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História 73

ROBINSON CRUSOE (Daniel Defoe)

Adaptação de Monteiro Lobato para o Ano Internacional da Criança

Tema: Aventura e Trabalho.

ROBINSON CRUSOE

Aventura de um náufrago perdido numa ilha deserta


em 1.719.

Este é o meu nome. Nasci na velha cidade de Iorque,


onde há um rio muito largo, cheio de navios que entram e
saem. Quando criança, passava a maior parte do tempo a
olhar aquele rio de águas tão quietas, caminhando sem
pressa para o mar lá longe. Como gostava de ver os navios
em movimento, com velas branquinhas empurradas pelas
brisas. Isso me fazia sonhar as terras estranhas donde eles
vinham e as maravilhosas aventuras acontecidas em alto mar. Eu queria ser marinheiro. Nenhuma
vida me parecia melhor que navegando sempre, e lidando com as tempestades. Minha mãe ficou
muito triste quando declarei que seria marinheiro, ou não seria nada. A vida de marinheiro é dura: Há
muitos perigos no mar, tantas tempestades. terríveis peixes de dentes de serra que me comeriam vivo
se eu caísse na água. Não ouvi os seus conselhos, Quando fiz 18 anos, fugi de casa, engajei-me
num navio.

MINHA PRIMEIRA VIAGEM

Minha mãe tinha razão. A vida era difícil e trabalhosa.


Mesmo com o mar sereno e o dia lindo, serviços não
faltavam, um atras do outro.

Uma noite o vento soprou tão forte, que o navio era


jogado de um lado para outro como se fosse casca de noz,
Toda a noite o vendaval soprou e nos judiou. Fiquei tão
amedrontado que não sabia o que fazer.

Era impossível que o navio não fosse ao fundo. Se


escapo desta- disse comigo, outra não me pilha. Chega de
ser marinheiro. Só quero agora uma coisa: Voltar para
casa. Na manha seguinte o sol apareceu, o céu se fez todo azul e o mar parecia um carneirinho, de
tão manso. O tempo continuou firme e meu medo foi desaparecendo. Essa minha viagem durou
pouco, pois o navio só foi a Londres. Meu desejo de fazer longas viagens e conhecer o mundo inteiro,
tornou-se mais forte do que nunca.

MAIS UMA VIAGEM

Um dia encontrei um velho capitão que costumava viajar pela


costa da África. Conversamos e ele gostou de mim. Meu navio vaie
para a África negociar. Levo um carregamento para negociar com
os negros. Dez dias depois estávamos em pleno mar. O capitão
ensinou-me muitas coisas. Como o piloto dirige o navio, e como se

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faz uso da bússola. Por muitos dias só tivemos bom tempo. O navio navegava firme, tudo parecia
indicar que a viagem seria das mais felizes.

O NAUFRÁGIO

Uma violenta tempestade veio de sudoeste. Nunca vi tempestade mais furiosa. Dias e dias
fomos arrestados para o mar afora, esperando a todo momento um fim terrível. A tempestade crescia
de violência. No décimo terceiro dia, pela manhã, um marinheiro gritou: Terra á vista Corri ao convés
para ver, mas justamente nesse momento, o navio bateu num banco de areia e ficou imóvel. Estava
encalhado.

Grandes ondas vinham quebrar-se no convés. Que


havemos de fazer? Gritou um marinheiro. Nada respondeu
o capitão- nossa viagem está no fim. Só nos resta esperar
que as ondas arrebentem o navio. Nenhum bote poderia
flutuar num mar como esse. Vagalhões furiosos nos foram
levando em direção dumas pedras. De repente uma vaga
maior nos cobriu. Fomos todos engolidos pelas águas. Sou
lançado a praia. Só me lembro que depois disso, quando
abri os olhos, me achava numa praia, com as ondas
rolando sobre mim. Levantei-me a custo. Estava salvo da
fúria do oceano. Exausto da terrível luta deixei-me ficar
deitado na areia e mês pensamentos dirigiram-se para
Deus em agradecimento. Depois olhei ao redor, e vi ao longe encalhado no banco de areia, o navio
sempre batido pelas vagas. Em seguida, pensei nos companheiros. Onde estariam eles? Caminhei
pela praia e não vi ninguém. Apenas vestígios, aqui um chapéu, ali um sapato... Todos haviam
morrido, afogado pelas ondas.

MINHA PRIMEIRA NOITE

Tinha passado de meio dia. O sol brilhava no céu. A


tempestade cessara. Minhas roupas estavam encharcadas.
Sentei-me ao sol, para seca-las. Não tinha o que comer ou
beber. Tinha comigo um canivete, um cachimbo e um
pedaço de fumo. Chorei como uma criança. O sol foi
desaparecendo. Era noite. Nunca me senti tão só, tão
desamparado. E se houver feras por aqui! Virão atacar-me
durante a noite. A pouca distância havia uma frondosa
árvore e rente um pequenino riacho de água pura. Matei a
sede, depois trepei na árvore. Seus galhos eram forquilhas
bem abertas, de modo que pude ajeitar-me entre eles. Com
o canivete cortei um porrete de um metro de comprimento
para defender-me de algum ataque noturno. A escuridão era profunda. O único rumor era o das
ondas a baterem nos rochedos. Como estava muito cansado, dormi o sono mais profundo de minha
vida.

MEU PRIMEIRO AMANHECER

Quando acordei, era dia velho. O sol estava alto. O


céu azul, o ar de uma pureza única. Desci do meu poleiro e
fui examinar o mar. O navio estava mais perto da praia. A
maré o havia trazido, encalhando-o novamente nus recifes.

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Meti-me pela água e fui a nado até o navio. Pareceu-me impossível, trepar por aquele liso casco. Vi
um pedaço de corda que pendia e agarrei-me a ela e em pouco achei-me dentro do navio.

FAÇO UMA JANGADA

Havia muita água no porão. Felizmente as cabinas e


a dispensa estavam secas, com muitas caixas de
mantimentos em perfeito estado. Minha fome era grande.
Muita coisa vi lá dentro de muito valor para mim em terra,
mas como leva-las só por meio de uma jangada. Ajuntei
alguns paus, tábuas e pedaços de corda e tratei de amarra-
los, uns junto aos outros de modo a formar uma jangada.
Atei nela a minha corda e lancei-a ao mar. Boiou
perfeitamente. Arranjei alguns caixões. Pus mantimentos,
biscoitos, farinha, arroz, queijo, carne seca e bolachas.
Amarrei-os em uma forte corda e desci-os para a jangada.
Outro enchi-o com roupas e na última hora, ainda joguei
nele um saquinho de sementes de trigo Depois dei com
uma caixa de ferramentas, pregos e martelo e outros apetrechos. Lembrei-me do meu medo das
feras e procurei armas. Na cabina do capitão encontrei duas boas espingardas, um par de pistolas,
um facão meio enferrujado e e ainda duas espadas. Desamarrei a jangada e o vento e as ondas
ajudara-me a ir vagarosamente para a praia.

DESCUBRO QUE ESTOU NUMA ILHA.

O sol ainda estava alto e eu cansadíssimo. Esvaziei os caixões e com eles e as tábuas da
jangada mais os panos das velas, fiz uma tosca habitação onde me meti. Por meia hora ainda estive
de olhos abertos e por fim ferrei no sono. Li perto havia um morro alto onde eu pudesse ver longe.
Pus a espingarda no ombro, o facão na cinta e galguei o alto do morro. Que vista maravilhosa!
Verifiquei que a ilha era muito grande3. Não vi sinal de vida. A idéia de que estava sozinho numa ilha
desabitada, deixou-me triste. O sol já ia desaparecendo quando voltei para minha tosca habitação.

APARECE-ME UMA VISITA E DESCUBRO MAIS


COISAS.

Quando acordei, dei com um gato em cima de uma


das caixas. Tirei um pedaço de bolacha do meu bolso e
joguei-o para o bichinho que o devorou tal a fome que
tinha. descobri que na ilha também tinha cabritos e logo e
logo pensei que não ficaria sem carne e leite, para ajudar
no meu sustento. Nessa noite choveu e ventou muito.

COMEÇO O MEU CASTELO

Deitei-me e nessa noite inteira, a tempestade rugiu lá


fora. De repente a chuva serenou e como sempre o meu
primeiro olhar, foi para o navio, a ver se continuava no
mesmo lugar. Não existia o menor sinal do navio. A
tempestade o havia destruído durante a noite. Comecei a
me preocupar com as feras. Também tinha receio de que
me aparecesse índios ferozes ou canibais. Era preciso

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prevenir-me contra esses perigos. Para tal, o bom seria construir um pequeno forte que me servisse
de morada. Procurei um lugar ideal na chapada de um monte. Primeiro risquei no chão um cercado.
Depois cotei madeira e fui fincando postes bem juntos para cercar. Depois trancei as estacas com as
cordas trazidas do navio. Não fiz portas, para entrar ou sair. Fiz uma pequena escada, que depois de
servir para subir, era mudada para o outro lado e servia para descer. Ali dentro, guardei os meus ricos
salvados.

RIMEIRA CAÇADA

Um dia descobri na ilha um bando de cabritos. Foi


um dia feliz. Iria ter carne e leite também. Atirei em um
pássaro grande que se empoleirava em uma árvore
próxima. O tiro foi certeiro e nessa tarde o jantar foi de ave
assada. Como estava gostoso, não sei se foi pela fome, só
sei que muito pouco sobrou para o gato. Na cabina do
capitão encontrei tinta e papel. Havia mapas e uma
bússola, três ou quatro livros sobre navegação, bem como
uma Bíblia que me foi útil. Com a tinta e o papel comecei a
escrever diariamente, tudo o que se passava. Depois que
terminei o meu castelo, coberto de panos de vela do navio,
vi que faltava mobília, Para uma mesa e uma cadeira
aproveitei as tábuas que vieram do navio, Tudo levava
muito tempo, mas servia para encher a imensidão de tempo de que dispunha.

EXPLORANDO A ILHA

Por esse tempo, fazia já 10 meses que eu estava naquele


lugar deserto, e apesar disso só lhe conhecia pequena parte. Certa
manhã pus a espingarda no ombro e sai em exploração. Segui pelo
pequeno rio de águas claras. Ao longo desse riacho, lado a lado vi
lindas várzeas cobertas de capim alto. Nessas várzeas, encontrei
muitos pés de fumo, crescendo como planta selvagem. Encontrei
varias mudas de cana de açúcar e muitas outras plantas
desconhecidas. No dia seguinte fiz o mesmo caminho, indo porem
muito mais longe. Cheguei a uma floresta onde encontrei varias
qualidades de frutas. Entre elas uvas. Colhi numerosos cachos que
pendiam maduros para coloca-los ao sol para secar. Obtive ótimas
passas. A noite me alcançou no mato e, em vez de voltar ao castelo,
resolvi dormir no mato. No dia seguinte alcancei um ponto onde o
terreno virava encosta desse morro. Tão fresco ali, tão lindo e verde
que tive a impressão de estar num jardim. De volta pulei de
contentamento, ao ver uma enorme tartaruga entre as pedras. Isso representava para mim, bastante
comida. Ao jantar, tartaruga cosida, sopa de tartaruga, ou ovos de tartaruga.

PREPARANDO-SE PARA O INVERNO

Agradou-me tanto aquele vale, que resolvi, construir


uma casinha que me servisse no verão. Ali vinha passar
dois ou três dias de recreio. Fiz um varal de cachos de

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uvas ao sol e levei-as para o castelo Fui ajuntando comestíveis para o inverno. O frio ali era pouco,
em compensação era um chover que não tinha fim. Durante semanas fiquei sem poder botar o nariz
para fora. Minha provisão de alimentos começou a minguar e um dia apesar da chuva, tive que sair
para abater um cabrito. Fazia um ano que eu estava ali naquela solidão. Pus-me a pensar como
marcar o tempo que ali estaria. Plantei um alto poste no terreiro. No alto gravei em letras grandes
estas palavras : Aqui cheguei no dia 30 de setembro de 1.659. cada manhã, dava um corte na
madeira, partindo do alto para baixo. Os domingos marcava com um corte mais comprido, e os
meses, com um ainda mais longo. Meu calendário era aquilo Certa manhã, notei que já havia feito
365 cortes na madeira. Um ano justo. E dava graças a Deus de me ter conservado em boa segurança
no meio de tantos perigos, tendo já a experiência de que na ilha existiam só duas estações: estação
das águas e estação das secas.

PLANTO ALGUNS GRÃOS

Um dia antes de começarem as chuvas, ao arrumar


as minhas coisas, dei com o saquinho de sementes trazido
de bordo, completamente vazio. Os ratos haviam dado
cabo dele, só deixaram no fundo umas pitadas de farelo.
Fui sacudi-lo fora. Um mês depois, notei que no lugar onde
sacudira o saquinho, estava crescendo uns pés de uma
erva diferente das outras naturais dali. Tomei cuidado para
que crescesse em paz. Cresceu até a minha cintura. E
deitou cachos. Só então percebi que era trigo. A colheita ia
ser de 12 espigas que me forneceriam os grãos
necessários para iniciar a cultura de trigo na ilha. Tinha acontecido lá uma coisa curiosa. Os paus que
fiz a cerca eram verdes e, em vez de secarem, criaram raízes e brotaram. Pude guiar os brotos para
o centro do cercado e amarra-los num poste alto que lá finquei. Desse modo, consegui um
caramanchão, bem lindo que ficou um verdadeiro ninho de verdura. Que prazer nos dias da estação
seca.

UMA LONGA VIAGEM PELA ILHA

Sempre tive idéia de conhecer a ilha toda. Um dia chegou a vez. Espingarda no ombro, facão
na cintura, um sortimento de passas e biscoitos na sacola. Andei bastante e vi ao longe terras, a
umas cinqüentas milhas de distancia Se era uma outra ilha ou terras do continente americano, não
podia saber. Achei aquele lado da ilha mais bonito que o outro. Campos abertos, cheios de flores.
Também cheios de florestas com lindas árvores. Vi um papagaio tagarelando no arvoredo e pensei de
pegar um para enfeite do castelo. Tive trabalho, mas apanhei um filhote para apreender a falar. Esse
papagaio custou um pouco a falar, por fim aprendeu a pronunciar o meu nome com perfeição. Havia
lá muitas aves, algumas que nunca tinha visto. Havia também coelhos. Nessa demorada excursão
viajei sem pressa ao redor da ilha. Nas praias passeavam muitas tartarugas e uma infinidade de aves
marinhas. As vezes, comia um pombo assado. Outras, um suculento naco de tartaruga ou uma perna
de cabrito. Pescava em cima das pedras com caniço improvisado que fabriquei. Frutos do mar, tais
como camarão, ostras e mariscos, tinha-os em quantidade e facilidade de os obter.

PRIMEIRA COLHEITA

Foi grande o meu prazer de regressar ao castelo. Bastante cansado, fiquei sem sair durante
uma semana. Enquanto descansava, construía a gaiola do papagaio que batizei com o nome de Pol.
Ficou mansinho e muito meu camarada. A plantação de trigo ia indo muito bem. Assim que as espigas
começaram a granar vieram os pássaros. Matei 3 a tiro. Foi um santo remédio porque
desapareceram. Quando o trigo amadureceu, surgiu o problema de como colhe-lo. Lembrei-me da

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velha espada do capitão. Amolei-a e serviu muito bem. colhi as espigas e debulhei. Vocês já
pensaram em quanta coisa é preciso para se fazer o pão? Eu pensei e sei o que é semear o grão,
depois colher, debulhar, moer, peneirar, amassar e assar. Para a fabricação do pão, fez-me pensar
que o castelo andava muito pobre de vasilhas. Lembrei-me da argila. Encontrei uma boa jazida de
argila. Toca a extrair argila e amassa-la. Era preciso dar forma ao barro. Fiz isso com as mãos.
Ficaram horrendas, as minhas vasilhas. Quebravam-se atoa Fiz algumas, amontoe-as e cobri com
uma grande pilha de lenha. Pus fogo e deixei-a até ficar reduzida a cinzas. O resultado, foi excelente.
Obtive vasilhas tão boas, como as melhores da Inglaterra. Embora feias, minhas vasilhas e panelas
não racharam ao fogo e resistiam a ação da água. No dia dessa grande vitória, jantei uma deliciosa
sopa de tartaruga.

VIRO PADEIRO

Não sabia lidar com o pão, nunca houvera prestado


atenção nisso. Construi um pilão de madeira e pude moer o
meu trigo Preparar a massa era simples. Tinha apenas que
misturar a farinha com a água e amassar. Fiz dois grandes
tabuleiros de barro e queimei-os até ficarem como pedra.
Acendi um belo fogo, que apaguei, conservando só as
brasas. Pus então as minhas bolotas de massa, arrumadas
sobre o tabuleiro, cada qual recoberta por uma panela de
barro. Coloquei o tabuleiro sobre as brasas e espalhei
brasas por cima das panelas. Fiquei vigiando. Quando me
pareceu estar pronto, tirei fora um dos pães e provei-o.
Ótimo! Duvido que na Inglaterra houvesse pão mais bem
assado que aquele. Depois de resolvido o problema de
assar, tive sempre na minha mesa, jantares completos de forno e fogão.

FAÇO UMA GRANDE CANOA

Queria escapar daquela solidão, queria ver gente, estava cheio de saudades de minha terra
natal e de meus amigos. Eu era um rei naquela ilha. Tinha todas as comodidades. Abundância de
alimentos, água pura, ar saudável..... O resultado dessas cogitações foi o de construir uma canoa
resistente ao alto mar. Na floresta encontrei madeira apropriada. Um tronco de cedro. Era um madeiro
de oito palmos de diâmetro. Duas semanas levei, derrubando esse pau. Depois comecei a escava-lo.
Durante três meses, não fiz outra coisa. Quando terminei o serviço, senti-me orgulhoso. Tudo foi
muito bem até ali. As dificuldades apareceram depois. Como levar a canoa ao mar! Tentei todos os
meios, sem conseguir mover de um dedo a canoa. Que estúpido havia sido! Quem tem juízo, primeiro
olha a largura do valo antes de pular. Errei, e pagava o meu erro.

MEU GUARDA SOL

O tempo ia passando e com ele as coisas trazidas do navio,


também iam-se acabando. Os biscoitos, duraram apenas um ano,
comendo um por dia, como já falei. As minhas roupas começaram a
virar trapo. Havia a compensação de que o clima era tropical. Tive
que recorrer as peles dos animais. Fiz um gorro. Com o bom
resultado, veio a idéia de fazer mais coisas e vira e mexe acabei
fazendo um terno inteiro. Depois me veio a idéia de fazer um guarda
sol, objeto muito usado no Brasil, terra de sol quente, muito mais
seria ali, onde o sol queima como fogo. Comecei a fazer um.
Custou-me um bocado. Não saiu guarda sol de abrir e fechar. Era

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fixo, sempre aberto. Trabalhei nele como quem se diverte em fazer um brinquedo. Foi de grande
proveito, permitindo-me sair do castelo com qualquer tempo. Cinco anos já se haviam passado.
Durante todo esse tempo, nunca estive ocioso. Procurava sempre me ocupar de qualquer coisa.
Único meio de enganar a solidão. De manhã, lia passagens da Bíblia, depois cuidava do almoço e,
embora falhasse a primeira tentativa, continuava dentro de minha cabeça, mais viva do que nunca, a
idéia da construção da canoa.

Desta vez fiz uma canoa menor. Servia apenas para


passeios ao redor da ilha. Antes de a estrear armei-a com
um pequeno mastro a vela, feito de um pedaço que ainda
restava das velas do navio. Também arrumei dois ganchos
onda minha espingarda pudesse descansar bem ao meu
alcance. Não me esqueci do guarda sol. Lá fui para a
canoa, com os objetos necessários. E, assim preparado,
iniciei uma série de passeios. Um dia deliberei, rodear a
ilha de canoa. Carreguei-a com 12 pães e dois quartos de
cabrito já assados. Também pólvora e chumbo, para muitos
tiros. Parti em Novembro e foi essa a mais dura e perigosa
viagem da minha vida. Havia muitos rochedos na costa. Em
certo ponto fui apanhado por uma corrente marinha que por
um triz não deu cabo de minha vida. Estive assim muito tempo, até que a corrente me levou para mar
alto. Dei-me por perdido. Não enxergava terra. Súbito, notei que a canoa havia beirado a corrente.
Tomei o remo, desesperado remei, e de repente percebi que havia me safado da corrente. Que
alegria! Cheguei a ilha afinal, são e salvo! Havia escapado de boa!

UMA VOZ HUMANA

Meu primeiro movimento ao pisar em terra firme, foi render graças a Deus. Depois deitei-me na
relva para descansar. Estava tão fatigado que dormi imediatamente só acordando no dia seguinte. O
mar havia me deixado doente. Assim de guarda sol aberto lá me fui na direção do meu castelo.
Cheguei já noite e deitei-me para dormir. De repente ouvi dentro da escuridão uma voz dizer
claramente: Robnson Crusoe! Robnson Crusoe! Será sonho? Pensei arregalando os olhos. Não era.
Ouvi novamente, bem claro. Pus-me de pé num salto. Mas vi logo o que era. Vi o vulto do meu
papagaio, num pau rente ao meu ombro. Fi-lo pousar no meu dedo, como era seu costume e
aproximei-o de mim. Deu-me bicadas amigas na mão sempre repetindo o meu nome. Fiquei
convencido de que o papagaio, tinha amor por mim.

SINTO-ME FELIZ COMO UM REI

Farto de aventuras, deixei-me ficar no castelo com os


meus amigos. O papagaio, o gato, as cabras e cabritos.
Era um rei num reino sem súditos. Se alguém me visse,
haveria de rir-se, se é que não sentisse medo. Um gorro
muito sem jeito na cabeça, colete e calças largas de peles
e um esquisito par de sandálias de couro nos pés
amarradas com correias. Ao redor da cintura um largo cinto
de couro. A espingarda, e sempre um saco de coisas ao
ombro. É que a lembrança do naufrágio, estava sempre presente na minha lembrança.

SINAIS NA AREIA

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Quando fazia bom tempo eu costumava ir ao outro
lado da ilha de canoa contornando pela praia. Tais
excursões para mim, constituíam um real prazer. Numa
destas vezes distraído imaginem o que encontrei a olhar
para o chão quando.... A marca de um pé humano,
impressa na areia da praia. Esfriei: parecia que o sangue
se houvesse gelado em minhas veias. E ali fiquei
paralisado, como quem dá com fantasma. Voltei a examinar
o rasto novamente. O rasto lá estava- a marca do
calcanhar, da sola, e dos dedos de um pé humano. Tão
amedrontado fiquei que desisti do passeio de canoa e voltei
ao castelo a toda pressa. Precisava me preparar para a
defesa. Não pude dormir nessa noite. Por fim decidi comigo
mesmo que aquele rasto só poderia ser de algum índio que houvesse desembarcado na ilha. Mas
onde estaria ele? Tamanho foi o meu medo que passei três dias sem sair do castelo. Cheguei a
passar fome. Pouco, a pouco, entretanto fiu sossegando e criei coragem. Fui escondendo-me até o
cercado das cabras, para conseguir um pouco de leite. Ao pobres animais, ficaram tão contentes de
me ver, Tudo isso porque havia enxergado na areia a marca de um ser da minha espécie.

SELVAGENS

Certa manhã, sai de casa muito cedo para ceifar o meu trigo.
Fazia tanto calor nessa estação que eu só trabalhava pelas
manhãs. Em meio do trajeto parei, surpreso. Havia visto ao longe a
luz de uma fogueira. Quem teria acendido o fogo? Só poderia ter
sido os selvagens. Fiquei imóvel a olhar. Trepei ao topo, levando
comigo os óculos de alcance, que tinha desde o naufrágio. Lá de
cima deitei-me e pus-me a sondar ao longe através da luneta.
Vários selvagens nus estavam sentados em redor de um pequeno
fogo. Contei cinco. Aquele fogo não seria para se aquecerem visto
não estar fazendo frio. Logo estavam assando qualquer coisa,
talvez carne humana, já que eram canibais. Assim que se foram,
corri a outro ponto mais alto, para ver a direção que levava a canoa
deles. Acompanhei as canoas, até perde-las de vista. Depois fui ter
ao lugar do banquete. Horrendo quadro chocou meus olhos. A areia
estava coberta de sangue e ossos, Não havia dúvida que tinham
matado algum prisioneiro e devorado sua carne. Desde essa época não mais me senti seguro na ilha.
Deixei de caçar com espingarda e de fazer fogo. Também encurtei muito os meus passeios. De dia só
pensava em um meio de escapar aos selvagens e de noite sonhava horríveis sonhos, cheios de
cenas de canibalismo.

FIZ UMA FORTIFICAÇÃO NO ALTO DAQUELE MORRO

Fiquei tão assustado, que resolvi fazer uma


trincheira, em cima daquele morro, pois era estratégico
aquele lugar. Dava uma ampla visão da praia, do mar e de
tudo lá em baixo. Levei as duas espingardas carregadas e
passava horas e horas na observação daquele vista.
Parecia ver novamente aquela cena anterior, onde aqueles
índios, haviam feito uma fogueira e assado com certeza
algum inimigo. Via também por lembrança, aquelas três
canoas que os haviam trazido. Sentia repugnância, ao
lembrar aquele sangue e ossos na praia. Assim passei
nessa observação, por muitos dias. Levava o que comer e água e só saia quando chegava o

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anoitecer. Mas não os vi mais. Com certeza, eram de outra ilha e só ali estiveram, para o macabro
churrasco.

SEXTA FEIRA

Em Maio houve formidáveis tempestades na ilha.


Choveu sem parar, de dia e de noite, durante todo aquele
mês. Chuva violentíssima, acompanhada de relâmpagos
que cegavam e trovões medonhos. Acostumado como
estava, fiquei no castelo feliz, por ter tal morada com que
abrigar-me. Pus-me a ler a Bíblia. Mais dois anos se
passaram sem novidades. Numa noite perdi o sono, e
fiquei horas na rede a virar-me de um lado para o outro,
sem conseguir pregar o olho. Tudo o que se passara
comigo até aquele momento me veio a memória. Recordei
os primeiros anos na ilha, felizes sem cuidados. Recordei
com inquietação, ao encontro do primeiro rastro humano na
areia. Tal idéia tomou tal corpo em meu espírito, que nunca
mais me livrei dela. Acordado ou dormindo, só pensava naqueles acontecimentos. Certa manhã de
junho, tive uma surpresa. Vi vária canoas em seco na praia. Trepei no alto da muralha e, através do
óculos de alcance, pude avistar alguns índios inteiramente nus, a dançarem, ao redor do fogo.
Estavam assando carne em brasas - não sei se carne humana ou não. Em certo momento, alguns
deles dirigiram-se a uma das canoas e trouxeram de lá arrastado, um prisioneiro que se debatia e, em
dado momento conseguiu ludibria-los fugindo em disparada veloz. Nunca vi ninguém correndo assim.
E veio em direção do castelo. Fiquei grandemente agitado. Entre o castelo e os selvagens, havia um
rio. Se o fugitivo conseguisse cruzar o rio a nado, certo estaria salvo. Atravessou-o veloz como um
peixe.- Chegou a hora de pegar o meu índio- disse eu comigo. Deste lado! Gritei-lhe. Corra para cá
que eu te defenderei.

Está claro que o pobre, não entendeu a linguagem e meus gestos. Mas não havia tempo a
perder. Os índios que o perseguiam desistirão de atravessar a nado o rio que nessa época, estava
muito cheio devido as fortes chuvas. Livre dos índios, ali estava o fugitivo, olhando-me com os olhos
esbugalhados. Chamei por ele:- Venha cá, amigo. Não farei mal algum a você. Como não
entendesse, traduzi essas palavras em gestos. Ele caminhou alguns passos em mina direção e parou
indeciso. Fiz outro sinal, e ele caminhou mais uns passos e parou. Tremia como geleia. Receava que
o matasse. Mas meus gestos foram convencendo-o que não estava diante de um inimigo. E por fim
chegou-se. Ajoelho-se aos meus pés, curvando a cabeça até encosta-la no chão. Era uma maneira
de jurar-me submissão para sempre. Falei-lhe mansamente, com tom amigo. Estava enfim livre de
minha solidão de 25 anos.

MEU AMIGO SEXTA FEIRA

Selvagem como era, falou tantas coisas que não entendia.


Mas que linda, sua voz, e como foi agradável ouvir outra vez a voz
humana. Assim que cheguei, dei-lhe um pedaço de pão e uma bilha
de água. O pobre estava morrendo de sede e bebeu o pote inteiro.
Depois deitou-se na palha e dormiu profundamente. Era um belo
índio. Não muito alto, mas forte. Cabelos compridos e negros. Testa
alta e larga. Olhos muito brilhantes. Tinha a face redonda e cheia, o
nariz bem formado, os lábios finos e os dentes alvos como marfim.
A pele, cor de azeitona. Depois de dormir por longo tempo acordou
e vendo-me a tirar leite das cabras, fez gesto se podia sair. Comecei
a ensinar-lhe algumas palavras. Era bem vivo e aprendia depressa
a significação de varias palavras. Pus-lhe o nome de Sexta -Feira

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pelo fato de o ter salvo numa sexta feira. As primeiras palavras aprendidas foram "Master" e sim e
não. A noite dei-lhe una tigela de leite e um pedaço de pão. Meu primeiro cuidado foi ver se os índios
tinham deixado a ilha. Espiei pelos óculos. Não estavam mais lá. No dia seguinte, armei a tenda para
o meu novo companheiro. E como não tivesse roupa, comecei a fazer-lhe um terno de peles. Dei-lhe
uma calça de brim que achei na canastra do naufrágio. Fiz-lhe uma jaqueta e um gorro de peles de
coelho.

SEXTA FEIRA APRENDE MUITAS COISAS

Alguns dias depois, levei Sexta Feira, a caça e a pesca. Ao chegar em certo ponto, dei com
vários cabritos selvagens, descansando a sombra de uma árvore. Fiz sinal de alto, e tomando a
espingarda, apontei e.... púm... Matei um dos cabritos e meu índio quase morreu de susto. Assim que
Sexta Feira percebeu o que havia acontecido, foi correndo buscar a caça. Mais adiante dei com um
peru e púm... A ave caiu. Sexta Feira, olhava para a ave e tremia. Estava assombrado. Levou o
cabrito para o castelo e tirou-lhe a pele e esquartejou o animal. Fiz um ensopado para o jantar, que
para o índio só tinha um defeito, O sal. Sexta Feira nunca pode acostumar-se ao sal. Ensinei-lhe
como debulhar as espigas de trigo e como moer os grãos. Depois ensinei-lhe a fazer pão e a enfornar
a massa. Ficou tão perito, que tomou conta da padaria. Expliquei-lhe um dia, o manejo da espingarda,
como se carregava, como a pólvora, como a bala saia do cano. Contei dos grandes países do outro
lado do mar. E também contei toda a minha história. Disse que eu havia vindo de um desses navios o
qual, batendo em uma grande pedra, afundara. Contei-lhe de minha canoa. O índio quis vê-la. Levei-o
para o sitio onde estava a canoa grande que eu não pudera arrastar até o mar. Mas estava podre,
pois faziam já muitos anos que eu a fizera. Eram 25 anos que eu ali estava e mais 2 que havia
encontrado o índio. Esses dois anos, foram os mais felizes de minha estadia na ilha. Que me faltava?
Tinha até com quem conversar!

Porque então essa idéia de deixar a ilha? Saudades, saudades da família e do meu povo.
Apesar disso, continuei como sempre, a fazer as plantações a cuidar de tudo como se estivesse que
ficar na ilha o tempo todo, a vida inteira. Nisto chegou a estação das águas. Demos por findos os
trabalhos do campo e guardamos a canoa na praia do rio. Também a cobrimos com achas de
madeira, de modo que as águas da chuva não as enchessem. Passamos a estação das chuvas no
castelo. De manhã eu lia passagens da Bíblia procurando interessar Sexta Feira. Falei-lhe um dia do
Criador. Perguntei quem havia feito o mar, as estreles, os rios, as montanhas e as flores, tudo enfim.
Respondeu-me que foi o grande Ser, que vivia para além de tudo o que existe. Creio que ele não
poderia dar melhor resposta.

APARECE UMA VELA NO HORIZONTE

Tenho que pular, muitas coisas que aconteceram


nestes últimos tempos, para que esta história não fique
demasiadamente longa. Vou apenas contar o grande
acontecimento que se deu, para encerrar a fase de minha
vida na ilha. Foi assim. Eu ainda estava dormindo. Quando
fui despertado pelos gritos de Sexta Feira lá fora.

_Master, Master! Um navio, um navio! Pulei da cama


como um relâmpago. E pela primeira vez sai sem me
lembrar da espingarda. De feto. A três milhas da costa,
avistei um bote que rumava para a ilha. Aproximava-se rápido. Trazido por uma vela em forma de
presunto. Não podia ser embarcação de índio. Desci ao castelo e disse a Sexta Feira que ficasse em
casa quieto, até verificarmos se eram amigos ou não. Parecia navio inglês. O bote ia chegando a
praia. Pude ver seus homens distintamente. Eram ingleses, sem dúvida.

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Em seguida todos os marinheiros se espalharam
pela ilha. Muito bem, pensei comigo. A maré montante, leva
muitas horas para vir. Nesse intervalo, terei muito tempo
para saber o que querem aqui. Preparei as espingardas. E
pus-me a esperar a noite. Sexta Feira, vamos sair e ver o
que se passa. Não nos viram chegar. Plantei-me diante
deles e disse: Quem são vocês? Nunca vi maior surpresa
estampada em faces humanas. Pularam de pé. Tinham
perdido a voz de susto. Não se assustem. Sou amigo.
Venho trazer-lhes auxilio. Então - disse um deles- deve ter
caído do céu, porque só do céu nos poderia vir socorro
neste momento. Sou inglês- expliquei- e estou pronto a
auxiliar vocês. Tenho um servo índio, bem armado. Conte-
me depressa o que há.

O capitão entre eles, explicou que vieram a ilha em


busca de água e frutas de que precisavam. Muito bem,
respondi, poderei supri-los do que necessitam. Contei
minha história ao capitão, que muito se admirou de minha
aventura. Então você se transformou em um autentico
governador da ilha Eu ROBINSON CRUSOE. Assim me
chamaram e assim fiquei sendo.

ROUPAS NOVAS

Na manhã seguinte, dormi até tarde para reparar as


forças e acalmar-me das fortes emoções da véspera. Em
seguida ouvi alguém chamando: Governador, governador.
Era a voz do capitão Corri ao seu encontro. O bom homem
apontou para o mar. Olhe, perto da praia está o navio. Meu
caro amigo, disse ele. Eis o nosso navio. Podemos
embarcar. Minha emoção era grande. Nada pude
responder. Abracei-o Por fim, um acesso de lágrimas me
tomou e chorei como uma criança Logo que me acalmei, o
capitão disse-me que me havia trazido um presente. Gritou
para os marinheiros: Tragam o presente do governador. Os
marinheiros trouxeram uma arca de madeira. Depositaram-
na aos meus pés. O capitão fez um gesto de que a abrisse
e me servisse. Assim fiz. Encontrei lá, duas libras de fumo, doces enlatados, garrafas de suco de
laranja. Mas no fundo é que estava a grande surpresa sob a forma de seis camisas novas, seis
gravatas de seda, dois pares de luvas um par de sapatos, meias, um chapéu e um lindo terno de
roupa. Podia vestir-me de gente outra vez. Mas havia tantos anos que não usava aquelas coisas que
me senti desajeitado. Quando me apresentei com os meus novos trajes. O pobre Sexta Feira não me
reconheceu. No dia seguinte, tudo ficou pronto para a partida.

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Assim, a 19 de dezembro de 1.687, partimos para a
Inglaterra, tendo eu estado na ilha, 28 anos, dois meses e 19
dias. Levei o gorro de pele de cabra, o famoso guarda sol. O
papagaio também. Um outro papagaio, pois o primeiro Pool,
havia morrido. Quanto a Sexta Feira, nada no mundo o faria
separar-se de mim. Foi também. Tivemos viagem demorada
e difícil, mas a 19 de junho alcançamos Londres. Estava em
casa. Estava finalmente em minha terra. Corri a Iorque. Meus
pais estavam mortos, havia longo tempo. Os amigos da
juventude, já não se recordavam de mim. Achei-me só no
mundo. Que iria fazer?

Por felicidade, minha fazenda no Brasil prosperara. Um


homem que lá deixei tomando conta, tinha cultivado muito fumo e ganho muito dinheiro. Era um
homem honesto. Assim que soube que eu estava vivo, escreveu-me uma carta comprida, dando
conta de tudo. Também me remeteu uma vultuosa soma em dinheiro, o que muito me contentou.
Estava rico, pois se quisesse passaria o resto de minha vida na ociosidade. Mas a ociosidade, me era
odiosa. Pus-me a viajar, a ver mais o mundo- e novas e extraordinárias aventuras se sucederam.
Essas porem não cabem num livro que está no FIM.

FIM

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