pretende aqui realizar uma revisão bibliográfica do conceito de turista, muito menos construir uma teoria do comportamento turístico, algo que transcende aos objetivos desta pesquisa 80 . Muito menos é nosso desejo realizar uma defesa em favor dos turistas, mormente aqueles que, a priori, se encaixariam em uma “concepção” de turista de massa presente em nosso senso comum. Nessa concepção, o turista é tido como um sujeito mal-educado, excessivamente extrovertido, passivo e incapaz de exercer a crítica diante daquilo que vê e vivencia. Este enfoque, que pode ser atribuído a uma classe média que deseja ver-se diferenciada da população com menor poder aquisitivo, contém em si uma visão negativa em relação ao “passeio popular” oriundo da classe trabalhadora, identificado comumente com o turismo de massa, que, “ao apreciar a convivência, a sociabilidade e o fazer parte de uma multidão, é encarado freqüentemente com

desprezo [

Este posicionamento perante o turismo de massa não foi evocado aqui ao acaso. Ao manejar estatísticas da Bahiatursa de 1997, Solha (1999, p. 84) assinala que 88,9% dos turistas entrevistados em Porto Seguro têm o passeio como a principal motivação para viajar. Além de estigmatizar essa prática turística e

]”

(URRY, 1996, p. 72).

80 Além disso, existem bons estudos a respeito dos diversos comportamentos do turista, como a obra de Ross (2002).

97

defender o turismo como “viagens de prazer”, tomadas como expressão elitista e individualista da cultura ocidental moderna” (NERY, 1998, p. 184) 81 , a visão dos passeios populares e do turismo de massa como algo inferior acaba por ser reproduzida por parte dos formadores profissionais de opinião, incluindo aí até mesmo membros de comissões oficiais relacionados ao turismo (URRY, 1996, p. 72) 82 .

Um exemplo digno de menção quanto ao empobrecimento conceitual do turista pode ser apreendido em um recente trabalho sobre Porto Seguro, cujo foco é a relação entre a cibercultura e o turismo no município. O autor, em dado momento da pesquisa, assinala que:

Essa concepção [de cidade turística] implica no (sic) entrelaçamento dos aspectos que caracterizam a produção do senso do local, incluindo nessa perspectiva, a produção de espaços e ações que espetacularizam a cultura, propondo, muitas vezes, aos visitantes apenas uma falsa experimentação do espaço. Afinal, deve-se ressaltar que em um espetáculo, a cidade e turista tornam-se, respectivamente, atração e público passivos, entregues às manipulações, produzindo e desfrutando apenas o ilusório em um processo que se pode chamar de ‘alienação coletiva’ (COSTA, 2005, p. 119). (grifos meus)

O que nos parece problemático aqui é menos a conclusão do pesquisador e

mais uma dificuldade, a partir de generalizações dessa natureza, em apreender, por exemplo, dados aspectos dos comportamentos dos turistas que poderão ser de grande valia para a compreensão de que imagens os mesmos possuem de Porto Seguro e, conseqüentemente, das manifestações culturais apresentadas pelo trade turístico. A compreensão dos turistas como uma massa amorfa, homogênea, propensa à alienação parece menos uma visão equivocada e mais uma compreensão parcial, pois que constituída de “longe e de fora” (MAGNANI, 2002). Enfim, ainda hoje se vislumbra, por meio de exemplos dessa natureza, a postura

“intelectualmente chique [

]

de ridicularizar os turistas” (MACCANNELL, 1976, p. 9).

81 Por “viagens de prazer” pode-se entender aquele tipo de empreendimento em que o indivíduo, diferentemente da dimensão coletiva dos passeios populares, se desloca mediante um projeto de “desenvolvimento de si” (NERY, 1998, p. 123). Além de a viagem passar a exercer o papel de um deslocamento físico-moral do individuo na construção de sua própria pessoa, o deslocamento se dá, sobretudo, mediante uma projeção de uma expectativa referente ao destino turístico. 82 Neste sentido, Urry (1996, p. 33-34) relembra que à medida que houve o processo de democratização das viagens no Ocidente, começam a surgir também as distinções de status. Não ao acaso, os balneários britânicos, por exemplo, bem como outros lugares para o qual havia um fluxo maior de turistas foram alvo de ressalvas. Enfim “grandes diferenças de ‘tom social’ se estabeleceram em lugares que, de resto, eram semelhantes. Alguns desses lugares desenvolveram-se rapidamente como símbolos do turismo de massa, lugares de inferioridade que representavam tudo aquilo que os grupos sociais dominantes consideravam de mau gosto, comum e vulgar” (URRY, 1996, p. 34).

98

O estigma que se criou em relação ao turismo de massa foi, portanto, um

elemento adicional para que a presente pesquisa se debruçasse sobre o universo dos “turistas de pacotes”. O objetivo de tal intento não é só a tentativa de apreender, mediante uma imersão junto a essas pessoas, que representações as mesmas

possuem de Porto Seguro e as manifestações culturais destinadas aos visitantes, mas, o que nos move também é justamente decifrar de “perto e dentro” (MAGNANI, 2002) quais são suas motivações, suas posturas e suas explicações diante daquele novo universo, sobretudo de ordem cultural, que se descortina. Retomando à questão do turismo de massa, Carlos (1999) considera que a busca pelo lazer na contemporaneidade fez com que o homem se tornasse um ser passivo, na medida em que a sociedade de consumo tudo transforma em mercadoria, não sendo mais o lazer uma atividade constituinte do cotidiano. Assim, o turista seria um espectador em busca de espetáculos e que, sobretudo, se deixaria levar pelos rígidos programas das visitações que se dão por meio dos pacotes turísticos. Os turistas, ainda de acordo com a autora, seriam destituídos de um senso crítico capaz de se diferenciarem uns dos outros, já que é desconsiderada a

possibilidade desses visitantes apresentarem suas próprias leituras dos espetáculos, isto é, tratar-se-ia, então, de uma “multidão amorfa” (CARLOS, 1999, p. 26). A abordagem de Boorstin (apud NERY, 1998, p. 195) prima por uma visão do turista de massa como um indivíduo incapaz de experimentar a “realidade”, fadado a vivenciar “pseudo-eventos”. Para o autor, o turista poderia ser tido como um emblema de uma “inautencidade” da vida contemporânea. Semelhante à abordagem de Carlos, Boorstin entende ser o visitante um indivíduo passivo e que ficaria circunscrito aos limites impostos aos grupos de turistas, o que acaba por lhe distanciar de um contato mais intenso com os anfitriões. Apesar das especificidades dos estudos acima delineados, tanto Carlos quanto Boorstin retomam um debate caro à Antropologia do turismo: a questão da autenticidade e as variações decorrentes dessa questão, como, por exemplo, “inautencidade” e “autenticidade representada” (DREDGE, 1999 apud WAINBERG, 2002, p. 51).

A questão da autenticidade é particularmente cara a MacCannell (1976), na

medida em que o autor considera que o turista busca, em suas viagens, a autenticidade, ainda que encenada, como uma forma de expressar uma

necessidade humana em relação ao sagrado. Suas conclusões em muito se

99

assemelham à visão defendida por Boorstin (apud NERY, 1998), ao colocar em xeque a autencidade das experiências turísticas, o que, segundo Grunewald (2001), parece ser um discurso, no mínimo, deslocado, pois todas as experiências turísticas seriam autênticas, “não importando se um elemento cultural foi construído exclusivamente para encenação” (p. 33-34). Destarte, concordamos com a tese de que não há experiências mais ou menos autênticas, pois todas o são, não importando se são vistas como espetáculos. Uma terceira visão que comunga com a tese de que os turistas teriam a passividade como uma característica inerente é defendida por Silveira (2006). A autora, cujas conclusões são decorrentes de sua etnografia sobre a dinâmica e os comportamentos dos turistas em resorts, considera que sua atitude passiva seria fruto da disposição dos pacotes turísticos oferecidos no Brasil, os quais primam, em sua maioria, por apresentar de forma programada e metonímica os atrativos turísticos. Embora a autora reconheça as diferentes fases vividas pelos turistas, mormente ao se basear no modelo binário de Graburn (1989), ela considera que o turista seria oposto ao viajante, este, sim, detentor de uma motivação calcada no espírito de aventura, ou seja, de conhecer efetivamente a cultura dos “outros”. É importante ressaltar que visões mais céticas quanto à valorização da dimensão individual de cada turista, além do baixo reconhecimento de sua pró- atividade, surgem a reboque de análises bastante críticas 83 em relação à própria estruturação da atividade turística de massa tal como existe hoje. Urry (2003) é um dos maiores críticos. Para o autor, essa modalidade de turismo busca tratar os indivíduos da mesma forma, não concebendo assim diferenciações entre eles. Este tratamento é desencadeado pelos prestadores de serviço em questão, ou seja, os “mediadores turísticos” (1996, p. 123), alvo de nossa análise ainda neste capítulo. Na contramão de análises dessa natureza, tidas aqui como céticas quanto à função do turismo em propiciar um efetivo conhecimento do lugar, o que favoreceria uma apreensão menos holística do destino e da cultura daqueles que lá habitam, existem trabalhos que apresentam outra visão do turista de massa. A concepção defendida por esses trabalhos, embora critiquem certas práticas dessa forma de se estruturar o turismo, é mais otimista quanto aos benefícios acarretados.

83 Além das obras já mencionadas até aqui, o estudo de Cruz (2000) também se insere nessa linha de abordagem quanto aos benefícios questionáveis do turismo de massa.

100

A abordagem de Smith (1989) se diferencia das acima mencionadas por não enquadrar os turistas em um paradigma único, concepção também adotada por Cohen 84 . Antes, a autora elabora sete tipologias de turistas 85 buscando relacionar os tipos de visitante ao volume de turistas e ao nível de adaptação dos mesmos ao destino. O quê nos importa aqui é o turista de massa, pois este é comumente entendido como aquele que se desloca para Porto Seguro. De acordo com Smith (1989, p. 12-13), esse perfil de turista tem como características o fluxo constante e a busca de amenidades, isto é, alguns suportes capazes de lhe propiciar maior conforto ao longo de sua viagem, tal como em sua origem, o quê não seria algo negativo em si mesmo. Wainberg (2002), ao argumentar que a essência do turismo é a capacidade de atração que a alteridade possui, forja quatro tipologias de turistas, a saber:

turistas com alta conexão étnica, turistas passivos, turistas consumidores e turistas com baixo interesse étnico. O quê nos chama a atenção nessa linha de abordagem é que mesmo reconhecendo que dadas modalidades de turistas têm um baixo interesse pela diferença, ainda assim elas não seriam destituídas de algum tipo de relação com o outro, esteja essa relação circunscrita ao consumo – turistas consumidores –, seja ela sintetizada apenas nas manifestações culturais dos nativos – turistas passivos. O próprio autor lembra que o turismo tem conseguido estabelecer diálogos (interculturais) em que, em muitas ocasiões, a própria diplomacia fracassa (p. 51). Castro (2002) refuta a existência de experiências turísticas melhores do que outras. Essa concepção seria fruto, segundo o autor, de um pensamento de fundo elitizado que atribui ao turismo de massa uma carga depreciativa, como sendo uma prática vulgar, ou mesmo tido como algo menor. Ao centrar a sua atenção na figura do visitante, Castro (2002) constata “que o turista viaja por um plano da realidade

84 Cohen (2001) considera que há dois elementos essenciais componentes da atividade turística: a novidade e a familiaridade. Com base nesses dois critérios, e a partir de suas diferentes combinações, o autor estabelece uma tipologia baseada em quatro papéis turísticos: de um lado, na forma de turismo institucionalizado, figuram o turismo de massa individual e o turista de massa organizado; de outro lado, na prática não-institucionalizada de turismo aparecem o explorador e o andarilho. Ainda de acordo com o sociólogo, os turistas de massa são indivíduos vinculados aos mediadores turísticos, ao passo que o andarilho e o explorador seriam pessoas mais abertas, independentes do “establishment turístico” (p. 230).

Segundo o estudo empreendido pela autora, os tipos de turistas podem ser caracterizados como:

explorador, elite, excêntrico, usual, massa incipiente, massa, charter.

85

101

que não é falso, inautêntico ou mentiroso; apenas diferente, com um estilo cognitivo especial” (p. 86). O modelo constituído por Graburn (1989, p. 25) advoga que o turista se vê inserido em diferentes estágios. De cotidiano/usual/ordinário ao fora do cotidiano/ incomum/extraordinário. Este paradigma, de certo modo, não só será retomado adiante por Nery (1998) e Urry (2003), mas será percebido durante boa parte da construção etnográfica propriamente dita. Na análise de Nery (1998), o turista seria aquele indivíduo que, ao se inserir em uma viagem turística, precisa sentir que não está em seu mundo ordinário, mas imerso em uma experiência sagrada. Assim, as viagens turísticas se assemelhariam com

Peregrinações seculares nas quais as pessoas se lançam para fora de seus mundos habituais, quais seja, o da vida cotidiana, para uma experiência de liminariedade na qual as convenções e códigos da experiência social normal são alterados, invertidos ou neutralizados (p. 214-215).

Ora, ao adotarmos aqui a concepção de turista que concebe o visitante como alguém que busca, por meio de um deslocamento espacial, uma ruptura entre o ordinário e o extraordinário, nós entendemos não fazer sentido mensurar, sobretudo com fins depreciativos, as práticas de dado turista porque o mesmo se “encaixaria” em um “perfil” de turista de massa. Consideramos, portanto, que os turistas que se destinam a Porto Seguro não estão inseridos em um engodo, ou mesmo em uma manipulação, na medida em que aquilo que os motiva é justamente romper com a sua rotina, isto é, com o seu lugar usual de residência, de trabalho. Obviamente que nossa compreensão do turista não busca isolar o individuo dos aparatos comunicacionais, das práticas econômicas ou mesmo de ideologias vigentes no tecido social, mas reconhecer no turista “o epicentro do fenômeno turístico” (MOESCH, 2002, p. 13) e não meramente um sujeito que viria a reboque das práticas econômicas. O turista não estaria, então, à mercê de ideologias, manipulações de sonhos e desejos relativos ao turismo (CARLOS, 1999, p. 33), nem mesmo como um “prisioneiro de construções simbólicas falsas, não autênticas” (CASTRO, 2002, p. 85), mas como um desencadeador, isto é, a razão de ser de toda a atividade, visto que a decisão de viajar do turista é que “desencadeia o conjunto completo de mecanismos de prestação de serviços” (BURNS, 2002, p. 58).

102

A abordagem adotada nesta pesquisa entende os turistas como a alma da

atividade turística. Pretende-se ressaltar aqui que a expansão do turismo depende do encantamento cognitivo e emocional do viajante, isto é, de seus desejos e pulsões (WAINBERG, 2002, p. 52-53). Até porque, como já dito anteriormente neste trabalho, não se deseja privilegiar a dimensão econômica do fenômeno, esfera para a qual a definição de turista calcada sob parâmetros quantitativos – tempo e espaço –, tal qual a adotada pela Embratur se encaixa bem 86 .

3.2 Os mediadores da viagem

O turismo de massa contemporâneo não pode ser dissociado da atuação dos

“mediadores turísticos” (CHAMBERS, 1997; NERY, 1998), ou da “organização turística” (COHEN, 2001). Aliás, a própria condição de turista contemporâneo coloca

em evidência a existência desses intermediários, em especial para a formulação de demandas por parte dos turistas (NERY, 1998, p. 184-185). Esta visão é duplamente verdadeira ao se ter em conta a atuação das agências de viagem e, conseqüentemente, dos vendedores durante a organização das viagens que realizei para Porto Seguro. Entendemos aqui como mediadores da viagem todos aqueles indivíduos ou mesmo instituições que compõem o setor do Turismo e que são responsáveis por intermediar a relação entre o sujeito – turista – e o destino, em especial os seus atrativos. Assim, guias e agências de viagens, recepcionistas e redes hoteleiras, revistas de turismo e jornalistas, guias especializados e suplementos literários, mapas e agentes de viagem seriam alguns dos exemplos de mediadores existentes entre o viajante contemporâneo e aquilo que ele almeja conhecer. Segundo Panosso Netto (2005, p. 29), a viagem turística começa bem antes do embarque. E o papel das agências de viagem é importante, uma vez que “a comunicação realizada pelas companhias de turismo carrega microvalores éticos, religiosos, culturais, sexuais [e] produtivos” (MOESCH, 2002, p. 39).

86 De acordo com a EMBRATUR, que se faz valer do conceito de turista utilizado pela Organização Mundial do Turismo – OMT –, turista seria aquele indivíduo que permanece, no mínimo, 24 horas em outra localidade. Esta definição, como defendemos, é bastante útil para fins estatísticos do turismo (ROSS, 2002), isto é, a mensuração de fluxos turísticos, algo que requer certa padronização dentre os diferentes órgãos responsáveis por quantificar o turismo nos diferentes países do mundo.

103

As experiências que tive nas diferentes agências de viagem que visitei foram

interessantes em diversos aspectos. O primeiro deles é que as agências antecipam ao turista uma gama de símbolos e discursos que são privilegiados pelo trade turístico porto-segurense e que, posteriormente, pude apreender in loco. Durante a ida até as agências para acertar os detalhes referentes às compras dos pacotes turísticos para Porto Seguro, algo que despertava minha atenção, logo de início, era a grande visibilidade dada à cidade. As fachadas das agências apresentam inúmeras fotos do destino, além de expor “ofertas sensacionais” relativas a Porto Seguro, apresentando com grande destaque as facilidades para compra de pacotes turísticos. Nessa direção, Solha (1999, p. 92) aponta que os turistas buscariam nas agências não apenas comodidade na compra de passagens e escolha de hotéis, mas ainda preços baixos, além, é claro, do desejo de se ter a presença de um guia para um melhor conhecimento do lugar que se visita 87 . Essas são algumas das demandas dos turistas de massa, tal como nos relata Smith (1989, p. 13-14). Essa intensa exposição de Porto Seguro nas agências de viagem pode ser mais bem compreendida ao se ter em mente duas declarações obtidas ao longo do trabalho de campo. A primeira observação é oriunda de uma turista paulista; a segunda, de uma guia da Decálogo Turismo, empresa mineira de turismo rodoviário. Durante uma visita à Cidade Alta, uma turista de São Paulo disse-me que o quê mais a motivara a conhecer Porto Seguro era a agitação e o preço, pois, “é inegável que o preço ajudou porque era o pacote mais barato”. O destino Porto Seguro é o mais barato dentre todos aqueles comercializados para o Nordeste nos fôlderes da CVC. Como vimos no segundo capítulo, a existência de uma maciça oferta de leitos – cerca de 40 mil vagas –, além de boa infra-estrutura e grande

dependência do turismo são elementos capazes de explicar a contundente redução dos preços de uma viagem para o segundo destino turístico da Bahia.

A questão da dependência com relação ao destino pode também ser

visualizada sob a ótica das agências de viagem. Uma das guias da Decálogo afirmou que o único lugar para o qual a empresa tem saídas garantidas semanalmente era mesmo Porto Seguro. Segundo ela, saídas para os demais

87 Uma turista explicou-me que prefere conhecer os lugares com guia para “para não se perder nada”. Um outro turista defendeu que “a primeira vez que se vai a alguma cidade é melhor mesmo ir de pacote. É meio que perder tempo ir por conta própria na primeira vez. Na segunda [vez] tudo bem.”

104

destinos da operadora – Cabo Frio (RJ), Beto Carrero (SC) e Caldas Novas (GO) – muitas vezes eram viabilizadas porque as empresas de turismo rodoviário de Belo

Horizonte – São José Turismo, Decálogo, Rafatur e Schindler – agrupavam todos os turistas interessados nesses destinos em um só ônibus, normalmente o da empresa que já tinha vendido a maior quantidade de bilhetes.

A forma pela qual Porto Seguro é apresentada muito se assemelha à forma

de um paraíso permeado de belezas naturais – reforçadas por belas fotos –, cujo povo se compõe de gente alegre e receptiva. O excerto seguinte extraído de um fôlder da CVC é emblemático para ilustrar a imagem turística 88 de Porto Seguro divulgada por essa agência:

São 90 km de belíssimas praias acompanhadas por recifes de corais que formam piscinas naturais e possibilitam mergulhos incríveis. Além da alta temperatura constante, Porto Seguro conta com o calor do povo baiano e de todos aqueles que se apaixonam pela cidade, e fazem dela um lugar tão especial. (CVC. Férias de Julho em Porto Seguro. [s.d.])

É interessante notar ainda que as diferentes visões que os agentes de viagem

apresentaram-me são em muito semelhantes a imagens de Porto Seguro veiculadas em outros suportes, e que também assumem a função de “mediadores de viagem”. Ao analisar as imagens de Porto Seguro veiculadas em periódicos de turismo, Solha (1999) ressalta que essas representações solidificam a imagem da cidade como um “local paradisíaco” (p. 105). Além disso, também para Costa, a imagem privilegiada da cidade seria a de um “cenário mágico” detentor de “um povo bom, festeiro e receptivo” (2005, p. 79).

A ênfase dada pelos agentes da Decálogo Turismo e da São José Turismo

empresa em que fui realizar um orçamento para o pacote turístico de outubro – às “baladas” de Porto Seguro, em uma clara menção ao caráter festivo da cidade, associadas as conclusões de Solha (1999) e Costa (2005), contribuem para ratificar a tese de que há certas imagens privilegiadas pelo trade turístico em detrimento de outras. O discurso adotado pelos agentes turísticos é recorrente até mesmo em documentos institucionais da Prefeitura de Porto Seguro, passando por sites

88 Solha (1999, p.10) entende imagem “como fenômeno perceptivo formado pelas interpretações racionais e emocionais dos consumidores e tem ambos os componentes cognitivos (crenças) e afetivos (sentimentos)”. No caso do turismo, a autora se faz valer do termo imagem turística, que seria, segundo ela, “o resultado dos julgamentos e valores que os indivíduos atribuem aos seus elementos.” (p. 11). Além disso, a imagem turística de um lugar, embora resulte de experiências pessoais, estaria intimamente associada às informações disponíveis sobre o lugar a ser visitado.

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especializados em turismo e alcançando, finalmente, os guias de viagem. Segundo um documento da prefeitura de Porto Seguro:

A

cada noite uma cabana de praia – diferente de tudo o que já se viu por aí

ou uma casa temática oferece uma festa diferente. De domingo a domingo

o

visitante pode curtir fogueiras à beira mar, mesas de frutas, vários

ambientes e shows musicais que vão desde axé, passando por lambada e

forró e até uma providencial MPB (PORTO SEGURO. Nasci aqui, meu nome é Brasil. Porto Seguro: um grande destino desde 1500, [s.d.]).

E ainda:

Em Porto Seguro, há uma regra geral: não fique parado. O agito e os ambientes festivos – com muita axé music – tomam a cidade até durante o dia, nas praias. (COSTA DO DESCOBRIMENTO: GUIA DE VIAGENS PANROTAS, [s.d.].)

Um novo dado que corrobora com essa visão festiva – e parcial – de Porto Seguro propagada por agentes de viagem pode ser evocado a partir da obra de Grunewald (2001, p. 39) que, durante o seu trabalho de campo em Santa Cruz de Cabrália e Porto Seguro, mencionou um encontro em que:

Uma operadora de turismo de Santos (SP) que estava conhecendo a região para a qual vendia pacotes contou-me que ‘o que é vendido é passeio de escuna e barracas de praia para tomar cerveja ao sol e dançar músicas do verão de dia e de noite [

O papel desempenhado pelo agente de viagem, como um mediador turístico, chama a atenção por fornecer, antes mesmo do início “oficial” da viagem, informações e leituras específicas sobre Porto Seguro. Essas leituras fornecidas pelos agentes de viagem têm a “autoridade” proveniente do conhecimento in loco da cidade. Algo próximo da conclusão a que chegou Nery (1998) ao afirmar que:

Os agentes, em regra, obtêm reconhecimento público na medida em que se

mostram competentes como "especialistas" que no mínimo "viajaram muito".

‘Ter viajado’ a muitos lugares pressupõe uma visão mais acurada e um conhecimento e compreensão mais amplos dos lugares visitados assim como das pessoas que os habitam (p. 209).

[

]

O quê se notou, ao longo da experiência etnográfica realizada neste trabalho,

é que antes mesmo da chegada a Porto Seguro, o turista se depara com uma gama de aparatos, principalmente de ordens imagética e discursiva. Imagens estas permeadas por um “caráter mágico” (FLÜSSER apud SIQUEIRA, 2006, p. 7) que provocam encantamento por aquele contexto apresentado. Esses suportes favorecem assim, de antemão, não só o direcionamento de seu olhar acerca do que

106

parcialmente encontrará no destino, mas também servem para “demarcar as fronteiras de significação e valor dos lugares ‘turísticos’, bem como regular os códigos que orientam a ‘experiência’ turística” (NERY, 1998, p. 213). Outro ponto digno de menção durante a relação que mantive com os agentes de viagem e, posteriormente experienciado em campo, foi o fato de que eu viajasse só. Na agência da CVC, houve uma relativa mobilização da atendente para sanar uma possível “dificuldade” referente à minha condição, aconselhando-me insistentemente que eu inserisse no pacote alguém da família, ou mesmo um amigo. Este fato parece apontar que os turistas que se deslocam para Porto Seguro vão normalmente em grupos, ou mesmo em casais, o quê foi confirmado por ambas as atendentes quando indagadas posteriormente, isto é, após eu ter fechado a compra dos pacotes. E este fato parece se concretizar quando, já em campo, durante um café da manhã com uma turista de Juiz de Fora, a mesma afirmou que “não entende como eu [o pesquisador] vim para cá [Porto Seguro] sozinho” e que ela “não conseguiria” fazer isso. Há sempre muito poucos turistas que viajam sozinhos. Foi visível durante todo o tempo o esforço dos diferentes grupos ao buscarem “envolver” esses turistas “solitários”. A experiência nas agências de viagem mostra que os agentes têm um papel fundamental nas decisões dos próprios turistas. Desde as sugestões de hotéis até lugares “que ninguém conhece para ir”, os atendentes são responsáveis por grande parte da organização prévia da viagem, sempre embasados em suas experiências, o que fazem questão de afirmar, daquilo que indicam no destino turístico. Algo que ilustra essa tendência do agente de viagem de ser um ponto de confluência das expectativas e do planejamento das viagens se deu durante o primeiro pacote turístico que realizei, via CVC. Uma turista de Belo Horizonte com quem tive grande contato, ao afirmar que não estava “gostando nem do atendimento, nem do guia”, ressaltou que assim que retornasse para Minas Gerais, iria telefonar para a agente de viagem que a atendeu para reclamar dos serviços e, principalmente, do guia. Concluindo, a análise acerca da postura de ambas as agentes de viagem, na medida em que reafirmavam conhecer muito bem Porto Seguro, aponta para o fato das mesmas assumirem para si um papel que as legitima a tecer uma “autêntica”

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imagem da cidade 89 . Há aí um reforço das conclusões de Nery (1998) ao considerar, em sua análise sobre os mediadores turísticos, que caberia a esses intermediários o trabalho em demarcar as zonas de liminaridade entre a experiência ordinária e a experiência extraordinária a ser vivenciada em um território “sagrado” (p. 212): o “agente de viagem constitui-se desse modo na instância mediadora entre a rotina e o acontecimento, entre o ficar em casa e o sair de casa” (p. 215).

3.3 Viagens ao campo

A partir deste ponto, adentraremos ao relato etnográfico de minhas viagens a Porto Seguro. O objetivo da primeira viagem ao longo do mês de fevereiro, tal como

já exposto na introdução deste trabalho, visava atender aos seguintes objetivos: i)

conhecer a cidade; ii) apreender como se dá a dinâmica turística do município; iii) buscar identificar que manifestações culturais são privilegiadas pelo trade turístico de Porto Seguro, bem como aquelas que não seriam marginalizadas por ele.

3.3.1 Primeiras impressões

Ao longo de 2006, a impressão que possuía de Porto Seguro era de que a

cidade não sintetizava somente meu objeto de pesquisa. O município serviu, durante

a realização de meus créditos na Universidade Estadual da Bahia (UESC), em

Ilhéus, Bahia, como uma base logística entre meus deslocamentos de Belo Horizonte para o Sul da Bahia. Naquele momento, pelo menos em termos práticos, não há exagero em afirmar que Porto Seguro se resumia ao aeroporto para mim. De lá, ia de ônibus para Ilhéus, pois era muito mais caro ir de Belo Horizonte para Ilhéus.

Somente em 2007, deu-se a minha entrada no campo e não há como desconsiderar que a postura adotada por mim nos momentos que antecederam à viagem em muito se pareciam com as atitudes de um turista usual, como advoga Ross (2002) ao enfatizar que é de praxe o fato de os visitantes buscarem

89 Durante o segundo pacote turístico em que estive inserido, tive a companhia, na grande maioria do tempo, de uma jovem agente de viagem de Itabira (cidade distante 95 km de Belo Horizonte) que se deslocou para Porto Seguro justamente para conhecer melhor a cidade e os hotéis para fazer assim melhores indicações a seus clientes.

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previamente informações sobre a destinação turística que irão visitar (p. 24). Realizei não só inúmeras pesquisas em sites que continham informações sobre a cidade, mas, além disso, mantive várias conversas com amigos e familiares que já estiveram em Porto Seguro. Tudo isso para minimizar o desconhecimento do meu lócus de estudo, que, se possuía vários serviços de uma grande cidade – ampla oferta de leitos, aeroporto, bom serviço de transporte público etc. –, favorecendo assim a minha adaptação, em que aquela realidade se apresentava a mim, pelo menos naquele primeiro momento, como uma espécie de “caos organizado”, em que eu imaginava orlas de turistas cruzando a cidade intermitentemente em dezenas de ônibus leitos. Além disso, estava impregnado por várias visões de Porto Seguro que pouco serviam para produzir uma percepção mais ou menos sistematizada acerca da cidade. Desde a imagem desta cidade como “uma bagunça; um exemplo da insustentabilidade turística”, defendida por um docente do mestrado; ou o município entendido como “um paraíso com um mar lindo”, paisagem apresentada por uma tia que, aliás, foi a primeira imagem que tive da cidade, ainda durante a minha adolescência; ou somente um “lugar lindo”, imagem defendida por minha mãe. Em suma, várias representações. E, embora tenha dado algum crédito a todos esses quadros acima constituídos, não obstante eles me pareciam deslocados até então. Eis que o avião pousa em Porto Seguro no dia 06 de fevereiro de 2007. Logo que desembarquei da aeronave, fui recebido por uma baiana vestida a caráter e que entregava um guia com os principais atrativos turísticos de Porto Seguro e região. Logo de início, me vi tentado a imaginar que, de fato, haveria em Porto Seguro um movimento de aproximar a cidade de uma concepção de “Bahia arquetípica” com suas baianas, festas, a malemolência e a descontração. Bastaram poucos dias, no entanto, para constatar outra idéia da cidade de Porto Seguro. Dada a dificuldade para obter um lugar para ficar em função da lotação da cidade, rumei o mais rápido possível para a única pousada que consegui reservar um leito para dois dias. Parti, então, para o centro da cidade, no começo da Avenida dos Navegantes e, ao longo do breve trecho entre o aeroporto e a pousada, deparei- me com uma cidade muito diferente da que havia idealizado. Após os dois dias de permanência na pousada localizada no centro da cidade (ver anexo A), me mudei para uma zona intermediária que se encontra entre a periferia e o centro. Durante todo o restante do mês de fevereiro, por indicação de

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um morador de Porto Seguro, fiquei em um quarto no bairro do Areião (ver anexo A), região de passagem entre o aeroporto e o centro da cidade e a região beira-mar. Trata-se de uma área destituída de atrativos turísticos e permeada por grande violência, segundo os moradores.

De início, chamou-me a atenção em Porto Seguro a grande concentração de equipamentos urbanos, tais como shoppings, galerias e lojas de grifes nacionalmente conhecidas. Esses empreendimentos se concentram principalmente na Avenida do Descobrimento, área de grande fluxo de porto-segurenses e turistas e uma das principais avenidas da cidade. Dentre todos os tipos de estabelecimento, os de restaurantes e lanchonetes pareceram-me ser os mais numerosos. Há também uma ampla variedade de bancos, casas de câmbio e lan-houses. Isso ajuda

a construir a imagem da cidade como possuidora de uma boa infra-estrutura turística.

3.3.2 O mês de fevereiro, o carnaval e as descobertas

Uma primeira preocupação que me ocupou durante o mês de fevereiro foi identificar a existência de manifestações culturais outras além daquelas “canonizadas” pelos mediadores turísticos: o carnaval, o axé music e as festas, elementos mais acionados na propagação de uma imagem turística de Porto Seguro próxima da “Bahia arquetípica”, que, para setores do trade turístico, se resumiria em festas, sensualidade, agito e descanso. Algo que me ajudou nesse sentido e que adotei posteriormente como uma boa ferramenta não só para tomar conhecimento do que acontecia na cidade, mas para ouvir outros atores sociais, foi a compra de três jornais da região 90 Tribuna da Costa, Topa Tudo e Jornal do Sol –, de periodicidade semanal. E foi a aquisição de um desses periódicos que me conduziu

à primeira possibilidade de captar algo capaz de corroborar uma de nossas

hipóteses: de que há manifestações culturais em Porto Seguro que, por não serem agenciadas pelo trade turístico, também não são consideradas “atrativos turísticos”. Referimo-nos à existência de blocos tradicionais de carnaval que desfilam pela cidade.

90 Embora o carnaval de Porto Seguro seja o segundo maior carnaval do Estado, raras foram as matérias veiculadas em jornais soteropolitanos abordando a festa porto-segurense, exceção feita às reportagens publicadas ao longo dos dez dias do Carnaporto, em especial no jornal A Tarde.

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O carnaval do município é composto por três diferentes eventos: a) o carnaval

oficial da cidade, o Carnaporto; b) o carnaval indoor realizado no Axé Moi; iii) o

carnaval dos blocos tradicionais. A descrição do carnaval de Porto Seguro será feita

a partir de cada um deles, compartimentando a seção em três momentos, embora esses guardem relações entre si.

O Carnaporto

O carnaval de Porto Seguro, nos moldes que conhecemos hoje, teve início

em 1997, momento em que a festa passou a ser nomeada de “Carnaporto”, alusão ao surgimento de toda uma estrutura oficial relativa ao carnaval empreendia pelo Grupo Hills, que, juntamente com a prefeitura, daria maior notoriedade à festa ao transformar o evento no segundo maior carnaval da Bahia. Podemos apontar que o objetivo dessa remodelação do carnaval de Porto Seguro, sobretudo ao aumentar o período de realização da festa para dez dias, não foi simplesmente criar mais um produto turístico, mas promover uma atração com

claro diferencial em relação ao carnaval de Salvador 91 . Sobretudo os comerciantes, de forma recorrente, faziam menção ao fato de o “pessoal de Salvador descer” para Porto Seguro, momento aguardado por muitos empreendedores com os quais conversei e que parecem ter estreita ligação com a possibilidade de obtenção de maiores dividendos econômicos 92 .

O Carnaporto ocorre ao longo de praticamente toda a extensão da Passarela

do Álcool e o percurso realizado pelos trios elétricos é de aproximadamente dois quilômetros. Embora seja um evento aberto, a existência de blocos privados, responsáveis pela vinda de grandes atrações da música nacional, incentiva o surgimento de “zonas privadas” ao longo de uma área