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SUMÁRIO

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

iv/v

RESUMO

vi

ABSTRACT

vii

INTRODUÇÃO

8

CAPÍTULO 1

17

TECENDO RELAÇÕES, PROJETOS E IDÉIAS: ARMANDA ALVARO

ALBERTO E A ESCOLA REGIONAL DE MERITY

17

1.1

ARMANDA ÁLVARO ALBERTO: UM POUCO DE SUA TRAJETÓRIA

FAMILIAR E SOCIAL

19

1.2 A “NOSSA CASA” NA VIDA DE ARMANDA ÁLVARO ALBERTO

28

1.3 ARMANDA E A IMPRENSA ESCRITA

36

1.4 CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO DE ARMANDA ÁLVARO ALBERTO

42

 

CAPÍTULO 2

45

ROMPENDO BARREIRAS: UM PROJETO INOVADOR NO SERTÃO DA

CAPITAL FEDERAL, A BAIXADA

45

2.1 BAIXADA FLUMINENSE: O “SERTÃO” DA CAPITAL

46

2.2 OCUPAÇÃO E VIDA SOCIAL EM MERITY

50

2.3 INÍCIO DE UMA RELAÇÃO: A REGIÃO DE MERITY E A ESCOLA

REGIONAL DE MERITY

56

2.3.1 A Evasão Escolar

63

2.3.2 Os dois projetos de cidade

66

2.3.3 Os Trabalhadores de Merity

75

2.3.4 Formação Profissional das Mulheres

77

2.3.5 Mão-de-obra infantil

80

2.3.6 Ações assistenciais

83

CAPÍTULO 3

87

O MOVIMENTO HIGIENISTA E A ESCOLA REGIONAL DE MERITY: EDUCAR

E CIVILIZAR PELA

87

3.1

AGENTES DA SAÚDE: INSTRUIR E CIVILIZAR PELA EDUCAÇÃO

ESCOLAR PRIMÁRIA

88

3.2 A ESCOLA REGIONAL DE MERITY E OS PRECEITOS HIGIÊNICOS. 98

3.3 BELISÁRIO PENNA E A REGIONAL DE MERITY

106

CAPÍTULO 4

113

UMA ÉPOCA, UM TURBILHÃO DE IDÉIAS (1882 – 1930): O PROCESSO DA RENOVAÇÃO DA EDUCAÇÃO PRIMÁRIA E SUA INFLUÊNCIA NA ESCOLA

113

REGIONAL DE

4.1 PRIMEIRO MOMENTO: PRIMEIRAS AÇÕES PARA A RENOVAÇÃO DO

116

ENSINO PRIMÁRIO NO CENÁRIO EDUCACIONAL BRASILEIRO

4.2

SEGUNDO MOMENTO: A RENOVAÇÃO DA EDUCAÇÃO PRIMÁRIA E

A CULTURA MATERIAL ESCOLAR NA REPÚBLICA

123

4.2.1 Lei 88, de 8/9/1892 e Decreto 144-B, de 30/12/1892

124

4.2.2 Os Grupos Escolares Paulistas

130

4.2.3 Cultura Material Escolar na República

133

4.3

TERCEIRO MOMENTO: AS NOVAS PROPOSTAS, EMBATES E

DEBATES PARA O ENSINO PRIMÁRIO NA CAPITAL FEDERAL (1920-

1930)

135

4.3.1

A Escola Nova na Capital Federal

139

4.4 ASPECTOS RENOVADORES DO ENSINO PRIMÁRIO NA

ORGANIZAÇÃO DO PROJETO EDUCACIONAL DA ESCOLA REGIONAL DE

143

4.4.1 Espaço Escolar

144

4.4.2 Tempo Escolar: adequação a uma organização escolar específica151

CAPÍTULO 5

154

COMPARTILHANDO PROPOSTAS: A RENOVAÇÃO DOS MÉTODOS DE

154

ENSINO NAS PRÁTICAS

5.1

CONHECENDO O CAMINHO TEÓRICO E METODOLÓGICO

156

5.2

MÉTODO DE ENSINO-APRENDIZAGEM E SUA APROPRIAÇÃO NA

PRÁTICA EDUCATIVA DA REGIONAL DE MERITY

164

5.3

O PROGRAMA DE ENSINO - QUADRO CURRICULAR

178

5.3.1

Programa de Ensino: Estudo da Natureza

181

5.4

O CORPO DOCENTE NA REGIONAL DE MERITY

184

5.4.1 Função da professora na aplicação dos novos métodos de ensino 187

5.5 MÉTODO DE AVALIAÇÃO ESCOLAR

189

5.6 ARMANDA ÁLVARO ALBERTO NA GESTÃO ESCOLAR DA ESCOLA

REGIONAL DE MERITY

193

CONSIDERAÇÕES FINAIS

200

FONTES

204

BIBLIOGRAFIA

209

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

(As ilustrações encontram-se no final do trabalho, numeradas conforme a relação abaixo).

FIG.1 – Fotografia da professora Armanda Álvaro Alberto. Arquivo Pessoal da professora Martha Ignez Rossi.

FIG.2 – Fotografia da Estação Ferroviária de Merity e o presidente Nilo Peçanha em campanha para o saneamento e incentivo agrícola na região em 1916. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

FIG.3 – Imagem de Merity vista da escola, em 1928. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.4 – Imagens das sedes pelas quais passou a Escola Regional de Merity de 1921 a 1964. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.5 – Fotografia da ex-professora e sub-diretora da Escola Regional de Merity, Martha Ignez Rossi, em 2008.

FIG.6 – Fotografia dos primeiros alunos matriculados na inauguração da escola em 1921. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.7 - Fotografias de aulas ao ar livre em 1925. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.8 – Imagem da aula prática de Jardinagem, em 1929. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.9 – Imagem do Professor de Trabalhos Manuais, professor José Montes. Arquivo da Escola Dr. Álvaro Alberto.

FIG.10 – Fotografia dos alunos com o professor José Montes em aula prática de trabalhos manuais. Arquivo da Escola Dr. Álvaro Alberto.

FIG.11 – Algumas peças do acervo do Museu Regional da Escola Regional de Merity. Arquivo da Escola Dr. Álvaro Alberto.

FIG.12 – Cópia da imagem do Boletim de Aproveitamento. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

FIG.13 – Imagem da Ficha médica utilizada pela professora visitadora no ano de 1926, na Escola Regional de Merity. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

FIG.14 - Imagem da Ficha médica e da Escala dos Testes de Inteligência da Aluna Irene Satorre, de 28/11/1937. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

FIG.15 – Cópia da carta de encaminhamento, por parte da Secretaria de Estado do Interior e Justiça – Departamento de educação, de uma professora para a escola regional de Merity, 14 de agosto de 1934. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

FIG.16 – Imagem interna da Biblioteca Euclides da Cunha, seção para professores. Arquivo do Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade – PROEDES.

FIG.17- Livros didáticos – acervo da biblioteca Euclides da Cunha. Arquivo do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias.

RESUMO

A presente pesquisa investiga, tendo como área de conhecimento a História da Educação Brasileira, uma experiência escolanovista, o projeto educacional da Escola Regional de Merity, entre os anos de 1921 a 1937. Trata-se de uma instituição fundada, em 1921, pela professora Armanda Álvaro Alberto, “a pioneira da Escola Nova no Brasil”, na então Vila Merity, atual município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. Tomamos como principais fontes na elaboração da pesquisa os Relatórios anuais da escola, memorando, livros de colaboração, artigos de jornais, o programa de ensino de “Estudos da Natureza”, o livro documentário sobre a escola organizado pela professora Armanda, documentos administrativos, fichas médicas, boletim escolar, entre outros documentos. O presente estudo tem como finalidades apresentar, a partir da análise das fontes documentais, os mecanismos e estratégias pedagógicas e sociais utilizados pela diretora da escola e sua rede de relações, bem como a integração da comunidade local nas diversas atividades escolares e extra-escolares ali apresentadas. Para tal, foi necessário situar historicamente a professora Armanda e sua relação com a região de Merity, assim como elucidar parte da história da Baixada Fluminense, tomando como foco a região da Vila Merity, para que pudéssemos visualizar a relação da escola, no que tange à sua organização escolar, com a região. A escola, em seu programa curricular, tinha como princípio fundamental o ensino da higiene. Nesse sentido, investigamos as ações e práticas educativas realizadas pelos agentes do movimento higienista na Escola Regional de Merity. Sendo a Regional de Merity uma instituição de ensino primário, coube-nos a tarefa de mapear o processo de renovação da educação primária e dos métodos de ensino, desde meados do século XIX, para que pudéssemos perceber quais foram as propostas inovadoras inseridas no campo educacional brasileiro. Partindo desse contexto, focamos nossos estudos nos métodos de ensino aplicados na Regional, fundamentados nos pressupostos teóricos e metodológicos derivados do movimento da Escola Nova. Concluímos que a escola, direcionando suas atividades às demandas locais, inovou ao aplicar o ensino regionalizado. A pesquisa apresentada pretende contribuir para a construção da História da Educação Regional, isto é, da Baixada Fluminense, e de forma especial, aludir sobre uma experiência escolanovista, pioneira no que tange ao ensino regional. Inseriu-se, ainda, nas linhas de pesquisa desenvolvidas pelo grupo de Pesquisa memória, História e produção do Conhecimento em Educação, como parte do projeto “Intelectuais, poder e formação de dirigentes no Brasil”.

ABSTRACT

To present research investigates, tends as knowledge area the History of the Brazilian Education, an experience new school, the education project of the Escola Regional de Merity, among the years from 1921 to 1937. A founded institution, in 1921, for Armanda Álvaro Alberto, "the pioneer of the New School in Brazil", in the Vila Merity, current municipal district of Duque de Caxias, in the State of Rio de Janeiro. We took as main sources in the elaboration of the researches the annual reports of the school, , program of teaching of "Studies of the Nature", the book documentary on the school organized by Armanda, administrative documents, records doctors, school bulletin, , considered important to the History of the Brazilian Education. The present study has as purposes to present, starting from the documental sources, the mechanisms and pedagogic and social strategies used by the director of the school and her net of relationships, the local community's integration in the several school and extra-school activities there presented. For such, it was necessary to make explicit about Armanda and her relationship with the area of Merity. The school program curricular, had as fundamental beginning the teaching of the hygiene. In that sense, we investigated the actions and educational practices accomplished by the movement hygienist's agents in the Regional School of Merity. Being the Regional of Merity an institution of primary teaching, it fit us the task of we map the process of renewal of the primary education and of the teaching methods, from middles of the century XIX, so that we could notice which went to the innovative proposals inserted in the Brazilian education field. Leaving of that context, we focused our studies in the teaching methods applied in the Regional, based in the theoretical and methodological presuppositions derived of the movement of the New School. We ended that the school, addressing their activities to the local demands, it innovated when applying the teaching regionalizado. The presented research intends to contribute for construction of the History of the Regional Education, that is, of the Baixada Fluminense, and in a special way, to mention on an experience new school, pioneer with respect to the regional teaching. It still to fitted into in the research lines developed by the group of Research memory, History and production of the Knowledge in Education, as part of the project "Intellectuals, to can and leaders' formation in Brazil."

INTRODUÇÃO

Essa pesquisa tem como objetivo central investigar, a partir das fontes documentais, a experiência da Escola Regional de Merity, observando a possibilidade de a idealizadora da escola ter se apropriado, inovado ou adaptado à sua organização escolar elementos inseridos no processo de renovação dos métodos de ensino. Tendo sido considerada, por Lourenço Filho, a mais completa experiência de educação renovada, por sua ação socializadora, averiguamos quais foram os possíveis mecanismos e estratégias implementados pela diretora da escola e seus pares no conjunto das atividades escolares. Durante o processo de realização desse trabalho, enfrentamos o silêncio de muitas vozes, as limitações de fontes perdidas ou que não nos foram disponibilizadas, os “tropeços” que a vida nos traz como barreiras a serem enfrentadas, acrescidas da condição de estarmos “correndo contra o tempo”. Fomos “costurando” os dados obtidos na pretensão de formarmos um conjunto de informações sobre o projeto educacional da Escola Regional de Merity, entre os anos de 1921 e 1937. Ao longo do processo de coleta de dados e estudos, um importante estudo acadêmico sobre a Escola Regional de Meriti e sua fundadora foi localizado, a obra da professora Ana Chrystina Venâncio Mignot “Baú de

memórias, bastidores de histórias: o legado pioneiro de Armanda Álvaro Alberto”. Compreender o que significou a escola para a região de Merity, num período em que a educação rural não era prioridade para os poderes públicos, principalmente o poder local, nos remeteu a buscar dados sobre a educação escolar das décadas de 1920 e 1930, assim como o contexto histórico e político da região. Sobre a educação escolar local, as informações foram

incipientes, não nos fornecendo dados consistentes e precisos para dissertamos sobre o assunto. No entanto, a obra de José Lustosa (1958), foi de extrema importância para entendermos o campo educacional local, já que as documentações relativas às primeiras décadas do século XX não foram localizadas. Devido à falta de documentos oficiais sobre a educação local, tomamos como base os estudos sobre a história local que nos afirmam ter sido a Regional de Merity a primeira instituição escolar da localidade de Merity.

A partir dos documentos encontrados nos arquivos públicos 1 e privado 2 ,

sobre o projeto educacional da Escola Regional de Merity percebemos que sua organização escolar envolvia ações fortemente voltadas para o âmbito do social, da saúde, higiene e trabalho.

O marco temporal dessa pesquisa foi delimitado entre os anos de 1921 e

1937, devido à correlação histórica do movimento escolanovista brasileiro e a prática dos ideais postos desse movimento no projeto educacional da Escola Regional de Merity. O ano inicial foi o de criação da escola por Armanda Álvaro Alberto. O ano final marca o início do período ditatorial do governo de Getúlio Vargas que, de certa forma, com suas ações intervencionistas abalou o cotidiano de diversas instituições educativas, inclusive da Escola Regional de Merity, com a prisão de sua diretora, por motivos políticos. A educadora, com seu engajamento pelas questões sociais e educacionais brasileiras, integrante do movimento escolanovista, participou ativamente, no interior da Associação Brasileira de Educação, na Seção de Cooperação da Família, pela expansão do ensino primário às camadas menos favorecidas da sociedade.

1 Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto / Câmara Municipal de Duque de Caxias; Instituto de Pesquisa e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense – IPAHB; Casa Oswaldo Cruz –Departamento de Arquivo e Documentação.

2

Arquivo pessoal da professora Martha Rossi, ex sub-diretora da Escola Regional de Meriti.

Nos estudos sobre o objeto de pesquisa em questão, alguns questionamentos sobre a escolha da localidade relacionados à organização escolar ficaram latentes: Por que a região da Vila Merity foi eleita para abrigar tal projeto educacional? O contexto histórico da Vila inspirou a fundadora da escola a buscar fundamentos para um ensino regional e popular? O que haveria embutido no contexto histórico da cidade que determinasse a organização curricular empregada? As questões sobre o processo de ocupação, urbanização e saneamento da região, tiveram relevância no arcabouço pedagógico implantado na organização escolar da Escola Regional de Merity?

No intuito de mapear os pontos de ligação dessas questões, observamos a possibilidade de a história da região nos conduzir a acontecimentos, atores e lugares comuns. Buscar entender a história da região da Vila Merity e sua relação com a escola em questão, através dos personagens que, de alguma forma dela participaram, fez com que a análise pudesse contemplar as experiências humanas e as transformações sociais ocorridas em nível local. Sendo assim, ao iniciarmos a construção da pesquisa, acreditamos que seria imprescindível conhecermos a história da região na qual a escola foi fundada. Nesse sentido, recuperamos a produção sobre a história do Município de Duque de Caxias. A partir da análise de Alexandre dos Santos Marques percebemos que estão divididos em: memorialistas e acadêmicos. Ele afirma que:

“Os memorialistas da Baixada Fluminense desempenharam relevante papel na construção do passado local. Sem a sua contribuição, não teria sido possível preservar as fontes nem constituir uma dada interpretação desse passado, com sua respectiva visão de mundo. Os documentos oficiais, como ocorre com freqüência entre nós, teriam se deteriorado ou se tornado peças de acervos particulares”( MARQUES, 2005:22).

No contexto regional, a falta de preservação dos documentos é um dos graves problemas enfrentados pelos pesquisadores que tentam montar o “quebra-cabeças” relativo à história da Baixada Fluminense. Sendo assim,

recorremos às obras dos memorialistas, 3 dos acadêmicos 4 e aos registros da imprensa local. A respeito da origem dos memorialistas e conseqüentemente, a construção de suas obras, Marques(2005:22) assinala que,

“Uma vez que quase todos esses produtores são migrantes ou filhos de imigrantes, na falta de um passado comum e de uma cultura identitária, esforçaram-se por criar uma referência por meio de uma interpretação da História da cidade”.

Mapeando algumas características identitárias dos acadêmicos, Ana Lucia Enne (apud MARQUES, 2005:24), relatou que os acadêmicos 5 são, em sua maior parte, graduados em História e oriundos de movimentos sociais, todos atuando no magistério. Esses estabelecem que a História deve ser “problematizadora” e crítica. Ainda como agentes da construção da história da Baixada, temos a imprensa local. 6 Agente importante na divulgação e preservação da memória do projeto educacional da Escola Regional de Merity, com sua produção cotidiana de matérias, exaltando e criticando objetos, iniciativas e projetos, além de personalidades que contribuíram para o desenvolvimento econômico, político, cultural e educacional da região. No conjunto da produção jornalística localizamos diversos artigos relacionados à Escola Regional de Merity, o que nos permitiu perceber a importância da instituição escolar e sua rede de relações com a elite dirigente local. Em relação à pesquisa teórica nos apoiamos no conceito de campo de Pierre Bourdieu. De acordo com Bourdieu, só é possível compreender uma obra, seu valor ou a crença que lhe é dada, após conhecer a história do campo

3 Entre eles: José Lustosa, Dalva Lazaroni, Rogério Torres, Gêneses Torres, Guilherme Peres, Stélio Lacerda, Ney Alberto.

4

MARQUES (2005), BRAS (2006), SANTOS DE SOUZA (2004), entre outros.

5 Na pesquisa utilizamos os estudos de: Antônio Augusto Braz, nascido em Duque de Caxias. Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Duque de Caxias, onde atua como professor e exerce funções de coordenação em seu campo de conhecimento tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação. Mestre em História pela Universidade Severino Sombra. Professor da rede municipal de ensino constituiu-se em um dos maiores incentivadores de uma produção acadêmica sobre a História da região, coordenando cursos e eventos sobre o tema. É editor do Caderno de Textos de História Local e Regional da Baixada Fluminense: Hidra de Iguassú e da revista Pilares da História; e Marlúcia Santos de Souza. Graduada em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Duque de Caxias onde atua como professora de História do Brasil. Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense. Professora da rede publica estadual.

6

Jornal Correio de Iguassú, Tópico, Grupo, O municipal, Folha de Caxias.

no qual foi produzida. O campo pode ser definido como o lócus onde se travam

disputas entre os agentes em torno de interesses específicos que caracterizam

a área em questão. 7 Num dado momento da história, a estrutura do campo mostra a relação de forças entre os agentes. Um problema ou questão em debate de um determinado campo, no caso da pesquisa em questão, a educação, para ser legitimado, deve ser reconhecido por seus componentes, ou seja, todos os agentes em luta pelo poder no campo. Segundo Bonnewitz (2003:53) referindo-se a Bourdieu, as estratégias e mecanismos utilizados nas disputas pelos agentes dependerão do volume do seu capital. Dentre as diferentes formas de capital (social, econômico, cultural, simbólico), o econômico e o cultural são os que permitem distinguir as diferenciações de força e poder entre os campos ou entre os agentes de um mesmo campo. Os agentes sociais fortemente dotados de capital, tanto econômico quanto cultural aparecem na escala de hierarquização, na estrutura vertical, como os dominantes. As classes dominantes, ou superiores, são caracterizadas pela importância do capital do qual dispõem os seus membros. No interior dessas classes há uma fração dominada que surge como mais provida de capital cultural do que de capital econômico. Esta fração reúne os engenheiros, os professores, os intelectuais. Os agentes do campo ou instituições, como os integrantes da ABE, eram dotados de habitus, conheciam as regras da luta em que estavam engajados,

por objetos de disputa ou por interesses específicos. Para Bourdieu, o Habitus

é um

Sistema de disposições adquiridas pela aprendizagem implícita ou explícita, que funciona como um sistema de esquemas geradores, é gerador de estratégias que podem ser objetivamente afins aos interesses objetivos de seus autores, sem terem sido expressamente concebidas para este fim (1993:

94)

O habitus se apresenta como um conjunto de princípios geradores de práticas distintas e distintivas, ao mesmo tempo em que são esquemas classificatórios, princípios de classificação, de visão e divisão. Isto é, o habitus

7 BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1993. Segundo Bourdieu, o interesse é o investimento específico nos processos de lutas, que é, ao mesmo tempo, a condição e o produto da vinculação a um campo.

é um sistema de disposições (atitudes, inclinação para perceber, sentir, pensar

e fazer) duradouras, adquiridas pelo indivíduo durante o processo de socialização (BONNEWITZ, 2003:77).

Com relação à estrutura do campo, Bourdieu define como “um estado da relação de força entre os agentes sociais ou as instituições engajadas na luta,

ou

ainda, da distribuição do capital específico 8 acumulado durante o processo

de

socialização”. Tomando como modelo os agentes do movimento renovador

da educação, pertencentes a uma elite intelectual e dirigente, a estrutura estava sempre em disputa para conservar ou subverter a estrutura de distribuição do capital específico, especialmente cultural, conjunto das qualificações intelectuais produzidas pelo sistema ou transmitidas pela família (diplomas, características lingüísticas, códigos culturais e outros). Consideramos importante citar, também, o capital social (conjunto das relações sociais), e o simbólico (conjunto dos rituais: reconhecimento, prestígio reputação, símbolo de poder). Os conceitos de Bourdieu apresentados nos deram suporte para enveredarmos sobre o objeto de pesquisa em questão, que se encontrava mergulhado nas malhas da educação, dentro de um contexto de pioneirismo e renovação, através de suas práticas pedagógicas, metodológicas e sociais. Na área de história da educação, a metodologia da pesquisa identifica- se com aquelas próprias ao ofício do historiador. Dois procedimentos metodológicos foram os mais utilizados na presente investigação. O primeiro deles foi a análise documental, numa perspectiva histórica. A apropriação desta metodologia nos conduziu a um processo de “garimpagem”, pois não foram raras as vezes em que os documentos não foram localizados, ou, quando localizados, estavam incompletos ou deteriorados, fazendo-se necessário receberem um tratamento “que, orientado pelo problema proposto pela pesquisa, [estabelecesse] a montagem das peças, como num quebra- cabeças”. 9

8 O capital específico é “fundamento do poder ou da autoridade específica característica de um campo e só vale dentro dos limites deste determinado campo. Pode ser de diversas naturezas:

cultural, econômico, artístico, político e outros” (1993:94)

Termo utilizado por: PIMENTEL, Alessandra. O Uso da Análise Documental: seu uso numa pesquisa historiográfica. Cadernos de Pesquisa, n. 114, p. 179-195, nov./ 2001

9

As dimensões de organização e análises de dados, sugeridas por LÜDKE & ANDRÉ (1986) numa tentativa de estudar a escola em sua dimensionalidade, foram fundamentais para que pudéssemos reunir dados, historicamente constituídos e reveladores da identidade organizacional, teórica, pedagógica e metodológica da Regional de Merity. De acordo com essas autoras, os documentos “não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto” (1986:39). O processo de análise das fontes documentais foi nos revelando as marcas construídas de uma relação entre a escola e a região da Vila Merity, atual município de Duque de Caxias. As fontes documentais, como elemento metodológico, nos proporcionaram responder a indagações sobre o contexto histórico, as tendências referentes ao passado do objeto pesquisado, podendo assim nos revelar questões pontuais que contribuíram ou limitaram as ações dos agentes na construção do projeto educacional em estudo. Nesse sentido, foi fundamental o acesso à documentação referente ao projeto educacional da Escola Regional de Merity, existente nos arquivos do Instituto Histórico Vereador Thomé Siqueira Barreto – Câmara Municipal de Duque de Caxias, no PROEDES (UFRJ), no IPHAB, na Escola Dr. Álvaro Alberto e no arquivo pessoal da professora Martha Ignez Rossi, ex-subdiretora da escola. Entre prateleiras empoeiradas, em armário fechado e esquecido numa pequena sala da escola, encontramos alguns materiais didático-

pedagógicos, tais como: álbuns ilustrados com fotos e postais para o ensino Estudos da Natureza, História e Geografia, livros didáticos e de literatura, um histórico da escola, certificados de cursos realizados por professores, textos

sobre puericultura, planos de aula de literatura infantil, livros, etc

Do acervo do

museu da escola, localizamos alguns animais empalhados, minerais, conchas do mar, e materiais sobre a cultural nacional. O segundo procedimento metodológico refere-se à análise de materiais bibliográficos concernentes ao contexto histórico da região da Vila Merity, na Baixada Fluminense; ao legado educacional da educadora Armanda Álvaro Alberto; ao contexto histórico, social e político do marco temporal delimitado para a pesquisa (1921-1937); e sobre o próprio objeto de estudo em questão.

Alguns autores foram particularmente importantes no estudo da historiografia:

Marlúcia Santos de Souza, Antônio Augusto Bras, Alexandre dos Santos Marques, Ana Chrystina Venâncio Mignot, Clarice Nunes, Sonia Camara, Jorge Nagle, José G. Gondra, Luciano de Faria Filho, Maria Marta de Carvalho, Ana Maria Magaldi, entre outros. Na captação de um melhor entendimento a respeito da pesquisa, a partir das fontes documentais, percebemos que foi necessário definirmos um conceito para o termo “documento” e “memória”, já que ambos são elementos intrínsecos a este estudo. Documento é um termo polissêmico, posto que se pode considerar documento qualquer suporte que registre informações. Le Goff (1996) nos indica que são documentos os vestígios materiais de civilizações desaparecidas investigados pelos arqueólogos, os registros orais de grupos humanos estudados pelos antropólogos e sociólogos ou a correspondência, mapas, contratos privados ou públicos que são pesquisadas pelos historiadores. Os documentos, embora possam variar na forma como se apresentam, ou tecnicamente falando, no suporte em que a informação está registrada, apresentam algumas características que os aproximam do conceito de monumento. 10 Para Le Goff, tanto a memória coletiva quanto a história constroem-se a partir de registros que podem ser pensados como documentos /monumentos. Considerando que “não há história sem documentos” e que há de tomar a palavra ´documento` no sentido mais amplo documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem, etc, o autor chama a atenção para o caráter monumental de qualquer documentação. Com isso, alerta-nos quanto ao modo de produção, assim como aos processos de seleção que atuaram na sua preservação. Em se tratando do conceito de memória, em sua relação com a história – relação esta que nos é cara para o desenvolvimento deste trabalho - Le Goff (1996:477) aponta que cabe aos historiadores - também profissionais da memória – “fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários da sua objetividade científica”, e também que “a

10 RONCAGLIO, Cynthia, SZVARÇA, Décio e BOJANOSKI, Silvana. Arquivos, gestão de documentos e informação. Rev. Eletr. Bibl. Ci. Inf., Florianópolis, n. esp., 2º sem. 2004 disponível: http://www.encontros-bibli.ufsc.br/bibesp/esp_02/1_roncaglio.pdf

memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”. Assim, na busca de entender a trajetória histórica e social do projeto educacional da Escola Regional de Meriti, sem a intenção de recriar o vivido, o presente estudo tem como intenção mapear questões que nortearam o movimento de ações e realizações exercidas pela instituição e pelos diversos agentes que participaram da construção e afirmação de tal projeto. Ao revelar a historicidade e a organização prática pedagógica, social e ideológica do objeto de pesquisa em questão temos o desejo de contribuir para a construção da História da Educação da Baixada Fluminense, além de preencher uma lacuna historiográfica que esteve presente devido ao “esquecimento” dessa experiência pedagógica que, de certa forma, foi um dos projetos que através da divulgação que recebeu na imprensa, provavelmente, proporcionou uma maior visibilidade ao ideal social e educacional do movimento escolanovista brasileiro, nas décadas de 1920 e 1930. Durante seus quarenta e três (43) anos de existência, a escola teve a intenção de apresentar ao campo da educação uma possibilidade de avanço no que tangia à educação regional no Brasil.

CAPÍTULO 1

TECENDO RELAÇÕES, PROJETOS E IDÉIAS: ARMANDA ALVARO ALBERTO E A ESCOLA REGIONAL DE MERITY

A literatura sobre o legado de Armanda Álvaro Alberto na história da

educação brasileira nos revela que sua trajetória em prol da educação primária iniciou-se ainda quando jovem, no período republicano.

A história nos aponta que a partir dos anos 1910 e 1920, boa parte da

intelectualidade, insatisfeita com o novo regime, dedicou-se a pensar sobre a realidade social, política e cultural da sociedade brasileira, o que proporcionou

a produção de uma série de diagnósticos nos quais foi revelada a ausência de uma consciência nacional.

Nesse contexto, essa intelectualidade, engajada no processo de construção de uma identidade nacional e de uma sociedade civilizada, utilizou

a educação como instrumento para solucionar um dos males identificado como

um dos maiores obstáculos para o progresso do país: o analfabetismo. A literatura nos indica que a elite intelectualizada, daquele período, tinha como intenção promover grandes transformações no país. No entanto, para gerar a transformação desejada por parte da elite, dever-se-ia promover uma reforma mais profunda que permitisse moldar o povo brasileiro. E a instituição legitimada, tanto pela elite dirigente quanto pela população, capaz de forjar essa mudança seria a escola, através das ações dos educadores, atuando nas mais diversas camadas sociais que precisavam ser preparadas para o trabalho.

Nesse momento histórico, muitos intelectuais da educação, incluindo a educadora Armanda Álvaro Alberto, estavam envolvidos no projeto nacionalista de construção de uma nova identidade para o país, buscando a construção de uma nação “civilizada”, tornando-se os difusores da civilidade e formadores do ideal de nação que se pretendia implantar. A difusão das idéias de progresso e civilização não poderia ser desvinculada da educação, como bem sintetizou, em 1924, o educador A. Carneiro Leão:

“Acredito que nessa época da civilização de base científica, onde tudo se procura fazer pela cultura, a educação é a maior necessidade do Brasil. No nosso país precisamos de cultura, por toda parte, e para tudo: cultura física, higiênica, profissional, mental, moral, social, política e cívica. Quem diz educação, diz formação, diz organização, diz adaptação. Formar a nacionalidade e o país, organizá-los e adaptá-los à hora atual do mundo são os fins da cultura que proclamo” (LEÃO, apud CARDOSO, 1981:70).

No presente texto, a partir da perspectiva histórica descrita, tentaremos aludir sobre a experiência de vida da educadora Armanda Álvaro Alberto, sua importância e contribuição para história da educação brasileira. E para cumprir tal direção coube-nos a tarefa de mergulharmos em seu arquivo e buscarmos informações sobre sua vida pessoal, social e profissional. Diante das fontes documentais localizadas nos arquivos públicos como o Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade - PROEDES; o Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias e a Escola Dr. Álvaro Alberto, a respeito da educadora, uma inquietação se apoderava de nós:

quais foram as circunstâncias na vida dessa educadora que, de alguma forma, poderiam ter-lhe possibilitado criar uma instituição escolar, a Escola Regional de Merity, com inúmeros elementos inovadores para o ensino primário numa época e região considerada o “sertão” da Capital Federal (RJ), no ano de 1921, onde a educação escolar caminhava muito lentamente, ou era quase inexistente? Nesse viés de pesquisa tentamos recuperar sua trajetória de vida familiar, social e profissional de Armanda, como, também, sua rede de relações que de forma direta ou indireta, colaborou para a criação e manutenção de seu projeto educacional, a Escola Regional de Merity.

1.1 ARMANDA ÁLVARO ALBERTO: UM POUCO DE SUA TRAJETÓRIA FAMILIAR E SOCIAL

Ao fazer o levantamento bibliográfico para a construção dessa pesquisa,

consideramos a obra “Baú de memórias, bastidores de histórias: o legado

pioneiro de Armanda Álvaro Alberto”, da historiadora Ana Chrystina Venancio

Mignot o estudo mais completo sobre essa educadora. Nesse sentido,

tomamos esse trabalho como fonte primordial para elaboração dessa parte da

pesquisa.

Nascida em 10 de junho de 1892, no Rio de Janeiro, pouco se sabe

sobre sua infância, sua vida particular ou afetiva e seu casamento. Entre tantos

documentos localizados no arquivo público do PROEDES, observamos raras

menções sobre sua vida particular, todavia, localizamos uma substancial

quantidade de documentos a respeito de sua vida pública e profissional.

As pesquisas e buscas nas fontes documentais nos indicaram que a

jovem Armanda Álvaro Alberto vinha de uma família de intelectuais, elemento

importante que pode ter interferido em sua formação pessoal e profissional.

Seu pai possuía formação de nível superior, graduado em medicina,

porém pouco clinicou. Possuidor de uma vocação para o estudo da química de

explosivos, destacou-se na área. Ocupou cargos públicos como médico

pesquisador, engajando-se no projeto de saneamento do Rio de Janeiro, no

final do século XIX e início do XX, no combate à febre amarela. Veio a falecer

no ano de 1908, ficando ela e o irmão Álvaro Alberto aos cuidados da mãe

Maria Teixeira. 11

O envolvimento do pai nas questões de saúde sanitária para a massa

popular, de certa forma, nos traz indícios de ter sido uma das primeiras

circunstâncias que permitiram à Armanda envolver-se com as questões sociais

em prol das camadas menos favorecidas.

Sobre sua mãe, Maria Teixeira, consta que ela possuía uma

personalidade forte e combativa. Oriunda de família abastada, foi educada por

governantas francesas e professores particulares. Daí ter sido sempre

11 A respeito da história familiar da educadora Armanda ver: MIGNOT, 2002:79-80.

lembrada por amigos e familiares como uma pessoa muito culta, determinada, carinhosa e dedicada. Recebeu como herança, do pai, chefe político em Santa Cruz no Estado do Rio de Janeiro, o temperamento e o gosto pela política (GARCIA, 2000: 6). De acordo com MIGNOT (2002:80), Armanda e seu irmão Álvaro Alberto da Motta e Silva não freqüentaram escolas na infância, recebendo a educação letrada da própria mãe. Logo após a morte do marido, D. Maria Teixeira, Dona Filhinha como era carinhosamente tratada, mulher de “convicções, opiniões políticas, literárias, com aquela independência de espírito que era um dos seus traços marcantes” tomou a doutrina espírita como amparo e refúgio, “exercendo a caridade e a assistência social”.(Idem, ibidem) Os traços da história de vida de D. Maria Teixeira podem nos indicar alguns dos elementos formadores da personalidade de Armanda. Acompanhando a inclinação do pai ao estudo de explosivos, seu irmão, o Comandante Álvaro Alberto, que convivera com a mãe até seu falecimento, em 1954, retomou os esforços do pai, em 1917, dedicando-se aos estudos de explosivos, a rupturita. No mesmo ano de 1917, fundou a Fábrica Venâncio & Cia, uma fábrica de explosivo rupturita em Merity, na Baixada Fluminense. Nesse mesmo ano, aos 25 anos de idade, Armanda iniciou sua trajetória rumo ao magistério no Colégio Jacobina, onde “esboçava-se uma certa compreensão de que a arte de ensinar era uma missão nobre a ser exercida pelas mulheres de elite, extensão natural das tarefas educacionais no espaço doméstico”.(Idem, p. 125) É curioso observar que Armanda só deu início à sua formação profissional aos 25 anos, pois, naquela época uma jovem com a sua idade era considerada “adulta”, e muitas já estavam casadas e com filhos. A vida de futura dona do lar, normalmente, começava ser delineada pela família quando a jovem entrava na fase da adolescência. Nas fontes documentais de seu arquivo pessoal não há nenhuma referência a intervenções por parte da família de Armanda em sua vida pessoal ou profissional. Nesse período, morando próximo ao colégio, no bairro do Flamengo, ampliava-se o círculo de amizades de Armanda com as famílias de elite:

Aguiar, Buarque de Almeida, Niemeyer, Osório de Almeida, Rodrigues Peixoto, Rios Bastos. Círculo esse que fortaleceria sua rede de relações sociais e culturais.

No contexto social da República, a elite mantinha laços partilhando espaço comuns como o de lazer, trabalho, valores, padrões culturais “estreitando o relacionamento num círculo ainda restrito mantendo, em outros termos, o poder”.(Idem, p. 86) Nesse ambiente os destinos de Armanda e Edgar Süssekind de Mendonça se cruzaram, como também seu forte laço de amizade com Francisco Venancio Filho. Em 11 de agosto de 1928, Armanda une-se em matrimônio com Edgar Süssekind de Mendonça. A futura educadora, ainda uma jovem rumo a sua carreira profissional parece ter incorporado os pressupostos educacionais de Pestalozzi desde sua infância. Segundo relato de Beatriz Osório, aos 13 anos de idade, Armanda já havia lido a vida de Pestalozzi, “por quem tomou admiração irrestrita”. 12 Sendo leitora das obras de Pestalozzi, Armanda provavelmente, apoiada na obra do educador suíço “Leonardo e Gertrude”, que conta a história de uma aldeia regenerada pela escola, espelhou-se nesse conto ao dar início a sua longa trajetória no campo da educação. (cf. MIGNOT, op. cit., p. 145) Em 1917, Armanda começava a delinear sua trajetória profissional no Colégio Jacobina, 13 onde, com as crianças, iniciou o ofício do magistério.(MIGNOT, 2002:138). Armanda ao invés de construir uma vida dedicada ao lar e aos filhos, traçou uma trajetória diferenciada das demais jovens de sua época. Dedicou-se as questões educacionais em prol das camadas menos favorecidas da sociedade brasileira. Influenciada não só pelas idéias pedagógicas de Pestalozzi, mas também pelos ideais educacionais de Maria Montessori, Armanda, em 1919, quando seu irmão atuava na Escola Naval e foi transferido para Angra dos Reis, deu início, naquela cidade, ao “ensaio de escola ativa” 14 ao ar livre,

12 OSÓRIO, Beatriz. “Uma obra extraordinária – A Escola Regional”. 18/09/1944. Aluna do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, Curso Normal, que realizou um estágio orientado por D. Armanda na Escola Regional de Merity. Arquivo: Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias.

O Colégio Jacobina era uma instituição de ensino que tinha como público as mulheres da elite, “a arte de ensinar era uma missão nobre a ser exercida pelas mulheres de elite, extensão natural das tarefas educacionais no espaço doméstico”. O colégio tinha como proposta um ensino voltado para “o exercício de papéis socialmente aceitos”, isto é, as tarefas domésticas, do lar, como cuidar dos filhos e organizar reuniões e festas. “O objetivo era formar mães zelosas, donas-de-casa exemplares”. (MIGNOT, 2002:125 e 127).

14 Expressão utilizada por NAGLE (apud MIGNOT, p. 139). Escola Ativa era a escola fundada sobre a ciência da criança, isto é, era a aplicação das leis da psicologia à educação das crianças. Baseava-se na autonomia dos educandos, na atividade espontânea, no autogoverno, na experiência pessoal da criança, na liberdade, na criatividade, na individualidade e nos

13

destinado aos filhos de pescadores “para as quais não existia escola pública

ou particular, por tôda a redondeza”, “crianças e adolescentes que não sabiam sequer dar nomes às coisas, salvo dos frutos verdes e maduros, que ignoravam sua condição de brasileiros” (ÁLVARO ALBERTO, apud MIGNOT, 2002: 148).

A ida para a região de Angra dos Reis proporcionou à educadora o

primeiro contato com o Dr. Belisário Penna, médico sanitarista, por intermédio

do amigo Francisco Venancio Filho. A partir desse encontro, o Dr. Penna tornou-se um dos grandes colaboradores do trabalho educativo realizado por Armanda. 15 A convivência de Armanda com os moradores da aldeia de pescadores

em Angra dos Reis, aliada às circunstâncias de vida familiar e social podem ter possibilitado a realização de seus projetos, principalmente os ligados às causas em prol da camada popular. Ao retornar ao Rio de Janeiro, no final do ano de 1919, o ambiente social e cultural da cidade tinha agregado à sua configuração outros espaços de sociabilidade feminina. Espaços esses em que as mulheres dirigiam automóveis, usavam cabelos curtos, maquiagem, etc, “as mulheres letradas articulavam um moderado movimento feminista reivindicando igualdade de oportunidades de educação, trabalho e salários e conquistas dos direitos políticos,significando o fim da opressão”(MIGNOT, 2002:153).

A historiografia nos aponta que no final da primeira década do século

XX, as mulheres de elite insatisfeitas com a educação recebida começam a manifestar-se contra sua condição de passividade na vida social e pública. “Tédio, solidão, ânsia de identidade, empurravam as mulheres para formas associativas inusitadas, retirando-as do enclausuramento do lar” (idem, p.141). Dentre os locais de atuação feminina, a escola foi, certamente um dos primeiros e mais duradouros espaços.

métodos ativos. Ver, PERES, Eliane. A Escola Ativa na visão de Adolphe Ferrière: elementos para compreender a Escola Nova no Brasil. In: STEPHANOU, Maria e BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil. V. III – Século XX. Petrópolis:Vozes, 2005, p. 115-128.

15 Informações retiradas do texto: ALBERTO, Armanda Alberto. Homenagem a Belisário Penna na Escola Regional de Merity. 03/12/1939

Em 1920, as mulheres de elite participantes do movimento feminista fundaram a Associação Cristã Feminina. Armanda ingressou na Associação “como uma das 805 sócias fundadoras” (idem, p.153). A participação na Associação propiciou um envolvimento maior com o movimento feminista. Era um movimento “marcadamente moderado”, [que] “enfatizava a filantropia como condição importante para que a mulher exercesse sua missão social, contribuindo assim para uma aproximação das classes sociais”.(MIGNOT,

2002:161).

Nesse mesmo ano, a convite do irmão realizou uma visita à fábrica de explosivos da família em Merity. Ao se deparar com a pobreza da região, um retrato do abandono percebendo que ali não havia escola, solidária com a situação de precariedade em que vivia a população, decidiu dar continuidade à experiência educativa iniciada em Angra. Aos 28 anos de idade, em 1921, fundou a Escola Proletária de Merity, tendo como principais colaboradores o Comandante Álvaro Alberto, Francisco Venâncio Filho 16 e Edgard Süssekind de Mendonça. 17 Durante os estudos e análises sobre a escola uma pergunta ficou a circundar nosso pensamento:

Por que fundar uma escola proletária naquele local? E por que a escola só três anos depois, em 1924, mudou o nome de “Proletária” para “Escola Regional de Merity”, se desde o primeiro ano já havia a intenção da troca de nome? Não localizamos uma resposta precisa para nenhuma das duas perguntas, no entanto, para a primeira pergunta há indícios que a educadora tenha planejado, inicialmente, criar uma escola que atendesse aos operários da fábrica de rupturita, no entanto, as condições locais não permitiram tal propósito.

16 Francisco Venancio Filho (1894-1946), filho de Francisco Ribeiro Venancio, comerciante de descendência portuguesa e de Dona Antonia Gomes Venancio que pertencia a tradicional família de fazendeiros.Formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro lecionou Física na então Escola Normal, hoje Instituto de Educação do Rio de Janeiro e no Colégio Bennett. Lecionou por quase trinta anos no magistério, nos últimos anos dedicou-se ao ensino de história da educação. Junto com Heitor Lyra foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Educação. Foi signatário e articulou, juntamente com Fernando de Azedo o texto redigido do “Manifesto da Educação Nova No Brasil”, em 1932. Publicou diversos artigos e livros dirigidos a educação. VENACIO FILHO, Francisco (Org.). Um educador brasileiro (1894-1994). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

17 Filho mais velho do segundo casamento do escritor, jornalista e jurista Lúcio de Mendonça – um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Autor de livro didático em co-autoria com Francisco Venancio Filho. Foi um dos criadores do Grêmio Euclides da Cunha, em 1911 no Colégio Pedro II, onde escreveu artigos sobre o autor de “os Sertões”, Euclides da Cunha. Membro da ABE e signatário do Manifesto.(MIGNOT, 2002: 87)

Quanto à manutenção da escola, inicialmente, foi mantida pela Fábrica de Explosivos Venancio & Cia, de propriedade do Comandante Álvaro Alberto, irmão da diretora e professora Armanda Álvaro Alberto e por doações de amigos e colaboradores. Depois, em 1922, foi criada a Caixa Escolar Dr. Álvaro Alberto “para a qual os moradores de Merity poderiam também contribuir”.(ÁLVARO ALBERTO, 1968:40) Integrada ao meio intelectual e político, por meio de sua rede de relações, Armanda Álvaro Alberto teve oportunidades diversas para divulgar o trabalho realizado em sua instituição escolar. Segundo Ana Chrystina V. Mignot (2002:171), foi a partir da criação da Escola Regional de Merity que a educadora Armanda revelou-se para o cenário educacional, sendo “reconhecida por alguns traços distintivos da sua experiência pedagógica, por um estilo de trabalho diferente, corajoso, ousado, inovador”. A respeito de sua trajetória de vida, as fontes documentais nos deixam lacunas a serem preenchidas. Os poucos dados e relatos de sua passagem nesse período só foi possível conhecer através dos relatórios anuais que eram enviados anualmente aos colaboradores. Com a criação da escola, sua inserção no campo educacional foi sendo anunciada através de artigos de revistas e jornais da época. Muitos dos colaboradores e mantenedores 18 da escola eram amigos que estimulavam a educadora a dar continuidade ao seu projeto educacional e social. Muitos são os indícios que às circunstâncias remetem Armanda a trabalhar com as causas políticas e sociais, talvez por ter convivido numa família que não era neutra às questões políticas e sociais da nação. Em 1923, Armanda ocupava a vice-presidência da Liga Brasileira Contra o Analfabetismo, 19 movimento inscrito no âmbito nacionalista do início do século XX, que conjugava a atividade profissional com a militância política. No entanto, não há registros que nos remetam a sua participação na Liga nesse período. (MIGNOT, 2002: 142).

18 Entre eles podemos citar: Heitor Lyra da Silva, Paschoal Lemme, Francisco Venancio Filho, Júlia Lopes, Belisário Penna, Flavio Lyra da Silva, Edgard Roquette Pinto, Álvaro Alberto da Motta e Silva, Corina Barreiros entre outros. 19 Instituição fundada em 1915, no Rio de Janeiro. Uma instituição direcionada “para a necessidade de reverter o panorama de abandono em que se encontrava a educação popular, elevar o nível cultural das massas, retirando-as da ignorância, apatia, desenvolvendo o espírito cívico”. Ver MIGNOT (2002: 141).

Na Liga Brasileira Contra o Analfabetismo sua rede de relações foi se ampliando, o que permitiu uma projeção para o trabalho que realizava. Armanda, juntamente com Corina Barreiros que exercia também o cargo de secretária-geral da Associação Cristã Feminina e Maria Reis dos Santos assumiram a diretoria da Liga. Também integrando a diretoria das duas instituições citadas, havia o reverendo H. C.Tucker criador do Instituto Central do Povo, 20 em 1906. Instituição que no futuro, no ano de 1964, dará apoio se responsabilizando pela escola criada pela educadora Armanda. Como podemos observar, as circunstâncias de vida familiar, políticas e culturais serviram de base de sustentação à realização dos projetos de Armanda, que nesse momento da história, associavam-se ao ideário de construção de uma nação civilizada e moderna nos moldes dos países mais desenvolvidos, principalmente os europeus, que já estava posto pelos intelectuais brasileiros. O grupo de intelectuais engajado no projeto de construção de uma identidade nacional tomou a educação como propulsora das transformações sociais. Ancorado num clima de efervescência política e entusiasmo pela questão educacional, o educador Heitor Lyra da Silva apoiado por um grupo de intelectuais da educação e diletantes fundou, em 1924, a Associação Brasileira de Educação – ABE, lócus de agregação dos debates educacionais da época. Integrante desse grupo, Armanda foi sócia-fundadora da entidade desde a primeira diretoria. Nesse momento, Armanda já havia se projetado no cenário educacional, passando a ser reconhecida nos círculos intelectuais e políticos através de suas redes de relações e de seu trabalho. Tal reconhecimento proporcionou que, em 1925, fizesse parte da Seção de Cooperação da Família na ABE, que agregava mulheres que atuavam no magistério, na rede particular e pública, e pessoas de diferentes correntes de ação, interessadas na questão da educação nacional. Dentre os diversos diletantes da educação que tiveram atuação marcante na Seção, constituída exclusivamente por mulheres, entre

20 Instituição localizada na zona portuária, voltada para as atividades ligadas à saúde, higiene, trabalho, lazer, além de pregação religiosa. Em contraste com as demais escolas protestantes metodistas tinha como objetivo promover a educação popular, trabalhando “pelo desenvolvimento moral, cultural e espiritual do povo proletário” (MIGNOT, 2002: 157)

elas muitas colaboradoras da Escola Regional de Merity, Ana Chrystina Mignot (2002:204) menciona:

“Laura Jacobina, Corina Barreiros, Miss Myrth King, Miss Eva Hyde, Ana Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça, Carlotita Lyra e Silva, entre outras companheiras do Colégio Jacobina, Liga Brasileira Contra o Analfabetismo, Associação Cristã Feminina, Instituto Central do Povo, Federação Brasileira para o Progresso Feminino”.

No interior da ABE, na Seção de Cooperação da Família a educadora divulgou e implantou os Círculos de Pais e Professores nas escolas públicas e privadas; coordenou uma série de estudos sobre o lazer e a literatura infantil. Junto com as demais educadoras que se qualificaram “como as profissionais mais competentes para interditar, autorizar e legitimar cuidados com as crianças”, posicionou um olhar diferenciado a infância. (MIGNOT, 2002: 205) Tendo sido a questão do regionalismo e do nacionalismo tema presente nos debates entre os intelectuais nacionalistas nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, possivelmente tal discurso pode ter influenciado Armanda na troca do nome de sua escola, de “Escola Proletária de Merity” para “Escola Regional de Merity”. Tendo seu campo de interesses direcionado para a Literatura infantil, aproveitava os debates sobre a questão do livro infantil para se posicionar sobre a identidade nacional a ser construída nos futuros cidadãos do país. Opinava que os livros deveriam “girar em torno de motivos nacionaes, tomar themas de nossa vida real, ser brasileiros”. 21 A questão da importância do livro era levada às práticas pedagógicas realizadas na Escola Regional de Merity, dirigida pela educadora, como parte fundamental na formação dos alunos. Um dos autores mais lidos pelos alunos na Escola Regional de Merity era Monteiro Lobato, pois seus livros atendiam ao interesse infantil tanto pela linguagem e temas quanto pelas ilustrações. Em 1932, já como membro ativo da ABE e integrante do grupo do movimento renovador da educação, defendia que a educação deveria ser um direito de todos os cidadãos. A escola deveria ser pública, gratuita, universal, laica e de responsabilidade do poder público. Em 1932, como reação ao

21 ALBERTO, Armanda A. Leituras Infantis. Texto publicado no Jornal A Ordem. 12/11/1929.

desinteresse político pela educação, os integrantes lançaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, do qual Armanda foi uma das signatárias. Engajada no movimento feminista, posição que diferenciava Armanda de muitas mulheres de sua época, lutava pelos direitos das mulheres de inserção na vida pública, assim como lutava pelo progresso intelectual do país. Com a mesma postura de ação, representando a ABE, participou, entre 1932 e 1934, na Comissão de Censura Cinematográfica do Ministério da Educação e Saúde Pública. Expressou seu protesto contra os filmes apresentados:

“Nenhuma arte para o Brasil tem a importância da arte cinematográfica, podemos affirmar repetindo o que foi dito para a Rússia por Lenie. ( ) Mas infelizmente, a verdade é que grande porcentagem das fitas são meros folhetins, de uma vulgaridade exasperante, simples motivo para a exibição de todos os dotes, tanto physicos, como artísticos, das estrellas! ( ) A distorção da realidade, amoral de encomenda do casamento, num ´close up` sentimental – antes do qual todas as atuações são permittidas para realçar os predicados pessoaes de ´estrella`, a obrigatoriedade do ´good end`, arrostando as incoerências mais chocantes, o abuso das scenas de cabaret com aquellas mesmas dansas de ´girls` - essas e outras falhas repetidas, constituem o lado medíocre da cinearte actual. Protestemos contra essa mediocridade” (ÀLVARO ALBERTO apud MIGNOT, 2002:169).

Por sua postura e idéias sobre questões políticas e educacionais, nas Conferências promovidas pela ABE, Armanda abriu caminhos para galgar um espaço de maior representação no interior da instituição. Por sua atuação, foi indicada presidente da ABE, em 1933, junto com o cunhado Carlos Süssekind de Mendonça. Integrante ativa do movimento feminista, em 1934, Armanda foi signatária do “Manifesto em defesa da soberania dos países e pela paz universal”, documento dirigido às mulheres do Brasil, solicitando a união de todas em defesa da paz e da humanidade. Por sua postura progressista nas entidades que integrava, Armanda era identificada na imprensa como subversiva e comunista. (MIGNOT, 2002: 232-233). Apesar dos comentários, aos poucos, suas posições sobre as questões sociais, educacionais e políticas passaram a constar nos inúmeros artigos publicados pela imprensa escrita: discursos, exposições, festas escolares, entrevistas, etc. Sua atitude progressista lhe causou alguns problemas com o governo federal no Governo Vargas. Passou a ser mais uma das vítimas de

perseguições políticas no governo Getúlio Vargas. Segundo informações de Ana Chrystina V. Mignot (2002:272), a prisão de Armanda, como a de outros acusados de extremismo, foi decretada em 1935, porém, ela só foi presa em 1936, junto com as dirigentes da União Feminina do Brasil, Maria Werneck e Eugênia Álvaro Moreira, além de várias personalidades militantes políticas do mundo acadêmico e intelectual, entre as quais Olga Benário, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Mesmo na prisão, ficava sabendo sobre os seus “passarinhos” (nome carinhoso pelo qual ela chamava as crianças) e da rotina educativa de sua escola, a Regional de Merity. Em junho de 1937, foi posta em liberdade. Sobre esse episódio na vida da educadora, nada se tem escrito, nenhum artigo ou comentário. Até aquele momento, Armanda não tinha conhecimento de que o grupo dos renovadores da educação havia se diluído, pois alguns dos integrantes também sofreram represálias da ditadura do governo Vargas. “A atmosfera de silêncio, repressão, inviabilizava retomar o projeto coletivo que tinha conferido sentido às ações dos reformadores” (Idem, p.110). Apesar do momento de infortúnio pelo qual passava Armanda, as atividades na Escola Regional de Merity não cessaram. O retorno da diretora às atividades escolares foi registrado com uma festa em comemoração à normalidade das atividades educativas.

1.2 A “NOSSA CASA” NA VIDA DE ARMANDA ÁLVARO ALBERTO

Considerando o desempenho de Armanda Álvaro Alberto no campo educacional brasileiro como indissociável de sua reflexão teórica, sua ação nos movimentos sociais e políticos e sua interação com diversas personalidades de diferentes áreas de conhecimento, perceberemos que suas práticas discursivas e educativas expressaram de maneira articulada uma dada concepção social, política e educacional dentro de um movimento maior de construção de uma nação civilizada rumo ao progresso.

Armanda, na Escola Regional de Merity acompanhou o fazer pedagógico de seus “passarinhos”, 22 os problemas da comunidade escolar, da região (a pobreza, as epidemias, falta de saneamento); as dificuldades de por em prática os novos métodos e práticas educacionais, entre outras questões. Conforme o próprio nome da instituição indica, a Escola se propunha a ser regional, tendo suas raízes na vida de Merity. Dessa localidade “suga seiva e extrai os objetivos para o seu trabalho. E tem a sua finalidade na população de Merity”.(BITTENCOURT, 1968:140) Apesar de, nas duas primeiras décadas do século XX, os educadores renovadores partilharem das concepções escolanovistas pautadas, em grande medida, na defesa da universalização do ensino público de ensino. Provavelmente, a inoperância do poder público em relação à educação primária voltada à camada popular tenha propiciado o florescimento das iniciativas particulares de ensino. Cabe mencionar que o projeto educacional da Escola Regional de Merity, um desses exemplos, mostrava-se alinhado ao ideal educacional apresentado pelos integrantes da ABE, que buscavam contribuir na construção de uma sociedade civilizada utilizando a educação como instrumento. Encontraremos indícios dessa posição nas seguintes mensagens:

“È uma utopia esperar que os poderes públicos possam algum dia por si só resolver o problema da educação nova. Quer em quantidade, quer em qualidade, ele exige absolutamente o concurso da iniciativa particular e sem este permanecerá eternamente insolúvel” (Boletim da ABE, n 0 12, ano IV, apud MAGALDI, 2007: 68).

“O exemplo de Merity, de iniciativa particular, fala aos poderes públicos com a incomparável autoridade de uma excelente lição” (LEMME, 1968:169).

Ao estudarmos e analisarmos o contexto histórico e social no qual a escola foi criada, observamos terem sido poucas as instituições particulares de ensino, com exceção das escolas católicas, que obtiveram tamanha projeção no campo educacional brasileiro como a Escola Regional de Merity. Possivelmente, esta projeção tenha sido proporcionada por ter tido como criadora e diretora uma intelectual da elite brasileira, que mantinha em sua rede

22 Como carinhosamente chamava seus alunos.

de relações importantes personalidades da sociedade da época, além de estarem engajados num mesmo projeto de construção de uma nação civilizada e moderna tendo como viés à educação primária voltada à camada menos favorecida da população brasileira. As relações da educadora Armanda, nos círculos intelectuais e políticos, possibilitaram articular uma série de estratégias capazes de dar visibilidade e angariar apoio para o projeto educacional da Regional de Merity, por intermédio do acesso à imprensa, campanhas, conferências, festivais, participação em comissões, etc. Os maiores divulgadores da escola foram integrantes do movimento de renovação educacional e membros das instituições às quais Armanda estava integrada. Lourenço Filho, um dos expoentes desse movimento, e numerou as iniciativas pioneiras realizadas na escola:

“Foi das primeiras, se não a primeira escola a tentar a educação conjunta de crianças e adultos. Foi a primeira a criar um Círculo de Mães. Foi a primeira a organizar concursos de Higiene e de Arte Popular, entre toda a população da localidade a que devia servir (LOURENÇO FILHO, 1968:161).

Fernando de Azevedo, em seu livro “A Cultura Brasileira”, apontava a Regional de Merity como uma das primeiras iniciativas particulares de cunho renovador na sociedade brasileira:

“Não faltam, aqui e ali, iniciativas particulares, como para citar uma das primeiras e de sentido mais corajosamente renovador, a Escola Regional de Merity, fundada no Estado do Rio de Janeiro, em 1921, por Armanda Álvaro Alberto, que se alistava entre os pioneiros da educação nova no Brasil” (AZEVEDO,

1968:127).

Perante os depoimentos dos colaboradores que compunham o largo círculo de relações, vê-se que a divulgação do trabalho de Armanda obtivera boa repercussão ente os intelectuais e diletantes da educação. Júlia Lopes, escritora e poetisa, ao reconhecer o importante papel da escola na comunidade, enfatizou a importância social da instituição numa região onde a população necessitava de todos os tipos de atendimentos:

“As crianças aprendem sorrindo que devem andar lavadinhas, penteadas, e sem alfinetes em vez de botões e, pouco a pouco, vão corrigindo as suas faltas e desmazelos e fazendo, ao mesmo tempo, propaganda desses bons costumes entre as

pessoas

da

sua

família

e

da

sua

vizinhança”

(ALMEIDA,

1968:59)

Nesse contexto, os integrantes do movimento renovador, entre eles os médicos sanitaristas e higienistas, tomaram a escola primária como lócus para criar mecanismos e estratégias de inserção de suas idéias e ideais educacionais e políticos. Estes observaram que, além dos ensinamentos pedagógicos contidos nos conteúdo curricular, seria imprescindível inculcar valores e costumes pautados nos preceitos higiênicos, a saúde e a moral. Na perspectiva de dar visibilidade e legitimidade ao projeto de construção de uma identidade nacional criado pelos nacionalistas, há indícios de uma preocupação com o regionalismo, que foi partilhado na organização pedagógica da Escola Regional de Merity por Armanda e seus pares. De acordo com o relato de Julia Lopes, em 1928, em visita realizada à Escola Regional de Merity, a instituição através de seu método pedagógico, seguindo a orientação moderna de ensino, implementava transformações na vida social da localidade.

“Pela sua orientação moderna, carinhosa, e profundamente patriótica essa escolinha de povoação pobre tem já conseguido uma verdadeira transformação nos hábitos e na higiene, não só das crianças que ela educa como, através das crianças, de seus pais e irmãos adultos” (Idem, p. 59).

Observamos ser, o modelo de escola regional concebido pela educadora, vinculado as tarefas educacionais e sociais, como centro irradiador propagado pelos defensores escolanovistas para a construção de uma identidade nacional e um país civilizado e modelo, já que esta instituição tinha como público alvo a maior parcela da sociedade brasileira, às camadas pobres. Esse modelo de escola abraçado pelos escolanovistas, nos anos de 1920, aponta para a missão civilizatória da escola que já vinha sendo construída no mundo ocidental. Uma escola que vinha se afirmando “como espaço de excelência do trabalho educativo que teve sua consolidação por volta do século XIX”, quando o Estado, em diversas sociedades, assumiu a educação como tarefa fundamental para seu projeto político, assim como para a criação de um sentimento de identidade nacional.(MAGALDI, 2007: 71-72)

Em 1925, o médico Savino Gasparini, um dos agentes do movimento higienista e sanitarista brasileiro e, membro destacado da ABE, após mencionar sua impressão sobre a escola, conclamava outros educadores a empreender projetos similares: “Possa a pálida idéia que procuramos dar da sua organização despertar, em todos os recantos abandonados do nosso maravilhoso país, escolas como esta”. (GASPARINI, 1968:90). A literatura nos aponta que diferentes projetos intervencionistas no bojo da sociedade foram concebidos e implementados no contexto das décadas de 1920 e 1930, com o objetivo de construir um país novo, “de um homem novo, sendo preciso para isto, regenerar o brasileiro, tornando-o saudável, disciplinado, produtivo e educado” (CAMARA, 2003:32). Como meio renovador a “nova pedagogia”, se apresentava como “discurso competente” 23 nos debates entre os intelectuais da educação investidos na tarefa de construção de uma identidade nacional, elevando o país a um patamar de civilização e modernização, nos moldes dos países mais desenvolvidos da época. Nesse período, década de 1920, a insatisfação com as iniciativas do governo em relação à questão educacional, fez com que os educadores assinalassem a importância política, social e cultural da instituição escolar. Sendo a educação considerada o elemento-chave na construção de uma sociedade moderna, era preciso expandir o acesso à educação escolar para instruir as camadas populares, a fim de alcançar a civilização. Para alguns dos membros da ABE, como o Dr. C. A. Barbosa de Oliveira, a Escola Regional de Merity, por sua atuação no campo educacional brasileiro, “fala aos poderes públicos com a incomparável autoridade de uma excelente lição”. Num período em que, de acordo com o pensamento dos educadores, a educação seria o caminho para eliminar diversos males que assolavam a nação, principalmente o econômico, modelo de escolas como a regional seria um dos meios viáveis para solucionar os problemas, por entre os “brasis” afora. (OLIVEIRA, 1968:101).

“No momento em que o mundo proclama métodos de organização de trabalho, como fator essencial da prosperidade econômica, na hora em que a educação moderna se institui dando a esse trabalho, desde os primeiros passos do aluno, uma

23 Termo utilizado por CHAUÍ, Marilena. O discurso competente. In: CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia. São Paulo: Moderna, 1981.

diretriz segura para a “racionalização” unanimemente prescrita em todos os ramos da atividade humana, a Escola Regional, sobretudo em países como o nosso, de vasta extensão territorial e enorme diversidade de costumes – assume uma relevância difícil de exagerar” (Idem, ibidem).

A participação da diretora na ABE, assim como nas demais instituições

das quais participou e sua integração com a população da região de Merity

possibilitaram que uma das maiores campanhas da escola fosse realizada, a

da construção da “Nossa Casa”, isto é, a construção do prédio escolar.

Analisando as fontes documentais, principalmente os relatórios anuais e

os artigos de jornais da época, observamos a possibilidade da aproximação da

elite da região de Merity com a escola ter sido facilitada pela divulgação das

ações educativas e sociais pela imprensa escrita da Capital Federal, e

provavelmente, também, pela posição social e profissional da fundadora e

diretora da escola perante a elite intelectual da sociedade brasileira.

Provavelmente, o reconhecimento dessa elite local ao trabalho ali realizado fez

com que um laço de compromisso fosse estabelecido.

No relatório anual de 1924, há a menção da doação do terreno para a

construção do prédio escolar definitivo por dois moradores da região, o que nos

possibilita supor o grau de reconhecimento de alguns membros da elite local

pelos serviços prestados pela escola para o desenvolvimento social e cultural

da localidade.

“O Dr. Bernardino Jorge, proprietário de terras em Merity, demonstrava o vivo interesse pelo estabelecimento, combinando com o seu sócio, o Sr. Manoel Gonçalves Vieira, também

importante proprietário, doaram-nos um terreno de 40 metros por

50 (

).

No melhor ponto da localidade” (Relatório Anual de 1924,

p. 1).

Cabe ressaltar que o número de sócios colaboradores da região

aumentava a cada ano. O novo prédio escolar foi projetado pelo arquiteto Lúcio

Costa. 24 Apesar de o projeto do prédio escolar ter sido realizado pelo ilustre

24 Lúcio Costa (1902-19998), filho de brasileiros em serviço no exterior. Seu pai era o almirante Joaquim Ribeiro da Costa. Estudou na Royal Grammar School de Newcastle

(Reino Unido) e no Collége National, em Montreux (Suíça). Após retornar ao Brasil, em 1917, estudou pintura e arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, diplomando-se em 1924. Em 1930 é nomeado diretor da Escola Nacional de Belas Artes, onde introduz mudanças no sistema de ensino. Figura-chave da arquitetura moderna no Brasil: mentor de uma reforma do ensino, articulador de um dos principais edifícios do movimento moderno, o Ministério da

arquiteto, nenhum traço de uma arquitetura mais requintada foi esboçado. Provavelmente, pela escola estar localizada numa região pobre, o projeto atendeu às características regionais, sociais e econômicas, onde a simplicidade deveria estar presente. Mesmo com toda simplicidade, a arquitetura do prédio escolar sobressaía diante das moradias locais. Devido às dificuldades financeiras, muitas foram as campanhas destinadas à construção da nova sede escolar. No intuito de ajudar na construção da “Nossa Casa”, as alunas do Colégio Jacobina 25 criaram o jornal “O Pinto”, cujo produto da venda foi todo destinado à obra da nova sede da Escola Regional de Merity. O professor João Freire de Castro, do Instituto Benjamim Constant, realizou um festival no cinema Merity. Outros colaboradores como a Liga Brasileira Contra o Analfabetismo e a Escola Paroquial de Merity fizeram doações em espécie. Entre os colaboradores da escola muitos nunca foram a Merity conhecer a obra para a qual contribuíam. Sendo assim, aliando a necessidade de arrecadar mais verbas para a conclusão da obra da “Nossa Casa” e a oportunidade de mostrar parte da vida escolar da Escola Regional de Merity, alguns dos colaboradores que conheciam o projeto pessoalmente, entre eles o Prof. Roquette Pinto, realizaram um festival no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. No festival, os próprios alunos da Regional foram os atores, encenando “ao vivo” diversos aspectos do cotidiano escolar para aqueles sócios e colaboradores. Tal manifestação só foi possível devido ao círculo de relações criado pela professora Armanda ao longo de sua vida pessoal e profissional. Sua participação na publicação de artigos sobre a educação proporcionou uma maior divulgação do trabalho realizado na Regional de Merity. Sócia destacada da ABE na Seção de Cooperação da Família, a professora Armanda através das conferências e artigos, divulgava o trabalho realizado na escola e cooptava colaboradores para a tarefa educativa.

Educação e Saúde Pública, autor de textos clássicos da historiografia arquitetônica brasileira e das normas de preservação do patrimônio histórico nacional. Lucio Costa foi designado pelo ministro Gustavo Capanema para projetar o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, atual Palácio Gustavo de Capanema, no Rio de Janeiro. Informações disponíveis on line: www.casadeluciocosta.org. Acessado em 23/01/2008. 25 Colégio feminino de elite, o qual Armanda se formou como professora.

Sobre a participação de Armanda na Seção de Cooperação da Família, Magaldi (2007:78) destaca que ela direcionava suas mensagens de cunho pedagógico de “maneira diversa, dirigindo-se a receptores distintos daqueles que compunham o público alvo das ações da Escola Regional de Merity”. Na ABE, Armanda levava informações sobre a educação das camadas populares aos diletantes da educação possuidores de capital cultural, social e econômico distinto de seu público alvo na região de Merity – alunos e a comunidade. Os relatórios anuais da Escola Regional de Merity nos possibilitaram visualizar o grau de comprometimento do grupo da ABE com o projeto educacional de Armanda Álvaro Alberto, no que tange à participação destes na construção e na consolidação do trabalho educativo e social por ela idealizado. Alguns sócios da ABE e algumas integrantes que participavam da Seção de Cooperação da Família, convencidos da importância da obra educacional da professora Armanda, dispunham-se a colaborar com o trabalho educativo de diferentes formas: uns na elaboração dos programas curriculares, outros como sócios colaboradores e realizadores de campanhas em prol da instituição escolar, e assim por diante. Entre eles, podemos citar Heitor Lyra, Belisário Penna, Miss Myrth King, Laura Lacombe, Corina Barreiros, entre outros. Tendo a ABE como forte aliada ao seu projeto educacional, a professora Armanda organizava excursões para os alunos da Regional de Merity. Dentre as diversas excursões, 26 os alunos visitaram na “Semana de Educação” a exposição de trabalhos escolares na sede da Associação Brasileira de Educação. Na “Semana de Educação”, buscando sensibilizar a sociedade para a importância da questão educacional na formação do cidadão brasileiro, os educadores da ABE, entre eles, Armanda, promoviam exposições, palestras, onde diariamente eram abordados diversos temas relacionados à questão educacional. “Nessa programação, eram comemorados o dia do lar, do mestre, da saúde, entre outros”. De certa maneira, as atividades projetavam abranger de forma especial a instituição familiar. (Idem, p. 79).

26 Os relatórios anuais (1922-1964) nos indicam excursões realizadas ao Jardim Botânico, ao Teatro Municipal, a Biblioteca Municipal, ao Horto da Penha, ao aquário do Passeio Público, ao cinema do Instituto Nacional do Cinema Educativo – INCE, dentre muitos outros espaços educativos. Na região de Merity, orientadas para o ensino regional nas disciplinas de História, Geografia e Ciência da Natureza, as crianças visitaram os rios, as lavouras, as fábricas, etc.

Ciente dos problemas específicos da comunidade, a diretora utilizou como base fundamental de seu trabalho educativo o ensino dos trabalhos manuais direcionados à realidade social, cultural, econômica da região. Um dos objetivos da diretora era que os alunos aprendessem uma atividade a partir das aulas de trabalhos manuais. Partindo do pressuposto de que esta disciplina além de auxiliar no sustento dos alunos e de suas famílias, através da venda dos produtos confeccionados, pudesse evitar a evasão escolar. Além dos alunos, a comunidade também poderia participar das aulas ou na produção de produtos como “tapetes de aniagem tecidos a mão, objetos de bucha, contas, etc”. Os objetos eram alocados em exposições, em seguida vendidos. A escola retirava 20% sobre o lucro e o restante cabia ao produtor.(ÁLVARO ALBERTO,

1968:37).

Por intermédio da professora Armanda, a escola foi convidada, em 1924 e 1925, a expor os objetos produzidos nas aulas de trabalhos manuais na sede da Associação Cristã Feminina. Logo depois, convidada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, apresentou uma exposição de trabalhos manuais no Lyceu de Artes e Ofícios. Entre os objetos expostos “o berço de taboas de caixote, com seus acessórios, hygienico e barato, foi a peça mais elogiada entre todas as modestíssimas coisas regionaes” (Relatório anual de 1931, p. 2). Essas iniciativas representaram um movimento a mais na divulgação do trabalho realizado pelos alunos e moradores na escola.

1.3 ARMANDA E A IMPRENSA ESCRITA

Os artigos publicados sobre a escola, nas décadas de 1920 e 1930, marco temporal da pesquisa em questão, nos permitiram dimensionar a posição da Escola Regional de Merity no esforço de difusão das idéias renovadoras. Sobre a importância da imprensa na História da Educação, Catani nos diz que constitui,

uma instância privilegiada para a apreensão dos modos de

funcionamento do campo educacional enquanto fazem circular informações sobre o trabalho pedagógico e o aperfeiçoamento das práticas docentes, o ensino específico das disciplinas, a organização dos sistemas, as reivindicações da categoria do magistério e outros temas que emergem do espaço profissional.

“(

)

(

)

conhecer as lutas por legitimidade, que se travam no campo

educacional. É possível analisar a participação dos agentes produtores do periódico na organização do sistema de ensino e na elaboração dos discursos que visam a instaurar as práticas exemplares” (CATANI apud CARVALHO, ARAUJO & NETO,

2002:75).

Além disso, a imprensa se mostrava como um dos dispositivos privilegiados para incutir valores e conceitos do grupo dirigente, pois era portadora e produtora de representações. Pondo em prática a ação de informar os fatos, opiniões e acontecimentos, a imprensa procurava inculcar uma certa maneira de pensar e ver, isto é, uma mentalidade, no seu público leitor. Le Goff aponta que dentre as “fontes privilegiadas da história das mentalidades, a imprensa ocupa um lugar de destaque. Nela o pensamento coletivo e as tendências de uma época mais claramente se manifestam e se elaboram” (SCHAEFFER, apud BASTOS, 2002:152). Direcionando um olhar ao papel da imprensa como um espaço mediador

entre o cultural e o ideológico, Maria Helena Câmara Bastos (2002:152) afirma que “a imprensa cria um espaço público através do seu discurso – social e simbólico – agindo como mediador cultural e ideológico privilegiado entre o

Partindo dessa posição, percebemos que a imprensa foi

público e o privado

um dos lócus de importância para os agentes do movimento renovador da educação brasileira que lançaram, através de artigos, seus discursos e conhecimentos, no intuito de privilegiar e legitimar seu(s) ideário(s), principalmente no que se refere à educação escolar. Considerados por alguns membros da ABE como parceiros na divulgação das questões educacionais, a professora Armanda e seus pares, através da imprensa, promoveram, de forma significativa, seus ideais pedagógicos, utilizando a Escola Regional de Merity como meio e modelo de educação destinada à população pobre das regiões rurais.

Sendo a imprensa, segundo Wenceslau Gonçalves Neto, o espaço da comunicação, “indicada também como um dos veículos educativos”, o jornal, objeto de referência nesse tópico da pesquisa, é um dos elementos dessa imprensa. Ao empregarmos o jornal como fonte de pesquisa, não devemos esquecer que estamos “usando apenas uma parte das interpretações produzidas, apesar de bastante significativa, em virtude da importância do

”.

jornal no século passado, principalmente na difusão de notícias, de valores e emissão de opiniões” (GONÇALVES NETO, 2002:205). Nas primeiras décadas do século XX, os artigos jornalísticos contribuíam para formação da opinião pública, assim como permitiam a “crítica e a participação política e, ainda, o acesso à diversidade de opiniões [eram] colocados como elementos impulsionadores da civilidade” (Idem, p. 206). Usando uma frase da obra clássica de Barbosa Lima Sobrinho, em 1923 (apud Gonçalves Neto, 2002:206), “o jornal é civilizador”, podemos identificar o jornal como um dos meios de divulgação e legitimação do ideário nacionalista da época: a construção de uma nação moderna e civilizada. O intuito da pesquisa em questão não é expor analiticamente todos os artigos jornalísticos sobre o objeto em estudo, o que nos propomos é citar apenas alguns como referência da importância da notícia escrita como documento na construção de interpretações históricas sobre a educação brasileira, tendo como foco a Escola Regional de Merity e os agentes que nela e dela participaram. Ao analisamos alguns artigos publicados nos jornais da época sobre a Escola Regional de Merity, observamos que seu conteúdo trazia um discurso de cunho inovador no que tange às atividades ali realizadas. Considerada por alguns, como modelo “pioneiro de escola rural brasileira”, direcionava suas ações ao meio que estava inserida, atendendo, de alguma forma, as demandas e necessidades locais com a distribuição de merenda escolar, vestuário, calçados, atendimento médico as crianças pobres. 27 Em 1932, o presidente da Associação Brasileira de Educação, Flavio Lyra da Silva, em um de seus artigos publicados nos jornais da Capital Federal, indicou o projeto educacional da Escola Regional de Merity como modelo de educação escolar direcionada ao meio rural brasileiro, além de esboçar comentários sobre a prática do ensino agrícola. No entanto, também expressou críticas contundentes em relação ao descaso dos poderes públicos quanto à educação escolar da população rural.

27 Entre os artigos localizados no álbum de recortes organizado pela professora Armanda, tomamos como referência o texto: “Escola Regional de Merity – Fundação Dona Álvaro Alberto”. Jornal O Globo, de 25/06/1928, s/p. Fonte: Arquivo Público do PROEDES-UFRJ.

“Quanto mais assistimos ao entrechoque da ambição desvairada e do idealismo desorientado em que se debate ao momento angustioso que se passa, o organismo depauperado da

nacionalidade, mais se nos affirma a convicção de que somente a diffusão da educação popular, poderá ir debeliando lenta, mas seguramente, os males actuaes, cuja cansa principal reside na ignorância completa das grandes massas da população e na mentalidade artificial das elites dirigentes, filha de uma

instrucção alheia ás realidades do ambiente. (

que a propaganda cada vez mais intensa pelo verdadeiro typo de escola popular venha a chamar a attenção dos governos de todos os Estados e que é a semelhança do E.do Rio, iniciem elles imediatamente providencias para a instalação de Escolas orientadas pelo modelo da de Merity que esse jornal, com visão segura do problema, está tornando conhecida em todo território fluminense”. 28

)

É de esperar,

A participação da imprensa se dava, tanto pela publicação de artigos

específicos ao campo educacional, quanto pelo apoio às campanhas e festividades de cunho educativo e social promovidas pela escola. 29 Como exemplo, podermos citar a divulgação dos festivais realizados nos teatros da Capital Federal, os artigos a respeito da iniciativa educativa em prol da

população rural, os concursos realizados, entre muitas outras informações que poderiam despertar o interesse daqueles que se preocupavam com a educação nacional.

A educadora Armanda, através de entrevistas concedidas à imprensa

escrita, divulgava suas reflexões sobre a questão educacional. Dentre os diversos temas, discursava sobre as questões das condições de trabalho, materiais e econômicas, das professoras primárias no Brasil. Em artigo intitulado “Às professora primárias do Brasil”, Armanda expôs sua posição política e ideologia sobre a questão do pleito reivindicatório de melhorias no trabalho das mulheres engajadas no magistério do ensino público primário. Invocava as educadoras a atentarem para sua posição na sociedade, como formadoras dos futuros cidadãos brasileiros:

28 Flavio Lyra da Silva. A escola Regional de Merity e o ensino agrícola. Artigo publicado no Jornal “O Estado”, em 01/05/1932.

29 Vários foram os artigos publicados em jornais sobre as Escola Regional de Merity, entre podemos citar: “Exposição de trabalhos da escola Regional de Merity” – O Jornal, 22/12/1925; “A Escola Regional de Merity e as conferências populares do Dr. Belisário Penna”, O Jornal, 30/08/1925; “Concursos de Janelas Floridas em Merity Realizados pela Escola Regional”, O Estado, 31/1/1932; “Uma interessante tentativa pedagógica”, Diário de Notícias, 1932; “O Guarani amanhã no Teatro Municipal”, Jornal do Brasil, 22/11/1935; “Escola regional de Merity:

um aspecto feminista de sua acção social”, Correio da Manhã, 22/6/1930; entre outros.

“Constituis o órgão de ação direta da sociedade na formação da mentalidade popular. Nenhuma outra classe compartilha essa nobilíssima função. A capacidade de inúmeros homens e mulheres que amanhã labutarão nos campos e nas fábricas em muito dependerá de vosso grau de desenvolvimento cultural e social” (Jornal do Brasil, 4/7/1935, s/p.).

Essa convocação, provavelmente, seria uma forma de denunciar o poder público à sociedade brasileira pelo descaso e precariedade das condições de trabalho no magistério público da época. Dentro de uma concepção moderna de educação, Armanda defendia o ensino da educação sexual nas escolas primárias a partir dos chamados “Estudos da Natureza, [onde], guiados pela professora, os pequeninos habituam-se a observar os phenomenos da reprodução vegetal e animal ao lado dos outros phenomenos estudados, com a maior simplicidade, concedendo-lhes igual importância”. Para ela, cabia ao educador consciente de sua responsabilidade interpretar as “manifestações de fundo sexual, ao par das que se originam em situações sociais”. Todavia, para isso, seria necessário conhecer os estudos da psicologia infantil, no sentido de acompanhar a evolução bio-psicológica da criança. Além disso, seria imprescindível a cooperação da família nas atividades aplicadas. Tomamos como exemplo, no sentido da prática das idéias da professora Armanda, o programa de ensino Estudos da Natureza da Regional de Merity, onde a “educação sexual era iniciada no estudo das plantas e animais (que se cultivam e criam), continuada na fisiologia humana (terceiro grau)”. 30 De acordo com a professora, caberia aos pais introduzirem os conhecimentos da educação sexual no seio familiar. No entanto, a escola, “no Círculo de Mães [procurava] prepará-las para o exercício dessa função” (ÁLVARO ALBERTO,1968: 39). Armanda, na Associação Brasileira de Educação, na Secção de Cooperação da Família, produziu alguns textos que foram apresentados em palestras promovidas pela entidade (MIGNOT, 2002: 204-223). Alguns textos produzidos, por Armanda, para os Inquéritos de Leituras Infantis, promovidos

30 Informação e citação aspada retirada do artigo: “Poderá a cultura sexual ser dispensada pelos pedagogos?”- Boletim da Educação Sexual, novembro de 1934.

em 1926 e 1930 pela ABE, como os para a III Conferência Nacional de Educação, foram publicados em alguns jornais da Capital Federal. 31 Percebemos que, através da imprensa, a educadora e seus pares promoviam práticas que legitimavam e privilegiavam conhecimentos por eles selecionados, 32 no intuito de produzir e inculcar saberes que homogeneizavam e modelavam seu público-leitor. Naquele período, alguns dos intelectuais envolvidos na questão da educação popular, divulgavam suas iniciativas e práticas educacionais utilizando como um dos meios de comunicação a imprensa escrita. Não devemos nos furtar de mencionar que os textos produzidos eram frutos da concepção política, social, cultural e econômica de uma determinada elite letrada, professores, médicos, jornalistas, advogados, políticos, engenheiros, etc. Expondo à sociedade o ensino regional, através de artigos em jornais da Capital Federal, a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, organizou um “curso de Ensino Regional” com o objetivo de apresentar a “realidade brasileira” tendo “especialmente por fim o combate à indigência, em nosso “habitat” rural mediante o regime agro-pecuário, adequado a cada região”. 33 Tomou como modelo a pedagogia da Escola Regional de Merity, tendo como palestrantes das conferências a professora Armanda Álvaro Alberto e o professor Edgar Süssekind de Mendonça, o professor Raul de Paula, o Dr. Arthur Lopes e o Dr. Savino Gasparine, entre outros. A divulgação do curso na imprensa, possivelmente, projetou a um número maior de educadores maior informação sobre o ensino regional, além de promover, com maior intensidade, o modelo pedagógico de educação regional da Escola Regional de Merity. Tomando em consideração que, em uma sociedade pouco letrada como a brasileira, os artigos de jornais, a “notícia escrita assinada e respaldada” por

31 Como exemplo podemos citar, respectivamente: “Uma palestra da Sra. Armanda Álvaro Alberto sobre literatura infantil” Jornal do Commércio, 06/04/1934; “A Iniciativa Particular na Organização das Escolas primárias e Profissionais – Meios de Provocar e Intensificar essa Iniciativa”– Jornal do Commércio, 20/11/1929. 32 Nesse ponto nos referimos à introdução dos pressupostos teórico-metodológicos do movimento escolanovista brasileiro, que de certa forma, investiram na expansão da educação popular, além da educação rural.

33 Informação e citação aspada retirada do artigo: “Ensino Regional: 1 0 curso do Instituto Alberto Torres de altos estudos nacionaes em organização, pela Sociedade do Amigos de Alberto Torres, visando o ensino da realidade brasileira” – Jornal do Comercio, 3/3/1933.

alguma personalidade “portadora de um título acadêmico ou de reconhecimento social”, como os professores, advogados, médicos, políticos de expressão, entre outros, tornaram-se um “veículo de divulgação rápida de notícias, idéias, de programas, etc.” (GONÇALVES NETO, 2002: 206).

1.4 CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO DE ARMANDA ÁLVARO ALBERTO

Percebemos a concepção de educação de Armanda integrada aos pressupostos pedagógicos do educador suíço Pestalozzi (1746-1827) e da educadora italiana Maria Montessori (1870-1952). As fontes documentais nos apontam que Pestalozzi e Montessori foram os aportes teóricos mais utilizados por Armanda na proposta da Escola Regional de Merity. Ambos valorizavam o ser infantil respeitando suas características e individualidades. Sendo assim, a criança dentro da concepção de educação de Armanda, era elemento essencial. Armanda Álvaro Alberto procurava perceber a criança em seu desenvolvimento natural, com potencialidades a serem desenvolvidas, fundamentadas na liberdade de pensamento e expressão, valorizando a expansão da individualidade, descartando, assim, o caráter coercitivo empregado na pedagogia tradicional utilizada nas escolas primárias da época. Assim como aqueles educadores, Armanda teve como seu público alvo as crianças pobres, dedicando-se à educação popular. Em seus princípios pedagógicos percebia o papel parental como elemento fundamental no desenvolvimento da criança, isto é, a interação entre o aluno e a família. Considerando a concepção de educação de Maria Montessori, educar, do ponto de vista da criança, significa “assegurar-lhe a passagem do estágio imaturo para o adulto”, pois “a criança é um corpo que cresce e uma alma que se desenvolve”. 34 Vemos aqui dois aspectos, o fisiológico e o psíquico, que no processo de desenvolvimento do ser humano têm sua origem na própria vida.

34 Trecho aspados retirados de: PINTO, Manuel da Costa [colaboradores Alessandra Arce et al.]. Maria Montessori: o indivíduo em liberdade. Coleção Memória da pedagogia. Revista

Viver – mente&cérebro.Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Segmento-Dueto, n. 3, 2005, p.

24.

Tendo como suporte esse princípio, seu método educativo baseava-se no respeito à natureza da criança e no estímulo à liberdade. Tendo como paradigma os pressupostos educacionais de Montessori, Armanda, nas atividades pedagógicas da Regional de Merity, estimulava o conhecimento, a colaboração, o respeito, a liberdade e o trabalho em grupo. Com relação ao trabalho em grupo, em todas as atividades era permitido aos alunos:

manifestarem as simpatias pessoais, liberdade de

movimento e de iniciativa, solidariedade com os interesses da sua comunidade escolar – ali tudo é de todos e cada um tem sua

parte de responsabilidade na conservação do material e outros

serviços

“(

)

(ÀLVARO

ALBERTO, 1968: 54)

No conjunto das atividades pedagógicas e sociais, os relatórios anuais da escola nos fornecem uma gama de informações a respeito da participação dos familiares nos trabalhos escolares. Por esse motivo, acreditamos na possibilidade de que, naquele momento da prática educacional, Armanda, seguindo seus pressupostos teóricos, não concebia a educação de seus alunos sem considerar a família integrada à escola. Nesse sentido, seria de proveito que os laços entre uma e outra fossem estreitados através das diversas atividades escolares e extra-escolares realizadas, o que possivelmente agregaria maior qualidade na formação dos alunos. A atuação da professora Armanda, assim como de seus pares, continuou “fazendo viver a escola” até 1963. Nesse período, impossibilitada de continuar desenvolvendo o projeto ficou acordado doar a escola ao Governo Fluminense, mas não obteve resposta. Diante da negativa, em 1964, a escola foi transferida ao Instituto Central do Povo, instituição que visava à educação popular, e que aceitou manter a escola em todas as suas características. No entanto, a doação seria realizada mediante algumas condições:

a) A Escola Regional de Merity continuaria mantendo os seus cursos atuais e receberia a denominação “Escola Doutor Álvaro Alberto”;

b) Seria mantido o ensino dos trabalhos manuais femininos e masculinos, bem como a oficina para estes últimos com a sua atual denominação “Oficina Heitor Lyra”;

c) Seria mantida a “Biblioteca Euclydes da Cunha”, com esta denominação, e com a dupla função de servir à Escola e ao público em geral;

d) O Instituto daria oportunamente sede ao museu escolar, franqueando-o, então, à visitação pública;

e) A Escola continuaria promovendo anualmente o “Concurso de Janelas Floridas”, entre as famílias dos alunos e moradores locais;

f) O patrimônio da Escola, oficina, biblioteca e museu, seria conservado, não sendo permitida a sua transferência a outra entidade ou instituição;

g) Não seria adotado o regime de três turnos para o funcionamento do curso primário, mantendo-se o horário de quatro horas diárias no mínimo;

h) A doação seria intransferível, não podendo o Instituto ceder as instalações da Escola a outra instituição, pública ou particular, sejam quais fossem as suas finalidades. 35

Dentre os muitos fatos relatados, fica clara a posição e preocupação com o social que circundou todo o trabalho realizado na escola durante os seus quarenta e três (43) anos de existência. Todo o trabalho realizado tinha como fim a população da antiga Vila Merity, atual município de Duque de Caxias. O ano letivo de 1964 foi encerrado em 20 de dezembro. Neste mesmo dia, foi entregue a Escola ao Instituto Central do Povo. Por motivo de doença, a professora Armanda não compareceu. O Instituto ofereceu-lhe a função de Orientadora Educacional. Este cargo representou uma oportunidade de participar do prosseguimento de sua obra educacional. Em 5 de fevereiro de 1974, a educadora Armanda Álvaro Alberto faleceu no Rio de Janeiro. Lembrada por seus alunos e consagrada por seus amigos, não ficou esquecida na memória daqueles de quem fez parte da vida. Paschoal Lemme deixou registrado na ata do Conselho Diretor da ABE, instituição da qual Armanda participou e dedicou sua vida profissional, uma homenagem especial à sócia fundadora e conselheira honorária. Esse educador, que vivenciou junto à educadora os contrastes e conflitos da educação brasileira, considerava Armanda uma das maiores “figuras da pedagogia contemporânea e cognominada, sem exagero, a Montessori brasileira” (MIGNOT, 2002: 328).

35 Ata da Assembléia Geral Extraordinária, realizada em 7-7-1964.

CAPÍTULO 2

ROMPENDO

BARREIRAS:

UM

PROJETO

INOVADOR

NO

SERTÃO DA CAPITAL FEDERAL, A BAIXADA FLUMINENSE.

A pesquisa sobre o projeto educacional da Escola Regional de Merity

nos proporcionou observar, em sua organização, direcionamentos pedagógicos

e sociais adaptados ao meio em que estava inserida. Nesse sentido, a

literatura sobre a história da região, 36 a Baixada Fluminense, tendo como foco

a Vila Merity atual município de Duque de Caxias, nos proporcionou

compreender o programa de ensino ali organizado, assim como os objetivos

das atividades extra-escolares e sociais. Nesse viés, para que possamos compreender melhor o movimento

realizado pela diretora da escola na execução dos trabalhos, iremos apresentar uma breve explanação sobre a história da Baixada Fluminense a partir do conceito de “sertão” e sua ocupação e vida social. A seguir, procuraremos elucidar a relação da região de Merity com a Escola Regional de Merity. Esse direcionamento nos permitiu visualizar o quanto o programa de ensino e social da escola estavam conformados com o meio no qual estava inserida.

A Escola Regional de Merity ao longo dos anos de trabalhos realizados

foi se integrando ao meio, apresentando-se como instrumento no

36 FORTES (1933); FUCHS (1988); LUSTOSA (1958); TORRES (2004); BELOCH (1986); BRAS (2006); ENNE (2002); SOUZA (2002); MARQUES (2005), entre outros.

desenvolvimento social, cultural, político e econômico para a região. Segundo educador Heitor Lyra da Silva (1968), a professora Armanda Álvaro Alberto tinha como intenção e meta realizar mais uma missão de educação, do que o simples ato de ensinar a ler, escrever e contar. Esse movimento de estudo sobre a trajetória histórica da região e da escola nos possibilitou observar como algumas temáticas estavam intrinsecamente ligadas ao processo educativo e social veiculado pela escola. Temáticas como a evasão escolar, os dois projetos de cidade, as ações assistenciais da escola, os trabalhadores de Merity, a formação profissional das mulheres e o emprego de mão-de-obra infantil nas fábricas locais, que integravam as preocupações do projeto educativo, eram questões nodais na região.

2.1 BAIXADA FLUMINENSE: O “SERTÃO” DA CAPITAL FEDERAL.

Ao explicitar a história da Baixada Fluminense, consideramos legítimo utilizar uma das categorias mais recorrentes no pensamento social brasileiro, especialmente no conjunto de nossa historiografia, o “Sertão”. Esse termo está presente desde o século XVI, nos relatos dos viajantes que desbravavam as mais longínquas terras brasileiras, assim como nas primeiras elaborações textuais sobre a história do Brasil, por exemplo, os relatos de Frei Vicente do Salvador. Já nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, “sertão” constituiu-se em uma essencial categoria nas construções historiográficas brasileiras. De acordo com Cortesão (1958:28 apud AMADO, 1995), o conceito “sertão” ou “certão”já vinha sendo utilizado pelos colonizadores portugueses desde o século XIV, pois estes empregavam a palavra fazendo referência a áreas situadas dentro de Portugal, porém distantes de Lisboa. A partir do século XV, a palavra “sertão” passou a designar espaços vastos, interiores, situados em regiões recém-conquistadas e desconhecidas. Continuou a ser utilizada até o final do século XVIII, pela Coroa portuguesa e por seus representantes – autoridades lusas -, nas colônias.

Em documentos oficiais do século XVIII, no Brasil, há relatos da utilização deste conceito. A palavra já se integrava de tal modo à língua usada no Brasil, no início do século XIX, que se fazia comum nos relatos de viajantes estrangeiros. Portanto, observamos que o conceito “sertão” designou quaisquer espaços amplos, longínquos, desconhecidos, desabitados ou pouco habitados, no Brasil, desde o período colonial. O conceito foi empregado pelos portugueses, para nomear áreas distintas, por exemplo, o interior da capitania de São Vicente, e a região de Iguaçu, atual município de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Segundo Rubia Nunes Pinto, 37 no Brasil do século XX, a palavra conservou seu significado, mas adquiriu outros: a intelectualidade brasileira construiu uma representação dualística do Brasil – sertão, o campo, em oposição ao litoral, a cidade -, particularmente no que condiz com sua expressão geográfica. Um dos maiores representantes do pensamento a respeito dos “sertões” brasileiros foi Euclides da Cunha. Euclides da Cunha, 38 em sua obra de maior repercussão “Os Sertões”, ao narrar a paisagem inóspita dos sertões, inaugura uma fase no pensamento social brasileiro, quando aproxima sua vivência nos sertões à realidade nacional, e aponta o total desconhecimento em que vivia a população do litoral com relação ao interior do Brasil. A partir daí, a vida no sertão, 39 assim como dos “sertanejos”, tornou-se objeto que adquiriu relevância no debate sobre nacionalismo e construção nacional.

Em sua obra “A Conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro”, Lúcia Lippi Oliveira (1998) nos apresenta a questão do sertão sob três perspectivas: a primeira é expressa no romantismo, incorporada ao sentido de “paraíso”, lugar perdido, o lugar perfeito e puro que deveria ser mantido e contemplado. A segunda associa o sertão ao inferno: lugar distante, esquecido

37 NUNES PINTO, Rúbia Mar. Progredir ou desaparecer: destinos do sertão e educação de crianças sertanejas no pensamento de Anísio Teixeira. Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, s/d 38 Euclides Rodrigues da Cunha (1866-1909) foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro brasileiro. Sua obra “Os Sertões: campanha de Canudos (1902) trata de uma sociedade completamente diferente da litorânea. De certa forma, revela um Brasil diferente da representação usual que se tinha na época.

39

Abandono, precariedade no contingente da saúde, moradia, educação, higiene, etc.

pelo poder público, espaço da barbárie. Na terceira, o sertão foi concebido como uma espécie de purgatório, sítio de reflexão, de melhoramento. Dentre as três perspectivas apresentadas por Lúcia L. Oliveira, a que mais se aproxima do enfoque que foi e é apresentado na história da Baixada Fluminense, em meados do século XIX, é a visão do sertão como “purgatório”. Isto é, uma região a ser descoberta, decifrada, principalmente, em sua potencialidade cultural, social e econômica. Apesar de ter sido área de passagem de mercadorias e pessoas, intensificando-se a relação do “sertão” com o litoral, a Baixada Fluminense não adquiriu a visibilidade e importância necessária por parte do poder central. Embora, no século XIX tenha vivenciado um período de auge, profundas transformações a levaram ao declínio. De acordo com Nísia Trindade Lima (1999), há várias definições para o conceito “sertão”. A idéia de distância em relação ao poder público e a projetos modernizadores é a que melhor caracteriza este ambiente. Nesse sentido, a dualidade entre litoral e sertão é referência na representação de intelectuais que construíram representações sobre o Brasil. A autora nos informa que:

“ sertão, nessa perspectiva, é concebido como um dos pólos

do dualismo que contrapõe o atraso ao moderno, e é analisado com freqüência como o espaço dominado pela natureza e pela barbárie. No outro pólo, litoral não significa simplesmente a faixa de terra junto ao mar, mas principalmente o espaço da civilização” (LIMA, 1999:60).

Seguindo esta dualidade de pensamento, as expedições compostas por intelectuais e cientistas ao interior dos sertões brasileiros tinham como objetivo valorizar o sertão enquanto espaço de incorporação aos projetos modernizadores, que conduziriam a um expressivo movimento de valorização do interior do país. Ainda, de acordo com LIMA (1999:66), muitas dessas viagens tiveram início no Império e estiveram associadas à construção de ferrovias, expansão de linhas telegráficas, entre outras iniciativas.

Influenciados pelas denúncias reveladas em “Os Sertões”, que identificavam o sertão como o lugar do esquecimento, do abandono pelos poderes públicos e, ao mesmo tempo como “berço da nação onde se desenvolveu a nossa verdadeira nacionalidade”,(TEMPERINI, 2003:11) cientistas e intelectuais iniciaram um projeto de modernização e integração

nacional, isto é, o grupo envolvido assumiu a missão de recuperar e integrar o país e o homem do interior através de campanhas e ações de saneamento e profilaxia nos “sertões” brasileiros. A literatura 40 nos aponta que, entre as décadas de 1910 e 1920, a obra “Os Sertões” foi referência para uma geração de intelectuais e cientistas envolvida nas campanhas de saneamento pelos sertões do Brasil. No âmbito da representação geográfico-social, o país refletia dois contextos: o Brasil do litoral e o Brasil dos sertões. Podemos caracterizar que a (re) descoberta dos sertões foi marcada pela atuação de médicos e sanitaristas envolvidos numa ampla campanha de saneamento nacional. Estes apregoavam que as endemias seriam um dos

principais problemas do país e um dos maiores obstáculos à civilização.

Através do movimento sanitarista, o sertão se aproximou do centro político do país, num momento em que as abordagens sobre a saúde pública e as campanhas de saneamento, no Brasil, denunciavam que a população do interior estava doente devido ao abandono do poder público em grande parte do território nacional, (HOCHMAN, 1998:217-235) caracterizando um entrave para o desenvolvimento da nação. Apesar de as primeiras ações de saneamento do “sertão” da Baixada Fluminense terem acontecido ainda em 1844, somente com o advento da República, através das iniciativas do movimento sanitarista, a região da Baixada Fluminense foi (re) descoberta pela sociedade brasileira. Várias comissões e ações foram criadas ao longo das duas primeiras décadas do século XX na região. Foi nessa região do “sertão” da Capital Federal, necessitada de toda assistência dos poderes públicos, numa vila denominada Vila Merity, na segunda década do século XX, mais precisamente no ano de 1921, que a jovem Armanda Álvaro Alberto escolheu esta localidade, tipicamente rural, para tentar implementar seu projeto educacional, juntamente com seus principais colaboradores, o Comandante Álvaro Alberto, seu irmão; Francisco Venancio Filho, amigo dedicado; e Edgar Süssekind de Mendonça seu marido.

40 Podemos citar: LEVINE (1995), ABREU (1998), LIMA (1999), HOCHMAN (1998), além da coletânea de artigos publicada na revista História Ciências Saúde. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, vol. 5 (Suplemento), 1998.

Apesar do crescimento que a região vinha galgando ao longo da história, foi somente na década de 1930 que com mais vivacidade essas ações se tornaram efetivas retirando a região da condição de “sertão” no sentido de lugar esquecido e abandonado e, passa a tomar característica de cidade. O governo Vargas iniciou algumas ações de resgate da vocação agrícola, como também retomou o projeto de saneamento da região. Este conjunto de ações tinha como intenção e projeto a construção de um novo homem, o homem do campo. Segundo o discurso do governo federal,

“ os núcleos cumpririam o papel de valorização do homem do

campo ao lhes fornecer educação e orientação técnica capazes de assegurar uma maior racionalidade e produtividade agrícola,

e de manter um cinturão agrícola como modelo de desenvolvimento e de manutenção do abastecimento urbano” (ALVES, apud SANTOS, 2002:93).

A intenção do governo, com as ações implementadas para transformar o “sertão” da Baixada Fluminense pareciam se concretizar. O sertão não mais representaria o “inferno”, mas sim o “purgatório”. Um lugar em processo de modernidade, onde as características inóspitas antes encontradas estariam em direção a mudanças significativas. Nesse sentido, as ações políticas ajudariam nesse processo, possibilitando amenizar a situação precária dos habitantes dessas localidades, como também, contribuir na construção de uma nova realidade de vida.

2.2 OCUPAÇÃO E VIDA SOCIAL EM MERITY

Na literatura pertinente, a conceituação da região da Baixada Fluminense nos apresenta os diversos limites e diferentes interpretações que, na verdade, foram sendo modificados de acordo com as próprias mudanças espaciais que se sucederam, gerando diferentes traduções. De acordo com Manoel Ricardo Simões (2007:20), não há um consenso geral do que seja a Baixada Fluminense, pois as definições são múltiplas. No entanto, a mais recorrente é a estabelecida pela antiga Secretaria de Desenvolvimento da Baixada Fluminense (SEDEB), atual Secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Região Metropolitana (SEDEBREM), que

considera a Baixada Fluminense o agrupamento de treze municípios: Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Merity, Belford Roxo, Nilópolis, Mesquita, Japeri, Queimados, Magé, Guapimirim, Itaguaí, Paracambi e Seropédica. Para uma melhor compreensão sobre a questão territorial, política e

administrativa fez-se necessário abordar a história da região desde o século XVI. O território que hoje corresponde à Baixada Fluminense abrigava, a partir

do

século XVI, a porção do Recôncavo da Guanabara, situada ao norte da Vila

de

São Sebastião do Rio de Janeiro, conhecida como Iguaçu.

Originalmente, essas terras eram cobertas pela Mata Atlântica e por uma vegetação de várzeas e manguezais. Seu relevo formado por planícies mais amplas a leste vai ganhando altitude na medida em que acompanha o curso dos rios em direção às suas nascentes a oeste e a noroeste. Inúmeras elevações, morros e colinas pontilham seu território, tornando-se mais

compactos ao se aproximarem das encostas da serra do Mar (norte-noroeste)

e do maciço Medanha-Gericinó (sul). Sua complexa rede hidrográfica é

formada pelas bacias dos rios Merity, Sarapuí, e mais ao norte, pelo Estrela- Inhomirim, nascendo nas altitudes que margeiam a região e correndo em baixa declividade pela planície, o que dificulta seu escoamento, formando e alimentando inúmeros brejos e pântanos (BRAZ, 2006:22). Cabe mencionar que, no período de ocupação das terras que compreendiam a região de Iguaçu, incluindo a Vila Merity, as condições ambientais e o modelo implantado exigiam o uso permanente da mão-de-obra do escravo africano para desobstruir os rios; construir canais, diques e pontes; abrir estradas, assegurar a produção de tijolos e aguardente; o plantio da cana- de-açúcar, o cultivo de alimentos para a subsistência das fazendas e para a comercialização com o porto do Rio de Janeiro; nas construções das casas nos engenhos, das capelas e das olarias; criar gado; transportar as mercadorias e conduzir as embarcações. A produção da região era escoada por pequenas embarcações nos

portos 41 instalados nas proximidades dos engenhos. Ao chegar ao porto principal da freguesia mais próxima, transportava-se a produção para as

41 A Freguesia de Iguaçu possuía 14 portos; a de Jacutinga, 9; a do Pilar, 9; a de Piedade de Iguaçu, 2; e a de Estrela, 2.

embarcações maiores com destino ao Rio de Janeiro. Os principais portos localizavam-se nas margens dos rios Iguaçu, Pilar, Merity, Estrela e Sarapuí. 42 O primeiro foi o principal escoadouro colonial da Baixada Fluminense durante o século XVI. Por ele, chegava-se às águas da Baía da Guanabara em direção ao porto do Rio de Janeiro, para embarcar a produção agro-exportadora com destino à Europa ou para a comercialização no mercado interno. A história da Baixada Fluminense, tomando como referência a província de Iguaçu, nos aponta que, do ponto de vista administrativo, tinha sua área mapeada em circunscrições eclesiásticas conhecidas como freguesias. 43 Entre os séculos XVII e XVIII foram criadas na região seis freguesias, 44 sendo que quatro delas (Pilar, Merity, Jacutinga e a parte ocidental de Estrela) formavam o território do atual município de Duque de Caxias. No século XIX, esse conjunto de freguesias abrigaria duas grandes Vilas, a de Iguaçu e a de Estrela, 45 Nesse período, apesar de todo movimento rumo ao progresso econômico e social, a região não recebeu, por parte dos poderes públicos, atenção às suas necessidades e demandas. Com o advento do regime republicano, em 1889, a região começou a ser “estilhaçada”, 46 as vilas se transformaram em municípios e as freguesias em distritos. Em 1891, a Vila de Estrela perdeu sua autonomia administrativa tendo

42 Principais portos localizados nas atuais fronteiras do município de Duque de Caxias: Porto Estrela (na divisa com Magé); Porto da Chacrinha (área próxima ao atual centro de Duque de Caxias, conhecida como povoamento de Trairaponga); Porto de Pau Ferro (margens da Baía da Guanabara); e Porto Pilar e Anhangá (nome do rio que cortava o litoral da fazenda Iguaçu, desaguava no Rio Iguaçu, defrontava-se com os Portos Retiro e Piaba). Ver PEIXOTO, Rui Afrânio. Imagens iguaçuanas. Nova Iguaçu: Edição do Autor, 1968. 43 Estas centralizavam as obrigações religiosas dos habitantes das áreas que as compreendiam, como batizados, nascimentos, casamentos, óbitos, testamentos e recebiam as visitas pastorais que conferiam a presteza dessas ações que deviam estar registradas em seus livros de assento. A sede de uma freguesia era a Igreja Matriz, a partir da qual podiam se relacionar outras chamadas filiais e, no entorno dessas, a vida social e os relacionamentos pessoais através das quermesses, cultos e da ação das irmandades religiosas que apoiavam a ação cotidiana das igrejas e das capelas. Essa divisão eclesiástica foi apropriada pelo Estado português ao longo do período colonial e pelo Império brasileiro no século XIX servindo à administração civil até o advento da República. (BRAS, 2005:23)

44 Nossa Senhora do Pilar (1637), Santo Antônio de Jacutinga (1657), Nossa Senhora da Estrela dos Mares (1677), Nossa Senhora de Piedade de Iguaçu (1719), São João de Merity (1747) e Nossa Senhora de Conceição de Marapicu (1759).

45 Município de Iguaçu, Decreto Imperial de 15 de janeiro de 1833; Município da Estrela instalado em 20 de julho de 1846 pela Lei Provincial n. 397. FONTE: ALMANAK de LAEMMERT – 1878.

46 Termo utilizado por Manoel Ricardo Simões para designar as novas formações territoriais ocorridas a partir do final do século XIX na região de Iguaçu. SIMÕES, Manoel Ricardo. A cidade estilhaçada: reestruturação econômica e emancipações municipais na Baixada Fluminense. Mesquita: ed. Entorno, 2007.

seu território dividido entre Magé e Iguaçu que, por sua vez, passou a ser composto pelos distritos de Santo Antônio de Jacutinga, Marapicu (atual Queimados), Piedade de Iguaçu, Merity (parte da atual São João de Merity e Caxias), Santana de Palmeiras (Tinguá) e Pilar, que abrigaria os atuais distritos de Xerém e Imbariê, foram desanexadas da extinta Vila de Estrela. Recuando um pouco na história, a literatura nos mostra que o desenvolvimento da região teve início no final do século XIX, principalmente, com o advento da construção da malha ferroviária que substituiria a navegação fluvial.

O moderno modelo de transporte de carga e passageiros adotado pelo Barão de Mauá incentivou o governo imperial à construção, em 1858, da Estrada de Ferro D. Pedro II, que, partindo do Rio de Janeiro, atravessaria o território iguassuano, da estação de Maxambomba até Queimados, prolongando-se, no fim do mesmo ano, até Belém (atual Japeri) alcançando o Vale do Paraíba em 1864. Nesse período, Merity representava apenas um porto de escoamento de poucos produtos (lenha e carvão). Uma região alagadiça, em situação de verdadeira calamidade, onde as epidemias exterminavam a população através do “cólera morbus”. O trabalho para assentamento dos trilhos em Merity iniciou- se em 28 de fevereiro de 1884. Até que, dois anos depois, em 23 de abril de 1886, a ferrovia chega ao vale de Merity, e conseqüentemente, mesmo que de forma lenta, a região começa a sofrer os efeitos da expansão urbana.

“Sob a égide das Maria-fumaça, de silvo estridente e penacho de fumo negro, tudo se modificou. As hidrovias com seus barcos, portos e vilas, estavam com seus dias contados. Agora, a ferrovia, obedecendo à lógica do progresso, ditava novos traçados nos caminhos, fazendo surgir a volta de Merity, a região começa a sofrer os efeitos da expansão urbana da Cidade do Rio de Janeiro”.(TORRES, 2004:162)

Em Merity, as obras exigiram extensos aterros, dificultando a drenagem de uma região pantanosa, onde florescia a tabua, 47 fonte de renda de uma população escassa que se restringia a usá-la na confecção de esteira e lenha

47 Planta que vive em águas paradas e rasas, pois radica-se no fundo lamacento por meio de um rizoma. As folhas servem para tecer esteiras e cestos, e podem dar celulose para papel.

para fabrico de carvão, transportados para a Capital no novo meio de transporte, o trem. Com a inauguração da “The Rio de Janeiro Northern Railway”, a região estaria, definitivamente, ligada ao antigo Distrito Federal, e uma reorganização populacional, social e econômica se apresentava nas primeiras décadas do século XX. Era a esperança do progresso circundando a região. Todavia, os fatores que afastavam a região do progresso continuavam, como por exemplo:

a falta de saneamento, serviços médicos, energia elétrica, educação escolar pública, etc. Sem a pretensão de fazer um aprofundado estudo histórico sobre o município de Duque de Caxias, – região escolhida pela professora Armanda Álvaro Alberto para realizar seu projeto educacional, pois alguns autores já o fizeram (Torres (2004), José Lustosa (1958), Lacerda (2003), entre outros), percebemos ser necessário falarmos das emancipações municipais que ocorreram na região de Iguaçu, principalmente ao longo do século XX. Cabe lembrar que o municipalismo, uma das transformações políticos-territoriais ocorridas no Brasil, e com certa freqüência em Iguaçu, teve sua origem desde os primórdios da colonização, cujos poderes locais eram exercidos pelo coronelismo, tendo as bases econômicas calcadas nas atividades agrárias. Observando os processos de municipalização da província do Rio de Janeiro, no período republicano, percebe-se que, em quatro anos, entre 1889 e 1893, foram criados 14 municípios. 48 No entanto, de 1894 a 1935, a criação de municípios sofreu uma inércia de 41 anos sem emancipações (NATAL E BARBOZA, 2001:101). Para compreendermos as transformações político-administravas ocorridas na região da Baixada Fluminense, tendo como referência a região de Iguaçu, consideramos relevantes, no transcorrer do texto, apresentarmos o quadro das reformas administrativas que ocorreram nas primeiras décadas do século XX.

48 De 1889 a 1893 foram criados os municípios de: Itaperuna; Barra do Piraí; rio das Flores; Itaocara; Trajano de Moraes; Duas Barras; Teresópolis; Sumidouro; São Sebastião do Alto; São Gonçalo; Mangaratiba; Cambuci; São Pedro da Aldeia; Bom Jardim.

Na divisão administrativa de 1911, os povoados de Merity 49 e Pilar foram nomeados distritos de Nova Iguaçu. Em 1916, o município de Iguaçu se encontraria dividido nos seguintes distritos: 1º distrito - Nova Iguaçu; 2º distrito – Queimados; 3º distrito – Piedade de Iguaçu; 4º distrito – Merity; 5º distrito – Palmeiras; 6º distrito – Pilar; 7º distrito São Matheus. 50 Em 1921, o distrito de São Matheus recebeu a denominação de Nilópolis. Por volta da década de 1910, Merity, situada em terras baixas e atormentadas pelas “febres”, sofria particularmente o peso da decadência econômica que reduziria sua população, pelo flagelo das epidemias que assolaram a região, reduzindo a população para menos de 800 habitantes. A falta de água potável era um dos mais graves problemas da população. No intuito de amenizar o sofrimento da população, mas, também objetivando apoio político, em 1916, Nilo Peçanha, então presidente da província do Rio de Janeiro, instalou a primeira bica d’água na região. 51 No entanto, a água não atendia a toda a população.

“ tinha hora certa para cair e em frente à bica se formava

enorme fila com pessoas que se deslocavam de várias partes do distrito. Esta aglomeração devia-se a necessidade da água potável já que os poços e as fontes da região estavam contaminados” (MARQUES, 2005:48).

A historiografia regional assinala que a trajetória política de Nilo Peçanha baseou-se no apoio das elites rurais fluminenses, em especial na Baixada Fluminense, menos conservadoras que se beneficiaram dos projetos de saneamento e de incentivo à produção agrícola.

Seguindo os fatos históricos, o desenvolvimento industrial da região teve sua origem nas cerâmicas (séc. XIX). Com as profundas transformações na forma urbana da cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX, através da reforma Passos, tanto as freguesias urbanas quanto as rurais assistiram a um processo de urbanização acelerado. Devido às melhorias, os altos custos dos terrenos impediam que as indústrias se estabelecessem nas freguesias urbanas, obrigando-as a se instalarem em outras regiões.

49 Região que atualmente corresponde ao 1 0 Distrito de Duque de Caxias.

50 Legislação sobre os municípios, comarcas e districtos, de 8 de março de 1835 a 31 de dezembro de 1925. 51 A bica foi instalada na praça do Pacificador, onde, até o final da década de 1990, existia um monumento alusivo ao fato.

Durante esse período, algumas fábricas e oficinas se estabelecem na

região de Merity devido a alguns fatores: a proximidade geográfica com outras

regiões do Estado do Rio de Janeiro perante as demais cidades da Baixada; as

ações de saneamento; o transporte ferroviário e o baixo custo dos loteamentos.

A primeira grande indústria da região foi criada em 1917, em plena

Primeira Guerra Mundial, a F. Venâncio & Cia - Fábrica de Explosivos

Rupturita, de propriedade do Comandante Álvaro Alberto, 52 que fabricava e

comercializava um tipo de explosivo desenvolvido pelo próprio comandante, a

rupturita. O explosivo era utilizado em pedreiras e era fabricado manualmente

por não mais que uma dúzia de operários. Abastecia um mercado formado

pelas pequenas pedreiras e pelas poucas minas de carvão, especialmente as

de São Gerônimo (RS). Apesar de não haver, praticamente mineração no país

nesse período, o empreendimento apresentava, segundo João Carlos Vitor

Garcia (2000), boas perspectivas de crescimento.

A região mostrava-se em vias de mudanças, a partir da década de 1920,

devido aos investimentos econômicos, sociais, políticos e de saneamento por

parte do governo federal.

2.3 INÍCIO DE UMA RELAÇÃO: A REGIÃO DE MERITY E A ESCOLA REGIONAL DE MERITY

Segundo o professor Guilherme Peres, 53 a relação da professora

Armanda Álvaro Alberto com a região de Merity teve início no ano de 1920. A

convite de seu irmão, o Comandante Álvaro Alberto, veio à cidade para

conhecer a fábrica de explosivos “Rupturita”, que funcionava em uns barracões

a poucas quadras da estação ferroviária de Merity.

“Naquela manhã do ano de 1920, uma locomotiva puxando alguns carros de passageiros envolvidos no vapor, parou na

52 Empresário, físico e químico, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências. Em

1946, foi designado representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica da Organização das Nações Unidas e criador do Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq. Ver: GARCIA, João Carlos Vitor. Álvaro Alberto: a ciência do Brasil. Rio de Janeiro: Contraponto: Petrobrás,

2000.

53 Ex-aluno da Regional de Merity, pesquisador e membro do Instituto de Pesquisas e Análises

Históricas da Baixada Fluminense. Licenciado em Artes Gráficas pelo Departamento de Imprensa Nacional; Curso de História do Brasil pelo Departamento de Imprensa Nacional; Curso de Fotografia pela Fundação Calouste Gulbenkian.

pequena estação de Merity, hoje Duque de Caxias. Dentre os poucos viajantes que desembarcaram estava uma jovem bem vestida, que olhava curiosa as casas aninhadas ao longo da via

Ao chegar àquele lugarejo, ficou sensibilizada com a

férrea

população marginalizada que revoava em torno do pequeno comércio ali estabelecido.” (PERES, s/d).

A partir dessa visita, a professora Armanda Álvaro Alberto, com o apoio de um grupo de amigos decidiu fundar na região a Escola Proletária de Merity. Há indícios de que, de início, o projeto era que a escola atendesse aos proletários da fábrica de rupturita e seus filhos. Mas, devido a vários fatores, o atendimento ficou direcionado aos filhos dos operários e às crianças da localidade.

Nesse período, a pequena Vila Merity não passava de um pobre vilarejo com poucas ruas que convergiam para sua estação ferroviária e que se comunicava com seu arredor, além dos trilhos, por via fluvial 54 e algumas estradas. Sua população rarefeita subsistia com comércio de hortaliças, banana, mandioca e laranja. Também produzia e comercializava a madeira, o carvão, os tijolos e as telhas que eram extraídas das matas e produzidas nas olarias da região. 55 A pobreza da região, sua característica rural contribuíram para a idealização de um projeto educacional voltado à camada proletária da localidade. Dentro desse quadro, em 13 de fevereiro de 1921, foi inaugurada a Escola Proletária Merity. 56 Juntamente com a Escola, considerada anexo indispensável, inaugurava-se a Biblioteca Euclides da Cunha, e logo depois foi- se organizando o Museu Regional, em parte, com as contribuições trazidas pelos próprios alunos, com espécimes da natureza da região. Desde a fundação, a diretora e fundadora da escola, professora Armanda Álvaro Alberto, já explicitava a vontade de realizar, naquele espaço,

54 A região possuía, pelo menos, cinco pequenos portos: o de Estrela, na foz desse mesmo rio; o da Chacrinha na baía de Guanabara, próximo a foz do rio Merity e os da Pedra, do Pico e do Bento, no próprio curso desse rio. “Nasce uma cidade – entrevista com José Luís Machado” – Jornal Tópico – 25/08/1958. p. 03.

55 A produção de lenha, carvão, tijolos e telhas era bem significativa, pois “partiam diariamente dois trens especiais com lastros de lenha e carvão” e que “delas (as cerâmicas da região) saíram todos os tijolos com que foi construído o Cais do Porto do Rio de Janeiro”.Idem, de 25/08/1958 p. 08.

56

Primeiro nome da Escola.

na Vila Merity, uma escola regional; ficando claro assim, que o nome Escola Proletária de Merity seria provisório:

“Tanto a nossa atitude ainda de quem não atingiu a sua meta – que o nome definitivo, Escola Álvaro Alberto, em homenagem à memória do Dr. Álvaro Alberto da Silva, seu Patrono, só lhe será conferido, quando a virmos mais próxima do tipo que idealizamos. Esforçamo-nos para que seja uma acabada escola regional; afeiçoada pelo seu próprio meio e que será capaz de reagir eficazmente sobre ele”(Relatório anual 1921:1).

O primeiro ano de trabalho da Escola, 1921, foi marcado por alguns

sucessos e muitas dificuldades. Dentre as dificuldades para efetivar o projeto, o problema de saúde dos alunos e familiares era o mais preocupante. Um dos grandes problemas da localidade eram as constantes epidemias de malária e impaludismo. O problema das “febres” que assolavam a localidade de Merity passou a ser um dos maiores desafios para a continuidade do trabalho educativo.

A escola era uma instituição particular, laica e gratuita. Sendo uma

instituição gratuita, cabe ressaltar que, desde o início, a Escola recebeu assistência financeira e material da Fábrica de Rupturita (explosivos) da família Álvaro Alberto, e de um grupo de pessoas 57 que através de donativos ajudaram a concretizar o projeto educacional. Uma das pretensas metas da direção da escola, ainda em 1921, era fundar o curso noturno para os operários da fábrica de Rupturita. No entanto, esta meta não pôde ser cumprida, pois na localidade ainda não havia sido instalada a luz elétrica, além da dificuldade de encontrar professores qualificados que tivessem disponibilidade para trabalhar num curso noturno. O curso noturno não foi efetivado, mesmo com a chegada da luz elétrica em

1934.

Boa parte dos moradores da região era de migrantes que, atraídos pela melhoria progressiva nas condições de saneamento, pelo “acesso rápido” ao Distrito Federal oferecido pelos trilhos da Estrada de Ferro do Norte 58 e pelos loteamentos a baixo custo, ocupavam progressivamente a região. Em 1920, o

57 Os primeiros a integrar-se ao grupo foram: Comandante Álvaro Alberto da Silva, Edgard Süssekind de Mendonça, Francisco Venancio Filho, Heitor Lyra, Dr. Belisário Penna, Antonia Venancio, Corina Barreiros, Dr. Ernesto Otero, Prof. Roquette Pinto, entre outros.

58 E. F. do Norte até 1888; RJ. Northen Railway até 1890 e a partir daí, até 1975 Estrada Leopoldina Railway. Ver TORRES, 2004:162.

recenseamento federal contabilizava 2.920 habitantes. A curva demográfica decrescente das décadas anteriores foi revertida. A região começava a ter vida social, econômica e política com mais intensidade. Dentro do quadro social e cultural apresentado da região, a diretora se surpreendeu com o número de mães que procuraram a escola para matricular seus filhos. A expectativa inicial era de trabalhar em média com 30 alunos, porém esta meta foi superada.

“No primeiro dia em que a Escola funcionou, 37 era o número de alunos matriculados; um mês depois, a 18 de março, eram 40; a 16 de abril, eram 47; a 10 de maio, eram 50; a 17 de junho, eram já 57; e a 29 do mesmo mês, 60 crianças freqüentavam as aulas. A casa e as carteiras

não comportavam tanta gente.

professoras, nem programa para aquêle bando de pequeninos” (Relatório anual 1921:4).

[

]

E não tínhamos casa, nem

Com relação à instrução escolar da região, até os anos de 1920, a educação era informal, realizada no seio da família, onde noções de alfabetização eram dadas aos filhos, quando o capital social e cultural dos familiares permitia. De acordo com reportagem do Jornal Tópico, havia uma escola isolada, a de Dona Cordélia, que funcionava com subvenção pública e, ficava situada próxima à Pedreira, no lado leste da estação, atual praça Roberto Silveira. 59 Com o título “Progresso do ensino em Merity”, o autor José Lustosa (1958), menciona que, apesar da população reduzida, pobre, região insalubre, precariedade de todas as formas, uma notável iniciativa particular das primeiras letras, com métodos de ensino modernos foi criada, a Escola Regional de Merity, a mais antiga instituição da cidade. Um ex-morador da cidade, o Sr. Paulino Batista da Silva em entrevista para o Jornal Tópico rememorando os idos anos de 1923, quando chegou à cidade com sua esposa, relatou: “Tudo aqui era incipiente e a vida difícil para todos. Era um dos poucos homens que sabia ler e escrever, por isso meus serviços eram requeridos”. 60

59 “Nasce uma cidade: Entrevista com José Luís Machado”. Jornal Tópico, 25 de agosto de 1958. p. 03.

60 “Paulino Silva – Empreendimento e vigor em prol de Caxias”. Jornal Tópico, 23 de agosto de 1958.

Durante os primeiros anos da República, os investimentos no setor do saneamento e na saúde feitos pelo governo federal na região, apesar de amenizar a situação de calamidade que vivenciava a região, não foram suficientes para solucionar os problemas, sobretudo as enchentes, e as febres que assolavam a cidade permaneciam. Contudo, a cidade caminhava, mesmo que muito lentamente, rumo ao desenvolvimento social, econômico, político e cultural.

Apesar das inúmeras dificuldades que a região apresentava, ao final do ano letivo, na Escola havia certeza de que o trabalho continuaria com o afinco dos primeiros dias, pois, “nesta casa há liberdade e amor – condições que

o que faz realmente parte do nosso programa”.(Relatório

anual, 1921, p. 8). Em 1922, pensando em manter a manutenção dos trabalhos e nas condições sociais e econômicas da população, a Escola criou a Caixa Escolar Dr. Álvaro Alberto cujo objeto principal estava voltado para efetuar provimentos tanto para a escola quanto para os alunos. As contribuições realizadas para a caixa escolar asseguravam o comparecimento dos alunos às aulas, pois garantiam coisas básicas como o vestuário. As questões regionais que estavam intrinsecamente ligadas ao programa geral da escola foram vivenciadas pelos moradores da localidade. Dentre os moradores da região, o Sr. Guilherme Fuchs, filho de um casal alemão que veio para o Brasil fugindo da crise que a Alemanha atravessava, e instalou-se na região em 1922, no bairro do Centenário, em Merity, nos revela algumas dessas questões. Em sua obra autobiográfica 61 relata as experiências

e estratégias de sobrevivência de uma família em uma região semi-rural em transformação que sofria de inúmeros padecimentos. O bairro ficava aproximadamente a 2 km da estação ferroviária, só alcançado por um caminho “tortuoso e cheio de lama, buracos e valas”. As péssimas condições sanitárias obrigavam a família e seus vizinhos a lançar mão dos recursos possíveis para evitar as doenças que assolavam a região.

“Um foco de mosquitos terrível que obrigava meus pais a utilizar verdadeiros estratagemas para evitar malária e outras febres. Chegava o velho em casa, a mãe já tinha preparado o jantar que

tornam a vida feliz (

)

61 FUCHS. Guilherme. Depoimentos e Reflexões de um Teuto Brasileiro: Uma Crônica. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1988.

era consumido dentro de uma cama coberta por mosquiteiro”(FUCHS apud BRAS, 2006:54).

O fraco comércio local sofria com as precárias condições estruturais e

sanitárias da região. Para que pudessem obter os gêneros de primeira necessidade e medicamentos, as famílias se deslocavam, de trem, para os subúrbios do Rio de Janeiro, Penha ou Praça da Bandeira, pois em Merity o comércio era quase inexistente. No entanto, com o aumento sensível da população nas décadas seguintes, a atividade comercial tendeu a aumentar. Nesse período a escola já estava integrada à vida local, as famílias mantinham uma relação de interação com as atividades escolares. O espaço escolar ampliava suas atividades além muro.

“A Escola Proletária não é mais este recinto só: ella já penetrou por muitos lares a dentro, já attrahio até cá a alma de muita

família. Casos interessantes vos contaria

O pae do pequeno Licinio, sem pedido nosso, espontaneamente,

assumio o papel de director dos trabalhos de carpintaria dos

meninos empenhados em concurso. Consta-me que deixou até

de ir aos seus affazeres um dia ou dous. E eu nem sequer tinha

o prazer de conhecer o Sr. Monteiro Serodia

1923:13).

Um

recente bastará.

(Relatório anual,

A cidade caminhava em direção ao desenvolvimento, mudanças sociais, culturais e econômicas começaram a ser percebidas. As indústrias começavam

mais fortemente a se instalar na região, atraindo uma gama de imigrantes, muitos deles oriundos de diversas regiões da Europa 62 e migrantes de diversas regiões brasileiras. A Fábrica Venâncio & Cia continuava a ser mantenedora da Escola. Em 1924, a Caixa Escolar Dr Álvaro Alberto passa a ser designada Fundação Dr. Álvaro Alberto, com três seções: Escola Regional de Merity, Biblioteca Euclides da Cunha e Museu Regional de Merity.

A Escola Proletária de Merity passa a se chamar Escola Regional de

Merity.

“ todos aqueles que acompanham a vida desta casa sabem que o

nome que lhe demos ao surgir – Escola Proletária de Merity – era um nome provisório e que outro, grato ao nosso sentimento filial lhe era

62 Marlucia Santos Souza (2002:69), nos informa que nos documentos oficiais da região consta sobrenomes como, Cocozza, Rinaldi, Duccine, Di Gregório, Oliveira, Vaz Martins e Vaz Teixeira, o que indica a origem dos imigrantes que se estabeleceram na região durante a década de 1920.

destinado bem a víssemos florescente, “afeiçoada pelo seu próprio

meio” e “capaz de reagir eficazmente sobre ele” – em suma, com seus traços bem definidos, livre já das incertezas dos primeiros tempos

(

)”(Relatório

anual, 1924: 2).

A mudança de nome nos leva a refletir sobre o que seria “escola

regional” nos primórdios da década de 1920. Segundo a própria fundadora da escola, a professora Armanda Álvaro Alberto, naquele período ainda não havia nenhum modelo de escola regional. Neste sentido, a escola incorporou à sua organização escolar uma concepção de escola regional que compreendesse as características da região a qual escolhera, isto é, a região da Vila Merity. Uma concepção de escola regional articulada e delineada a partir dos debates entre os intelectuais nacionalistas, os quais idealizavam um projeto de

formação da identidade nacional, civilizador, que poderia ser estabelecido através da educação e da saúde. Segundo a definição de Edgar Sussenkind de Mendonça (Apud MIGNOT, 2002:40), a concepção de escola regional “traduzia a compreensão de que não existiria nacionalidade sem as características de

cada região”. A idéia de regionalismo utilizado pela Escola Regional de Merity, que tinha como eixo norteador o ensino primário, imprimia uma crítica aos modelos uniformizadores vigentes da época.

O ensino regional, intimamente ligado ao conceito de regionalismo,

deveria criar um sistema próprio de ensino, com metodologia e práticas específicas ao seu público. A Escola Regional de Merity, fiel ao seu regionalismo, considerava as crianças pobres da região de Merity seu público alvo.

“ A regionalização do ensino, preceito de ordem metodológica

e social, é para ambos, criança e povo, condição indispensável da própria compreensão, pois o povo e a criança, para abrangerem a realidade, precisam recebê-la através da região” (MENDONÇA, 1968:15).

Diante da intrínseca relação da escola com a localidade de Merity, nos foi possível trabalhar algumas temáticas como elementos da constituição histórica da cidade e da escola: evasão escolar, dois projetos de cidade, os trabalhadores de Merity, formação profissional das mulheres, mão-de-obra infantil e as ações assistenciais.

2.3.1 A Evasão Escolar

Historicamente a evasão escolar está dentre os temas que fazem parte dos debates e reflexões no âmbito da educação pública e particular brasileira que infelizmente, ainda ocupa nos dias atuais, espaço de relevância no cenário das políticas públicas e da educação, em particular. Notadamente, as discussões acerca da evasão escolar, há algumas décadas, têm sido tema central de debate, tanto na escola quanto na família em relação à vida escolar da criança. Vários estudos têm apontado aspectos sociais considerados como determinantes da evasão escolar, dentre eles, o ingresso precoce no mundo do trabalho, as políticas de governo, as condições sócio-econômicas, a desnutrição, a escola e a própria criança, entre outros. No que tange à pesquisa em estudo, considerando o momento histórico em que estava inserida a Escola Regional de Merity, início do século XX, mais precisamente as décadas de 1920 e 1930, observamos que a evasão escolar não era um problema restrito apenas a algumas unidades escolares, era uma questão nacional. A historiografia da educação relata que, durante as décadas de 1920 e 1930, a escola ainda não tinha o reconhecimento da Igreja e nem da família como espaço prioritário de socialização da infância. A evasão escolar, historicamente falando, é um dos grandes problemas a serem enfrentados pelas escolas públicas e particulares em âmbito nacional. Partindo do marco temporal da pesquisa (1921-1937), observamos que o atendimento escolar às zonas rurais do país, por parte dos poderes públicos, era ineficiente ou nulo. Tal posição pode ser considerada para a região da Vila Merity, onde a educação escolar era praticamente inexistente, pois em toda a região só havia, até 1921, segundo dados documentais, uma escola isolada. Dentro desse contexto, uma população desassistida não via a escola como um dos elementos principais para sua sobrevivência. A escola, como instrumento de apropriação de conhecimento e ascensão social nessa região, provavelmente, começou a ser considerada pela população mais pobre a partir da introdução do projeto educacional da Escola Regional de Merity, já que, até

aquele momento, o acesso à escola pública ou particular para boa parte da população não fazia parte de sua realidade. No que tange à Vila Merity, nas primeiras décadas do século XX, a literatura sobre a história da Baixada Fluminense nos relata o total abandono dos poderes públicos com relação à região, o que acarretava graves problemas sociais, econômicos e culturais para a população local. Implementar um projeto educacional numa região alagadiça, onde a falta de saneamento e as febres assolavam a população, significava travar um luta constante para que a população reconhecesse e se reconhecesse com direitos sociais e culturais diferentes dos vividos e experienciados até então. O acervo documental da escola nos revela as dificuldades encontradas pela direção para a continuidade do trabalho. Os relatórios anuais da Escola Regional de Merity nos apontam os vários motivos que contribuíram para a evasão: as doenças (impaludismo, doença de Chagas, tuberculose, etc); necessidade de auxiliar nos serviços domésticos; o ingresso precoce no mundo do trabalho para auxiliar no sustento familiar; a não aceitação das famílias ao programa de ensino aplicado, etc. Como ponto de partida para a colocação da evasão escolar na presente pesquisa, iremos nos deter na questão da saúde pública local como um dos elementos que contribuiu para tal situação. Diante da figura da evasão, a escola teve a necessidade de criar mecanismos que atuassem em prol da saúde dos alunos e seus familiares. Para tal enfrentamento, foram realizadas medidas como a assistência médica e odontológica como um dos instrumentos para manter os alunos na escola, já que a questão da saúde era um dos fatores para a retirada dos alunos da escola. Dentre os muitos mecanismos e ações para conter a evasão, a escola mantinha, mesmo em período de férias, algumas de suas atividades. Eram ministradas as aulas de trabalhos manuais femininos, de Linguagem e as excursões ao Rio de Janeiro e vários locais da região. “A idéia era não perder de vistas nossos educandos, ainda que em férias”.(Relatório anual de 1923,

p.1).

Numa luta constante contra a evasão escolar, a diretora implementou algumas ações ligadas à preparação dos alunos para o mundo do trabalho como estratégia para reter o alunado por um período mais prolongado na

escola. As precariedades do meio e a necessidade de ingresso precoce ao trabalho arrastavam os alunos para fora da escola. Adequando-se à realidade social e econômica, e conhecendo as necessidades das famílias às quais assistia, a diretora, juntamente com o grupo de sócios colaboradores, investiram nas aulas de trabalhos manuais. O trabalho, apesar de parecer pequeno diante do problema das crianças, começou a apresentar resultados que se refletiram na vida dos alunos e de seus familiares. A diretora e os colaboradores da escola organizaram exposições para a venda dos produtos produzidos por alunos e moradores nas aulas de trabalhos manuais femininos e masculinos. A primeira exposição pública de trabalhos manuais foi realizada em 1924, na cidade do Rio de Janeiro, na Associação Cristã Feminina, 63 entre os dias 14 e 21 de outubro. A estratégia de venda dos produtos, em parte, colaborava no sustento familiar dos alunos. Cabe mencionar que a escola retirava 20% sobre o lucro das vendas na Exposição, ficando os 80% restantes para os alunos, familiares e moradores que dela participaram. Iniciativa que teve um significado especial no contexto escolar e social dos alunos e familiares.

Essa realização significa duas coisas: sensível progresso na educação manual de nossas alunas (digo alunas porque os trabalhos manuais masculinos estão muito atrasados) e probabilidade de não perdermos mais nossos discípulos, mal

cheguem à adolescência, como tem acontecido até aqui, chamados são pela luta da vida para as fábricas, os ateliers e os

Vendidos, então, os trabalhos na

Exposição, que pretendemos efetuar duas vezes por ano e atendidas as encomendas que nos chegam, o laço econômico, sem dúvida poderoso, reterá até a conclusão do curso, o aluno necessitado. E não só as crianças as únicas beneficiadas com essa iniciativa, as suas famílias e quaisquer outros moradores de Merity – como desta vez se verificou – podem tirar seu quinhão de lucro, ajudando ao mesmo tempo a Escola e seus filhos (Relatório anual,1924:4).

serviços domésticos

A divulgação do trabalho proporcionou exposição e venda dos produtos fabricados pelos alunos no ano seguinte. Em 1925, a escola foi convidada pela

63 A Associação Cristã Feminina (YWCA- World Young Women’s Christian Association), uma instituição inglesa fundada em 1855 pelas Sras. Emma Roberts e Lady Kinnard, o maior movimento feminino mundial existente na atualidade. No Brasil, a Associação Cristã Feminina iniciou suas atividades no Rio de Janeiro em 1920, no Largo da Carioca, 11, 2 0 andar. Dados obtidos no site: www.acfdobrasil.org.br. Acessado em 28/01/2008.

Federação Brasileira pelo Progresso Feminino a realizar uma exposição de trabalhos manuais no Lyceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Entre os objetos expostos “o berço de taboas de caixote, com seus acessórios, hygienico e barato, foi a peça mais elogiada entre todas as modestíssimas coisas regionaes”.(Relatório anual de 1931, p. 2). Visualizando a situação econômica de seu alunado e utilizando algumas

estratégias para que as meninas não deixassem a escola por ter de contribuir com os serviços domésticos, a diretora permitiu que “as meninas tragam consigo o irmãozinho de que cuidam, ou porque não tenham mãe, ou porque

esta trabalhe fora

”.(

ÁLVARO ALBERTO, 1968: 48)

2.3.2 Os dois projetos de cidade

A investigação sobre o papel exercido pela Escola Regional de Merity na

região em que se localizava nos possibilitou perceber que sua ação educativa e social não irradiou influências apenas sobre seus alunos, e conseqüentemente, sobre os pais e as famílias da localidade, mas, sobretudo, na elite dirigente local com a qual a diretora, através de suas iniciativas estabelecia contatos políticos, sociais e culturais.

A diretora da escola, sempre lembrada por sua personalidade

combativa, em prol da camada menos favorecida de Merity, por aqueles que passaram pela instituição, provavelmente, foi um dos exemplos de luta para muitos integrantes da elite local que tinham como projeto melhorar a região, levar o progresso e o desenvolvimento, e, conseqüentemente, melhorar a vida

da população de Merity de então. A história local nos fornece fortes indícios de que, durante as décadas de 1920 e 1930, havia dois projetos de cidade: o da escola e da elite local.

Já possuindo uma projeção de destaque para o seu trabalho educativo

entre os intelectuais da educação, qual seria a intenção da diretora ao idealizar um possível projeto de cidade? Talvez esta seja uma das lacunas que esta pesquisa não consiga preencher, no entanto, fica uma abertura para os demais pesquisadores que dela puderem se apropriar.

Entrelaçado ao projeto educacional da escola havia um projeto social e cultural voltado à cidade como um todo. Analisando as fontes documentais, 64 podemos visualizar indícios de que a escola, através das ações da professora Armanda e de sua rede de relações, construiu um projeto de cidade, isto é, um projeto voltado para melhoria e progresso da cidade e de sua população. Desde os primeiros anos de funcionamento da escola, a diretora relatava, nos relatórios anuais enviados aos colaboradores da escola, entre eles personalidades da sociedade brasileira e alguns políticos, as diversas atividades educativas e sociais que envolviam toda a comunidade local. Possivelmente, este ato fazia parte da estratégia de divulgação do trabalho ali realizado. Pois era estabelecendo boas relações com a elite intelectual e política da Capital Federal e local que a diretora ia afirmando e dando visibilidade ao seu projeto educacional, e ao mesmo tempo, ia costurando seus planos e projetos para a cidade. Ao término de cada relatório anual, aqui visto mais como um ato político do que educativo, a diretora delineava suas idéias e planos de melhorias que iriam beneficiar não só a região, como toda a população local. Um dos